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1º Bloco O que são memórias literárias?

Você acabou de conhecer um texto de memórias literárias. Nele são evidenciados sentimentos,
emoções e impressões sobre os acontecimentos vividos pelo morador de uma pequena cidade que lá
nasceu, cresceu e quando garoto trabalhou como engraxate.

Note como a autora assume a voz de seu entrevistado. Para ocupar esse lugar, escreve em primeira
pessoa. Observe que não se limita a transcrever o que o entrevistado lhe contou, assim como não
realiza um simples reconto do que ouviu durante a entrevista.

Na verdade, ela reinterpreta e recria a história, com um texto de natureza literária. Mais que retomar
o passado em que o entrevistado viveu, ela narra literariamente a história, e para isso se desdobra
em autora e autora-personagem, faz referências a objetos e sensações, descreve lugares, compara o
passado com o presente.
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“Memórias literárias geralmente são textos produzidos por escritores que, ao rememorar o
passado, integram ao vivido o imaginado”.
Caderno do professor “Se bem me lembro...”, p. 19.
Ao (re)criar a história e utilizar a linguagem para provocar sentidos especiais, produzir imagens e
sensações, ressaltar detalhes, a autora proporcionou ao leitor uma experiência estética. Os efeitos de
sentido particulares que ela obteve pela mobilização de tais recursos linguísticos garantem a
singularidade do texto e, portanto, a natureza literária das memórias que narra.
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Para conhecer um pouco mais, ouça um trecho do livro Transplante de menina, de Tatiana Belinky.
Deixe-se levar pelo modo como a escritora narra suas impressões sobre o carnaval do Rio de
Janeiro, descrevendo com detalhes a Avenida Rio Branco, o desfile dos carros, as multidões, a forma
como as pessoas se vestiam.
Ouça o trecho do livro “Transplante de menina”.
Note como o texto provoca a impressão de estarmos ao lado de Tatiana, assistindo ao desfile e
partilhando suas emoções. A autora obtém esse efeito pela manipulação da linguagem: escolha de
palavras, emprego de adjetivos, arranjo de frases, imagens utilizadas etc. Claro que importa o que
ela conta, mas é o modo como conta que nos provoca aquela impressão, tornando esse texto único e
singular, em outras palavras, literário.
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Atividade 1
Leia as afirmações e clique em V (Verdadeira) ou F (Falsa), com base em seu
conhecimento sobre o gênero memórias literárias. Ao final de cada proposta, clique em
“Resultado” para conferir as respostas da equipe do Programa Escrevendo o Futuro.

1. O objetivo do texto de memórias literárias é:


a) Publicar a história íntima e particular de um antigo morador.
b) Realizar um registro fiel do passado com base nas lembranças de um entrevistado.
c) Perpetuar as memórias da comunidade. V
d) Narrar o desenvolvimento de uma localidade, exaltando a terra natal.
e) Reconstituir a história de vida de uma pessoa famosa do local.

2. Um texto de memórias literárias é:


a) Relato que descreve acontecimentos e fatos históricos.F
b) Registro íntimo em que o destinatário primeiro é o próprio autor. F
c) Relato que deixa transparecer experiências personalizadas, circunscritas à vida
afetiva de uma pessoa. F
d) Narrativa que transporta o leitor para o tempo e espaço em que ocorreram os
acontecimentos. V
e) Relato que descreve a sucessão de fatos datados da vida de uma pessoa. F

3. Para escrever memórias literárias, o autor:


a) Entrevista moradores antigos da comunidade e reconta fielmente o que ouviu do
entrevistado. F
b) Relata apenas informações cuja veracidade comprovou de alguma forma. F
c) Reinterpreta e recria as informações coletadas, produzindo um texto narrativo e, em
certa medida, ficcional. V
d) Busca informar-se sobre modos de vida e costumes da época para incorporar
detalhes ao texto. V
e) Revela fatos, e não sensações, sentimentos ou impressões. F

4. Para desenvolver o texto, o autor:


a) Usa a terceira pessoa, pois as lembranças não são próprias. F
b) Faz uso de descrições detalhadas para transportar o leitor para determinada época e
lugar. V
c) Limita-se a narrar o real e não o suposto ou fantasiado. F
d) Reproduz todas as informações coletadas na entrevista. F
e) Usa sempre os verbos no pretérito para descrever o tempo passado. F

