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3ª VARA DO TRABALHO DE CUIABÁ

ACP 0000246-30.2017.5.23.0003

AUTOR: MINISTERIO PUBLICO DO TRABALHO DE


MATO GROSSO
RÉU: TELEVISAO CIDADE VERDE S/A

SENTENÇA

I – Relatório

O MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO –


PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 23ª
REGIÃO ajuizou, em 10.03.2017, AÇÃO CIVIL PÚBLICA
em desfavor de , aduzindo, em apertada síntese, que a ré
TELEVISÃO CIDADE VERDE S/A não
está promovendo os pagamentos salariais de seus empregados em
conformidade com a legislação trabalhista, de igual sorte, vem
vulnerando diversos preceitos normativos, motivo pelo qual
requer a condenação do ré nas obrigações de fazer e não fazer
indicada na petição inicial, bem como no pagamento de
indenização por dano moral coletivo.

A ré, após regularmente notificada, apresentou contestação


ID906f6ce, refutando todas as alegações autorais.
O Parquet apresentou impugnação, consoante ID46f6a24.
Sem outras provas, encerrou-se a instrução processual.
Razões finais remissivas e prejudicada as propostas conciliatórias.
É, no que importa, o relatório.
Decido.

II. Fundamentação.
2.1 MÉRITO. TUTELA COMINATÓRIA DE OBRIGAÇÃO DE
FAZER E PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANO MORAL
COLETIVO
O autor alega, que no uso de suas atribuições institucionais,
instaurou o Inquérito Civil Público nº. 1150.2016 em face da
empresa ré, afim de se investigar a ocorrência de atraso
no pagamento de salários.
Relata que muito embora a ré tenha sido notificada em 16.12.16 a
apresentar os comprovantes de pagamento de salário em todos os
empregados, nos últimos três meses, a ré apresentou digitalmente
documentos ilegíveis. Foi designada uma audiência em
09.02.2017 onde foi deferido prazo para reapresentação dos
comprovantes de pagãmente de salário dos meses de
novembro/16, dezembro/16 e janeiro/17, bem como das parcelas
da gratificação natalina, todavia, os documentos novamente
apresentados pela ré também não possibilitaram identificar com
clareza a data do respectivos pagamento das verbas. Assevera que
foi designado prazo para até 09.03.2017 para que a ré se
manifestasse sobre o Termo de Ajustamento de Conduta
apresentado pelo MPT, bem como para que apresentasse dos
comprovantes de pagamentos salariais referentes a fevereiro de
2017, sendo que apesar de ter manifestado sua discordância com
os termos do TAC não comprovou o pagamento do salário de
fevereiro de 2017.
Posto isso o Parquet propôs a presente Ação Civil Pública com o
objetivo de objeto tutela cominatória com as obrigações de fazer e
não fazer indicadas no rol de pedidos, bem como condenação da
ré ao pagamento de indenização por dano moral coletivo.

Decido.

Tendo em vista que a ré não logrou comprovar que os


pagamentos salariais (de novembro de 2016, dezembro de 2016,
janeiro de 2017 e fevereiro de 2017, bem como gratificação
natalina de 2016) foram feitos tempestivamente, uma vez que as
fichas financeiras coletivas ID8eb0e6e, 6a08a6d e b6f5f63, não
comprovam a efetiva data de sua quitação, o que ao meu sentir
seria ônus da ré, pois nos termos da Consolidação das Leis do
Trabalho, art. 464, o salário se prova contra recibo, condeno a ré a
cumprir as seguintes obrigações de fazer:

a) Efetuar o pagamento do salário mensal até o 5º (quinto) dia útil


do mês subsequente ao vencido;
b) Abster-se, enquanto estiver em débito salarial, de pagar
honorário,gratificação, "pro labore" ou qualquer outro tipo de
retribuição ou retirada a seus diretores, sócios ou
gerentes;

c) Abster-se, enquanto estiver em débito salarial, de distribuir


quaisquer lucros, bonificações, dividendos ou interesses a seus
sócios, titulares, acionistas, ou membros de órgãos
dirigentes, fiscais ou consultivos;

d) Abster-se, enquanto estiver em mora contumaz relativamente a


salário, na forma do Decreto-Lei 368/68, de ser favorecida com
qualquer benefício de natureza fiscal, tributária, ou financeira, por
parte de órgãos da União, dos Estados ou dos Municípios, ou de
que estes participem,salvo operações de crédito destinadas à
liquidação dos débitos salariais existentes, o que deverá ser
expressamente referido em documento firmado pelo responsável
legal da empresa, como justificação do crédito;

e) Efetuar o pagamento da 1ª parcela do 13º salário até o dia 30 de


novembro de cada ano;

f) efetuar o pagamento da remuneração das férias, inclusive o


acréscimo de um terço e, se for o caso, o abono pecuniário, até 2
dias antes do início do respectivo período concessivo; e

g) efetuar ao empregado prejudicado o pagamento em dobro da


remuneração das férias, quando estas não forem pagas no prazo
legal.

