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2 – Introdução

A autora Susan Sontag explica em seu livro “Sobre Fotografia” a respeito


do costume de se fotografar, discorrendo principalmente a respeito da época em
que se era necessário o uso de equipamentos caros e que demandava
conhecimento profundo da ferramenta, por parte de quem iria utilizá-lo quem
fosse operar a câmera fotográfica. Por conta destes fatores, capturar imagens
passou a ser um passatempo dos mais ricos. Sontag ainda compara a atual
relação da humanidade com a teoria da “Caverna de Platão”. Para ela, nós
permanecemos nós admirando com meras imagens da realidade. A autora lembra
que “ser educado por fotos não é o mesmo que ser educado por imagens mais
antigas, mais artesanais”

Apesar de ter sido vista como item de luxo na sua origem, a fotografia se
difundiu de maneira estrondosa nas últimas décadas. Estudos realizados por uma
das maiores empresas digitais do mundo, o Google, apontam 1,2 bilhão de fotos
são postas todos os dias em sua plataforma. E boa parte deste número se deve a
presença, e porque não dizer, o protagonismo que os smartphones alcançaram na
vida das pessoas. Atualmente, é possível registrar desde desastres naturais a
selfies 1despretensiosas em eventos e postá-las instantaneamente por meio das
mídias sociais, como o Facebook2 e o Instagram 3.

A existência de tantas imagens nos meios digitais faz com que nós
tenhamos que despender cada vez mais atenção para captarmos as mensagens
que estão sendo passada por meio das fotografias. De 1839 até hoje, quase
duzentos anos após a invenção da fotografia, “praticamente tudo foi fotografado,
ou pelo menos assim parece”.

A chegada das câmeras digitais fez com que o preço para se tirar uma foto
caísse drasticamente, já que ela dispensa os filmes e por vezes o registro nem
mesmo é impresso, passando a habitar exclusivamente no âmbito digital.
Consequentemente, a popularização da fotografia trouxe novas interpretações do
1 Selfie é uma fotografia, geralmente digital, que uma pessoa tira de si mesma.

2 Facebook é uma rede social lançada em 4 de fevereiro de 2004, operado e de propriedade


privada da Facebook Inc..

3 Instagram é uma rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos entre seus
usuários, que permite aplicar filtros digitais e compartilhá-los em uma variedade de serviços de
redes sociais.

1
olhar e uma nova maneira de registrar os momentos. Não é raro presenciamos
acidentes de trânsito em que fotojornalistas precisam driblar as centenas de
câmeras que se levantam em meio à multidão ávida por registrar e compartilhar
aquele momento. Em seu texto “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade
técnica”, Walter Benjamin aborda a questão da reprodução artística, que sempre
esteve presente na história da humanidade. Para o autor a criação artística
humana pode sempre ser imitado de alguma forma por outros indivíduos, é isso
pode ser aplicado principalmente quando câmeras profissionais disputam a
mesma foto com smartphones. O mesmo tipo de ação acompanha a raça humana
desde os tempos mais primórdios, quando discípulos imitavam a criação de seus
respectivos mestres e posteriormente terceiros passaram também a dominar a
maneira de produzir e que passam a explorar os meios de produção.

Benjamin aponta, na mesma publicação, para uma questão importante


sobre a autenticidade, o que torna um texto do meio do século passado
perfeitamente atual, principalmente porque nos deparamos com um cenário de
grande difusão de imagens e em alguns casos a autenticidade pode ficar em
xeque. Benjamin lembra que a fotografia tem o poder de através das lentes
acentuar determinados aspectos do objeto fotografado. Em outras palavras, a
fotografia com sua capacidade ajustar o ângulo de observação consegue ter
acesso a detalhes que o olho humano não está apto para ter “Ela pode, também,
graças a procedimentos como a ampliação ou a câmera lenta, fixar imagens que
fogem inteiramente à ótica natural.”

