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O termo clone foi criado em 1903 pelo


botânico Herbert J. Webber enquanto
pesquisava plantas no Departamento de
Agricultura dos Estados Unidos. Segundo
Webber, o termo vem da palavra grega
Klón, que significa broto vegetal. É
basicamente um conjunto de células,
moléculas ou organismos descendentes de
uma célula e que são geneticamente
idênticas a célula original.

Desta forma, a clonagem é um processo de reprodução assexuada, onde são


obtidos indivíduos geneticamente iguais (microorganismo, vegetal ou animal) a
partir de uma célula-mãe. É um mecanismo comum de propagação de espécies de
plantas, bactérias e protozoários. Em humanos, os clones naturais são gêmeos
univitelinos, seres que compartilham do mesmo DNA, ou seja, do mesmo material
genético originado pela divisão do óvulo fertilizado.

 

Os clones não chamaram muita atenção durante anos,


pois a clonagem se restringia principalmente a plantas e
protozoários. Porém em 1996, um anúncio marcou a
história da genética. O escocês Ian Wilmut, do Instituto
Roslin, de Edimburgo, com a colaboração da empresa de
biotecnologia PPL Therapeutics conseguiram a proeza de
mostrar que era possível a partir de uma célula somática
diferenciada clonar um mamífero, tratava-se de uma
? ovelha da raça Finn Dorset chamada de Dolly.
Ovelha da raça Finn Dorset ?

O maior feito dos cientistas, foi fazer com que uma célula adulta se tornasse
totipotente (células-tronco) de novo. As células-tronco (ou totipotentes) possuem a
capacidade de se diferenciarem em diferentes tipos de células, em um processo
antes considerado irreversível.

Como foi realizado o processo de clonagem da ovelha Dolly?


Eles isolaram uma célula mamária congelada de uma ovelha da raça Finn Dorset de
seis anos de idade e a colocaram numa cultura com baixa concentração de
nutrientes. Com isso a célula entrou em um estado de latência parando de crescer.
Em paralelo, foi retirado o óvulo não fertilizado de uma outra ovelha, da raça
Scottish Blackface, de cor escura. Desse óvulo não fertilizado foi retirado o núcleo,
transformando-o em um óvulo não fertilizado e sem núcleo. Através de um
processo de eletrofusão ocorreu a união do núcleo da ovelha da raça Finn Dorset
com o óvulo sem núcleo da ovelha da raça Scottish Blackface, dando início à divisão
celular: uma célula em duas, duas em quatro, quatro em oito e assim por diante.

Na fase de oito a 16 células, as células se


diferenciam formando uma massa de células
internas originando o embrião propriamente dito.
Após seis dias, esse embrião, agora com cerca de
100 células, é chamado de blastocisto. O
blastocisto foi colocado no útero de uma outra
ovelha da raça Scottish Blackface que funcionou
como "barriga de aluguel". Após a gestação, esta
ovelha que é escura deu à luz um filhote
branquinho da raça Finn Dorset chamada Dolly.

Apesar do sucesso da clonagem, a técnica


apresentou alguns erros:?

A esquerda ovelha da raça Finn Dorset e a


direita ovelha da raça Scottish Blackface

A ovelha Dolly não era tão idêntica ao doador do núcleo, apesar de herdar da
ovelha branca o DNA contido nos cromossomos do núcleo da célula mamária, ela
também herdou da ovelha escura o DNA contido nas mitocôndrias, organelas que
ficam no citoplasma das células.

Com o passar do tempo foi percebido que Dolly apresentava as extremidades dos
cromossomos (telômeros) diminuída gerando envelhecimento celular precoce.
Devido ao envelhecimento, Dolly sofria de artrite no quadril e joelho da pata
traseira esquerda. Sugere-se que isto ocorra pelo fato de que ela tenha sido criada
a partir de uma célula adulta de seis anos (idade da ovelha doadora do núcleo), e
não de um embrião.

Dolly foi sacrificada aos 6 anos de idade, depois de uma vida marcada por
envelhecimento precoce e doenças. Em seus últimos dias, Dolly estava com uma
doença degenerativa e incurável nos pulmões. Os problemas de saúde de Dolly
levantam dúvidas sobre a possibilidade da prática de copiar a vida.

