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I Congresso TeleVisões – Niterói, RJ – 27 de outubro de 2017

A COMPLEXIDADE NARRATIVA EM DEAR WHITE PEOPLE- UMA


ANÁLISE SEMIÓTICA

Carlos BONIFÁCIO, (UFF) 1

Resumo: Este artigo visa analisar o uso das estruturas actanciais no seriado Dear White People,
produzido e distribuído pela plataforma de streaming Netflix. Busco neste texto classificar, a
partir de alguns elementos da Semiótica, o objeto em questão como uma obra de ficção seriada
que apresenta uma forma estrutural pouco convencional. Produto de um momento em que a
Complexidade Narrativa se mostra como um aspecto cada vez mais presente na industria
televisiva, Dear White People se mostra em diferentes termos como um produto que aciona de
forma eficaz as potencialidades do formato seriado. Assim, através de suas estratégias
narrativas, a série se mostra inovadora tanto em sua temática, quanto na sua abordagem estética.

Palavras-chave: Dear White People; Estruturas actancais; Complexidade Narrativa;


Serialização

Abstract: This paper aims to analyze the usage of the actancial structures in the sitcom "Dear
White People", produced and distributed by the Netflix streaming platform. I seek in this text to
classify, from some elements of semiotics, the object in question as a work of serial fiction that
presents an unconventional structural form. Product of a time when narrative complexity is an
increasingly present aspect in the television industry, "Dear White People" shows itself in
different terms as a product that effectively activates the potentialities of the serial format. Thus,
through its narrative strategies, the series shows itself asis innovative in both its theme and its
aesthetic approach.

Keywords: Dear White People; Actantial Structures; Narrative Complexity; Serialization;

INTRODUÇÃO
Este trabalho visa analisar o uso das estruturas actanciais explicitadas por
Umberto Eco (2012), de modo a perceber como estas têm um papel fundamental na
construção de personagens na ficção seriada, em especifico na televisiva. Tais estruturas
se referem aos conteúdos não explicitamente textuais inseridos numa obra, que buscam
de certo modo orientar as abduções que serão realizadas pelo leitor e definir aos agentes
narrativos seus respectivos papeis, servindo-se, assim, de uma abstração que permite ao
leitor, para além da percepção de um personagem, reconhecer nos mesmos pontos que
vão além desta persona. Usar um personagem para ancorar uma discussão temática é um

1
Estudante de Graduação. 3º semestre do Curso de Estudos de Mídia ( Departamento de Estudos
Culturais e Midia, da Universidade Federal Fluminense). e-mail: cbonifacio@id.uff.br.
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exemplo de uso destas estruturas. Ainda que seja um conceito que cerque narrativas de
qualquer natureza, as estruturas actanciais, quando usadas de formas não maniqueístas,
permitem uma concepção mais sofisticada de uma figura narrativa com a qual o
espectador se depara ao fruir uma obra. Em dados momentos na historia da ficção
seriada televisiva, tal uso destas estruturas não era estimulado, tendo em vista os
contextos culturais e de economia política que guiavam a produção televisiva à época.
Mittell (2012) desenvolveu o conceito de complexidade narrativa a partir de um
momento em que o formato narrativo televisivo, buscando um maior reconhecimento
artístico, se dispôs a executar diferentes práticas que idealmente alcançariam este tipo
de status. Neste artigo, analiso Dear White People a partir da percepção de que a série
se enquadra nesta categoria de narrativa complexa.

Dear White People é uma série produzida e distribuída pela Netflix baseada em
um filme homônimo e lançada em abril de 2017. Centrada na convivência de jovens
universitários, a série gira em torno de disputas sobre questões raciais no campus,
majoritariamente composto por pessoas brancas. A trama se desenvolve a partir de uma
festa com a temática “Black face” promovida pela revista Pastiche. Tal evento desperta
uma tensão entre os jovens negros, que são centrais na narrativa, e desencadeia conflitos
e debates acerca de questões de militância, raça, liberdade de expressão e
individualidade. Focarei minha análise conceitual na descrição e exemplificação de três
personagens que compõe o núcleo de maior atenção na série: Sam, Coco e Reggie. Sam
e Reggie são figuras parceiras dentro de uma mesma organização do movimento negro
no campus, tida como mais incisiva. Coco faz parte de outra, mais conservadora, que
constantemente conflita interesses com a de Sam e Reggie. Assim, estes personagens se
mostram diferentes ideologicamente e ao mesmo tempo inseridos num movimento que
possui interesses comuns. Cada qual com suas perspectivas sobre o mesmo e questões
individuais que perpassam suas atuações nos conflitos raciais. .

