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sempre, e ª iaz contato, cada momento de encontro terminando imediatamente e / ·


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um~ ~o~ent~ ~e.contat~~ nos calcanhares do antigo. Eu lhe toco, eu .c,..M",,:,•v-!; ,


falo com voce, eu somo para você, eu Die vejo, eu lhe questiono, eu lhe recebo, eu
lhe conheço, eu lhe quero; tudo a 5e!J momento dá apoio à vibração do viver. Eu I?
sou sozinho, masgara viver eu devo encontrar você. --

5 Durante a vida inteira nós enganamos o equilíbrio entre a liberdade ou separa• _ ~ J..,
ção, por um lad~, e ª. pos.,e ou união, por outro. Cada um de nós d~ powir e.,, "" 0
algu
__J!!.~aço pS!coló~~ ~ o do qual nós somos os nossos 1>róprios mestres, e r
para qual algumas pessoas podem ser convidadas, mas gu~guém deve Invadir. _J.,v,~ I
Mas, ~s_iJ)sistirmos obstinadamente _em..nossos direjt(ll territoriais, ~rremos
A FRONTEIRA DO CONTATO 0 risco de reduzir o contato excitante COI!_! o__".~u!rof' e de_J!e_flnhar. A~çJo. 7)l f~ e..>
do contato vincula o homem à solidão. Todos nós vemos como a redução do L ~
contato pode sufocar o homem numa condição de indisposição pessoal que está se
ulcerando no meio de uma acumulação abafante de hábitos, censuras e costumes. /I '°-~
(I.

CONTATO
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C~ não é simple~ente companhia ou agrupamento. Ele ~ode acon- e 1e. i-
tece!_.e'!_tre seres separados,~~exig!!!do ind~endê!lpia e sempre ~ arriscando a ,v,~/&,,,.
Somente o ser cuja advenidllde, aceita pelo meu ser, vive e ~ a~~!.!!_ niã..Q. No momento de un· o leno senso que uma pessoa tem, ~ G...Q..
me~ na conderuoçtfo total da_existtncia,..l!àz o esl!len-
de si mesma é rapidamente c ~do numa pova criaçfo Eu não sou mais somente ,;;;;;;:-
dor da etemlciade para_,7Jl_m. Somente quando dois dizem um
ao oiifro;êõin tudo o que eles são-:"t E'le ", o Ser Pr,.icnte eu, mas eu e Yocê fazemo nó~) Embora êüevõéê 00& tomemos nós, através de ~~
eltd habitando entre elei: - - - - - - --- uma denominação , através del:(°nós nos arriscamos com a dissoluçã'o de mim ou de
você. A menos que eu seja experimentado no conhecimento do contato pleno,
MARTIN IIUIIElt
quando eu lhe encontro com os olhos, o corpo e a mente plenos, você pode se tor- - -
nar irresistível e engolfante. Ao contatar você, eu aposto a minha exist!ncia iode- ~-:j_
pendente, mas somente através da função de contato pode se dese~lver~ena- · v ,.....
No útero tudo estava pronto. Tudo u que Unhamos a fazer era nadar no mente a compreeruiõõas nossas 1Õentidades. - ,._~da
ambiente favorável. A surpresa foi que o crescimento além de um certo limite pôs - ~

tenno ao "inquilinato"; tivemos de sair e, querendo ou não, tivemos de aprender Tenho uma cliente cuja mãe seduzia e1r~muitas.pesSOas e que fic01;
doida. Minha cliente uma mulher amável, considera a si mesma e a mim com dcma-

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a traçar o nosso próprio caminho num mundo menos solícito.

~\- Desde ~f1e_dQU10Uo.s...cordõ.eL.umb.ilicais, cada um de nós se tornou um


ü seriedade. Ela ;eme que, se brincar comigo, trepará conJgo e ficará doida. Eu
· ·
n!ío acho que ela ficana d01da se trepasse conu ·
·go E isto nfo é provável, e certa-
mente não é inevitável. Eu disse isso a ela, e o momento era adequado para quede ª
1
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\.} ••,f ser separado, procurando a união com aquilo que é ~âcoisa que nós mesmos. . • Ela sorriu gostosamente, an ou
1
~ -,, Nurrca~ma1s-p1r~emosretõrnar ao paraíso simbiótico original; nosso se~so de união acreditasse em. mim · E assim ela bnncou conugo.
·nh cabeça calva Sentou-se diante de
u .r depende, paradoxahnen~, ~ ~m senso aumentado de pa3:!Q, e é este p~xo para trás da minha poltrona e afagou ª.nu ª Ih dança.ram e faiscaram e eu
~ D r:-A unção ue sintetiza J neçSS~idade
· t de distância, e seus O os '

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c _.q. ue nós con~temente_~ uram~ mim, a menos de meio mero nh ra Naquele momento. Ela me amou,
de __u~ ~ see,ar~ ~to. Através do con a o, cãdapessoa tein a chance pude ver que ela me encon!rara e :te::ade e excitação. Nós estávamos quase
de se encontrar com o mundo exterior de uma forma significando que ela me curtiu com
~ - -·-- . .promovedora.
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trepando, mas nossas vidas não estão arranjadas para que nós façamos .. Foi muito o pensamento futurista, a preocupaçao para com conseqüências, ou "ensaio", o,,4.o.P
bom escutá-la falar de sua filha e de seu filho, e dos amigos que visitavam nos fins como Perls * o chamou, podem nos assustar e, como a cabeça da Medusa, transfor- _~ ;f-v
de semana. Desta forma nós nos conhecemos, com muita simplicidade. Ela foi em- mar-no~ em figuras pétreas, imóveis. Ninguém gosta de problemas, e todos nós l'' .{. c.,JL
bora sem nenhuma exigência ou privação. Ela havia temido a captura, havia ~mido sabemos que , eventualmente , conseqüências êxigirão um contato tão completo ~ 1'
perder-se na uni!o em que sua mãe se afogou. Trepar não era realmente o problema. quanto a nossa experiência presente o permite. Tomemos a minha cliente como
Ela sabe que pode trepar com seu marido, mas deve brincar e se encontrar comigo e exemplo. Se ela trepar, talvez possa realmente ficar doida, como aconteceu à sua
com muitas outras pessoas, porque a vida exige, o tempo todo, contatos em muitas mãe. Quem pode, com certeza, negar isto? Mas, em certo sentido, é a possibilidade
formas diferentes. Mesmo numa transa sexual ela não se perderia - se aprendesse que todos nós temos, de uma forma ou de outra. Não com muita segurança, real-
a curtir o contato como uma coisa distinta da companhia ou agrupamento. mente, a menos que tenhamos em nós mesmo~ a fé em Deus que os religiosos fre-
qüentemente nos solicitam. Trocar a fé em Deus pela fé em nós mesmos parece
Perls Hefferline e Goodman *descrevemo contato : ser um bom negócio. Não temos nenhuma garantia, mas, nesse caso, onde Deus
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... fundamentalmente, um organismo vive em ~u: amb'ie.nte .a~~ és d óff'
. ~ *' ' tem estado ultimamente?

\ =~nção das suas difere~ e, de forma 1linda mais_unportante, P: ª as~- 1 ~ o ~ o não é uma qualidade da qual estejamos conscientes, não mais do
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- 0 do · s suas difere ; e é na frontei~a _que os pen~os sao
re~s, os~culos-sla.J.lltra~s e º. ~ é assunilável é sele~ionado ~ 1
7 e apropriado. Aquilo que _é ~lecionado e assunilado m re_novo, 0 or a- ,
c/~
~
que o. estamos do senso de gravidade quando estamos andando ou parados. Quan•
do nos sentamos e convers~os, temos consciência daquilo que e~tamos dizendo ~ ~
ou vendo ou escutando, n:~é unprovável ~ue pensá~mos estar realizando contato. ~
f . .9' ,..vr'+t::i nismo sobrevive pela asslffillação do .novo Ud~ ª cre~ e to. rjl; · As nossas funções sensona1S e motoras sao potenetalmente as funçQes através das ~
/ rr \r/ Por exemplo, a comida, como Aris~~tele~, costumava dizer, é aq~l~ que e quais õ""Zontato é feito, ma~ é imyortante le~brn~q~, <l!.!Jiesma fqrma que o todo t,"'
~JJ v!:- \ ; ~ "diferente" e que pode tomar~se igual : e n_o procei so de assim_ilação O ,,:; é mais do ue . . su~s artes, o con a o mrus o ue a soma ~~...,\=,
1

