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1 A Justiça de Trasímaco Fernanda Krauss Campello Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação

A Justiça de Trasímaco

Fernanda Krauss Campello

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Lógica e Metafísica, localizada no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Janeiro.

Orientadora: Carolina de Melo Bomfim Araújo

Rio de Janeiro

2016

2

A Justiça de Trasímaco

Fernanda Krauss Campello

Orientadora: Carolina de Melo Bomfim Araújo

Dissertação de Mestrado submetida ao Programa de Pós-graduação em Lógica e Metafísica (Filosofia), Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestra em Filosofia. Aprovada por:

Profª. Carolina de Melo Bomfim Araújo, Orientadora (UFRJ)

Profª. Maria das Graças de Moraes Augusto (UFRJ)

Profª. Alice Bitencourt Haddad (UFRRJ)

Rio de Janeiro

2016

RESUMO

3

O objetivo desta dissertação é defender que o conceito de justiça proposto por Trasímaco tem um valor apenas instrumental e não apresenta qualquer forma de discurso propositivo acerca de um modo de vida justo. Para atingir este objetivo, será discutida a coerência das teses do sofista, apresentando o seu discurso em dois níveis: o primeiro nível comporta uma descrição da aplicação prática da justiça pelos regimes políticos conhecidos por Trasímaco e o segundo apresenta a defesa da vida injusta como única forma possível de se atingir a felicidade.

Palavras-chave: Platão. Filosofia Grega. República. Trasímaco.

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ABSTRACT

The purpose of this dissertation is to assert that the concept of justice proposed by Thrasymachus has an instrumental value and does not present any proposal for a just way of life. In order to reach this objective, we shall discuss the coherence of the sophist’s claims by presenting them in two levels: the first level is a description of the application of justice to political regimes known by Thrasymachus and the second one shows the defence of a injust life as the only possible way to achieve happiness.

Keywords: Plato. Greek Philosophy. Republic. Thrasymachus.

AGRADECIMENTOS

5

Agradeço aos meus pais e ao meu irmão por tudo que sempre fizeram por mim. À minha mãe

e meu irmão por estarem sempre disponíveis para ajudar e também pelos momentos em

família que deram a sua força em todo esse processo. Ao meu agradeço sempre a disposição

infinita para discutir e conversar sobre todos os assuntos e por ajudar a contruir o sentido que

a Filosofia tem para mim.

Ao Felipe, pelo amor, companheirismo e alegria diária de origem paulista, porém totalmente carioca.

Ao Pedro Lippmann, amigo desde o início dessa caminhada ifcsiana e sempre presente.

Aos Phíloi de Hodós, Flora, Luan, Edil, Luciana, César & Raquel pelas discussões, almoços e alvoroços platônicos.

Aos amigos Laura, Vini, Vanessa, Isabella, Daniel, Salim, João e todos os amigos dos sorrisos

e conversas e bares.

Ao vórtex da Tiradentes e aos amigos d’As boas.

À Carolina pelas aulas e pela minha formação platônica no IFCS. Também pela disponibilidade em ajudar em todo o processo de elaboração do tema e da tese.

A Graça e Alice pelo carinho e pela presença na banca.

 

6

SUMÁRIO

 

1

INTRODUÇÃO………………………….……………………………….……………

7

1.1

Quem foi o Trasímaco Histórico?

11

2 ABERTURA DO DIÁLOGO………………………………

……………………

….

14

3 TRASÍMACO E O PODER……………………………………

……………….……

20

3.1

A Intervenção de Clitofonte…………………………………………

…….…

……

32

3.5

Justiça para quem? ………….…

…………………….………………………

36

4 A JUSTIÇA COMO UM BEM ALHEIO…….………………

…………………

40

5 TRASÍMACO É COERENTE?

 

46

5.1 Comparação entre Trasímaco, Cálicles e Alcibíades………………

…………

 

52

5.2 Níveis ético e político do pensamento de Trasímaco - a utilidade do poder….……

53

6 O ARGUMENTO SOCRÁTICO DATÉCHNE….…………………………….…

57

7 A RESPOSTA DE SÓCRATES…………………………………………….…………

66

8 CONCLUSÃO…………………………………………………………………

……

71

9 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………….………

74

1. INTRODUÇÃO

Iniciaremos

esta

dissertação

com

uma

pequena

apresentação

7

1

da República ,

apresentando os seus personagens, explicando alguns pontos sobre a forma do diálogo e

introduzindo o leitor às perguntas centrais desta obra. Apesar de ser um diálogo cujo tema

principal é a justiça, a República trata de diversos assuntos da vida humana, como modo de

vida público e privado, até chegar à conceituação da justiça. O primeiro livro trata, dentre

outras coisas, de algumas perguntas que interessam a essa dissertação.

Uma dessas perguntas é se é viver a vida justa ou injusta e para responder a esta

pergunta. é preciso saber como é a vida e qual é a melhor forma de vivê-la. Portanto, Sócrates

se coloca na perspectiva da velhice e experimenta pensar deste ponto de vista: como viver

uma vida em que seja possível ter uma boa velhice? Esta é a pergunta de abertura do diálogo e

ela é o solo fértil de onde nascerão duas outras perguntas que, embora não sejam expressas

por Platão, permeiam todo o diálogo: Por que viver uma vida justa? Uma vida justa é melhor

do que uma vida injusta?

Alguém poderia responder que a vida do justo não é sempre melhor do que a do

injusto, pois a vida do justo só é melhor para quem se importa com o bem das pessoas ao seu

redor e com o bem comum, pois a justiça não talvez não tenha nenhuma utilidade por ela

mesma, a não ser por aquilo que ela capaz de gerar - por exemplo, a boa imagem que ela

transmite às pessoas da comunidade em que se vive.

1 A tradução da República utilizada em toda esta dissertação é a 10ª edição feita diretamente do grego por Maria Helena da Rocha Pereira (2007).

