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Proletários de todo o mundo, uni-vos!

L.A. Tckeskiss

O Materialismo Histórico
em 14 lições

Edições Nova Cultura


2ª edição
2018
2018 – NOVACULTURA.info
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O selo Edições Nova Cultura foi criado em julho de 2015, por ini-
ciativa dos militantes da UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA,
com o objetivo de promover e divulgar o marxismo-leninismo.

TCKESKISS, L.A.; O Materialismo Histórico em 14 lições. 2ª Edição.


2018.

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termos da licença desta obra.
[...] “O materialismo aceita, de um modo geral, que o ser
real objetivo (a matéria) é independente da consciência, das
sensações, da experiência... A consciência... não é senão o
reflexo do ser, no melhor dos casos um reflexo aproximada-
mente exato (completo, de uma precisão ideal)”.
V. I. LENIN
ÍNDICE

Apresentação ........................................................................................ 11

Introdução ............................................................................................ 13
Preleção Introdutiva ............................................................................. 17

O MATERIALISMO HISTÓRICO EM 14 LIÇÕES

Lição I
Fenômenos Sociais e Acontecimentos Históricos ............................... 23

Lição II
A Hierarquia das Ciências ..................................................................... 30

Lição III
A Teoria Organicista da Sociologia ...................................................... 36

Lição IV
Os Conceitos Básicos do Idealismo e Materialismo ............................ 42

Lição V
O Materialismo francês e a Filosofia Crítica de Kant ........................... 46

Lição VI
A Filosofia pós Kant, Fichte, Hegel e Feuerbach .................................. 53

Lição VII
Os Fundamentos do Materialismo Histórico ....................................... 57
Lição VIII
O Papel e a Influência da Técnica na Evolução da Sociedade ............. 61

Lição IX
A Estrutura da Sociedade e a Divisão de Classes ................................. 68

Lição X
A Luta de Classes como força propulsora da História e a formação da
Psicologia de Classe ............................................................................. 76

Lição XI
Liberdade e Determinismo: Atividade Social e Causalidade ................ 86

Lição XII
Direito e Arte do ponto de vista materialista ....................................... 95

Lição XIII
A Religião do ponto de vista materialista ........................................... 102

Lição XIV
As grandes personalidades na História .............................................. 110
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Apresentação

O selo Edições Nova Cultura, criado pela União Re-


construção Comunista, apresenta mais uma obra que tem
como objetivo a divulgação do marxismo-leninismo, desta
vez do ponto de vista sociológico e filosófico. Desta vez, pu-
blicamos a obra “O Materialismo Histórico em 14 lições”,
composto por uma série de aulas proferidas pelo professor L.
A. Tckeskiss, na Universidade Comunista para as minorias na-
cionais do Ocidente, no ano letivo de 1921-1922.
O formato segue um método que se tornou bastante
comum na União Soviética para a divulgação do marxismo, a
confecção de compêndios sobre temas fundamentais para a
formação massiva dos trabalhadores e intelectuais das repú-
blicas soviéticas.
Nesse sentido, este material constitui uma útil e rica
introdução as questões do materialismo histórico, desde sua
gênese e a sua consolidação ante as abordagens idealistas de
Kant, Fichte, Hegel e Feuerbach, sua concepção como ciência,
seus fundamentos e sua abordagem à diversos aspectos da
sociedade burguesa.
Como o próprio autor ressalta, todas as questões
acerca do materialismo não são desenvolvidas em sua pleni-
tude, pois seria necessário outro formato, por isto se mantém
esta formatação, para preservar o caráter de curso introdutó-
rio e didático sobre o tema.
Desta forma, torna-se importante a leitura deste livro
a todos os interessados em estudar e apreender os fundamen-
tos básico do socialismo científico desenvolvido pelos gran-
des mestres Karl Marx e Friedrich Engels, assim como ter um
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

panorama deste processo de uma verdadeira revolução no co-


nhecimento humano.
Como apontara Stalin em seu célebre trabalho sobre o
tema, “o materialismo dialético é a concepção filosófica do
Partido marxista-leninista. Chama-se materialismo dialético,
porque o seu modo de abordar os fenômenos da natureza,
seu método de estudar esses fenômenos e de concebê-los, é
dialético, e sua interpretação dos fenômenos da natureza, seu
modo de focalizá-los, sua teoria, é materialista”. E ainda, “o
materialismo histórico é a aplicação dos princípios do mate-
rialismo dialético ao estudo da vida social, aos fenômenos da
vida da sociedade, ao estudo desta e de sua história”.
Desta maneira, podemos oferecemos ao público brasi-
leiro mais esta obra introdutória sobre o materialismo histó-
rico, para que possamos seguir nossa tarefa de divulgação do
marxismo-leninismo e da teoria científica do proletariado.

UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA


O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Introdução

O livro sobre o materialismo histórico que ora apre-


sentamos ao público é formado por uma série de preleções
proferidas na Universidade Comunista para as minorias naci-
onais do Ocidente, no ano letivo de 1921-1922.
Nestes últimos anos, a literatura russa enriqueceu-se
com uma série de compêndios sobre o materialismo histórico,
o que facilita imensamente a tarefa do professor.
O materialismo histórico foi entre nós introduzido
como matéria de cursos, e por essa razão já conta com um
programa elaborado e aceito. Durante o curso a que nos re-
ferimos ainda não havia compêndios sobre a matéria. O autor
teve, portanto que elaborar um programa um tanto diferente
do atualmente aceito, mas que oferece, entretanto, algum in-
teresse. O mesmo acontece com a apreciação de alguns fatos.
Não será, portanto, demais apontar ligeiramente os
pontos essenciais, que distinguem o nosso trabalho.
O materialismo histórico é ao mesmo tempo uma filo-
sofia materialista da história e também uma sociologia mate-
rialista. Desvenda as leis estáticas da vida social e as leis di-
nâmicas do desenvolvimento social. O seu método é o cientí-
fico-materialista. Funda-se sobre bases já determinadas nas
ciências naturais e antropológicas e forma os alicerces da his-
tória e da vida social como ciências positivas. Esses conceitos
são o fundo deste curso e determinam o seu desenvolvimento
lógico.
O curso pode ser dividido em quatro partes. A primeira,
a metodologia, compreende uma preleção introdutiva sobre o
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

objeto do materialismo histórico, subdividida em Quatro li-


ções. A 1ª destas lições explica o objeto da sociologia e da
história; a 2ª a posição da sociologia e da história na escala
das ciências (dificuldades em organizar a ciência da vida so-
cial e da história); a 3ª as várias teorias sociológicas e a crítica
da teoria organicista (spenceriana).
A segunda parte, a filosófica, compreende Três lições:
Materialismo e idealismo e suas relações com a ciência, o ma-
terialismo do século XVIII e a filosofia crítica e seu papel na
ciência; o idealismo de Hegel e a formação do novo materia-
lismo científico (dialético).
A terceira parte, a sociológica, compreende quatro li-
ções. A 1ª) os fundamentos do materialismo histórico; a 2ª) o
papel e a ação da técnica no desenvolvimento da sociedade;
a 3ª) a estrutura da sociedade e a divisão em classes; a 4ª) a
luta das classes como força motriz da história na formação da
psicologia das classes.
A quarta parte compreende quatro lições, destinadas a
mostrar como o materialismo histórico investiga e explica
certas questões filosóficas de um lado, e por outro, como ex-
plica complicados fenômenos sociais, cientificamente, em-
pregando o método materialista. A 1ª lição estuda a questão
da liberdade e da necessidade (determinismo); a 2ª, o direito
do Estado e a arte, do ponto de vista materialista; a 3ª, a reli-
gião do ponto de vista materialista (científico); a 4ª, o papel
das grandes personalidades e de acasos importantes na his-
tória, sempre do mesmo ponto de vista.
O curso tem o caráter didático. As preleções não foram
taquigrafadas. Foram apontadas por dois camaradas, alunos
do curso, Portnoi e Liberman, que só anotaram as linhas ge-
rais. Esses apontamentos serviram como matéria prima que
só foi trabalhada pelo autor, mas não transformada. Isso se
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sente no estilo e em alguns enunciados. Se todas as questões


abordadas nesse curso fossem suficientemente desenvolvi-
das, o nosso trabalho exigiria não uma brochura, porém, inú-
meros volumes, mas então perderia o caráter de curso.
As preleções contem poucas citações das obras dos
mestres marxistas. O autor julgou que só viriam aumentar o
texto. O curso todo não é senão um ensaio de transmitir, de
uma forma sistemática e logicamente concatenada, ensina-
mentos de Marx e Engels. Em algumas passagens o autor
aborda a questão, empregando um método de exposição di-
ferente do usado normalmente, diferindo também sua inter-
pretação; terá sido original sem, contudo, alterar o aspecto
geral da matéria.
Em um curso são permitidas repetições e liberdades
estilísticas.
Aproveito a oportunidade para externar meus agrade-
cimentos aos camaradas Portoin e Liberman que, com seu de-
votamento, contribuíram para a publicação deste curso.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Preleção introdutiva

Que é o materialismo histórico?


O materialismo histórico é parte da concepção geral
marxista. O que é o marxismo e que lugar ocupa o materia-
lismo histórico na ciência social e particularmente no mar-
xismo?
Cada época social tem sua concepção da vida que
surge da ciência e da filosofia dominantes em dada sociedade
e que representam interesses e pontos de vista das classes
dominantes. Assim, a concepção da vida na antiguidade era
diferente do que na época da escravidão; a concepção bur-
guesa é diferente da feudal e do mesmo modo a concepção
proletária distingue-se radicalmente da burguesa.
O marxismo é a concepção, isto é, o modo de encarar
a vida, do ponto de vista do proletariado e que permite esbo-
çar a concepção que terá a sociedade a qual está destinada a
criar. Tal concepção surgiu algumas décadas antes de Marx e
com Marx ainda não se completou.
Afirmar o contrário seria estar fundamentalmente em
contradição com as bases do materialismo histórico. Marx e
Engels apenas indicaram as linhas gerais, segundo as quais a
concepção proletária deve se desenvolver e, quanto mais se
desenvolve o proletariado, tanto mais deve se desenvolver sua
concepção acerca da vida.
O materialismo histórico, parte do marxismo, estuda
as leis da vida social e a tendência do seu desenvolvimento. A
sociedade humana surgiu, por um lado, de agregados inferi-
ores e por outro, sendo composta de indivíduos isolados: or-
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ganismo, cujo desenvolvimento está subordinado a determi-


nadas leis químicas e biológicas, que por sua vez, estão liga-
das a fenômenos físicos e, assim, à natureza em geral.
Concretamente, nada existe na natureza que esteja
isolado, que seja independente, que não tenha relação com
alguma outra coisa. O materialismo histórico está, portanto,
estreitamente ligado ao determinismo e à moderna ciência
natural. Não se ocupa com o estudo das leis gerais da natu-
reza; forma, apenas, do resultado de todas as ciências sua
base concreta, e emprega o método científico para o estudo
da vida social e seu desenvolvimento. O materialismo histó-
rico é, portanto, uma ciência cujo objeto é o estudo dos fenô-
menos sociais.
Com relação a estes fenômenos o materialismo histó-
rico não se preocupa com pormenores, estabelece somente as
leis gerais básicas e as tendências do desenvolvimento da so-
ciedade. Tomando-se, por exemplo, os fenômenos sociais,
tais como o direito, a moral, a religião (que são, aliás, mais
antigos do que a própria ciência social, e que, no entanto, até
Marx não tinham sido cientificamente estudados), nota-se
que não são os pormenores desses fenômenos que formam o
objeto do estudo histórico-materialista. Este, somente esta-
belece cientificamente seu conteúdo e as leis do seu desen-
volvimento.
Alguns fatos ou pretensas ciências sociais foram por
Marx e Engels analisados e estudados: são aspectos da histó-
ria, da economia política, e as tendências do sistema capita-
lista. Outros foram investigados por seus discípulos, particu-
larmente por Lenin, que melhor compreendeu e desenvolveu
a escola proletário-marxista.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

À pergunta sobre qual é o objeto do materialismo his-


tórico, devemos responder que o materialismo histórico es-
tuda os fenômenos sociais e a história. À segunda pergunta
sobre como este as estuda, a resposta é: do ponto de vista
marxista. O materialismo, que anteriormente era apenas uma
escola filosófica, torna-se, além disso, uma filosofia da histó-
ria. O materialismo histórico estuda, portanto cientificamente
as sociedades e a história.
O que significa, contudo, estudar cientificamente uma
coisa, e qual é em geral, a finalidade de uma ciência? O que é
a história? Pode esta construir uma ciência?
A finalidade da ciência é descobrir e estudar as leis se-
gundo as quais se apresentam os fenômenos. Para isso deve
a ciência descrever e determinar, antes de mais nada, os fe-
nômenos que se propõe estudar. A ciência deve, portanto,
buscar as causas dos fenômenos dados e, com isto, também
as relações entre aquelas e estes. Ao aquecer a água até de-
terminado grau, obtemos vapor. Temos aqui dois fenômenos;
um como consequência do outro. Existe, portanto, entre estes
uma relação constante. Constatada tal relação entre dois fe-
nômenos, obtemos uma lei empírica. O conjunto das leis
constitui a ciência.
A finalidade de cada ciência é encontrar a relação
constante entre determinados fenômenos, para a previsão
dos mesmos, porque saber quer dizer prever e só poderemos
prever conhecendo as relações constantes entre os fenôme-
nos, as leis (causas e efeitos).
Está claro que nem todos conhecimentos já alcança-
ram o verdadeiro grau científico, pois muitos fenômenos da
natureza e da vida ainda não foram estudados cientifica-
mente. Dizemos, portanto, que conhecimentos em geral estão
ainda imperfeitos e incompletos; sua finalidade é, entretanto,
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o aperfeiçoamento, isto é, não deixar na natureza, nem na


vida um só fenômeno que não seja cientificamente estudado.
O materialismo histórico, dizíamos, tem a missão de
estudar cientificamente e pelo método materialista, a história
e a sociedade (dois conceitos intimamente ligados entre si).
Não é, entretanto, a ciência da sociedade em si; indica so-
mente o método e o processo no estudo das leis da vida social
e do seu desenvolvimento. Não se deve confundir o materia-
lismo histórico com a sociologia. Esta estuda e determina as
leis estáticas e dinâmicas da sociedade, enquanto que o ma-
terialismo histórico indica somente o meio pelo qual se des-
cobrem estas leis.
Surge aqui uma questão: se cada ciência deve determi-
nar as relações constantes entre fenômenos dados, estes fe-
nômenos devem se repetir. Mas a história é somente uma
substituição de fenômenos que não se repetem. Então, como
pode a história ser estudada cientificamente?
Tais dificuldades explicam o fato de não ter, até Marx,
a história existindo com caráter científico. Existia apenas uma
filosofia da história que procurava as tendências do desenvol-
vimento humano e o materialismo histórico saiu de alguma
maneira, da filosofia da história desenvolvida por Hegel.
O materialismo histórico criou uma base para a socio-
logia, mas não é a ciência da sociedade que, aliás, não pode
substituir; por outro lado, descobriu as bases gerais do de-
senvolvimento social, do “progresso” humano, determi-
nando, cientificamente o conteúdo (a razão de ser) do pro-
gresso em si.
O materialismo histórico não é, contudo, a história.
O materialismo histórico é o método científico e o es-
tudo da sociologia, base científica para a novíssima filosofia
da história.
O MATERIALISMO HISTÓRICO
EM 14 LIÇÕES
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Lição I
Fenômenos Sociais e Acontecimentos Históricos

Antes de mais nada, ao iniciar a construção de uma ci-


ência, deve-se indicar o seu objeto, determinar o seu conte-
údo, distinguindo os fenômenos que nesta vão ser estudados.
Deste modo, procede-se em relação a qualquer ciência e as-
sim também deve-se proceder quanto à ciência social: a soci-
ologia. É, contudo, muito difícil determinar o objeto da ciên-
cia social, por ser difícil determinar a divisão e distinção dos
fenômenos sociais.
De fato, cada fenômeno social tem que estar ligado aos
esforços que forjam a sociedade, isto é, aos homens e os fe-
nômenos sociais devem, portanto, ser o resultado da ativi-
dade humana, que, como tal está relacionado com a consci-
ência humana.
O fenômeno torna-se então psicológico. Ao mesmo
tempo, o fenômeno está relacionado com todo o organismo
humano que, por sua vez, está submetido a determinadas leis
fisiológicas, químicas e físicas; o fenômeno social é, portanto,
ao mesmo tempo, um fenômeno geral da natureza. Torna-se
por isso difícil a sua definição. Isso constitui mais um motivo
para a complexidade dos fenômenos sociais, isto é, o fato de
constituírem estes uma série de vários e distintos momentos,
dos quais é difícil distinguir o momento especificamente so-
cial, para com estes constituir o conjunto de fenômenos cuja
relação se procura determinar e que é a mola da vida social.
Temos por exemplo, o suicídio, como um fenômeno da
vida social. O que vemos? De um lado, é um ato da vontade
humana e, por conseguinte, ligada ao ser psíquico, e de outro,
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resultado de um processo físico constituído pela lesão que


ocasionou a morte. Temos aqui então uma série de momentos
psicológicos, físicos, químicos, fisiológicos, e também sociais;
e ao analisarmos o fenômeno do suicídio, temos que deixar
passar os vários momentos não sociais para que possamos
nos deter somente no momento social, que constitui o objeto
da nossa investigação. Os atritos e movimentos do projétil, se
a morte foi produzida por uma bala, o jorrar do sangue, a des-
truição das células e a morte como tal, não constituem ainda
o momento social e por isso não os estudaremos em nosso
trabalho.
Mas, o que há de social no ato de investigarmos? O ato
do suicida foi executado por certos motivos que o determina-
ram, motivos essencialmente individuais: o homem, por
exemplo, foi levado a esse gesto por uma desilusão, por pes-
simismo, ou porque se achava em estado anormal de consci-
ência. Até aqui, poderá parecer que se trata de um momento
psicológico puro, por nos parecerem exclusivamente indivi-
dual as causas determinantes do ato. De fato, até aqui nada
temos de social. Mas levemos mais adiante a nossa análise, e
formulemos a seguinte pergunta: quais as causas que o leva-
ram a desilusão, quais os motivos do seu pessimismo e, sere-
mos forçados a responder que a causa da desilusão foi a não
realização das suas esperanças na vida; porque o lugar ocu-
pado na sociedade, isto é, sua posição social, não lhe permitiu
alcançar aquilo que desejava, em uma palavra, porque as con-
dições existentes, nas quais se encontrava, não o podiam sa-
tisfazer, e nada o prendia à vida, ao contrário, tudo o compelia
ao ato que praticou.
Aqui já temos alguma coisa de social.
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Quando tratamos de atos humanos, há de haver neles


sempre algum sentido social. É este fundo social que teremos
de destacar, investigar e analisar.
Preliminarmente, devemos investigar se os atos huma-
nos se realizam obedecendo a leis ou espontaneamente. Se
obedecem a leis devemos procurar descobri-las, para se po-
der prever os fenômenos. Tomemos o mesmo fenômeno do
suicídio. Sabemos pelas estatísticas, que em cada ano se dão
um certo número de suicídios e, quanto mais desenvolvida é
a sociedade, maior é o seu número. Já vemos aqui que o fe-
nômeno do suicídio não é casual, e deve obedecer a leis, isto
é, deve haver uma relação constante entre o fenômeno e as
causas que o determinam. Como tal deve ser possível a sua
previsão.
Ora, descoberto e determinado o objeto a ser estudado
em uma ciência, já se pode encetar a sua construção.
Em nosso curso teremos que lidar com fenômenos so-
ciais já destacados e nossa missão consistirá em verificar se
existem determinadas leis que provocam tais fenômenos e os
regulam, e se entre fenômenos sociais diversos, existem rela-
ções regulares e determinadas por leis.
Tomemos o exemplo do suicídio e perguntemos: é o
suicídio um fenômeno constante, cujo repetição pode ser pre-
vista ou, ao contrário, é meramente casual? Ora, ao investi-
garmos este fenômeno, veremos que em sociedades de igual
nível de desenvolvimento, a porcentagem anual de suicídios é
a mesma e que o fenômeno, em geral, é regular.
O suicídio é, portanto, um fenômeno constante, obe-
decendo a leis, que permitem a sua previsão; tem relações
normais com outros fenômenos sociais e é provocado por es-
tes últimos.
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O mesmo se dá com outro fenômeno, o “casamento” –


relações contratuais entre dois sexos –, e mais evidentemente
no fenômeno do “roubo”. Estes dois últimos são fenômenos
sociais por excelência. São fenômenos constantes, provoca-
dos por causas certas, leis determinadas e podem ser, por-
tanto, investigados cientificamente.