A questão central deste trabalho são os aspectos internos de Dear White


People, entendida como uma obra emblemática das narrativas produzidas na chamada
“Terceira era de ouro” da produção televisiva americana, que tem como marco a série
The Sopranos (HBO, 1999-2007). Para isso, foco nos aspectos internos da produção,
visando analisar como as estruturas actanciais usadas de forma sofisticadas permitem
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uma abordagem estrutural atípica. Em todas as obras literárias que possuem agentes
narrativos internos estas estruturas estão presentes, seja de forma mais ou menos
maniqueísta, no sentido de tornar mais nebulosas as considerações que um leitor fará
sobre um determinado agente, tornando este mais rico tematicamente. Ou seja, construir
agentes multifacetados, que, para além de seus papéis maiores dentro da narrativa,
apresentem, também, aspectos variados e relevantes além destes tidos como principais.

A escolha por Dear White People se justifica por conta de sua estrutura
narrativa. Na série, pouco se avança em termos temporais como na média das produções
seriadas, de forma que quase toda a primeira temporada se dá acerca de um evento, no
caso a festa promovida pela revista Pastiche. O tempo que ela envolve não se distancia
em termos passados, presentes ou futuros, mas aborda tal evento antes, durante e após
seu acontecimento do ponto de vista de diversos agentes. Sendo assim, ao longo de seus
dez episódios, Dear White People progride muito mais nas questões referentes aos seus
personagens centrais, com episódios dedicados a cada um deles de forma a nos
apresentá-los e a enunciar a narrativa sobre seus respectivos pontos de vista. A partir
destes pontos, pretendo afirmar como o formato seriado audiovisual permite esse tipo de
abordagem estrutural sobre um tema complexo.

Dear White People, ao apresentar os estudantes um após o outro em uma


mesma situação maior, é um exemplo quase didático das estruturas actanciais, visto que
cada um representa um ponto chave na discussão que envolve a trama. Seja um
personagem com um arco narrativo mais claro como Lionel, que se descobre sexual,
social e profissionalmente ao longo dos episódios, ou como um papel mais tendencioso
a um arquétipo de vilão como Kurt. Todos ali, ainda que vivenciem seus conflitos
pessoais, representam uma pauta ou um argumento chave em todo o tema sobre
racismo. Seja em militância ativa, em criticas ao movimento, ao proporem reflexões
sobre um limite para a liberdade de expressão ou sobre a separação entre causa e
indivíduo, o formato seriado aqui se exerce de forma fundamental para a explicitação
destes pontos do discurso.

Sendo assim, é necessário todo um percurso metodológico para se chegar ao


que representam as estruturas de Dear White People no campo tanto semiótico quanto
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na historicidade da ficção seriada televisiva. O trajeto argumentativo deste trabalho,


portanto, busca traçar teoricamente o progresso que constrói essa narrativa a partir dos
papeis narrativos exercidos pelos personagens.

Demonstrando uma progressão de como a narrativa televisiva iniciou este tipo


de alteração estrutural e como isso se encaixa na linha do tempo histórica destas
experimentações, desenvolver os aspectos da série que são mais importantes neste eixo,

explicitar o que são, conceitualmente, as estruturas actanciais propostas por Eco (2012a)
e como elas se manifestam em Dear White People. Por fim, argumentar positivamente
como o formato seriado permite esta complexidade na construção das estruturas
actanciais, inferindo que estas são diretamente responsáveis numa orientação
interpretativa do leitor, visto que estas estruturas sugerem as abduções corretas para
uma compreensão do mesmo mais próxima da intenção da narrativa com seu discurso.