8

Por outro lado, a injustiça poderia ser considerada mais útil devido aos bens que ela é

capaz de trazer a quem a pratica, se não fosse a má impressão que ela gera. Sendo assim, a

injustiça só não valeria a pena porque os injustos correm o risco de sofrer penalidades pelos

seus atos, mas, se seus atos injustos passassem despercebidos aos olhos da sociedade, a vida

do injusto seria muito mais proveitosa do que a do justo. Se uma pessoa pudesse tornar-se

invisível

2 pode ter o que quiser. Pois bem, esta posição é bem semelhante a do personagem da

República, que é tema desta dissertação: Trasímaco.

Trasímaco é quem expõe uma das maiores discordâncias com Sócrates na República.

Para ele, a justiça e o justo são apenas o resultado da imposição da força de um cidadão mais

forte sobre outro. Uma cidade não é nada mais do que o domínio de um grupo pequeno de

pessoas, ou uma pessoa, sobre todas as outras.

Por isso, Trasímaco não vê qualquer razão para uma pessoa querer ser justa se a única

função deste tipo de conduta é apenas manter uma relação de poder que é prejudicial a ela

mesma. Portanto, pode-se perguntar: vale a pena viver uma vida justa mesmo que ela não

garanta a sua felicidade? Então, desse modo, de que serve viver se o modo em que se vive é

infeliz? Viver para ser infeliz? Essas perguntas e outras do mesmo teor serão um desafio

importante para Sócrates que impulsionará todo o desenvolvimento da República.

Essas perguntas são feitas por Trasímaco a Sócrates mas também são feitas a ele

mesmo e ao mundo tal como ele o descreve. Uma das hipóteses defendidas por esta

dissertação é que ele não fará um discurso ético favorável à justiça, mas entenderá que a

2 Rep. 344a7-8. Mais adiante, em 359d-361d, no livro II, a questão da invisibilidade será mais bem aprofundada.

9

injustiça é a única saída para a felicidade individual. Outra hipótese é de que, para Trasímaco,

a justiça é um instrumento do poder, já que ele afirma que a justiça é a obediência.

Investigar-se-á também se esta tese de Trasímaco é a mais válida dentre as teses defendidas

por ele.

Como um princípio de método desta dissertação, adotar-se-á certa distância dos

pensamentos de Sócrates, entendendo a sua posição como uma dentre outras várias e não

3

como um porta-voz de Platão. Blössner

resume bem os principais aspectos que devem ser

levados em conta para uma boa leitura e que conduzirão o desenvolvimento desta dissertação:

1) o significado da forma do diálogo como um tipo singular de expressão filosófica, 2) a

relevância do contexto em que se desenvolvem os argumentos e 3) às dificuldades envolvidas

na apresentação de um argumento em uma conversa fictícia. Todas as teses e todos os

argumentos dos diálogos são proferidos por personagens, o que torna difícil analisar o

discurso de cada um desprezando os personagens. Além disso, Platão nunca expressa a sua

opinião nos diálogos. O próprio personagem Sócrates, muitas vezes tomado por alter ego de

Platão, realiza manobras retóricas que são facilmente percebidas e geram um distanciamento

no leitor.

Outro objetivo aqui perseguido é explorar pensamento de Trasímaco como autônomo

ao discurso de Sócrates, para então esclarecer que tipo de discordância ele tem com Sócrates e

se o filósofo responde ou não os questionamentos de Trasímaco sobre a Justiça.

3 BLÖSSNER. The City-Soul Analogy. pp 375-381.

10

Outro aspecto abordado será o tipo de discurso usado por Trasímaco. Uma das maiores

dificuldades de se abordar a personagem de Trasímaco e o conteúdo do seu pensamento é

precisar se Trasímaco está descrevendo a realidade política conhecida por ele ou se ele está

pretendendo explicar como a política deve ser. Dois níveis de discurso são utilizados por ele:

um deles faz uma análise acerca dos regimes políticos que constata, do ponto de vista factual,

quais são as relações de poder vigentes nas cidades com que a personagem teve contato, e

outro em que ele aponta uma valoração de alguns tipos de comportamentos dos cidadãos. Isso

gera uma outra dificuldade: estabelecer uma coerência entre suas teses, entre as que projetam

benefícios de certos tipos de atitude e as que se restringem a investigar o funcionamento das

cidades existentes. Um dos objetivos desta dissertação é investigar se Trasímaco é coerente

em seu pensamento. Além disso, pretende-se mostrar o pensamento político e ético de

Trasímaco, distinguindo em quais momentos ele está abordando assuntos estritamente éticos e

em quais outros ele está tratando apenas da política.

11

1.1 Quem foi o Trasímaco Histórico?

4

Contexto histórico de Trasímaco por Debra Nails : Trasímaco nasceu na Calcedônia,

na cidade portuária no Mar Negro, aproximadamente no ano de 455 a. C. Ele é citado no

5

Banquete de Aristófanes em 427 a. C., como uma pessoa aproximadamente de trinta anos que

possuía certa fama por suas inovações na retórica.

Também foi relatado que Trasímaco era amigo de Lísias, locutor do discurso Contra

os Membros da Sinousia e suspeito de calúnia. Trasímaco, então, era um retórico com alguma

reputação e era uma referência de estilo para os seus contemporâneos. Além da personagem

de Trasímaco na República (336b-354c), Sócrates descreve a habilidade retórica de Trasímaco

no Fedro:

Parece-me que foi pela habilidade técnica que a força do Calcedônio se impôs, homem simultaneamente hábil em suscitar a ira da multidão e de novo, quando está no auge do furor, formidável em caluniar e em empurrar por todos os meios as calúnias. Sobre a parte final do discurso parece, então, que todos tem a mesma opinião, mas alguns a chamam de “recapitulação”, outros chamam de outro modo.

Refere-te a fazer um índice dos tópicos do discurso no seu final, para lembrar os ouvintes sobre o que foi falado?