~?'V .. fi organismo, por su~ vez, é modificado. Pnmana~ente, ~ c?n~to e a cons- if' 3) as as funções possiveis ue odenam entrar ne e Ver ou escutar nã'o sãy ~
\J 'Y ;~.J.y ciência de, e o com ortarnento em dire o às noVld~des ass11rulãve1~· e are- garan ,a e µm om contato , o que determina o om conta o _ "!º e ~ -1>
~ f ~~ ~e~~ novidade não-~ímilável. Aquilo que é uruversal, sempre igual, ou vê ou su ~u1ª,.. Além dissoi O contato se estende desde a interação com objetos
, ~1 / \) maiferente, não é um obieto de contato. inanimados até a interação com objetos animados; ver uma árvore ou um pôr-de-sol :Jso
'rvV .
\).1/ O contato é o sangue vital d ,---,--~ · da pessoa e · ou escutar o som de uma cachoeua · ou o silêncio . de uma caverna . é. contato. O., con-
dã .a-...
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1
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rescimento , o meio de modificação .
" ·t t bém ,.nrdações e 1maii.ens expenenc1ando-as pro,un /

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das experiências que ela tem d'o mundo. A udan a é um produto inescapável do ta:to po de ser ,e1 o am rnn , ..
Cv,...,.__, - - •
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6 º
' contato porque a apropriação da novidade ãssímilável ou a rejeição -da inassimITãvel e totalmente;
\~ará inevitavelmen~ mudança.)e!ll, se a minha cliênte admite , sem questiõnãr,
E;?\\
· . _ '~ · · ,: . ; -

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-V~ que é igual à sua mãe, ela não está contactando nem mesmo aquelas formas em que
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. • ela realmente se parece com a mãe, ou, de uma forma ainda mais importante, aque-
las formas em q~e ela não é como a mãe. Se estiver propensa a contactar a novida-
~e e~ _seu próp~o senso d; self,ela terá maior capacidade para mudar; ~
1~plic1tarnente mcompativel com permanecer~al. Através do contato, entre-
Ir
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1\ . qtie distingue O contato da companhia ou agrupa:nento éº. fato de O conta- ~
to ocorrer num~ fronteira em ue um senso de se ara ao é mantido de tal fo~a
4,- que a união riãó •ameace submeter a 2essoa. PerIs•• sublinha a aturei.a du~sta~ ~ ~
) · de uma interação onde há contato:
~· , • ., · · ·. ·
· CcvóA.~,Ls.-
.
J,u,,.o..

~ anto, agessoa nã'.o precisa tentar mudar;a mudança simplesmente ocorre . . I,;' , 1~ - ~1..._ . . · \quer momento que uma fronteira vem à ex1s-
/,/I . - t ri'?)! \''v Cr' Em qualque.r lu~r e em qua tato qlllllll0 some isalaroeolA.- A fron-
~ {a- / · tência ela é sentida tantc corno coo . e
~aturalm~nte' se a mudan.5.3: é inerente ao contato ' uma pessoa pode muito ,,r'- ' '~ 'W--'< o
leira e•m ~.ue contato pode ser feito é um ponto pulsante de energia. orno
bem M precavida com relação a ek, a menos que tenha fé na mudança resultante. (f \ lf}''.~'f? . ·. .~ : . . ·
• PERLS, F. S.; HEFFERLINE, R. & GOODMAN p G I
Press lnc. 195 1.
.
, - esta t Therapy. New York, Julian
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· . .
. . b · Utah'· Real Pcople Prcss, 1969.
•. :. Pcrls. F . s;, Gestalt Therapy Verbatim . l\1oa ·
U . Ltd . 1
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..,.. · . n London. George Allen & nwin
PERLS, .F . S., Ego. Hunger and Asreu10 .
•• 1947 • ·
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H fti 1- e Goodman O colocam : ... ~ fronteira do contatg não é
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er1s• , e er me ó - d ----- { 7 .ação ~as suas funções de co t t - - as pessoas a uma recupe- _.,,_12_c..,.~J
, ~ tanto uma parte do organismo, ~ essencialmente o rgao e uma relação

.
- ---;--t --çã a te ~ Nó n a o , provavehnente_ te~_os intensas exp..wmcias .
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d e tn era o n rapta. s não as evitam
\ .Y ,,r particular
_ _entre _o___:_____
organismo e o ambiente• . . ~ t 1 - -- .. . - .--- - - . os. evemos até mesmo encorajar as
, expenenc1as mtensas, quando ISSO estiver na linha do d 1v· d · '~
esenvo unento a pessoa.

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v' A fronteira do contato é O ponto em que a pessoa expe~encta o. eu_ Jem
relação àquilo que @!<>:~ ' e . através deste contato , ambos sao expenenctados_
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.O/ No exemplo dado antenormente, a necessidade da mulher começar fl
,f nunaç . _
ão entre '"eu" e "minh ,,
di ._-{--.,.-<P'-:
ª azer ª scn cJ.;_,
a mãe levou a uma experiência de contato que, de _ ~ -:::,
fonna muito nnportante, não a engoliu. ,,..B ~
,Jf'\ i'.>~ de uma fonna mais clara. Perls **observa: Y,;o,
.,v ~ ... as fronteiras, os locais de contato, constituem o Ego. ,, Somente no lu- 'v~ /l Além disso, colocando o contato em posiça:o central, abandonamos O con- ~~
V.,P ga.!_.e no instante em que o E~ se encontr~ com o "est~~o o,,Ego comes.:3: a ; C.~ ~ _psican~ític~ tradicional de transferê_ncil!, onde muitas interações aurante a -~ ~1
funcionar, a existir, a deternunar a fronterra entre os campos pessoal e 1m- 1/ te:apia er~ conSideradas s~mcnte com~ distorções ~asead~ num viver no passado, ~
pessoal. na~ possuindo qualquer ~alidade própna. ~ o paetente ve o seu terapeuta como ~
:.--- desmtere~ do au como b1cbo-p ão, temos toda uma gama de alternativas abertas
.,._ r
Assim, o contato envolve não somente o senso do próprio eu, mas também o senso para nós, odemos ex lorar as uma essoa desinteressada ou

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de qualquer coisa que infrinja esta fronteira, qualquer coisa que assome ã fronteira
do contato e nele se funda. A habilidade de discriminar o universo em ~o-eu
trans~ e_paradoxo_numa.excitaote experlêocia de escolha. !'s
regras costu-
co~ ~ hO=l)apão odcm ·nv sti ar o ue é ue o cliente • ue pro~
impressão.~ odcmos tentar es r on e e
esta
o esinteres -~ terapeuta está
realm~ te desinteressado, óu o acient está ro·etando o seu ~esfriteresse
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-----