A própria criação do fotojornalismo4 se deve ao avanço tecnológico, a


modalidade só se desenvolveu no início do século XX por meio das revistas
ilustradas que tiveram seu ápice na Alemanha nos anos 1930. Mas ao contrário
do que aconteceu no princípio, hoje a profissão está cada vez mais afetada pelos
constantes avanços da área de produção de imagens digitais.

Como participante ativo do cenário atual, o fotógrafo não sai ileso das
alterações que a evolução tecnológica traz. A criação das câmeras cada vez mais
leves e com capacidade de captar detalhes fazem com que o profissional precise
estar sempre conectado aos lançamentos que as grandes marcas fazem e que

4 Fotojornalismo é o gênero de jornalismo em que a fotografia é primordial na veiculação das


notícias.

2
modificam a maneira de produção e disseminação de imagens. O advento da
internet e o surgimento dos smartphones 5 impulsionam a circulação de imagens,
principalmente nas redes sociais. Seja de eventos sociais e pessoais, ou até
mesmo em acontecimentos maiores, como acidentes, guerras e catástrofes
naturais, a figura do “eu repórter” tem sido cada vez mais presente.

Recentemente o fotógrafo Sebastião Salgado declarou em entrevista


concedida a diversos meios de comunicação que a fotografia está com os dias
contados. Segundo o Salgado, nos próximos 30 anos ferramentas como o
Instagram substituiriam a fotografia e a partir daí o que passaria a ser gerado
seriam imagens, sem preocupação com a estética. O fotógrafo faz uma
comparação entre as fotografias feitas por nossos pais, que eram reveladas e
ganhavam um valor intrínseco, um contraponto quando observamos o que é
produzido no Instagram. principalmente por meio do midiativismo 6, que mobiliza
milhares potenciais repórteres, que fotografam tanto com câmeras profissionais e
até com seus celulares.

No que tange ao fotojornalismo propriamente dito, o que podemos apontar


como maior expoente das mudanças é o surgimento do midiativismo produzido
principalmente por coletivos de fotógrafos que usam tanto as câmeras DSLR
quanto celulares que contam com câmeras e lentes potentes o suficiente para a
produção de imagens que possam ser publicadas imediatamente. No caso
particular do midiativismo online, onde a velocidade do transporte de dados é o
que mais importa é a qualidade é muitas vezes deixada de lado em detrimento da
informação em tempo real. Este processo de dinamismo informacional, traz
novamente Benjamin para o debate.

Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir


o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na
sua cópia, na sua reprodução. Cada dia fica mais nítido a
diferença entre a reprodução, como ela nos é oferecida pelas
revistas ilustradas e pelas atualidades cinematográficas, e a
imagem. (BENJAMIN, 1955)

5 Um smartphone é um telemóvel que combina recursos de computadores pessoais, com


funcionalidades avançadas que podem ser estendidas por meio de programas aplicativos
executados pelo seu sistema operacional, chamados simplesmente aplicações.

6 é um movimento social de mídia independente que utiliza a internet para contrapor a


narrativa dos veículos ligados aos Conglomerados de mídia.

3
Coletivos como Jornalistas Livres e Mídia Ninja são os principais
expoentes deste movimento. No caso da Mídia Ninja, o movimento ganhou
repercussão nacional quando passou a cobrir os protestos contra o aumento da
passagem de ônibus em São Paulo, que evoluíram para as grandes
manifestações de 2013 que foram marcadas pela presença maciça de
interessados em realizar a cobertura dos acontecimentos de maneira
independente. Ferramentas como o Facebook, Instagram e Twitter 7são os
principais meios de propagação das imagens produzidas.