Isso é o que eu quero dizer, isso e qualquer outra coisa que você puder mencionar sobre a arte da retórica. 6

4 NAILS, D. The People of Plato: A Prosopography of Plato and Others Socratics, 2002, pp. 288-289.

5 ARISTOFANES,Banquete, fr. 205.8 (K198) apud NAILS, D. The People of Plato: A Prosopography of Plato and Others Socratics, 2002, pp 288.

6

Fedro, 267c-d.

Mi pare che per abilità tecnica si sia imposta la forza del Calcedonio, uomo contemporaneamente abile a

suscitare l’ira della folla e di nuovo, quando è al culmine del furore, a placarla incantandola, come dice egli

stesso, formidabile nel caluniare e nel spingere con ogni mezzo le calunnie. Sulla parte finale del discorso sembra poi che abbiano tutti la stessa opinione, ma alcuni la chiamano ‘riepilogo’, altri in altro modo. Ti riferisci al richiamare sommariamente alla fine, alla memoria degli ascoltatori, i punti trattati?

Mi riferisco a questo. E se tu non hai altro da aggiungere sulla tecnica dei discorsi…

12

Após essa passagem, Sócrates usa Trasímaco e Lísias como modelos ruins para

adquirir habilidade no discurso.

7 No Fedro, sugere Lísias e Trasímaco ensinam somente os

princípios da retórica, mas não são capazes de ensinar aos seus alunos a fazerem um texto

coerente no seu conjunto; e não conseguem fazê-lo, segundo Sócrates, os alunos só podem

8

aprender por eles mesmos. Na República , Trasímaco exige que Sócrates apresente uma

9

resposta clara e concisa , mas Sócrates critica essa exigência, pois ele teria de deturpar a sua

resposta e responder algo “diferente da verdade” para cumprí-la. Além disso, em ambos

diálogos, Trasímaco é retratado como alguém ávido por dinheiro.

10

Segundo White , o talento retórico de Trasímaco foi demonstrado em 407 a. C.,

quando o sofista veio a Atenas como diplomata da Calcedônia para uma negociação depois de

uma revolta mal sucedida contra o imperialismo ateniense. Trasímaco apresentou um discurso

11 que visava prevenir represálias contra a sua cidade natal. Tal discurso traz luz não só à

12

posição de Trasímaco na República , quando ele fala sobre os Estados que submetem

injustamente outros Estados e escravizam o seu povo. A análise de White mostra que este

encontro diplomático ocorreu provavelmente depois do terceiro retorno de Alcibíades à

Atenas em 407 e que Trasímaco era um “um consistente oponente da agressão externa e um

​ 7 ​ 8 ​ ​ 9
7
8
9

Fed. 269d.

Rep. 337b.

Rep. 336d.

10 WHITE. Thrasymachus the Diplomat. Classical Philology, Vol. 90, No. 4 (Oct., 1995), pp. 307-327 11 DK fr. 1(=D. H. Dem. 3)

12

Rep. 351b.

13

13

campeão da autonomia local” . White afirma que o discurso, apesar de ter sido escrito por

Trasímaco, foi proferido por um ateniense logo depois da derrota na Sicília.

Yunis

14 questiona White, afirmando que o texto parece ter sido escrito, provavelmente

por Trasímaco, mas para ser lido por um cidadão de Atenas, além de questionar a idade de

quem o proferiu.

​ 13 ​ 14
13
14

WHITE. Thrasymachus the Diplomat. Classical Philology, Vol. 90, No. 4 (Oct., 1995), pp. 307-327

YUNIS, H. Thrasymachus B1: Discord, Not Diplomacy. Classical Philology, Vol. 92, No. 1 (Jan., 1997), pp.

58-66.

2 ABERTURA DO DIÁLOGO:

14

O livro I da República se inicia com Sócrates e Gláucon demonstrando sua conexão

com a tradição grega: indo ao Pireu para ver a celebração das Bendidéias e fazer preces a uma

deusa, provavelmente Atena. Após assistir aos festejos, eles pretendiam voltar à cidade, mas

ocorreu que Polemarco o interpelou e acabou convencendo-o a ficar para ir à casa de seu pai,

Céfalo, e depois assistir a uma competição de cavalos.

Céfalo é uma personagem toda envolvida pelas tradições. Ele veste uma coroa que faz

parte de um ritual religioso e, depois da conversa com Sócrates, retira-se para terminar um

sacrifício que estava realizando antes de iniciar a conversa. É na casa de Céfalo que vai

ocorrer todo o diálogo da República.

Céfalo possui a idade bastante avançada e o assunto com o qual ele inicia a conversa é

o prazer do diálogo advindo da velhice mas, ao mesmo tempo, o medo de chegar ao Hades e

ter de pagar pelas suas injustiças; talvez o medo de chegar ao fim sem ter alcançado o seu fim

15

como homem. Aproveitando as palavras de Céfalo, Sócrates o interroga sobre como é a vida ,

se é fácil ou difícil, e como ele lida com a velhice. Céfalo responde que a velhice não lhe fez

nenhum mal, pelo contrário, ele se regozija de estar liberto das paixões. Ele, portanto, diz não

concordar com as outras pessoas da sua idade, quando elas se lamentam pela velhice; eles

15

Rep. 328 e.

) (

Efectivamente, parece-me que devemos informar-nos junto deles, como de pessoas que foram à

nossa frente num caminho que talvez tenhamos de percorrer, sobre as características, se é áspero e difícil, ou fácil e transitável. Teria até gosto em te perguntar qual é o teu parecer sobre este assunto - uma vez que chegaste já a esse período da vida a que os poetas chamam estar “no limiar da velhice” δοκε​ ​γάρ​ ​μοι​ ​χρναι​ ​παρ​ ​ατν​ ​πυνθάνεσθαι,​ ​σπερ​ ​τιν​ ​δν​ ​προεληλυθότων​ ​ν​ ​κα​ ​μς​ ​σως δεήσει​ ​πορεύεσθαι, ποία​ ​τίςστιν, τραχεα​ ​κα​ ​χαλεπή,​ ​​ ​ῥᾳδία​ ​κα​ ​επορος. κα​ ​δ​ ​κα​ ​σο​ ​δέως​ ​νπυθοίμην τι​ ​σοι​ ​φαίνεται​ ​τοτο, πειδ​ ​νταθα​ ​δη​ ​ε​ ​τς​ ​λικίας​ ​​ ​δπγήραος​ ​οδφασιν​ ​εναι​ ​ο​ ​ποιηταί,πότερον​ ​χαλεπν​ ​το​ ​βίου, ​ ​πς​ ​σ​ ​ατξ αγγέλλεις.

