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Direito Processual do Trabalho – Cláudio Dias

Aula 17 | Dissídios Coletivos

SUMÁRIO
1. DISSÍDIOS COLETIVOS .................................................................................................... 2
1.1. CONCEITO ......................................................................................................................... 2
1.2. CLASSIFICAÇÃO DOS DISSÍDIOS COLETIVOS ....................................................... 2
1.2.1. DISSÍDIO COLETIVO DE NATUREZA ECONÔMICA ........................................ 2
1.2.2. DISSÍDIO COLETIVO DE NATUREZA JURÍDICA .............................................. 2
1.2.3. DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE ........................................................................ 2
1.3. REQUISITOS ...................................................................................................................... 3
1.4. COMPETÊNCIA ................................................................................................................ 4
1.5. LEGITIMIDADE ................................................................................................................ 5
1.6. RITO DO DISSÍDIO COLETIVO .................................................................................... 7
1.7. A EFICÁCIA DA SENTENÇA NORMATIVA ............................................................... 9
1.8. AÇÃO DE CUMPRIMENTO .......................................................................................... 10

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1. DISSÍDIOS COLETIVOS
1.1. CONCEITO
Os dissídios coletivos são o meio de solução jurisdicional dos conflitos coletivos de
trabalho. Por meio dos dissídios coletivos se solucionam os conflitos coletivos de trabalho, seja
entre as categorias entre si, seja entre categoria (s) e empregador (es).
1.2. CLASSIFICAÇÃO DOS DISSÍDIOS COLETIVOS
1.2.1. DISSÍDIO COLETIVO DE NATUREZA ECONÔMICA
O dissídio coletivo de natureza econômica é aquele que tem como objeto a fixação de
condições de trabalho, por meio do poder normativo da Justiça do Trabalho. Também chamado
de dissídio coletivo de interesse ou de natureza constitutiva.
É o dissídio por meio do qual se busca que a Justiça do Trabalho, no exercício de seu
poder normativo, estabeleça condições de trabalho para aquela categoria. Quando se fala em
condições, entenda-se que não faz referência unicamente ao modus operandi do trabalho, isto
é, a forma como o trabalho será desenvolvido, mas também a remuneração a ser percebida pela
categoria. Todas as questões relacionadas a essas serão abrangidas pelo dissídio coletivo de
natureza econômica.
A previsão desse dissídio está no artigo 114, §2º, da Constituição da República de 1988.
Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de
comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o
conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas
anteriormente.

1.2.2. DISSÍDIO COLETIVO DE NATUREZA JURÍDICA


É o dissídio que busca interpretar uma norma específica que se aplica à categoria.
Também chamado de dissídio coletivo de natureza declaratória.
Existindo uma norma que se aplique especificamente a uma determinada categoria e em
caso de dúvida sobre sua interpretação, pode-se se manejar um dissídio coletivo, de natureza
jurídica.
O fundamento legal está no artigo 1º, caput, da Lei 7.701/1998.
Art. 1º - O Tribunal Superior do Trabalho, nos processos de sua competência, será dividido em turmas e
seções especializadas para a conciliação e julgamento de dissídios coletivos de natureza econômica ou
jurídica e de dissídios individuais, respeitada a paridade da representação classista.
Cumpre destacar que, conforme OJ 07 da SDC do TST, o dissídio coletivo de natureza
jurídica não se presta à interpretação de normas de caráter genérico, como, por exemplo, a
interpretação de um dispositivo da Constituição Federal.
07. DISSÍDIO COLETIVO. NATUREZA JURÍDICA. INTERPRETAÇÃO DE NORMA DE CARÁTER
GENÉRICO. INVIABILIDADE
Não se presta o dissídio coletivo de natureza jurídica à interpretação de normas de caráter genérico, a
teor do disposto no art. 313, II, do RITST.