~ meiras esta:o ausentes, e decisões engenhosas tornam-se uma necessidade. Eu afeto naqwIOque está fazendo momento? Algumas vezes a sua visã~J2?dC se
um amigo, ou deixo-o nadar em sua própria liberdade? provar ~~~id~, m~_m.f:..~ O então nã~ ~xiste ~~~ de que a distorç!g está
baseaôa na transferência de um relacionamento lll!~~or. ~ cliente
Se, através de considerações como estas, nós nos tornamos escrupulosos com pode ver-~ que realmente está acontecendo, que está sendo realmente chato, ou que
relação à invasão do espaço psicológico de uma outra pessoa, deixamos que ela e 0 seu terapeuta é um pouco bicho-papão, casos cm que ele estará aprendendo algu-
nós soframos as conseqüências dos nossos próprios erros. Os resultados contraditó- ma coisa que precisa aprender. De qualquer fonna, cabe ao cliente descobrir a
rios de se insistir nos direitos que cada indivíduo tem, de estar ria sua, deixaram realidade_da sitig_çjo, mais através da sua própria ação do que através das interpre-
atualmente muitos jovens sem um senso de confiança ou consciência do poder de t~ oraculares do terapeuta a respeito de como ele está realmente respondendo
suas próprias objeções criadoras às forças que indubitavelmente os pressionam. a uma pessoa histórica.
Se a liberdade de uma pessoa depender exclusivamente da permissão de uma outra
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pessoa, a primeira perde o senso do poder que deve exercer na proteção e definição Considere a experiência de uma bela garota, de vinte anos, no centro ae um
do seu próprio espaço psicológico contra as incursões naturais que são feitas nele . grupo contando já ter sido viciada em drogas e prostituta e, quatro _anos antes, ter
tido ~mi'" criança que foi entregue~ _adoção. ~o~ ela e á =i:!tcfad~
Prever um mundo onde a liberdade de ação é mais conferida ou garantida do que st
adquirida é, lamentavelmente, um pensamento meramente fervoroso , utópico e caminho na vida mudando jovens V1c1ados e eStll an numa d
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que na:o produz contato. A superioridade ocorre no contato real , e produz alegria.
rnomento muito comovente, ela se votou 1 para um ddos homens o grupo e pe u-
beça e após alguma hesi-
· ,.y;-'~ Entretanto, o risco da perda de identidade ou de separação é inerente ao contato. lh b El ncordou com um gesto e ca '
,./r f' Nisto reside a ãventÚra e a arte do contato. e que a a raçasse. ~ co 1
tação, ela se chegou a e e e e e ªª
b ou Neste ponto ela se solta e chora. Após
raç ~ alarmada a respeito do que as outras
seu choro ter cessado, ela levanta ª ca Iça, braçada e ser O füco de atenção na
·{./ Esta visão do contato tem implicações que afetam o_cnrso da_J?_s~nm_ia. • ntir por e a ser a
mulheres do grupo podenam se . às outras mulheres alguma coisa a
. ai la pudesse ensmar .
"
• PERLS, F. S.; HEFFERLINE, Ralph ; GOODMAN , Paul. Gestalt Therapy . Ncw York ,
sala. Eu disse que t vez e
respeito de como ser abraçad~ E~a- :::;a bviamente em casa com relaça:o a isto,
~e não machucariam ninguém que qui-
e demonstrou muita graça e receptlVI tã qla se sentiu calma, pennanecendo nos
Julian Press Inc., 1951. · ·
sesse aprender. Por um ~ stan!e,;n º•r:ações das mulheres do grupo, que real-
braços do homem, mas ainda liga nas
,,,.. PERLS, F . ·s.; Ego, Hunger and Aggression. · London , George Allen & Unwin Ltd., 1947 ·
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. emocionalmente e que não a estavam julgando. colocá-la, mas é presunçoso imaginar que se pode capturar todo o seu fluxo vital
mente estavam muito tocadas . traentes e atuantes se ela poderia
t ma das mulheres mrus a trágico/esperançoso num único movimento lingüístico. Fazemos melhor colocando
Ela então pergun ou ª u tal intensidade que ficou evidente que a mulher a nossa fé em cada momento de contato, ficando sintonizados com a ação de cada
abraçá-la. O drama teve uma
queria realmente abraçá:la. Ela andou em reç
cli ão à garota e .tomou-a em seus momento e usando este momento para nos guiar.
• a libera"~º fiinal , e a garota chorou. mais profundamente /
braços. Neste ponto• veio
d' sua
r-
ten· ..o
.
dissipou-se ' ela se sentm nã'o autoconsc1ente
do que antes. De poIS isso, 7 ..,, -.;;
- lJ_m aspect~_e_3)~ ial do contato ~rovém da possibilidade de se es!.&r.Jl.!ll cQntato
e em uni4'o com o grupo. -, yr ( consig~ ,!!le_Sll,lo. Isto ~ão contradiz a nossa afinnação de que o contato é a função
/ I" J f;?J_e encontro ent~e aquilo que nós somos e aquilo que não faz parte de nós. Este
Z Vemos aqui uma resolução que se deu mais através da experiência do 9!!tda Ci / y r t1~0 d~ :~ont~to mterno pode o~orrer, por causa da habilidade que o homem tein de
,,.}'>('
· ~ terpretação. Em~ ~ analisar seus sentimento~ com ~elaçã'o a ser o centro d~s ., .,r-- sej!_IVldir ~ observador e ob1eto observado. Esta divisão pode ser empregada a
"1;/ atenções, ou a respeito de como as mulheres odenam etar contra a su_a ~xu - serviço do crescimento, uma possibilidade inerente em muito auto-exame. O atleta,
:;;: dade ou contra a sua vergonlia com re ação ao vício em drogas e à prost1tu1ç~ a por exemplo, porle dirigir a sua atenção internamente para ter a sua experiência
, Jy' resolu,.s-o veio através de contatos reais com pessoas que estavam na sala. Ela con- antes de fazer um movimento atlético. Um locutor pode tomar-se consciente de
•i Y" ~ .
tou a sua história para eles. Ela quis ser abraçada, Ela foi abraçada. Ela relax!lli__a um maneirismo que causa distraçã'o e atender a ele. Por outro lado, a divisão pode
sua resistência ao contato, ao permitir-se ser segurada enquanto chorava, em vez de ser interruptora, voltando reflexamente a pessoa para dentro, em vez de permitir o•
insistir em que poderia cuidar de si mesma desde que ninguém mais poderia querer· foco externo mais apropriado. O hipocondríaco que está obsessivamente em conta-
fazê-lo. Em vez de interpretar a sua ansiedade em relação às mulheres que estavam to com o seu corpo considera-o como um objeto, nã'o como ele mesmo.
na sala, o seu contato com elas foi favorecido. Através do contato, vieram uma libe-.
raçío e uma reunião. O processo especial que permite ao indivíduo estabelecer contato consigo
mesmo pode permanecer orientado somente para o seu próprio crescimento fecha-
Que valor há nesta experiência, se o insight nli'o for articulado para servir de do em si mesmo, ou pode servir· como um trampolim que dá apoio ao desenvolvi-

. .
/ guia para um maior contato? A resposta está nas sensibilidades mais autodetermi- mento da função de contato com uma outra pessoa. Polanyi*descreve a forma pela
\ nadas e penetrantes que esperamos que o indivíduo desenvolva. Piaget assinalou, qual uma pessoa pode conhecer outra, através do processo que ele chama de "habitar":
im~-(2'
·f
\~:J certa vez, que sempre....~e ensinamos a uma criança "a resposta certa" nós a
~"'5 , m~ aprender e de inventar muitas novas respostas certas para si mesma. A açã'o
l ,., / traz os germes do conhecimento interno, produz um conhecimento que engloba a
T1 expansão das próprias fronteiras e a consciência que é assim assimilada. A cadl! vez
"' _j "',:' que a garota acima mencionada puder pedir a outra mulher alguma coisa de que
./ .precise, ou puder ser confortada por uma mulher, ou tiver novas experiências com
AI V
'1 \
~
quando alcançamos o ponto em que um homem conhece um outro ho-
mem, o conhecedor habita (tã'o) plenamente aquilo que conhece.•. (que) ...
chegamos à contemplação de um ser humano send~ um ~nsável, e
aplicamos a ele os mesmos padrões que aceitamos para nós, o nosso conheci-
mento dele perdeu definitivamente o caráter de urna observaçfo, e em vez
.f "Z ~ulh~res, o seu próprio mundo se expandirá em direções que nío podemos agora y disso, se torna uÍ(encon~
identificar ou prever. Tr~ormar esta experiênciaJ}.U~ Q . d a s
as po~ ltas ; talvez seja uma coisa asseada, mas que nã'o deixa.nenhuma....c.o,ne,xão
mãf com novas experiências. A implicaçã'o disto é que sentir a operação dos pensamentos ou sentimentos de
uma outra pessoa é possível na medida em que tivermos contactado as nossas pro-
~ Pode ser tentador para o t ~ - que, afinal de contas, tem as suas próprias prias operações e pudermos nos eximir desta preocupaçf~ pe~oal de como uma
/ necessidades de conclusão e acabamento - dizer que a garota precisa de cU1dados outra pessoa poderia fazer a mesma coisa. Quando um pa1 ensma seu filho a andar·
~".Y } maternos, ou que ela possui qu~dade~ homosse_xu~s, ou quer mostrar-se a outras . · le ta ou ..,lr um nó, ele volta aos seus próprios movunentos
dizapara desenvolver
Y' , mulheres, ou qualquer das mllltas C81Xas explicativas em que se poderia querer
de bICIC
0 seu senso do que O seu filho poderia fazer. Na boa apren gem, o processo
~-àf'. ~
_l..fy-( • O autor critica aqui o insight psicanalftico. N. T.
• POLANYI, M. The Study ofMan . Chicago, The Universlty 01 Chicago Press, 1959,