O não cumprimento pela ré das obrigações de fazer acima


deliberadas, acarretará multa no valor de R$500,00 por
trabalhador prejudicado ou por infração (pagamento indevido,
repasse indevido ou benefício auferido). Oficie-se a
Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado de
Mato Grosso (SRTE/MT) para que promova fiscalização, com
maior brevidade possível, se a ré está cumprindo a presente
sentença.
O dano moral pode ser conceituado como a lesão que atinge a
esfera extrapatrimonial de uma pessoa, com violação a sua
intimidade, vida privada, honra e imagem, bensjurídicos que são
tutelados pela Constituição de 1988. Na seara trabalhista, revela-
se no excesso, no abuso, no tratamento humilhante sofrido pelo
empregado.
Doutrina e jurisprudência discutiram por longo período a
possibilidade de dano moral a pessoa jurídica, restando o tema,
atualmente, pacificado com a edição da Súmula nº 227 do STJ.
Outra discussão sobre o tema retoma os palcos jurídicos, agora
acerca da configuração do dano moral coletivo e sua reparação,
em especial no segmento justrabalhista.
O conceito de dano moral coletivo ultrapassa a ideia inicial de
dor, sofrimento, humilhação que o artigo 5º, incisos V e X, da
Constituição da República de 1988 traz, carregando em sua
definição outros elementos que atingem um grupo, ou uma
coletividade, como a lesão imaterial ambiental e os direitos e
interesses individuais da coletividade, previstos na Lei da Ação
Civil Pública, bem como no Código de Defesa do Consumidor.
A reparação pela ofensa moral coletiva é tutelada desde a Lei nº
4.717/65 (Ação Popular, artigos 1º e 11), pela Lei nº 6.938/81
(Política Nacional do Meio-Ambiente); Lei nº 8.881/94 (Abuso
do Poder Econômico), pela Lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do
Consumidor) e Lei nº 7.347/85 (Ação Civil Pública), que trazem
regras mais concretas sobre o tema.
O I. Jurista Carlos Alberto Bittar Filho, em texto publicado no
Repositório de Jurisprudência do IOB (in Pode a Coletividade
Sofrer Dano Moral? Jurisprudência 3/12/290) define o dano moral
coletivo como sendo:(...) a injusta lesão da esfera moral de uma
dada comunidade, ou seja, é a violação antijurídica de um
determinado círculo de valores coletivos. Quando se fala em dano
moral coletivo, está-se fazendo menção ao fato de que o
patrimônio valorativo de uma certa comunidade (maior
ou menor), idealmente considerado, foi agredido de maneira
absolutamente injustificável do ponto de vista; que isso dizer, em
última instância, que se feriu a própria cultura, em seu aspecto
material.
Com efeito, não há no ordenamento qualquer óbice à
configuração e a reparação do dano moral coletivo. As
disposições legais e constitucionais sobre o tema abrangem toda
ofensa ao nome, imagem, honra, dignidade, moral das pessoas
naturais, jurídicas e da coletividade.
O Procurador do Trabalho, Xisto Thiago de Medeiros Neto, em
obra sobre o tema, leciona que: "na atualidade, o reconhecimento
e a efetiva reparação dos danos morais coletivos constituem umas
das formas de alicerçar o Estado Democrático de Direito".(in
Dano Moral Coletivo, 2004, LTr, SP). Como exemplos de dano
moral coletivo na seara trabalhista, ele aponta: exploração de
crianças e adolescentes no trabalho; submissão de grupos de
trabalhadores a condições degradantes, a serviço forçado, em
condições análogas à de escravo, ou mediante regime de servidão
por dívidas; descumprimento de normas trabalhistas básicas de
segurança e saúde e prática de fraudes contra grupos
ou categorias de trabalhadores.
A reparação do dano moral coletivo tem por objetivo prevenir a
ocorrência de danos morais individuais, facilitar o acesso à
justiça, à ordem jurídica justa, bem como assegurar a proteção da
moral coletiva e da própria sociedade.
Seu fundamento pode ser encontrado no próprio artigo 5º, inciso
X, da CRFB/88 que se refere a "pessoas", no plural, ou seja,
transcende o plano individual atingindo o coletivo.
Como se sabe, a lei não contém palavras inúteis e, em se tratando
de direito fundamentais, deve ser conferida a interpretação que
melhor eficiência caiba ao texto constitucional (princípio da
máxima eficiência).
Essa compensação também possui alicerce nos princípios da
dignidade da pessoa humana; da construção de uma sociedade
livre, justa e solidária; garantia do desenvolvimento
