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Rosemary

Arrqjo

Doutora

pela Johns Hopkins

University

(Baltimore,

EUA)

Professora

da Universidade

e da Pontifícia

Universidade

Estadual de Campinas

Católica

de São Paulo

OFICINA

f'j0'j

~

~

'S'

DETRADUCAO

A teoria na prática

4" edição

4' impressão

~

Direção

Benjamin

Abdala

Junior

Samira

Youssef

Campedelli

Preparação

Lenice

Bueno

Arte

de texto

da

Silva

Coordenação

e

projeto

gráfico

(miolo)

Antônio

do

Amaral

Rocha

Arte·final

 

René

Etiene

Ardanuy

Joseval

Sousa

Fernandes

 

Capa

Ary

A

~~orlllanha

 

Antonio

U

Domiencio

, 1J10R~

./'o~,c

3~\

~I30.I>~

"'~"'~~'"7"~0>

~00D:J:S10~

EDITORA

AFILIADA

Impresso

IlJS

()ricin~ls (Li

GrMicJ

I'JLis

Athcn:J

ISBN

85 08 01504

20113

6

Todos os direitos f\:séf\~dos pela Fditom Atica

Rua Barão de Iguape, 110

CEP U15U7-9(X)

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IlltCI11Ct:hltp: .••www.atic~.c()I1l.hr

e-mail:

editora@atica.com.br

Sumário

1. Abre-se uma nova oficina

 

7

Oficina

de tradução

ou translation

workshop?

8

2. A questão do texto original

2. A questão do texto original

2. A questão do texto original

O

significado/carga

ll

e o tradutor/transportador

ll

"Pierre

Menard,

autor

dei Quijote",

urna lição

de Borges

sobre

linguagem

e tradução

 

13

A

obra

"visível"

de Menard

e

o

sonho

de urna

linguagem

não-arbitrária

----

14

A

obra

"invisível"

e a missão

impossível

de

Menard

 

19

O

texto

original

redefinido

 

22

3. A questão do texto literário

O preconceito

da

inferioridade

ou

da

25

impossibilidade

25

Urna teoria

literária

menardiana

 

28

Repensando

o literário

 

30

Quando

ameixas

não

são simplesmente

ameixas

31

A

tradução

de textos

literários

redefinida

36

4. A questão da fidelidade

37

O

conceito

de fidelidade

e o texto/palimpsesto

37

Urna

Cleópatra

melindrosa

38

O

autor,

o texto

e o leitor/tradutor

40

A

fidelidade

redefinida

42

5. A teoria na prática

"Áporo",

de Carlos

Drummond

de Andrade

46

46

"Um inseto cava",

48;

"Que

fazer,

exausto,

em

país bloqueado?",

48;

"Eis

que

o

labirinto

[

]

presto se desata",

50; "Uma

orquídea

forma-se",

51.

o poema:

máquina

de significação

 

52

"Insect",

versão

de John

Nist

 

54

Uma

nova

versão

de "Áporo"

55

6. Exercícias

de traduçãO'

58

"Poema

de sete

faces"

versus

"Seven-sided

 

poem"

59

"[

]

um

anjo

torto",

61;

"As

casas

espiam

os

homens",

63; "pernas

brancas

pretas

amarelas",

64;

"O

homem

atrás

do

bigode",

64;

"Mundo

mundo

 

vasto

mundo",

65;

"r

]

comovido

como

o

diabo",

66.

 

"The

rival"

rersus

"Rival"

 

67

"If the moon

smiled,

she would

resemble

you",

68;

"And

your

first

gift

is making

stone

out

of every-

 

thing",

70;

'The

moon,

too,

abases

her

subjects",

72;

"No

day

is safe

from

news of you",

73;

"The

rival":

o título.

74.

