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Análise das Demonstrações Contábeis - Robson de Amorim

Aula
Capital de Giro
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INTRODUÇÃO

Segundo BRAGA (1995), a administração do capital de giro envolve


um processo continuo de tomada de decisões voltadas principalmente para a
preservação da liquidez (capacidade de pagamento) da empresa, mas também
afetam a sua rentabilidade.
As concordatas e falências geralmente são o desfecho natural para as
soluções inadequadas dos problemas de gestão do capital de giro. Muitas vezes
ouvimos dizer que determinada empresa tornou-se insolvente (perdeu a capacidade
de pagamento) devido ao excesso de imobilizações. Em geral isto significa que
foram desviados para outra finalidade recursos que deveriam estar financiando o
capital de giro, ou, então, que os planos de expansão não levaram na devida conta
às necessidades adicionais de recursos para financiar o giro das operações.
Ao analisarmos a composição da estrutura patrimonial de uma empresa,
observamos que os índices então representados apresentavam relação direta com
a capacidade de pagamento de uma empresa. Como no caso citado acima uma
empresa com excesso de imobilização provavelmente terá maior dificuldade na
gestão de seu capital de giro, em virtude do menor valor disponível para sustentar
a sua liquidez ou capacidade de pagamento.

NATUREZA DO CAPITAL DE GIRO

Segundo BRAGA (1995), o capital de giro em uma definição simples,


corresponde aos recursos aplicados no ativo circulante, formado basicamente
pelos estoques, contas a receber e disponibilidades. Uma abordagem mais ampla
contempla também os passivos circulantes.
Desta maneira, a correta administração do capital de giro, esta relacionada
com os problemas de gestão dos ativos e passivos circulantes e com as inter-
relações entre esses grupos patrimoniais.
Outro elemento importante é o capital circulante líquido que corresponde
à parcela dos recursos permanentes ou de longo prazo (próprios e de terceiros)
aplicada no ativo circulante.
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ATIVOS CIRCULANTES

Uma característica dos ativos circulantes decorre das frequentes mutações


ocorridas entre os seus elementos.
As atividades industriais transformam os estoques de matérias-primas em
estoques de produtos em elaboração e, posteriormente, em estoques de produtos
acabados.
As vendas a prazo convertem os produtos estocados em duplicatas a
receber, sendo que estas somente se transformação em caixa após a concretização
da cobrança, podendo ocorrer atrasos e perdas por falta de pagamento.
Observamos neste momento que dever existir na empresa um estudo
correto dos prazos médios, visando uma definição precisa do tempo necessário para
que estes estágios, desde a compra da matéria-prima até o recebimento do produto
vendido, para que seja determinado com o máximo de precisão o fluxo completo de
realização financeira desse capital de giro.
• Contas típicas do Ativo Circulante: Caixa, Bancos, Aplicações
Financeiras de Curto Prazo, Clientes ou Duplicatas a Receber e
Estoques de Mercadorias.

PASSIVOS CIRCULANTES

Os passivos circulantes podem ser segregados em duas categorias: passivos


de funcionamento e passivos de financiamento.
Os passivos de funcionamento são constituídos por fontes não onerosas de
recursos geradas espontaneamente pelas atividades operacionais: salários a pagar,
encargos sociais e impostos a recolher, obrigações provisionadas (água, energia,
telefone, impostos) etc.
Fala-se em fontes não onerosas, pelo motivo de não gerarem despesas
financeiras explicitas como no caso de uma operação de financiamento.
Os passivos de financiamento são fontes onerosas de recursos por
envolverem encargos financeiros (juros). Exemplos: empréstimos bancários e
duplicatas descontadas (aqui reclassificadas do AC para o PC).
Embora sejam geralmente classificadas como passivos de funcionamento
não onerosos, as duplicatas a pagar aos fornecedores de materiais e mercadorias
constituem um elemento híbrido, porque também apresentam características dos
passivos de financiamento.
A obtenção de prazos para pagamento das compras de materiais e
mercadorias implica em financiamento dos estoques correspondentes. Se os prazos
de renovação desses estoques forem menores do que aqueles concedidos pelos
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fornecedores, ocorrerá também um financiamento parcial das duplicatas a receber


