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A incrível e triste história de Emma

Reyes e das freiras desalmadas


A pintora colombiana Emma Reyes escreveu 23 cartas a um amigo narrando a sua
infância miserável num bairro popular de Bogotá nos anos 1920, e a história uma década
passada num convento. García Márquez leu parte delas e incentivou-a a escrever. O que
mais impressiona é a ausência de rancores.

JOSÉ RIÇO DIREITINHO


5 de Novembro de 2017, 11:40

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O que impressiona no livro, quase tanto como as histórias de uma infância miserável, é a ausência de
rancores, sem condenar alguém nem sentir pena de si própria
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Ao longo de 23 cartas que a pintora colombiana Emma Reyes (n. 1919) escreve ao seu
amigo e compatriota Germán Arciniegas, ensaísta, político e historiador, ela conta a sua
infância miserável num bairro de San Cristóbal, em Bogotá, no início dos anos 1920, e
também na clausura de um convento onde viveu mais de uma dezena de anos. O Livro
de Emma Reyes – Memória por Correspondência, acabado de publicar por cá pela
Quetzal, reúne essas cartas começadas a escrever em 1969 (datando a última de 1997), e
que só puderam ser publicadas (por vontade expressa da autora) após a sua morte, que
ocorreu em 2003, em Bordéus. A primeira edição da compilação, na Colômbia, data de
2012. Talvez o que mais impressione neste livro, e quase tanto como as histórias da
infância miserável de uma mulher, narrada por ela própria, é a ausência de rancores e
de ressentimentos, sem condenar alguém nem sentir pena de si própria; isto para além
da particularidade de ter sido escrito por alguém que foi quase analfabeto até aos 18
anos. O editor colombiano Camilo Jiménez, e citado pela escritora argentina Leila
Guerriero num texto que introduz o livro, escreveu: “A sua maior virtude consiste na
precisão e na quantidade de detalhes, mas sobretudo no olhar: a autora escreve quando
é adulta, mas quem fala nestas linhas é a menina que ela foi. Nunca ergue o olhar,
nunca completa as sensações que descreve com o que sabe quando escreve; vê sempre
com os olhos do momento em que sucederam as coisas.” Este é, sem dúvida, um dos
predicados desta colectânea epistolar.
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Literariamente não é um livro impressionante, apesar de alguns detalhes de onde


transparece a sensibilidade poética da autora, no entanto, e dados os temas narrados,
de alguma forma este livro pode fazer lembrar o romance As Cinzas de Angela, de
Frank McCourt, e mais umas tantas personagens de Dickens, crianças vexadas, mal-
tratadas e abandonadas, e outras que nunca souberam de quem nasceram. Emma Reyes
conta: “Um dia […] perguntou-me se eu tinha pai e mãe e eu perguntei-lhe o que era
isso e ele disse-me que também não sabia.” Mas ao mesmo tempo, e como nota também
Leila Guerriero, ela pode ser aterradora (ao contar a história de um bebé todo borrado),
hilariante (quando lhe perguntam o nome da mãe e ela responde ‘loja de chocolates’,
explícita (quando descreve cruamente como era batida com uma bota), e irónica (ao
referir-se a um padre e aos reis de Espanha).

Emma Reyes e Germán Arciniegas conheceram-se em Paris em 1947, numa cerimónia


da UNESCO, e desde esse dia tornaram-se grandes amigos. Já nos anos 1960, foi ele
quem a incentivou a contar a sua infância (de que tanto lhe custava falar) através do
recurso às cartas. Anos depois, Arciniegas mostra as cartas ao compatriota Gabriel
García Márquez que se mostra impressionado com as narrativas pedindo ao amigo que
incentive Emma a continuar a escrever as epístolas. Esta acaba por saber, mostra-se
muito agastada com a falta de confidência de Arciniegas e interrompe a sua escrita –
que acabará por continuar muito mais tarde.

Não se sabe quem são os pais de Emma, nem qual a relação com María, uma mulher
que esteve com ela até a abandonar e Emma ter entrado no convento das “filhas de
Maria Auxiliadora”, um lugar onde dezenas de meninas bordam e cosem, onde se faz
“todo o tipo de bordados a branco, seda e ouro, e se confeccionam ornamentos para a
igreja”. A narrativa começa num bairro pobre de Bogotá, num quarto muito pequeno,
sem janelas e com uma única porta, que dava para a rua. Nesse quarto vivia Emma, a
irmã Helena (mais velha), Eduardo (um rapazinho a quem chamavam Piolho), e María,
a única adulta, uma senhora de quem Emma Reyes diz apenas recordar a enorme juba
de cabelo preto que a cobria completamente e que, quando a usava solta, “me fazia dar
gritos de pavor e esconder-me debaixo da única cama que lá havia”. O olhar da mulher
adulta ao narrar a miséria da criança mantém o mesmo deslumbramento desta décadas
passadas e é assim que se refere ao “momento mais feliz do dia”, que acontecia sempre
depois de vazar o penico na esterqueira: “Todas as crianças do bairro passavam o dia
ali, a brincar, a gritar e a rebolar numa montanha de barro, insultando-se e brigando
umas com as outras, chafurdando nas poças de lama e esgaravatando o lixo com as
mãos à procura daquilo a que chamávamos tesouros: latas de conserva para fazermos
música, sapatos velhos, pedaços de arame, de borracha, paus, vestidos velhos; tudo nos
interessava, era o nosso quarto de brinquedos.”
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O Livro de Emma Reyes – Memória