5. Na tarefa de retextualização da entrevista, o autor:


a) Deve eliminar as expressões coloquiais usadas pelo entrevistado. F
b) Precisa escrever todo o texto em primeira pessoa. F
c) Lança mão de recursos linguísticos para emocionar e sensibilizar o leitor. V
d) Transcreve a fala do entrevistado, procurando ser fiel ao que foi dito. F
e) Usa os sinais de pontuação exclusivamente para reproduzir a fala do entrevistado. F
Texto 1 – Festa na cidade de São Martinho

No ano de 1936 foi criada na cidade de São Martinho uma festa para comemorar o fim
da colheita e divulgar a cultura agrícola da região. Com o passar dos anos essa festa
foi crescendo e se tornando famosa. Quando se aproximava o mês de setembro as
pessoas ficavam eufóricas aguardando a chegada da comemoração.

Na festa havia fogos de artifício, comidas e bebidas típicas, muitas luzes e


bandeirinhas coloridas. Também havia bailarico, sempre animado pela banda da
cidade.

Minha família não tinha muitas condições, mas sempre arrumávamos um dinheirinho
para comprar roupa, perfume e sandálias novas, o que tornava o acontecimento ainda
mais aguardado. Um dos maiores desejos das donzelas era participar da escolha da
moça mais bonita da cidade, que era coroada como rainha da festa e a partir daí,
cobiçada por todos os moços.

Esse concurso se tornou tão importante para as meninas da cidade que algumas
passavam noites sem dormir, sonhando com o grandioso momento. Houve moças de
famílias mais conservadoras que até fugiram de casa para participar do concurso.

Certa ocasião minha amiga Luciana chegou a pular a janela, no intuito de fazer a
inscrição antes que as pessoas de casa dessem falta dela. A ideia não vingou, pois a
distância até o chão era grande e ela quebrou o pé assim que chegou ao chão.

Naquela época, ainda muito jovens, não percebíamos o valor que a festa tinha para os
moradores mais antigos, que viam na comemoração a possibilidade de fortalecer a
cultura das tradições locais.

A beleza daquela festa permanece até hoje em minha memória, fazendo de mim a
eterna adolescente esperando desfilar entre os moços da localidade. Sei que não estou
mais na flor da idade, mas ainda guardo na lembrança o cheiro da água de rosa do
perfume que eu e minhas irmãs usávamos para conquistar os rapazes.

Hoje em dia tudo mudou. A festa não tem mais aquela ingenuidade e aquele tom
familiar. Tudo ganhou proporções enormes. As comilanças são dos alimentos
encontrados em qualquer grande metrópole, as músicas não revelam mais as
características e sotaques do lugar.

É... Já não se fazem mais festas como antigamente...


Texto 2 – Velhos tempos

Enquanto dona Angelina me contava sua história, muitas imagens se formavam em


minha mente. Eu assistia a um filme, ou melhor, parecia que eu realmente tinha vivido
aquela história:

Éramos dez irmãos. Os mais velhos ajudavam o pai na lavoura e os mais novos
ajudavam a mãe em casa. Eu e minhas irmãs brincávamos com as bonecas de pano
que nós mesmas criávamos com os retalhos que ficavam das costuras de nossa avó.
Os meninos brincavam com carrinhos feitos com sabugo de milho e de mandioca.
Naquele tempo, não tínhamos dinheiro para comprar brinquedos na loja e a oferta não
era diversificada como hoje em dia.

O tempo passou depressa e fiquei grandinha. Comecei a ir para a escola. Todas as


manhãs caminhava três quilômetros com meus irmãos para chegar à escola. Havia
uma única professora que dava aula para todos. Em cada parede, a matéria de uma
série diferente. Ela era severa, mas nunca precisava usar a vara de marmelo apoiada
no canto da sala, deixada pela professora anterior, que se aposentara depois de
ensinar várias turmas, inclusive alfabetizando a maioria dos pais.

Aos domingos, costumávamos ir à missa logo pela manhã, usando nossas melhores
roupas, sempre costuradas pelas mãos amorosas de nossa avó. Ainda me lembro das
blusas brancas engomadas e das sianinhas que adornavam as saias rodadas. Os
garotos, fingindo muita compostura, usavam sempre o mesmo terno surrado, já
herdado dos irmãos mais velhos.

