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Índice

05 - Apresentação
06 - Quem escreve
07 - Prefácio do Autor

Cotidiano
10 - JOCUM, a Cultura da Morte e a Ética da Vida
14 - César e Deus: o duelo continua
17 - Brasil: Terra de Samba, Futebol e... Halloween
21 - A voz de Katrina... um gemido para ser ouvido!
24 - A Celebração da Mediocridade

Politica
29 - Por Que Não Voto em Pastores?
35 - Em Busca de um Aiatolá Evangélico
39 - E agora, “profetas”?
45 - A Teocracia dos Manipuladores

Devocionais
49 - Tente Outra Vez...
52 - Sobre Pipas e Piões
56 - Sobre Misericórdias “Vencidas”
60 - Quando Deus diz: “Dá licença?”
64 - Os Santos Também Sujam os Pés no Caminho
68 - Os Insípidos Bonecos de Sal
72 - O Meu Isaque?
77 - Minha Mensagem de Natal
81 - Meu Salmo 139 – A Oração da Minha Vida
86 - Antes que caia o véu...
90 - A Síndrome de Vaga-lume

Poesia
95 - Caminhada
97 - Amor Ritmado
98 - Só...
99 - Tantos
101 - Eu e o Mar
103 - Aula na Praia
104 - Adultério Literário
106 - É Vento

Triste Retrato
108 - Um Sorvete pra Matar a Fome
112 - Ouçam a Voz do Bêbado!
116 - Scooby-Doo, a Igreja e o Baú de Olhos
121 - Panis et Circenses... et Cultus
125 - Os Três Porquinhos e a Teologia da Prosperidade!
130 - Halloween Evangélico - Doces ou Travessuras?
133 - Jesus não sabia de nada!
137 - Eparrei, Jeová!

Esperança
141 - Ainda Há Esperanças...
145 - Quando Eu Penso em Desistir...
151 - Eu ainda sonho com uma igreja...
Apresentação

Este e-book foi escrito como comemoração dos seis anos


do site www.crerepensar.com.br.

Seu download é totalmente gratuito. Porém, se você


quiser colaborar com nosso trabalho, faça um depósito de R$
10,00 (ou o valor que você quiser) na seguinte conta:

Banco Do Brasil

Favorecido: José de Souza Barbosa Junior

Ag. 3652-8

C/C 42472-2

Sua oferta ajudará, e muito, o nosso trabalho.

É permitida a reprodução de todos os textos deste e-


book. Só peço que, por honestidade, sejam citados o autor e o
endereço do site.
Quem Escreve
José Barbosa Junior nasceu
em 29/12/1970 em
Teresópolis, cidade serrana
do Rio de Janeiro. Desde
1987 é convertido ao
Evangelho e no mesmo ano foi
batizado numa igreja batista
daquela cidade.
Começou a escrever alguns
textos para periódicos locais
em 1991 e desde 2003
escreve e edita o site
www.crerepensar.com.br.

É estudante de teologia, no Seminário Teológico Batista do Sul


do Brasil, já em fase final dos estudos. É pregador e
palestrante, atuando em várias igrejas, seminários, e eventos
onde se preza a pregação simples da Palavra de Deus e a
simplicidade do Evangelho de Cristo.

Além disso, é músico e letrista, sempre atuando na música das


igrejas por onde passou.

Quaisquer contatos, informações e convites podem ser feitos


através dos e-mails junior@crerepensar.com.br ou
crerepensar@gmail.com
Prefácio do Autor
Seis anos!

Seis anos não são seis dias... e há muito o que comemorar!

Em 2003, surgia, despretensiosamente, o


www.crerepensar.com.br , como fruto da idéia de alguns
amigos. Esdras Rocha criou a “logomarca” antes mesmo que o
site existisse. Sílvio Delgado, meu primo e amigo, que trabalha
com webdesign e hosting, deu-me de presente o site pronto. Eu
só tive o “trabalho” de inserir os textos. E assim começava o
“crerepensar”.

Hoje, 6 anos depois, os números assustam e chamam a um


compromisso de manter a simplicidade do evangelho como
tônica dos textos, poesias, e tudo o mais que o site
disponibiliza a você, leitor.

Foram mais de 500 mil acessos nesse tempo, em mais de


70 países, mais de 10 milhões de hits (cliques no site)... fiz
amigos, ganhei inimigos (não que eu os veja assim), vi meus
textos em outras páginas assinados por outros “autores”...
muita história para contar.

O que mais me alegra nesses 6 anos é a quantidade de e-


mails recebidos de gente que se identificou, que se abriu, que
vibrou, que chorou, que sentiu as mesmas coisas que sinto ao
escrever cada texto aqui presente. Essa comunhão, mesmo
parecendo “virtual” é bem mais real do que se pensa. Oro por
muitas dessas pessoas até hoje e sei que muitas delas oram por
mim. Sei que muitas delas só conhecerei quando Cristo voltar e,
juntos, celebrarmos as Bodas do Cordeiro... isso me emociona!

Quero então festejar estes 6 anos de lutas, dores,


alegrias, compartilhando com você essa edição comemorativa,
em e-book, de uma seleção de textos que “fizeram história” em
todo esse tempo.

Só me resta agradecer a Deus todo esse tempo com


vocês... e desde já os anos que ainda virão.

Que nossa caminhada continue, na certeza de que “aquele


que começou boa obra em nós, é fiel para completá-la, até o dia
de Cristo Jesus”.

Que Deus nos abençoe,

José Barbosa Junior


escritor e editor do www.crerepensar.com.br
Cotidiano
JOCUM, a Cultura da Morte e a
Ética da Vida

Há algum tempo, a revista eletrônica da Globo, o


Fantástico trouxe uma reportagem tendenciosa em que os
missionários da JOCUM – JOvens Com Uma Missão eram
mostrados como um perigo à preservação da “cultura” indígena.

A reportagem falava acerca de alguns índios zuruahãs


que foram trazidos para São Paulo pelos missionários para
tratamento de saúde, visto que corriam sérios riscos
continuando na aldeia, que fica na região do Médio Purus, na
Amazônia.

Os jocumeiros são tratados durante toda a entrevista


como os grandes vilões detratores da cultura indígena, tanto
pela própria reportagem, quanto pelo antropólogo João Dal Poz,
da Universidade Federal do Mato Grosso e também pelos
responsáveis da FUNASA e da FUNAI.

Uma das acusações principais contra os evangélicos em


missão naquela tribo é a violação da constituição e o Estatuto
do Índio. Prestem bem atenção nisso: os missionários estavam
levando índios doentes para tratamento em São Paulo, inclusive
dois bebês (um de seis meses e outro de 1 ano e meio) e são
acusados de ferir a Constituição?? O que vale mais: a
Constituição ou a vida?? Não seria a vida o fator principal da
existência de uma Constituição? Nossa Constituição defende
como fundamentos a dignidade humana, a prevalência dos
direitos humanos e o direito à vida, que também consta da
Declaração Universal de Direitos Humanos.

Não bastasse o fundamento constitucional, volto a


perguntar. O que vale mais: a lei ou a vida humana? Sim, porque
os missionários estão sendo recriminados por salvarem vidas, e
aqui não estamos falando do sentido espiritual de salvação, é
de vida mesmo!

A reportagem afirma que um dos índios trazidos para


tratamento é um caçador, e que segundo especialistas, isso
pode trazer conseqüências desastrosas para a tribo. Surge
outra pergunta. O que trará mais desequilíbrio para a tribo: um
caçador curado ou um caçador morto? Os “senhores da lei”
preferem um caçador morto a um caçador vivo. Um caçador
morto caçará o que, senhores? As almas perdidas do Quarup?
Francamente...

Outro fato que nos chama a atenção é a reportagem


abordar como um “fator cultural” que merece ser respeitado
duas práticas da tribo: a chamada morte ritual, onde o índio se
envenena para chegar à “terra ideal” e o abandono de crianças
que nascem com problemas físicos, para morrerem sozinhas na
selva, pois os índios julgam que elas não têm condições de
sobrevivência. É a preservação da morte como fator cultural. A
vida perde para a cultura! Só parecem esquecer que sem vida
não pode haver manifestação da cultura, e que fatores
culturais podem e devem ser mudados para que um bem maior
seja defendido: a vida!

O que é mais correto: a cultura da morte ou a ética da


vida? Deveriam ser recriminadas pessoas que lutam pela vida
das outras? E onde estava a Funai esse tempo todo? No mínimo
correndo atrás de recursos para a “sustentação da cultura
indígena”. Acordem, senhores! A vida vale mais que a cultura,
seja ela qual for. Se não pensam assim, sejam donos de museus
e não guardiões da vida humana.

Outra crítica que fazem aos missionários é a motivação


religiosa.

Claro que a motivação é religiosa! Eles são missionários,


não são políticos. Se fossem, a motivação seria política. Claro
que a motivação está em Deus, doador da vida e dono de todas
as culturas. Ele é Senhor sobre tudo e sobre todos. E
certamente ele é a motivação de qualquer um que luta pelo
direito à vida do próximo, seja ele evangélico ou não. Deus é
Senhor de vivos, não de mortos.
Na verdade, de FANTÁSTICO nessa história, só mesmo
a atitude dos missionários, em lutar pela vida, ainda que contra
os senhores da cultura da morte.

Valeu JOCUM,

Que Deus os abençoe, sempre!


César e Deus: o duelo continua

Agora é proibido o uso de símbolos religiosos nas escolas


públicas da França. Kipás, crucifixos e véus islâmicos foram
banidos da vida estudantil francesa. Enquanto isso no Rio de
Janeiro o ensino religioso é matéria obrigatória nas escolas do
Estado. O velho duelo entre César (Estado) e Deus (religião)
continua e ainda longe de se ter um vencedor.

Ao ser abordado certa vez sobre a questão de se pagar


tributos ao imperador, o mestre Jesus respondeu: - Daí a
César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Ele ia muito
mais a fundo do que a simples questão dos impostos. Há nessas
palavras uma idéia latente: a separação total entre Igreja e
Estado. Nem oito nem oitenta, como diriam alguns. Nem a
igreja se mete nas coisas do Estado, nem o Estado interfere na
vida religiosa de seus cidadãos. França e Brasil parecem estar
juntos nessa onda, ambos estão errados!

A união ou mesmo a guerra entre Estado e Igreja em


toda a história da humanidade nunca trouxe benefícios.
Carnificinas forma realizadas em nome de Deus, tanto por
católicos quanto por protestantes ao defenderem suas idéias
religiosas em conchavo com os poderes políticos. A busca pelo
poder terreal sempre mexeu com os homens e o nome de Deus
sempre foi um bom “aliado”. Um caso clássico recente foi a
guerra dos EUA com o Iraque onde o nome de Deus foi
vergonhosamente usado, tanto como Jeová quanto como Alá...
ambos os lados usando o poder “divino” ao seu favor.

Na época das campanhas eleitorais chega a dar nojo o uso


indiscriminado do nome de Deus por parte dos candidatos,
sejam eles de qual linha religiosa forem, Deus é um bom cabo
eleitoral!

No caso da França a atitude do governo surpreende,


principalmente por vir de um país que cresceu sob a égide da
Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É um absurdo o Estado
proibir as pessoas de manifestarem suas convicções religiosas,
por mais estranhas ou heterodoxas que sejam. A livre
manifestação do pensamento atinge também o âmbito religioso.
Portanto, é no mínimo estranha essa atitude dos mandatários
franceses. Que haja realmente liberdade, igualdade e
fraternidade entre todos...

Já no Estado do Rio de Janeiro o caso é diferente. O


governo é quem impõe o ensino religioso. Erra também. Ensinar
religião é dever da Igreja, quiçá dos pais, mas nunca do Estado.
O Estado é laico, e assim deve permanecer. Já não basta o
ensino decadente das escolas públicas, e agora ainda
sobrecarregam os alunos, tornando obrigatório o estudo
religioso? E como isso será feito? Qual será a “linha” de
ensino?

As religiões têm várias tendências... quais prevalecerão?


Os católicos serão ensinados pelos conservadores ou pelos
liberais? Prevalecerá o ensino conservador dos monges
beneditinos, por exemplo, ou o ensino da teologia da
libertação? No meio evangélico serão os pentecostais, os
ortodoxos ou os neo-pentecostais que tomarão as rédeas do
ensino? Os espíritas terão que tipo de orientação: “de mesa”,
umbanda, quimbanda?

O ensino religioso obrigatório faz lembrar o ensino


imposto pelos militares de OSPB ou EPB nos cursos médios e
nas faculdades, onde o único interesse era mostrar que o
governo autoritário era bom para o Brasil e necessário para a
organização política e social de nossa pátria.

São algumas questões que deixo no ar...

A César o que é de César... e a Deus o que é de Deus...


Que o Estado não interfira nas questões religiosas... isso nunca
deu certo. Os livros de história estão aí pra mostrar, basta
querer ver.
Brasil: Terra de Samba,
Futebol e... Halloween

“Brasil, meu Brasil brasileiro...”. Os versos de Ary


Barroso, cantados e recantados nos cantos e recantos do país
parecem perder sentido na balbúrdia em que se tornou a
“pátria amada, idolatrada, salve, salve”. Brasileiros cada vez
mais com vergonha de serem brasileiros, não em palavras, mas
em atitudes. Dizem que amam o Brasil, que são brasileiros de
coração, mas o bolso fala mais alto e o status também, e
decidem ser brasileiros em terra estrangeira. Isso me lembra
uma história de Juca Chaves sobre um amigo seu que vivia
dizendo que “dinheiro não traz felicidade!”... E ele foi ser
“infeliz” na Europa.

Mas não é sobre esses que eu quero falar, até porque


esses que partiram pelo menos tiveram a hombridade de
reconhecer e favorecer seus desejos. Os que daqui partiram,
tiveram seus motivos: oportunidades imperdíveis, pressão
política (que o digam aqueles perseguidos pela ditadura),
amores, etc. Quero falar sobre aqueles que decidem ser
estadunidenses aqui mesmo, não saem e querem viver como
descendentes do Tio Sam aqui mesmo, na pátria tupiniquim.
O Brasil sempre foi o país do samba e do futebol.
Brasileiro nasce com gingado no pé. Somos sambistas por
natureza! Não estou falando de carnaval, estou falando de
samba, de ritmo, e isso nós temos na veia. Qual brasileiro que
se preza não se pega batendo o ritmo com o pé quando ouve um
samba? Se formos sinceros, devemos admitir que o ritmo
batucado mexe conosco. O samba é o samba e pronto. Como
diria Vinícius: “Fazer samba não é contar piada, quem faz
samba assim não é de nada, um bom samba é uma forma de
oração...”

Mas estamos perdendo isso, essa cadência bonita do


samba, e hoje somos reconhecidos pelo “sertanojo”, o pagode
mauriçola que invadiu rádios e TVS, o funk que nos fazem ouvir
os “batidões” enlouquecidos que detonam cachorras e tigrões
nos bailes da vida. Por último essa onda de forró
“universitário”... francamente.

Uma palavra esclarecedora: gosto de forró e música


sertaneja, mas dos legítimos, não dessas coisas que andam por
aí. Quem já ouviu Luiz Gonzaga, Sérgio Reis, Almir Sater,
Dominguinhos, etc... entende o que eu estou querendo dizer.

O futebol, meu Deus! É terrível ver o momento que o


nosso futebol atravessa. Eu que sou um bom flamenguista nem
sei o que dizer. Que horror! Cadê o futebol arte?? Cadê o
futebol moleque que a cada dia surge nos milhares de
campinhos de areia, grama, saibro, asfalto, pedra, enfim
qualquer “terreno” amplo (e nem precisa ser tão amplo assim)?
Brasileiro nasce com futebol no pé, nasce com o drible na alma,
nasce driblando a fome, a miséria, a corrupção, e mais tarde
aprende a driblar os zagueiros...

Mas não é o samba, nem o futebol que me fizeram sentar


pra escrever este texto, e sim o terceiro item: Halloween.
Perdemos nossa identidade, e decidimos assumir isso. Além das
origens discutíveis, religiosamente falando, essa festa parece
estar virando mania nacional. Mídia e seus afins resolveram
investir nisso. Os cursos de inglês, não satisfeitos em vender o
idioma querem vender também a cultura enlatada dos EUA para
todos nós, pobres mortais da “Ordem e Progresso”.

Ver o país caminhando a passos largos para essa


destruição cultural, para esse suicídio da alma brasileira dói
fundo dentro em mim. Ver que uma festa dessa, sem pé nem
cabeça, macabra em muitos de seus sentidos, é encarada como
algo extremamente natural e mais, incentivada pelo quarto
poder a fazer parte do “calendário de festas brasileiras” é no
mínimo algo degradante, desagradável.

Digo não ao Halloween.


Digo não, por ser um abuso contra a cultura brasileira.
Digo não, por ser uma afronta a um cidadão que nasceu com o
samba e o futebol na cabeça e no coração, ter que ficar
correndo por aí, ridiculamente fantasiado, gritando: “doces ou
travessuras”. Máscaras... como caem bem nos rostos daqueles
que tem medo da realidade.

Quero terminar com uma frase do genial João Ubaldo


Ribeiro, que ironicamente deixou registrado no Estado de São
Paulo, 08 de novembro de 1998, o seguinte:

“Nunca olho o calendário e, assim, perco diversas


oportunidades. Passou o Halloween, essa tradicionalíssima
festa brasileira, e eu não fiz nada.”

Em tempo: e pensar que nessa festa americana, uma das


máscaras mais vendidas é a do Bin Laden.
A voz de Katrina... um gemido para
ser ouvido!

Os estadunidenses sofreram um duro golpe há algum


tempo atrás. O furacão Katrina arrasou cidades inteiras,
lançando sob o olhar de todo o mundo que assistiu à tragédia
pela TV imagens de caos total. Cidades fantasmas não são
cenários para algum filme de Hollywood, são reais! Os corpos
espalhados em estádios não são dublês e nem bonecos, são
vidas ceifadas pela fúria da natureza.

A destruição e o horror que vimos nos Estados arrasados


pelos ventos de mais de 200 km/h são comparáveis à
destruição que chocou o mundo no final do ano passado, quando
vários países da Ásia foram sacudidos pela fúria das tsunamis,
as ondas gigantes que varreram cidades do mapa e impuseram
ao mundo uma nova geografia.

A fúria do mar na Ásia e a revolta do vento nos Estados


Unidos imediatamente me fizeram lembrar da pergunta dos
discípulos frente a autoridade de Cristo sobre a natureza:
“Quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?”

Não tive como não lembrar das várias vozes “cristãs” que
atribuíam as tsunamis à “ira de Deus” sobre um povo pagão,
idólatra. Não há como esquecer os vários “bem-feitos” que ouvi
e li sobre a tragédia na Ásia. “Eles estão colhendo o que
plantaram!”; “Onde estão os deuses deles?”

E agora? O que fazer quando as afirmativas e as


perguntas recaem sobre a grande “potência cristã” do planeta?
Deus não se deixa escarnecer! Muito menos ser dominado por
aqueles que se julgam donos de sua vontade e ira.

Há algo que parece passar desatento aos nossos olhos


punitivos: O gemido da natureza pela manifestação dos filhos
de Deus. Digo olhos punitivos porque sempre queremos que se
trate de punição, vingança, ódio. Estamos cheios desses
sentimentos e, como não podemos extravasá-los pessoalmente,
nos sentimos vingados por “Deus” quando acontece uma
catástrofe como essa.

Muitos afirmam: “Deus está punindo os Estados Unidos,


assim como puniu a Ásia!” Outros dizem:”É o diabo que está
fazendo esse estrago, pois os Estados Unidos são uma nação
cristã”. Sinceramente, pra mim não é nem uma coisa, nem
outra. É simplesmente, e terrivelmente mais um gemido cruel e
doído da natureza, aguardando o fim de toda a punição a que
ela também está sujeita por causa da maldade do homem.

Assim como as tsunamis, o Katrina foi um terrível grito


de socorro e de dor de uma natureza criada perfeita, mas
sujeita à queda do homem. O texto de Paulo é, no mínimo,
esclarecedor. Vejamos:

“A natureza criada aguarda, com grande expectativa,


que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi
submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas
por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a
própria natureza criada será libertada da escravidão da
decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa
liberdade dos filhos de Deus. Sabemos que toda a natureza
criada geme até agora, como em dores de parto.”

