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Apostila de Metodologia da

Pesquisa
METODOLOGIA DA PESQUISA EM EDUCAÇÃO: ANALÍTICA E DIALÉTICA

Introdução:

Existem vários empregos para o termo método. O mais conhecido é aquele que o toma

a partir de sua raiz etimológica (do grego methodos e do latim methodu) para expressar a idéia

de caminho. Dessa primeira acepção do termo, seguem-se outras que ampliam seu significado

inicial, passando a incluir os procedimentos adotados para se chegar a certos resultados, ou a

associá-lo não à obtenção de um resultado, mas à sua apresentação, quando o termo passa a

designar uma boa ordem na disposição dos raciocínios, apresentados tanto de forma oral

quanto escrita.

Com a necessidade que se coloca a partir do século XVII, de se garantir verdades sem

o recurso à autoridade, como era comum em períodos anteriores, o método tem sua

importância ampliada, deixando de ser considerado apenas como caminho ou conjunto de

procedimentos que conduziria a uma meta ou a uma verdade, para assumir o status de

garantia dessa verdade, especialmente da verdade produzida pela ciência. Ao se tomar essas

acepções básicas do termo método, há que se apontar ao menos um problema e um limite que

elas possuem. O problema é que elas apresentam uma explícita separação entre fins e meios, e

entre a produção de uma tese e a sua explicitação. O limite dessas concepções de método está

em sua aplicação fortemente restrita àquele tipo de pesquisa que procede por hipótese e

verificação (experimentação), muito próprio às ciências naturais.

Caso em que se teria, no texto final – em um relatório de pesquisa – a apresentação

minuciosa dos procedimentos como garantia de verdade (validade) de seus

resultados.Deixando de lado, neste momento, os problemas que essas utilizações iniciais

podem comportar e considerando apenas algumas necessidades próprias à pesquisa e


produção de textos em Educação, nos propomos a dar um passo para além das fronteiras

próprias a essas concepções sem, no entanto, deixar de considerá-las como pontos de partida

para nossas reflexões. Uma questão que pode ser tomada de início é que, em Ciências

Humanas, não se pode dissociar uma tese de sua explicitação. Nesse sentido, Victor

Goldschmidt afirma, quando trata da produção de sistemas filosóficos: “doutrina e método,

com efeito, não são elementos separados. O método se encontra em ato nos próprios

movimentos do pensamento filosófico, e a principal tarefa do intérprete é restituir a unidade

indissolúvel desse pensamento que inventa teses, praticando um método”. (1970, p. 141).

Uma idéia (uma intuição talvez) não pode existir e tornar-se pública sem um método.

Em uma dissertação tem-se, por um lado, uma tese que se movimenta, explicitando-se por

meio de um método e, por outro, um método em ação que, sendo praticado, permite que a tese

exista. Um método, nesse sentido, não designa uma teoria ao lado da teoria, tampouco a

formatação de um discurso, mas a formação e a explicitação de uma idéia que não estará

pronta enquanto não for exposta por meio de uma codificação, do encadeamento, que são as

estruturas do texto ou, caso se queira, das “articulações do método em ato”.

Ao leitor caberá refazer os movimentos produzidos pelo autor, o “tempo lógico” de

sua tese, possível apenas na obra escrita. A partir da constatação de que método e resultado

não se separam, a opção por um método passa a configurar-se como uma decisão tão

importante quanto a escolha do objeto da pesquisa. Pode-se mesmo dizer que, em ambos os

casos, trata-se da mesma escolha, uma vez que os resultados pretendidos não podem ser

dissociados do método escolhido. As considerações que se seguem sobre a analítica e a

dialética têm por objetivo colocar ao estudante, que, necessariamente, precisa escolher um

método, algumas ponderações que permitam associar à escolha, também a necessidade de

avaliação do método, tanto por seu caráter de pressuposto de leitura da realidade, quanto por

sua viabilidade para a explicitação de uma tese.Entendidos enquanto modelos metodológicos,


analítica e dialética são opostos tanto no que se refere a seus pressupostos de leitura da

realidade (de objetos de estudo), quanto na forma de explicitar teses. Essa oposição tem suas

raízes remotas na Grécia Antiga, em duas formas contrárias de conceber o mundo, defendidas

por Heráclito (de Éfeso – final do século VI a.C.) e por Parmênides (de Eléia – final do séc.