O almoço era sempre uma alegria e a sobremesa era a expectativa do passeio pelo
coreto da praça no final da tarde.

A cidade era pacata, pois havia poucas casas e todos usavam cavalos e carroças
como meio de transporte.

"Nunca imaginei que nossa cidade se transformaria tão rapidamente. Vi essa cidade
crescer e hoje, aos 86 anos, tenho orgulho de ter acompanhado todas as suas
transformações."

Dona Angelina me contou tudo com emoção, contendo as lágrimas dos olhos. Essa
história me fez refletir sobre o tempo, pensar como as coisas mudam depressa. Foi
maravilhoso visitar o tempo passado e conhecer um pouquinho da cidade que mora no
meu coração!
Texto 3 – Lá onde o vento faz a curva

Era uma manhã do mês de julho e ventava muito. Quando fui fechar a janela do meu
quarto, vi várias crianças brincando na rua, em frente à minha casa, no meio da
ventania. No mesmo instante, lembrei-me de que brinquei muito naquela mesma rua,
quando era criança... Pessoas, coisas e acontecimentos de tempos atrás vieram me
visitar... Senti o passado voltando com força, como um filme que passava só na minha
memória.

Vejo o rio que corta esta cidade, onde as pessoas, antigamente, costumavam banhar-
se e lavar roupas. Os barcos pequenos atracavam onde hoje é a praça de táxi. Era
tudo muito, muito verde: pastos, gramados e capoeiras. Em meio ao verde refrescante,
lojas e casas ficavam protegidas do intenso calor da região.

Pelas ruas, sempre circulavam uns tipos populares. As notícias eram a especialidade
de Zezinho Caçote. Ele passava as 24 horas do dia com o rádio a pilha sintonizado na
BBC de Londres, na Voz da América e na Rádio Globo. E nada escapava aos ouvidos
desse homem que perambulava pelas ruas da cidade com o rádio apoiado no ombro.
Além de dar as notícias do Brasil e do mundo, Zezinho se comprazia em encher o
interlocutor de perguntas intrigantes: "Sabe o que é guerra fria?", "Os russos ainda têm
muitas ogivas nucleares?". Mas, quando o negócio era a previsão do tempo, os
moradores recorriam ao Deodato, o carregador de água, que dizia: "Amanhã vem
chuva". E se alguém, no dia seguinte, vinha cobrar a chuva que não caíra, ele não se
dava por derrotado: respondia dizendo que de fato não chovera, mas com certeza o
temporal havia atingido as cabeceiras dos rios.

Os meios de transporte mais utilizados eram o carro de boi, cavalos, canoas e as


chatas – um tipo de barco que transportava as borrachas dos seringais para os centros
de comercialização. Para se comprar carne no único mercado era uma luta, as
pessoas tinham que chegar de madrugada e deixar uma cesta amarrada numa corda
chamada "cobrinha" e torcer para ainda haver carne no momento de ser atendido.

Toda noite nos reuníamos nas portas das casas; os mais velhos contavam histórias de
assombrações, reis, rainhas e de fantasmas.

E as brincadeiras da criançada? Como se brincava na rua, meu Deus! Havia ainda o


bumba meu boi, festa em que os adultos também se divertiam e as crianças morriam
de medo dos caretas, que eram os homens mascarados.

Naquela época, as festas eram a especialidade do Ibianez. Foi ele o introdutor da festa
do boi-bumbá e da marejada em Cruzeiro do Sul. Negro, forte, atarracado, o Ibianez
alegrava as famílias batendo de porta em porta com seus versos ritmados de marujo.
Festa com ele só tinha hora pra começar.

Ah, como eu tenho saudade desse tempo! Esses acontecimentos eram propícios para
encontros de amigos e namorados. Ali ninguém tinha maldade no coração, só
queríamos nos divertir.
Antes da chegada da televisão, os moradores compartilhavam nas janelas, praças e
calçadas suas angústias, alegrias e conhecimento com muita intensidade. Que tempo
bom!

De repente, o meu telefone tocou dentro de casa e interrompeu minhas lembranças.


Volto aos dias atuais. Lembro-me de que estou no século XXI. Vejo ônibus, carros de
luxo, internet, televisão colorida, previsão de tempo na TV, queimadas, rios secando,
árvores tombando, o ar sujo, o vento sem frescor, a fome na periferia.

