-4ª Edição
Do 26° ao 28° milheiro

© Copyright 1989 by
Centro Espírita Caminho da Redenção
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil

Capa de José Luiz Cechelero
Foto da capa de Franklin Wagner
Impressão: LIS Gráfica e Editora Ltda

Impresso no Brasil
Presita en Brazilo

LIVRARIA
ESPÍRITA
ALVORADA
EDITORA

Todo o produto desta obra é destinado à manutenção da Mansão do
Caminho, Obra Social do Centro Espírita Caminho da Redenção (Sal-
vador - Bahia - Brasil.)

SUELY CALDAS SCHUBERT

O SEMEADOR
DE ESTRELAS

L I V R A R I A ESPÍRITA ALVORADA EDITORA
C.G.C. (MF) 15.176.233/0006-21 - I.E. 01.917.200
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil
1998

Dados de Catalogação na Publicação ( C I P ) Internacional
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Schubert, Suely Caldas.
O semeador de estrelas / Suely Caldas Schubert. —
Salvador, BA : Livr. Espírita Alvorada, 1989.

1. Espíritas - Biografia 2. Espiritismo 3. Franco,
Divaldo Pereira, 1927- 4. Médiuns - Brasil I. Título.

CDD-133.9092
-133.9
89-2354 -920.9133910981

índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Médiuns : Biografia 920.9133910981
2. Espíritas : Biografia e obra 133.9092
3. Espiritismo 133.9

SÚMULA

APRESENTAÇÃO 7
1 — O Semeador de Estrelas 13
2 — Joanna — Além do Tempo 14
3 — Joanna e Divaldo 27
4 — Joanna: A Família Espiritual 35
5 — A Pregação Espírita 39
6 — Na Africa Portuguesa — "Persona Non Grata" 51
7 — Os Bens Materiais 61
8 — A Psicografia — Messe de Amor 66
9 — 0 Suicida do Trem 77
10 — A Presença de Victor Hugo 86
11 — Amélia Rodrigues e as Histórias do Evangelho —
Cicerone em Israel 95
12 — Manoel Philomeno de Miranda — Uma Biblio-
teca Espiritual 100
13 — O Máscara-de-Ferro — O Quase Suicídio — A
Agressão — A Comunicação Mediúnica Através
de Chico Xavier 108
14 — Mediunidade e Oratória 133
15 — Resgatando Almas — O Franciscano 145
16 — A Moça de Catanduva 154
17— Desde os Tempos das Cruzadas 161
18—A Felicidade de Bezerra de Menezes 171
19— A Estesia de Tagore 176
20 — Agora. Enquanto é Hoje 182

21 — N o m e Escrito no Livro dos Céus 186
22 — A Moça da Praia — Evitando um Suicídio 191
23 — Nas Mãos de Nilson 199
24 — Em Um Minuto Apenas 202
25 — Fatos Mediúnicos em Israel 207
26 — Os Três Passes 212
27 — Com Marco Prisco na Avenida Ipiranga 217
28 — Além da Morte 225
29 — A Louca 232
30 — Chico e Divaldo — A Carta 238
3 1 — 0 "deus" Huracán — A Chuva — O Palácio de
Metal — A Chegada de Huracán — As Curas .. 242
32 — A Casa de Jesus — A Embaixatriz 267
33 — As Duas Mensagens 279
34 — Francisco, Chico e Divaldo — A Primeira Men-
sagem 281
35 — Francisco, Ubaldi e Divaldo — A Segunda Men-
sagem 288
36 — Página a Divaldo 295
37 — Jesus — As Três Questões 300
38 — A Outra Platéia de Divaldo Franco 307
39 — Prece na Pousada de Francisco 314
40 — O Archote da Fé 317
41 — Palavras Finais 320

conforme elucida Allan Kar- dec no capítulo 1 de A Gênese. Cada uma delas assinalan- do períodos diferentes e definitivos para a Humanidade. foram transmitidas ao ho- mem. a sua evolução dialética. do somar experiências que o amadureçam como Espírito imortal. No transcurso dos evos. Três grandes revelações. Épocas bem precisas marcam estágios. APRESENTAÇÃO Dentro da programação espiritual que Jesus elaborou para o nosso planeta e que. . os homens conheceram os missionários — Espíritos que se notabilizaram em todos os campos humanos abrindo perspectivas novas para a gran- de família terrena. Assim. propelindo-o aos seus mais altos destinos. etapas evoluti- vas no transcurso dos milênios. na atualidade. neste constante vir-a-ser em busca das conquistas. da fé ra- cional e coerente. A Doutrina Espírita inaugura a era da razão. no tempo certo e previsto. a Humanidade tem recebido vultos luminares que trazem como missão abrir caminhos e espaços no imenso cipoal de erros e experiências frustradas em que a maioria se deixou enredar. o Espiritismo clarifica. como parte do grandioso projeto espiritual que o Cristo de Deus inspira e orienta. unindo as duas conquistas máximas do ser: a sabedoria e o amor — as duas asas da evolução que propiciarão ao Espírito alçar-se aos campos da luz. vamos encontrar a trajetória do ser humano.

já se pode divisar fases marcantes caracterizando a programação espiritual em plena ação. Fruto do ensino dos Espíritos e do trabalho do homem — eis a soma das conquistas humanas. Conforme o próprio Codificador registra. Por primeira vez o homem tem con- dições de compreender. chega-nos a Terceira Revelação. Em ter- mos de Brasil. consubstanciada na Doutrina dos Espíritos. a falange do Espírito de Verdade. mas. o caminho de sua libertação. a interagir sobre encarnados e desencarnados. por outro queda- va-se prisioneiro da fé irracional ou de sua ausência total. quis Deus que a Terceira Re- velação não fosse personificada. Nesses cento e trinta anos. Um século e três décadas transcorreram. Todo um programa se desenvolve e é bem nítido o as- cendente espiritual a nortear os caminhos. o pro- gresso terreno é avaliado em milênios. Com a Doutrina Espírita a ciência e a fé se completam e integram um todo. Informam-nos os Benfeitores Espirituais que na Espiritualidade o tempo terreno. de maneira abrangente. . O advento do Espiritismo assinala uma nova era para a Humanidade. se de um lado se dei- xava dominar pela ciência fria e estéril. o que é bem pouco em termos de evolução. pois um século re- presenta muito pouco na dimensão extrafísica. todavia. prossegue assessoran- do a implantação da Doutrina Espírita na face da Terra. embora o re- torno de Allan Kardec à Vida Maior. porém. quando o céu e a Terra se dão as mãos para deixarem falar as Vozes da Imor- talidade.8 SUELY CALDAS SCHUBERT No século passado. A falange do Espírito de Verdade. que é o próprio Senhor. os conhecimentos doutriná- rios apenas começaram a ser semeados pelo planeta. A aliança da ciência e da religião vem libertar o homem da escravidão intelecto-moral. Pode-se distin- guir com clareza como se delineia essa linha de atividades. sim. pois. que representasse um conjunto de Numes Tutelares.

é Divaldo Pereira Fran- co. dando prosseguimento a tarefas espe- . O programa de Divaldo para a existência atual. Evi- denciando que ele participa. permanecem. como parte do roteiro de implantação da Doutrina dos Espíritos na face terrena. semeiam as verdades imorredouras. atra- vés das mesas girantes. Um desses arautos. a partir de seus de- poimentos gravados por nós. Há qua- renta anos. sem dúvida. a fim de integrar o ser humano em sua realidade cósmica. utilizando-se de seu organismo corpóreo e a espiritual. Um desses semeadores é. o médium e orador espírita Divaldo Pereira Franco. que antecede ao berço e sobrevive ao túmulo— a Doutrina Espírita abre os horizontes do infinito aos olhos aturdidos do homem dos nossos dias. de duas humanidades — a terrena. também Divaldo está inserido num contexto de tra- balho no campo do Amor e da Paz. de porta-vozes adrede preparados. primeiro. pois cada um tem tarefas bem definidas — sobre cuja vida escrevemos nosso livro Testemunhos de Chico Xavier. Em nossos estudos e pesquisas sobre este vulto tão que- rido. vieram para ficar. Tal como acontece com Francisco Cândido Xavier — sem fazer nenhuma com- paração. o quase menino Divaldo iniciou publicamente a sua missão terrena. foi-nos possível divisar a grandiosa planificação espi- ritual que rege a sua atual encarnação. estão entre nós. Seu labor missionário tem como mentora a veneranda Joamia de Angelis. As "vozes dos céus" estão falando! Através de arautos. O SEMEADOR DE ESTRELAS g Tal como aconteceu no advento do Consolador. enquanto encarnado. Já se pode avaliar a sua existência apostolar num con- junto de atividades vividas durante quatro décadas. pela sua própria condição de Espí- rito imortal. pois. por todos os títulos. que escre- vemos com a mais profunda felicidade. quando as vozes falaram diretamente. hoje pode-se prosseguir ouvindo-as. dando sinais. iniciou- se na Espiritualidade. Um pouco de sua existência está neste livro.

Como pessoa humana ele vive a religião espírita. tendo ouvido a palavra de Jesus e por Ele se dei- xado imolar. por cer- to. deixan- do em cada uma de suas passagens um rastro de luz in- delével. todo esse plano. Somente um médium com estas características poderia dar curso a um programa espiritual de tal magnitude. com o nosso modesto esforço. Espírito de escol. em profundidade. a missão assumida por Divaldo . a ser um semeador de Jesus. Comprometeu-se ele. Por muitas vezes esse Ser Superior tem descido à carne para exemplificar as virtudes que lhe são inerentes. embora as três estejam perfeitamente integradas e não se consiga dissociar uma de outra. o médium e a vivência espírita. acrisolado em muitas reencarnações vitoriosas. tanto quanto lhe fosse possível e por todos os meios ao seu alcance. semear a Boa Nova em sua feição de Consolador. de Cristianismo puro que a Doutrina veio revivescer. Como médium ele pratica a ciência à luz do Espiri- tismo. pro- pelindo-a em sua trajetória para o progresso. Esperemos conseguir. de alguma forma. Como orador ele dá ênfase à filosofia espírita. já no exercício da mediunidade. a vida de Divaldo Franco. Mas. con- forme se infere ao estudar-se. Mas. retratar. Joanna de Angelis é um desses Numes Tute- lares que envolve de amor a Humanidade sofredora. obedece a uma primorosa elaboração em cuja direção está a figura radiosa de Joanna de Angelis. Na obra de Divaldo Franco encontramos bem delinea- das as três principais tarefas a que ele se dedica de corpo e alma: o orador. cujos ascendentes estão no Mun- do Maior.10 SUELY CALDAS SCHUBERT cíficas por ele exercidas em antecedente reencarnação. A semear o Evangelho a todas as gentes.

novembro de 1988 Suely Caldas Schubert . com vistas à implantação do Evangelho de Jesus à luz do Espiritismo. no cumprimento desse belíssimo plano espiritual que Joanna de Angelis idealizou. ao mesmo tem- po em que reúne e promove a imensa família espiritual sob a sua responsabilidade. O SEMEADOR DE ESTRELAS 11 Franco. Juiz de Fora (MG).

Não olha para trás. brilham estrelas que se acendem na noite dos tempos. O mundo o chama para ouvi-lo falar desse Ideal que o abrasa. . com seu caminho de estrelas. refulge e aponta. iluminada. As sementes de luz são lançadas — lúculas que perma- necem brilhando. . Mas nem todas medram agora. incansáveis. Quarenta anos percorrendo as leiras do coração hu- mano. Todas as terras percorridas recebem a ensementação. 1 O SEMEADOR DE ESTRELAS "Divaldo tem uma estrela na boca". A seara é g r a n d e . a direção do Cristo cósmico. A "via-láctea". Seus passos são firmes. Divaldo Franco semeia. . O semeador sai a s e m e a r . Na esteira dos seus passos. . O semeador segue adiante. Os anos passam e ele caminha. A missão de semear é intemporal. decididos. Eis que vem o semeador e a percorre. . disse um dia Chico Xavier. todavia.

sem nenhum sentido especial? — Tenho. Ao terminar a reunião eu me dirigi ao moço. Eu sou engenheiro. pois sou funcionário da PEMEX. Quando estava na etapa final da palestra. num Congresso Internacional. desde que seja no domingo. Chamei-o e perguntei-lhe se me poderia dar informação de como chegar a São Miguel Nepantla. como deveria fazer e onde era a rodoviária. 2 JOANNA . Ela me acenou com a cabeça para que eu aceitasse a proposta. indagou: — O senhor tem interesse em ir a um lugar destes. de uns vin- te e seis anos. Ele. eu teria muito prazer de levá-lo até ali. fala com aquele jovem que está ali gra- vando — porque ele é da nossa família espiritual — e pede- lhe que te leve a conhecer a pequenina aldeia de São Miguel Nepantla. Joanna de Angelis me apareceu e disse: — Ao terminar. .ALÉM DO TEMPO No ano de 1969 eu me encontrava proferindo uma con- ferência na Cidade do México. trabalho no setor de petróleo e. perto de Cuernavaca. no domingo. — Eu poderia levá-lo. sim. muito surpreso. Nós vivemos lá.

ru- mamos para a aldeia que ficava a oitenta e um quilômetros da capital do México. e explicou-me: — Eu vivi aqui e o meu nome era então Juana de Asba- je. isto sim. no estilo poético. que fora modesta. Tempos depois. O SEMEADOR DE ESTRELAS 15 E assim fizemos. naquela época possuía uma vasta biblioteca e teve uma morte muito dolorosa. ao escrever um tema. que ela intitulou "Um recanto seguro". porque eu os olho e constato que Joan- na escreve escorreitamente. muito deli- cado. fui para a Ordem de São Jerônimo e adotei o nome de Juana Inés de La Cruz. em versos brancos. Eu não tinha a menor idéia de quem se tratava. mas não de forma in- compreensível. intencionalmente. com a sua família. No domingo. no século dezessete." Com toda a honestidade. aos quinze anos de idade. Posteriormente. Joanna se me revelou como Sóror Jua- na Inés. Per- guntei ao rapaz: — Quem teria sido Juana Inés de La Cruz? — Uma poetisa — respondeu — das mais formosas da literatura hispânica. parece-me até um pouco de prevenção. O Espírito pode assim. Chegamos à região e Joanna nos levou às ruínas de uma casa. à sua época. voltar ao estilo que viveu outrora. não acho esta crítica justa. do século dezessete e que é um dos mo- tivos de orgulho da alma mexicana. Um dia eu perguntei-lhe: — Por que a senhora escreve assim? As pessoas acham- na difícil. Foi a primeira feminista que se conhece nas Américas espanholas. Era uma mulher muito culta. por ocasião de uma epidemia que se abateu sobre a capital mexicana. Algumas pessoas dizem: "Eu não leio os livros psico- grafados pelo Divaldo porque não os entendo. Nesse momento eu a vi com a personalidade de Juana Inés de La Cruz. . porque renunciou a tudo para se dedicar aos pestosos.

no entanto. o grego e o latim. mas. Tem-se que dizer por paralelismo. uma doutri- na de cultura e nós não devemos adotar a gíria ou uma lin- guagem vulgar para facilitar o nível da conversação. a pri- meira teatróloga e considerada a maior poetisa de língua hispânica. Quando trazemos uma idéia. às vezes. para nós. ela escreveu- lhe uma carta e um artigo reprochando-lhe determinado . Joanna me disse que. nos séculos dezessete e dezoito. era uma monja que possuía milhares de volumes lidos e co- mentados. Quando o padre Vieira estava no Brasil. é matá-la. a gente vê a missão his- tórica desse Espírito. grunhia. Foi uma mulher revolucionária. beleza e construção de frases. mas nem tudo o que existe lá. Ela foi a primeira feminista do mundo. teremos de o vestir com expressões conhecidas e nem sempre o logramos. Espíritos — prossegue Joanna — verbalizar o que pensamos. No México. há alas dedicadas ex- clusivamente a ela. Há lá uma árvore. Não apenas pela forma. Vamos utilizar uma linguagem que eleve o grau de entendimento da criatura. Falava e escrevia fluentemente seis idiomas. nós defrontamos em nossa esfera física. quando foi Juana Inés. a ma- neira de vestir a idéia é-lhe importante. viveu para a literatura. na linguagem terrena. A ten- dência para a civilização deu-lhe o vocabulário. seria uma árvore. — Ê difícil. uma árvore. símile das nossas. Nesse aspecto. a nota de cem pesos tem a sua efígie. é algo que. Mede-se o nível de evolução do indi- víduo pela forma que ele tem de se expressar. Quando o homem era primitivo. porque tudo o que nós temos aqui existe lá. mas também pelo conteúdo.16 SUELY CALDAS SCHUBERT — Porque o Espiritismo é. um fato desconhe- cido. porque limitamos o pensamen- to. Ê a deusa do México. No Museu de Chapultepec. vestir a idéia com palavras. é o mundo de lá em rela- ção ao de cá. Este é um grande problema. não é necessariamente. no México. acima de tudo. As palavras têm conteúdo emocional pelo qual são co- nhecidas. inclusive o português. Verbalizar. praticamente uma alta personalidade histórica.

Quando tomou hábitos. como se pode constatar nas pinturas que a retratam. contemplativa. a de São Jerônimo.. as formas. como o Espírito plasma. que era uma mu- lher acostumada a pensar e a escrever. Ê impressionante. procurou examinar o que fazer . entregando-se em holocausto. a feiúra. Vestiu então um buril e foi atender aos pestosos. Joana e foi para o convento como Joana Angélica de Jesus. a beleza física. ela se dedicou à Ordem. também. Para poder mantê-lo estudou mais o português e o conheceu em profundidade. Joanna plasmou o mesmo rosto nas duas últimas reencarnações. de uma cortina. era Juana de Asbaje. noutra oportunidade. contami- nou-se e morreu. a madre lhe deu o nome de Juana Inés de La Cruz. in- clusive. em jornal exis- tente na época. No Brasil. A Or- dem era mística e muito austera. viveu numa Ordem religiosa. reencarnou-se no Brasil. a fisionomia. lembrando no inconsciente do atendimen- to aos pobres e aos pestosos. Informou-me. Ê muito curiosa essa programação das reencarnações. Oportunamente. Depois. que se publicou na Bahia. era dedicada também à caridade. ela. vendendo-a e dando os proventos aos pobres. Quando se tornou Abadessa. a Abadessa chamou-a e disse que ela era uma religiosa orgulhosa da cultura e que a Ordem. Foi o suficiente para que se desfizesse de toda a biblioteca. no México. ela aceitou os votos de si- lêncio e como eram monjas enclasuradas nunca um secular podia vê-las. No convento na Bahia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 17 comportamento. Atendiam a todos através de um véu. tudo quanto constitui conquista ou perda. Aí nasceu um vínculo com o Brasil. o psiquismo. como Joana Angélica. Fazia-se voto de silêncio e de dedicação total. na qual entrou como noviça e exer- ceu todas as funções até ser Abadessa. assim.. no Brasil. O nome civil dela. sendo. Mas. também. a estatura. na qual estava. Ela era.

mas. o Consolador estava pro- gramado para o Brasil e ela. sendo levadas a amar ao Cristo. Ela reeducava aquelas pessoas. Referiu-se às cenas noturnas do monasterio. isto é. como sucedeu também com outros. dentre os quais. não "pensar mal" e sendo atormentadas. ao cristão liberado que devia vir no Espiritismo. aceitou uma das mais difíceis tarefas — notem que Espírito líder — a de reeducar mulheres equivocadas. como estrangeira-brasileira (Espíritos estrangeiros que somos todos nós aqui. coibidas. em 1822. Assim. porém. Jovens que realmente amaram e foram enganadas e outras que nem sequer se equivocaram.18 SUELY CALDAS SCHUBERT de modo a atender à Ordem e servir a Jesus. internadas ali para não saírem mais. Aquelas pessoas aclimatadas a sensações muito fortes e. os pais. que lhes era im- posto. . eram enter- radas vivas. quando fazia visitas às celas. — Ali. que estava deturpado pelos conceitos dog- máticos. meu filho — asseverou-me ela —. Dedicava as horas vagas. Começou aí a participar da tarefa. as chamadas "arre- pendidas". Entre elas muitas havia. faziam um mecanismo de transferência psicológica para o Cristo-homem e não para o Cristo-Deus. já pensando nessa obra que viria muitos anos depois. que buscavam. Santo Agostinho. do conceito católico. porque O tinham que respeitar. eram vencidas por crises histéricas. para conversas con- soladoras e profundas meditações. digamos. a paz que perderam. de repente. Passou por uma adaptação mental para pensar em termos cósmicos e não em termos terrenos. Quando desencarnou. Muitos pais. a "Mansão do Caminho". foi convidada a fazer parte da equipe do Espírito de Verdade. cujas filhas se equivocavam. com ex- ceção dos silvícolas). no arrependimento dos erros. eu santifiquei a arte de amar e entender. assim o supuseram. sendo levada para o contato com os Espíritos da Codificação e para uma adaptação do pen- samento cristão. que o fize- ram antes. prepotentes. de ma- drugada.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 19 Posteriormente. A nossa vincula- ção com Jesus é muito antiga e esta existência tua deves levá-la com muita abnegação e sacrifício. e descemos à crip- ta onde estão os seus despojos carnais. Fomos. vinculado também aos nossos sentimentos. no mês de agosto do ano de 68 por fidelidade a Jesus. a mim. Ela deu o título de "Emulo de Jesus" e está no livro A Ser- viço do Espiritismo. ela me levou e ao Nilson. a esta luta eu te incito e te invito com freqüência até o últi- mo hausto da tua existência. exatamente — porque era uma hora em que se encontraria deserto o lugar e não teria turistas. faz muito tempo. E confirmou que um de seus filhos. ao meio-dia. tendo dado a vida em holocausto. no intervalo de palestras. Ela faz o paralelo entre aquele que . que nos pediu visitássemos a cripta onde está inuma- do São Francisco. elucidando-me: — Eu tenho muito amor histórico a esta região. por- que nós já vivemos aqui. as glórias terrestres não terás que conquistá-las. era alguém que estava hoje reencarnado. E me contou que havia sido a personalidade Joana de Cusa — e eu a vi transfigurar-se na mártir — a que se refere o Evangelho. não interessam e espero que a ti também não. a luta tiranizante da transformação moral no dia-a-dia. por estímulo dela. aquele que morrera com ela na fo- gueira. Ali ela me falou: — Eu desejo aqui escrever uma mensagem. Assim eu tive notícia de mais esta reencarnação de Joanna. Mas. Como te disse. a uma região próxima às Aguas Termais de Caracala e apontou um dos morros. um grupo de quatro pessoas. visitando Roma. que estava comigo. e estando no Monte Aventino (ano de 1970) numa viagem histórica que realiza- mos com objetivos doutrinários. E diante do túmulo ela me levou ao transe mediúnico escrevendo uma mensagem que eu reputo muito profunda. até o fim. fizemos uma visita a Assis. Mais tarde.

depois. Ali. e que eu já conhecia. e. ao longo do tempo. em seguida. porque eu desejo ainda que alguém es- creva uma mensagem neste local. . . oferecendo-nos condições de visualização de um enorme painel com a tra- jetória do ser humano. Pátria dó Evan- gelho. estando esta mensagem in- serida no livro No Longe do Jardim. A partir. O Espiritismo. Logo. Joanna nar- rou-me várias das suas reencarnações. determinou: — Aquieta-te. E me trouxe uma jovem. Coração do Mundo. intitulada "Encontro na Estrada". ambos psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. a partir do século primeiro. oferece ao homem a possibilidade de conhecer a história espiritual da Humanidade. Ao terminar de ditá-la. na sua escalada evolutiva. encontramos a revela- ção do passado espiritual da Terra e de nosso país. Mais tarde. explicando-me: — Eros (que é um pseudônimo). que fica na parte superior da cidade. Muitas revelações têm sido feitas. especialmente.20 SUELY CALDAS SCHUBERT acompanhou Jesus em todas as Suas pegadas com um espí- rito de fidelidade. de abnegação que ninguém teria feito igual. vai também escrever uma página. . dos livros A Caminho da Luz. Depois conduziu-nos ao Monasterio de Santa Clara. ela me desvelaria um outro ângulo de suas existências. levou-me a passar pela mes- ma estrada. Ê a estrada que liga Assis a Santa Maria dos Anjos. de Emmanuel e Brasil. que na Terra foi bailarina. em sucessivas reencarnações. de Humberto de Campos. pelos Espíritos Su- periores. diante do corpo em conservação de Clara de Assis. O que realmente aconteceu. através de médiuns responsáveis.

dos quais pas- sam a ser devotos. de nossa parte. embora alguns tenham uma visão distorcida a respeito desses Mentores. os Benfeitores que têm responsabilidades para com a marcha da Doutrina em nosso país. sem haver. A Misericórdia Divina proporciona ao homem ensejos benditos de aprendizagem. um dos guias espirituais da Humanidade. mas. de que existem. O SEMEADOR DE ESTRELAS 21 Inúmeros vultos históricos nascem e renascem com ta- refas específicas. muitas delas no seio da Igreja Católica. realmente. Joanna de Angelis é. perguntas 519 a 521. em nosso próprio Movimento Espírita. pelo que se desdobram em ensina- mentos e exemplificações. São incontáveis as almas que o seu coração amorável e sábio reuniu para formar a sua grande família espiritual. quaisquer laivos de endeusamento em relação a encarnados e desencarnados. para que aprenda a alçar seu próprio vôo. o fazemos na compreensão racional. Allan Kardec a isto se refere. em função do respeito. Uma das mais belas facetas. por cuja evolução laboram com abnegado amor. em várias . da qual se tornam condutores. contudo. Existem várias provas disto. no entendimento da traje- tória espiritual dos povos que a Doutrina enseja. é a de que existem Espíritos Superiores como Mentores de nações. Mesmo porque os Benfeitores lutam para que o homem se liberte dessas amarras. admiração e amor que lhes dedicamos. numa demonstração flagrante de desco- nhecimento doutrinário. Em cada uma de suas reencarnações. sem sombra de dúvidas. Esta é uma realidade comprovada. pois já se podem detectar algumas dessas lide- ranças espirituais. de determinados grupos humanos. em O Li- vro dos Espíritos. ela pontificou como Espírito de Luz sen- do reconhecida e venerada com diversos nomes. no sentido de inspiradores e/ou motivadores do progresso. sim. lúcida. Quando nos referimos a tais Entidades Superiores que lideram o Movimento. sobrepondo-se à imensa mole humana. de recomeço e de refazer a sua caminhada.

todavia. as principais caracte- rísticas dos Espíritos Superiores> esclarecendo ser essencial que o médium as conheça para avaliar a categoria dos Espí- ritos comunicantes. atestando um pro- grama espiritual superior a cumprir-se com fidedignidade. * * * Allan Kardec aborda. negligencia essa pesquisa. esquece. sempre se manteve dentro de uma ética irrepreensível. assim. É no exterior. * * * As explicações de Divaldo sobre a circunstância de ser Joanna de Angelis um dos Espíritos da Codificação são bas- . com vistas à obra mediúnica de Divaldo e à orientação imprimida por Joanna de Angelis. A maioria. vamos encon- trar a coerência e a total identificação com os postulados da Doutrina. e o faz em nada menos que 54 itens. dão-nos a melhor resposta. Prudente. a fideli- dade a Jesus e a Kardec.22 SUELY CALDAS SCHUBERT partes do mundo. jamais alardeou a superioridade de sua Mentora. que ao longo do tempo foi-lhe sendo revelada. A perfeita identidade de propósitos. a vivência consentânea e por todos comprovada. a questão da identificação dos Espíritos. Tais critérios devem ser sempre utilizados pelos mé- diuns na análise crítica que devem realizar de seu desempe- nho mediúnico. Colocados todos esses critérios de investigação ao nos- so alcance. preferindo tudo aceitar sem uma avaliação crite- riosa. como também jamais cessam de conclamar ao estudo constante e à renovação moral. discreto. Divaldo Franco. no decurso dessas quatro décadas de labor apostolar. humilde. aconselham-na. Os Benfeitores da Espiritualidade Maior. o que lhe ampliou a família de forma considerável. porém. principalmente. O Codificador relaciona. no capítulo X X I V de O Livro dos Médiuns. que "descobre" a história real de Joanna de Angelis.

finalmente. como Joana Angélica. Algumas dessas Entidades já traziam os seus nomes em nossos registros históricos. quando ditou uma mensagem alusiva. amada e venerada em alguns países da Europa com os di- versos nomes de suas diferentes reencarnações. mas o faz como "Um Espírito Amigo". então. Este fato é muito significativo. con- forme Humberto de Campos. Nessas diferentes reencarnações. convidada a participar da Falange do Espírito da Verdade tem. item 15. cujas raízes foram bus- car a ubérrima terra baiana para se fixarem. item 7. contudo. conforme Divaldo elu- cida. O SEMEADOR DE ESTRELAS 23 tante coerentes com todo o seu passado histórico e o seu presente. especialmente nas hostes da Igreja católica. A princípio ela se identifica ao médium como "Um Es- pírito A m i g o " e somente mais tarde com o pseudônimo atual. só foi tornada pública por ocasião do ses- quicentenário desta memorável data. Joana Angélica. "Dar-se-á ao que tem". Espíritos de escol se desdobraram para que o Espiri- tismo florescesse em nosso solo abençoado. A primeira dessas mensagens está no capítulo I X . deixando-se conhecer. As raízes históricas de Joanna de Angelis estão. ela que é reconhecida. sem re- velar a sua verdadeira identidade. A sua participação nas lutas pela Independência do Brasil. Joanna plasma o mesmo rosto. no capítulo X V I I I . o seu pensamento cristão adaptado à visão nova que a Terceira Revelação propiciaria. só após quatro décadas de labor com o mé- dium é que ela se deixa identificar como tal. as mesmas caracterís- . que também foi o berço do Espiritismo em terras brasileiras. Ela tem o ensejo de assinar duas comunicações psico- gráficas que foram inseridas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. pois evi- dencia os vínculos com a Falange do Consolador que. trasladaria da França para o nosso país a árvore do Evangelho. portan- to. e a segunda. "A paciên- cia". na Bahia. Contudo.

Por Ele vence os problemas domésticos e compreende as dificuldades íntimas do marido. que o acompanhava. o martírio de Joana de Cusa — talvez o mais expressivo exemplo de amor ao Cristo que nos é dado conhecer. na educação de seu único filho. mas também pelo filho amado que ela entrega a Jesus em suprema renúncia. em seu es- tilo inconfundível. * ** Humberto de Campos. Por amor a Jesus e aos ideais do Evangelho nascente ela se deixa imolar. A cena final da vida dessa estóica mulher é impressio- nante e recomendamos a sua leitura. pela fé que a alimenta de sagrada chama. enquanto empenha-se. Por outro lado. os caracteres de sua personalidade tam- bém despontam vitoriosos nessas várias existências terrenas. Com a morte deste. Joan- na o convida e a Nilson. Joana pôde dedicar- se integralmente a Jesus. narra Divaldo. Deste testemunho de fé profunda e ver- dadeira não abdica nem mesmo para livrar o próprio filho do sacrifício. em seu belíssimo livro Boa Nova. pois não apenas tem de testemunhar por si mesma. É a prova inconteste da reencarnação. também. psicografia de Francisco Cândido Xavier. esposa de Cusa. narra. mostrando o Espírito superior a habitar diferentes corpos e imprimindo nestes a marca inconfundível de sua individualidade.24 SUELY CALDAS SCHUBERT ticas morfológicas que hoje a identificam de maneira assom- brosa. a conhecer . na obra mencionada. A trama da vida coloca-a em situação ímpar. Ao encontrar Jesus. Joana. é tomada de verdadeira fé e reconhece estar diante do Mestre a quem passa a amar com toda a alma. # » * Em sua primeira viagem a Roma. sempre voltado para os in- teresses materiais. intendente de Ântipas. O exemplo de renúncia e sacrifício de Joana atravessa o tempo.

com o passado ali. a fim de que permaneçam vívidos os exemplos de fé. na Bahia. defendendo os mesmos ideais. na- quela região. realmente está eternizada co- mo cenário de sacrifícios e testemunhos cristãos e na sua psicosfera estão registrados os feitos e os fatos de um pugi- lo de almas que. ela esclarece que. da fé acrisolada e estuante. Sua coragem e decisão são as mesmas com que enfren- tou o circo e é o mesmo e definitivo amor com que se en- trega a Deus. Impossível imaginar-se cena mais tocante que a deste reencontro de almas. a exemplo de outras. No transcurso da narrativa Divaldo a vê transfigurar-se na mártir e. se deram em holocausto ao Amor. transportados pela "máquina do tempo". vivendo para Jesus e por Ele novamente oferecendo a própria vida. desentranhado não apenas dos arquivos mnemónicos. hoje conhe- cida como a "Cidade Eterna". resgatado dos arquivos da ambiência etérica. também. Joana Angélica é Joana de Cusa que retorna do passado e que se deixa imolar para mostrar aos homens — não a Jesus. tão presente e vivo. Após entretecer considerações demoradas. Roma. que vamos encontrar qua- se dois mil anos depois à porta do convento da Lapa. envolvidos todos por indescritível emoção. Naquele instante decisivo. * * * É esse Espírito talhado na forja do sacrifício e da abne- gação. no Monte Aventino ela aponta o local onde se erguia a Domus Áurea (Casa Dourada) onde Nero vivia. de estoicismo. Joana de Cusa dera a vida a Jesus. mas. em outros lugares e tempos. que o Mestre já lhe conhece a superior fidelidade — que se pode morrer por um ideal. a cidade dos Césares e dos mártires. Joanna de Angelis passa a ser tam- bém Joana de Cusa. . por um Amor Maior. O SEMEADOR DE ESTRELAS 25 as colinas e. como se estivessem mergulhados em seus arcanos. e de vivência plena do Evangelho. ao lado de inúmeros outros cristãos.

hoje. há dois mil anos. o reinado do Amor e da Paz. reunindo ali um grupo afei- çoado. vive para o Cristo. so- mando experiências. E o faz já por quatro décadas sucessivas. mártir e santa muitas vezes até ressurgir como a Ins- trutora Espiritual Joanna de Angelis?) Nunca. pelo menos. assegurando a sua continuida- de. De revelar o seu acendrado amor ao Evangelho e mostrar- lhes que este é o caminho. Ansiando por levar ao mundo as notícias da Doutrina Espírita elabora um projeto grandioso que pudesse signifi- car. orientando e assessorando a obra mediúni- ca de Divaldo Franco. seu filho espiritual. (Não será assim a ressurreição a que Jesus se refere? O mesmo Espírito transfundindo-se através de sucessivas vidas. uma era nova se anunciava para a Humanidade com o advento do Consolador prometido por Jesus. adquirindo conhecimentos e.26 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. ela teve ensejo de falar aos homens. a sementeira do Evangelho a várias regiões do globo e a libertação definitiva desse grande con- tingente de almas que integram a sua família espiritual. ela que. na Terra. para mostrar ao mundo que é possível instalar-se. como agora. . que mantém a obra. Ei-la. ressurgem na presença de luz de Joanna de Angelis. no caso da Mentora de Divaldo "colecionando" reencarnações vito- riosas. ao mesmo tempo. Juana Inés de La Cruz. Joana Angélica. com a plenitude do conhecimento. Juntos concreti- zam a "Mansão do Caminho". Joana de Cusa.

o irmão da pessoa que nos . onde o grupo se encontrava semanalmente. Não esperes de mim aquilo que o mundo pode dar e que tu conseguirás com teu próprio es- forço. próxima de mim e uma voz muito meiga que me disse: — Eu tenho a tarefa de caminhar contigo na atual exis- tência corporal e envidarei todos os esforços para que a nossa tarefa se coroe de êxito. eu a vi por primeira vez. mas eu te afianço ser necessário que. A minha memória guardou a data. mas vi uma claridade muito grande. entorpecem os sentidos e aniquilam os ideais. às vezes. Isto se deu na residência de uma família amiga. à noite. Não a vi com as características de religiosa com que ela se vem apresentando nos últimos trinta anos. na tua fideli- dade à palavra do Senhor. na palestra. num porão. porque foi um momento de muita significação e importância na minha atual exis- tência. É muito significativo constatar a similitude de acontecimentos. contes com a minha presença de amiga na razão direta em que eu possa contar contigo nas necessidades do nosso programa. 3 JOANNA E DIVALDO No dia 5 de dezembro de 1945. Por uma curiosa "coincidência" esteve ontem e talvez esteja hoje. todas as terças-feiras em um quarto modesto. Não te prometo as regalias nem as comodidades que.

