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AS MANIFESTAÇÕES DA SINDROME DA ADOLÊSCENCIA


NORMAL

Elisson Felipe de Oliveira¹; Mariana Harumi S. Fugikawa²


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Graduando Curso Psicologia– FSP – Itapetininga – SP: 2Docente do Curso de Psicologia– FSP – Itapetininga –
SP

email: elioliv3ira@hotmail.com

RESUMO
A adolescência é um período marcado por desequilíbrios e instabilidades, com muitas
transformações. Biologicamente, o indivíduo geralmente, na adolescência, estará passando pela
puberdade, e por todas as alterações hormonais e corporais que ela apresenta.
Psicossocialmente, o adolescente encara mudanças que vão desde a aceitação do novo corpo
que se desenvolve, até as alterações dos papéis sociais que deverá compreender e se adequar,
ou seja, o adolescente terá que enfrentar o mundo dos adultos, para o qual ainda é um estranho,
e irá se distanciar do mundo infantil, onde vivia numa relação de dependência, sendo protegido
com papéis claramente estabelecidos. Este breve estudo tem como objetivo explanar sobre o
conceito de adolescência normal na ótica dos psicanalistas Mauricio Knobel e Arminda
Aberastury, que podem refletir diretamente na concepção do que é a adolescência e
consequentemente no cuidado singular que estes indivíduos devem receber neste período.
PALAVRAS-CHAVE: Adolescência. Puberdade. Construção da Identidade.

INTRODUÇÃO
A adolescência é considerada um período marcado por desequilíbrios e instabilidades,
onde as maiores transformações da vida de uma pessoa acontecem. Biologicamente, o indivíduo
deve lidar com a puberdade e com todas as alterações hormonais e corporais que ela apresenta,
psicossocialmente, o adolescente é obrigado a encarar uma gama de mudanças que vão desde a
aceitação do novo corpo que se desenvolve, que por si só é altamente complexa, até as
alterações dos papéis sociais que deverá compreender e se adequar, ou seja, o adolescente terá
que enfrentar o mundo dos adultos, para o qual ainda é um estranho e ainda terá que se distanciar
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do mundo infantil, onde vivia numa relação de dependência com papéis claramente
estabelecidos e razoável proteção. É um verdadeiro lançar-se sem paraquedas.
Ao fim, esse processo perturbador, mas absolutamente necessário, fará com que esse
adolescente estabeleça pouco a pouco sua identidade, sendo este o objetivo central deste
momento da vida (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
Sendo assim, o adolescente apresenta uma vulnerabilidade singular que deve ser
considerada e que infelizmente é alvo da projeção da sociedade, que direciona suas próprias
falhas nos assim chamados excessos da juventude, responsabilizando-os pela delinquência, pela
aderência a drogadição, prostituição, etc. Nesse contexto, em pleno processo de
desenvolvimento biopsicossocial e internalização de valores e normas éticas, este marginalizar-
se do jovem pode leva-lo à atividade delituosa e/ou ao desenvolvimento de transtornos. A
violência e a quebra de leis parecem nascer como uma maneira de inclusão e reconhecimento
(ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
Este breve estudo tem como objetivo explanar sobre o conceito de adolescência normal
trazido pelos psicanalistas Mauricio Knobel e Arminda Aberastury, que podem refletir
diretamente na concepção do que é a adolescência e consequentemente no cuidado singular que
estes indivíduos devem receber neste período.

A SINDROME DA ADOLESCÊNCIA NORMAL


Sendo um período complexo, é alvo dos mais diversos estudos, afim de compreender
melhor toda a amplitude das transformações inerentes a ela.
Compreende-se por adolescência, segundo Knobel (1980):
“[...] a etapa da vida a qual o indivíduo procura estabelecer sua identidade
adultas, apoiando-se nas primeiras relações objeto-parentais internalizadas e
verificando a realidade que o meio social lhe oferece, mediante o uso dos elementos
biofísicos em desenvolvimento à sua disposição e que por sua vez tendem à
estabilidade de personalidade num plano genital, o que só é possível quando consegue
o luto pela identidade Infantil” (ABERASTURY & KNOBEL, pg.26, 1981)