1.2.3. DISSÍDIO COLETIVO DE GREVE


Possui natureza híbrida, visto que, por meio desse tipo de dissídio coletivo, busca-se o
reconhecimento do exercício regular ou abusivo do direito de greve, configurando o seu aspecto

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declaratório. Do mesmo modo, também se busca a manifestação da Justiça do Trabalho a


respeito das condições de trabalho, o que também atrai a natureza constitutiva.
Assim, por meio do dissídio coletivo de greve se busca que a Justiça do Trabalho analise
a natureza da greve, reconhecendo, caso exista, o caráter abusivo, bem como se busca a
manifestação acerca das condições de trabalho, que são os pleitos formulados pela categoria
relativos às condições de trabalho.
A sua previsão está no artigo 114, inciso II e §3º, da Constituição Federal.
Art. 114. Compete à Justiça do Trabalho processar e julgar:
II as ações que envolvam exercício do direito de greve;
§ 3º Em caso de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão do interesse público, o Ministério
Público do Trabalho poderá ajuizar dissídio coletivo, competindo à Justiça do Trabalho decidir o conflito.

1.3. REQUISITOS
Os requisitos que ensejam o manejo do dissídio coletivo são:
a) Frustração da prévia negociação coletiva ou recusa de qualquer das partes à
negociação coletiva ou arbitragem – artigo 114, §1º e §2º, da CF.
Art. 114.
§ 1º Frustrada a negociação coletiva, as partes poderão eleger árbitros.
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de
comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o
conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas
anteriormente.
Para que a parte possa se valer do dissídio coletivo, é necessário que, antes, tenha havido
tentativa de negociação coletiva, ainda que frustrada. Ou, ao menos, é necessário que a parte
contrária tenha se recusado a negociar. Nesse sentido é o artigo 240 do Regimento Interno do
TST1.
Art. 240. Frustrada, total ou parcialmente, a autocomposição dos interesses coletivos em negociação
promovida diretamente pelos interessados ou mediante intermediação administrativa do órgão competente
do Ministério do Trabalho, poderá ser ajuizada a ação de dissídio coletivo ou solicitada a mediação do
Tribunal Superior do Trabalho.
Conforme menciona o artigo, é necessária uma tentativa de negociação entre as partes,
mesmo que tenha sida frustrada, seja porque não se atingiu um denominador comum, seja
porque alguma das partes se recusou a negociar.
Contudo, ressalte-se que esse requisito se aplica apenas aos dissídios coletivos de
natureza econômica. Assim, é necessário que as cláusulas trazidas ao Poder Judiciário tenham
sido objeto de prévia negociação. Já quanto aos dissídios de natureza jurídica, não é necessário
tentativa de prévia negociação.
Nessa toada, vale recordar a OJ 06 da SDC do TST, que foi cancelada, cujo texto dispunha
acerca da exigibilidade de prévia etapa negocial para se buscar uma solução de consenso
também nos dissídios coletivos de natureza jurídica. Porém, conforme dito, a OJ foi cancelada,
evidenciando o entendimento do TST no sentido de que a prévia negociação somente é exigida
nos dissídios coletivos de natureza econômica.

1 Importante observar que o professor menciona o artigo 219 do Regimento Interno do TST, porém, de acordo com o
novo Regimento Interno do TST, aprovado pela Resolução Administrativa nº 1937, de 20 de novembro de 2017, o
artigo 219 não condiz com o artigo citado pelo professor. Acredita-se que o artigo correto seja o 240 do novo Regimento
Interno, conforme informação retirada do sítio eletrônico da Biblioteca Digital da Justiça do Trabalho, cujo endereço é
<https://juslaboris.tst.jus.br/handle/20.500.12178/116169>

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b) Comum acordo – artigo 114, §2º, da CF.