Não são abordadas profundamente questões externas à trama, ainda que, neste
caso especifico, Dear White People também tenha se destacado na questão de uma
recepção calorosa, tanto positiva quanto negativamente. Neste texto, analiso como o
uso das estruturas actanciais nessa obra permite múltiplas visões tanto da situação
quanto do comportamento dos agentes. Além disso, proponho uma breve reflexão de
qual delas seria mais apropriada, tendo em vista todo o escopo social e ideológico
apresentado na série. Num todo, creio que sejam necessários exemplos mais específicos
para uma análise como a que estabeleço com este trabalho. Portanto, para ancorar
minhas argumentações em uma escala micro, defini os personagens Reggie, Sam e
Coco como as figuras centrais para a explicitação da minha hipótese e para a aplicação
dos conceitos teóricos que abordo. Tais personagens apresentam os aspectos mais
evidentes e demonstrativos sobre as discussões que traço ao longo do texto, sobre uma
construção actancial sofisticada e rica. Novamente, este artigo não visa um estudo de
personagens como sujeitos narrativos em si, mas sim uma explicitação aplicada de um
conceito semiótico em suas figuras, além de um traço de como este tipo de
experimentação se dá num âmbito geral de ficção seriada televisiva.
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A COMPLEXIDADE NARRATIVA EM DEAR WHITE PEOPLE

Mittell (2012), em seus esforços para traçar e enquadrar formalmente produtos


seriados televisivos, levou em conta fatores de suma importância para uma analise mais
cautelosa sobre este formato. Visto que não somente aspectos mercadológicos, de
economia política, de recepção e de estruturação formal não seriam suficientes para
construir a categoria de complexidade narrativa, ele se utiliza de todos estes termos para
estruturá-la. Sendo assim, suas contribuições se mostram bastante articuladas aos
pressupostos deste trabalho. Já que o seriado analisado não é somente um produto do
atual mercado televisivo, mas também um produto seriado que foge dos padrões
formais/estruturais tradicionais desta indústria. Minha apropriação sobre essa categoria
do Mittell (2012), portanto, está centrada mais nas questões formais que a enquadram
como uma narrativa complexa e menos em termos externos ao texto.

Definindo a complexidade narrativa como um modelo que vai “contra regras


das tradições episódicas e seriadas operando de formas variadas e intrigantes”, Mittell
(2012, p 32) demonstra que as produções tidas como complexas, ainda que se
diferenciem entre si, estão todas fora de um padrão convencional televisivo. Obras
incluídas nesse modelo passaram a ser produzidas dessa forma devido às emergências
mercadológicas da época em que foram inicialmente experimentadas, e possibilitadas
somente a partir de um aparato tecnológico que servisse às suas lógicas de consumo e
recepção. Um forte cenário competitivo no mercado televisivo americano, marcado pela
profusão de canais pagos e abertos, demandava das produtoras inovações no modo
como realizavam suas produções e tecnologias como o DVD e Internet, que passaram a
permitir uma “reassistibilidade” (MITTELL, 2011) das obras e uma cooperação entre
espectadores para a fruição compartilhada e cooperativa de um produto (JENKINS,
1992; 2009). A categoria de Mittell se consolida em especial em seus termos formais e
internos às obras. Termos que, ao mesmo tempo, tiveram sua experimentação e
execução influenciada pelas emergências mercadológicas e também foram os
responsáveis por reaquecer o mercado de ficção televisiva. Mas o que torna uma
narrativa complexa em seus aspectos formais? Bem, como dito acima, uma narrativa
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que se encontre fora dos padrões tradicionais e estabelecidos pela indústria pode ser já
classificada como uma narrativa complexa. Seja a partir de uma construção de arcos
dramáticos que tomem uma temporada completa ou mesmo um maior uso de linguagem
cinematográfica. Num primeiro momento, o modo como essas produções realizaram
esse feito foi através de uma lógica episódica menos independente em suas partes. As
séries que tinham intenção em se diferenciar das demais começam, a partir dos anos
1980 a adotar uma “redefinição das formas episódicas sob a influência da narração em
série” (MITTELL, 2012). Os episódios então começam a apresentar tanto arcos
narrativos que se encerram dentro do próprio episódio como passam a se apoiar na
perspectiva dos arcos longos, que atravessam toda a temporada. Nos anos 1990, o
modelo se consolidou, em especial em produtoras como a HBO, que tomou para si a
complexidade narrativa como forma de se diferenciar entre as demais em termos de
sofisticação de suas obras audiovisuais. Processo semelhante, de reivindicação de
legitimidade via obras complexas, pode ser observado no posicionamento atual da
Netflix dentro do mercado internacional da ficção seriada televisiva (CASTELLANO e
MEIMARIDIS, 2016).