3 - Fundamentação da imagem

O processo fotográfico está inserido em nossa sociedade desde a


invenção da câmara clara, que servia para que os artistas pudessem pintar as
imagens projetadas por um pequeno orifício que reproduzia o que se passava
diante da câmara. Entretanto, esse processo era artesanal, segundo Lucia
Santaella, existem três paradigmas no mundo das imagens. Basicamente
Santaella os classifica em: Paradigma pré-fotográfico, paradigma fotográfico e
paradigma pós fotográficos.
Inicialmente lançaremos luz sobre o pré-fotográfico, que na definição da
autora, são as imagens que dependem da condução do artista, ou seja, a
habilidade manual “de um indivíduo para plasmar o visível”. Neste universo são
participantes as imagens esculpidas em pedras, o desenho, pintura e até a
gravura em pedras.
Santaella ainda afirma que as imagens artesanais têm uma
característica básica, que é a realidade métrica em que elas são produzidas. A
confecção deste tipo de obra necessita de um suporte, uma superfície, que
sirva de receptáculo das substâncias, na maior parte das vezes as tintas, que o
agente produtor, neste caso o artista, utiliza para nela deixar a marca de seu
gesto por meio de um instrumento apto.
A autora ainda destaca a questão da autenticidade inserida no universo
da imagem artesanal:

7 Twitter é uma rede social e um servidor para microblogging, que permite aos usuários enviar
e receber atualizações pessoais de outros contatos, por meio do website do serviço, por SMS e
por softwares específicos de gerenciamento.

4
O que resulta disso não é só uma imagem, mas um objeto
único, autêntico e, por isso mesmo, solene, carregado de certa
sacralidade fruto do privilégio da impressão primeira, originária,
daquele instante santo raro, no qual o pintor pousou seu olhar
sobre o mundo, dando forma a esse olhar num gesto
irrepetível. (Lucia Santaella)

A velocidade para a produção das obras é uma característica marcante,


isso na verdade acaba diferenciando-as de do que é produzido atualmente
pelos outros dois paradigmas. Santaella é taxativa quando afirma que neste
modelo acontece uma fusão entre “o sujeito que cria, o objeto criado e a fonte
da criação”.
Como consequência da produção artesanal, o armazenamento das
obras faz necessária com o uso de um suporte material único para cada peça.
“A imagem pré-fotográfica convida o receptor a um impossível contato imediato
e sem mediações, ao mesmo tempo que produz um afastamento”.
Santaella traz luz para o tema do paradigma fotográfico caracterizando-o
como a inauguração do uso de máquinas para a captura de imagens através
de seus aparelhos e principalmente por suas objetivas.
O advento da fotografia trouxe consigo um processo de produção que
possui uma didática própria. A dualidade também é sempre presente quando é
tratado o paradigma fotográfico.
O surgimento da fotografia não se dá de maneira espontânea, afinal de
contas ela é descendente direta da câmara obscura, que foi utilizada durante
anos nos trabalhos de diversos pintores, mas que com sua evolução, passou
afastar destes artistas a função de captura do que se passa no universo
prático. A câmara obscura não possuía apenas um meio de captura
permanente das imagens por meio de alguma superfície sensível à luz de um
lado, e do outro o negativo que fosse possível reproduzir a imagem
originalmente capturada.
A etimologia da palavra fotografia (foto - Luz e grafia - desenhar) deixa
claro o seu funcionamento, ou seja, desenhar com a luz. Neste sentido,
Santaela reforça que repousa as técnicas óticas de formação de imagens, a
partir da luz capturada por estes meios e recebida pelo objeto sensível capaz
de produzir a fotografia, seja ele o filme, a placa de cristais de prata ou o
sensor das câmeras mais modernas, ou seja, no paradigma fotográfico, o

5
suporte é baseado em fenômenos químicos ou eletromagnéticos que estão
preparados para a qualquer momento ser exposto à luz.
O resultado da captura analógica é o negativo, que paradoxalmente é
formado apenas por sombra, “rastro escuro à espera de luz que só será
restituída na revelação”. O próprio processo de revelação é categorizado por
Santaella como “a diferença, o hiato, a separação irredutível entre o real,
reservatório infinito e inesgotável de todas as coisas”.
Existe uma divisão clara no paradigma fotográfico, que fica entre o
negativo e as imagens impressas. O próprio negativo funciona como
armazenamento, ao contrário do que se pensa sobre a impressão propriamente
dito. Em suma, a passagem do paradigma pré-fotográfico o armazenamento
deixa de ser único, já que a reprodução se tornou possível com o advento do
negativo, que é passível de ser revelado a qualquer momento, além de ganhar
durabilidade.
O que se plasma na pintura é o olhar de um sujeito. O que a
foto registra, por seu lado, é a complementaridade ou o conflito
entre o olho da câmara e o ponto de vista de um sujeito. O que
se tem nas imagens sintéticas, por outro lado, é um olhar de
todos é de ninguém, pois a simulação numérica exclui qualquer
centro organizador, qualquer lugar privilegiado do olhar,
privilegiado do olhar, qualquer hierarquia espacial e temporal.
(SANTELLA)