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A Clonagem Reprodutiva é pretendida para produzir uma duplicata de um indivíduo


existente. É utilizada a técnica chamada de Transferência Nuclear (TN): Baseia-se
na remoção do núcleo de um óvulo e substituição por um outro núcleo de outra
célula somática. Após a fusão, vai havendo a diferenciação das células Após cinco
dias de fecundação, o embrião agora com 200 a 250 células, forma um cisto
chamado blastocisto. É nesta fase que ocorre a implantação do embrião na
cavidade uterina. O blastocisto apresenta as células divididas em dois grupos:
camada externa (trofoectoderma), que vai formar a placenta e o saco amniótico; e
camada interna que dará origem aos tecidos do feto. Após o período de gestação
surge um indivíduo com patrimônio genético idêntico ao do do ador da célula
somática.

Ilustração de Sirio J. B. Cançado para o suplemento especial clonagem da


pesquisa fapesp nº 73, de março de 2002

A Clonagem "Terapêutica" é um procedimento cujos estágios iniciais são idênticos a


clonagem para fins reprodutivo, difere somente no fato do blastocisto não ser
introduzido em um útero. Ele é utizado em laboratório para a produção de células -
tronco (totipotentes) a fim de produzir tecidos ou órgão para transplante. Esta
técnica tem como objetivo produzir uma cópia sau dável do tecido ou do órgão de
uma pessoa doente para transplante.

As células-tronco são classificadas em dois tipos: células-tronco embrionárias e


células-tronco adultas. As células-tronco embrionárias são particularmente
importantes porque são multifunci onais, isto é, podem ser diferenciadas em
diferentes tipos de células. Podem ser utilizadas no intuito de restautar a função de
um órgão ou tecido, transplantando novas células para substituir as células
perdidas pela doença, ou substituir células que não funcionam adequadamente
devido a um defeito genético (ex.: doenças neurológicas, diabetes, problemas
cardíacos, derrames, lesões da coluna cervical e doenças sangüíneas). As células-
tronco adultas não possuem essa capacidade de se transformar em qualquer tecido.
As células musculares vão originar células musculares, as células de fígado vão
originar células de fígado, e assim por diante.

Esta técnica esbarra numa delicada questão: após a coleta das células, o embrião
seria descartado. Seria lícito matar uma vida para salvar outra? Mas, afinal, quando
começa mesmo a vida?

Ilustração de Sirio J. B. Cançado para o suplemento especial clonagem da


pesquisa fapesp nº 73, de março de 2002

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1894 ± O zoologo alemão Hans Dreisch trabalhando com ouriços-do-mar pegou um


embrião de duas células e sacudindo dentro de um béquer cheio de água do mar
fez com que as células se separassem, dando origem a dois ouriços adultos.

1902 ± O embriologista Hans Spemman usou um fio de cabelo de seu filho como
uma faca para separar um embrião de salamandra, também dando origem a dois
indivíduos.

1952 ± Robert Briggs e Thomas King realizaram a primeira clonagem de sapos a


partir de células embrionárias.
1970 ± Feitas pesquisas em embriões de ratos e, nove anos depois, com ovelhas

1981 ± Clones de ratos a partir de células embrionárias.

1986 ± Clonagem de cordeiros a partir de células embrionárias do mesmo animal

1993 ± A expressão "clonagem humana" começou a ser divulgada com maior


intensidade

1995 ± Clonagem de duas ovelhas a partir de células embrionárias de 9 dias


chamadas de "Megan" e "Morag"

23 de fevereiro de 1997 - O Instituto Roslin, na Escócia, revela ao mundo o


primeiro clone de um mamífero adulto. A ovelha Dolly tinha sete meses.

24 de maio de 1997 - Os escoceses apresentam um novo clone de ovelha que


demonstra mais claramente como a técnica pode ser usada para beneficiar a saúde
humana. Polly tinha um gene humano, o que a fazia produzir uma proteína usada
no combate da fribrose cística.