7. RecadO' aO' tradutar/aprendiz

 

76

8. Vacabulária

crítica

 

79

9. Bibliagrafia

camentada

 

81

Dicionários

 

81

Obras

sobre

tradução

 

82

Obras

sobre

teorias

textuais

83

Outros

84

,

I

A Maria José

Arrojo

de um projeto

Universidade

Este

livro é

pela

parte

Pontifícla

de

pesquisa

patrocinado

Católica

de São Paulo

1

Abre-se uma nova oficina

o numa oficina de tradução. Se consultar dicionários, ou se perguntar a outros falantes de português, perceberá que oficina de tradução não existe como expressão já cons- truída e consagrada pelo uso.

tenha ouvido falar

Provavelmente

leitor

nunca

Teremos

que

entendê-Ia,

portanto,

metaforicamente

e, para

construir

esse sentido

figurado,

partimos

do

subs-

tantivo concreto oficina.

Segundo

dicionários

da

língua,

oficina

pode

ter

as

seguintes

acepções:

"lugar

onde

se

trabalha

ou onde

se exerce

algum

ofício";

"laboratório";

"casa

ou

local

onde

funciona

o maquinismo

de uma

fá-

brica";

móveis";

transformação

"lugar

e,

onde

se fazem consertos

figurado,

em veículos

onde

se

em notável". sentido

"lugar

auto-

opera

Já que temos, por assim dizer, permissão de liberar nossa imaginação quando tentamos entender uma metá-

fora, vamos relacionar os possíveis significados de oficina

à

nossa

metafórica

oficina

de

tradução,

delineando,

ao

mesmo

tempo,

seus objetivos.

 

Em

primeiro

lugar,

pretende-se

que

esta

oficina

crie

um espaço

ao ofício e à prática

da tradução,

onde a teoria

8

terá um papel importante,

na medida

em que poderá

nos

auxiliar

a entender

o

que

acontece

quando

traduzimos

e

também

a

enfrentar

o constante

processo

de

tomada

de

decisões

cina sobrepomos, então, a imagem do laboratório, onde se põem em prática e se testam as fórmulas e os conceitos

envolvido

em toda

tradução.

A imagem

da ofi-

aprendidos

da

teoria.

 

Além

disso,

como

oficina

pode

ser

"casa

ou local

onde funciona o maquinismo de uma fábrica; lugar onde estão os instrumentos de uma indústria, arte ou profissão",

nossa oficina de tradução pretende mostrar também o outro lado do processo de traduzir, os instrumentos e os meca- nismos dessa atividade que, coincidentemente, pode ser considerada uma "indústria" (em seu sentido mais amplo), "arte" ou "profissão".

E, já que analisaremos e comentaremos alguns textos em inglês ou português e suas respectivas versões para uma

dessas línguas, nossa oficina,

também estará tentando "consertar" as traduções e as so-

luções

o

desejo, aliás sempre presente em toda decisão de escrever e publicar um livro, de que esta oficina também possa ser "um lugar onde se opera transformação notável", mesmo que essa transformação seja, em nosso caso, simplesmente tentar chamar atenção para um campo ainda tão pouco explorado e carente de estudos mais especializados.

um pouco

pretensiosamente,

ainda

que

consideramos

fim,

mais

a

inadequadas.

do

Por

nível

inconsciente,

Oficina de tradução ou trans/ation

workshop?

Embora

tenha

tentado

mostrar

ao

leitor

que oficina

de tradução pode ser um título sugestivo e eficiente, na

medida em que enfatiza a abordagem

drsenvolver

que esse título não é exa-

prática

que pretendo

aqui, devo confessar

9

uma

Iradução. Enquanto buscava um título para o livro, lembrei-me de um curso que fiz na Universidade lohns Hopkins (Bal- limore, EUA), na primavera de 1981, chamado Transla- tion Workshop. Éramos um grupo de seis alunos e nos reuníamos semanalmente para discutir nossas próprias tra- duções e traduções consagradas de textos famosos (a partir de várias línguas, mas sempre para o inglês), sob a orien- tação do professor William Arrowsmith, poeta e tradutor de renome nos meios literários americanos e internacionais.