Santaela defende que a o que é produzido pela fotografia é menos


representativo, na verdade, ela tem o poder da reprodução dos reflexos
captados no ambiente. Em outras palavras, essa imagem resultante de um
enquadramento do real, ou seja, um recorte, funciona como registro da relação
sujeito x mundo.
Umas das consequências do paradigma fotográfico, é a sua função na
relação entre o real e a sua imagem, ou seja, o que ela registra do ambiente, o
reflexo dele, a luz que emana. “Sombra, resto, corte, neste tipo de imagem o
índice reina soberano”.
A conexão entre a fotografia e a “era da comunicação de massas”, ou
seja, a função principal dela não é estar em porta-retratos pendurados em
nossas prateleiras, mas em jornais, revistas, outdoors e mais recentemente nos
meios digitais. “Imagem sobretudo profana, fragmento arrancado do corpo da

6
natureza, a imagem fotográfica oferece-se à observação, produzindo como
primeiro efeito no receptor a aquiescência do reconhecimento”.
Em suma, o paradigma fotográfico é caracterizado por Santaella como
“universo instantâneo, lapso e interrupção no fluxo do tempo”.
Com os recentes avanços tecnológicos, principalmente no que tange a
tecnologia da informação, chegamos ao terceiro paradigma, o pós-fotográfico
ou gerativo. Neste meio estão englobadas as imagens que são produzidas por
meio de uma matriz numérica, ou seja, algoritmos que são códigos que são
interpretados por computadores, que por sua vez, geram imagens por meio de
seus monitores.
Enquanto no paradigma fotográfico a divisão é sempre diádico, o pós-
fotográfico se organiza de maneira triádica. As mudanças que a entrada da
infografia8 no universo das imagens é objeto de estudo de diversos teóricos. O
que podemos afirmar é que a sua chegada deslocou o epicentro da imagem
ótica, que vinha desde os primórdios da câmara escura no Renascimento e a
perspectiva monocular desenvolvida entre os séculos XIX e XX.
Diferente das duas outras fases, agora a imagem não depende mais de
um suporte artesanal ou de um processo físico-químico, combinado com a
mecânica das câmeras fotográficas, a partir de agora o que vemos são
imagens que combinam o computador e uma tela de vídeo, sendo
acompanhados por um sistema abstrato, modelos, programas e cálculos.
Na nova ordem visual, na nova economia simbólica instaurada
pela infografia, o agente da produção não é mais um artista,
que deixa na superfície de um suporte a marca de sua
subjetividade e de sua habilidade, nem é um sujeito que age
sobre o real, e que pode até transmutá-lo através de uma
máquina, mas se trata agora, antes de tudo, de um
programador cuja inteligência visual se realiza na interação e
complementaridade com os poderes da inteligência artificial.
(SANTAELLA)

A própria formação das imagens infográficas se dá de maneira diversa


dos outros dois paradigmas, no caso da infografia, ou seja, a imagem, só pode
ser visualizada por meio da tela do computador, já que a formação delas é feita
por meio de pequenos fragmentos, ou pontos elementares chamados de pixels.
Esses fragmentos formam a imagem com diferentes nuances de cores e se

8 Infografia é o gênero jornalístico que utiliza recursos gráfico-visuais para apresentação


sucinta e atraente de determinadas informações.

