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Curto-circuito

1. Introdução
Em sistemas elétricos de potência (SEP), os curtos-circuitos são chamados
geralmente de faltas, portanto neste documento os termos curto-circuito e falta têm o
mesmo significado.
Em princípio, é importante destacar que o conhecimento dos níveis de curtos-
circuitos em um sistema elétrico tem como principal objetivo definir a capacidade de
interrupção de disjuntores e o estudo da graduação de relés de proteção contra
sobrecorrentes, visando uma operação seletiva e suficientemente rápida para proteger os
diversos dispositivos e equipamentos de um SEP contra os efeitos provenientes de
sobrecorrentes anormais, como acontece comumente nos casos de correntes de curtos-
circuitos.
A análise da natureza de uma corrente de curto-circuito num circuito c.a, desde o
regime transitório até o regime permanente, é muito importante sob o aspecto de
proteção (graduação de relés) e de dimensionamento de disjuntores e chaves-fusíveis no
que tange à capacidade de interrupção.
Neste texto faz-se essa análise, bem como se apresenta a formulação clássica de
cálculo de curto-circuito em um sistema trifásico aterrado, usando componentes
simétricas.

2. Ângulo de fase
São correntes indutivas, geralmente com baixo fator de potência, tendo em vista
que se apresentam atrasadas em relação à tensão pré-falta, tomada como referência. Em
sistemas trifásicos aterrados de distribuição (níveis de tensão da classe15 kV, por
exemplo, 13,8 kV), as correntes de faltas, que não envolvem a terra, apresentam ângulos
típicos, na faixa -70º < θ < -45º. No caso de linhas de transmissão (V ≥ 69 kV),
geralmente esses ângulos estão dentro da faixa -86º < θ < -70º.
Naturalmente, o ângulo das correntes de falta depende do ângulo da impedância
do circuito percorrido pela corrente de falta, que é dado por (1).

X
θ = tan −1 ( ) , (1)
R

em que X e R são a reatância e a resistência da impedância resultante “vista” pela


corrente de falta no local da falta (impedância de Thévenin).
No ponto de falta, essa impedância resultante é calculada a partir das
impedâncias de Thévenin, de sequência positiva, negativa e zero, a depender do tipo de
falta equilibrada ou não.

3. Regime transitório
Logo após a ocorrência de um curto-circuito, as correntes apresentam um
comportamento assimétrico em relação ao eixo dos tempos (período transitório, cuja
duração máxima é em torno de 6 ciclos de 60 Hz ou 0,1 s), ou seja, a corrente é
assimétrica. Pode ser decomposta em uma componente senoidal somada a uma

1
componente exponencial decrescente (componente contínua ou c.c), cuja duração irá
depender da constante de tempo do circuito, σ = L/R (L=X/2πf), em que f é a frequência
do sistema. Transcorrido o período transitório, a corrente de falta entra em regime
permanente. Neste período, é denominada componente simétrica.
Comumente, as correntes de curtos-circuitos são calculadas no regime
permanente, empregando-se a teoria de componentes simétricas e o teorema de
Thévenin, obtendo-se, assim, os valores eficazes dessas correntes. Por sua vez, os
valores assimétricos são calculados por meio da resolução de equações diferenciais ou
por simulações, empregando-se ferramentas computacionais tais como ATP (Alternative
Transient Program), SIMULINK (módulo de simulação do MatLab), RTDS (Simulador
Digital em Tempo Real), dentre outros.
O comportamento de uma corrente de curto-circuito fica mais claro quando um
circuito RL, alimentado por uma fonte de tensão alternada, e(t), é simulado por meio do
fechamento de uma chave como esquematizado na Figura 1.

Em (2) tem-se a tensão senoidal, e(t), da fonte c.a do circuito.

e(t) = E m sen( w t + α) (2)

t=0 R L

i(t)
e(t) ~

Figura 1 – Simulação de um curto-circuito

Imediatamente após o fechamento da chave (t =0+), a corrente no circuito é dada


por (3):

 −t

i(t) = I m sen(w t + α − θ) + e τ sen(α− θ)
 , (3)
−t
τ
i(t) = I m sen(w t + α − θ) + I m e sen(α − θ)
sendo:

α : ângulo correspondente ao instante de fechamento da chave (ângulo de incidência);

θ : ângulo de defasagem da corrente em relação à tensão (ângulo de fator de potência ou


ângulo da impedância, Z, do circuito);
E
I m = m : valor máximo da corrente (valor de pico);
Z
Z = R 2 + X 2 : módulo da impedância do circuito;

X = w L : reatância indutiva do circuito;

2
L
τ= : constante de tempo do circuito (s);
R
X
θ = tan −1   : ângulo da impedância Z do circuito.
R

A corrente i(t) pode ainda ser escrita na forma reduzida como em (4).

i(t) = i ca (t) + i cc (t) (4)

i ca : componente simétrica (primeiro termo de (3));


i cc : componente contínua ou exponencial decrescente ( segundo termo de (3)).