●●●

Até aqui procuramos determinar o que seja um fenô-


meno social geral. Mas cada fenômeno social pode ter tam-
bém, em certos casos um sentido histórico.
Tomemos mais uma vez o fenômeno do suicídio, mas
desta vez o suicídio de um determinado homem público (ou o
furto de importantes documentos diplomáticos); tal fenô-
meno social pode ser transformado em um acontecimento
histórico. Por quê? Porque este fenômeno pode ter eco sobre
uma série de outros fenômenos. Assim, desde que um fenô-
meno social exerce grande influência sobre o agrupamento de
outros fenômenos sociais, provoca novos fenômenos que tra-
zem certa modificação à vida social e torna-se deste modo, ao
mesmo tempo, um acontecimento histórico.
Além dos fenômenos individuais com sentido social e
histórico, existem igualmente fenômenos sociais de caráter
coletivo, que também constituem acontecimentos históricos.
Tomemos por exemplo a guerra. O fenômeno tem caráter co-
letivo; é desenvolvida entre coletividades distintas e, muitas
vezes, exerce grande influência sobre a marcha posterior da
vida social. É, portanto um acontecimento histórico. O
mesmo pode se observar com o fenômeno “revolução” cujo
sentido é a luta entre vários grupos sociais, graças a qual, em
última análise, é modificada a forma da vida social.
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Cada acontecimento histórico e a história em geral; o


desenvolvimento da sociedade humana, a cadeia dos aconte-
cimentos históricos concatenados – devem, da mesma forma
que cada fenômeno social, ser estudados cientificamente.
Devemos, pois encontrar os métodos científicos para
estudar os acontecimentos históricos.
Mas aqui surge uma questão importante: a história, tal
como era escrita antes e ainda como está sendo escrita, pode
ser objeto de investigação científica?
Tomemos a história, tal como foi escrita pelos histori-
adores há 2000 anos, a história que já se escreveu durante a
Idade Média e nos tempos modernos, e a que foi escrita nos
últimos tempos; qual dessas “histórias” pode servir de objeto
para a ciência?
A “história”, simples narração dos fatos, é mesmo an-
terior à formação dos caracteres escritos. A questão, porém,
é indagar como foi a história escrita; o que era para os antigos
historiadores o essencial nas suas investigações, e qual a his-
tória que pode servir de objeto para uma investigação cientí-
fica. Por um lado, foi a história, na sua infância, adulterada e
incorretamente transmitida e por outro, não transmitia os fe-
nômenos comuns da vida humana, mas somente os aconte-
cimentos que atraiam a atenção dos “historiadores” de então.
Na história antiga havia dois fatores que deixavam seu
timbre no sentido e no próprio modo de escrever a história:
1º) a narrativa de certas lendas que circulam entre o povo
como fatos históricos; 2º) a atribuição dos acontecimentos
históricos à vontade e influência de grandes personalidades.
A história teve, portanto, o caráter biográfico dessas persona-
lidades, entrelaçada de narrativas e louvores referentes aos
seus atos.
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Nessa história não se encontram os fatos que indicam


as causas desses acontecimentos, nem o papel que nestes to-
maram as massas.
Assim, a deturpação por motivos religiosos e a atribui-
ção de todos os acontecimentos a atividade de certas indivi-
dualidades, transformaram a história em biografia dessas
personalidades, a qual pelo seu conteúdo não pode tornar-se
uma ciência, pois a ciência só pode ser constituída, como já
vimos, pela constatação de fatos que tenham entre si uma re-
lação constante.
Só casualmente, os historiadores gregos como Heró-
doto, Tucídides, Plutarco e outros, se deparam com a força,
influencia, atividade e interesses das massas e começam par-
cialmente a descrever momentos característicos da vida so-
cial, não tirando disso, entretanto, as conclusões correspon-
dentes.
Mas, os quadros reais, descritos por eles, quer da vida
social, quer da vida dos reis e chefes, dão-nos agora a possi-
bilidade de determinar, após um estudo científico, os traços e
formas mais importantes da vida de então. Tudo isto, no en-
tanto, eram apenas descrições, “histórias” e não uma história
científica.
Na Idade Média não se deram grandes modificações
nesse sentido. Somente após a grande Revolução Francesa,
começa a cristalizar-se a história como ciência (indícios de
ponto de vista científico para os acontecimentos históricos,
encontramo-los até, anteriormente, em Voltaire e Montes-
quieu).
Realmente, um acontecimento histórico tão impor-
tante como a Revolução Francesa, executou colossais refor-
mas na vida social de então, reformas cujo conteúdo foi de tal
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forma destacados que já não foi possível atribuir tais aconte-


cimentos a vontade de grandes personalidades ou a certas ca-
sualidades. A participação e o papel dos diversos grupos so-
ciais na Revolução Francesa foram tão importantes, que os
historiadores tiveram que considerá-los, demonstrando as re-
lações entre os grupos e a sua atitude em face dos aconteci-
mentos, etc.
Vemos então, que a história era até certo momento,
escrita de tal maneira que jamais poderia ter sido objeto de
investigação científica. Somente no começo do século XIX,
mais ou menos, principia-se a estudar a história cientifica-
mente.
Os acontecimentos históricos, quer de caráter indivi-
dual, quer de caráter coletivo, devem também ser estudados
cientificamente. Devem ser determinadas as leis que provo-
cam esses acontecimentos e que os colocam em relações
constantes com outros fenômenos sociais.
Isso só se tornou possível quando os fenômenos soci-
ais, de forma geral, tornaram-se objeto de investigação cien-
tífica, quando a ciência da sociedade, sua vida e desenvolvi-
mento podem assentar em uma base solida e concreta.
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Lição II
A Hierarquia das Ciências

Na lição anterior, estudamos os conceitos de fenôme-


nos sociais e acontecimentos históricos; procuramos defini-
los, concretizá-los; distinguimos os momentos físicos, quími-
cos e psicológicos que devem ser estudados pelas ciências na-
turais correspondentes e pela psicologia, detendo-nos so-
mente sobre os momentos puramente sociais que devem ser-
vir de objeto à sociologia e à história.
À pergunta: podem esses fenômenos servir de objeto
para uma investigação cientifica rigorosa, responderemos
que, não sendo produto do acaso, os fenômenos sociais pu-
ros que destacamos, mas constantes, isto é, que se repetem e
estão relacionados entre si, podem, por isso ser estudados ci-
entificamente e, por conseguinte, previstos.
O mesmo acontece também com os acontecimentos
históricos; vimos que, sendo esses fenômenos parte dos fe-
nômenos sociais em geral, podem igualmente ser investiga-
dos cientificamente. Vimos ao mesmo tempo, em que consis-
tia a dificuldade do problema da investigação cientifica dos
fenômenos sociais.
Há, entretanto mais uma grande dificuldade sobre a
qual vamos chamar a atenção. Consiste essa dificuldade no
fato de cada fenômeno social estar relacionado com a ativi-
dade humana que é, antes de tudo, a expressão da vontade.
Mas o homem supõe que a revelação de sua própria
vontade é um ato livre, que não está sujeito a lei alguma, e
isto ocasiona uma grande dificuldade ao estudo científico do
fenômeno.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

O homem selvagem, explica, por exemplo, o trovão


como a revelação da vontade divina. Explica assim os fenô-
menos naturais do mesmo modo que os fenômenos da sua
própria vida: sua atividade é o resultado de sua própria von-
tade; os fenômenos naturais são para ele o resultado da von-
tade divina.
Ora, desde que se empregou semelhante método na
observação dos fenômenos naturais, estes jamais puderam
servir de objeto a uma investigação científica. As ciências na-
turais por si tiveram que percorrer longo caminho de desen-
volvimento antes de chegarem a se constituir em verdadeiras
ciências, e prepararem desta maneira o terreno apropriado
para o surgimento da ciência social, que é por isso a mais jo-
vem de todas as ciências.
Mas há ainda uma outra dificuldade; os fenômenos so-
ciais, conquanto desarticulados, não deixam de ser fenôme-
nos complexos, ligados a muitos momentos estranhos, cri-
ando por sua vez mais um obstáculo à investigação científica1.
É claro que somente depois que o homem aprendeu a
compreender os fenômenos naturais, e após longo caminho
de experiências, em que se acostumou a compreendê-los ci-
entificamente, só então pode ele iniciar o estudo científico
dos fenômenos sociais. Além disso, a atividade humana, es-
tando como está, relacionada com a vida em geral, só pode
tornar-se objeto de ciência quando se começou a investigar

1. Um tanto diferente era a situação da história: tínhamos diante de nós fatos,


tais como revoluções e guerras, que já não podiam ser explicadas pela von-
tade exclusiva de um homem. Tentou-se a explicação pela vontade conjunta
dos homens. Mas aqui surge a pergunta: porque querem todos esses homens,
a mesma coisa? Temos então que procurar as causas da vontade coletiva dos
homens; mas enquanto os acontecimentos se explicavam pela vontade, seja
embora a vontade coletiva, ficavam estranhos à ciência e deixavam de ser
passíveis de uma investigação com esse caráter.
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as leis da vida em geral. E tanto assim, que a ciência da vida


– a biologia – é também uma das mais jovens no seu desen-
volvimento. Qual a razão disso? É que os fenômenos da vida,
tomados de modo geral, possuem formas especiais, singula-
res (na vida vemos os fenômenos como resultado da sua pró-
pria multiplicação), e para se explicar, até a bem pouco tempo,
procurava-se uma força vital especial que fosse a causa da
vida em si.
Claro está, portanto, que só foi possível explicar cien-
tificamente os fenômenos da atividade humana, quando se
conseguiu explicar cientificamente os fenômenos da vida. A
ciência que estuda os fenômenos sociais ocupa, por isso, a
última posição na escala das ciências – na hierarquia das ci-
ências.

●●●

Observemos agora essa hierarquia. Não nos detere-


mos nas chamadas ciências normativas, ou formais, isto é,
cujo objeto é o estudo das relações mais simples entre os fe-
nômenos, as formas pelas quais as coisas se nos apresentam
(matemática e lógica). Apenas as lembramos e passamos às
ciências naturais concretas (ciências fenomenológicas).
Ao iniciarmos o estudo, a própria natureza se apre-
senta como se constituísse dois mundos: um vivo (orgânico)
e outro morto (inorgânico). Estudando o mundo “inorgâ-
nico”, encontramos fenômenos de duas espécies: físicos e
químicos. E de duas espécies são também os corpos que aí
vemos: 1º) os compostos de um único elemento e que não
podem, portanto, ser decompostos, 2º) os que se compõe de
diversos elementos e podem ser decompostos.
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As leis, a que estão submetidos todos os corpos da na-


tureza, independentemente de sua composição (um ou vários
elementos ou substancias), são estudadas pelas ciências –
mecânicas e físicas. Essas leis são as mais gerais e mais sim-
ples dentre as que estudam os fenômenos (fenomenológicas
ou concretas). As leis segundo as quais se operam as ligações
das várias substâncias em suas diversas combinações são es-
tudadas pela química. Essas leis não abarcam toda a natu-
reza, mas grande parte dos fenômenos naturais estão a elas
sujeitos. São menos gerais e menos simples do que as leis da
mecânica e da física. É claro que todos os corpos químicos
estão sujeitos às leis da mecânica, mas nem todos os corpos
estão sujeitos às leis da química. Por isso mesmo, as leis da
química são mais complexas do que as da mecânica e da fí-
sica. É, pois, evidente que o homem aprendeu em primeiro
lugar aquilo que é mais geral, mais fácil de compreender, mais
simples de observar. De fato, a mecânica e a física são as ci-
ências mais antigas, e ocupam por seu grau de complexidade
o to´p na escala das ciências, seguidas pela química.
Observemos agora o mundo orgânico ou vivo; aqui ve-
mos logo, alguma coisa de novo; encontramos não somente
combinações de elementos ou substâncias, como nos fenô-
menos que formam o objeto da química. Os fenômenos da
vida representam algo mais do que simples ligações e combi-
nações de elementos químicos. A vida é o campo das formas
que se multiplicam. A multiplicação se opera pela divisão das
células, que constituem ou formam células novas semelhan-
tes aquelas de que se originaram. Assim, vemos que as leis
puramente químicas não nos podem replicar os fenômenos
da natureza orgânica (vida). Aqui deparamos com fenômenos
revestidos de um caráter novo, e submetidos, portanto a leis
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especiais, com as quais se ocupa a biologia. Essas leis são


menos gerais e mais complexas do que as da química.
Não esqueçamos, porém, que os fenômenos da natu-
reza organizada (orgânica) estão igualmente submetidos ás
leis mais gerais da mecânica, da física e da química. Mas, en-
tão, além disso, submetidos a leis de um caráter especial, e
são estas últimas que vão constituir o objeto da nova ciência,
– a biologia2.
Examinando mais detalhadamente os fenômenos or-
gânicos notamos que nem todos são semelhantes. Há orga-
nismos que possuem a faculdade de movimentação, outros
há que não a possuem. E veremos ainda que, mesmo entre os
que possuem a auto-movimentação, duas categorias se nos
apresentam: em uns a auto-movimentação é provocada pela
consciência (como no homem), em outros essa auto-movi-
mentação não é provocada pela consciência, mas pelo ins-
tinto. Essas diferenças, porém, não são tão profundas que
motivassem a existência de uma nova ciência para estudá-las.
Com efeito, entre os organismos mais desenvolvidos sem
auto-movimentação (vegetais) e os mais rudimentares com
auto-movimentação (protozoários) não há quase diferença
alguma. E o mesmo se observa ainda com relação aos orga-
nismos mais desenvolvidos com auto-movimentação instin-
tiva e os mais rudimentares com auto-movimentação consci-
ente (animais e selvagens).

2. Para explicar os fenômenos da vida criou-se uma teoria que se chamou vi-
talista. Esta teoria explicava de uma maneira simplista os fenômenos, atribu-
indo-os a uma força especial, a força vital. Esse era, aliás, o modo antigo de
explicar todos os fenômenos: por uma força especial imaginada para o caso.
Assim também na explicação dos complexos fenômenos da vida tal método
anticientífico dominou por muito tempo.
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Todos os fenômenos da vida são fenômenos da mesma


espécie; não existem leis especiais da vida para vários orga-
nismos3. Tomemos por exemplo o homem. Vemos que está
sujeito: 1º) às leis da mecânica e da física (força de gravidade
da terra, etc.); 2º) às leis da química (a nutrição de seu orga-
nismo se realiza em obediência as leis da química); 3º) às leis
especiais da biologia (multiplicação, movimento e cresci-
mento); 4º) às leis psico-fisiológicas (associação de ideias,
conceitos, emoções, etc.).
Além desses fenômenos estudados nas ciências acima
referidas, surge diante de nós uma série de outros fenômenos,
constantes e determinados por causas, ligados à atividade hu-
mana na vida em sociedade.
Podem as leis anteriores e disciplinas científicas, expli-
car e investigar cientificamente a atividade humana no seu as-
pecto social? Não.
A atividade humana nesta esfera é provocada pela ne-
cessidade de satisfazer as múltiplas e variadas exigências da
natureza humana indispensáveis ao seu desenvolvimento. Es-
sas são demasiadamente complexas. A atividade de cada in-
divíduo está sempre ligada à de outros e a toda a sociedade.
E esta atividade é que forma a vida social.
Devemos, por conseguinte, descobrir as leis da ativi-
dade humana em sociedade e que não foram estudadas nas
ciências anteriores. Devemos, pois, criar uma nova ciência, –
a sociologia, que é uma das últimas na hierarquia das ciên-
cias. Seu objeto serão fenômenos que não podem, como já
vimos, ser explicados pelas leis das ciências anteriores.

3. Desde que a vida humana se desenvolveu em formas superiores, tentou-se


determinar as leis a que estão submetidos os fenômenos da consciência e
surgiu assim a psicologia. Mas, como veremos adiante, a psicologia está inti-
mamente ligada à sociologia e forma parte desta.
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Lição III
Teoria Organicista da Sociologia

Na lição anterior estabelecemos a hierarquia das ciên-


cias. Mostramos por qual razão as ciências se sucediam nessa
escala e frisamos, aí, os motivos pelos quais deve a sociologia
ser colocada em último lugar. Na presente lição nos detere-
mos nas principais teorias sociológicas criadas na época de
seus primeiros passos. Veremos como de um ponto de vista
geral foram feitas as primeiras investigações no sentido de
dar à sociologia um caráter científico, e, do ponto de vista
particular do materialismo dialético, em que a colocou Marx.
August Comte procurou lançar as bases da sociologia
como ciência. Spencer levou mais adiante esta tentativa, que
no seu desenvolvimento foi recebendo a contribuição de uma
série de outros cientistas.
As várias teorias mais importantes na sociologia, to-
madas de um modo geral, podem ser classificadas em: 1º) as
que procuram as leis gerais da sociologia na psicologia; 2º) as
que veem essas leis na biologia; 3º) a teoria marxista.
Ao estabelecer a hierarquia das ciências, vimos que a
ciência dos organismos, isto é, da vida, é ainda uma ciência
nova; que desta surgiu mais recentemente ainda a psicologia,
ou melhor, a psicofisiologia, que explica até certo ponto, a
atividade individual. E somente após esta é que pode-se for-
mar a ciência denominada sociologia – a ciência da vida hu-
mana em sociedade, da atividade social humana.
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Não podemos fazer, aqui, uma ligeira exposição se-


quer, das teorias, submetendo-as à crítica marxista (houve ci-
entistas, até, que procuraram as leis da vida social e as leis da
natureza inorgânica nas teorias de Vico, por exemplo).
É evidente que, sendo a sociologia a mais nova de to-
das as ciências (e nisso estão todos de acordo), as leis de ca-
ráter mais geral predominantes nas ciências anteriores, de-
vem servir-lhe de base, mas as leis de caráter propriamente
social devem ser encontradas no próprio seio da vida em so-
ciedade. Sem nos deter nas várias teorias da sociologia ante-
riormente formuladas, analisaremos, contudo, antes de pas-
sarmos a Marx, uma das mais importantes – a teoria organi-
cista, formulada por Kant, desenvolvida por Spencer e levada
as suas últimas consequências por Worms, Lilienfeld e outros.
Veremos como essa teoria procura e constrói as suas
leis da vida social; nos deteremos no seu nítido sentido de
classe.
O que nos ensina essa teoria? Examina a sociedade
como se esta fosse um organismo animal, e atribui todas as
leis que presidem o desenvolvimento dos organismos indivi-
duais. Analisa a partir deste ponto de vista o organismo social,
estuda todas suas partes componentes e respectivas funções
no seio do organismo e, partindo do ponto de vista biológica,
estabelece as leis estáticas do organismo social, determi-
nando as funções de cada uma de suas partes separadamente.
As relações harmônicas entre o organismo e seus diversos ór-
gãos, constituem nesta teoria, a base tanto do organismo in-
dividual como do organismo social.
Segundo esta teoria o organismo social está dividido
numa série de partes-grupos, ocupando-se cada um desses
grupos ou partes, de um trabalho especial. Uma se ocupa do
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comércio, outra com o trabalho físico, uma terceira com o es-


tudo das ciências, etc. Cada uma dessas partes ou órgãos da
sociedade executa o seu trabalho próprio, sua função deter-
minada como organismos individuais.
Deste modo, ocorre que existe uma perfeita correspon-
dência entre os diversos agrupamentos da sociedade com as
suas funções e os diversos órgãos do organismo individual.
Assim, o Estado corresponde, por exemplo, ao sistema
nervoso; os sábios ao cérebro; a classe comercial à circulação
do sangue; os camponeses e operários industriais aos órgãos
da nutrição; exército, polícia e a justiça – aos órgãos de pro-
teção ou defesa.
Todos esses órgãos sociais estão integrados, unidos
ao organismo social, que não pode absolutamente existir em
qualquer deles.
Toda a atividade social se estancaria, se fosse inter-
rompida a função agrícola ou qualquer outra das funções
mais importantes.
Os agrupamentos por si só, estão diferenciados entre
si; cada um tem a sua função determinada e não pode execu-
tar outra.
Como em todo o organismo individual, cada órgão tem
a sua função, também cada agrupamento social com função
própria ocupa um lugar distinto na sociedade e não pode con-
fundir-se com outro.
A mudança de forma de cada agrupamento social se
opera pela multiplicação e morte de suas diferentes células-
indivíduos.
Observemos agora como se desenvolve o organismo
social, segundo essa teoria.
Na opinião dos organistas, dá-se o desenvolvimento
da sociedade – organismo social – da mesma forma que em
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todos os organismos individuais: o desenvolvimento do orga-


nismo social, se mede pelo nível de integração do organismo
todo, acompanhado pela diferenciação de suas diversas par-
tes.
Quanto mais os organismos se desenvolvem, tanto
mais se tornam complexos. O fenômeno de integração con-
siste no ajuste de todas as partes distintas ligadas e unidas
em um só organismo ativo. Contudo, ao mesmo tempo, se
torna mais pronunciada a diferenciação entre os diversos ór-
gãos, isto é, cada órgão se adapta exclusivamente a determi-
nada função. E, segundo as mesmas leis de integração e dife-
renciação, se opera a dinâmica do organismo social. Este se
torna cada vez mais complexo e integrado; por isso, moder-
namente, não temos mais partes estranhas ao organismo so-
cial, mas, membros internos ajustados de um só corpo – a
sociedade humana – e ao mesmo tempo muito diferenciados
entre si.
São essas as leis básicas da estática e da dinâmica so-
cial formuladas pela teoria organicista da sociologia.
Onde estão os erros científicos desta teoria? Primeira-
mente, apontaremos um grande erro metodológico: ao cons-
truirmos a hierarquia das ciências, mostramos que uma ciên-
cia nova só pode ser criada quando no campo da observação
surgem fenômenos novos e mais complexos, que não podem
ser explicados pelas leis das ciências anteriores. Se fosse pos-
sível explicar, por exemplo, os fenômenos da vida, pelas leis
puramente químicas, a biologia não poderia ter se desenvol-
vido como ciência à parte e independente. Permaneceria
como parte da química, do mesmo modo que a ótica e a acús-
tica constituem partes da física. Isso quer dizer que, se os fe-
nômenos da vida social se realizam e explicam pelas mesmas
leis orgânicas, como os da vida de um organismo simples (ser
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vivo), a sociologia não teria então direito de pretender uma


existência à parte e independente, um lugar distinto na hie-
rarquia das ciências. Esse é o primeiro e fundamental erro da
teoria organicista em sociologia.
Observamos, porém, o conteúdo social dessa teoria
que é, de um lado, uma teoria do desenvolvimento em geral
(pois Spencer foi o fundador da teoria da “Evolução”) e, de
outro, uma formula justificativa das atuais formas de “civili-
zação” da vida social, tendo-as como normais, determinadas
e necessárias.
Com efeito, essa teoria traça um perfeito paralelo entre
o desenvolvimento do organismo social, tendo-as como nor-
mais, determinadas e necessárias.
Com efeito, essa teoria traça um perfeito paralelo entre
o desenvolvimento do organismo social individual, desde o
estado embrionário ao mais aperfeiçoado e afirma que toda a
história da humanidade representa um aperfeiçoamento gra-
dual da sociedade, uma sempre crescente integração e esta-
bilização dos seus diversos agrupamentos ou órgãos as suas
funções respectivas e ao organismo todo e, ao mesmo tempo,
uma sempre crescente diferenciação entre esses diversos ór-
gãos. Essa existência dos diversos órgãos ou agrupamentos,
ou melhor, das classes na sociedade é, segundo tal teoria,
uma coisa natural e cada tentativa para a modificação das for-
mas sociais, não passará de uma loucura improfícua.
O sentido social de classe, dessa teoria, ressalta a vista
e não carece de comentário algum4.