15

“não acusam a verdadeira culpada”, pois o que torna a velhice fácil ou difícil é o trópos tón

antrópon.

Essa expressão, que como pode-se notar é um trocadilho, é traduzida por Maria Helena

da Rocha Pereira

16

17

como “carácter das pessoas”. No dicionário Montanari , a palavra trópos é

traduzida como direcionamento, orientação, maneira ou modo. Neste contexto, pode-se

entender que Céfalo se refere a um modo de vida levado pelas pessoas até a velhice.

Depois de perguntar a Céfalo sobre como a vida é vista a partir da perspectiva da

velhice, Sócrates, vendo que Céfalo é um homem rico, pergunta qual bem (ágathos) provém

da

riqueza

18

(ousía) .

Céfalo

mantém-se

coerente

em

sua

posição

afirmando

que

as

circunstâncias externas, como a riqueza, ajudam a realizar sacrifícios e pagar dívidas, mas não

são causa da boa vida.

Eis que Sócrates propõe a Céfalo a seguinte definição de justiça: “dizer a verdade e

19

restituir o que se deve” . Quem dá assentimento à definição é Polemarco, Céfalo

20

concorda

com esta definição e, então, se retira e deixa de “herança” ao seu filho Polemarco a discussão

sobre a justiça. Sócrates mostra que esta definição é insatisfatória, pois não seria justo restituir

um bem a alguém que está louco ou fora de si, por exemplo.

16 Rep. 329d: Mas, quer quanto a estes sentimentos, quer quanto aos relativos aos seus parenes, há uma só e única causa: não a velhice, ó Sócrates, mas o carácter das pessoas. (pp 5)

17

18

MONTANARI, F.Vocabolario della Lingua Greca (Greco-Italiano). Turim: Loescher Editore, 2004

Rep. 330d:

Absolutamente - concordei eu -. Mas diz-me ainda isto: qual é o maior benefício de que julgas ter usufruído graças à posse de uma abastada fortuna? πάνυ​ ​μν​ ​ον, ν​ ​δ​ ​γώ.​ ​λλά​ ​μοι​ ​τι​ ​τοσόνδε​ ​επέ:​ ​τί​ ​μέγιστον​ ​οει​ ​γαθνπο λελαυκέναι​ ​τοπολλν​ ​οσίαν​ ​κεκτσθαι;

19 Rep. 331d. 20 Nota-se uma certa consonância entre esta definição de justiça e a posição social de Céfalo. Ele é um meteco com boa condição financeira, o que possibilita que ele pague suas dívidas e realize sacrifícios aos deuses.

16

Sócrates, então, pergunta didaticamente se era este mesmo o significado do dito de

Simônides sobre a justiça e Polemarco nega, afirmando que, segundo o poeta, não poderíamos

fazer uma restituição tal como a do exemplo, pois, neste caso, poderíamos estar fazendo mal a

um amigo e, segundo o que Polemarco entendeu de Simônides, nunca se deve fazer mal aos

amigos. Só se deve fazer uma restituição a um amigo se for para lhe fazer o bem. 21

Mas, se neste mesmo caso o restituído fosse um inimigo, então não haveria problema,

pois aos inimigos só convém uma coisa: o mal. Portanto, a interpretação correta de Simônides

seria que a justiça consiste em restituir a cada um o que lhe convém, isto é, restituir o que é

22

devido . Sócrates, então, compara a definição de justiça em questão com as téchnai da

medicina e da culinária: se as téchnai fazem aquilo que é devido ao seu objeto e a justiça for

uma téchne, então a justiça será fazer o que é devido ao seu objeto, isto é, aos amigos e aos

inimigos. Deste modo, de acordo com o que Polemarco disse anteriormente, a justiça será

fazer bem aos amigos (pois aos amigos convém fazer o bem) e fazer o mal aos inimigos (pois

o mal é o que lhes convém).

Então, surge a pergunta: como, isto é, em que atividade, o justo é capaz de ajudar os

amigos e prejudicar os inimigos?

23 Entende-se que o justo será útil em situações de combate e,

nos tempos de paz, será útil para manutenção de contratos e parcerias. Contudo, quando as

parcerias são realizadas para qualquer tipo de comércio, um especialista na mercadoria

21

22

Rep. 331 e. Rep. 332c.:

Por conseguinte, Simônides falou, ao que parece, enigmaticamente à maneira dos poetas, ao dizer o que era a justiça. O pensamento dele era, aparentemente, que a justiça consistia em restituir a cada um o que lhe convém, e que a isso chamou de restituir o que é devido. ινίξατο​ ​ρα, ν​ ​δ​ ​γώ,​ ​ς​ ​οικεν, ​ ​Σιμωνίδης​ ​ποιητικςτ​ ​δίκαιον​ ​​ ​εη.​ ​διενοετο​ ​μν​ ​γάρ,​ ​ς φαίνεται, τι​ ​τοτ​ ​εη​ ​δίκαιον, τπροσκον​ ​κάστ​ ​ποδιδόναι, τοτο​ ​δ​ ​νόμασεν​ ​φειλόμενον.

23

Rep. 332e.

17

comercializada seria preferível com relação ao homem justo; por exemplo, em um comércio

de navios, um piloto seria mais útil para a aquisição de um bom produto do que uma pessoa

justa. Deste modo, a pessoa justa só seria útil em uma parceria no momento em que se quer

guardar o dinheiro e o justo só seria útil quando o dinheiro não estivesse sendo utilizado, ou

seja, a justiça só seria útil quando o dinheiro fosse inútil. E, além disso, a justiça ainda seria

24

semelhante à arte de furtar , uma vez que o guardião de alguma coisa é também aquele que

melhor sabe roubá-la.