Enquanto a componente c.c estiver presente no circuito (período transitório), a


corrente i(t) é chamada de componente assimétrica, pois há uma assimétrica em relação
ao eixo dos tempos, conforme se pode observar nas figuras 2 e 4.
De (3), para t =0+ (logo após o fechamento da chave), o valor de i cc dependerá
do instante do fechamento da chave com relação ao ângulo da tensão, isto é, do ângulo
α (conhecido como ângulo de incidência), ou seja, se:

α − θ = 0 ou π ⇒ i cc = 0 ⇒ Não há assimetria
π
α − θ = ± ⇒ i cc,max = m I max = m 2 × I ef,ca ⇒ Há assimetria (5)
2

O valor eficaz de i(t), Ief, é dado por:

I ef = I 2max + I ef,
2
ca (6)

Substituindo (5) em (6), obtém-se o valor eficaz máximo de i(t), isto é, o valor
eficaz máximo da componente assimétrica, ou seja:

I ef = 3 × I ef,ca , (7)

Os relés de sobrecorrente muito rápidos (atuação num da ordem 20 ms ou


inferior) e os fusíveis poderão atuar durante a assimetria de uma corrente de curto-
circuito.
Os valores instantâneos da corrente i(t), para o ângulo de incidência α = π/2+θ,
são mostrados nos gráficos das figuras 2 e 4. Já nos gráficos das figuras 3 e 5 são
mostradas as componentes c.c dessas correntes (são correntes exponenciais
decrescentes), que estão presentes durante o período transitório. As curvas foram
traçadas a partir de (3), empregando-se o programa SciLab.

3
Assimétrica

Simétrica

Figura 2 – Corrente i(t) = ica(t) + icc(t), para Z=0,5251+j1,0502 p.u,


θ = 63,4o, α= π/2 + θ = 90 + 63,4o = 153,4o (assimetria máxima)

Figura 3 – Componente icc(t) da corrente mostrada no gráfico da Figura 2

4
Assimétrica
Simétrica

Figura 4 - Corrente i(t) = ica(t) + icc(t), para Z=0,5251+j4,2008 p.u,


θ = 82,8o, α= π/2 + θ = 90 + 82,8o = 172,8o (assimetria máxima)

Figura 5 – Componente icc(t) da corrente mostrada no gráfico da Figura 4

De acordo com o gráfico mostrado na Figura 2, observa-se que a componente


assimétrica perdura até o tempo, t=0,032 s, quando a componente c.c atinge o valor zero
(Figura 3). Já no gráfico da figura 4, verifica-se que a componente assimétrica
permanece no circuito até t=0,134 s, quando a componente c.c atinge também o valor
zero (Figura 5). Portanto, a partir desses tempos, as componentes assimétricas passam
ser simétricas (regime permanente).
Com a formulação clássica de cálculo de correntes de curtos-circuitos em c.a,
determinam-se os valores eficazes das componentes simétricas, ou seja, em regime
permanente.

5
4. Fator de assimetria
Na prática, é comum o emprego de fatores de assimetria, fassim, para calcular os
valores eficazes das componentes assimétricas de curtos-circuitos. Para isso, multiplica-
se o valor eficaz da corrente, calculado em regime permanente, pelo fator de assimetria
correspondente, determinado no ponto da falta. Os valores típicos de fatores de
assimetria são extraídos de curvas (Figura 6) ou de tabela, Tabela 1, e dependem,
obviamente, do tempo transcorrido após a falta, da relação X/R (no ponto da falta), e do
ângulo de incidência, α, conforme descrito em (9). Para α=0, geralmente os fatores de
assimetria assumem valores entre 1 e 1,8, ou seja, 1≤ fassim < 1,8.

Figura 6 – Curvas de fatores de assimetria para t = 4,17 ms (1/4 de ciclo de 60 Hz); α=0 →AZUL;
α=pi/8 →VERMELHA; α=pi/4 →PRETA; α=pi/2 →MAGENTA

Tabela 1 – Fatores de assimetria para α=0 e t = 8,33 ms (1/2 ciclo de 60 Hz)