4. Quanto à dinâmica da sociedade, Spencer incide no mesmo erro metodoló-


gico quanto à estática. A sociologia, oriunda da biologia, pode talvez, ser apli-
cada na investigação da vida e desenvolvimento dos seres inferiores. Entre-
tanto, a sociedade humana tem aspectos inteiramente novos e peculiares que
não podem ser explicados pelas leis que regem sociedades de animais inferio-
res.
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Spencer, como “evolucionista” que era, prediz também


o desenvolvimento futuro da sociedade. Mas, segundo sua
opinião, a sociedade se desenvolve no sentido de uma espe-
cialização cada vez maior do trabalho, para uma integração e
estabilização cada vez maiores das suas funções. O conteúdo
de classe nesta perspectiva é ainda mais acentuado5.
Como deve então ser construída a ciência da socie-
dade? De um lado, não devem ser praticados erros de método
na investigação. A vida da sociedade se realiza segundo as leis
que lhe são próprias, leis que se distinguem das biológicas,
como estas se distinguem das leis da química. Umas leis não
contradizem as outras; pelo contrário, estão entre si em per-
feita harmonia; mas as de caráter geral não podem explicar a
diversidade e complexidade da vida social e de seu desenvol-
vimento. Por outro lado, deve-se encontrar o caráter especifi-
camente social nos fenômenos que emanam da atividade hu-
mana e, destarte, descobrir as leis sociais, as estáticas e as
dinâmicas.
Somente deste modo foi que se construiu a sociologia
marxista.

5. O publicista russo Mikailowsky, criticando esta teoria do “progresso” de


Spencer, mostra, muito acertadamente, que não leva em consideração o ho-
mem vivente, nem seus sentimentos de felicidade, alegria, bem-estar, etc.
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Lição IV
Os Conceitos Básicos do
Idealismo e Materialismo

Afirmamos, numa das nossas lições anteriores, que a


sociologia marxista é materialista, bem como a sua corres-
pondente filosofia da história. E por isso recebe o nome de
materialismo histórico. Em que consiste a parte materialista
do materialismo histórico? Materialismo histórico e materia-
lismo filosófico, não são a mesma coisa. É possível ser-se ma-
terialista em filosofia e idealista em história. Mas o materia-
lismo histórico está intimamente ligado ao materialismo filo-
sófico e deste extrai sua seiva histórica. Para compreender o
materialismo histórico deve-se, portanto, ter uma compreen-
são geral do materialismo filosófico.
O materialismo, em geral, se contrapõe ao idealismo;
não se pode realmente compreender o materialismo sem co-
nhecer o seu oposto – o idealismo. Para se responder à per-
gunta, sobre o que vêm a ser materialismo e idealismo, não
colocaremos a questão metafisicamente, do seguinte modo:
“qual é a primeira causa de tudo o que existe, a matéria ou o
espírito?”, se há princípio e fim em tudo o que existe. Formu-
laremos a questão de forma diferente. No mundo em existên-
cia que concebemos, sentimos primeiramente a nossa própria
existência que se compõe em certo sentido de duas partes: 1º)
vemos a nós mesmos como um corpo: nosso corpo material;
2º) sentimos a nós mesmos como elemento de manifestações
internas: pensar, sentir, saber. São esses os dois momentos
principais que cada “eu” sente em sua própria existência. Por
isso, ao construirmos uma escola filosófica, temos diante de
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nós dois caminhos a seguir: 1º) a escola materialista afir-


mando que em tudo o que existe está a matéria, o corpo; que
tudo na natureza é objeto da percepção dos nossos sentidos
e que o pensamento humano é o resultado da matéria – o
pensar é atributo da matéria, como todos os outros, ou 2º), a
escola idealista que diz sentirmos primeiramente a existência
das nossas emoções, dos nossos pensamentos e que o corpo
– a matéria existe tão somente porque o “eu”, o nosso pensa-
mento concebe. A pedra, por exemplo, que não se concebe a
si própria, não tem existência. Percebemos um fenômeno com
nossos órgãos, o vemos com nossos olhos, mas o ato em si
de ver, o fato como tal, não é material, não pode ser visto,
nem tocado. Esta escola toma como base o espírito, o pensa-
mento. A matéria é tomada como um acidente ou como cor-
porificação do espírito.
A que pode conduzir e a que nos levaram o materia-
lismo e o idealismo em seu desenvolvimento histórico?
Desde que verificamos ser o corpo, a matéria, o obje-
tivo, o que realmente existe, devemos estudá-lo antes de tudo,
conhecer suas prioridades e só assim é que poderemos co-
nhecer o mundo. O materialismo tornou-se assim um propul-
sor do desenvolvimento das ciências, graças ao fato de cons-
truir as suas concepções sobre a matéria6.
Os idealistas, ao contrário, diziam que se devia antes
de tudo investigar as manifestações internas, o espírito, o fa-
tor básico de tudo que existe; que se pode apresentar até sob
a forma de matéria. Mas o espírito é algo que não se pode
apreender, que não se pode investigar. O espírito, como tal,

6. Até mesmo os materialistas, que admitem ter sido a matéria criada origina-
riamente por uma força sobrenatural, pensavam ter sido criada desde logo
com certas propriedades, as quais lhe deram durante seu desenvolvimento a
força de um fator criador independente.
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não pode estar sujeito a força alguma e, pelo seu conteúdo,


somente pode ser explicado espiritualmente ou divinamente.
O desenvolvimento histórico dessas duas doutrinas deu-se de
tal forma, que o materialismo cresceu e se desenvolveu ao
lado da ciência, ao passo que o idealismo estava quase sem-
pre ligado à religião, ou se entretinha com a metafísica espe-
culativa, divagando sempre nas esferas da metafísica e da te-
ologia.
O materialismo filosófico encontrou em seu percurso
uma série de dificuldades. Porque como escola teve muitos
defeitos. Enquanto, por exemplo, o materialismo afirmava
que a base de tudo o que existe é a matéria e procurava es-
tudá-la profundamente, foi um grande auxiliar do desenvolvi-
mento das ciências, mas desde que via na matéria um ele-
mento imutável, de formas definitivas e eternas, tropeçava,
com tal ponto de vista, em um entrave à verdadeira concepção
da natureza.
Ao materialismo dessa época, era incompreensível o
ponto de vista da evolução, de desenvolvimento, ou, em ou-
tros termos, o conceito de um processo. O idealismo, ao con-
trário, tinha neste ponto uma vantagem sobre aquele. Reco-
nhecendo que tudo é espírito, isto é, algo que não podemos
ver, cujo conteúdo não podemos apreender, algo que existe e
não existe ao mesmo tempo, que cria sempre novas formas,
o idealismo, com esta concepção, não podia ser estático, ti-
nha, pois, tendências a chegar à ideia de evolução. O idea-
lismo tentava compreender não só o que existe, mas também
o que vem a existir, não só o que é, mas também o que vem a
ser. Segundo seu conteúdo, o idealismo tinha forçosamente
de chegar à ideia de desenvolvimento, de evolução e de pro-
cesso; delas no percurso do desenvolvimento da filosofia, de-
via-se forçosamente chegar a uma síntese entre os elementos
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fortes do materialismo e dos elementos sólidos do idealismo.


O idealismo tinha seu defeito peculiar, que era o de não se
basear na matéria, sobre o que existe, e procurar apenas as
leis gerais do pensamento humano. Ele construía sobre si
mesmo, estava longe da experiência. O materialismo, ao con-
trário, estava intimamente ligado ao que existe, com a natu-
reza e com experiência. Mas a natureza e a experiência, eram
compreendidas estaticamente, como algo que existisse sem-
pre com a mesma forma, eternamente. As ideias de criação e
de influência de um fenômeno sobre o outro, eram-lhe estra-
nhas. O materialismo não possuía asas que lhe permitissem
voar e não podia penetrar o íntimo da natureza. O idealismo,
ao contrário, procurava encontrar e penetrar o íntimo da na-
tureza, mas achava-se suspenso no ar, sem base para se
apoiar.
No transcurso do seu desenvolvimento, essas duas es-
colas se reuniram em certa medida e formaram uma nova fi-
losofia científica, o materialismo moderno, que encerra em si
um ponto de vista monista, unitário, visto que reúne em uma
única concepção, espírito e corpo.
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Lição V
O Materialismo francês e a
Filosofia Crítica de Kant

Caracterizamos a diferença entre o idealismo e o ma-


terialismo em sua formação e desenvolvimento histórico.
Apontamos seus defeitos e virtudes; vimos aonde ambos po-
diam levar e onde chegaram. Agora nos deteremos no desen-
volvimento do materialismo e idealismo nos últimos tempos:
no materialismo do século XVIII e no idealismo da filosofia
crítica de Kant.
Os materialistas do século XVIII, que já estavam mais
ligados à ciência progressista e tinham atrás de si mais expe-
riências que os materialistas das gerações passadas, se deti-
nham mais no estudo das leis da natureza, e a ideia de que
tudo obedece a leis começou a dominar na filosofia materia-
lista. As ciências naturais tinham então alcançado certo grau
no seu desenvolvimento, e o materialismo já possuía alguma
coisa em que se basear. Uma vez determinado que todos os
fenômenos naturais se realizam obedecendo determinadas
leis, o materialismo chegou à conclusão de que o homem e
suas atividades devem também ser o resultado de outras tan-
tas leis naturais. Partindo desse princípio, o materialismo
francês do século XVIII criticou asperamente a concepção te-
ológica do mundo, e provocou deste modo uma séria revolu-
ção nas ideias das camadas mais intelectuais da sociedade;
tornou-se a filosofia da nova classe, a burguesia, que lutava
para arrancar o poder das mãos da classe feudal, sendo esta
apoiada pelo clero, ambas as quais perturbavam o desenvol-
vimento da ciência.
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Firmada assim a ideia, ou princípio do determinismo


(obediência às leis), o materialismo procurou estabelecer as
mesmas bases para a vida social, à semelhança do que obser-
vará nos fenômenos naturais.
Para materialistas como Helvetius e Diderot, por exem-
plo, a ideia de necessidade histórica já era evidente. Para eles
devia ser formulada uma outra questão: seria possível modi-
ficar as formas sociais existentes? Poderemos encontrar os
meios de melhorar a vida?
O materialismo que, como vimos, chegou ao ponto de
vista do determinismo, era, no entanto, ainda um materia-
lismo naturista. Os materialistas franceses tomando a natu-
reza e seus fenômenos como necessidade, entendiam que as
leis, segundo as quais se operam os fenômenos, devem ser
eternas, como a própria natureza. Do mesmo modo, no que
concerne à sociedade humana, entendiam que a vida deve aí
realizar-se segundo leis internas e imutáveis, por suporem
imutáveis e eternas as relações entre os fenômenos aí obser-
vados. Quais eram, contudo, essas leis, não sabiam.
A história nos mostra que na vida social sempre se
operam transformações. Mas onde está a causa das transfor-
mações e mudanças? E ainda mais: as formas existentes da
vida social, não são por certo as que se desejariam; a socie-
dade não pode, nem deve ficar tal como está; deve ser modi-
ficada! No entanto, foi a questão formulada deste modo: como
se pode e se deve modificá-la? Para isso foram dadas duas
soluções: a primeira, diz: sendo o homem de natureza boa e
aspirando sempre o bem, o desvio do bem caminho, não é
senão o resultado de ter-se o homem afastado de seu estado
natural (Rousseau), tornando-se “civilizado”. Deve-se, por-
tanto, fazer voltar o homem àquele estado natural, para se
eliminar essa má organização. A segunda, afirma: a sociedade
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humana evolui; portanto, o estado de coisas pode ser mu-


dado. Mas como? Pela educação. A sociedade humana é com-
posta de indivíduos e, querendo, pode-se mudar toda a soci-
edade. Deve-se, para tal, educar os indivíduos. O materia-
lismo colocou-se, em tais condições, em um ponto de vista
puramente utopista. Ignorando as leis do desenvolvimento da
sociedade, teve que se conservar nessa atitude. O historiador
da Restauração fez um certo progresso nesse sentido. Tendo
atrás de si a tempestuosa Revolução Francesa, chegou à ques-
tão da atuação das condições externas, a questão do meio, da
qual depende a atividade humana. Mas partindo do ponto de
vista de que as variações do meio dependem da natureza hu-
mana ou das opiniões humanas, recaiu o historiador em um
círculo vicioso. Chegando assim à questão do meio, não pu-
deram, todavia, explicar as variações que se operam na soci-
edade.

●●●

Lancemos agora um rápido golpe de vista sobre a filo-


sofia dos últimos tempos e passemos em seguida a Kant. O
idealismo teve na história da filosofia muitas formas: os filó-
sofos mais importantes até o século XIX, como Descartes, Spi-
noza e Leibniz são considerados idealistas; o seu idealismo,
porém, já está de certa forma libertado da teologia. Na reali-
dade, os três colaboraram bastante na fundação da ciência
moderna. Descartes foi o primeiro, que na moderna filosofia
apontou o determinismo matematicamente exato na natu-
reza. O panteísmo de Spinoza está muito próximo do materi-
alismo científico da nossa época. A natureza e Deus são para
ele sinônimos; o pensamento e a matéria são atributos da
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

mesma substância: Deus ou a natureza. No campo das mate-


máticas e da ciência do espírito humano (psicologia), Leibniz
deu um grande passo para a frente.
Em uma direção bem diversa seguiram os filósofos in-
gleses do século XVII e XVIII. Tomaram por base do nosso sa-
ber a experiência. A experiência é o resultado dos nossos sen-
tidos; estes são, por conseguinte, a base do nosso saber; deste
modo chegaram ao sensualismo, que está naturalmente mais
próximo ao materialismo. Mas, por outro lado, sendo os sen-
tidos a única base do nosso saber, conhecemos então, so-
mente aquilo que nossos sentidos nos fornecem. Desta forma
chegamos ao fenomenalismo (isto é, sabemos ou conhece-
mos apenas os fenômenos, aquilo que apreendemos com
nossos sentidos, mas não aquilo que é em si e por si). Mas aí
nasce a questão da relação entre a apreensão das coisas e as
próprias coisas. Forma-se o terreno para o ceticismo (duvidar
do nosso próprio conhecimento). Assim a filosofia inglesa no
seu desenvolvimento, chegou ao ceticismo de Hume, isto é, a
dúvida na possibilidade e na certeza da ciência.
Aqui é que começa a filosofia crítica de Kant. De um
lado, diz Kant, existe a natureza objetiva (externa), e, de outro,
existe o pensamento humano (o espírito), que investiga a na-
tureza. Pergunta: qual a relação existente entre a natureza e
aquele que a estuda; como se manifesta essa relação? Como
se realiza a relação entre o “ser” da natureza e o “consciente”:
o saber, o conhecer? E responde – a natureza nós a conhece-
mos: 1º) graças aos nossos sentidos, com os quais percebe-
mos os fenômenos, as coisas e os objetos, os sentidos, no
entanto, só nos fornecem matéria prima; 2º) esta matéria
prima que conseguimos, graças à percepção dos nossos sen-
tidos, é elaborada, construída e organizada pelo espírito hu-
mano. Na verdade – continua – percebemos a natureza por
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que a sentimos; mas, quando a investigamos, fazemos aqui


outro trabalho: o do espírito. Para estudarmos uma coisa de-
vemos observá-la, reunir certas partes, destacar outras, abs-
trair, etc. Resumindo: o nosso espírito deve desenvolver uma
atividade sem a qual o fenômeno não pode ser estudado, isto
é, conhecido. Sendo assim, nos apresenta uma nova questão
(independente da hegemonia do espírito ou da matéria) sobre
as relações entre o “consciente” e o “ser”.
Essa questão deve, em certo sentido, ser explicada;
não podemos negar o fato de que a natureza, isto é, a totali-
dade dos fenômenos, os objetos, são percebidos por nossos
sentidos, por nosso espírito. Temos por isso a natureza como
nos apresenta e é para nós, isto é, como a sentimos. Mas,
surge então uma pergunta: como é realmente a natureza em
si e por si mesma? Em outros termos: o que percebemos da
natureza e o que a ela adicionamos ou levamos de nós pelos
sentidos? Kant chegou assim a investigar toda a atividade do
espírito humano no processo do conhecimento, do saber, da
apreensão dos fenômenos e das coisas, para determinar qual
o papel exercido pelo espírito no conhecimento.
Kant destaca, de um lado, as formas de nossa imagi-
nação, e de outro, as categorias do nosso espírito.
Há duas formas principais na percepção das coisas, em
nosso pensamento: 1º) o espaço, o lugar: tudo o que perce-
bemos deve forçosamente ocupar um lugar; 2º) o tempo: tudo
tem que acontecer em determinado momento. Essas duas for-
mas apriorísticas (que existe no espírito antes da sensação)
do nosso espírito, são condições preexistentes a cada experi-
ência 7 . Diz ainda Kant – não podemos imaginar qualquer

7. Devemos observar que o grande desenvolvimento da psicofisiologia nos


deu a possibilidade de analisar as duas formas principais (de Kant) e de en-
contrar os seus elementos componentes. Também se podem tomá-los como
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coisa fora do espaço e do tempo. O espaço e o tempo não são


por nós tomados dos fenômenos das coisas; são por nós in-
troduzidos nos fenômenos e nas coisas. Não existem fora do
nosso espírito. Para imaginarmos uma coisa deve o nosso es-
pírito colocá-la nessas duas formas gerais.
Não nos deteremos sobre as várias categorias do pen-
samento estabelecidas por Kant. Tomaremos apenas a mais
importante: a categoria da causalidade. Sendo o espaço e o
tempo formas gerais apriorísticas da nossa imaginação, assim
também, é a causalidade uma categoria geral, apriorística, do
nosso pensamento. Em nosso pensamento, nada pode reali-
zar-se sem uma causa. Para um fenômeno se realizar, deve
haver uma causa que determine. Tomamos todos os fenôme-
nos como um encadeamento de causas e efeitos, uma cadeia,
cujo princípio não podemos encontrar.
Segundo Kant, a causalidade não é resultado da nossa
experiência; é uma categoria geral e necessária do nosso pen-
samento; está em nós, em nosso espírito, antes de cada expe-
riência, fomos nós que a introduzimos na experiência. As re-
lações entre o “saber” e o “ser”, são, desta forma, as seguin-
tes: o “ser” é um caos, o “saber” é um caos formado por nosso
espírito. O “ser”, é a “coisa em si”, é o número que, como tal,
não podemos conhecer. O “saber” é a coisa como se apre-
senta: o fenômeno. Devemos pôr de lado a “coisa em si”, e
ocupar-nos somente com a coisa, como se apresenta.
O criticismo de Kant deu, não há dúvida, um grande
impulso à ciência. Kant determinou as condições da investi-
gação científica, do “saber”, apontando o caminho certo que

resultado da experiência, não obstante sua generalização. No que concerne


ao seu caráter absoluto, dele não há mais vestígio após as novas descobertas
determinadas pela teoria de Einstein.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

a ciência deveria seguir. Por outro lado, deu uma nova orien-
tação à filosofia. No lugar da metafísica, colocou ele a gnosi-
ologia, o estudo das condições e limites do nosso saber, e que
representou então um grande passo.
Kant foi, no entanto, no fundo, um idealista. A natureza
é tal, porque assim a percebemos, diz ele. A natureza é para
nós o resultado do nosso saber, da nossa organização espiri-
tual, da nossa percepção. A natureza, que temos diante de nós
é, assim, a natureza do nosso espírito. Porque este a apreen-
deu pela organização do caos, através das formas de espaço
e tempo e pela categoria da causalidade.
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Lição VI
A Filosofia pós Kant:
Fichte, Hegel e Feuerbach