Art. 114.
§ 2º Recusando-se qualquer das partes à negociação coletiva ou à arbitragem, é facultado às mesmas, de
comum acordo, ajuizar dissídio coletivo de natureza econômica, podendo a Justiça do Trabalho decidir o
conflito, respeitadas as disposições mínimas legais de proteção ao trabalho, bem como as convencionadas
anteriormente.
Veja que a CF aponta que esse requisito diz somente ao dissídio de natureza econômica.
Não obstante, tem-se o questionamento sobre a aplicabilidade dessa exigência aos
dissídios de greve. Nesse ponto, a doutrina diverge, com parte tendendo ao entendimento de ser
aplicável e outra parte entendendo não ser aplicável.
Sustenta-se que essa exigência deve ser aplicada àquela parte do dissídio coletivo de greve
que diz respeito às cláusulas apresentadas pela categoria. Ou seja, não havendo comum acordo
sobre as cláusulas apresentadas à Justiça do Trabalho, não seria possível que o Judiciário as
apreciasse. Porém, conforme foi dito, não há entendimento pacífico sobre o assunto.
Repisa-se, novamente, que esse requisito trata de condição da ação peculiar ao dissídio
coletivo de natureza econômica, não se aplicando, portanto, aos dissídios coletivos de natureza
jurídica. A figura do comum acordo significa um consenso entre as partes para a propositura do
dissídio coletivo, que pode ser expresso ou tácito, conforme entendimento da jurisprudência
trabalhista.
O consenso tácito fica verificado, por exemplo, quando do comparecimento da parte a
audiência de conciliação com apresentação de proposta de conciliação ou apresentação de
contestação, porém sem a ressalva de sua discordância com o ajuizamento do dissídio coletivo.
A omissão, no caso, evidencia o consenso tácito entre as partes.
Não se deve olvidar que essa exigência do comum acordo está como questão submetida
à análise do STF, sob a forma de Tema de Repercussão Geral nº 841, o qual ainda não se
pronunciou sobre a constitucionalidade da exigência. Alega-se, na oportunidade, que há
prejuízo ao direito da categoria em dispor de livre acesso ao Poder Judiciário, entre outros
argumentos.
c) Autorização da Assembleia Geral da categoria – artigo 859 da CLT.
Art. 859 - A representação dos sindicatos para instauração da instância fica subordinada à aprovação de
assembléia, da qual participem os associados interessados na solução do dissídio coletivo, em primeira
convocação, por maioria de 2/3 (dois terços) dos mesmos, ou, em segunda convocação, por 2/3 (dois
terços) dos presentes.
d) Ausência de convenção e acordo coletivo em vigor.
OBSERVAÇÃO: Esse requisito somente se aplica aos dissídios coletivos de natureza
econômica.
1.4. COMPETÊNCIA
Como regra geral, os dissídios são propostos perante os Tribunais Regionais do Trabalho,
conforme artigo 678, I, a, da CLT.
Art. 678 - Aos Tribunais Regionais, quando divididos em Turmas, compete:
I - ao Tribunal Pleno, especialmente:
a) processar, conciliar e julgar originariamente os dissídios coletivos;
Contudo, essa regra contém uma exceção, que se verifica quando os conflitos coletivos
de trabalho excedam a área alcançada pela competência do Tribunal Regional do Trabalho,

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conforme artigo 702, I, b, da CLT. Nessa hipótese, o dissídio será proposto perante o TST, que
julgará o dissídio em sede de sua Sessão de Dissídios Coletivos – SDC.
Art. 702 - Ao Tribunal Pleno compete:
I - em única instância:
b) conciliar e julgar os dissídios coletivos que excedam a jurisdição dos Tribunais Regionais do Trabalho,
bem como estender ou rever suas próprias decisões normativas, nos casos previstos em lei;
O artigo 2º, I, a, da Lei 7.701/1988 define, no mesmo sentido, a competência do TST.
Art. 2º - Compete à seção especializada em dissídios coletivos, ou seção normativa:
I - originariamente:
a) conciliar e julgar os dissídios coletivos que excedam a jurisdição dos Tribunais Regionais do Trabalho
e estender ou rever suas próprias sentenças normativas, nos casos previstos em lei;
Há, aqui, uma especificidade quanto ao Estado de São Paulo, pois possui dois Tribunais
Regionais do Trabalho em seu território. Sendo assim, é muito comum a existência de conflitos
que ultrapassam a área de competência de um desses tribunais.
Nesse contexto, caso se utilize a medida excepcional de competência antes mencionada,
deveria ser proposto o dissídio coletivo no Tribunal Superior do Trabalho, porém não é o que
ocorre em São Paulo.
Em verdade, o artigo 12 da Lei 7.520/86, com a redação alterada pela Lei 9.254/96, dispõe
que compete exclusivamente ao Tribunal do Trabalho da 2ª Região processar e julgar os
dissídios coletivos objetos de discussão:
Art. 12. Compete exclusivamente ao Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região processar, conciliar e
julgar os dissídios coletivos nos quais a decisão a ser proferida deva produzir efeitos em área territorial
alcançada, em parte, pela jurisdição desse mesmo Tribunal e, em outra parte, pela jurisdição do Tribunal
Regional do Trabalho da 15ª Região. (Redação dada pela Lei nº 9.254, de 1996)
Portanto, caso o conflito se estenda por área alcançada pela jurisdição de ambos os
Tribunais (TRT 2ª Região vs. TRT 15ª Região), a competência para analisar o dissídio será do
TRT da 2ª Região.
No que pertine aos entes públicos, originalmente, quando do julgamento dos Mandados
de Injunção 670, 708 e 712, que foram os que reconheceram a possibilidade do exercício do
direito de greve pelos servidores públicos, ocorreu uma alteração no entendimento do STF.
Em se tratando de servidores submetidos ao regime estatutário, o dissídio deveria ser
proposto diante da Justiça Comum. Caso, no entanto, se tratasse de servidores submetidos à
CLT, o dissídio seria submetido à Justiça do Trabalho.
Porém, esse panorama teve uma alteração recente porque, ao julgar o RE em Repercussão
Geral nº 846.854, o STF fixou a tese de que a Justiça Comum Federal ou Estadual seria
competente para julgar a abusividade de greve de servidores públicos celetistas da
administração direta, autarquias e fundações de direito público.
Então, a partir desse julgamento, a competência para julgar a abusividade da greve,
independentemente do regime de contratação dos servidores envolvidos no movimento
paredista é da Justiça Comum. É o que se depreende da tese fixada na tese do STF.
Vale observar que não há nada nessa tese que diga a respeito aos dissídios coletivos de
natureza econômica.