25

Quando o argumento chega a este ponto , Polemarco assusta-se, mas ainda mantém a

tese de que a justiça é ajudar os amigos e prejudicar os inimigos. Sócrates, então, analisa o

que é a amizade: amigo é aquele que parece honesto ou aquele é que realmente honesto,

mesmo que não o pareça? Polemarco conclui que é natural amar a quem parece honesto e não

gostar de quem parece mal. Todavia, se alguém se enganar quanto ao caráter de uma pessoa e

aplicar a concepção de justiça de Polemarco, ela acabará fazendo o mal para o amigo e o bem

para o inimigo.

Considerando que os amigos verdadeiros são honestos e bons e os amigos falsos, que

aparentam ser amigos sem o ser, são malvados e desonestos, mesmo que fosse estabelecido

que uma pessoa justa deve ser boa com os bons amigos e má com os inimigos, isso teria por

consequência que os justos praticassem o mal, algo que não é próprio dos justos. Sócrates

​ 24 ​ 25
24
25

Rep. 334b.

Rep. 334a-b.

18

mostra a Polemarco que fazer o mal a um cavalo ou a uma pessoa, não os torna mais

excelente, mas, ao contrário, torna-os piores. 26

Deste modo, após esta a longa argumentação, os dois concluem que, se a justiça é a

excelência humana, não é possível tornar uma pessoa pior com relação à excelência humana

por meio da justiça.

27 Logo, uma pessoa justa só consegue fazer o bem às outras, porque é da

natureza dela e da sua arte. Deste modo, Sócrates conclui que Simônides não defendeu que a

justiça era fazer bem aos amigos e mal aos inimigos. 28

Neste momento da conversa, quando Sócrates refuta a definição de Polemarco e os

dois admitem não terem chegado à conclusão alguma sobre a justiça, Trasímaco irrompe

furioso na conversa.

29 Mas o que deixa Trasímaco tão furioso? O sofista reclama da forma

como Sócrates discute: sempre questionando os outros, mas nunca apresentando a sua

definição de Justiça, como acabara de ocorrer no debate com Polemarco.

Mas, além desta crítica, ele ainda recusa os termos usados por Sócrates - o dever, a

utilidade, a vantagem, o proveito e a conveniência

30 - caracterizando-os como palavras vazias

31 Nesta parte do texto, podemos considerar algumas hipóteses para esclarecer o que

exatamente Trasímaco critica em Sócrates. É possível que as expressões usadas por Sócrates

​ 26 ​ ​ 27 ​ 28 ​ 29 ​ 30
26
27
28
29
30

Rep. 335c.

Rep. 335b-d.

Rep. 335e.

Rep. 336b.

Rep. 336d. E vê lá, não me digas que é o dever, ou a utilidade, ou a vantagem, o proveito ou a conveniência. μηδ​ ​τι​ ​τ​ ​φέλιμον​ ​μηδ​ ​τι​ ​τ​ ​λυσιτελον​ ​μηδ​ ​τι​ ​τκερδαλέον​ ​μηδ​ ​τι​ ​τ​ ​συμφέρον, 31 Rep. 336d3: a palavra θλους é traduzido na edição aqui utilizada como frivolidade, mas preferimos traduzir pelas expressões “palavras vazias” ou “conversa fiada”, por indicarem que a crítica de Trasímaco se refere a uma falta de seriedade na discussão, uma vez que ele pede neste mesmo passo que Sócrates defina sabiamente e rigorosamente a Justiça (σαφς​ ​μοι​ ​κα​ ​κριβς​ ​λέγε​ ​τι​ ​νλέγς).

19

tenham uma conotação abstrata demais para aquilo que o sofista considera um tema prático

presente na política cotidiana; seria necessário apresentar um discurso mais concreto de

justiça.

No entanto, ao apresentar a sua própria definição, afirmando que a justiça é a

conveniência do mais forte. Nessa afirmação, Trasímaco utiliza um dos termos que havia

condenado nas falas de Sócrates: a conveniência.

Sócrates, então, nota o uso do termo e pede que Trasímaco explique-se melhor pois,

além de usar indevidamente um termo, a forma como ele definiu a Justiça, torna qualquer

coisa que fosse conveniente ao mais forte seria conveniente às outras pessoas comuns.

Sócrates pergunta, em tom jocoso, se é justo que as pessoas não-atletas devam comer a mesma

comida do lutador só porque ele é o mais forte, uma vez que é justo fazer o que é conveniente

ao mais forte, segundo Trasímaco.

- Desde que eu compreenda primeiro o que queres dizer, pois por agora ainda

não sei. Afirmas tu que na conveniência do mais forte está a justiça. Que queres tu significar com isso, ó Trasímaco? Pois suponho que não é deste gênero o que queres dizer: se Polidamas, o lutador de pancrácio, que é mais forte que nós, para o seu físico, se a ele convém comer carne de vaca, tal

alimento será também para nós, que lhe somos inferiores, conveniente e justo ao mesmo tempo.

- Não tens vergonha nenhuma, Sócrates, e interpretas as coisas de maneira a desvirtuares o meu argumento.

- De algum modo, meu excelente amigo. Mas explica mais claramente o que queres dizer.

- Pelo visto não sabes - prosseguiu ele - que, dentre os Estados, há os que vivem sob o regime da monarquia, outros da democracia, e outros da aristocracia?

- Como não havia de sabê-lo?

- Ora, em cada Estado, não é o governo (tò árchon) que detém a força?

