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XVI

A ESPIRITUALIDADE E A
EXPERIÊNCIA COMUNITÁRIA
COMUNHÃO COM O S ANTO
NA COMUNHÃO COM OS SANTOS

Eduardo Rosa Pedreira


É escritor e pastor da
Comunidade
Presbiteriana da Barra

O
da Tijuca, no Rio de
Janeiro. Doutor em
pai se levantou no meio da reunião e decla-
teologia na área de
Espiritualidade pela rou, de maneira absolutamente comovedora, que no
Pontifícia Universidade período mais crítico do vício que seu filho enfren-
Católica (PUC), é tou, ele sentiu um desejo insistente de matá-lo. Pre-
professor de Ética senciei tão libertadora confissão quando dei suporte
Corporativa e espiritual aos dependentes químicos de uma clínica,
Responsabilidade
o que também me deu a oportunidade de freqüentar
Social das Empresas na
reuniões de seus familiares.
Fundação Getúlio
Vargas. Leciona Ética e
Acostumado com as reuniões na igreja, onde qua-
Espiritualidade no se sempre a confissão é uma dolorosa ausência,
Seminário Batista do inicialmente fiquei chocado com o intenso desnuda-
Sul do Brasil. mento emocional, tanto dos que lutavam contra o
vício escravizador de suas vontades quanto dos fa-
miliares, cansados de muitas recaídas, feridas, dores
causadas por aquela odiada dependência. Nunca, em
todos os meus mais de quinze anos como pastor,
ouvi, em tão curto período de tempo, tantas confis-
sões públicas.
O curioso é que aquelas reuniões não carregavam
nenhuma bandeira religiosa, tampouco ouvia-se uma
linguagem evangélica e muito menos um declarado
objetivo espiritual. Porém, a ausência destes elemen-
tos não significava a ausência de Deus — ao contrário,

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A ESPIRITUALIDADE E A EXPERIÊNCIA COMUNITÁRIA

quando se penetrava mais nas entranhas daqueles fascinantes encontros,


descobria-se uma profunda experiência comunitária, marcada pela forte
presença da espiritualidade.
Daqueles encontros, que hoje moram em meu passado, ficou uma con-
clusão que me baliza o presente e o futuro: a Igreja institucional, conforme
a conhecemos, não é o único espaço onde a espiritualidade cristã se expres-
sa comunitariamente. Em outras palavras: a Igreja, na forma como hoje se
apresenta no Brasil, não constitui o único caminho possível para vivermos a
espiritualidade cristã de maneira comunitária.
O conteúdo da espiritualidade cristã é tão rica quanto suas várias ma-
neiras de se expressar comunitariamente. Embora exista uma variedade de
experiências comunitárias pelas quais a espiritualidade cristã está pre-
sente, não se pode reconhecê-las como eclesiásticas!
Faço questão de, logo neste primeiro momento de nossa reflexão, não
reduzir a experiência comunitária à igreja, por saber que, na maioria das
vezes, a redução é, em si mesma, empobrecedora, ainda mais neste caso.
Além disso, muitos de nós passamos por experiências amargas o suficiente
com a igreja para ver afetada nossa espiritualidade. Não são poucos aque-
les que viram seu vigor espiritual esvair-se por conta das tramas políticas,
dos dramas institucionais, da superficialidade teológica, da corrosão do ca-
ráter, da pobreza relacional, da irrelevância transformadora que muito mar-
ca a caminhada da Igreja em nosso país.
Com isso, um número significativo de irmãos encontra-se mergulhado
em uma ressaca eclesiástica, fruto do desencantamento e mesmo da descren-
ça na capacidade da Igreja de propiciar verdadeira espiritualidade. É de den-
tro dessa ressaca que provêm sérias interrogações quanto à necessidade da
igreja local no processo de vivência da espiritualidade cristã: Por que não
cultivar minha espiritualidade no silêncio de meu quarto, na interioridade,
numa perspectiva privada, sem necessidade de ritos, liturgias, instituições,
dias e espaços sagrados? Por que não assumir pessoalmente um sacerdó-
cio cotidiano que me foi dado por Deus, sem a necessidade de pastores,
bispos, apóstolos? Por que não ser apenas discípulo de Jesus, sem ter de
adicionar a minha identidade de fé um nome, uma denominação, um