Na presente lição, tocaremos ligeiramente no desen-


volvimento do idealismo alemão e na formação do materia-
lismo dialético.
O desenvolvimento das ideias na filosofia, após Kant,
tomou duas direções: por um lado, com Fichte, tomando o
caráter de um idealismo subjetivo, que foi levado à conclusão
lógica até o solipsismo (afirmação de que só existe o “eu” e
seu mundo interno) e, por outro, com Hegel, transformando-
se em um idealismo objetivo, na filosofia da Ideia Absoluta.
Na verdade, a filosofia da “coisa em si” de Kant, nada pode
explicar. E assim como o próprio Kant, em sua Crítica da Ra-
zão Prática, tentou penetrar a “coisa em si” e descobrir seu
segredo, os filósofos seus continuadores colocaram o dua-
lismo de Kant de lado e voltaram-se para o idealismo puro,
filtrado pelo criticismo.
A filosofia de Hegel deu um grande passo com o fato
de estudar o espírito, de um modo geral: a Ideia Absoluta,
aproximando-se muito, por este meio, da ideia de evolução.
Em sua dialética desvendou Hegel certas leis da evolução, que
até então não haviam sido descobertas. Reconhecia-se então,
apenas o fato da mutabilidade dos fenômenos, mas não se
conheciam as leis de sua evolução. Não se compreendia o pa-
pel das contradições na evolução da natureza, do homem e
da sociedade. Investigando a Ideia Absoluta e sua evolução,
descobriu Hegel, que ao analisarmos bem um conceito nota-
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mos que este conceito guarda em si o princípio de sua nega-


ção – sua contradição –, e assim esse conceito se desenvolve
em direção ao seu oposto. Este conceito da contradição é
transportado ao fenômeno, quando queremos estudá-lo e
compreendê-lo. Tomando, por exemplo, o conceito de “ser”
ou existência, para determiná-lo, devemos contrapor-lhe o
“não ser”. Em “ser” já deve estar, portanto, contido também
o “não ser”, por ele compreendido. O oposto dos dois será
porem o “vir a ser”, que contem em si, de um lado, o ser, no
sentido de que o “vir a ser” indica que “será”, e por outro lado,
o “não ser”, porquanto ainda não o é. Assim entendia Hegel a
marcha da evolução, na forma de tese, antítese e síntese.
A que nos levou essa fórmula, o assim chamado mé-
todo dialético? Levou-nos ao seguinte: investigando-se cada
fenômeno como evolução da ideia, deve-se estudá-lo não só
em seu “ser”, mas também em seu “não ser”, em seu “vir a
ser”, em suas novas formas, isto quer dizer também que os
fenômenos na natureza evoluem, segundo as leis da dialética.
Os fenômenos sociais também devem ser observados se-
gundo esse critério. O próprio Hegel explica a queda da Lace-
demônia pelas suas contradições, isto é, sua lei da transfor-
mação da quantidade em qualidade, deu um golpe de morte
no evolucionismo vulgar e criou uma base científica para a
teoria dos “saltos” na natureza e na sociedade. Sua filosofia,
porém, estava de cabeça para baixo. A realidade, segundo ele,
não é mais que a sombra da ideia; não é a natureza, a vida,
que se desenvolve, mas sim, as ideias. A filosofia em tais con-
dições deveria ser posta sobre os pés. E isso foi o que fizeram
os discípulos de Hegel.
Primeiramente com Feuerbach, o materialismo tentou
mais uma vez ocupar o lugar de destaque na filosofia. O ma-
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terialismo de Feuerbach é, entretanto, antropológico. A maté-


ria, segundo ele, é o organismo humano; a ideia, a proprie-
dade desse organismo, isto é, o pensamento, o cérebro. O
pensar é reflexo da vida do homem, seus sofrimentos, suas
alegrias, seus receios e suas esperanças. A Ideia Absoluta de
Hegel transforma-se assim em uma ideia humana. De abs-
trata, torna-se concreta. Entretanto, para Feuerbach, o pró-
prio homem era abstrato e independente de espaço e de
tempo. Quer a ideia, quer a matéria foram para Feuerbach hu-
manizadas. Entretanto, o homem mesmo, não foi por ele con-
cretizado, nem historicamente compreendido. Seu materia-
lismo não sai dos limites da filosofia naturista, não se estende
pela história da humanidade. No materialismo de Feuerbach
não se descobre também a dialética de Hegel. A grande tarefa,
de fazer penetrar no materialismo, o espírito dialético de He-
gel e estendê-lo também à história da humanidade e à vida
social, somente a puderam realizar Marx e Engels.
Devemos apontar outros méritos da filosofia idealista
alemã. Esta esclareceu a questão da contradição entre a liber-
dade e a necessidade na vida social. Se a ideia de determi-
nismo (não há efeito sem causa), de necessidade lógica, to-
mou aos poucos um lugar nas ciências naturais, a questão foi
muito mais difícil nas ciências sociais. Aqui tropeçou-se, por
um lado, com a questão da liberdade e, por outro, na de fata-
lidade.
Sabemos que a questão de necessidade e liberdade foi
formulada pelos materialistas franceses. Mas estes caiam em
um círculo vicioso. A atividade humana é, segundo eles, o re-
sultado do meio e o meio o resultado das opiniões. O meio se
transforma graças às modificações que se operam nas opini-
ões. Tomando por base as opiniões, a atividade do homem é
livre; tomando, porém, por base o meio, essa atividade deve,
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então, ser uma necessidade, isto é, determinada pelo meio.


Uma das tarefas mais difíceis era, pois, a união de dois con-
ceitos: necessidade e liberdade. A necessidade (a determina-
ção por causas) e a liberdade (atividade livre) não devem
opor-se. Ao contrário, uma deve ser complemento da outra.
O socialismo, por exemplo, é determinado, ele deve chegar;
porém, somente virá, pela atividade humana; contém, por-
tanto, a liberdade (atividade humana).
A atividade humana, a liberdade, está necessariamente
contida na determinação histórica8.
Como, contudo, se formou da tese e da antítese do ma-
terialismo francês e do idealismo de Hegel, a síntese, o mate-
rialismo dialético?
Nos materialistas anteriores, o meio era a reunião de
todas as opiniões existentes na sociedade. E mesmo quando
deparavam com interesses materiais, consideravam igual-
mente a luta entre esses interesses como o resultado das opi-
niões. Ficaram sendo, portanto, idealistas, no sentido de
compreender e explicar a história. Não descobriram a matéria
da vida social. Essa matéria, isto é, essa realidade, foi desco-
berta pelo materialismo histórico. Foi este que deu ao meio
um sentido próprio.

8. Tocamos aqui, somente de passagem, a questão da liberdade e determi-


nismo na vida social. Mais detalhadamente, examinaremos a questão em uma
das lições seguintes.
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Lição VII
Os Fundamentos do Materialismo Histórico

Vimos na última preleção como os materialistas e his-


toriadores franceses não puderam definir o que é o “meio”.
Tentemos analisar o meio.
O que vemos nele? Vemos diante de nós homens que
mantém relações entre si, e perguntamos: qual será a causa
principal dessas relações e em que consiste este entrelaça-
mento de relações ente os homens? Devemos tomar aqui o
sentido mais elementar da vida social e talvez encontremos aí
a matéria de sua evolução.
Para existir, deve o homem desempenhar uma certa
atividade em relação à natureza exterior. Deve adaptar-se à
natureza para poder viver e não ser por esta aniquilado. E essa
adaptação se realiza graças à atividade do homem. Mas so-
mente na adaptação não poderemos encontrar o conteúdo, o
característico da vida social humana. Uma adaptação à natu-
reza encontramos também nos seres inferiores. Na simples
adaptação há, portanto, pouco de humano, menos ainda de
social. Que é então o que distingue a adaptação humana à
natureza? Em primeiro lugar, a forma social. Essa adaptação
se realiza não de forma individual; o homem se adapta à na-
tureza, socialmente. Duas formas da atividade humana estão
ligadas à sua adaptação à natureza: 1º) uma atividade que ser-
ve diretamente à satisfação das necessidades de sua existên-
cia (nutrição, reprodução). Para satisfazer suas necessidades
desta natureza precisa o homem exercer certa atividade (por
exemplo, comer, beber, respirar, manter relações sexuais,
etc.), mas essas atividades são provocadas diretamente pelas
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próprias necessidades de momento; 2º) há uma outra ativi-


dade que serve indiretamente a satisfação das necessidades
(cozinhar para comer, retirar água para beber, colher frutas
para comer, etc.). A atividade do homem na primeira forma,
serve-lhe para satisfazer diretamente suas necessidades, só
pode ser útil ao indivíduo que exerce essa atividade (não se
pode comer por outros). A atividade da segunda forma (satis-
fazer indiretamente suas necessidades) pode ser também útil
a outros (pode-se colher frutas para outros, pode-se trazer
água não só para si, como também para que outros bebam).
Essa atividade do homem, que serve diretamente a satisfazer
suas necessidades, tem uma característica especial, que con-
siste na possibilidade de se tornar social. A essa atividade, em
geral, denominamos: trabalho.
Analisemos mais detidamente o que acabamos de re-
ferir. Trabalho, isto é, não só atividade direta, mas também
indireta, notamos também em certa proporção, nos seres in-
feriores. O que, pois, distingue o trabalho humano do traba-
lho dos seres inferiores? Tentou-se definir o homem como o
animal racional (homo sapiens); mas, sendo a razão no ho-
mem, o resultado de um desenvolvimento muito adiantado,
não pode servir de característica para a definição do homem.
Certa é a definição dada por Franklin: “o homem é um ser que
faz e usa instrumentos”.
O trabalho de fazer e usar instrumentos é sempre uma
atividade indireta. Mais ainda, esse trabalho é uma condição
necessária ao desenvolvimento do próprio trabalho. Nos se-
res inferiores, essa atividade não desempenha, por isso,
grande papel. Não têm as possibilidades de se desenvolver.
No homem, ao contrário, a atividade, o trabalho, começa a
desempenhar o papel mais importante em sua vida. O instru-
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mento é, portanto, o momento principal que distingue a ati-


vidade do homem, seu trabalho, de todos os outros seres vi-
vos. A matéria, isto é, a base concreta da sociedade, consis-
tirá, portanto, no trabalho para satisfazer as necessidades hu-
manas, nas quais o instrumento, como meio de adaptação à
natureza, desempenhará o papel principal.
A totalidade dos instrumentos que o homem cria no
processo de sua adaptação à natureza é chamada técnica. A
técnica pode também ser chamada de meio artificial. O ho-
mem se adapta ao meio natural criando um meio artificial. No
meio artificial esta corporificada a matéria da vida social.
Vejamos agora como se opera o desenvolvimento da
sociedade humana. Os seres inferiores que se adaptam à na-
tureza pelos seus órgãos naturais, estão em certo sentido, li-
mitados pela constituição desses mesmos órgãos, pelo seu
estado fisiológico. O seu desenvolvimento opera lentamente
levando milhares de anos para apresentar pequenas modifi-
cações, aumentando muito pouco suas qualidades de adap-
tação.
Os instrumentos, que podem ser considerados como
órgãos artificiais, têm a grande virtude de terem um desen-
volvimento quase ilimitado. Em todo caso, os instrumentos se
tornam quase independentes do organismo humano e são de
possibilidades quase ilimitadas, como as forças da natureza.
A criação de instrumentos mais aperfeiçoados depende da
correspondente exploração da natureza, cujas riquezas são i-
nesgotáveis. Podemos ver, portanto, qual o papel que deviam
e podiam exercer os instrumentos na história da humanidade.
Os instrumentos tornam possível a exploração da natureza
com menos dispêndio de energias, conseguindo deste modo
resultados mais favoráveis e assim permitindo ao homem
adaptar-se cada vez mais ao meio.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

A história nos mostra que com o desenvolvimento do


homem, este adquire cada vez mais necessidades e novas
qualidades. Surge então a questão: qual a origem dessas no-
vas necessidades e dessas novas qualidades? Onde devam ser
procuradas as causas do seu surgimento? Bem entendido, as
causas do aparecimento dessas novas necessidades cada vez
mais diversas não podem ser encontradas no próprio homem,
mas sim fora dele, isto é, na influência exercida sobre ele pela
natureza que o circunda, pelo meio. A própria natureza,
muda, porém, muito lentamente. Se a evolução do homem
dependesse só da mutação do meio natural, no qual se en-
contra, essa evolução seria tão lenta que se tornaria quase
imperceptível. Nas primeiras etapas do desenvolvimento hu-
mano notamos quão lentamente se opera essa evolução. O
meio natural age pouco sobre o desenvolvimento das neces-
sidades do homem, sobre o aperfeiçoamento de suas habili-
dades, sobre a mudança da sua natureza.
A causa, por conseguinte, só pode ser encontrada no
meio artificial, que cresce vertiginosamente.
A causa do desenvolvimento humano deve, pois, estar
na adaptação do homem ao meio natural, na atividade indi-
reta do homem que é o trabalho, na criação de instrumentos
que é a técnica, no meio artificial que cresce e se expande sem
limites.
Estabelecemos, portanto, que o trabalho e a técnica
formam a base da vida social e da evolução humana.
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Lição VIII
O Papel e a Influência da Técnica
na Evolução da Sociedade

Na lição anterior mostramos o meio artificial que o ho-


mem cria no processo de sua adaptação à natureza. O conte-
údo, isto é, a definição do meio encontramo-lo na técnica
(meio artificial), que é a matéria ou base concreta da vida so-
cial. Devemos observar agora qual o valor da técnica em rela-
ção à sociedade. Qual o papel de seu desenvolvimento na vida
da sociedade e quais as relações entre os homens, no pro-
cesso da criação dos instrumentos. Mas antes, nos deteremos
em determinados fenômenos ideológicos como a linguagem,
por exemplo, que é uma condição pré-estabelecida para o
surgimento da ciência da qual depende a técnica e seu desen-
volvimento e que é um dos meios mais importantes e condi-
ção preliminar de quaisquer relações entre os homens; vere-
mos então, se estes fenômenos importantes que exercem um
papel tão preponderante na evolução da sociedade, não são
como tais, o resultado da evolução da técnica, isto é, dos ins-
trumentos de trabalho.
Sabemos que a origem da linguagem está relacionada
com o trabalho (trabalho segundo a definição dada na lição
anterior); a linguagem segundo ensina a moderna ciência das
línguas (teoria de Noiré) surgiu no processo do trabalho, das
exclamações e vozes do trabalho, etc. O desenvolvimento da
linguagem pode dar-se devido ao processo de generalização
e abstração dos conceitos (são estes os fundamentos da ori-
gem e formação dos idiomas). O processo, porém, está inti-
mamente ligado com o trabalho de criar instrumentos, porque
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

este trabalho é um trabalho indireto, no qual o homem não


vê imediatamente o fruto de sua atividade, mas como parte
distinta, desempenha papel preponderante.
O homem, nos primeiros tempos, não diferenciava a
natureza circundante de si próprio. Ele não via nesta um ob-
jeto e em si um sujeito destacado. Foi necessário, para isso,
um longo caminho de abstração e distinção entre si e o
mundo exterior; um processo de atividade multiforme, para
serem criados no homem esses dois conceitos abstratos de
sujeito e objeto. E nesse processo os instrumentos deviam ter
desempenhado um grande papel.
Os instrumentos, que servem ao homem para agir so-
bre a natureza, são na realidade colocados entre esta e
aquele. São arrancados da natureza para sobre esta agirem.
Os instrumentos são assim, um elo entre o homem e a natu-
reza. E devido a isso o homem é capaz de formar o conceito
de “si” e do mundo exterior.
Vemos, portanto que até a gênese, a raiz de conceito
tão elementar, somos também obrigados a procurar nos ins-
trumentos, na técnica. E quando o homem já pode ter um
conceito do “si” e do “não eu”, também pode formar o con-
ceito de outras coisas distintas e assim tornou-se possível o
continuo desenvolvimento da linguagem. A linguagem agiu,
por sua vez, sobre o processo do pensar. Esta quase obrigou
o homem a desenvolver o processo de generalizar e abstrair,
a formar conceitos gerais (seria impossível ao homem dar no-
mes distintos a todos os fenômenos da natureza).
Aqui, contudo, devemos deter-nos em um outro ponto:
a linguagem, a grafia e a ciência, só podem desenvolver-se
vivendo o homem em sociedade. Se não fosse assim, o ho-
mem não precisaria expressar seus desejos. E não se desen-
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

volveriam então nem a linguagem, nem a grafia, nem a ciên-


cia. Vemos, portanto, que os dois momentos, a técnica e a
vida em sociedade desempenham o papel principal na evolu-
ção humana. Isoladamente, nenhum dos dois fatores pode
existir; a técnica se desenvolve pela divisão do trabalho e pa-
ralelamente ao desenvolvimento da ciência. Porém, esses dois
momentos, quer a divisão do trabalho, quer a ciência, so-
mente podem existir e se desenvolver na sociedade; por sua
vez, uma vida social sem o desenvolvimento da técnica é im-
possível.
Quando falarmos das formas da técnica como base da
sociedade, temos por um lado coisas puramente materiais re-
lacionadas com as leis físicas, químicas e outras leis da ma-
téria; por outro lado, desde que essas formas estão sujeitas à
sociedade, dependem da própria sociedade, das relações en-
tabuladas pelos homens entre si, no processo do trabalho.
Quando, na lição anterior, estabelecemos que um fe-
nômeno social deve conter em si algo novo, além dos carac-
teres físicos, químicos e biológicos anexos, não apontamos
então esse novo caráter de que se acha acrescido dito fenô-
meno. Agora, contudo, já podemos encontrar o conteúdo
desse novo aspecto ou caráter. Esse caráter específico, isto é,
o conteúdo do fenômeno social consiste em que, como tal,
deve ser a consequência das relações entre os homens que se
formam no processo da atividade indireta, para a satisfação
das necessidades humanas, no trabalho social.
O homem vivendo em sociedade, trabalha (atividade
indireta) para satisfazer suas múltiplas necessidades. No pro-
cesso desse trabalho, realizado em sociedade, os homens são
levados a manter certas relações uns com os outros. Essas
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

relações entabuladas pelos homens, durante o trabalho (ati-


vidade indireta, que por sua natureza pode tornar-se social),
formam o conteúdo ou característico dos fenômenos sociais9.
Uma vez que desejamos conhecer as leis da sociedade
humana e de sua evolução (estática e dinâmica), devemos es-
tudar seu caráter próprio, a técnica; não sua forma geral, fí-
sica e morta, mecânica, etc., mas em sua forma viva, em seu
conteúdo e papel social.
Na base da técnica, nascem certas relações de produ-
ção, que por sua vez provocam várias, multiformes e comple-
xas relações sociais. Todos os outros fenômenos sociais nas-
cem destas ultimas relações. Podemos expressar o mesmo
pensamento em outras palavras e formular por outro modo a
ideia principal do materialismo histórico.
Resumindo: o homem, para viver, para existir, deve
adaptar-se à natureza; agir sobre ela e adaptá-la a si mesmo.
No processo de adaptação à natureza, forma o homem um
meio artificial. Esse meio artificial é que forma a base da so-
ciedade humana e de sua evolução. O meio artificial é por si
mesmo uma coisa material (é composto de elementos da na-
tureza material), mas está impregnado da atividade humana e
como tal se torna a base da vida social.
O fundamento sobre o qual se constrói toda a vida so-
cial é, portanto, a atividade social do homem, isto é, o traba-
lho humano e as relações entabuladas entre os homens no
processo dessa atividade. A essas relações chamamos rela-
ções econômicas e delas é que nascem todas as outras rela-
ções. Tomando por exemplo uma sociedade desenvolvida ve-

9. A atividade indireta foi no início, social. A primeira forma de relações soci-


ais foi a primeira colaboração, tornando-se mais tarde mais complexa. Surge,
então, a divisão do trabalho e a vida social.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

mos que o trabalho aí é representado por um processo larga-


mente ramificado; e investigando sua evolução devemos to-
mar o trabalho em sua totalidade e em suas variadas formas.
Compreende-se que, quando desejamos conhecer um fenô-
meno social complexo, devemos tomar em consideração to-
das as diferentes relações existentes na sociedade. Só então
poderemos compreender, por exemplo, uma revolução que se
opera no momento em que forças produtivas ultrapassam as
relações ou formas sociais existentes se levarmos em conta a
totalidade das diferentes relações existentes na sociedade, e
que se acham já desligadas do processo da produção10.
Observamos agora e vejamos como nasce a sociedade
como tal, com todas suas formas, isto é, procuremos mostrar
de um modo concreto como a evolução da técnica determina
todos esses fenômenos sociais e formas varias da vida social
e como as modifica.
Até aqui observamos as coisas de modo geral. Estabe-
lecemos a ligação entre a técnica e as relações econômicas.

