Você está na página 1de 6
Titulo original: La traduction © Librairie Marcel Didier, Paris, e Augé, Gillon, Hollier Larousse, Moreau et Cie, Librairie Larousse, Paris, 1972 Tradugio: Luisa Azuaga Capa: Alceu Saldanha Coutinho Reservados todos os direitos para os paises de Lingua Portuguesa edicdes 70 Avenida Duque de Avila, 69-r/c. Esq.— 1000 Lisboa Tels. 55 6898 / 572001 Distribuidor no Brasil: LIVRARIA MARTINS FONTES Rua Conselheiro Ramalho, 350-540 —Sio Paulo A TRADUCAO E OS SEUS PROBLEMAS JEAN RENE LADMIRAL Diego do Nascumento R. Flores Biblioteca Particular (== | coutceAo sianos 8 [Pa (BHI [ca IMry 1s [ACM] INPLI BIBLIOGRAFIA Language and Machines, Computers in translation and lire {gusice: National Academy of Sefences, National Rerearch Counell, Washington D. ©, 1966. BARHILLEL, Y «The pretent status of automatic trans Tation of languages, Advances in Computers, vol. 1 (PL Alt ed Academie ‘Press Nova Torgue, 1960, pp. 91-165. CECCATO, S., «Automatic Translation of Languages, pré- fenté au NATO Advanced Study Institue, Venice 1962 fn Automatic Translation of Languayes, Pergamon, 1966. VAUQUGIS, 3; VEILLON, Gs. VEYRUNES, [, «Syntax nd. Interprctation», Mechanical Translation, vol” 9, n° 2, Junho de 1966. SINATKO, W. H., eTranslaton by computers, Science, yol. 174, 2 4015,"17 de Dezembro” de 1971, Communications of the ACA Abul, 1960 (mero con Sagrado’ ts linguagens de fists). en evolution of the usefulness of machine translation produced atthe National Physical Laboratorys, (J. Me Daniel, et al). 2" Conférence internationale sur le traitement automatique “es langues, Grenoble, 1967. PROPOSTAS PARA UMA POETICA DA TRADUCAO HENRI MESCHONNIC Encontram-se aqui reunidos, sobre a forma de pro- postas inter-relacionadas, nao ‘postulados arbitrérios, mas sim os principios sistematicos de uma pratica tedrica da traduc&o, que esta necessariamente a fa- zerse ¢ a por-se em teoria. Este ponto de partida situa-os; primeiramente, enunciam-se as propostas em conjunto, na sua totalidade, e mais tarde elas proprias irdo dar’ oportunidade ao ‘aparecimento de algumas notas criticas acerca das relagées entre a traducdo ea pottica, bem como sobre a historicidade da tradugao !. Propostas 1, _E necessério uma teoria da tradugao dos tex- tos, no como actividade especulativa, mas como pré- tica teérica, para o conhecimento histérico do pro- cesso social de textualizacio, como uma translinguis- tica. Toda a unidade constréi a sua significagao na unidade maior que a inclui: uma teoria da traduedo dos textos est4 incluida na poética, teoria do valor e da significagéo dos textos. 1 Remetemos para a tradugio dos Cing Rouleaux, Gallimard, 1970, bem como para os seguintes artigos: «D’une linguistique de ls traduction Ia poétique de la traduction», Cahiers du Chemin, n° 12, Abril de 1971, Gallimard; «Traduire a Bible», nimero especial literirio do Nouvel Observateur, Maio-Junko de 1971; «On appelle cela traduire Celan», Cahiers duu Chemin, no 14, Janeito de 1972, Re- tomamse e desenvolvemse estes artigos na obra Pour Ta poétique IT, théorie et pratique, a publicar por Gallimard. Os conceitos aqui utiliados encontramse ‘expressos, particularmente em «Pour une Gpistémologie de Yécritures © «Postique du sacré dans la Bible». 9 2. O empirismo no pode teorizar a experiéncia da textualizacao, ou da nao textualizacdo, das tradu- ges que desempenhamo papel de obras, operadoras de penetracao cultural como a Vulgate ou a King Ja- mes Version. 3. Traduzir um texto é uma actividade translin- guistica, assim como a actividade da propria elabo- racéo de um texto, que nao pode ser teorizada nem pela linguistica do enunciado, nem pela poética formal de Jakobson. 4. Pela teoria dos textos que implica, a postica da tradugao nao pode ser uma linguistica aplicada. A poé- tica da tradugao, como pratica tedrica, é uma poética experimental. 