Mas é verdade que também vejo um pouco de amor, solidariedade, homens que se
respeitam e se ajudam.

"Estou hoje com 51 anos, mas ainda vive dentro de mim a cidade da minha infância,
que ficou 'lá onde o vento faz a curva'!"
Texto 4 – A Guerra do Contestado

Passei a infância e a adolescência na roça, trabalhando no sol quente, a pele ardendo, o suor
escorrendo. A vida era serena, não tínhamos receio de nada. Naqueles tempos as brincadeiras
eram divertidíssimas. Eu e meus irmãos nos deitávamos na grama macia e verdinha e nas
potreiras – lugar descampado onde o gado pasta –, ficávamos um tempão contemplando o céu,
imaginando em qual das nuvens estariam nossos anjos. Mais emocionante era quando descíamos
rolando ladeira abaixo, comendo capim e metendo a cara nos estercos secos dos animais.

Sentia o ar puro entrando pelo nariz e batendo nas paredes dos pulmões, aquele ar com cheirinho
de mato verdinho, flor do campo, misturado com a simplicidade dos caboclos...

Que saudades dessa vida! Hoje os pequeninos estão iludidos pela tecnologia, as brincadeiras são
poucas e as preocupações dos pais aumentaram em dobro, devido às más companhias e à
violência.

Em 1912 começou a Guerra do Contestado, com ela acabou a serenidade dos campos verdes.
Nossa região se transformou em um campo de batalha. Recordo com aperto no coração a
gritaria, pessoas morrendo, outras orando a Deus para que as livrassem das atrocidades
cometidas. Num piscar de olhos, as crianças estavam sem suas famílias, todos mortos pelos
jagunços – era assim que os caboclos chamavam os soldados do exército brasileiro –, eles
sentiam-se superiores a nós. Não tinham dó nem piedade. Lançavam as crianças para o alto, e
com o braço firme seguravam a baioneta – espécie de espada – e elas caíam sobre a ponta afiada
que lhes atravessava o corpo em frações de segundo. Via-se apenas sangue puro jorrando para
todos os lados, e as mães chorando desesperadas. As mulheres e moças eram violentadas e
depois de terem aliviado seus prazeres doentios, num ato de tirania, os jagunços as matavam
cruelmente.

Por isso meu pai fez um buraco aos pés de uma árvore chamada imbuia e o camuflou com folhas
e galhos. Lá eu fiquei com a mamãe e meus irmãos. Durante um tempo absurdo, tive que dividir
aquela cova com formigas e minhocas, comia brotos recém-nascidos da terra, tentava dormir
ouvindo o barulho da lâmina afiada e berros... Segurava o rosário forte em meu peito, pedindo a
Deus que protegesse meu pai e que todo aquele horror acabasse rapidamente. Queria ver a luz do
sol, poder relaxar, brincar... Mas devia ficar no calabouço escuro em cujas paredes estava
desenhado o mistério da vida. Vejam só: uma terra tão simples porém monstruosa e cheia de
enigmas incompreensivos. Mas uma dúvida me atormentava, só em pensar ficava com as mãos
suadas: será que papai está vivo para nos contar das suas aventuras e com um gesto dizer que
tudo está bem?

O tempo passou, e eu continuava viva! A guerra acabou e fui em busca de papai. Mas logo
percebi que ele estava muito longe de mim. Chorei e chorei. Agora eu podia correr, sorrir, ver a
luz do sol. Embora tenha realizado meu sonho – sair do calabouço –, parecia que nada mais tinha
importância! Sem papai, a vida nunca mais foi a mesma...

Foi difícil reconstruir minha vida. Por onde eu andava as lembranças me acompanhavam.
Quando ia à roça me lembrava das gargalhadas de meu pai, de seus gritos enfurecidos, da
paciência que tinha comigo. Ao dormir, me lembrava de suas histórias, contadas à luz do luar.
Foi ele quem me mostrou o brilho das estrelas e me dizia que eram nossos parentes já mortos...
Hoje fico aqui, ao redor do fogão a lenha, recordando o passado. A crueldade me ensinou a lutar
contra a tristeza, com esperança e fé em Deus. Assim como eu, os descendentes de caboclos
continuam pobres e simples, aliás, a humildade está em nosso sangue. Atualmente sobrevivem
na periferia das cidades, são peões das fazendas ou simplesmente sem-terra.

