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Desenvolvimento Instrucional

CURSO: Engenharia de Produção

DISCIPLINA: Gestão da Inovação

PROFESSOR: ANTONIO IACONO

Aula 6:

Sistemas de Inovação

Meta

Nesta aula vamos apresentar a importância da construção de um sistema de


inovação para a promoção das atividades inovativas das empresas.

Objetivos

O objetivo principal desta aula é o de apresentar o conceito de sistema de


inovação e as principais abordagens que a literatura nos fornece. Para isso,
vamos explorar os seguintes pontos:

• Principais elementos de análise de um Sistema de Inovação (SI)

• Abordagem de Sistema Nacional de Inovação;

• Abordagem de Sistema Setorial de Inovação.

Após esta aula, você será capaz de:

• Caracterizar as diferentes abordagens de sistemas de inovação;

• Compreender a importância da interação entre empresa, instituições e


governo para a promoção da inovação em um país;
Introdução

Até o presente momento vimos que no processo de inovação a empresa atua


como elemento-chave e que, apesar de fundamental, o sucesso no resultado
não depende exclusivamente de seus fatores internos; ou seja, está atrelado
também a fatores que são externos à empresa. Dentre os diversos fatores
externos que influenciam no processo de mudança tecnológica, destacamos o
Sistema de Inovação, foco desta nossa aula.

Os estudos sobre sistemas de inovação recaem, em grande medida, na


compreensão de como as inovações tecnológicas estão relacionadas com o
crescimento e o desenvolvimento econômico. A discussão sobre este tema
teve início a partir das observações do baixo crescimento econômico ocorrido
no início da década de 1970 nos países industriais avançados e o
desenvolvimento do Japão, com grande poder econômico e tecnológico. Tal
contexto estimulou o debate no que se refere à capacitação tecnológica dos
países mais industrializadas. A discussão deste tema intensificou-se com o
desempenho acelerado, em termos de progresso técnico, de alguns países em
desenvolvimento, como a Coréia do Sul e Taiwan. Estes países chamaram a
atenção por conseguirem reduzir consideravelmente seu atraso tecnológico em
relação aos países desenvolvidos no período pós-guerra.

A atividade inovadora da empresa, que até então, era o elemento central de


análise do progresso técnico, passou a ter uma visão sistêmica, a qual enfatiza
a importância da ação coordenada de diferentes atores (universidades,
empresas, instituições de pesquisa, instituições financeiras, órgãos
governamentais de políticas públicas) no desempenho tecnológico dos países
(Sbicca e Pelaez, 2006). Esta visão permitiu explicar as diferentes taxas de
crescimento da economia entre os países e sua correlação com a inovação
tecnológica.

Posto isto, vamos apresentar neste breve capítulo o conceito de sistema de


inovação, seus principais elementos de análise, e as principais abordagens que
a literatura nos fornece. Espero que aproveite. Bom estudo!

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1. Sistemas de Inovação

A abordagem dos sistemas de inovação é de suma importância pois nos


permite descrever, compreender, explicar e influenciar os processos de
inovação; ou seja, identificar fatores que moldam e influenciam as inovações.
Mas, afinal, o que é um sistema de inovação?

Um sistema de inovação pode ser definido como um conjunto de instituições


públicas e privadas que contribuem nos âmbitos macro e microeconômico para
o desenvolvimento e a difusão de novas tecnologias (Sbicca e Pelaez, 2006).
Esta definição nos leva a refletir sobre dois aspectos centrais percebidos:
primeiro, a ideia de sistema, e segundo, o conceito de inovação.

Para entendermos melhor o que é um sistema de inovação vamos entender


melhor seus elementos constituintes. Comecemos pelo termo sistema. O
sistema pode ser entendido como um conjunto de componentes econômicos e
sociais inter-relacionados, que contribuem na determinação do comportamento
inovativo das empresas. A interação é o fator-chave em um sistema. A
inovação é definida em termos bem amplos. É o conjunto de atividades pelas
quais a empresa produz novos produtos ou processos produtivos.

Quanto às instituições, referem-se a todas as regras e normas consolidadas, e


leis que regulam a interação entre os indivíduos. As instituições são
importantes, pois reduzem as incertezas e o montante de informações
necessárias para as ações e escolhas, permitindo o acúmulo e a transferência
de conhecimento. As universidades, bancos, institutos de pesquisa (públicos ou
privados) são aqui considerados organizações.