X/R fassim X/R fassim X/R fassim


0,25 1,000 2,30 1,085 6,80 1,360
0,30 1,004 2,40 1,090 7,00 1,362
0,40 1,005 2,50 1,104 7,25 1,372
0,50 1,006 2,60 1,110 7,50 1,385
0,55 1,077 2,70 1,115 7,75 1,391
0,60 1,008 2,80 1,123 8,00 1,405
0,65 1,009 2,90 1,130 8,25 1,410
0,70 1,010 3,00 1,140 8,50 1,420
0,75 1,011 3,10 1,142 8,75 1,425
0,80 1,012 3,20 1,150 9,00 1,435
0,85 1,013 3,30 1,155 9,25 1,440
0,90 1,015 3,40 1,162 9,50 1,450
0,95 1,018 3,50 1,170 9,75 1,455
1,00 1,020 3,60 1,175 10,00 1,465
1,05 1,023 3,70 1,182 11,00 1,480
1,10 1,025 3,80 1,190 12,00 1,500
1,15 1,026 3,90 1,192 13,00 1,515
1,20 1,028 4,00 1,210 14,00 1,525

6
1,25 1,029 4,10 1,212 15,00 1,550
1,30 1,030 4,20 1,220 16,00 1,560
1,35 1,033 4,30 1,225 17,00 1,570
1,40 1,035 4,40 1,230 18,00 1,580
1,45 1,037 4,50 1,235 19,00 1,590
1,50 1,040 4,60 1,249 20,00 1,600
1,55 1,043 4,70 1,255 22,50 1,610
1,60 1,045 4,80 1,260 25,00 1,615
1,65 1,047 4,90 1,264 27,75 1,625
1,70 1,050 5,00 1,270 30,00 1,630
1,75 1,055 5,20 1,275 35,00 1,636
1,80 1,060 5,40 1,290 40,00 1,648
1,85 1,063 5,60 1,303 45,00 1,653
1,90 1,065 5,80 1,310 50,00 1,659
1,95 1,068 6,00 1,315 55,00 1,660
2,00 1,070 6,20 1,324 60,00 1,680
2,10 1,075 6,40 1,335  
2,20 1,080 6,60 1,350  

Os valores eficazes das correntes de curtos-circuitos são empregados na


determinação da capacidade de interrupção de disjuntores, religadores e chaves-fusíveis
e na graduação de relés de sobrecorrente (correntes mínimas de atuação e tempos de
atuação).
No exemplo mostrado na Figura 7, apresenta-se o diagrama unifilar de um
circuito radial, trifásico aterrado, em 13,8 kV (alimentador de distribuição), onde estão
calculadas as correntes de faltas trifásica, bifásica, fase-terra e fase-terra mínima
(Rt = 40 Ω), com base nas impedâncias de Thévenin fornecidas no P.

2275 Icc3F
1970 Icc2F
1649 IccFT
Subestação 186 IccFTm, Rt = 40 Ω
69 kV 13,8 kV P
Impedâncias de Thèvenin no ponto P
∆-YT Z2 = Z1 = 0,0842 + j 0,7159 p.u
Z0 = 0,1314 + j 1,1978 p.u
Vb = 13,8 kV, Sb = 100 MVA

Figura 7 – Diagrama unifilar de um alimentador trifásico em 13,8 kV

Os valores dados no ponto P são valores eficazes das correntes de faltas em


regime permanente (valores eficazes das correntes simétricas). Quando são requeridos
os valores eficazes durante o período transitório (período assimétrico), se faz necessário
fazer simulações ou usar fatores de assimetria. No caso do emprego de fatores de
assimetria, é preciso conhecer as relações X/R no ponto da falta e o tempo de falta. No
caso dos fatores de assimetria fornecidos Tabela 1, o tempo é de 8,33 ms (1/2 ciclo de
60 Hz).
Para cada tipo de falta, as relações X/R são calculadas de acordo com as
impedâncias dos circuitos de sequências usados no cálculo da falta, ou seja, dependem
das impedâncias de Thévenin de sequência positiva no ponto da falta, como em (8) e
(9).

7
X1Th
Falta trifásica: Rel 3 F = (8)
R 1Th

X 0 Th + X1Th + X 2 Th
Falta fase-terra franca: Rel1F = (9)
R 0 Th + R 1Th + R 2 Th

No ponto P da Figura 7, de acordo com as equações (8), (9) e a Tabela 1 para


t = 8,33 ms, têm-se os seguintes valores eficazes para as correntes assimétricas das
faltas trifásica e fase-terra franca:

0,7159
Rel 3 F = = 8,5 ⇒ f assim = 1,420 ⇒ I cc,3F,assim,ef = 1,420 × 2275 = 3230,5 A
0,0842

2 × 0,7159 + 1,1978
Rel1F = = 8,8 ⇒ f assim = 1,425 ⇒ I cc,1F,assim,ef = 1,425 × 1649 = 2349,8 A
2 × 0,0842 + 0,1314

5. Faltas em sistema trifásico aterrado


Em um sistema trifásico aterrado, podem ocorrer quatro tipos de curtos-
circuitos:

• Trifásico
• Bifásico ou dupla-fase
• Bifásicos à terra ou dupla-fase-terra
• Monofásicos à terra ou fase-terra