VI e início do séc. V a.C.).

Heráclito observou que neste mundo tudo está em constante processo e nada

permanece para sempre (não se pode atirar o mesmo giz no mesmo rio duas vezes). Sendo

assim, falar de uma essência do mundo seria falar de seu constante vir-a-ser. Não menos

importante é o conhecimento (episteme) desse processo de efetivar-se e dissolver-se das

coisas – do próprio movimento – e não o conhecimento de algo particular e perecível (doxa),

que seria perda de tempo. Parmênides, por sua vez, não admite que neste mundo haja

mudanças substanciais.

O mundo efetivamente não pode se transformar, caso isso ocorresse, em função da

infinidade do tempo, já teria chegado a um termo ou, o que é mais provável, teria se destruído,

pois mover-se seria desgastar-se. Segue-se, portanto que, para ele, as mudanças são apenas

aparentes, e o que interessa ser conhecido é aquilo que permanece sempre, a identidade do

mundo e das coisas, que não se altera. Nesse sentido, o conhecimento que interessa (episteme)

se dá pelo olhar sobre a identidade da coisa que é imutável, e qualquer conhecimento que se

produza a partir do que é aparente e ilusório, como é o caso, é apenas ilusão (doxa) e perda de

tempo. Considere-se, por exemplo, a palavra eu tomada nessas duas perspectivas.

Na primeira, a palavra eu designaria um momento em um processo dinâmico, o

resultado de conflitos vividos e a base para novas vivências; algo fluente, que se altera e do

qual somente se tomaria um momento isolado para entender o processo de mudanças.

Na segunda, a palavra eu designaria uma identidade que não se altera

substancialmente, embora possa sofrer mudanças. Conhecer este eu seria, neste último caso,
buscar essa identidade que, independente do tempo, mantém-se sempre. Grosso modo, pode-

se dizer que com Heráclito e Parmênides tem-se, de forma embrionária, os dois princípios

metodológicos que estamos estudando, uma vez que dessas concepções de objeto de estudo,

passa-se a exigir ora um método que o apreenda em seu movimento ora outro, que o exponha

em seus aspectos constitutivos. Parece claro que no primeiro caso o modelo metodológico

deverá ser dialético e, no segundo, analítico.

A precocidade de tais conclusões, no entanto, exige que se avance um pouco mais no

Mundo Grego, no qual se encontram mais alguns componentes que permitem chegar a uma

primeira definição de dialética e de analítica.

Embora Sócrates conceba a Filosofia como a arte de estabelecer diálogos, é com

Platão (que denomina seus escritos de Diálogos) que está relacionada a primeira utilização do

termo dialética?? Em um diálogo, no entanto, embora existam duas posições – tese e antítese

– em um embate, não se tem, necessariamente, uma dialética, pois nem sempre, ao final de

um debate, chega-se a uma síntese. Há vários resultados possíveis no desfecho de um diálogo.

Um deles é que ambos os debatedores podem permanecer inalteráveis em suas convicções.

Com isso, o que se teve foi apenas um duplo monólogo e não dialética. Outro é que

uma das posições saia vencedora, eliminando a concorrente e, dessa forma, com a eliminação

(extermínio) de uma das partes, também não se produz dialética. Há ainda um terceiro

resultado possível: ambos os debatedores admitirem a falsidade de suas teses. Nesse caso, se

não houver perdas irreparáveis nas duas partes, é possível que se tenha uma síntese por

superação (Aufhebung) dos opostos. Somente sob essa condição haveria uma dialética. Sobre

a possibilidade de se ter uma dialética em Sócrates e Platão, existe praticamente o consenso

de que, com ambos, não há uma síntese, como ocorre com Hegel. Portanto, na Grécia Antiga,

dialética seria apenas a prática do diálogo.


Nada impede, no entanto, de se tomar a dialética em Sócrates como um método

educativo, e a síntese – que não aparece nos diálogos – seria a virtude obtida com a arte do

debate. No caso de Platão, a síntese, que é o Sumo Bem, é atingida pela dialética. Segundo

Cirne-Lima (1977, p. 37-41), esta síntese não somente existe, permitindo que se entenda a

dialética platônica na acepção mais rigorosa do termo, como é indispensável para a

compreensão de seu pensamento.