106 107

--
~ .--

entre o professor e o aluno vai e volta. Existem momentos na terapia em que se dá De~ a font: ira-do-eu, o contato pode ser feito comfacilidade_c:_encanto, +
o mesmo ritmo. e resulta num conrortávelsensoae gratificação e crescimento. Quando um mecâni-
co-ini1nl ouve o som de um motor cujo funcionamento na-o está bom, ele localiza
FRONTEIRAS-DO-EU a causa do problema e cuida dele. Na frontey:a-do-eu o contato se toma mais
arriscado e a probab~ e gratificação é menos certa. Este mecânico de auto-
Enfatizamos que o contato é um relacionamento dinâmico que ocorre somente móvers;-aproximando-se do motor, está no ápice do seu conhecimento e sente-se
nas fronteiras de duas figuiis atraentes. mas claramente diferenciadas. A diferencia- excitado e ousado. Fora da fronteira-do-eu, o contato é quase impossível. Este
ção pode distinguir entre um organismo e outro, ou um organismo e algum objeto mesmo mecânico pode considerar um cartão de dia dos namorados para a soa
inanimado do seu meio ambiente, ou entre um mganismo e uma nova qualidade garota uma coisa estranha e inconcebível.
d~ Quaisq~ _g_ue sejam as duas ~ntidades diferen~adas, cada uma del~
possui um senso dl(limita~ caso contrário elas não podenam se tomar figurais Se um indivíduo fosse submetido a um calor intenso, ele logo desmaiaria e
e contactáveis. Como disse Vo~ Ber_!a~nffy_• : perderia o contato, e eventualmente poderia morrer se os seus limites para a assimi-
lação de calor fossem seriamente ultrapassados. O mesmo se dá em termo~_psicoló-
Qualquer sistema que possa ser investigado com individualidade deve possuir gicos. Se o indivíduo foLconfrontado por uma humilhação severa ou por outras o-
fronteiras, espaciais ou dinâmicas. fensiis graves que excéderem os !imites da sua experiência permis!i~l, ele ~oderá re-
As fronteiras do ser humano, as jlronte~as-do-eu,}ão det«::minadas__gor toda agir ·à ameaça através de uma perda de contato. Isto pode variar desde uma perda de
a g~ das suas experiêni:;ias na vida e por to as as suas capãcíãa<les intem~ para a consciência diante de um cfiõque profunfo, como ao se escutar alguma notícia
assimilação da exp.eriêru;i.a..nº-Y.a...oJLintensif~ . trágica, até o bloqueio do impacto da experiência impermissível através de meios
mais sutis, imperceptíveis, tais como lapsos de memória com relação a fatos desa-
A fronteira-do-~ ~ma pessoa é a fronteira daquilo q~ é para ela contato gradáveis, como acontece nas resistências mais crônicas.
permissível. Ela é composta de toda uma gama de fronteiras de contato e define
aqueliisã'ções, idéias, pessoas, valores, ambientes, imagens, memórias, etc-, aos quais . A seletividade_de contaW-...d.eterm!nada..-p.ela.J!Q,11teira-do-eu do indivíduo ~
ela está propensa e comparativamente livre para se ligar plenamente, tanto com o onentará o seu estil~da, incluindo a sua escolhª- de a_migoJ,__tralrnh..9,.g!l..ogoÜla,
mundo fora de si mesma, quanto com as reverberações dentro de si mesma que esta fantasia, fazer amor, e todas as outras experiências_que são p_siCQ!ogi_gmenw__rele-
ligação possa despertar. Ela inclui também o senso de quais são os riscos que a pes- vantês p-ara a suá existência. O modo pelo qual uma pessoa bloqueia ou permite a
soa está inclinada a assumir, nos quais as oportunidades para o -ganho pessoal são consciência e-•a ação na fronteira-do-contato é o seu modo de manter o senso dos
grandes, mas onde também as conseqü_ências podem produzir novas exigências pes- seus limites. Isto tem uma preponderância em sua vida que ultrapassa quaisquer
soais que podem ou não ser possíveis. · Algumas pessoas são esquisitamente sensí- preocupações com o prazer, ou com o futuro , ou com aspectos práticos daquilo que
veis para conhecer riscos, porque elas parecem viver sempre naquilo que é chamado pode ou não ser bom para ele, como Henry Clay, que deveria muito mais ser correto
de aresta de crescimento de suas vidas. Para a maioria das pessoas, a necessidade de do que ser presidente.
poder prever os resultados de suas ações impede-as de ultrapassar com facilidade as
fonnas existentes de comportamento e chegar ao ponto em que as maiores oportu-
- nidades estão presentes. Se elas tivessem de se aventurar num território desconhes Embora a fronteira-do-eu não seja fixada de uma forma rígida, mesmo nas
cido, embora pudessem conseguir um senso aumentado de excitação e poder, po- pessoas mais inflexíveis, os indivíduos mostram grande variabilidade na expansivi-
deriam perder a sua fácil compreensão e se sentiriam despreparádas e discrepantes. ~ ou -~ont~ i d ade d~Wta:!!.Q.:®... Algumas pe~oas parecein realizar
Se a confusão não for permissível, elas podem escolher ser menos ousadas · não se granoes modificações na sua fronteira-do-eu durante as suas Vidas, e estamos incli-
consegue alguma coisa em troca de nada. ' nados a pensar que aquelas que mostraro as maiores modjficações são as qµe Jl!!ÍS
cr,esceraajsto pode ir desde o acontecimento fortuito, sobre o qual elas têm pouco
controle , mas ao qual elas parecem responder enérgica e habilmente, até aqutlas•
• VON BERTALANFFY, L. General Sy stem lheory. New York, G. Braziller, 1968. mudanças que os se4s próprios esforços produziram.

108 109
-----· ·-

A nossa sociedade é orientada para o crescimento ; nós admiramos aquelas


pessoas que podem conseguir realizar o movimento expansivo de ir de uma fronteira-
~ A ansiedade que resulta da necessidade de suprimir a excitação é experien-
ciada co~o perturbador~ e pode resultar na incapacidade de concentraçfo, inefi-
do-eu a outra. Todos nós estamos familiarizados com a história de Horatio Alger ciência e mcerteza, ou amda em conseqüências mais sérias, tais como a psicose ou o
sobre O menino pobre que , no começo de sua vida, esteve limitado a pequenas ações suicídio.
dentro da sua própria vizinhança, e que depois de crescer viajou pelo mundo todo e
influenciou pessoas importantes. Ele é um herói " do papel". O que nós encontra- Por outro lado, a vida algumas vezes é como um artista volúvel, que joga o
mos com mais freqüência, como fato real, é que dentro de um mesmo indivíduo indivíduo numa suceSsão de eventos que fazem surgir um flash de prazer na frontei-
h~verá tanto a mobilizaçã'o pa~ q~~ wi algumas áreas quanto resistências f2ntra ra em mudança. Isto está claro na estória de um menino aleijado que passou toda a
o crescimento em outras, de fopi~ que partes da fronteira-~~~u ~o d~eixadas para sua vida primeiro numa cadeira de rodas, depois com muletas, e que finalmente
trás. Isto produz o fenômeno do executivo industrial que nunca acredita total- se adaptou ao seu primeiro par de muletas. Ele ficou intoxicado com a sua nova
mente em seu próprio poder e que, em seu próprio coração, permanece convencido mobilidade. Imagine: ele podia se mover pelo quarto, de pé , e com as mãos livres
do lado errado das coisas. Ele experimenta movimentos de poder, mas sempre se para tocar qualquer coisa que quisesse. Não se sentava, tal a excitaçfo que sentia
sente deslocado e limitado num engajamento pleno de . contato no seu trabalho ou com a sua liberdade aumentada!
na sua vida. Por causa desta falta de contato, ele consegue somente uma vitalidade
reduzida daquilo que poderia ser uma vida ou um trabalho ousados. O mesmo se O experimento de Gestalf (ver Capítulo 9) é usado para expandir o alcance
aplica ao pai que ainda se experiencia como um menino pequeno, ou ã esposa cujo do indivíduo, mostrando-lhe como expandir suas fronteiras habituais, onde existem ""
senso de si mesma permanece sendo aquele de uma virgem. emergência e excitação. ~_E.rÍãda umaemê rg!ncla segura. qye prÓmove o d~senYQ!-
vimento de auto-apoio para novas experiências. Ações que eram anterionnente
estranhas e que sofriam resistências podem tomar-se expressões aceitáveis e levar
Quando são estabelecidas~ rígidad, o ~ o que uma pessoa poderia a novas possibilidades.
sentir com relação ~ da sua fro_n t~ u poderia ser o de que ela explo-
diria, por causa da ~ emãis sensaçã'o ou excitação do ue conseguiria su-
Um homem, num laboratório de fim de semana, permitira-se chorar sem qual-
portar; ela sente um perigo de sobrecarga. O seu medo da c~ntração da fronteira-do-
quer constrangimento por causa de uma, tristeza pessoal. Relatou que se sentira
eu, por outro lado, é um medo de se sentir vazia, diminuída ou msi 1cante em fa-
literalmente aumentado fisicamente, mostrando um lugar a uns cinco centímetros
ce de uma pressão avassaladora proveniente do exterior. Em ambos os casos, o que
de distância do seu corpo, onde ele sentira que a sua pele estava. Este é um exem-
----
o indivíduo{t'erriê é a destruicã'o da sua fronteira-do-eu habitüãl. Ele pode sentir que
- -
a sua própria existência está ameaçada de graves rupturas na fronteira-do-eu, e esta
plo dramático do senso de ~xpansão que um novo comportamento pode produzir.
Ele aceitou um risco enorme, ao diminuir as suas barreiras contra o choro. O risco
ameaça de destruição desperta a função-emergência do indivíduo. A função-emer- foi o de que ele teria uma experiência contínua de não-eu, não integrada e isolada,
gência inclui, ao mesmo tempo, um grande despertar de excitaçã'o e de sua antítese, em vez de senso crescente de capacidade para permitir novas intensidades de expe-
a supressão desta excitação, que é experienciada como ansiedade. O paradoxo surge riência em sua vida. Por esta razão, o laboratório de fim de semana precisa ser au-
porque a ameaça à fronteira-do-eu do indivíduo desperta reações que têm como mentado num programa que permita um maior período de tempo para se trabalhar
objetiv()~ Ereserv!i_ãO da frontei~ ue_podem...e_sj.ílI além da fronteira. Por com os participantes individualmente e em grupo, onde possam ser desenvolvidos
~ ó, uma pessoa que eãespedida do seu emprego, ou que nã'o rece6e uma objetivos e possa ser respeitado um senso de evoluçfo seqüencial no tempo.
promoç4'o esperada, experiencia uma contradiçã'o da sua fronteira-do-eu ; ela é cor-
tada das oportunidades de que necessita e se sente reduzida ou diminuída e!D seu Quando as fronteiras-do-eu de uma pessoa não são complexas o bastante
espaço. Bem, se ela experiencia isto como uma ruptura perigosa da sua fronteira- para cOntactar novidades no meio ambiente, ou _gualidades desconhecidas ou não
do-eu, ela pode ser levada a se defender por quaisquer meios que estiverem ao seu famíhares da prõpna pessoa, quando as sutilezas de fazer confato com u~ outra
alcance, talvez contra-atacar o indivíduo cuja má opini4'o a seu respeito iniciou a pessoã que es~ st~anão um con]unto de necess1aades semelhantes, e a isto sã~-
experiência. Mas, se o contra-ataque violento e agressivo estiver fora dos limites acrescentadas resistências as com!!!i_sões se tomam atemonzantes. I! como pedir
d - ..,, ~ nhadas em ganhar uma da outra num cabo-de-!Uerra,
da sua fronteira, ela fica com os sentimentos de emergência que foram despertados a uas pessoas que e~..,o empe . . .
· õ t talmente opostas que façam um contato sigiuficativo
e que n4'o podem ainda ser assimilados num contato que poderia levar à acfO.inten• amb as mantend o pos1ç es o •
111
110
entre elas. E é adnúrável que nós conseguimos, de alguma forma, fazer isto grande para ele e para nenhuma outra pe
parte do tempo. · .
pectiva. ssoa o contato resultou precisamente na sua pers-