5.1. Impedância de falta


Comumente, qualquer tipo de falta (polifásica ou monofásica) se desenvolve
através de uma impedância de falta, ZF, que pode ser: resistência de arco, resistência de
terra, resistência de contato, dentre outras.
O valor de uma resistência de arco é dependente do comprimento do arco
(distância máxima entre fases ou entre fase e um ponto aterrado) e da corrente que
circula através do mesmo, que é uma corrente de falta. Em (10) tem-se a fórmula
Warrington, que é uma fórmula experimental (empírica) bem conhecida e aceita para
expressar uma resistência de arco.

d
R arco = 28710 × ( Ω) , (10)
I1,4
F

em que:
d: distância de arco inicial em (m) (separação máxima entre fases para faltas polifásicas,
e entre uma fase e um ponto aterrado para as faltas à terra);
IF: corrente de falta em (A);
Rarco: resistência de arco em (Ω).

8
No Quadro 1 são dados valores típicos de resistência de arco durante uma falta
para diferentes níveis de tensão nominal.

Quadro 1 – Valores típicos de resistências de arco

Distância Tensão Resistência de arco


de arco nominal (Ω)
inicial do sistema IF = 1 IF = 5 IF = 10
(m) (kV) (kA) (kA) (kA)
2 33 3,6 0,4 0,2
5 110 9,1 1,0 0,4
8 220 14,5 1,5 0,6

Inicialmente, a resistência arco possui valor baixo, com o passar do tempo ela
pode evoluir, aumentando para valores da ordem de 50 ohms ou superiores.

5.2. Falta de alta impedância

A falta de alta impedância é uma falta através de uma impedância de valor


elevado, que dá origem a correntes baixas (inferiores a correntes de carga), às vezes tão
baixas que não conseguem ser detectadas por dispositivos de proteção sobrecorrente.
Um caso típico de uma falta de alta impedância é quando um condutor de um
alimentador trifásico aterrado rompe e entra em contato com uma superfície de alta
impedância, por exemplo, solo seco, paralelepípedo, asfalto, galho de árvore, etc.
Tomando como exemplo um condutor de fase de um alimentador trifásico
aterrado, de 13,8 kV, ao se romper e tocar num solo arenoso seco, que ofereça uma
resistência de contato de 3000 ohms, então a corrente de falta é 2,65 A, conforme (11).

Vf T 13800 / 3
= = 2,65 A , (11)
RF 3000

em que VfT é a tensão fase-terra pré-falta e RF é a resistência da falta de alta


impedância.

6. Cálculo de correntes de curtos-circuitos


No cálculo das correntes de curtos-circuitos em regime permanente, empregam-
se comumente os circuitos equivalentes, por fase, de sequência positiva, negativa e zero,
a partir da teoria de componentes simétricas (teorema de Fortescue).
Para um sistema trifásico, as tensões de fase em termos de componentes
simétricas são:

Va 1 1 1 Va 0
Vb = 1 a 2
a × Va 1 (12)
Vc 1 a a 2 Va 2

9
Em (12), a matriz formada pelos fasores 1, a = 1∠120 o e a 2 = 1∠ − 120 o é
conhecida como matriz de transformação, T.

Explicitando o vetor das componentes simétricas em (12), obtém-se:

Va0 1 1 1 Va
1
Va1 = × 1 a a 2 × Vb (13)
3
Va2 1 a2 a Vc

De forma análoga a (12), as correntes de fase em termos de decompostas


simétricas são:

Ia 1 1 1 I a0
Ib = 1 a 2
a × I a1 (14)
Ic 1 a a 2 I a2

Explicitando o vetor das componentes simétricas, resulta:

I a0 1 1 1 Ia
1
I a1 = × 1 a a × Ib
2
(15)
3
I a2 1 a2 a Ic

As faltas trifásicas são consideradas equilibradas, portanto podem ser modeladas


por um único circuito de sequência positiva. Os demais tipos de faltas são
desequilibrados, então precisam ser modelados empregando-se, além do circuito de
sequência positiva, os demais circuitos de sequência. As faltas que envolvem a terra
necessitam dos três circuitos. Já as faltas bifásicas, que não envolvem a terra, requerem
somente os circuitos de sequência positiva e negativa.
A abordagem de cálculo de faltas de forma manual é comumente usada em
pequenos sistemas elétricos em c.a, particularmente em sistemas radiais com poucas
barras ou nós. Os grandes sistemas e potência usam programas comerciais de cálculo de
faltas, como o ANAFAS, do CEPEL (programa de análise de faltas simultâneas) e
outros, que são desenvolvidos, geralmente, com base na matriz de impedância de barra,
Z, cujos elementos da diagonal principal são as impedâncias de Thévenin em vista de
cada nó ou barra.
Nas seções seguintes serão apresentados os circuitos de sequência positiva,
negativa e zero, com as respectivas equações para os diversos tipos de faltas que podem
ocorrer em um sistema trifásico aterrado.