Definir os aspectos que tornam Dear White People uma obra de narrativa
complexa não é uma tarefa árdua do ponto de vista analítico. Sua estrutura é claramente
não convencional, até mesmo dentro de um mercado com obras variadas, com séries
construídas de forma linear e outras com episódios interdependentes, como nas clássicas
“procedurais”, tramas normalmente ligadas a ambiente de trabalho que utilizam a
fórmula “caso da semana”. Nesse ponto e a partir das considerações de Mittell, Dear
White People poderia ser enquadrada em termos de complexidade narrativa. Como dito
acima, visto que atualmente a televisão americana se encontra povoada de formas
seriadas complexas, a série possui um diferencial maior do que apenas a
interdependência episódica para uma construção de narrativa seriada. Interessa mais a
essa analise a progressão narrativa da série, ponto que considero o diferencial da
produção da Netflix em relação à maioria das obras televisivas contemporâneas.

Com a primeira temporada estruturada em dez episódios de cerca de trinta


minutos cada, Dear White People nos apresenta logo no primeiro episódio uma situação
chave do desencadeamento da trama:o evento Black Face realizado pela revista
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Pastiche. É a partir deste que a série se desdobra estruturalmente, variando os atores


centrais da trama a cada episódio de modo a expor sua temática a partir da figura de
seus agentes narrativos. Com um formato que, como já dito, prioriza uma progressão
em relação a estes agentes, ligada ao desenvolvimento dos personagens, em detrimento
de uma progressão temporal linear e interdependente, mais comum nas demais
produções seriadas para televisivas. É neste ponto em que considero Dear White People
um objeto seriado que tem em sua forma aspectos que valem uma análise mais
cuidadosa em termos de seu enquadramento como narrativa complexa. Não se trata aqui
de uma manifestação do efeito Roshomon2. As personagens no seriado em questão
vivenciam e percebem concretamente a mesma situação, são os aspectos ideológicos e
seus papéis narrativos como um todo que tornam a percepção da festa, e dos temas que
emergem em torno dela, diferentes entre si. Ao apresentar, a cada episódio, o
detalhamento do ponto de vista de cada um de seus agentes narrativos centrais, Dear
White People permite um maior enriquecimento na discussão geral do tema proposto.
Além de um formato que torna a fruição uma experiência estética curiosa por conta de
sua estruturação pouco convencional.

ESTRUTURAS ACTANCIAIS/ATUACIONAIS EM DEAR WHITE PEOPLE

Um ganho do formato de progressão em relação aos personagens em


detrimento do tempo é uma possibilidade de desenvolvimento maior das figuras que
habitam a narrativa de Dear White People. Não somente por uma questão de
proporcionar um desenvolvimento mais completo das personagens, mas também pela
ancoragem das nuances que envolvem a discussão racial promovida pela série. É neste
ponto em que desenvolvo minha análise em relação ao uso sofisticado de estruturas
actanciais.

2
Conceito criado pelo antropólogo Karl G. Heider, baseado no filme homônimo do diretor Akira
Kurosawa. No filme em questão, um crime é descrito de forma contraditória por quatro agentes
diferentes deixando o espectador em duvida sobre a concretude da situação. O efeito Roshomon se
caracteriza por este uso de estratégia narrativa.
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As estruturas actanciais definidas inicialmente por Greimas (19736), são são


em si um desafio do ponto de vista de um momento de identificação na leitura de um
texto, e aqui uso texto como qualquer obra narrativa sujeita a uma interpretação. Já que
elas são frutos diretos de uma cooperação entre leitor e obra e são interdependentes de
atualizações sobre outros aspectos da narrativa. Como exemplo, ao vermos a figura de
Sam em um primeiro momento, podemos ter considerações variadas sobre sua
personalidade, motivações e seu papel naquele contexto. Mas com o decorrer dos
acontecimentos e das passagens textuais acerca de Sam, nossa interpretação se modifica
de forma a acompanhar as proposições realizadas pela obra sobre a personagem. Claro,
não necessariamente o leitor terá sua interpretação sobre a personagem alterada após o
decorrer da série. A cooperação do leitor não é uma atividade passiva em relação ao que
a obra entrega em termos subjetivos sobre um personagem. E em se tratando de
estruturas actanciais, a incidência do autor com ferramentas interpretativas externas as
obras é fundamental para uma realização das mesmas.