As definições acima nos permitem entender que a análise do processo de


inovação, só pode ser feita quando focalizamos o todo, ou seja, o sistema, e
não somente as partes que o compõem. Em outros termos, significa dizer que
a análise do comportamento isolado de uma empresa não será suficiente para
o entendimento da dinâmica do processo de inovação, já que a empresa não
inova de maneira isolada. Ao contrário, a estratégia de inovação adotada pela
firma é influenciada por instituições que constituem incentivos e limites à

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inovação — como leis, políticas governamentais, comportamentos culturais,
regras sociais e normas técnicas. Ao mesmo tempo, o processo de inovação
envolve outros agentes além da firma inovadora — como aqueles relacionados
ao consumo, ao financiamento e à regulação da tecnologia, assim como
aqueles envolvidos na produção e na difusão dos conhecimentos científicos e
tecnológicos de apoio, como as universidades e os centros de pesquisa.

Vamos agora apresentar os principais elementos de análise de um sistema de


inovação.

a) Interação

De uma maneira mais abrangente, a inovação pode ser vista como um


processo em que as empresas introduzem novas práticas, produtos e
processos que são novos para elas. A inovação, nesse sentido, é
consequência de um processo que só pode ser analisado quando se leva em
conta seu caráter interativo. É interativo ao entendermos que envolve uma
relação entre diversos atores tais como empresas, agências governamentais,
universidades, institutos de pesquisa, agentes financeiros, dentre outros.

Nessa rede de relações podemos destacar três elementos-chaves: (i) as


universidades e centros de pesquisa, (ii) o Estado e (iii) as empresas. As
universidades e centros de pesquisa, bem como o Estado caracterizam-se por
terem como atividade principal a pesquisa básica, ou seja, não tem por objetivo
uma aplicação produtiva imediata.

As empresas, diferentemente, caracterizam-se pela pesquisa aplicada, ou seja,


voltada para soluções de um determinado setor produtivo. Isto implica
necessariamente um comportamento orientado pelo lucro, o que não se
observa quando das universidades, que se caracterizam pela "pesquisa por
excelência", sem objetivos financeiros diretos.

O Estado, nesse contexto, pode ser visto como o agente coordenador do


sistema, e tem como propósito promover a capacitação tecnológica através de
demandas governamentais, da definição de diretrizes para o sistema, da
geração de infraestrutura necessária para que ocorra a interação entre os
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agentes, e de uma Política de Ciência e Tecnologia (C&T) adequada às
diretrizes de desenvolvimento do país, da região ou do setor (Sbicca e Pelaez,
2006). A articulação desses atores acaba gerando um efeito sinérgico
fundamental ao progresso técnico, na medida em que provoca uma síntese
positiva das forças produtivas necessárias à inovação tecnológica.

b) Dinâmica

A dinâmica do sistema é resultado da complexa interação entre seus


componentes. Vale lembrar que a inovação não é mais entendida como um
processo linear que percorre o caminho da pesquisa básica à pesquisa
aplicada, e depois para o desenvolvimento e implementação na produção. A
inovação envolve mecanismos de feedback e relações interativas entre a
ciência, a tecnologia, o aprendizado, a produção, a política e a demanda. A
cadeia de causa e efeito, tem seu início com a P&D e termina com o aumento
da produtividade, mediada pela interação da geração e da difusão da
tecnologia, insere-se num contexto mais complexo no qual os componentes do
sistema combinam-se de modo a incentivar ou bloquear os processos de
aprendizagem e de inovação.

c) Aprendizagem

A aprendizagem, conforme já estudado em capítulos anteriores está fortemente


relacionada à capacidade de inovar; poderíamos dizer que é inerente à
capacidade de inovar. Ela é tratada como uma atividade social que envolve
interações entre pessoas, e que não se dá apenas através da educação formal
e da atividade de P&D. A inovação é influenciada por diferentes tipos de
aprendizado. Conforme visto na aula sobre Aprendizagem tecnológica, o
aprendizado pode ocorrer através do aumento da eficiência das operações de
produção (leaming-by-doing), através do aumento da eficiência do uso de
sistemas complexos (leaming-by-using) e da interação entre usuários e
produtores (leaming-by-interacting), resultando em inovações de produto. As
ligações entre usuários e produtores podem ser expandidas para a
aprendizagem e os fluxos de conhecimento das atividades de valor agregado
da empresa. As ligações entre usuários e produtores podem ser encontradas

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na interface entre universidade e indústria e entre a indústria e alguns usuários
finais da indústria, como trabalhadores e consumidores.