5. A sua importancia epistemolégica consiste na sua contribuigéo para a teorizacio de uma pratica social ainda nao teorizada, para a critica dos elemen- tos ideolégicos da linguistica e para a critica da teoria da literatura e da sociologia da literatura. 6. Uma teoria da linguagem implica uma teoria da literatura. Uma teoria da literatura implica uma teoria da linguagem; mas uma teoria da linguagem inclui uma teoria da literatura, nado como limite ou excepgao, mas como pratica especifica, entre outras praticas ‘sociais, nem culturalmente sacralizada, nem mal conhecida na sua especificidade. 7. Uma pratica tedrica da tradugio dos textos impée uma andlise da oposicéo entre arte e ciéncia, no seu dominio, procedendo de um transporte, nao teorizado, da nocdo de ciéncia fora da sua especifici- dade (e na diferenca cultural entre a area semantica do conceito de ciéncia numa e noutra lingua, do campo loséfico noutra, por exemplo, o francés). A teoria da tradugao dos textos situa-se no estudo sobre as rela- Ges entre pratica empfrica e pratica tedrica, escrita € ideologia, ciéncia e ideologia, trabalho que é funda: mental para a epistemologia. 8 Traduzir um texto situa-se na pratica e teoria dos textos, ambas, j4 por si, situadas na teoria trans- linguistica’da enunciacao. 9. Uma teoria translinguistica da enunciacdo con: siste na interaceo entre uma linguistica da enuncia~ 40 (nfo encerrada numa imanéncia estrutural do dis- curso) e uma teoria da ideologia. Para tal contribuem, em conjunto, a pratica tedrica dos textos e a pratica te6rica da poética da tradugao. 10, Se a traduco de um texto é estruturalmente concebida como um texto, logo desempenha o papel de um texto, é a escrita de uma Jeitura-escrita, aven- tura histérica de um sujeito, Nao é transparente em relagao ao original. 11,_A nogio de transparéncia—com o seu corolé- rio moralizado, a «modéstia» do tradutor que se «apa- ga»—pertence & opiniao, como ignorancia tedrica mau conhecimento proprio da ideologia que nao se conhece a si mesma. A ela se opée a traducéo como reenunciac&o especifica de um sujeito historico, inte- racciio de duas poéticas, descentrar 0 dentrofora de uma lingua e das textualizagdes nessa mesma lingua. 12. O descentrar é uma relacdo textual entre dois textos em duas linguas-culturas, mesmo até a estrutura linguistica da lingua, sendo esta estrutura linguistica valor no sistema do texto. A anexagao e o apagamento desta relacio, a ilusdo do natural, como se um texto em lingua‘ de partida tivesse sido escrito em lingua de chegada, sem entrar em linha de conta com as diferencas de cultura, de época, de estrutura linguis- tica. Um texto estd a distdncia; ou se chama a atencio para cla, ou se esconde tal. 13. A opinio corrente que afirma que a traduco nio deve dar a impressdo de ser uma traducdo, tem dois sentidos: segundo o primeiro, vive-se a iluséo da transparéncia, a escrita ideolégica passiva e a traducio cultural acompanhada do seu préprio desconheci. mento; de acordo com o segundo, produz-se um texto original em lingua de chegada, homélogo ao texto da Iingua de partida. Podese demonstrar que, geralmente, existe uma certa confusdo entre estes dois sentidos ¢ que ao designar-se o segundo, pratica-se 0 primeiro. © primeiro domina, pois transporta a ideologia, dita dominante, numa pratica de anexagao. 14. A ilusdo da transparéncia pertence ao sistema ideol6gico caracterizado pelas nogées inter-relacionadas da heterogeneidade entre o pensamento e a linguagem, de génio da lingua, do mistério da arte, nogoes ba. seadas numa linguistica da palavra e nfo numa lin- guistica do sistema, em linguas consideradas actualiza- oes particulares de um significado transcendental (projeccao filosofica do primado europocéntrico, logo- céntrico, colonialista, do pensamento ocidental). Estas nogées acabam por opor texto e traducao, por meio de uma sacralizacao da literatura. Esta sacralizacdo ¢ esta compensa¢do definem o papel social da estética. Desse jogo de oposicao ideologica entre texto ¢ tra- ducio resulta uma nocdo metafisica, nao historicizada, a nogdo do intraduzivel. 