7
organizam por meio de coordenadas determinadas pelo algoritmo do
computador. Santaella define “o pixel 9é controlável e modificável por estar
ligado a matriz de valores numéricos”. Isso nos leva a começar a refletir sobre
a “perpétua metamorfose” que a imagem passa a estar suscetível a sofrer, já
que ele pode ser retrabalhado.
Apesar da iconicidade e da sensibilidade que as imagens infográficas
têm, o processo do qual elas resultam é abstrato em seu âmago. Santaella
destaca três pontos sobre a produção de infografias: o primeiro deles é o
trabalho do programador, que constrói o modelo de um objeto numa matriz de
números, algoritmos ou programas. Em segundo lugar vem a própria matriz
numérica, que deve ser alterada de acordo as configurações de cada algoritmo
e em último lugar o computador, que interpretará todos os pontos e os
transforma em pontos visíveis. As leis da lógica são facilmente aplicadas as
imagens infográficas, enquanto as demais são mais ligadas a materialidade.
Para infografia a aparência, nem mesmo o rastro de luz deixado pelos
objetos, mas o comportamento que eles podem adquirir, além de suas
funcionalidades.
O que muda com o computador é a possibilidade de
fazer experiências que não se realizam no espaço e tempo
reais sobre objetos reais, mas sim por meio de cálculos, de
procedimentos formalizados e executados de maneira
indefinidamente reiterável. (SANTAELLA)

O armazenamento do que é produzido dentro deste paradigma difere


enormemente dos demais, já que ele se dá por meio das memórias dos
computadores. Por esse motivo, as produções pouco sofrem com as ações do
tempo e do espaço.
As imagens sintéticas produzidas digitalmente dependem diretamente da
capacidade do programador e de sua habilidade de criar de ferramentas que
possibilitem a manipulação e visualização das imagens. Em resumo, o
“programador representa o pensamento lógico e experimental”.
O controle da imagem pós-fotográfica obrigou aos profissionais ligados a
informática a criar modos mais rápidos de respostas entre as informações do
sistema e o receptor.

9 ponto luminoso do monitor que, juntamente com outros do mesmo tipo, forma as imagens na
tela.

8
4 - Fotografia digital

Em seu texto “A fotografia sob o impacto da eletrônica”, Arlindo Machado


trata das modificações que a recente entrada da fotografia digital, assim como
os recursos de armazenamento e processamentos digitais, tais como
10
photoshop têm modificado o conceito tradicional de fotografia e o autor
acredita que de agora em diante as mudanças no universo fotográfico até
mesmo a forma de se consumir imagens sofrerá mudanças radicais.
A velocidade em que as mudanças acontecem neste momento é
classificado por Machado como “vertiginoso”, principalmente com o advento
das telas eletrônicas que nos rodeiam no nosso cotidiano. Seja em casa, no
trabalho, nos locais de lazer a mais recentemente na palma das nossas mãos.
A imagem é normalmente “granulosa, mosaicada, estilizada, translúcida e
flamejante”, por conta destas características ela estas imagens só podem ser
remotamente associadas a homogeneidade da fotografia.
Por conta destas mudanças, estamos nos adaptando cada vez mais
rápido a ver imagem que muitas vezes realmente foi produzida por meio de
uma câmera fotográfica, mas que fora alterada de tal forma, que não “guarda
mais que pálidos traços de seu registro original em película”. Isso não se
restringe aos meios digitais, mas veículos impressos como jornais e revistas
tem trazido em suas páginas cada vez mais exemplos disso.
Ao mesmo tempo que pode parecer apocalíptico o cenário que se
apresenta, é preciso aceitá-lo da maneira que é, já que a presença da
fotografia eletrônica e “seria um equívoco descomunal olhar para tudo isso
como se estivéssemos diante de uma catástrofe, como se as telas eletrônicas
ao se multiplicarem ao nosso redor, estivessem também anunciando a chegada
do apocalipse”.
Machado aponta que a maior consequência da hegemonia eletrônica na
fotografia é a perda do valor do realismo que ela carrega desde sua origem. O
cenário agora cria uma certa desconfiança sobre o valor de realidade da
imagem, já qualquer imagem fotográfica pode ser altamente modificada.

10 Adobe Photoshop é um software caracterizado como editor de imagens bidimensionais do


tipo raster desenvolvido pela Adobe Systems.