Mas, a aprendizagem, por ser de caráter interativo e social, deve considerar o


contexto cultural e o envolvimento de instituições. Sendo assim, a estrutura de
análise do Sistema de Inovação deve ser sistêmica e interdisciplinar, na
medida em que considera a influência de fatores institucionais, sociais e
políticos, além dos econômicos. A capacidade de desenvolvimento tecnológico
de empresas ou de países vai depender, em parte, do domínio do "estado da
arte" das tecnologias já presentes. Tal consideração denota um aspecto
cumulativo para a capacitação tecnológica; e, como consequência, podemos
inferir que as empresas com maior probabilidade de gerar inovações são
aquelas que se encontram mais próximas da fronteira tecnológica (Sbicca e
Pelaez, 2006).

d) Perspectiva histórica

A perspectiva histórica é outra característica importante no que se refere à


análise do sistema de inovação. Devemos considerar que um processo da
mudança tecnológica, que parte da invenção técnica, passando pela
transformação em uma inovação propriamente dita, e termina em sua difusão,
leva longos intervalos de tempo. A trajetória tecnológica auxilia na
compreensão dos aspectos que estimulam o processo de inovação. As
especificidades do sistema de inovação são resultados de sua perspectiva
histórica e também das instituições que o influenciaram ao longo do tempo.
Portanto, quando se estuda um SNI que obteve êxito pode-se observar os
elementos que contribuíram para este resultado. Todavia, tais experiências não
podem ser, pura e simplesmente, transpostas para outros países, regiões ou
setores, já que tais especificidades só se revelam ao longo de um processo
histórico de formação.

Nas seções adiante vamos apresentar três abordagens de sistema de inovação


que a literatura dispõe: nacional, setorial; e local/regional. Passemos a cada
uma dela agora.

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2. Sistema Nacional de Inovação

Conforme já enfatizado, a abordagem conceitual de Sistema Nacional de


Inovação (SNI) emergiu como uma das correntes dominantes de pesquisa do
campo de estudos sobre inovação, com a preocupação de explicar o
crescimento tecnológico em uma economia de forma mais eficaz. A crise, na
década de 1980, do modelo de industrialização por substituição de importação,
bem como a do Estado de suas políticas, contribuíram para a busca de um
novo entendimento do crescimento e desenvolvimento econômico, nos países
em desenvolvimento.

São várias as definições de sistema nacional de inovação colocadas pela


literatura, mas todas apresentam em comum a presença de instituições, das
relações entre os diversos tipos de atores econômicos, e foco no conhecimento
e na tecnologia. Seguem algumas definições dos principais autores sobre o
tema.

Para Freeman (1987), um SNI é uma rede de instituições públicas e privadas,


cujas atividades e interações iniciam, importam, modificam e difundem novas
tecnologias. Para Lundvall (1992), compreende, fundamentalmente, os
elementos e relações que interagem na produção, difusão e uso de novos
conhecimentos. Conforme Nelson e Rosenberg (1993) é o conjunto de
instituições cujas interações determinam o desempenho inovador das
empresas nacionais.

Com a finalidade de um melhor entendimento do que é e de como funciona um


sistema de inovação, passemos a um maior detalhamento, selecionando as
interações entre organizações que surgem como as mais importantes em
relação aos processos inovativos. Nesse sentido, os tipos de organização,
considerados, que mais influenciam as atividades inovativas são quatro. As
empresas, as universidades e institutos de pesquisa científica, as instituições
financeiras, e o governo. Uma visão do sistema de inovação, com seus
principais componentes é apresentada na Figura 1.

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Formação e
pesquisa
científica

Clientes
1. instituições para pesquisa e transferência
tecnológica: universidade; instituiçoes públicas
para a pesquisa científica, institutos de pesquisa
Fornecedores Empresa especializados.
Inovadora 2. Sistema educacional: educação profissional,
educação secundária, qualificação universitária.