Passaram-se os anos e aquele "Espírito Amigo" conti- nuava a estar comigo. já havia lido O Livro dos Espíritos. no Centro Espírita Joanna de Angelis. essa Entidade. Fui seu hóspede em Pedro Leopoldo. no exercício de mediunidade. em Juiz de Fora. Portanto. No ano de 1949 eu conheci o médium Francisco Cândi- do Xavier. ao estar na casa de Chico Xavier. ( * ) A narrativa foi feita no mês de setembro de 1987. àquele tempo. que eram os romances da época. Já havia lido alguns ro- mances Eleonora. Nestes qua- renta e dois anos * que nos separam daquela oportunida- de. a necessidade. naquela mesma noite. MG. constituiu-nos um farol aceso lutando contra a ventania. eu per- guntei: — Como é o seu nome? — Chama-me "um Espírito Amigo".28 SUELY CALDAS SCHUBERT franqueava a sua casa para as nossas reuniões — o senhor Ederlindo Sá Roriz. naquela noite de 5 de dezembro apareceu-nos esse ser espiritual e se comprometeu a ajudar-nos. Vítimas do Preconceito. (Nota da Editora) . logo ao amanhecer do dia imediato. Eu fiquei algo frustrado. a princípio anônima. A partir daquela época a nossa vida passou a ter uma diretriz e um significado de bom direcionamento. estava estudando-o. A Vingança do Judeu. Ainda me recordo que. Já tinha alguma noção de Doutrina Espírita. mas o "Espírito Amigo" me atendeu. porque tinha muita preocupa- ção com os nomes. porque nós não tínhamos a menor idéia do que era o Espiritismo. Era na residência de sua irmã Eunice. porquan- to eu passei a senti-la e vê-la quase diariamente. e então. que nós nos reuníamos para tentarmos os primeiros passos. de certo modo. não pude sopitar a minha curio- sidade de fazer-lhe uma pergunta.

com essa visão transcendental. que coisa. jovialmente e falou: — Bem. quero lhe fazer uma pergunta: Quem é o seu guia? (Era o meu ponto nevrálgico). — Ê. não posso dizer quem é. E o Chico. tu me chamarás Joanna. O SEMEADOR DE ESTRELAS 29 Quando despertamos e antes que ele fosse trabalhar na "Fazenda Modelo". Pois as pessoas me per- guntam e eu respondo: "Um Espírito Amigo". O Espírito sorriu outra vez. disse: — Divaldo. Eu quero um guia para mim.. Divaldo. Certa vez. . à época. mas todos in- formam: Fulano é o meu guia. eu vi. que resolvi conversar seriamente com o "Espirito Amigo". e respondeu: — Divaldo. eu lhe perguntei: — Chico. pois ficamos como es- távamos. Foi o mesmo que não ter visto. viu quem é o meu guia? (Porque. mas Ele é o guia de todo mundo. Eu queria ter um para mim. onde era datilografo. com a mineirice dele. Todo mundo queria ter um guia e eu também. pois eu não sei. Eu vou pegar uma beiradinha de nada. da Humanidade inteira. Ao largo dos anos as pessoas sempre me perguntavam: — Mas. uma senhora insistiu tanto neste assunto. — Eu não sei. Quando me apareceu eu me queixei. O Espírito sorriu. eu vou dizer: o teu Guia é Jesus. pois todos sabiam quem era o seu guia. você há de ter tido qualquer nome na Terra. mas não sei quem é.. o do nome do guia. do Ministério da Agricultura. Jesus eu já sei que o é. menos eu. — Por favor — insisti — me dê um nome. você. que era filho de Deus). di- zendo que estava muito desgostoso. havia uma mentalidade guiista.

só Joanna? — Olha. Ela então se materializou diante de mim. as mãos estendidas. por ocasião do teu começo. Quem pre- tende servir a Jesus deve aprender com o tempo e discipli- nar a vontade. com uma riqueza de detalhes talvez maior do que a que eu estou vendo nas pessoas agora. Ela me apareceu luminosa. tão anônima. pois me aparece assim. de disciplina e de serviço. tivesse desabrocha- do. com mais de sessenta anos. Se eu te anunciasse. foi mulher? — Sim. achei o nome tão sim- ples. A mediunidade é um ministério de autocon- trole. — A senhora deixa-me ver o seu rosto. Quando ouvi o nome latino fiquei mais satisfeito. porém. Divaldo. em Salvador. e me deixou fixar a imagem. E perguntei-lhe: — Por que a senhora não me disse antes? — Tu eras muito imaturo. e eu a vi. eu fui mulher. E a primeira lição de sabe- doria que eu te queria dar. Finalmente o meu desejo fora atendido. e que deu a vida nas lutas da Independência da comunidade brasileira. eu ain- da queria algo mais. à época.. Tu sabes quem foi a Abadessa Joana Angélica de Jesus. Eu me comovi e me senti profundamente a ela vincula- do. na última encarnação.. Eu fui Abadessa do Convento da Lapa. era a da paciência. . aqui.. como se isto em mim. na tua ingenuidade e no teu entu- .30 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive uma pequena decepção. chama-me Joanna de Angelis. — Quer dizer que a senhora. Ela desencarnou. aquela idade que está além do tempo e além do espaço. — Mas. uma beleza e uma idade indimensional. mas ela me apareceu com um esplendor que me fazia recordar uns quarenta anos de ida- de. a respeito de nossas vinculações e te dissesse quem eu era. o véu azul. no momento.

de captar a identidade dos Espíritos que o assistem. — Ademais — prosseguiu Joanna — eu não confiava em ti. . já és um homem. A identificação das Entidades que se comunicam por um médium. Alguns médiuns têm dificuldade. Quero dizer-te que. Entretanto. os Espíritos responsáveis. Agora. Neste caso. é bastante normal que este queira saber-lhe o nome. no capí- tulo X X I V de O Livro dos Médiuns. O SEMEADOR DE ESTRELAS 31 siasmo baratearias muito estas informações. uma tarefa passa a ter valor depois que os dez primeiros anos são vividos com abnegação. Por- que até dez anos de atividades pode-se considerar um tra- balho de entusiasmo. há de se fazer a distinção entre os vários comunicantes e o Mentor Espiritual do medianeiro. é claro.. a não ser nos casos de pesquisa científica ou quando vêm espontaneamente. Isto não deve. tornar-se um problema angustiante. pois não tinhas essa maturidade que os anos ofere- cem e que o sofrimento imprime na personalidade. porque. A questão do Guia Espiritual e o desejo do médium em saber-lhe a identidade expressam uma curiosidade bem humana e própria de todos os indivíduos. entre nós. já merece uma promoção de responsabilidade. pois c o m o tempo a revelação se fará. A não ser. Não te poderia dar uma tarefa além das tuas forças. no princípio.. mas quem é fiel em dez anos de lutas. já tens uma visão mais cósmica da vida e assim já nos podemos entender muito mais. a abandonavas. em que Joanna queria permanecer incógnita. c o m o no caso de Divaldo. Agora já transcorreram mais de dez anos e estás em condições de saber. não carece necessariamente de ser feita. É oportuno recordarmo-nos de como o Professol Rivail teve ciência do seu Guia Espiritual. contudo. de re- pente. Allan Kardec comenta sobre o tema.

era dotado de maravilhosa penetração. o outro. . por sua vez afirma: "O nosso grupo (mediúnico) achava-se sob a proteção de dois Espíritos elevados. o "Espírito Azul". sobre a questão de seu (dele) Espírito protetor.32 SUELY CALDAS SCHUBERT Ele esclarece que até àquela época denominava por Espírito familiar todos os Espíritos simpáticos. (Obras Póstumas — Grifos no original)" Antes desse diálogo. chamar-me-ei A Verdade. isto. nada mais saberás a respeito. — O nome Verdade. K . e todos os me- ses. estarei à tua dispo- sição. ) A . . cuja personalidade se ocultava sob vago pseudônimo. para ti. (No Invisível) . — Meu Espírito familiar. . porque "os nossos médiuns o viam envolto num véu azul". contudo. durante um quarto de hora. quer dizer discrição. . K . ( . constitui uma alusão à verdade que eu procuro? R — Talvez. pelo menos. que esta Entidade era assim denominada. na sessão em casa do senhor Baudin. é um guia que te protegerá e ajudará. (Idem) Leon Denis. O Espírito Z. sou a Verdade. ) A . ( . Ao ser in- formado. aqui. quem quer que tu se- jas. ao tempo em que a família Baudin se dispersou. um Espírito feminino. — Terás animado na Terra alguma personagem conhecida? R — Já te disse que. de que falei acima." Esclarece Denis. para ti. mais tarde. K . o Codificador trava com ele o seguinte diálogo: " A . um dos quais Jerônimo (de Pra- ga). anunciou que reencarnaria. até que. Consentirás em dizer-me quem és? R — Para ti. que seu Espí- rito familiar estava presente. ficou sendo para Kardec um amigo e protetor. que adotaste. — Zéfiro — que já se manifestava nas reuniões da família Baudin. Allan Kardec já interro- gara o Espírito Z. agradeço-te o me teres vindo visitar.

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Naquele instante. A discrição. de credibilidade perante o Mundo Espiritual Superior. tendo em vista as circunstâncias. ao responder ao então Professor Ri- vail. item 7 e que versa exatamente sobre esta vir- tude. O prazo de. um fato real — a promessa consumou-se. perfeitamente. portanto. O SEMEADOR DE ESTRELAS 33 Os Guias Espirituais. o Espírito de Verdade. ela repete o primei- ro tema que aborda em O Evangelho Segundo o Espiritismo. É um teste completo de persistência. mais tarde. é uma revelação no- tável. o Consolador. identificam-se ou ado- tam um pseudônimo ou denominação qualquer. . Nesse diálogo com o médium ela ressalta a necessidade da disciplina. do autocontrole e do serviço constante na tarefa da mediunidade. Afirmando que a primeira lição era a da paciência. Divaldo não deveria ser inteirado desses dados antes de. uma década para que o trabalhador da seara espírita mereça uma pro- moção de responsabilidades e. O Espírito da Verdade. que vê freqüentemente a seu lado. transmite também ao médium um valioso ensinamento. com a promessa de Jesus de que enviaria. quando então assina como "Um Espírito A m i g o " . no mínimo. tenta iden- tificar aquele "Espírito Amigo". o zelo quanto ao desempenho do programa espiritual traçado são impressionantes. de paciência. certamente. a partir daí. que simboliza o próprio Cristo. Segundo ela. um decênio de trabalho contí- nuo e perseverante. numa curiosidade bastante natural. pelo menos. capítulo I X . identifica-se. tornando-a. a prudência. a Entidade Espiritual estabelecia a ligação histórica entre a promessa do Mestre e o advento da Terceira Reve- lação. que o ajuda e orienta. Quando Joanna de Angelis revela a sua identidade e se deixa ver na beleza de sua elevação espiritual. * * * Divaldo.

de vivência. que não se consegue realizar antes de serem percorridas todas as etapas concernentes à própria evo- lução. . O processo de crescimento espiritual e quaisquer tare- fas de cunho espiritual requerem todo um laborioso ama- durecimento. en- fim. integral.34 SUELY CALDAS SCHUBERT de fidelidade aos compromissos assumidos.

sob a direção de Francisco de Assis. des- pertava. Porque. que es- taria espalhada e que ela tem a tarefa de chamar. e ela escrevia. Caminhare- mos muito. mesmo viajando. e das cinco às seis ela escrevia uma página. quan- do as forças te diminuírem e as distâncias se fizerem in- transponíveis. Levantava-me às cinco horas da manhã. 4 JOANNA . que o fazia. às quais desejo mandar a minha mensagem de amiga. Às cinco da manhã. do passado eu trago comigo um número muito grande de almas que me são afins e estão espalhadas. Nova- mente elas virão e muitas necessitarão do alimento ao longo do tempo. Eu irei escrever muito pelas tuas mãos e tempo virá que eu te requisitarei várias horas para o ministério da escrita. tu irás convidá-las pela palavra e. Essas almas são a família espiritual de Joanna. A mensagem escrita chegará periodicamente co- mo estímulo. . para levá-la de volta aos braços do Carpinteiro Galileu. Já psicografei quase seis mil mensa- gens. Isso me criou uma disciplina mediúnica ao largo dos anos.A FAMÍLIA ESPIRITUAL Os anos sucederam-se e Joanna de Angelis explicou-me: — A nossa. Comecei a psicografá-la diariamente. reunindo. — A princípio. para que possam lutar e triunfar na sua atual experiência. será uma marcha muito longa. a mensagem escrita chegará até elas. neste largo período.

Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Estas são uma prova cabal de que os verdadeiros liames são os do amor. novamente se reúnem como amigos que vol- tam de uma viagem. . capítulo I V . Não há distância que não possa ser vencida pelo amor. mais viva se lhes torna a afeição recíproca. nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. pois o amor é intemporal e triunfa da noite dos milênios para ser um eterno amanhecer. Po- dem. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cati- veiro. todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. não tem a perturbá-la o egoísmo. A encarnação apenas momentaneamente os separa. a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. podem ser derivadas das lembranças desses afetos dos quais se está momentanea- mente apartado. pela razão mesma de que mais depurada. sem motivo aparente. os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição. portanto. sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga. as almas afins se buscam no espaço e no tem- po e intercambiam as vibrações de amor e de alegria por se reencontrarem. Após cada existência. Muitas vezes até. acometem o ser humano. Não existe tempo nem épocas.) Este trecho de Allan Kardec exprime bem o em que consistem as famílias espirituais. ilimitado número de exis- tências corpóreas. Todavia. As saudades. ou num mesmo círculo. ao regressarem à erraticidade." (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Assim Joanna se empenha em nutrir espiritualmente to- dos esses corações que lhe estão vinculados. Se uns encarnam e outros não. Cada vez menos presos à matéria. percorrer. pela simpatia e pela semelhança das inclinações. assim. vindo aqui reunir-se numa mesma família. Ditosos por se encontrarem juntos. porquanto. um perene "festival de bênçãos". por vezes. nem as sombras das paixões. uns seguem a outros na encarnação. esses Espíritos se buscam uns aos outros. a nostalgia que.36 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o espaço. item 18.

) Jesus manifesta invariável preocupação em nutrir os espíritos dos tutelados. o revoltado e o infeliz. em esforço gradativo. exaustas. o que nos leva a imaginar quão grande deve ser a sua equipe espiritual para atender. com fervor e devoção. ela pontificou como mártir e santa. Como nutrir tantas almas? Como ampará-las e escla- recê-las? Como consolá-las em suas dores? Como trazer de volta as que se transviaram? C o m o . desde a taba do indígena às catedrais das grandes metró- poles. compreende Jesus que. . através de mil modos diferentes. o homem aprende. Cheio de abnegação e amor sabe alimentar. ligadas à Igreja Ca- tólica. até trazer a igreja ao próprio lar.(. há séculos.. Mais do que ninguém. de outro modo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 37 Em várias de suas reencarnações.. com recursos espe- cíficos. . Inclina-se o Mestre ao bem de todos os homens. o ignorante e o sábio. ? Jesus preocupa-se com a multidão. transportando-a do santuário doméstico para o recinto do próprio coração. por isto assevera: "E. Logicamente isso aumenta-lhe o círculo de responsabilidades. afirma: "Não falta alimento do céu às criaturas. tornando-se co- nhecida e venerada por milhões de pessoas. . porque alguns deles vieram de longe. Pouca gente medita na infinita misericórdia que serve. no mundo. 8:3) Emmanuel. o indagador e o crente. à mesa edificante das idéias religiosas. socorrer e amparar a tantos que a buscam. desfale- cerão no caminho. a alimentar-se espiritualmente. Nesses postos de socorro sublime. ao comentar este passo do Evangelho. se os deixar ir em jejum para suas casas." (Marcos. A forma como é realizado este atendimento sugere-nos uma estrutura tão grandiosa e tão perfeitamente organizada que nos leva a malabarismos mentais. as criaturas cairiam.

um perfeito encadeamento histórico. através das páginas psi- cografadas. de que aos poucos nos inteiramos. como está bem claro. FEB. Há em todo esse processo uma notável programação espiritual. mais tarde. conforme ela orienta. engrandece de maneira prodigiosa a idéia que temos da Bondade Di- vina e de toda essa fantástica corrente de amor e solida- riedade entre os seres humanos. Divaldo. Joanna de Angelis tem agora outro recurso para chegar aos corações que se lhe vinculam — a mediunidade.38 SUELY CALDAS SCHUBERT nos imensos despenhadeiros que marginam a senda evolu- tiva. no qual é possível verificar a trajetória de um grupo muito grande de almas que." (Pão Nosso — capítulo 124 — Ed. os convidaria inicial- mente pela palavra e.) Estas perspectivas que o Espiritismo desvenda à Hu- manidade. . encontra-se sob a tutela espiritual de Francisco de Assis.

Para mim. que pode ser apresentado como contribuição às áreas da ciên- cia. em cujo comportamento reli- gioso está a ética. "nos moldes brasileiros". a Doutrina que melhor interpreta o pensamento de Jesus. do meu ponto de vista. por ser até hoje. Sabemos que cada país tem as suas idiossincrasias. en- contro sempre respaldo no pensamento kardequiano. foi-me possível pregar com absoluta tranqüilidade em toda parte. que me permite assim expressar. teríamos padrões . não como às vezes a malícia e a má vontade de alguns querem dizer. tem as suas heranças culturais. quando fala. não os há. recor- dando aos amigos portugueses a Doutrina Espírita. do contrário. na Codificação. Ê o direito de liberdade de consciência que ninguém pode violar. sociológicas. econômicas e não se pode estabelecer uma linha de comportamento rí- gida para os povos com padrões de temperamentos tão diversos. Sempre temos o cuidado de pregar o Espiritismo con- soante está na Codificação. mas a Doutrina Espírita conforme apresentada por Allan Kar- dec. da filosofia e da religião. em Portugal. Isto é perfeitamente lí- cito. a moral inspirada no Cristianismo. porque. que Kardec defende em O Livro dos Espíritos. este direito de liberdade. que aliás. 5 A PREGAÇÃO ESPÍRITA Assim. graças a Deus. pessoalmente. que "as leis de Deus estão escritas na consciência" humana.

essas ciências não dispõem de um comportamento ético.40 SUELY CALDAS SCHUBERT de comportamento sob supervisão de chefes. retirando-se a feição religiosa do Espiritismo. porque ainda não temos. desde que. e. con- forme está no discurso de Allan Kardec. a Psicotrô- nica. para mim. a reen- carnação. sem defraudar-lhe os objetivos. na comemora- ção anual do "Dia dos Mortos". em verdade. oferece-nos. ela seria corpo tão estranho que necessitaria de novos teólogos para nos dizerem como en- tendê-la. qual ocorre com o Espiritismo. quando abandonamos a ortodoxia ances- tral. "de uma nova Metapsíquica". capaz de iluminar o idealismo clássico e atender a todas as necessidades do pensamento histórico da criatura humana. a Parapsicologia. Portanto. Portanto. e não necessita de pessoas que a interpretem para nós. porque se tal ocorresse. sem que esteja jungido à chamada herança judaico-cristã — que aliás não diminuiria em nada o valor da minha crença — aceitar o componente do Es- piritismo religioso sem prevalência de um aspecto sobre o outro é natural. Sempre coloco o Espiritismo como re- ligião. clara e pura. porém. E sendo convidado para . por conseqüência. Aceito-a como filosofia comportamental. Como a Doutrina Espírita é simples. A ver- dade é que a Metapsíquica. porque assim o admito. Dumas. nem filosófico. na Sociedade Es- pírita de Paris em 1. eu o teria na condição. como diz M. de acordo com a corrente dos investigadores moder- nos. Também nela encontro a seiva de sustentação do conceito religioso. mas cujo método de investigação científica é utilizado pelas chamadas doutrinas acadêmicas. sabendo que há um amanhã." de novembro de 1868. um campo muito amplo para que cada um se movimente no seu corpo. conforme a cada um melhor lhe aprouver. é inevitável que nos preparemos para esse porvir. também encontraram a imortalidade da alma. dos quais já nos libertamos. para mim. sempre apresento a Doutrina Espírita como ciência que o é. instrumentos que nos dêem uma metodologia de ciência eminentemente espiritista. No entanto.

em qualquer lugar. sendo ainda um Espírito em processo de evolução.). para servir-lhe de modelo e guia" (questão 625 de O Livro dos Espíritos. que é um ato ancestralmente religio- so. que nenhum espírita o admite. Sigo a diretriz do Cristianismo. se Kardec nos merece tanta conside- ração. porque o respeito que me merece Allan Kardec. fundamentada nos objetivos da Doutrina. anuo total e plenamente com o con- ceito que Emmanuel. a Quem aprendemos a amar e a respeitar em pro- fundidade. sem a estrutura documental da Codificação. a Doutrina Espírita interpretada pelo temperamento de cada povo. imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!? E neste sentido. como não há um mo- delo francês. baseadas na Lei do Amor e têm o seu início na "Lei de Adoração". da Trindade. sim. Então. português ou espanhol. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. por serem as Leis Naturais. e não seríamos tão infantis para irmos a um país estrangeiro levar esse pensamento libertador com as falhas de uma opinião pessoal. portanto. o filho de Deus. é abso- lutamente kardequiana. A nossa pregação. nos apresenta em torno de Jesus. . pois sabemos pela resposta que os Espíritos deram ao Codificador que Ele é "o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. Há. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 41 fazer palestras eu apresento a Doutrina conforme a vejo e conforme a sinto. que começa com o estudo a respeito de Deus e atinge a sua grande exaltação nas Leis Morais. o Nazareno. não o Cristo da teologia católica. que se apresentam como fundamentais para a vida. que aliás não há. mais me merece Jesus. mas sobretudo. em O Livro dos Espíritos. não apenas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. e principalmente. pela mediunidade ímpar de Francisco Cândido Xavier. mas esse Cons- trutor da Nossa Terra e o Governador (no bom sentido da palavra). Daí não cometeríamos a leviandade de apresentar um modelo brasileiro. um ho- mem. como é natural.

°.já haviam esclarecido quanto à melhor forma para o entendimento de qualquer assunto: "Aliás. de cada cultura e. ou a um maometano como falarão a um francês ou a um cristão. como se se devesse criar um modelo de cada nacionalidade para atender — talvez seja por isto que surgiu esta idéia — ao patriotismo local. Divaldo ressalta que apresenta a Doutrina Espírita con- forme está na Codificação. Aliás. esse conselho dos Espíritos citados. escrita ou falada. Faz uma . no seu todo. como tu mesmo farás. Por certo que Divaldo. Esse é o melhor meio de não se ser ouvido. se fores um orador mais ou menos hábil. deveria me- recer uma reflexão mais demorada de todos nós. não é de bom aviso atacar bruscamente os pre- conceitos. (O Livro dos Médiuns. portanto.) Deve existir. e. os Espíritos da Codificação. É que têm a certeza de que seriam repelidos. Divaldo coloca a questão em seu devido termo. pois estes fatores influem no grau de assimilação e apreensão dos ensina- mentos. aliada à inspiração e orientação dos Benfeitores Espirituais que o assessoram. Daí não falarem a um chinês. Apropriam sua linguagem às pessoas. da forma de abordagem dos temas. especialmente. dos estágios evolutivos. sobretudo. sem dissociar ou dar maior realce a um dos seus três aspectos. o respeito às peculiaridades de cada povo. que alguns citam como verdade. ao responderem a certa pergunta de Allan Kardec. capítulo 27 item 301 questão 3. Entre- tanto. tem feito a necessária adequação ao nível das platéias que o ouvem. com a sua percuciente capaci- dade na transmissão dos princípios doutrinários. uma adequação do discurso a ser feito. especial- mente os que temos a tarefa de difusão doutrinária.42 SUELY CALDAS SCHUBERT Doutrina Espírita — "modelo brasileiro" — curiosa afirmativa esta. Por essa razão é que os Espíritos muitas vezes falam no sen- tido da opinião dos que os ouvem: é para os trazer pouco a pouco à verdade.

que pode vir na forma narrativa de uma passagem ou de um caso. cujas ilações advindas sempre ressaltam a figura do Cristo. em geral. com certo caráter político embutido no bojo da ação assis- tencial. em diversos campos do saber hu- mano e. se Kardec nos merece tanta considera- ção. incorrendo. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. quando são feitos comentários e mencionadas inúmeras citações dos mais eminentes pesquisadores do passado e da atualidade. em se dar ênfase ao aspecto científico da Dou- trina. também me merece Jesus. para servir-lhe de modelo e guia. no mesmo engano. questão 625 de O Livro dos Espíritos — então. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 43 afirmativa muito importante: "O respeito que me merece Allan Kardec. A divulgação doutrinária através de Divaldo é realiza- da de forma abrangente e completa. a missão do Espiritismo como Consolador e a necessidade . apresentam três tempos distintos: — uma abordagem científica. seja para possibilitar as deduções filosóficas decorrentes. do seu aspecto moral ou re- ligioso. em que quase sempre são relatados casos do cotidiano. — um enfoque evangélico. em detrimento sobretudo. é uma forma pessoal de se fazer a leitura da Doutrina e. depois. de exercê-la nas áreas decor- rentes dessa óptica própria. pela resposta que os Espíritos deram a Kardec que Ele é o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. o Nazareno — pois sabemos. portanto. Comprova-se isto pelo teor de suas palestras que. simultaneamente é traçado um paralelo entre esses conhecimentos e os ensinos do Espiritismo. Por outro lado não se pode esquecer que muitos fazem uma opção pelo aspecto religioso. seja para referendar os comentários anteriores. por parte de alguns espíritas. sendo ainda um Espírito em processo de evolução imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!?" Atualmente há uma certa tendência. contudo. que aqueles vêm corroborar. — uma parte mais amena. Ou também em se priorizar uma abordagem social. Tudo isto.

embora existam outros textos em que o Codifica- dor evidencia o seu pensamento em relação a este assunto. conforme está em Mateus X V I I I : 2 0 . Nota-se. especialmente se a finalidade da reunião for a lei da caridade. em nosso meio. essa linha de raciocínio. na seqüência que apresentamos. enfra- quecer. Como elo de ligação desses três momentos está a Codificação Kardequiana. Nesse caso "descerão sobre eles em línguas de fogo. a força mental. às vezes.44 SUELY CALDAS SCHUBERT de evangelização do ser humano. porque o enfoque evangélico. portanto. contudo. e que depois prossiga analisando a comunhão de pensamen- tos. afirma o mestre lionês. As palestras do orador baiano. No texto em apreço. Vamos tentar analisá-lo. Refere-se a seguir que todas as reuniões religiosas são fundamentadas . concomitantemente. quando há predomi- nância do aspecto científico. que está na "Revista Espírita" de dezembro de 1868. apresentam. para nos servir de uma admirável imagem do Evangelho". como é óbvio. o pensamento de Kardec precisa ser considerado no seu todo. Este discurso tem sido invocado sempre que surge esta questão. É significativo que ele tenha começado o discurso com a citação de Jesus. preterir ou omitir a de Jesus. Em seu depoimento Divaldo menciona o discurso de Allan Kardec. a prevalência dos pontos básicos da Dou- trina que nunca deixam de ser ressaltados. variando. segundo essas pessoas. nas reuniões em geral. é a parte inicial. pois ele tem um fio condutor de raciocínio. costuma-se ressaltar a figura de Kardec e a sua obra — que reconhecemos como missio- nária e realmente notável — e. de acordo com a inspiração e circunstância. via de regra. como se pode observar. a vontade. não constitui a Dou- trina Espírita. para então dizer que nas reuniões espíritas quando as pessoas alcançam essa homogeneidade de pensamentos terão a se- cundá-las os bons Espíritos. e. como a significar que a Codificação é ciência e o Evangelho do Cristo é a parte religiosa que.

que "em seu radicalismo pensam que seria melhor construir hospícios do que templos". como em matéria de ciência". pois refere-se a ensinamentos diretos dos Espíritos. arrematando: "O isolamento religioso. nos quais ressalta ter o homem necessidade de tais assembléias religiosas pois ele já tem as reuniões políticas. Como também é bastante claro que ele as engloba como assembléias religiosas. por isso se diz: a fé política. pois. Passa depois a analisar a palavra religião. 355). pág. seja qual for o seu objetivo. de princípios e de crenças". conforme está evidenciado até agora e nos parágrafos seguintes (RE. que "quer dizer laço. espe- cificamente as mediúnicas. é um laço que religa os homens numa comunidade de sen- timentos. como o isolamento social. e que neste sen- tido se diz a religião política. conduz ao egoísmo. Nesse ponto detemo-nos um pouco. Acrescenta então. que deve ser a essência das assembléias religiosas" e que tal argumento por parte dos espíritas é um contra-senso. sem que isto signifique opi- nião. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 45 nessa comunhão de pensamentos e comenta que para se estar reunido em nome de Jesus é essencial assimilar a sua doutrina. um laço essencialmente moral. mas sim a característica de fé conscienciosa. que os que assim falam desconhecem "a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos. concluindo que "quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu haverá menos gente nos hospícios". Uma religião em sua acepção nata e verdadeira. científicas e industriais. que muitas pessoas negam a utilidade das assembléias religiosas e dos edifícios consagrados a tais assembléias. que liga os corações. Explicando sobre a ligação religiosa afirma: "O laço estabelecido por uma religião." Assevera que os homens precisam de "ensi- namentos diretos em matéria de religião e de moral. É óbvio que Kardec está exaltando as excelências das reuniões espíritas. . é. Esclarece que esse nome foi dado a um conjunto de "princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé".

" Observa-se o cuidado de Allan Kardec em não concei- tuar o Espiritismo como uma religião nos moldes tradicio- nais: com cultos. a indul- gência e a benevolência mútuas. que o público poderia confundir com misticismos e abusos. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. então o Espiritismo é uma religião? Ora. a palavra religião é inseparável da de culto. No sentido filosófico. perguntarão. se se quiser. declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes. então. desperta exclusivamente uma idéia de forma. Se o Es- piritismo se dissesse uma religião. não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevita- velmente se teria equivocado. No sentido filo- sófico. que o Espiritismo não tem. rituais. Neste senti- do. e nós nos glorificamos por isto. na opinião geral. e que. "Por que. o público não veria aí senão uma nova edição. as aspirações. duas perguntas que se tornaram clás- sicas: "Se assim é. senhores. sem dúvida." Faz em seguida. afirma o Codificador. a solidariedade. tendo como efeito estabelecer "a fraternidade. não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública. na acepção usual do vocábulo. o Espiritismo é uma religião. todavia. não sobre uma simples convenção. "o Espiritismo é uma religião". uma variante. o Espiritismo não é uma religião. E complementa: "Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião. esclarece. uma casta sacer- dotal com seu cortejo de hierarquias." . castas e hierarquias. sim. mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza. de cerimônias e de privilégios.46 SUELY C A L D A S S C H U B E R T que identifica os pensamentos. porque é a doutrina que funda os elos da fra- ternidade e da comunhão de pensamentos. dos princípios absolutos em matéria de fé.

Prosseguindo em seu discurso. isto é. Temos ressaltado. neste trecho: "não podia nem devia en- feitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado". no conceito conhecido tradicionalmente. freqüentemente. pois com todo o intróito feito por ele. e então faz a ressal- va. conflitos de idéias ou cisões. aquelas onde existam cultos e práticas exteriores. (grifos nossos) Vê-se que para ele a palavra religião não passava de um título. incluindo aí as reuniões espíritas. já que fora tão deturpada do seu sentido mais profundo e transcendente. sem que por isso fossem "tomadas por assembléias religiosas". e de resto para o seu país e para a cultura do povo francês. fazendo-se preces". O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 47 É oportuno avaliar a forma como Kardec se refere ao vocábulo religião. em encontrar palavras que exprimissem o seu pensamento. Essa ressalva é importantíssima. Para a sua época como também para o futuro. Mas o discurso não termina aí. com recolhi- mento e respeito. extraído de O Livro dos Médiuns. em artigos e pales- tras. É essencial entendermos a grande dificuldade do mis- sionário da Terceira Revelação. Ele volta a falar a pa- lavra laço e nesse momento enseja uma grande lição para o futuro: "Qual é. evidentemente conside- radas com o sentido mais alto e transcendente de religio- sidade. o laço que deve existir entre os espíri- tas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato . acrescenta que "as reu- niões espíritas podem ser feitas religiosamente. Qualquer vocábulo mal colocado poderia levar a que se tomasse a doutrina nas- cente como uma religião a mais. no qual enfatiza que as assembléias religiosas são válidas e fundamentais para auxiliar os ho- mens desde que haja a perfeita comunhão de pensamentos. pois. tudo deveria ser colocado de maneira lógica e racional dentro do próprio conselho anteriormente citado. a prudência e o bom-senso de Kardec em relação a pontos que pudessem gerar dúvidas.

quando Kardec conclui dizendo: "eis o Credo. Allan Kardec. desde que sabemos que os mortos sempre fazem parte da humanidade".48 SUELY CALDAS SCHUBERT material. o laço é o sentimento. em 1. em sua época.° de novembro de 1868. Os homens não conseguem despojar-se das práticas exteriores. Na comunicação de São Luiz. que traz um longo parágrafo (pág. ou. Tem sido muito difícil a implantação de uma nova mentalidade a respeito desse conceito de religião e também na própria forma de vivenciar a Doutrina. na sessão anual comemorativa do "Dia dos Mortos". religião que se pode conciliar com todas as maneiras de adorar a Deus. Qual o sen- timento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral. lutou denodadamente para ampliar o raciocínio humano. a caridade. que compreende os vivos e os mortos. todo huma- nitário: o da caridade para todos. É o laço que deve unir todos os Espíritas numa santa comunhão de pensamentos." Mais algumas considerações e o Codificador encerra a sua palavra. no sen- tido que a Doutrina está hoje bem estabelecida do ponto . por nenhuma prática obrigatória. de fevereiro de 1868 (mesmo ano do discurso). a religião do Espiritismo. o amor do próximo. São esses os liames que devem unir os es- píritas. 359) sintetizando notavel- mente os pontos básicos do Espiritismo e como deve ser a conduta do verdadeiro espírita. A caridade é o assunto da parte final do discurso. todo espiritual. Em todos os momentos em que deu o seu contributo pessoal vemo-lo nesse esforço de explicar a vivência da Doutrina Espírita. são estas as suas palavras iniciais: "Esta obra vem a ponto. esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. na Sociedade de Paris. é o amor. embora em vários momentos ele esteja implícito. por outras palavras. quando este faz a apreciação da obra A Gênese. Com muito cuidado evita a utilização do vocábulo religião. publicada na "Revista Espírita". inclusive nas orien- tações dos Espíritos.

para que ninguém possa temer que ela se desvie de sua rota. Por ser a aliança da ciência e da religião.) O Espiri- tismo atualmente entra numa nova fase. São Luiz esclarece que a Doutrina está bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso e que entraria numa nova fase — com a publicação de A Gênese. como elemento propulsor do progresso. o homem tem sentido dificuldades em apreender esse novo conceito. ou seja. . nada mais belo que essa convergência que preexiste ao Homem. Acostumado a enxergar as religiões e as ciências tradicionais com suas limitações e preconceitos. . e a partir daí estes três atributos — consolar. o de instrutor do espírito. movimenta-se desa- jeitadamente na amplitude e na liberdade que o Espiritismo proporciona ao pensamento humano. Evidentemente que uma doutrina com essas caracte- rísticas é absolutamente nova para o ser humano. alia o de instrutor e diretor do espírito. como em moralidade. com suas restrições e relativismo. Estando ele próprio ainda muito preso a preconceitos e limitações. dessa associação como conquis- ta máxima da Humanidade. Seja qual for a direção que tome de agora em diante. Ao atributo de consolador. Ao atributo de consolador alia. A Terceira Revelação é exatamente a existência e a possibilidade dessa aliança. instruir e dirigir — formariam um todo só." (grifo no original) Como se vê. A religiosidade emanada do seu atributo de consolador não é antagônica à Ciência e à Filosofia. ponto de convergência entre ambas. com sua óptica distorcida pelos atavismos milenares. em ciência e em filosofia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 49 de vista moral e religioso (grifos nossos).(. Ao contrário. que é um fato concreto e irreversível como conquista evo- lutiva. tem precedentes muito arraigados no coração dos adeptos. constitui-se em algo notavelmente superior a tudo o que o homem conhece. junta. . associa. essa nova visão e significado.

portanto. seus ensinamentos e exemplos. en- carreirá-lo para a senda do bem. com seu sacrifício. pág. Gover- nador espiritual deste planeta.50 SUELY CALDAS SCHUBERT Divaldo. ed. sua influência se es- tenderá pelos séculos vindouros. ele preside aos destinos do globo em que viveu. amou. Leon Denis parece-nos ter sido quem primeiro O denomi- nou desta forma: "A passagem de Jesus pela Terra. ) " (Cristianismo e Espiritismo — 7. Ele faz referência a Jesus como Governador da Terra. deixa bem patenteado o modo como apresenta a Doutrina Espírita em todos os lugares onde é convidado. e é sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revela- a ção ( . . deixaram traços indeléveis. FEB. sofreu. veio. Ainda hoje. . 79) (grifos nossos) .

e brindaram-me com uma passagem Salvador — Johannesburg — Lourenço Mar- ques — Luanda — Salvador. ela perguntou-me se aceitaria um convite para ir. Voltou a Luanda e. pessoalmente. No ano de 1971. a senhora Cleofé teve a precaução de ir à África do Sul e a Moçambique. àquele país e se teria a coragem de aí pre- gar o Espiritismo. eu passei a receber correspondência de Moçambique e de Angola. Respondi-lhe que teria. o confrade José de Pina Gou- vêa — que hoje reside no Brasil. Em Lourenço Marques. 6 NA ÁFRICA PORTUGUESA - "PERSONA NON GRATA" Graças aos efeitos da estada em Portugal. e se ela estava disposta aos mesmos perigos eu seguiria com muito prazer. que hospedam o nosso . Depois de um largo intercâmbio epistolar com a antiga colônia ultramarina de Angola. principalmente da cidade de Luanda. com a extraordinária senhora Maria Cleofé Coutinho de Oliveira. em São Paulo. Estabelecemos um contato muito demorado e cuida- doso. entre outras pessoas. onde a polícia política era muito severa. preparando todo o terreno. e é o en- carregado da livraria do Centro Espírita União. dos nossos irmãos Francisco e Nena Galves. no mês de agosto do mesmo ano. ela com os amigos cotizaram-se. mesmo que corresse algum risco com- preensível.

Eu mantive o contato com o capitão que dirigia o labor. residente na cidade de Leiria. à última hora. levou-me à autoridade.52 SUELY CALDAS SCHUBERT Chico Xavier — ficou empolgado. mas. Mas. A conferência era num sábado e. e irei uniformizado. — Capitão. que sua mãe. O Gouvêa. naquela cidade. depois. a polícia civil negou que se realizasse o ato espírita. Eles haviam pedido permissão às autoridades para que eu proferisse uma conferência pú- blica. ninguém aí traba- lhava. ele me disse: — O senhor pode fazer a conferência. a secretaria junto do governador não estava funcionando. em Portugal. Falei-lhe demoradamente sobre o Espiritismo e termi- nei aplicando-lhe um passe para provar-lhe a excelência dos ensinamentos da Doutrina. no sábado. O homem ficou tão profundamente tocado que me levou a palácio para conse- guir com a autoridade competente a permissão — que não foi possível. e se chegarem policiais. — Mas. Mas. na chamada Cidade Baixa de Lou- renço Marques — eu disse aos amigos entristecidos: — Se vocês me levarem ao chefe de polícia eu lhe pedirei permissão para a nossa conferência. que eu autorizo. Convidamo-lo à mesa e proferi a pa- lestra para mais de mil pessoas. porque realmente. que se precisava de auto- rização por escrito e. ante essa dificuldade. detetives e a en- cerrarem. para estar ao lado de vocês. muito dedicado. realmente. por ser um sábado. Lembro-me como hoje. o mesmo acontecendo com outros confrades. eu irei. Ele me confessou. com tudo fechado — o local era uma quadra de basquete. prendendo-nos? A sua palavra não basta — res- pondi-lhe. e fizeram uma grande propaganda. . numa conversa que durou mais de duas horas. E foi. era médium e que ele iria facilitar a nossa conferência.