9
É preciso deixar claro que a manipulação não é exclusividade da
fotografia digital. Desde os primórdios a fotografia já foi alvo de modificações
“por motivos publicitários, políticos e estéticos. O autor cita o exemplo da
exposição “As Fotos Que Falsificaram a História” que foi organizada em 1986
pelo jornalista Alain Jaubert em Paris, e que trouxe quase uma centena de
fotos de figuras históricas como Fidel Castro, Lênin, Trotsky e Pinochet.
Uma das hipóteses levantadas pelo autor é que a realidade refletida
pelas fotografias seja tão inválida que com o tempo até nossos documentos
não terão mais que carregá-las.

5 - O que é midiativismo?

Para responder o questionamento que abre este capítulo é preciso


definir alguns conceitos sobre mídia tradicional e mídias alternativas, a partir
dessas caracterizações é que poderemos partir para um estudo aprofundado
sobre questões ligadas diretamente ao midiativismo.
Quando analisamos nossa sociedade atual, nos deparamos com um
cenário de pessoas conectadas por meio da internet. Segundo Júlio Valentim,
“A sociedade contemporânea parece possuir uma certa ‘obsessão’ pela
mobilidade. Prova disso é a reconfiguração pela qual passam os espaços
urbanos”, e como o jornalismo não se organiza de forma autônoma as
alterações da sociedade, a maneira com que as pessoas passaram a consumir,
e mais recentemente, a gerar conteúdos também foi alterada.
Foi possível observar um aumento no número de portais eletrônicos e
páginas nas redes sociais especializados em mídia ativismo nos últimos anos.
No Brasil, mais precisamente em 2013 quando protestos contra o aumento da
passagem de ônibus em São Paulo desencadeou uma série de manifestações
populares em todo o país contra a realização da Copa do Mundo FIFA 2014.
Além de gritar contra a realização do mundial de futebol, em muitos
lugares veículos tradicionais de mídia foram hostilizados e tiveram sua
capacidade de cobertura reduzida. A partir deste ponto, os midiativistas

10
11
ganham espaço e por meio de serviços de streaming como a twittcam12,
13
periscope e fotos postadas por meio das redes sociais. Júlio Valentim explica
isso no trecho:

O advento das tecnologias móveis permite a articulação do


espaço físico com o espaço virtual, e faz com que pessoas,
veículos, objetos e lugares possam ser localizados e
conectados sem-fio, entre si e a qualquer parte do mundo,
através do ciberespaço. (Thiago D’angelo Ribeiro Almeida)

Além da cobertura, o facebook foi uma importante ferramenta para os


midiativistas, que usavam as redes sociais para “agendamento, espalhamento
de orientações e registros, além de fornecer espaço para reflexões sobre os
eventos”. Os megafones foram substituídos pelas redes, o que aproximou os
movimentos populares brasileiros dos que aconteceram ao redor do mundo no
mesmo período.
como as ações na Tunísia, Egito e Islândia.
Almeida define estes portais como micromídia, em detrimento de sua
capacidade técnica e de alcance e “possui raio de abrangência limitado, e
mesmo que utilize a internet, geralmente tem restrições técnicas que limitam
sua produção e transmissão e se encontra à margem do ecossistema
midiático”. Isso as difere da Macromidia, que em suma atuam no mercado
como uma grande empresa, com “rotinas, estéticas, linhas editoriais
específicas, além de estrutura técnica e tecnológica robusta. Alguns exemplos
são grandes empresas do porte da Rede Globo, Folha de São Paulo, Time
Warner, Disney, Google, entre outras.” (ALMEIDA 2015).
Vamos nos debruçar sobre a questão das micromidias, que na maioria
dos casos se destacam por meio de portais online e páginas nas redes sociais
como é o caso da Mídia Ninja, que em 07/11/2017 contava com 1.635.622 de

11 Streaming é uma forma de transmissão de som e imagem (áudio e vídeo) através de uma
rede qualquer de computadores sem a necessidade de efetuar downloads do que está se
vendo e/ou ouvindo, pois neste método a máquina recebe as informações ao mesmo tempo em
que as repassa ao usuário.