O fato é que ele não a oferece aos seus leitores nos diálogos escritos para o grande

público (aqueles que são conhecidos por nóshoje), a não ser esporadicamente, na forma de

mitos, como o Mito da Caverna, na República (Platão, 1996, p. 317ss).Quanto ao termo

analítica, é utilizado pela primeira vez para designar alguns escritos de Aristóteles que tratam

da Lógica (Primeiros Analíticos e Segundos Analíticos). Seguindo a tradição que se constitui

a partir de Aristóteles, o termo indica um sistema que procede por análise, ou seja, por meio

da separação de um todo em suas partes para que, no estudo em separado das partes e na

busca da inter-relação entre elas, se tenha uma melhor compreensão do todo.A analítica em

Aristóteles aplica-se inicialmente a proposições, que são frases compostas de sujeito e

predicado e que podem ser analisadas, por exemplo, quanto aos seus quantificadores

(individual, particular, universal), e por serem afirmativas ou negativas.

Além do estudo de proposições isoladas, Aristóteles ocupou-se também de conjuntos

bem concatenados de proposições, a que ele chamou de silogismos. Da mesma forma que

uma proposição, também um silogismo pode ser decomposto, avaliado e declarado verdadeiro

ou falso por meio da análise de suas partes. Por exemplo, em um silogismo composto de duas

premissas iniciais verdadeiras, a proposição de conclusão será sempre verdadeira. O exemplo

mais conhecido de silogismo é o seguinte:

Todo homem é mortal. (Premissa maior)

Pedro é homem. (Premissa menor)


Logo, Pedro é mortal. (Conclusão)

Da análise dos silogismos em separado, Aristóteles passa para uma classificação que

estabelece quatro conjuntos de silogismos (conforme a posição do termo médio) e à indicação

de regras precisas para a construção dos mais variados tipos de silogismos. O rigor de

Aristóteles em suas análises levou-o a determinar um princípio, já elencado por Parmênides:

algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. Em outras palavras, não

se pode ter uma tese verdadeira e falsa ao mesmo tempo.

Trata-se do princípio de não-contradição, um dos quesitos mais importantes para o

estudo de conjuntos de proposições em um discurso. Frente à limitação imposta inicialmente

pelo princípio de não-contradição, Aristóteles, e mais propriamente os pensadores medievais,

criaram a regra da distinção. Ou seja, predicados opostos podem ser atribuídos ao mesmo

sujeito, desde que se aponte a diversidade de aspectos para cada caso. Por exemplo, pode-se

afirmar que J. B. tem 1,60 m de altura e também que ele tem 1,30 m de altura, sem ferir o

princípio de não-contradição, caso se faça a seguinte distinção: 1,60 m em pé e 1,30 m

sentado.

O princípio de não-contradição foi e continua sendo um dos aspectos que mais suscita

disputas entre analíticos e dialéticos. Enquanto os analíticos tomam esse princípio como

quesito para descartar um discurso, a dialética considera a contradição como um princípio

ativo e inerente a todas as coisas. (HEGEL, 1996, p. 74). Sobre tal discrepância, no entanto,

algumas considerações devem ser apontadas. Em primeiro lugar, é importante esclarecer que

o que os dialéticos chamam de contradição, corresponde, no quadro lógico dos analíticos, a

contrários.

Ora, proposições universais contrárias, mesmo no quadro lógico dos aristotélicos,

podem ser ambas falsas, sem que se incorra em um erro lógico. Essa (que os dois debatedores

admitam a falsidade de suas teses), como foi visto anteriormente, é a condição para se ter uma
síntese e acontecer a dialética. A constituição morena de nossa população é um ótimo

exemplo de que, entre negro e branco, existem outras possibilidades que não a exclusão de

uma das partes. Um segundo aspecto a ser esclarecido nas disputas entre analíticos e

dialéticos é a necessidade que os primeiros possuem de terem um sujeito lógico, ao passo que

na dialética, a resposta à pergunta pelo sujeito (quem faz a ação) remete, em alguns casos, ao

Absoluto, em outros às estruturas econômicas de produção, mas nunca a algum indivíduo

particular.