emitidas pela própria empresa.
Em muitos ramos de negócios existem prazos tradicionais concedidos pelos
fornecedores e esses prazos foram consagrados ao longo do tempo em função da
concorrência e da necessidade da clientela contar com essa fonte de financiamento
em face da duração de seu ciclo de produção e vendas.
Assim, costuma-se considerar como preço básico aquele fixado para as
transações a prazo e como receitas financeiras os descontos obtidos nas compras a
vistas.
Como os fornecedores computam nas suas tabelas de preços os juros e a
inflação projetada para os prazos usuais de faturamento, a diferença entre os preços
a prazo e os preços a vista constitui, na verdade, um encargo financeiro.

• Contas típicas do Passivo Circulante: Empréstimos Bancários,


Fornecedores, Salários e Encargos a Pagar, Impostos a Pagar e
Dividendos a Pagar.

FLUXO DO CAPITAL DE GIRO

Esse ciclo inicia com as compras de materiais e termina coma geração de


um valor excedente ao que foi aplicado no processo.
Tal excesso corresponde ao lucro líquido realizado financeiramente
adicionado das despesas de depreciação (também amortização e exaustão, se
houver).
Essas despesas de depreciação surgem de registros contábeis
correspondentes ao desgaste pelo uso e/ou a obsolescência dos ativos fixos
(imobilizados). Através das vendas a vista e da cobrança das duplicatas,
representativas das vendas a prazo, são recuperados financeiramente os investimentos
realizados nos meios de produção e em outros ativos imobilizados.
Enquanto os ativos fixos (imobilizados) geram produtos, cujas vendas
propiciam a recuperação dos custos e despesas e o surgimento dos lucros, os ativos
circulantes constituem aplicação de recursos de baixa rentabilidade, mas necessárias
à sustentação das atividades operacionais da empresa.
Dependendo do tipo de negócio e da qualidade de sua gestão, cada ciclo do
capital de giro será repetido mais ou menos em determinado período. Assim, é de se
supor que quanto mais ciclos se completarem em cada período, mais eficientemente
estarão sendo geridos os recursos aplicados no ativo circulante, ocasionando maior
rentabilidade.

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CAPITAL CIRCULANTE LÍQUIDO

Enquanto há exata determinação das épocas que deverão ser efetuados os


pagamentos relativos aos passivos circulantes, o mesmo não ocorre com as entradas
de caixa provenientes das atividades de produção, vendas e cobrança.
A falta de instantaneidade e sincronização entre essas três atividades
básicas implicam imprecisão e riscos na conversão dos estoques em duplicatas a
receber e destas em numerário.
O descompasso entre os fluxos de pagamentos e de recebimentos deverá
ser coberto pelo Capital Circulante Liquido (CCL), também conhecido por Capital
de Giro Liquido (CGL).
O CCL pode ser visto por dois ângulos distintos conforme demonstra a
Figura a seguir:

A figura mostra que CCL¹ = CCL²


CCL¹ = AC – PC
AC = PC + CCL², evidenciando que o ativo circulante é financiado pelo
passivo circulante e pelo capital circulante liquido.
CCL² = (ELP + PL) – (RLP + AP)
Demonstrando que o capital circulante liquido é constituído pelo excedente
dos recursos de longo prazo e permanentes sobre os ativos não circulantes.
Como “o dinheiro não é carimbado”, teremos de admitir que o CCL² é
constituído por uma parcela dos empréstimos e financiamentos a longo prazo e por
uma parcela do patrimônio liquido. (se a totalidade do exigível a logo prazo fosse
constituída por contratos de financiamento de bens que integram o ativo permanente,
teríamos de admitir CCL² seria constituído basicamente de recursos próprio).
EXEMPLO: Considere a seguinte demonstração da empresa “Z”:
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Balanço Patrimonial Cia. “Z” em 31/12/02

Ativo 31/12/02 Passivo 31/12/02


Ativo Circulante 168.000 Passivo Circulante 138.000
Caixa e Bancos 5.000 Fornecedores 60.000
Aplicações. Financeiras 15.000 Empréstimos 55.000
Duplicatas a Receber 100.000 Salários e Encargos 5.000
Estoques 48.000 Impostos a recolher 18.000