A Guerra do Contestado foi uma batalha sangrenta que mudou para sempre a paisagem e o
destino das pessoas do lugar onde vivo.
(Talita Cristina de Oliveira)
Texto 5 – O cheiro de domingo

Chama-se Carolina Penteado. Filha de João Penteado, comerciante, e de Amélia


Novaes Penteado, dona de casa. Nasceu no dia 23 de abril de 1920. Tinha muitos
irmãos, cinco irmãs e três irmãos homens, que brincavam bastante.

Naquele tempo, os mais velhos tomavam conta dos menores, e ela disse que eles
pasavam o dia brincando em um riacho perto de casa. As crianças subiam nas
mangueiras para pegar as frutas mais gostosas. Carolina era uma das crianças
menores, mas muito esperta conseguia subir bem alto e comer mangas deliciosas!

Domingo era dia de missa. As pessoas costumavam ir para a igreja muito arrumadas,
que nem numa festa. Logo cedo, a mãe de Carolina mandava todos vestirem a melhor
roupa e ficarem sentados para não se sujarem.

Mas o que ela disse que era coisa mais linda era quando a mãe se arrumava e
passava pó de arroz no rosto e um pouquinho de rouge. Ela ficava imaginando o dia
que crescesse o suficiente para também usar maquiagem.

Antes de sair para a missa a mãe dava o toque final colocava duas gotinhas de
lavanda atraz da orelha e esse é para ela o cheiro dos domingos e da mãe de quem
tem tanta saudade.
Texto 1 – Festa na cidade de São Martinho

Comentários

 O título revela o nome do lugar que serve de base para a narração das memórias,
mas não antecipa o conteúdo do texto, nem desperta o desejo de ler.
 Ao final da leitura, percebe-se que o foco não é a festa anunciada no título, mas o
desfile para escolha da moça mais bonita da cidade.
 Os dois primeiros parágrafos estão estruturados como um relato histórico, o que cria
no leitor a expectativa de ler um texto desse gênero, e não um de memórias
literárias.
 A voz que narra a história demora a aparecer, apenas no terceiro parágrafo surge
uma marca de primeira pessoa (o pronome possessivo minha). Isso provoca um
estranhamento, o que torna difícil a percepção de que se trata de memórias literárias
e há um narrador por trás do relato dos dois primeiros parágrafos.
 O uso da palavra "donzelas", no terceiro parágrafo, mostra que a autora, neste caso,
preocupou-se em reproduzir a linguagem utilizada pela entrevistada na produção de
seu texto, de forma a garantir o tom das lembranças.
 A participação da narradora-personagem no desfile e a experiência de outras moças
da época são o ponto alto do texto, o fato marcante escolhido pela autora para
construir sua memória; embora recupere narrativas individuais, o foco do texto está
nas experiências pessoais, e não no valor da festa como fortalecimento da cultura e
das tradições locais.
 Os acontecimentos são contados de forma pouco original ou singular, por meio de
expressões "batidas" (como "grandioso momento", "flor da idade", "eterna
adolescente" etc.); as construções são comuns e não há nenhuma figura de
linguagem.
 Há algumas comparações do passado com o tempo presente, mas trazem ideias
comuns que soam como clichês.
 Considerando estes dois últimos aspectos, principalmente, não se pode dizer que o
texto apresente singularidade e as memórias tenham uma natureza literária.
 A finalização do texto é repentina e traz tom nostálgico do senso comum.

Texto 2 – Velhos tempos

Comentários

 O título, pouco original, não transporta o leitor para o texto, nem desperta o desejo
de ler.
 O autor introduz a voz do narrador-testemunha no primeiro parágrafo e, na
sequência, apresenta a voz do narrador-personagem. Esse interessante recurso
dirige o olhar do leitor para o passado e, no último parágrafo, o traz de volta para o
presente. Esses dois parágrafos "emolduram" a memória da entrevistada.
 O texto traz boas descrições do lugar e dos costumes da época. Faz referência a
objetos, lugares e modos de vida do passado, comparando-o brevemente com o
presente.
 Não houve uma preocupação em preservar a linguagem da entrevistada,
expressões coloquiais, embora os processos de retextualização estejam adequados.
 O uso de recursos linguísticos particulares, como linguagem figurada, é
praticamente inexistente.
 O autor do texto focaliza diferentes aspectos da vida na cidade na época e revela
alguns sentimentos e emoções do entrevistado, o que prende a atenção do leitor.
 Pela delicadeza do relato, em alguns trechos o texto encanta o leitor. Entretanto,
não chega a surpreender, pois não apresenta situações marcantes.
Texto 3 – Lá onde o vento faz a curva

