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Benedito Nunes §§ Bu José Viana da Costa Nunes € professor de Filosofia na Universidade Federal do Para, em Belém, onde nasceu em 1922 Introducao a filosofia da arte, obra de 1966, foi sua primeira incursao sistematica no campo do pensamento estético, ao qual se vincularam, direta ou indiretamente, 0s artigos que escreveu no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, durante toda a década de 50. A linha didatica combinada com tracos ensaisticos foi precedida pela coletinea O mundo de Clarice Lispector (1966), que reuniu trabalhos sobre a escritora aparecidos no Suplemento Literario de O Estado de S. Paulo, e perdurouem A filosofia contempordnea, obra publicada & cuue CARTAO DE No. ERTEGORIA TRIDADE ‘VRUIDADE ae NOME oe ten TOMBO TRSSINATURA, nary TOMB( AUTOR: TITULO: WW SL SISTEMA DE BIBI UNICAMP inicialmente na Colegao Buriti, em 1967, e, agora, revista e ampliada, na série Fundamentos. O ensaismo, ora voltado para a arte, ora para a filosofia, s6 se definiu em 0 dorso do tigre — ensaios (1968). Na ambivaléncia degse livro de ensaios filosoficos ¢ literarios, que se move entre os flancos do dorso ‘’selvagem’’ a que esta preso 0 pensamento, também se delineou _ a vertente das indagacdes do autor, situada na confluéncia do filoséfico e do poético — duas formas de simbolizacao, no raro mutuamente espelhadas, da mesma realidade tigrina e enigmatica. Avesso as simplificacdes e aos modismos, Benedito Nunes exerceria acritica literdria como hermenéutica, tentando a interpretacdo global das obras de Guimaraes Rosa, Fernando Pessoa, Mario Faustino (Introducdo 4 poesia de Mario Faustino, 1966), Joao Cabral de Melo Neto (Jodo Cabral de Melo Neto, 1971) eClarice Lispector (Le/tura de Clarice Lispector, 1973 — edicdo revista e aumentada pelo autor que saiu pela Editora Atica como O drama da linguagem). E também praticaria a investigacao filoséfica enquanto leitura critica, interna, de textos, sem abstrair-Ihes 0 suporte histdrico-cultural. Segundo essa orientacdo, a partir da vertente em que se situou — proxima da fenomenologia e afim da Historia das Idéias — escreveu “’A viséo romantica’ (In: Guinsburg, J., 0 romantismo, 1978), “Filosofia do renascimento”’ (In: __, 0 renascimento, 1988) e Passagem para 0 poético (Filosofia e literatura em Heidegger), prémio Jabuti de 1987. O ensaismo didatico pode ser visto em O tempo na narrativa, de 1988, volume integrante da série Fundamentos. ratamos neste livro, sem descurar os legados do pensamento moderno, daquelas correntes e tendéncias — incluindo-se nesse rol as posicdes de Kierkegaard e Nietzsche —, que nao sé prefiguram um estilo de pensamento diferente da tradicao filoséfica moderna, como também manifestam o (imran renee Cay eeme Men CMI Oeil re) filosofica, a crise da filosofia enquanto discurso tedrico.’” Benedito Nunes, professor da Universidade Federal do Herel Mele Colm e CATO an cesta (OMIA OSC CLC filosdficos e literdrios. Publicou, na Editora Atica, Passagem para o poético, prémio Jabuti de 1987, e, na série Fundamentos, OR OMEN Mem MU ler mes CCE AREA DE INTERESSE DO VOLUME ee SERIE OLR Lake) Funoaventoo| ISBN 85 08 03785 6 = 110 190 uote 7 ‘ Benedito Nunes Professor da Universidade Federal do Para A FILOSOFIA CONTEMPORANEA Trajetos iniciais 28 edigdo revista e ampliada _ Diregdo Benjamin Abdala Junior Samira Youssef Campedelli Preparagao de texto Ivany Picasso Batista Edig&o de arte (miolo) Milton Takeda Divina Rocha Corte Coordenacéo de composicéo (Produg&oiPaginacdo em video) Neide Hiromi Toyota Fernando Peres dos Santos CAPA Paulo César Pereira UNID~UE: Vv TOMBO/BC TOMBO/IEL proc... £44.96- 2000 cO