nacional e promoção do bem de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de
discriminação, prevalência dos direitos humanos, no valor social
do trabalho e da proteção ao emprego, cidadania e na boa-fé.
O dano extrapatrimonial coletivo atinge o direito de personalidade
de caráter difuso, que se configura na união de um grupo, na
comunhão de interesses difusos e na indivisibilidade de garantias
e interesses violados, envolvendo a coletividade
indiscriminadamente.
A sua prova é perceptível pelo senso médio comum, sendo
inerente à natureza humana, por isso, dispensa a produção de
prova () de sua caracterização damnun in re ipsa efetiva no plano
individual. Aliás, os conceitos de valor coletivo, da moral coletiva
são independentes, autônomos, desvinculados da moral
individual.
A par dessas considerações, na hipótese, houve prova do dano
coletivo. O autor trouxe prova robusta de que a ré descumpre
preceitos trabalhistas inerentes à subsistência de seus empregados,
desrespeitando princípios como o valor social do trabalho e a
dignidade da pessoa humana, uma vez que não estava cumprindo
normas básicas, pois não estava pagando as verbas salariais no
prazo legal.
O atraso no pagamento de salários e as demais condutas
omissivas indicadas na petição inicial materializam o
descumprimento, por parte da ré, da legislação que rege as
relações de trabalho. Não há dúvida de que tal conduta configura
ato ilícito, pois priva os trabalhadores do meio de subsistência e
autoriza supor que enfrentaram transtornos de ordem econômica e
moral. Ao agir assim, o empregador demonstra total desapreço
pela pessoa do empregado e menosprezo aos valores
sociais do trabalho, consagrados pelo artigo 1º, IV, da
Constituição Federal. Evidencia-se ofensa à dignidade humana e à
honra subjetiva dos trabalhadores tendo em vista que colocados
em situação de penúria financeira e econômica por não dispor dos
haveres trabalhistas que lhe são assegurados pela legislação.
O mal foi causado ao grupo que se viu privado de direitos
básicos, bem como à coletividade que conviveu com esse
sentimento de desapreço. A transgressão ao ordenamento
jurídico se configurou e a reparação é devida, como compensação
pelo dano sofrido e para punir o agressor de forma educativa para
que não seja estimulado a praticar condutas semelhantes.
A atitude antijurídica da ré que procura fraudar as relações de
trabalho, notadamente ao desrespeitar o princípio da proteção do
salário (art. 7º, X, CRFB), direito fundamental, viola direito
indisponível básico da classe trabalhadora, caracterizando ofensa
aos direitos transindividuais de toda a coletividade trabalhadora,
bem como da própria sociedade, que é diretamente afetada pela
sensação de insegurança jurídica daí advinda.
A conduta da ré é lesiva aos interesses dos trabalhadores, sendo
observadas violações aos mais variados direitos assegurados no
ordenamento jurídico vigente, voltados à proteção e valorização
do trabalho e ao respeito da dignidade da pessoa humana.
Nessas linhas de consideração, arbitro o dano moral coletivo em
R$50.000,00 (cinquenta mil reais), corrigidos monetariamente e
acrescidos de juros de mora na forma da Súmula nº 439, TST, a
ser revertido a Instituição Filantrópica, cujo objeto social seja a
reconstituição dos bens lesados na presente causa, a ser deliberada
por este Juízo em sede de eventual execução.

III. Dispositivo

Posto isso, nos autos de AÇÃO CIVIL PÚBLICA n.


00000246-30.2017.5.23.0003 interposta pelo autor
MINISTÉRIO PÚBLICO DO TRABALHO -
PROCURADORIA GERAL DO TRABALHO DA 23ª REGIÃO
em desfavor da ré TELEVISÃO CIDADE VERDE S/A , no
mérito, resolvo julgar os pedidos PARCIALMENTE
PROCEDENTES formulados na petição inicial para determinar
que a ré promova o cumprimento das obrigações de fazer
indicadas na fundamentação, bem como para condenar a ré ao
pagamento de indenização por dano moral coletivo.
Tudo na forma da fundamentação supra, que integra o presente
dispositivo para todos os efeitos legais.
Custas processuais no importe de R$1.000,00, a ser quitado pela
ré, calculadas sobre o valor provisoriamente arbitrado à
condenação de R$50.000,00.

CUIABA, 24 de Agosto de 2017


DAYNA LANNES ANDRADE
Juiz(a) do Trabalho Substituto(a)

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