Ê que. Fui. capital de Angola. No Lobito reunimo-nos no salão da Biblioteca Muni- cipal. (Nota da Editora) . que eram treinados na Rússia. realizei uma conferência na cidade de Nampu- la. segundo diziam. e os amigos preferi- ram organizar a palestra no quartel das Forças Armadas da cidade. A reunião foi presidida por um general. onde proferi outra pales- tra. entre os quais o extraordinário confrade João Xavier de Almeida: o auditório dos Ex-alunos de Coimbra. esta mensagem foi publicada em "Reformador". Luanda era uma das cidades mais belas da África portuguesa. daí seguindo a Luanda. Suku Akale Kumue Lene". Lobito e Sá da Bandeira. "Kiangola. em Cuba. e isto foi uma verdadeira audácia de Dona Maria Cleofé e de seus cola- boradores. Retornando ao Brasil. Nova Lisboa. em 20 de agosto. voltando a Luanda. à cidade da Beira. O programa se estendeu por várias cidades: Novo Redondo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 53 A seguir. que ficou superlotado. quando lá estive. retornei a Lourenço Marques. ela deixou um documen- to assinado como responsável pelo que eu dissesse ou fi- zesse. ali ficavam os descontentes. porque a Tanzânia está muito perto de Moçambi- que. eu psicografei uma mensagem do Espírito Monsenhor Manuel Alves da Cunha. Foram convidados os elementos mais representativos da capital. Por essa época havia o movimento revolucionário contra Portugal. e. que era um grande núcleo militar para a defesa da fronteira. caso viesse a criar qualquer conflito com a polícia ( * ) PIDE — Polícia Internacional de Defesa do Estado. em Luanda. Depois. O bispo da cidade esteve presente e o tema versou sobre a reencarnação. Nesse ínterim. Quando a revista chegou a Luanda — porque todo o material era censurado — ela foi apreen- dida pela PIDE(*) e Dona Maria Cleofé chamada à respon- sabilidade. A minha primeira conferência. também. teve lugar num dos salões mais respeitados do país.

foi recebi- da publicamente. Ela explicou tudo. A mensagem. como previra Monse- nhor Manuel Alves da Cunha na sua mensagem. O seu depoimento foi admirável e o assunto pareceu encerrado. muito culta. Com esta mensagem. em 1975. Dona Maria Cleofé é uma senhora viúva. especialmente ficaram surpresos em o Espírito narrar uma carnificina que houve na cidade de Seles. depois da independência — é uma mensagem profética — o país . ocorrência que se repetiria mais tarde. A P1DE afirmava que a página publicada não era uma mensa- gem mediúnica — já que não acreditava em mediunidade — afirmando que os dados aí contidos me foram forne- cidos. demonstrando que havia permissão para as conferências. o livro de Joanna de Angelis estava no "Index expurgatorius" da Igreja. como atitude providencial. Maria Cleofé explicou que eu sou médium e que de outra maneira jamais poderia tomar conhecimento do fato. que os espíritas não sabem: eu fui con- siderado "persona non grata". A verdade é que ela conseguiu convencê-los sobre a sua e a minha inocência. proibido de circular (Di- mensões da Verdade). Ela se apresen- tou e manteve uma larga discussão com as autoridades. porém. se preparavam para matar os portugueses e salgá-los e a Entidade fez transpirar o que permanecia em segredo. pois que eu estaria desencaminhando a men- talidade cultural e religiosa do país. de prisão. Nessa ocasião Angola já era independente. Já. os autóctones. que a ameaçaram.54 SUELY CALDAS SCHUBERT do Estado. Então. foi chamada a depor em Luanda.. veio uma conseqüên- cia muito curiosa. em Lisboa. inclusive. quando os próprios negros. em Angola. Fizeram uma cuidadosa pesquisa para saber quem me teria concedido tais dados. espírita.. quando do meu retorno àquele país. proibido de retornar a Por- tugal e a qualquer província ultramarina. Mas. parte dela no idioma kimbundu e com um glossário vocabular.

narrando e lamentando o fato. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 55 entraria num regime muito pior do que aquele do qual se desejava libertar. Agora a sua capital (de Moçambique) já não tinha mais o nome de Lourenço Marques — era Mapu- to — porque uma das primeiras providências dos revolu- cionários foi a de mudar os nomes portugueses para os do dialeto local. o Jô. Nesse ínterim. As colônias passaram a ter a sua independên- cia e. Ele viajou para lá. fiquei proibido de voltar a Angola. porque alguns daqueles confrades que viviam em Lourenço Marques (Maputo). Eu indiquei o confrade Joaquim Alves. os espíritas me escreveram pe- dindo que mandasse alguém do Brasil para lhes en- sinar Espiritismo. a "Comunhão Espírita Cristã". nascendo uma Entidade semelhante. a partir daquele 1971. Assim. e. em 1972. com isto. voltando a Portugal. em abril de 75. O confrade Eduar- do de Mattos escreveu-me. Retornei. a mesma Sociedade — em homenagem à Entidade do . não só a Portugal. que desencarnou há poucos anos. quando esteve pessoalmente no Brasil. o que se repetiria. . eu fui convidado a retornar. quando criou. alguém que pudesse ficar lá por uma larga temporada. O regime fari- saico e ditatorial caiu. Joaquim fez um trabalho notável. a Angola e a Moçambique. veio a independência. em Moçambique. via Johannesburg (África do Sul). . como efeito da jornada a Lourenço Mar- ques e por toda Moçambique. evadiram-se para evitar per- seguições. dentre eles. a Portugal. mais tarde. Esse Monsenhor foi um grande antropólogo que viveu em Angola e aí realizou benefícios incalculáveis. Mas. a qualquer das suas províncias. propiciando-lhe os meios e com ele fundou na referida cidade de Rio Tinto. um dos fun- dadores convidou Joaquim a ir à Europa. O senhor Casimiro Duarte dera-me a notícia. como também às suas ex-Colônias ultramarinas. e ficou célebre o "dia dos cravos vermelhos". que funciona na cidade de Rio Tinto. onde esteve vários meses. em Lourenço Mar- ques. que ainda funciona. na cidade do Porto.

Quando vi que não podia entrar no apartamento. por gentileza. para me proporcionar maior tranqüilidade. em várias palestras e numa reunião pública que tivemos. desencarnado em 1935. assal- tou-me quase um pânico e pensei: às oito horas da noite. no Hotel no qual nos hospedávamos. O casal. que se tornou espírita (ele me tinha ido ouvir em Luanda. Estava de pijama. quando fui à cidade de Sa- lazar — hoje se chama Dalatando — a convite do teólogo Dr. José Pereira Sendão. me pediram para que forçasse um pouco a porta que dava acesso a uma escada lateral. .56 SUELY CALDAS SCHUBERT mesmo nome existente em Uberaba. que eu não notara. uma escola para . a Angola. descendo. Mas. porque me traz notícias). muito amigos. visitei muitas cidades. na sacada. um pijama de listras. certa vez. encontrarão a casa vazia e já estarei rouco de tanto pedir ajuda. criada por Chico Xa- vier e Waldo Vieira. em Salazar. Fazia muito calor e tive a feliz idéia de abrir a janela da frente do edifício e a porta do fundo. Aí deu-se um fato curioso. encontraria. quando me vierem buscar. Os dois Espíri- tos. e. e debrucei-me na amurada sobre o quintal para olhar a natureza. Foi nessa oportunidade que me aconteceu um fato curiosíssimo. apareceram-me o Espírito Marcelo Ribeiro. Nisto. no térreo. dando entrevistas em emissoras de rádios. para os espíritas todos. Um golpe de vento. transferiu-se do lar. fechou a porta e eu fiquei preso do lado de fora. que sempre me acompanha nas viagens e uma outra Entidade muito amiga (que me aparece desde a minha juventude e que se diz ser um "correio". súbito. anteriormente. muito feio. mas que eu achava uma beleza. Os confrades me ofereceram para descanso um andar de um edifício e recomendaram-me que não abrisse a porta a ninguém. Na verdade o seu nome é Walter de Albuquer- que. e recrudesciam as reações.. a jornais e cuja coleção temos arquivada. convidou-me para falar lá). Retornei então. estavam sendo travadas as lutas. enquanto pensava num modo de resolver a situação. ainda em 75. pernambucano.

elucidei todo o problema e precisava tanto de ajuda que ela se resolveu por anuir. expliquei-lhe que era hóspede do casal lá de cima e iria proferir uma conferência nessa noite. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 57 meninos autóctones. ex-sacerdote. como o tempo passava e não havia outro jeito a não ser arrombar a porta da cozinha. mas.. Desci a escada e o que aconteceu foi muito engraçado. vindo.. e contei-lhe com de- talhes o sucedido. realizada ao som dos canhões e das metra- lhadoras que matraqueavam ao longe. na direção da África do Sul. voltou-se. Mas. atravessando o deserto. Entrei. Coisa curiosa aconte- ceu com o Dr. Achei tudo isto muito estranho. Por pouco . A minha aparição repentina. eu pediria à professora para que um menino entrasse pelo basculante do banheiro e abrisse a porta para mim. e. subimos. Chamou dois menino- zinhos. resolvi forçar a porta lateral. por sua vez. quando as crianças me viram puseram-se a rir diante da minha fi- gura inusitada. no térreo. voltei a Luanda. Ao agradecer a esta senhora. A professora. Ela ficou muito sensibilizada. que era professor e homem de muita cultura. poliglota. senão perigoso. muito agradável. a professora estava de costas para a entrada e os meninos todos de frente. No dia imediato. Respondi-lhe que era espírita e mé- dium. muito pálido. Isto posto. Muito sem jeito. talvez apreensivo. ficou muito descon- fiada. Quando a situação ali se tornou insuportável para os portugueses. com aquele pijama de listras. porque. Esta professora chama- va-se Lourdes e arrebanhou praticamente o edifício inteiro para a palestra. na quadra de basquete da cidade (sobre o que havia muita propaganda). Ela. pois ouvira dizer que viria um feiticeiro aba- lar a cidade de Salazar. como é óbvio. profundamente aliviado. ele e os familiares foram obrigados a emigrar. aliás. Sendão. abrir a porta da cozinha. eu vi o Espírito da mãezinha dela e lho disse. em seguida. que realmente cedeu. e tam- bém deparou-se com a cena. com mi- lhares de pessoas. que se desen- volveu entre nós. parecendo uma zebra. e um deles foi introduzido pelo basculante do banheiro. na conversa. ela me perguntou se eu era feiticeiro.

estando na África do Sul. Pretória. porque todas as cidades vinham participar. a fim de semearmos. Springs. sem o conhecimento do Espiritismo e sem a crença na reen- carnação. Somente usava o período de férias para viagens dou- trinárias. ditada a Divaldo tem a data de 20 de agosto de 1971 . Sendão. depois que se estabeleceu. onde era absoluta e totalmente desconhecida. foram cria- das algumas Instituições espíritas que continuam em plena função. em 75. Verneeging. realizam-se fenômenos mediúnicos. Ali sofreram muito. sendo meu ami- go. por nós fundado. naquela época. como eu ainda era servidor público não me pude alongar por mais tempo. Proferi uma série de conferências. A primeira mensagem do Monsenhor Manuel Alves da Cunha. . depois se mudaram para Vanderbijlpark. quando estive lá. Em tudo há um encadeamento im- pressionante. Krugerdorps. Um Centro Espírita. Retornei quatro vezes. de orientação protestante. a fim de atender aos inúmeros con- vites. até que (oram salvos pelas tropas e pela aviação sul-africanas. a es- posa e os filhos para um campo de refugiados. para sobre- viver. como nas igrejas inglesas e americanas. Voltei lá. ele. resultado daquelas duas estadas em Angola.58 SUELY CALDAS SCHUBERT não morreram nesse deserto. Vanderbijlpark e mais outras cidades nas cercanias de Johannesburg. com várias Sociedades funcionando no país. No en- tanto. em 1979 retornei à África do Sul. no último mês de fevereiro (1985). vem funcionando na ci- dade de Verneeging. . mas. Inclusive. as palestras foram am- pliadas. onde ele foi trabalhar como caldereiro numa indústria. a Doutrina Espírita. Estive pregando em Johannesburg. sendo levados. do Dr. como efeito daquele encontro. O movimento espírita está im- plantado. portanto. na maioria delas. Nas igrejas. Esse homem. A convite. voltou a me convidar para um retorno. nesse país.

. por ele tão amado. agitada por inconfessáveis interesses que te insuflaram outros algozes. tornando ainda mais autêntico o seu pensamento. para surgirem no momento próprio. é o próprio fato de o Monsenhor Alves da Cunha utilizar-se da mediunidade para enviar páginas de alento e advertência ao povo de An- gola. A segunda. todavia. Monse- nhor Alves da Cunha faz uma profecia em relação aos ideais de liberdade e os caminhos percorridos para consegui-la. . cujo título é "KiaNgola. Nesta. às riquezas guardadas no sub- solo: "Sob as tuas verdes terras. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 59 e está inserida no livro Sol de Esperança. com que um dia surgi- rás entre as nações. E porque tens o destino da paz. que revela fatos ciosamente mantidos às ocultas do público. amor e compaixão pelos filhos de Angola. Paz!" o autor afirma: "Este é um doloroso e necessário parto: o da liberdade. todavia. Deus te abençoe". demoram-se guardados. bem sabes. mas fomentas a guerra. não sendo. Não é difícil compreender-se a surpresa das autorida- des de Luanda ante o texto da mensagem. Menciona o episódio de antropofagia ocorrido em Seles (Angola). O título citado por Divaldo: "Kiangola. desejas progresso. O que nos chama a atenção. O autor emprega várias palavras no idioma kimbundu. . Am- bas são de uma beleza comovedora e ressumam bondade. consumado. inclusive: 'Com as mãos em armas. ainda. seguindo a trilha errada". em 1936 e que planejavam repeti-lo em Equimina. do ano de 1975 consta da obra Sementes de Vida Eterna. quase. Suku Akale Kumue Lene" traduz-se: "Angola. Kutu- luka Kua Muxima (Paze!)" "Angola. Ele não desconhece as dificuldades. os valores inesgotáveis que estão esperando no teu sub- solo. dormem jazi- das de riquezas inexauríveis. Alude. como valiosa cooperadora nobre na construção do Mundo N o v o . por tal razão. às jazidas. decorrendo em sofrimento". na Benguela." Na segunda mensagem. advertindo.

Há o objetivo maior e simultâneo de registrar a profe- cia e a solidariedade ao povo de Angola. também. Chico Xavier ou Yvonne Pereira são exceções e se destacam entre todos pela mediunidade vivenciada integralmente e pelo cunho evangélico de suas vidas. Em decorrência da publicação dessas páginas. de experiências e ensinamentos. mas.60 SUELY C A L D A S S C H U B E R T os entraves que ainda subsistem para a penetração de uma página mediúnica fora dos círculos de fé espiritista. mas. Leon Denis. às raças. . principalmente em relação aos povos. não so- mente a nível individual ou familiar ou de pequenos grupos. Por agora. afirma: "A mediunidade será o último estado da raça humana enca- minhando-se ao termo de seu destino". inclusive. o futuro propiciará cada vez maior número de médiuns nesse estágio em que se encontram hoje. com a lucidez que lhe é peculiar. As mensagens do Monsenhor Alves da Cunha levam-nos a uma antevisão do futuro quando os homens utilizarão do intercâmbio mediúnico para essa troca tão importante de notícias. entretanto. entre- tanto. pessoas como Divaldo Franco. às Nações. Divaldo é considerado "persona non grata" e proibido de retornar a Portugal e províncias ultramarinas. isto não o impede de ditar ao médium o seu recado espiritual. de evidenciar a mediunidade como meio de comunicação entre os dois planos.

e também. por isto ou aquilo. ficando com as mãos limpas e o coração tranqüilo. deixando. Eu me posso recordar de um fato que me permito narrar. renunciando totalmente a tais ofertas e transfe- rindo-as para Instituições de caridade. exibicio- nismo. Periodicamente aparecem pessoas que me pretendem colocar na condição de herdeiros nos seus testamentos. conforme está exarado em ata do C. agora. para a "Mansão do Caminho". Sem- pre tive o pudor de nunca aceitar. . próximo da desencarnação. dentro de casa. para não parecer. não necessariamente a "Mansão do Caminho". porém. sempre encontramos pes- soas generosas que nos desejaram brindar com objetos de alto preço. Outras vezes. no silêncio da discrição. "Caminho da Redenção". fomos a esses doadores demonstrando-lhes que não podíamos aceitar absolutamen- te nada. tentaram obsequiar-nos com importâncias em dinheiro. Quando tivemos a ocasião de o saber. noutras vezes.E. ou emocionadas. Sempre tivemos o zelo de evitar a simonía e. de certo modo. quiseram oferecer-nos bens e valores expressivos. abrindo mes- mo caderneta bancária. nunca antes dando divulga- ção dos fatos. não temos nenhum patrimônio ou valores monetários amealhados. para não parecer que renunciáva- mos. 7 OS BENS MATERIAIS Ao longo de nossa existência.

Diante do seu advogado me entregou a escritura da referida casa. ( * ) Hermenegildo Silva desencarnou no ano de 1988. no entanto. "Dai gratuitamente". Um pequeno apartamento que adquiri ao longo dos tem- pos. o que ganhava dava para sus- tentar-me e à família. eu era um funcionário modesto. Dona Sara Niesembauer. Está no Evangelho. a prestação. . uma judia muito rica. para que a "Mansão do Caminho" viesse a ser proprietária. colo- cado uma casa em meu nome. não podia aceitar a sua dádiva. mais tarde. tido em conta de pessoa honrada. em Salvador. nenhum patrimônio que não fos- se adquirido com o meu suor ficasse deixando uma marca negativa na minha conduta espírita. entreguei à pessoa que se fez. através de um dos mais brilhantes advogados do Estado da Bahia. o bom-senso já se consolidara em mim. (Nota ua Editora) . minha conduta espírita seja com- provada como diz o Evangelho. sem que nos envolvamos. Esta senhora ouviu falar sobre mim e terminou por sensibilizar-se. então. o que me causou um grande espanto.62 SUELY CALDAS SCHUBERT Vivia. receber o aluguel etc. havia sonhado com um ser espiritual pedindo- lhe que me desse proteção e socorro. que a represen- tava. gentilmente. a fim de que. e. como testemunha de que tenha sido homem probo. que era o Hotel Nova Cintra. Eu era jovem. falei-lhe que. Ela havia. Um dia mandou-me chamar à sua resi- dência. . quando da minha desencarnação. Depois de largo diálogo o próprio advogado teve de fazer a transferência do imóvel. esta dama contou-me que. de pagar impostos. que se encarrega. em absoluto. que busco ser. e a pessoa que ficou no seu lugar é o advogado Manoelito Fernandes. Para minha surpresa. até hoje (1987) responsável por representar-me — é o confrade Her- menegildo Silva *. em- bora judia. Diante daquela surpresa. mas.

É célebre o exemplo de Pedro. . isto te dou. vivendo em função daquilo que acredita ser prioritário. Só o que real- mente é constituirá a sua bagagem. pouco antes. . Acumula-os ao redor de si. O autoconhecimento leva ao processo de crescimento espiritual. tudo o que julga ter não o acompanhará na grande viagem que empreenderá um dia. para realizar alguma coisa em proveito do próximo. acerca dos dons espirituais. ter as condições fi- nanceiras. Dependente dos bens terrestres deixa-se escravizar por eles. ter dinheiro. Voltado para essa aspiração empenha-se em lutas cons- tantes para acumular os bens que julga indispensáveis à vida material. De possuidor passa a possuído. pela suave entonação. " N ã o tenho prata nem ouro. 0 ter é quantitativo." " N ã o tenho prata nem o u r o . "Conhecereis a verdade e ela vos libertará". deixando-se levar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 63 Esta é uma das preocupações dos médiuns espíritas que desejam pautar a sua vivência nesse princípio básico preco- nizado por Jesus. Ilude-se com a sua posse. Ser — a meta prioritária que a maioria desconhece ou esquece. para fazer o bem. O ser é qualitativo. pelo Seu magnetismo. de libertação. ao realizar a cura de um homem coxo que se encontrava à porta Formosa. embe- vecido. * * * O jovem está diante dEle. no templo. Ouvira-lhe a voz. . " Muitos julgam que para exercer a caridade. é imprescindível ter recursos materiais. Ter — a grande preocupação do homem. mas o que tenho. transitória e efêmera. Entretanto. pela magia das palavras.

" Narra Marcos. Daí a dias. "Dá tudo o que tens. "— Tudo isto tenho observado. quase correndo. pra zeres — tudo o que lhe é imprescindível parece perder significado. de lutas sofridas e angustiantes." Informa Amélia Rodrigues. sente a gravidade do mo- mento." O j o v e m segue ao encontro do destino que acabara de escolher. talvez. e terás um tesouro no céu. inquieto. e dá-o aos pobres. 0 Rabi o olha ternamente. Diante dele a libertação definitiva ou a opção de milênios. vende tudo quanto tens. que o mancebo rico iria disputar os jogos em Cesaréia.64 SUELY CALDAS SCHUBERT Em seu íntimo soube que eram para ele aquelas pai vras e que vinham ao encontro de sua inquietude interio A figura majestosa do Rabi o atrai. Lembrando-se. da vitória que julgava certa. que farei para herdar a vida eterna?" Jesus fala-lhe sobre os mandamentos. o príncipe se afasta. desde a minha moci- dade. Em seus ouvidos ressoa a v o z do Mestre: "Dá tudo o que tens e segue-me. riqueza. . "— Bom Mestre. durante as corridas. e compreendendo o alcance da sua luta interior. encontra a morte na arena. em Primícias do Reino. Conforto. . Aqueles olhos. O jovem príncipe. psi- cografado por Divaldo. que Jesus olhando para ele o amou e lhe disse: "— Vai." O moço hesita. dos amigos que o bajulavam. então. Há algo além das coisas efêmeras que o mund lhe tem dado. . Aproxima-se mai Ao seu redor o tempo pára e toda a sua vida parec agora desfilar diante dEle. dos seus compro- missos. envolve-o no Seu amor e aguarda. vaidades. que nesse instante o fitam parecem percorrer todos os escaninhos de sua alma. e vem e segue-me.

é horizon- talidade. * * * Divaldo zela para que o patrimônio moral e espiritual que conquistou permaneça inalterado. "E segue-me" — segui-lo é a vivência do ser. . é quali- dade. conseguiu vencer a horizontalidade do mundo e mergulhou na sublime verti- calidade que Jesus lhe propôs um dia. é verticalidade. "Dá tudo o que tens" — o ter é quantidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 65 Onde estará hoje o moço rico? Por certo. no transcurso dos evos.

Foi uma sensação estranha e muito agradável. este pediu-me que pegasse de um lápis. Abel Mendonça. intitulada "Na sub- tração e na soma". 8 A PSICOGRAFIA - "MESSE DE AMOR" A minha primeira mensagem psicográfica aconteceu no ano de 1949. atendendo-lhe a sugestão. na casa de uma famí- lia espírita — Rafael e Dona Hilda Veiga — onde fundamos um grupo: Grupo Espírita "Fraternidade e Trabalho". passei a psicografar. Conversando com Abel Mendonça. automaticamente. Naquele domingo de carnaval. quando Joanna de Angelis. era uma sensação de cãibra e formigamento. que era espírita de primeira plana. com o pseudônimo de "Um Espírito Amigo". dizendo ser necessário muito treino. com um grupo de con- frades. num domingo de carnaval. recente- mente desencarnada. e. Professora Rachel Ribeiro. A partir daí. Estava na cidade de Muritiba. que mais tarde seria enfeixada no livro Ementário Espírita. nos recolhíamos a uma ci- dade do interior da Bahia (Muritiba). despertei com uma es- tranha sensação no braço. começou a dar-me orientações. e como fazíamos naquele tempo para fugir da balbúrdia em Salvador. uma mensagem assinada por Marco Prisco. . este passou a deslizar com tal facilidade que escrevi.

na hora que a gente precisa não acha. com quem travei o primei- ro contato e que se tornaria um grande amigo nosso. A. esta senhora nos disse: — Divaldo. depois. igualmente em Belo Horizonte. que foi dirigido por um grupo de amigos e pelo Professor Rubens Romanelli. uma men- sagem de Antônio Luiz Sayão. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 67 A partir de 1952. Foi ele quem me apresentou ao público da Federação Espí- rita Brasileira. em um jornal que havia em Belo Horizonte. deveria ir-se de avião até o Rio e do Rio tomava-se uma outra aeronave até lá. a data foi 16 de janeiro de 1951. as mensagens começaram a ser di- vulgadas e amigos nossos do Paraná. por que você não enfeixa essas mensagens tão maravilhosas num livro? Porquanto a mensagem solta e publicada em jornal. capitaneados por Ari Schmidt. se não me engano. Numa das vezes em que fui a Belo Horizonte — eu já era amigo e me correspondia com Ismael Gomes Braga. cha- mado "O Poder". uma delas e a distribuir pelo Brasil todo. achavam que as mensagens tinham conteúdo tão bom que ele se prontificou a imprimir. de Arlindo Silva. na presidência do Dr. Depois comecei a encaminhar essas mensagens para alguns poucos jornais. . num outro. no auditório. Hospedei-me com Ismael Gomes Braga. es- tando reunido com Pastorino e um grupo de pessoas na resi- dência de Elisabeth Keetmann. Nessa oportunidade. Em 1962 (ainda não havia publicado nenhum livro).. na Federação. Pro- feri uma palestra e psicografei lá. porém se as enfeixasse num livro ficaria muito bom e mais fácil. mas não cheguei a divulgar quinze delas. mensalmente. àquela época. intitulado "Síntese Espírita". Wantuil de Freitas e. ou o trem "Expresso Azul". estava. já que. a quem eu conhecera no ano de 1951 — e para vir à capital mineira. o Professor Carlos Juliano Torres Pastorino. comecei a publicar as primeiras men- sagens. que era um confrade muito dedicado. porque foi graças ao seu estímulo que eu vim a publicar o Messe de Amor. então.

por que havia a "Mansão do Caminho". que passava céleremente ante a minha visão psíquica e que eu ia lendo. fiquei muito sensibilizado com aquela sugestão e Joanna concordou. Ela selecionou as mensagens e organizou o livro Messe de Amor.68 SUELY CALDAS SCHUBERT Então perguntei a Pastorino. Fiquei muito comovido. no dia 5 de maio de 1964. um teólogo profundo. . Ele respondeu-me: — Não apenas eu acho que têm valor. nas palestras. seria através da divulgação oral e pelo exemplo. Também pelo fato de a mediunidade ser uma auxiliar para a própria pa- lestra — eu v i a as cenas que descrevia. já que estava programada para momento oportuno. ela iria interceder junto aos Mentores da Vida Maior para que a mesma tivesse o seu início. posteriormente as transcreveria para o papel. eu via uma fita como de tele- tipo. a arcar com o ônus desta atividade. A Editora Sabedoria publica a obra e na hora que eu recebo o livro. O Professor Pastorino mandou publi- car o livro sob a égide de uma editora da Entidade que ele fundou. Foi o meu período das dissertações evangélicas. dizendo que se eu estava dis- posto a pagar. Como é natural. lidos e pesquisados. que foi apresentado no Ministério da Fazenda. chamada Grupo de Estudos SPIRITVS. uma vasta cultura. para demonstrar nos atos aquilo que se apresentava na palavra. que o meu programa essencial. como me pronti- fico a lançar um livro delas decorrente. Ela me confirmou que estava na minha tarefa a ativi- dade do livro. todavia. nessa noite falei a Joanna de Angelis. e. Ê interessante notar-se como surgem as ciladas do mal. enunciando os postulados ali escritos. das narrativas de Amélia Ro- drigues. obviamente. no trabalho do bem. se. Muitas vezes. no dia 5. realmente. um poliglota famoso e mestre. na sua biblioteca de mais de trinta mil li- vros. Daí. que. houve um fato muito interessante. ele achava que as mensagens tinham valor. que dei- xou um legado.

psicólogo. ao acaso. no sentido transversal ao livro. é que ela era uma fada. quando tomei o livro e o abri. Chegou com um botão de rosa de haste muito longa. Começamos a fazer o trabalho e cortamos pelo menos duzentas páginas. essa alma nobre. O SEMEADOR DE ESTRELAS 69 Nesse dia — é a data do meu aniversário — muito emocio- nado. Depois de apresentado o livro e vendido todos eles a Cr$ 5. que estava encostado. Pastorino reuniu uma equipe e foi um êxito. quanto mais ser mé- dium de um livro. tudo foi urna ma- ravilha. lamentavelmente. cortamos a página e a recolocamos di- reito. de cabeça para baixo. porque uma das mensagens estava. um homem muito calmo. que foi o seu primeiro preço. um verdadeiro filósofo. porque jamais me havia passado pela ca- beça a idéia de escrever uma página. Quando ainda estava sob efeito da emoção. O botão bem fechadinho. A idéia que eu tenho até hoje. uma verdadeira benfeitora. Enquanto eu fi- quei olhando-o deu-se um fenômeno muito interessante. Ela surgiu muito luminosa. paginada ao revés. um anjo que Deus colocou no meu caminho. dessas fadas madrinhas das tradições das histórias. apareceu- me Joanna de Angelis. O quarto estava em penumbra. Telefonei ao Professor Pastorino e ele. onde me agasalhei a partir de junho de 1956 até janeiro de 1970. e fiquei muito emocionado. Cheguei a casa com um exemplar. tive um cho- que. pegare- mos de uma gilete.00. — Muito simplesmente — prosseguiu ele —. Colocou-o em pé. Eu era hóspede de Celeste Mota. . Foi-me. filólogo. Coloquei o livro encostado em um quebra-luz. especialmente naqueles dias mais difíceis do começo. — Mas como farei? — indaguei. disse-me: — Você não tem de se preocupar com isto. O livro ia ser apre- sentado naquele dia.

sem te defenderes nem as procurar defender ou a nós. que iam manchando o livro de capa verdinha. Como médium. mas. Joanna falou-me: — Aí tens o símbolo do teu futuro psicográfico. Se estiveres disposto a dar o teste- munho do silêncio. Depois começou a jenecer. não esperes flores. que o impacto do trabalho psico- gráfico teve início. Quem vai defender-se perde tempo e enquanto se está defendendo os Amigos Espirituais não podem tomar as decisões compa- tíveis para que permaneça a verdade. porque o nosso defensor é Jesus. tornando- se uma rosa belíssima. a caírem as pétalas. Nesse momento. O médium. — Então. Ela se preocupa em ser dócil nas mãos do agricultor. senhora. para que este faça os sulcos que achar conveniente. de forma que te sangre o coração. nós teremos uma longa viagem. tudo bem. e se tu aceitares isto como fenômeno natural. até serem jogadas ao lixo. portanto. Se tu tiveres coragem para levá-lo adiante. a ter ferida a alma com os espinhos da perversidade alheia e ver as mensagens serem levadas à praça pública do ridí- culo. é aquele que não confia em Deus e que não é real- mente um bom instrumento. à medida que as pétalas iam caindo davam- me a impressão de serem de sangue.70 SUELY CALDAS SCHUBERT O botão começou a desabrochar. Foi assim. Mas. Ela é instrumento submisso. conta comigo. meu filho. mas a tua será a parte do sofrimento. . Eu te trarei vários Amigos que pretendem colaborar nesse labor contigo. que se de- fende. a receber a crítica mordaz e sarcástica. os Espí- ritos. que não são teus e sim do Cristo. A flor será a mensagem. Tu estás disposto? — Sim. As manchas se desvaneceram. sim. Ademais — prosseguiu ela — a enxada não se preocupa pelos sulcos que foram feitos. a abrir-se. mas a capa ficou assinalada pelo sucedido. a tua tarefa é ser fiel ao dever e não te preocupares com os resultados.

Joanna esclareceu ainda que. tê-lo nas mãos. porém. emocionais e tinha de lutar muito co- migo mesmo. que também trabalhava para nos ajudar. tornando-se assim inesquecível. Espírito e Vida. O SEMEADOR DE ESTRELAS 71 Nesse dia. Joanna de Angelis observa a emoção de seu médium. Depois Dimensões da Verdade e logo viria o primeiro de Marco Prisco. ante a realização de sua primeira obra no campo da psicografia. Os Espíritos usam. Tínhamos a "Mansão". Escrever um livro. Mais tarde sai o seu segundo livro. dessa revelação. a colocar no papel aquelas mensagens que me inspirava com as visões policrô- micas de Israel. ela não me havia dito antes para não me assustar. viagens etc. em toda a sua extensão e beleza. E quando esse livro é fruto de um labor conjunto entre o plano físico e o espi- . minha mãe. muita vez. das mais significativas para o ser humano. embora estivesse no programa. e depois vê-lo materializar-se em páginas e páginas formando um volume. Trabalhava para sustentar a família. a linguagem simbólica. Surge Primícias do Reino e outros lhe se- guiriam. minha irmã solteira. ou ser médium de um. Essa imagem ou símbolo sintetiza o assunto e é deveras marcante. é realmente uma belíssima emoção. tais as responsabilidades que. Então. pesavam sobre mim. atendendo a pedidos. palestras. meu pai. Este episódio da rosa e do livro MESSE DE AMOR está parcialmente narrado no livro Divaldo Franco em Ube- raba. com a ajuda de Nilson. ou fazem acompanhar as suas palavras de figuras ilustra- tivas que simbolizem o que estão pretendendo transmitir. Aqui vemo-lo. que não possuía as re- sistências doutrinárias. já àquela época. Amélia Ro- drigues se propôs. as sessões normais e outros compromissos. de seu filho espiritual. Glossário Espírita-Cristão.

maleável e dúctil ao comando mental. Que a alegria ou a emoção feliz sejam vividas conscientemente e não com ilusões perigosas. pois transcende ao esforço co- mum do escritor. formada com substância do plano espiritual. radiosa. sim. saindo do plano do ideal para a concretização no plano humano. . operar na matéria elementar uma trans- formação íntima. portanto. a seu bel-prazer. São "as vozes do Céu" que. Somente assim. Pode igualmente. . no início do seu la- bor psicográfico e Joanna o vê emocionado ante o primeiro resultado. não vem aplau- dir ou também se comover com o sentimento que o domina e. É uma rosa fluídica. mas. encontrando instrumentos afinados. Ela sabe que o instante de alegria é bastante fugaz e que urge preparar o médium para as grandes responsabilidades assumidas. encontra-se a explicação desse tipo de fenômeno: " ( . que lhe confira determinadas proprieda- des. Ela surge. quando necessá- . que muitas vezes a exerce de modo instintivo. na Terra. Em O Livro dos Médiuns. àquela época. cap.72 SUELY CALDAS SCHUBERT ritual torna-se algo precioso. que se expressam nas mesmas faixas de interesse e de dois corações que se afini- zam nos mesmos ideais. "Do laboratório do Mundo Invisível". da matéria cós- mica universal tira os elementos de que necessite para for- mar. V I I I . que podem distrair e perturbar a caminhada. transmitem o "divino concerto". objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. ) o Espírito atua sobre a matéria. para representar a soma de duas mentes que vibram na mesma freqüência. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito. pela ação da sua vontade. conforme está no prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo. traz um objetivo bem mais complexo: o de adverti-lo. Quando a mentora coloca a rosa encostada ao livro ela o faz com o fito de marcar de maneira indelével aquele momento. pode a obra psico- gráfica desenvolver-se a contento. aos seus olhos. Divaldo Franco está.

As palavras de Joanna. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 73 rio. tornarem-se momentaneamente vi- síveis e até mesmo tangíveis." À primeira vista. de certa forma. se estivesse equivocado quanto aos rumos a seguir. a conscientização dos compromissos assumidos. . porém. porém. mas se tiveres coragem. Os objetos que o Espírito for- ma têm existência temporária. tais pa- lavras jamais seriam ditas. são graves e pro- féticas. Conta comigo. Mas. a renúncia a si mesmo e aos favores mundanos. . a mentora é muito firme ao definir o futuro. enfim. Porque não haveria sofrimentos nem renúncias. diz. e. toda uma programação de elevados objetivos. Em certos casos. esta é verdadei- ramente a imagem inicial do quadro vivo que surge então aos seus olhos. esses objetos. na autenticidade dessa missão fazem parte a fir- meza e honestidade de propósitos. Há formação. podem apresentar todas as aparên- cias da realidade. Afirma: "se tu tiveres coragem para levar adiante. . se pretendesse apenas as loas do mundo. conta comigo. Não haveria motivo para tanto. traçada no plano espiritual e que antecedeu à reencarnação de Divaldo Franco. Divaldo poderia até pensar que aquela flor apoiada ao Messe de Amor representasse a comemora- ção. sem disso se aperceber. aos olhos de pessoas vivas. atento que do nada o Espírito nada pode tirar. Portanto. se não esti- vesse suficientemente embasado para a sua missão. ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. em seguida. isto é. a aus- teridade. pois logo em seguida começa a fenecer e suas pétalas caem como gotas de san- gue manchando a capa verde do livro. não criação. 0 botão desabrocha e transforma-se em uma belíssima rosa. subordinada à sua vontade." Esta é a sua proposta inicial. o amor à Causa. a festa de corações. de vida muito efêmera. Se Divaldo estivesse numa aventura pelos campos da mediunidade. a disciplina rígida.

E a candeia que se acen- de. transcende ao simples exercício e prática da mediunidade. o mediunato. Esses passos não são sofridos. — ver a mensagem ser levada à praça pública do ridí- culo. do ideal de servir a Jesus. tal como Kardec classifica no "Vocabulário Espí- rita". por que o sofrimento? Por que o mediunato tem tão alto preço? Seria muito fácil atender ao mundo. e relaciona as situa- ções previstas. aos mais recônditos cantos do co- ração humano. É fazer da própria existência a "candeia viva". na algazarra própria dos que valorizam as conquistas materiais. e aceitar tudo isto sem se defender — eis o programa traçado! Mas. . não o conseguirá sem o imprescindível tri- buto pela ousadia de enfrentar as trevas. onde os óleos do bem e do amor.74 SUELY CALDAS SCHUBERT "A tua será a parte do sofrimento". a partir da publicação: — dar o testemunho do silêncio. E. nas questões onde o personalismo preponderasse. a "missão providencial dos médiuns". na bus- ca do prestígio — formas de se granjear os títulos passa- geiros da Terra. É o man- dato mediúnico de que nos fala André Luiz em Nos Domí- nios da Mediunidade. de forma que faça sangrar o coração. — receber a crítica mordaz e sarcástica. Mas. ou seja. — ferir a alma com os espinhos da perversidade alheia. nas disputas. é a "mediunidade gloriosa" de Leon Denis. — ser jogada ao lixo. não tem outro an- seio senão o de consumir-se para que a luz se faça. perma- neçam ardendo para que haja luz. quem quer viver na luz para levá-la a toda parte. capítulo X X X I I de O Livro dos Médiuns. no mundo em que estamos. antes são causas de sofrimentos. que brilha para iluminar caminhos.

capítulo 24: "A qualquer ataque. as diretrizes traçadas pela instrutora espiritual. sig- nifica. quando. Hoje já se pode avaliar qual foi o comportamento de Divaldo face a todas as lutas e agressões que o alcançaram. O defensor de nossa honra e do nosso trabalho é o Senhor. absolutamente fiel à tarefa. por certo que o médium escreve com a segurança de quem já viveu e exemplificou o conselho. uma a uma. . Nessas quatro décadas de atividades mediúnicas. em mensagem inserta no livro Após a Tempes- tade. o silêncio. narra em "Viagem Espírita em 1862"." Quando as mãos mediúnicas de Divaldo anotaram essa passagem. com os quais esteve em contato durante as viagens que realizou naquele ano. o mesmo tipo de comportamento. A nós nos cabe a glória de servir. exatamente vinte anos depois. Allan Kardec. no transcurso do tempo. Dival- do Franco. Essa fidelidade à tarefa tem sido cumprida pelo mé- dium. que em nenhum momento deixou de seguir e viver a promessa feita no dia 5 de maio de 1964. Após o lançamento do primeiro livro. perante os ataques de qualquer pro- cedência. na íntegra. nessas circunstâncias. Joanna entende que não haverá necessidade nem condições para defesas. que respondia com o silêncio os ataques que lhe eram dirigidos e que essa atitude mereceu aprovação unânime dos espíri- tas. o médium segue. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 75 Assim. Joanna de Angelis diria mais tarde. Essa vivência dá extraordinária força de autenticidade à vida missionária de Divaldo Franco. ressaltada pela autora espiritual a lição de coragem que o ato de silenciar. sob a superior orientação de Joanna de Angelis. sem pretensão. que é lição de coragem pouco conhecida. As palavras proféticas pronunciadas por ela se foram cumprindo. tem sempre a mesma coerência doutrinária.