- Exactamente. 32

32

Rep. 338c4-d10:

ν​ ​μάθω​ ​γε​ ​πρτον, φην, τί​ ​λέγεις: νν​ ​γρ​ ​οπω​ ​οδα. τ​ ​το​ ​κρείττονος​ ​φςσυμφέρον​ ​δίκαιον εναι. κα​ ​τοτο, ​ ​Θρασύμαχε, τί​ ​ποτε​ ​λέγεις; ο​ ​γάρ​ ​που​ ​τόγε​ ​τοιόνδε​ ​φς: ε​ ​Πουλυδάμας​ ​μν​ ​κρείττων​ ​παγκρατιαστς​ ​κα​ ​ατσυμφέρει​ ​τ​ ​βόεια​ ​κρέα​ ​πρς​ ​τ​ ​σμα, τοτο​ ​τ​ ​σιτίον​ ​εναι​ ​κα​ ​μν​ ​τος​ ​ττοσιν κείνου​ ​συμφέρον​ ​μα​ ​κα​ ​δίκαιον. βδελυρς​ ​γρ​ ​ε, φη,​ ​​ ​Σώκρατες, κα​ ​ταύτ​ ​πολαμβάνεις​ ​​ ​νκακουργήσαις​ ​μάλιστα​ ​τν​ ​λόγον.

20

Em sua resposta, o sofista explica que o “mais forte” que ele tinha em mente é o

governante (tò árchon), traduzido por governo, sustentado por leis aristocráticas, tirânicas e

democráticas. Este governo é sustentado pelas leis e, portanto, a ação justa é aquela que

obedece às leis que fortalecem esse poder.

E o que Trasímaco entende por conveniência? Para Sócrates, um governo só é

conveniente se ele beneficia o governante e os governados. Já a posição de Trasímaco

determina que a justiça pode ser conveniente apenas se ela atender somente ao interesse do

governante. Para o sofista, o instrumento da conveniência do mais forte não é a justiça, mas a

lei. Já, para Sócrates, a lei é conveniente porque ela atende à conveniência dos governados,

uma vez que ela serve à manutenção de uma cidade boa para eles. O que será analisado no

próximo capítulo é como se dá essa conveniência do mais forte no pensamento de Trasímaco.

3. TRASÍMACO E O PODER - 1ª DEFINIÇÃO

21

Eis a primeira definição de justiça de Trasímaco:

Ouve então. Afirmo que a justiça (díkaion) não é outra coisa senão a conveniência do mais forte. Mas porque não aprovas? Não quererás fazê-lo?

33

Esta é a primeira das três teses que Trasímaco defende na República, desenvolvida

entre as passagens 338c e 339a: 1) O justo é a conveniência do mais forte; 2) O justo é a

obediência às leis e 3) A justiça é um bem alheio. A pedido de Sócrates, Trasímaco explica

sua tese, dizendo que ela se refere a todas as constituições políticas e não a um regime político

34

específico , como a democracia ateniense, por exemplo.

Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com a sua conveniência: a democracia, leis democráticas; a monarquia, monárquicas; e os outros, da mesma maneira. Uma vez promulgadas essas leis, fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhes convém, e castigam os transgressores, a título de que violaram a lei e cometeram uma injustiça. Aqui tens, meu excelente amigo, aquilo que eu quero dizer, ao afirmar que há um só modelo de justiça em todos os Estados - o que convém aos poderes constituídos. Ora estes é que detêm a força. De onde resulta, para quem pensar corretamente, que a justiça é a mesma em toda parte: a conveniência do mais forte. 35

33

Rep. 338c1-2:

κουε​ ​δή, ​ ​δ​ ​ς. φημ​ ​γρ​ ​γ​ ​εναι​ ​τ​ ​δίκαιον​ ​οκ​ ​λλο​ ​τι​ ​​ ​τ​ ​το​ ​κρείττονοςσυμφέρον.​ ​λλ​ ​τί οκ​ ​παινες; λλ​ ​οκ​ ​θελήσεις.

​ ​ 34 ​ 35
34
35

Rep. 339a.

Rep. 338e1-339a3:

36

Nesta passagem, ele afirma que apesar de as diferentes pólei

22

viverem em regimes

políticos diferentes, elas possuem três características em comum: 1) entre elas é que o governo

37

(tò árchon) é constituído pelo corpo de cidadãos que detém a força ; 2) cada um desses

governos promulgam as leis de acordo com a sua conveniência e 3) a justiça é aquilo que eles

promulgam.

A passagem “a título de que violaram a lei e cometeram uma injustiça”

38 pode ser

interpretada como “com o pretexto de que violar uma lei é cometer uma injustiça”, e então

nota-se que ele sugere que a justiça só útil para justificar as leis que os mais fortes promulgam

para a sua própria conveniência. O advérbio demonstrativo de modo ς

39 tem, dentre outros

significados, valor subjetivo semelhante à expressão da língua portuguesa “como se”, quando

é acompanhado de particípio para exprimir causa ou fim; o dicionário de Montanari dá um

40

exemplo do seu uso na própria República . No caso da fala de Trasímaco, o advérbio é

acompanhado de παρανομοντά, que significa violar, transgredir a lei ou cometer uma

36 O termo politéia tem uma longa história na Grécia antes de ser utilizado por Platão. Segundo Aristóteles

​ ​ ​ (Política, III, 1274a32-1283a22), as primeiras ​politéiai foram escritas por Faleas de Calcedônia
(Política, III, 1274a32-1283a22), as primeiras ​politéiai foram escritas por Faleas de Calcedônia e Hipodamos de
Mileto e, posteriormente Tales. Conta Diógenes Laércio que Protágoras também escreveu uma ​politéia para a
cidade de Thourioi e que Platão a plagiou. Através destes relatos, é possível afirmar que houve uma tradição que
escrevia sobre cidades não-existentes, utópicas, que servissem de inspiração para os cidadãos das cidades
existentes. O termo ​politéia diz respeito não só à esfera das leis e da administração da cidade, mas também ao
regime político e ao modo de vida do cidadão. A ​pólis é o momento e o lugar em que a ​politéia ocorre. Cf.
AUGUSTO. M. G. M. ​Politéia e Utopia no Caso Platônico. ​Kléos, Rio de Janeiro. Volume 16/17. Nº 16-17. Pp
103-151. 2012-2013; ​MONTANARI, F. ​Vocabolario della Lingua Greca (Greco-Italiano). Turim: Loescher
Editore, 2004.
37 ​Rep. 338d9.
38 ​Rep. 338e4-6: ​καὶ​ ​τὸν​ ​τούτου​ ​ἐκβαίνοντα​κολάζουσιν​ ​ὡς​ ​παρανομοῦντά​ ​τε​ ​καὶ​ ​ἀδικοῦντα​.
39 ​MONTANARI, F.​ Vocabolario della Lingua Greca (Greco-Italiano). Turim: Loescher Editore, 2004, pp.