Antes de iniciarmos o curso, já sabíamos que seria um curso mais prático do que teórico, devido ao seu próprio título.

tamente

"original",

tendo,

na

verdade,

surgido

de

Segundo

o

American

heritage

dictionary

of the English

language

(ver Bibliografia

comentada),

workshop,

além de

"oficina"

("an

area,

room

or establishment

in which

ma-

nual work is done"), também pode se referir a "a regularly scheduled seminar in some specialized field" que, numa tradução não muito satisfatória para o português, seria "um curso regular sobre algum assunto especializado". Um se-

o qual

De acor-

do com o mesmo dicionário, um seminal' é "a smaIl group of advanced students engaged in original research under the guidance of a professor" (um grupo pequeno de estu- dantes universitários adiantados, envolvidos em trabalho

de pesquisa, sob a orientação de um professor). Um semi-

minal', como um workshop,

não temos urna palavra

é um tipo de curso para

específica em português.

lIar, como

um

workshop,

sugere

uma

dinâmica

especial

em sala

de aula:

os alunos

assumem

um papel

essencial-

mente ativo, pesquisando e realizando trabalhos, enquanto o professor passa a ser um orientador.

Assim,

supondo

que

este livro

fosse

escrito

e publi-

cado

nos

Estados

Unidos,

seu

título,

Translation

work-

shop, envolveria

um

leque

de

significados

diferentes

dos

que súgeri no inÍCio desta introdução. Além disso, para- doxalmente, Oficina de tradução é um título mais original

10

do que

Translation

workshop,

porque

seu

sentido

figurado

é

inesperado

e ainda

não

consagrado

pelo

uso.

Em

inglês

americano,

workshop,

no

sentido

de

curso

ou

seminar,

não

impressiona

mais

como

metáfora;

é,

por

assim

dizer,

uma

metáfora

gasta,

que

perdeu

sua

força

figurativa.

Seria,

então,

minha

tradução

mais

original

do

que

o

próprio

"original"?

Seria

a minha

uma

boa

tradução?

Se-

ria

shop?

oficina

Que

"traduzido",?

de

tradução

fiel

ao

"original"

relações

se estabelecem

entre

translation

o "original"

work-

e

o

Em

síntese,

essas

são

também

as questões

básicas

que

envolvem a realização

e a avaliação

de

qualquer

tradução,

 

e é

sobre

elas

que

convidarei

o leitor

a refletir

nas

páginas

que

se seguem.

Além

disso,

ao

tentarmos

refletir

sobre

os

mecanismos

da

tradução,

estaremos

lidando

também

com

 

questões

fundamentais

sobre

a natureza

da

própria

lingua-

gem,

pois

a

tradução,

uma

das

mais

complexas

 

de

todas

as

atividades

realizadas

pelo

homem,

implica

necessaria-

 

i

mente

uma

definição

dos

limites

e

do

poder

dessa

capa-

cidade

tão

"humana"

que

é

a

produção

de

significados.

 

,

Afinal,

não

é por

acaso

que

até hoje,

em nosso

mundo

cada

vez

mais

computadorizado,

 

não

nem

a

mais

remota

possibilidade

de

que

uma

máquina

venha

substituir

satis-

fatoriamente

o

homem

na

realização

de

uma

tradução.

~-~

,,;

'[

'{

f

j

f

2

A questão do texto original

Todo

texto

é

único

e

é,

ao

mesmo

tempo,

a

tradução

de

outro

texto.

Nenhum

texto

é

completamente

ori-

ginal porque a própria língua, em sua

pri-

e, todo signo e toda

e

em segundo, porque

meiro

essência,

é uma

do

tradução:

em

lugar,

é

a

mundo

de

não-verbal

outro

frase

tradução

signo

esse argu-

de outra frase. Entretanto,

mento

pode

ser

modificado

sem

per-

der sua

validade:

todos

os textos

são

originais

porque

toda

tradução

é

di-

ferente.

Toda

tradução

é,

até

certo

ponto,

uma criação

e, como

tal, cons-

titui

o significado! carga

um

e

texto

o

único.

tradutor! transportador

(Octavio Paz)

 

Uma

das

imagens

mais

freqüentemente

utilizadas

 

pe-

los

teóricos

para

descrever

o processo

de

tradução

é

a

da

transferência

 

ou

da

substituição.

De

acordo

com

J.

C.