. para agra- decer e orar por ele. do coração afeito ao bem e ao perdão. se exige sacrifícios inauditos.76 SUELY CALDAS SCHUBERT O que Joanna não disse. as páginas que a sua fa- culdade mediúnica foi propiciando. do dever bem cumprido. também proporciona a alegria sublime de quem está colaborando com Jesus. que a messe de amor. primeiramente. da consciência pacificada. Bênçãos que adviriam. no devido tempo. Ela reservou a surpresa a fim de que melhor fosse aproveitada à medida que surgisse. hoje se levanta aos céus. Bênçãos de um número cada vez maior de Benfeitores Espirituais que encontraram na sua mediunidade o canal adequado e sintonizado para que pudessem falar à Terra. nas lições da vida. Bênçãos de ver. Joanna deixou que ele as sentisse e fosse descobrindo. e que um coro de vozes. todavia. foram as bênçãos que o labor iria proporcionar. Bênçãos de saber que um número cada vez maior de pessoas se beneficiam com as mensagens psicografadas. multiplicadas.

Tenho uma cadernetinha para anotar nomes de pessoas necessitadas. olhando para ela. Ela é paciente. de vez em quando. um operário modesto. Somos muito amigos. Fazia a minha prece. Comecei a orar por esse homem desconhecido. quem se mata (como dizia minha mãe) "não está com o juízo no lugar". conversando. dizendo que aquele era um pai de dez filhos. coloquei-lhe o nome na minha caderneta de pre- ces especiais — as preces que eu faço pela madrugada. Assim. sob os vagões da loco- motiva e foi triturado. vou dar o seu lugar para outro. contava a tragédia. E o jornal. já faz muitos anos. não posso fazer mais. Vai ver que ele nem se quis matar. sempre aparece no mesmo lugar e desaparece num outro. Aquilo me impressionou tanto que resolvi orar por esse homem. e dizia: Meu Jesus. foram as circunstâncias. Eu vou orando por elas e. com todo o estardalhaço. fico orando. 9 O SUICIDA DO TREM Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio terrível. intercedia. Orava e pedia. dava uma de advogado. então. que me impactou: um homem jogou-se sobre a linha férrea. Da minha janela eu vejo uma estrela e acompanho o seu ciclo. digo: se este aqui já não evoluiu. mas esse era especial. . dedicando-lhe mais de cinco minutos (e eu tenho uma fila bem grande).

Há muitos anos eu me joguei embaixo . entrou um Espírito e me perguntou: — Por que você está chorando? — Ah! meu irmão — respondi — hoje estou com muita vontade de chorar. — Você me inspira muita ternura — prosseguiu — e o amo por gratidão. Nesse ínterim. apren- di a chorar para dentro. Não estava em condições de inter- ceder pelos outros. que não con- sigo verter. mas. fiquei muito contente com o que ele me dizia. aprendi a não recla- mar e não me estou queixando. chorava. eu tive um problema que me fez sofrer muito. — Mas. Eu amo muito a você e amo por amor. Além do mais. Como é natural. o que é que você fará? — Hoje nem me peça. Nessa noite cheguei à janela para conversar com a minha estrela e não pude orar. porquanto eu vivo para con- solar os outros. onde quer que estivesse. por que você vai chorar? — perguntei-lhe. não lhes posso contar os meus sofrimentos. como não tenho a quem me queixar.) Daí a pouco a emoção foi-me tomando. — Porque eu gosto muito de você. e. (Eu tenho uma grande inveja de quem chora aquelas lágrimas enormes. O Espírito retrucou: — Divaldo.78 SUELY CALDAS SCHUBERT Passaram-se quase quinze anos e eu orando por ele dia- riamente. sou muito difícil de fazê-lo por fora. — Se você chorar eu tam- bém chorarei muito. Porque é o único dia que eu consegui fazê-lo. Fico aflito. experimento a dor. Um dia. porque sofro um problema grave e. Encontrava-me com uma grande vontade de chorar. não tenho esse direito. e as lágrimas não saem. e se eu lhe pedir que você não chore. volumosas. quando me dei conta. Deixe-me chorar! — Não faça isto — pediu.

Meu filho é um bandido. Lembrei-me de Deus. sempre que você me chamava pelo nome. que já havia morrido. (Note que eu nunca o vira. sem ter- minar nunca e sem nunca morrer. — Comovi-me. quando eu ia respirar. de minha mãe." Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava. escutava o apito e começava tudo outra vez. via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as rodas me triturando. Fê-lo com tanto amor. com tanto carinho. injuriando-me: "— Aquele desgraçado deser- tou. para agüentar aquele morrer que nunca morria e não sei dizer-lhe o tempo que passou. para escutar a pessoa que me chamava. que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. então. eu conseguia respirar. Ele não quis matar-se. até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem. passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal. — Eu perguntei — continuou o Espírito — quem é? Quem está pedindo a Deus por mim. novamente. Lembrei- me de minha família e fui à minha casa. ouvi alguém chamar por mim. com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me: — Ê uma alma que ora pelos desgraçados. chamando por mim. Eu ouvia o trem apitar. Quando acabava de pas- sar. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 79 das rodas de um trem. Comecei a refletir que eu não tinha o di- reito de ter feito aquilo.) — Quando adquiri a consciência total — prosseguiu ele — já se haviam passado mais de catorze anos. A minha filha é hoje uma perdida. Até que um dia escutei alguém cha- mar pelo meu nome. que aquilo me aliviou por um segundo. Encontrei a esposa blasfemando. E não há como definir a sensação eterna da tragédia. aí eu vi você nesta janela. pois o sofrimento logo voltou. porque . Mais tarde. Dei-me con- ta. porque não teve comida e nem paz e foi-se vender para tê-los. chorei muito e a partir daí passei a vir aqui. Transcorreu muito tempo mesmo. reduzindo-nos à mais terrível miséria. em face das diferenças vibra- tórias. eternamente.

falei-lhe: — Perdoe-me. não sofra! Porque se você se entristecer. Uma empatia muito grande por esse Espírito se fez em meu coração. que você está sofrendo. Além de você." — Senti-lhe o ódio terrível. ninguém tinha dó de mim. que estamos aprendendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito de sofrer. eu lhe venho pedir: em nome de todos nós. na infeliz suposição de que resolverá assim todos os seus problemas. o que será de nós. sendo tudo isto lançado a seu débito na lei de responsabi- lidades. . dos danos que o meu suicídio trouxe. narrado por Divaldo. e por amor a nós. Porque o suicida não responde só pelo gesto. mais ninguém orava. buscar a morte. que será de nós. ele chorou. mas.80 SUELY CALDAS SCHUBERT teve um pai egoísta. Que supremo desespero leva uma pessoa a jogar-se sob as rodas de um trem! Que suprema covardia moral leva o ser humano a desertar da vida. Deixando-nos. só você. pelo menos por nós. O suicida do trem — como passei a chamá-lo desde que me inteirei deste caso. Pela primeira vez. os infelizes. Igualmente emocionado. me deu um abraço. Doridamente. um estranho. por toda uma onda de efeitos que decorrem do seu ato insensato. num destes lugares miseráveis. que se matou para não enfrentar a res- ponsabilidade. Estou aprenden- do a consolar alguém. — São lágrimas de felicidade. os que somos permanentemente tristes? Se você ago- ra chora. não sofra mais. Então hoje. eu sou feliz. onde ela estava expos- ta como mercadoria. fui atraído à minha filha. — Divaldo — falou-me. porque agora eu me posso reabilitar. pelo ato de autodestruição. Aproximou-se. também. E a primeira pessoa a quem eu con- solo é você. Depois. emocionado — aí eu comecei a somar às "dores físicas" a dor moral. mas eu não esperava comovê-lo. encostou a cabeça no meu ombro e chorou demoradamente. ele nos reduziu a esse estado. Fui visitar meu filho na cadeia.

Fato que merece ressaltado. num processo de repetição constante. Até que um grito de pavor. A impressão que tive é que estava ao lado dele. Muitos outros suicidas comuni- caram-se por nosso intermédio. torcendo-se e gemendo de forma comovente. tornava-se gi- gantesco e havia como quê uma atração hipnótica na paté- tica figura do homem. vinha novamente. numa repetição enlouque- cedora. em minha condição de médium. num sofrimento indescritível. porém. contemplava a máquina. embora já ligado à reunião. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 81 Sua tragédia fez-me recordar certa reunião mediúnica. Da mesma forma como ocorreu com Dival- do em relação a esse pobre operário. dentro da sala. 0 infeliz suicida. para minha segurança e alívio. à espera de que se consumasse o atro destino que para si mesmo esco- lhera. engolido sob o mons- truoso veículo. prestou-lhe socorro através da prece. mas este foi especial. ou com ele. A cena que exteriorizava era terrivelmente assustadora. e o trem crescia ao nosso encontro como um negro monstro de ferro. no transcurso dos anos. porém. em que fui incorporada por um suicida que também se jogara sob um trem. O médium. no meu lugar habitual. na via férrea. há muitos anos. Ao escrever sobre o caso relembro e revivo o impacto da comunicação mediúnica. visto que ele não foi trazido à reunião. estático. um urro de animal ferido indicava o momento do impacto de seu corpo — um minús- culo boneco que logo desapareceu. Ele vinha. Mas o trem. sentia-se. de olhos esbugalhados. é que Divaldo não o auxi- liou através da sintonia mediúnica. pai de dez filhos. cujo farol era como um olho desco- munal mantendo-o imóvel. chumbado ao solo. atordoante. sentia-me. . numa noite sombria. A esta altura da cena. A terrível cena marcou-me o psiquismo de forma in- delével. que. triturado pelas rodas. que parecia ter prosseguido no seu trajeto. es- tremecendo tudo à sua passagem.

que. esmagado sob toneladas de ferro. Na pergunta 943 lê-se: "Donde nasce o desgosto da vida. ouvindo o apito a cada instante e o ruído das rodas. só a Dens assiste esse direito. quando ouviu o seu nome e se sentiu balsamizado pelo amor. Refere-se também ao fato de que o Espírito permanece jungido aos despojos carnais. O suicídio volun- tário importa numa transgressão desta lei. da sa- ciedade. . sofrendo os efeitos da sua decomposição. se apodera de certos indivíduos? "Efeito da ociosidade. rom- pido bruscamente conserva fortes resquícios de vitalidade e magnetismo. e. como a lhe mar- carem o sinistro compasso das dores superlativas. também. uma pausa. da falta de fé e." 944 — "Tem o homem o direito de dispor da sua vida? "Não. de ime- diato. a vibra- ção da prece o atingiu.82 SUELY CALDAS SCHUBERT No torvelinho de seus sofrimentos. o Codificador aduz os seus comentários. numa fração de tempo. "Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais. Ah! o refrigério da oração! Possibilitou-lhe. sem motivos plausíveis. que registrou em O Livro dos Espíritos as respostas dos Benfeitores Espirituais. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e resigna- ção. quanto obra com o fito de felicidade mais sólida e mais durável que o espera. A questão do suicídio foi objeto de interesse de Allan Kardec. por largo período. o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. sentindo-se morrer e remorrer. Menciona o laço que une o Espírito ao corpo. que. ressaltando os sofrimentos dos suicidas." Na parte final da questão 957.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 83

Em o livro O Céu e o Inferno, o Codificador reúne, na
segunda parte, comunicações de suicidas que dão notícias
de seus sofrimentos após a desencarnação.
Na literatura mediúnica desponta a obra magistral de
Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida. Em alguns tre-
chos deste livro a autora refere-se ao profundo trauma vi-
bratório que a morte sob o trem acarreta ao perispírito do
suicida, o que o coloca, talvez, na mais difícil situação espi-
ritual, entre tantos outros infelizes que se mataram por
outras formas.

* * *

Assim, Divaldo em prece, roga a Jesus por esse operá-
rio suicida, procurando socorrer e minimizar-lhe as dores,
que ele sabe serem superlativas. E o faz durante quase quin-
ze anos, diariamente, onde quer que estivesse.
As vibrações o atingem, porque feitas com amor e ver-
dadeiro desejo de ajudar.
Sobre a prece Allan Kardec dedica o capítulo X X V I I
de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde, no item 10,
descreve a ação benéfica que ela proporciona.
"Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer,
na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado,
ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um
e outro, transmitindo de um ao outro o pensamento, como
o ar transmite o som."

* **

A oração de Divaldo soa, então, aos seus ouvidos, re-
percute vibratoriamente em seu mundo interior e, a prin-
cípio, é um pequeno instante de alívio, para tornar-se, de-
pois, um interregno entre tantos tormentos, proporcionan-
do-lhe condições de raciocinar — o que o fez lembrar-se de
Deus, de sua mãe e da situação em que se encontrava.

84 SUELY CALDAS SCHUBERT

Socorrido e amparado pela solicitude e desvelo mater-
nos, foi sendo atraído para junto daquele que lhe enviava
a vibração lenificadora.
Na voragem de suas angústias acerbas, foi alcançado
pela força poderosa do amor. Esta força que se faz suavi-
dade e doçura, que atua anônima, se preciso for, para agi-
gantar-se mais adiante e mostrar-se invencível, por ser, em
verdade, o maior elemento propulsor da evolução humana.
Os corações que amam em plenitude, que amam o amor e
por ele vivem, fazem-se ponte para socorrer os caídos, os
desgraçados, os que ainda não aprenderam a amar.
O infeliz suicida despertou para a realidade. E esta lhe
é ainda mais amarga. As dores morais o visitam e se insta-
lam em seu coração ao verificar as conseqüências do
seu ato.
É então que esse ser humano, com toda a sua terrível
carga de aflições, encontra Divaldo sofrido e triste. Quer
ajudá-lo e este desejo incontido o aproxima do médium,
que o vê pela primeira vez. Consolá-lo é o seu pensamento
e por isso passa a narrar o seu pungente drama a fim de
testemunhar-lhe, com o seu exemplo vivo, o quanto recebe-
ra dele.
"Se você chora, que será de nós que estamos apren-
dendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito
de sofrer, pelo menos por nós, e por amor a nós, não so-
fra mais."
O encontro emociona-o e chora abraçado a Divaldo
— as primeiras lágrimas suaves a lhe refrigerarem o cora-
ção — na ânsia de consolar o benfeitor, de lhe ser útil, de
minorar-lhe as angústias interiores.
No silêncio da madrugada, tendo por testemunha a es-
trela amiga — que, cintilando, é c o m o um coração que pulsa
em direção a ambos —, dois corações humanos se encon-
tram, se aproximam e se deixam envolver pela suave magia
do amor.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 85

A missão consoladora da Doutrina Espírita, de que nos
fala Kardec:
"Coloco em primeira instância o consolo que é preciso
oferecer aos que sofrem, erguer a coragem dos caídos, arran-
car um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio,
detê-lo talvez no limiar do crime! Não vale mais isto do
que os lambris dourados?"
(Trecho do discurso de Allan Kardec aos espíritas de Lyon
e Bordeaux, In "Viagem Espírita em 1862" — Ed. "O Cla-
rim".)

10

A PRESENÇA DE VICTOR HUGO
NA OBRA MEDIÚNICA
DE DIVALDO

No mês de abril de 1970, terminando as palestras feitas
em Juiz de Fora, na Semana do Livro, retornei ao Rio numa
Kombi, já à noite, deixando, por distração, o quebra-vento
aberto. Era uma noite muito fria e eu me gripei. Cheguei ao
Rio afônico e com uma febrícula.
No dia seguinte passei com muita febre e, à noite, ape-
sar de medicado, a gripe não amainou. Era o dia de Culto
evangélico, na casa de Celeste e Lena * e não pude parti-
cipar, tal o estado de prostração em que me encontrava.
As duas amigas e Honorata, a auxiliar, começaram o
Culto, quando de repente vi entrar, no quarto onde me en-
contrava, uma Entidade veneranda que me disse:
— Eu sou Victor Hugo. Há alguns anos venho entran-
do em contato psíquico contigo, inspirando-te na narração
de alguns fatos nas conferências, para gerar um clima de
sintonia. Tenho uma tarefa a propor-te: eu gostaria de escre-
ver dez romances através de ti.

( * ) Srta. Celeste Moreira da Mota e Da. Brasília Gonçalves, em
cujo lar Divaldo se hospedou, no R i o , por vários anos. Celeste já
desencarnou. (Nota da Editora)

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 87

Fiquei muito surpreso, porque jamais me havia passado
pela mente ser "médium de romance". Acreditava que essa
parte da psicografia ficaria reduzida a páginas soltas, a te-
mas evangélicos, a estudos doutrinários breves, e julguei
que, o que via e ouvia, era uma alucinação, um delírio pro-
veniente da febre. Mas, o Espírito instou e propôs-me:
— Por favor, levanta-te, toma do material, que eu que-
ro escrever.
Ainda assim, pelo estado em que me encontrava, não
me animei, por estar convencido de que era uma alucina-
ção, já que eu não tinha condições de ser médium de uma
Entidade tão nobre. Todavia, o Espírito voltou a insistir e
Joanna de Angelis me apareceu, confirmando-o para tirar-
me a dúvida e pediu-me que fizesse um esforço, porque a
febre e aquele estado psicológico especial eram também um
recurso de que Victor Hugo usava para "quebrar" as mi-
nhas resistências de personalidade, a fim de que meus cli-
chês mentais — pelo hábito de falar incessantemente —
não viessem a interferir na obra que ele tinha preparado
para ser psicografada.
Com muito esforço levantei-me e, apoiando-me à pare-
de, fui até à sala. Quando Celeste e Lena me viram, muito
pálido e tiritando de frio e febre, ficaram muito surpresas;
eu lhes expliquei a ocorrência. Foi providenciado papel, até
papel de embrulhar pão, que foi recortado, e outras folhas
soltas. Sentei-me à mesa, pedi-lhes a colaboração, e como
estava na parte final do Culto evangélico, antes da prece
derradeira, o Espírito veio, curvou-se sobre mim, e, quan-
do começou a escrever, deu-se um fenômeno que, a partir
daí, me seria familiar: à medida em que a mão escrevia, eu
tinha a sensação de estar no cinema, vendo a projeção de
um filme, mas um filme em "tecnicolor", em tela muito
ampla, com uma beleza incomparável.
Quando voltei ao normal e li a mensagem que se inti-
tulava "O Duque di Bicci di M..", era exatamente o que tinha
visto psiquicamente, com a diferença de que eu observava
muito mais do que estava escrito. Era como se eu tivesse

88 SUELY CALDAS SCHUBERT

ido ao cinema com um cego e fosse descrever-lhe o que es-
tava vendo. O que eu via era muito mais do que podia
transmitir.
Ao terminar a psicografia eu estava total e radicalmente
curado, bem disposto, passaram a febre, a indisposição; eu
me recuperei.
No dia imediato, pela manhã, o Espírito escreveu mais
dois capítulos e determinou o programa de prosseguimento
do trabalho.
Houve um fato muito curioso. Uma das personagens,
Girolamo, havia, num desses capítulos, cometido um crime
hediondo e, como eu o vira, fiquei muito chocado; aquilo
me produziu um certo ressentimento contra a personagem
e, naturalmente, enquanto aguardava o desenvolver do ro-
mance, comecei a imaginar como é que a Lei iria alçancá-lo,
a fim de que resgatasse aquele crime — ele matara três
crianças de uma forma impiedosa, depois de dar-lhes um
narcótico, porque ia ser o legatário dos bens, caso as crian-
ças, herdeiras diretas, viessem a desencarnar. Quando fui
psicografar, com esse estado de alma, Victor Hugo escla-
receu:
— Você não pode interferir na trama do meu livro.
Essas personagens desencarnaram no século XVIII, e você
está criando clichês mentais que me irão dificultar a narra-
tiva. Por favor, não antecipe o desenvolvimento do romance.
Para minha surpresa, Victor Hugo, a partir daí, come-
çou a escrever de uma forma que não dava o encadeamento;
ele não numerava os capítulos e eu me dava conta que era,
digamos, o capítulo sexto, o décimo, a segunda parte do
livro, etc. Somente quando terminou a obra, que eu ia dati-
lografar, é que me pediu que numerasse os capítulos nas fo-
lhas, a lápis, que eu grampeava e colocava num classifi-
cador, perfuradas, para facilitar a movimentação. Aí então,
enquanto datilografava, já coordenado, tive a idéia de toda
a trama da obra. Foi um fato muito curioso, uma grande
lição para mim.

. e. ele conseguiu fazer um trabalho muito próprio também para a época em que vivia a médium. pelas letras mediúnicas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 89 Mais tarde. para adestrar o leitor que. psicológico. do trabalho. de dar a contribuição que gostaria de oferecer ao Movimento Espírita. cada vez mais entender melhor os ensinamentos que a Doutrina revela. não conhecesse a Dou- trina Espírita. A volta do romancista. desde que a "Voz do Sepulcro" o chamou para a seara espírita. periodicamente. Em todos os tempos os fenômenos mediúnicos noti- ciam a interferência dos planos invisíveis na esfera ter- restre. porque não tivera oportunidade. no seu tem- po. à seme- lhança das nossas novelas. ao cenário terrestre. por acaso. a interromperia para estudo de itens importantes. ele ia ter características mais modernas. Do Abis- mo às Estrelas. eu já estava mais adestrado e ele me disse que ia usar um tipo de literatura que chamaria de "sinco- pada". estilo folhetim. para o espírita. doutrinário. que fora sua filha na reencarnação anterior. na Terra. renovando a mentalidade humana no momento propício e permitindo que o homem tenha uma janela aberta para o infinito. Entidades de elevada hierarquia espiritual orientam e inspiram esse intercâmbio. deixando entre espaços o comentário filosófico. a fim de corroborar e estimulá-lo o. A mentalidade moderna não permitia mais as narra- ções antigas. melhor para o próprio autor. minuciosas. Agora. em que o autor ga- nhava pelo número de frases e quanto mais rendia. Victor Hugo. Utilizando-se de Zilda Gama. Hugo então me explicou que iria fazer obra doutriná- ria. quando veio escrever outro livro. em que faria a narração e. a fim de entender a trama da Justiça Divina. poeta e dramaturgo francês. Ao longo da história dos povos a intervenção dos Es- píritos é como um sopro forte agitando e despertando o homem para uma outra realidade.

muitos de seus filhos mais ilustres em todos os campos do saber humano. a Fènelon. permanecem. na escala da vida. todas as Almas estão unidas por múltiplas relações. para só citar alguns. guiando e inspiran- do o ser humano. mantendo. como a demonstrar uma planificação de ordem divina. na igualdade de seus sofrimen- tos através dos tempos. que já adquiriram títulos de enobrecimento. empenham-se em prosseguir au- . Franklin e Swendenborg. como viajores do tempo. solidária. todavia. a unir os homens. que a Doutrina Espírita desvenda." A Terceira Revelação. retornam à Terra. promovendo-o. todos estes. pelos canais da mediunidade. a todos os seres pensantes. Na gigantesca espiral evolutiva os Espíritos nascem e renascem em incontáveis orbes e. No advento do Consolador. indo de Sócrates e Platão aos Evangelistas. . Espíritos Superiores. por exemplo.90 SUELY CALDAS SCHUBERT é parte dessa grandiosa e eloqüente programação da Espi- ritualidade Maior. a fim de manter o homem em contato permanente com os grandes gênios da Humanidade. Pas- cal. Por isso. Afirma Leon Denis. desvendando a trajetória do Espírito através dos evos. em O Grande Enigma: "O Universo inteiro está submetido à lei de solidariedade. deixa entrever. . que se uni- versaliza quanto mais conquistam em evolução. os sagrados liames do Amor. a fim de que atinja os seus mais altos destinos. Erasto. Através desse conhecimento que ela nos faculta. ) De igual maneira. A fa- lange do Espírito da Verdade é integrada por vultos que se notabilizaram desde a Antigüidade até a Idade Moderna. porém. as almas ligadas à Terra. avançam pelas sendas do progresso nas estradas cósmicas. Há uma ligação permanente. de maneira insofismável. num processo in- teragente. na similitude de seus destinos e de seus fins. esses liames que mantêm. explica e comprova. pode-se inferir o quanto são sábias e justas essas Leis Divinas que regem a vida de todas as humanidades. in- teressados no progresso. ( . A solidariedade que as liga funda-se na identidade de sua natureza.

Párias em Redenção inicia essa série. no ano de 1971. também. Vem falar aos que estão na liça terrestre. quando. então. após um pe- ríodo de silêncio nas letras mediúnicas. Escritor fecundo. a possibilidade que temos de tê-lo conosco nessas páginas de luz que a me- diunidade proporciona. Hugo retorna. mas. Em 1985. ao se completarem os cem anos de sua desen- carnação. que medeia entre um e outro médium. Victor H u g o es- creve. retornam sempre. como figura humana que se distinguiu pelo caráter. ele próprio. Não se sabe o que é mais admirável: se o fato inusitado de um gênio como Victor Hugo retornar do além para pros- seguir escrevendo. da melhor forma. porém. ou. Victor Hugo retorna. dando-lhes as mãos do socorro e do amparo. a página de apresentação do seu mais recente livro. o sinete de autenticidade. Com abnegação e renúncia dão sinais de suas presenças. Por isso. em Paris. pelas lutas em prol da liberdade e dos direitos humanos. . deseja marcar a sua volta pelos canais da mediunidade. e comemorar. pelas mãos me- diúnicas de Divaldo Pereira Franco. Victor Hugo fez-se amado em seu país natal não apenas pelo seu genial talento. vencendo o aparente silêncio dos túmulos. pelo patriotismo. o seu ta- lento e estro. O escritor espiritual. intitulado Árdua Ascensão. o centenário de sua permanência no Mundo Maior. Por isso. pelas provas inequívocas de seu elevado amor à Humanidade. fazem ouvir as suas vozes. primeiramente através da mé- dium Zilda Gama. através de Divaldo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 91 xiliando os que estão na retaguarda. também. primeiro através de Zilda Gama e hoje. E mais que isto: almeja deixar nessa primeira obra psicográfica de Divaldo. Este é o quinto livro ditado pelo famoso romancista ao médium baiano. que expresse. exatamente no dia 22 de maio. que foi sua filha na última encarnação. transmitindo ensinamentos e manten- do vivos os laços do afeto.

92 SUELY CALDAS SCHUBERT Assim. o prefácio de Párias em Redenção. que é usada quatro vezes em Os Miseráveis e cinco em Párias em Redenção. conforme acentuou o Professor Camargo Ribas "uma nova epígrafe." Premido pelo editor. elucidando. no qual estaria "o mundo e em particular o século X I X " . Frederico Ozanam Pessoa de Barros. de Ponta Grossa ( P R ) . Ressalta o Professor Camargo Ribas. como se continuasse nesta o que ficou omitido naquela. Até a palavra inicial é a mesma. para a sua magistral obra Os Miseráveis. reali- zou um excelente estudo comparativo. Menciona Camargo Ribas: "O Autor não pôde. calcada em cima daquela que o Autor Espiritual havia colocado no pórtico de sua mais famosa obra — Os Miseráveis". alguns outros pontos. mais parece uma epígrafe. Prossegue Camargo Ribas: "Victor Hugo usa na obra psicografada palavras que determinam uma igualdade de pensamento. Sobre essa identificação de pensamento e estilo. so- bretudo. Hugo dita a Divaldo em 2 de junho de 1971. conforme escla- recimento de o tradutor de Os Miseráveis. no prefácio de Párias em Redenção retoma a mesma linha de pensamento — como a dar continuidade — do prefácio que escreveu. sabe apenas que foi escrita por Hugo. . algumas linhas que esclarecem. agora por via medúnica. Segundo tem-se do médium é que não conhecia e nem co- nhece a obra Os Miseráveis. Hugo se contentou em inscrever. mas nunca lera. que Victor Hugo desejava colocar um prefácio filosófico que estivesse à altura da obra. pois são apenas treze linhas no meio da página inicial do romance fadado a atravessar os séculos e se tornar um marco no mundo literário. o editor cortou-lhe o desejo e publicou a obra com um prefácio mui pequeno. em Salvador. intitulando-o "Elucidações". inclu- sive. no limiar da narrativa. publicada em 1862. o sentido social. No seu retorno. o Pro- fessor Ulisses Camargo Ribas. muito menos a teve em suas mãos. quando encarnado. que é.

. "Livros como este não serão inúteis". livros como este serão ne- cessários'. lutarem pela supremacia nos ce- nários do mundo. apenas nos dois prefácios men- cionados. O grande escritor francês. sobre os párias morais. ) enquanto sobre a terra houver igno- rância e miséria. na atua- lidade. ) enquanto as religiões. o fazem retornar. na sua "Elucidação". portanto. e a miséria moral. atesta o desejo do autor de identificar-se e de dar conti- nuidade à sua obra. que tem agora uma conotação diferente. está escrito na altura das linhas 19 e 20: ' ( . produzindo o conciliá- bulo do crime com a insensatez. como Espírito. . ao seu tema favorito e escrever. página 9. pois. "Livros como este serão ne- cessários". na obra Os Miseráveis. já que. da maneira de escrever de Victor Hugo. mas existe também no tema. Hugo analisa as questões sociais através da visão evolutiva do ser. . . hoje. diz Victor Hugo no prefácio de Os Miseráveis. social e econômica estabelecerem a revolta das massas. Na obra psicografada pelo médium Divaldo P. que . A identi- ficação não está." Esta particularidade apontada pelo professor paranaen- se. sendo que a de Os Miseráveis é uma negação que afirma e a da obra psico- grafada é dita diretamente numa afirmativa. Espírito. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 93 "Há um detalhe mui interessante e marcante (continua o Professor de Ponta Grossa). Franco. sintonizado e sensibilizado com os problemas que avassalam o ser humano — proble- mas que persistem através dos tempos e que o inspiraram a escrever sobre os miseráveis sociais — os quais. termina o seu prefácio assim: ' ( . esquecidas do papel sublime do Crucificado. no prefácio de Párias em Redenção. (grifos no original) "As duas frases finais destes prefácios — explica Ca- margo Ribas — têm o mesmo significado. livros como este não serão inúteis'. afirma Victor Hugo. pelo canal mediúnico.

tão carentes e marginaliza- dos quanto os que tratou em vida. Os miseráveis são agora os párias em redenção. E mais que isto: exprime o anseio do homem de se projetar no infinito. Reduzido à condição de extrema miserabilidade moral o homem vai encontrar o bendito ensejo de se redimir. Falta-lhe o pão à mesa das necessidades morais. dita Do Abismo às Estrelas. A sôfrega busca pelo pão ainda continua. que têm o mesmo sentido. de vencer. o mesmo significado. simbo- lizados em alguns personagens. Victor Hugo esparze a força do seu gênio nessas pá- ginas que a mediunidade proporciona. final- mente. . por Divaldo Franco. retratando ainda o drama dos desas- sisados morais. na sua obra mais famosa. de alcançar o rumo das estrelas. de conseguir.94 SUELY CALDAS SCHUBERT se processa no transcurso das reencarnações sucessivas re- gidas pela lei de causa e efeito. na ânsia de ter. Através de Zilda Gama escreve Do Calvário ao Infinito e. o que o fará emergir. em sua escalada evolutiva. o autor espiritual expressa de maneira magistral a redenção do ser humano. as mesmas neces- sidades e carências a impulsionarem o homem e a fazê-lo malfeitor. Nesses dois títulos.

Ouvindo as palestras. 11 AMÉLIA RODRIGUES E AS HISTÓRIAS DO EVANGELHO - CICERONE EM ISRAEL Amélia Rodrigues. nenhuma defesa. — O senhor não vai escrever. um dia me disse: — Divaldo. Então. reviso e. o seu estilo vai ficar explícito. poderá fazê-lo. não conte comigo. depois. que assim seja. nesta vida. que eu narrava nas palestras. o professor Carlos Pastorino. . Ela me plasmava as cenas com tal beleza e realismo que eram como se estivessem acontecendo naquele instante. desen- carnada. nenhum comentário. Só lhe permito cartas. Mas. Nenhum artigo. a insigne escritora baiana. Se o senhor deixar transcrever a palestra. Pode deixar que eu faço todo o trabalho. publicamos. nada de sua autoria — disse-me. mas. Joanna tinha outros planos. Se o senhor quiser. pensei em transpor do gravador para o papel essas narrativas evangélicas. eu pedi a Pastorino que esperasse mais tempo. me inspirava nos primeiros tempos de pregação. Foi a época das histórias do Evangelho. se alguém o agredir.

muito comovedor. por ideoplastia. Aí. ao lado de João Batista —o precursor — Simão Pedro. porque muita gente ouviu estas páginas em forma de palestras. entre outros. de suavís- simas tonalidades que iam do horizonte róseo aos cambian- . Assim. João — o evangelista — Maria de Magdala e muitos outros vultos que povoam os fastos do Evangelho e que fazem parte do livro de Dona Amélia. Zaqueu — o publicano. Joanna esclareceu-me: — O prefácio. em desdobramento. e. tal como sucedia no instante da psicografia ou das palestras. a um local da "Mansão". entre árvores. Primícias do Reino. Assim surgiu o seu primeiro livro. ela me informou: — Agora eu tenho a permissão de selecionar aqueles temas que pregamos juntos e escrevê-los em forma de men- sagens. Ela me levou aos lugares que eu já conhecia pelas descrições que ela própria fazia e pelas cenas plasmadas durante as confe- rências que eu proferia. o moço rico. numa paisagem do entardecer. Dona Amé- lia me levou. a Samaritana. Foi o pe- ríodo de treinamento. as personagens que estão no Primícias. menos Jesus. Passaram-se os anos.96 SUELY CALDAS SCHUBERT Durante dez anos Dona Amélia me inspirou. que nós chamamos de "Recanto de Joanna". voltei a ver aqueles vultos dos tempos evangélicos. nós o escreveremos a quatro mãos. por essa época. etc. Desfilaram. o paralítico de Cafarnaum. Tiago. Diante deles. para bem o explicar. a mulher hemorroíssa. Quando o livro ficou pronto. Quando terminamos de psicografar Primícias do Reino. Houve um fato. porque. Marta. e o Es- pírito Dona Amélia Rodrigues foi a minha cicerone. ante os meus olhos e a minha emoção — o doutor da Lei. em corpo espiritual. já lhes daremos a resposta. ela plasmou. Em 1981 eu fui a Israel. antes que façam perguntas. Maria e Lázaro — os irmãos de Betânia — como também os que foram curados: o obsidiado gera- seno.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 97 tes de um azul profundo da imensidão sideral. não apenas as assiste. é o pensamento transformado em força motriz." Allan Kardec. ditando-os. este. Esses "respingos históricos". 352) Primícias do Reino é. se é dado ao médium a possibilidade de vê-las. então. é o pensamento chegado a um certo grau de energia. Foi uma das visões mais lindas e como- vedoras da minha atual existência. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas se tem a força de agir sobre os órgãos materiais. "A vontade não é um atributo especial do espírito. como também (por certo por impregnação vibratória e por entrar na faixa dessas freqüências) sente-se como participante delas. porém. em nossa opinião. . seja na psi- cografia. plasma instantaneamente as cenas que a sua própria mente rememora. prosseguem em todo o livro. A integração e vivência dos tempos evangélicos é tão presente e marcante na vida da autora que ela. partícipe de muitos dos fatos narrados. ao descrevê- los. possibilitando ao leitor um painel muito bem delineado do período e dos locais onde viveu Jesus. pág. Essas criações fluídicas são realmente impressionantes e. o mais belo livro de mensagens evangélicas da literatura mediúnica es- pírita. seja nas palestras inspirando ao médium. entre cinti- lações das primeiras estrelas. — ("Revista Espírita" — 1864. Dona Amélia fez. uma prece gratulatoria. A sua importância ressalta logo às primeiras páginas quando Amélia Rodrigues apresenta um escorço histórico sobre a Palestina. quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam. ainda. já que Amélia Rodrigues é profunda conhece- dora dos ambientes e.

a se movimentarem em cenários celestes. fatos. efeito. então. e diz a certa altura: "Entrementes. reper- cutindo no médium. Nós nos víamos presente em todas as cenas. perder nossa atual perso- nalidade. ditado por Charles. o transportam para a cena e o fazem tornar-se presente a ela. Em Devassando o Invisível. ecoando em nossas sensibili- dades. por exemplo. incomodando-nos mesmo." C o m relação a outro livro seu. São essas vibrações que. Yvonne Pereira. qual espectadora muda do imenso drama. cujo autor espiritual é Bezerra de Menezes. sem todavia vê-lo. tornou-se vida. a nós impossível de descrever. cuja mediunidade realmente admirá- vel legou-nos preciosas obras de elevado padrão doutriná- rio. Quando isto ocorre a emoção é indescritível. como se raios de sol puríssimo ilu- minassem a transparência branca. Amor e Ódio. as emoções e impressões que as personagens deve- riam viver. porém. portanto. e como se todas as cenas e panoramas fossem desenhos delicadís- simos. permanecendo as mesmas emoções como que impressas em nosso ser. sem contudo.98 SUELY CALDAS SCHUBERT Em nossos modestos trabalhos como médium temos tido a feliz oportunidade de presenciar algumas dessas cenas fluídicas elaboradas pelos Benfeitores Espirituais. seqüên- cia admirável de uma realidade incontestável. mes- clada de tons dourados. a história sob o irresistível in- fluxo do grande Charles. ao que julgamos inédito sobre a Terra. esclarece-nos a respeito do assunto em alguns de seus livros. lucilante. drama. Yvonne informa: "Desenrolou-se. afligin- . cenas. forte e dominadora. que a "narrou" e cuja "voz"ouvimos sempre. Sentíamos. Sua pala- vra. as visões do drama que então nos eram fornecidas decorriam em ambiência branca. ela men- ciona como foi a recepção da obra "A Tragédia de Santa Maria". Exata- mente pelo fato de que esses painéis fluídicos são como que carregados por parte das vibrações e emoções dos persona- gens que os vivenciaram.

ele assiste. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 99 do-nos. os Benfeitores Espirituais providenciam para que isto se dê. uma técnica auxiliar das palestras. quando há projeção dessas cenas deprimentes. ao l a d o da profunda f e l i c i d a d e de "vivê-las". Essa notável possibilidade da criação desses cenários e revivescência de episódios verídicos é uma preciosa fonte de riquíssimas experiências para o médium. Geralmente. são-lhe muito freqüen- tes as cenas fluídicas projetadas pelas mentes desequili- bradas. Essas visões constituem-lhe grande sofrimento e um treino bastante difícil para que se mantenha sereno. o que é uma tortura moral muito intensa. as quais. É preciso muita firmeza e equilíbrio para conse- guir-se que tais cenas se apaguem da mente. para aprender a desligar-se delas entrando em sintonia com as faixas vibratórias da harmo- nia e da paz. não é dado ao médium ter somente visões de beleza transcendental. equilibrado e. "assistir" às cenas e tornar-se partícipe delas f o i também. Ao contrário. Para Divaldo. porém. Como também exis- tem casos em que tais lembranças permanecem como a servirem de treino. muitas vezes. utilizada por Dona Amélia Rodrigues." (grifos no original) Contudo. advertências e lições para o medianeiro. até que a obra foi escrita e terminada. a fim de poupar o médium. sobretudo. Especialmente para o médium psicógrafo ou psicofô- nico.

e no próximo encontro uma outra ditada pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. havia trabalhado na União Espírita Baiana. 12 MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA - UMA BIBLIOTECA ESPIRITUAL Numa das viagens a Pedro Leopoldo. apareceu-me o Es- pírito Manoel Philomeno de Miranda. atual Federação. como é compreensível. Eu era muito jovem e. tendo convivido muito com Petitinga. amigo íntimo de Carneiro Ribeiro — que também se notabilizou pela réplica e tréplica com Ruy Bar- bosa — ele. com vistas a uma . Quando chegou ao Mundo Espiritual foi estudar em mais profundidade as alienações por obsessão e as técnicas correspondentes da desobsessão. dizendo que. um gran- de latinista. dedicando-se. No ano de 1970. no mês de janeiro. fiquei muito sensibilizado. Mas. no ano de 1950. Miranda. houvera aprimorado os conhecimen- tos lingüísticos que levara da Terra. Guardei as mensagens. portanto afeito a uma área de informações de natureza geral sobre o comércio. tendo exercido vários cargos. Fora uma pessoa que. se dedicava à escritu- ração mercantil. na Terra. bebi nelas a inspiração. especialmente à tarefa do estudo da mediunidade e da desobsessão. que foi um beletrista famoso. Chico Xavier psicografou para mim uma mensagem ditada pelo Espirito José Petitinga. no mundo. permanecendo confiante em Deus.