Nesse sentido, Cirne- Lima afirma que “fazer filosofia dialética é saber passar de um

Eu estreito para outros Eus que, embora mais amplos, não deixam de ser Eu mesmo: o Eu que

é Nós, o Eu que é natureza, o Eu que é o Absoluto” (1997, p. 232). Independente da resposta

que cada autor possa dar à pergunta pelo sujeito, normalmente oculto no discurso dialético, o

fato é que uma tal resposta somente pode ser apresentada considerando-se a história,

entendida como o processo de mudanças, na qual se tem o devir, por meio do conflito dos

contrários, gerando sínteses e novos conflitos e, na qual se revela o sujeito do processo de

mudanças.

É por esse motivo que não é possível uma dialética de um fato ou de um objeto

tomando-o de forma isolada da totalidade que o constitui, como ocorre no caso de uma análise

experimental. Entendidas enquanto modelos, pode-se dizer que tanto a dialética quanto a

analítica, iniciadas no mundo grego, foram os grandes constituidores da cultura ocidental.

A primeira vai de Platão a Marx, passando por Santo Agostinho, Escoto Eriugena e

Hegel, entre outros; e a segunda vai de Aristóteles à atual Filosofia Analítica, passando, por

exemplo, por Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Frege, Bertrand Russell e Wittgenstein. Em

muitos casos, quando o termo dialética aparece na história, está associado à interpretação

conferida por Aristóteles – lógica das possibilidades e forma de argumentação – e não como

meio de conduzir à Verdade (episteme), conforme entendia Platão. Na Idade Média, por
exemplo, a dialética que figura no trivium, juntamente com a gramática e a retórica, design

apenas uma parte da lógica aristotélica.

Algumas exceções a essa regra, no período medieval, são Plotino e Escoto Eriugena.

Após a Idade Média, até Kant, geralmente, a interpretação que se tem do termo é a

aristotélica. Com HEGEL, o termo dialética se afastará definitivamente da idéia de método de

discussão (Aristóteles), sem, no entanto, render-se à concepção platônica de um método que

permite chegar ao Sumo Bem. Diferentemente, Hegel concebe a dialética como sendo a

maneira pela qual se tem o desdobramento do Absoluto (da Idéia) na história. Sob a ótica de

Hegel, a dialética torna-se um olhar sobre o passado (Coruja de Minerva) e um método de

explicação (explicar entendido como desfazer as dobras – plicas) de um desdobramento que

se faz na história, rumo a um fim determinado (concepção teleológica do mundo).

Segundo Hegel, a história do Espírito apresenta uma evolução, mas não uma

linearidade. Para traduzir a idéia de ruptura e continuidade contida no processo histórico, ele

utiliza o termo Aufhebung, que tem vários significados na língua alemã. Significa dissolução

– de uma assembléia, por exemplo; significa guardar, manter algo – um musse de maracujá

na geladeira, por exemplo; e significa, também, elevar, colocar em um ponto acima – a

fotocolocada sobre a estante, por exemplo.

Dessa maneira, o termo designa uma superação que conserva aspectos do que fora

suprimido, constituindo algo novo em um nível mais elevado. Com os jovens hegelianos

inicia-se uma discussão acerca do caráter retrospectivo da dialética de Hegel. Apenas com

Marx a dialética ganhará novos contornos em termos de aplicabilidade. Das diferenças que

podem ser apontadas entre a dialética de Hegel e a de Marx, a principal é que, enquanto para

aquele são as idéias (o Absoluto) que colocam a realidade, para este é a realidade material,

entendida como os processos produtivos e os conflitos de classes, que produz as idéias

(ideologias).
Para Marx não é a idéia (o Absoluto) que se constitui na história por meio de

contradições, mas relações sociais (formas de organização) que vão se modelando conforme

os modos de produção. Nesse momento, talvez para enfatizar sua distância em relação a

HEGEL, ele prefere referir-se ao seu trabalho com o termo Materialismo Histórico e não com

dialética. O afastamento de Marx em relação a Hegel pode ser notado também em expressões

conhecidas como a sua 11ª tese contra Feuerbach “os filósofos se limitaram a interpretar o

mundo, diferentemente, cabe transforma-lo” (MARX, 1974, p. 59). Por meio dela fica

indicada a necessidade de se ocupar com o presente e com o futuro e conferir ao sujeito (que

se mantém coletivo) um outro significado no processo histórico, rompendo, nesse momento,

com o necessitarismo próprio à dialética hegeliana.