45, Em relaggo a uma dada obra, num contexto interlinguistico-intercultural especifico, a interacgéo das poéticas a reenunciacao histérica pode ainda nao se ter produzido, pode até no chegar a produzir-se. O intraduzivel como texto 6, entéo, o efeito cultural resultante dessas razes hist6ricas. O intraduzivel social e histérico, endo metafisico (0 incomunicavel, 0 inefavel, 0 mistério, 0 génio)?. Na medida em que o momento da traducio ainda nao tiver chegado, o efeito translinguistico é um feito de transcendéncia, passando o intraduafvel por uma natureza, um abso- luto’, 16. 0 estatuto sociolégico contemporaneo da lite- ratura, baseado nesta metafisica e na oposigéo entre 0 texto e a traducdo, o escrever e o traduzir, privilegia © texto € o escrever. A prépria teoria linguistica da tradugio, pelo seu dualismo, nao teoriza o mesmo trabalho ‘sobre a lingua, para o caso do texto e para © caso da traduc&o. Assim, numa dominancia linguis- tico-cultural subordinante, um texto pode instalar uma contra-dominancia paratactica (Hemingway), mas uma 2 4A intraduaibilidade das Minguas ¢ a das mentalidades, traem a heterogeneidade das sociedades, das familias, dos povos, das éreas fe camadas de civilizacio, As categorias vivem e morrem com os [PovOS © seus virios contributos.» M. Mauss, Euvres, Il, p. 150, ed, Minuit, 1969, 3” Deste_ modo, nu postica estrutural formal som teoria do sujeito, Jacobson escreve: «Em poesia, as questOes verbais so pro- movidas a0 nivel de principio construtivo do texto (...) A parono- mésia domina a arte pottica; quer este dominio scja absoluto ou Himitado, a poesia por definisdo, ¢ intraduzivel. S66 possivel a transposigfo criadora» (Essais’ de’ linguistique générale, ed. Minuit, pp 86). Esta transposicio € abandonada a mitologia da’ criagao sub: Jeotiva, E justamente ‘cla que se impOe teorizar e pOr em questo 2 volta desta definigéo da tradusio, que iia deixar fora do seu feampo tudo o que é «poesiay, tradugéo-traduc&o nfo o pode e ndo o ousa. Ela ¢ a aplicagao de um padrao ideoldgico, o seu nao prestigio € 0 produto do seu nao trabalho. Prestigio e trabalho encontram-se em relacdo circular. 17. Um imperialismo cultural tem tendéncia a es- quecer a sua histéria e, por conseguinte, a desconhecer © papel histérico da tradugéo e dos empréstimos na sua cultura, Este esquecimento € 0 corolirio da sacra- lizagao da sua literatura. 18, Qualquer dominio cultural, qualquer cultura- -lingua, tem a sua historicidade, sem contemporalidade (total) ‘com as outras. Os russos no traduzem o fran- cés como os franceses traduzem 0 Tusso. 19. A polissemia é indissociavelmente lingua e cul- tura. Esta afirmagao leva a nao mais dissociar deno- tagdo e conotagio, valor e significacdo. Leva ainda a dizer que uma traducéo que se pretende apenas ser traducao linguistica, é uma traducdo cultural que se desconhece como tal. Leva ainda a privilegiar por razées tedricas e histéricas o descentrar, em detri- mento da opiniao dominante. 20. Ahistoricidade de uma relacdo de tradugo en- tre dois dominios linguisticos e culturais produz na Iingua de chegada um material semantico e sintactico inicialmente limitado as tradugdes, mas em breve factor de desenvolvimento de certas propriedades da lingua. E esse, por exemplo, o papel da Vulgata no latim ou o papel das tradugbes do latim nos séculos XIV-XV no francés. 