PRECO, Ad, OO. DATA, PD we crv CMQQQLPL IVE ISBN 85 08 03785 6 1991 Todos os direitos reservados Editora Atica S.A. — Rua Bardo de Iguape, 110 Tel.: (PABX) 278-9322 — Caixa Postal 8656 End. Telegrafico “Bomlivro” — S&o Paulo i Sumario ee 1. Introdugdo 1. A filosofia em nosso tempo A historia contemporanea A filosofia contemporanea Os retornos e as novas tendéncias As mudangas socioculturais Correntes e legados 2. Os legados de Kant e Hegel Kant reinterpretado A fisionomia atual de Hegel 3. Realismo e pragmatismo O realismo O pragmatismo Il. De Kierkegaard a Nietzsche 4, Kierkegaard e a crise religiosa O pensador solitario O salto qualitativo 5. A existéncia individual A vida subjetiva A existéncia 6. Marx e a existéncia social A fisionomia classica do marxismo O alcance filoséfico do marxismo 7. Nietzsche e 0 problema dos valores . O Homem e a Obra A vontade de poder Psicologia da cultura O problema dos valores Outros rumos 35 35 38 42 42 50 33 58 lll. As filosofias da vida e a fenomenologia 8. As filosofias da vida A filosofia de Bergson A vida como Histéria (Dilthey) Mundo, transcendéncia e espirito 9. Fenomenologia: fontes e conceitos As fontes Os conceitos fundamentais 10. A fenomenologia transcendental Das Investigacdes Légicas a Filosofia como ciéncia rigorosa. _ A fenomenologia transcendental e o limite da reducéo 11. Principais interpretagdes da fenomenologia __ A intencionalidade dos sentimentos Anilise categorial Ontologias de Heidegger e Sartre A fenomenologia da percepcdo IV. De Heidegger a Wittgenstein 12. Heidegger e a questdo do ser Analitica do Dasein A mundanidade, os entes ¢ o ser-em-comum A abertura Do cuidado a temporalidade A Ontologia Fundamental e a viragem (Kehre) 13. Filosofias da existéncia Seus componentes e tendéncias O Nada e a Liberdade As posi¢ées de Marcel e Jaspers 14. A filosofia cientifica Esclarecimento preli Atitude positivista O Circulo de Viena 15. O pensamento de Wittgenstein As questées filos6ficas A teoria proposicional, J ___ O dizivel e 0 mostravel A significacao Bibliografia sumaria I Introducao 1 A filosofia em nosso tempo A histéria contemporanea De acordo com o que os dicionarios registram, é con- tempordnea a pessoa que vive ao mesmo tempo que outra, perten- cendo a fase de uma mesma gerac&o. Nesse sentido, a expressio “historia contemporanea’”’, deslocavel ao longo do tempo cronold- gico, designaria nao a histéria dos coet&neos, muito mais larga, em relagéo a toda uma época, mas a daqueles que convivem no espaco de uma geracao. E assim, do passado ao presente, terfiamos, recortando verticalmente os periodos histéricos que se sucedem — Antigo, Medieval e Moderno —, diversas contemporaneidades para as geracdes de cada época. Mas 0 historiador lida comumente com o significado horizon- tal, periodolégico, dessa expressio: a fase histérica extrema ou recente. Resta saber se ele a utiliza por uma razdo de comodidade cronolégica — caso em que ela lhe servira para referir os ultimos acontecimentos do periodo moderno — ou por uma razao diferen- cial de ordem histérica — caso em que ela lhe servird para designar, a titulo provisério, os aspectos distintivos emergentes de uma nova época. A primeira razdo ditou 0 uso mais corrente de “‘histéria con- temporanea” antes que fosse aplicada a segunda, como fez, no ini- 8 __A FILOSOFIA CONTEMPORANEA, cio da década de 60, um Geoffrey Barraclough, ao defender a idéia de que essa historia deve ser considerada como um distinto periodo de tempo, com carac- teristicas préprias que a diferenciam do periodo precedente, de modo bastante parecido aquele como a “histéria medieval” — pelo menos, de acordo com a maioria dos historiadores — se diferencia