por Correspondência
Autoria:Emma Reyes
Quetzal

Depois deste bairro na capital colombiana, há uma


mudança para o lugar de Guatequeque, a vários
dias de carroça, e depois de burro, e outra ainda
para um outro lugar, isto antes de as duas irmãs
terem sido abandonadas por María e terem
começado a vida no convento, onde a situação
pouco melhorou. Mas foi no convento que Emma
conheceu uma das poucas pessoas que deixaram
nela, nesse tempo, uma “doce recordação”, o padre
alemão ‘Bacaus’ (na verdade era Backhaus), que ia
dizer missa às raparigas todos os dias, “(…) o único homem e a única pessoa vinda do
‘mundo’ que tínhamos o direito de ver”. Um dia, numa entrevista e em resposta à
pergunta sobre quem lhe deu afecto, disse sem mágoa: “Não me parece que tivéssemos
esse tipo de preocupações, o que nos interessava era o pecado, salvar a alma, não
sermos más, temermos o Diabo…”
Ao longo de todos esses anos, ela e a irmã foram (citando Leila Gueriero) “exploradas,
espancadas, desprezadas e insultadas”. As cartas deste livro terminam com a narração
da fuga do convento, que aconteceu depois de um dia ir à cozinha para ir buscar o
turíbulo, decidiu pegar nas chaves que estavam atrás da portaria e foi-se simplesmente
embora.

A fuga e a vida nova

Numa entrevista televisiva dada a um canal colombiano em 1976, recordada por Diego
Garzón (que pesquisou o passado da pintora), Emma Reyes acrescenta algo sobre a
fuga, que não conta nas cartas enviadas a Arciniegas: “Saí com a farda que tinha posta e
sentia-me como se estivesse no meio de um sonho, até que me vi ao pé de um comboio
no qual fui obrigada a entrar, e era tudo muito irreal, porque eu nunca tinha visto um
comboio, um elétrico, um automóvel (aqui contradiz-se, pois no livro há uma referência
à chegada do primeiro carro a uma aldeia onde esteve antes de voltar a Bogotá);
imagina o que isso é, quando só sabemos destas coisas através de descrições?” Ainda
acerca da fuga e sobre o que de positivo a vida conventual lhe deu, e sem
ressentimentos por todos os maus-tratos a que foi sujeita durante uma década,
acrescenta na mesma entrevista televisiva: “A minha infância foi passada num convento
e nunca saí de lá. Num mundo absolutamente de sonho, de abstração, porque nós
chamávamos a tudo o que acontecia fora do convento ‘o mundo’, como se vivêssemos
noutro planeta. É claro que isto desenvolveu em nós uma enorme imaginação, a nossa
imaginação enlouqueceu e até imaginávamos que as árvores eram de outra cor e as
pessoas tinham uma forma diferente, e era tamanha a nossa angústia em relação ao que
estava lá fora que um dia eu decidi fugir.”

RECOMENDAÇÃO

 Da educação ao trabalho, a desigualdade de género atravessa gerações

 O testemunho de três mulheres em três fases diferentes da vida


O olhar da mulher adulta ao narrar a miséria da criança mantém o


mesmo deslumbramento desta décadas passadas

Depois de ter deixado o convento, Emma Reyes inicia um périplo casual por vários
países da América do Sul. Contou ela, algures, que começou o seu périplo à boleia
“vendendo óleo de fígado de bacalhau, trabalhando em hotéis, fazendo limpezas ou
cozinhando”. Ia ficando em lugares se as coisas fossem correndo de feição, caso
contrário continuava o seu caminho: desta forma chegou à Argentina, ‘fugindo’ da
Colômbia. Entretanto, casou-se no Uruguai com um escultor colombiano, que depressa
se arrependeu de o ter feito. O casamento não durou muito. Foi por essa altura que
Emma decidiu ser pintora. “Ela não pinta a óleo, mas a lágrimas”, disse um dia
Arciniegas. Os seus primeiros quadros, flores, paisagens e naturezas-mortas,
provocavam o riso entre os amigos e apenas ela os elogiava. De qualquer forma, anos
depois, já em Buenos Aires, acaba por receber uma bolsa que lhe permite ir estudar
para Paris. Na viagem de barco para a Europa conhece um médico francês, com quem
se casa e que foi o amor da sua vida. Fez várias viagens pela Europa e contactou alguma
elite cultural europeia, como Alberto Moravia, Jean-Paul Sartre, Pier Paolo Pasolini, ou
Elsa Morante. No livro de visitas de uma sua exposição parisiense, consta também a
assinatura de Picasso. Curiosamente, e ainda quando estava na Colômbia, Emma
conheceu uma mulher que lia a sorte no tabaco e que adivinhou – isto contou ela ao
crítico de arte colombiano Álvaro Medina – que o seu destino estaria repleto de viagens
e de aventuras.

A obra pictórica de Emma Reyes nunca atingiu o topo que alguns artistas sul-
americanos lograram, apesar de ter trabalhado (e ter tido o reconhecimento) com Diego
Rivera e Frida Kahlo. A este propósito, o crítico de arte Luis Caballero, num texto de um
livro dedicado à obra de Emma Reyes, e citado por Diego Garzón, escreveu: “Há
pintores místicos, lendários. Daqueles de que se fala, em redor dos quais se tecem e
destecem histórias mas cuja pintura se ignora. A Emma é um deles. A sua enorme
personalidade impede a visão da sua obra, para desventura daqueles que amam a
pintura. A lenda da Emma forjou-se a partira da sua própria vida e apesar da sua obra.
Talvez seja por isso que a sua obra é ignorada.”

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