0 momento da tradugio conta tanto como a especificidade linguistico-cultural da re- lacdo em jogo. A traducdo, sendo o estabelecimento de uma nova Telacao, s6 pode ser modernidade, neolo- gismo, enquanto que uma concepcio dualista vé a tradugéo de um texto como forma e arcaismo. A poé- tica da traducdo historiciza as contradicbes do tra- duzir entre a lingua de partida e a lingua de chegada, entre uma época e outra época, uma cultura e outra cultura, entre relacdo subjectal e «reprodugio». 21. A oposicao dualista entre forma (ou expresso) e sentido (ou contetdo) é ultrapassada por uma teoria dos textos como estruturagdo translinguistica e ins- crigo transnarcisisia de um sujeito generalizado, A ‘0 entre forma e sentido serviu, e serve ainda, para privilegiar um contetido ideolégico, Apresenta-se como natural, quando é um produto cultural e histé- rico, e introduz na teoria da linguagem a nogdo de verdade; dai a posicdo platonica, que se continua no marxismo. Esta posi¢ao implica a estética. Ela é teo- logica, e nao estrutural, ou dialéctica. 22. A nogao de forma designa entao uma descodi- bilidade mais dificil e acrescentada, em condigées de sentido idéntico. Se assim fosse, a forma de comuni- cago «artistica» sendo semioticamente inutil, teria desaparecido ha muito. Lotman (Struktura khudozest- vennovo teksta, Moscovo, izd. Isskustvo 1970) demons- trou a nao pertinéncia tedrica da nogdo de forma. 23. A nogao behaviorista de sentido como resposta participa da ideologia do natural. Pressupde a resposta do receptor de origem e privilegia a exegese e a her- menéutica, em detrimento da epistemologia. A sua no- sao pragmatica da realizagao designa o seu objectivo como ideolégico e nao cientifico, por detrés da sua aparéncia cientifica, transformando-se ela propria num instrumento ao servico de uma ideologia. Baseia-se na ‘oposigao entre forma e sentido e, circularmente, justi- fica-a. Reduz a polissemia A monossemia, a cultira & lingua. 24. A oposicéo dualista trata 0 texto contradito- riamente, ao mesmo tempo como lingua veicular (cons- truindo apenas uma lingufstica do enunciado e da tra- duco que desconhece a sua especificidade) e como distorcao, violacdo, excepedo, até porque se opde a linguagem veicular’tida como’ norma. 25. Traduzir um texto nao é traduzir da lingua, mas sim traduzir um texto na sua lingua, que é texto pela sua lingua, sendo esta, ela mesma, pelo texto 26, Traduzir apenas de uma lingua é passar de uma estrutura a uma outra. Podendo um texto valo- rizar por si uma estrutura da sua lingua, traduzir um texto como texto leva a que, em relacao as probabili- dades ¢ frequéncias da lingua de chegada, se mante- nha na contradi¢éo entre as duas estruturas linguis- ticas, pelo texto e no texto. 27) A «poesia» nao é mais «dificil» de traduzir que a «prosa». A nogio de dificuldade da poesia que se apresenta, hoje em dia, como algo que sempre se verificou, é datada e inclui uma confuséo entre verso € poesia. Encontra-se ligada a noc&o da poesia como violacdo das normas da linguagem. A. especificidade pratica e tedrica da traduco varia em fungao da espe- cificidade da pratica da linguagem a traduzir, Para a traducio de qualquer texto, o lugar da pratica e da teoria € 0 Iugar da sua pratica, 28. Segundo a historicidade do traduzir, uma tra- ducio € traducao-introdugio antes que seja um pro- duto, se acaso 0 puder ser, ou seja o momento de uma tradugao-texto. 29. As definicées do texto como combinatéria for- mal nao teorizam a relacio de leitura que é translin- Buistica, transnarcisista, ¢ que impdem uma teoria do sujeito, 30. A traducio ja nao é definida como transporte do texto de partida para a literatura de chegada ou, inversamente, transporte do leitor de chegada para 0 texto de partida (movimento duplo, que repousa no dualismo do sentido e da forma e caracteriza empiri. camente a maior parte das traducdes) mas sim como elaboragio na lingua, descentrar, relacio interpoética entre valor ¢ significacdo, estruturacio de um sujeito e histéria (que postulados formais mantinham. sepa- rados) e ja nfo sentido. Esta proposicso postula que © texto trabalha a lingua como uma epistemologia em acto de um saber indissocidvel desta pratica, e que, fora desta prdtica, nao é mais este saber, mas sim um. significado. 