Escreveu o Além da Morte explicando que ali se deteve para o refazimento e permanecendo. para facilitar o intercâmbio psíquico entre ele e mim. culturais. revelou-nos acerca de uma colônia espiritual chamada "Re- denção". Depois de uma convivência de mais de um mês. Agora. no Mundo Espiritual. A "Mansão do Caminho" seria uma espécie de depar- tamento terrestre daquela comunidade. então. pela mediunidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 101 programação de atividades para a Doutrina Espírita. desencarna- da em 1952. a primeira diretora da "Mansão do Caminho". da obsessão e desobs- sessão. no futuro. todos esses fenômenos ocorrem tranqüila- mente e são lentos. para trazer o seu contributo em torno da mediunidade. a fim de que haja o natural processo evolutivo porque. até hoje. Levou-me a uma reunião. Chico Xavier disse-nos. Ela descreve. ao escrever uma carta para sua filha Elza. narrando as impressões que tivera ao desencarnar. quem. em torno da vida espiritual. apare- cendo-me diariamente. um esclarecimento: foi Dona Otília Gonçalves. começou a escrever Nos Bastidores da Obsessão. Convidado por Joanna de Angelis. para reunir os desencarnados pelas suas afinidades lingüísticas. que são relatos. religiosas. ele ficou quase trinta anos realizando estudos e pesquisas e elaborando trabalhos que mais tarde iria enfei- xar em livros. Ao me aparecer. e aí. pela primeira vez. que existem inumeráveis colônias espirituais. como não há vio- lência na Lei. disse-me que gostaria de escrever por meu intermédio. mostrou-me como eram realizadas as experiên- cias de prolongamento da vida física através da transfusão de energia utilizando-se do perispírito. na referida obra. que fica sobre a cidade de Salvador. acredito. das técnicas obsessivas e de desobsessão. onde re- side. . como foi fundada. re- fere-se à sua estrutura que faz lembrar muito "Nosso Lar". e todos o sabemos. como existem milhares de cidades terrestres.

na Terra. quando um escritor ou um médium. seja quem for. onde estão registradas as idéias que se vão transformar em roteiro de orientação ou de degradação da criatura humana. que dá um estado muito de- sagradável ao leitor. escreve algo que beneficia a Humanidade — no caso do escritor — é um profissional. 102 SUELY CALDAS SCHUBERT Na visita que Manoel Philomeno me permitiu fazer à Colônia em que ele se hospedava. elaboram cenas de- gradantes e deprimentes. ao se abrirem esses livros. sofrido. em que a pessoa ouve. vai elaborando. esquecendo-se de si mesma. exceto àquele que se familiariza com essas idéias e se compraz nelas. aqueles que. levou-me a uma curiosa biblioteca. o que ele produz é edificante. fazem muito lembrar as da Terra. as letras adquirem relevo e são de uma forma muito agradável à vista. a criatura humana. vê e capta os registros psíquicos de quando o autor estava elaborando a tese. porém. ficam também registrados. a vulgaridade) exsudam uma espécie de plasma pegajoso e nauseante. nutrindo-se com tal tipo de energia grafada. Em fichários que ficam em regiões menos felizes. nesses fichários muito sensíveis. mais desarvoradas. E quando os livros são abertos (são os crimes. que captam a onda mental e tudo imprimem. são a concupiscência. Quando a pessoa escreve por ideal e não é remunerado. no planeta. tendo uma peculiar luminosidade. mas. ao abrir-se o livro. O oposto também é verdadeiro. para ajudar a sociedade. aqui. Mostrou-me como são arquivados os trabalhos gráficos que se fazem na Terra. o faz por ideal e estando num momento difícil. as letras adquirem uma vibração musical e se transformam em verdadeiros can- tos. traduzindo a nobreza do seu conteúdo. com um tipo de letra bem caracterís- tica. mas ainda assim escreve com beleza. Esses fichários. simultaneamente vai plasmando lá. nessa biblioteca. À medida que a mente. Se a pessoa. . nessa bi- blioteca fica inscrito. Disse-me que.

o do prazer. Em vez de ser material e grosseiro. Entre tantos informes esclarecedores. especialmente. tirado desses meios moleculares. Divaldo destaca a biblioteca onde estão registrados e arquivados os traba- lhos gráficos elaborados pelos encarnados. que a certo trecho diz: "O mundo dos invisíveis é como o vosso. tangíveis. o desportivo. etéreo. Na "Revista Espírita". o esforço. a tenacidade. há uma in- teressante comunicação do Espírito Mesmer. não apenas os textos. que é o verdadeiro corpo do Espírito. ao se aproximar de Di- valdo para o necessário período de afinização. já tem. a sua gratificação. como o vosso se forma de coisas mais palpáveis. O mundo dos Espíritos não é um reflexo do vosso. . materiais. enquanto o de sacrifício e de so- frimento exige a abnegação da pessoa. a renún- cia e. Para cada obra escrita existe o seu correspondente no plano espiritual. para tornar real algo que gostaria que acontecesse. transmite-lhe a primeira "aula". o vosso é que é uma imagem grosseira e muito imperfeita do reino de além-túmulo. acima de tudo. de 1865 (pág. embora o esteja realizando por entre dores e lágrimas." (grifos no original) Manoel Philomeno de Miranda. antes de iniciarem o trabalho mediúnico de psicografia. é fluídico. se assim nos podemos expressar. Porque o tra- balho diletante. mas. não desanimarmos e continuarmos as nossas ta- refas. o que lhes dá um valor muito maior. 155). na própria ação. que. quando estamos desalentados e sofridos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 103 Eis por que vale a pena. regis- tra. levan- do-o a conhecer a colônia espiritual onde reside. da natureza do perispírito. como é lógico e compreensível. as emoções com que foram elaborados.

104 SUELY CALDAS SCHUBERT Informa Allan Kardec. muitas vezes. mediúnico ou não. durante o sono e." Nesta mesma obra. de maneira geral. uma página ou um livro. Os escritores alegam. o Codificador es- clarece: "Tem conseqüências de importância capital e direta para os encarnados a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. em A Gênese. sempre estará acompanhado por Entidades que têm interes- se naquilo que escreve. para que esta repercuta na atmosfera. as emoções e vibrações corres- pondentes. capítulo X I V . como basta que module uma ária. que escrevem sob o influxo de uma força que parece brotar do mundo íntimo — denominada inspiração — de certa forma inex- ." Prossegue Kardec: "Sendo apenas Espíritos encarna- dos." (item 18) Assim. no item 16. São tais Entidades que o inspiram. "Basta que o Espirito pense uma coisa para que esta se produza. pri- meiramente. no estado de vigília. é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar. como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. como também atrairão para junto do autor aque- les Espíritos que se afinizam com a onda mental que o tipifica. modificándo- se pela pureza ou impureza dos sentimentos. visto que vivem dessa vida tanto quanto da vida corporal. es- critos com intenções edificantes ou com sentimentos de per- turbação e de desequilíbrio. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais. Mesmo não sendo um fenômeno mediúnico na acepção da palavra e ainda que o autor não seja médium ostensivo. os homens têm uma parcela da vida espiritual. item 14. seja para o lado negativo ou positivo. não somente expressarão e registrarão essas intenções. Sendo esses fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as propriedades.

ao passo que estes o inspiram e ajudam na estruturação das idéias e na ação de escrever. e que. ao fim do qual o escritor se sente exaurido. É que o homem encarnado. em desdobramento espiritual. A inspiração é assim. como um fluxo de idéias que acorrem à mente do escritor. Um outro ponto deve ser considerado. que é. mas. quase sempre. atrairá. a bagagem de conhecimentos desta e de outras encarnações. mais tarde. das construções mentais. O processo ocorre da seguinte forma: o escri- tor tem o seu cabedal intelectual. de uma forma estuante. o encar- nado absorverá idéias com as quais sintoniza e que brota- rão. em regiões próprias ao estágio evolutivo em que se demora. É exatamente na eclosão dessas idéias que os Espíritos atuam. moroso demais em relação às criações mentais que se sucedem rápidas. transbordando através do pro- cesso da escrita. seja in- tensificando o fluxo dos pensamentos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 105 plicável para os que não têm conhecimento ou não aceitam a participação espiritual. às vezes. motivando-a. . no dia-a-dia terreno. também exultante por ter realizado o processo de criação intelectual. aqueles Espíritos que se sentem afins com as idéias que estão sendo grafadas. no momento do sono físico. irá ao encontro daqueles que lhe comungam os mesmos ideais e intenções. Simultânea e naturalmente ha- verá uma identificação entre encarnado e desencarnados. por sintonia vi- bratória. se não conseguir passá-las para o papel. seja provocando-a. então. a aptidão literária. lhe fogem. porém. e com todo esse acervo pessoal é que produz as suas obras literárias. Não se trata aqui. extravasando. Há. de afirmar-se que o escritor não tenha o mérito e a capacidade de ser o autor daquilo que escreve. como que um estado febricitante de escrita. velozes. Entretanto. a par disto. em forma de inspira- ção ou "insight". tão intensa e com tal força que parecem não caber dentro de si mesmas. Junto a estes afins.

que é comumente chamado moratória. Nas Fronteiras da Loucura. todos psicografados por Divaldo. Trabalham mesmo em obras que se lhes deparam concluídas. morrendo na Terra. mais funestas do que as que professam entre vós". o autor explica as técnicas de transfusão de energias ao perispírito. Em outros livros. o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. "esses vão. nos vícios. C o m estes viajam. onde os chamam velhas afeições. O assunto do prolongamento da vida física (mencio- nado por Divaldo). consta do livro Painéis da Obsessão.106 SUELY CALDAS SCHUBERT Em O Livro dos Espíritos. Grilhões Partidos. quando volvem. vão para junto dos seres que lhes são superiores. ao tratar da emancipação da alma." Explicam. enquanto dormem. recebe dos Espíritos Superiores a seguinte resposta: "O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Neste. Quando dorme. Os casos de moratória no corpo físico acontecem seja por mé- rito da pessoa e/ou necessidade premente que prossiga por mais tempo no plano terreno. os processos obsessivos e a sua terapêutica. ou a mundos inferiores à Terra. Vão beber doutrinas ainda mais vis. mais ignó- beis. conversam e se instruem. de diversos autores espirituais. ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. (questão 402) Manoel Philomeno de Miranda é autor de Nos Basti- dores da Obsessão. Allan Kardec. ao mundo espiritual". ele contribui com excelentes páginas geralmente enfocando a mediunidade ou apresentando es- tudos muito específicos sobre as alienações mentais. Com aqueles que se empenham no mal. então. . Painéis da Obsessão e Tramas do Destino. que os homens de bem "quando dormem.

. por afinidades de trabalhos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 107 M a n o e l Philomeno de Miranda é-nos particularmente querido. Ele é o Patrono das atividades que realizamos sobre mediunida- de e obsessão/desobsessão. que nos consideramos. de interesses comuns e pelo amparo e orientação que dele temos recebido como aluna. das primeiras letras.

a princípio de forma educada e depois com muita rispidez. Dizia que a solução para mim . pois. quando me tornei espírita. É uma tarefa muito séria e de alta responsabi- lidade. fui constatando. numa atitude agres- siva. a Entidade começou a dar-me uma assis- tência negativa. um sacerdote romano. Passaram-se os anos e. ameaçando-me. de tal forma que a sua atuação tornou-se muito dolorosa.E prometendo que. mais eu me afeiçoava ao contexto do Espiritismo. no mar. Numa noite — eu tinha certas visões desagradáveis — então. co- meçando a exercer a mediunidade. quando eu contava deze- nove anos. Nesse ínterim. Mas eu era muito jovem para entender essas sutilezas da mediunidade. se eu não seguisse as suas diretrizes ele terminaria por me destruir. sofri um desses fenômenos e ouvi uma voz me cha- mando e me hipnotizando. por afogamento. respei- tável. que ser médium não é uma viagem ao país da fantasia. 13 O "MÁSCARA-DE-FERRO" Até onde vai a minha lembrança eu sempre detectava a presença de uma Entidade. Nos momentos difíceis da minha vida ele esteve presente. a pouco e pouco. à medida que se passava o tempo. vem-me à mente uma tentativa malograda de suicídio. com ares adversários contra mim. No rol das minhas lembranças.

e. Repetia que eu tinha deveres para com a sua antiga doutrina e que a estava conspurcando. fiquei desesperado: ver-me com roupa dentro do mar. que corresponderia hoje ao supletivo do 1º" grau. que nunca falta. percebeu o que estava acontecendo e me acompanhou. não adiantava recalcitrar: ou eu abandonava o meu compromisso recebido com o Espiritismo ou ele me des- truiria. Sempre tive muita vontade de estudar e havia feito o cha- mado artigo 100. Nilson estava próximo. vi a Entidade. Aquele foi um período amargo da minha vida. Era madrugada e não havia ninguém por perto. Quando eu ia saindo das águas. amparado por ele. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 109 — a única — seria destruir o corpo. orando. de pijama e sem saber o que havia acontecido. porque ele conhecia a interferência Divina. Notou. Uma delas ocorreu à época em que eu ainda estudava. até que as ondas bateram no meu rosto. Esse Espírito criou-me injunções. na Terra. se destruísse o corpo. Fui entrando sob aquele fascínio. com aspecto dominador. provo- cando-me um choque e despertando-me. quando eu me lancei mar a den- tro. As primeiras ondas molharam-me os pés. que era a vida física. Nilson. e que já era tempo de me libertar dessa canga difícil. Nesse exato momento. Eu saltei a janela e fui sendo arrastado pela indução hipnótica em direção ao mar. dizendo que me ma- taria. eu sofria muito. fosse qual fosse a justificativa. porque. iria ser plenamente feliz. Passaram-se os anos. onde estavam as pessoas que me amavam. Morávamos perto da praia. trazendo-me para a praia. aquelas que estão vinculadas a mim. (Até hoje eu não sei nadar). quando ele me viu a debater e gritar. . o dos testemunhos. e estava preparando-me para fazer o supletivo do 2° grau. que naquele tempo se chamava artigo 91. que não tinha o direito de me desviar dela. as mais dolorosas. Ao dar-me conta da situação. mas eu pros- segui. partiria para o Mundo Espiritual. atirou-se às ondas e me resgatou. que o meu labor era com a religião tradicional. que é muito vigilante.

depois do expediente no IPASE. só nesta hora. Você me desculpe!" Houve uma confusão momentânea. que me lançou sobre uma vitrine de uma joalheria. enxuguei o rosto com o lenço e saí. mas. caminhava tranqüilamente pela rua da Misericórdia. tantas vezes. mas. porque vi como os Espíritos podem. um murro no rosto. já trabalhava . senão a de se render. em direção da Cidade Baixa. imediatamente. ameaçou-me: — Vou humilhar-te de tal forma. me puxou pelas costas. este me viu e notou a minha palidez. Chamou-me.110 SUELY CALDAS SCHUBERT Em certa ocasião. e enquanto alguém me ajudava a levantar. para casa. armar um indiví- duo para cometer um crime contra aqueles a quem detes- tam. Esta bofetada me marcou muito a vida. Desci uma rua do Pelourinho. quando alguém. tinha a vida normal de uma pessoa que procura manter a dignidade. seguindo. eu o vi. e. Como de outras oportunidades. quando caí. desembaracei-me das pessoas. provocando um certo pânico e um grande susto. Como é natural. eu tive uns cortes. es- tava tão atordoado que me perdi. ou te matarei. Recebi um golpe. Eu residia muito distante do centro da cidade. fiquei muito aturdido. e sempre me sugestionei que qualquer coisa que me sucedesse a minha primeira providência seria a de voltar para casa. subitamente. depois que me voltei de frente para o agressor. entrando no processo de sintonia. e. quando eu ia a uma aula. desculpe-me! Eu tive a impressão de que você era o indivíduo que anda perturbando a paz de minha mulher e quis puni-lo. Voltei-me. desde que o outro ou aqueles dêem margem. conversou comigo. por passar seguida- mente pela porta onde um amigo tinha uma loja de calça- dos. julgando ser um colega. no meio daqueles rostos. voltei à normalidade. que não terás outra alternativa. Eu orava. então. em certas ocasiões. ele disse: "— Perdoe-me. Juntaram- se algumas pessoas. que é muito movimentada.

que haviam sucedido naquela oportunidade. número tanto. foi tomada de cólera e provocou uma discussão. eu tinha permissão de tomar parte como se fosse membro que residisse fora. naquele dia — quarta-feira — eu me integrava na sessão. Você se lembra do ano de 1955 quando foi a Apucarana. Naquele tempo. apartamento núme- ro tal? Eu me recordei de um incidente muito desagradável. participando dos trabalhos habituais. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 111 na mediunidade. — Pois vou refrescar-lhe a memória. e vários Espíritos se comunicaram através dos diversos mé- diuns presentes. mas isto lhe açulava. foi quando esse mesmo Espírito que me vinha perseguindo se incorporou no mé- dium Chico Xavier e. na pregação. sem qualquer motivo aparente. Fui à reunião. porém. quando uma pessoa que estava dialogando comigo. à rua tal. O momento culminante. sofrendo então uma agressão de forma tão inesperada. cada vez mais. no dia 13 de janeiro. quando você estava no Rio de Janeiro. E começou a citar fatos (que eu passei a recordar). Havia sido orador de uma turma de mé- dicos. na cidade citada do norte do Paraná. Chico Xavier participava das reuniões da Comunhão Espírita Cristã. — Recorda-se — prosseguiu. citando outro fato — do dia 14 de julho do ano passado. por primeira vez? Eu não me lembrava. me disse como se estivesse a ler anotações: — Estou aqui com a sua ficha. Posteriormente. Sempre que estava na ci- dade. . o ódio. em 1960. e a bondade de Chico Xavier sempre me agasalhou em seu coração generoso. em Uberaba. que me chocou profundamente. que eu procurei não dar prosseguimento. num gesto de quem mete a mão no bolso e tira algo. e no grupo de desobsessão. eu es- tava em Uberaba.

Apesar do ódio que ele destilava. permanecendo com aquela impressão terrível. da Queda da Bastilha. algo tímido: — Meu irmão.º andar do edifício. a graça. tais como: — A minha reação contra o Espiritismo tem funda- mento. Passou a atacar o Espiritismo com muita nobreza de linguagem. que por pou- co não me prejudicou a conferência nessa noite. o carisma. o dom. exalta- do —. A pessoa foi investindo contra mim. com desejo de atirar-me de lá de cima — era o 12. O que é impressionante — e grave — é que o Espírito falava com autoridade sobre mim. e evadi-me do lugar. Com muita habilidade. eu sentia respeito e consideração. porque o Espiritismo está barateando a mediunida- de. já não havendo mais para onde afastar-me e sentindo nos olhos da criatura como ela estava possessa. no Colégio Militar. deixando que esta concessão seja colocada no ridículo de um populacho incapaz de a compreender. em si- lêncio. não experimen- tando rancor. — Você se comprometeu conosco — afirmava. Eu venho hoje aqui para ter- mos um acerto. enquanto eu fui recuando até à janela da sala. indo participar de uma doutrina abjeta. mas aniquilarei o seu corpo e ficará do nosso lado. desviando-me. o senhor é a maior prova da legitimi- dade. na Tijuca. . da justeza do fenômeno espírita.112 SUELY CALDAS SCHUBERT Guardei a data por ser o dia da libertação. conversando comigo. O Espírito dizia com rudeza: — Fui eu quem incorporou essa pessoa para destruir- lhe a vida. Eu retruquei. a chamada Igreja militante. utili- zando-se de sofismas muito bem construídos. para engrossar as filei- ras do clero. quando retornasse à Terra. Eu sei que não destruirei. eu fui saindo daí. e trai-nos vergo- nhosamente. porque o senhor está incorporado num médium. mas com muita agressividade emocional.

nós não a vulgarizamos. incapaz de competir com o po- der e a opulência da Igreja. Vou dar-lhe uma determinação: retorne a Salvador. na igreja tal. porém. incendiando tudo à sua passagem. a Igreja Romana podia ser comparada a um holojote que projetava imensa claridade no céu enquanto ele era uma talisca de fósjoro acesa que se abria na treva. se eu. porém. explicamos o fenômeno mediúnico a fim de facilitar as pessoas a se en- contrarem consigo mesmas. um sacerdote da respeitável religião. é a prova robusta da imortalidade da alma. muito bem colocado. é um desses responsáveis. buscando ilu- minar consciências. ele tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 113 — Este manequim de quem me utilizo — respondeu. de um lado para outro. porque nós não barateamos a mediu- nidade. entre palhaços. trazemos o fenômeno mediúnico. os espíritas. ou melhor. a culpa não é do Espiritismo. podem atreverse a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? Bem se vê que era um sofisma. é um instrumento dócil. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma em uma constelação de astros a iluminar os céus e a Igreja vai apagando a sua claridade. Como os senhores. porque anda com o archote da fé. procure o sacerdote fulano de tal (cujo nome não devo declinar por- que ainda está encarnado). aparentemente. o Espiritismo barateia a mediunidade. o senhor me desculpe. com quem mante- nho contato direto e apresente-se para confessar-se. — Mas. fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. . Ao mesmo tempo. arrepen- der-se. jeras e o povo que aí foi para divertirse? A Eucaristia. é o mo- mento culminante da união com Deus. mas. preconizada por todas as religiões. tomar hábito e servir à causa da Verdade. prontamente —. — Você. ele usou de um outro argumento: — Quando o Espiritismo apareceu. Todavia. apenas repetimos Jesus. para nós. Como você consideraria. meu irmão.

o descrédito e tantas coisas que nos . dois anos depois. durante vários anos e até hoje ainda. o meu compromisso é com Jesus. Eu sou um empregado a serviço de uma Nova Era. se você se obstinar. usa o bordão e ela volta ou morre.T. Mas. a não ser que a perca em defi- nitivo. a partir do dia 10 de junho de 1962 as provações me aguardavam: a ironia. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integração nesse trabalho ou não. porque. Por onde quer que eu haja passado. O momento é hoje e se você não voltar ao nosso compromisso. aonde quer que vá. O irmão de- veria voltar-se contra Aquele que me dirige. se for isso que aconteça. pelo menos: — Ou aceita a minha voz — é o meu ultimato — ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. que se concretizou.S. a zombaria. Mas se o senhor não me libertar dEle. se o senhor se voltar contra Ele. Se não a alcança. eu e o meu povo. em grande parte.114 SU ELY CALDAS SCHUBERT — Eu não posso. Mas ele não a deixa. que. Não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. A verdade é que. contra você eu posso. uma delas tresmalha ou se desvia. ele a chama e vai atrás. Ele me liberta. E me fez um prognóstico sombrio. a humilhação. não tenho como me evadir da presença de Jesus. sendo desmoralizado pelos seus correli- gionários e confrades. Eu sou escravo. Não com- preendo por que o irmão se volta contra mim. exatamente. Ele declinou o nome: J. eu não posso. Utilizar- me-ei da bondade. contra Ele eu não posso — retrucou — mas. É o que farei com você. Ou retorna para o nosso seio ou lhe bateremos tanto de bordão. com muito prazer. — Não. defrontará com a minha presença. o desrespeito e o sofri- mento lhe estarão esperando. eu fui convidado a um pesado testemunho. A comunicação alongou-se. Farei tudo por persuadi-lo. liberte-me dEle e eu passarei de mão. da oferenda de recursos e valores para você triunfar no mundo. veja bem (e utilizou de outro sofisma): O pastor está conduzindo as ovelhas.

é claro. . chegavam e se avizinhavam rudes. com algum atavismo clericalista. por volta de 1976. só que o ferro estava como que incandes- cente. mas é a mesma pes- soa e eu o matarei. chegou à "Mansão do Caminho" uma criança. Passaram-se os anos. pelo trabalho que vem desenvolvendo na sua comunidade e em si mesmo. ajoelhei-me aos seus pés e lhe pedi perdão. não desanimei. quando cheguei a casa e entrei discretamente para que os meus pais e a minha irmã não me vissem. mesmo continuando as provas. Anos depois. O SEMEADOR DE ESTRELAS 115 levam ao sofrimento. Anos depois. as lutas e as dores. temporariamente. ele me apareceu e o seu rosto me jazia lembrar a personagem do filme com a "más- cara-de-ferro". ele re- tornou e falou-me: — Vou deixá-lo por um período. na rua da Misericórdia. Um esclarecimento: comecei a chamar esse Espírito pelo nome de o "máscara-de-ferro". No dia da bofeta- da. Dê-me uma oportunidade de reparação. porque eu o conheço. nós estávamos impossibilitados de rece- . de assistência quase diária. pela abnegação. sob esta epígrafe. Certo dia. e. quase trinta anos de combate diário. eu já não sou aquela mes- ma pessoa. jovem ainda. Eu havia assistido a um fil- me. fazia muitos anos. Aquilo me impressionou de forma tal. sei das suas dívidas. em circunstância muito dolorosa. ele me reapareceu. pela humildade. como era natural. — Você mudou apenas de roupa. . então. perdoe-me. portanto. segui ao meu quarto. pela paciência. — O senhor me odeia tanto — disse-lhe — que deve ter um motivo muito forte para isto. mas você me venceu. Várias vezes ele me apareceu com aquela expressão terrível. Você não me conven- ce. Aí. que eu. Todavia. Eu fiquei muito feliz.

já participa das nossas reuniões doutrinárias e me- diúnicas. menciona Divaldo. "Ser médium não é uma viagem ao país da fantasia". gradativamente. que está de volta ao corpo. poder re- tornar e vir ainda receber o afago das suas mãos nessa sua casa. A mediunidade enseja ao ser humano condições de le- vantar. mentalmente: Como faria Jesus em uma circunstância destas? A consciência me disse que Ele a receberia. agora. Foi o que eu fiz. Imediatamente convocamos os nossos colaboradores residentes e a criança foi encaminhada a uma das casas. o capítulo do "mascara-de-ferro". apareceu-me aquele Espírito e me infor- mou. o que fazer. Vendo a criança num tal estado de abandono. se Deus me der vida. outros companheiros que têm o mesmo problema. Ele continua aparecendo-me. Porque esta. comovi-me e me lembrei de Jesus. participando da vida em sua real dimensão. de sofrimento e miséria. a quem aca- ba de receber. Encerrava-se. de vez em quando. Ensine-me. Perguntei-me. pois o médium. defrontar-se-á com a verdade de sua própria vida. . traz outros correligionários. . assim. para aprender a amar Jesus. na visão correta. emocionado: — Agora você me convenceu. para re- ceberem a ajuda em nossa casa.116 SUELY CALDAS SCHUBERT ber novos candidatos por falta de espaço e de recursos. hoje. é a minha mãe. o véu do passado. quase afável. e isto será tanto mais consciente e preciso quanto mais aprimorada for a faculdade. Eu tenho que amar a quem vai ajudá-la na sua tarefa de reden- ção. e. dire- mos nós. menos hostil. demonstrando a excelência do amor e o poder da caridade. . de uma forma sublime. de debilidade orgânica. Ser médium é uma incursão ao país da realidade. e. Nesta noite.

Vivemos na Terra de nossas penitências. não pro- tege. tanto quanto relaciona- se com os do plano físico. ela é uma presença amiga. várias indagações afloram à mente do leitor. seria des- conhecer a situação do homem no mundo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 117 Divaldo Franco. E Joanna de Angelis? Tanto quanto se sabe. o assédio contrá- rio — tudo isso já sabíamos existir a acompanhar-lhe os passos. calculada. Ao longo de mais de trinta anos esse sacerdote esteve ao lado de Divaldo. é uma surpreendente revelação. Deixa-o defrontá-lo porque sabe o quanto é essencial que ambos resolvam e acertem as . realizada de maneira fria. a nortear os passos do mé- dium baiano nas tarefas doutrinárias. Sua influência em muitos acontecimentos foi marcan- te e inequívoca. os sacrifícios e renúncias. neste relacionamento. com requintes de planejamento e com tal desfecho. deixando sempre sinais indicativos de sua proximi- dade. As altas e graves responsabilidades. A esta altura. Não instrui. a conviver com os habitantes do Mundo Espiritual. as lutas ingentes. Quantas e quão belas lições extraímos desse extraordi- nário relato. Supor que. por certo. por decênios. o conhecimento dessa perseguição sem tréguas. não o faz diretamente. A aptidão mediúnica é. de modo ostensivo ou oculto nas som- bras. a via direta para esses reencontros. de cedo. que é parte da vida de Divaldo. não defende o seu médium desse adversário soez? Não. Este é bem o chão dos penitentes e não há como fugir a essa realidade viva e palpável de nossos reencontros com aqueles que são os partícipes de nossa jornada terrena. que ninguém poderia. Entretanto. acostumou-se. os problemas. por excelência. imaginar. mãe e Mentora. Através da mediunidade abre-se a porta da vida verdadeira e o médium passa a detectar os seus compromissos próximos e remotos. somente encontrasse amigos e pessoas bondosas.

que persevera nas atividades. dos Espíritos protetores. do exercício sublime do amor e do perdão. Ela bem conhece todo esse ingente processo de conquista. que freqüenta o Centro Espírita assiduamente. Ela sabe que. Quando a coisa não vai bem. Evidentemente. quando a vida se torna difícil. * * # Outra questão que surge: será então uma obsessão? Estaria Divaldo sofrendo um processo obsessivo por tão . a partir do reencontro de corações. está vacinado e imu- ne aos assédios negativos. dentro de sua atual programação. Muitos confundem as tarefas e missões dos Guias Espi- riuais. pois costuma-se pensar que aquele que se dedica ao bem. precisa vivenciar todas essas experiências libertadoras. que deveria ser assim um passeio feliz no campo da fantasia e da ilusão. favorecendo e facilitando a caminhada. quando há empeços e os problemas aumentam. porém. Ela está cônscia de que Divaldo. Por isso permanece no seu posto de sabedoria e amor deixando que ambos vivenciem todas as etapas desse notável esquema de redenção. não pode e não deve interferir. julgando que lhes cabe o papel de arredar da estrada humana todas as pedras e obstá- culos.118 SUELY CALDAS SCHUBERT pendências do passado. que se faz. A experiência. vem provar através dos tempos e dos próprios ensinos de Jesus. quantos julgam ser da com- petência de seus Guias e Mentores o afastamento de lágri- mas e sofrimentos e de quaisquer testemunhos provacio- nais. o entusiasmo e a fé. Todavia. que aquele que inicia a esca- lada torna-se a l v o preferido dos que ainda se demoram nos vales. ele tem possibilidades decisivas de vencer. minimizando os conflitos. Mesmo no meio espírita. agora. que é médium e exercita a sua faculdade nas reuniões apro- priadas. esmorecem. amparan- do e dando forças ao médium. para que não lhe arrefeçam o entusiasmo e as energias. permanece zelando durante todo o tempo. não raro. está livre de doenças e dores.

como pôde executar a sua ta- refa? Allan Kardec define. A obsessão no seu aspecto mais grave era. Seu projeto. para desvencilhá-lo desses liames e compromissos. aquecido e alimentado por uma fé vibrante e segura — que ele próprio. quase criança ainda. fortalecido por um labor incansável no bem. Nun- ca é praticada senão pelos Espíritos inferiores. Duas reencarnações de Divaldo o separam dessa época. os dias longínquos vividos entre as naves de altares e escuros corredores dos mosteiros. em O Livro dos Médiuns. até então. contudo. portanto. para conseguir o seu intento não hesita nem mesmo em tentar trazê-lo para o seu lado provocando-lhe o suicídio. cuja brilhante inte- ligência e vasta bagagem cultural facilitavam a execução. ins- talar neste o processo obsessivo. o sacerdote desencarnado deseja. e. afastá-lo da Doutrina Espírita. assustadora — como a evocar as ligações do pretérito. este esca- pa-lhe das mãos. denomi- nou de archote da fé. era bem este: o da obsessão por subjugação. Há um estra- nho fascínio na figura hedionda. sustentado pelas luzes que o Espiritismo propicia. . Quando muito jovem. Divaldo o teme pela sua terrível aparência e porque lhe sente uma estranha ascendência. inexplicável. A cada tentativa de implantar em defintivo a sua onda men- tal no cérebro de seu desafeto a fim de teleguiá-lo. arruinar os novos ideais que o alimentam. no passado. iluminados por tochas bruxuleantes. o que é a obsessão: " ( • • • ) é o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas. item 237. muito bem urdido. Realmente. Deseja o domínio total: submetê-lo à sua vontade. a cada investida dramática e dolorosa para derrubá-lo. que procu- ram dominar". não o suficiente. em memorável comunicação. O SEMEADOR DE ESTRELAS 119 I largo tempo? E nesse caso. parte do plano desse temível adversário. capítulo 23. durante todo o período de sua convivência ao lado do médium. um dia. trazê-lo de volta ao seio da Igreja a que ambos serviram juntos.

O fato inicia-se com algumas visões. inexperiente e pouco conhecedor da Doutrina e da mediunidade.120 SUELY CALDAS SCHUBERT Essa perseguição constante e prolongada apresenta uma perspectiva nova e interessante no estudo das relações entre os encarnados e os desencarnados. durante a noite. O QUASE SUICÍDIO O trecho inicial da narrativa sobre o "máscara-de-ferro" é também o mais chocante e pungente. Pode-se imaginá-lo. ser classificada como obsessão. Pelas suas características peculiares não pode. dentro dos parâmetros comuns ao proces- so obsessivo. o que vai acir- rar o ânimo do perseguidor que realiza investidas e agres- sões cada vez mais dolorosas. deixando-se. provocadas pelo adversário espiritual. o médium é quase levado também ao auto-extermínio. como no caso do quase suicídio no mar. que pressupõe a sintonia mental plenamente identificada. a fim de fortalecê-lo. de certa forma. A Mentora permite. frá- gil e quase indefeso. carregando no imo da alma o trau- mático suicídio de sua irmã Nair. qual ocorre com os metais preciosos. Divaldo teve momentos de cessão. mas não existe obsidiado. após a molda- gem sob altas temperaturas em que são fundidos. dominar mentalmente e obedecendo ao comando que o oprime. objetivando atingi-lo através de terceiros. já amadurecido e tarimbado na vivên- cia mediúnica. de passivi- dade ante o comando mental que o constringia. pelas "ma- trizes' do passado. É um momento dramático este. vulnerável. . por momentos. que se embelezam. desconhecendo a complexidade dos processos obsessórios. Posteriormente. embora em alguns lances o algoz quase realize o seu intento. a rigor. não mais se deixa influenciar. que se utiliza da hip- nose. Nos primeiros tempos. Jovem. Há obsessor. tentando assumir o comando da mente de Divaldo. inexperiente.

