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O ENGRAXATE QUE VIROU PHD é uma história de superação e otimismo, do

garoto de uma pequenina cidade, que enfrenta com a família a imigração e a fome, vence as
grandes dificuldades da vida até chegar a um dos pontos máximos do conhecimento
científico e acadêmico dos Estados Unidos, o PhD, o que corresponde ao doutorado no
Brasil.
Narrado em primeira pessoa, o livro é escrito em uma linguagem simples e direta,
que prende o leitor, instigando-o e provocando-o a criar imagens vívidas e coloridas dos
lugares e a refletir sobre comportamentos universais da humanidade, a partir de situações
vivenciadas pelo autor durante as fases de sua vida. É uma história que mescla relatos que
ora provoca lágrimas, para em seguida despertar o riso fácil. A esperança e a iniciativa
vencem o medo e o desespero, fazendo brotar, através do trabalho e do estudo, o caminho
do sucesso. Submetido a condições materiais adversas, o menino começa a aprender os
segredos do empreendedor, desenvolve-os no adolescente, aprimora-os e treina-os no
jovem, com a ajuda do conhecimento técnico-científico, que instrumentaliza o adulto a
influenciar o mundo.
A história começa com um mergulho nas lembranças mais remotas da infância,
descrevendo a vida feliz e tranqüila que a criança desfrutava em uma chácara - verdadeiro
paraíso cravado entre os pés da belíssima serra e do farto rio - junto com seus pais, dois
irmãos e três irmãs. Dessa época, brotam relatos narrados sob a ótica da ingenuidade
infantil. Ao confundir uma taturana preta com os courinhos da bicicleta, a criança descreve
a sua primeira experiência com a dor, tirando dela as primeiras lições: não se deixar levar
pelas aparências e não agir sob o efeito do impulso.
A dor da queimadura da taturana cria traumas na memória infantil, projetados, na
hora de dormir, em forma de filmes de terror na parede de seu quarto. Fechar os olhos ou
mudar o foco não resolvia o problema, pois as imagens descortinavam-se dentro dos olhos
da criança. Procurar abrigo na cama dos pais ou irmãos para aplacar o tormento, seria
afrontar os rígidos códigos de conduta da severa educação paterna. Nesse ponto, somos
alertados para não prejulgar o pai sem antes conhecer a sua história: um homem
empreendedor, com 29 irmãos, criado sem a presença da figura materna. Enfrentado o
medo na solidão, aos poucos o menino passa a ter controle sobre seus monstros, a ponto de
humanizá-los, ensinando-nos que devemos e podemos controlar nossos medos e monstros.
Ao comparar a camuflagem da taturana com a da raça humana, o autor nos mostra que
devemos focar nos atos e ações das pessoas ao invés de gastar tempo julgando as intenções
de suas mentes.
Depois da vitória sobre o medo, a criança percebe, logo cedo, que o diálogo e a
humildade eram as melhores escolhas nos casos dos enfrentamentos com os seres humanos.
Um dia, ao desafiar a autoridade de seu pai que não deixava os filhos mascar chicletes,
aprendeu que a valentia, quando colocada em prática apenas para desafiar uma autoridade,
é inócua e deveria ser evitada.
O menino e a família conhecem a morte e a destruição, quando o paraíso é atacado
de forma impiedosa por abelhas africanas, matando todos os animais da chácara. Ele vê, na
forma orquestrada e articulada com que a família reage ao inesperado ataque aéreo das
invasoras, o sentido para a rígida educação de seu pai. Em uma prova de luta e
perseverança, a família, liderada pelo espírito materno, se levanta para enterrar os mortos e
reconstruir a vida.