da Hist6- tia Moderna. (Introdugao a histéria contemporanea, Rio de Janeiro, Zahar, 1966.) Assim pensando, o historiador inglés relacionou os dados da Terceira Revolucdo Industrial, da sociedade de massas, da expansado mundial da técnica, com ‘‘o colapso (ou transformagdo) dos anti- gos imperialismos britanico, francés e holandés”’ e o ‘‘ressurgimento da Asia e da Africa’, como aspectos definitivos emergentes que prenunciam o inicio de uma nova fase da Historia. Esses aspectos, que nos séo contemporaneos, acusam ‘‘mudangas basicas de estru- tura que deram forma ao mundo moderno”’ (Ibidem, p. 18). Qual- quer que seja a sua configuracdo definitiva, a nova fase, com o nome provis6rio de “‘histéria contemporanea”’ (também poderia ser, conforme sugere Barraclough, ‘‘pds-moderno’’), tera comecado, em funcdo das mudangas basicas que a diferenciam da moderna, antes do séc. XX, por volta de 1890. Dessa forma, 0 inicio da histéria contemporanea remete-nos a um passado nao muito recente — ao final do séc. XIX, no qual principiam a manifestar-se os sinais das diferencas que separam nossa época das anteriores. A contemporaneidade histérica nao ¢ um segmento retilineo e sim a curva, entre dois séculos, de um arco, cujo desenvolvimento, nao previsivel, implica, de qualquer, modo, por tudo quanto afirmamos antes, uma descontinuidade cultural ¢ social em relacdo a histéria anterior. Importa ao historiador aten- tar muito mais para as diferencas que introduzem a descontinui- dade na Historia do que para as similitudes entre os periodos. Ele submeterd a esse mesmo ponto de vista o estudo das idéias, inclu- sive as idéias filosdficas, consideradas ‘‘seja como produtos, seja como fatores da historia”. (J. Moreau, L’Histoire et le philosophe, L’Homme et I’Histoire, Paris, Aubier, 1955.) Mas também se pode dizer que essa contemporaneidade é extremamente moével; 0 seu momento atual ja vai muito distante daquele da década de 60, quando este livro foi escrito. Uma nova atualidade terd vindo, no espaco de outra gerac&o, sobrepor-se a anterior, inaugurando como que um diferente trajeto no mapa tem- poral do que é contemporaneo. 1 A FILOSOFIA EM NOSSO TEMPO 9 A filosofia Se bem que o praticante da Histéria da contemporanea Filosofia, por definicdo um filésofo voltado para a Histéria ou para as varias Histérias existentes, nado seja propriamente um historiador das idéias, ele podera, de seu ponto de vista, que o obriga a reconhecer a conti- nuidade da tradigao do pensamento filoséfico, no entanto historica- mente diferenciada de época para época, enquadrar, no esquema anteriormente proposto, a filosofia contemporanea, sem admitir, porém, de acordo com um nexo de estrita causalidade, que ela seja produto ou fator das mudangas socioculturais do periodo com as quais esta relacionado. Por analogia, a expresso “‘filosofia contemporanea’’, corres- pondendo aos aspectos distintivos de uma nova época, compreende os rumos da reflexdo filoséfic. comegaram a esbocar-se ainda no século passado em torno dé 1890) com 0 afluxo de novas corren- tes e tendéncias. Mas compreende também, a par do renovo inter- pretativo de legados do pensamento moderno, como as filosofias de Kant, Hegel e M: -pensadores extempordneos as = i ‘tzsche, inatuais para as geracdes a que pertenceram e redivivos, como “homens péstumos”’, em nossa contemporaneidade — dentro da qual um Herbert Spen- cer (+ 1903) e um Ernst Haeckel (+ 1919), atuais-no fim do século, quando exerceram marcante influéncia sobre a intelectualidade bra- sileira do Segundo Império e da Primeira Republica, tornaram-se anacr6nicos. : Algumas das novas correntes, nascidas entre os dois séculos, como as filosofias