A nós, só nos resta clamar àquele que acalma ventos e


mares:

“Maranata! Ora vem, Senhor Jesus”


A Celebração da Mediocridade

Recente pesquisa do Ministério da Educação revelou o


que já era sabido de muitos: o ensino público fundamental no
Brasil está indo de mal a pior. Português e matemática
continuam sendo os grandes vilões daqueles que se aventuram
nas escolas freqüentadas pela maioria de nossos pobres
meninos e meninas. Estão bem abaixo da média considerada
aceitável pelos padrões mundiais.

Enquanto isso, na Semana de Moda de São Paulo (São


Paulo Fashion Week - SPFW, para os que desprezam a língua
portuguesa), dois fatos me chamaram a atenção. O primeiro,
que mereceu uma página inteira da “Folha de São Paulo”, diz
respeito à participação da funkeira Tati Quebra-Barraco no
evento mais cobiçado da moda no Brasil. Tati participou
fechando a trilha do desfile de uma das grifes mais badaladas
e, de quebra, fez um show num espaço GLS, para o público
homossexual.

O outro fato que me chamou a atenção foi veiculado no


Jornal da Globol: adolescentes que estavam despontando para
o mundo da moda e da fama. O sacrifício de muitas delas, o
apoio das famílias, etc. Entre essas meninas uma declarou que
um dos preços que ela pagava por tudo aquilo era o fato de ter
que parar de estudar, por causa do tempo que a profissão lhe
exigia.

O que estes três fatos (a pesquisa, a Tati Quebra-


Barraco e as adolescentes) têm a ver entre si e com o tema
proposto, acerca da “celebração da mediocridade”? Creio que
muita coisa, por isso me dispus a escrever...

Passamos por uma grande crise no Brasil. Não estou


falando da crise gerada pelo desemprego; não me refiro à crise
financeira, nem ainda à crise política. Penso que a maior crise
que o nosso país enfrenta é a gigantesca crise de valores.
Perdemos nossos referenciais, ou pior, nossos referenciais
foram mudados, e tornaram-se catastróficos. Bom no nosso
país é ser medíocre.

As crianças não querem estudar. Claro! Seus ídolos não


estudam, não lêem, não tem nada de bom a oferecer. Grande
parte das nossas crianças (principalmente nas favelas) querem
ser funkeiras, ganhar dinheiro cantando absurdos como “me
chama de cachorra que eu faço au au/ me chama de gatinha que
eu faço miau... se tem amor a Jesus Cristo/ bota tudo, sangue
bom...” como a Tati “quebra-barraco”

Estudar pra que? Não adianta culpar somente os


governantes (que também tem grande participação na
mediocridade infanto-juvenil) pelo fracasso escolar. As
referências e os ídolos estão bem longe de indicarem uma boa
educação. O bom hoje é ser funkeiro, pagodeiro, jogador de
futebol, ou modelo. Então me vem à mente a adolescente do
Jornal da Globo.

Pense comigo. Se uma menina de 14 anos é pega


trabalhando numa lavoura, para ajudar os pais a terem pelo
menos o feijão e arroz pra comer, ou ajudar o irmão mais novo
doente, etc... os pais são taxados de exploradores do trabalho
infantil. Órgãos de defesa da infância e adolescência aparecem
aos montes para mostrarem “serviço”. Lugar de criança é na
escola, vociferam. É um absurdo obrigarem uma criança a parar
seus estudos para trabalhar numa lavoura.

No entanto, uma menina de 14 anos declara para todo o


Brasil que infelizmente teve que abandonar os estudos para se
dedicar à “carreira” de modelo, e sabe como isso é
apresentado? Como algo muito bom. Uma demonstração de
esforço para conseguir realizar um sonho. Os pais estão lá
apoiando e são festejados.

Hipocrisia! Isso me dá nojo! Celebremos nossa


mediocridade!

O que determina se uma coisa está certa ou não, nesse


caso, não são os valores éticos ou morais, mas os valores da
moeda. Uma adolescente parar de estudar para ganhar muito
dinheiro é anunciado com glamour... uma adolescente deixar de
estudar para sustentar sua família pobre é anunciado como
crime contra a infância! Por que ninguém da UNICEF apareceu
na SPFW para denunciar as agências exploradoras do trabalho
infantil? Por que só vão nas favelas, nos canaviais, nas minas de
carvão? Os valores estão trocados... corrompidos...

As crianças e adolescentes já têm seus sonhos... e todos


eles custam caros... eles querem ser medíocres, custe o que
custar... o importante é ter os 15 minutos de fama, e uma conta
bancária recheada de zeros... mesmo que isso lhe custe o zero
na escola.

Viva nossa mediocridade!


Política
Por Que Não Voto em Pastores?

O texto abaixo foi escrito nas eleições de 2002, mas


continua pertinente para essas eleições... é apenas a minha
opinião...que pode ser diferente da sua... mas peço que leia com
o coração aberto...

Um assunto que me fascina desde criança é política. Sou


fascinado por esse mundo de idéias, ideais e que buscam
sempre (ou deveria buscar) uma maior integração entre poder
e sociedade, entre os cidadãos da polis e os executores e
legisladores que sobre eles governam. Quando menino, ainda
antes dos meus 10 anos, assistia interessado aos debates entre
Arena e MDB (alguns de vocês nem eram nascidos... e eu já
gostava desse negócio chamado política) e fui me apaixonando
pelas discussões políticas e pelo modo como aquilo influenciava
o nosso dia a dia.

Adolescente, não tive como escapar dos movimentos


estudantis. Mexiam comigo as manifestações por melhor
ensino, maior capacitação dos professores, maiores salários
para estes, enfim, coisas peculiares aos movimentos
estudantis...e eu, aluno do maior colégio público de minha
cidade, lá estava... colocando o meu pescoço a prêmio e algumas
vezes até mesmo indo longe demais, como quando, por exemplo,
fazia parte de um grupo “terrorista” dentro da escola, que
tinha como objetivo a renúncia da diretora. Nosso “terror” era
coisa de adolescentes mesmo, não tínhamos a intenção de
colocar em prática ( e nem sabíamos como) tudo aquilo que
falávamos... mas que tivemos um enorme impacto, isso tivemos...
logo depois, o “Rosa Negra” (era o nome do grupo) deixou de
existir... hehe. Ah! A diretora acabou por renunciar por
pressão dos alunos.

Logo depois, um encontro com Jesus me fez ter uma nova


e grande paixão (que ainda hoje, 22 anos depois, continua nova
e apaixonante): a transformação não do sistema, mas do
homem que compõe esse sistema. Não que as lutas políticas
deixaram de me fazer vibrar, quem me conhece sabe... sou um
petista apaixonado! Luto por um país mais justo, menos
corrupto, e conquanto saiba que o principal é a transformação
interna, executada por Deus, não deixo de lutar por
manifestações visíveis de transformação social, política e
econômica, coisa que nem sempre muda por convicções
religiosas... já tivemos evangélicos governando em tempo de
ditadura militar, e isso é complicado!

Mas por que estou dizendo isso tudo? Só pra mostrar que
escrevo sobre coisas que já estão em mim há anos... e que
sempre mexeram comigo: política e religião.
Quem assiste ao horário político gratuito (coisa que
adoro assistir!) sempre vê as maiores aberrações... e muitas
delas em nome de Deus! E aí a coisa começa a complicar... são
vários “pastores”, “bispos”, “evangelistas”, e outros “servos de
Deus” usando de maneira acintosa e esculhambadora o nome do
nosso Senhor para simplesmente ganhar um votinho aqui e
outro ali.

Quero deixar bem claro, antes de tudo, que sou


completamente favorável à participação de evangélicos na
disputa eleitoral, realmente precisamos de gente que tenha
uma percepção bíblica e histórica da política de nosso país,
para que possa lutar por causas nobres, mas nobres de
verdade, e não apenas buscando favores para os “crentes”. Mas
é necessário que seja alguém com conhecimento político
verdadeiro (não é conhecer políticos, mas conhecer política),
comprometido realmente com a Palavra, e atento a tudo que
acontece no mundo e no Brasil, mais ou menos como Schaeffer
diz: “a bíblia numa mão e o jornal na outra”.

As aberrações com que somos diariamente confrontados


no horário político me causam nojo. Gente que usa e abusa de
versículos bíblicos e “chavões” evangélicos. Um certo candidato
aparece dizendo em seu momento: “vou ministrar uma palavra
profética...”, uma outra começa dizendo “em Deus faremos
proezas”... um pastor aparece sorridente dizendo “vamos
evangelizar o Brasil!” como se sua eleição fosse essencial para
isso... e ainda tem a figura patética de uma “pastora” (não sou
contra pastoras, ta?) fazendo o “sinal” da Embratel dizendo:
“faça um 2310” francamente...

Bem, sou a favor de cristãos no processo político, mas


não de pastores, e por isso decidi escrever esse artigo.

Não voto em “pastores” porque são COVARDES! Alguém


que abraça o ministério e quer buscar “poder” fora dele é
covarde! Não há outra palavra! É alguém que não confia no Deus
que o chamou (se é que foi chamado) para suprir-lhe as
necessidades e para executar através da pregação a mais
maravilhosa mudança que qualquer país pode ver, a mudança de
um ser desgraçadamente perdido em alguém
surpreendentemente salvo pela graça. Mas isso já foi
esquecido há muito tempo... queremos templos cheios e bolsos
também... se estar lá (no poder) vai me dar “melhores” chances
de “pregar o evangelho” é isso que eu quero, concessões de
rádio... de TVs, etc... nem que para isso eu tenha que votar em
projetos que achatem o povo em vis salários, que oprimam o
direito do trabalhador, e tudo mais.

Tenham coragem... abandonem seus ministérios e se


corrompam de vez, pastores que só apascentam a si mesmos!
Encham o bolso de dinheiro e percam de vez a sua alma!
Renunciem ao chamado e assumam que o poder humano é mais
atraente que a pregação do verdadeiro evangelho e o
apascentar de suas ovelhas. Ovelhas essas já abandonadas por
causa de sua ganância pelo poder terreal.

Não voto em “pastores” porque USAM DE UM DOM


DIVINO PARA ALCANÇAREM FAVOR HUMANO! Como assim?
Pensem comigo... pastor não é título, é dom... e dom é dado por
Deus para a edificação da IGREJA, não do CONGRESSO ou do
SENADO ou das ASSEMBLÉIAS LEGISLATIVAS, portanto ao
utilizarem o “título” de pastor para alavancarem suas
campanhas, agem em desacordo com a Palavra de Deus, que diz
que o dom é para a edificação da IGREJA. Imaginem uma
campanha assim: FULANO de TAL, esse fala em línguas! ou
BELTRANO, o PROFETA! ou ainda SICRANO DA SILVA, o que
discerne espíritos! Ora, seria uma aberração! Pois não é
diferente no caso dos pastores... só que por nossa falta de
conhecimento da Palavra acabamos deixando pastor virar título
sem nenhum compromisso com o dom. Pastor tem que ser
pastor na igreja, para a igreja, e pela igreja, para a edificação
do corpo, para qual os dons são distribuídos.

Finalmente, não voto em pastores porque OS AMO e


gostaria de vê-los cumprindo aquilo para o qual foram
chamados. Há um poema evangélico sobre pastores que diz:
“fostes chamado para uma tão nobre missão, que nem aos anjos
foi dada executá-la”. Pastores, acordem! (nossa... tô parecendo
o tal do Ó Clemente!, hehehe) Vocês tem uma obra muito maior
que a política, não desçam de onde estão... não queiram ser
rebaixados a deputados, senadores, etc...

Cumpram com zelo e amor o ministério para o qual o


próprio Deus os chamou. Se não são chamados por Deus,
arrependam-se, assumam seus erros, abandonem o ministério e
aí sim, abracem a carreira que quiserem, mas não queiram
fazer do dom de Deus trampolim para suas aventuras carnais,
humans.... vocês até podem pensar que isso é o que Deus
colocou em seus corações, mas... “ENGANOSO É O
CORAÇÃO...”

Igreja, nós... os que vamos votar... tenhamos misericórdia


dos “pastores” candidatos, e não votemos neles, oremos para
que despertem para o seu ministério novamente, e oremos
também para que Deus levante homens e mulheres,
comprometidos com o Reino e com o povo para fazerem
diferença no nosso cenário político.
Em Busca de um Aiatolá Evangélico

Já escrevi algumas vezes sobre a questão Igreja X


Estado. Este é um assunto que, volta e meia entra nas rodas de
debates, tendo em vista a sede que a religião tem de alcançar o
poder político e a sede que os políticos têm de fazer de Deus
seu maior cabo eleitoral.

Esta semana um fato me chamou a atenção e foi


publicado em alguns jornais de circulação nacional: o vereador
petista José Wildes submeteu ao plenário da Câmara Municipal
de Porto Velho–RO um projeto de lei que institui Jesus Cristo
como o único salvador daquela cidade.

A matéria foi aprovada em primeira votação, e se


aprovada num segundo escrutínio, poderá ser sancionada pelo
prefeito uma lei municipal com os seguintes termos:

“Art. 2º - Fica declarado, profeticamente, Jesus Cristo


como único senhor e salvador da cidade de Porto Velho.

I – Consagra a cidade de Porto Velho a serviço de Deus,


para a honra, glória e louvor no poder de Jesus Cristo;

II – A cidade de Porto Velho renuncia toda obra


realizada no passado de prostituição, impureza, lascívia, ruínas,
homicídios, roubos, corrupção, idolatria, feitiçaria, tráfico de
drogas, prostituição infantil e toda maldição de primeira,
segunda, terceira e quarta geração da cidade de Porto Velho;

(...)

IV – Declara que a cidade de Porto Velho terá uma


geração santa e eleita pertencente ao senhor Jesus Cristo.”

Parece piada, mas não é! O caso é sério! Seriíssimo!

A busca evangélica pelo poder terreal parece agora


mostrar sua cara, sem vergonha nenhuma de corromper a
verdade das escrituras e, principalmente, afrontar o próprio
Senhor Jesus com uma lei em “seu nome”.

Como será que, em nome de Cristo, se comete tal


heresia? “O meu reino NÃO É DESTE MUNDO. Se o meu reino
fosse DESTE MUNDO, os meus ministros se empenhariam por
mim...” Quem disse isso foi o próprio Jesus em João 18.36

Não! O reino de Jesus não é deste mundo. Querer forçar


um povo a “engolir” goela abaixo o senhorio de Jesus é um
absurdo. “Não por força, nem por violência, mas pelo meu
Espírito, diz o Senhor.”

Tenho dito (não só eu, mas outros escritores e


pregadores) que o povo “evangélico” não vai sossegar enquanto
não implantar um “Talibã cristão”, onde católicos, espíritas e
pessoas de outra religião sofrerão na pele a dor de não
pertencerem à “família de Deus”. Como cristão protestante,
tenho vergonha disso!

Minha vontade ao ler uma matéria dessa é a de enfiar a


cabeça na terra e fingir que eu não existo. Dá raiva e pena ver
um povo tão medíocre e mesquinho na busca do poder.

O Estado laico não pode permitir tal atrocidade à


liberdade religiosa de outros credos. Assim como não gostaria
de ver a minha liberdade religiosa tolhida de alguma forma
pelos poderes constituintes, jamais posso querer ver o quadro
inverso, onde quem não pensa como eu deva forçosamente
abraçar um credo que seu coração não professa.

Eu gostaria muito de ver o Brasil rendido aos pés do


Senhor Jesus, mas não dessa forma infantil, grotesca, com que
a maior parte de nossas igrejas hoje quer: pela decretação de
leis infundadas, pelo “mover” de atos proféticos que de
proféticos não têm nada e não passam de atos “patéticos”.

Se queremos ver o Brasil salvo, comecemos por nós


mesmos... a exercermos justiça com o pobre, a respeitar o
próximo, a cumprir as leis federais, a denunciarmos a
corrupção e não nos calarmos em troca de concessões de
rádios e TVs, a mostrar que realmente temos a “mente de
Cristo”, amando e respeitando cada um em sua individualidade.
Esse pensamento messiânico político foi o mesmo que
levou Jesus à cruz..

Falta ao povo que diz ter a Bíblia como Palavra de Deus


entender que somos “peregrinos” e “forasteiros” (1 Pedro 2.11)
aqui neste mundo... que “estamos no mundo, mas não somos do
mundo” (João 17.16), mas ao mesmo tempo Jesus ora não para
que Deus nos tire do mundo, mas que nos livre do mal (João
17.15).

Falta nos libertarmos dessa teologia exdrúxula de


maldições hereditárias e mapeamentos espirituais, que nada
têm a ver com a veracidade das Escrituras. Não adianta
declarar Jesus como salvador de uma cidade e pensar que por
um decreto humano os corações serão transformados. Isso é
criancice, infantilidade, e mais, traz em si mesmo fortes doses
de desequilíbrio psicológico e desconhecimento histórico.

A fusão entre religião e Estado proporcionou algumas das


maiores barbáries que este mundo já viu: As cruzadas e o
massacre de crianças e dissidentes na “Noite de São
Bartolomeu”... as inquisições, tanto católicas quanto
protestantes... os terroristas do islã...

Que Deus nos livre de um povo que, em seu nome, faz


exatamente aquilo que Ele jamais faria.
E agora, “profetas”?

Poucas coisas me tiram mais do sério do que besteiras


feitas em nome de Deus, e isso foi infelizmente o que mais
vimos nessa corrida presidencial, que agora parou para um
breve “pit-stop”, sendo que apensas dois “carros” continuam na
disputa.

O Brasil foi bombardeado nesse tempo por “profecias”.


Por todo o canto onde eu passava ouvia uma dessas baboseiras,
que segundo seus autores, era Deus quem estava falando...e
todas apontavam para o mesmo fato. Deus estava levantando
um homem para governar o Brasil, um homem segundo o seu
coração... essa era a vontade de Deus... essa era a revelação de
Deus para o seu povo... Deus estava atendendo ao clamor do
seu “povo” e estava agindo... um “justo” assumiria o poder. E
por aí iam as profecias...

Bem, comecemos pensando: se é verdade que “agindo


Deus, quem impedirá?” (Isaías 43:13); que “nenhum dos planos
de Deus pode ser frustrado” (Jó 42.2); e se é verdade também
que as palavras de Deus se cumprem, como a Bíblia nos afirma
em vários textos, que Deus zela pela sua palavra para cumpri-
la... então só me restam duas alternativas: ou Deus não falou
nada, e “falsos profetas” se inseriram no nosso meio, ou Deus
errou, o que sinceramente não creio ter acontecido... hehe

Vamos à Bíblia...

“Porque assim diz o SENHOR dos Exércitos, o Deus de


Israel: Não vos enganem os vossos profetas que estão no meio
de vós, nem os vossos adivinhos, nem deis ouvidos aos vossos
sonhadores, que SEMPRE SONHAM SEGUNDO O VOSSO
DESEJO; porque FALSAMENTE VOS PROFETIZAM EM MEU
NOME ; EU NÃO OS ENVIEI, diz o SENHOR.” (Jeremias
29.8-9) vamos ainda a outro texto:

“Como conhecerei a PALAVRA QUE O SENHOR NÃO


FALOU? Sabe que, quando esse profeta falar EM NOME DO
SENHOR, e a palavra dele NÃO SE CUMPRIR, nem suceder,
como profetizou, esta é A PALAVRA QUE O SENHOR NÃO
DISSE; com SOBERBA, a falou o tal profeta; NÃO TENHAS
TEMOR DELE.” (Deuteronômio 18.21-22)

Ora, diante dos textos acima só me resta uma afirmativa:


QUEM PROFETIZOU EM NOME DE DEUS QUE O
GAROTINHO VENCERIA AS ELEIÇÕES MENTIU... FALOU O
QUE DEUS NUNCA DISSE... E SE TORNOU ASSIM UM
FALSO PROFETA! Digo isso sem medo de errar... porque a
Bíblia me garante isso: são FALSOS PROFETAS sim... e ai
daqueles que se deixam levar por falsos profetas... e pior
ainda.. ai daqueles que falam em nome do Senhor palavras que o
Senhor nunca disse.