10. Os “críticos” de Marx ridicularizaram a teoria do materialismo histórico,


mostrando seu paradoxo, no sentido de que fenômenos tais como filosofia,
moral, arte e ciência, são explicados por simples interesses materiais. Um tal
modo de entender Marx, nada revela senão a ignorância e incapacidade em
compreender o marxismo. Marx não diz que os referidos fenômenos são ex-
plicados exclusivamente pelos interesses econômicos; diz apenas que a base
desses fenômenos, sua origem, em última análise, e as causas de sua evolu-
ção, deve ser procurada na evolução da técnica e das relações sociais que se
criam no processo de trabalho. Sua evolução não é determinada exclusiva-
mente pelos interesses econômicos; somente se diz que seu conteúdo e sua
forma são causados pelos fatores acima referidos. Querendo esclarecer e
compreender o porquê do surgimento e da realização de tal ou qual fenô-
meno, devemos antes de mais nada travar conhecimento com os interesses
materiais dos homens e com o estado da técnica antes do aparecimento do
fenômeno e analisando as relações econômicas e sociais devidas a esses inte-
resses e ao desenvolvimento da técnica e somente então é que poderemos
compreender porque surgiu ou se realizou este ou aquele fenômeno na socie-
dade e na vida social.
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Agora devemos concretizar e mostrar como a estrutura da so-


ciedade, isto é, a súmula das relações que nascem entre os
homens no processo do trabalho (relações de produção), de-
pende do meio artificial; 1º) que as várias partes da sociedade
e as formas que adquire têm como sua causa básica a parte
material da sociedade que é o meio natural, (estática); 2º) que
a dinâmica da sociedade, a mudança de sua estrutura também
depende da evolução e da modificação do meio artificial. Em
uma palavra, devemos encarar o estudo do materialismo his-
tórico, como uma sociologia11.
Tratemos de penetrar as formas da sociedade primi-
tiva. Qual a estrutura que vem de fato nessa sociedade? Como
está construída? Desde que não há nela uma técnica desen-
volvida e por isso sobra de produtos, não há lugar para a for-
mação de classes ou camadas sociais. A sociedade de então
abrange um pequeno número de indivíduos e se existe certa
divisão é baseada somente sobre motivos fisiológicos. Exis-
tem por exemplo, crianças ou mulheres grávidas, ou velhos
que não trabalham, etc. Uma tal divisão não nos pode dar se-
não uma estrutura social elementar, como também elementar
é a sua técnica.
Tomando a técnica numa fase altamente desenvolvida
da evolução social, a moderna sociedade de hoje, por exem-
plo, notamos a estrutura bastante complexa da sociedade. E
não só no sentido de existirem muitas classes (a sociedade

11. Não obstante a escassez de literatura que tenha tratado dos fenômenos
da vida social, como filosofia, direito, arte e religião, do ponto de vista mate-
rialista, podemos, no entanto, apontar o método certo e como proceder a sua
investigação (compreende-se que por falta de tempo somente poderemos tra-
çar as linhas gerais da evolução da sociedade detendo-nos sobre a atual soci-
edade mais desenvolvida, analisaremos e explicaremos os fenômenos do
nosso ponto de vista).
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

feudal continha mais camadas ou grupos sociais), mas na or-


ganização da própria sociedade, nas funções de seus órgãos,
nas suas relações e ramificações, notamos como e até onde
cresce a sociedade atual. A complexa e aguda divisão do tra-
balho em milhares de partes, devendo manter entre si certas
relações, exige relações sociais fortes e estáveis, com certos
direitos, leis e regulamentações, aparelhos administrativos e
defesa, etc.; a técnica altamente desenvolvida faz surgir uma
estrutura complexa da sociedade e determina seu conteúdo.
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Lição IX
A Estrutura da Sociedade e a Divisão de Classes

No final da lição passada apontamos a influência da


técnica na estrutura social da sociedade, e chegamos à con-
clusão de que com o desenvolvimento da técnica modifica-se
a estrutura da sociedade.
Sabemos que o estado da técnica determina sempre a
divisão social do trabalho. Na sociedade primitiva a divisão
social do trabalho é muito rudimentar, se expressa, na divisão
em duas espécies de funções: a organizadora ou dirigente, e
a executiva. Mais tarde forma-se uma divisão do trabalho
cada vez mais desmembrada e complexa, no grau mais alto
do desenvolvimento da técnica, que vemos moderna socie-
dade capitalista, a divisão do trabalho mais se alastra, torna-
se complexa, se desarticula e sua estrutura fica também em
todos seus detalhes muito complexa. Temos famílias, classes,
grupos, camadas, agrupamentos nas próprias classes, várias
sociedades, partidos, etc. A sociedade pode ser comparada a
um edifício que tem alicerces, base, com suas partes princi-
pais e sobre si a superestrutura, os andares, com o edifício
inteiro.
Se quisermos compreender e explicar a estrutura da
sociedade e também as suas partes principais, teremos antes
de mais nada de destacar a base da sociedade, seus alicerces,
e só então, depois de estudada esta, explicaremos as outras
partes do edifício social, toda a construção social.
Em que consiste o alicerce, isto é, a base da sociedade?
Analisando anteriormente essa questão, mostramos em uma
concatenação de ideias que a base fundamental da vida social
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

é o trabalho social, que por sua vez está estreitamente ligado


à técnica. Falando do trabalho como fator social, como base
da vida social, não nos interessa a face física ou técnica do
trabalho, mas sua face social, isto é, as relações que surgem
entre os homens no trabalho durante a elaboração de produ-
tos e durante sua distribuição. A base da vida social é, por-
tanto, sua economia.
Observando na sociedade certos agrupamentos liga-
dos à família que, como esta desempenham grande papel na
visa social, surge então a seguinte pergunta: como se entre-
laçam as várias relações de família com as relações econômi-
cas? Não dependerão uma das outras?
Ao estudar a família historicamente, veremos que as
relações de família não se mantêm sempre estacionarias, no
mesmo lugar, elas evoluem; onde, pois se deve procurar as
causas dessas modificações? Sendo certo que as relações se-
xuais das quais derivam todas as outras relações de família
não mudam, de maneira geral, está claro que não são estas
que determinam aquelas variações. Devem ser procuradas em
outra parte. Sabemos, porém, que a família é ao mesmo
tempo um entrelaçamento de relações de caráter econômico
e fisiológico. Suas formas mudam, se desenvolvem de acordo
com o desenvolvimento da técnica e das relações econômicas
que por esse meio se elaboram12.

12. Que a família é mais que uma união fisiológica, prova-o o fato de encon-
trarmos também entre os seres inferiores relações fisiológicas; não obstante
não se nota aí vida familiar definida como entre os homens em geral, e mu-
dança das formas da família em particular. É, portanto, um erro supor que a
família é somente a expressão de relações fisiológicas. Para ser possível uma
vida social, deve naturalmente existir o homem como tal. Dá-se por isso a
união fisiológica dos dois sexos para a procriação que ocupa assim um dos
mais importantes papeis na perpetuação da espécie humana. Contudo, a
forma que se elabora como consequência da união, a família, dependeu sem-
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Tomemos por exemplo as relações de pais e filhos, de


homens e mulheres, irmãos e irmãs, etc. Nas sociedades de
seres inferiores, essas relações mantêm-se sempre as mes-
mas e não se modificam. Como relações fisiológicas não po-
dem estas determinar a vida da família, somente na sociedade
humana em seu desenvolvimento, tais relações assumem va-
riadas formas, perdendo seu caráter puramente fisiológico, e
tornam-se complexas devido às relações econômicas existen-
tes e integradas na sociedade13.
Nem relações sexuais, nem as de parentesco, podem
servir de base para a anatomia da sociedade humana. Em que
consiste, pois, a estrutura da sociedade? Consiste na sua di-
visão em certos grupos econômicos, que se encontram não
somente em simples relações de cooperação, mas também em
relações opostas de luta.
Sabemos que quanto mais as relações se tornam com-
plexas, passando de simples cooperação a complexa divisão
de trabalho, tanto mais evidentes começam a surgir em cena

pre da situação econômica da sociedade. Com efeito, além das relações sexu-
ais e das relações que se formam como consequência de vários trabalhos,
não notamos nas épocas primitivas outras relações entre os homens. O con-
teúdo e a forma das relações sexuais permanecem, porém, mais ou menos os
mesmos, ao mesmo tempo em que as formas de cooperação modificam-se
rapidamente e se desenvolvem juntamente com a técnica. É claro, portanto,
que essas modificações na técnica, na forma da cooperação social, provocam
por si as modificações correspondentes na família, porquanto é esta alguma
coisa mais do que um simples convívio sexual.
13. As relações entre pais e filhos na sociedade humana, modificam-se cons-
tantemente. Nos tempos em que os homens viviam da caça, frequentemente
matavam-se os velhos porque não tinham utilidade alguma e porque havia
falta de viveres. Com a evolução posterior, porém, quando a sua experiência
se tornou necessária eles são mais respeitados e havendo maior abundância
de viveres são alimentados, não obstante nada produzirem. Vemos, portanto,
que essas relações são diversas em diversas épocas. O mesmo se dá em rela-
ção a pais e filhos. As relações entre eles dependem de várias causas que es-
tão fora dos laços de parentesco de sangue.
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determinados grupos econômicos que mantém lutas entre si.


Essas relações de luta entre os vários grupos econômicos em
oposição dão à sociedade um caráter especial, determinam a
feição da sua estrutura; logo, a estrutura da sociedade nasce,
isto é, tem as suas raízes na base econômica.
A divisão em classes, que se formam no início devido
à divisão do trabalho, se desenvolve cada vez mais como o
próprio desenvolvimento da divisão do trabalho. E essa estru-
tura econômica da sociedade, consistindo na divisão em vá-
rios grupos, com diferentes interesses econômicos, lutando
oculta ou abertamente entre si, desempenha o papel prepon-
derante no desenvolvimento contínuo da sociedade.
Tomando a sociedade no início do seu desenvolvi-
mento devemos constatar que a força impulsora, era então
constituída pelas várias necessidades econômicas, que obri-
gavam os homens a lutar contra a natureza. A multiplicação
que devido às formas primitivas de produção levou à super-
população obrigava frequentemente os homens a alargarem
a sua luta contra a natureza; o resultado disso foi a evolução
do trabalho. Começa aqui a esboçar-se um novo fator que de-
sempenha um grande papel na evolução da sociedade. Esse
novo fator foi a técnica: o meio artificial, que é formado pelo
homem em sua luta implacável pela existência, para a satis-
fação das suas necessidades vitais. Uma das condições preli-
minares para o desenvolvimento da técnica foi o desenvolvi-
mento da sociedade; mas quando a sociedade cresce, forma-
se nela, devido à evolução da técnica, a divisão em grupos e
em diferentes camadas econômicas, com interesses opostos,
mantendo-se em constante relação de luta. Nasce assim e se
desenvolve mais esse novo fator agindo por sua vez no de-
senvolvimento posterior da sociedade, determinando a sua
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estrutura com as mutações gradativas da mesma, a luta de


classes.
Devemos lembrar que na sociedade devido à luta geral
pela existência dá-se também a concorrência entre os indiví-
duos isolados. Isso, contudo, é um fenômeno geral da natu-
reza viva e falando-se de luta na sociedade, subentendemos
uma luta de caráter e sentido social. À qual, só pode corres-
ponder a luta de classes14.
Os “sociólogos” burgueses acham que, na história, ou-
tras duas formas de luta entre grupos, desempenharam o pa-
pel preponderante: primeiro, as lutas de raças e segundo, as
lutas nacionais. Procuram demonstrar que a luta de classes
desempenha papel menos importante do que as lutas nacio-
nais e que a marcha da história é determinada não pelas con-
dições econômicas, mas por fatores muito diversos.
Porém, basta analisarmos as duas formas de lutas
acima referidas, para vermos que seu conteúdo não é inde-
pendente e que é determinado pelas condições econômicas
em que se encontram as raças ou nações em luta. A base, so-
bre a qual nasce a luta nacional ou racial é também, sempre
econômica. Historicamente surgiu a luta de raças, (masca-
rando a luta econômica), antes da luta de classes, porque esta
se origina nas sociedades diferenciadas, ao passo que a luta
de raças e até mesmo a luta nacional não exigem uma divisão
de trabalho social desenvolvida. E quando no cenário histó-
rico surge a luta de classes esta não exclui a luta de raças ou

14. Que, na evolução social, desempenha essa luta papel importante, já o afir-
mavam muitos sociólogos, especialmente Gumplovitch; adotando-se o ponto
de vista marxista, usamos outros métodos no desvendar o papel da luta so-
cial. Estudando-o, veremos que também não se desenvolve independente-
mente, mas em combinação com o desenvolvimento da técnica.
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nacional, mas complica-as. A luta de classes assume, às ve-


zes, a forma de luta racional ou nacional, porque para a bur-
guesia é necessário e útil encobrir a aguda luta de classes com
o véu nacional ou racial.
Analisemos as lutas nacionais e de raças e veremos
como essas lutas não são senão manifestações ou variações
veladas da luta econômica ou de classes.
Tomemos primeiramente as lutas de raças. Aqui pode-
mos e devemos antes de mais nada constatar que na história
não se verifica uma luta constante entre as raças.
Quais raças existentes em geral? Devido à diversidade
do meio geográfico, formaram-se três raças principais: negra,
amarela e branca. Nos tempos primitivos não se observam lu-
tas entre essas raças15.
Agora observemos em certa medida uma luta entre
brancos e negros, nos Estados Unidos. Será uma luta carac-
terística de raças? Ninguém o dirá. Todos deverão reconhecer
que essa luta tem um caráter econômico, em consequência de
terem sido os negros libertados da escravidão há pouco e se
tornarem por isso uma vítima indefesa da exploração capita-
lista16.

15. Devemos notar que o antissemitismo, que traz a cor da luta de raças (luta
contra a raça semita), é por seu conteúdo uma luta econômica mal disfar-
çada, entre diversos grupos de uma mesma classe, ou um meio de desviar a
consciência de classe do proletariado e das massas populares oprimidas, para
enfraquecer a luta de classes. O antissemitismo é necessariamente reacioná-
rio, mesmo quando toma o caráter de um movimento das camadas oprimi-
das, porque desvia da luta de classes.
16. Fato digno de ser observado é que negros capitalistas convivem muito
bem com brancos capitalistas e cultos. E ainda, que negros proletários vivem
pacificamente com proletários brancos; não é de estranhar. Portanto, a ideia
de que o conteúdo da luta de raças é puramente econômico, não necessita de
comentários.
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Analisaremos agora a luta nacional que é um fenô-


meno muito mais frequente e que em nossos dias observamos
ainda em grande escala e em variadas formas. Aqui devemos
notar: primeiro, se essa luta nacional, como tal, é uma força
propulsora na história; segundo, em que consiste em geral o
conteúdo da luta nacional.
Façamos resumidamente uma digressão na história e
nos detenhamos no ponto de formação direta das nações.
Ao tomarmos a sociedade primitiva na forma de comu-
nidades, clãs, tribos, notamos desde logo, que cada tribo não
é formada por muitos indivíduos, ligados entre si por laços de
sangue: e que as demais tribos são consideradas como forças
exteriores da natureza, com as quais é necessário por vezes,
lutar, como contra animais. Mas, pela união de várias tribos
(frequentemente consanguíneas), devido às necessidades
econômicas de defesa é que se formaram as nações. Como
cresceu a nação? Antes de tudo, devido ao desenvolvimento
da técnica da sociedade, até quando a luta pela existência
obriga certas tribos a se unirem a outras. Em que consistia,
porém, a luta entre as tribos? Lutavam de fato apenas porque
representavam tribos diferentes? Não. A luta era puramente
econômica. Os israelitas lutavam contra os filisteus não como
duas tribos e sim como dois organismos regionais, com inte-
resses econômicos antagônicos, onde cada qual procurava
escravizar o outro, ou conseguir dele certo tributo. As guerras
entre as nações tiveram fins puramente econômicos e repre-
sentaram uma tendência a expansão; o território tornara-se
pequeno para a nação e tinha necessidade de se expandir. Tal
nação lutou contra tal nação, porquanto uma via na outra um
melhor objeto de exploração e mais uma presa fácil para suas
ambições.
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Porquanto, as nações surgiram na evolução da história


juntamente com a evolução do trabalho e da técnica. Surgem
primeiramente sobre a base de laços de sangue, uniões de fa-
mília. Sobre a mesma base, formaram-se posteriormente o
clã, a tribo e a nação. Mas a causa dessas uniões e sua evolu-
ção foi provocada somente por motivos econômicos, e o con-
teúdo das lutas entre elas não é nacional, isto é, não consiste
em duas tribos, com língua e psicologia diversas, lutarem so-
mente por isso. Por conseguinte, seria extremamente falso, se
disséssemos que a luta nacional é uma força propulsora na
história; é certo, que a luta nacional é por vezes a expressão
da luta de classes (luta econômica) que é, a realidade, a força
propulsora da história.
Podemos assim determinar, que a estrutura da socie-
dade é a divisão de classes, que surge durante o processo da
divisão do trabalho e se desenvolve com a evolução da téc-
nica. A luta econômica se dá sobre a base da divisão de clas-
ses, da divisão em grupos sociais distintos, com interesses
econômicos opostos.
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Lição X
A Luta de Classes como força propulsora da
História e a formação da Psicologia de Classe

Na lição anterior vimos como estrutura da sociedade,


a divisão em classes, é resultante da divisão social do trabalho
e consequência das relações de produção numa dada socie-
dade. As relações em que assentam as classes em oposição se
expressam sob forma de luta, em relação de luta.
As outras formas de luta na sociedade como as lutas
de raças, a luta nacional, nascem da luta econômica entre as
classes. A diferença entre luta nacional e luta econômica con-
siste somente no fato das lutas internacionais representarem,
a princípio, uma luta contra forças externas; somente com sua
evolução toma um nítido caráter de luta de classes. Quando a
burguesia de uma nação (já dividida em classes) não pode
mais satisfazer-se com a exploração do proletário nacional,
procura então estender seu domínio sobre outros povos atra-
sados ou concorrentes. O caráter externo de luta entre nações
depende do estado das forças produtivas das mesmas.
Assim por exemplo a luta entre a Inglaterra e a China,
como luta entre um país desenvolvido e outro atrasado (no
sentido econômico), traz mais abertamente o caráter de luta
feroz entre o mais forte e o mais fraco, ao passo de que a luta
entre a Alemanha e a França – luta entre países igualmente
desenvolvidos – é disfarçada, trazendo o caráter de luta entre
duas “civilizações” diferentes, onde uma é apresentada como
justa e “civilizada” e a outra como bárbara. As formas de luta,
de fato, são diversas, mas seu conteúdo é sempre o mesmo.
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Na história da evolução social, na história da luta de


classes, notamos que a classe oprimida evolui sempre junta-
mente com a evolução das forças produtivas. Coube sempre a
esta o papel de força propulsora do progresso e de todo o
bem-estar da humanidade.
Com efeito, vejamos em que consistem as forças pro-
dutivas e como as classes estão ligadas a estas.
Falando das forças produtivas da sociedade devemos
tomar em consideração os três seguintes tipos: 1ª) as forças
da natureza, como a terra, os montes, os rios, os minerais,
etc.; 2ª) o meio artificial, a união do trabalho humano com as
forças da natureza em intima ligação (instrumentos); 3ª) a
força do trabalho, totalidade do trabalho humano na socie-
dade. Esses três tipos estão intimamente ligados ente si. São
imprescindíveis à existência e evolução da sociedade humana,
que necessita do meio natural, do meio artificial e da força do
trabalho humano. Tentai aniquilar uma só dessas três forças
e a sociedade inteira perecerá.
Analisada separadamente cada um desses tipos de for-
ças, notamos que, quanto à natureza, é um fator constante,
que sem a intervenção do homem, por si só, muito pouco se
modifica. Certamente operam-se na natureza acontecimentos
como inundações, erupções vulcânicas, erosões, terremotos,
etc., mas, de modo geral, a natureza permanece ou se apre-
senta sempre com o mesmo aspecto, e sua ação sobre o ho-
mem, é por isso também mais ou menos a mesma. As muta-
ções na natureza (no clima, no mundo dos seres inferiores,
dos vegetais, na flora e na fauna) opera muito lentamente em
relação à história da humanidade e por isso não podem ser
levadas em consideração.
O meio artificial, a técnica, ao contrário, se modifica,
evolui e passo a passo com esta desenvolve também a força
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

do trabalho a qual está ligada, e é determinada pela técnica


em desenvolvimento. Quanto mais se desenvolve a técnica,
tanto mais diferenciado se torna o trabalho, dividido social-
mente, e ao mesmo tempo a sociedade é igualmente dividida
em classes e grupos com interesses econômicos antagônicos.
A primeira forma de divisão do trabalho aparece no
terreno da distinção entre o trabalho dirigente e o de execu-
ção. Essa divisão traz consigo, desde logo, desigualdades en-
tre os membros da sociedade. Desigualdades que se acen-
tuam ao ser criado o instituto da propriedade privada e cria
mais tarde o “domínio” dos “dirigentes” e a opressão exercida
sobre os executores.
Vamos agora observar a evolução das forças produti-
vas em relação à divisão de classes. Ao estudar a história do
desenvolvimento econômico notamos que a classe dirigente
desempenhou durante algum tempo um papel positivo na
vida social e em certo sentido uma função produtiva, indis-
pensável. Na fase posterior da evolução, deixa ela, porém, de
ter tal papel, para se converter em elemento parasitário cuja
existência deixa de ser útil à sociedade. Quanto à classe exe-
cutora, isto é, a classe produtora, se estagna sob a pressão
das classes dirigentes, sem poder desenvolver-se, a sociedade
toda degenera então, ou é dominada por outra sociedade que
explora, deixando assim aquela de ser independente. Mas isso
não se dá quando a classe dirigente deixa de desempenhar o
seu papel positivo. Esse fato não acarreta a queda da socie-
dade toda, porque devido ao desenvolvimento das forças pro-
dutivas nasce outra força dirigente; os executores destacam a
si próprios um novo grupo de dirigentes que assume papel
organizador na sociedade e dá assim oportunidade às forças
produtivas de continuarem a se desenvolver.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Devido à evolução da sociedade, criam-se, às vezes,


