Você está na página 1de 3

Preconceito do mundo (MP)

A percepção em sua ligação com a sensação, a representação mental e o corpo

O problema do corpo na percepção

processo de subtração da carne sobre a superfície do corpo (MP) > a extração de


objeto
O enquadre corporal da realidade perceptiva (AT)

Prejuízo do mundo (FP).

“Um dado perceptivo isolado é inconcebível, se ao menos fazemos a experiência mental


de percebê-lo.” (FP, p.25) – a percepção só é concebível se pensada no interior de uma
relação.

“Essa mancha vermelha que vejo no tapete, ela só é vermelha levando em conta uma
sombra que a perpassa, sua qualidade só aparece em relação com os jogos da luz e,
portanto, como elemento de uma configuração espacial. Aliás, a cor só é determinada se
se estende em uma certa superfície; uma superfície muito pequena seria inqualificável.
Enfim, este vermelho não seria literalmente o mesmo se não fosse o "vermelho lanoso"
de um tapete” (FP, p.25) – ex. demonstração.

“Dir-se-á que se trata ali apenas de qualidades de nossa experiência efetiva, recobertas
por todo um saber, e que conservamos o direito de conceber uma "qualidade pura" que
definiria o "puro sentir"? Mas, acabamos de vê-lo, este puro sentir redundaria em nada
sentir e, portanto, em não sentir de forma alguma. A pretensa evidência do sentir não está
fundada em um testemunho da consciência, mas no prejuízo do mundo. Nós acreditamos
saber muito bem o que é "ver", "ouvir", "sentir", porque há muito tempo a percepção nos
deu objetos coloridos ou sonoros” (FP, p. 25) – a pura percepção redundaria em nada
perceber.

Construímos a percepção com o percebido. E, como o próprio percebido só é


evidentemente acessível através da percepção, não compreendemos finalmente nem um
nem outro. Estamos presos ao mundo e não chegamos a nos destacar dele para passar à
consciência do mundo. Se nós o fizéssemos, veríamos que a qualidade nunca é
experimentada imediatamente e que toda consciência é consciência de algo. Este "algo"
aliás não é necessariamente um objeto identificável (FP, p. 26) – um “algo” indeterminado
que se coloca como fundo da associação que resulta no percebido. O fracasso das teses
empirista ao considerar a percepção como somatória dos dados sensoriais reside no fato
de que escapa ao alcance desta proposição a anterioridade deste algo em torno do que se
organiza a percepção, conquanto, recai no mesmo erro a hipótese intelectualista na
medida em que a antecipação daquilo que se busca na pretensa organização dos dados
sensoriais na consciência não está colocado para consciência como dado de sua
apreciação, mas elidido do mecanismo da percepção.
a noção de atenção, como o mostraremos mais amplamente, não tem a seu favor nenhum
testemunho da consciência. Ela é apenas uma hipótese auxiliar que se forja para salvar o
prejuízo do mundo objetivo. Precisamos reconhecer o indeterminado como um fenômeno
positivo. E nessa atmosfera que se apresenta a qualidade. O sentido que ela contém é um
sentido equívoco, tratase antes de um valor expressivo que de uma significação lógica. A
qualidade determinada, pela qual o empirismo queria definir a sensação, é um objeto, não
um elemento da consciência, e é o objeto tardio de uma consciência científica. Por esses
dois motivos, ela mais mascara a subjetividade do que a revela (FP, pp. 27-28)

Seja o ato de atenção pelo qual eu preciso a localização de um ponto de meu corpo que
é tocado. (FP, p.57)

A primeira operação da atenção é portanto criar-se um campo, perceptivo ou mental, que


se possa "dominar" (Ueberschauen), em que movimentos do órgão explorador, em que
evoluções do pensamento sejam possíveis, sem que a consciência perca na proporção
daquilo que adquire, e perca-se a si mesma nas transformações que provoca. A posição
precisa do ponto tocado será o invariante dos diversos sentimentos que dele tenho
segundo a orientação de meus membros e de meu corpo, o ato de atenção pode fixar e
objetivar esse invariante porque ele tomou distância em relação às mudanças da
aparência. Portanto, não existe a atenção enquanto atividade geral e formal. (FP, p. 57) –
ao tomar distância em relação às mudanças que a forma opera sobre o corpo, o ato
perceptivo, como engajamento corporal, transfere para a periferia deste ato o ponto
invariante que me permite destacar no mundo a presença de um percebido, isto é, a
experiência de meu corpo no mundo, sem que isso implique que me perca nas
transformações as quais o campo sensorial me submente. Este recorte corporal é o ponto
distintivo de minha presença no mundo enquanto tal. Nesse sentido a atenção como
operação corporal, ganha sentindo como apontando na direção de algo que não está dado
no conjunto do percebido, mas aquilo que não se evidencia alí onde o corpo é convocado.
É o que Merleau-Ponty (xxxx) aludiria, quando no avanço de sua obra, afirma que temos
no corpo um “meio geral de ter um mundo” (FP, p. 203).

Tem-se a fé clara que se situa no mundo e que em seu interior se arrola o campo de sua
percepção. Esta crença que opera a despeito de seu juízo, este prejuízo do mundo nos
dizeres de Merleau-Ponty, é o que podemos situar na teoria de Lacan como o enquadre
discursivo da realidade que lhe confere seu sentido, a isto, poderíamos relacionar o
conceito de semblante, como elucida Miller (2002), “lo que hace creer que hay algo allí
donde no hay” (p.17).

Mas essas razões de bem perceber não eram dadas como razões antes da percepção
correta. A unidade do objeto está fundada no pressentimento de uma ordem iminente que
de um só golpe dará resposta a questões apenas latentes na paisagem, ela resolve um
problema que só estava posto sob a forma de uma vaga inquietação, ela organiza
elementos que até então não pertenciam ao mesmo universo. (FP, p. 41) – o campo do
percebido está colocado antes mesmo que situemos o princípio de sua apreensão.
A alucinação não está no mundo, mas "diante" dele, porque o corpo alucinado perdeu
sua inserção no sistema das aparências. Toda alucinação é em primeiro lugar alucinação
do corpo próprio (FP, p. 455).

A alucinação não é uma percepção, mas ela vale como realidade, só ela conta para o
alucinado. O mundo percebido perdeu sua força expressiva, o sistema alucinatório a
usurpou. Embora a alucinação não seja uma percepção, há uma impostura alucinatória e
é isso que não compreenderemos nunca se fizermos da alucinação uma operação
intelectual (FP, p.458).

Em vez de rivalizar com a espessura do mundo, a de meu corpo é, ao contrário, o único


meio que possuo para chegar ao âmago das coisas, fazendo-me mundo e fazendo-as
carne. (VeI, p. 132)

Você também pode gostar