Ativo Não Circulante 70.000 Passivo E. Longo Prazo 40.000


ARLP Créditos Diversos 20.000 Financiamento 40.000
Investimentos 10.000
Imobilizado 40.000 Patrimônio Líquido 60.000
Capital Social 60.000

Total do Ativo 238.000 Total do Passivo 238.000

Calculando:
CCL¹ = AC – PC
CCL¹ = 168.000 – 138.000
CCL¹ = 30.000
ou
CCL² = (ELP + PL) – (RLP + IMOBILIZADO + INVESTIMENTOS
+INTANGÍVEL)
CCL² = (40.000 + 60.000) – (20.000 + 50.000)
CCL² = 100.000 – 70.000
CCL² = 30.000

Conceito de Necessidade de Capital de Giro


CONCEITO

Segundo MATARAZZO (2007), a Necessidade de Capital de Giro, que


designaremos NCG, não é só um conceito fundamental para a análise da empresa
do ponto de vista financeiro, ou seja, análise de caixa, mas também de estratégias
de financiamento, crescimento e lucratividade.
Ainda segundo o mesmo autor, nenhuma análise econômico-financeira de
empresa produtiva (excluem-se, portanto empresa financeira s e securitárias) poder
prescindir de abordar a NCG, tamanha a sua importância.
Conhecer sua real necessidade de capital de giro, bem como saber
determinar suas principais fontes de financiamento, são informações relevantes
para a gestão empresarial.
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DETERMINAÇÃO DA NCG

Na padronização de balanços, deparamos com a segmentação do Ativo


Circulante em Passivo Circulante em Operacional e Financeiro, os quais fogem
das classificações habituais. O Objetivo é justamente o de preparar os dados para a
elaboração da NCG.
O Ativo Circulante Operacional – ACO é o investimento que decorre
automaticamente das atividades de compra/produção/estocagem/venda, enquanto o
Passivo Circulante Operacional – PCO é o financiamento, também automático,
que decorre dessas atividades.
A diferença entre esses investimentos (ACO) e os financiamento (PCO) é
quanto a empresa necessita de capital para financiar o giro, ou seja, a NCG.
Portanto:
NCG = ACO – PCO
Onde:
NCG – Necessidade de Capital de Giro
ACO – Ativo Circulante Operacional
PCO – Passivo Circulante Operacional
As situações básicas que ocorrem numa empresa, com relação ao ACO/
PCO podem ser assim resumidas:
Ativo Circulante Operacional maior que Passivo Circulante Operacional -ACO > PCO
É a situação normal da maioria das empresas. Na uma NCG para a qual a
empresa deve encontrar fontes adequadas de financiamento.
Ativo Circulante Operacional igual ao Passivo Circulante Operacional - ACO = PCO
Neste caso a NCG é igual a zero e portanto a empresa não tem necessidade
de financiamento para o giro.
Ativo Circulante Operacional menor que Passivo Circulante Operacional -ACO < PCO
A empresa tem mais financiamentos operacionais do que investimentos
operacionais. Sobram recursos das atividades operacionais, os quais poderão ser
usados para aplicação no mercado financeiro ou para a expansão da planta fixa.
Encontra-se a seguir as demonstrações da NCG da Cia BIG.

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FONTES DE FINANCIAMENTO DA NCG

MATARAZZO (2007), afirma que para financiar as necessidades de capital


de giro, a empresa pode contar normalmente com três tipos de financiamentos:
• capital Circulante Próprio;
• empréstimos e Financiamentos Bancários de Longo Prazo;
• empréstimos Bancários de Curto Prazo e Duplicatas Descontadas.
• acham-se a seguir algumas figuras que objetivam permitir ao leitor
visualizar a NCG e suas fontes de Financiamento.

Fonte: Acervo pessoal

Veja na próxima figura o complemento do balanço da figura acima,


ressaltando-se exatamente as fontes de cobertura da Necessidade de Capital de Giro.