Já. avisa-lhe que o seu compromisso com a Igreja perdura. Ameaçando-o de morte. O episódio marca profundamente a vida do médium. como veio pa- rar ali. na praia. Retoma o comando mental e. embora com atenuantes. no cérebro. provocando-lhe um choque que o desperta afinal. Vigia e ora. Avança um pouco mais. na certeza de que a Espiritualidade Maior não desam- para. Molha os pés nas primeiras ondas a se quebrarem ao seu encontro. providencialmente. entra em desespero. por pouco não consegue consumar o trágico plano. o anjo bom. A agonia da situação é terrível e não entende. Dominador. Está escuro ainda e a água fria a envolvê-lo não o des- perta. atendendo à voz hipnó- tica. . mar a dentro. o que não a isentará de responsabilidade. repercute a voz persuasiva indicando a morte como o melhor caminho e solução para todos os problemas. o irmão. o amigo. está por perto. Chegado o instante preciso atira-se às águas e resgata a quase vítima. levanta-se do leito. porém continua andando. É madrugada. salta a janela e caminha para o mar. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 121 Assim. esses res- ponderão como por um assassínio. guiado pelo instinto de sobrevivência. A praia está absoluta- mente deserta e ninguém poderia salvá-lo. quando. Nos ouvidos. Que deve abandonar o Espiritismo e ingressar de novo nas hostes religiosas a que juntos pertenceram. Quan- to aos que conduzem alguém ao auto-extermínio. obstinado em seus propósitos. a fim de não cair novamente nas mãos de seu per- seguidor. Nilson. Mas. é o que ensina O Livro dos Espíritos. em plena noite escura e não sabe nadar. * * # Em O Céu e o Inferno. Allan Kardec informa que o obsessor pode levar a sua vítima ao suicídio. frio. o pai. Divaldo o vê. a Misericórdia Divina vela e protege. as ondas molham o seu rosto. alertando-o para a necessidade vital de uma vigilância inces- sante. de pronto. Está no mar.

pela conquista de outros méritos. ( . ) "Se o paciente é experimentado nas disciplinas morais. pela psicografia de Divaldo: "As ondas mentais exteriorizadas pelo cérebro mantêm firme intercâmbio em todos os quadrantes da Terra e fora dela. . . "Pensamento e vontade — eis as duas alavancas de pro- pulsão ao infinito e. ) " E m todo processo hipnológico. Pensamentos atuam sobre homens e mulheres despre- venidos. Lentamente a princípio tem início a penetração da vontade que. . convém examinar a questão da sintonia e da sugestão. termina por do- minar a que se lhe submete. . e a sugestão campeia vitoriosa aliciando forças po- sitivas ou negativas com as quais sintonizam. senão contrabalan- . provocando a aceitação e a automática obediência. os dois elos de escra- vidão nos redutos infelizes e pestilenciais do "inferno" das paixões. pois. ( . em lacerantes conúbios dos quais nascem prisões e surgem alvarás de liber- dade. a inspiração incidente.. ( . ao mesmo tempo. ) "A sugestão é. cons- tante. mais tarde. se continuada. portanto. por onde transitam opiniões. embora os compromissos negativos de que padece. que atua sobre a mente.122 SUELY CALDAS SCHUBERT A técnica mais usada nesses casos é a hipnose. . a constância da idéia que se sugere naquele que a recebe. "Merece relembrado o conceito do Nazareno: 'Onde es- tiver o tesouro aí o homem terá o coração'. Manuel Philomeno de Miranda diria. . . conse- gue. com razões poderosas. ) " N o fenômeno hipnológico há outro fator de grande va- lia que é a perseverança. ( . porque confere ao perseguidor a dominação completa sobre aquele que está sendo visado.. aspirações. senão imprescindíveis para a consecução dos objetivos: a fixação da idéia invasora. . anseios. o que equivale dizer que cada ser respira o clima da província em que situa os valores que lhe servem de retentiva na retaguarda ou que se constituem asas de libertação para o futuro.

confuso. após o dia de trabalho no I P A S E . pela rua da Misericórdia. mas. no entanto. são também de amor e misericórdia. Volta-se. Espantosa e estranha cena que se desenrola como num filme. na pessoa sensível e dedicada de Nilson. Aturdido. antes quer o seu reajuste à or- dem. para a sua própria felicidade. A AGRESSÃO NA RUA DA MISERICÓRDIA Algum tempo depois nova e desagradável surpresa aguarda Divaldo. capítulo 4) * * * 0 inteligente e revoltado sacerdote tenta. Repentinamente sente-se puxado pelas costas. Caminha ele. pleno de fé e amor. para o bem de Divaldo e dele próprio. Há um momento de confusão entre os que trabalham na loja. despreocupado. os transeuntes que assistem a cena. ao dever. possivelmente supondo ser um amigo. indubitavelmente. em direção ao colégio onde se prepara para o Artigo 91." (Nos Basti- dores da Obsessão. vê um desconhecido — o autor da agressão — que lhe pede perdão pelo terrível engano. sem entender a ocorrência. atra- vés da hipnose levar o médium ao suicídio. o que proporciona ao companheiro querido a retaguarda necessária. portanto. Rapidamente todos se movimentam após os pri- meiros instantes de surpresa. a vítima e seu agressor. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 123 çar as antigas dívidas pelo menos granjear recursos para resgatá-las por outros processos que não os da obsessão. e recebe um soco no rosto. Divaldo levanta-se ajudado . um conhecido qualquer. que através dos anos permanece no seu posto. a segurança essencial para o labor nas estradas do mundo. Quase o conse- gue. que se quebra ante o impacto. O Senhor não deseja a punição do infrator. com tal violência que é atirado sobre a vitrine de uma joalheria. a Espiri- tualidade Maior intervém. "As Leis Divinas são de justiça.

conforme narra mais adiante. Ele ali está. dentre os rostos que o fitam espantados com o ineditismo do caso. pelas ruas próximas. Arma o braço do desconhecido que passa. a vítima de todo o enredo ouve em silêncio as ameaças da Entidade. Extremamente plástico. usando-o como instrumento para agredir. personagem de filme. Constrangido. Na solidão do quarto. Conforme exarado. naquela hora. traz também alguns cortes. então. tentando alcançar o lar. o vê novamente. cai-lhe aos pés. o perispírito é "o princípio de todas as manifestações". suplicante. e en- fraquecido pelo difícil testemunho. desfeito pelo brutal ataque. dizem os Instrutores Espiri- tuais. ao vê-lo apavora-se com seu aspecto. o sacerdote irá intensificar as perseguições du- rante os anos porvindouros. capítulo V I . o que consegue com grande esforço. na questão 95. é Divaldo. Caminha. .124 SUELY CALDAS SCHUBERT por algumas pessoas. Em O Livro dos Médiuns. se possível for. representa. E. a par de ser um atavismo. o tema é bastante detalhado pelo Codificador. E Divaldo o faz. sendo abordado por Allan Kardec em suas obras. Além do rosto contundido pelo mur- ro. esgotado e temeroso. * * * A aparência dos Espíritos é um assunto muito interes- sante. Acalenta idéias de vin- gança contra um possível rival que lhe assedia a mulher. O homem vem a calhar para os pro- pósitos maléficos do perseguidor. Indiferente. Foi bem fácil fazê-lo supor que este homem. encontra novamente a presença daquele que o atormenta e. de joelhos. impermeável a qualquer pedido de clemência. contudo. de O Livro dos Espíritos. intitulado "Das Manifestações Visuais". um ges- to de humildade de quem pede perdão. visto pelas costas. principalmente. humilhar e até matar. Essa postura. Seu rosto re- corda-lhe o "máscara-de-ferro". o envoltório fluídico "tem a forma que o Espírito queira".

em estado de vigilia? "Depende da organização física. . Reside na maior ou menor facilidade que tem o fluido do vidente para se com- binar com o do Espírito. etc. um guerreiro aparecerá com a sua armadura. Sobre este ponto. O SEMEADOR DE ESTRELAS 125 Como se sabe. . Assim. Divaldo vê os Espíritos e. apresentando características pessoais que o identifiquem. Assim não basta que o Espirito queira mostrar-se. corcunda. se isso for necessário à prova de sua identidade. item 100 — 21 a 26) Nas aparições. como uma auréola. especialmente nessa narrativa é freqüentemente "visitado" pelo seu adver- sário que se faz visível. se tal é o seu desejo. Em O Livro dos Médiuns. fe- rido. ) "Freqüentemente. os que possam ser tidos por anjos. Assim. portanto." O Codificador elucida. lê-se: "Como pode o Espírito fazer-se visível? "O princípio é o mesmo de todas as manifestações. um assassino com um punhal. com cicatrizes. ao passo que outros trazem sinais indicativos de suas ocupações terrenas. é preciso também que encontre a neces- sária aptidão na pessoa a quem deseja fazer-se visível." "De que depende. . que os Espíritos zombe- teiros podem aparecer com chifres e garras se assim o qui- serem. o Espírito se apre- senta sob a que melhor o faça reconhecível. embora como Espírito nenhum defeito cor- póreo tenha. re- side nas propriedades do peripírito." (Capítulo V I . o Espírito toma a forma que deseja. ( . para o homem. mostram atributos característicos da elevação que alcançaram. ao sabor do Espirito. um sábio com livros. ele se mostrará estropiado. Freqüentemente surge com o aspecto de sua última encarnação. coxo. que pode sofrer diver- sas modificações. a faculdade de ver os Espíritos. ainda. esclarece Kardec: "Podendo tomar todas as aparências. ou asas.

Divaldo o vê falando através do médium mineiro e pela primeira vez toma conhecimento de todos os detalhes. espontânea. É o seu perseguidor implacável que. das quais ele se diz o agente provocador. a comunicação mediú- nica desse sacerdote. É evidente que a comunicação mediúnica. não se pode deixar de reconhecer a beleza do fenômeno mediúnico que se desenrola ante seus olhos com a força da autenticidade e das vibrações e liames que os unem. se já havia um permanente contato entre ambos? É a pergunta que surge. É evidente que esta foi a melhor maneira encontrada por ele para amedrontar o médium. A COMUNICAÇÃO M E D I Ú N I C A A T R A V É S DE CHICO X A V I E R Notável. neste caso. rememorando ocorrências difíceis. no caso em foco. mas igualmente o vê e lhe sente as vibrações. Um impressionante desfile de fatos passados. Usando um belo sofisma. Ele não apenas ouve. Por outro lado. através do nosso querido Chico Xavier. de lem- branças e de sofismas acontece então. sob todos os aspectos. põe "as cartas na mesa". "o máscara-de- ferro". Em 13 de janeiro de 1960. de uma vez por todas. Divaldo tem o ensejo de con- versar com o seu adversário por intermédio da mediunidade do Chico. afirma: . representa uma comprovação admirável de todo o sofrido relacionamento existente há vários anos. em Uberaba. Por que conversar através de um médium.126 SUELY CALDAS SCHUBERT A aparência assumida pelo sacerdote. é semelhante à do personagem de um filme. É possível imaginarmos a emoção e a surpresa com que Divaldo acompanha tais afirmativas. Citações são feitas com precisão de datas e locais. mo- tivos e intenções dessa perseguição sem tréguas.

O intercâmbio mediúnico seria o instante sagra- do da eucaristia. aos menos cultos. obviamente. visto que conhece o seu trabalho. os espíritas. considera que o conhecimento da mediunidade e o seu exercício não deveriam ser de domínio público. Que a sua propagação. alega que Chico Xavier — o manequim de quem se utiliza no momento — tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. dizendo: "Quando o Espiritismo apareceu. O SEMEADOR DE ESTRELAS 127 "O Espiritismo está barateando a mediunidade. o ca- risma. a graça. de que a Igreja tem conhe- cimento da mediunidade e que esta deveria permanecer nos círculos restritos de iniciados. Prossegue. Como os senhores. podem atrever-se a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? A Entidade coloca a mediunidade em plano muito ele- vado. dando reforço substancial aos que combatem a Doutrina. ou melhor." Faz alusão. Um sofisma que realmente impressiona e poderia con- fundir os menos experientes. entre palhaços. e. tal como é feito dentro de seus próprios muros. a sua popularização a tem rebaixado. nas entrelinhas. feras e o povo que foi ali para divertir-se? A eucaristia. um carisma. para nós. os que estão hesitantes. incapaz de competir com o po- . momenta- neamente. "Como você consideraria — prossegue ele — se eu. A uma observação de Divaldo. apenas exercida pelos elei- tos. um sacerdote da respeitável religião fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. é o momento culminante da união com Deus. a Igreja Romana po- dia ser comparada a um holofote que projetava imensa cla- ridade no céu e o Espiritismo era uma talisca de fósforo acesa que se abria na treva. Demonstrando o seu pouco apreço ao povo. po- rém. comparável à eucaristia. Descarta-o assim. considerando-a um dom. da acusação de vulgarizar o dom mediúnico. o dom. apenas como medida de efeito. deixando que este seja colocado no ridículo de um populacho incapaz de o compreender.

quando Divaldo." Toda a sua mágoa se extravasa nessas palavras. Admite que um dos motivos da perseguição é também o seu ódio contra o Espiritismo. Deixa entrever o seu amargor contra a Doutrina Espírita. estampa-se um permanente convite para que tam- bém faça o mesmo. Em seu íntimo mesclam-se a revolta por ter perdido um companheiro e o rancor contra a Dou- trina Espírita que o arrebatou de seu convívio. Revolta. Não admite a hipótese de que . essa nova idéia se alastra e ameaça a he- gemonia da Igreja." Neste ponto. Divaldo representa hoje tudo o que o fere. despeito. teimosamente. conforme diz. uma provocação insuportável e por isto aduz. e a Igreja vai apagando a sua cla- ridade. saia pelo mundo levando nas mãos o archote da fé e. buscando iluminar consciências.128 SUELY CALDAS SCHUBERT der e a opulência da Igreja. timidamente. Já não mais envolve apenas o ex-companheiro no seu desejo de vingança. cheio de coragem e de tenacidade. obsta que chegue aos homens. de um lado para o outro. o contesta: '"Mas você é um dos responsáveis. mágoa. pois. ressumam de suas afir- mativas. agora sim. É. reconhece agora. o sacerdote se revela. dessa nova e intrusa fé a iluminar consciên- cias. porque anda com o archote da fé. Não suporta a idéia de que ele. a legítima mensagem do Cristo que a Igreja. Para que se resolva a mudar em de- finitivo. Além disso. arrostando incontáveis dificuldades. Pela primeira vez o antigo sacerdote se deixa ver na intimidade dos sentimentos desencontrados que o avassa- lam. na atual existência. todas as emoções contraditórias com as quais não sabe lidar e pe- rante as quais é algoz e vítima. embora o requinte dos sofismas pretenda ocultar a sua verdadeira face. Naquilo que ele vive. É inad- missível que o companheiro de antes esteja agora com o archote da fé. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma numa constelação de as- tros a iluminar os céus. incendiando tudo à sua passagem. ódio.

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da for- tuna ou de qualquer forma de poder. em leiras descuidadas. defrontará com a minha presença e. Acrescenta. em seguida. acenan- do com os triunfos mundanos. sabendo. da oferenda de recursos e valores. de torpezas. de antemão. de injúrias foram sen- do lançadas a partir daquele momento. e novamente. desmoralizado pelos seus correligionários e confrades não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. o desrespeito e o sofrimento o estarão esperando. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 129 ele próprio esteja em fracasso. que apenas começam a existir. " A o n d e quer que vá." Terríveis palavras estas." E faz. Caídas em terra fér- til. Carreadas pelo ódio varreram como um tufão os dias de Divaldo Franco. Confessa. novas ameaças capazes de ba- lançar até os mais experientes. segundo Divaldo. Incontáveis médiuns têm sucumbido ante os acenos do prestígio. rapidamente medraram. que este é um dos testes mais difíceis de ser vencido. Sementes de rancor. ainda hoje. vacilantes. que se concretizou em grande parte: "Ou aceita o meu ultimato ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. Corações humanos! Sentimentos frágeis. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integra- ção nesse trabalho ou não. por meios escusos e basicamente anticristãos. a humilhação. no seu sentido legítimo! Não suportam os ventos que pressagiam tempestades e es- . a ser. Na parte final da comunicação faz uma advertência muito séria quanto aos meios que adotaria daí por diante. um prognóstico sombrio. tal como a religião que pro- fessa e pretende defender. O mo- mento é hoje e se não se voltar para o nosso compromisso. É um ultimato. em terrenos baldios. Insinua que Divaldo poderia conquistar as glórias do mundo e para isso ele estaria por perto para proporcioná-las. em quintais abandonados. que se utili- zará da bondade. sem subterfúgios e cinicamente.

São nossos. Tem. " . "Chorando para servir". amorosos fecham-se e se distanciam. A decisão está tomada. Corações. Este impressionante relato de Divaldo nos leva a pro- fundas reflexões. que se consuma por longos anos. Fazem parte de nosso ser ainda imaturo e infantil. . E Viverás". o apoio da Instituição que defende e pela qual fala. mas representa séculos de poderio e legiões de seguidores. . pos- sivelmente endereçadas ao filho espiritual. dentro em breve. * Divaldo terá de provar se é verdadeira a sua integração na fé e no trabalho que realiza. É um Espírito comuni- cante apenas. Uma cisão no Movimento Espírita é o projeto ideal que ressalta de qualquer análise por mais superficial que seja. a amorável Benfeitora. "Solidão e Je- sus". Aí estão. dois médiuns: Chico e Divaldo. . todos esses sentimentos.130 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T tiolam-se sob a inclemência do sol causticante. em sua retaguarda. . "Sinal de Cristo". editado no ano de 1964. O "circo" para onde leva a "eucaristia" ser-lhe-á a are- na do sacrifício. " E m honra do ideal". Dois corações que se amam e se reencontram no labor doutrinário. que a predição do Espírito se torna realidade dolorosíssima. ainda não tocada pela palavra do Cristo. são algu- mas destas mensagens e que estão enfeixadas no livro Messe de Amor. É por essa época que Joanna de Angelis. numa reunião mediúnica. "Fidelidade à Fé". amigos. . escreve algumas de suas mais belas páginas. Afetos. quando não se tornam agressivos. afáveis. portanto. antes. ami- zades que se construíram em dias de sol radioso desmoro- nam ao primeiro sinal de intempérie. A maior parte tem a duração de uma flor e fenece ante os rigores do tempo. Divaldo irá verificar. Entre eles uma Entidade clerical.

As atividades doutrinárias jamais sofreram solução de continuidade. em sua dimensão espiritual representa uma seqüência constante de renovações. . e sim. Não se verificou nenhuma ocorrência que atestasse má-fé. Um dos pontos básicos para que se consiga demover o Espírito perseguidor de seus propósitos é a sua vítima mos- trar-se renovada e convencê-lo de suas atuais intenções. o desânimo ou a covardia moral. tudo isto sob a supervisão do "más- cara-de-ferro" que ainda não se dá por convencido. ou até mesmo a deserção. de uma prova ímpar. psicografa livros. da qual participa com toda a carga emocional que já lhe escapa ao controle. 0 persistente e tenaz sacerdote necessitou não somente de três decênios para convencer-se da legitimidade da fé e do trabalho de Divaldo. ' Essa riquíssima experiência do médium baiano é a mais autêntica comprovação de tudo o que o Espiritismo prega a respeito das perseguições espirituais e da imprescindível transformação interior. de fato. mas também. hipocrisia. lan- ça-se à oratória e sai pelo mundo afora a pregar a Doutrina dos Espíritos — portando o archote da fé para iluminar consciências — idealiza e concretiza a "Mansão do Cami- nho". dedica-se ao labor mediúnico. Observa-se nesse episódio do "máscara-de-ferro" que a sua doutrinação não foi realizada em uma ou em várias reu- niões mediúnicas. comportamento dúbio. O SEMEADOR DE ESTRELAS 131 A PROVA F I N A L Trinta anos transcorreram desse convívio diário até o surpreendente desfecho. Durante todo este longo período o nosso obstinado ir- mão teve incontáveis ensejos de avaliar o comportamento do médium e a legitimidade de seus propósitos. falsida- des. ao longo de três décadas de acom- panhamento cotidiano. profunda e permanente — porque. O próprio pro- cesso de crescimento do ser. não cessa nunca essa transformação. Nesse longo tempo Divaldo funda o Centro Espírita "Caminho da Redenção".

Neste mo- mento decisivo reflexiona profundamente. nesse mesmo dia. . Divaldo resgata a nossa fé no ser humano. V e m como outrora. ei-lo que retorna à sua presença. Mais tarde. Nenhuma palavra. Ao vê-la. Para nós. e fiel ao seu com- promisso de vivência evangélica encontra a solução ideal no exemplo de Jesus. redi- mindo os homens e preparando o amanhã feliz que para todos nós começa agora. encaminham para a Man- são uma criança na mais absoluta indigência.132 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. há algum tempo. o estivesse acompanhando oculta- mente para certificar-se. face às dificuldades em que viviam. mas chega visceralmente trans- formado. se este real- mente vive tudo o que prega. para todos os que lerem estas páginas sobram motivos para um reflexionamento em torno desse belíssimo episódio. Assim. E evidencia que a mensagem de Jesus permanece viva. Divaldo se questiona sobre a possibilidade de acolhê-la. É possível que embora não aparecesse para o mé- dium. doutrinação alcançariam o resultado que a atitude daquele instante consegue. Nenhum compêndio do mundo tem em suas páginas tal poder de persuasão do que o gesto de Divaldo. os mecanismos da Justiça Divina resolveriam o caso de forma definitiva. ainda e sempre mais. Recebe então a criança como mais um de seus filhos sem saber ainda a sua procedência espiritual. pulsante. conselho.

João Zério e nós. Ali. ele brasileiro que reside nos Estados Unidos há muitos anos. que tem o nome de "Marylin's Center". Dr. à fila que se aglomerava do lado de fora. no Arizona. não se poderia admitir mais . por falta de espaço e por questão de segurança. que fica no Estado de Quebec. 14 MEDIUNIDADE E ORATÓRIA Durante a viagem pelos Estados Unidos e Canadá. Marylin Rossner. realizamos a segunda conferência. fui a primeira vez a Montreal. na sociedade dirigida pela Dra. que havia sido alugada especialmente para aquela finalidade. tendo feito doutorado em Nova York e que seria o nosso tradutor — fomos para o hotel e demos início ao nosso programa. No dia seguinte. hoje na cidade de Phoenix. lamentavelmente. pro- ferimos uma conferência pública numa igreja de beleza ímpar. a convite da Spiritual Science Fellowship. Depois de recebidos no aeroporto. que é dirigida pela professora e médica psiquiatra. professor universi- tário. Marylin. No primeiro dia. Ela é a fundadora-presidente. que. PhD. gótica. o número de afluentes foi tão grande que as aco modações não permitiram alojar todos os interessados. que foi o onze de agosto de 86. Foi necessário fechar a porta e dizer.

após havermos examinado. então. O cavalheiro ficou muito emo- cionado. que havia vivido nas Ilhas Sandwich. Marylin é versada. Ele teve um impacto inicial. veio até nós. pedimos um voluntário. xintoístas. Ao concluir. já referido no nosso livro mediúnico Sublime Expiação.. ao terminarmos. Joanna de Angelis me disse que eu tinha diante de mim uma personalidade que reali- zava um trabalho expressivo e que vinha do passado traba- lhando com dignidade e verdadeira elevação. agradeci-lhe a generosidade e disse-lhe que os Espíritos me haviam dito ter sido ele. e. um sacerdote belga. aqui no Brasil. O tema que me foi sugerido era "Psiquiatria. no qual a Dra.. que estava na escadaria de acesso ao segun- do piso. convidou a . na sua anterior existência. taoístas e outras. loucura e obsessão". acreditam na reencarnação. as salas e o corredor. para fazermos uma demonstração da terapia bio-energética. conforme é usual esta prática. começou a dar detalhes da carta que ele havia dirigido ao Papa e uma série de fatos proban- tes de sua existência passada. Quando estava terminando. Em seguida levantou-se. estilo seminário. porque o nosso objetivo era apre- sentar Allan Kardec e o conceito espírita a essas Institui- ções que são mediunistas. do fenômeno mediúnico. Logo de- pois. nessa segunda oportunidade.134 SUELY CALDAS SCHUBERT nenhuma pessoa. Joanna. era a de apresentar a conceituação kardequiana a respeito da dignidade mediúnica e dos re- cursos terapêuticos que se encontram à nossa disposição. sintetizado. Joanna me informava que ele se chamara Damião de Veuster. pela razão de ser uma psiquiatra PhD. Fizemos um estudo. sentou-se e eu comecei a aplicar-lhe passes. Levantou- se um senhor. no Hawai. a questão do surgi- mento do Espiritismo. aliás. no dia anterior. de público. A nossa intenção. As escadarias ficaram repletas. com a tradução de João Zério e. mas estão profundamente vinculadas ao orientalismo e às dou- trinas esotéricas. Realizamos a conferência.

anos atrás. ele começou a perceber que. Ao lado disso. ontem. mais uma vez. poeta. como respaldo à pesquisa que estava fazendo. havia dados que ele não conseguira coligir e que iria agora pesquisar quanto à veracidade dessas novas revelações. no dia seguinte. quando grava- mos este depoimento. Os dados que havia coligido eram tão extraordinários que ele se identificou plenamente com essa realidade. Isto é muito confortador. Está escrita em inglês. com a emoção que havia vivido quando visitou as Ilhas Sandwich. mas o próprio autor teve a gentileza de enviar também a tradução. sem margem de dúvi- das. aonde foi sentir a legitimidade da- quela informação. que. naqueles dados. de uma pessoa absolutamente estranha — porque ele viera de outra cidade. no dia atrás men- cionado e. porque. que nos pediu uma declaração por escrito. E mais do que isto: nas informações que eu lhe passara. o que o levou a escrever uma minuciosa biografia de Damião de Veuster. e ambos narraram. dia 8 de setembro de 1986. a duas vozes. O nome dele é Demitri Trifiatis. Este homem é filósofo. ele vinha ter. participa dos trabalhos do Marylin's Center. 9 de setembro. E como era um homem cético resolveu fazer pesquisas a res- peito. Viajou a Molokai. . que transcrevemos a seguir. recebi uma carta dele. e esta biografia estava semiconcluída. O SEMEADOR DE ESTRELAS 135 Dra. o leproso. Estávamos na "Mansão do Caminho". Agora. exclusivamente para estar conosco — o fundamento que lhe dava a prova. Marylin. por uma dessas "coin- cidências". o célebre padre Damião. para colocar no livro. Divaldo nos mostra a carta de Demitri Trifiatis. ele havia recebido esta revelação por outra fonte. escritor. realizando uma tarefa verdadeiramen- te fascinante. orientalista. ele se identificava. de que aquela informação era realidade. Tão sensibi- lizado ficou.

a sua evolução constituem um bem insupe- rável do mais profundo amor e da mais rica compreensão de um ser compassivo e generoso. especiais como você. a sua espi- ritualidade. que eu considero o mais precioso encontro de minha vida espiritual. Deus o abençoe Eu sei bem o que significa crescer sem a presença dos pais. pois este mundo precisa de pessoas privilegiadas. do mais fundo do meu coração.S. Demitri Trifiatis (Damien) P. Eu peço a Deus que o guarde com boa saúde e ativo. Fiquei sensibilizado pelo fato maravilhoso de saber que você se ocupa de tantos órfãos. seu irmão e admi- rador. Por esta razão desejo agradecer. Divaldo Pereira Franco Rua Barão de Cotegipe. O nosso encontro foi para mim experiência luminosa. sou. um dia. a sua humanidade. . Tenho fé de receber notícias suas. Eu mesmo perdi os meus pais na minha tenra idade. 124 Salvador — BA Brasil Querido amigo Divaldo Já lá se vão duas semanas que tive o privilégio de o encontrar em Montreal. Todos aqueles que são tocados pelos dons que você possui são transformados para sempre.136 SUELY CALDAS SCHUBERT Montreal (Canadá). onde tive a graça de conversar consigo. no Marylin's Center. o seu trabalho e o seu êxito monumental. 22 de agosto de 1986 Sr. dinâ- micas. Com muito amor em Jesus. O seu conhecimento.

Petersburg. terapeutas. E os médicos que o acompanhavam não tinham qualquer explicação para a sua cura imediata. na Carolina do Sorte. identificaçãço dos Es- píritos. A notícia correu e. este fato tão singular. porque confirma a mediuni- dade naquele sentido de "universalidade do ensino". Para nossa surpresa. Foi um fato comovente. estavam presentes. no ano pas- sado. na cidade de Greensboro. Ao terminarmos. não sabíamos que este homem era portador de um carcinoma. em St. o organizador do "Seminário". . na noite seguinte. O SEMEADOR DE ESTRELAS 137 Isto é muito interessante. e ali estava a ocorrência mediúnica que não deixava margem a qualquer dúvida. Ali também realizamos um "Semi- nário". obsessões. por- quanto compunha-se de espiritualistas. Fizemos a aplica- ção do passe. o que havíamos falado sobre mediunidade. que então explicamos com maior riqueza de detalhes. sendo que ele não dormia fazia mais de três meses. começando a experimentar os resultados positivos logo naquela noite do passe. demonstrando. outros curadores. de mentalistas e de curadores. por efeito. nos in- formava que aquele homem havia ficado radicalmente curado. Realizávamos uma conferência para aí divulgar o Espiri- tismo. Ao terminarmos. pedimos um voluntário para manter um contato e aplicarmos a terapia bio-energética. Mas. que eles chamam de Workshop e. Veio um cavalheiro e sentou-se. a que se reporta com tanta propriedade o Codificador. ao retornarmos este ano a St. (que agora foi de três dias) senhor Reinaldo E. in- teressados no aprendizado da técnica. Petersburg. as pessoas emocionaram-se até as lágrimas. re- verendos e missionários do Espiritualismo americano. Este fato vem confirmar o que ocorreu. O faio voltaria a repetir-se. tivemos oportunidade de ver alguns Espíritos que se identificaram e o dissemos ao senhor. na Flórida (USA). Torres. explicamo-lo ao auditório selecionado. no "Seminário" deste ano.

eu pode- ria saber o nome dela? Eu estranhei. que morreu. onde vim a ter outras duas mães adotivas. o que lhe informamos. seja no Centro Espírita ou local público. e aplicamos-lhe a terapêutica. nos disseram que ela estava com um problema muito sério de coluna. Mas. ela confirmou que estava em tratamento de coluna. Disse mais: — O senhor falou que minha mãe está aqui. uma Entidade dizendo ser a mãe dela. Sabemos.138 SUELY CALDAS SCHUBERT quando estávamos terminando. Apareceu-nos. nesse momento. nunca deixei de amar à minha mãe. espe- cificamente na parte que trata da mediunidade que. Vários autores espirituais têm relatado esses acontecimentos. razão pela qual se prontificara para a experiência. que vem me dar esse recado. Atendimentos diversos. desligamento de Espíritos perse- guidores ou daqueles eventualmente vinculados aos circuns- tantes e até cirurgias espirituais são realizadas durante a . Os Bons Espí- ritos. mas que prosseguisse com o trata- mento especializado. pois os Espíritos aproveitam os momentos de elevação para au- xiliarem mais diretamente os encarnados e desencarnados. Pedimos um voluntário. isto é. então. enquanto o orador discorre sobre o tema. Ao terminarmos. mas disse-lhe o nome. quando se realiza uma palestra. tratamento espiritual. através do estudo da Doutrina Espírita. É a preocupação dela em vir dizer-me que continua apoiando- me e socorrendo-me. — O senhor não repare — explicou-me — sucede que eu tive três mães. uma série de ocorrências se verifica no plano espiritual. encami- nhamento de Entidades. o auditório solicitou que demonstrássemos uma técnica de meditação e outra de bio-energia. Sentou-se. a minha mãe verdadeira. e aproximou-se uma moça. depois fui encaminhada a duas casas de órfãos. o que lhe provocou uma grande emoção.

in- clusive. a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. a mediunidade de Divaldo Franco. trazer-nos pormeno- rizados informes do mundo extrafísico. utilizando-se. no cap. oportunamente. através de Manoel Philomeno de Miranda. Essa ação tem em vista várias finalidades: a compro- vação da imortalidade da alma. em nossa época. Mais tarde. antecedendo ao momento da palestra. É o "Laboratório do Mundo Invisível". portanto. Victor escreve a respeito. Pelos informes que já possuímos. nos casos mencionados. o Codificador. a comprovação da presen- ça e comunicabilidade dos Espíritos. e principalmente. em A Gênese. itens 13 a 21. embora muito superficialmente. O próprio Divaldo receberia. André Luiz vem. psicografado por Francisco Cândido Xavier. a excelência da mensagem e dos recursos da Doutrina Espírita. Também o Espírito Efigênio S. do qual o mundo terrestre é pálida e imperfeita cópia. preciosos esclarecimen- tos sobre o mundo invisível. a comprovação da reencarnação. capítulo X I V . O SEMEADOR DÇ ESTRELAS 139 exposição doutrinária. na mensagem "Arqui- tetos Espirituais". essa atividade se pro- cessa também. É possível aquilatar. em suas várias obras. explica. da própria palestra) até os quadros que propiciem lembranças pretéritas a Entidades que disto necessitem. o grandioso planejamento para que esses fatos se tornem realidade. de recursos variados desde a criação de painéis fluí- dicos com cenas que têm vida momentânea (derivadas. inserida no livro Instruções Psicofôni- cas. os Benfeitores Espi- rituais. e que. nas áreas de curas e de notícias espirituais para determinadas pessoas. a notável atuação dos Espíri- tos Benfeitores nos instantes das palestras do orador baia- no. de modo claro. de que nos fala Allan Kardec. pode-se ter uma idéia acanhada do que seriam as providências da Espiritualida- de Maior. Depreende-se. V I I I de O Livro dos Médiuns e do qual o Espírito São Luís dá notícias detalhadas. .

Divaldo. adrede preparadas e estão espiritualmente cônscias de sua parti- cipação dentro de todo esse grande plano de divulgação da Doutrina. escrevemos num papel o nome dele e uma per- gunta sobre a sua presença. Claro que imediatamente mostramos-lhe o papel. narrado inclusive. Ao termi- nar. Ultimamente. Aos poucos. depois. o tempo todo. comen- tamos sobre essas ligações que se estabelecem entre o ora- dor e as personagens dos casos que ele tem narrado. algum tempo atrás.140 SUELY CALDAS SCHUBERT Tais pessoas mencionadas e beneficiadas não vieram casualmente ao local e nem se ofereceram como voluntá- rias por um impulso intempestivo. Foram. suicida. por exemplo. menciona a aproximação do bispo Pike. para apresentarmos um tra- balho sobre o tema "Mediunidade". toxicômano e. debaixo de algumas flores. Presidente da União Espírita daquela cidade. Em meio à interessante narrativa cap- tamos a presença do bispo e achei muito curioso que ele aí estivesse. Recordamo-nos. aqui em Juiz de Fora. tais Entidades se aproximam de Divaldo e se integram nessa equipe realmente fantástica que Joanna de Angelis reúne. quando de sua palestra. Mais tarde. no transcurso dessas quatro décadas de divulgação doutriná- ria. Temos observado pessoalmente muitas dessas confir- mações ao longo desses anos de nosso convívio e amizade. pois as "coincidências" são realmente impressionantes. . Este papel ficou dobrado sobre a mesa. espontaneamente. Já conhe- cíamos o caso. Divaldo inicia a conferência relatando o caso do bispo Pike e seu filho. que em setembro de 1986 a estivemos juntos na 3 3 Semana Espírita de Vitória da Conquista. Aí estávamos a convite do estimado confrade Anísio Brito Neves. É bastante óbvio tal programa. através de Divaldo. Mas. dirimindo assim qualquer dúvida. isto sim. porém. comanda e orienta. tornaram-se muito freqüentes tais episódios comprobatórios. algo hesitante quanto à autenticidade da percepção.