Caracterizada por ser o período transicional entre infância e a vida adulta, acontece em
paralelo com a etapa biofisiológica da puberdade, sendo que alguns estudos demonstram que o
psiquismo do indivíduo pode, em alguns casos, até mesmo influenciar no início da puberdade.
É importante ressaltar que apesar de ocorrer geralmente na mesma faixa etária, o período
da adolescência, nas mais diversas sociedades, pode variar, pois cumpre também uma função
social. O adolescente tem que reformular os seus autoconceitos, abandonando assim sua
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autoimagem infantil e direcionando o seu olhar para a vida adulta, o que acarreta
necessariamente o desprendimento da infância (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
Outro fator de relevância é que não é somente o adolescente sofre com esse período. Os
adultos também têm dificuldade em aceitar a maturação psicológica e sexual da criança,
gerando o senso comum de que a adolescência, tantas vezes definida como “aborrescência”, é
uma fase tempestuosa, porém, cabe lembrar que essa fase é considerada difícil para ambos, pais
e filhos, que tem que lidar com uma novidade que nem sempre é bem-vinda, e que não é
“frescura” de adolescente.
Na procura de um sentido de vida e de uma identidade própria, que são frutos das
identificações e experiências vitais (interação mundo interno - mundo externo), o adolescente
precisa elaborar e/ou conscientizar o que podem ser consideradas as três “perdas” fundamentais
deste período evolutivo: a perda do corpo infantil, a perda dos pais da infância, a perda da
identidade e papel sócio familiar infantil, lutos muito difíceis, ainda mais para quem está tão
vulnerável.
Assim, o ambiente sociocultural em que o adolescente está inserido será fator chave
influenciando diretamente nessa elaboração, e quando falamos em ambiente, não podemos
esquecer das pessoas e relacionamentos que todos os dias o adolescente vive.
E não é de se estranhar que uma fase marcada por desequilíbrios e instabilidades
extremas, comumente apresente períodos de introversão e outros de ousadia, indiferença,
misturados a possibilidade da apresentação de crises religiosas, condutas sexuais diferentes, o
que possibilitou pensar uma pseudopatologia denominada como Síndrome da Adolescência
Normal (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
E assim, Knobel (1980) alicerça seus conceitos, sobre uma contradição terminológica,
associando o termo “síndrome”, que alude a fatores clínicos, com a normalidade caracterizada
pela ausência de qualquer patologia, ou seja, a presença de comportamentos tidos como
psicopatologias na adolescência é intensa, todavia são consideradas normais e totalmente
esperados nessa fase de desenvolvimento.
Caracterizada assim, como uma Síndrome da Adolescência Normal, esta fase
comumente apresenta as seguintes características:
1. Busca de si mesmo e da identidade: uma procura incessante e angustiante para
saber qual identidade adulta constituíra, buscando forças para superar esses microlutos e os
lutos ainda maiores da vida diária, um processo de autoconhecimento (ABERASTURY &
KNOBEL, pg.29, 1981).
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2. Tendência grupal: Nessa busca da individualidade o/a adolescente desloca o


sentimento de dependência dos pais para o grupo de companheiros e amigos, onde todos se
identificam com cada um. Neste momento pertence mais ao grupo do que à família. Esta
aceitação revela-se na obediência as regras grupais em relação a tudo, o que se observa na
vestimenta, modas diversas, costumes e preferências de todos os tipos. (ABERASTURY &
KNOBEL, pg.27, 1981).
3. Necessidade de intelectualizar e fantasiar: Caracterizada por ser um tipo de
fuga para o interior, leva à preocupação por princípios éticos, filosóficos, sociais e políticos,
que muitas vezes implicam formular-se um plano de vida bem diferente do que se tinha até esse
momento (ABERASTURY & KNOBEL, pg.39, 1981).
4. Crises Religiosas: O adolescente tende a adotar posições extremas: pode se
manifestar como um ateu exacerbado ou como um místico muito fervoroso. São tentativas de
soluções da angústia que vive o ego na sua busca de identificações positivas e do confronto
com o fenômeno da morte definitiva de uma parte do seu ego corporal (ABERASTURY &
KNOBEL, pg.40, 1981).
5. A deslocalização temporal: Existe neste período evolutivo certa desorientação
temporal. Tudo pode chegar a ser “agora ou nunca”, ou um permanente “ainda temos tempo”.
É durante a adolescência que a dimensão temporal vai adquirindo lentamente características
discriminativas. Poder conceituar o tempo, vivenciá-lo como nexo de união, é o essencial,
subjacente à integração da identidade (ABERASTURY & KNOBEL, pg.41, 1981).
6. A evolução sexual desde o auto-erotismo até a heterossexualidade: O
estímulo biológico e cultural, praticamente empurram o adolescente a iniciar-se na atividade
genital. Assim, há um tipo de jogo entre a atividade masturbatória e o começo do exercício
genital, que tem fundamentalmente um caráter basicamente exploratório. A seguir é o momento
dos contatos, das carícias mais íntimas, e/ou do “amor apaixonado”, porém geralmente
transitório e até fugaz. Os desejos são intensos e, nesta sociedade, fortemente reprimidos e até
vividos com culpa. O auto-erotismo com exploração da genitalidade, leva a heterossexualidade
afetiva amadurecida, que só se atinge quando a própria adolescência vai se apagando e surge
o/a jovem com uma sexualidade responsável dentro de seu particular sistema cultural
estruturante (ABERASTURY & KNOBEL, pg.44, 1981).
7. Atitude social e reivindicatória: A sociedade, impõe restrições à vida do
adolescente, que com a sua força, com a sua atividade, com a força reestruturadora de sua
personalidade, tenta modificar a sociedade, mesmo este passando por modificações intensas.
Nesse contexto, o adolescente é marginalizado. Isso é o que leva a uma atitude social
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reivindicatória. Na medida em que o/a adolescente não encontra o caminho adequado para a
sua expressão vital e para a aceitação de uma possibilidade de realização, não poderá jamais ser
um adulto satisfeito. É a juventude, naturalmente revolucionária, que tem em si o sentimento
místico da necessidade de mudança social, e concretiza essa necessidade (ABERASTURY &
KNOBEL, pg.51, 1981).
8. Contradições sucessivas em todas as manifestações de conduta: A conduta
do adolescente não pode manter uma linha de conduta rígida, permanente e absoluta, embora o
queira. Sua personalidade é permeável e sua instabilidade necessária. Fixar-se numa só conduta,
não corresponde a um comportamento normal, nem ajuda a aprender da experiência, pois as
contradições funcionam como defesas que facilitam a elaboração dos lutos desse período e que
caracterizam a identidade adolescente. (ABERASTURY & KNOBEL, pg.56, 1981).
9. Separação progressiva dos pais: Para atingir a maturidade é necessário ter
individualidade e independência reais. A separação progressiva dos pais, a entrada na turma, e
a posterior individuação discriminativa são passos necessários do processo evolutivo humano.
Muitos pais em nossa cultura se angustiam frente ao crescimento dos filhos e chegam até negá-
lo. O conflito de gerações é uma realidade necessária para o desenvolvimento sadio, tanto dos
filhos adolescentes como o de seus pais (ABERASTURY & KNOBEL, pg.56, 1981).
10. Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo: são características
normais da adolescência e fazem parte do processo de luto enfrentado nessa idade. Uma
conquista, por mínima que seja entusiasma e alegra. Uma frustração aborrece e deixa triste, um
turbilhão cotidiano de emoções. Por meio dessas experiências os sentimentos são aprendidos
(ABERASTURY & KNOBEL, pg.58, 1981).
Essas características possibilitam a reestruturação da personalidade do adolescente, e
fará com que sua entrada na vida adulta, dependendo de suas experiências cotidianas, seja sadia
ou com presença de psicopatologia.
Através dessa breve revisão, é possível compreender o porquê de professores, pais,
adultos em geral, se basearem em estereótipos para descrever a adolescência, preconceitos estes
que, infelizmente, ao invés de ajudar ao adolescente a viver esta etapa evolutiva tão dura com
maior segurança e liberdade, fazem deste período um torrencial de angústias, medos e culpas
totalmente desnecessários e perturbadores (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
Visto isso, é impossível tratar a adolescência como um problema circunstancial, este
pensamento é expressão de um desconhecimento de uma realidade social, psicológica e também
clínica e pedagógica. As diversas manifestações da “síndrome da adolescência normal” são
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reais e palpáveis, e podem acontecer tanto externamente, quanto internamente, dependendo da