Quero dizer olá a Peter. Peter dá as costas para mim. A sua reação implica, Se_ e~ me to_rno sensível o bastante para o bom contato, eu irei onde
para mim, que lhe dizer olá poderia ser experienciado por ele como uma invasão. obtê-!~. Eu _podena estar com pessoas que me conhec.eram quando eu era criança,
Bem, se eu quisesse intensamente me chegar a ele, eu poderia agir como um intruso minha família, talvez, que falam a minha liguagem e que realmente conhecem a mi-
nha vida, ou então este poderia ser o último lugar em que eu poderia encontrar
e ser mal recebido. Quem sabe se ele poderia ficar alegre se eu o fizesse. Por outro
outra coisa que não a estereotipia. Talvez eu pudesse consegui-lo com -pessoas jo•
lado, ele poderia considerar-me ainda mais nocivo e tentar afastar-se ainda mais.
vens, alegres, ou com um velho sábio, ou com pessoas não intelectuais. Talvez, para
Assim, eu tenho de chegar a Peter no momento adequado e num estado de espírito
mim o contato esteja em falar para grandes audiências, ou em contar histórias para
seu e meu que me possibilite estabelecer com ele o tipo de contato que eu possa
bons amigos e escutar as suas, ou em ouvir música acompanhado, ou só, ou em fazer
ter pretendido. -e um equilíbrio entre a facilidade com que Peter se faz aproximável
uma boa comida, ou em jogar uma 'partida de pingue-pongue. Existem umas poucas
e a quantidade de esforço que estou pronto a investir para superar algumas dificul-
pessoas para as quais as circunstâncias têm pouca ou nenh~a ~portância na deter-
dades na minha aproximação a ele. Mas, mesmo se ele insiste em permanecer afas- minação da qualidade do seu contato. Contudo, para a maiona de nós, o bom con-
tado, eu ainda posso fazer contato com ele no ~u afastamento. Posso observar e
tato contínuo é um p1ocesso de fluxo e refluxo, uma sensível relação de energia en-
compreender algum aspecto ou gesto através do qual ele realiza o seu afastamento. tre o contactador e o contactado.
Posso ter consciência da falta de naturalidade com que ele faz isso. Posso notar a
inclinaça:o dos seus ombros ou uma expressão em seu rosto que podem colocar-me . ~or est~ raz_ão ~se ênfase ao poder que o indivíduo tem de çóar a sua pró-
bastante em contato com ele, muito embora este contato seja em termos diferentes pna vida. e isto mclu1 o poder de reconhecer a adequação do seu meio ambiente.
da minha intençã:o original. Dado o seu estado de espírito, isso pode fazer com que Isto significa ue ele ossui a escolha das essoas, das ativi !!e.s. da geografia, da ~
termine o meu contato com ele, a menos que eu improvise alguma nova ação de arquitetura, e coisas semelhantes. O er e azer contato unca ode ser inteira- .e..,,
contato. Por exemplo, se em resposta à sua recusa eu gritar com ele, posso conti- mente independente da escolha de ambientes..o.lUiaJ:riacão de novoi ambientes. ~~~
nuar o fluxo de contato e criar também nele um senso diferente de contato. Motins em prisões, greves estudantis e reivindicações de reformas em hospitais
para doentes mentais nos forçam a reconhecer a importãncia que o ambiente tem na
Este equilíbrio entre as fronteiras-do-eu de pessoas diferentes, que estão se modelaçã:o do comportamento das pessoas que estão engarrafadas nestas instituições,

--
modificando continuamente faz com ue o desenvolvimento do contato seja
1.otalmentê imprevisível. Cada pessoa tem de se tomar um expert em avãliar possi-
~desejos e necessidades se manifestam juntamente com os de
bjlidades, quando seus
outras pessoas. Algumas situações e algumas pessoas são um solo mais fértil.gara o
geralmente por pouca escolha delas próprias, o que somente amplifica o problema,
Nós estamos somente começando a soleirar "O relacionamento entre o ambiente
físico - pârticularmente o ambiente feito pelo homem - e a experiência e o com-
portamento humanos ...".• Nós temos que nos empenhar mais para fazer contato ·
com um pedaço de pão seco e sem gosto numa lanchonete suja e superlotada de u-
contato,.,_ Coht outraspessoas ou em outros momentos, as probabilidades são estéreis
e os lucros são fraco;.:, ma fábrica, do que com uma fatia torradinha e cheirosa de um pio feito na cozinha
da casa de um amigo.
Da mesma fonna uma oessoa azeda e estereotipada não despertará hem man-
Os artistas parecem estar especialmente sintonizados para este processo de ' - · · Existem
terá um bom contato da forma ue o fana um ·,
seleção de lugares e de pessoas com as quais o contato é possível e enriquecedor. ai ra·am os outros a explorar as suas próprias novtdades e a
gumas pessoas que enco J d' E . t outras que permanecem
Eles tentam descobrir um meio que permita ou mesmo evoque o contato que se interagir com elas, e ambas crescem através isso. XIS em
torna o sangue vital das suas energias criativas. Isto nem sempre significa uma at-
mosfera agradável: Zola foi estimulado pela opressão moral do século XIX na Fran-
ça, Goya pela natureza irônica da vida na Espanha, Gauguin pelo ritmo idílico dos • PROSHANSKY, H. M., iTTELSON, W. H., e RIVLIN, L. G,, Eds, Environmentalhycho-
Mares do Sul, e assim por diante . Nem todas estas coisas foram temas agradáveis, loK)' . New York, Holt, Rineheart & Winston, 1970.
mas, apesar disso, alguma coisa nelas estava aberta ao escrutínio dô artista; somente
113