Afirma o Dr. cujos elementos constitutivos (mentais. a dramática história de Lucien. em Montreal. o aparecimento. emocionados. O SEMEADOR DE ESTRELAS 141 O mesmo ocorre com a maioria dos que são citados em suas obras mediúnicas e que terminam por surgir. indo a Montreal. O autor faz. é nada menos que o padre belga reencarnado. como uma de suas aptidões do- minantes. Entretanto. em boa parte deflui dela. em sua vida. Divaldo tem uma enorme surpresa: descobre que o voluntário. No excelente livro Sublime Expiação." . no qual aplica o passe. o médium faz tal revelação de público. de Demitri Trifiatis supera qualquer expectativa desses encontros. chama a Dra. uma referência à vida do padre Damião. que vai tornando cada vez mais fácil e normal um estado primitivamente excepcional e anormal. a tendência inata para a descentralização é reforçada pela prática da mediunidade. materiais) são susceptí- veis de descentralização momentânea. Victor Hugo narra. totalmente dedicada aos hansenianos. Gustavo Geley. então. Nesses casos espe- ciais. Damião de Vesteur está no plano espiritual — é o pen- samento natural que assoma após a leitura do trecho em questão. Sob a orientação de Joanna. Mas. de uma forma ou de outra. O homem tem um impacto. pela psicografia de Divaldo. dinâmicos. belo jovem e promissor pianista que se torna le- proso e que se interna na Colônia de Hansenianos Damião de Vesteur. em seu livro Resumo da Doutrina Espírita: "O médium é um ser. Marylin e ambos. narram ao auditório que era a segunda vez que tal informe estava sendo trans- mitido e agora com riqueza de detalhes. hoje Demitri Trifiatis. Infere-se disso tudo que a oratória de Divaldo é pro- fundamente associada à sua faculdade mediúnica e que.

quando vê o Espírito amigo que lhe afirma incisivamente: "Fala! Falaremos por ti e contigo". um médium preparado. para suas comuni- cações. Onde estão os Instrutores. Em verdade. um fato mediúnico. vem acompanha- da do esclarecimento: nós falaremos por ti. suplica intimamente a ajuda espiritual. deixando para os Espíritos esta preocupação. outras variações como veremos adiante. uma incorporação completa. ocorrendo então. pois. visto que o papel que este exerce na sintonia e intercâmbio é de grande relevância. em decorrência do êxito da estréia. de pú- blico. inconsciente ou não. a xenoglossia e até o raro fenômeno de transfiguração. Divaldo passou por experiência crucial para que entendesse o mecanismo do labor a que estava sendo convidado. existindo. contudo. Minutos que parecem séculos transcorrem até que surja um Espírito amigo que o adverte da absoluta necessidade de ele mesmo preparar e estudar o tema e de que aquela é uma lição da qual jamais deveria esquecer-se. com toda a naturalidade. A palavra espiritual é imperativa. No instante azado. através de ti e estaremos contigo. Está estabelecida a sintonia mediúnica (que persiste há quarenta anos). re- solve que não precisaria preparar o tema. essencialmente. não obstante a diversidade de suas manifestações. com a mente em branco." O instante inicial da trajetória de Divaldo como orador é. por que não se faziam presentes? Apavorado. É. da estruturação do tema. talvez. já que os Espíritos dirigem e atuam diretamente. desse margem à idéia de que o médium ficaria isento da preparação da palestra. vê-se sozinho e despreparado. perplexo — e entusiasmado — ante o re- sultado alcançado na sua primeira experiência como porta- voz dos Espíritos. Assombrado. o jovem. uma oratória basicamente mediúnica. . em certos casos. ou seja. ao ser convidado para uma segunda palestra. os Espíritos preferem. quando percebe alguém ao seu lado. Isso. Pode haver uma semi-incorporação ou. o transe mediúnico. todavia. porém. a psicofonia.142 SU ELY CALDAS SCHUBERT Em outro trecho: "A mediunidade é de essência única.

de Francisco Spinelli. os recursos próprios para a oratória. a assessoria mais constante é a de Vianna de Carvalho. de Carneiro de Campos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 143 É o que preconizam Erasto e Timóteo. em O Livro dos Médiuns. As palestras tiveram etapas bastante definidas e mar- cantes. Já dentro desse novo método." Após essa inolvidável aula de disciplina o orador des- ponta. porque com ele o fenômeno de comunicação se nos torna muito mais fácil do que com um médium de inteligência limitada e de es- cassos conhecimentos anteriormente adquiridos. Estes trechos podem surgir também como se fossem uma fita de telex. de natureza a nos facilitarem as comuni- cações. quando encontramos em um médium o cére- bro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes. os Espíritos colocam os trechos dos livros ante os seus olhos para que os leia. Conta Divaldo que ela o fazia ver as passagens evangé- licas e a sentir-se como participante delas. É evidente — e cumpre ressaltar — que Divaldo trouxe. dele de preferência nos servimos. ( N o capítulo 11 tratamos especificamente de Amélia Rodri- gues). podendo ser também. Mais tarde. Divaldo explica que. de- pendendo do assunto enfocado. algumas vezes. e ao labor da pregação dedicaria a sua vida. ao encarnar. Esse novo período assinala uma mudança na temática das palestras. obtidos em vidas anteriores. pois se . suspensa no espaço à sua frente e que ele lê para o público. de Ivon Costa. Eram quadros fluídicos maravilhosos. de uma policromia indescritível. capítulo X I X item 225: "Assim. Bem no início Amélia Rodrigues orienta os temas do Evangelho. ao fazer citações. que passam a ter diferentes linhas de abordagem do tema dentro de uma mesma explanação. o que atende aos diferentes níveis inte- lectuais e emocionais do público presente.

enquanto os Espí- ritos falam por seu intermédio. É um estado de transe. sem conseguir transmitir de modo convincente o pensamento deles. com variações do que ocorre na psicografia. do profundo amor com que realiza o seu trabalho. como num só bloco. pois pode ver em várias dimensões. de galvanizar emoções^ do seu mag- netismo pessoal. O que não impede que se ocupe em detectar ocor- rências espirituais relacionadas com os presentes. O fato de ver as ocorrências nos dois planos atesta a visão psíquica em avançado grau de expansão.144 SUELY CALDAS SCHUBERT os não tivesse seria apenas um repetidor dos Mentores. duas coisas principais: a descentralização momentânea. É neste instante que transmite a pessoas desconhe- cidas as notícias de algum familiar desencarnado ou ainda vários tipos de orientações. de pren- dê-lo às suas palavras. as quais descreve. quantas fileiras e t c ) . no momento em que atende a um por um. posteriormente. especial. contar as cadeiras do audi- tório (e ao final da palestra é capaz de dizer o seu total. Há ainda outros aspectos interessantes para o nosso estudo. pois. Ele menciona que tem o hábito de. Assim. para assim. à sua frente ou atrás de si. São vários gê- neros de mediunidade postos em ação ao mesmo tempo. diz ele. . enfim. portanto. de várias maneiras e intensidades. o incrível poder de atrair o auditório. Os fenômenos mediúnicos acontecem. se assim podemos dizer. interferir o menos possível. Ficam demonstradas. do seu inegável carisma. de que nos fala Geley — que a prática torna cada vez mais natural e simples — e a mediunidade em sua diversidade de manifestações.

o ambiente no Instituto estava tão agi- tado que eu resolvi sair. ele distendeu o braço e falou: — Veja. Andei pela Praça da Sé e entrei pelo Terreiro de Jesus. dis- púnhamos do horário das quinze e trinta às dezesseis horas para o lanche. onde ficam cantadores de viola. Veja a balbúrdia. São três praças conjugadas. estas duas e a de São Francisco. de aventuras e interesses escusos. já desencarnado. aqui está o mar tumultuado das paixões. mas.) . é uma balbúrdia infernal. nós. raramente eu saía. em pé. vendedores ambulantes. olhei para a basílica e vi um sacerdote franciscano. na zona tombada da cidade — muito aturdido. Quando fui passando pela porta da Catedral — é um lugar muito popular. Tinha o aspecto de um homem com uns setenta anos. 15 RESGATANDO ALMAS - O FRANCISCANO Quando eu trabalhava no IPASE. funcionários. pas- sistas. com dor de cabeça. Aproveitava o tempo para fazer a correspondência. certa vez. Mas. — Venha cá. Eu me aproximei. (É uma região do chamado "bas-fond". Fitei-o e ele me chamou. meu filho.

por- que ela ia em busca de aventura. o que faz? — perguntei-lhe. O franciscano prosseguiu. Cheguei à porta da Catedral. os "vendedores de ilusão" — prosse- guiu ele — as almas atormentadas. os pun- guistas. Indicou-me uma senhora ajoelhada.) — Esqueça o que as mãos do mundo puseram aqui. antes do compromisso negativo. muito poder. para inspirar e resgatar aqueles que estão no claro/escuro do faz-não-faz. tudo o que o mundo tem no seu lado mais infeliz está presente. Isto aqui é uma ilha que Deus colo- cou no mar das paixões humanas para diminuir os confli- tos das criaturas. Venha ver. Uns negociam o corpo e outros vendem a própria vida. orando e debatendo-se na dor íntima. Mas. — Depois que eu morri. estava dominada pelo vício. — E o senhor. Ele explicou-me: — Esta alma estava caminhando para o bordel. pedi a Deus a felicidade de me dedicar a resgatar almas que estão sendo afogadas no mar das paixões.146 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T — Observe ali. Agora venha comigo. A minha tarefa é ficar aqui à porta da Catedral. voltei-me para dentro e ele continuou: — Olhe o que aí está e esqueça do "mundo" que colo- caram aqui dentro. enquanto lá fora está a algazarra da perdição. explicando-me: — Venha comigo. (A Catedral tem paredes com pinturas de ouro. entre- mos na igreja. . o mundo agitado. o jogo. Este é o mundo. muita obra de arte. ouça o silencio da fé. chorando muito. Eu fiquei bem à porta. olhei para dentro — o santuá- rio — e para fora. imediatamente teve um conflito. Ela passou por aqui — já estava contratada por um cliente — e quando viu a igreja. O Espírito estava com a razão. A aventura.

Entre. De repente. eu me acerquei e a abracei. sen- tiu-me. Não iremos fazer o trabalho total. O SEMEADOR DE ESTRELAS 147 Nesse ligeiro conflito. minha filha. que lhe havia dado tantos conselhos. — São os fluidos — esclareceu-me o frade — em que ela está envolvida. porque o mecanismo de captação varia de acordo com o estado evolutivo de cada um. em volta. depois faça o que quiser. Ela está sustentada por essas vibra- ções. a mãezinha chegou e me ajudou a introduzi-la na igreja. falando- Ihe ao ouvido: "— Você tem o direito de jogar fora a sua vida. a an- gústia fez-se mais forte e ela se lembrou da mãe. . A mente elabora. senão. A opção é treva ou luz. começamos o trabalho de dentro para fora e vamos intuindo para que a pessoa mude também no mesmo sen- tido. Ela entrou e começou a sentir vergonha do seu estado. Ajoelhou-se e está fazendo a sua confissão à própria consciência. mas não se havia entregue ainda à dissolução. tinha muito conflito de fé. che- ga o momento do equilíbrio. uma nostalgia do tempo em que freqüentava a igreja. Nesse momento. ela desmaia. Começou a rememorar que. Eu via como se fosse um fruto que se cortasse e fossem caindo as cascas. por um pouco. entre!" Ela não ouviu a minha voz. Por isto. uma melancolia enor- me e deu-se conta de como se via afastada de Deus. no tempo em que participava da vida da igreja era uma moça sadia. Retiremos os fluidos externos e a pessoa cria novas condições internas e. Agora você veja como nós podemos agir junto aos que abrem a porta da alma para Deus." Ela hesitou e eu a inspirei mais: "— Entre. mediante o processo continuado. porém. mas tem o dever de salvar-se. Aproximou-se dela e começou a aplicar-lhe passes. por- que. que vai envol- vendo e se tornando cada vez mais grosseira. Perguntei-lhe: — Como é que ela lhe ouviu? — Chegou à mente dela uma saudade. cria uma psicosfera.

Há muitos que acusam o templo. a convite meu. a fim de que. mas não é o templo em si. Temos a considerar. O frade aproximou-se dele. com argu- mentos negativos. Era uma velhinha que cochilava. Uma dessas velhinhas típicas das igrejas. mais tran- qüilo. O movimento de Entidades. Toda tarde ela vem para cá para desencharcar-se. Agora sigamos adiante para você observar a técnica que nós usamos. E é justo que a religião seja uma escola.148 SUELY CALDAS SCHUBERT O sacerdote continuou a aplicar o passe e ela se dobrou sobre si mesma e ali cochilou. e fiquei à porta. de vários tipos. e com toda a razão. entran- do e saindo da igreja era grande. um pouco. com problemas de sexo. sentindo-se exausta. do outro o silêncio. Esta aqui está em tratamento. ao desencarnar tenha um despertar mais suave. que era freqüentador daquela re- gião. que aqui vem muita gente honesta. nem a saú- de. a alma sedenta. pois que não sabem usar a felicidade. afervo- rada. Quando passou em frente da igreja o doente da alma se benzeu. vai passando um rapaz. um rapaz atormentado. vai-se beneficiar da psicos- fera ambiente. Ela estava dormitando e ele me elucidou: — Muitos hão de dizer que a religião é para as pessoas desenganadas. nem a alegria. mas também um hospital. ao cair da tarde. atrás. automaticamente. vinha um acompanhante. Deus não ouve a religião ou o religioso. Nisto. é a conduta daqueles que vêm ao templo. porque está perto da desencarnação. Vamos ver aquela anciã. tristes e infelizes. Ele aduziu: — Ela ficará aí. e isto cria uma atmosfera psíquica positiva. um conquistador. Foi seguindo e. Era tão chocante o contraste. De um lado era o tumulto. O cliente vinha atrás — era um caso de homossexualismo — a caminho de . que eu olhava para um lado e para o outro. Eu saí. os enganados e os alegres estão-se compro- metendo. mas. Por- que os felizes. verdadeiramente cristã. abraçou-o e foi andando ao seu lado.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 149

um bordel. O frade encostou a cabeça ao ouvido do rapaz
e falou-lhe por alguns momentos. Este, de súbito, parou.
Parou e voltou. Chegou defronte da igreja, tornou a benzer-
se e fez uma genuflexão. Nesse instante ele viu o altar ao
fundo. Aí o sacerdote disse:
— Venha!
Ele olhou para a companhia e pediu que esperasse. En-
trou na Catedral e ajoelhou-se num dos bancos próprios,
benzeu-se pela terceira vez e começou a orar o "Pai Nosso",
quando o franciscano se aproximou e pôs-se a aplicar-lhe
passes longitudinais.
Ele me explicou:
— Ê um passe calmante para as funções genésicas.
O moço aí ficou, embevecido, por alguns instantes e
começou a reflexionar em torno da própria vida. Valeria a
pena a prostituição a que se entregava? E terminou choran-
do. Ficou uns quinze minutos, com o acompanhante a certa
distância. Daí a pouco este como que resmungou e resolveu
ir-se, porque o sacerdote inspirou-o para que se fosse em-
bora.
Quando o rapaz se levantou e procurou-o não o encon-
trou; resolveu entrar de novo e ficar, talvez, um pouco mais.
O frade me disse:
— Naturalmente não o resgatamos do vício, mas, hoje,
ele não descerá um degrau a mais na escada da queda moral.
O meu prazo esgotara-se e tive de retornar ao Instituto.
Periodicamente ia ver a terapêutica socorrista, que nin-
guém ou quase ninguém, conhecia! O que eu quero ressaltar
é o amor de Deus e dos Bons Espíritos sem que a gente tome
conhecimento.
Joanna de Angelis diz que quando algo de mau nos
acontece é apenas a "cauda do cometa". Se a "cauda do
cometa" nos causa tanto dano, imagine se o núcleo nos pe-
gasse de frente...
Certo dia, eu estava lá, três a quatro meses depois,
quando o franciscano me disse:

150 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Foi muito bom você ter vindo. Eu estou adestrando
dois substitutos, porque fui promovido. Agora não mais vou
ficar na porta da igreja, irei trabalhar na área dos lupana-
res, para evitar que moças inexperientes resvalem e que cer-
tos crimes ali se cometam. Irei dirigir um grupo de socor-
ristas e estes aqui são dois franciscanos recém-desencarna-
dos que me irão substituir.
Despedimo-nos, como dois bons amigos, e, como pela
outra área raramente eu passava, nunca mais vi este Es-
pírito.
Os dois substitutos continuam lá, há vários anos. São
mais jovens e ainda estão no mesmo local.
Como Deus não nos deixa órfãos! De todas aquelas pes-
soas que por aí passam, algumas se adentram na Catedral,
e dizem: — Senti uma enorme vontade de entrar na igreja,
e, graças a Deus eu o fiz, pois isto salvou-me!
Ê uma programática do mundo espiritual agindo sem-
pre para o bem.

Em O Livro dos Espíritos, na parte referente à Inter-
venção dos Espíritos, questão 519, o Codificador indaga:
"— As aglomerações de indivíduos, como as sociedades,
as cidades, as nações, têm Espíritos protetores especiais?"
A resposta dos Instrutores Espirituais foi a seguinte:
"— Têm, pela razão de que esses agregados são indivi-
dualidades coletivas que, caminhando para um objetivo co-
mum, precisam de uma direção superior."
O surpreendente relato de Divaldo é bem uma pequena
amostra de como a Misericórdia Divina age em benefício
dos seres humanos.
O resgate de almas é trabalho realizado diuturnamente,
em quaisquer situações e lugares. E a certeza dessa ativi-
dade é comovente! Basta apenas a mais leve predisposição,
o mais ligeiro pensamento que expresse desejo de mudan-

O SEMEADOR DE ESTRELAS 151

ça, de renovação moral e as portas do coração se abrem
para a bênção divina. Por isso é que Leon Denis afirma:
" ( . . . ) na morada mais mesquinha, no mais miserável
tugúrio há frestas para Deus e o Infinito". (O Problema do
Ser, do Destino e da Dor)
Em outra obra sua, O Grande Enigma, disserta a res-
peito da prece e de sua importância para o ser humano;
"A prece é a expressão mais alta dessa comunhão das
Almas. Considerada sob este aspecto, ela perde toda a ana-
logia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em
uso, para se tornar um transporte do coração, um ato da
vontade, pelo qual o Espírito se desliga das servidões da
Matéria, das vulgaridades terrestres, pára perscrutar as leis,
os mistérios do poder infinito e a ele submeter-se em todas
as coisas: "Pedi e recebereis"! Tomada neste sentido, a pre-
ce é o ato mais importante da vida; é a aspiração ardente
do ser humano que sente sua pequenez e sua miséria e pro-
cura, p e l o menos um instante, pôr as vibrações do seu
pensamento em harmonia com a sinfonia eterna."
A Doutrina Espírita reconhece o valor e a eficácia da
prece e, uma vez mais, verificamos, na prática — neste caso
narrado por Divaldo — como funciona esse mecanismo de
socorro e atendimento.
Entretanto, é sempre com certa perplexidade que v e -
rificamos, em nosso próprio meio, vicejarem as idéias con-
trárias à prece.
Tais idéias têm encontrado campo propício, a pretexto
de não se adotarem rituais em nossas atividades doutri-
nárias.
Observamos com pesar, que muitos se deixam envolver
por esses argumentos favorecendo assim o programa das
trevas, que começa a ganhar terreno por incúria nossa.
Alega-se, por exemplo, que o fato de se fazer a prece
antes e depois dos trabalhos doutrinários ou mediúnicos é
um ritual. Vê-se que estão confundindo disciplina e método
com ritos. Esta distinção precisa ser muito bem avaliada.

152 SU ELY CALDAS SCHUBERT

"Ritos, segundo o dicionário, são as regras e cerimô-
nias que se devem observar na prática de uma religião. As
normas do ritual.
Ritual: referente a rito(s). Culto. Liturgia. Cerimonial.
Etiqueta.
Liturgia: O culto público e oficial instituído por uma
igreja; ritual.
Disciplina: Regime de ordem imposta ou livremente
consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular
de uma organização. Observância de preceitos ou normas.
Método: Modo de proceder; maneira de agir."
Em nossas atividades espíritas existem método e disci-
plina, mas não os ritos, compreendendo-se por tais as ceri-
mônias, as práticas exteriores. 0 fato de se repetir determi-
nada prática — como a prece — não significa que essa repe-
tição caracterize um ritual, conforme vimos, mas, sim, um
método e uma disciplina de trabalho.
A prece é um ato subjetivo, interior. A prece feita em
conjunto significa comunhão de pensamentos, tão necessá-
ria ao êxito das tarefas espíritas, como de resto a qualquer
assembléia religiosa, consoante enfatiza Allan Kardec em
seu discurso do dia 1.° de novembro de 1868.
Jesus legou à Humanidade o 'Pai Nosso", como modelo
de oração. Quase todos os grandes vultos do Espiritismo
referem-se à excelência da prece.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, por várias ve-
zes esse tema é abordado, mormente nos capítulos finais.
E o mestre de Lyon considerou-a tão importante que reu-
niu vários modelos de prece para orientar os espíritas.
Na atualidade, os autores espirituais são unânimes em
exaltar os profundos benefícios decorrentes da prece feita
com o coração, com o sentimento.
É pois, de se estranhar, que em certos setores de nosso
Movimento esteja grassando esse modismo de se querer abo-
lir a prece de nossos eventos e tarefas. São idéias que se
vão infiltrando de modo sutil, quase imperceptível, mas que

O SEMEADOR DE ESTRELAS 153

traduzem uma postura perigosa. Realmente, tirando-se a
oração de nossos trabalhos, fecharemos a porta à inspiração
do Mais Alto, ao intercâmbio com os Mentores do nosso
Movimento. Convém não esquecer que é exatamente através
da prece que nós, encarnados, elevamos nosso padrão vibra-
tório para a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

* * *

É comovedor o esforço realizado pelo nosso irmão fran-
ciscano, resgatando almas do "mar das paixões", como ele
próprio diz. Essa atividade é feita no silêncio, no anoni-
mato. Divaldo nem sequer soube-lhe o nome!
Que lição maravilhosa nos transmite esse humilde fra-
de e quanto é reconfortante sabermos que a Bondade do
Pai está atenta ao menor sinal de renovação do ser humano.
Para alguns pode soar estranho este relato, pois, talvez,
a fim de se fugir ao atavismo, muitos se convencem que as
igrejas católicas não oferecem ambiente espiritual propício.
Todavia, o nosso sacerdote mencionado revela que a con-
duta dos que vão ao templo é que vai determinar a sua psi-
cosfera espiritual. É preciso também convir que para nu-
merosas almas a igreja ainda é o refúgio, o abrigo, a fé.
A técnica adotada pelo franciscano lembra, de certa ma-
neira, a que é praticada nas sessões mediúnicas na parte
referente ao resgate dos Espíritos que vêm, conduzidos para
a doutrinação.

16

A MOÇA DE CATANDUVA

Oportunamente fui pregar em Catanduva. Naquele tem-
po viajava-se muito em trens noturnos. Eu o tomava em
Catanduva e ia até São Paulo. Era uma viagem razoavel-
mente confortável.
Numa das vezes em que estive naquela cidade, ao re-
gressar, Dona Lola Sanchez e outros confrades me levaram
até a estação ferroviária. O trem saía às vinte e duas horas
e trinta minutos.
Quando cheguei à plataforma com Dona Lola e os de-
mais companheiros, chamou-me a atenção uma senhora
camponesa despedindo-se da filha. A jovem era uma daque-
las meninas bonitinhas, bem modestas, do interior, vestida
com simplicidade, o cabelo liso, partido ao meio e muito
mimosa.
A mãe abraçava-a e despedia-se, beijava-a e abraçava-a
de novo e a cena comoveu-me. Fiquei olhando a ternura da
mãe com a filha de dezoito ou dezenove anos.
O trem deu o primeiro sinal de partida e me despedi dos
amigos, de Dona Lola, Senhor Benedito, da Aparecida e en-
trei, calmamente.
A mocinha entrou também, apressadamente.
O vagão não estava muito cheio. Eu me sentei à janela,
do lado da plataforma para dar adeus aos amigos, enquanto
que ela sentou-se do outro lado, sozinha.

não deixe que ela seja seduzida — eu rogava. ele havia passado o braço por trás da pol- trona e se lhe chegara mais perto. A medida que o veículo se movia. daqueles tipos de conquistadores de oca- sião. Ele abriu a porta. totalmente desarmada.. entrava no trem e se implantava na moça. não saberá defender-se. que estava junto à janela. comprou frutas. uma despedida quase trágica. Ante a gentileza. entrou. a moça ficou animada. e a lembrança me sensibilizou tanto que prossegui orando. Refleti. como se fosse uma nuvem alongada — a idéia era de um arminho muito grosso de meio metro de circunferência. olhou a todos. ajeitou-se e foi sentar-se ao lado dela. tímida. quase desaparecendo. Recor- dei-me da sua mãe. Examinou-a atentamente. houve uma parada. . temendo o que viria depois: Meu Deus. Quando chegamos a Araraquara. Dentro em pouco ele já estava conversando com a jo- vem. Numa estação mais adiante. A mocinha chorou um pouco e depois recostou-se. Ela. num jeito de quem olha a pessoa e despe-a. Passou o tempo. aliciadores de me- nores . Eu pensei: Que coisa estranha esse indivíduo! Parece-se a um desses conquistadores baratos. A mãe dava-lhe adeus e chorava. Vendo a cena eu orei. A viagem prosseguiu. porque. preparando-se para algum repouso desde que a jornada se- ria longa: umas sete horas em média. pedindo a Jesus que a protegesse. ele saltou. comigo mesmo: Meu Deus. que brotava do centro car- díaco. deteve-se na moça — o olhar dele era tão típico que me chamou a atenção. encolheu-se um pouco. a coitada vai cair nas malhas do sedutor. eu vi que da mãe saía um fluido leitoso. aquele fluido foi-se afinando. Entrou um rapaz. ofereceu-lhas. quando percebi.. O SEMEADOR DE ESTRELAS 155 Quando a composição começou a mover-se. Ele parecia muito loquaz. Fiquei distraído com outras coisas e. cabelo glostorado.

Olhou para mim e para o par. com um pente alto preso aos cabelos. tão delicado. ten- tando limpar-se. atingindo-o de alto a baixo. . Logo naquele rapaz. para bloquear o lugar e perguntei-lhe: — Minha filha. é no ho- mem. virou-se para mim e justifi- cou-se: — Veja. fez-me uma saudação e desa- pareceu. De repente. — A tua prece foi ouvida — falou-me. Eu. dizia: Não é nela. uma mantilha de renda. então. dei-o para ela e entendi a técnica que o Espírito usara.. de repente me subiu uma coisa. ameaçada de cair nas arma- dilhas de um sedutor profissional. — Você está indo para onde? — Estou indo para São Paulo — explicou-me — para trabalhar como dama de companhia numa casa. Sentei-me a seu lado. você está doente? — Não senhor. muito bonito. Terminou. Era uma Entidade veneranda. à antiga. De súbito. porém. a moça teve um engulho e vomitou no homem. pensando que algo estava errado. pedindo por ela.. sorriu e continuou aplicando os passes na moça. O homem deu um salto e gritou: — Miserável! Veja o que fez! — E saiu furioso. Dirigiu-se para os dois e começou a aplicar passes na moça.156 SUELY CALDAS SCHUBERT Fiquei a imaginar: Certamente ela é uma mocinha que vai tentar a vida em São Paulo. Fiquei orando. Afaste-o dela! O Espírito olhou-me. tipo sevilhana. . — Você o conhece? — Não senhor. eu nunca enjoei. e aquele . Eu fiquei frustrado. Tirei um lenço. entrou um Espírito vestido à espanhola. um vestido longo. A moça. muito sem jeito. mentalmente.

sorrindo: — Está melhor? Ele deu uma resposta a seu tipo e foi-se. — Você vai fazer exatamente como a sua mãe lhe man- dou — aconselhei. muito educado. De princípio. que me queria levar para a casa da tia. Fiquei-lhe ao lado até chegarmos a São Paulo. Ele estava explicando-me quando aconteceu isto. Olhei-o e perguntei-lhe. — Mas. a roupa branca com manchas cor de café. enquanto eu fiquei a reflexionar na forma como os Espíritos agem. que recebe moças como pensionistas. Expliquei-lhe o que era e ela ficou muito surpresa. — Falou até que estava apaixonado por mim. não é possível. todo sujo. veio dar-me o endereço de uma tia. sobressai a vibração de amor da mãe ao se despedir da filha. Deste interessante caso derivam vários pontos para uma melhor reflexão. Vale a pena recordar o que diz André Luiz. Quando saltamos. através da vidência de Divaldo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 157 rapaz. na estação. — Este rapaz é um aliciador de moças para a loucura do sexo desregrado. Novamente. vi- mos o rapaz descer do trem. que nunca tinha visto uma moça tão bonita como eu. a fim de defender-me dos "lobos" que existem em São Paulo. O que é que eu faço agora? — Você vai ser dama de companhia — respondi-lhe. Ele estava até me ofe- recendo um emprego melhor. em Evolu- ção em Dois Mundos. Neste momento. segui com ela. porque ele tem a missão de contratar moças para trabalhar e a tia recebe-as. ele ê tão delicado! — respon- deu-me. os fatos são vistos pelo ângulo espiritual. a respeito de fluidos: .

"E assim como o átomo é uma força viva e poderosa na própria contextura. embora viva e poderosa na composição em que se derrama do espírito que a produz. impacto e estru- a tura. pelas barreiras que o corpo físico representa. com um fluido vivo e multiforme. em processo vitalista semelhante à respiração. alimentício ou esgotante. "Esse fluido é o seu próprio pensamento contínuo. conforme a quan- tidade. de vez que podemos defini-lo.158 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o plano espiritual. não difere do que ocorre ao encarna- do. nomeável. em fluido gravitante ou libertador." Mais adiante o mesmo autor espiritual afirma em rela- ção à força do pensamento: "A partícula de pensamento. a nascer-lhe da própria alma. ge- rando potenciais energéticos com que não havia sonhado. o homem desencarnado vai lidar. transubstanciando-a. a não ser. explicado por André Luiz em relação ao homem desencarnado. a partir de si mesma. entretanto." (Evolução em Dois Mundos. é uma unidade na essência. comportamento e trajetórias dos compo- nentes que a integram. qualidade. por acumulação. mas como o autor ressalta é no plano . como corpúsculo fluídico. é igualmente passiva perante o sentimento que lhe dá forma e natureza para o bem ou para o mal. convertendo-se. à falta de terminologia equivalente. doce ou amargo. es- tuante e inestancável. a subdividir-se. mais diretamente. edi- ção F E B ) Este processo. em diversos tipos. evidentemente. até certo ponto. capítulo X I I I — 1. porém. sob a própria responsabilidade. por subproduto do fluido cósmico. vivificador ou mortí- fero. para influenciar na Criação. absorvido pela mente humana. pelo qual a criatura assi- mila a força emanente do Criador. pois. diante da inteligên- cia que a mobiliza para o bem ou para o mal. força essa que lhe opera a diferenciação de massa e trajeto. a partícula do pensamento. ácido ou balsâmico. por "raio de emoção" ou "raio do desejo". segundo a força do sentimento que o tipifica e confi- gura. esparsa em todo o Cos- mo. passiva. tanto quanto o átomo.

uma nobre forma de auxiliar o próximo e de exer- cer a caridade. Esta é. nas ocorrências da vida cotidiana. A resposta ao pedido não se fez esperar. Há que se considerar o mérito da moça ou de sua mãe. o homem. E da certeza de que face às situações as mais inusitadas e com- plexas. A técnica de ajuda que a Entidade Amiga adotou é dig- na de menção. se revolta contra certos fatos que. Por não de- tectar as atividades da Espiritualidade. de pequena monta ou não. não raras vezes. * * * Com sua atenção despertada desde o início da viagem. sempre haveria . Se a Benfeitora Espiritual tivesse aplicado o passe no homem. sempre se pode usar o excelente recurso da prece. É que nem sempre nos é dado avaliar ou entender como se processam os atendimentos. quantas sur- presas e situações desagradáveis. visando retirá-lo do lado da moça. seja em benefício pessoal seja em proveito de outrem. mas. ou de ambas. de comparecer a certos lu- gares que lhe seriam prejudiciais. em geral acontecem para o seu próprio benefício. a presença dele facili- tou o socorro espiritual. O SEMEADOR DE ESTRELAS 159 espiritual que o ser humano tem condiçções de aquilatar esse mecanismo. Evidentemente este mérito vale- ria em qualquer circunstância. no trem noturno. de agir impensadamente! Esses impedimentos proporcionam momentos de reflexão e se constituem em ensejos preciosos para que o auxílio do Mundo Maior se faça. Quantos impedimentos e obstáculos. aliás. surgem no caminho da criatura exatamente para impedi-la de cometer determinados erros. que propiciou fosse Divaldo o seu vizinho de poltrona. É nesse momento que utiliza a prece em benefício dela. Divaldo registra as más intenções do homem que toma lu- gar junto à jovem. E eis-nos outra vez diante da eficácia da oração.

Ficamos. E de que a prece é o meio mais eficaz quando se deseja ser útil. o homem retirou-se revoltado e com asco. Isso o afastou de vez. .160 SUELY CALDAS SCHUBERT a possibilidade que ele retornasse à carga. Agindo direta- mente sobre a jovem. todavia. Esse curioso caso proporciona ainda outras conclusões. com a certeza de que. da forma como aconteceu. onde estiver- mos. em qualquer momento. haverá um meio de ajudar ao semelhante. especialmente quando nos faltem quais- quer outros recursos.

Olhei-o e o vi gordo. Um dia eu soube que ela estava muito mal. já que eu vim aqui em nome de Auta de Souza. porque não tenho com quem deixar o meu filho. morra em paz. minha irmã — respondi-lhe —. . pois ele será meu filho. — O senhor garante que fará meu filho feliz? — Garanto. No dia em que alguém puder tomar conta dele. — Então. uma moça tuberculosa. — Olhe o meu filhinho — pediu-me. 17 DESDE O TEMPO DAS CRUZADAS Uma das assistidas pela 'Caravana Auta de Souza". no ca- sebre de taipa e palha. para comprar leite e pó-de-arroz para passar nele. eu não posso morrer. para tran- qüilizá-la e dizer-lhe que tomaremos conta de seu filho. e estava sobre uma rede em cima da cama dela. Quando lá cheguei o menino já havia nascido. ficou grávida. Fui visitá-la. morrerei em paz. minha irmã. fique com Deus! . de vinte e dois anos. — Quando me dão dinheiro — explicou a mãe — eu deixo de comprar comida para mim. — Pode ficar em paz. há alguns dias. todo caiado de talco. muito pretinho. . — Então. A doente me disse: — Irmão Divaldo.

a Jesus. a roupinha negra. Quando o garoto estava com oito meses adoeceu. que lhe restituísse a saúde. Olhou para a criança e falou-me: — Meu filho não deve voltar agora. teve uma hemoptise e morreu. a luz movimentava-se chamando-me a aten- ção. Deite-se ao lado dele. Ele me pediu: — Tio. ficou muito mal.162 SUELY CALDAS SCHUBERT Foram suas últimas palavras. com uma luz oscilante. Atendi-lhe a solicitação. pois vou fazer uma transfusão de forças. Chamei algumas pessoas para me ajudarem. ao lado da cama. levou o menino e. Veio uma das tias. Depois. pois estava com temperatura de quarenta graus. rogando. com muito fervor. de prana. carre- gando uma lanterna. de energias ectoplásmicas. Por debaixo da fresta da porta. ela voltou a falar-me: . na testa. vi aproximar-se um ser venerando. Após trinta minutos. antes de se adentrar pelo quarto. de onze anos aproximadamente. en- quanto recebia a transfusão de forças. A Entidade era tão luminosa que. vendo-o quase morto. não me deixe morrer. Virou a cabeça para o lado. febre alta e eu tinha receio de uma convulsão. o laço de fita negra. na Inglaterra. os cabelos penteados à escovinha. os sapatos "scarpin" com fivela de prata. vi como se alguém estivesse caminhando pelo corredor. aproximadamente. Ela começou a orar. — Peçamos a Deus. Ele estava prostrado pela pneu- monia. Nisso. a camisa branca rendada. dobrei-me so- bre ele. e comecei a aplicar-lhe passes. unir-me à mamãe. fizemos o enterro. com a gola alta muito eriçada. perispírito a perispírito. Eu tenho que viver para poder. meu filho. e vi. Preocupado. terminadas em punhos de renda. as mangas bufantes. Vou desdobrá-lo a fim de o vitalizar. um dia. Ele se desdobrou e surgiu aos meus olhos como um pajem francês. após tirarmos o cadáver ateamos fogo no barraco. O corpinho da criança tremia. através da porta. um Espírito vestido à moda do século XVII.

eu queria passar antes pelos que não receberam a visita de sua própria genitora. zelosamente. já bem mais tranqüilos e per- guntei-lhe: — Desde quando a senhora é mãe dele? — Desde o século XI.. custe o que custar. porque ele veio nessa situação para aprender a humildade. Esta reencarnação é-lhe decisiva. de que participou. — Mas. por que a senhora demorou tanto a aparecer? — Porque antes de vir vê-lo. recebendo os beijos e a ternura dos outros. tudo faremos. de mim. e ele sempre que mergulha na névoa do mundo. — Faça isto. Daqui a dez anos eu voltarei. recomendou-me: — Não lhe deixe a temperatura cair muito. A criança agora transpirava abundantemente. diante daquele corpinho frágil que necessitava pros- seguir com a vida física. várias vezes. a minha vida. Divaldo. Ela. O SEMEADOR DE ESTRELAS 163 — Ouço uma voz que afirma que as nossas preces fo- ram atendidas: ele ficará na Terra. mas. Mudei-lhe a roupinha. — O menino vai viver — afirmei-lhe — porque. Ele tem de servir a Jesus. nem que eu tenha de lhe dar o meu corpo. tenho sido sua mãe. no Além. Começamos a conversar. retornou ao cor- po e eu o vi encaixar-se para prosseguir na prova redentora. o meu dever é amar os estranhos para mais amar ao meu filho. não os podem visitar e deixei o meu — por- que todos são de Deus — por último.. Fui primeiro ver os filhos cujas mães. a fim de evitar-lhe um colapso cardíaco. minha irmã. Quase cheguei tarde. Ela me falou com tanto amor e ternura que comecei a chorar. se de- pender de nós. O jovenzinho espiritual. . perde-se de mim. visitei todos os que aqui nesta casa não têm mãe. prestamente. Meu filho tem de resgatar os crimes cometidos durante a Terceira Cruzada. Não o deixe fracassar desta vez. sem o carinho de mãe. Ele viverá! Deus nos vai ajudar.

Apresentou-se-me com a mes- ma beleza espiritual e afirmou-me: — Nas leis do mundo espiritual. arcebispo de Tiro. que está no livro Filigranas de Luz. os obsessores desencarnavam- no. que se não houves- se muito amor em volta dele. quando alguém come- mora dez anos. Dez anos depois. — Com quantos anos ele se comprometeu? — Com vinte e seis anos. No século XIX ele veio com o "mal de Hansen". Tagore escreveu para esse menino a página "Testamento do Rei". A Terceira Cruzada deve ter sido há uns 800 anos e pre- gada por Guilherme. Cristo. pela conduta irresponsável. especialmente para o trabalho anônimo e can- sativo dos passes. — Mais tarde — prosseguiu ela — será encaminhado à mediunidade. porque ele era sugado. para ele. Era o interesse da igrejificação do poder. tornando-se credor do prosseguimen- to na tarefa. No dia seguinte. eu parti- cipava da sua festinha — nós comemoramos os aniversários do mês em uma mesma data e aquele era dia do aniversário dele — quando me lembrei de sua mãe espiritual e fiz uma prece. Esse Espírito esclareceu-me. Meu filho viverá. Indaguei-lhe o porquê dessa demora em reabi- litar o passado. adquire mérito para um pedido à Divindade. que lhe foi o grande despertador e agora veio em outra prova. Quem é fiel e permanece no trabalho por um decênio já não é mais um entusiasta. Ela explicou-me: — Ele voltou sempre na viciação clerical. A terapia dos passes é uma tarefa de re- . Tenho notícias de que ele vai viver até ultrapassar a idade na qual ele maculou o nome do Cristo. ainda.164 SUELY CALDAS SCHUBERT Despediu-se de mim e desapareceu. Ao final. era só um móvel para atingir as metas. vampirizado pelas vítimas de antanho. no dia do aniversário dele. ela apareceu-me. Agora é que ele está resgatando.

ignora quem o ajudou. então. tendo como pano de fun- do a dor e a miséria. feliz —. quando o paciente se recupera. de chofre. adulto. um bebê recém-nascido compõem um novo quadro. como se o débil organismo físico a expul- sasse. A criança é levada para a sua nova vida. a alma que se des- pede. prometendo retornar após mais dez anos. uma mulher tuberculosa. O SEMEADOR DE ESTRELAS 165 denção. Um barraco de taipa e palha. Mas. alguém vela por essa solidão e entra no barraco como se fosse o próprio sol a dissipar as sombras dos mais tristes presságios que invadiam o coração dorido da po- bre mãe. É apenas um bebé. dos muitos que já passaram pela "Mansão do Caminho". prestes a abandonar a vida terrena. graças à sua mediunidade. Acho este jato de uma beleza comovedora. mais um. aquietando-se-lhe. trabalha- dor. o compromisso selado à beira de sua humilde enxerga — e o vê no futuro. tornam-se conhe- cidos. É impressionante a riqueza desses fatos que Divaldo narra e que. Ela se despediu. Mas a mulher. onde a pessoa dá de si mesma e depois. o dia que finda e o ama- nhecer de promessas e esperanças. entre as dores de um parto em que a vida triunfa. da morte. . — Eu o farei feliz. Morte e vida! O crepúsculo. um novo ato do pungente drama humano. — Ele será meu filho — promete. Tese e antítese que se vão fundir na síntese final da Vida que prossegue além da vida. Ela ouve a promessa. definitivamente. luta para manter o filho — a vida que se inicia na carne. Aparentemente uma história simples e triste. no constante confronto dos contrários.

Com o concurso dos médiuns videntes. Outros há em quem a faculdade da vidência é ainda . * * * Em O Livro dos Médiuns. É seu filho. Um detalhe que primeiro chama a atenção é que Dival- do vê a Entidade através da porta. 103) Também no capítulo X I V . os traços do sem- blante. conforme descreve. com as menores particularida- des. possível nos foi estudar o mundo invisível. as vestes e. em plena vivência da promessa. alguns há que só vêem os Espí- ritos evocados e cuja descrição podem fazer com exatidão minuciosa. referente às categorias de mé- diuns. e a certa altura diz: "O microscópio revelou-nos o mundo dos infinitamente pequenos. senão perma- nente. Aplica-lhe pas- ses. Divaldo. propria- mente falando. conhe- cer-lhe os costumes. até. Em sua aflição ora e intercede por ele.166 SUELY CALDAS SCHUBERT A o s 8 meses enferma gravemente. ela ainda não entrara no quarto. também constitui uma das forças ativas da Natureza. "Entre esses médiuns. aflige-se. com o auxílio dos médiuns videntes. os gestos. o Espiritis- mo. "A faculdade consiste na possibilidade. o médium vidente. Descrevem-lhe. que aí está en- fermo. revelou-nos o mun- do dos Espíritos. pelo menos freqüente de ver qualquer Espírito que se apresente. a expressão da fisionomia. o Codificador esclarece quanto aos médiuns videntes. de cuja existência não suspeitávamos. A posse desta faculdade é o que constitui. Allan Kardec dedica o capí- tulo VI à questão das "Manifestações Visuais". Neste momento tem uma belíssima visita. preocupa-se." (it. ainda que seja absolutamente estranho ao vi- dente. como um povo de cegos poderia estu- dar o mundo visível com o auxílio de alguns homens que gozassem da faculdade de ver. que por seu lado. os sentimentos de que parecem ani- mados. c o m risco de vida.