Comentários

 O título é criativo, utiliza a linguagem figurada, desperta no leitor o desejo de ler o


texto.
 O recurso utilizado pelo autor para introduzir e finalizar as lembranças do
entrevistado é criativo e eficiente, pois fornece contexto para o ato de lembrar, o que
enreda o leitor.
 Já no início ocorre o uso de linguagem figurada e imagens (crianças brincando na
ventania, o passado que volta com força, o filme que se passa na memória) que
garantem ao texto singularidade e o tom literário das memórias.
 Há construções de frases pouco comuns (negro, forte, atarracado, o Ibianez
alegrava as famílias...) que narram literariamente o passado.
 O autor joga com os tempos verbais, deslocando o narrador-personagem para o
tempo presente.
 O texto faz referência a seres, espaços, hábitos e modos de vida do passado que
tipificam a cidade e seus moradores; as descrições ajudam o leitor a imaginar o
cenário.
 Percebe-se a preocupação em preservar o uso de palavras e expressões típicas da
entrevistada e da época, com o emprego do discurso direto ("era tudo muito, muito
verde"; "como se brincava na rua, meu Deus!"; "amanhã vem chuva"; "que tempo
bom!").
 Ao final, há comparações entre a experiência vivida e a atualidade, sem, no entanto,
cair em tom melancólico e no uso de clichês.
 Os processos de retextualização do oral para o escrito foram bem trabalhados.
Texto 4 – A Guerra do Contestado

Comentários

 O título sugestivo anuncia o episódio eloquente rememorado no texto.


 Na narrativa, escrita em primeira pessoa, o autor assume plenamente a voz de seu
entrevistado. Os fatos selecionados para compor a memória literária são relevante.
Há referências a objetos e sensações, como também descrição de lugares e
situações em que se compara o passado ao presente.
 O leitor é enredado tanto pela força dos fatos selecionados quanto pelo trabalho
com a linguagem.
 A experiência escolhida para ser narrada revela modos de vida da coletividade
numa época marcante da cidade.
 A narrativa apresentada não é um simples reconto do que o autor ouviu na
entrevista, e sim uma reinterpretação, que resulta em texto de natureza literária,
escrito com criatividade.
 O autor recorre ao uso de linguagem figurada e imagens ("em 1912 começou a
Guerra do Contestado, com ela acabou a serenidade dos campos verdes") que
garantem singularidade ao texto e o tom literário das memórias.
 As descrições são fortes, detalhadas e vívidas; a escolha dos adjetivos é muito
adequada; o leitor quase pode "ver" algumas cenas, como a dos jagunços matando
as crianças na baioneta, ou a cova no pé da árvore.
 A repetição é usada para recuperar a fala da entrevistada e intensificar ideias
("chorei e chorei").
 O narrador-personagem chega a dirigir-se ao leitor ("vejam só: uma terra tão simples
porém monstruosa e cheia de enigmas incompreensivos"), o que traz emoção ao
texto e cria proximidade com o leitor.
 Percebe-se a preocupação em preservar as palavras e expressões usadas pela
entrevistada.
 Os processos de retextualização do oral para o escrito foram bem trabalhados.
Texto 5 – Cheiro de domingo

Comentários

 O título é criativo, utiliza a linguagem figurada, desperta no leitor o desejo de ler o