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COMUNHÃO COM O SANTO NA COMUNHÃO COM OS SANTOS

símbolo institucional? A igreja é uma fonte viva, capaz de fazer viver minha
espiritualidade? Ou ela é o túmulo da minha relação com Deus? No fim
das contas, a igreja, com sua humanidade, seus ranços e suas institucionali-
zações, não seria um forte fator de arrefecimento do vigor de nossa paixão
espiritual por Deus?
Essas e tantas outras questões inquietantes encontraram um forte eco
na experiência de Philip Yancey, relatada em seu livro Alma sobrevivente. Desde
o título, este é um livro capaz de reverberar com brilhantismo e elegância
literária o processo de desencantamento eclesiástico que estamos descre-
vendo.
Yancey considera-se sobrevivente de uma relação com a Igreja que teve o
potencial de cegar seu discernimento, enrijecer seus preconceitos e mesmo
minar uma autêntica relação com Deus e sua graça. Quem o resgata dessa
triste experiência comunitária são, entre outras, algumas pessoas que não
necessariamente estavam ligadas à Igreja, ou mesmo ao cristianismo. Elas,
porém, se tornaram faróis teológicos e existenciais com quem, seja através de
contato pessoal seja da literatura, ele estabeleceu um vínculo espiritual muito
além das pobres fronteiras estabelecidas pelas igrejas por que ele passou!
Tudo isso só confirma aquilo que já é lugar-comum em nosso saber: a
instituição Igreja não dá conta de preencher plenamente os profundos anseios
e as necessidades da alma humana no que diz respeito à espiritualidade!
Superadas ou reconhecidas as possíveis dificuldades que a Igreja possa
nos oferecer, o fato é que a espiritualidade cristã precisa desembocar neces-
sariamente numa experiência comunitária, pois há uma relação intrínseca,
visceral, complexa e instigante entre essas duas realidades. Uma não pode
ser vivida sem a outra, posto que elas se alimentam, se reclamam, se com-
pletam.
Pode ser que encontremos, dentro de outras tradições religiosas não cris-
tãs, uma ausência desta relação. Todavia, a espiritualidade cristã não pode
prescindir da experiência comunitária, sob pena de se desfigurar ou mesmo
se reduzir.
Diante de tal percepção, pergunta-se: quais bases bíblicas e teológicas
sustentam essa relação? Como ela se dá? Quais são as características e as

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dinâmicas próprias? Esboçamos aqui algumas respostas a estas questões,


por entender que não basta afirmar que a espiritualidade cristã deve de-
sembocar numa experiência comunitária. Faz-se necessário criar um alicer-
ce sobre o qual possamos apoiar solidamente tal convicção.

A ESPIRITUALIDADE CRISTÃ TEM SUA ORIGEM


E PLENITUDE EM UM D EUS RELACIONAL

É curioso notar que na Bíblia encontram-se reveladas pelo menos três ma-
neiras de perceber a Deus. Estas percepções de Deus terminaram por fun-
dar igualmente três modelos de espiritualidade. Não poderia ser diferente,
pois nossa visão de Deus determinará nosso modelo de espiritualidade.
Cada uma dessas visões e seus respectivos modelos foram vividos a seu
tempo, por diferentes protagonistas.

A visão politeísta e o modelo utilitarista: predominou fortemente nos


povos pagãos do Antigo Testamento, cuja espiritualidade alimentava-se dos
muitos e diferentes deuses. Aqueles deuses nada mais eram que um subpro-
duto das necessidades dos povos, uma fantasia divina criada para satisfazer
carências humanas. Tal visão de Deus não poderia gerar outro modelo de
espiritualidade senão o utilitarista, que se resumia exclusivamente na troca de
favores entre os adoradores e a divindade adorada.
Este modelo utilitarista revelou-se também ritualista, pois se limitava a
satisfazer os deuses, através de ritos, liturgias e cultos, para obter favores
pessoais, sem que se manifestasse nenhuma relação além da ritual. Este
modelo não ficou enterrado no passado bíblico — ao contrário, encontra-se
presente hoje de forma vigorosa, caracterizando nosso tempo chamado “pós-
moderno”, marcando a jornada espiritual de muita gente, dentro e fora da
Igreja.

A visão monoteísta e o modelo relacional: vivenciado pelo povo de Is-


rael em sua relação de adoração com Javé, nome e face de Deus revelada no
Antigo Testamento. O Deus de Israel revelou-se a seu povo, deu-se a conhe-
cer, convidando-o a superar o ritualismo, a superficialidade e o utilitarismo.
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