1. Núcleo oligopolista: fonte


principal de financiamento privado
para a pesquisa industrial. Políticas
2. empresas schumpeterianas: tecnológicas
inovadores radicais ou de nichos,
fornecedores de inovação.
3. redes de pequenas empresas. Entidades governamentais
a) Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
b) Ministério da Defesa, Transportes,
Comunicação, Indústria
Fornecedores c) Entidades locais

Sistema stock exchange based vs


sistema bank-based

Figura 1: Visão sistemática do sistema de inovação


Fonte: Malerba (2012)
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Duas importantes observações podem ser feitas pelas definições acima


apresentadas. Na primeira, o entendimento de que a inovação vai além da
empresa, e a importância de sua propagação no sistema econômico. Na
segunda e terceira definições, o foco reside na importância das interações
entre os agentes para a dinâmica da inovação, e no papel das instituições.

Vale destacar também a importância de se colocar o Estado no papel central


do processo de inovação (geração, difusão e uso) para o desenvolvimento
econômico. Tais considerações conceituais vão ao encontro de uma conclusão
central na literatura sobre inovação, já enfatizada, que afirma que as atividades
de inovação dependem fortemente de fontes externas, ou seja, os inovadores
raramente inovam isoladamente, comumente precisam trabalhar em conjunto
com outras entidades para desenvolver uma inovação.

Sendo assim, entendemos que qualquer que seja o processo de geração de


novos conhecimentos científicos e tecnológicos, ou de imitação e adaptação
tecnológica, vai envolver uma ampla variedade de atores complementares,
instituições públicas de pesquisa e treinamento, sociedades técnicas e
sindicatos, entre outros. Nesse sentido, sistemas nacionais de inovação devem
considerar, em sua constituição, as instituições e políticas voltadas para o
aprendizado tecnológico.

Essa caracterização refere duas diferentes abordagens de Sistema Nacional de


Inovação, que vale a pena apresentar: a abordagem restrita e a abordagem
ampla. A abordagem restrita de sistema nacional de inovação tem como foco
as empresas, instituições de pesquisa e universidades. Nos indicadores de
Ciência e Tecnologia, destacam-se o P&D, patentes e artigos. Tal visão está
relacionada ao modo STI (Science, Technology, Innovation) de inovação. Este
modo foca a inovação baseada em esforços de P&D, sugerindo um modelo de
inovação apoiado na experimentação (tipicamente em laboratórios),
formalização e codificação do conhecimento identificado. No entanto, o modo
STI constitui somente um dos pilares da aprendizagem e processo de
inovação.
No caso de a aprendizagem envolver conhecimento tácito e localizado, tem-se
outro modo, o modo DUI (Doing, Using, Interacting), que é mais amplo. O modo
DUI tem seu foco na aprendizagem interativa, através de relações com o
ambiente externo. A abordagem ampla de SNI considera a presença de
instituições sociais, regulação macroeconômica, a integração com o sistema
financeiro, o desenvolvimento de um sistema educativo e de treinamento, e
requer também a existência de infraestrutura e condições de mercado
Lundvall,1992).

Seja qual for a abordagem, é importante notar a importância, implícita, da


construção de competências para a promoção do processo de inovação.
Entende-se como crucial para os processos de aprendizagem, a criação de
capacidades nas empresas e a formação de competências de pessoal. Em
outros termos, pode-se afirmar que a inovação e a aprendizagem são o
resultado de esforços que combinam instituições com uma estrutura
socioeconômica.

3. Sistema Setorial de Inovação

Apesar de o foco inicial dos estudos sobre SNI terem uma abordagem em nível
nacional, tem-se também uma vertente setorial. Há um entendimento de que o
sistema de inovação pode ser interpretado em nível setorial e não só nacional.
Esta justificativa apoia-se no preceito de que o conhecimento é localizado e
que a aproximação geográfica facilita a interação e é fundamental para a
promoção do aprendizado e de um ambiente favorável aos processos de
inovação (Lundvall et al.,2009)

Os fundamentos do conceito de Sistema Setorial de Inovação (SSI) estão nas


diferenças entre os setores nas formas de aprendizado e de mudança técnica,
associadas à definição de regime tecnológico. Um sistema setorial de inovação
(e produção) é composto por um conjunto de agentes heterogêneos que
desenvolvem interações de caráter mercadológico ou não-mercadológico para
a geração, adoção e uso de novas (ou já estabelecidas) tecnologias
específicas e para a criação, produção e uso de novos produtos pertinentes a
um setor (produtos setoriais). Os agentes que compõem um sistema setorial

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podem ser organizações (clientes, fornecedores, fabricantes, universidades,
instituições financeiras, agentes governamentais, etc.) e indivíduos.