10
6.1. Circuitos de sequências
Considere-se os terminais de um gerador síncrono, trifásico aterrado como
mostrado na Figura 8.
a

b
Ea Eb

~ ~
•N
Va
~ Ec
Vb
VNT ZT
c

Vc

Figura 8 – Curto-circuito trifásico nos terminais de um gerador síncrono

Usando a teoria das componentes simétricas, montam-se os circuitos unifilares


de sequência positiva, negativa e zero.
Será tomada a fase a como referência e considera-se que o sistema está em
vazio, ou seja, sem carga.

a) Circuito de sequência positiva (Figura 9):

Za1 Ia1

Ea1 ~ Va1

Figura 9 – Circuito de sequência positiva

De acordo com o circuito, tem-se:

E a1 = Va1 − Z a1I a1 ,
(16)
em que:
Ea1: tensão interna de sequência positiva na fase a do gerador;
Va1: tensão de sequência positiva na fase a dos seus terminais do gerador;
Ia1: corrente de sequência positiva na fase a do gerador;
Za1: impedância de sequência positiva do enrolamento da fase a do gerador.
11
b) Circuito de sequência negativa (Figura 10).

Za2 Ia2

Va2

Figura 10 – Circuito de sequência negativa

A equação que descreve esse circuito é:

Va2 = − Z a2 I a2 , (17)
em que:
Va2: tensão de sequência negativa da fase a;
Ia2: corrente de sequência negativa da fase a;
Za2: impedância de sequência negativa do enrolamento da fase a.

c) Circuito de sequência zero (Figura 11).

Za0 Ia0

3ZT Va0

Figura 11 – Circuito de sequência zero

De acordo com o circuito, a tensão de sequência zero da fase a, Vao, é:

Va 0 = − Z a0 I a0 − 3Z T I a0 = −(Z a0 + 3Z T )I a0 (18)

12
6.1. Falta trifásica com impedância de falta
Para analisar esse tipo de falta, considera-se o sistema mostrado na Figura 12,
cujas tensões fase-terra da fonte trifásica aterrada são Ea, Eb e Ec.

a
b
c

ZF ZF ZF

Figura 12 – Falta trifásica através de uma impedância

O circuito unifilar de sequência positiva considerando uma resistência de falta


ZF, é mostrado na Figura 13.

Za1 Ia1

Ea1 ~ ZF Va1F

Figura 13 – Circuito de sequência positiva para falta trifásica através de uma impedância

De acordo com o circuito, a corrente Ia1 é dada por (19). Já Ia0 =0 e Ia2 =0, pois a
falta é equilibrada. Então, de acordo com circuito da Figura 13, escreve-se:

E a1
I a1 = (19)
Z a1 + Z F

Substituindo esses valores em (14), resulta:

Ea
I a = I a1 =
Z a1 + Z F
Ea
I b = a 2 I a1 = a 2 ×
Z a1 + Z F
Ea
I c = aI a1 = a ×
Z a1 + Z F

Por sua vez, a tensão de sequência positiva no ponto da falta, Va1F, é:

13
Va1F = Z F I a1 (20)

Substituindo esse valor em (12), obtêm-se as tensões nas fases no ponto da falta,
conforme (21).

VaF = Va1F = Z F I a1
VbF = a 2 Va1F = a 2 × Z F I a1 (21)
VcF = aVa1F = a × Z F I a1

6.2. Falta trifásica à terra com impedância falta e resistência de terra


Na Figura 14 representa-se essa situação, em que ZT é a resistência de terra no
ponto da falta.

a
b
c

ZF ZF ZF
Ia Ib Ic

ZT

Figura 14 – Falta trifásica á terra com impedância de falta e resistência de terra

De acordo com circuito da Figura 12, as tensões no local da falta são:

Va = ZF Ia + ZT (Ia+Ib+Ic) → Va = (ZF +ZT ) Ia + ZT Ib+ ZT Ic

Vb = ZF Ib + ZT (Ia+Ib+Ic) → Vb = ZT Ia + (ZF +ZT) Ib + ZT Ic (22)

Vc = ZF Ic + ZT (Ia+Ib+Ic) → Vc = ZT Ia + ZT Ib + (ZF +ZT)Ic

Escrevendo (22) na forma matricial resulta:

Va (ZF + Z T ) ZT ZT Ia
Vb = ZT (Z F + Z T ) ZT × Ib (23)
Vc ZT ZT (Z F + Z T ) I c

Em (23), substituindo as tensões e as correntes por suas componentes simétricas,


tem-se:

14
Va0 1 1 1 (Z F + Z T ) ZT ZT 1 1 1 I a0
1
Va1 = × 1 a a ×
2
ZT (Z F + Z T ) ZT × 1 a2 a × I a1 (24)
3
Va2 1 a2 a ZT ZT (Z F + Z T ) 1 a a 2 I a2