1.5. LEGITIMIDADE
Em regra, os dissídios coletivos serão propostos pelos Sindicatos que representam as
categorias em conflito. A OJ 15 da SDC do TST ainda determina que o Sindicato deve
comprovar o registro no órgão competente do Ministério do Trabalho para poder atuar em juízo.

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15. SINDICATO. LEGITIMIDADE "AD PROCESSUM". IMPRESCINDIBILIDADE DO REGISTRO NO


MINISTÉRIO DO TRABALHO.
A comprovação da legitimidade "ad processum" da entidade sindical se faz por seu registro no órgão
competente do Ministério do Trabalho, mesmo após a promulgação da Constituição Federal de 1988.
Cumpre observar, ademais, que essa representação do sindicato fica subordinada à
aprovação de Assembleia da categoria, os quais somente poderão atuar se a categoria autorizar.
Art. 859 - A representação dos sindicatos para instauração da instância fica subordinada à aprovação de
assembleia, da qual participem os associados interessados na solução do dissídio coletivo, em primeira
convocação, por maioria de 2/3 (dois terços) dos mesmos, ou, em segunda convocação, por 2/3 (dois
terços) dos presentes.
Caso o conflito envolver unicamente uma empresa, será a hipótese de prévia autorização
dos trabalhadores da empresa que estejam diretamente envolvidos no conflito, conforme OJ 19
da SDC do TST.
19. DISSÍDIO COLETIVO CONTRA EMPRESA. LEGITIMAÇÃO DA ENTIDADE SINDICAL.
AUTORIZAÇÃO DOS TRABALHADORES DIRETAMENTE ENVOLVIDOS NO CONFLITO.
A legitimidade da entidade sindical para a instauração da instância contra determinada empresa está
condicionada à prévia autorização dos trabalhadores da suscitada diretamente envolvidos no conflito.
Nesse sentido, é estabelecido pela OJ 29 da SDC do TST que o Edital de convocação da
categoria e a ata da Assembleia são peças essenciais à instauração do processo de dissídio
coletivo.
29. EDITAL DE CONVOCAÇÃO E ATA DA ASSEMBLÉIA GERAL. REQUISITOS ESSENCIAIS PARA
INSTAURAÇÃO DE DISSÍDIO COLETIVO.
O edital de convocação da categoria e a respectiva ata da AGT constituem peças essenciais à instauração
do processo de dissídio coletivo.
Com efeito, pode acontecer de não existir sindicatos que representem o interesse da
categoria. Nesses casos, as federações e, na ausência destas, as confederações poderão propor
o dissídio coletivo, conforme dispõe o artigo 857, parágrafo único, da CLT.
Art. 857 - A representação para instaurar a instância em dissídio coletivo constitui prerrogativa das
associações sindicais, excluídas as hipóteses aludidas no art. 856, quando ocorrer suspensão do trabalho.
Parágrafo único. Quando não houver sindicato representativo da categoria econômica ou profissional,
poderá a representação ser instaurada pelas federações correspondentes e, na falta destas, pelas
confederações respectivas, no âmbito de sua representação.
Na hipótese de omissão dos sindicatos, das federações e das confederações, os
empregados poderão, com base nos dispositivos da CLT que autorizam os trabalhadores
constituírem comissão, na omissão de seus representantes sindicais, propor o dissídio coletivo,
desde que mediante estas comissões.
Trata-se, pontualmente, de hipótese excepcionalíssima em que os empregados, por meio
de comissão, poderão propor o dissídio coletivo. Os empregadores, por sua vez, poderão propor
dissídios coletivos que interessam unicamente aos empregados da empresa ou greve que afete
a empresa.
O Ministério Público do Trabalho também poderá propor dissídio coletivo quando se
tratar de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão ao interesse público. Nesse
ponto, cabe fazer uma ressalva porque a previsão contida no artigo 8º da Lei 7.783/89 é mais
ampla que a contida no artigo 114, §3º, da CRFB. Aqui, entende-se que prevalece a previsão
da CRFB.
Lei 7.783/89
Art. 8º A Justiça do Trabalho, por iniciativa de qualquer das partes ou do Ministério Público do Trabalho,
decidirá sobre a procedência, total ou parcial, ou improcedência das reivindicações, cumprindo ao
Tribunal publicar, de imediato, o competente acórdão.