112
fechadas, pennitindo somente o contato mínimo nas fronteiras-do-eu, mantendo a experienciara nenhuma sensação na parte de trás da cabeça. Ela não tinha senu.çfo
separação e não pennitindo nenhum crescimento. O que as pessoas mais precisam de qualquer outra coisa que não fosse a parte da frente do seu corpo, a s u ~ • .
é tornar-se experts, artistas, sentindo e criando ambientes em que o movimento fora Elwtava cônscia da sua face e dos sentimentos em seu peito, mas não expenencia-
das suas fronteiras-do-eu atuais possa ser apoiado, abandonando ou alterando aque- va nenhuma sensação na parte de t~s do seu corpo.
les ambientes onde isto parece ser impossível.
Pedi a Beatrice que se sentasse no chã'o em frente a Todd e conversasse com
A experiência da fronteira-do-eu pode ser descrita de diversos pontos de vista. ele. Eu disse a ela que o empurrasse a cada vez que dissesse alguma coisa a ele.
Sfo eles: fronteiras-do-corpo ; fronteiras-de-valores ; fronteiras-de-familiaridade ; Logo ficou aparente que ela sempre interrompia o seu empurrão nalgum lugar situa-
fronteiras-expressivas, e fronteiras-de-exposição. do entre seu ombro e seu cotovelo. Pedi então aos dois que se levantassem e conti-
nuassem a conversar e a se empurrar. Beatrice empurrou novamente a Todd, mas
desta vez ela o fez somente com a ponta de seus dedos. Eu então lhe ensinei como
FRONTEIRAS-DO-CORPO utilizar todo o seu corpo. Ela então usou suas mãos fechadas e empurrou Todd
com mais força. Pedi-lhe que olhasse para Todd enquanto o empurrava, para que
ela se assegurasse de que o estava empurrando com força suficiente para causar al-
As pessoas têm preferências com relação a seus corpos. A consciência da gum movimento nele. Finalmente ela começou a colocar seu corpo inteiro, em vez
sensação de algumas partes ou funções dos seus corpos é restringida ou limitada e de somente a parte da frente, no contato. Ela fixou firmemente seus calcanhares no
permanece fora do senso que elas têm de si mesmas. Bem, desde que aquilo que chão, abaixou a cabeça e fez força com suas costas e suas coxas. Neste ponto ela
está fora da fronteira-do-eu é quase impossível de ser contactado, o resultado é começou a imobilizar sua pélvis e eu lhe pedi que a usasse na ação contra Todd.
que estas pessoas ficam fora do contato com partes importantes delas mesmas. Após alguns minutos de uma interação muito atlética ela, como todos nós, cons-
cientizou-se de que estava experienciando pela primeira vez a parte de trds do seu
Num laboratório um homem queixava-se de ser impotente. No trabalho junto corpo. Neste ponto a expressão de seu rosto mudou profundamente. Seu sorriso
com outra pessoa, tornou-se aparente que ele expenenc1ava muito pouca sensação confiante e insensível, que era sua expressfo característica, havia desaparecido.
abaixo do seu pescoço. Sua cabeça era o seu centro e ficou claro que, se pudesse Em seu lugar havia o rosto de uma mulher sem uma expressão preestabelecida, que
,,:\ trepar com a sua cabeça, ele não teria o menor problema. Até mesmo sua raiva es- poderia ficar alegre 011 triste. A "fachada" havia desaparecido e o grupo P_Oªe sen~r
1 \j/ tava limitada à sua cabeça, que se enrubescia intensamente. A medida que ficava uma nova substancialidade, a substancialidade de uma pessoa que podia assunur
· ~'\- mais nervoso,. ele rosnava e gritava como um possesso, mas, mesmo assim, inicial- qualquer coisa que dissesse.
mente, ele só pode sentir os efeitos até a região do seu peito. Após uma considerá-
vel focalização do seu corpo, com alguma atenção aos seus movimentos pélvicos,
suas pernas começaram a tremer. Ele ficou amedrontado quando começou a sentir FRONTEIRAS-OE-VALOR
a iminência da sensação pélvica e uão deixou que ela se desenvolvesse mais. Apesar
dis.,o, o resultado da sensação das suas pernas tremendo teve um brilho diferente e Um dos meus clientes, um rapazinho de 16 anos, wedita que estar interessa-
criou uma sensação de paz em todo o seu corpo. Embora não completasse o traba- do é crucial para a existência humana em geral, e para a sua própria em particular.
lho, ele estendeu o alcance das suas sensações, modificando a sua fronteira-do-corpo Por outro lado, a sua escola lhe exige para que faca crisas que ofo slo interewotes.
anterior. Ele não está propenso a minar ou trair seus valores fazendo este trabalho desinteres-
sante , e assim está tolerando com dificuldade a sua escola, com alta probabilidade
Beatrice estava tendo problemas para fazer contato com o resto das pessoas de tomar bomba. A sua fronteira-de-valor parecia ser rigidamente estabelecida, tal-
&) do seu grupo. Ela começava a dizer alguma coisa e parava no meio, e seu grupo
ficava !entanto advinhar o que ela estava querendo dizer. Ninguém queria feri-la,
vez necessariamente por causa das pressões que o cercavam, no sentido de abando-
nar os seus próprios padrões. Mas surge um problema quando ele se limita, não
·'6 mas de uma forma -ou de outra aquelas pessoas não conseguiam senti-la com muita
intensidade, ,porque ela lhes parecia muito insubstancial. Numa das sessões anterio•
dando espaço para outra pessoa entrar em contato com ele, a menos que ela esteja
dentro da sua fronteira-do-eu.
res, ao explorar a sensação corporal, Beatrice havia notado com surpresa que não 115
114
Contudo, o fato é que outros valores coexistem com ª. prion<1ade que ele dá J_ygar. O pai nã"o_e.ra.um.tiraoo-auteerata; o que acontecia é que o hábito tinha urna
· te El
ao m resse. e gos a
t· de mecânica de automóveis. embora sinta que não permane-
• • d t ó • tal força a seu fa~r ~ para.interrompé-lo. seria n ~ a mais energia do que a
ceria interessado por muitos anos no trabalho que ~ mecamc~ e au om veis faz. que quãlquer membro da família poderia dar. Cada um deles sabia da sua própria
Ele acha que gostaria de ser um engenheiro aeronáutico ou poSSJVelmente um arqui- resistência, mas a esftrãdõ hábito os atraiu para a sua órbita.
teto. e bastante claro que, para satisfazer estas preferências, ele teria de trabalhar
arduamente com materiais que estariam longe de ser interessantes para chegar ãqui- Shakespeare sabia muito bem como nós nos agarramos àquilo que conhece-
lo que realmente lhe interessa. Mas ele fugiu da sua aprendizagem porque o seu sis- mos, sem nos aventurarmos no desconhecido:
•• 1 tema de valores privou-o das discriminações necessárias para obter aquilo de que
precisa. ... Who would these fardeis bear
To grunt and sweat under a weary life,
Desta maneira, ele e aprender a ex andir as suas fronteiras-de-valor ara But that the dread of something after death -
incluir talvez utodetermina t v~ preparando o campo para a realização de The undiscover'd countiy, from whose boume
üm trabalho exc e, e outras valores-que,JJW1Dda incluídos dentro da sua fron- No traveller retums - puzzles the will,
teira-de-valor, abririam.o caminho para uma...solução_criativ.a..daguilo::911e agora pa- And makes us rather bear those ills we have
,;;;,,/ iti:e ser valores:cõ"5mp_!tíye.is- Ele poderia começar fazendo_ no mínimo ~quelas Than fly to others that we know not of!
c01sas que lhe interessam, em vez de fazer uma fuga generalizada. Podena, por
exemplo, fazer um curso de mecârúca de automóveis, o que realmente fez. Ele Não somente a mort~, _como a própri~ mudança, traz ã tona terror, e faz com que
poderia ir à biblioteca, fazer um exercício da terapia, e folhear livros - pelo tempo algumas pessoas restnnJam o seu funcionamento a situações limitadoras, mas fami-
que desejasse - o que ele também fez. Ele poderia conversar coni alguns dos seus liares. Para estas pessoas, mudanças de emprego, de pessoas significativas em suas
colegas que ~ interessam-pelas coisas que ele gosta de conversar, o que ele também vidas ou de seus relacionamentos com elas, como quando as crianças crescem ou os
fez. Ele começou a andar com uma garota, simpática para a su~posiçã'o, e que pais ficam velhos, são transições excessivamente difíceis. Eu-sou-o-que-sou petri•
estava seriamente interessada em seu próprio trabalho escolar. Todas estas influên- fica-se no eu-sou-o-que-sempre-tenho-sid~-o-que-sempre-serei.
c i ~uxaram o seJUirtema..dq aloreÜ)ab~ .essibjlidades JWL~P~ º
do seu mundo. Anterionnente, valores incompatíveis lutavam por uma posição e Não é somente o medo do desconhecido ue
exigiram o desenvolvimento de um programa autodeterminado em que, embora oportunidades nos pe-
ainda tivesse de lutar com o sistema existen.te, não se resignou simplesmente a ele. quena porção do ss ve em nossas vidas; li~e-~ a ou de tempo restrin-
Ele não teve de abandonar a sua estima por um viver de forrna interessada, mas não g~m o contato com o novo ou oa:o-farniliar. Estas fronteiras sã'o inevitAveis e slo só
estava mais preso ao aborrecimento da mera recalcitrãncia. A expansão da sua parcialmente removidas atrav~s de viagens, leituras e encontros com outras pessoas
fr~teira-de-valor propiciou um novo apoio paFa a ação e ofereceu algumªs alter- de diferentes modos de vida. Mas a fronteira que nós estabelecemos como a linha
na.tivas para a sua existência estereotipada. Com uma variedade de valores dispon!- de demarcação entre nós mesmos e o não-familiar que nós nos rtçusamos a contac-
ve~nvolver a energia para estar à altura da sua ingenuidade e ir contra tar, muito embora possa haver a oportunidade, é um limite que nós nos impusemos.
a energia contrária do "sistema". Isto não significa que ele o apto'va, mas aprendeu
como obter dele o que precisa para viver a sua vida de urna forma mais flexível. Um homem estava falando em tim grupo a respeito da iminente ruína do seu
casamento e da sua considerável confusã'o e ansiedade com relaçfo a isso. Ele que-
FRONTEIRAS-DE-FAMILIARIDADE ria manter o casamento a quase qualquer preço, porque esperava que a sua esposa
çJ:) quereria uma vez mais estar casada com ele, embora fo»e duvidoso que ela o fi.
zesse. Enquanto ele falava, as suas principais preocupações revelaram-se como
{.j_' estando centradas na imagem que ele tinha de si mesmo, a imagem que ele tinha
Uma família foi a Vermont todo verã'o, durante 15 anos, antes que se desco-
\'
\ \
do casamento, e aimagem que ele tinha do ~ tr~balho. E I ~ ~ IU8
brisse q u e ~ c a quisera ir, as crianças nãoquíseram nos Ultimos Sãjiõs,e imagem de um pastor é ~ u u ~ · Ele acredita também, talvez
somentéo pai ainda considerava impensável que eles devessem ir a qualquf r outro
117
116