Em outros momentos, no entanto, também com Marx, tem-se uma teleologia (idéia de

que a História caminha para um fim previamente determinado) e um necessitarismo, uma vez

que considera certos desdobramentos como, por exemplo, o fim do capitalismo por suas

contradições internas, a revolução proletária e o futuro comunismo, como necessários.

Algumas questões colocadas à dialética, no século XX, especialmente após as críticas de

Nietzsche, estão ligadas justamente à idéia de teleologia e de necessitarismo.

Nos dias atuais, não se acredita mais que haja um telos parao qual a história

caminharia, tampouco crê-se em desdobramentos necessários aos conflitos presentes na

história. Do ponto de vista dos dialéticos de hoje, tais questões não diminuem a importância

da dialética; ao contrário, levam-na a uma renovação justamente no sentido de um

engajamento na realidade que pretende transformar.

Da mesma forma como a dialética, também a analítica passa por uma série de

mudanças. As mais significativas ocorrem no início do século XX, quando passa a ser

identificada pela expressão Filosofia Analítica indicando um movimento, iniciado por G. E.

Moore e B. Russell, na Inglaterra, cujas raízes encontram-se na tradição Empírico-Analítica e


professa uma anti-metafísica e um anti-hegelianismo. Os desenvolvimentos mais conhecidos

da Filosofia Analítica tem lugar com o Círculo de Viena (então denominando neopositivismo

ou positivismo lógico) e com Wittgenstein, com quem ela ganha contornos de Filosofia da

Linguagem (jogos de linguagem). Independente das variações que sofrerá nos diferentes

momentos, um aspecto da analítica que se mantém na Filosofia Analítica é seu caráter de

análise.

Em ambas não há o propósito de produzir realidade (ou mudá-la, como pretende a

dialética) ou novos discursos sobre ela, mas analisar os discursos existentes, permitindo um

posicionamento frente a eles, bem como uma verificação de sua sustentabilidade a partir de

algum critério.

Por fim, mais do que apontar a riqueza encontrada no interior de denominações como

a analítica e a dialética, e sinalizar para outras possibilidades de leitura e explicitação de

mundo, interessa aqui retomar a seguinte questão: a partir do momento em que se tem uma

concepção de mundo (de objeto de pesquisa), uma definição do que se pretende frente a ele e

do grau de envolvimento esperado, a questão do método a ser “escolhido” deixa de se colocar,

pois necessariamente, junto com essa forma de compreender o mundo, já se tem uma maneira

de explicitá-lo. Nesse sentido, fins e meios não se separam, da mesma forma como não se

separa uma tese de sua explicitação.

PESQUISA CIENTÍFICA: NOÇÕES INTRODUTÓRIAS

CONCEITO DE PESQUISA

Pesquisa é o conjunto de procedimentos sistemáticos, baseado no raciocínio lógico,

que tem por objetivo encontrar soluções para problemas propostos, mediante a utilização de

métodos científicos.
Todos o conceitos de pesquisa, de uma ou de outra maneira, apontam seu caráter

racional predominante. Para GIL (1987, p. 19), pesquisa é o “procedimento racional e

sistemático que tem como objetivo proporcionar respostas aos problemas que são propostos.”

Segundo CERVO & BERVIAN (1983, p. 50): “A pesquisa é uma atividade voltada

para a solução de problemas, através do emprego de processos científicos.”

SALOMON (1977, p. 136) associa pesquisa à atividade científica, que se concretiza

no trabalho científico: “(...) trabalho científico passa a designar a concretização da

atividade científica, ou seja, a investigação e o tratamento por escrito de questões abordadas

metodologicamente.”

Longa seria a enumeração das várias conceituações propostas por diversos autores.

Essas conceituações apenas acrescentam detalhes especificadores, mantendo a idéia de

procedimento racional que utiliza métodos científicos.

REQUISITOS PARA UMA PESQUISA

A realização de uma pesquisa pressupõe alguns requisitos básicos, tais como a

qualificação do pesquisador, os recursos humanos, materiais e financeiros.

Entre as qualidades intelectuais e sociais do pesquisador, GIL (1987 a, p. 20) destaca:

a) Conhecimento do assunto a ser pesquisado;

b) Curiosidade;

c) Criatividade;

d) Integridade intelectual;

e) Atitude autocorretiva;

f) Sensibilidade social;

g) Imaginação disciplinada;
h) Perseverança e paciência;

i) Confiança na experiência.