12 Twitcam é um serviço vinculado ao Twitter, microblogging e serviço de mídia social, que


permite aos seus usuários enviarem vídeos ao vivo através de uma câmera conectada ao seu
computador. Funciona como se fosse um programa de televisão ao vivo, onde as pessoas
participam "twittando" sobre o serviço.

13 Periscope é um aplicativo de streaming de vídeo ao vivo para iOS e Android desenvolvido


por Kayvon Beykpour e Joe Bernstein

11
seguidores em sua página oficial no facebook, e os Jornalistas Livres, que na
mesma data possuía 895.401.
Em uma primeira análise, o número de pessoas propensas a serem
alcançadas pelas publicações realizadas por elas parece expressivo, mas
quando analisamos os números divulgados pelo IBGE em 2015 que
demonstram que 97,1% dos lares brasileiros possuem pelo menos um aparelho
televisor. A mesma pesquisa apontou que em apenas 57% dos brasileiros
tinham acesso a internet em 2016. Isso demonstra a hegemonia que os
veículos tradicionais ainda têm no cenário midiático nacional.
O autor John D. H.Downing, classifica a internet como uma “esfera
pública global que tem por características a liberdade e a anarquia, já que se
vê livre dos mecanismos opressores dos quais a grande mídia faz parte. Desta
maneira, podemos afirmar que de uma maneira geral o midiativismo online se
posiciona em sintonia com a definição do autor, já que ele se apropria do
espaço público, seja ele virtual ou físico.
É o caso das grandes manifestações que aconteceram no país desde
2013. centenas de milhares de pessoas insatisfeitas com as mais diversas
pautas se unem por meio destes canais, que demonstram capacidade de unir
pessoas e fomentar a discussão de ideias, além da publicação de conteúdos
multimídia, incluindo o fotográfico, que é produzido de maneira colaborativa.
“Através da internet e das redes sociais, estas mídias garantem uma
distribuição massiva que tende a ultrapassar as redes de ativistas e, por vezes,
se colocar no grande circuito informacional por meio de suas funções pós-
massivas.” (Thiago D’angelo Ribeiro Almeida)

6 – Cobertura da Greve Geral de 28 de abril

Analisamos agora a forma com que se comportaram duas páginas do


facebook que cumprem o papel anteriormente definido de cobertura e
divulgação de atos ligados a movimentos sociais. Destacamos a Mídia Ninja e
o Jornalistas Livres.
A Mídia Ninja foi fundada em 2013 em meio a efervescência dos
protestos contra o aumento das passagens de ônibus em São Paulo e

12
posteriormente contra a realização da Copa das Confederações e Copa do
Mundo no Brasil, competições que à época estavam marcadas para serem
realizadas respectivamente em junho de 2013 e junho de 2014. Desde o início,
a cobertura se deu pela internet, com o uso de ferramentas de transmissão de
vídeos online e a publicação de fotografias. No facebook, a Mídia Ninja se
define assim em 12/11/2017:
Somos a Mídia NINJA (Narrativas Independentes, Jornalismo e
Ação). Uma rede de comunicadores que produzem e
distribuem informação em movimento, agindo e comunicando.
Apostamos na lógica colaborativa de criação e
compartilhamento de conteúdos, característica da sociedade
em rede, para realizar reportagens, documentários e
investigações no Brasil e no mundo. Nossa pauta está onde a
luta social e a articulação das transformações culturais,
políticas, econômicas e ambientais se expressa.
(https://www.facebook.com/pg/MidiaNINJA/about/ acesso em
12/11/2017)