Veja trechos de uma carta de Custódio Rangel,


presidente nacional da ADHONEP (braço direito da campanha
vergonhosa de Garotinho): “...A eleição presidencial de 2002
é muito mais do que um simples exercício da democracia, é
a escolha definitiva de um rumo para o Brasil. Até agora, o
inimigo teve legalidade sobre a nossa terra e sobre o nosso
povo. (...)Entretanto, o Senhor ouviu o clamor do seu povo
e está pronto para intervir de uma forma decisiva em nosso
país. Por isso quero compartilhar algo tremendo com você.

Há doze anos, uma irmã em Cristo teve uma visão


espiritual impressionante. (...)Enquanto orava pelo país,
pelos problemas financeiros e pelas graves questões sociais,
o Espírito Santo disse: "...quando o meu justo se assentar
na cadeira de autoridade do Brasil, revelarei riquezas
minerais que estão debaixo da terra, onde ninguém sabe.
Mostrarei aquilo que escondi dos governos dos ímpios para
que fosse revelado como tesouro escondido no tempo certo,
gerando reservas..." (...) Amado, pela primeira vez temos
um candidato cristão e justo - justificado por Jesus - à
presidência da república. Não há duas opções, nem dois
momentos. (...) Deus vai mudar esta nação! Seu povo
precisa ser salvo e a Igreja fortalecida, e você pode estar
entre aqueles que Deus utilizará para isso. Mas não será
apenas uma pessoa, serão muitos. Seu povo, sua Igreja
profética, será usado para falar, em particular ao
governo.

A hora é essa, é agora: hora de eleger Anthony


Garotinho Presidente do Brasil. Mobilize-se, trabalhe
nestes últimos dias e no dia da eleição.

E agora, profetas??

Dona Rosinha Garotinho em um de seus programas


eleitorais aparecia num culto profetizando a vitória do
candidato ao senado Pr. Manoel Ferreira, que não foi eleito. E
aí, dona Rosinha? Foi profecia ou “profetada”??

Vários outros pastores e líderes evangélicos apareceram


aqui e acolá com “palavras vindas de Deus”... e todas na mesma
ordem “Garotinho é a vontade de Deus para o Brasil... Deus já
havia revelado seu plano... e ninguém poderia se opor” e agora,
falsos profetas?? o “escolhido de Deus” não foi nem pro
segundo turno...

Se o seu pastor, “apóstolo”, bispo, ou seja lá qual outro


título for... em algum momento disse que Deus estava querendo
o Garotinho para presidente, não tenha dúvida, ele é um falso
profeta!

Mas a culpa não é só dos falsos profetas... é do povo


também... o que me faz lembrar o texto de Paulo a Timóteo
quando diz que, nos últimos tempos, “cercar-se-ão de mestres
segundo as suas próprias cobiças...”

A igreja brasileira vive um momento perigoso... seu


ufanismo espiritual está transbordando para todos os lados,
inclusive na política. Vivemos a expectativa de um “messias
político”, uma espécie de “Aiatolá” evangélico, que “reinará” em
nome de Deus, e segundo a maioria dos cristãos brasileiros
(infelizmente), basta um “homem de Deus” assentar-se no
trono... e pronto... O Brasil será do Senhor Jesus, pois esse
homem terá esse poder, de representar o povo diante de
Deus... misericórdia!

Em alguns canais evangélicos da Internet, sinceramente


não se consegue conversar. As palavras são chavões... velhos e
novos... mas chavões... sem um pingo de responsabilidade ou de
fundamentação bíblica. Alguns acham que basta declarar que
“O Brasil é do Senhor Jesus” que pronto, abracadabra... e o
Brasil será transformado! Francamente...

O povo evangélico brasileiro quer um político pra fechar


terreiros de macumba, mas treme ao ouvir falar numa possível
perseguição. (o que aliás foi vergonhosamente explorado por
um outro falso profeta, mentiroso... que espalhou no Brasil uma
fita maldosa e mentirosa com “cinco leis para fechar as
igrejas”). Querem um presidente que faça cultos no Palácio,
mas criticam os que fazem outros rituais. Querem um
presidente que governe para evangélicos, quando somos apenas
16% da nação, ou seja, somos imorais em nossas propostas, e
acabamos por ferir a Palavra.

É dever da igreja denunciar qualquer governo corrupto,


qualquer indecência política (mesmo que seja feita por
evangélicos), pois o mais importante para o país não é se um
evangélico irá ou não governar sobre ele, mas se a igreja de
Deus será ou não governada pelo Deus a quem ela afirma servir.

Que Deus nos abençoe....


A Teocracia dos Manipuladores

Poucas coisas me aborrecem tanto como besteiras feitas


em nome de Deus. Em épocas de eleições então... parece que
aqueles que se acham acima do bem e do mal, representantes
de Deus na face da terra, proliferam como uma praga a
devorar mentes e pessoas que, por falta de conhecimento
político e bíblico, se deixam levar por esses enganadores.

Já tenho dito há muito tempo, inclusive em alguns outros


artigos: a mistura entre religião e Estado sempre resultou em
tragédias. Desde o surgimento oficial da Igreja Católica, sob
as “bênçãos” de Constantino e Teodósio, na Reforma
Protestante debaixo dos cuidados perniciosos de Henrique
VIII, até os nossos dias quando somos obrigados a assistir a
cada dia nuances de uma guerra que parece se arrastar entre
os “cristãos” seguidores do Jeová bélico e os muçulmanos fiéis
do Alá destruidor.

Mas... o que isso tem a ver com nossas eleições?

Estou cansado de ligar a TV no horário político, ou ouvir


nos famigerados carros de som, ou até mesmo ler nos
panfletos de campanha que “fulano é o candidato ideal por
conhecer a Deus”... “Beltrano é homem de Deus e por isso deve
ser eleito”... “os cristãos apóiam fulano, pois quando ‘o justo
domina o povo se alegra’”... “vote em pastor sicrano... o
representante do povo de Deus na política”... francamente...

Quero dizer bem claramente e sem medo nenhum de


errar: DEUS NÃO TEM COMPROMISSO NENHUM COM
ESSA GENTE NA POLÍTICA. Deus não decidiu se revelar a
humanidade através dos poderes políticos... Ele é bem maior
que isso. Quando alguém aparece dizendo que é representante
de Deus para salvar a política (o tétrico messianismo político) é
mentiroso, safado e manipulador. Não tenho medo de dizer
isso. A história, a Palavra e o bom senso estão ao meu lado
nessa hora.

Deus é soberano, segundo as teologias católica e


protestante, portanto Ele independe de ter os seus
“representantes” nas câmaras, prefeituras, congressos, etc...
para continuar sendo Senhor do Universo, Ele reina e reinará
sempre,e o seu Reino não é deste mundo, foi o próprio Jesus,
Deus encarnado, quem disse isso. Por que então, aqueles que
dizem segui-lo buscam tanto esse poder terreal? E pior ainda,
por que utilizam o nome de Deus para tal?

Simples... porque não há nenhum outro poder tão


manipulador quanto o da religião. Talvez nem o dinheiro consiga
tal feito. Pastores e padres imbecis e mesquinhos “obrigam”
suas ovelhas a votarem nos candidatos que eles querem (isso
quando eles mesmos não são os candidatos-escolhidos-de-deus)
para depois fartarem-se de favores... uma obra irregular aqui...
um ônibus ali... uma condecoração acolá...

A teocracia bíblica independe da teocracia política. O


governo de Deus é tão real que ele usa até mesmo um político
“ímpio” para realizar seus intentos. O “ateu” Betinho
revolucionou e abençoou o Brasil com sua “Ação da cidadania
contra a fome”. Enquanto isso o cristão Bush...

Portanto fica aqui o meu recado final: se o seu padre ou


pastor utilizarem da “palavra de Deus” para lhe manipularem o
voto: rejeite-o... ele não tem autoridade divina para tal... ele
não possui o “copyright” de Deus para mandar em sua
consciência. Rejeite esses homens e mulheres perversos que
utilizam o nome de Deus como cabo eleitoral. Não se sinta
obrigado a votar neles... Deus não lhe castigará por isso (ainda
que eles digam isso)... você é livre... e como disse o apóstolo
Paulo “para a liberdade foi que Cristo nos libertou... não vos
submetais, de novo, a jugo de escravidão”.
Devocionais
Tente Outra Vez...

Em tempos de crise, até que o governo brasileiro “mandou


bem”. Entre tantos desacertos e até mesmo diante de uma
hilária “proposta” para que se criasse o Ministério do ‘vai dar
M...’ , os comerciais da nova campanha de motivação do governo
federal caíram no gosto do povo. O slogan “Sou Brasileiro! Eu
não desisto nunca!” caiu como uma luva num povo sofrido, que
tem como força última exatamente o fato de não desistir...
mas às vezes desiste.

Muitos desistiram de ser honestos... aliás esse grupo é o


que mais aumenta. Outros desistiram de procurar um trabalho
digno e se enveredaram pelo mundo do crime. Há ainda aqueles
que nunca desistiram simplesmente porque nunca tentaram
nada na vida... esses com certeza são os piores... nunca
desistiram porque nunca tentaram. Outros ainda desistiram
daquilo que lhes era primordial: a própria vida... é
impressionante o número de suicídios que são cometidos no
Brasil.

Pensando comigo mesmo, cheguei a uma conclusão: só há


UM que nunca desiste de verdade... aquele que criou todas as
coisas e apesar de sua própria criação querer ter se afastado
dEle em momento algum deixou de ser fiel a si mesmo: Deus.
“Se somos infiéis, Ele permanece fiel... pois de maneira
alguma pode negar-se a si mesmo.” É o que diz a Palavra. A
fidelidade de Deus independe de nossa “perfeição”. Quantas
vezes quando nós mesmos já desistimos de nós... Ele nos toma
em graça e nos levanta novamente? Quem faria isso a não ser
alguém que não desistisse nunca?

Seria interessante que aqueles que dizem ser o corpo de


Cristo realmente manifestassem o que a cabeça pensa... se a
cabeça não desiste nunca, por que o corpo deixa padecer um
membro e desiste dele? Isso é só pra pensar um pouco...

Voltando à propaganda, interessante também é ouvir uma


música do “maluco beleza” Raul Seixas incentivando o povo a
ter fé em Deus, a ter fé na vida... a tentar outra vez... só me
resta aqui acreditar tanto naquilo que os teólogos chamam de
“graça comum”, ou seja, que por mais longe que se esteja do
criador, há sempre no ser humano traços daquele que o criou,
como também ficar com as palavras de Jesus: “se eles se
calarem.. as próprias pedras clamarão”.

Não duvido disso... hoje em dia quando as igrejas ensinam


a ter fé na fé... fé no pastor... fé no apóstolo... quando as
igrejas punem categoricamente aqueles que “erraram” para
serem execrados por uma turma de santos-fariseus-sepulcros-
caiados... eis que surge ele, Raul Seixas... cantando... “tente
outra vez... tenha fé em Deus...” e eu me pego a rir das “ironias
de Deus”... pedras clamando...

Isso mesmo... só tenta outra vez de verdade aquele que


conhece Aquele que, de verdade, não desiste nunca. Porque Ele
não desiste nunca eu posso tentar... porque Ele não desiste
nunca eu posso acreditar que minha queda não foi o fim...
porque Ele não desiste nunca eu posso descansar nEle todas as
minhas desistências, e prosseguir... porque Ele não desiste
nunca eu posso desistir de controlar a minha vida, e deixar que
Ele a controle...

Eu já desisti muitas vezes... e em todas elas ouvi, às


vezes com a dureza de um Pai quando corrige seu filho, mas
sempre com carinho e doçura aquela voz inconfundível, doce
como o som da brisa que sopra de manhã, intensa como o som
de muitas águas, firme como as montanhas que hoje tento
escalar... a voz do Mestre... falando claramente em meu
coração: “Tente outra vez.... Eu sou Deus! Eu não desisto
nunca!”
Sobre Pipas e Piões

Duas brincadeiras me fascinavam quando criança: soltar


pipa e rodar pião. O engraçado é que são justamente as que eu
menos sei fazer. Falta-me a habilidade para ambas. Admiro
quem sabe rodar o pião e quem sabe colocar uma pipa no alto e
manejá-la bem (só colocar no alto até eu faço). Pipas e piões
são brinquedos que têm muito a nos ensinar em suas táticas,
maneiras e modo de serem usados. Somos quais pipas e piões...
veremos isso...

Piões são brinquedos que só funcionam se desenrolados,


se livres daquela cordinha que lhes dão “vida própria”. Assim
somos nós... só funcionamos bem se desenrolados...mas não
quero dizer com isso que são ruins as “cordas” que nos enrolam.
Não... são elas que nos impulsionam... são elas que nos dão
forças para girar... e girar...

Assim são os problemas para com a nossa vida. Devemos


encará-los como força motriz de um novo caminhar. Ao nos
livrarmos deles percebemos o quanto nos serviram para o
amadurecimento, para “rodarmos” direito. Sim, um pião mal
enrolado nunca girará corretamente. Até me faz lembrar as
palavras antigas de um sábio... “no mundo tereis aflições, mas
tende bom ânimo...”
Pipas são fascinantes também... vivem no céu. Uma pipa
nunca é tão bela no chão quanto a é no ar... confiando na força
do vento. Conta-se que um aprendiz de feiticeiro encontrou-se
com uma formiguinha numa de suas caminhadas entre a serra e
o mar... ao ver a formiguinha carregando uma folha bem maior
que ela mesma, o moço perguntou: Como consegues carregar
uma folha tão pesada em um corpo tão pequeno? A formiguinha
respondeu-lhe sorrindo:  Aprendi a confiar na força do
vento!

Essa é a lição da pipa... confiar na força do vento. Saber


que o vento sempre lhe levará a um lugar bonito, onde poderá
demonstrar toda a sua beleza e encantar crianças e adultos
que sempre estarão dispostos a contemplar a beleza de pipas
coloridas rasgando o céu azul.

Interessante é que o mesmo sábio que disse que teríamos


aflições no mundo também disse algo sobre o vento... “O vento
sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem,
nem para onde vai... assim é todo o que é nascido do espírito”.
Engraçado é que no grego clássico as palavras “vento” e
“espírito” são uma só: Pneuma. Há uma identificação do vento
com o espírito...

Precisamos confiar na força do vento... deixar que ele nos


mostre o caminho... confiar que há algo melhor “além do arco-
íris”... Não nos prendermos a coisas materiais de forma que não
sejamos mais livre... o vento sopra onde quer... uma hora aqui...
outra ali... não sabes pra onde vai... assim é todo aquele que
deixa se levar. Pessoas mesquinhas estão sempre presas, não
sabem o que é se deixar levar pelo vento... nunca
experimentaram a alegria de voar leve...à toa!

Mas há ainda duas coisas que quero falar sobre pipas e


piões: uma que os distingue e outra que os une, que os tornam
iguais. E ambas nos trazem lições importantes.

A primeira, que os distingue, é que piões rodam no chão...


na terra... e pipas voam... estão sempre nos ares. Essa é a
primeira lição... transcendência e imanência... sentimento e
ação... precisamos voar... e ter os pés no chão... saber a hora de
levantar vôo, viajar, transcender e saber a hora de pôr os pés
no chão.... caminhar firme... enfrentar o pó da estrada... e a
hora da união... verbo se fazendo carne.

A segunda lição, que os une, pipas e piões só têm beleza


se manejados por mãos habilidosas. Como eu disse... nunca tive
essa habilidade. Pipas e piões não são pra qualquer um. Nossas
vidas, tais pipas e piões só se mostrarão belas em mãos
seguras, habilidosas... e não há mãos melhores para pipas e
piões do que as mãos que os fazem... assim como não há mãos
melhores para o homem do que as mãos do criador...
O sábio a quem me referi no texto é Jesus, o Cristo...
criador de todas as coisas... ele declarou que não deveríamos
nos desesperar com os problemas... porque ele os venceu... não
há meio melhor de voar, nem girar do que “impulsionados” pelas
mãos de quem tudo criou... aquele “que até o vento lhe
obedece”.
Sobre Misericórdias “Vencidas”

“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos


consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;
renovam-se cada manhã...” (Lamentações 3.22)

Gostaria de compartilhar com os amados do texto de


minha alma, o que mais me toca o coração e que mais me
fortalece...

Em primeiro lugar já acho interessante esse texto estar


num livro que se chama “lamentações”, pois a afirmativa acima
nem de longe cheira a lamento, antes traz esperança, cheiro de
coisa nova, alegria, enfim, forças para enfrentar um novo dia...
Aprendo com isso que mesmo pessoas que lamentam podem ter
esperança. Lamento e esperança não são antagônicas entre si.
É bom não confundir lamento com murmuração... Lamento é
choro, e bem aventurados os que choram... serão consolados.

Aprendemos mais com esse texto: nossa real posição


diante de Deus! Pobres homens dignos de serem consumidos.
Há quem pense que não, mas somos fracos, falhos, e
merecíamos a condenação, punição... Mas Deus... Ah! Esse Deus
maravilhoso! Nos ama, e por sua misericórdia não nos consome,
elas (as misericórdias dele) não têm fim. Meus irmãos, como me
emociona e me alenta saber disso. Eu, um “consumido”em
potencial, sou acolhido nos braços daquele que é
misericordioso, que ama, que não me dá aquilo que mereço. Isso
é misericórdia: não recebemos de Deus aquilo que merecemos,
enquanto graça é aquilo que recebemos sem merecer!

Renovam-se a cada manhã... que coisa linda! Penso que


devemos buscar a Deus sempre, mas principalmente ao
acordar, assim pegamos as misericórdias “fresquinhas” (hehe),
daí o título: Sobre misericórdias vencidas, pois costumo dizer
que quem não busca a Deus todos os dias está com
misericórdias vencidas, pois elas já se renovaram. É como o
maná, não adianta guardar de um dia pro outro... cada dia há
uma porção nova, algo novo vindo do Deus que não muda...

“Bom é o Senhor para os que esperam nele...” esperar no


Senhor é coisa pra quem conhece as suas misericórdias...
Nesses dias de tanta correria, tantos problemas, tantos
insultos, esperar no Senhor não tem sido tão simples... Mas
vale a pena! Ele é fiel!

De todos os atributos morais de Deus, o que mais me


fascina é sua FIDELIDADE! Ele não nos abandona nunca, sua
fidelidade é para sempre, Grande é a sua fidelidade! Podemos
passar pelo vale da sombra da morte, lá está Ele, pois é fiel!
Podemos descer ao fundo do abismo, ao pecado mais horrendo,
lá estará Ele a nos tomar pela mão para que prossigamos, pois é
FIEL! Podemos até mesmo querer viver longe de seus caminhos,
e lá estará Ele a nos dizer baixinho no ouvido “não, não vá por
aí... tenho um caminho melhor”, ou como cantaria o Silas, uma
pessoa especial usada por Deus com suas músicas maravilhosas,
e que alguns dos meus amigos conhecem:

“Escolhi para ti um caminho melhor,

escolhi para ti um caminho sobremodo melhor,

para andar bem erguido, com coração limpo,

um novo caminho escolhi,

escolhi para ti um caminho melhor”

Sabe por que Deus diz isso? Porque Ele é FIEL! Glórias
pois a Ele!

Por isso amados, vale a pena esperar no Senhor, confiar


em suas misericórdias! Não é à toa que o verso anterior
(Lamentações 3.21) diz: “Quero trazer à memória o que me
pode dar esperança...” e então discorre maravilhosamente
sobre as misericórdias do Senhor e sua Fidelidade.

Prossigamos pois, no caminho melhor, no caminho


sobremodo melhor... confiados nesse Deus maravilhoso, pois
como diria Paulo: “Se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de
maneira nenhuma pode negar-se a si mesmo.” Ele é Fiel! Aleluia!
E mais, por sua fidelidade podemos confiar totalmente que
“Aquele que começou boa obra em nós há de completá-la até ao
Dia de Cristo Jesus”.
Quando Deus diz: “Dá licença?”

Eu creio em milagres!

O que é um milagre senão uma intervenção divina na


história humana?

Por isso creio mais ainda. Creio que somos de vez em


quando surpreendidos por milagres sem que sequer os
percebamos. Nosso dia-a-dia está repleto do cuidado de Deus.
Deus está no controle da história e essa é uma das minhas
maiores certezas: o universo não é um trem desgovernado... ele
caminha sobre os trilhos da soberania divina. Há um Deus
amoroso que rege e se relaciona com o mundo que criou. Há um
Pai que cuida de seus filhos e, com certeza, quer o melhor para
os seus.