condições tais, que são verdadeiros obstáculos ao desenvol-
vimento das classes produtoras ou executoras e não tendo
possibilidades de continuar o seu desenvolvimento, são con-
denadas a degenerar e a perecer. E, neste caso, a sociedade
inteira estará condenada a desaparecer. Um, tal momento en-
contramos na história das sociedades construídas na base de
escravidão. Os escravos eram elementos produtores. Criou-
se, porém, uma situação tal, que a forma de produção escra-
vocrata já não podia permitir o desenvolvimento das forças
produtoras e então essa sociedade teve que desaparecer ou
degenerar.
A sociedade feudal foi uma sociedade de organização
feudal da agricultura e os senhores feudais desempenharam
até certo ponto o necessário papel da atividade social. Mais
tarde, porém, quanto mais prossegue o desenvolvimento de
novas forças produtivas na própria sociedade feudal, não
agrícolas, mas industriais, tanto mais começam os elementos
dirigentes da nova indústria, a burguesia, a lutar contra a an-
terior organização feudal da produção agrícola. E vencem,
porquanto a evolução das forças produtivas e, especialmente
da técnica e da indústria, já se acha bastante entravada, pela
regulamentação feudal e o pelo sistema senhorial da admi-
nistração tributária.
O mesmo também se dá com o sistema capitalista. As
condições burguesas na produção e nos transportes, as rela-
ções de propriedade burguesas, em uma palavra, a sociedade
burguesa moderna, que criou, como por um condão mágico,
tais meios de produção e transporte, assemelha-se ao mágico
que já não pode sozinho dominar as forças provocadas com
seus próprios passes. A história da indústria e do comercio
dos últimos tempos pode resumidamente ser considerada
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como abalo17, como uma revolução das modernas forças pro-


dutivas contra as atuais relações de produção, contra as atu-
ais relações de propriedade que são, ao mesmo tempo, as
condições devidas da burguesia e de sua dominação. E isso,
porque as condições dominantes na produção impedem o
crescimento impetuoso das forças produtivas que já ultrapas-
saram as formas ou relações econômicas ainda existentes. A
burguesia já não serve à sociedade; não só deixou de organi-
zar a produção e de dirigir o seu progresso, mas, ao contrário,
tornou-se mesmo um entrave a organização e desenvolvi-
mento das forças produtivas da sociedade. E desde o mo-
mento em que essas forças produtivas tentam vencer e des-
truir esses entraves, imediatamente a burguesia faz grande
alarme dentro da sociedade burguesa, gritando que ameaçam
a destruição da própria sociedade, quando na verdade, só é
ameaçada a propriedade burguesa. Marx disse: “a arma com
a qual a burguesia venceu o feudalismo é agora também apli-
cada contra ela própria; mas a burguesia não somente forjou
a arma que agora lhe dará a morte, como também criou os
homens que empunharão essas armas –criou a moderna
classe proletária – o operariado”.

●●●

Até aqui descrevemos a parte mecânica da luta de clas-


ses que só pode ser concluída com o estudo da produção.
Essa luta parece ter um caráter puramente “mecânico”. Tra-
tamos da burguesia e do proletariado somente como dirigen-
tes e produtores e não como duas classes com interesses

17. Crises mundiais no comércio e na indústria; guerras imperialistas e revo-


luções; milhões de desocupados; queimas de produtos, etc.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

econômicos antagônicos. Essa é a parte mecânica do pro-


cesso da luta de classes. Tomamos por base a evolução das
forças produtivas e vimos como a própria força do trabalho é
que provoca a divisão em classes, desempenha papel prepon-
derante no desenvolvimento da sociedade. Primeiramente, te-
mos dirigentes e executores, sendo ambos úteis à sociedade
e por isso com iguais direitos. Mais tarde surgem as primeiras
lutas entre dirigentes que vivem já da exploração dos produ-
tores. Tornaram-se parasitas, não correspondendo mais à
marcha da evolução das forças produtivas da sociedade, isto
é, dos executores, os explorados, que aspiram a sua libertação
e que já podem destacar de si novos organizadores da produ-
ção com novas funções e novas tarefas. Estes novos dirigen-
tes, por sua vez, se tornarão depois inúteis à sociedade, con-
vertendo-se em obstáculos à evolução das forças produtivas
e começará uma nova luta contra estes, e assim por diante.
A sociedade, porém, não é uma máquina que tem a ta-
refa de desenvolver a técnica, e tampouco a técnica não se
desenvolve por si só. A sociedade se compõe de homens que
têm certas necessidades materiais e espirituais, certas aspira-
ções humanas, que vivem e lutam; compõe-se de homens
com certa consciência que com a evolução da sociedade se
torna cada vez mais complexa. Devemos, portanto, considerar
o conteúdo humano e interno da luta de classes; compreender
a luta de classes em toda a sua complexidade e analisar as
várias formas assumidas.
Quando analisamos a sociedade e a observamos con-
cretamente, constatamos então que é composta primeira-
mente de indivíduos, e que cada indivíduo não é uma parte
mecânica da sociedade, sem vida própria, A sociedade é um
complexo de indivíduos onde cada um tem certa consciência,
existindo, por isso, de si e por si, como unidade na sociedade.
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A produção e a técnica são criadas pelos indivíduos. A


vida do indivíduo pode ser mais ou menos complexa pode ter
um conteúdo rico ou pobre; o indivíduo, porém, permanece
como tal. Esse fato não deve por nós ser silenciado, nem ne-
gado. Claro é para todos que a produção somente pode ser
criada pela atividade humana, pelos atos dos indivíduos na
sociedade. O que nos interessa é saber qual o papel de cada
indivíduo na produção e como é determinada a atividade do
homem, dos indivíduos na sociedade.
Formulemos, porém, outra questão: vimos que com o
desenvolvimento da técnica crescem as necessidades, quer
materiais, quer espirituais dos indivíduos. As formas que es-
sas necessidades assumem são sociais porquanto são produ-
zidas pela sociedade, sua satisfação, contudo, está ligada ao
indivíduo. Pergunta-se: qual a relação existente entre a ativi-
dade individual, a satisfação individual das necessidades e a
atividade social, que é resultado da atividade individual? Qual
a expressão da sociedade, formada por um conjunto de indi-
víduos?
A atividade individual tem sua primeira expressão no
trabalho (satisfação indireta das necessidades), o qual as-
sume o caráter de cooperação. E esse trabalho é a expressão
de uma forma simples de atividade. Mais tarde, essa atividade
assume uma forma muito complexa por já estar ligada a cons-
ciência, às ideias, etc. De que forma aparece essa última, isto
é a forma complexa da atividade individual? Não podemos di-
zer que o espírito humano se desenvolva independentemente
(por si só). A evolução deve, pois, realizar-se como resultado
de choques entre o homem e a natureza externa, à qual está
obrigado a se adaptar. A causa do desenvolvimento humano
não está nele próprio, mas fora dele, na natureza a qual deve
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se adaptar. O homem, contudo, só se adapta à natureza pelo


meio artificial, como já vimos, criado com a técnica.
A forma de adaptação da sociedade primitiva era igual
para todos, porque todos seus membros se encontravam em
igualdade de condições. Um indivíduo da sociedade primitiva
não se distinguia de outro porque a diferenciação entre eles
era quase nula; por isso não havia lugar para o individua-
lismo. Nessa época, o fenômeno individual, embora existisse,
desempenha, todavia, o menor papel. Quando, porém, a soci-
edade evolui e surge a divisão do trabalho, aparecem então as
possibilidades de grupos e indivíduos se destacarem. Já desde
o início, os dirigentes e os executores não se acham em igual-
dade de condições. Forma-se certa desigualdade nas condi-
ções de vida, nasce a propriedade e com esta a possibilidade
de exploração. A forma de adaptação já não é igual nos dois
grupos principais formados então na sociedade. Esses dois
grupos têm interesses diversos e opostos na maioria das ve-
zes. São aspirações e exigências diferentes, são psicologias de
classes diversas.
Notamos, portanto, que a diferenciação de psicologia
nasce no terreno da diferenciação de classes e traz o caráter
destas. Com o posterior desenvolvimento da técnica e da di-
visão do trabalho surgem além dessas duas psicologias cole-
tivas também certas distinções na própria psicologia de cada
classe, formando-se assim terreno para a evolução da indivi-
dualidade; porque as distinções que nascem naturalmente em
cada indivíduo adquirem, devido as múltiplas formas do tra-
balho a possibilidade de se desenvolverem e desempenharem,
deste modo, um certo papel na sociedade.
Quanto mais atrasada é a sociedade em seu desenvol-
vimento econômico, tanto menos são as possibilidades dos
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indivíduos se destacarem e tanto mais se assemelha essa so-


ciedade a um rebanho. Ao contrário, quanto mais se desen-
volve a sociedade, tanto mais oportunidade se oferece ao de-
senvolvimento do indivíduo, tanto mais se sente intimamente
livre. A causa principal que desempenha aqui o papel prepon-
derante, e isso devemos acentuar, são as formas de adaptação
à natureza, são as várias condições da vida em que se encon-
tra o homem. Daí se originam antes de tudo as psicologias de
classes (interesses de classes, exigências e aspirações) e de-
pois nestas várias diferenciações psicológicas (psicologias de
grupos e de indivíduos destacadamente). O fenômeno princi-
pal que deixa sua marca sobre a psicologia geral é a forma de
adaptação à natureza e as condições nas quais vive determi-
nada classe ou grupo. Somente dessa forma e por meio des-
ses fatores é que se origina a psicologia de classe. O fato de
pertencer a esta ou aquela classe já deixa sua marca sobre a
psicologia deste ou daquele indivíduo. O fenômeno das clas-
ses desempenha o principal papel na evolução da psicologia.
Se as formas gerais do trabalho e da adaptação à vida
determinam em geral o conteúdo da psicologia, é claro então
que vários indivíduos que se acham em condições idênticas
de trabalho e de adaptação à vida, terão as mesmas exigências
e as mesmas necessidades e a generalidade destas vencerá as
exigências e necessidades de caráter individual, que desem-
penham então um papel secundário. Não podemos deixar de
tomar em consideração a existência do indivíduo como tal,
sendo um fato que não podemos negar, mas desde que esse
indivíduo pertence a certa classe, isto é, a determinado grupo,
que vive nas mesmas condições de adaptação à natureza, os
interesses dos indivíduos estão sob a hegemonia dos interes-
ses do seu grupo ou classe, da psicologia de classe que de-
sempenha o papel preponderante na sociedade.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

A causa principal em certo período na evolução da vida


da sociedade será, portanto, a luta de classes como a luta dos
explorados contra os exploradores, como luta para o aniqui-
lamento da exploração. Sendo a exploração possível, princi-
palmente devido ao fato de estar os meios de produção nas
mãos de um pequeno grupo (classe capitalista) e não nas
mãos dos produtores, a luta toma por isso a forma de luta
pela socialização dos meios de produção, pelo comunismo.
Aqui, contudo, devemos deter-nos sobre mais um fe-
nômeno, para compreender o mecanismo da evolução social.
O indivíduo sente-se consciente e livre, cada ato seu é a reve-
lação da sua vontade livre. Falando, porém, da sociedade que
se desenvolve segundo leis determinadas, cumpre-nos negar
a liberdade de cada indivíduo. Mais ainda, a vida da sociedade
como vimos antes, se compõe da atividade social, isto é, da
atividade de todos os indivíduos; mas, sendo a atividade de
cada indivíduo o resultado de sua livre vontade, acontece que
a vida da sociedade é baseada sobre a liberdade.
Tropeçamos assim de novo, em uma dificuldade a
qual, contudo, devemos vencer. Ou estabelecemos que a vida
da sociedade se dá segundo certas leis e então teremos que
negar a atividade livre; e negando a atividade livre cumpre ne-
gar a atividade consciente, ou ao afirmar a atividade livre do
homem, teremos que perguntar: como pode um conjunto de
atos livres tornar-se uma necessidade (determinismo)? Ora, já
que vimos que a vida da sociedade está sujeita às leis deter-
minadas (determinismo), e deste modo, voltamos novamente
à questão de liberdade e necessidade (determinismo) na vida
social, que o materialismo anterior a Marx não conseguia ex-
plicar.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Lição XI
Liberdade e Determinismo:
Atividade Social e Causalidade

Como se transforma a liberdade da atividade individual


em determinismo social? A bola rolando, se tivesse noção do
ato de rolar, pensaria que rola por sua própria vontade. Liber-
dade e livre arbítrio. A barreira e a fresta pela qual passa a
corrente. Como imaginaria a correnteza o seu atravessar se
tivesse consciência deste ato. O arbítrio e os motivos. A luta
entre os motivos. O motivo mais forte e a escolha. O caráter,
a educação, as condições são que determinam a escolha. O
determinismo dos atos humanos. Como podem prever os
atos. Como se podem saber os motivos? As causas principais
da atividade humana. As divisões em classes e grupos e seus
distintos e as vezes opostos interesses. Os interesses deter-
minam os atos e os motivos. A sociedade e os interesses dos
camponeses e dos senhores feudais. A sociedade burguesa,
os interesses dos operários e capitalistas. A generalidade dos
interesses/motivos e a semelhança com os atos dos indiví-
duos. A psicologia do homem é determinada pelo trabalho em
todas as suas formas, as condições gerais de vida. Psicologia
geral dos camponeses. Nuances psicológicas internas. As psi-
cologias internas. A psicologia da classe operária e dos dis-
tintos grupos internos. Conhecendo a psicologia os interesses
de uma classe, podemos predizer os atos dos indivíduos que
formam essa classe. O determinismo e resultado da atividade
“livre”. Determinismo social e fatalismo. O determinismo so-
cial é uma arma da atividade humana; os atos livres são trans-
formados em determinismo social.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Detivemo-nos na última lição na questão da liberdade


e determinismo. O indivíduo, não obstante a dependência de
sua psicologia de classe ou grupo, sente-se como homem li-
vre, que tudo faz por sua própria vontade. E apesar disso, a
vida da sociedade que é a soma dos indivíduos se realiza se-
gundo certas leis determinadas. Surge, portanto, a seguinte
questão: como se podem harmonizar liberdade e determi-
nismo, segundo o qual se operam os fenômenos sociais.
Tentaremos gradualmente responder à pergunta for-
mulada. Existe o homem com sua atividade que brota de sua
vontade? Assim pelo menos, explica ele suas ações. De onde
vem tal sentimento de livre arbítrio, e como encaixá-lo no de-
terminismo e na causalidade social? Se formularmos deste
modo a questão poderemos achar a gênese da causalidade e
do determinismo social.
Tomemos, por exemplo, uma bola à qual se deu um
impulso e que começa a rolar. Imaginemos que a bola ficou
rolando, ficou consciente do seu ato de rolar, sem saber para
que foi impulsionada. Ela explicaria o seu rolar pela sua von-
tade livre. O mesmo se dá com a vontade livre do homem. O
homem está consciente do ato que realiza, mas desconhece
as causas que provocaram ou determinaram o ato. Assim res-
ponderam à questão, Hobbes, Spinoza, Leibniz. A resposta,
porém, não é completa: se a questão fosse apenas da consci-
ência do ato, talvez fosse muito fácil solucionar. Mas se a
questão da liberdade e determinismo, foi tão palpitante para
os gênios filosóficos do passado e ainda até hoje não foi, para
todos, solucionada, isto quer dizer que existe algo mais, a es-
pera de uma solução.
A bola rola e pode esta gritar bem alto que rola por sua
própria vontade, mas é obrigada a rolar sem poder parar. Mas
outra coisa se dá com o homem. Este ao praticar um ato pode
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

perguntar a si próprio: devo ou não praticar este ato? Já aqui


existe um momento de escolha. A atividade do indivíduo é
dessa forma, dependente de sua escolha. O homem ao prati-
car um ato está às vezes diante de um dilema, pode fazer de
um ou de outro modo. Esse fato de escolher é que não pode
ser negado, nem evitado. Devido a este momento de escolha
torna-se a questão da vontade livre mais fácil de resolver.
Continuemos porem a análise. Quando surge a per-
gunta: fazer ou não fazer, há naturalmente motivos para o sim
ou para o não. Esse conflito de motivos termina pela vitória
de um destes, que determina a vontade do homem. Assim é
que esse fato se dá realmente na vida.
Tomemos por exemplo uma corrente de água, contra a
qual se constrói uma barreira que detém a corrente. A água
tem por hábito correr e faz pressão contra a barreira. Na bar-
reira, casualmente havia alguns pontos fracos, e finalmente a
água irrompe por uma fresta que foi aberta. Imaginemos que,
de repente a corrente de água se torna consciente não só do
trabalho (ação) de correr (como aconteceu com a bola), mas
também das aspirações de vencer a barreira. Encontrando o
obstáculo desta, e forçando os pontos fracos, está a água di-
ante do problema de encontrar a saída (satisfação de seu de-
sejo ou aspiração) que ela própria pode escolher. A corrente
de água, que fora dotada de certa consciência, encontrará na
barreira um entrave, um obstáculo de um lado e por outro há
uma vontade, uma aspiração de vencer tal obstáculo. A cor-
rente de água quer continuar sua obra de correr, não obstante
o obstáculo encontrado. Trava-se aqui uma luta entre a cor-
rente consciente com a vontade de correr e a barreira. A fresta
feita na barreira deixou passar a água. A corrente forçou a
barreira toda, procurando saída em todos os pontos fracos
que quis arrombar, mas só conseguiu passar pela fresta que
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

havia arrombado. Aqui tivemos o momento da consciência e


o livre arbítrio.
A atividade humana é determinada por vários motivos.
A força geral da inércia é a barreira. Os motivos da atividade
são quase representados pela corrente que impele o homem
à atividade. A fresta pela qual irrompe é este ou outros moti-
vos que vencem. Uma vez que a corrente forçou todos os pon-
tos e apenas irrompeu pelo mais fraco ou no ponto onde a
corrente é mais impetuosa, temos aqui uma certa escolha, li-
vre arbítrio, quando todo o processo é iluminado pela cons-
ciência. Na realidade a irrupção é determinada ou pela fra-
queza da barreira ou pela força da corrente em determinado
ponto.
O momento de vitória de um motivo sobre outro de-
pende de uma série de causas e a “vontade livre” desempenha
aqui papel de somenos importância. Por exemplo: se toma-
mos um esfomeado, que passa diante de uma vitrine de co-
mestíveis, ocorrerá nele uma luta dos motivos da fome com
os das ideias de justiça: que não se deve desejar o alheio e do
simples medo de furtar, porque será preso e punido, etc. O
resultado dessa luta dependerá em certo sentido do caráter
do homem, da sua educação, das condições de momento, etc.
Em uns, os assim chamados conceitos morais serão mais for-
tes, devido a sua educação, conceitos enraizados, etc., em ou-
tros o medo do castigo é que determinará sua atividade, ven-
cendo portanto, outros motivos. Se colocarmos esse homem
em uma posição tal que seu ato possa passar despercebidos
para todos, o instinto da fome será mais forte que o do medo
e vencerá o primeiro motivo. Em um terceiro pode sempre
vencer o motivo da fome e roubará sem conflito interior. Ve-
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

mos de fato que se dá aqui uma luta entre dois motivos. Ven-
cendo o mais forte. Ao homem, porém, ao realizar seu ato,
parece-lhe agir segundo sua livre vontade e escolha.
Esses exemplos nos esclarecem que todos os atos in-
dividuais são determinados por determinados motivos. A ati-
vidade humana, os atos do homem social, são dessa forma
pré-determinados, são provocados por motivos. A necessi-
dade histórica, isto é, a necessidade da atividade social hu-
mana é por isso chamada determinismo.
Mas se todos atos são determinados por certos moti-
vos, surge uma nova pergunta: podem ser previstos todos es-
ses motivos, suas causas podem ser descobertas e explicadas?
Aqui teremos que voltar à questão da formação da psi-
cologia de cada indivíduo e de distintos grupos. Vimos que na
primeira fase da evolução econômica o homem não repre-
senta um indivíduo independente, mas é como membro de um
rebanho, psicologicamente semelhante a todos os outros in-
divíduos da sociedade inteira. Havia naturalmente diferenças
físicas; e se mais tarde puderam em certo grau criar-se peque-
nas diferenciações psicológicas, só puderam evoluir com a
evolução da técnica e com o aparecimento da divisão social
do trabalho. Com o desenvolvimento da técnica e com o sur-
gimento da divisão social do trabalho apareceram distintos
grupos econômicos, os quais com o tempo formaram todas
as diferenciações e contrastes psicológicos que mais tarde
notamos na sociedade.
Tomemos a sociedade humana. O que notamos aí? Ve-
mos homens com necessidades, aspirações e paixões e certas
obrigações. Certas necessidades, aspirações e paixões são co-
muns a todos os homens, porque não se pode imaginar, por
exemplo, uma sociedade que não necessite de meios de sub-
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sistência, de meios de procriação etc. Queremos prever a ati-