Para os países em desenvolvimento, como o Brasil, abordagem setorial ganha


muita importância, pois possibilita o entendimento de como as capacidades são
desenvolvidas pelas empresas e setores no sentido de inovar e competir. O
desenvolvimento de setores, a partir de escolhas acertadas, é fundamental
para o desenvolvimento econômico do país. Sendo assim, o SSI pode
contribuir substancialmente para o desenvolvimento econômico, já que através
desse modelo é possível identificar os elos faltantes, os gargalos na circulação
do conhecimento e as causas de falhas no sistema. Deste modo, a
especialização do SSI em setores mais dinâmicos tecnologicamente pode ser
um fator determinante para o dinamismo econômico.

Essa potencialidade do SSI tem justificado, cada vez mais a adoção desse
modelo por países em desenvolvimento. Mas é importante enfatizar que para
que isso ocorra, é também necessário a criação de instituições adequadas,
uma coordenação do sistema e a existência de uma infraestrutura capaz de
apoiar e promover os processos.

A definição de SSI difere do conceito tradicional de setor, e é simples de se


entender. Ao contrário da abordagem tradicional de setor, o sistema setorial de
inovação analisa outros agentes além das firmas. Dentre os principais pontos,
dessa diferenciação podemos destacar:

• O sistema setorial privilegia o conhecimento e sua estrutura como elemento-


chave. A base de conhecimento pode muito diferenciar-se através dos setores
e afetar as atividades inovativas, organização e comportamento das firmas
dentro de um setor;

• São enfatizados aspectos-chave da empresa, tais como processo de


aprendizagem, competências, comportamento e organização.

• Importância do papel de organizações, tais como universidades, agentes


financeiros, governo, e de regulações, padrões e mercado de trabalho. Estas

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características diferem fortemente entre os setores e afetam as atividades
inovativas e produtivas das firmas;

• Mecanismos de interações internas e externas à firma. Relações entre os


agentes, sejam elas de mercado ou não.

Em síntese, a noção de sistema setorial põe ênfase na estrutura do sistema,


em termos de produto, agentes, conhecimento e tecnologia, e em sua dinâmica
e transformação.

Com igual ênfase, Oyeleran-oyeyinka e Rasiah (2009) apontam como


elementos chave de um sistema setorial de inovação os agentes econômicos
(atores) e as instituições (incluindo instrumentos e organizações), e identificam
quatro pilares, conforme apresentados abaixo, necessários para direcionar a
sinergia entre aprendizagem e inovação e dar sustentação ao processo de
catching-up (aproximação da fronteira tecnológica).

a) Estabilidade e eficiência: referem-se à infraestrutura básica eficiente,


estabilidade macroeconômica e eficiência burocrática e segurança. Este
pilar é essencial para os agentes operarem em qualquer setor. O foco neste
pilar é também importante para a condução da aprendizagem e inovação.
Implica em fornecer menores custos de transação para que seus agentes
econômicos sejam mais competitivos. A instabilidade política e ineficiência
burocrática podem enfraquecer severamente a capacidade das empresas a
buscarem participação em atividades de alto valor agregado.
b) Coesão: refere-se à conectividade entre os agentes econômicos e
instituições, a interatividade e interdependência no fluxo de conhecimento
entre pessoas, empresas e instituições. Para tal, é requerido o fornecimento
de serviços tais como energia, serviços de telecomunicação, educação,
instituições de capacitação, laboratórios de P&D, entre outros.
c) Aprendizado e inovação: envolve a participação de agentes econômicos
(indivíduos, empresas e instituições) que aprendem e inovam. A
infraestrutura de alta tecnologia fornece o ambiente que estimula a
aquisição de tecnologia seja através da aprendizagem, licenciamentos,
adaptação e treinamento. O sistema de inovação reconhece que o

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aprendizado em suas mais diversas formas (por imitação, por busca, por
interação, por treinamento, etc.). Embora todas essas formas sejam
importantes, o sucesso no sistema de inovação é caracterizado pelo alto
grau de aprendizagem interativa. Logo, a presença de instituições de alta
tecnologia, incentivos (incluindo subsídios), empresas de capital de risco e
organizações de normalização, é vital para a mudança de patamar de
economia subdesenvolvida para uma economia madura.
d) Integração global: refere-se à integração global através dos mercados e de
cadeias produtivas globais. Mercados globais fornecem economias de
escala e escopo e a pressão competitiva para inovar. Enquanto que a
acumulação da aprendizagem e inovação abrem o caminho para posterior
aprendizagem e conhecimento (acumulação criativa), a exposição em
mercados globais conduz a uma substituição de tecnologias obsoletas e
empresas, por novas. Nesse processo as empresas transnacionais podem
contribuir substancialmente ao aprendizado.