Foi o próprio Deus encarnado, Jesus, quem disse isso: “Se


vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos,
quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos
que lhe pedirem?” (Mateus 7.11)

O problema está exatamente no fato de que a teoria é


muito fácil de ser dita, pregada, ensinada, mas longe de ser
vivenciada por nós, que tanto gostamos de exaltar ao “Deus
soberano”. Nossas palavras e canções acerca da sabedoria e
soberania de Deus não condizem, muitas vezes, com a nossa
vontade de dominar a nossa própria vida.

Temos uma tendência natural a nos afastarmos de Deus,


a declararmos independência de Sua vontade e a trilharmos
nossos próprios rumos. Foi assim no Éden, é assim até hoje. E a
conseqüência, milênios depois, continua a mesma: morte!

Não só a morte física, mas a morte de sonhos, projetos,


vontades. É incrível o quanto deixamos de desfrutar das
bênçãos de Deus (paz, alegria, gozo, etc) por estabelecermos a
nossa vontade superior à vontade de Deus. Fazemos os nossos
planos e nem consultamos a Deus. Alguns ainda, por desencargo
de consciência “fazem uma oração” depois de já terem decidido
(sem oração) o que fazer. Somos hipócritas... na verdade já
tínhamos tomado a decisão e apenas queremos um “carimbo” de
Deus nos nossos planos humanos.

Há tempos li um livro que ainda é um best-seller


evangélico, “Há Poder em Suas Palavras”, um dos piores e mais
venenosos livros que já li e que se intitulam evangélicos. O livro
passa longe, muito longe, do que a Bíblia realmente ensina
sobre a soberania de Deus. Em certa altura do livro, lembro de
ter lido algo que poderíamos chamar de a “teologia do cheque
em branco”. Como se Deus nos desse uma folha de cheque
assinada em branco e nós colocássemos ali tudo o que
quiséssemos e Deus se sentisse obrigado a responder.

O que a Bíblia ensina sobre soberania de Deus e senhorio


de Cristo é exatamente o contrário. Somos nós quem
“assinamos o cheque em branco” e o entregamos nas mãos de
Deus dizendo com isso: “toma, Senhor, a minha vida”. É o que o
salmista diz em um dos versos mais conhecidos do saltério:
“Entrega o teu caminho AO SENHOR, confia NELE, e o mais
ELE FARÁ.” É Ele quem FAZ a obra.

Creio firmemente que em certos momentos Deus


intervém e diz: “Dá licença? Daqui em diante EU cuido disso!” E
Ele faz isso porque muitas vezes nós somos reticentes em
entregar-lhe totalmente o comando de nossas vidas. No fundo
(por mais que nossas palavras e nossos cânticos digam outra
coisa) achamos que NÓS sabemos melhor do que Deus o que
realmente precisamos. Atropelamos a vontade de Deus. O
resultado é sempre o mesmo: tragédia!

“O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta


certa vem do Senhor.” (Provérbios 16.1) A Palavra é clara.
Como diria um comentarista de arbitragem do futebol
brasileiro: “A regra é clara”. E é tão clara que nós não
conseguimos entender. Gostamos de complicar as coisas
simples. Evangelho é coisa simples: é Cristo sendo Senhor de
nossas vidas. É Deus intervindo na história, na nossa história,
fazendo de nossa vida um milagre diário. Deus quer dar o
melhor a seus filhos, basta que abramos nossos corações e
nossa vontade ao seu Senhorio, ao seu comando, à sua
soberania.

Deus está no controle! Ele é realmente soberano! Ele,


mais do que ninguém, quer intervir em nossas vidas e assumir o
trono de nossos corações. Confiemos, pois “ desde a
antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem
com os olhos se viu Deus além de Ti, que trabalha para aquele
que nele espera.” (Isaías 64.4)
Os Santos Também Sujam
os Pés no Caminho

Um dos mais fascinantes quadros bíblicos, ao meu ver, é o


momento em que Cristo, durante a última ceia, lava os pés dos
discípulos. Toda vez que tento imaginar essa cena, meus olhos
marejam... é simplesmente linda! E quanta coisa nos ensina...

Ali estavam eles, os discípulos... haviam andado com o


Mestre por alguns anos, contemplando face a face o verbo,
Deus encarnado, sentindo o cheiro de Deus, vendo o “jeitão” de
Deus, ouvindo sua voz...

Mas estava chegando a hora final, a cruz que era desde a


eternidade se fazia urgente, palpável, vinha dos tempos
eternos para rasgar a história e ver cravada nela o cordeiro
imolado desde antes da fundação do mundo. O que era fora do
tempo, estava prestes a invadir a cronologia humana e
executar o plano, o único plano de Deus para a salvação... a
CRUZ.

Jesus então cinge-se com uma toalha, tira a vestimenta


de cima, enche uma bacia com água e passa a lavar os pés dos
discípulos. Vergonha! Humilhação! Quem lavava os pés
geralmente era um servo, alguém a mando de seu senhor, dono
da festa, dono da casa. Inversão de valores, servos sendo
servidos, o Senhor era quem os servia, o dono da festa é quem
“paga o mico”... e Ele se humilhou...

Pedro, em seu impetuoso temperamento, seu jeitão tosco,


dono do mar, pescador destemido, na arrogância infantil que
lhe era peculiar nega essa possibilidade: “nunca me lavarás os
pés”. Gesto aparentemente humilde, pois trazia em seu bojo o
reconhecimento da autoridade do Mestre, foi duramente
reprovado por aquele que trazia a bacia e a toalha nas mãos:
“Se eu não te lavar os pés, não tens parte comigo (...) quem já
se banhou não necessita de lavar senão os pés; quanto ao mais
está todo limpo...”

Os santos também sujam seus pés no caminho!

Mesmo aqueles que tem seus pés firmes na rocha, que


caminham naquele que é o Caminho, podem por muitas vezes
sujar os pés.

O que mais me fascina em Jesus é sua total compreensão


da humanidade e sua não-religiosidade. Jesus hoje seria, com
certeza, confundido com o AntiCristo por alguns líderes da
“religião cristã”, pois seu modo de agir, suas palavras e sua
maneira de encarar as coisas difere muito da chamada “moral
evangélica”.
Jesus não seria “evangélico”. Cada vez mais me convenço
disso. Seu modo de lidar com os erros, com as dificuldades
daqueles que sujam os pés no caminho é totalmente diferente
da forma como vejo a “igreja”. Ele cuida, ele trata, ele lava os
pés, mas não deixa de dizer que o corpo já está limpo... são só
os pés... empoeirados, sujos, machucados... quão diferente
daqueles que jogam fora a criança junto com a água da bacia...
tão típico dos grandes coronéis-apóstolos-super-pastores de
nossos “arraiais”.

Essa santidade que anda por aí, que não abre espaço aos
pés sujos no caminho, essa eu não quero! Essa santidade do
“não toque”, “não prove”, “não mexa” ... é a santidade dos
fariseus. Paulo já dizia que essa santidade na verdade é falsa
humildade, culto de si mesmo! (Cl 2.20-23). Essa santidade
daqueles que querem ser mais santos do que Deus, daqueles
que dizem que é pecado aquilo que Deus nunca chamou de tal,
essa eu rejeito! A santidade dos “levitas”, dos “apóstolos”, dos
“semi-deuses”, dessa eu quero distância.

Quero deixar claro que não estou fazendo uma apologia


ao pecado! O mesmo Paulo que escreve o texto acima também
diz que não devemos fazer uso dessa liberdade para dar
ocasião à carne (Gl 5.13). Para a liberdade foi que Cristo nos
chamou, principalmente porque nos libertou do império das
trevas, da tirania da carne, para o reino do Filho do seu amor.
Liberdade que nos faz responsáveis e que nos enche de
gratidão pela graça (ah! a graça) que nos enche os pulmões e a
alma do vento que sopra onde quer.

O que estou querendo dizer é que é possível, mesmo no


Caminho, sujar os pés... e encontrar consolo naquele que lava
pés, corações, mentes, olhos, simplesmente por ser a água viva.

Que Ele nos guarde de todo o mal no caminho que, às


vezes, nos suja os pés.
Os Insípidos Bonecos de Sal

Quem nunca brincou com bonecos? Bonecos povoam a


imaginação infantil... ganham vida nas mãos das crianças, que
exercem sem saber sua imaginação divina... sopram suas narinas
e eles ganham vida.. voz... nome.

Minha filha Isabela tinha alguns bonecos... entre eles um


macaquinho que ela chamava de “Micoleião”, assim mesmo, com
o “i” no meio. Eu gostava de sentar e brincar com ela... o
Micoleião ganhava vida... e brincava com a Isabela. Enfim,
bonecos podem ganhar vida nas mãos de gente criativa e
criadora, mas podem também simbolizar morte, morte da
vontade... marionetes... e quando acontece o pior... bonecos de
sal!

Uma das histórias bíblicas mais interessantes, e uma das


primeiras que aprendi quando criança foi a da mulher de Ló,
aquela que, cismando em olhar pra trás, virou uma enorme
estátua de sal, ou melhor, um insípido boneco de sal.

Olhar pra trás...

Em certos momentos de nossa vida somos tentados a


olhar pra trás. Parece que nossa confiança de que o futuro ao
lado de Deus é melhor, de que ele tem o melhor pra nós foge
de nossas mãos. Olhamos e não vemos... e o coração (ah!
Enganoso é o coração...) procura outros horizontes e em
determinados momentos, ao não contemplá-los, olha pra trás...
numa tentativa de buscar no passado algo que satisfaça o
presente.

Não sei o que a mulher de Ló procurava ao olhar pra trás,


mas certamente não era algo essencial, pois o essencial estava
ao seu lado... marido, filhos,e o mais importante... a presença
de Deus, que os levava pela mão para fora de um lugar que já
não tinha nada mais para ensinar, que estava literalmente
entregue ao fogo, à destruição. Da mesma forma não consigo
entender como às vezes paramos e, na nossa caminhada rumo
ao lugar de descanso, depois de escaparmos da destruição
pelas mãos poderosas de Deus, olhamos pra trás, e o que é pior,
geralmente quando estamos sendo conduzidos pelas mãos do
Senhor.

Olhar pra trás numa hora dessas é deixar de crer que


Deus tem o melhor, é sentir saudades “das panelas de carne do
Egito”, é abrir mão de um chamado pra uma vida nova e voltar a
se alimentar com os porcos... quando isso acontece, corremos o
sério risco de nos transformarmos nos novos e insípidos
bonecos de sal. Já não servem para mais nada, a não ser para
serem pisados, e jogados fora.
Insípidos bonecos de sal nos tornamos quando, a despeito
daquilo que Deus tem feito em nossas vidas, retornamos ao
nosso modo sórdido de viver, quando a busca de uma vida plena
em Deus dá lugar ao ressuscitar de práticas antigas, de
rebelião contra Deus. Deliberadamente dizemos não ao socorro
de Deus, e sutilmente, com o “rabo de olho” damos aquela
“olhadinha” pro passado... afinal é bom. Pode ser uma mulher,
um rapaz, um negócio, algo que nos faça regredir na caminhada
e o que é pior, perder o sabor.

Lembro-me de uma propaganda comercial em que alguém


dizia: “ta faltando... SABOR...” e é exatamente isso que me vem
à mente quando vejo pessoas que depois de estarem ativas na
obra, voltam-se para trás, numa atitude rebelde, eram
bênçãos, trabalhavam com afinco mas hoje olhamos e... ta
faltando SABOR.

Mas isso não é só uma constatação para aqueles que


perderam sabor, mas um alerta para todos nós, que
diariamente somos tentados a olhar pra trás, como quem deixa
de crer que o futuro nas mãos de Deus e o melhor.

As palavras de Paulo cabem aqui... “esquecendo-me das


coisas que para trás ficam, prossigo para o alvo...”

Prosseguir! Essa é a palavra chave. Nos momentos em que


o olhar pra trás quase nos é imperativo vale lembrar desse
conselho bíblico. Prosseguir! E mais, não só prosseguir, mas
prosseguir para um alvo... Cristo.. nossa soberana vocação!

Foi ele mesmo (Cristo) quem disse: “Quem quiser vir após
mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e siga-
me.” Seguir a Jesus implica em renúncia, em cruz. Significa
abrir mão dos meus desejos carnais que me afastam da
vontade do Pai, por mais doloroso que isso me possa parecer.
Renunciar a amores, desejos, coisas do nosso mais profundo
ser que nos fazem querer olhar pra trás.

Uma coisa nos conforta nessa história toda: a certeza de


que ele “estará conosco até a consumação dos séculos”.
Podemos deixar que ele nos pegue pela mão e nos leve pra onde
quiser, certos de que ELE, e SÓ ELE é quem sabe o melhor
pras nossas vidas.

Se alguma coisa nos quer fazer olhar pra trás, voltar no


caminho de onde já saímos, renunciemos a isso, na certeza
absoluta de que Deus tem o melhor, que teremos sabor, que
espalharemos o bom perfume de Cristo por onde passarmos, e
que nunca, nunca mesmo, seremos conhecidos como “os
insípidos bonecos de sal”.
O Meu Isaque?

Entregar algo que nos é caro sempre foi difícil. Dar algo
que, ao nosso entender, é tão bom, nos faz tão bem, nos enleva,
nos alegra e saber que isso nunca mais será nosso é mais difícil
ainda. Entregar então algo que é a nossa própria vida... quase
impossível.

Certo dia Deus mesmo chegou para um amigo seu e lhe


pediu algo: seu filho, Isaque. Nada mais do que a promessa de
Deus para seu amigo Abraão era agora lhe pedido como
sacrifício, algo a ser morto. Os dias, anos de alegria de Abraão
ao ver Isaque crescendo, tomando forma, jeito de gente... os
dias a brincar correndo atrás de ovelhas, a voz suave ao ouvido
lhe chamando: “pai”... sonhos... um velho homem de alma
rejuvenescida pela chegada de um filho... e agora a voz amiga
lhe pedindo: Dá-me!

Trevas... medo... tristeza.... solidão... angústias de um


coração que vê o sonho se transformar em pesadelo...e lá vai
ele... com outro sonho... o sonho da ressurreição.. vida que
nasce da morte... presente que brota da entrega... esperança
que brota da ausência dela mesma.
Bem, o final dessa história vocês conhecem bem... Mas,
onde quero chegar afinal? Repito propositadamente o primeiro
parágrafo: Entregar algo que nos é caro sempre foi difícil. Dar
algo que, ao nosso entender, é tão bom, nos faz tão bem, nos
enleva, nos alegra e saber que isso nunca mais será nosso é
mais difícil ainda. Entregar então algo que é a nossa própria
vida... quase impossível.

Deus talvez esteja pedindo a muitos de nós o nosso


Isaque... mas o que é o “nosso Isaque”? Vou aventurar-me a
uma aplicação livre do texto (não me chamem de herege, hehe),
correrei com prazer esse risco.

Em primeiro lugar o nosso “Isaque” é tudo aquilo que é


nascido da carne, como um filho... gerado do nosso interior,
ganha forma e vida dentro de nós e depois brota... rompe
nossas entranhas e nos faz ter a maravilhosa sensação do filho
gerado. Como assim? Não estou falando aqui de obras da carne,
mas de frutos naturais de nossa existência humana, carnal,
palpável, empírica.

Não quero interpretar Isaque como as obras da carne


conhecidas, lascívia, prostituição, bebedices, etc... não, não é
isso! Isaque é aquilo em nós que é bom, que nos dá prazer, as
vezes até mesmo vem de Deus (um dom, um talento), aquilo em
nós que de vez em quando nos faz olhar e pensar: “nossa, como
isso é bom em mim!”; “como meu “filho”é bonito!”

Porque entregar o que é ruim, aquilo que nos consome de


mal, aquilo que nos afronta a alma, que nos amargura... é fácil,
difícil mesmo é entregar aquilo que nos é bom, aquilo que as
pessoas mais admiram em nós e reconhecermos que isso não é
nada, e mais uma vez volto a repetir:

Entregar algo que nos é caro sempre foi difícil. Dar algo
que, ao nosso entender, é tão bom, nos faz tão bem, nos enleva,
nos alegra e saber que isso nunca mais será nosso é mais difícil
ainda. Entregar então algo que é a nossa própria vida... quase
impossível.

Mas... por que estou escrevendo isso tudo? Simples...


Nunca seremos nada antes de entregarmos TUDO nas mãos
daquele que é tudo em nós (ou pelo menos, deveria ser). Nossos
talentos, nossos estudos, nosso conhecimento de nada valem se
não estiverem no altar, prontos para serem sacrificados,
pronto para serem dilacerados pelo cutelo da mão divina para
que haja ressurreição neles... para que haja vida!

Confesso estar um pouco cansado dos livros, do


conhecimento, sem que isso resulte em vida... Este texto não é
só para os outros... é para mim também... na tentativa de me
instruir a colocar o meu Isaque sobre o lenho e deixar que fogo
o consuma totalmente.

Mas... na história real Isaque não foi sacrificado, vocês


podem estar perguntando. Exato... um cordeiro foi sacrificado
no lugar dele...e o que isso tem a ver?

Mudemos de cenário... ao invés do Monte Moriá


caminhemos para o Monte do Calvário... ali um outro lenho é
levantado e um outro cordeiro sacrificado. Fim dos sacrifícios?
Sim, mas começo da cruz, onde nos gloriaremos sempre.

Sacrificar o nosso Isaque hoje significa bem mais que


leva-lo ao alto de um monte para ser sacrificado... antes,
significa lançar sobre o crucificado aquilo que somos e
experimentarmos a ressurreição que vem dele. Significa lançar
sobre ele nossos dons, talentos, conhecimentos, tudo aquilo de
que podemos nos gloriar... para que sejam mortos com ele...e
ressuscitem com ele... novos, limpos, prontos para serem
usados como instrumentos de louvor... sacrifícios de louvor...
isso é entregar o Isaque... isso é “gloriar-se na cruz”.

Ao fazermos isso, sentiremos com certeza nova vida


pululando em nossas atitudes, sentiremos que fazer a obra de
Deus crescer é antes de tudo, crescer em Deus para fazer sua
obra... é crucificarmos com Cristo não só nossos entraves, pois
como já disse, isso é fácil... queremos nos livrar deles, mas
difícil mesmo é lançar sobre a cruz (e sobre o crucificado)
aquilo que é BOM em nós, aquilo de que poderíamos nos encher,
pois acaba aí nossa glória, nosso engrandecimento tolo de
acharmos que somos alguma coisa sem aquele que foi lançado
perfeito sobre a cruz. “Sem mim, nada podeis fazer” disse
ELE... que não queiramos ser tolos o suficiente para tentarmos
fazer a obra DELE sem ELE.

Pra terminar...

Entregar algo que nos é caro sempre foi difícil. Dar algo
que, ao nosso entender, é tão bom, nos faz tão bem, nos enleva,
nos alegra e saber que isso nunca mais será nosso é mais difícil
ainda. Entregar então algo que é a nossa própria vida... quase
impossível.

Mas... para Deus não haverá impossíveis!


Minha Mensagem de Natal

Há muito tempo atrás um poeta decidiu escrever sua


obra. Poetas são seres mágicos, suas palavras têm o poder de
criar mundos. Basta que digam e as coisas acontecem, surgem
do nada, ex nihilo, desejos que se transformam em coisas.

Esse poeta criou mundos assim, pela sua palavra. Bastava


dizer e as coisas vinham à existência. Era característica dele o
gosto pela criação, e sempre ao final de cada criação ele via
que tudo aquilo era bom... e seguia adiante... criando coisas, até
que decidiu encerrar a sua criação. Era hora de escrever a sua
obra prima, sua grande ária da magnífica ópera que começava a
existir.

Havia um cuidado especial para a criação de seu mais


grandioso poema, não bastariam as palavras ao vento, Ele as
queria escrever com as próprias mãos, seria diferente, ao invés
de simples palavras, barro... e então a obra foi feita, imagem e
semelhança dEle. O grande poeta então, ao ver sua obra ali,
como ele queria, soprou sobre ela... e a poesia ganhou vida,
ganhou palavras novas, ganhou o sopro do criador... inspiração...
expiração... vento...
Mais tarde, ao contemplar sua magnífica obra percebeu
um ar de tristeza na sua poesia, faltava-lhe algo, faltava-lhe
rima, algo que o completasse inteiramente... havia um vazio em
meio a algumas linhas e o poeta fez com que sua poesia
dormisse, e sonhasse... nos sonhos os mundos também se
criam...