5 de julho de 1998 - Pesquisadores japoneses apresentam os primeiros clones de


vacas adultas. Eles nasceram no Instituto de Pesquisa do Gado de Ishikawa.

22 de julho de 1998 - A Universidade do Havaí anuncia a realização de "clonagem


em série": clones de clones de camundongos, criando três gerações idênticas.

12 de novembro de 1998 - A empresa americana Advanced Cell Technology dá seu


primeiro susto na comunidade científica ao anunciar que, em 1996, introduzira DNA
humano em um óvulo de vaca sem núcleo. O embrião resultante foi destruído.

26 de abril de 1999 - É anunciado nos EUA o nascimento dos primeiros clones de


cabras adultas - e já com um gene humano para produção de uma proteína
específica no leite.

26 de maio de 1999 - Os criadores de Dolly anunciam que ela tem sinais de


envelhecimento precoce. Até hoje, não foi possível vincular com precisão o
fenômeno à clonagem, mas o episódio lançou enormes dúvidas sobre a segurança
da técnica.

14 de março de 2000 - Cinco porquinhos nascidos nos EUA são apresentados como
o primeiro passo para a criação de suínos capazes de fornecer órgãos para
transplantes. Millie, Christa, Alexis, Carrel e Dotccom eram clones de porcas
adultas.

8 de janeiro de 2001 - Nasce o primeiro clone de um animal ameaçado de extinção,


um gauro, tipo de gado asiático, que morreu dias depois.

17 de março de 2001 - A bezerra Vitória coloca o Brasil na linha de frente da


pesquisa de clonagem. Clone de um embrião, a vaca nasceu em um laboratório da
Embrapa. Nenhum outro país em desenvolvimento havia feito tal avanço desde
então.

7 de agosto de 2001 - A Academia Nacional de Ciências dos EUA promove uma


audiência com os três mais notórios defensores da clonagem humana para fins
reprodutivos: os médicos Severino Antinori e Panos Zavos e a química Brigitte
Boisselier, diretora da Clonaid, dizem que o primeiro clone humano não vai
demorar muito a nascer.

28 de setembro de 2001 - A Itália anuncia a primeira clonagem bem-sucedida de


um animal ameaçado de extinção: uma ovelha mouflon.

25 de novembro de 2001 - A empresa Advanced Cell Technology desencadeia uma


gigantesca polêmica ao anunciar que produzira embriões humanos a partir de
clonagem. A empresa diz que não tem intenção de usar a técnica para fins
reprodutivos e, sim, para cura de doenças.

4 de janeiro de 2002 - O Instituto Roslin comunica que Dolly tem artrite, mais um
possível sinal de envelhecimento precoce.

2 de fevereiro de 2002 - A PPL Therapeutics, empresa fundada nos EUA pelos


criadores de Dolly, apresenta novos clones de porcos. Desta vez, sem um gene
responsável pela rejeição de órgãos suínos quando transplantados para pessoas.
Um dia depois, a Universidade do Missouri, diz ter obtido o mesmo avanço.

14 de fevereiro 2002 - A Universidade A & M do Texas apresenta a gatinha Cc, o


primeiro clone de um animal de estimação. Ela nascera em dezembro de 2001,
após 188 tentativas.

27 de fevereiro de 2002 - Cientistas da Universidade de Cincinnati anunciam da


descoberta que clones de camundongos apresentam tendência a engordar, como
Dolly.

6 de março de 2002 - O "Wall Street Journal" publica uma reportagem em que uma
pesquisadora chinesa respeitada - Lu Guangxiu, Escola de Medicina de Xiangya - diz
ter produzido dezenas de embriões humanos por clonagem desde 1999.

31 de março de 2002 - Franceses aproveitam a Páscoa para contar que


conseguiram criar clones de coelhos a partir de células de animais adultos.

Abril de 2002 - Severino Antinori diz em uma conferência médica em Dubai, nos
Emirados Árabes, que uma mulher estava na oitava semana de gestação de um
clone.

11 de abril de 2002 - Em uma reação ao anúncio de Antinori, a empresa Clonaid diz


já ter implantado no útero várias mulheres embriões produzidos a partir de
clonagem.