Desolado com a tragédia, o pai usa todas as reservas financeiras e troca o paraíso
por dois sítios. A família muda para uma casa alugada e inicia a saga para fazer um dos
sítios produzir grãos fora da época do plantio. O caminho, cheio de porteiras, cruzado na
garupa do cavalo, o ribeirão, a água refrescante tirada da mina, o casebre de pau-a-pique, o
arroz, regado a alho e cebola, a carne conservada na gordura, o céu estrelado, tudo é
relatado de forma vívida, levando o leitor a uma viagem ao trabalho do campo. Em seus
dias e noites naquele sítio deserto e longe de tudo, o menino sonhava com a chácara, o seu
santuário. Novas aventuras e experiências são reveladas e, em especial, a descoberta e as
paixões pelo sexo feminino. Os relatos da infância são comparados e interpretados com
conceitos científicos modernos.
Depois de uma chuva abundante, as sementes são semeadas no sítio, dando início à
espera pela florada. As súplicas ao Criador aumentam à medida que as chuvas não voltam a
cair. O menino lembra a Ele a luta para cultivar a terra, as aulas perdidas, o trabalho árduo e
honesto... porém, tudo termina em pura desolação. A retirada da plantação fracassada é
acompanhada de uma chuva forte, revelando uma história comovente de luta pela
sobrevivência, que por pouco não termina em tragédia, com a morte do pai, do menino e do
cavalo, arrastados pela correnteza da água que faltou à lavoura.
Sem dinheiro para pagar o investimento feito na plantação e pressionado pelos
credores, o pai passa todas as propriedades para o nome de um irmão, para que ele vendesse
tudo, pagasse os credores e lhe enviasse o dinheiro restante, uma boa soma para os padrões
da época. A família migra da bucólica e verdejante cidadezinha para outra cidade pequena,
onde a natureza era sufocada pelo pó de uma fábrica de cimento.
Ao ter contato com a rodovia asfaltada, o menino afirma que “estava indo para um
mundo mais veloz, onde as rodas giram mais rápidas, sem levantar poeira de terra”.
Lá descobre que o tio dera calote no próprio irmão, deixando a sua família viver à
míngua. O menino assiste à dor da mãe de não ter comida para alimentar seus filhos e seu
desespero ao ter o crédito negado pelo dono de uma mercearia. Percebendo que não poderia
cultivar no poluído quintal legumes e frutas para vender, o menino resolve construir uma
caixa de engraxate meio desengonçada. As ações adotadas para conseguir as ferramentas
para engraxar revelam a elaboração e execução de um projeto estratégico simples e genial,
que motiva qualquer um a buscar o sucesso, mesmo em condições extremamente precárias.
O menino, antes de entrar na loja para revelar ao vendedor de graxa o seu plano e
convencê-lo a lhe conceder crédito, declara “senti uma forte emoção tomando conta de todo
o meu corpo e uma onda de certeza varreu minha pele dos pés à cabeça. Acho que essa
certeza de que atingiremos os nossos objetivos é o que chamamos de acreditar”. Ali nascia
o segredo de não levar não para casa, principalmente quando se precisa desesperadamente
do sim. A negociação com o dono da loja é um excelente exemplo de relacionamento
pessoal e de construção da confiança.
Com a caixa de engraxate equipada, ele mostra determinação e obstinação e sai à
procura de seus fregueses e fazer seus planos renderem frutos. Inova no atendimento aos
seus clientes, mas é copiado pelos demais colegas de ofício. Para se destacar, inventa lavar
os sapatos antes de engraxá-los. Aos concorrentes anuncia que o líquido utilizado na
limpeza era uma fórmula mágica e secreta, revelada no livro como sendo apenas água e
sabão.
Quando entrega à sua mãe o primeiro dinheiro que ganhara como engraxate, a
mesma chora, lembrando que ele é ainda uma criança. Em uma atitude de bravura e
resignação, o menino, de apenas oito anos, consola sua mãe afirmando que fará “daquele
trabalho um momento de diversão”.