C,l••a C.edo,o of.ndudc


<!:RP 09/1121 - CPF. 39~.872."5l-to

~
- --
,_.

a sua igreja sentem que um pastor nlo deve-


como pai, ele toca seus filhos somente quando tem de fazê-lo e, quando um anugo
corretamente, que a sua co~açlo e . • se conveniente da natureza
ria ser divorciado. Embora as unagens se1am uma sinop . . está chorando, ele mantém distância. De fato, mesmo se for ele a pessoa que está
de uma pessoa, elas são vulneráveis a distorções e supers1mphficações que podem chorando, a sua resistência contra o tocar pode impedi-lo de conseguir o apoio que
roubá-la de muita liberdade individual de ação. Assim, a pergunta do preocupado a intimidade de uma outra pessoa poderia lhe dar. Tão amoroso quanto possa ser,
pastor era: "Se eu não sou um marido, ou um pai ou um pastor, o que sou eu7", e 0 tocar está excluído para ele como um meio de expressar o seu afeto.
ele respondeu para si mesmo: "Portanto eu sou nadai". Para ele havia ou o familiar
O estabelecimento de limites expressivos é claro, na história de uma jovem
ou o Nada; e o Nada era o desastre.
mulher de 21 anos. J ennifer é modelo de moda juvenil. Ela começou a ser modelo
--==--
o desastre não se dá tão facihnente, para aquelas pessoas que desejam passar no início da sua adolescência'. Ainda se parece muito jovem e tem uma compleiçfo
frágil. Ela se agarrou ã sua adolescência tanto quando pôde, sem mesmo saber
t-J<i)
pela transição entre aquilo que parece ser a dissolução catastrófica do familiar no
quanto sucesso obtivera russo. Além de modelo, Jennifer também queria ser canto-
incompleto. O bem-estar futuro de uma pessoa freqüentemente anda disfarçado e
as suas bênçãos freqüentemente só são reconhecidas após uma extensa confusão, ra. Contudo, nisso ela nfo era tão bem sucedida. Sua voz tinha uma qualidade
quando finahnente ela pode dizer que o seu divórcio, ou o abandono do emprego tonal fraca, "branca" e lhe faltavam o corpo e a maturidade que a voz de uma mu-
que tinha com o seu pai, ou até mesmo o seu ataque cardíaco, "foi a melhor coisa lher teria; com 21 anos ela ainda cantava como uma adolescente. Sua iniblçã"o con-
tra uma expressão madura~rque entrara no caminho da sua carreira de modelo,
que já me aconteceu". Uma das dificuldades rase sair do fanüli de
se_encerrar todo o drama da mu _ ça, antes que as suas atraÇÕj:S próprias tenham inadvertidamente estava aniquilando as suas possibilidades como cantora.
uma chance~ amadurecer. A sensaçfo de sermos roubados de tudo aquilo que nos
é familiar é um dcuo que ameaça sugar tudo que está ao seu alcance. O que é Um pastor estava planejando fazer um sermão nos distúrbios envolvendo
negros e brancos em Sehna, Alabama, onde cães policiais haviam sido empregados
. difícil de se Mpreciar, quando o t e ~ ~ uma ruptura catastrófica, é que este
vazio pode ser um vazio fértil. O ~ a metáfora existencial para abando- contra os manifestantes negros. Eu lhe pedi que praticasse fazendo o sermão para f,y ciJ
,., n ~ suportes familiares do presente e para acreditar-se que o momentum de mim, e sem dúvida ele se aborreceu - foi enfadonho! Eu lhe pedi que o fizesse
vida produza novas oportunidades e perspectivo. O acrobata que pula de um novamente como se fosse um dos policiais de Alabama. Neste papel ele contou a
~~ trapézio para outro sabe quando deve saltar. Ele estima cuidadosamente a sua sol-
tura e, por um momento, ele não tem nada por ele, a não ser o seu próprio momen-
história de uma forma diferente. Sua voz era mais alta e mais ressonante, mais
confiante . Ele usou anedotas, seu rosto resplandeceu, e ele usou seus punhos.
tum. Nossos corações seguem o seu movimento e nós o amamos por arriscar-se no• Então eu lhe pedi que contasse sua história uma vez mais, mas que desta vez expres-
momento sem apoios. sasse a sua própria posição utilizando o estilo e a dicçlo do policial. Desta vez ele
fez um belo sermão, que tocou a mim, e, mais tarde, a sua congregaçfo. Durante
este processo de elaboração, ele se lembrou de que, quando criança, sempre admirã=
FRONTEIRAS-EXPRESSIVAS
ra os valentões da sua escola. Na verdade, eles o haviam atacado repetidas vezes,
chamando-o de mulherzinha e haviam tirado vantagem das suas limit~s físicas.
Os tabus contra o .comportamento expressivo começam cedo. Não toque, não Mas, eles sempre pareceram seguros e enérgicos, e por isso eram os "caras legais".
se mexa, nlo chore nlo se mastu não urine.· e · · o delineadas. Ele havia adotado a posição moral de vítima; certo, com a razio, com ajustiça do
Aqu o que começou na infbtcia continua à medida que crescemos, só que ainda seu lado, mas sem vigor e fadado ao fracasso. "Valentão" era sinônimo de vitalida-
mais sutilmente do que os nãos originais. Nós nos tomamos mais inclusivos, encon- de, mas ele não era valentão, e assim não tinha vitalidade. A expansão da sua fron-
trando mesmo novas situações onde as primeiras proibições podem se aplicar. As pe- teira-expressiva levou-0 a saber que, embora não sendo um valentão, t!le poderia ter
quenas e simples cenas infantis que estavam envolvidas no estabelecimento de vit~idade e poderia devolver ao valentão tanto quanto o que estava acostumado a
fronteiras não mais existem, mas somente os detalhes mudam. Por exemplo, a proi- receber.
bição contra a masturbação - tocar-se amorosamente - se estabelece com uma
fronteira qut exclui tocar qualquer outra pessoa amorosamente. Conseqüentemen- ameaçador romper as fronteiras que nós estabelecemos para nós mesm<?!,
&
te, quando a criança cresce, o seu modo de fazer amor é conservador e limitado. tfá o ~edo de perdermos a nossa identidade, e num certo sentido isto é verdadeiro,
118 pois inevitavelmente perdemas a ideofidade que tínhamos, A nossa identidade em