Ao acordar de seu sono o poema se viu completo, as


palavras agora se encaixavam perfeitamente, e havia
sentimentos novos... desejo... amor... coisas que só um poeta
entende, e sua poesia também. E assim conviviam bem, poeta e
poesia, autor e obra, e da criação passou-se à nomeação das
coisas, palavras novas, imaginação, imagem em ação, nomes,
palavras, seres... vidas...

Até que um dia um cientista resolveu aparecer para


complicar a história. Cientistas detestam poetas e odeiam
poesias. Afinal, cientistas são conhecedores do bem e do mal...
então o cientista resolveu oferecer ao poema a “grande
chance” de deixar de ser poesia e tornar-se uma grande tese
acadêmica, afinal a poesia é para os sonhadores, loucos,
boêmios, amantes, mas as teses científicas é que dominam o
“mercado” e nos dão garantia de sermos deuses, conhecedores
de todo o bem e todo o mal.
A poesia cedeu sua beleza e encanto à praticidade do
texto científico... houve um borrão no poema original, que
perdeu sua essência... tornou-se um texto chato, cansativo,
longo demais... textos desses que ninguém consegue entender,
dizem até que num determinado momento tal era a confusão
que a tese se dividiu em línguas diferentes, nem ela mesmo se
entendia... babel... confusão...

Algo deveria ser feito para se reconquistar a poesia


original... mas... o que? Um poema como o original, algo tão belo
que, ao morrer poesia (e toda poesia traz em si um pouco de
morte) apagasse as manchas do primeiro poema e restaurasse
a beleza que havia escondida sob os borrões das teses
cientificas, sob o conhecimento do bem e do mal.

Os filósofos, amigos dos poetas, chamavam o criador de


poemas de Verbo, verbo é a alma do poema, poemas sem verbos
são chatos. Imagine um poema sem amar, sentir, chorar,
sonhar, ver, ouvir, tocar, cheirar, sofrer...

Pois o verbo... se fez carne... o poeta se fez poesia, e


mais...se fez criança. Crianças e poesias tem muito em comum...
não se levam a sério demais. Brincam com a vida, brindam a
vida. Como diria o poeta Rubem Alves: “O natal é um poema.
Nele Deus se revela como criança (...) Prefiro o Deus criança.
No colo de um Deus criança, eu posso dormir tranqüilo.”
Isto é natal! Poesia, amor, canção... tudo embalado e
regido por uma criança... deixai vir a mim os pequeninos porque
dos tais é o reino da poesia. Deus é o poeta... nós somos o
poema... Jesus é o poeta-poema feito criança... natal!

Já quis muito ser teólogo... hoje não quero mais.... quero


ser poeta. Um teólogo vê uma criança e trata de elaborar uma
tese, talvez sobre a soteriologia infantil, pedobatismo, idade
da razão, etc. O poeta vê uma criança e brinca, faz poesia, e a
criança brinca com ele, vira poema! Viva a poesia! Que o natal
seja o renascimento de poetas e poemas, de canções de amor,
de sonhos, de jardins repletos de felicidade...

Que o poeta seja reverenciado, que o poema-criança seja


amado, e que o poeta que se fez poesia seja lembrado como o
criador dos versos mais maravilhosos que ele já fez, mudando
de vez a história... mudando a nossa história...

Feliz Natal!
Meu Salmo 139 –
A Oração da Minha Vida

Senhor, não há nada em mim que tu não saibas, tu me


conheces como ninguém, sabes exatamente quem sou eu, e
ainda assim me amas.

Tu sabes quando eu me sento porque cansei de caminhar


e sabes quando me levanto para fazer o mal ou o bem, pois
conheces o meu pensamento. Tu conheces as minhas intenções,
nem isso consigo esconder de ti.

Sabes quando o meu trabalho é honesto e quando o meu


descanso é merecido. Todo o meu caminhar é conhecido por ti,
cada passo meu te é revelado, nada te é oculto quanto ao meu
caminho.

Antes mesmo que eu fale, tu já conheces meu pensar,


portanto ainda que o que eu fale não seja realmente a
expressão do que sinto, diante de ti está exposta minha
hipocrisia, o meu falar falso. Tu sabes exatamente quando
aquilo que eu falo é realmente aquilo que penso. Quando digo
que tudo está bem e não está, tu conheces meu sofrer e minha
falsidade em querer dizer aquilo que não sou.
Tu me cercas em todo o meu viver, tudo o que está atrás
de mim, meu passado, tu conheces... e mesmo assim és Senhor
do meu passado, tudo o que fiz e que está em lugares que eu
fiz questão de esconder, tu sabes e insistes em caminhar
comigo, Tu não desistes de mim por causa do meu passado. O
que está lá na frente Tu também já o conhece, sabes meu
futuro e por mais que eu erre no caminhar, sabes também que
meu futuro é teu, tu me cuidaste no passado e me cuidarás no
futuro.

Como se não bastasse teres cuidado de mim no antes e a


certeza de que estarás comigo no depois, tu me cercas HOJE,
por cima, tua mão está sobre mim hoje, com amor, me guiando
os passos, acertando o meu caminho quando desvio e mostrando
a Tua presença constante em meu caminho.

Tal conhecimento me deixa sem palavras. Nem sei o que


dizer diante de Teu cuidado e carinho para comigo. É tão
grande o Teu amor que não consigo alcançar esse conhecimento
e essa profundidade.

Mesmo se eu quisesse escapar do teu Espírito, como um


menino fujão, eu não conseguiria. Para onde eu conseguiria ir
sem que lá Tu não estivesses?

Se em minha altivez, eu quiser subir aos céus, pensando


que sou muito bom, Tu estarias acima de mim e me mostrarias
minha total insensatez em querer ser mais do que sou. Mas se
em outro momento eu descesse a mais profunda treva,
sentindo que sou o resto dos restos, que não há solução para o
meu pecado que está entranhado em mim me fazendo descer
mais e mais, ainda ali tu estarias me dizendo que tudo aquilo foi
sofrido e exposto em Teu filho, ao levar sobre Ele todas as
minhas transgressões, e me mostrarias que há perdão em ti
mesmo quando minha alma parece padecer sob as hostes cruéis
do inferno.

Se eu voasse logo ao nascer do sol, e de forma poética


tomasse as asas da alvorada e conhecesse a imensidão do mar,
Tu me mostrarias teu amor de poeta e a tua grandeza em
cercar-me até lá e encantar-me-ia com tuas doces palavras e
teu feitos maravilhosos e eu haveria de declarar: “do Senhor é
a terra e sua plenitude”.

Mesmo se eu insistisse em andar nas trevas, como menino


teimoso e visse toda a luz se escurecer ao meu redor, tu
invadirias as trevas e me ensinarias que diante de ti tudo é
claro como sol de meio-dia, pois Tu és a própria luz e espantas
toda escuridão ao simples anunciar de Tua luminosa presença.

Tu conheces o mais profundo do meu ser, simplesmente


porque tudo tu mesmo criastes com teu profundo amor. Todo o
meu ser te é visível, não há nada que te seja oculto, pois desde
o ventre da minha mãe, quando eu nem falava, nem pensava,
nem mesmo tinha escolhas, tu já me escolhestes, os meus dias
todos estavam diante de ti. Eu era um simples espermatozóide
fecundando um óvulo e tu já me conhecias todo. Isso é
maravilhoso demais, saber que quando ninguém sabia como eu
seria tu formavas os meus ossos, mesmo quando não havia as
ultra-sonografias tu já ouvias o meu clamor de substância
informe, preparado para a Tua glória. Em Teu livro já havia o
registro de meus dias antes mesmo que eu fosse, pois TU ÉS,e
o que eu sou, sou em Ti, e se eu não for em Ti, de nada vale
minha existência.

Teus pensamentos são realmente muito mais altos que os


meus. Não me atrevo a querer conhecê-los, simplesmente me
calo diante de tua grandeza e majestade. Se eu quisesse somar
os teus pensamentos seria um tolo, são grandes demais. Se eu
tentasse contá-los, certamente eu dormiria contando e
acordaria junto de ti na eternidade, sem que os terminasse de
contar. Nem a eternidade me daria tempo para conhecer teus
pensamentos todos.

Senhor, como não há possibilidade de esconder nada de


Ti, tu sabes o ódio que sinto de meus adversários e o meu
desejo de vê-los destruídos por Tua mão. Sinto raiva por Eles
duvidarem do teu poder em minha vida. Quando duvidam da
restauração que fazes em mim, na verdade duvidam de Ti, não
de mim, e isso é que me deixa furioso. Tenho raiva deles,
considero-os como inimigos mortais, pois eles desejam que eu
caia novamente para zombarem de mim, mas no fundo zombam
de Ti, Senhor.

Ah! Tu me conheces, Senhor! Portanto vem e prova-me,


endireita os meus caminhos tortos, aplaca a minha ira, não
deixe que o sol se ponha sobre ela. Senhor, como nada te é
oculto em mim limpa-me dos meus erros, vê aquilo que te
ofende ( e eu sei que são muitas coisas) e me purifica. Tu sabes
o meu desejo de andar de forma digna do Teu nome, que não
quero sujar o Teu nome em minha vida, não quero ao dizer que
sou cristão fazer com que as pessoas venham a zombar do
Cristo.

Guia-me, Senhor, por teus caminhos tão simples, mas tão


belos. Faz de minha vida poesia aos teus olhos e que os homens
ao vê-la entendam o teu amor e vejam escritas em mim as Tuas
palavras de poeta e a eternidade de teus caminhos.
Antes que caia o véu...

A Bíblia nos relata histórias interessantes. Uma delas


fala de Moisés,e o véu que ele foi obrigado a colocar para que o
povo não se ofuscasse com tamanha glória que brilhava em seu
rosto. Mas o mais interessante do relato não está em Êxodo,
mas sim em 2 Coríntios, quando Paulo nos chama a atenção para
um fato interessantíssimo. Diz o seguinte o texto: “E não
somos como Moisés, que punha um véu sobre a face, para que
os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se
desvanecia.” (2 Cor 3.13)

O que há de interessante nisso? Vamos pensar um pouco...

A ânsia de se esconder que glórias passadas já não


brilham tanto é um dos maiores males da humanidade, e
principalmente em nossas igrejas. Gente que vive do passado,e
como diz o velho adágio: “quem vive de passado é museu”. Gente
que sempre se lembra e faz os outros lembrarem dos
“milhares” que ganhou para Jesus no passado... dos tempos idos
que não voltam mais... e se esquecem de que a vida é hoje... que
é preciso viver cada dia.

Paulo, em mais um de seus grandes momentos diz:


“Esquecendo-me das coisas que para trás ficam, prossigo para
o alvo...” Esquecer-se das coisas passadas, e principalmente
quando são boas não é tarefa fácil. Faz parte da vaidade
humana ser reconhecido por aquilo que já se foi, ou pior, aquilo
que se pensa ter sido. A vaidade humana é perigosa... mexe com
coisas que não estamos acostumados a mexer, mexe com brios,
mexe com emoções, com a alma.

Gente vaidosa é gente mesquinha. Quem precisa se


esconder atrás de um véu, principalmente quando não se tem
mais o que esconder é doente, é gente má. Não má
intencionalmente, mas gente que precisa melhorar... e muito.
Vaidade é ir de encontro ao ser natural, é a legitimação do não
ser, a usurpação deliberada da personalidade humana em prol
de um sentimento mesquinho, tacanho. É a negação do
indivíduo, o detrimento do ser gente, do ser alguém, e mais, o
ser nova criatura, gente que nasceu de novo.

Vaidade das vaidades... tudo é vaidade, já dizia o sábio...


entre os próprios discípulos havia quem queria ser mais do que
era. O pedido da mãe de Tiago e João para que os filhos se
assentassem ao lado do mestre na glória demonstra isso. A luta
por ser o maior, ou o mais bem posicionado é fruto da vaidade
humana, gente que quer o véu, quando esse já não é mais
necessário.
A vaidade de ser o melhor invade nossos arraiais de
forma constrangedora. Pentecostais se valem de ser os mais
espirituais, protestantes históricos gabam-se de seu lastro
histórico, uns valem-se de suas vestimentas, as mais santas,
outros de seu modo de vestir “normal”, afinal não são alienados,
dizem eles. Nessa guerra de vaidades quem perde é o Reino, é
a obra.

Uma música de Guilherme Kerr, diz:

“de onde vem tanta presunção

de ser mais santo de ser capaz

de agradar a Deus, crente nota dez,

superior acima dos fiéis?

Pobre esse entendimento que não vem do céu,

Fraco discernimento, frágil, falso véu...”

É isso mesmo... falso véu... como aquele que Moisés usava.


Já não precisava mais, já não havia mais glória, mas lá estava
ele, de véu, carregando em si mesmo a triste lembrança do que
havia sido e já não era mais. Pobre Moisés... depois de
experimentar coisas grandiosas da parte de Deus, precisar se
esconder atrás de um pedaço de pano, roto, sujo, velho,
tentando esconder um brilho que não existia.
Assim caminhamos muitos de nós, com véus que não
retiramos e nem deixamos que alguém retire, pois como
viveremos sem essa pseudo-glória? Ela nos é vital, sem ela
morremos, deixamos de ser os maiorais. As pessoas nos veriam
como somos realmente, sem máscara, sem véu, sem
“maquiagem”. E é bem melhor fazer isso (deixar que as pessoas
nos vejam como somos) antes, bem antes... muito antes que caia
o véu!
A Síndrome de Vaga-lume

Um bichinho que me fascina é o vaga-lume. Desde cedo


que esse insetinho me deixa boquiaberto... ele tem luz própria!
Quando eu era criança pensava que ele tinha algum motorzinho,
bateria, sei lá... algo desse tipo. Não sou expert no assunto,
portanto não vou explicar o que ocorre para que o vaga-lume ou
pirilampo, como também é conhecido, emita sua luz
fosforescente. Não é essa a minha intenção hoje. Não vou
escrever um texto científico, seria uma catástrofe, conheço
minhas limitações.

O que quero pensar é sobre pessoas que se sentem vaga-


lumes, ou seja, pessoas que pensam ter luz própria. Nesses dias
em que escritores como Paulo Coelho, Lair Ribeiro e outros
fazem tanto sucesso com idéias desse tipo, quero partir na
contra-cultura, ou como diria John Stott (ou Francis
Schaeffer, não me lembro agora), na contra-cultura cristã.

Não é uma crítica à pessoas, mas um alerta. Muitas vezes


somos tentados a pensar que temos luz própria, e o resultado é
sempre desesperador. Eu mesmo já caí várias vezes nessa
tentação, e como fui tolo! Hoje vigio a cada instante para que
não caia. Pensar que nosso conhecimento, ou capacidades dadas
por Deus são um fim em si mesmas é terrível. A Palavra nos diz
que “a soberba precede a ruína, e a altivez de espírito, a
queda.” (Pv 16.18)

Vaga-lumes são lindos, mas gostam do escuro. E andar no


escuro é sempre perigoso. Lembro-me de uma vez em que fui
subir a Pedra do Sino (Montanha mais alta da Serra dos
Órgãos, em Teresópolis-RJ) e destaquei-me do grupo com mais
dois amigos para “chegar mais rápido ao topo. Como estávamos
sem lanterna, confiando somente na luz do luar, erramos o
caminho. Ainda escuro, pensávamos ter alcançado o topo,
quando depois de um tempo olhamos bem acima de nós algumas
luzes... hehe, estávamos enganados, e o grupo do qual nos
destacamos chegou primeiro ao topo. O pior vem agora, pois
quando percebemos isso disparamos para encontrar a turma
que já estava lá. Como era um caminho desconhecido, saímos
pulando por várias pedras, sem ter a noção exata do que
fazíamos. Chegamos lá, dormimos, e no dia seguinte, por
curiosidade, resolvemos ver por onde realmente tínhamos
andado. Foi tenebroso perceber que pulamos precipícios sem
saber... isso mesmo, precipícios! Pulamos de uma pedra para
outra onde não havia “fundo”, ou seja, se tivéssemos
escorregado ali, certamente vocês não estariam recebendo
este mail agora...

O grande problema foi pensar que tínhamos luz própria,


que poderíamos andar sem a ajuda de uma lanterna, uma luz
que nos indicasse o caminho. O conceito bíblico de depravação
total nos mostra isso... não temos luz em nós mesmos e ... “caso
a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!” (Mt
6.23). “Pois outrora, éreis trevas, porém agora, sois luz NO
SENHOR; andai como filhos da luz...” (Ef 5.8)

O querer ter luz própria é uma das maiores tentações


dos nossos dias. Cristãos sinceros têm sido iludidos com essa
idéia. Somos filhos da luz, mas não somos a fonte de luz.
Muitos interpretam o “vós sois a luz do mundo” como se
quisesse dizer que possuímos em nós mesmos luz suficiente
para iluminar o mundo. Não! Não temos! Brilharemos como
reflexo daquele que é verdadeiramente a Luz do mundo, aquele
em quem não há treva alguma, em quem não há nem sombra de
variação ou mudança.

Muitas vezes, como já disse, nossos talentos ou


capacidade nos fazem pensar que somos “muito importantes”
ou até mesmo “imprescindíveis” na obra de Deus. Engano! Deus
é Deus e não divide sua glória com ninguém. Querer tomar para
si a glória que pertence somente a Deus é tolice, é coisa de
criança. Não vale a pena ser pego lutando contra Deus,
sairemos perdendo sempre...

Não permitamos então, irmãos, que sejamos apanhados


com a síndrome de vaga-lume, a idéia de luz própria não condiz
com as Escrituras. Vaga-lumes são vaga-lumes, homens são
homens. Na queiramos ser assim, gente que quer brilhar
sozinha, com luz própria, negando assim a fonte de luz que é o
Deus todo poderoso. Brilhemos sim, mas como espelhos, e
espelhos limpos, “e assim brilhe a vossa luz diante dos homens,
para que vejam as vossa boas obras E GLORIFIQUEM A
VOSSO PAI QUE ESTÁ NO CÉU!” (Mt 5.16)

Esse é o verdadeiro objetivo do nosso brilhar, a


glorificação de Deus!
Poesia
Caminhada

Foi assim...
Quando menos se esperava, a prova.
E tudo ficou meio cinza, nublado...
A vida vem em ondas como o mar,
já dizia Vinícius...
De repente, o inesperado...
Sai da tua terra... da tua parentela...
Lugares desconhecidos, mistérios...
Só a certeza de caminhar
sem saber pra onde, nem como...
Só uma certeza: com quem se vai!

É assim...
Quando a gente menos espera, o chamado.
E a vontade dEle clareia... é manhã...
O choro durou a noite toda... tristeza...
Mas olhando lá na frente... certeza
Qual certeza? Nenhuma... só a incerteza,
ela por si só... a dar medo!
Como ir assim, nessa incerteza
E na fé do incerto... mas na fé?!
Crendo contra a esperança...
Certeza, só da incerteza do caminho
mas da companhia certa
E isso faz toda a diferença...
Será assim...
Quando menos se esperar, o caminho.
E se abrirá, estreito, paciente
Esperando nossos passos... caminhada
E a certeza, qual será? Nenhuma ainda...
Só aguardará a fé que é da jornada
De se andar rumo ao tudo, mas sem nada
Nada que nos faça dar a volta
Retornar ao ponto de partida... não!
O caminho é para a frente... sem ter vista
Sem pesar o peso certo do cansaço
É certeza de encontrar no Seu abraço
O consolo que é preciso no caminho
A certeza da Sua mão sempre estendida
Como certo é Seu amor não escondido
Como é vero o Seu perdão não merecido
Como é viva a Sua vida em nossa vida.

Agora é caminhar...
Amor Ritmado

...E se te amar fosse escândalo


conter-te em mim seria súbito.
Um sentimento nada gélido
louco, intenso, doce e lúdico.
Amar-te assim seria histórico,
deixar-te assim seria histérico,
olhar-te serenamente lânguido...
Sonhar-te em mim num ato cênico
como num texto de Veríssimo,
que te expusesse o lado cômico
e solta, tu te fizesses lúcida.