psicodinâmica de cada indivíduo (ABERASTURY & KNOBEL, 1981).
É urgente compreender que existe um verdadeiro leque de manifestações que mudam
em intensidade e variedade externas na “síndrome da adolescência normal” e que sem uma
aproximação ao conhecimento da psicologia normal do/da adolescente pouco poderá ser feito
em favor da saúde e da educação deles, principalmente quando nos depararmos com um
comportamento anormal, pois dentro dessa complexidade que é a adolescência, também
encontramos os desvios de conduta, além de diversas psicopatologias que podem emergir nesse
período e que precisam de cuidado diferenciado e muitas vezes constante, como encontramos
na psicoterapia, para que o processo evolutivo se de forma saudável e que o indivíduo possa
edificar verdadeiramente sua personalidade e gozar dela.

CONCLUSÕES
Diante do exposto, compreende-se que Síndrome da Adolescência Normal marca a
passagem da adolescência e possibilita a inserção do adolescente na vida adulta. Destaca-se
que, apesar da terminologia situar a adolescência como síndrome, ou pseudopatologia, a
maioria dos adolescentes consegue vivenciar e elaborar os lutos necessários para formação de
sua identidade e personalidade com comportamentos considerados normais, no entanto, existem
casos onde este processo resulta em desvios e psicopatologias decorrentes de falhas estruturais
e relacionais do indivíduo, que podem ser agravadas por uma predisposição genética ou não.
Salientamos a pressão massiva que a sociedade impõe ao indivíduo que está nesta fase,
pois a mesma desconhece os processos que se desenvolvem nesse período e acabam por
estereotipar e marginalizar o adolescente que precisa de respaldo e cuidados singulares, desta
forma, reforçamos a necessidade de formação a todos os envolvidos com adolescentes, desde
pais a profissionais, para que possam atender as demandas tão urgentes deste período. Esta
breve revisão é uma forma de capacitar e ampliar os saberes sobre a adolescência.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABERASTURY, A.; KNOBEL. M. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Ed.
Artmed, 1981. 92p.

JUNIOR, F.B.A. Semiologia em Psiquiatria da Infância e da adolescência. Ed. Casa do


Psicólogo, 2001. 148pg.

BEE, H.: BOYD, D. A criança em desenvolvimento. Ed. Artmed,2011, 568pg.