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A ~ icoterapia tem feito muito, no sentido de garantju liberdade dc..cxposj~o.
evoluçfo ~ o que precisamos descobrir. O eu nã"o é uma estrutura, é um processo. ( Ir -.. ,.
a ~ se~ rapeuta ou aos outr~ _membto-5.do..gmpo. A confidencialidade
N~~ de desmanchar antigas fronteiras expressivas é possível chegarmos a um sen-
é concedida como urna garantia contra a exposiçfo prematura da pessoa. O indiví- fl,
so aumentado de eu. Jennifer estava pronta para a voz madura. Eia está pronta para
duo é assegurado de que não será exposto em nenhuma situaçã'o que não seja a
tomar-se mais do que aquilo que as fronteiras-expressivas adolescentes permitem. situação contratada. Muitos grupos de terapia privada gastam algum tempo discu-
O pastor esti mais do que meramente correto a serviço de uma causa perdida; tindo os seus desejos com relação à confidencialidade. Ninguém pode garantir que
ele pode ser en~rgico e agressivo, uma vez que aceite isso como estando dentro da as pessoas de um grupo, inexperientes na manutençfo de confidencialidade, po-
sua esfera. dem ser totalmente confiáveis na sua percepção daquilo que é e do que nã"o é
material confidencial. Não obstante, eles geralmente chegam a alguma compreensão
FRONTEIRAS-OE-EXPOSIÇÃO de que aquilo que se dá no grupo no mínimo não sera falado caprichosamente em
qualquer lugar, e freqüentemente há a promessa de nã"o se mencionar nomes ou de
Existe um inter-relacionamcnto.....çonsiderável entre :\S diversas formas de não se comentar nada a respeito do grupo, a não ser com os esposos. Algumas vezes
fronteiras-do-eu. Aquilo que pode começar como uma relutância em expressar-~ o problema da confidencialidade pode levar .a situações cômicas, como aconteceu
pode setomar tão habitual que, mesmo quando o tabu ex~ssivo desaparece, a num grupo em que um dos seus membros disse a uma companheira que a vira num
fronteira de familiaridade assume o controle e continua o ta~. concerto, mas não sabia se se aproximava e dizia alô ou não, porque isto poderia ser
uma revelação do fato de eles pertencerem ao mesmo grupo de psicoterapia 1
A fronteira-<ie-exposiçfo também compartilha wtj terreno comum com todas
as outras fronte iras.! Neste por,to, entretanto, a relutliicta espeçfficrse manifesta
Muitas pessoas precisam destas garantias ou, no mínimo, desejam-nas. A
com ~ o à pessoa ser observada o u reconhecida. Um indivíduo pode saber o que
necessidade da pessoa resolver seus problemas no seu próprio ritmo e numa arena
é quê ele valoriza, e pode nã"o ter objeções contra a sua posiçfo. Pode expressá-la
que ela mesma escolheu deve ser respeitada. Contudo, é claro que, quando um indi-
e at.6 tomar as ações apropriadas a ela, mas insiste em fazê-lo de uma maneira pri-
víduo pode chegar a aceitar-se em todas as suas diversas manifestações, sua preocu-
vada ou anõrúma. Pode criticar anonimamente ou ser generoso de urna forma
pação com relação à exposição pública é reduzida. Quando ela mesma nã"o fica
anônima. Ele está relutante em aceitar observações provenientes de outros que
embaraçada ou envergonhada de estar em terapia, é menos provável que se importe
estio alm das fronteiras que ele estabelece. Outras pessoas podem não querer ser
que outros saibam disso. A aceitabilidade que é obtida pelo encob~nto das
identificadas como cruéis, sedutoras, críticas, manipuladoras, sentimentais, exi-
características reais da pessoa é, no máxímo, uma e~cie tênue de aceitabilidade.
gentes, ~nuas, agressivas, inexperientes, ad infinitum. A ~ s a .
seja ela exposiÇ!'o aos elementos ou expQsiçio...ao_dc:sprezo ou exigências dos out'.ros.
Algumas pessoas questionam o bom senso da confidencialidade. Carl Whitaker•
Uma mulher foi intem,gada a respeito da rua experiência num laboratório de tem falado da importância de se reenviar ao engajamento comurútário pessoas que
ftm de semana por wn outro membro rlo seu grupo de terapia semanal. Irene estão em terapia. Ele descreveu uma terapia comunitária em que, tanto vizinhos
falou brilhantemente dos novos exercícios que eles haviam experimentado, das quanto a família, são convidados a participar das sessões de terapia. Mowrer ..
atiVidades inovador.ts em que eles ntiveram envolvidos e dos resuttados. A coisa de há muito tem advogado a confissão comunitária. As tribos primitivas realizam
soou muito be:n, i.00 % ~radável. Entretanto, à medida que continuou, as pessoas suas formas de psicoterapia e de exploraçfo de sonhos em fantasias na presença de
~ observaram que a resposta dela era mais do que eles esperavam, embrulhada para fam11ias inteiras e de outros membros da comurúdade. •••
')i presente, e apresentada com arabescos. Irene admitiu que o fim de semana, na ver-
dade, não tinha sido sem dificuldades para ela. Ela havia tropeçado e com isso teve
um grande corte na testa, o que lhe causara um desconforto considerável durante .. • WHITAKER, C ., num discurso feito no Gestalt lnstitute of OeYeland , 1968.
o fim de semana. Finalmente, ele começou a chorar e pôde reconhecer qwo resis• •• MOWRER , O. H. 1he 0-isis in Psychilztry & ReliKUJn. Princeton . New Jersey , Van Nos-
tente estava com relação a expor o seu sofrimento. Ela temia que os outros tives-
trand , 1961.
sem pena dela; ela gosta de ser vista como brilhante e jovial. Desta vez, entretanto, • LA TNE R, J . Dissertação de Doutorado, não publicada. California School of Prof. Psy-
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Irene põde receber a simpatia e_a compreensá'o do resto do grupo, sem se sentir chology . San Francisco, 1972.
ameaçada ou diminuída.
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Um outro elemento relacionado a senvolvimento da fronteira Jli)Sição

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pressionada por outras para se lançar e abraçar alguém, pode realmente irromper
é ~ forma pela qual o exibicionismo entra no crescimento pessoal. Os scmanticis- numa nova disposiçfo para experienciar a intimidade. Ao mesmo tempo, contudo,
tas • t!m descrito vários tipos de expr~~o: bloqueada, ini~ida, exibic!oni~ta, e ela pode estar somente jogando um novo jogo, parcialmente Indisposta, parcial-
espontanea. Os estágios bloqueado e Inibido são nã'o;express1vns. No pnme1ro, a mente envergonhada e parcialmente intimidada, sentindo-se ridícula e suspenden-
/2, pessoa não sa6e nem mesmo o que quer expressar e, no último, ela o sabe mas não do temporariamente a sua integridade pessoal. Alguma disposição para aceitar os
~, o faz. O terceiro estágio, exibicionista, é atingido quando a pessoa expressa a~uilo momentos inautênticos e difíceis é indispensável para o crescim, nto. Al~ ve-
'.}1 que quer, embora não tenha integrado ou assimilado totàlmente...a.u ~ o ao seu zes esta é uma das maiores dádivas que outros membros do grupo podem oferecer a
sistema. O estágio esponfãneo começa quando o indivíduo expressa o que quer 1ém que es~ dando os passos iniciais na direção que quer seguir.
comum pleno empenho e a expressão é compat ível e assimilada aos seus.desejos.
Entretanto, devemos estar conscientes destes momentos como sendo somente
tY e durante o terceiro
~ o exibicionista. quç pndero acorrer o embaraço uma parte do processo de expansão das fronteiras-do-eu de uma pessoa, e não como
: ou mesmo a artific "dade de expressão. Este estágio é freqüentemente necessário constituindo o desenvolvimento final. Limpar a garganta antes de falar pode ser
J-1 .r e inevitável, porque uma pessoa que está aprendendo novas expressões não pode necessário, mas não é um substituto para o falar.
f . iJ esperar até que as tenha assimilado plenamente para poder experiment.á-las. Se
""t"'. insistir, por causa de uma integridade compulsiva ou da necessidade. de evitar ser
jv desajeitada, ela poderá ter de esperar muito tempo, antes que a integraçã"o ideal .se
dê. Na verdade, ela poderia nunca se dar, porque a pessoa não se orienta simples
µ ~,,uniformemente para bem~star a partir de urna posição bloqueada ou inibida.
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Todavia, a pessoa exibir-se como nervosa, an amável 011 tríste, oão é a mesma
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coisa .que ~11 pleoaroeote ocr;yosa amável ou tlislt. Em geral, a exposiçfo não
consiste somente na disposiç4o de tomar uma certa ação, mas também da relut4ncia
histórica em faú-lo. Desta forma, os primeiros passos podem não ser os atos puros
e autênticos de alguém que conhece bem e que endossa aquilo que está fazendo .
. 1 Conseqüentemente, existe urna diferença entre os excessos e o embaraço da fase
.;,t. exibicionista e a leveza e a credibjljdade da fase espontânea. Os conhecedores do
coiiíportarnento podem dizer a diferença, da mesma forma que conhecedores de
vinhos podem fazer tais distinções. Mais de um novo desenvolvimento parou neste
ponfo, sem a permissão de ser elaborado até a espontaneidade.

O processo de terapia, com a sua estimulação de novos comportamentos, é


vulnerável ao exibicionismo e, com a sua ênfase na autenticidade, ela também o
critica.

Este dilema é tão inevitável quanto deplorável. Comportamentos novos e


previamente não assimilados tomam-se atraentes e possíveis. Uma pessoa tímida,

• KORZYBSKJ, A. Scknct and Santry : Lancaster, Pa., lnternational Non-Aristotelian


Ubruy , 1933.

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