28 de maio de 2002 - Cientistas do Museu Australiano anunciam um projeto para


criação do primeiro clone de um animal extinto - o tigre da Tasmânia - e dizem já
ter DNA de um exemplar em boas condições para lançar a empreitada.

11 de julho de 2002 - Nasce a bezerra Penta, o primeiro clone de um animal adulto


produzido no B rasil. Ela morreu de infecção generalizada, cinco semanas depois.

6 de novembro de 2002 - Pesquisadores americanos dizem ter produzido embriões


de camundongos a partir de células de tumores malignos. Os embriões não
apresentaram traço da doença.

26 de novembro de 2002 - Severino Antinori vem a público anunciar para janeiro


de 2003 o nascimento de um clone humano. Se a promessa se cumpriu, Antinori
não contou.

27 de dezembro - A empresa Clonaid, ligada à seita Movimento Raeliano, anuncia o


nascimento - até hoje não comprovado - de uma menina chamada Eva, o primeiro
clone humano. Outros clones dos raelianos teriam nascido depois disso, segundo a
empresa.

14 de fevereiro de 2003 - A ovelha Dolly, primeiro clone de um mamífero adulto e


marco da ciência, morreu nesta sexta-feira, aos 6 anos, anunciaram seus criadores
no Instituto Roslin, em Edimburgo, na Escócia. Veterinários deram à ovelha mais
famosa do mundo uma injeção letal, depois de descobrir sinais de uma doença
pulmonar progressiva. A necropsia revelou que Dolly teve câncer.

Maio de 2003 - Cientistas da Universidade de Idaho apresentam o primeiro clone de


um eqüilo, a mula Idaho Gem.

12 de maio de 2003 - Nasce o primeiro clone de um clone no Brasil. A bezerra


Vitória Segunda morreu 36 horas depois de seu nascimento, em uma fazenda da
Embrapa, em Brasília. Ela havia aspirado líquido na hora do parto e acabou tendo
pneumonia.

6 de agosto de 2003 - Cientistas italianos anunciam a criação do primeiro clone de


um cavalo adulto. Prometea, que nasceu com 36 quilos e muita saúde no dia 28 de
maio, após uma gestação normal, é uma cópia da égua que a deu à luz.

4 de setembro de 2003 - Nasce a bezerra Lenda, da Embrapa, clone de uma vaca


valiosa, que morrera meses antes.

11 de dezembro de 2003 - A Câmara Baixa do Parlamento francês aprova um


projeto de lei que torna a clonagem reprodutiva humana um crime contra a
humanidade, suscetível de punição com 30 anos de prisão e multa de 7,5 milhões
de euros.

16 de dezembro de 2003 - Cientistas da Advanced Cell Technology anunciam que


conseguiram repetir a produção de embriões humanos por clonagem e que eles
alcançaram o estágio de 16 células.

17 de janeiro de 2004 - O especialista em fertilização Panos Zavos anuncia que


implantou um embrião humano produzido por clonagem no útero de uma mulher. A
experiência não resultou em gravidez.

5 de fevereiro de 2004 - Nasce a bezerra Vitoriosa, cópia da vaca Vitória, primeiro


clone do Brasil. O nascimento foi anunciado duas semanas depois.

12 de fevereiro de 2004 - Cientistas sul-coreanos anunciam que produziram uma


linhagem de células-tronco pluripotentes a partir de dezenas de embriões
produzidos a partir de clonagem.

30 de maio de 2004 - Morre a bezerra Vitoriosa. A hipótese mais provável foi um


ataque do coração.

Dezembro de 2004 - A empresa americana Genetic Savings & Clone apresenta o


primeiro clone de estimação feito por encomenda, o gato Little Nick, que custou
US$ 50 mil.

26 de fevereiro de 2005 - Nasce Pieraz-Cryozootech-Stallion, primeiro clone de um


cavalo campeão castrado.

19 de maio de 2005 - Cientistas da Universidade Nacional de Seul anunciam a


obtenção de várias linhagens de células-tronco, a partir de clonagem. As linhagens
pertencem a nove pacientes - homens, mulheres e crianças.