Mesmo nos momentos mais difíceis, o menino conta que sua mãe mirava o futuro e
fazia planos para melhorar de vida. Ao dividir ovos entre os filhos, a mãe fala no desejo de
adquirir uma travessa de vidro temperado, que vira em uma loja. Com o dinheiro ganho
como engraxate, o menino compra o objeto de cobiça, anunciando que “a travessa de vidro
representava, naquele momento, o novo, o útil, o moderno, o prático, o bonito, enfim, a
vida melhor que queríamos ter”.
Com o pai, o menino vive uma relação de admiração e de esperança, torcendo e
ajudando-o a materializar cada um de seus planos. Apesar dos inúmeros fracassos, ele faz
de tudo para que o seu pai se levante e volte a ser um homem de posses.
Junto com ele, vira mascate e vende nas ruas todo tipo de mercadoria: carnes
frescas, frangos, lingüiça, frutas, verduras, queijo e até cabides. Um dia, sai vendendo dois
frangos e uma dúzia de cabides, quando ouve o comentário de uma menina de classe
elevada “olha que feio aquele menino vendendo frango e cabide”. Isso o deixa
temporariamente cabisbaixo e intimidado. Mas logo percebe que está sendo anestesiado
pelo medo do julgamento alheio. Lembra que precisa daquele trabalho, que pode controlar
seus monstros e sai gritando pelas ruas “ó, o frango-cabide”, vendendo logo as mercadorias.
Então ele percebe que a alegria e o bom humor são os maiores e melhores valores que
podemos agregar a tudo que fazemos. Os seus fregueses deveriam levar para casa, junto
com as mercadorias, a esperança e a felicidade do sorriso fácil do vendedor.
Quando estavam passando fome, o menino vê chegar à sua casa sacolas cheias de
mantimentos, carregadas por uma tia que fora casada com outro irmão de seu pai. A
solidariedade da tia é comparada às doações de Madre Tereza de Calcutá. O menino
também pratica a solidariedade ao ler e responder as cartas para a namorada de seu
primeiro freguês, o qual era analfabeto. Ao treinar o seu cliente a assinar as cartas, ele
descobre que ensinar é o melhor caminho para aprender mais e melhor.
Na adolescência, muda-se com a família para uma cidade rica, limpa e arborizada,
em busca da esperança. O adolescente continua a trabalhar como vendedor e se envolve em
política estudantil, lutando contra a ditadura militar. Consegue também seu primeiro
trabalho com carteira assinada. Na época em que o governo acabara com o meio salário
mínimo e muitos adolescentes foram demitidos, seu empregador decide pagar-lhe salário
integral. Neste ponto ele nos mostra, mais uma vez, que o trabalho honesto e produtivo é o
melhor caminho para conseguirmos o sucesso e mudarmos as condições de vida para
melhor.
Ao terminar o colégio de técnico em mecânica, recusa várias propostas de emprego.
Prefere adiar o sonho de adquirir um carro à prestação para dar continuidade aos seus
estudos. O caminho da ciência já o havia abarcado desde que assistiu, pela televisão, ao
homem dar o primeiro passo na Lua.
Na juventude, trabalha como representante comercial e cursa fisioterapia em uma
das melhores universidades do país. Nesse período, conhece sua primeira namorada, com
quem vive grandes aventuras. Também passa dois meses viajando pela costa brasileira,
pedindo carona. Relembra os lugares por onde passou, as pessoas simples que conheceu e
sua paixão pelo mar. Nessa viagem, percebe que “a mais linda paisagem de um país é o seu
povo, que labuta de forma honesta e com altruísmo para vencer na vida”.
Participa também ativamente do processo de redemocratização do país, fazendo-nos
relembrar a história da ditadura brasileira e mostrando o que cada um pode fazer para
ajudar a construir uma sociedade livre. Relata momentos de bravura e não vacila em
praticar ações destemidas para fazer valer o direito do cidadão. Porém, sempre procura na
conciliação o caminho para a solução das disputas.