As considerações apresentadas acima nos levam a entender que a os sistemas


nacionais de inovação e suas vertentes regionais e setoriais podem contribuir
para o crescimento econômico em países em desenvolvimento. É importante
salientar, embora não seja o foco desta aula, que o SNI deve ser visto, não
apenas como um conceito, mas como uma ferramenta para formulação de
políticas.

Outro aspecto importante é que devemos considerar que, como essas


abordagens são construídas a partir de experiências e análises em países
desenvolvidos, sua aplicação em contextos mais críticos como os de países
periféricos, devem superar barreiras e desafios de adaptação, já que a difusão
de progresso técnico é desigual entre os países e regiões. A estratégia para
um bom desempenho de aplicação de um SNI, passa por escolhas setoriais
acertadas e por um conjunto de ações que promovam a capacidade de inovar.
É relevante o papel ativo do Estado, a criação de uma cultura nacional de
inovação (com seu entendimento sistêmico), e de igual importância, o
fortalecimento de uma estrutura social e educacional.

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Atividades

1. O que é um sistema de inovação? Fale sobre os elementos que o constitui.

2. Qual é a importância do sistema nacional de inovação

3. Qual é o papel do Estado na promoção do sistema nacional de inovação?

4. Faça uma pesquisa em fontes que podem ser obtidas pela internet e analise
como está constituído o sistema de inovação brasileiro.

5. Por que as experiências e análises de sistemas nacionais de inovação em


países desenvolvidos não podem ser aplicados em países em
desenvolvimento, como o Brasil?

Conclusão

Após a presente aula podemos concluir que o sistema de inovação representa


uma importante variável externa à empresa, que influencia fortemente nos
processos internos de aprendizagem e capacidade tecnológica, ou seja, nos
resultados do processo de inovação.

O desempenho das empresas inovadoras vai depender da intensidade e dos


tipos de interações geradas no sistema nacional de inovação. Isto faz com que
os sistemas de inovação sejam diferentes em termos de conectividade, ou seja,
de eficácia na criação e transferência de conhecimento e das competências
relevantes, e portanto, na promoção das atividades inovativas das empresas.

Resumo

Nesta aula pudemos mostrar que a inovação não é um processo isolado, é


resultado de um processo interativo, que compreende diversos tipos de atores,
em um conceito de sistemas de inovação. Os sistemas de inovação ganharam
sua importância no estudo da inovação por auxiliarem na compreensão de
como as inovações tecnológicas se relacionam com o crescimento e o
desenvolvimento econômico.

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O conceito de SI nos permitiu entender que empresa não inova de maneira
isolada, e que, portanto, a análise do comportamento isolado de uma empresa
não será suficiente para o entendimento da dinâmica do processo de inovação.
A estratégia de inovação adotada pela firma é influenciada por instituições,
políticas governamentais, comportamentos culturais, regras sociais e normas
técnicas. Vimos também que a análise de um sistema de inovação deve
considerar o grau de interação e seus tipos, sua dinâmica, aprendizagem, e
sua trajetória tecnológica em uma perspectiva histórica.

Em seguida, pudemos ver que o sistema de inovação possui uma abordagem


em nível nacional e setorial. Em ambas as abordagens é importante o papel do
Estado, dos processos de aprendizagem e das instituições.

Próxima aula

Na próxima aula vamos falar sobre como deve se estruturar uma empresa para
desenvolvimento das atividades inovativas. Quais características culturais e
técnicas uma empresa precisa apresentar para desenvolver seus processos
internos para inovar. Vamos identificar qual é o padrão de comportamento de
uma empresa para inovação.

Leitura recomendada

PRAHALAD, C. K.; HAMEL, G. Competindo pelo futuro: estratégias inovadoras


para obter o controle do seu setor e criar os mercados de amanhã. Gulf
Professional Publishing, 2005.

PROENÇA, A. et al. Gestão da inovação e competitividade no Brasil: da teoria


para a prática. Bookman editora, 2015.

TIDD J, BESSANT J, PAVITT K. Gestão da Inovação. Porto Alegre: Bookman,


2008.

CHRISTENSEN, Clayton M. O dilema da inovação. São Paulo: Makron Books,


2011.

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