da vida, pouco duraram. A fenomenologia hus- serliana, surgida no mesmo periodo de transic¢do, espraiou-se depois da década de 20 sob numerosas interpretacdes, umas que procura- ram remontar ao pensamento original de Husserl, outras que o fize- ram derivar para as filosofias da existéncia, estas, quase todas, em débito com a teologia do dinamarqués Kierkegaard. De qualquer forma, tratamos neste livro, sem descurar os lega- dos do pensamento moderno, daquelas correntes e tendéncias, incluindo-se nesse rol as posicdes de Kierkegaard e Nietzsche, que nao so prefiguram um estilo de pensamento diferente da tradigao filoséfica moderna, como também manifestam, 0 que talvez seja o trago mais caracteristico da contemporaneidade filoséfica, a crise da filosofia enquanto discurso tedrico. 10__A FILOSOFIA CONTEMPORANEA Os retornos e as - Ea partir de 1890 que se da a reacdo con- novas tendéncias tra a dominancia intelectual do positivismo comtiano e das sinteses filosoficas nele inspiradas, a exemplo da concepgdo de Herbert Spencer, com base na teoria da evolucdo. Seja como retorno a metafisica, reduzida pelo Curso de Filosofia Positiva (1830-1842), em nome de uma lei do desenvolvimento histérico, a etapa ultrapassada do conhecimento, enfim normalizado pelos métodos de investigacdo cientifica, seja como critica 4 unificac&o de tais métodos no procedimento indutivo e ao seu fundamento naturalista exportado para as ciéncias huma- nas, de que foi conseqiiéncia o limite factual da pesquisa historio- grafica, essa reacgZo culminou numa contestacdo a racionalidade do saber positivo, realcando, sob formas diferentes de expressdo doutrinaria, os tipos de experiéncia do ser humano que o mesmo saber neutralizaria: a vital ou psiquica de cada individuo, incluindo os instintos, a valorativa, no plano da cultura, e a dos fins praticos da acdo, como pressupostos de toda teoria. Nao era porém o apregoado retorno 4 metafisica, que alcan- gou ressonancia exemplar na filosofia de Henri Bergson, uma senha de restauracdo da antiga forma do pensamento especulativo. Sob o nome da vetusta ciéncia do ser, punha-se em causa a razao discur- siva, contraposta a intuicao, e, mais amplamente, a tradigdo racio- nalista, que o Iluminismo fizera passar do estudo da natureza ao da Sociedade e da Historia. Na ultima década do séc. XIX, quando comega a delinear-se o arco do pensamento filoséfico contempora- neo, infletido pela primeira vez, com a guerra de 14, na direcdo da época atual, a grande sintese idealista de Hegel, j4 desfeita como sistema, volta, enquanto Filosofia do Espirito no neo-hegelianismo, que subsistiu até 0 comeco desta centuria. Entretanto, muito mais duradoura foi a influéncia difusa de certas categorias da construcdo hegeliana, como a vida histdrica do Espirito, e, patticularmente, a nocao de espirito objetivo em oposicéo 4 Natureza, que respaldou 0 dominio préprio das ciéncias humanas a procura de status auté- nomo. Sobre essa oposi¢éo Dilthey elaborou, em 1883, a polari- dade entre a explicagdo nas ciéncias da natureza e a compreensdo das ciéncias humanas, que foi o eixo polémico do debate acerca das ciéncias histéricas na Alemanha. Depois de um primeiro compromisso dos neokantianos com © positivismo, a volta a Kant, proclamada por Otto Liebmann (1865), iria, um pouco antes da Primeira Guerra Mundial, na dire- A FILOSOFIA EM NOSSO TEMPO 11 ¢&o das ciéncias do espirito (Geistewissenchaft), interpretadas enquanto ciéncias da cultura, em cujo 4mbito a nocao de espirito se associou a de valor. O privilégio que coube a Histdria entre essas ciéncias vinha da tradi¢do historicista, reforcada por Dilthey, que firmou, com a polaridade entre a