Resolvendo (24), obtém-se:

Va0 (Z F + 3Z T ) 0 0 I a0
Va1 = 0 ZF 0 × I a1 , (25)
Va2 0 0 Z F I a2

de onde são extraídas as tensões das sequências:

Va0 = (ZF + 3ZT) x Ia0

Va1 = ZF Ia1 (26)

Va2 = ZF Ia2

De acordo com (26), se as tensões Va, Vb e Vc forem desbalanceadas há os três


circuitos de sequência (figuras 15, 16 e 17). Sendo Va0 ≠ Va1 ≠ Va2 e Ia0 ≠ Ia1 ≠ Ia2, então,
não se pode fazer associações série-paralelo entre esses circuitos, como nos casos
anteriores, consequentemente, são resolvidos de forma independente.

Za1 Ia1

Ea1 ~ ZF Va1=Va1F

Figura 15 – Circuito de sequência positiva para falta trifásica


através de uma impedância envolvendo a terra

Za2 Ia2

ZF Va2 =Va2F

Figura 16 – Circuito de sequência negativa para falta trifásica


através de uma impedância envolvendo a terra

15
Za0 Ia0

ZF
Va0 =Va0F
3ZT

Figura 17 – Circuito de sequência zero para falta trifásica


através de uma impedância envolvendo a terra

Por outro lado, se as tensões forem equilibradas têm-se: Va0 = 0 e Va2 = 0,


consequentemente, Iao=0 e Ia2=0, então, resulta somente no circuito de sequência
positiva, como é considerado comumente.

6.3. Curto-circuito monofásico à terra


Na Figura 8, curto-circuitando a fase a à terra têm-se as seguintes restrições:
Ib = Ic = 0 e Va = 0 (no ponto da falta).

Em (15), a substituição de Ib e Ic por zero resulta:

1
I a0 = I a1 = I a2 = I a (27)
3

A tensão na fase a da fonte, Ea, durante a falta é:

E a = Va + VT , (28)

em que VT é a queda de tensão na impedância de terra ZT, ou seja, VT =ZT x Ia

Escrevendo a equação (28) em termos de componentes simétricas, obtém-se:

E a = Va0 + Va1 + Va2 + VT ⇒ E a = (Z a0 + Z a1 × + Z a2 + 3Z T )I a1 (29)

Explicitando Ia1 em (29) resulta:

Ea
I a1 = (30)
Z a0 + Z a1 + Z a2 + 3Z T

Mas, Ia = 3Ia1, então:

3 Ea
Ia = (31)
Z a0 + Z a1 + Z a2 + 3Z T

16
Considerando Za1=Za2, tem-se:

3 Ea
Ia = (32)
2 Z a1 + Z a0 + 3Z T

Para que (27) seja satisfeita, os circuitos de sequências devem ser ligados em
série, como mostrado na Figura 17.

Za1 Za2 Ia2 Za0 Ia0


Ia1

Ea1 Va1 Va2 3ZT Va0


~

Figura 17 – Ligação dos circuitos de sequências positiva, negativa e zero para cálculo de falta fase-terra

De acordo com o circuito, têm-se as tensões de sequências:

Va 0 = − (Z a0 + 3Z T )I a0
Va1 = Ea1 − Z a1I a1 (33)
Va 2 = − Z a 2I a 2

Em componentes simétricas, as tensões nas fases em relação à terra no ponto da


falta são dadas por:

VaT 1 1 1 Va 0
VbT = 1 a 2
a × Va1 (34)
VcT 1 a a 2 Va 2

A substituição de (33) em (34), resulta nas tensões de falta nas fases, no ponto da
falta.

17
6.4. Curto-circuito bifásico através de uma impedância
Geralmente, o curto-circuito bifásico se desenvolve através de uma impedância
de falta, ZF, que se apresenta entre as duas fases defeituosas (Figura 18).

a
b
c
IF

ZF

Figura 18 – Falta bifásica através de impedância

De acordo com a Figura 18, escreve-se:

Vb − Vc
IF = ⇒ Vc = Vb − Z F I F
ZF

As componentes simétricas das tensões são:

Va0 1 1 1 Va
1
Va1 = × 1 a a2 × Vb
3
Va2 1 a2 a Vb − Z F I F

Extraindo Va1 dessa equação, resulta:

1
Va1 = [Va + aVb + a 2 (Vb − Z F I F )] (35)
3
Sendo Va0 = 0, tem-se:
Va = Va1 + Va2

Vb = a2Va1 + aVa2

Substituindo esses valores em (35), resulta:

1
Va1 = [(Va1 + Va2 ) + a(a 2 Va1 + aVa2 ) + a 2 (aVa1 + a 2 Va2 − Z F I F )] (36)
3

Como a falta envolve somente as fases b e c, então, Ia = 0, Ia0 = 0 e Ia1 =-Ia2.