3 de agosto de 2005 - O grupo da Universidade Nacional de Seul volta a fazer


história, apresentando o primeiro clone de um cão.




 

±? Técnica de baixa eficiência.??


±? Vários fetos morrem durante a gestação ou logo após o nascimento. ??
±? Grande número de anomalias??
±? Envelhecimento Precoce??

±? Os clones seriam maiores do que o normal, denominado de síndrome do


filhote grande (large offspring syndrome ± LOS)??
±? Lesões hepáticas, tumores, baixa imunidade. ??



 

±? Utilização da técnica de clonagem para obtenção de células tronco a fim de


restautar a função de um órgãos ou tecido. ??
±? A clonagem "terapêutica" teria a vantagem de não oferecer riscos de
rejeição se o doador fosse a própria pessoa. (ex.: reconstituir a medula em
alguém que se tornou paraplégico após um acidente, ou substituir o tecido
cardíaco em uma pessoa que sofreu um infarto).??
±? Diminuição ou fim do tráfico clandestido de órgãos ??
±? Ajudar casais inférteis que não podem ter filhos, mesmo após anos de
tratamento de infertilidade. ??
±? Melhoramento animal, resgate de material genético, maximização do
potencial genético de uma raça.??

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A clonagem tem causado inflamadas discussões em toda sociedade,


principalmente quando essa técnica, já empregada em bactérias, plantas e
animais, passou a vislumbrar o ser humano. Originada da palavra grega ü 
que significa broto vegetal, essa técnica é basicamente uma forma de
reprodução assexuada (sem a união do óvulo e do espermatozóide) e que
origina indivíduos com genoma idêntico ao do organismo provedor do DNA. A
medida que a técnica foi se aproximando da árvore geneológica da evolução
humana passou a representar uma ameaça dada a possibilidade de serem
geradas crianças idênticas ao pai ou a mãe.?

A idéia de clonagem surgiu em 1938 quando Hans Spermann, embriologista


alemão (Nobel de Medicina, 1935) propôs um experimento que consistia em
transferir o núcleo de uma célula em estágio tardio de desenvolvimento para
um óvulo. Em 1952, Robert Briggs e Thomas King, da Filadélfia, realizam a
primeira clonagem de sapos a partir de células embrionárias. Em 1984, Steen
Willadsen da Universidade de Cambridge clonou uma ovelha a partir de células
embrionárias jovens. Um grupo de pesquisadores da Universidade de Wisconsin
clonou uma vaca a partir de células embrionárias jovens do mesmo animal
(1986). Em 1995, Ian Wilmut e Keith Campbell, da estação de reprodução
animal na Escócia, partiram de células embrionárias de 9 dias para clonar duas
ovelhas idênticas chamadas de "Megan" e "Morag". No ano seguinte surgiu
"Dolly", clonada pelas mãos destes mesmos pesquisadores a partir de células
congeladas de uma ovelha. Esta foi a grande inovação - e que criou a grande
repercussão do caso-, um clone originado não de uma célula embrionária, mas
sim de uma célula mamária. Em 1997, Dolly teria seu nascimento anunciado,
sendo o marco de uma nova era biotecnológica.?

Posteriormente à ovelha mais famosa do mundo surgiram clones de bezerros,


cabras, camundongos, porcos e macaco rhesus. Hoje a corrida tecnológica da
clonagem tem como países líderes os Estados Unidos, Escócia, Inglaterra,
Japão, Nova Zelândia e Canadá.?

Os procedimentos mais utilizados em animais e que começam a ser usados em


clonagem de humanos são dois: um deles consiste em utilizar o material
genético (núcleo) extraído de uma célula não reprodutiva ou somática (diferente
do óvulo ou espermatozóide) de um indivíduo e inse ri-lo em um óvulo cujo
núcleo com DNA tenha sido retirado. Essa célula pode ser originada de um
embrião, feto ou adulto que estejam vivos, mantidos em cultura em um
laboratório ou de tecido que esteja congelado.?