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Constituição da República
Art. 114.
§3º Em caso de greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão do interesse público, o Ministério
Público do Trabalho poderá ajuizar dissídio coletivo, competindo à Justiça do Trabalho decidir o conflito.
Portanto, a legitimidade do Ministério Público ocorrerá tão somente na situação em que
ocorrer greve em atividade essencial, com possibilidade de lesão ao interesse público. Ou seja,
a legitimidade não deve se dar em qualquer greve.
O Presidente do Tribunal também possui legitimidade para propor dissídio coletivo.
Contudo, não há previsão dessa legitimidade na Constituição Federal, o que faz com que parte
da doutrina entenda não ser possível a propositura de dissídio coletivo pelo Presidente dos
Tribunais Regionais do Trabalho.
A CLT, porém, contém menção expressa no sentido de ser legítimo o Presidente do
Tribunal, bem como há bancas de concurso que cobram isso. Assim, importante ter em mente
que a CLT autoriza o Presidente do Tribunal nesse sentido.
Art. 856 - A instância será instaurada mediante representação escrita ao Presidente do Tribunal. Poderá
ser também instaurada por iniciativa do presidente, ou, ainda, a requerimento da Procuradoria da Justiça
do Trabalho, sempre que ocorrer suspensão do trabalho.

1.6. RITO DO DISSÍDIO COLETIVO


A petição inicial do dissídio coletivo, que deverá ser sempre escrita, também chamada de
representação, será dirigida ao Presidente do Tribunal. Nessa petição, deverão ser elencadas as
condições almejadas, em forma de cláusulas, de maneira fundamentada.
Obviamente, isso deverá ocorrer quando se tratar de dissídio coletivo de natureza
econômica, já que dissídios coletivos de natureza jurídica terão uma construção bastante
semelhante a uma ação declaratória qualquer.
Em se tratando de dissídio coletivo de natureza econômica, as condições almejadas
deverão ser elencadas em forma de cláusulas, cada uma com sua fundamentação específica.
Nesse sentido é a OJ 32 da SDC do TST, que fala em apresentação em forma clausulada e
fundamentada das reivindicações da categoria.
32. REIVINDICAÇÕES DA CATEGORIA. FUNDAMENTAÇÃO DAS CLÁUSULAS. NECESSIDADE.
APLICAÇÃO DO PRECEDENTE NORMATIVO Nº 37 DO TST.
É pressuposto indispensável à constituição válida e regular da ação coletiva a apresentação em forma
clausulada e fundamentada das reivindicações da categoria, conforme orientação do item VI, letra "e",
da Instrução Normativa nº 4/93.
Após apresentar as reinvindicações ao Presidente e, em caso de elas estarem formalmente
adequadas, será designada audiência de conciliação no prazo de 10 dias. Em caso de haver
greve em curso, o prazo será reduzido, tendo em vista a urgência da situação.
Designada a audiência de conciliação, comparecendo as partes envolvidas no conflito,
caso haja acordo, esse será submetido à homologação do Tribunal na primeira sessão, conforme
863 da CLT.
Art. 863 - Havendo acordo, o Presidente o submeterá à homologação do Tribunal na primeira sessão.
Não havendo acordo, o suscitado apresentará defesa. Após, será ouvido o Ministério
Público do Trabalho e o feito será distribuído a um relator, o qual poderá realizar a instrução,
ouvindo, eventualmente, peritos ou quem entender por bem para apuração das questões
controvertidas.
Uma peculiaridade importante do dissídio coletivo é que, dada a natureza da ação, não há
de se falar na incidência de revelia ou confissão ficta. Isto é, ainda que a parte suscitada não