Fonte: Acervo pessoal

A Necessidade de Capital de Giro na figura anterior é financiada por três


fontes:
1ª - Duplicatas Descontadas e Empréstimos Bancários de Curto Prazo.
2ª - Financiamentos Bancários de Longo Prazo.
3ª - Parte do Patrimônio Liquido, ou seja, Capital Circulante Próprio.

A figura mostra uma dada configuração. Na prática existem inúmeras


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possibilidades: O Capital Circulante Próprio pode ser negativo, caso em que


os financiamentos de longo prazo podem cobrir sozinhos o Capital Circulante
Liquido e mesmo o Capital Circulante Liquido pode ser negativo.
SIMBOLOGIA:
NCG = Necessidade de Capital de Giro
CCL = Capital Circulante Liquido
EBCP = Empréstimos Bancários de Curto Prazo (inclusive Duplicatas
Descontadas).
CCP = Capital Circulante Próprio
ELP = Exigível a Longo Prazo
PL = Patrimônio Líquido
AP = Ativo Permanente
RLP = Realizável a Longo Prazo

Segundo MATARAZZO (2007), apresentamos adiante a Demonstração


do Capital de Giro (DCG) que evidencia dados relevantes para a avaliação da
gestão do capital de giro.

Demonstração do Capital de Giro – DCG em:

31-12-X5 31-12-X6
Valores Absolutos AV AH Valores Absolutos AV AH
Determinação da NCG
AC Operacional
Clientes
Estoques
Outros Ativos Operacionais
SOMA
PC Operacional
Fornecedores
Outros Passivos Operacionais
SOMA
NCG (ACop – PCop)
FINANCIAMENTOS DA NCG
PL
- AP
= CGP
+ PELP
= CCL
+ EBCP
= FINANCIAMENTO TOTAL NCG
= SALDO DE TESOURARIA
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= CAIXA + BANCOS
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EXEMPLO: Elaboração Demonstração do Capital de Giro (DCG) da


“Cia. Líquida”.

Balanço Patrimonial em 31/12/2006 – “Cia Líquida.”


Ativo 31/12/05 31/12/06 Passivo 31/12/05 31/12/06
AC 3.300 3.435 PC 1.500 1.770
Disponível 100 220 Fornecedores 1.100 1.400
Duplicatas a 1.800 2.030 Empréstimos 400 370
Receber
Estoques 1.400 1.185

ARLP PELP 500 660


Financiamento 500 660

AP 2.200 1.945
Imobilizado 2.800 3.145
(-) Depreciação (600) (1.200) PL 3.500 2.950
Acumulada
Capital Social 2.000 2.150
Lucros Acumulados 1.500 800
Total do Ativo 5.500 5.380 Total do Passivo 5.500 5.380

Demonstração do Capital de Giro (DCG) “Cia. Líquida”.


31/12/05 31/12/06
V a l o r e s AV AH V a l o r e s AV AH
Absolutos Absolutos
Determinação da NCG
AC Operacional
Clientes 1.800 2.030
Estoques 1.400 1.185
Outros Ativos Operacionais - -
SOMA 3.200 3.215
PC Operacional
Fornecedores 1.100 1.400
Outros Passivos Operacionais. - -
SOMA 1.100 1.400
NCG 2.100 100 100 1.815 100 86
FINANCIAMENTOS DA NCG
PL 3.500 100 2.950 84
- AP 2.200 100 1.945 88
= CGP 1.300 62 100 1.005 56 77
+ PELP 500 24 100 660 36 132
= CCL 1.800 86 100 1.665 92 93

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+ EBCP 400 19 100 370 20 93


= FINANCIAMENTO TOTAL 2.200 105 100 2.035 112 93
NCG
= SALDO DE TESOURARIA 100 5 100 220 12 220
APLICAÇÕES FINANCEIRAS - -
= CAIXA + BANCOS 100 5 100 220 12 220
Fonte: Acervo pessoal

A análise horizontal e vertical desta demonstração ajuda a entender


quais foram as principais fones de financiamento da NCG e suas variações de um
período para o outro, quem podem ajudar a entender como determinada empresa
esta gerenciando suas fontes de financiamento de capital de giro.

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