12

Catford,

um

dos

teóricos

mais

conhecidos

e

divulgados

no

Brasil,

a tradução

é a "substituição

do

material

textual

de

uma

língua

pelo

material

textual

equivalente

em

outra

língua"

1.

Eugene

Nida,

outro

teórico

importante,

expande

13

trans-

porta a carga de significados, mas não deve interferir nela, não deve "interpretá-Ia".

ao

seu

destino.

Assim,

o

tradutor

traduz,

isto

é,

essa

imagem

através

da

comparação

das

palavras

de

uma

Essa

visão

tradicional,

que obviamente

pressupõe

uma

sentença

a uma

fileira

de

vagões

de

carga

2.

Segundo

sua

determinada

teoria

de

linguagem,

se

reflete

também

nas

descrição,

a carga

pode

ser

distribuída

entre

os

diferentes

diretrizes

em

geral

estabelecidas

rara

o

trabalho

do

tra-

vagões

de forma

irregular.

Assim,

um vagão

poderá

conter

dutor.

Nesse

sentido,

os

três

princípios

básicos

que

defi-

muita

carga,

enquanto

outro

poderá

carregar

muito

pouca;

nem

a

boa

tradução,

sugeridos

por

um

de

seus

teóricos

em

outras

ocasiões,

uma

carga

muito

grande

tem

que

ser

pioneiros, Alexander

Fraser

Tytler,

ainda

são

exemplares:

dividida

entre

vários

vagões.

De

maneira

semelhante,

su-

1) a tradução

deve reproduzir

em sua totalidade

a idéia

do

gere

Nida,

algumas

palavras

"carregam"

vários

conceitos

 

texto

original;

 

e

outras

têm

que

se

juntar

para

conter

apenas

um.

Da

mesma

maneira

que

o

que

importa

no

transporte

da

carga

não

cia

os

é quais

em

que

volumes

vagões

carregam

estão

seu

quais

nem

sim

o fundamental

cargas,

mas,

os

alcancem

vagões

dispostos,

destino,

a

que

seqüên-

todos

pro-

no

cesso

de

tradução

é

que

todos

os

componentes

significati-

vos

do

original

alcancem

d língua-alvo,

de

tal

forma

que

possam

ser

usados

pelos

receptores.

 

de

Se pensamos

o processo

significados

entre

língua

A

de tradução

e língua

como

transporte

B, acreditamos

ser

o texto

original

um objeto

estável,

"transportável",

de con-

tornos

absolutamente

claros,

cujo

conteúdo

Afinal,

podemos

clas-

sificar

completa

e objetivamente.

se as palavras

de

uma

sentença

são

como

carga

contida

em

vagões,

é per-

feitamente possível determinarmos

e controlarmos

todo

o

seu conteúdo

e

até

garantirmos

que

seja

transposto

na

íntegra para outro conjunto

de

vagões.

Ao

mesmo

tempo,

se compararmos o tradutor

ao

encarregado

do

transporte

dessa carga, assumiremos

que

sua

função,

meramente

me-

cânica,

se

restringe

 

a

garantir

que

a carga

chegue

intacta

tada. 1 Uma

mentada. 2 Language

teoria

lingüística

structure

da tradução,

translation,

and

p.

p.

22.

V. Bibliografia

comen-

190.

V.

Bibliografia

co-

2)

3)

e

a tradução deve ter toda a fluência e a naturalidade do texto original 3.

o estilo

da tradução

deve ser

o mesmo

do original;

"Pierre Menard, autor dei Quijote", uma lição de Borges sobre linguagem e tradução

 

Para

que

possamos

discutir

os

problemas

e

as

limi-

tações

dessa

imagem

consagrada

que

vincula

a tradução

à

transferência

de

significados

de

uma

língua

para

outra,

vamos

examinar

um

conto

do

escritor

argentino

 

Jorge

1

,

i

t

Luis

Borgcs

que

tem

um

título

instigante:

"Pierre

Menard,

autor

deI Quijote"

4,

Embora

seja

um

conto

bastante

com-

plexo

que,

à primeira

vista,

pode

desiludir

os

leitores

me-

nos acostumados

a visitar

os

textos

labirínticos

de Borges,

vale

a pena

tentar

penetrar

sua

trama

aparentemente

sim-

ples,

mas

que

oferece,

em

suas

poucas

páginas,

um

dos

comentários

mais

brilhantes

 

e

mais

completos

que

se

escreveu

sobre

os

mecanismos

da

linguagem

e suas

impli-

:I The principles o/ Iranslalion, publicado em 1791. Apud BASSNEIT-

mentada.