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apresente defesa, o relator deverá julgar o dissídio com base no ordenamento jurídico, não
podendo acolher, de plano, os pleitos da parte suscitante.
Em se tratando de dissídio coletivo de greve, entende-se que, mesmo a ação tendo sido
proposta pelo MPT, cabe ao tribunal não apenas analisar a abusividade da greve, mas também
decidir a respeito das pretensões sobre as condições de trabalho que a parte suscitante tenha
apresentado ou que a parte suscitada tenha apresentado, conforme artigo 8º da Lei 7.783/89.
Vale rememorar, nesse aspecto, que o empregador pode plenamente suscitar o dissídio
coletivo de greve.
Art. 8º A Justiça do Trabalho, por iniciativa de qualquer das partes ou do Ministério Público do Trabalho,
decidirá sobre a procedência, total ou parcial, ou improcedência das reivindicações, cumprindo ao
Tribunal publicar, de imediato, o competente acórdão.
Portanto, em se tratando de dissídio coletivo de greve, o Tribunal poderá analisar tanto a
abusividade da greve quanto as reinvindicações da categoria, dada a natureza híbrida desse
dissídio.
A sentença normativa deve apreciar as pretensões da categoria cláusula por cláusula, de
forma fundamentada. Isto é, conforme mencionado anteriormente, assim como a petição inicial
deve ser feita por cláusulas, da mesma forma deve ser elaborada a sentença, cláusula por
cláusula, fundamentando-as.
A sentença normativa também poderá conter cláusulas de natureza diversa; conforme se
verá a seguir:
a) Econômicas: relacionadas aos reajustes salariais, à imposição de adicionais, piso
salarial, abonos, gratificações, etc. Ou seja, possuem conteúdo econômico.
b) Sociais: não possuem conteúdo econômico, mas buscam a concessão de vantagens para
os empregados, como, por exemplo, garantia de emprego, jornada de trabalho reduzida,
melhorias no meio ambiente do trabalho, abonos de faltas (e não salariais, que seriam de
natureza econômica), etc.
c) Sindical: são as cláusulas que disciplinas a relação dos empregados e empregadores
com os sindicatos.
d) Obrigacionais: são as que fixam as penalidades a serem impostas às partes em caso de
descumprimento das obrigações estabelecidas na sentença normativa.
Nesse ponto, importante invocar a OJ 5 da SDC do TST, muito utilizada na defesa da
Fazenda Pública, pois prevê que, em face de pessoa jurídica de direito público que mantenha
empregados, cabe dissídio coletivo exclusivamente para apreciação de cláusulas de natureza
social.
05. DISSÍDIO COLETIVO. PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PÚBLICO. POSSIBILIDADE JURÍDICA.
CLÁUSULA DE NATUREZA SOCIAL.
Em face de pessoa jurídica de direito público que mantenha empregados, cabe dissídio coletivo
exclusivamente para apreciação de cláusulas de natureza social. Inteligência da Convenção nº 151 da
Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Decreto Legislativo nº 206/2010
Anteriormente, o TST entendia que não cabia o deferimento de cláusulas de nenhuma
natureza em face das pessoas jurídicas de direito público. Porém, posteriormente, o
entendimento foi alterado, cabendo apreciação das cláusulas de cunho social, mas nunca
econômica.
A essência desse entendimento advém do conflito com o artigo 37, X, da CF, que
determina que a remuneração dos servidores públicos e seus aumentos devem ser previstos em
lei específica, observada a iniciativa privativa de cada caso. Assim, não poderia a Justiça do