texto.
 O texto, escrito em terceira pessoa, não se estrutura como memórias literárias, mas
como relato da história particular de um morador da cidade, sem valorizar os modos
de vida de uma comunidade ou as experiências coletivas.
 Há algumas poucas referências a costumes da época, muito centradas em uma
experiência pessoal, pouco generalizante.
 O uso da terceira pessoa não cria a impressão de proximidade do leitor com o
entrevistado; pelo contrário, produz certo distanciamento, que compromete o tom
intimista e emocionado, típico do gênero memórias literárias.
 O trecho: "Mas o que ela disse que era coisa mais linda era quando a mãe se
arrumava" evidencia problemas na retextualização da linguagem oral da entrevista
para a linguagem escrita das memórias; a falta de pontuação adequada em outros
trechos também revela a mesma dificuldade.
 Os acontecimentos são apresentados um depois do outro, de modo pouco criativo e
envolvente.
 Faltam diversos elementos característicos do gênero, como comparações entre o
passado e o presente e referências a expressões antigas.
 As informações coletadas na entrevista não foram suficientemente trabalhadas de
modo a garantir um tom literário às memórias; apenas a questão do cheiro da
lavanda, que passou a ser sentido como o cheiro dos domingos, poderia ser
considerada como singular e literária.
 Há erros de ortografia ("pasavam", "crecesse", "atraz da orelha") e a pontuação
também deixa a desejar ("Antes de sair para a missa a mãe dava o toque final
colocava duas gotinhas de lavanda atraz da orelha e esse é para ela o cheiro dos
domingos e da mãe de quem tem tanta saudade!"
Memórias Literárias
Proposta de descritores
Critérios
Pontuação sugerida
Descritores
Tema "O lugar onde vivo"
1,0
 O texto se reporta de forma singular à cultura e à história local?
Adequação ao Gênero - Adequação discursiva
3,0
 O texto aborda aspectos da cultura ou da história local (um acontecimento, um lugar, um costume,
etc.)?
 É possível perceber que o autor fez entrevistas para recuperar lembranças de outros tempos
relacionadas ao lugar onde vive e trouxe a voz do entrevistado para o seu texto?
 O texto resgata aspectos da localidade pela perspectiva de um antigo morador?
 O texto deixa transparecer sentimentos, impressões e apreciações para provocar sensações,
envolver o leitor e transportá-lo para a época da vivência narrada?
 O texto está estruturado como uma narrativa e usa recursos de linguagem que lhe conferem
características literárias?
 As referências a objetos, lugares, modos de vida, costumes, palavras e expressões que já não
existem ou que se transformaram reconstroem experiências pessoais vividas?
Adequação ao Gênero - Adequação linguística
2,5
 As memórias são narradas em primeira pessoa como se as lembranças fossem do autor?
 No caso de o autor recorrer à narrativa em 3ª pessoa ou a outras vozes, as marcações estão
adequadamente indicadas no texto?
 O texto está estruturado de modo progressivo e articulado? Tem unidade e encadeamento?
 O uso dos tempos verbais e dos indicadores de espaço situa adequadamente o leitor em relação
aos tempos e espaços retratados?
 Os recursos linguísticos selecionados (expressões de outras épocas, figuras de linguagem,
referências a imagens e sensações, etc.) contribuem para integrar o real e o ficcional na
construção do estilo literário do texto?
Marcas de autoria
2,0
 O autor elaborou de modo próprio e original as lembranças dos moradores entrevistados?
 O autor retrata a história de uma época remota a partir do seu olhar e de vivências do
entrevistado?
 Ao escrever o texto, o autor considerou diferentes leitores?
 O título do texto motiva a leitura?
Convenções da escrita
1,5
 O texto atende às convenções da escrita (morfossintaxe, ortografia, acentuação, pontuação)?
 O texto rompe convenções da escrita (por exemplo, marcas de oralidade ou de variedades
linguísticas regionais ou sociais) a serviço da produção de sentidos ou da literariedade no texto?