Por mais qualificado que seja o pesquisador, não pode ignorar certas circunstâncias

“extracientíficas”. Além de tempo para dedicar-se à pesquisa, são necessários equipamentos,

livros, instrumentos e outros materiais e, conforme o caso, verba para a remuneração de

serviços prestados por outras pessoas. Isto significa que, para realizar uma pesquisa, devem

ser levados em conta os recursos humanos e materiais, tais como disponibilidade de tempo e o

indispensável suporte financeiro.

FINALIDADES DA PESQUISA

As várias finalidades da pesquisa podem ser classificadas em dois grupos: o primeiro

reúne as finalidades motivadas por razões de ordem intelectual e o segundo, por razões de

ordem prática. No primeiro caso, o objetivo da pesquisa é alcançar o saber, para a satisfação

do desejo de adquirir conhecimentos. Esse tipo de pesquisa de ordem intelectual,

denominada “pura” ou “fundamental”, é realizado por cientistas e contribui para o progresso

da Ciência. No outro tipo, a pesquisa visa às aplicações práticas, com o objetivo de atender às

exigências da vida moderna. Nesse caso, sendo o objetivo contribuir para fins práticos, pela

busca de soluções para problemas concretos, denomina-se pesquisa “aplicada”.

Na realidade, pesquisa “pura” ou “aplicada” não constituem departamentos estanques,

exclusivos entre si. A pesquisa “pura” pode, eventualmente, proporcionar conhecimentos

passíveis de aplicações práticas, enquanto a “aplicada” pode resultar na descoberta de

princípios científicos que promovam o avanço do conhecimento em determinada área.


TIPOLOGIA DA PESQUISA

Os tipos de pesquisas podem ser classificados de várias formas, por critérios que

variam segundo diferentes enfoques. Do ponto de vista das Ciências, por exemplo, a pesquisa

pode ser biológica, médica, físico-química, matemática, histórica, pedagógica, social, etc.

Para cumprir a finalidade de oferecer apenas noções introdutórias, parece o bastante

limitar a classificação da pesquisa quanto à natureza, aos objetivos, aos procedimentos e ao

objeto.

Pesquisa quanto à natureza

Quanto à natureza, a pesquisa pode constituir-se em um trabalho científico original ou

em um resumo de assunto. Por trabalho científico original entende-se uma pesquisa realizada

pela primeira vez, que venha a contribuir com novas conquistas e descobertas para a evolução

do conhecimento científico. Naturalmente, esse tipo de pesquisa é desenvolvido por cientistas

e especialistas em determinada área de estudo.

O resumo do assunto é um tipo de pesquisa que dispensa a originalidade, mas não o

rigor científico. Trata-se de pesquisa fundamentada em trabalhos mais avançados, publicados

por autoridades no assunto, e que não se limita à simples cópia das idéias. A análise e

interpretação dos fatos e idéias, a utilização de metodologia adequada, bem como o enfoque

do tema de um ponto de vista original são qualidades necessárias ao resumo de assunto.

Esse é o tipo de pesquisa mais comum nos cursos de graduação. O resumo de assunto

é um tipo de pesquisa que contribui para a ampliação da bagagem cultural do estudante,

preparando-o para, futuramente, desenvolver pesquisas mais amplas e trabalhos originais.

A diferença entre trabalho científico original e resumo do assunto, portanto, não se

fundamenta nos métodos adotados, mas nas finalidades da pesquisa.


Pesquisa quanto aos objetivos

Do ponto de vista dos objetivos da pesquisa, pode-se classifica-la em exploratória,

descritiva e explicativa.

a) Pesquisa exploratória

A pesquisa exploratória é o primeiro passo de todo trabalho científico. São finalidades

de uma pesquisa exploratória, sobretudo quando bibliográfica, proporcionar maiores

informações sobre determinado assunto; facilitar a delimitação de um tema de trabalho;

definir os objetivos ou formular as hipóteses de uma pesquisa ou descobrir novo tipo de

enfoque para o trabalho que se tem em mente. Através das pesquisas exploratórias avalia-se a

possibilidade de desenvolver uma boa pesquisa sobre determinado assunto.