A outra técnica consiste na fusão de uma célula inteira com um óvulo sem
material genético. Foi essa justamente a técnica utilizada em Dolly. Sua fase
crítica - em que o experimento pode não dar certo -se dá na etapa de fusão das
células, feita através de corrente elétrica ou com um vírus chamado  
(veja esquema abaixo).?

Ô As células somáticas são retiradas do doador ´ Essas células são cultivadas


em laboratório  De uma doadora colhe-se um óvulo não fertilizado  O
núcleo contendo DNA é retirado do óvulo  A célula cultivada é fundida ao
óvulo por meio de corrente elétrica  Agora temos o óvulo fertilizado com nova
informação genética  Este óvulo vai se desenvolver até a fase de blástula
(embrião com mais de 100 células) onde estão as células tronco.?

A clonagem de animais no Brasil foi iniciada em março de 2001 com o


nascimento de Vitória, uma bezerra da raça simental desenvolvida pela equipe
de Rodolfo Rumpf, coordenador do projeto de biotecnologia de reprodução
animal da Embrapa. De lá pra cá, nenhum outro animal foi clonado, embora
alguns grupos venham desenvolvendo pesquisa, principalmente em clonagem
de bezerros. Esses animais são escolhidos por terem apelo comercial e por
terem um período de gestação longo o que gera, normalmente, apenas um
indivíduo. O fato de originar, através dos métodos naturais, apenas um
indivíduo por gestação dificulta a perpetuação de algumas características que
são interessantes para o comércio, como por exemplo uma maior produção de
leite ou a alta taxa de músculos. A clonagem de bovinos poderia facilitar a
reprodução de animais com certas características genéticas. Para os galináceos,
que podem se reproduzir em um período curto de tempo e gerar inúmeros
indivíduos, a clonagem não seria tão interessante.?

Mas existe também a possibilidade de animais serem clonados para fins


terapêuticos, servindo para a experimentação ou visando a produção de órgãos
compatíveis com o ser humano - animais poderiam ser, um dia, produzidos em
série para transplantes. Algumas empresas, como a Advanced Cell Technology
(ACT), a mesma que alegou ter clonado o primeiro embrião humano da história,
já dispõe de um banco de tecidos para quem quiser guardar amostras de seu
bichinho de estimação ou de animais com grande potencial pecuário. Quando a
técnica de clonagem estiver bem estabelecida esse material poderia ser
utilizado. ?

A idéia de produzir clones de animais de estimação por enquanto só é possível


em filmes como à   , estrelado por Arnold Schwarzenegger. Na história,
o cachorro do personagem de Schwarzenegger é clonado por uma empresa
chamada    especializada em animais de estimação. ?

No entanto, bancos como esses começam a ser formados também para animais
em extinção como o Centro de Reprodução de Espécies em Extinção do
Zoológico de São Diego (EUA) e o Centro para Pesquisa de Espécies em
Extinção do Instituto Audubon (EUA). A idéia é que, no futuro, o material
genético de animais ameaçados de desaparecer possa ser usado para cloná-los
e reproduzí-los. ?

A ACT chegou a clonar, em 2000, um gauro, espécie em extinção semelhante


ao boi, natural da Índia, Indoshina e parte da Ásia. O animal fora clonado a
partir de células da pele de um gauro fundidas com óvulos de vacas. Mas após
nove meses de gestação o animal morreu, pouco depois de nascer, devido a
complicações no sistema respiratório.?

A espectativa é que a clonagem seja a única alternativa para recuperar espécies


já extintas como o tigre da Tasmânia (desaparecido desde 1930) e o bode
bucardo da montanha (desaparecido desde 2000). Outras espécies em vias de
extinção como a ararinha-azul, o mico-leão-dourado, o peixe-boi, o pirarucú, a
sussuarana, o lobo-guará, a lontra e o tamanduá-bandeira também poderiam
ser clonados. Existe, porém, a preocupação para que o material armazenado
desses animais tenha variabilidade genética para que não sejam originadas
populações tão homogêneas que correriam o risco de serem dizimadas por vírus
e bactérias. O armazenamento de amostras de células do maior número de
animais de uma espécie que ainda estejam disponíveis no mundo, poderia
garantir indivíduos com menor igualdade genética.?