explicacaio e a compreensdo, pos- teriormente reelaborada por Max Weber, em sua Metodologia das ciéncias humanas, o primeiro passo para o estabelecimento de uma razGo histérica nos limites da experiéncia acessivel do passado e sem 0 trago totalizante de cunho teolégico que marcara a filosofia hege- liana da Histéria. : Ao historiador Leopold Ranke (t+ 1886), tanto hegeliano quanto positivista, confiante na determinacdo dos fatos como base do conhecimento histérico, seguiu-se a geracdo dos historicistas, como Troeltsche e Meinecke. O contraste ético-politico da Histéria, revelado principalmente pelo conflito entre o idealismo e 0 naciona- lismo, agugado durante a guerra de 14 a 18, levou-os a se defrontar, como também ocorreu com Max Weber, com o problema dos valo- res, do qual nao ficara isenta, na Franca, a sociologia de Emile Durkheim, egressa do positivismo comtiano. Do mesmo periodo finissecular datam as conferéncias popula- res de William James — A new name for some old.ways of think- ing (1905) —, que fixam a orientacdo antiidealista contraria ao espi- rito dos sistemas especulativos, batizada por Charles Sanders Peirce de pragmatismo, e que colocava em primeiro plano, tanto do ponto de vista da justificagao das crengas religiosas quanto do ponto de vista da legitimacéo do conhecimento, as exigéncias praticas da- ago eficaz. Em sua oposicao a teoria pura, ao cardter contempla- tivo do conhecimento, nenhuma outra forma de pensamento assimi- lou, de maneira mais franca, a ideologia do éxito e da producado na sociedade industrial do que essa doutrina extra-européia, ajus- tada aos padrées de comportamento concorrencial da democracia norte-americana. A reacao antiidealista dessa corrente estava em harmonia com a propensdo para o realismo que se manifestou tanto na Inglaterra — com o apoio na tradigdo empiricista de sua cultura filoséfica — quanto na Alemanha e na Austria. Nos paises germanicos, depois do retorno a Kant, a necessidade de “‘volta as coisas’?, como retorno a experiéncia individual, proclama F Husserl na primeira parte das Investigagées ldgicas (1900), sustentou o prestigio nascente da fenomenologia. 12__A FILOSOFIA CONTEMPORANEA As mudangas Segundo o dito de Hegel, as filosofias fazem socioculturais _passar ao estado de consciéncia o que efetiva- mente se concretiza numa determinada época. Nao é menos verdade, porém, conforme reconheceu o préprio autor de Fenomenologia do Espirito, que essa passagem se realiza tardia- mente, post-factum (a coruja de Minerva sé voa ao crepisculo). Esse retardo parece ter se agravado no inicio do séc. XX, quando surgem, concorrendo com a filosofia, e muitas vezes alheias 4 sua tradic¢do, fontes vigorosas do pensamento tedrico em conexdo direta com os problemas suscitados pela investigacdo cientifica. De fato, a abertura de novos dominios na Matematica, como as geometrias nao-euclidianas de Lobatchevsky e de Riemann, a axiomatica de Hilbert, a teoria dos conjuntos de Cantor, os avan- gos consideraveis da Fisica — a teoria dos quanta de Planck (1900), a teoria geral da relatividade (1905) — e os primérdios da Genética, implicavam reformulacdes encadeadas das bases intuitivas do racio- cinio matematico, das nogées de espaco e de tempo, do alcance das hipéteses em Fisica, do conhecimento por observagao, da concep- ¢ao da matéria e do principio de selec&o natural, que consagrara o fundamento darwinista da teoria de evolucdo das espécies. Em con- junto, essas reformulagGes, imediatamente a cargo dos préprios cien- tistas, externavam um processo global de mutagao de conceitos, inclusive sob a perspectiva do pensamento légico, assente, a despeito das tentativas de um sistema indutivista