Portanto, a pesquisa exploratória, na maioria dos casos, constitui um trabalho

preliminar ou preparatório para outro tipo de pesquisa.

b) Pesquisa descritiva

Nesse tipo de pesquisa, os fatos são observados, registrados, analisados, classificados e

interpretados, sem que o pesquisador interfira neles. Isto significa que os fenômenos do

mundo físico e humano são estudados, mas não manipulados pelo pesquisador.

Incluem-se entre as pesquisas descritivas a maioria das desenvolvidas nas Ciências

Humanas e Sociais; as pesquisas de opinião, as mercadológicas, os levantamentos

socioeconômicos e psicossociais.

Pesquisas descritivas são habitualmente solicitadas por empresas comerciais (aceitação

de novas marcas, novos produtos ou embalagens), institutos pedagógicos (nível de

escolaridade ou rendimento escolar), partidos políticos (as preferências eleitorais ou político-

partidárias) etc.
Uma das características da pesquisa descritiva é a técnica padronizada da coleta de

dados, realizada principalmente através de questionários e da observação sistemática.

Quando assumem uma forma mais simples, as pesquisas descritivas aproximam-se das

exploratórias. E outros casos, quando, por exemplo, ultrapassam a identificação das relações

entre as variáveis, procurando estabelecer a natureza dessas relações, aproximam-se das

pesquisas explicativas.

c) Pesquisa explicativa

Esse é um tipo de pesquisa mais complexo, pois, além de registrar, analisar e

interpretar os fenômenos estudados, procura identificar seus fatores determinantes, ou seja,

suas causas. A pesquisa explicativa tem por objetivo aprofundar o conhecimento da

realidade, procurando a razão, o “porquê” das coisas; por isso mesmo, está mais sujeita a

cometer erros. Contudo, pode-se afirmar que os resultados das pesquisas explicativas

fundamentam o conhecimento científico.

A maioria das pesquisas explicativas utiliza o método experimental, como nas

Ciências Sociais. O que caracteriza a pesquisa experimental é a manipulação e o controle das

variáveis, com o objetivo de identificar qual a variável independente que determina a causa

da variável dependente ou do fenômeno em estudo.

Em algumas Ciências, porém, como na Psicologia, nem sempre é possível realizar

pesquisas rigidamente explicativas, embora apresentem elevado grau de controle; são, por

isso, chamadas pesquisas “quase experimentais”.


Pesquisa quanto aos procedimentos

Os procedimentos, ou seja, a maneira pela qual se obtêm os dados necessários, permite

estabelecer a distinção entre pesquisas de campo e pesquisas de fontes “de papel”. Nesta

modalidade incluem-se a pesquisa bibliográfica e a documental. A diferença entre uma e outra

está na espécie de documentos que constituem fontes de pesquisas; enquanto a pesquisa

bibliográfica utiliza fontes secundárias, ou seja, livros e outros documentos bibliográficos, a

pesquisa documental baseia-se em documentos primários, originais. Tais documentos,

chamados “de primeira mão”, ainda não foram utilizados em nenhum estudo ou pesquisa:

dados estatísticos, documentos históricos, correspondência epistolar de personalidades, etc.

A pesquisa de campo baseia-se na observação dos fatos tal como ocorrem na

realidade. O pesquisador efetua a coleta de dados “em campo”, isto é, diretamente no local da

ocorrência dos fenômenos. Para a realização da coleta de dados são utilizadas técnicas

específicas, como a observação direta, os formulários e as entrevistas.

Pesquisa quanto ao objeto

As pesquisas quanto ao objeto podem ser: bibliográfica, de laboratório e de campo.

a) Pesquisa bibliográfica

A pesquisa bibliográfica tanto pode ser um trabalho independente como constituir-se

no passo inicial e outra pesquisa. Já se disse, aqui, que todo trabalho científico pressupõe

uma pesquisa bibliográfica preliminar.

b) Pesquisa de laboratório

Pesquisa de laboratório não é sinônimo de pesquisa experimental e, embora a grande

maioria das pesquisas de laboratório seja experimental, isto não constitui uma exclusividade.
Nas Ciências Humanas e Sociais faz-se, também, esse tipo de pesquisa, haja vista o exemplo

de pesquisa experimental.

No laboratório, o pesquisador tem condições de provocar, produzir e reproduzir

fenômenos, em condições de controle.


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