Quero entoar-te um cântico


e ver meu sentimento público,
sorrir ao vento um riso único
ao ver-te linda e romântica.
Desafiar meu lado cético
e destronar as leis da física:
dois corpos num só como mágica
em um mesmo espaço físico.
Que nosso amor soe qual música
e que desfaça olhares cínicos,
que encha de cor risos pálidos
e que o mundo, perplexo e inválido
a ele se renda, leal e súdito.
Só...

Somente espero tua volta


Sorridente, como na partida
Sorrateira, como é a vida
Só, sobremaneira solta
Sobretudo, te espero linda
Só isso...
Tantos

Tantos absurdos
Tanto ouvido surdo
À doce voz
Tantos falsos mestres
Orgulhos incontestes
A brilharem, sóis.

Tanta falsa unção


Que dói no coração
Ver o engano, o erro
Tanta a devoção
Tamanha adoração
Novos “bezerros”

Deuses travestidos
De apóstolos ungidos
Sedução
Tanta fé frustrada
E no final da estrada
Decepção

Onde estarão as tantas


Outras vozes santas
A falar?
Quais os que, valentes
Irão sem medo, e sempre
Denunciar?
Pois tantos enganados
Caíram, já cansados,
No caminho
Carentes de um abrigo
De um abraço amigo
Sem carinho

Que tantos que têm sede


Encontrem pastos verdes,
Água fresca e o dom
Que jorram da Palavra
Que a terra molha e lavra
E dá frutos bons.
Eu e o Mar

O mar se parece comigo


tranquilamente agitado
como se lá no fundo
algo estivesse em ebulição
o mar é um vulcão
ao invés de lavas, ondas
ao invés de pânico, mistério

Assim sou eu....


O mar esconde nele seus mortos
me identifico com ele
Minh'alma esconde muitas mortes
fantasmas que em mim tem morada
que vivem minhas muitas vidas
e todas elas nesta vida apenas

O mar está revolto


Serenamente revolto
como meu espírito...
cansado, querendo espumar momentos
sentimentos...
O mar é um imenso vazio
só que molhado
Hoje sou diferente dele
igualmente vazio, mas seco
Secam-se-me os ossos
apegam-se-me à alma
estou árido!
Sou um mar deserto!

Queria ter água em mim


esbravejar minhas ondas
A quem quisesse ouvir ou não
Gritar silenciosamente
e tornar-me qual mar
agitado, calmo,
mistério...
Aula na Praia

A menina sentada na praia


Estuda
Quieta, tranqüila e só
Estuda
Entre goles de água e mar
Estuda
Esperando o amor chegar
Estuda
Ao clarão da lua cheia
Estuda
Olhando o mar espumar
Estuda
Batendo o lápis na areia
Estuda
Ah! O mar é mesmo uma sala de aula
Pois aqui estou eu...
Estudando a menina
Que estuda.
Adultério Literário

Alguém me disse que pareço mais velho


Sinceramente acho que sim
Fui envelhecido pelas muitas vidas que vivi
Já fui viajante, religioso,
Revolucionário, músico,
Louco... e até trabalhador.
Hoje sou poeta, faço versos
Uso as palavras
Sou possuído por elas
Tomam-me de assalto
E quando percebo, escrevo
Saem de mim correndo
Para encontrarem seu papel
São como as espumas
Que o mar não consegue esconder,
Brotam, esbravejam, quebram
Tenho um caso de amor com as palavras
Um romance secreto, adultério
São minhas amantes caladas
E me cobram encontros noturnos
Na calada da noite, na praia...
E eu vou, contestando a moral
Ao encontro fugaz dessas doidas
Que me enchem a mente arredia
Fazendo de mim refém
Se não escrevo, maltratam-me
Pois não saem da cabeça

Tenho que escreve-las, me ordenam


Dominam-me, como na cama
Domina a mulher sorrateira
Enlouquecem-me até que de gozo
Chego a explodir muitas delas
Prazer, choro, alívio
Elas já não me aprisionam
Agora me deixam livre...
Livre??
Daqui a pouco começa tudo de novo...
É Vento

Vem sobre nós, doce vento


Vem com alento, vem calmo, lento
Sem demora, atento

Quero vento, quero vento


Quero o tal avivamento
Mas não quero animar vento
Quero o verdadeiro vento
Que venta do dono do vento
Quero a palavra não in-ventada
Quero o vento gostoso da estrada
Que move a poeira, vento amigo
Não o vento do inimigo

Quero a Palavra alimento


E não a palavra "vento"
Quero a Palavra sustento
Não quero acabar em lamento
Ao ver falso avivamento
Sem sombra do vero vento
Vento do Espírito Santo
Vento que embala os santos

Quero o vento, quero o vento


E não só viver de momentos
Pois quem vive só de eventos
No final, de todo, é vento!
Triste
Retrato
Um Sorvete pra Matar a Fome

Era uma tarde quente de domingo. Eu caminhava sozinho


pela Avenida Rio Branco, naquele momento, deserta. Gosto de
caminhar por ali e contemplar a bela arquitetura do centro do
Rio de Janeiro. Aprecio as construções antigas, magníficas,
sobranceiras. Muito da História do Rio de Janeiro e do Brasil
passa por aquela e outras avenidas centrais da Cidade
Maravilhosa. Como sou um apreciador das coisas da história,
quando posso, dou-me o prazer de passar um bom tempo
caminhando por ali.

Como estava muito quente resolvi tomar um sorvete (uma


das minhas paixões proibidas por causa de minhas constantes
faringites) num quiosque de uma famosa rede de Fast-food. De
repente vi que não estava só. Aproximou-se um rapaz e foi logo
me pedindo: “moço, me dá um sorvete... é que eu tô com fome”.
Como eu estava com o dinheiro “contado” para voltar a
Teresópolis, não pude atender o pedido daquele jovem, quase
adulto.

Instantaneamente me pus a pensar: “peraí... a lanchonete


está aberta...se ele realmente estivesse com fome teria me
pedido algo para comer,e não uma “sobremesa”... sorvete não
mata a fome...” e meu pensamento foi parar onde sempre pára
nessas horas em que as coisas inusitadas me acontecem: na
realidade da igreja. Na mesma hora senti que aquele era o
quadro fiel de algumas igrejas que tenho conhecido. Estão
querendo matar a “fome” com “sorvetes”.

Pensei em como a Palavra, verdadeiro alimento que


realmente sacia a fome (nem só de pão viverá o homem, mas de
toda Palavra...), tem sido trocada por meros “sorvetes”
espirituais. Engraçado é que sorvetes geralmente são a
sobremesa preferida das crianças. É difícil conhecer uma
criança que não goste de se lambuzar de sorvete, e mais, elas
são capazes de trocar pratos saborosos e nutritivos por uma
pequena taça dessa guloseima doce e gelada.

Lembrei-me de Paulo dizendo aos Coríntios que gostaria


de lhes dar alimento sólido, mas não podia e tinha que lhes dar
leite, ainda eram meninos na fé, crianças espirituais. Lembrei-
me do mesmo Paulo dizendo que o amor (que é superior a todos
os dons) era coisa pra gente grande, pois quando era menino
fazia as coisas de menino, corria atrás dos dons como se
fossem fins em si mesmos, mas quando descobre que tudo
aquilo não era nada sem amor, ele abandona as coisas de
menino.

Alimentos sólidos... a Palavra... o Amor... coisas tão


distantes da maioria de nossas igrejas e “bimbocas
eclesiásticas”. O interesse pelas coisas que realmente dão
“sustância” à nossa vida parece desaparecer à medida em que
as novidades aparecem e chamam nossa atenção, e desviam
nosso olhar daquilo que realmente é essencial.

“A coisa principal é fazer da coisa principal a coisa


principal.” Ouvi essa frase em um dos sermões do Russell
Shedd em que ele citava um escritor inglês que agora não
lembro o nome. Como isso é verdadeiro! A igreja tem dado
lugar às coisas de menor importância em detrimento daquelas
que são essenciais. A “coisa principal” há tempos deixou de ser
a coisa principal.

Veja nossos congressos, nossos seminários, nossas


cruzadas (detesto essa palavra pois me remete à Idade Média
e as atrocidades feitas em nome de Deus). Em muitos desses
eventos as pessoas nem perceberiam se não houvesse pregação
da Palavra, desde que saíssem de lá sentindo o “mover”, o
“fluir” e a “unção”. Se houver algo para me emocionar, me fazer
chorar, pular, gritar, melhor ainda afinal de contas, segundo um
desses “maravilhosos” e medíocres cânticos a que somos
entregues todo o dia, “o meu corpo é pra pular diante do
Senhor”, ou pior, “faça o melhor... pule... grite...” ... e tome
sorvete pra criançada...
As palavras de Paulo são mais que atuais nesses nossos
dias, são imprescindíveis. “Leite (sorvetes são feitos com leite)
vos dei a beber, não vos dei alimento sólido; porque ainda não
podíeis suportá-lo. Nem ainda agora podeis, porque ainda sois
carnais.” Infelizmente essa ainda é a nossa realidade.

Que Deus nos ajude a amadurecermos, a prosseguirmos


para o alvo, crescendo, até chegarmos à estatura de homem
perfeito, deixando as coisas de criança e nos apegando àquelas
que realmente nos edificam e nos alimentam, e que nunca mais
sejamos crianças pedindo um sorvete pra matar a fome.
Ouçam a Voz do Bêbado!

Era um domingo a noite. Em uma “grande” igreja o


pastor falava sobre o CD que o ministério de louvor estava por
lançar (toda grande igreja hoje tem que ter um CD gravado
pelo ministério de louvor). Foram mais de 20 minutos
conclamando o povo a participar da gravação do CD, afinal era
fundamental a participação de todos na produção daquele
marco da vida daquela igreja. E já se passavam quase meia hora
de anúncios sobre a gravação do CD quando um senhor, tido
por muitos como bêbado, soltou um grito que ecoou pelo templo
e pelos corredores da igreja: “Ô pastor, pára de falar sobre
CD e prega a palavra de Deus!” O pastor pediu que retirassem
aquele senhor... e continuou a falar sobre o CD

O caso acima não é fictício. Infelizmente aconteceu


em uma igreja no interior do Estado do Rio de Janeiro. Eu
estava presente. Ninguém me contou.

O descaso pela Palavra de Deus, e eu já tenho dito


muitas vezes, se tornou o pior dos males trazidos por essas
novas ondas que insistem em entrar em nossos arraiais. As
experiências, as novidades e a música têm tomado o lugar do
ensino coerente das Escrituras e, por conseqüência, de uma
vida sadia à luz da Palavra de Deus. Não que a música não seja
importante. Sou músico. Ouço música o dia inteiro (confesso
que não consigo ouvir muito as músicas “evangélicas”) e sei de
sua importância na vida da igreja, mas nunca em detrimento da
Palavra.

O bêbado tinha razão naquela noite. O afã de ter o


nome da igreja entre aquelas que já tem CDs gravados, como se
isso fosse fator determinante de sucesso em ministério, fez
com que aquela igreja esquecesse da pregação das Sagradas
Escrituras e mergulhasse na busca de reconhecimento externo
de um ministério falido internamente pelo esquecimento do
alimento principal, pois nem só de pão, circo eclesiástico e CDs
vive o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de
Deus.

A música deixou de ser um meio para ser um fim em si


mesma. Hoje o principal não é se a música tem conteúdo
bíblico, se ela aponta para uma realidade exterior a ela mesma,
mas se ela encerra em si o produto final daquilo a que se
propõe: entretenimento e emocionalismo. Daí as incansáveis
repetições-mantras a que somos submetidos ou ao palavrório
extático-sentimental dos “levitas” que em seus jargões
decorados querem levar o povo a uma catarse coletiva de suas
frustrações por seu cristianismo raso.
A música não existe mais como elemento mediatório
(no sentido de ser meio), educacional ou até mesmo existencial
equilibrado. Ao invés da música nos enlevar a Deus ou ao
conhecimento de suas verdades (há uma função didática na
música), ela nos enleva ao seu próprio mover, o da música. Não
é de se espantar que muitas de nossas produções são
extremamente parecidas com as músicas hoje conhecidas como
“New Age”. São músicas que nos enlevam em si mesmas, sem a
necessidade de que nossa mente funcione, anulando qualquer
espécie de culto racional e nos levando a uma espécie de
“estado alfa” onde após isso qualquer coisa que se fale toma
ares de verdade absoluta, pois a mente já deixou de trabalhar
e se rende à manipulação mau-caráter dos líderes sem-caráter
do povo “evangélico”.

Ao invés de declarar a glória de Deus ou ensinar


verdades acerca de Deus e do próximo, nos levam à repetição
infinda de fórmulas insanas, sem pé nem cabeça, chamadas
covardemente de “cânticos espontâneos”, ou como preferem
alguns, “cânticos novos”. A pergunta é: como entoar cânticos
novos, espirituais e verdadeiros se já não há mais
conhecimento naquilo que se canta? Nem conhecimento
humano, racional, nem conhecimento bíblico,e aí estamos
entregues às heresias e descaminhos dessa trupe de “levitas”.
Não sou radical, como muitos querem. Gosto de
cânticos alegres, de aplaudir ao Senhor, de levantar as mãos,
gosto de ritmos variados (sou brasileiro, quero louvar a Deus
com samba, baião, chorinho, e essa mistura sonora que nos é
peculiar), mas não abro mão de que meu louvor seja
verdadeiramente espiritual e espiritualmente verdadeiro. Que
eu cante com o espírito sim, mas também com meu
entendimento e que a música ocupe o seu lugar, sempre inferior
à Palavra de Deus.

Parem de falar de CDs e falem da Palavra. Ouçam a


voz do bêbado! Ele teve mais conhecimento e discernimento da
verdade que muitos pastores e “levitas” por aí...
Scooby-Doo, a Igreja
e o Baú de Olhos

Assisti há algum tempo ao Scooby-doo, o Filme (o


primeiro). Como filme, é mediano. Como reconstrução de um
dos desenhos que eu mais gostava de assistir quando criança,
um fracasso.

A história (?) do filme se passa em uma ilha, onde


adolescentes e jovens estavam tendo suas "almas" roubadas e
depositadas em um grande caldeirão, onde depois de uma
mistura mágica seriam todas (as almas) encerradas em um
único ser, que passaria a ser o grande controlador daqueles
jovens.

Os jovens e adolescentes que "perdiam" suas almas


andavam pela ilha como robôs, sem vontade própria, fazendo a
vontade daquele que mantinha suas almas presas no caldeirão.
Seria uma bela alusão ao diabo, não? Mas eu acho que tem mais
a ver com a igreja de hoje... infelizmente. Muitas igrejas hoje
(quando digo igreja, digo instituição, organização, não
organismo) não roubam almas, roubam olhos, os nossos olhos.

Somos dia a dia roubados de nossa maneira de ver as


coisas para vermos então com o único olho que nos é imposto
pela instituição. Tornamo-nos cíclopes (aqueles monstros
mitológicos com um grande olho na testa) espirituais, forçados
a só vermos o mundo de uma forma, a forma que a igreja quer
que vejamos e em uma direção, a direção traçada pela mesma.

É lamentável vermos (ainda vemos?) que qualquer um que


se levante com uma visão diferente daquela "dada por Deus à
liderança" logo é execrado do meio em que está e taxado de
"herege", "carnal" (a inquisição psicológica é pior que a física).

Tenho pra mim que em muitas igrejas deve haver um


quartinho nos fundos, onde bem enterrado se encontra um
enorme baú, o baú dos olhos... dos nossos olhos. Ninguém deve
ter acesso a esse baú, a não ser que seja para depositar ali
novos olhos e fechá-lo novamente, hermeticamente,
fortemente, porque a abertura prolongada desse baú pode
fazer com que os olhos queiram voltar pros seus donos... isso
seria uma tragédia.

O baú dos olhos faz parte do "kit" de grande "líderes".


Gente inquestionável... ungidos do senhor (assim mesmo, com
"s" minúsculo)... super astros... novos apóstolos... senhores de
nós... servos de si mesmos...

Com nossos olhos roubados e bem guardados no enorme


baú, a manipulação e a alienação são simplesmente
conseqüências... nem é preciso tanto esforço. Gente sem olho
não vê, e por mais que tente ver, não enxerga. O pior cego não
é aquele que não quer ver. O pior cego é aquele que não tem
olhos!

O pior dos donos do baú de olhos é que, como já disse


antes, nos implantam um outro olho no meio da testa
(engraçado, mas me faz lembrar da marca da besta na fronte...
quem sabe, né?). Passamos a ver como eles. Minto! Não vemos
como eles... eles são mais espertos... passamos a ver o que eles
querem que vejamos. Se víssemos o que eles vêem veríamos o
nosso próprio engano e veríamos a mágica arca, não a da
aliança, mas a da alienação, escondida nos fundos dos mega-
templos dos megalomaníacos senhores.

O olho que nos é imposto na testa representa toda a


dominação sobre nossos pensamentos e atitudes. A Bíblia diz
que os nossos olhos são as janelas do corpo. Se nossos olhos
forem bons todo o corpo será. Com olhos roubados temos
corpos roubados, pois nossos corpos agora são dominados por
olhos de outros e passam a manifestar somente o que aquele
grande olho vê. Lei... regras... inquisições... Os corpos agora
deixam de ser vida para serem morte. Nossos corpos vivem sob
a lei do grande olho... do Big Brother eva-angelical... cíclopes
perdidos... sem direção... porque quem tem um olho só só anda
em uma direção, não vê saídas, oportunidades.
Certa vez li num livro de Rubem Alves que se alguém só
possui uma flauta, está condenado a tocar nela todas as
melodias que conhece. Quem tem um olho só está fadado a
enxergar apenas uma estrada...e pode ser a trilha errada.

Nunca fui muito com a cara de quem tem sempre a mesma


resposta pra qualquer que seja o problema. Parece aquela
"pomada de peixe elétrico" que via os camelôs vendendo na
estação das barcas de Niterói: aquilo "cura" artrite, artrose,
bico-de-papagaio, frieira, hemorróidas, machucados em geral,
inflamações, lombalgias, e outras coisas mais. Mas é mais fácil
comprar a "pomada de peixe elétrico" do que ter que correr
atrás da verdade e daquilo que realmente é a cura para o meu
problema particular, diferente dos problemas de outros.

Os donos dos olhos têm sempre respostas prontas... são


reivindicações, ordenanças, profecias, profetadas, "orações
ungidas", visões, revelações novas (mais velhas que minha avó),
etc. Gente assim me faz mal... sinto-as olhando para os meus
olhos como olham para um demônio e pensando... temos que
arrancá-lo. O exorcismo dos olhos de quem vê é a única arma
dos donos dos baús de olhos. Olhos diferentes os amedrontam.

Finalmente, volto ao Scooby-doo. No fim de toda história


dos aventureiros da "Máquina de Mistérios" havia a revelação
surpreendente: Não eram fantasmas, nem demônios que
estavam aterrorizando as pessoas. Eram sempre homens.
Homens se disfarçavam de demônios e fantasmas para
conseguirem seus intentos. Nas igrejas é diferente, o disfarce
é outro, são anjos e seres espirituais que ordenam a entrega
dos olhos. Os olhos, dizem eles, são maus. "Dêem- nos seus
olhos e lhes daremos um modo novo de ver a vida"... e ao
entregarem seus olhos, pessoas entregam seus corpos... para o
serviço dos senhores de um olho só.

Que Deus, que tudo vê, Senhor verdadeiro dos olhos de


quem o contemplam, possa livrar-nos da barganha de homens
maus e jamais permitir que estejamos com os nossos olhos
presos nos imensos baús de olhos enterrados em algum lugar
dos grandes "reinos deste mundo".

Quem tem olhos... veja...


Panis et Circenses... et Cultus

A antiga expressão latina, até hoje utilizada, e inclusive


musicada por Caetano e Gil, diz que se o povo tiver pão e circo
(panis et circenses) tudo estará bem. Não importa se a vida
política, religiosa, ética estão capengas, claudicantes... desde
que haja um pouco de alimento e riso tudo estará bem.

Nos nossos dias, e vendo a igreja evangélica atravessando


mares já antes navegados (nenhuma heresia é nova) e que
causaram naufrágios terríveis, essa expressão me veio à
mente, e decidi acrescentar um outro aspecto: culto (cultus).