O que torna difícil definir a colocação teórica deste nó cooperativo


reside no fato de que, de um lado, o leitor já deveria ter prefigurado
hipóteses acerca dos actantes para poder definir certas estruturas
narrativas, e, de outro, deveria já ter delineado mundos possíveis, com
seus indivíduos, a fim de poder estabelecer quais são os atores em
jogo. (ECO, 2012a).

Aqui o autor trata das estruturas narrativas como um percurso da trama que
pode ser identificado pelo leitor. Ou seja, saber que Sam é uma figura central no
contexto de militância em sua universidade nos daria recursos para inferir sua
personalidade contundente, ao mesmo tempo em que perceber estes traços na
personalidade de Sam nos daria recursos para deduzir seu papel ativo no contexto de
disputas raciais no campus, levando em consideração os “mundos possíveis”. Esses
movimentos ocorrem simultaneamente.

Sendo estruturas que orientam interpretações acerca dos agentes, as estruturas


actanciais não se dão de forma explícita textualmente. Elas são muito mais frutos de
abstrações dispostas pelo autor do que uma verbalização sobre um agente narrativo em
relação aos seus papéis. Não é incomum, em certos textos literários, que estes papéis
venham embutidos nas adjetivações feitas sobre um personagem. A literatura infantil,
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por exemplo, em um uso maniqueísta destas estruturas, quase sempre enfatiza de forma
textual qual dos agentes terá um papel de “Mocinho” ou “Vilão”. É pelo juízo de valor
atribuído aos adjetivos usados sobre tais figuras que ficam mais claras as estruturas
actanciais sobre estas. Não é o caso de narrativas que se dispõem a criar variantes acerca
dos papéis de seus personagens. Dear White People não busca por em xeque o caráter
ou até mesmo relativizar um personagem a ponto de tornar suas verdadeiras intenções
um objeto de mistério ou curiosidade. O uso das estruturas actanciais em agentes
narrativos de Dear White People serve mais à temática como um todo do que somente
aos próprios agentes. Nas três figuras que trato como exemplo desse uso, percebe-se ao
embutir nas interpretações da obra alguns aspectos ideológicos que ela propõe ao
demonstrarem pontos chave na discussão racial que envolve a narrativa como um todo.

Em Sam, observa-se uma figura ativa e relevante, uma das representantes do


movimento negro no campus de Winchester e radialista do programa “Dear White
People”. Sam se mostra como uma figura incisiva e provocativa em suas falas acerca
das questões raciais que ocorrem na universidade. Em um campo diegético, Sam é
percebida como uma figura representativa das organizações de alunos negros dentro do
campus. Extradiegeticamente, sua personagem ancora de certa forma aspectos
conflituosos que são associados a estas figuras em movimentos sociais, seja em
universidades ou fora delas. A quebra de expectativa sobre o parceiro amoroso/sexual
de Sam no primeiro episódio não é somente um ponto de inflexão da narrativa. Quando,
em um primeiro momento, através de uma montagem estratégica, somos levados a
supor que o parceiro seria na verdade Reggie,um jovem negro,e o seriado, ao revelar a
figura de Gabe, um estudante branco, e os questionamentos levantados a partir da
postagem do mesmo sobre Sam “#HateItWhen Bae Leaves”, notamos uma abordagem
da narrativa sobre a dinâmica individuo/militância, ao tentar traçar e discutir pontos que
separem a figura de liderança que Sam representa de seus interesses amorosos e
pessoais por um homem branco, visto que estas duas realidades levam a conflitos entre
Sam e seus colegas num primeiro momento no contexto apresentado. Para além destes
questionamentos diegéticossobre a personagem dentro da trama, nota-se na persona de
Sam uma representação extradiegética externa a série acerca da discussão ancorada em
sua personagem. No caso, um dos pontos sobre a discussão temática proposta pela série
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como um todosobre racismo. Tem-se então o ponto onde as estruturas actanciais se


manifestam na persona de Sam.