Velhos tempos

Enquanto dona Angelina me contava sua história, muitas imagens se formavam em


minha mente. Eu assistia a um filme, ou melhor, parecia que eu realmente tinha vivido
aquela história:
Éramos dez irmãos. Os mais velhos ajudavam o pai na lavoura e os mais novos
ajudavam a mãe em casa. Eu e minhas irmãs brincávamos com as bonecas de pano
que nós mesmas criávamos com os retalhos que ficavam das costuras de nossa avó.
Os meninos brincavam com carrinhos feitos com sabugo de milho e de mandioca.
Naquele tempo, não tínhamos dinheiro para comprar brinquedos na loja e a oferta não
era diversificada como hoje em dia.
O tempo passou depressa e fiquei grandinha. Comecei a ir para a escola. Todas as
manhãs caminhava três quilômetros com meus irmãos para chegar à escola. Havia
uma única professora que dava aula para todos. Em cada parede, a matéria de uma
série diferente. Ela era severa, mas nunca precisava usar a vara de marmelo apoiada
no canto da sala, deixada pela professora anterior, que se aposentara depois de
ensinar várias turmas, inclusive alfabetizando a maioria dos pais.
Aos domingos, costumávamos ir à missa logo pela manhã, usando nossas melhores
roupas, sempre costuradas pelas mãos amorosas de nossa avó. Ainda me lembro das
blusas brancas engomadas e das sianinhas que adornavam as saias rodadas. Os
garotos, fingindo muita compostura, usavam sempre o mesmo terno surrado, já
herdado dos irmãos mais velhos.
O almoço era sempre uma alegria e a sobremesa era a expectativa do passeio pelo
coreto da praça no final da tarde.
A cidade era pacata, pois havia poucas casas e todos usavam cavalos e carroças
como meio de transporte.
"Nunca imaginei que nossa cidade se transformaria tão rapidamente. Vi essa cidade
crescer e hoje, aos 86 anos, tenho orgulho de ter acompanhado todas as suas
transformações."
Dona Angelina me contou tudo com emoção, contendo as lágrimas dos olhos. Essa
história me fez refletir sobre o tempo, pensar como as coisas mudam depressa. Foi
maravilhoso visitar o tempo passado e conhecer um pouquinho da cidade que mora no
meu coração!

Velhos tempos
Critérios
PTS
Descritores
Tema "O lugar onde vivo"
Máx: 1,0
Equipe: 1,0
 O texto se reporta de forma singular, à cultura e à história locais?
Adequação ao Gênero - Adequação discursiva
Máx: 3,0
Equipe: 2,0
 O texto aborda aspectos da cultura ou da história local (um acontecimento, um lugar, um costume,
etc.)?
 É possível perceber que o autor fez entrevistas para recuperar lembranças de outros tempos
relacionadas ao lugar onde vive e trouxe a voz do entrevistado para o seu texto?
 O texto resgata aspectos da localidade pela perspectiva de um antigo morador?
 O texto deixa transparecer sentimentos, impressões e apreciações para provocar sensações,
envolver o leitor e transportá-lo para a época da vivência narrada?
 O texto está estruturado como uma narrativa e usa recursos de linguagem que lhe conferem
características literárias?
 As referências a objetos, lugares, modos de vida, costumes, palavras e expressões que já não
existem ou que se transformaram reconstroem experiências pessoais vividas?
Adequação ao Gênero - Adequação linguística
Máx: 2,5
Equipe: 1,5
 As memórias são narradas em primeira pessoa como se as lembranças fossem do autor?
 No caso de o autor recorrer à narrativa em 3ª pessoa ou a outras vozes, as marcações estão
adequadamente indicadas no texto?
 O texto está estruturado de modo progressivo e articulado? Tem unidade e encadeamento?
 O uso dos tempos verbais e dos indicadores de espaço situa adequadamente o leitor em relação
aos tempos e espaços retratados?
 Os recursos linguísticos selecionados (expressões de outras épocas, figuras de linguagem,
referências a imagens e sensações, etc.) contribuem para integrar o real e o ficcional na
construção do estilo literário do texto?
Marcas de autoria
Máx: 2,0
Equipe: 1,5
 O autor elaborou de modo próprio e original as lembranças dos moradores entrevistados?
 O autor retrata a história de uma época remota a partir do seu olhar e de vivências do
entrevistado?
 Ao escrever o texto, o autor considerou diferentes leitores?
 O título do texto motiva a leitura?
Convenções da escrita
Máx: 1,5
Equipe: 1,5
 O texto atende às convenções da escrita (morfossintaxe, ortografia, acentuação, pontuação)?
 O texto rompe convenções da escrita (por exemplo, marcas de oralidade ou de variedades
linguísticas regionais ou sociais) a serviço da produção de sentidos ou da literariedade no texto?
Pontuação final
Máx: 10
Equipe: 7,5

Como observado na pontuação atribuída ao texto, os critérios voltados à adequação ao


gênero merecem particular atenção. Nesse sentido, vale apostar em atividades que
levem os alunos a refletir sobre os recursos linguísticos utilizados, no intuito de conferir
características literárias ao texto.

Assim, propostas como a retomada de parágrafos para a exploração do trabalho com


figuras de linguagem e expressões da época aliada à maior articulação entre as
histórias de vida e do lugar poderão promover um maior ajuste do texto às
características do gênero.