-, citações serão traduzidas

4In:

-MCGUIRE,

Susan.

Translation

p. 47-59.

do

sludies,

p.

63.

V.

Bibliografia

co-

comentada.

Todas

as

Autora.

Ficciones,

V. Bibliografia

original

pela

14

cações

para

uma

teoria

da

tradução

e para

uma

teoria

da

literatura

5.

 

O

conto

é

apresentado

 

como

uma

resenha

póstuma

das

obras

de

Pierre

Menard

(personagem

fictício

criado

por

Borges),

um

homem

de

letras

francês

que

viveu

na

primeira

metade

do

século

XX.

 

O

narrador

é

um

crítico

literário

 

que

tenta

apresentar

 

o

verdadeiro

catálogo

das

obras

de

Menard,

de

quem

se

diz

amigo,

com

o

objetivo

de

retificar

um

catálogo

recém-publicado,

que

considera

falso

e incompleto.

Segundo

o narrador,

é fácil

enumerar

 

o

que

chama

a obra

"visível"

de

Menard;

e

ele

nos

apre-

senta

dezenove

obras

(monografias,

traduções,

análises

e

alguns poemas) publicadas e não-publicadas,

que

sugerem,

como escreveu Borges no prólogo

de

Ficciones,

o

"dia-

grama

da

história

mental"

de

Menard:

sua

ideologia,

suas

concepções

teóricas,

seus

desejos

e

até

suas

contradições.

A obra "visível" de Menard e o sonho de uma linguagem não-arbitrária

 

Vamos

examinar

algumas

das

obras

"visíveis"

de Me-

nard

para

que

possamos

entender

um

pouco

sua

concep-

ção

de

linguagem.

Se

analisarmos

mais

detidamente

seus

trabalhos

teóricos,

veremos

()ue

têm

muito

em

comum

com

as

teorias

tradicionais

da

tradução.

Menard

concebe

o

texto

como

um

objeto

de

contornos

perfeitamente

deter-

mináveis,

acreditando,

portanto,

que

seja

possível,

como

sugerem

 

os

três

princípios

básicos

de

Tytler,

o estilo

reproduzir

totalmente,

em

outra

língua,

as

idéias,

e a natura-

lidade

de

um

texto

original.

Comecemos

nossa

leitura

~,Para uma versão mais aprofundada da leitura de "Pierre Menard,

autor deI Quijote" proposta aqui, ver ARROJO, Rosemary.

"Pierre

l\fenard, autor deI Quijote":

esboço

de

uma

poética

da

tradução

via Borges. Tradução e COlllullicaçtio - dlllores, n.o 5. Y. Bibliografia comentada.

Revista

Brasileira

de Tra-

15

cular pelos de seguintes Menard: "trabalhos"

[

]

encontrados

no

arquivo

parti-

c) uma monografia .do pensamento

d) uma monografia

Lu";

[

]

sobre

certas

conexões ou afinidades"

Leibniz e de John Wilkins;

de Descartes,

sobre a Ars

magna

generalis,

de Ramón

h) os rascunhos lica de George

de uma monografia

800le

(p. 46).

sobre

a lógica

simbó-

saio

O

"El

que

teriam

em

comum

idioma

analítico

de

esses

pensadores?

lohn

Wilkins",

da

No

en-

coletânea

GIras illquisiciolles 6, o próprio

 

Borges

sugere

algumas

co-

nexões

entre

o

pensamento

de

René

Descartes

(1596-

-1650),

importante

filósofo

francês,

e

do

religioso

inglês

lohn

Wilkins

(1614-1650).

Ambos

sonhavam

com

a pos-

sibilidade

de uma

linguagem

universal,

que

não

fosse

arbi-

trária

e

que,

portanto,

não

dependesse

dos

caprichos

da

interpretação;

cada

palavra

teria

um

significado

fixo

e

único,

independentemente

de

qualquer

contexto.