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Trabalho determinar, por exemplo, aumentos a servidores, bem como qualquer cláusula de
natureza econômica.
Art. 37.
X - a remuneração dos servidores públicos e o subsídio de que trata o § 4º do art. 39 somente poderão ser
fixados ou alterados por lei específica, observada a iniciativa privativa em cada caso, assegurada revisão
geral anual, sempre na mesma data e sem distinção de índices;
Da mesma forma, o artigo 169, §1º, da Constituição Federal menciona que a concessão
de qualquer vantagem ou aumento de remuneração deve ter previsão em lei orçamentária
própria, com autorização na lei de diretrizes orçamentárias. Dessa forma, não cabe ao Poder
Judiciário interferir em benefícios de natureza econômica nos dissídios.
Art. 169.
§ 1º A concessão de qualquer vantagem ou aumento de remuneração, a criação de cargos, empregos e
funções ou alteração de estrutura de carreiras, bem como a admissão ou contratação de pessoal, a
qualquer título, pelos órgãos e entidades da administração direta ou indireta, inclusive fundações
instituídas e mantidas pelo poder público, só poderão ser feitas:
I - se houver prévia dotação orçamentária suficiente para atender às projeções de despesa de pessoal e
aos acréscimos dela decorrentes;
II - se houver autorização específica na lei de diretrizes orçamentárias, ressalvadas as empresas públicas
e as sociedades de economia mista.
Há quem entenda não ser cabível sequer deferir cláusulas sociais, porém o entendimento
do TST permite o deferimento dessas cláusulas.
1.7. A EFICÁCIA DA SENTENÇA NORMATIVA
A sentença normativa produz efeitos em face de todos os integrantes das categoriais
profissionais e econômicas representadas no dissídio.
A sentença vigorará:
a) a partir da data de sua publicação, quando ajuizado o dissídio após o prazo do
artigo 616, §3º, da CLT (60 dias anteriores ao término do acordo, convenção ou sentença
normativa em vigor), ou, em caso de não existir acordo, convenção ou sentença normativa
em vigor, da data do ajuizamento.
Art. 616 - Os Sindicatos representativos de categorias econômicas ou profissionais e as empresas, inclusive
as que não tenham representação sindical, quando provocados, não podem recusar-se à negociação
coletiva.
§ 3º - Havendo convenção, acordo ou sentença normativa em vigor, o dissídio coletivo deverá ser
instaurado dentro dos 60 (sessenta) dias anteriores ao respectivo termo final, para que o novo instrumento
possa ter vigência no dia imediato a esse termo.
b) a partir do dia imediato ao termo final de vigência do acordo, convenção ou
sentença normativa, quando ajuizado o dissídio no prazo do artigo 616, §3º, da CLT.
A sentença normativa, caso tenha sida proferida por Tribunal Regional do Trabalho,
poderá ser objeto de recurso ordinário, no prazo de 8 dias, a ser julgado pela SDC do TST.
Conforme foi visto na aula de Recursos em Espécie, não cabe Recurso de Revista nessa
hipótese, porém será cabido o Recurso Ordinário.
Caso se trate de decisão não unânime proferida pela SDC do TST em dissídio coletivo de
sua competência originária, poderá haver a interposição de embargos infringentes, no prazo de
8 dias.
O recurso ordinário interposto em face da sentença normativa não possui efeito
suspensivo. Logo, as verbas deferidas nessa sentença podem ser imediatamente exigidas pelos