Reggie é sempre colocado como um jovem disposto e dedicado a todo o


momento aos seus ideais e indignado com os eventos e discursos racistas que permeiam
o convívio no campus. Ao longo do quinto episodio, centrado em sua perspectiva, é
construído todo um percurso para demonstrar as características de Reggie com mais
especificidade, em especial suas qualidades intelectuais e inquietação em relação ao
racismo, para num ponto de clímax,clímax, demonstrar de forma mais contundente e
crua seu momento de fraqueza diante de uma situação onde ele tem sua vida e
humanidade ameaçadas por uma ação de força desproporcional baseada na cor de sua
pele. Assim, ao mostrar o processo de reação de Reggie a este evento, a narrativa
estabelece mais um ponto da discussão proposta pela série como um todo. A persona de
Reggie é utilizada narrativamente como um suporte para outro aspecto da discussão, um
conflito entre força, fraqueza e limites do sacrifício pessoal de um individuo negro
inserido nas disputas raciais.

Coco (Colandrea), estudante de direito ambiciosa e com planos claros sobre


seu futuro, constantemente questiona as ações de Sam como líder, a partir de uma
discordância ideológica sobre o movimento. Coco tem um perfil um pouco mais
conservador e menos provocativo do que Sam. Na estrutura dos episódios na série, o
capitulo quatro é focado na experiência de Coco em relação a sua cor, mostrando
eventos desde sua infância,infância, a entrada na universidade, até a temporalidade atual
da diegese. Assim, notamos os porquês do comportamento de Colandrea sobre si
mesma e sobre sua aparência, e os motivos que a levam a ser mais polida em seu
discurso e ações sobre as tensões raciais em Winchester. Em suas próprias falas, Coco
afirma que não performatizar de forma total sua negritude é um ato de autopreservação
diante de todas as experiências que viu ou viveu. Assim como reações fervorosas como
as apoiadas por Sam seriam motivos para maiores violências das contrapartes da disputa
naquele campus. Seu arco narrativo se dá em torno desta performance e sua forma de
militância e sensibilidade sobre as questões de uma mulher negra inserida naquele
contexto após uma infância numa zona pobre de Chicago. Assim, a figura de Coco
ampara em termos actanciais mais um ponto na discussão sobre racismo, em relação a
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uma performance de si em um meio violento para pessoas não-brancas, chamando a


atenção para o limites pessoais num contexto político/social que por vezes coloca em
segundo plano as expectativas individuais dos agentes.

De antemão afirmo o caráter ilustrativo destes exemplos, as estruturas


actanciais em especial destes personagens não são e não devem ser reduzidas às
exposições feitas neste texto. Elas possuem intenções expositoras sobre usos narrativos
das personagens em um campo não diegético, mas interpretativo e cooperativo. A
depender da capacidade e do conhecimento do Leitor sobre a temática discutida, mais
actantes podem ser percebidas nas personas de Dear White People como um todo e por
consequência uma depreensão mais completa da obra em si. O julgamento de valor
destas estruturas fica a caso das percepções ideológicas de quem lê. Perceber o ponto de
discussão que as personagens ancoram não é necessariamente concordar
ideologicamente com os mesmos, este movimento é de interferência quase que total do
espectador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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Na busca por um maior numero de assinantes e ancorada num modelo de


economia política próximo ao executado por canais premium como HBO e Showtime, a
Netflix possui potencialidades de liberdade de abordagem temática visto que seu
conteúdo não é refém da lógica de financiamento através de anunciantes e sim do
interesse de um publico assinante do serviço (CASTELLANO, MEIMARIDIS, 2016).
Nesse sentido, Dear White People é um exemplo da realização desta potência. Com o
tratamento de um tema não convencional no meio televisivo e uma estrutura narrativa
amparada no modelo econômico de produção que se encontra, Dear White People pode
ser classificada como uma narrativa complexa dentro dos parâmetros traçados pela por
Mittell (2012).
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Nas estruturas actanciais presentes no movimento de cooperação de fruição da


obra notapresentes no movimento de cooperação de fruição da obra nota-se uma
sofisticação no que diz respeito ao uso dessas estruturas no que tange a abordagem
temática da obra como um todo. Ainda que, como um conceito, as estruturas
actanciais/atuacionais imputem a noção de que os agentes narrativos não sejam somente
biográficos, mas também receptáculos temáticos extradiegéticos (GREIMAS, 1973). E
é este aspecto que torna Dear White People um objeto tão rico do ponto de vista
estrutural de sua narrativa.