Segundo

Borges,

no

idioma

universal

idealizado

por

Wilkins,

"cada

palavra

define

a

si

mesma"

(p.

222),

constituindo

um

signo evidente e definitivo, imediatamente

decifrável

por

qualquer pessoa. Tal idioma, imaginava Wilkins, deveria

ser capaz de "organizar

ambi-

e

abarcar

todos

os

pensamentos

projeto

humanos"

CIOSO:

(p.

222).

Borges

descreve

esse

[Wilkins]

dividiu

o universo

em quarenta

categorias

ou gê-

neros,

subdivisíveis,

por

sua vez, em espécies.

Atribuiu

a

cada

gênero

um monossílabo

de duas

letras;

a cada dife-

····.···1.:··.····

rença, uma consoante; a cada espécie, uma vogal. Por

exemplo, de quer dizer elemento;

deb, o primeiro

dos ele-

! duzidas '; P. 221-5. do original Y. Bibliografia pela Autora. comentada.

.~

'; I f

Todas

as citações

serão

tra-

16

mentos,

uma chama (p. 222).

o fogo;

deba,

uma

porção

do elemento

do fogo,

E

pedras:

examina

mais

detidamente

a

oitava

categoria,

a

das

Wilkins as divide em comuns (rocha viva, cascalho, ardó-

sia), razoáveis (mármore, âmbar, coral); preciosas (pérola, opala); transparentes (ametista, safira) e insolúveis (carvão,

é

a nona categoria. Esta nos revela que os metais podem ser Imperfeitos (cinabre, mercúrio); artificiais (bronze, latão). recrementícios (Iimalha, ferrugem) e naturais (ouro, esta- nho. cobre) (p. 223).

argila e arsênico). Quase tão alarmante quanto

a oitava

ainda no mesmo ensaio, Des-

cartes,

decimal de numeração para criar uma linguagem univer- sal, absolutamente racional, livre de ambigüidades. Supu- nha Descartes que, através da utilização de algarismos, poderíamos "aprender num só dia a nomear todas as quan- tidades até o infinito e a escrevê-Ias num idioma novo" (p. 222).

o sistema

De acordo

antes

com Borges,

de Wilkins,

já havia

sonhado

usar

O filósofo

alemão

Gottfried

Wilhelm

Leibniz

(1646-

-1716),

precursor

do

projeto

da

lógica

simbólica,

cujo

objetivo

último

é

a criação

de

uma

linguagem

não-arbi-

trária, também

tentou

construir

uma linguagem

universal,

17

I tituída de três círculos concêntricos divididos em compar- timentos. Um CÍrculo era dividido em nove predicados re- levantes; o terceiro CÍrculo era dividido em nove pergun-

De que espé-

Como?

I dos CÍrculos era fixo; os outros giravam, fornecendo uina

Um

tas:

cie?

quê?

Quando?

"O

Por

quê?

De que tamanho?

De que lugar?

Onde?

Qual?".

série elas completa

8.

I a

de perguntas,

e de afirmações

relacionadas

.1

Finalmente,

o

matemático

e

é considerado

por

lógico

inglês

George

da

I

Boole

lógica simbólica, intuída

(1815-1864)

o segundo

fundador

e formaliza-

LulI e Wilkins,

I da, pela primeira vez, por Leibniz 9.

I

I

I

j

I

Por

trás de todos

um desejo

esses projetos

de se chegar

ambiciosos,

podemos

identificar

a uma verdade

única

e

absoluta,

expressa

através

de uma

linguagem

que pudes-

se neutralizar

completamente

as ambigüidades,

os duplos

de

sentido trazidas pelo tempo ou pelo contexto. Esse desejo, compartilhado por Descartes, Leibniz, LulI e Boole, e que nos fornece um esboço da teoria da linguagem e da teoria

da tradução professadas por Menard, se revela também na

teoria literária implícita

sentidos,

as

variações

de

interpretação,

as

mudanças

em seus trabalhos

críticos.