por parte de Stuart Mill (+ 1873), no Organum aristotélico. Quase que a um sé tempo, matematicos e logicistas, Boole, Peano, Peirce, Royce, Lewis Caroll e sobretudo Gotlieb Frege, sob o estimulo das novas teorias da Aritmética e da Geometria, e no intuito de revisar os fundamentos de suas respectivas ciéncias, desco- brem a unidade operatdéria das relagGes gerais pressupostas tanto pela Légica quanto pela Matematica. Dai a logicizagaéo da Matema- tica e a matematizacéo da Légica, aspectos correlatos do mesmo esforco no sentido de unificar o campo das ciéncias dedutivas. Em 1911-1912, com o aparecimento dé Principia Matematica de Russell e Whitehead, essa unificacdo se concretizou através de um sistema de relacées formais, que possuem carater operatério, fundamentado em principios de validade légica incontestavel, os quais regulam o mecanismo da deducao a partir de nogées primiti- vas, irredutiveis a quaisquer outras. Praticamente incdlume por mais de 24 séculos, a légica aristotélica, que foi tocada entao pela A FILOSOFIA EM NOSSO TEMPO 13 primeira vez, perduraria dentro do sistema mais amplo, mais com- plexo e também mais flexivel da nova ldgica. Para Peirce, o fundador do pragmatismo, o simbolismo ldégico integraria uma Teoria Geral dos Signos ou Semiética, mais ampla do que a Semiologia preconizada por Saussure em seu Curso de lin- 3, giiistica geral. A amplitude tedrica que tomou dessa forma o estudo dos signos transportaria a linguagem, jd na fase atual, a um plano filoséfico de importancia generalizada, que nao havia alcangado na fase moderna, a despeito do pioneirismo de um Locke no séc. XVIII, e da posic¢o ousada do austriaco Fritz Mauthner no ino do século ao conceituar a Teoria do Conhecimento como critica da linguagem. ‘‘A linguagem tornou-se, por assim dizer, 0 ponto | quente (Brennpunkt) da discussdo filoséfica atual.” (Urban language } and reality, The MacMillan Company, 1951. p. 35.) A Primeira Guerra Mundial possibilitou o surto da interpreta- ¢4o organicista do desenvolvimento histérico — ainda um prolon- gamento da filosofia da vida (Lebensphilosophie) em A decadéncia do Ocidente de Oswald Spengler (1917). Ao esgotamento da cultura, como forcga animica, presa da civilizagéo técnica e do cesarismo gerado pelo capital financeiro no seio da democracia liberal, que anunciava essa versao profética da Filosofia da histéria, publicada no ano da revoluc4o russa, contrapunha-se a previsdo de Lenin, em nome da dialética marxista, do ingresso da sociedade burguesa, com a expansdo imperialista do capitalismo, na etapa da sua derro- cada pela aco do proletariado internacional. A certeza revoluciona- ria do controle racional do processo histérico numa sociedade sem classes parecia restituir a esperanga iluminista da apropriagao final das forcas produtivas em beneficio do homem. Mas comesou tam- bém a intensificar-se, diante da ameaca de desarticulacao da cultura humanistica, o cepticismo em relagaéo ao progresso. Em 1919, Paul Valery apontara a crise ‘‘do que se chama Espirito desde 5 ou 6 mil anos’’, e cujo alicerce, construido sobre a areia movedica dos instintos sublimados, Freud evocou em A interpretagdo dos sonhos, publicado em 1900. Somente na década de 20, as vésperas da ascensao dos totalita- rismos, que fariam do controle racional da sociedade instrumento , de dominagdo do Estado sobre 0 individuo, a Psicandlise adquiriu « 0 porte filoséfico de uma doutrina global, interpretativa da forma- , ¢4o cultural e do destino da civilizagéo. Préxima em sua origem da Lebensphilosophie, convergente com a visdo nietzschiana da cul- ~ tura enquanto transformag4o dos impulsos, a Psicanilise, ora rejei- © %, . %