2421.

40 Rep. 329a: como quem ficou privado de grandes bens (ς​ ​μεγάλων​ ​τιννπεστερημένοι).

23

injustiça.

41

O uso desta expressão revela que os transgressores

42

são punidos como se tivessem

cometido uma injustiça.

Quando

proclamada

justa, a lei esconde a sua verdadeira finalidade,

que

é

a

conveniência do mais forte. Portanto, “este pretexto” funciona como um instrumento cuja

finalidade é dar uma aparência de justiça para garantir a legitimidade do governo do mais

forte.

Na passagem anterior, Sócrates diz, com a anuência de Trasímaco, que a força é o que

governa uma cidade

43 e então, ao dizê-lo, estabelece uma identidade entre o mais forte

(kreíttonos) e o governo (arché). Ora, o governo não tem qualquer função além de atuar na

manutenção da força, o que reforça a ideia de que qualquer aparato legal ou estatal ou mesmo

a justiça não são defendidos pelo Estado, uma vez que este só atua em função da conveniência

do mais forte.

No início de sua intervenção, Trasímaco recusa o tipo de justiça que Sócrates busca

44 e

em 338e que a única justiça existente nas cidades é a do mais forte que se impõe sobre o mais

fraco e que governa de acordo com sua conveniência, Trasímaco dá a entender que o único

princípio de poder que realmente governa as cidades é o da conveniência do mais forte e que a

41 MONTANARI, F. Vocabolario della Lingua Greca (Greco-Italiano). Turim: Loescher Editore, 2004, pp.

1573.

42 Rep. 338e5: κβαίνοντα.

43 Rep., 338d9-10.

44 Rep. 336d: Mas responde tu mesmo e diz o que entendes por justiça. E vê lá, não me digas que é o dever, ou a utilidade, ou a vantagem, o proveito ou a conveniência. Mas, o que disseres, diz-mo clara e concisamente, pois, se te exprimires por meio de frivolidades desta ordem, não as aceitarei. λλ​ ​κα​ ​ατς​ ​πόκριναι​ ​κα​ ​επ​ ​τί​ ​φς​ ​εναι​ ​τ​ ​δίκαιον. κα​ ​πως​ ​μοιμ​ ​ρες​ ​τι​ ​τδέον​ ​στν​ ​μηδ​ ​τι​ ​τ

24

diversidade de regimes políticos apenas cria uma aparência de relações de poder, na realidade,

não existe, pois a conveniência do mais forte é a única forma de poder existente.

Os cidadãos vivem para realizar a conveniência do mais forte. Eles vivem e trabalham

para produzir os bens que dão felicidade ao governante, mas não para si mesmos, ou seja, a

vida justa tem como consequência a produção da infelicidade individual para os cidadãos.

Deste modo, a única saída dos governados para realizar a própria conveniência - e também a

própria felicidade - seria a injustiça. Neste pequeno debate no livro I, Trasímaco acaba por

propor a Sócrates um desafio muito importante para a República: provar que a justiça é

melhor do que injustiça.

Este esclarecimento de Trasímaco permite uma revisão do significado da primeira tese,

que nos informa que algo só pode ser justo se estiver adequado à conveniência do mais forte.

Dentre outras interpretações possíveis, aquilo que é decidido pelo governante é considerado

justo automaticamente pelos governados, isto é, é justo aquilo que a lei estabelece. Em outras

palavras: nada será considerado justo por uma sociedade se não atender à conveniência do

mais forte. Ou seja, o que Trasímaco entende por justo é o que é aceito como justo e não o

que é justo em si, como vai propor Sócrates.

Mas

como

é

possível

que

as leis aprovadas pelo mais forte sejam aceitas e

consideradas justas automaticamente? Em 338e, Trasímaco diz que os governantes informam

aos

governados

que

aquilo que as leis determinam corresponde ao justo: “Uma vez

promulgadas essas leis, fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhes convém, e

​ ​

castigam os transgressores.”

25

45 Essa passagem abre caminho para uma segunda tese, que

identifica justiça e obediência às leis. Esta tese é elaborada por Sócrates no momento em que

ele analisa as consequências da tese anterior e Trasímaco dá o seu assentimento. 46

Esta tese tem a sua origem em uma concepção mais antiga de justiça que aparece em

Hesíodo , conforme afirma Vegetti . Ao fazer a genealogia da Eunomia - deusa da boa lei -

47

48

era irmã de Díke (deusa da Justiça) e ambas eram filhas de Zeus, Hesíodo justifica as leis

humanas com base na sua origem divina. Trasímaco vai afirmar que as cidades asseguram as

45 Rep. 338e: θέμεναι​ ​δ​ ​πέφηναντοτο​ ​δίκαιον​ ​τος​ ​ρχομένοις​ ​εναι, τ​ ​σφίσι​ ​συμφέρον

46 Rep. 339b9-11 e Rep. 339c10-12:

Assim farei - respondi -. Ora diz-me lá: não manténs que obedecer aos que governam é acto de justiça? Sim, senhor.

) ( Mas o que eles promulgaram tem de ser feito pelos súbditos, e isso é que é justiça? Como não? τατ​ ​σται, ν​ ​δ​ ​γώ. καί​ ​μοι​ ​επέ:​ ​ο​ ​κα​ ​πείθεσθαι​ ​μέντοι​ ​τος​ ​ρχουσινδίκαιον​ ​φς​ ​εναι; γωγε.