I

I

Para

Menard,

o

literário

é uma

categoria

perfeita-

mente distinguível do não-literário. Tanto o poético como o não-poético são características textuais intrínsecas e es-

que

intitulou

Ars

combinatoria,

com

base

no modelo

de

táveis, que podem ser objetivamente determinadas. O item

lohn

Wilkins

e

na

Ars

magna

do

filósofo

e missionário

b do catálogo

de suas

obras

é,

por

exemplo,

espanhol

Ramón

Lull

(1236-1315)

7.

De

todos

esses

projetos,

a obra

de

Lull

é talvez

a

mais extravagante. Tratava-se de uma armação de discos com os quais propunha relacionar exaustivamente todas as possíveis relações de um tópico. A armação era cons-

7 CL

of

LEWIS,

California

E.

I.

Press,

A Jurvey

1918.

o/ symbolic

p.

4.

logic.

Berkeley,

University

uma monografia sobre a possibilidade

bulário poético de conceitos que não fossem sinônimos ou perífrases dos que informam a linguagem comum, • mas ob-

de construir um vaca.

jetos

destinados

ideais

criados

por

uma convenção

e essencialmente

às necessidades

pOéticas·

(p. 48).

8 Ci.

REESE,

and

9 Ci. LEWIS,

western

W.

L.

Dictionary of philosophy and religion; eastern

thought.

E.!.,

New

Jersey,

op. cit., p. 4.

Humanity

Press,

1980.

18

prosa

o item

i

francesa,

é

"um

ilustrado

exame

das

com

leis

métricas

exemplos

de

essenciais

da

Saint-Simon"

(p.

49).

O item

n é

"uma

obstinada

análise

dos

'costumes

sintáticos

de

Toulet'

",

e

o

item

s

é

"uma

lista

manuscrita

de

versos

(Iue

devem

eficúcia

ü pontuação"

(p. 50).

Para Menard,

a crítica

sua é o catalogar

de

características

for-

mais evidentes

e não

deve

"elogiar"

ou

"censurar".

Como

nos

e elogiar

com

Leibniz,

tica,

informa

a

são

crítica"

Ramón

como

o

narrador,

operações

(p.

47).

Lull

a tradução

Menard

"declarava

que

discípulo

não

que

censurar

a

sentimentais

Menard,

Wilkins,

nada

de

têm

ver

Descartes,

que

e 10hn

ou

considera

deve

a

crí-

a leitura,

"interpretar"

ou

ir além

do

texto

original

e, sim,

delimitar

seus

contor-

nos

objetivos

e imutáveis.

 

Contudo,

a

própria

bibliografia

de

Menard

sugere

a

impossibilidade

desse

desejo.

Como

poeta

e tradutor,

ele

constantemente

produz

versões

diferentes

do

"mesmo"

texto.

O

item

que

encabeça

o catálogo

de

seus

trabalhos

é "um

soneto

simbolista

que

apareceu

duas

vezes

(com

variações)

na

revista

La

Conque

(números

de

março

e

outubro

de

1899)".

O item

g

é uma

tradução,

"com

pró-

logos

e notas

do

Libra

de Ia invención

liberal y arte dei

juego de ajedrex~ de

Ruy

López

de

Segura".

O

item

k

é

outra

tradução,

"uma

tradução

manuscrita"

 

(e,

portanto,

não

uma

 

versão

"definitiva")

da

"Aguja

de

navegar

cul-

tos",

de

Quevedo,

intitulada

"La

boussole

des

précieux".

O

item

o

é

"uma

transposição

em

alexandrinos

do

'Cime-

tiere

Marin',

de

Paul

Valéry".

Curiosamente,

também

uma

"versão

literal

da

versão

literal"

que

fez

Quevedo

da

/ntroduction

à

Ia vie

dévote

de

San

Francisco

de

Sales

(p. 48-50).

Porém,

entre

todos

os

projetos

menardianos,

o

que

mais

clara

e espetacularmente

ilustra

a impossibilidade

de

se chegar a uma linguagem não-arbitrária,

que

pudesse

controlar os conteúdos

e os limites

de

um

texto,

é

a

reali-

zação

de

sua

obra

"invisível",

que