vidade do homem com exatidão, podemos dizer sem receio
de errar que o homem, em geral, sempre aspirará a satisfazer
suas necessidades vitais e por isso desenvolverá seus meios
de luta contra a natureza, desenvolverá o trabalho e a ativi-
dade social. Mas como e de que modo satisfazem os homens
suas necessidades? Aqui já não há mais generalidade. Na so-
ciedade feudal, por exemplo, a maioria da sociedade é de
camponeses; os camponeses como tais terão em qualquer
tempo o mesmo modo de adaptação à natureza, por conse-
guinte, os mesmos modos de satisfazer suas necessidades.
Todos os camponeses terão mais ou menos os mesmos inte-
resses (pequenos traços característicos, não tem aqui impor-
tância alguma). A classe camponesa inteira representará um
todo, uma unidade, com certos e determinados interesses, pe-
los quais poderá ser predeterminada a atividade de cada cam-
ponês (aspiração de se libertar do jugo feudal, livre locomo-
ção, conseguir uma propriedade em terras, etc.). Tomando a
classe feudal como tal, poderemos segundo seus interesses
mais ou menos singulares também predizer a aspiração e ati-
vidade de cada senhor feudal (aumentar o seu domínio sobre
as terras, ocupar um lugar superior na hierarquia do poder,
limitar o mais que for possível o poder do rei, escravizar na
mesma medida todos os camponeses, etc.). Tomando a soci-
edade contemporânea, também poderemos fazer o mesmo.
Conhecendo os interesses de cada classe e até mesmo de cada
grupo, não é, portanto, difícil predizer e determinar suas as-
pirações e suas atividades, bem como a dos indivíduos a ela
pertencentes. A classe operária como um todo, porquanto to-
dos os operários se encontram em condições iguais, no sen-
tido de que todos são obrigados a vender o seu trabalho, terá
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

interesses gerais cuja expressão consiste na aspiração de au-


mentar o salário e diminuir a exploração. A classe capitalista,
não obstante divergências internas, também apresentara uma
aspiração geral, como em tudo, determinada por interesses,
que estarão diametralmente opostos aos interesses da classe
operária e terá sua expressão na aspiração de diminuir o sa-
lário dos operários e aumentar a exploração. Nessa direção
determinada irá também a atividade dessas classes na socie-
dade capitalista.
Vemos, portanto, que podemos pré-determinar a dire-
ção que tomará a atividade dos vários grupos sociais. Porque
conhecemos de antemão os motivos de sua atividade. Mais
ainda, conhecemos as causas pelas quais os motivos são de-
terminados, conhecemos os interesses.
Vemos, portanto, que a pergunta: o que determina a
psicologia?, deve ser respondida com: o trabalho em todas as
suas formas, que cria finalmente as condições gerais da vida.
Estando a maioria dos camponeses nas mesmas condições de
trabalho terão por isso a mesma psicologia, embora entre
camponeses possa haver certa diferenciação, isto é, certa
parte dos camponeses começarem a viver em outras condi-
ções de trabalho, mas isso não passará de uma nuance espe-
cial na psicologia dos camponeses. O modo geral da psicolo-
gia camponesa será expresso, por exemplo, no apego à terra,
sentimento de dependência da natureza, amor ao trabalho e
à propriedade, conservantismo de seus costumes e limitação
em seu modo de viver. O camponês diferenciado (o rico, o ku-
lak) também estará debaixo da psicologia geral, possuindo, a
par disto, uma nuance psicológica, como o desejo de aumen-
tar suas terras, aspiração a riqueza, à exploração, etc. O
mesmo se dá com a classe operária. Também terá uma psico-
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logia geral e nuances das camadas diferenciadas, como ope-


rários aristocratas, funcionários, especialistas, etc. Quanto
mais constatamos, que a psicologia é determinada pelas con-
dições de vida (trabalho) de dado indivíduo e que a generali-
dade da psicologia de diversos indivíduos que vivem em con-
dições econômicas idênticas, forma a psicologia de classe,
mais podemos prever a atividade desta ou daquela classe e na
maioria dos casos a atividade individual de seus membros.
Assim, vemos como a questão da liberdade e determi-
nismo é resolvida graças a termos achado os motivos da ati-
vidade humana, e a chave da previsão desses motivos. E tam-
bém, porque conhecemos as causas dos motivos, a fonte de
onde emanaram. Não falamos aqui, por isso da atividade in-
dividual como tal, mas da necessidade, segundo a qual a mai-
oria de uma classe deve manifestar sua atividade, e por isso
podemos prever e adaptar a atividade de uma classe às suas
necessidades.
Está claro que a necessidade histórica não exclui a “li-
vre” atividade humana, mas, ao contrário, é o resultado dessa
atividade “livre”. É nisso que consiste a grande diferença entre
o determinismo na natureza e o determinismo na vida social
e na história. O determinismo na natureza consiste em que
vários fenômenos resultantes de leis naturais (movimento dos
planetas, estações do ano, eclipses solares, etc.) devem reali-
zar-se na natureza. A ciência os pode prever, indicar o tempo
em que se darão, mas o homem não tem no desenvolvimento
deles nenhuma participação. Se o que se passa na vida social
fosse um determinismo do mesmo caráter, o determinismo
social se transformaria em fatalismo. Entre o determinismo
social e natural há, pois, uma grande diferença. Essa diferença
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

consiste em que na natureza tudo se realiza fora de nossa in-


fluência e atividade, enquanto que o determinismo social se
dá graças à nossa atividade.
As leis do determinismo social são, por isso, também
as leis da atividade humana. O determinismo social implica a
atividade humana como um dos seus elementos necessários.
Excluindo esse elemento não haverá determinismo histórico.
Se excluirmos, por exemplo, o proletariado combativo da so-
ciedade capitalista, não haverá então determinismo histórico
do socialismo. Está claro que o proletariado não surgiu do
nada – é consequência determinada pelo desenvolvimento da
técnica –, mas esta última também é revelação da atividade
humana.
Todo o determinismo social consiste na atividade hu-
mana; seu material é um tecido de atividades humanas. A ati-
vidade, porém, é determinada, porque, devido as condições
econômicas objetivas, os motivos da atividade são também
determinados; as próprias condições econômicas são tam-
bém o resultado do estado da técnica, da atividade humana
condensada. As leis da evolução social são expressões das leis
da atividade humana. Podendo prever os atos humanos, isto
é, a atividade social, podemos também estabelecer a marcha
da evolução social e agir no sentido em que se deve realizar.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

Lição XII
Direito e Arte do ponto de vista materialista

Nas lições anteriores esclarecemos os fundamentos do


materialismo histórico. Agora, tentaremos apontar como se
devem explicar fenômenos sociais complexos, pelo método
materialista. Tomaremos por isso dois fenômenos sociais di-
versos, pertencentes ambos à superestrutura da sociedade,
diferindo, porém, quanto ao seu conteúdo. Tomaremos o di-
reito por um lado, e a arte por outro, e tentaremos explicá-los
segundo o método materialista. As ligações existentes entre o
direito, que é uma relação social, e as relações de produção
dominantes na sociedade, são evidentes. Estabelecemos, por
isso, apenas a dependência entre aquelas e estas, para apon-
tar como agem umas sobre as outras. A arte parece estar com-
pletamente desligada das relações de produção. Devemos,
portanto, ver como pode a arte ser explicada materialmente.
Sendo o Estado uma organização da classe dominante,
cujo fim é fortalecer e santificar seu poder fica evidente que o
direito de Estado (direito público) tem suas raízes nas rela-
ções de classe, existentes na sociedade. Sua dependência das
relações de produção e por sua vez da evolução das forças
produtivas é manifesta. Um pouco mais complexa é a ligação
entre o direito civil e as relações de produção. Explicaremos,
portanto, esta questão de modo concreto.
Tomemos um exemplo concreto do direito: o direito de
sucessão, e o analisemos. Vejamos primeiramente se as for-
mas de sucessão foram sempre as mesmas e se o conceito de
sucessão é inato no homem, se brota espontaneamente de
seu ser, isto é, se o direito de sucessão nasce de um conceito
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

interno que o homem possui de que seu filho é a continuação


da sua existência, do seu “eu” (o ponto de vista de direito na-
tural). Neste caso, se o direito de sucessão tivesse crescido
sobre esta base, seria um fenômeno que sempre existiu e que
deve existir sempre. Ou então, se o conceito de sucessão é um
conceito histórico, isto é, surgido em determinada época e
sem ligação com a ideia de continuação da existência dos pais
pelos filhos. Neste caso, se o direito de sucessão é um fenô-
meno histórico, naturalmente não existiu sempre e nem exis-
tirá para sempre.
Se admitirmos que o conceito de sucessão é inato, isto
é, que está ligado à natureza do homem, como poderíamos
explicar a diferença entre o direito do primogênito e o dos de-
mais filhos, entre filhos e filhas, ou entre herdar bens móveis
e imóveis? Explicar as variações do direito de sucessão pelas
leis internas do espírito humano (a princípio, esse espírito jul-
gava que somente filhos ou primogênitos podiam herdar;
mais tarde chegou a admitir que também filhas podem her-
dar), seria uma pura fantasia. O espírito humano deveria en-
tão ser tão multiforme como as próprias formas do direito de
sucessão, entre os vários povos e as várias épocas de sua vida
cultural, devendo mudar constantemente sua forma de exis-
tência. Deve-se procurar então uma solução, para compreen-
der o fenômeno do direito de sucessão e suas modificações.
Em primeiro lugar, é evidente que o direito de suces-
são está intimamente ligado ao direito de propriedade, por-
que o conteúdo daquele nasce deste último. O instituto da
propriedade surge em uma determinada época da evolução da
técnica. Passo a passo, com o desenvolvimento das formas de
propriedade, se desenvolve também o direito de sucessão,
com todas as suas modalidades. Se havia, por exemplo, pouca
terra, foi-se obrigado a limitar o direito de sucessão de todos
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

os filhos, para não desperdiçar a terra. As mulheres que de-


sempenhavam papel de submissão, sem independência, de-
pendentes do seu marido, não gozavam, por isso, do direito
de sucessão. Na sociedade feudal, quando o senhor feudal era
uma espécie de rei em seus domínios, devia ser destacado o
primogênito como sucessor principal, e se formou assim todo
um sistema de sucessão e uma escala de sucessores.
Cada determinada forma de propriedade tinha sua
forma estabelecida de sucessão. Na sociedade burguesa, po-
dendo a propriedade ser representada em dinheiro, em ri-
queza fluente, sem ligação com a produção, já assume o di-
reito de sucessão outra forma diferente da sociedade feudal.
Portanto: o direito de sucessão é, antes de tudo, dependente
do direito de propriedade que é como já sabemos, por sua vez,
dependente da evolução da técnica e das relações de produ-
ção, que se estabelecem na sociedade. É este o método do
materialismo histórico ao observar os múltiplos fenômenos
da sociedade. Deve-se ver primeiramente se o fenômeno é
constante, eterno, e ver de que é que depende e o que deter-
mina sua própria dependência. O mesmo acontece quando às
outras formas de direito e a todo o direito civil e criminal.
Mais difícil será explicar as relações entre a arte e a
evolução das forças produtivas. Deveremos aqui distinguir
primeiramente o lado material da arte e seu conteúdo. As re-
lações entre o lado material da arte e a técnica são evidentes:
tomando, por exemplo, a música, notamos que somente pode
existir e se desenvolver sua riqueza e múltiplas formas com a
existência e evolução da técnica (instrumentos), porque para
a música são necessários instrumentos musicais; isto quer di-
zer, em outras palavras, que a própria arte exige também certa
técnica. Esta se constrói também sobre o trabalho indireto e
sobre a divisão social do trabalho; a forma de trabalho que é
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

aplicada na criação da arte, não obstante ter por finalidade a


satisfação das necessidades estéticas do homem, não está em
contradição com o trabalho da satisfação das necessidades
vitais, porque paralelamente com o desenvolvimento das ne-
cessidades vitais também surgem as necessidades estéticas.
A questão, porém, é: em que consiste o conteúdo da
arte e de que depende? A arte em geral é certa expressão dos
sentimentos humanos – manifestações, aspirações, expres-
são que deve ser corporificada em certa forma harmônica
(forma estética)18. Esta expressão harmônica – pode tomar a
forma de sons, palavras, linhas ou cores – é a arte.
Qual é a causa que determina essas expressões har-
mônicas? É claro que essas estão em primeiro lugar ligadas
às manifestações e aspirações dos próprios homens. A arte
está deste modo íntima e profundamente liga à vida, se assim
não fosse, não expressaria as manifestações e as aspirações
dos homens.
Em uma sociedade mais desenvolvida terão lugar sen-
timentos e aspirações diferentes dos de uma sociedade atra-
sada. Os sentimentos e as aspirações de uma classe oprimida
não são os de uma classe dominante; e desde que a sociedade
deve ser observada como um todo formado de grupos e clas-
ses, com psicologias diversas e, consequentemente, com as-
pirações e sentimentos distintos, o artista somente transmite
os sentimentos e aspirações dos que lhe estão mais próximos,
com os quais está ligado e convive ou, em outros termos: dos
do seu grupo ou sua classe, É pois, claro que, em diferentes

18. Aqui não nos deteremos na gênese da arte em sua relação com o traba-
lho. Também não iremos falar do papel dos jogos na origem e desenvolvi-
mento da arte. Isso nos tomaria muito tempo. Queremos somente estabelecer
aqui a ligação entre a arte e as relações sociais e deste modo sua dependên-
cia da evolução das forças produtivas e das relações de produção.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

épocas, o conteúdo da arte se modifica de acordo com as mu-


danças e as alterações das sensações e do papel de vários
grupos sociais.
Há, porém, outro fenômeno importante que também
deve ser acentuado. A arte só pode ser criada em uma socie-
dade que se acha em certo grau de evolução do trabalho in-
direto e da divisão social do trabalho. Os próprios artistas a
princípio não poderão sair do meio daqueles que trabalham
sempre para satisfazer suas necessidades vitais; os artistas
por isso são recrutados nas camadas sociais que dispõe de
mais tempo sendo mais livres e mais despreocupados. Assim,
expressarão antes das manifestações, sentimentos e aspira-
ções daqueles entre os quais se encontram e com os quais
convivem e sentem, isto é, da sua camada social. A arte, por
esta razão, será naturalmente por seu conteúdo uma arte de
classe. Além disso, a arte servirá não só como expressão har-
mônica de sentimentos dados na evolução da humanidade,
como também poderá fortalecer certas formas da vida social
ou para sua modificação, ou ainda, para sua substituição. O
conteúdo e caráter da arte ainda mais se ligará aos interesses
e exigências da classe que mais se destaca, servindo como
meio de fortalecer as posições e as condições sociais em que
se encontra. De uma arte inconsciente de classe ou, em ou-
tros termos, da arte de certa classe, se transforma pela evolu-
ção posterior, em consciente arte de classe, isto é, em uma
arte que serve aos interesses de determinada classe.
Dado que a arte é uma forma de expressões harmôni-
cas, terá sempre essa feição, porque sem o elemento de har-
monia nunca haverá arte, mas o conteúdo da arte correspon-
derá, de um lado, ao estado geral da sociedade dada e, de ou-
tro, será ditado pelas condições e aspirações da classe que a
destaca.
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

●●●

Na primeira fase da evolução humana, na sociedade


em que já se destacam chefes, mas onde ainda não há grupos
bem diferenciados nem luta, teremos aí uma arte que apre-
senta ainda, em certo sentido, caráter popular (a Ilíada de Ho-
mero e as lendas em geral). Essa arte, cantará os atos heroi-
cos dos chefes amados (dirigentes) e também da massa, entre
os quais ainda não existia o abismo entre ricos e pobres (na
Rússia foram as biliné, lendas que descrevem atos heroicos
das massas). Em uma fase posterior da divisão do trabalho, já
teremos uma arte de classes dirigentes, que cantará sua vida,
lutas e aspirações e que idealizará em certo sentido a ordem
existente em dada sociedade. Mas, ao mesmo tempo, já se
pode encontrar em estado embrionário um começo de arte
nas classes oprimidas. Essa arte não pode comparar à arte
dominante pelo seu conteúdo harmônico, mas já é um reflexo
da vida e luta das classes oprimidas (sátiras sobre as classes
dominantes, etc.).
Na evolução posterior da sociedade começa a classe
dirigente a degenerar, a esfacelar-se; torna-se um elemento
parasitário e a arte dos oprimidos começa a se evidenciar e
fortalecer-se com elementos novos. Nessa nova arte encon-
tramos sátiras ásperas sobre as formas caducas e manifesta-
ção de certa simpatia com a nova ordem (operamos aqui no
campo literário da arte, por ser mais fácil ilustrar certos mo-
mentos).
Devemos notar que lentamente se dá certa evolução
no conteúdo dos próprios sentimentos harmônicos. Os senti-
mentos harmônicos não são constantes, eternos. Nem sem-
pre e em toda parte são sentimentos harmônicos os mesmos
O Materialismo Histórico em 14 Lições L. A. Tckeskiss

(gostos estéticos). Os sentimentos dependem do estado geral


da cultura da sociedade dada, com suas imaginações. Mas a
princípio, é difícil encontrar o conteúdo social da própria es-
tética. Deve-se analisar, aqui, a arte por épocas. Em época de
decadência, degeneração e crepúsculo, são os sentimentos
harmônicos reflexo de abatimento moral, pessimismos, me-
lancolias, ascetismo, etc. Em época de renascimento, são
contrários aos da época de decadência: exprimem a aspiração
de combates e lutas, de gritos de conquista e entusiasmo, etc.
Em época de declínio, encontramos a decadência e o roman-
tismo. No que concerne ao conteúdo da arte, a própria des-
crição e não a sua forma harmônica (estética), está mais inti-
mamente ligada à época dada da evolução social e à classe ou
grupo que representa19.
Podemos, portanto, estabelecer que a arte, refletindo a
vida, as aspirações e as ideias de certa classe, tem sua exis-
tência completamente ligada a técnica e em sua forma e con-
teúdo depende do desenvolvimento das relações sociais e
deste modo também da evolução das forças produtivas. Entre
a arte e as forças produtivas é necessário passar por uma gra-
dação completa de várias fases: forças produtivas, relações de
produção, relações sociais, manifestações psicológicas e sua
expressão harmônica então, chegaremos à arte.