Influenciado pela literatura socialista, o jovem comete um erro: ele passa a culpar os
outros e o regime capitalista pelos males que enfrentou e pelo sofrimento que via o seu
povo passar. Depois de algum tempo, redescobre os ensinamentos do engraxate e lembra
que o problema e a solução estavam dentro de cada um. Era possível influenciar a
sociedade mudando a si próprio, como fazia o menino engraxate.
Durante a graduação, o jovem também toma gosto pelas artes e pela ciência. Usa o
teatro amador para levar mensagens de higiene pessoal para as crianças de uma
comunidade carente. Acreditando ter feito uma revolução, descobre que as crianças se
cuidavam nos finais de semana apenas para ir ao teatro e agradar a trupe. Entende então que
para mudar alguns comportamentos da sociedade era preciso modificações estruturais.
Passa então a usar o teatro apenas com forma de divertir e conhecer as pessoas.
Envolve-se com a iniciação científica, estudando a locução verbal entre mãe e filho
portador da Síndrome de Down. A determinação pela busca do conhecimento científico o
leva a cursar o mestrado e a trabalhar em uma da melhores universidades do país. Ganha
duas bolsas de estudos para fazer o PhD, mas não consegue a pontuação necessária no
rigoroso exame de inglês. Vende todas as suas posses e vai para os Estados Unidos se
preparar para o exame. Usando as técnicas que desenvolveu para controlar seus monstros
na infância, se despe dos preconceitos e da vergonha que o impedia de falar o inglês. O
jovem percebe suas limitações para aprender a nova língua, mas a obtenção do sim
dependia apenas dele. Mergulha de corpo e alma no estudo do inglês, conseguindo, após
dois meses e meio de estudo, a aprovação no exame, dando início ao seu PhD.
Depois de terminá-lo, ele cursa o pós-doutorado, voltando ao seu país seis anos e
meio depois de sua partida. O autor faz então uma reflexão sobre a sua vida, identificando
dez segredos que o engraxate usou para chegar ao PhD. Ele relata como usou esses
segredos para se tornar um respeitável professor, cientista, executivo, orador, político de
sucesso e, principalmente, um grande pai de família. Orienta mestres e doutores em uma
das principais universidades do país, escreve vários artigos científicos, cria excelentes
cursos e tem sucesso nos negócios.
Os dez segredos também são utilizados para resgatar o Conselho de Fisioterapia e
Terapia Ocupacional do Estado de São Paulo, para o qual foi eleito duas vezes presidente.
O Conselho, um órgão público, é transformado em uma das histórias de maior sucesso
administrativo, com indicadores comparáveis a grandes empresas, e se torna um modelo de
gestão do bem público.
A relação do autor com as duas filhas e a esposa é relatada com a experiência que dá
sentido à vida. O sepultamento do pai é descrito de forma emocionante e comovente. Na
saída do cemitério, sua mãe pergunta a ele “Filho, como vamos fazer agora sem o seu
pai?”. Ele conta a ela o milagre da vida. “Mamãe, para chegarmos até aqui nadamos contra
quase meio bilhão de espermatozóides, na luta desesperada para fecundar um óvulo”. Para
consolá-la, ele diz que a vida iria continuar. O leitor é então informado que sua esposa está
grávida de um menino que terá o nome dos avôs.
O pulo do gato do engraxate foi assumir o destino em suas mãos, construindo o
amanhã aqui e agora. Quando ele puxava a carrocinha na rua, gostava de gritar “aproveite a
economia, Dona Maria. Frutas e verduras fresquinhas”; e sempre terminava com a frase
“não deixe para depois o que pode fazer agora”. O PhD herdou do engraxate a filosofia:
trabalhe, construa e deixe um legado
É uma leitura que irá comover e motivar milhões de pessoas em todo o mundo. O
trabalhador braçal, a dona de casa, o engraxate, o aluno, o intelectual, o empresário, todos
que leram se identificaram com, não apenas uma, mas algumas das histórias relatadas.