Assim:
I F = I b = I a1 (a 2 − a)

18
Substituindo IF em (36), obtém-se:

1
Va1 = {(Va1 + Va2 ) + a(a 2 Va1 + aVa2 ) + a 2 [aVa1 + a 2 Va2 − Z F I a1 (a 2 − a)]} (37)
3

O desenvolvimento de (37) resulta:

Va1 = Va2 + Z F I a1 (38)

Então, o circuito de sequências que atende a essa equação é:

Za1 Ia1 ZF Ia2 Za2


• •

Ea1 ~ Va1 Va2

Figura 19 – Ligação dos circuitos de sequência positiva e negativa


para cálculo de falta bifásica através de uma impedância

Dessa forma, têm-se:

j 3 Ea
I c = −I b = (39)
Z a1 + Z a2 + Z F

E a1
Va = 2 (Z a2 + Z F ) (40)
Z a1 + Z a2 + Z F

6.5. Curto-circuito bifásico à terra


Este tipo de curto-circuito ocorre quando duas fases em curto-circuito entram em
contato com um ponto aterrado. Neste caso tem-se: I a = 0 e Vb = Vc = 0 . Assim,
determinam-se as tensões das sequências como em (41).

Va0 1 1 1 Va
1
Va1 = × 1 a a × 0
2
(41)
3
Va2 1 a2 a 0

A solução de (41) resulta:

Va
Va0 = Va1 = Va2 = (42)
3

19
Sendo Ia = 0, então:

I a0 + I a1 + I a2 = 0 (43)

Para satisfazer simultaneamente às equações (42) e (43), os circuitos de


sequências devem ser ligados como mostrado na Figura 16.

Za1 Za2 Za0

Ia1 Ia2 Ia0

Ea1 ~ Va1 Va2 3ZT Va0

Figura 16 – Ligação dos circuitos de sequências positiva, negativa e zero para cálculo de bifásica à terra

De acordo com circuito da Figura 16, obtém-se:

Ea
I a1 = (44)
Z (Z + 3Z T )
Za1 + a2 a0
Za2 + Za0 + 3Z T

Ainda, de acordo com esse circuito, tem-se: Va0 = Va1 =Va2 = Ea1 – Za1 Ia1.

Então:

E a − Z a1I a1
I a2 = − (45)
Z a2

E a − Z a1I a1
I a0 = − (46)
Z a 0 + 3Z T

Em termos de componentes simétricas, as correntes nas fases defeituosas b e c,


são:

I b = I a 0 + a 2 I a1 + aI a 2 (47)

I c = I a 0 + aI a1 + a 2 I a 2 (48)

20
Finalmente, a corrente na falta é:

I F = I b + I c = 3 I a0 (49)

As componentes simétricas das tensões são: Va0 = Va1=Va2 = Ea1 – Za1 Ia1.

Por sua vez, as tensões no ponto da falta são:

VaT 1 1 1 Va 0
VbT = 1 a 2 a × Va 1
VcT 1 a a 2 Va 2

Desenvolvendo a primeira linha dessa equação matricial e substituindo o valor


de Ia1, dado em (44), obtém-se a tensão na fase a (fase sã) em relação à terra (VaT), ou
seja:

3 Ea
VaT = , (50)
Z a1 Z a1
1+ +
Z 0 Z a2

em que:
Z0 = Za0 + 3ZT

6.6. Relação entre correntes de curto-circuito bifásico e trifásico


A razão entre as correntes de faltas bifásica e a trifásica, para ZF = 0, é:

j 3 Ea

I CC,2F Z a1 + Z a2 j 3 Z a1
= 2
=− 2 (51)
I CC,3F a Ea a (Z a1 + Z a2 )
Z a1
Se Za1= Za2, resulta:

I CC,2F j 3 3∠ − 90
=− 2
= o
= 0,866∠ − 330 o (52)
I CC,3F 2a 2∠240

Em módulo, tem-se:
I CC,2F = 0,866 × I CC,3F (53)

21
6.7. Potências de curtos-circuitos
Comumente, definem-se os níveis de curtos-circuitos de um sistema elétrico
trifásico om base nas potências de curtos-circuitos trifásicos. Também é comum o
cálculo da potência de curto-circuito monofásico franco (Zterra= 0).

• Potência de curto-circuito trifásico ( Scc,3φ ):

Scc,3φ = 3 × VLprefal × I cc,3φ ,

em que Vl prefal é a tensão de linha na barra de falta, antes da falta ocorrer.