O progresso temporal atípico do seriado abre possibilidades de uma exploração


maior em relação às personas inseridas no contexto da história contada. Em seus
diferentes pontos de vista traçados no decorrer dos episódios, Dear White People serve-
se de seus personagens para ancorar questões chave que permeiam o debate sobre
racismo tanto no campus de Whinchester quanto na sociedade ocidental como um todo.
Foram demonstrados neste trabalho alguns exemplos do uso das estruturas actanciais
em Dear White People visando explicitar como este possibilitou a eficiência da
estrutura episódica da serie.

Tais possibilidades são sustentadas, em termos mais iniciais, pelo formato


seriado em si. Utilizando os episódios atrelados cada um a um personagem de Dear
White People como uma lógica de isotopia (ECO, 2012b), observa-se um percurso em
que cada personagem representado centralmente, junto a seus respectivos episódios,
representa um topic dentro de todo um contexto que abarca a primeira temporada da
série. Assim, tornam-se possíveis diferentes construções de atmosfera tonal nos
diferentes episódios sem prejudicar a fruição da série como um todo isotópico. O
episódio centrado em Lionel, por exemplo, possui uma atmosfera mais leve e
humorística do que o episódio centrado em Reggie, que se dispõe de um drama mais
denso e pungente. E mesmo que toda a temporada esteja disponível logo no momento
de lançamento da série, estimulando um consumo sequencial dos capítulos, ter estes
dois episódios compondo partes da temporada como um todo funciona mais como uma
manobra de administração dos topics menores sob um topic mais abrangente do que um
problema de discrepância temática/tonal dentro de uma mesma temporada. Tal efeito é
possível graças às estratégias de uso das actantes e do percurso temporal menos linear
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adotado pelo seriado. A cada episódio, com mais ênfase nos cinco primeiros, ao
entender a lógica temporal, voltamos a um ponto inicial da temporalidade diegética, mas
embarcados através da perspectiva de outro agente. Portanto também direcionados pelas
estruturas actanciais a abduzir outro ponto chave na discussão temática.

Por fim, ficou demonstrado neste texto como um uso sofisticado das estruturas
actanciais permite e auxilia uma abordagem estética pouco convencional dentro dos
padrões do formato seriado televisivo. Assim, Dear White People se mostra uma forma
narrativa com teor de complexidade tanto formal quanto temático, e, para além disso, se
mostra eficiente nas maneiras de dissertar sobre seu assunto principal, amparada nas
personagens criadas e desenvolvidas cuidadosamente dentro do formato seriado.
Mostrando em partes, que este formato se afirmado no mercado progressivamente em
termos de possibilidades de invenção estética no mercado audiovisual (SILVA, 2013).

Referências Bibliográficas

CASTELLANO, Mayka; MEIMARIDIS, Melina. Netflix, discursos de distinção e os novos


modelos de produção televisiva. Contemporanea,. v.14 . n.02 . maio-ago 2016. p. 193-209.

ECO, Umberto. Estruturas Actanciais e Ideológicas. In. Lector in Fábula. Rio de


Janeiro: Perspectiva, 2012a.

ECO, Umberto. Estruturas Discursivas e Narrativas. In.____ .Lector in Fábula. Rio de


Janeiro: Perspectiva, 2012b.

GREIMAS, A.J. Reflexões sobre os modelos atuacionais. In. Semântica Estrutural.


São Paulo: Cultrix, 1973

JENKINS, Henry. Textual poachers: television fans and participatory culture.


London: Routledge, 1992.

______. Cultura da convergência. São Paulo: Aleph, 2009.

MITTELL, Jason.Complexidade Narrativa na Televisão Contemporânea. MATRIZes.


Ano5. nº2jan./jun.2012.São Paulo .Brasil. p. 29-52.________. Notes on rewatching.
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Postagem em blog. Janeiro de 2011. Disponível em:


https://justtv.wordpress.com/2011/01/27/notes-on-rewatching/

PEIRCE, C. S. Semiótica. São Paulo Perspectiva, 2003

SILVA, Marcel Vieira Barreto. Cultura das séries: forma, contexto e consumo de ficção
seriada na contemporaneidade. Galáxia (São Paulo. Online), v. 14, p. 241-252, 2014.

SIMIEN, Justin. Dear White People. Netflix, 2017.