19. Tchernichevski tentou explicar a estética em geral do ponto de vista mate-


rialista, em certo sentido. Escreveu uma dissertação sobre estética na qual
demonstrou que o conceito do “belo” depende das condições de vida (o con-
ceito de uma moça bonita não é o mesmo na aldeia ou na cidade, na Rússia
ou em Paris). O conteúdo de beleza depende da sociedade em geral e da
classe em particular. O mesmo se dá em relação à música e à escultura
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Lição XIII
A Religião do ponto de vista materialista

Em nossa lição não nos ocuparemos com questões so-


bre a história da religião e as causas das diversas formas de
religiões existentes entre os povos primitivos. Tentaremos ex-
plicar a gênese, o conteúdo social e o papel que a religião de-
sempenhou na história da humanidade.
A religião é, por um lado, o resultado da necessidade
que teve o homem de compreender e conhecer os fenômenos
da natureza, dos quais dependia inteiramente, por outro lado,
da sua inexperiência e incapacidade em compreendê-los. A
influência do homem primitivo, pouco desenvolvido e inexpe-
riente, sobre a natureza foi muito limitada – o homem só co-
nhecia a natureza externa pela sua influência sobre ele. O ho-
mem primitivo sentia a cada passo sua submissão ao mundo
exterior, aos fenômenos do meio em que estava. A princípio
procurou meios de dominá-los, submetê-los a si. Nasceu en-
tão a necessidade de conhecer o mundo circundante e com-
preendê-lo. E não fazendo distinção entre ele próprio e os ou-
tros fenômenos da natureza, humaniza então a natureza,
como diz Feuerbach (animismo).
Sendo as relações sociais de então muito estreitas, li-
mitadas aos ramos de parentesco de sangue, procurou o ho-
mem por meio dessas relações, explicar os fenômenos da na-
tureza. As faces “más” da natureza, as apreciava como ruins
para ele e os mesmos meios que empregava para evitar o lado
mau nas relações com outros homens, empregava também
para com os “maus” elementos da natureza. E quando na so-
ciedade surgiu a diferenciação de seus membros, quando a
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divisão social do trabalho tornou possível a certos membros


o se destacarem, ocuparem lugar saliente, começarem a do-
minar – foi então, que o homem primitivo começou a “divini-
zar” os fenômenos importantes da natureza, submetendo-se
a estes. Todos os fenômenos impressionantes tornaram-se
para ele revelação de grandes forças “dominadoras”, como
“Deuses”. E cada fenômeno importante que atrai sua atenção,
o explica por uma força boa ou má, segundo sua significação
para ele. Desse modo agrupou os fenômenos naturais em
deuses grandes, bons e maus, etc.
Nessa tentativa de explicar a natureza e seus fenôme-
nos é que está a gênese da religião e da ciência. Dessas expli-
cações começa a nascer a concepção do mundo, do homem
primitivo. A princípio, a religião abrange no círculo de sua in-
fluência todos os fenômenos da natureza. Com a evolução da
sociedade começaram a destacar-se diversos fenômenos, e
alguns colocam-se até em oposição a esta, tornando-se seus
adversários e provocando sua destruição. Este fenômeno é
que deve ser analisado mais profundamente.
Quando o homem começou a interessar-se por certo
fenômeno, começou ele desde então a observá-lo, atribuindo-
o a uma certa força que está acima do homem e que o domina.
Como o homem primitivo era muito fraco na luta contra a na-
tureza, considerava quase todos os fenômenos como forças
superiores, divinas, que agem sobre ele e sobre as quais não
sabe como agir. Nisso já há uma contradição entre a religião
e a ciência na primeira época do desenvolvimento da religião.
Com efeito, desde que determinado fenômeno atrai a atenção
do homem, tem que investigá-lo mas, por outro lado, atribu-
indo a causa desse fenômeno a uma força divina superior, se
opõe com isso ao estudo do dado fenômeno, impedindo desse
modo os primeiros passos da ciência, porque a ciência exige
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a investigação do fenômeno, isto é, achar a ligação do fenô-


meno dado com outros fenômenos; mas, se a causa do fenô-
meno é atribuída a uma força divina, desaparece com isso a
possibilidade de que esteja ligado a outros fenômenos ou
causas.
Temos, portanto, aqui dois momentos: 1º) o momento
de observar e estudar os fenômenos, 2º) o momento de ex-
plicá-los, que impede a investigação. Na evolução posterior
da religião, sai por completo da sua competência o primeiro
momento, ficando somente nesta, o segundo, isto é, o mo-
mento de explicar os fenômenos, o que já não podia levar a
nenhum progresso, mas, pelo contrário, impedi-lo.
Esta contradição desenvolvia-se cada vez mais no de-
curso do desenvolvimento da ideologia: a observação e o co-
nhecimento (na fase da experiência), avançam em direção à
ciência, e a explicação, em direção a religião. Temos aqui a
marcha da evolução, segundo a tríade de Hegel. A tese, isto é,
a explicação dos fenômenos, atribuindo-os a forças sobrena-
turais, sobre as quais o homem não pode agir; a antítese, isto
é a observação, o conhecimento, e na base da experiência,
investigação dos fenômenos, submetendo-os a si, ou aprovei-
tando-os para os interesses da humanidade; a síntese, isto é,
uma nova espécie de explicação dos fenômenos que não os
atribui mais a forças sobrenaturais, mas que se baseia na ex-
plicação científica e na experiência. O elemento da fé existe
na síntese, porque, por isso mesmo que se baseia na ciência,
acredita que esta deverá abranger com o tempo, no círculo
das suas explicações, todos os fenômenos do mundo, orgâni-
cos e inorgânicos, e dominá-los. Uma tal fé é um elemento
positivo no progresso da ciência.
Mas a ideologia não se desenvolvia de modo tão sim-
ples, onde a tríade se apresentasse tão facilmente. Uma coisa,
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como uma ideologia acha-se, em seu desenvolvimento, inti-


mamente ligada às relações sociais e torna-se dependente de-
las. Se assim não fosse, somente como no seu início, tentativa
de acumular experiências e explicar os fenômenos, e se evo-
luísse somente segundo essa lógica, haveria já centenas de
anos que a religião teria sido substituída pela ciência. Assim,
porém, não aconteceu e nem poderia ter acontecido. A reli-
gião, em seu desenvolvimento, desligou-se de seu conteúdo
lógico, colocando-se a serviço desta ou daquela classe, ou ca-
madas, em suas lutas pelo poder e domínio. Diferentes cam-
pos da religião começam a desligar-se e destacar-se dela, de-
senvolvendo-se segundo sua própria marcha. Mas a parte
principal e mais influente, ligou-se a este ou aquele domínio
de classe.
Ao estudar a história da religião, nota-se, de um lado,
a formação de certos ramos que se desligam aos poucos da
religião e formam a base da ciência e, por outro lado, observa-
se que a parte explicativa da religião permanece. A “religião”,
no sentido atual da palavra, se acha ligada à correspondente
organização social, a Igreja, colocando-se a serviço das clas-
ses dominantes, como meio de escravização e de obscuran-
tismo.
Vimos que a religião em seu início foi uma tentativa de
explicar o incompreensível que circundava o homem primi-
tivo. Essa explicação atribuía aos fenômenos naturais as rela-
ções reinantes na convivência dos homens. Na sociedade, o
homem podia evitar certos atos prejudiciais a ele pelo su-
borno do chefe supremo, por exemplo, o patriarca. Esse fato
o homem transportou aos fenômenos da natureza, no sentido
de poder evitar também as más ações da natureza, subor-
nando os deuses. A religião é, assim, não só uma imagem,
uma fé, um estado psicológico do homem, como também se
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torna causa da atividade do homem, em se subordinar à na-


tureza. Cada religião devia ter, portanto, um culto. A religião
primitiva não era uma crença abstrata, esta exigia atos e ati-
vidade. O culto em diferentes épocas podia adotar formas di-
ferentes, o seu conteúdo, porém, era sempre a divinização de
certas forças, que exigem, segundo a imaginação humana,
certa atividade humana que se expressa em trazer sacrifícios,
preces, ao Deus dominante, para facilitar a vida do homem, e
conseguir coisas que lhe eram necessárias. A finalidade do
culto é submeter a si as forças naturais que agem sobre o ho-
mem. É por isso que as forças naturais não existiam para o
homem primitivo como unidade, mas como forças distintas;
esforçou-se por subordinar cada fenômeno isoladamente,
para adaptar-se a eles e explorá-los. O conteúdo da religião,
o culto, pode por isso ser considerado, do ponto de vista bi-
ossociológico, como uma suposta adaptação do homem à na-
tureza, que naturalmente nenhum resultado prático trazia.
É evidente que quanto mais experiências o homem
acumula, mais deixa de explicar teologicamente os fenôme-
nos. Começa a interpretar cientificamente os fenômenos, e
começa o processo histórico de se destacarem diversos cam-
pos, que saem do domínio da religião.
Como se realiza este processo?
Sabemos pela história da religião que ela esteve ligada
à feitiçaria.
O homem primitivo, por um lado, sofria por certos fe-
nômenos da natureza externa, os quais atribuía a certos deu-
ses, mas por outro lado, sentia também às vezes, dores inter-
nas, cuja origem não compreendia, porque não via sua causa
na natureza e, enquanto procurava evitar os sofrimentos ex-
teriores, subordinando a Deus, por meio de sacrifícios ou pre-
ces, procurava evitar as dores interiores por meio de ervas ou
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passes de mágicos feiticeiros. Deste modo, ficaram ligados os


dois momentos. Os que acumularam mais experiências pude-
ram auxiliar outros homens, em suas dores; tornam-se os in-
termediários entre o homem e as forças da natureza externa,
ou dos deuses, passando a ser dirigentes e executores do
culto. A atividade que está ligada ao culto se destaca do tra-
balho comum. O culto pode somente ser exercido por deter-
minado grupo social. O mágico liga-se ao sacerdote e se torna
o intermediário entre Deus e o homem.
A religião, em seu início e até mesmo em sua evolução
posterior, procura abranger todos os fenômenos da natureza.
Porquanto representa o culto, reflete as relações sociais,
torna-se por isso cada vez mais complexa e cresce juntamente
com a evolução social e seu desenvolvimento assume uma
forma especial: isso porque, fenômenos simples que podem
ser observados e por isso mesmo estudados, se destacam e
são estudados cientificamente. A religião deixa, por isso, de
explicar certos fenômenos naturais pela vontade de Deus. Se
na sociedade patriarcal a religião abrange a todos os fenôme-
nos naturais e sociais e suas explicações são demasiadamente
simplistas, é porque a vida é também simples. Ao considerar-
mos, porém, a atual religião, notamos que, de um lado, para-
lelamente com a complexidade das relações sociais, a religião
também se torna cada vez mais complexa, e, por outro, se
destacam da religião os fenômenos físicos, químicos e até bi-
ológicos, que se tornam objeto de estudos científicos. Na re-
ligião só permanecem os fenômenos que tem ligação com o
espírito humano e os fenômenos sociais, porque a sociedade
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burguesa tem interesse na explicação religiosa (teológica) dos


fenômenos sociais20.
Esta é uma marcha geral do desenvolvimento da reli-
gião, que depende, de um lado, do desenvolvimento da ciên-
cia e, de outro, das relações sociais. Os dois momentos se en-
trelaçam intimamente, mas não se pode fundir, porque seus
conteúdos são opostos. O desenvolvimento da ciência pro-
voca a morte da religião, os interesses das classes dominan-
tes, exigem o fortalecimento da religião para que as grandes
massas continuem sob seu domínio. Mas apesar disso, uma
vez que a evolução das forças produtivas exige o desenvolvi-
mento da ciência, já a burguesia não pode impedir seu desen-
volvimento, pode apenas impor-lhe certos limites, sendo-lhe
impossível detê-la. Desta forma, acontece que, juntamente
com o desenvolvimento da ciência, desenvolve-se a oposição
à religião. A religião surgiu da necessidade de explicar a com-
preender os fenômenos naturais; da busca de explicação a es-
ses fenômenos foi que se constituiu o início da ciência. Mas
com o decorrer do tempo, esta última abrange cada vez mais
fenômenos, e se torna por isso cada vez mais largo seu campo
e estreito o campo da religião, até que chegara uma época em
que não reste mais lugar para esta.
Costuma-se até mesmo conscientemente confundir re-
ligiosidade com certas manifestações humanas, como êxtase
e a admiração. Com esta confusão pretende-se fortalecer a
religião.
Do ponto de vista materialista, tal fenômeno não tem
nenhuma ligação lógica. Quando o homem se coloca ante a

20. Devemos observar que ultimamente nota-se entre a burguesia uma ten-
dência em manter as massas na ignorância, rejeitando a explicação científica
até mesmo dos fenômenos naturais mais conhecidos para ligá-los à religião.
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natureza, da qual representa uma partícula ínfima, quando al-


cança e abrange a infinidade do universo maravilhoso, forma-
se no seu íntimo certo êxtase e admiração.
Este estado contemplativo é o resultado de que o ho-
mem pode abranger com seu espírito a grandeza, sem saber
de onde vem, nem para onde vai. Tal estado de êxtase existirá,
talvez, sempre; o homem sempre admirará a natureza e essa
admiração crescerá mesmo com o desenvolvimento da ciên-
cia, porque esta mostra ao homem cada vez mais grandezas
e infinitos da natureza e lhe dá de mais em mais possibilida-
des de submetê-la a si, aumentando dessa forma seu domí-
nio.
A religião, pelo contrário, está sempre ligada ao culto
em várias formas. Ela se acha ligada à submissão do homem
a uma força superior a ele e que por isso pode ser submetida.
Uma tal crença tem por isso de provocar um sentimento de
impotência e submissão do homem, e levá-lo rapidamente ao
desprezo de si próprio e ao fatalismo.
A religião devera por isso morrer, juntamente com a
evolução da ciência e com o aniquilamento da sociedade de
classes. Os dominantes do céu serão destronados juntamente
com os dominantes da terra.
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Lição XIV
As grandes personalidades na História

Em nossa última lição analisaremos o papel das gran-


des personalidades e das causalidades, na história, do ponto
de vista materialista.
O desenvolvimento da história está ligado a certos
acontecimentos históricos, nos quais certas personalidades,
de um lado, e certas casualidades, por outro, desempenham
geralmente papel importante. É esse papel que devemos in-
vestigar.
Falando dos acontecimentos históricos que reúnem
muitos indivíduos (como revoluções, guerras, etc.), não trata-
remos de indivíduos, mas de coletividades, e já sabemos que
a psicologia individual está comprometida na psicologia co-
letiva. Não podemos deixar de lado o fato de grandes perso-
nalidades desempenharem às vezes papel importante nesses
acontecimentos. Ainda mais: esta ou aquela personalidade
pode deixar de fato sinais de si, sobre a época em que vive ou
atua. Não podemos negar, por exemplo, que Marx tem na his-
tória do movimento operário um dos mais importantes pa-
peis; que idêntica influência exerceu em seu tempo, por exem-
plo, Napoleão, nos acontecimentos da França e Lenin no de-
senvolvimento da Revolução Russa. Surge então a pergunta:
em que consiste o papel dessas personalidades e como se ex-
plica sua importância e, por outro lado, se o fato, de desem-
penharem eles, papel importante não estará em contradição
com os fundamentos do materialismo histórico. Sabemos
mais, que em certos momentos sucedem, na vida da socie-
dade, casualmente, devido ao encontro de diversas causas,
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grandes e importantes acontecimentos. Este ou aquele in-


tento pode, de certa maneira, imprimir certa direção ao de-
senvolvimento posterior da sociedade (estando alguns cien-
tistas pesquisando os meios de conseguir alimentos artifici-
ais, imaginemos que na Rússia, determinado cientista consiga
descobrir agora esses meios; um tal acontecimento viria co-
locar a Revolução Russa em caminhos bem diversos e abriria
a ela perspectivas completamente diferentes)21.
Essa questão do papel das personalidades e casualida-
des na história deve ser explicada cientificamente, pois sendo
impossível prever quais personalidades irão nascer e quais
causalidades irão acontecer, isso que não se poderia de forma
alguma, prever a marcha da evolução.
Para responder com correção essa questão, deve-se
analisar o fenômeno das personalidades e casualidades e ver
de que elementos são formados e em que consiste sua ação
na história.
Vejamos a personalidade de Napoleão; por que se des-
tacou da média de todos os homens, e em que consistia a su-
perioridade.
Napoleão foi um grande estrategista e, graças à sua
vontade forte e à sua enorme energia, exerceu grande influên-
cia sobre outros homens e pode dirigi-los. Com isso ele se
destacou da massa circulante. Exatamente na época em que
Napoleão surgia no palco da história, a França encontrava-se
em uma situação em que essa extraordinária habilidade pôde
ser aproveitada (caso, por exemplo, Napoleão tivesse existido
cinquenta anos antes, suas habilidades estratégicas não se-
riam aproveitadas e não seria um “Napoleão”). Para que seu

21. Estas lições foram dadas em 1921 na época da fome na Rússia.


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talento estratégico pudesse aparecer e ser devidamente apro-


veitado, Napoleão teve que viver em determinada época cor-
respondente. Mas a época da Revolução Francesa não foi por
ele criada, antes, essa o criou como tal, e Napoleão, como
personalidade, é por isso um produto de sua época. Portanto:
para que as grandes personalidades possam ser aproveitadas,
devem antes de tudo ter nascido em uma época correspon-
dente. Somente a Revolução Francesa que colocou no poder
a burguesia comercial e industrial, com suas aspirações natu-
rais e vitais de expansão, deu lugar a que se manifestasse o
talento de Napoleão. Se não houvesse uma pessoa tão hábil
como Napoleão, não haveria talvez tantas vitórias, mas a
França, com as suas aspirações expansivas de então, seria tal,
com ou sem Napoleão; por outro lado devido à supremacia
técnica da Inglaterra na situação econômica e política inter-
nacional, a França, mesmo com Napoleão, teve, finalmente,
que perder a guerra. Além disso, deve-se tomar em conside-
ração que Napoleão recebeu certa educação, teve certas
ideias, realizou certas aspirações. Tudo isso não foi tomado
fora da sociedade. Ao contrário, era o resultado do estado ge-
ral da sociedade francesa daquela época. Dessa forma, acon-
tece que Napoleão se tornou “Napoleão” devido às condições
sociais da época em que vivia. A própria personalidade é em
sua maior parte o resultado das relações sociais, do meio so-
cial, que são determinadas, em última análise, pelas relações
de produção.
O mesmo se pode dizer de Lenin, que é um dos maio-
res estrategistas no campo da luta de classes e que possui
uma vontade férrea e uma energia inquebrantável, e cuja in-
fluência sobre as massas é colossal22. O saber de Lenin e sua

22. No presente por ter sido escrito em 1921 e Lenin ter morrido em 1924.
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estratégia deram-lhe a possibilidade de manobrar magistral-


mente entre diversos grupos e classes sociais, precisar o es-
tado da luta e a combatividade de cada classe. Sua vontade
férrea e sua energia inquebrantável deram-lhe a possibilidade
de constituir um partido comunista tão forte e consequente
como o nosso.
Não foi Lenin quem criou a Revolução Russa, mas a
Revolução Russa o criou. Somente alguns aspectos da revo-
lução Russa é que trazem a marca de Lenin, e se tais traços
individuais emprestam à Revolução certa fisionomia, sua
marcha geral, porém, é determinada pela atividade das gran-
des massas operárias e camponesas. Somente os camponeses
descontentes, por um lado, e a forjada combatividade do ope-
rariado por outro, e a guerra, a crise no organismo capitalista,
somente esses três fatores é que puderam ter determinado a
Revolução. Lenin sabia muito bem investigar o pulso da Re-
volução, sabia como manobrar. Em geral, porém, sua marcha
é determinada pela coletividade, pelas grandes massas e seus
interesses. O mesmo pode se dizer do papel de Marx no mo-
vimento operário mundial, sobre o qual em determinado sen-
tido deixou sua marca individual.
Também podemos apreciar o papel das grandes perso-
nalidades e outro ponto de vista. Sendo a história toda, resul-
tado da atividade humana (“são os homens que fazem a his-
tória”, disse muito bem Engels), acontece que cada indivíduo
desempenha um papel na história, pois que a atividade cole-
tiva nada mais é do que a soma de atos individuais. Nesse
sentido, se diz que com certo ato ou com a soma de certos
atos, começa uma nova época na história. A diferença entre a
atividade (atos) de uma grande personalidade e a da média
dos membros da sociedade é quantitativa e não qualitativa,
mas a quantidade às vezes se transforma em qualidade e os
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atos das grandes personalidades podem se tornar inícios de


grandes modificações ou revoluções, que o trabalho anterior
dos homens médios havia preparado. Os grandes homens es-
tão como que impregnados da energia de atos de milhares e
milhões de homens das massas que os preparam. Tirem-lhes,
porém, essa energia potencial e ficam eles (os atos dos gran-
des homens) sem força, e perdem sua significação.
Se ao invés de épocas inteiras tomarmos diferentes
momentos em distintas épocas, veremos que cada momento
tem sua fisionomia. Essa fisionomia é em certa medida deter-
minada pela atividade de personalidades que se destacam
mais ou menos da média dos homens. A diferença aqui está
somente no âmbito, na grandeza da atividade desta ou da-
quela personalidade e na proporção dos resultados. O papel
dos grandes homens no conjunto dos acontecimentos é, por
isso, limitado aos traços e cores individuais nos acontecimen-
tos dados, e sendo que, na história, afinal não são traços e
cores individuais que desempenham o papel mais importante,
mas sim o conteúdo e a própria forma dos acontecimentos,
claro está que o papel de um grande homem é proporcional-
mente pequeno na história.
Desta forma, podemos estabelecer que, segundo o
ponto de vista materialista, não é completamente afastado e
negado o papel de certas grandes e até pequenas personali-
dades. O materialismo histórico somente esclarece em que
consiste essa atividade, o que a provoca e determina. A dife-
rença entre grandes e menores personalidades está apenas na
quantidade, mas não na qualidade, porque grandes persona-
lidades não criam condições gerais, ao contrário elas próprias
(os grandes homens) são criadas pelas condições e provoca-
das pelos acontecimentos.
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O mesmo se deve dizer também dos importantes acon-


tecimentos casuais. Esses desempenham papel na história,
representam um acontecimento histórico somente quando o
terreno social está preparado para que possam despertar as
forças letárgicas e a energia potencial. Sem isso, passam des-
percebidos na história. O descobrimento, por exemplo, de
certa lei natural, só se poderá dar quando a ciência o preparou
e só pode tornar-se um fator influente no momento em que a
sociedade pode e deve aproveitá-lo.
O materialismo histórico traz no conjunto de suas ex-
plicações o papel e a influência de grandes personalidades e
de casualidades importantes. Os grandes acontecimentos nos
servem para destacar na história épocas distintas; as grandes
personalidades para compreender traços individuais contidos
na história. O materialismo histórico tem sua maior significa-
ção em chamar o homem à ação. Tendo encontrado as leis da
evolução social, vê quais as classes que podem progredir e
lhes dá a consciência, a tocha que iluminará seu caminho his-
tórico revolucionário.
Até os últimos tempos os filósofos se esforçaram para
compreender o mundo; agora, porém, apresenta-se diante da
filosofia o problema de reconstruir o mundo, disse Marx. No
materialismo histórico Marx sintetizou a compreensão da
evolução da sociedade com a vontade modificá-la e nos deu
o instrumento para essa modificação. O materialismo histó-
rico tornou-se deste modo uma filosofia e um instrumento da
classe operária e revolucionária, em sua luta pela libertação e
na sua tentativa de formar um mundo novo.

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