Quero interpretar como cultus tudo aquilo que faz parte


do enorme circo gospel, recheado de momentos extáticos (de
êxtase), tudo que se refere ao sentimento, ou melhor, à enfase
dada aos sentimentos.

Vivemos a era dos mega-eventos, shows, cultos lotados de


pessoas vazias, não vazias de fé (é bom deixar isso bem claro),
mas vazias de conteúdo, o que me faz lembrar do texto
sagrado, quando Paulo afirma: “Porque lhes dou testemunho de
que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento” .
Note bem, não estou querendo julgar a intenção. Essas pessoas
tem zelo, são sinceras, fiéis, crentes mesmo, salvas, mas sem
entendimento. Vão atrás das emoções, sentimentos.

É bom deixar bem claro também que não sou contra as


atitudes emotivas, as experiências extáticas, gosto de um
louvor alegre, de erguer minhas mãos em adoração, fechar os
olhos, adorar em espírito e em verdade, mas não posso fazer
de minha experiência a regra, pois o problema maior está aí: a
experiência como regra.

Muita gente acha que o que vale é o que você está


sentindo. Conheço um rapaz, ex-membro de uma Igreja
Batista, que inclusive pregava na ausência do pastor, etc. que
agora é Mórmon, e você quer saber por que? Simplesmente
porque ele SENTIU (é assim que os mórmons explicam suas
experiências) algo novo, diferente. Esse rapaz se deixava levar
pelo sentimento, e não pela Palavra, que é base sólida para
qualquer que nela busque a verdade.

“Enganoso é o coração...” “Santifica-os na verdade, a Tua


Palavra é a VERDADE”. Há duas opções : coração, sentimento,
experiência ou Palavra, verdade, solidez. E muita gente tem
escolhido a primeira. O que importa hoje não é a verdade
escrita, é a verdade entendida. Criaram até uma história de
palavra logos e palavra rhema, o que é inexistente numa
exegese simples do texto grego.
A argumentação da igreja hoje é fraca. Baseia-se no que
se sente e quando o argumento é baseado no que se sente, se o
oponente (não no sentido bélico) tiver a mesma argumentação
estamos “fritos”. Recentemente passei por uma experiência
interessante ao estar evangelizando com um grupo da Igreja
Metodista do Jardim Botânico, na Avenida Atlântica
(Copacabana - Rio de Janeiro), point de prostitutas, travestis,
etc., numa madrugada encontramos um rapaz que contou sua
experiência: largou as drogas e a vida pesada que levava após
entrar para o ESPIRITISMO. Se nossa argumentação
estivesse na base dos sentimentos, o que diríamos: amém?

Ontem mesmo recebi um e-mail de um irmão que fazia


críticas a um texto meu, e sua argumentação era que
determinada igreja, da qual ele faz parte, e que tem o
ministério “levítico” tinha reunido recentemente 210 mil
pessoas num estádio. Respondi-lhe tacitamente que o Padre
Marcelo reuniu 650 mil pessoas no Aterro do Flamengo, que o
Círio de Nazaré (maior procissão católica do mundo) realizado
em Belém do Pará, reuniu 2.000.000 (isso mesmo: dois milhões)
de fiéis diante de uma imagem. Minha pergunta: Esse fato
legitimiza a idolatria? Lógico que não. Uma regra básica de
argumentação é que o mesmo tipo de argumento aniquila o
outro, logo se o número de pessoas que a igreja do amado irmão
reuniu foi de 210 mil, e ele se utilizou desse argumento para
defender seu ponto de vista, logo o maior número de pessoas
nos eventos católicos daria a estes a supremacia do argumento.
Cuidado então com os argumentos.

Nossa pregação e nossa vida devem estar pautadas na


Palavra, ela é inerrante. Se os meus sentimentos me dizem algo
e a Palavra diz outra coisa, fico com a Palavra.

SOLA SCRIPTURA, esse era um dos gritos da Igreja


Reformada.
Os Três Porquinhos e a
Teologia da Prosperidade!

Suinolândia era uma cidade pacata. Apesar do fato de que


a maioria esmagadora dos habitantes da cidade eram porcos,
era uma cidade limpa, tranqüila, que nos últimos tempos andava
em polvorosa, era que se achava por aquelas bandas o terrível
Lobo Mau, personagem conhecido das lendas de muitos povos,
mas nunca antes visto por aqueles ingênuos porquinhos.

A cidade ultimamente andava meio estranha mesmo, o


novo Prefeito, Sr. Je-suíno, evangélico que era (como a maioria
dos porquinhos da cidade), já havia feito suas primeiras
participações na vida “política” da cidade, e participações
“importantíssimas”, todas recomendadas pelo seu Pastor, ou
melhor, Apóstolo, o Reverendíssimo Sr. Renê Porcalhão: Trocou
o nome da cidade, que antes se chamava Nossa Senhora dos
Porquinhos Aflitos; colocou em letras garrafais na bandeira da
cidade a frase “Suinolândia é do Senhor Jesus, Povo de Deus,
declare isso”, fez uma cerimônia de purificação do Palácio do
Governo, expulsando assim os “demônios territoriais” que ali
estavam alojados, e ainda ungiu com óleo todos os seus
Ministros e Secretários (todos membros de sua Igreja, é
claro). A cidade nunca mais seria a mesma depois de todos
estes atos realmente significativos e transformadores da
realidade local. Coisa de porco, né?!

Havia nessa cidade três porquinhos irmãos muito


interessantes. Os três eram evangélicos também, apesar de
reunirem-se em Igrejas bem diferentes.

O primeiro, mais novo, havia recentemente perdido todos


os seus bens. Um assaltante (esse sim, um porco de verdade)
havia lhe roubado tudo o que tinha, todos os seus pertences, só
lhe restou a pobre casa de palha, e a fé de que dias melhores
viriam.

O segundo, depois de abandonar a Má-suinaria, perdeu o


emprego, não conseguiu mais nada, e vivia de “bicos” em sua
pobre casinha de madeira.

O terceiro, diferente de todos, era rico, afinal de contas,


como ele mesmo dizia, ele era “Filho do Rei”. Membro da igreja
do Apóstolo René Porcalhão, trabalhava também na Prefeitura,
e era Secretário de Fazenda do Município. Tinha uma vida meio
dúbia, pois todos sabiam que ele “metia a pata” no dinheiro
público, seus bens não conferiam muito com o que ganhava
como funcionário da PMS (Prefeitura Municipal de
Suinolândia), mas sabia se esconder como ninguém atrás de sua
capa evangélica. Sua casa, diferente das casas dos irmãos, era
muito grande, feita de tijolo, com várias dependências. Tinha
uma vida boa, pra porco nenhum botar defeito.

Com a notícia de que o Lobo Mau andava pela cidade,


havia um certo ar de Batalha na cidade. Os fiéis do Rev.
Porcalhão já haviam dado sete voltas em volta da cidade,
amarrando o Lobo Mau, mandando-o para o abismo e coisas
desse tipo, mas acho que a corda era fraca, pois toda semana
repetiam o ato. E não era só contra o Lobo, mas contra seus
lobinhos também: o lobinho da fome, lobinho da miséria, lobinho
do medo, lobinho da dor-de-cabeça, enfim parecia haver tantos
lobinhos que não sei como achavam tantos nomes.

Certo dia, o Lobo Mau em pessoa resolveu aparecer, e foi


direto na casa do primeiro porquinho. Ao chegar, viu-o orando e
como não conseguia tocar-lhe soprou forte sobre a casa de
palha, e esta se espalhou ao vento, revelando a todos na cidade
o grande poder do Lobo, mas também o fato notório de que ele
não podia, sequer, tocar naquele porquinho.

Saindo dali, o malvado Lobo, parou em frente a casa do


segundo porquinho, uma casa simples de madeira, mas vazia. O
porquinho havia saído para mais um “bico”. Com muita raiva,
destruiu toda a casa deixando-a em escombros, para tristeza
do porquinho que chegou logo depois, e só teve como consolo
orar.... e recebeu consolo.
Logo depois, o famigerado Lobo Mau deparou-se com uma
mansão enorme, dessas de filme, com chafariz, piscina, carros
na garagem, e pensou: é agora que eu me faço!

Ao ver o Lobo no portão de sua casa, o terceiro porquinho


não hesitou: foi para fora e com dedo em riste disse: - Lobo
Mau, eu te amarro e ordeno que me digas toda a verdade em
nome de Jesus.

O Lobo, percebendo o modo de pensar do porquinho,


resolveu não destruí-lo, era melhor conversar. O porquinho
pensava que porque dizia a frase mágica “em nome de Jesus”, o
Lobo seria obrigado a responder-lhe realmente a verdade.
Coitado! Não sabia que o Lobo tentou enganar até o próprio
Senhor Jesus. O porquinho lhe perguntava sobre sua hierarquia
Lobal, como se organizavam, áreas de atuação de cada lobinho,
como eram os nomes deles realmente. E, malandro como era, o
Lobo entrou na dança. Respondia tudo como lhe era agradável,
satisfazendo o desejo incontrolável do porquinho em saber
detalhes da vida de Lobo.

Logo, chegaram vários outros porquinhos da cidade,


sabedores da visita do Lobo ao porquinho mais velho. Multidões
queriam ouvir o Lobo falar, ouvir o Lobo é melhor que ouvir o
Cordeiro.
Sem que o porquinho percebesse, o Lobo já estava
sentado em sua grande sala, com todo o conforto, com toda a
pompa, ocupando lugar de destaque em sua casa.

A febre tomou conta da cidade. O porquinho mais velho


resolveu, através de suas conversas publicar dois grandes
livros, que logo se tornaram os mais vendidos nas livrarias ditas
evangélicas: “A Divina Revelação do Lobo Mau” e “Ele Veio Para
Devorar os Porquinhos”.

Ganhar dinheiro com as revelações do Lobo Mau era um


grande negócio, pois ninguém mais queria ler as Palavras do
Cordeiro, palavras mansas, denunciativas, coisas que não
interessavam muito a porquinhos ocupados com o grande Lobo
Mau.

Em tempo: os outros irmãos juntaram-se e construíram


uma outra casa, simples, mas firmada sobre a rocha, e,
humildes, reconheciam em todas aquelas provações, razões
para crescerem em Deus, pois a única coisa que o Lobo não lhes
tinha tirado, renovava a esperança dos mesmos em uma vida
melhor: a FÉ!
Halloween Evangélico -
Doces ou Travessuras?

A expressão não é original. Ouvi-a do irmão Rubem


Amorese, um dos maiores escritores cristãos brasileiros da
atualidade, excelente em abordagens sobre ética cristã e pós-
modernidade. É um autor que eu recomendo a todos vocês.

A idéia da expressão “halloweenica” Trick or Treat


(doces ou travessuras) parece reviver de forma “gospel” na
teologia da prosperidade, ou até mesmo no modo de vida de
alguns crentes. São aqueles que diante de Deus chegam-se
imponentes, dizendo: - ou você me dá um doce ou eu faço uma
travessura. Explicando melhor: são aqueles que só querem as
coisas boas de Deus, boas no sentido mais “narcísico” da
palavra. São aqueles que exigem, reivindicam, ordenam coisas a
Deus, ou tornam-se rabugentos, fazem travessuras, afinal de
contas Deus está obrigado a cumprir nossas ordens, afinal ele
não pode deixar de cumprir suas “promessas”.

O problema maior dessa teologia é que tira Deus do


centro de tudo e coloca o homem, ou seja, é o humanismo
revivido, e com uma capa cristã. Por isso costumo dizer que
nenhuma heresia é nova. Sempre é um reavivar de idéias
passadas que volta com uma roupagem diferente, mas seu
interior cheira a mofo. Tive um professor de sociologia que
dizia que “tudo que é neo é velho”. Não há novidades no campo
das idéias, são idéias antigas revestidas de caras novas. Em
linguagem bíblica, diria que são remendos novos em roupas
velhas, ou vinho novo em odres velhos... e isso nunca foi bom.

Quando temos a visão de Deus como nosso empregado, ou


como alguém pré-disposto a cumprir nossos caprichos, nós
mesmos passamos a ocupar o seu lugar. O “SENHOR” passa a
ser cada um de nós, ele já não serve mais para esse “cargo”,
pois nem sabe o que precisamos, pelo menos é o que eu percebo
dessa gente que vive exigindo as coisas de Deus.

Deus é e sempre será o único Deus, digno de adoração, e


único Senhor, Aquele que não divide a sua glória com ninguém.
Querer tomar para si a glória ou os atributos de Deus é
loucura, insanidade, é querer uma máscara divina.

Máscaras... máscaras são marca registrada dos adeptos


do Halloween, e não é diferente com os defensores do
“halloween evangélico”. Estão sempre com uma máscara de
piedade piegas, um juízo pronto: - Fulano não tem fé... não
enxerga o mundo espiritual... deu brecha... Só eles sãos os
bons, não sofrem, não ficam deprimidos, nem dor nas costas
têm (não estou brincando. O livro “Aprenda a Viver Como Filho
do Rei” diz isso). Ou então vivem naquela lista ilusória do
“Nunca Mais Direi...”, tirado de um dos maiores lixos editoriais
com alcunha evangélica, chamado “Há Poder em Suas Palavras”.

Gente assim vive de máscaras, não reconhece


dificuldades, não aceita passar por tribulações (e perdem a
maravilhosa sensação de perdas de forças nos braços do Pai),
gente assim não vive!

Engraçado, vou terminar com o texto mais usado por essa


gente. Mas quero usa-lo dentro do contexto bíblico. Posso o
quê? Vamos ao texto bíblico em sua inteireza.

“...já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em


que me encontre. Sei passar falta, e sei também ter
abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou
experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome;
tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso
todas as coisas naquele que me fortalece. (Filipenses 4.11-13)

O que vou dizer mais?

Que essa maneira simples de viver a graça, nos fortaleça


na provação.
Jesus não sabia de nada!

Estou decepcionado com Jesus!

Depois de anos de convertido, depois de ter lido a Bíblia


algumas vezes, e principalmente depois de ter lido várias e
várias vezes o Novo Testamento, cheguei à conclusão de que
fui iludido esse tempo todo por um líder que não sabia o que
estava fazendo.

Como poderia alguém que se dizia Filho de Deus não


discernir as coisas espirituais e ensinar tantas coisas erradas?
Como poderia ele, que se dizia o Messias, não conhecer
profundamente o coração do Deus que ele disse que o enviou?
Como poderia aquele que disse que enviaria o outro Consolador
desconhecer as suas próprias revelações?

Jesus foi um fracasso!

Senão, vejamos alguns erros de seu ministério:

Jesus ensinou que o Reino de Deus era semelhante ao


grão de mostarda, simples, pequeno, sem ambições de poder.
Que cresceria não para que a árvore se gloriasse, mas para dar
ninho aos pássaros, para acolher o ferido, para dar lugar ao que
sofre.

Ignorante! Não sabia que “somos cabeça, e não cauda”. Na


sabia que a glória da segunda casa (e da terceira, da quarta, da
quinta, são tantas casas!) seria bem maior do que a primeira.
Como ele não sabia que sofrimento não tem lugar no reino de
Deus? Será que ele não sabia que quando houvesse tristezas
era somente necessário “declararmos” nossa posição em Cristo,
e “tomarmos posse” de nossos lugares celestiais, voando acima
das tempestades? E ainda teve a coragem de dizer que, no
mundo, teríamos aflições... não sabia de nada esse tal de Jesus!

Esse tal Jesus também ensinou aos seus discípulos,


pobres rapazes que deixaram tudo para o seguirem, que eles
teriam que ir pelo mundo, pregando o evangelho, ensinando a
todos...

Coitado! Não sabia que para conquistarmos os territórios


para Deus, em primeiro lugar temos que realizar atos
proféticos. Não sabia que precisamos entrar em “batalha
espiritual”, desarmando o chefe daquele território, e ungir os
lugares, desfazendo assim toda maldição. A coisa era bem mais
fácil de ser feita, e ele insistiu na idéia louca da pregação pura
e simples do seu amor! Que coisa! Nada se conquista mais por
amor... estamos em guerra, temos que destronar Satanás e
seus demônios através de jejuns fortes, decretos (até mesmo
leis humanas) desautorizando a ação do diabo e seus anjos
naqueles lugares.

Jesus não sabia que havia um princípio de legalidade, onde


Satanás manteria o domínio da pessoa mesmo depois dela ter
se encontrado com o Nazareno.

Pobre Jesus! Ensinou que se alguém cresse nele,


VERDADEIRAMENTE seria livre. Enganou as pessoas ao fazê-
las crer que simplesmente a fé em seu sacrifício seria
suficiente para a salvação. Ele não sabia que precisávamos de
sessões de regressão e renúncia de pecados passados... achava
que a cruz bastaria.

Por fim, enganou a si mesmo, quando ao ser crucificado


bradou em alta voz: “Está Consumado!”

Quanto engano! Jesus não sabia que nada estava


consumado, que sua obra era insuficiente. Não sabia que seriam
necessárias sessões e mais sessões de libertação para as
pessoas, mesmo depois de terem crido nele, e terem sido
salvas. Nada estava consumado. Nada se encerrava ali. Muito
menos a salvação. Não seríamos resgatados do Império das
Trevas para o Seu Reino, isso era ilusão. Ficaríamos com ele
sim, assim de “meia-boca”, mas ainda cativo ao diabo, poderoso
onipotente, esse sim cheio de toda a autoridade e força, pois
nem o sacrifício do Cordeiro de Deus foi suficiente para
quebrar-lhe o poder.

Tanto que até hoje precisamos de seminários e


congressos para nos ensinar aquilo que Jesus e seus discípulos
não sabiam: o poder do diabo sobre os servos dele, Jesus.

Na verdade, vocês sabem, não é isso o que penso... mas é o


que, infelizmente, o povo que diz seguir a Jesus, tem ensinado
por aí...

Que Jesus Cristo, Deus Todo-Poderoso, Pai da


Eternidade, Príncipe da Paz, Maravilhoso Conselheiro, Cordeiro
de Deus, Eterno Salvador, Verdadeiro Libertador, tenha
misericórdia de nós...
Eparrei, Jeová!

Já faz tempo que venho dizendo que muitas de nossas


igrejas têm perdido o rumo. Não precisa ser profeta e nem um
“expert” em teologia para perceber como de forma gritante
temos nos afastado da simplicidade do evangelho de Cristo.

Nesses muitos caminhos e rumos que a igreja dita


“evangélica” no Brasil tem tomado, um dos que mais me
preocupa é a proximidade com o “baixo-espiritismo”. Aquilo que
era um de nossos maiores “inimigos” parece que se transformou
em modelo. Não é impossível hoje traçar paralelos entre alguns
cultos “evangélicos” (principalmente os do “baixo-
pentecostalismo”) e alguns rituais de terreiros de umbanda.

Em muitos de nossos encontros percebemos claramente a


tendência espírita-pentecostal. Um grande amigo certo dia me
telefonou muito preocupado. “- Junior, transformaram minha
igreja num terreiro... o pessoal chega lá, canta, canta, canta,
até entrar em transe e algum profeta “receber” o espírito e
então ‘entregar’ a palavra... igualzinho nos terreiros de
macumba onde os atabaques ficam tocando até o espírito-guia
‘descer’ e encontrar seu cavalo.”
Pensei naquele momento que ele tinha toda a razão.
Parece que só muda o nome do “guia”. Penso que não demorará o
dia em que estaremos em algumas dessas “igrejas” e em
determinado momento escutaremos sem vergonha alguma:
“Eparrei, Jeová... humm... eis que te digo... mizinfio precisa de
sacrificar mais alguma coisa pro ‘espírito santo’ se apossar de
vosmincê...”

Outro dia mesmo ouvi de uma “tia” que ia à casa dos


irmãos para “orar os cômodos” e afastar as maldições.
Lembrei-me de meus tempos de infância quando, ainda
ignorante acerca do evangelho, apreciava as benzedeiras que
além de “rezar” as crianças (eu mesmo fui “rezado” algumas
vezes) visitavam nossas casas para afastar os “maus-olhados”
(mas não acabavam com nossos olhos maus).

Permitam-me um adendo aqui. Muitos devem estar


perguntando se eu já fiz oração quebrando essas maldições.
NÃO! Quando cri em Jesus e entreguei minha vida ao seu
senhorio, o seu sangue lavou-me COMPLETAMENTE. Não
precisei de uma segunda dose do sangue para me livrar de
maldições passadas, o seu único sacrifício foi SUFICIENTE.