) ( ​ ​δ​ ​ν​ ​θνται​ ​ποιητέον​ ​τος​ ​ρχομένοις, κα​ ​τοτό​ ​στι​ ​τ​ ​δίκαιον; πς​​γρ​​ο;

47 HESÍODO, Teogonia, 901:

Após desposou Têmis luzente que gerou as Horas, Eqüidade, Justiça e a Paz viçosa Que cuidam dos campos dos perecíveis mortais, E as partes a quem mais deu honra o sábio Zeus, Fiandeira, Distributriz e Inflexível que atribuem Aos homens motais os haveres de bem e de mal.

48 VEGETTI, M. Trasimaco. In: La Repubblica. Tradução e comentário de Mario Vegetti. Vol. 2, Livro I. pp. 233-256. Nápoles: Bibliopolis, 1998, pp 240.

26

suas leis pela sua imposição através da força e pelo medo que os cidadãos têm de sofrer

49

injustiças .

Dessa tradição, Trasímaco herda algumas coisas e discorda de outras. Ele se apropria

da identidade entre lei e justiça quando afirma que é justo obedecer as leis, mas não estabelece

nenhuma relação entre a justiça divina e a justiça humana. Para Trasímaco, em qualquer

constituição, a fundamentação das leis não está nem nos deuses e nem em um acordo de uma

comunidade

de

cidadãos, mas no fim último de conservar o poder daqueles que as

promulgam. O “justo” é a obediência às leis porque coincide com o interesse daqueles que

querem manter o próprio poder. Como as leis já não se fundamentam nos deuses, é possível

que a justiça seja um conjunto de valores usados para justificar as leis para os cidadãos, para

que eles acreditem que eles vivem em um regime político sustentado por leis baseadas na

justiça e não um regime político sustentado pela força e baseado na conveniência do mais

forte.

Agora, é preciso discutir

o que é a conveniência

do mais

forte

-

o

que

seria

conveniente para o governante? E será que as leis realmente só trazem benefícios ao

governante e nenhum benefício, mesmo que pequeno, para os governados? Em geral, todas as

leis beneficiam alguém quando são aplicadas, mas elas beneficiam sobretudo a sociedade

como um todo, pois elas representam uma garantia de que os cidadãos seriam tratados de

maneira igual e neutra na sua aplicação. Deste modo, os primeiros beneficiários da obediência

às leis são os cidadãos, mas o beneficiário final é o governante que, por meio da obediência às

49

Rep. 344c.

27

leis, mantém o seu poder. Portanto, a conveniência do mais forte é, em alguma medida, a

manutenção do poder.

Trasímaco concorda que a justiça beneficie outras pessoas além do mais forte e

posteriormente ele defenderá formalmente que a justiça é um bem alheio (embora o

governante não seja justo, somente os súditos o são). O que Trasímaco nega, em última

instância, é que a justiça possa ser boa para o agente individualmente. A dificuldade que

Sócrates enfrentará para argumentar contra Trasímaco é mostrar que a prática da justiça pode

ser interessante para todos os cidadãos, governantes e governados.

50

Segundo Irwin , a tese da conveniência do mais forte se refere a uma sociedade

tradicionalmente obediente às leis na qual os cidadãos geralmente entendem e aceitam as

regras sociais comumente associadas à justiça: não praticar o mal, não prejudicar outro

cidadão para obter algum benefício próprio, etc. Além disso, essa tese deve ser compreendida

a partir dos seguintes tópicos: a) Trasímaco está se referindo ao comportamento obediente dos

governados e não dos governantes e b) Ele está dizendo que as leis podem até beneficiar os

cidadãos mas, em última instância, o beneficiário é a cidade como um todo. Os benefícios que

o regime político possa prover aos governados só ocorrem se eles forem úteis para gerar

algum bem para a cidade como um todo. A aplicação da lei dá legitimidade e estabilidade ao

governo e, deste modo, pode-se pensar que a observância das leis é um artifício fundamental

para a manutenção do poder do governante.

50 IRWIN. Plato’s Ethics, 1995, pp. 175.

28

Quando Trasímaco afirma que a justiça é a mesma em todas as constituições políticas

(aristocrática, oligárquica e democrática) ele se afasta da discussão ética acerca da justiça e

mostra que, do ponto de vista das relações de poder entre governantes e governados, a justiça

é sempre a mesma, mantendo sempre as mesmas relações de opressão. O modo como

Trasímaco

analisa

as

relações

de

poder

faz

delas

um

conflito

mecânico

de

forças,

quantificando a sua intensidade para então chegar a uma resultante do conflito. Na medida em

que o governante não erra na sua tarefa de usar a força para administrar a cidade de acordo

com a conveniência, as leis são promulgadas e os cidadãos obedecem às leis. Entretanto,

quando o governante começa a administrar mal o seu poder, a sua capacidade de realizar a

própria conveniência falha e ele perde o controle da cidade. Trasímaco não fala sobre essa

situação explicitamente mas, de acordo com as relações de poder descritas por ele, é possível

supor que qualquer erro cometido pelo governante pudesse resultar em perda de poder e uma

consequente deposição do governante.

A partir da análise de algumas das passagens do discurso de Trasímaco é possível

entender de que forma ocorre este conflito. O fato de o governante não poder errar mostra um

rigor na sua forma de definir o governante, mas também pode sugerir que há alguma

fragilidade no poder do governo. Se o governo é baseado na força, então existe alguma contra

a qual ele luta. O texto afirma que se o governante erra, ele não é governante

51 e, se é correto

afirmar que Trasímaco está falando sobre um conflito de forças é possível pensar que quando

o governante errar, o seu poder estará ameaçado por outros cidadãos que desejem tomar o

poder.

51

Rep. 340e-341a.

29

Há, portanto, um mecanismo interno a toda forma de poder pelo qual o mais forte

<