Em p.u, na base do sistema, tem-se:

Scc,3φ = Vpprefal
. u × I cc,3 φ, p . u (p . u)

prefal
Se Vp.u = 1 p.u ,

então:
Scc,3φ,p . u = I cc,3φ,pu

• Potência de curto-circuito monofásica ( Scc,1φ ):

Scc,1φ = Vfprefal × I cc,1φ ,

em que Vf prefal é a tensão fase na barra de falta, antes da falta ocorrer.

6.8. Ordem de grandeza (valores típicos) das impedâncias de elementos


(componentes) do sistema

• Gerador (em p.u, na base do gerador):

Regime subtransitório: X "d → 0,20 − 0,10 (p.u)

Regime transitório: X 'd → 0,30 − 0,15 (p.u)

Regime permanente: X d → 1,00 − 1,15 (p.u)

• Transmissão (em p.u, na base do sistema):

Distribuição (MT): Z1 → 0,26 pu/km (13,8 kV, 100 MVA)

Distribuição (AT) Z1 → 0,01 pu/km (69 kV, 100 MVA)

22
Transmissão (LT) Z1 → 0,001 pu/km (230 kV, 100 MVA)

• Transformador (em porcentagem, na base do transformador):

Transformador de força (S ≥ 1 MVA): 6% a 10%

Transformador de distribuição: 3% a 5%

7. Simulação de curtos-circuitos (faltas) utilizando o ATP


Draw

Empregando-se o ATP Draw ((Alternative Transient Program) podem-se


simular faltas. O desenho do circuito utilizado está mostrado na Figura 17.

Figura 17 – Desenho do circuito montado no ATP Draw para simular faltas


cujos gráficos estão mostrados nas figuras a seguir

Os componentes do circuito da Figura 17 são:


• Fonte de tensão trifásica (U): Vf (pico) = 11,27 kV, 60 Hz, atrás das
impedâncias de sequência positiva e zero (Line RL): Z1 = 1,56 + j8,33
ohms; Z0 = 0,1 + j0,1 ohm (impedâncias da fonte mais as impedâncias da
linha);
• Resistência de terra: RT = 0,1 ohm;
• 4 chaves para simular os diversos tipos de faltas (3F, 2F, 2F_T e F_T);
• Amperímetros trifásicos (“probe” trifásico de corrente: I): um para medir
as correntes nas fases e outro para medir a corrente através da resistência
de terra.

Observações com respeito às simulações:


• Após a inicialização da simulação, as chaves são fechadas em 0,2 s;
• Considerou-se uma resistência de terra baixa (0,1 ohm) para acentuar os
valores das correntes de faltas à terra;
• A simulação foi feita sem carga (sistema em vazio);
• Os valores das correntes de faltas mostradas nos gráficos a seguir são os
resultados das simulações;
• Os valores das correntes são valores de pico, uma vez que as fontes do
ATP são parametrizadas com valores de pico.

23
a) Curto-circuto monofásico: fase b-T

Fase a (vermelha) e fase c (azul): zero; fase b (verde): corrente de falta à terra
3000
[A]

2000

1000

-1000

-2000
0,19 0,21 0,23 0,25 0,27 [s] 0,29
(f ile Simula_f altas_Aula_MPEE.pl4; x-v ar t) c:X0006A-X0001A c:X0006B-X0001B c:X0006C-X0001C
c:X0006C-X0001C

As correntes das fases a e c são não aparecem no gráfico porque são iguais a
zero.

b) Curto-circuto trifásico: 3F

Fase a (vermelha); fase b (verde); fase c (azul): correntes de falta


3000
[A]

2000

1000

-1000

-2000
0,190 0,201 0,212 0,223 0,234 [s] 0,245
(f ile Simula_f altas_Aula_MPEE.pl4; x-v ar t) c:X0006A-X0001A c:X0006B-X0001B c:X0006C-X0001C
c:XX0019-XX0012

24
c) Curto-circuto bifásico (bc): 2F

Fase a (vermelha): zero; fase b (verde) e fase c (azul): correntes de falta


2000
[A]
1500

1000

500

-500

-1000

-1500

-2000
0,195 0,205 0,215 0,225 0,235 0,245 [s] 0,255
(f ile Simula_f altas_Aula_MPEE.pl4; x-v ar t) c:X0006A-X0001A c:X0006B-X0001B c:X0006C-X0001C

d) Curto-circuto bifásico-terra (bc-T): 2F_T

Fase a (vermelha): zero; fase b(verde) e fase c (azul): correntes de falta;


(lilás): corrente de falta à terra (resultante das correntes nas fases)
5000
[A]
3500

2000

500

-1000

-2500

-4000
0,195 0,205 0,215 0,225 0,235 [s] 0,245
(f ile Simula_f altas_Aula_MPEE.pl4; x-v ar t) c:X0006A-X0001A c:X0006B-X0001B c:X0006C-X0001C
c:XX0019-XX0012

25