Voltando ao assunto do espiritismo evangélico, essa


prática espírita já tomou sua roupagem evangélica através das
“tias”, dos “profetas” e tantos outros “irmãos abençoados” que
fazem da sua principal missão perseguir o diabo e seus
demônios e encontrá-los camuflados e escondidos nos cômodos
de nossas casas. Quase sempre eles gostam de se esconder em
objetos “sacrificados” aos ídolos, filmes da Disney (herança do
assustador Josué Yrion), discos “mundanos” (eu ainda espero
completar minha coleção de música “jupiteriana”), e qualquer
outra coisa que ofenda o gueto evangélico.

Fico pensando quando é que vão perceber que há muito


mais maldição em nosso meio, através de falsos líderes,
movimentos que anulam a graça, como o movimento re-
judaizante, encontros místicos com regressões e mantras
evangélicos, pastores-bispos-apótolos mentirosos que têm
levado suas igrejas a perderem o rumo para perpetuarem seu
nome (o nome do líder). Isso sim traz maldição, pois enganam o
povo em nome do Deus altíssimo.

Minha esperança (eu ainda tenho esperança) é que um dia


a igreja que se diz evangélica REALMENTE se volte para o
Evangelho puro e simples revelado por Deus em Sua Palavra e
abandone essas práticas animistas-espíritas, onde seres
humanos servem de “cavalos” à sede de poder e autoridade
deles mesmos e de seus falsos-pastores.

Só queria ouvir “Misericórdia, Senhor!” ao invés de


“Eparrei, Jeová!”
Esperança
Ainda Há Esperanças...

Nem tudo está perdido!

Há algum tempo, eu estava visitando Teresópolis, minha


cidade natal, e resolvi então cultuar a Deus pela manhã em uma
das igrejas da cidade, onde um amigo meu estaria pregando.
Um jovem, de apenas 21 anos, seminarista, rapaz que admiro
pela seriedade, simplicidade e sobriedade com que vive o
evangelho.

Cheguei cedo e aguardei o início do culto, que logo


começou. Veio o período de louvor e, graças a Deus, as músicas
não comprometeram, apesar do som altíssimo que nos impedia
de ouvir a congregação e até mesmo o irmão ao lado cantando.
Infelizmente ainda há gente que confunde barulho com
“poder”. Depois da ministração dos cânticos e de um período de
oração chegou a hora da pregação da Palavra.

Meu amigo assumiu o púlpito com humildade e convicção.


Dava pra perceber que ele sabia exatamente o que iria falar e
onde queria chegar, características esquecidas hoje por muitos
que sobem em suas plataformas e “altares” sem ter a mínima
noção do que falar e acabam por ferir a simplicidade do
Evangelho.
A pregação foi simples, profunda e totalmente bíblica. O
jovem falou dos perigos da falsa espiritualidade, tendo como
base o encontro de Jesus com o jovem rico. Sua mensagem foi
clara, corajosa, sem medo do que pensariam dele após o
sermão. Disse o que tinha que ser dito, deixou que a Bíblia
falasse, citou vários textos bíblico que corroboravam o que
falava, sem “forçar” nenhum deles em seu contexto. Pregou,
como há anos não ouvia um jovem pregando. Falou ao coração de
muitos naquela manhã. Saí de lá satisfeito... e feliz por
simplesmente ser seu amigo.

Estou falando de Raphael da Rocha , seminarista de uma


igreja batista em Teresópolis. E estou contando essa história
aqui por dois motivos.

O primeiro é a necessidade que temos de dizer que ainda


há esperanças. Há gente boa se formando. Há gente nova
comprometida com a verdade e com a simplicidade das
Escrituras. Nem tudo está perdido! Nem tudo está repleto de
falcatruas, “unções” e “moveres” que passam distante do
Espírito Santo. Há um remanescente fiel, há os “sete mil que
não dobraram o joelho ao Baal” das teologias loucas que visam
apenas crescimento numérico e poder centralizado nas mãos
dos “déspotas iluminados” do cristianismo hodierno e horrendo
que assistimos boquiabertos.
Em segundo lugar, porque tenho recebido muitos e-mails
de gente nova que não suporta mais os caminhos tortuosos que
a igreja tem trilhado no Brasil. Quero falar da alegria que me
enche o coração em ver essa “molecada” querendo um
evangelho simples, mas profundo, comprometido em sua
essência com a Palavra, sem dar ouvidos às insanas unções e
revelações que têm minado a fé evangélica em nosso país. Como
faz bem ver gente nova, saindo da adolescência, que já percebe
o quão perniciosos são esse movimentos que andam por aí,
travestidos de ovelhas, mas que são lobos por dentro.

Infelizmente, muitos tiveram que viver na pele as


desilusões, decepções e desastres que essa caricatura de
cristianismo tem causado. Muitos me escrevem feridos,
machucados, desiludidos com a igreja, porque serviram de
joguetes nas mãos de seus líderes. Usando um termo que ouvi
do Pr. Ricardo Gondim há muitos anos, eles eram “peõs no
imenso tabuleiro do xadrez eclesiástico, cujo único interesse é
defender o rei, que no caso são os mandatários da religião”.

Mas, pela graça, muitos estão sendo restaurados e estão


vivenciando o evangelho em sua plenitude e simplicidade, de
forma bonita, pela graça e não mais dependentes da justiça
própria que a religião nos impõe.
Nestes, eu vejo a palavra de João se cumprindo: “Eu vos
escrevi, jovens, porque sois fortes, a Palavra de Deus
permanece em vós e tendes vencido o maligno”. Nestes eu vejo
a oração de Jesus se cumprindo: “santifica-os na verdade, a
TUA PALAVRA é a verdade”.

Graças a Deus, ainda há jovens que não se venderam aos


moveres esquisitos e monstruosos que assolam a igreja, à
insanidade dos mantras evangélicos, ao poderio assustador dos
“apóstolos” de si mesmos, à paixão adolescente que marcha,
pula e grita sem conteúdo, ao senhorio das “estrelas” do
evangelho, ao desmando dos reis desse enorme tabuleiro
eclesiástico que a igreja se tornou.

Aos muitos “Raphaéis” que estão espalhados no Brasil, o


meu desejo e as minhas orações para que permaneçam fiéis ao
Deus da Palavra e à Palavra de Deus. Por causa de vocês, hoje
há um cântico de louvor em meus lábios, grato ao Senhor por
estar levantando, em meio à “geração apaixonada”, uma outra
geração que, amadurecida apesar da pouca idade, ama ao
Senhor com integridade, dignidade e simplicidade.

Deus seja louvado por suas vidas!


Quando Eu Penso em Desistir...

Domingo à noite resolvi visitar uma igreja... era uma


igreja conhecida, fazia tempo que eu já tinha ido por lá. Igreja
boa, boa palavra, mas... fazia tempo... e as coisas mudam... e as
igrejas também. Infelizmente...

O culto começou com umas orações estranhas...


repreendendo as forças do mal naquele lugar... como se a maior
presença ali fosse a do “inimigo” e não dAquele que deveria ser
cultuado.

Logo depois uma música de “abertura de culto”: “O


Cheiro das Águas”... uma interpretação equivocada do texto de
Jó 14.7-10. Permaneci em pé, sem cantar, olhando as pessoas
ao meu redor numa espécie de frenesi espiritual... certos de
que o que cantavam era a mais pura verdade bíblica. Não
questiono as intenções desses corações... até sei o que
interpretavam ao cantar o cântico... mas lhes faltava o
conhecimento da Palavra... lembrei-me do profeta: “o meu povo
está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento”.

Piorou quando o Pastor pegou a palavra e começou a


“pregar” em cima da letra do cântico. Vi claramente que
invertemos a coisa. Agora já não é a pregação e a Palavra que
sustentam os cânticos, mas os cânticos é que determinam a
teologia a ser ensinada. Entristeceu-me mais ainda ver isso
tudo... a Palavra substituída pela superficialidade dos cânticos.

Logo depois assentei-me e, por força de um


“congresso” realizado naquele final de semana, algumas pessoas
foram à frente dar o testemunho do que viveram naqueles dias.
Falavam de “veredas antigas”... uma moça deu seu testemunho:
mesmo depois de crente sentia-se subjugada, triste,
humilhada, não perdoada, até que nesse “congresso” descobriu
que tinha que quebrar as “legalidades” que Satanás ainda tinha
sobre sua vida...

Aquilo “acabou” comigo!

Onde estaria o poder da cruz de Cristo e do túmulo


vazio? Que graça é essa que mesmo depois de ter me “tirado
do império das trevas e me transportado para o Reino do Filho
do Seu amor” ainda dava “legalidades” ao diabo? Que Jesus
medíocre é esse que me engana dizendo que seu O conhecer,
verdadeiramente serei livre? Perdoem-me, mas o Jesus
pregado pelas “veredas antigas” é um impostor, um enganador.
Esse Jesus que ainda dá “legalidade” ao inimigo é um fraco, um
mentiroso, pois diz que “aquele que crer em mim, já passou da
morte para a vida”, quando na verdade não é bem assim...
Pensei naquela moça... anos na igreja sofrendo sem
conhecer a graça. E o pior: continua sem conhecer, pois essa
coisa que ensinaram pra ela pode ser tudo, menos a graça
salvadora e libertadora de Cristo, que se fez maldição por nós,
para que nós NUNCA MAIS TIVÉSSEMOS O PESO DA
MALDIÇÃO sobre nossas vidas.

Pensei: Será que vale a pena lutar contra isso? Até


quando erguerei minha voz contra isso sem que seja ouvido?
Será que vale a pena permanecer fiel à Palavra, mesmo que o
povo já não a queira mais? Confesso que às vezes canso...
confesso que às vezes choro ao ver esse quadro... confesso que
às vezes penso que não vale a pena...

Mas...

Trouxe à minha memória aquilo que me podia dar


esperança: as misericórdias do Senhor, sua graça infinda... e a
graça de conhecer pessoas que partilham desse mesmo
“sofrimento” glorioso: anunciar o evangelho verdadeiro... sem
medo!

Vieram à minha mente alguns nomes: Raphael da


Rocha, homem de Deus e fiel pregador, preparando-se para ser
Pastor (com P maiúsculo). Lembrei-me do amigo Roberto
Amorim, a quem admiro pela seriedade em lidar com as
Escrituras. Pensei na Fernanda Peixoto, doce mineirinha que
decidiu servir a Deus com tudo o que é, sem abrir mão das
Sagradas Letras. Os nomes começaram a saltar à mente como
uma panela carregada de milhos, que estouravam como “santas
pipocas”: Juan de Paula, dedicado ao Ministério, sem perder de
vista o ensino coerente da Palavra. Márcia Carvalho, grande
amiga em quem tenho visto o desejo sincero de viver a
simplicidade do Evangelho. Lembrei-me dos bons tempos de
evangelismo e discussões com a turma do PROCAP (Projeto
Capelania): Filippo, Rafael “Fufa”, Esdras, Marcelo “Frodo”,
Márcio, e tantos outros que conosco se reuniam para
“sugarmos” a Palavra.

Não tive como não lembrar de Robson Ramos, amigo e


mestre, a quem devo muito do que aprendi. Marcos André e
Wesly Rosa, meus primeiros professores na EBD, que
instigaram em mim o desejo, que até hoje persiste, de
conhecer mais e mais a Palavra. Lembrei-me do meu “amado
discípulo” Thiago Azevedo, lá em Belém do Pará. Senti
saudades das longas conversas com o Pr. Diogo Magalhães,
mestre e amigo... dos amigos recentes Allan Patrick e Raquel
Brasil, e a imensa vontade deles de fazer a obra de Deus de
forma correta.

Sorri ao lembrar de Renato Fontes e suas “Perguntas


Retóricas”. Alegrei-me ao pensar no Marcos André Farias,
cupincha gaúcho (como ele diz) e de seus abraços “quebra-
costelas de atorá no meio”; na Adeisa, lá da Paraíba e seu
desejo de servir a Deus com integridade e conhecimento; na
Luciana Lemos, de São Paulo, e sua busca de sinceridade e
seriedade para com a Palavra de Deus, sem querer entrar em
“ondas estranhas”; na enorme turma que “invadiu” as
comunidades “Crer é Também Pensar” e “Não Agüento Mais
Mantra Gospel”,no ORKUT... gente cansada disso tudo e que
resolveu soltar a voz...e mostrar a cara!

Pensei na música cristã e dei graças a Deus pela vida


de Arlindo Lima e seu talento dedicado à excelência; Carlos
Sider e sua maravilhosa voz, além de seus escritos; Nelson
Bomilcar e a simplicidade assustadora desse “baita” músico
cristão; Gladir Cabral e sua poesia que fala à alma; Carlinhos
Veiga e sua regionalidade que vem de Deus; do Baixo e Voz de
Sérgio e Marivone; João Alexandre, seu violão inigualável e
suas letras desafiadoras e verdadeiramente proféticas (que
observam e denunciam); Gláucia Carvalho e sua genialidade,
doçura e simpatia; Quarteto Vida e a harmonia dos anjos em
voz humana; Stênio Marcius e sua poesia simples e
encantadora, que tantas vezes já me fez chorar; Silvestre
Kuhlmann, chamado pelo Stênio de “poetinha” e seu cuidado em
fazer música bela e com conteúdo; tanta gente boa de Deus,q
eu não se vendeu aos esquemas do mercado “gospel”...
Vi que ainda vale a pena... vi que ainda há mais de sete
mil que não dobraram os joelhos aos “Baais” que se nos
apresentam. A tristeza que sentia deu lugar à uma sensação
gostosa de não estar sozinho... e agradeci a Deus por toda essa
gente, e outras que fizeram parte de minha história, e por
aquelas que ainda entrarão...e me ensinarão que, apesar de tudo
apontar para o contrário... VALE A PENA!
Eu ainda sonho com uma igreja...

Fiquei um bom tempo sem escrever. Muitos são os


motivos... trabalho... estudos... encontros com pessoas queridas
para estudar a Palavra, etc...

Mas o grande motivo é que eu mesmo me impus uma


reclusão. Sabe quando você sente que quer mas não é a hora?
Fiquei, então, numa espécie de mosteiro moderno, sem
clausuras, sem claustros, sem celas. Apenas eu e minha
consciência, fechados em mim mesmo e em constante contato
com Aquele que é em mim e eu nele. Foram dias de meditação,
de ouvir (e como é bom ouvir sem ter a obrigação de falar!), de
ler... enfim, dias de visitação, dias de diálogo intenso.

E um sonho me invadiu...

Sonho com uma igreja onde a Palavra tenha a primazia. O


grito reformado de SOLA SCRIPTURA reverbera em meus
ouvidos, com o som de vozes martirizadas pela verdade das
Escrituras. Sonho com uma igreja onde a Palavra volte a ocupar
o centro (Jo 17.17), onde tanto a pregação quanto a música
sejam encharcadas de verdade bíblica (1 Co 14.15), e não de
invencionices humanas. Em meu sonho percebo a alegria do re-
encontro com a voz de Deus, amiga, suave, a permear todo o
ambiente onde a igreja estiver reunida, pois onde se reúnem os
“templos”(nós) ali está a Igreja (Mt 18.20).

Sonho com uma igreja sadia pelo ensino coerente das


Escrituras Sagradas, onde esquisitices e maluquices são
tratadas como o que realmente são: esquisitices e maluquices.
Não se dá margem a unções novas, senão a unção que já temos
no Santo de Deus (1 Jo 2.27). Não se ensina aquilo que não é
bíblico pelo simples fato de, exatamente, não ser bíblico.
Aquilo que é relativo em mim deve se curvar diante do absoluto
da Palavra de Deus. O que sinto não sobrepõe o que leio nas
Escrituras. Seja Deus verdadeiro e todo homem mentiroso,
inclusive eu, quando o que ACHAR não for o que a Palavra
REALMENTE diz (Rom 3.4)

Sonho com uma igreja onde o pastor não é nada mais que
um irmão revestido por Deus de um DOM para o crescimento
da mesma. E desejo ser pastor um dia (1 Tm 3.1). Que eu
mesmo testemunhe contra mim um dia se não for um pastor
como o que sonho. Que haja fidelidade ao Deus que vocaciona e
capacita. Que haja humildade para reconhecer que toda a
capacidade vem dEle e não de mim mesmo (Rom 12.3). Que haja
coerência entre o falar e o viver (Mt 5.37). Que eu não me
torne pesado para os irmãos e, se for preciso, que aprenda a
“fazer tendas” (2 Co 11.9; At 18.3)
Sonho com uma igreja que tenha problemas, mas que
aprenda com eles (Rom 5.3-5). Que haja graça no lidar com os
que caem (Gl 6.1), sabendo que é pela graça que somos o que
somos, e que a graça nos nivela sob o sangue de Cristo. Que
ninguém seja “punido”de seus erros, mas corrigido com
brandura para que o nome de Cristo seja exaltado na
reedificação deste irmão (Tg 5.19-20). Sonho com uma igreja
que deixe de ser um tribunal para ser um hospital, onde os
feridos são cuidados com amor e que, por esse amor, aprendam
a amar e se firmem no Deus que é amor! (1 Jo 4.8).

Sonho com uma igreja que faça da oração uma simples


conversa com o Ser amado. Nada de exigências, nada de
ordens, nada de decretos. Que, ao contrário das manifestações
triunfalistas, nossas angústias e ansiedades sejam lançadas
sobre Ele (I Pd 5.7), sabendo que Seu cuidado é real. Que
sejam orações sinceras, sem máscaras e sem farisaísmo,
simplesmente que o nosso quarto seja o lugar de oração, não as
praças públicas (Mt 6.5-6). Ninguém precisa saber que eu oro,
mas que todos percebam de forma inequívoca que tenho
comunhão com Aquele que é o Senhor.

Sonho com uma igreja onde não seja preciso apelos


constantes à contribuição, mas onde a graça de Deus abunde
nos corações de tal forma que o contribuir deixe de ser uma
“carga” para ser um momento de festa, de alegria, pois é a esse
momento que Deus aceita e ama (2 Cor 9.7). Que as
necessidades dos irmãos sejam supridas em amor, mas também
em gestos (Tg 2.15-16), sabendo que naquilo em que ajudo o
meu irmão necessitado, a Deus mesmo o faço (Mt 25.40).

Sonho com uma igreja em que o culto seja vivo, mas não
irracional (Rom 12.1). Uma igreja em que o culto seja tão suave
como uma melodia clássica, mas tão impactante como uma
marcha nupcial. Um ambiente onde quem já é salvo sinta-se em
família, de verdade, sem títulos (ninguém em casa chama um
irmão de “irmão” – irmãos se chamam pelo nome, ou apelidos
carinhosos, mas nunca por “títulos”). Onde quem não é salvo
queira conhecer a Deus simplesmente pela beleza do amor
demonstrado entre os que ali estão (At 2.47).

Sonho com uma igreja onde o louvor seja algo espontâneo,


onde haja liberdade para a adoração, mas que haja espírito e
verdade (Jo 4.24). Que seja adoração em espírito, pois Deus é
Espírito, mas que também seja adoração em verdade. Em
verdade humana e em verdade bíblica. Que quando eu cantar
para o meu irmão: “eu sou um com você...”, eu realmente seja
assim, senão não é “em verdade”, e que seja uma verdade da
Palavra, pois se não for assim, é adoração mentirosa. E que não
seja preciso animadores de auditório e nem instrumentos
sagrados para me levar ao “êxtase”, ma que a simples presença
daquele que é digno de ser adorado me encha o coração e a
boca, e que Ele se agrade do meu louvor, como cheiro suave.

Sonho, ainda, com uma igreja que celebre a ceia na


esperança da volta do noivo, como uma mulher amada espera
pelo seu amado ao anoitecer (1 Cor 11.26). Que haja alegria no
partir do pão e no beber do vinho, pois não temos como
participar da mesa que celebra a morte sem lembrarmos que a
mesma morte foi vencida (Lc 24.5). Celebramos a ceia como um
menino que relê um livro: já sabemos o final da história. E se
ele venceu a morte, como tinha prometido (Mt 20.19) é certo
que voltará um dia para nos buscar, como prometeu (Jo 14.3).
Maranata, vem Senhor Jesus!

Há muitos outros sonhos pra sonhar...

Vamos sonhar juntos?


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