Atualmente, é impossível utilizar DNA extraído de organismos preservados em


âmbar (como sugere o filme de Steven Spielberg à    ), de
células congeladas em condições diferentes às exigidas por condições
laboratoriais, células de cadáveres ou de material fossilizado.?

Entre os grupos brasileiros atuantes no campo da clonagem animal estão,


segundo Rodolfo Rumpf, da Embrapa, o coordenado por José Antônio Visintin na
Veterinária da USP; o de Joaquim Mansano Garcia na Unesp de Jaboticabal; o
de Flávio Meireles na USP de Pirassununga e outros que ainda estão se
estruturando, além do grupo liderado pelo próprio Rumpf. Entre os que estão
em processo de estruturação está o grupo liderado por Reginaldo Fontes na
Universidade Estadual Norte Fluminense, o coordenado por Otávio M. Ohashi na
Universidade Federal do Pará, e grupos no Rio Grande do Sul.?

No que se refere à clonagem humana, os maiores benefícios esperados pela


comunidade científica estão no campo da terapia de órgãos e tecidos. É através
dessa técnica que pesquisadores esperam estudar as chamadas células-tronco
(células primordiais no embrião que têm multipotencialidade para gerar os mais
de 200 tipos celulares do nosso corpo) que poderiam gerar células cardíacas,
hepáticas, hemácias, epiteliais e resolver ou amenizar problemas causados por
enfarto, cirrose, leucemia e queimaduras da pele. Embora a impressão que se
tem através dos jornais é que esse processo é relativamente simples, Paulo
Marcelo Perin, do Centro de Reprodução Humana de Campinas, garante que a
técnica ainda não existe: "não sabemos o que vai ser necessário para
reconstituir um rim inteiro".?

No Brasil, muito se tem feito no ramo de pesquisas com células-tronco adultas,


extraídas do cordão-umbilical de bebês ou da nossa medula mas, segundo
informa Perin, essas células já sofreram algum processo de diferenciação e,
portanto, têm potencial restrito para se transformarem em outros tipos
celulares. Por isso as células-tronco cultivadas a partir de células retiradas de
embriões despertam mais interesse, embora sejam muito mais polêmicas. "Esse
é o grande dilema ético, porque estaríamos produzindo embriões
exclusivamente para fins terapêuticos", explica Perin. O que é vida para grupos
religiosos é apenas um emaranhado de células para os cientistas.?

Mas a polêmica mais efervescente é aquela que permeia a reprodução humana.


Se ela hoje depende fundamentalmente de um espermatozóide e um óvulo,
poderá se tornar independente ao ponto de qualquer célula de nosso corpo
poder fecundar um óvulo e gerar um descendente. Claro que contando com o
auxílio de um bom laboratório e alguns milhares de reais. Para Perin, a
clonagem humana parece interessante para casais que não produzem células
reprodutivas (óvulos ou espermatozóides). Ele acredita que as técnicas de
clonagem serviram muito mais para resolver outros problemas de fertilidade do
que para gerar cópias de seres humanos. Cita como exemplo uma técnica
realizada por um grupo de pesquisadores do Centro de Monash, na Austrália,
que a partir de uma célula somática de um camundongo (que poss ui dois
conjuntos de cromossomos ao invés de apenas um como em uma célula
reprodutiva), deixou apenas um conjunto de cromossomos e fertilizou um
óvulo, de uma doadora da mesma espécie, com a célula que funcionou como
um espermatozóide. ?

A técnica de clonagem ainda está em aperfeiçoamento. A alta taxa de


mortalidade em experimentos com animais - cerca de 90% -, diagnósticos pré-
implantacionais (antes do útero) e pré-natais, ainda em definição, alarmam
para o fato de ninguém saber determinar a normalidade dos embriões. "Do
ponto de vista científico a clonagem humana é inevitável, mas não sei se a
sociedade como um todo vai permitir que isso aconteça, porque a ciência
avança e não pensa nas consequências, o avanço é feito. Mas quem impõe os
limites é a sociedade. Os aspectos jurídicos, morais, religiosos vão ser
determinados pela sociedade", conclui Perin.?