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empregados. Contudo, é possível que o Presidente do TST atribua efeito suspensivo ao recurso,
desde que a parte interessada apresente requerimento nesse sentido, conforme artigo 14 da Lei
10.192/01.
Art. 14. O recurso interposto de decisão normativa da Justiça do Trabalho terá efeito suspensivo, na
medida e extensão conferidas em despacho do Presidente do Tribunal Superior do Trabalho.
Insta sublinhar que o requerimento de atribuição de efeito suspensivo não é apresentado
no próprio Recurso Ordinário, mas elaborado por meio de petição apartada dirigida ao
Presidente do Tribunal Superior do Trabalho, onde se apontará os prejuízos que a execução
imediata dessa decisão poderá causar a parte e a possibilidade de reversão dessa decisão.
Caso não seja atribuído efeito suspensivo ao recurso, a reforma da sentença normativa
não importará na restituição dos salários ou eventuais outras vantagens já pagas aos
empregados, conforme dispõe o artigo 6º, §3º, da Lei 4.725/65.
Art. 6º
§ 3º O provimento do recurso não importará na restituição dos salários ou vantagens pagos, em execução
do julgado.
Decorrido mais de 1 ano da vigência, caberá revisão das decisões que fixarem condições
de trabalho, desde que se tiverem modificadas as circunstâncias que as ditaram, de modo que
tais condições tenham se tornado injustas ou inaplicáveis, conforme artigo 873 da CLT.
Art. 873 - Decorrido mais de 1 (um) ano de sua vigência, caberá revisão das decisões que fixarem
condições de trabalho, quando se tiverem modificado as circunstâncias que as ditaram, de modo que tais
condições se hajam tornado injustas ou inaplicáveis.
Essa revisão poderá ser promovida por iniciativa do Tribunal prolator, do Ministério
Público do Trabalho, das entidades sindicais ou de empregador(es) interessados no
cumprimento da decisão, conforme artigo 874 da CLT.
Art. 874 - A revisão poderá ser promovida por iniciativa do Tribunal prolator, da Procuradoria da Justiça
do Trabalho, das associações sindicais ou de empregador ou empregadores interessados no cumprimento
da decisão.
Nesse sentido, a Súmula 397 do Tribunal Superior do Trabalho menciona que a decisão
proferida em dissídio coletivo faz coisa julgada apenas formal, dada a possibilidade de revisão
do conteúdo da sentença normativa.
Súmula nº 397 do TST
AÇÃO RESCISÓRIA. ART. 966, IV, DO CPC DE 2015. ART. 485, IV, DO CPC DE 1973. AÇÃO DE
CUMPRIMENTO. OFENSA À COISA JULGADA EMANADA DE SENTENÇA NORMATIVA
MODIFICADA EM GRAU DE RECURSO. INVIABILIDADE. CABIMENTO DE MANDADO DE
SEGURANÇA.
Não procede ação rescisória calcada em ofensa à coisa julgada perpetrada por decisão proferida em ação
de cumprimento, em face de a sentença normativa, na qual se louvava, ter sido modificada em grau de
recurso, porque em dissídio coletivo somente se consubstancia coisa julgada formal. Assim, os meios
processuais aptos a atacarem a execução da cláusula reformada são a exceção de pré-executividade e o
mandado de segurança, no caso de descumprimento do art. 514 do CPC de 2015 (art. 572 do CPC de
1973).

1.8. AÇÃO DE CUMPRIMENTO


Quando o empregador não cumprir voluntariamente a sentença caberá ação de
cumprimento, que poderá ser manejada pelos empregados diretamente ou pelo sindicato, na
forma do disposto na Súmula 286 do TST.
Súmula nº 286 do TST
SINDICATO. SUBSTITUIÇÃO PROCESSUAL. CONVENÇÃO E ACORDO COLETIVOS

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Direito Processual do Trabalho – Cláudio Dias

Aula 17 | Dissídios Coletivos

A legitimidade do sindicato para propor ação de cumprimento estende-se também à observância de acordo
ou de convenção coletivos.
A ação de cumprimento poderá ser ajuizada perante a Vara do Trabalho mesmo antes do
trânsito em julgado da ação.
Súmula nº 246 do TST
AÇÃO DE CUMPRIMENTO. TRÂNSITO EM JULGADO DA SENTENÇA NORMATIVA
É dispensável o trânsito em julgado da sentença normativa para a propositura da ação de cumprimento.
É importante destacar que essa ação de cumprimento é facultativa, conforme Súmula 350
do TST, visto que pode aguardar o trânsito em julgado da decisão para executar o título, não
havendo, antes do trânsito em julgado, de se falar de prescrição.
Súmula nº 350 do TST
PRESCRIÇÃO. TERMO INICIAL. AÇÃO DE CUMPRIMENTO. SENTENÇA NORMATIVA
O prazo de prescrição com relação à ação de cumprimento de decisão normativa flui apenas da data de
seu trânsito em julgado.

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