Já em março de 2015, o coletivo Jornalistas Livres iniciou suas


atividades em meio aos protestos que pediam o impeachment14 da então
Presidenta Dilma Vana Rousseff, que havia sido eleita em 2014 e tomou posse
de seu segundo mandato em 2015 durante um período de forte retração da
economia. Segundo o próprio portal de Jornalistas Livres, a criação se deu por
conta da “necessidade urgente de enfrentar a escalada da narrativa de ódio,
antidemocrática e de permanente desrespeito aos direitos humanos e sociais,
em grande parte apoiada pela mídia tradicional”, E desta maneira eles se
definem:
Jornalistas Livres somos uma rede de coletivos originada na
diversidade. Existimos em contraponto à falsa unidade de
pensamento e ação do jornalismo praticado pela mídia
tradicional centralizada e centralizadora. Pensamos com
nossas próprias cabeças, cada um(a) de nós com sua própria
cabeça. Os valores que nos unem são o amor apaixonado pela
democracia e a defesa radical dos direitos humanos.
(https://jornalistaslivres.org/quem-somos/ acesso em
12/11/2017)

Definido o objeto de estudo, é preciso desvendar o que é a cobertura


colaborativa e como ela se desenvolve no cenário midiático atual, já que é a
partir dela que se dão a maior parte das coberturas realizadas pelos coletivos

14 Impeachment: processo instaurado com base em denúncia de crime de responsabilidade


contra alta autoridade do poder executivo (p.ex., presidente da República, governadores,
prefeitos) ou do poder judiciário (p.ex., ministros do S.T.F.), cuja sentença é da alçada do poder
legislativo.

13
midiativistas. Em suma podemos definir desta forma “a cobertura colaborativa
tem sua genealogia quando determinado acontecimento público é transformado
em fato jornalístico pelo trabalho de engajamento coletivo dos perfis nas redes
sociais.” (MALINI & ANTOUN, 2013, p. 247)
A forma com que estes dois veículos se financiam também se
assemelha, já que ambos dependem de doações que são realizadas por
internautas que acessam seus respectivos portais e decidem colaborar o
financeiramente com a estrutura.

Em 28 de abril de 2017, as centrais sindicais apoiadas por siglas


partidárias de esquerda, organizaram a chamada “Greve Geral”, que paralisou
as atividades em repartições públicas e empresas privadas para protestar
contra a reforma trabalhista, uma série de mudanças na CLT 15, que segundo
estes movimentos piorariam a relação de trabalho no país. A mudança, foi
implementada pelo governo do então presidente Michel Miguel Elias Temer
Lulia, que tinha seu governo contestado, já que Temer era Vice-presidente da
República e assumiu a presidência após o processo de impeachment da ex-
presidenta Dilma Rousseff.

Em meio a este cenário, os dois veículos contaram com a colaboração


de fotógrafos de todo o país para a realização das coberturas das
manifestações de rua, como fica claro nas publicações que separamos abaixo:

Figura 1:

Fonte:https://www.facebook.com/pg/MidiaNINJA/ (acesso em 12/11/2017)

15 CLT: Consolidação das Leis Trabalhistas criada ainda durante o governo Getúlio Vargas.

14
Figura 2:

Fonte: https://www.facebook.com/pg/MidiaNINJA/ (acesso em 12/11/2017)

Figura 3:

Fonte:https://www.face book.com/pg/MidiaNIN
JA/ (acesso em 12/11/2017)

15
Figura 4:_

Fonte:https://jornalistaslivres.org/2017/04/usp-na-greve-geral-de-28-de-abril/ (Acesso em
12/11/2017

Figura 5:

Fonte: https://jornalistaslivres.org/2017/04/a-gente-nao-aguenta-mais/ (acesso em 12/11/2017)

Figura 6:

Fonte:https://jornalistaslivres.org/2017/04/usp-na-greve-geral-de-28-de-abril/ (Acesso em
12/11/2017

Figura 6:

16
https://www.instagram.com/p/BTb1hiiBptd/?hl=pt-br&taken-by=jornalistaslivres (Acesso em
12/11/2017)

Além do fotojornalismo, assim como definimos no capítulo anterior, estas


mídias desempenham o papel de divulgação, organização e chamamento para
os atos realizados pelos movimentos sociais. Abaixo é possível verificar
algumas situações em que se aplica esta definição:

Figura 7:

Fonte:

https://facebook.com/midianinja (acesso em 12/11/2017)

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