31. A traduco nfo é homogénea de um texto, a ser se ela produzir uma linguagem-sistema, elabo- racio nas cadeias do significante (dentro e através do texto-sistema, das cadeias que fazem sistema, da uni- dade minima & unidade méxima), como pratica da contradic&o entre texto estrangeiro e reenunciacio, en- tre Iégica do significante e légica do signo, entre’ Iin- gua-culturahistéria e lingua-cultura-histéria, 32. _B possivel construirse uma relaco prosédica entre as estruturas do significante de um texto de partida e da sua traducfo-texto, exactamente num. campo em que a opinio, opondo’ duas fonologias no plano da lingua, e termo a termo, concluia o intradu- zivel. Com efeito, nio se traduz uma fonologia; porém, também nao se traduz da lingua, num texto: constréi-se teoriza-se uma relagdo entre texto e texto, ¢ nao de Tingua para lingua. A relacdo interlinguistica é que advém da relacdo intertextual e.ndo a relacdo inter- textual que advém da relacdo interlinguistitea, 33. A distingdo tradicional entre 0 texto e a tra- ducio (valorizacéo social do texto, caducidade e esta- tuto inferior da traducdo) surge entdo pertinente so- mente por meio da pratica, corrente aliés, que cons ta da aplicacao de uma pratica abstracta ¢ nao teori zada sobre uma pratica humana concreta que jé inclui Sempre d sua teorizagio. Esta distincdo (teérica e so- cial) j4 ndo é pertinente em relacdo & traducdo-texto de um texto, Este facto é verificado empiricamente pelo funcionamento de determinadas traducoes. 34, A relacio poética entre texto ¢ traducio im- plica uma claboracao ideolégica concreta contra a do- Ininacao estetizante (a «elegancia» literdria) que se manifesta por meio de uma pratica subjectiva de su- pressoes (por exemplo, das repeticées), acrescentamen- fos, deslocacées, transformacées, em fungéio de uma jdeia préconcebida da lingua e da literatura, ideia essa que caracteriza a producao dos tradutores, como producao ideoldgica, quando, afinal, a produc textual & sempre pelo menos parcialmente, anti-ideolégica. A poetizacio (ou literalizacdo), escolha de elementos deco- Tativos segundo a escrita colectiva de uma dada socie- dade, num determinado momento, é uma das praticas mais’ correntes desta dominacdo estetizante; alias, acontece 0 mesmo com a reescrita: traducio inicial stermo a termo», feita por alguém que saiba a lingua de partida, mas que néo fala texto, em seguida o acres- centamento da «poesia» por alguém que fale texto, mas no a lingua—é a materializacio do dualismo, Os comités biblicos tém estilistas. 35. A relagio pottica entre o texto ¢ uma traducio implica a construgio de uma exactidio sita, caracterizada pela sua propria concor do a concordancia por limite o cardcter sintactico do Jéxico) e pela relagio do marcado com o marcado, do nao marcado com’o néo marcado, figura com figura, € nao figura com nao figura. Esta correspondéncia teo- rizada substitui a nogao subjectiva de «fidelidade>, varidvel extensiva, que € caracterfstica, justamente, da ideoligia estetizante, que acabémos de definir. Tudo © que nao pertencer a esta concordancia reduz-se di versamente A poetizacao, e participa desta ideologia estetizante. 36. Um estabelecimento dos critérios de traducti- bilidade e uma tipologia das tradugdes podem ser fei- tas nfo em fungo da resolucdo pontual de problemas filolégicos, mas libertando de cada pratica a sua teoria (da linguagem e da literatura) nao teorizada, implicada no seu prdprio desconhecimento. 87