Virgínia e um cavalheiro num jardim. As narrativas de D i v a l d o e Chico X a v i e r apresentam esta similitude. Esta era mãe do Dr. a sra. quando em desdobramento. em Zeus Wantuil. a se mover em todos os sentidos. no qual Chico narra. uma autonomia maior. portanto. que em desdobramento encontrara um Espírito cercado de luz. em carta da- tada de 25-11-1948. o perispírito sob o comando do Espírito miniaturiza-se e assume a mor- fologia que terá daí por diante à qual imprime no corpo em formação. poder-se-ia dizer. Note-se que embora criança. isto é. Zêus-Espírito apresenta-se como adulto. no processo reencarnatório. Wantuil de Freitas e o cava- lheiro ele identificaria. Um outro ponto se destaca: é o desdobramento do Es- pírito encarnado no corpo infantil. 168) * * * Pela vidência Divaldo acompanha todo o desenrolar do socorro que a mãe presta ao filho. fisica- mente falando. editado pela FEB. mais tarde. em certos casos. cuidando. Quando este surge dian- te do médium está com a sua aparência anterior. àque- la época uma criança. Infere-se. O SEMEADOR DE ESTRELAS 167 mais ampla: vêem toda a população espírita ambiente. conforme lhe fosse conve- niente. . Sabe-se que. (it. sendo ele próprio convo- cado a colaborar com suas energias para a renovação das forças da criança. Antes de qualquer comentário é oportuno meditarmos o quão pouco sabemos a respeito do perispírito. de sua última existência. de seus afazeres. Isto nos recorda um capítulo de nosso livro Testemu- nhos de Chico Xavier. Este processo só se completa quando a criança atinge os 7 anos de idade. o que proporciona então uma reação or- gânica contra a infecção. intitulado "Um sonho que se realizou". que durante estes sete primeiros anos o Espírito poderia ter.

"Entre as "guerras santas" nenhuma foi mais sangren- ta e mais dilatada do que as Cruzadas cristãs. 1202-1204. essa plasticidade do perispírito de um Espírito encarnado. Quinta Cru- zada. Segunda Cruzada. que traz consigo. 1189-1192. 1096-1099. Ressalta ainda deste texto a comovedora dedicação da Entidade que se apresenta como mãe espiritual da criança.168 SU ELY CALDAS SCHUBERT Assim se explica. a Igreja de Roma viu nelas uma oportunidade de alargar para . 1248-1264. Só aos poucos vamos desvendando essas nuanças do processo reencarnatório. Sétima Cruzada. As Cruzadas aconteceram entre os Séculos X I e X I I I . das funções do perispírito e. 1218-1221. de maneira lógica. Ela explica que ele cometera graves crimes por ocasião da Terceira Cruzada. A ligação entre ambos. 1147-1149. Essas guerras convulsionaram a Europa e o Oriente Próximo durante 178 anos. Cruzada das Crianças. 1228-1229. durante a Idade Média. * # * As Cruzadas eram expedições militares de caráter reli- gioso. como mãe e filho. isto. Oitava Cruzada. 1270-1274. inclusive. muitas lembranças do passado. A programação das reencarnações varia ao infinito e tanto no caso da criança enferma quanto no de Zeus houve permissão — talvez por necessidade e/ou mérito — dessa autonomia. quando leigos e religiosos se uniram numa tentativa maciça de recuperar a "Terra Santa da Cristandade" em poder dos muçulmanos infiéis. Terceira Cruzada. Os historiadores costumam estabelecer as seguintes datas para as Cruzadas: Primeira Cruzada. vem desde o século X I . Sexta Cruzada. Quarta Cruzada. 1212. graças à mediunidade e à revelação dos Espíritos. Além da alegação notória que as lançou — to- mar os Lugares Santos da Cristandade em Jerusalém —.

e foi por esta época que o Espírito hoje reencarnado no menino adotado por Divaldo. uma pro- funda reverência pelo solo pisado por Jesus. uma grande força de fé também dirigia os Cruzados. mas só os mantiveram em sua posse menos de cem anos. a lei de Maomé dominava as terras onde se haviam travado as batalhas." (Dados extraídos da "Biblioteca de História Universal L i f e " ) *** A Terceira Cruzada aconteceu no século X I I . onde imperava a sua grande rival. tinham perfeita noção das recompen- sas prometidas pela Igreja — inclusive a remissão de peni- tências pelos seus pecados e moratórias para as suas dívi- das. "Os próprios Cruzados obedeciam a impulsos conflitan- tes. e a Europa novamente deveria voltar-se sobre si própria. entre 1189 e 1192. E tanto nessa obra de conquista como na realização do sonho de estender até ao Oriente o poderio do Ocidente. porém. a Igreja Grega. . os Cruzados fracassaram. Os reis e senhores feudais da Europa ocidental viam perspectivas de adquirir novas terras e ri- quezas e o clero esperava encontrar um escoadouro para os rixentos e desordeiros. "Os Cruzados recuperaram os Lugares Santos. Muitos. Vio- lavam e saqueavam outros cristãos e cometiam terríveis atrocidades contra os inimigos muçulmanos. ao final. A própria mãe esclarece que ele usou o nome do Cristo para se locupletar através do poder que a Igreja lhe con- ferira. Porém jamais seria a mesma Europa. mostravam-se dissolutos e brutais. Contudo. Ao se encerrarem as Cruzadas. o império bizantino dos cristãos orientais estava fatalmente abalado. Tomando a cruz. O SEMEADOR DE ESTRELAS 169 o Oriente os seus domínios. suas janelas para o mundo tinham-se aberto e todos os aspectos da vida medieval haviam sido afetados. se comprometeu grave- mente.

em nossa mesquinha pequenez quantas vezes o usur- pamos para mascarar nossas tenebrosas intenções? E hoje. São os mais hediondos que o ser humano pode cometer. Entre- tanto. o que esta- mos fazendo do nome d'Ele? Da Sua mensagem? Do Con- solador que Ele prometeu à Humanidade? O que fazemos do Cristo? . a cada testemunho vivo que apresentam o quanto são gravíssimos os crimes perpetrados em nome do Cristo. pois além do crime em si ainda levam o agravante de usarem o nome d'Ele. que para todos nós deveria ser sagrado. engajados nas hostes espiritistas.170 SUELY C A L D A S S C H U B E R T Como se pode perceber a cada passo dos ensinos dos Espíritos.

a mensageira de Maria Santíssima. meu filho. perguntei ao Dr. Bezerra de Menezes. e eu vi. tocando-me. Chegaram os meus familiares. bela e radiosa. uma multidão que me acenava. A Mãe de Jesus pediu-me que lhe dissesse que você já se encontra na Vida Maior. meu filho. . é você. Celina. havendo atravessado a porta da imortalidade. meu amigo. Bezerra! Abri os olhos e vi-a. se aproximou do leito em que eu ainda estava dormindo. 18 A FELICIDADE DE BEZERRA DE MENEZES Um dia. Bezer- ra. Bezerra. Agora. e. falou. qual foi a sua maior felicidade quando chegou ao plano espiritual. Então. que me parecia vir de fora. acorde. — Minha filha. foi quando Ce- lina. Ajudando-me a erguer-me do leito. Celina?! — Sim. suavemente: — Bezerra. amparou-me até uma sacada. Ele respondeu-me: — A minha maior felicidade. me disse: — Venha ver. eu ouvia um murmúrio. sou eu. com ternura e lágrimas nos olhos. Mas. os companheiros que- ridos das hostes espíritas que me vinham saudar. desperte feliz.

reunia. mas eminentemente sentidos e vividos. os nomes mais expressivos e respeitáveis do meio espírita e despontava como autêntico celeiro de luzes aclarando e dissipando as densas nuvens formadas pelas divergências e disputas em que se empenhavam os espiri- tistas da época. Na sua gestão. a quem você estimulou e guiou. São eles. porquanto. das lágrimas que enxuga- mos.. E o Dr. que chegaram às sessões mediúnicas e a sua palavra caiu sobre eles como um bálsamo numa ferida em chaga viva. Bezerra imprimiria o cunho evangélico. promovendo. Quem são? — São aqueles a quem você consolou. Bezerra concluiu: — A felicidade sem lindes existe. sem nunca per- guntar-lhes o nome. no ano de 1895. que eram por ele não apenas ressaltados. Somente uma mensagem desse quilate teria o condão de unir os espíritas. realmente. são os esquecidos da Terra. tanto de uma .. então. para atapetar a senda que um dia percorreremos. fundada em 1884 por Augusto Elias da Silva. Bezer- ra de Menezes leva-nos a recordar alguns momentos da vida desse grande missionário. escoimando. Celina? — perguntei-lhe — não conheço a ninguém. que o vêm saudar no pórtico da eternidade. meu filho. sobressain- do-se a dos "místicos" e a dos "científicos". como de- corrência do bem que fazemos. a orientação pautada nos ensinos de Jesus. que foi Presidente da Fede- ração Espírita Brasileira. a aliança entre a Ciência e a Religião. São aqueles Espíritos atormentados. Este belo diálogo mantido entre Divaldo e o Dr. alicerçadas nas bases sóli- das da Doutrina Espírita.172 SUELY CALDAS SCHUBERT — Quem são. das palavras que semeamos no caminho. os destroçados do mundo. A FEB. divididos em várias correntes.

Diz estar satisfeito com as ocorrências do . Uma sessão mediúnica memorável aconteceu. Comunicaram-se quatro entidades: a primeira delas pelo próprio Divaldo e a quarta por nosso intermédio. no final do século. a sua ação caritativa no desempenho de sua atividade profis- sional e na vivência em geral. por ocasião da reunião do Conselho Federativo Nacional. O comunicante transmite. estando presente para as sessões do CFN e palestras. na sede da FEB. tem vindo ditar a Divaldo e outros médiuns as suas experiências no resgate de almas transviadas. esse Espírito de escol. Uma delas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 173 quanto de outra. a de doutrinador e dirigente de reuniões mediúnicas. Além dessa atuação decisiva à frente do Movimento Es- pírita. Este. Bezerra exercia várias outras ati- vidades. Ele mesmo. em novembro de 1985. Amor que o leva a permanecer entre nós e prosseguir no mesmo amorável atendimento aos que ainda estão jornadeando pela Terra e aos que estão em regiões de sofrimentos e de sombras no plano espiritual. Joanna de Angelis apresenta-se em primeiro lugar e orienta o anda- mento dos trabalhos. padecentes. pela nossa psicofonia. que. No momento aprazado. e convocou médiuns. doutrinadores e alguns par- ticipantes. evidentemente. as suas intenções. então. transmitiu ao Presidente Francisco Thiesen a orientação de Joanna de Angelis sobre a necessidade de fa- zer-se um labor mediúnico. Pode-se imaginar Bezerra de Menezes atendendo aos encarnados e desencarnados com o mesmo e imenso amor que o caracteriza. Divaldo. marcou a hora e local. os radicalismos prejudiciais que impedem essa associação. colocam-se em con- dições de receberem a sua palavra permeada de amor. a sessão é iniciada. em Bra- sília. A todas estas tarefas alia-se.

le- vando o fermento da discórdia. atualiza- da. ao irmão angustiado. Suas palavras. bem de acordo com a época. em seu bojo. Hoje temos no- vamente as duas correntes: a dos místicos e a dos científi- cos. a vibração de amor foi de tal intensidade que a Entidade é atingida no âmago de suas emoções. o erro em que incorre. mais que as palavras. basta para aquiltarmos a recepção merecida por . Vibrante e colérico ele não aceita os argumentos do doutrinador que. transmite. amorosas palavras de esclarecimento. Agora estão sozinhos e não conseguirão vencer-nos. Bezerra de Menezes. atormentador- atormentado. e transbordando de dor. em seguida. de pronto. o que. em pranto. a mensageira de Maria. Estamos em toda a parte. A história se repete. ditas em tom de voz vibrante. só que desta vez não terão a ajudá-los a figura daquele que tanto enaltecem e veneram. hoje com roupagem diversa. com prejuízos maiores para si mesmo. Tem. e prosterna-se diante do vulto aureolado de Bezerra de Menezes — cena esta que vimos — que o retira. envolvendo a Divaldo. por si só. resumidas. a época dos místicos e dos científicos.174 SUELY CALDAS SCHUBERT Movimento Espírita. a mesma intenção de outrora. foram: — Estamos vivendo. Celina. a figura lu- minosa que se aproxima. tenta mostrar-lhe. em vão. de novo. Arrebatado. de mágoa. Temos os nossos médiuns. Ele não está mais com vocês. Entre- tanto. mas que traz. que transmitem o que planejamos. Bezerra de Menezes — nome amado e respeitado por todos — singelamente narra a Divaldo a sua mais comoven- te surpresa ao despertar no Mundo Maior. da cizânia. a seu lado. Este é o melhor modo de dividirmos os es- píritas e acabarmos com o Espiritismo. ele não identifica. É nosso interesse manter essa disputa. desliga-se. com paciência e carinho. de carências outras.

ao reve- lar-lhe a missão. Descreve aí o calvário por ele enfren- tado no desempenho de sua missão. sobrelevaram de muito o mal. radiosa como nunca. guardadas as devidas proporções. dos que se doam ao Bem. relembra- nos Allan Kardec no trecho citado. também. a senda crucial daqueles que se resolvem por seguir a Jesus. Dez anos e meio depois. Celina o conduz até a sacada e o bondoso "médico dos pobres" depara-se com uma cena realmente comovedora. Isto nos faz recordar a narrativa de Allan Kardec. A estrada é aspérrima. refiro-me às satisfações morais. também. não estaria com a verdade. o Codificador escreve uma nota que é um dos trechos mais belos e significativos de sua pena magistral. porquanto o bem. Qual não seria. afirmando: "Mas. ao se defrontar com os beneficiários do seu apostolado de amor. ouve um murmúrio que vem de fora. as lutas ingentes. É bem essa. sem dúvida intencionalmente. uma grave advertência. mas." A felicidade de Bezerra de Menezes. Entre sorrisos e lágrimas de emoção ele vê chegar os entes queridos do co- ração. pois. se me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal. . mostrando-lhe os percalços do caminho. todavia. em Obras Póstumas quando o Espírito de Verdade. O SEMEADOR DE ESTRELAS 175 ele. apenas me mostrara as dificuldades do caminho. vendo a obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi da parte de muitos aflitos a quem a Dou- trina consolou! Este resultado não mo anunciou o Espírito de Verdade que. que de satis- fações experimentei. a par dessas vicissitudes. faz-lhe. os sofrimentos e sacrifícios que lhe seriam exigidos. as bênçãos alcançadas transformam-se em felicidade indescri- tível que transcende ao nosso — por enquanto — estreito entendimento. a minha ingratidão. Celina ali está. E finaliza.

só veio a ser publicado muitos anos depois. Ao som dessa música. Nesta. tocada numa espécie de cítara. cujos fios pareciam ter cam- biantes prateados. em 1965. levantei-me e providenciei o material para a psicografia. e a barba alvinitente. Tagore foi ditando as várias mensagens que constituiriam seu primeiro livro. de túnica alva. A partir dessa noite. Eu confesso. durante certo tempo. de se- rena beleza. tive uma visão belíssima de jardins verdejantes e floridos. — Eu sou Rabindranath Tagore. em 1949. certa noite eu estava deitado. cortados por um riacho de águas claras no qual deslizava uma barca. honestamente. penetrante e bela. e de- sejo que me grafes alguns pensamentos — disse-me o Es- pírito. logo em seguida. muito plangente e muito pro- funda. Enquanto psicografava. quando ouvi uma música de uma beleza indefinível. com o título de Filigranas de Luz. entrando em transe mediúnico. 19 A ESTESIA DE TAGORE No ano do aparecimento psicográfico de Marco Prisco. em cuja fisionomia. no entanto. que nunca havia ouvido falar neste nome ou lera qualquer coisa a seu respeito. sobressaíam os olhos negros. poeta da Índia. . enormes e bri- lhantes. continuei a ouvir a melo- dia. de tez bem escura. Imediatamente. uma Entidade veneranda. que.

a senhora Elza Pastorino. que Nelson Affonso. pois nada comentara a respeito e nem mesmo estava a recordar-me do fato. O SEMEADOR DE ESTRELAS 177 Em 1957 ocorreria um fato muito interessante para mim. não o Tagore traduzido. com certa freqüência. Grande foi a minha surpresa. com o qual. nas páginas psicografadas. o Professor Pastorino. e. foram passar uns dias na "Mansão do Caminho" e aproveitei o ensejo para mos- trar-lhes os originais do livro ditado por Tagore. ao terminá-la. em Pedro Leopoldo. que está sendo lançado. Ao terminar a leitura. nos dias em que esteve na "Mansão". Quase trinta anos decorreram. Em 1965. Em 1960. e que. intitulada "Louvor". no original indiano e nas traduções de Gui- lherme de Almeida. Para minha surpresa. Na ocasião. a pedido dele. colo- . esclarecendo ser o prefácio para o livro que eu psicografara e que se encontrava guardado. algumas delas pu- blicadas na imprensa espírita e agora enfeixadas no nosso livro ESTESIA. mas o original. Chico psicografou uma mensagem de Ta- gore. o Professor Pas- torino expressou-me sua emoção e alegria por encontrar. diretor do "Grupo de Estudos SPIRITVS" escreveu um prefácio. posteriormente. entregou-me. informou-me que conhecia a obra do poeta hindu no original inglês. o livro seria publicado. como ha- bitualmente fazia. também. Rabindranath Tagore prosseguiu ditando-me as suas páginas. Como prefácio. Foi. portanto. não coloquei o pre- fácio recebido por Chico Xavier por timidez. no dia 28 de janeiro desse ano. quando o livro finalmente foi lançado. onde o médium mineiro. este con- vidou-me a ir com ele a Matosinhos. Em visita a Chico Xavier. homem de vastíssima cul- tura. após consultar Chico Xavier e dele receber anuência. pequena cidade pró- xima. naquele momento. participava do Culto Evangélico em casa da senhora Her- melita Horta. o Professor Carlos Torres Pastorino e sua esposa. E foi tal o seu entusiasmo que ele próprio dati- lografou o livro. poderia fazer uma análise cuidadosa.

mas não traz o prefácio do autor espiritual. A primeira visão que Divaldo tem de Rabindranath Tagore é deveras singular e expressa bem o sentido do belo. Mas. entretanto. hoje. pela nobreza de que se reveste. É muito interessante observar-se o estilo de Tagore atra- vés de um e de outro médium. dizendo ser o prefácio para aquele livro que ele psicografara.178 SUELY CALDAS SCHUBERT camos. Em 1965. que. dizer que a grandeza deste gesto de renúncia é imensurável. lhe deve ser inerente. o que. . em companhia de Chico Xavier. que até então não travara contato com as suas obras. O médium baiano fica agradavelmente surpreso. em 1960. para esta finalidade. uma distân- cia que nos permite. a partir de 1949. e constatar-se que em ambos ele se mostra com a mesma extraordinária estesia. As páginas recebidas. Tagore não é um nome conhecido do médium. Em 1957. a mensagem psicografada por ele três décadas atrás. Filigranas de Luz é lançado. somente aconteceria cinco anos depois. naquele momento. renunciar a ele. ficam arquivadas. Este incentiva o médium a publicá-los. intitulada "Louvor" e a entrega a Divaldo. naquele momento. ditado a Chico Xavier em 57. do acontecido. em fotocópia. pois não se recordara. Divaldo prefere. indo a Matosinhos. imaginamos. entre nós e aqueles dias. O tempo coloca. Mais três anos decorrem até que Divaldo tenha a ocasião de mostrar os originais ao Professor Carlos Pas- torino. O fato em si fala mais alto que quaisquer palavras e deve merecer a nossa reflexão. re- conhecendo a autenticidade das páginas de Tagore. este psicografa a mensagem ditado por Tagore.

"Artista da Vida." escre- ve por Chico Xavier no prefácio de ESTESIA. o autor espiritual fala dos encontros do homem com o Cristo. na sua fase inicial o médium necessita percorrer um longo caminho. "Cancioneiro do silên- cio". como também acon- tece com muitas outras páginas por ele psicografadas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 179 A esse respeito. Mesmo quando descreve as misérias e as dores. A prática mediúnica exige. quanta estesia na Tua realização!" exclama em seu novo livro. enquanto vai sendo testado pelos seus Guias Espirituais . . . . "Graças Amado meu! Senhor. Tagore percorre os caminhos do sentimento e expressa o que existe de mais belo nas aspirações e expectativas hu- manas. por ele denominado de diferentes maneiras: "Os ouvidos do Zagal Divino registram a voz do co- ração"(. Nesse perío- do. Entre o ano em que Rabindranath Tagore inicia o seu trabalho com o médium até a época da publicação de Fi- ligranas de Luz. a visão e o sentimento da be- leza. não po- deria ser mais bem escolhido. . a fim de adquirir experiên- cia. um período de maturação. Divaldo não tem pressa em publicá-la. a sensibilidade lírica singular capaz de extrair de tudo o significado puro e transcendente. bendito sejas!. o título do novo livro Estesia.) diria ele em Filigranas de Luz. pois. pois o genial poeta hindu parece ter. Um ponto que merece mencionado é o extremado zelo com que Divaldo encara a sua mediunidade. transcorreram dezesseis anos. como ninguém. o que torna a sua mensagem altamente positiva. mantém o suave lirismo que o caracteriza. "Rei da Juventude e da Paz". Transmitindo uma visão constante da busca do Criador pelo ser humano. "Rei de todos os Reis"! são algumas das formas com que Tagore revela o seu amor por Ele. a produção psicográfica desse autor permanece inédita. que só vieram a ser divulgadas após muitos anos. realmente.

." André Luiz diria mais tarde. o médium colhe o fruto de seus perse- verantes esforços: recebe dos Espíritos Elevados a consa- gração de suas faculdades. Ou ainda. ao abrigo das sugestões do orgulho. que. no estudo calmo e silencioso. O re- sultado acaba sendo prejudicial ao próprio medianeiro. A mediunidade tem. dedicação. que poderão. pois. e qualquer facul- dade nobre requer burilamento. nem sempre são aceitos pelos médiuns. irá sofrer críticas as mais diversas. seu campo. não aceitando as críticas por julgá-las injustas. nem sempre são submetidas ao crivo da razão. in- clusive. O exemplo dos nossos mais respeitados médiuns da atualidade. Depois de um período de prepa- ração e expectativa. longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. desiludi-lo e afastá-lo da tarefa. disciplina. com a assistência de seus Guias. o médium pode entrar em lamentável processo de fascinação. em sua excelente obra No Invisível: "A boa mediunidade se forma lentamente. recolhido. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção." (No Mundo Maior — capítulo 9) Esse processo de amadurecimento. como também de expec- tativas. Chico Xavier e Yvonne Pereira vamos encontrar esse laborioso processo de adestramento e amadurecimento da faculdade mediúnica. porém. essa fase mais ou menos longa de estudo e trabalho. amadurecidas no santuário de sua alma. que. Em Divaldo Franco. sua evolução. sua rota. por isso. boa vontade e amor à tarefa. ao lançar obras mediúnicas eivadas de erros doutriná- rios. são condizentes com os ensinos da Dou- trina. a se tornar cooperador utilíssimo na obra de regeneração que eles vêm realizando. virá. pelo lápis de Chico Xavier: "Nenhuma árvore nasce produzindo. Muitos não têm a necessária paciência e anelam pelo prestígio.180 SUELY CALDAS SCHUBERT quanto à perseverança. por tor- narem conhecidas as suas produções mediúnicas. Leon Denis refere-se a isso.

afeiçoado à disciplina. Para os Espíritos Superiores. Espírito trabalhado na forja do sofrimento. . O poeta hindu. que foi Prêmio Nobel em 1913. o burilamento imprescindível para torná-lo seu me- dianeiro. cuja linguagem poética sabe a mistérios e encantos da Índia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 181 O tempo consagrou a missão de cada um e a fidelidade com que se dedicam à Causa. cuja sensibilidade altamente aprimorada é toda voltada para o Bem. Rabindranath Tagore. encontra assim. o médium ideal para filtrar o seu pensamento. evidentemente. encontrou. em Divaldo Franco. à meditação. nos anos de trabalho mediúnico de Dival- do. não há pressa.

. para toda a nossa equipe. que vi aproximar-se um Espírito conhecido. o meu intuito era o de lhe dar o meu nome. porém. significava para mim o pas- so para a concretização de compromissos que assumira. Fui. nesse momento. Foi. contudo. o início de uma nova etapa. Seu choro atraiu-nos a atenção. que me disse: — Dá-lhe o meu nome. me preocupava: que nome declararia como sendo o da mãe da criança? Foi. Ele havia sido abandonado à porta da rua. poetisa potiguar. 20 AGORA. Recolhemo-lo com carinho e todos os cuidados lhe foram dispensados. Chamo-me Auta de Souza. em nossa "Mansão do Caminho". não apenas na nossa Instituição. com a alma em festa que me dirigi ao Cartório a fim de registrá-lo. Era uma criança raquítica e seu estado de miséria era tal que nos constrangeu pro- fundamente. mas. Obviamente. A sua chegada. na Terra. em um pequeno depósito de lixo. Uma dúvida. porquanto desencarnei há muito tempo. ENQUANTO É HOJE Em 1952 fui ao Cartório para registrar o meu primeiro filho. representava. Tê-lo em meus braços. Eu lhe seria o pai. nos registros legais. também. portanto.

. pelas mãos de Chico Xa- vier. de maneira tão persuasiva e bela. que era conhecida como Caravana "Auta de Souza". de convite à caridade. é mais um interessante episódio de uma vida imensamente rica de fatos marcantes e." Ao impacto dos primeiros versos. de que Auta de Souza. está registrada c o m o mãe de seu primeiro "filho". já a homenageara colocando o seu nome no setor das nossas atividades assistenciais iniciadas em 1947. sobretudo. . Derrama em torno compassivo olhar Estende as mãos aos filhos da amargura. desencar- nada em 1901. A revelação de Divaldo. no qual a doce poetisa potiguar traça. Raras vezes. Divaldo percebe estar num momento muito especial de sua vida. todo um programa de amor ao próximo. Com incontida emoção. eis que fulgura O teu santo momento de ajudar!. Espírito profundamente ligado a Divaldo. Anteriormente. pela psicografia de Chico Xavier. em suaves versos. ditado por Auta de Souza e a mim dedicado. o jovem baiano ouve a leitura do soneto. estando em Pedro Leopoldo. Auta. enquanto é hoje. pontilhada desde o berço pela presença dos Espíritos. "Agora. cuja convivência diária lhe é absolutamente na- tural. dedica- lhe um de seus mais belos sonetos. tive a grata surpresa de receber. tem-se visto uma mensagem de estímulo. Em 18 de maio de 1954. o soneto que ele acabara de psicografar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 183 Encantado com a sugestão e com as vibrações suaves e amoráveis com que ela me envolvia. intitulado AGORA. em 18 de maio de 1954. Sente que está sendo convidado a realizar os planos que há muito cons- . por sugestão dela própria. com o lirismo que lhe é peculiar. prontamente registrei Jaguarassu como meu filho e de Auta de Souza.

"E ajudando e servindo sem cansaço. Rompe-se. todos os seus momentos. dos que desejam segui-lo. . sem luz. O "agora" é a força desencadeante de todos os sentimentos. "Repara! Aqui e além a desventura Caminha ao léu. O Mestre não é uma figura longínqua.184 SUELY C A L D A S S C H U B E R T tituem o tema de suas cogitações profundas e íntimas. todos os sonhos carinhosamente anelados. num relance. em obras. ele que sente a imperiosa necessidade de servir. doce e pura. Acende o próprio amor! Faze brilhar A tua fé tranqüila. o dique das emoções e sob esta força edificaria o mundo à sua volta. Dedicar-se integral- mente ao serviço do Bem." Pelos seus olhos passam as figuras sofridas que Auta vai mencionando. Re- lembra. "tranqüila. Todo o amor que carrega dentro do peito parece explodir naquele instante e. . sem pão. Abrir o coração ao Cristo que vive. que está ao lado dos que sofrem. Alcançarás subindo passo a passo A glória eterna da ressurreição. Nem mesmo antes. Abre teu coração ao Cristo vivo. sem lar. Não permitas que o tempo marche em vão. "Agora! Eis o minuto decisivo!. doce e pura" será transformada. mas uma certeza presente e atuante ao lado dos que 0 procuram. vê-se incapaz de contê-lo por um momento que seja." O fecho traz uma promessa que ainda não percebera. definitivamente. A fé que a Doutrina Espírita torna raciocinada. desde então. viver a excelência dos ensinamentos que a Doutrina Espírita reacendia em seu coração. o desfile das dores e misérias que tanto o sensibilizam e às quais está sendo emulado a entender. em outras épocas e lugares. promessas e esperanças que moram dentro dele. Aproveitar o tempo como nunca fizera até então." Este é o instante. devotar-se aos sofredores. é o ca- minho. cada vez mais. 0 agora seriam todos os dias. Que ali .

agora! O moço estende as mãos trêmulas e recebe de Chico Xavier a preciosa mensagem. E N Q U A N T O É HOJE. os anos. subir. A ação vai ampliar-se cada vez mais. Aju- dar e servir sem cansaço. afinal. Os "filhos da amargura" chegam aos magotes. O mundo o pro- cura para fazê-lo falar desse amor que o anima e motiva. mas. desse Cristo vivo de que o Espiritismo dá notícias para consolo e esperança da Humanidade. Fazer o futuro com as próprias mãos. seguir — con- vites decisivos dando-lhe a certeza inabalável de que todos os seus ideais são legítimos e possíveis. caminhar. C o m a alma nos olhos vê a sua Salvador aproximar-se. Avançam os dias. do sonho a "Mansão do Caminho". As crianças o rodeiam e lhe estendem os braços. Hoje. As filas crescem. L i g e i r o alcança o bairro da Calçada e transpõe as portas do "Caminho da Redenção". Cor/ação. Pelo caminho a relê mil vezes. Já a tem de cor e também no coração. todas as manhãs que nascem prosseguem sendo o seu AGORA. do mato. construir o seu próprio destino. como o aluno busca o mestre. Surge da terra. Dependeria apenas dele realizar o "agora". como o filho busca o pai. por sentir intimamente que junto ao médium receberia aquilo que precisa saber. diz Auta. . Em breve tempo eis o momento. de onde parte otimista e feliz para o seu destino. começa agora. O SEMEADOR DE ESTRELAS 185 está ao lado de Chico Xavier. A vida. para Divaldo.

Ela se aproximou. 21 NOME ESCRITO NO LIVRO DOS CÉUS Certa vez. disse-lhe: — Ah. não ajudou a pobre criatura? Por que têm sempre que pensar em mim para resolver o problema dos outros? Enquanto fazia tais indagações mentais. Ele mandou perguntar se o senhor pode internar meus quatro filhos. Eu estava muito cansado e comecei a ficar angustiado com o problema dela. eu pensei: por que essa pessoa que a recomendou a mim. eu vim aqui porque um freqüenta- dor desta casa mandou. Eu não posso fazer nada por essa pessoa. Ao vê-la. Veja este caso! Eu vou ter de dizer um não para ela. (Ela já estava ali para verificar o meu comportamento. que bom que a senhora apareceu. pensei). Joanna de An- gelis me apareceu. Ela ouviu a minha queixa e respondeu-me: . Eu ia ter de negar-lhe. falando. muito humil- demente e disse-me: — Senhor Divaldo. Ela foi falando. contando a sua história. fui procurado no Centro por uma senhora que me veio pedir ajuda. Então. pois não tínhamos mais lugar nem condições para os receber.

Então — prossegue Joanna — tu estás aborrecido. e é uma falta de caridade separá-la dos filhos." (Lucas 10:20) Quando o Senhor sabe que na Terra alguém ama. porque vou ter de negar. Não podes aquiescer em rela- ção ao pedido que ela te jaz. Mas nós vamos estudar um jeito de ajudá-la sem . só que eu quero pedir a Nosso Senhor que não precisa exagerar muito. Fez uma pausa e. Ela está fazendo-te a caridade de aprenderes a ouvir. — Mas tu podes amá-la. senhora. Não posso porque a senhora é mãe. estava anotado Divaldo Franco. Veio a intuição: manda para o Divaldo que tem o nome escrito em nosso livro. por estarem os vossos nomes escritos nos céus. tem calma. a Divaldo. saibam a quem pedir ajuda. Esta pobre irmã chorou muito e pediu a Deus que lhe en- viasse o socorro. inspirado. aduziu: — No Evangelho há um texto que diz: "Não vos ale- greis porque se vos sujeitem os espíritos. E ao invés de te angustiares ou te impacientares. Não lhe posso aten- der o pedido. Os Benjeitores Espirituais procuraram então quem lhe pudesse ajudar. Ele resolverá o seu caso. . alguém está sendo útil. — E ela veio. Viram que. expliquei-lhe: — Receber as crianças eu não posso. Mas a mulher me estava fazendo a caridade de contar o seu caso. para me consolar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 187 — Então estás triste porque alguém mandou que um necessitado viesse a ti? — Sim. sugeriu-lhe: — Minha irmã. para que. Ele determina que Espíritos gentis anotem o seu nome. vá lá. podes amá-la. O freqüentador. Quando terminou. Ia passando uma pessoa de bom coração que te conhece e os Espíritos inspiraram-na a pedir-lhe ajuda. em Salvador. alguém está exercendo a caridade. vá lá. porque o teu nome está escrito no livro do Reino do Céu? — Não. na rua tal. alegrai-vos. . numa emergência. antes. mas.

Logo em seguida Lucas narra a parábola do Bom Samaritano e finaliza com o texto de Marta e Maria. tentando solucionar o problema. ensinando-nos a pa- ciência. que há um perfeito encadeamento da parábola com as ins- truções dadas aos discípulos. eu estava com tanto medo de que o senhor quisesse ficar com eles.188 SUELY CALDAS SCHUBERT retirá-los do seu convívio. de tolerância. No diálogo com Marta o Mestre ressalta a relevância das coisas espirituais. Portanto. quando Jesus os orienta: "E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta. Verifica-se. neste capítulo. a todas as cidades e lugares onde Ele havia de ir. Ela me olhou bem e disse-me: — Ah. enfim. O trecho do Evangelho. . A senhora me dá o seu endereço. de caridade legítima e completa. senhor Divaldo. em que está inserido o versí- culo citado por Joanna de Angelis. o amor. eu me imagino na situação dela e penso: talvez." Após transmitir as instruções. talvez tomasse à força. se eu estivesse no seu lugar eu não pediria. Quando uma pessoa me procura com um pro- blema. Ele afirma-lhes que têm os seus nomes escritos nos céus. explica onde é e iremos. e se inicia com a missão dos setenta discípulos. de paciência. O que eu queria mesmo é uma colaboração para criá-los. tomado em seu conjunto. exercida com abnegação e total desprendimento. de Lucas. no sábado. pois ela representa o exemplo da verdadeira caridade. Fiquei imaginando a caridade que esta mulher me fez. é o capítulo X. de dois em dois. Bela lição esta. nesse trabalho. o desprendimento. Nunca mais — isto foi há mais de trinta anos — eu me precipitei. o mais difícil possível. essas pessoas nos fazem a caridade. e mandou-os adiante da sua face.

Em seguida Joanna faz uma comparação entre a pa- rábola e as reuniões mediúnicas. consideremo-lo como a representação dos muitos Espíritos tombados nos próprios enganos e que retornam à esfera física e são aí acolhidos e adotados c o m o filhos . e jaze da mesma maneira. a respeito da herança celeste. L E A L ) : "Conta Lucas. Consideremos a Parábola do Bom Samaritano através da narrativa de Joanna de Angelis. que constitui o capítulo X. Um samaritano. para o qual remetemos o leitor a fim de que sinta em toda a sua beleza a narrativa do evangelista. no seu livro Espírito e a Vida. embora o vissem. (pág. do capítulo 10.' Disse.' E ante o assombro do interlocutor o Mestre indagou-lhe. e depois um levita que. tomou-se de piedade e o assistiu carinhosamente. por ali passando e o vendo. edição. Casualmente passou pela mesma via um doutor. porém. após inquiri-lo sobre a Lei. que interrogado o Mestre por um doutor pusilânime que o tentava. o homem caído na orla do ca- minho. então. Sintetizemos a narrativa: 'Assaltado por malfeitores. dispondo-se a resgatar quaisquer compromissos excessivos. no versículo 25 e seguintes. O SEMEADOR DE ESTRELAS 189 Observando a vida de Divaldo Franco encontramo-lo em plena e integral vivência de todo este texto de Lucas. em um texto muito inte- ressante que vale a pena ser lido. narrou-lhe o Senhor. quem seria o próximo. a fim de informar-lhe. seguiram indiferentes. um pobre homem foi deixado à margem da estrada que descia de Jerusalém a Jerico. Jesus: Vai. ao que este respondeu: 'O que usou de misericór- dia para com ele. quando por ali passasse de retorno. quem seria o próximo do homem sofrido. na aplicação do amor. Parafraseando esta comparação da autora espiritual: A "Mansão do Caminho" pode ser comparada à hospe- dagem acolhedora e gentil. a parábola do bom samaritano. 111 — 2. conduzindo-o na sua alimária até uma hospedaria onde o deixou cercado de cuidados. do Evangelho.

as moedas pagas ao hospedeiro simbolizemo-las como as renúncias e dificuldades. Jesus aconselha ao encerrar a parábola: "Vai e faze da mesma maneira. (Lucas 10:23 e 24) Quanto a nós outros. como vimos. e ouvir o que ouvis. às tarefas sacrificiais do auxílio fraterno. a equipe que colabora. os que deixam o labor em meio ou que são convidados e se conservam indiferentes. Para o nosso querido Divaldo sabem muito bem as pa- lavras de Cristo: "Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes. entre- tanto. Pois digo-vos que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes. pois vive integralmente o que prega.190 SÜELY CALDAS SCHUBERT do coração. perfeitamente. a palavra de Divaldo. representemos como sendo os companheiros conhecedores da vida imortal. no- tificados das surpresas além-do-túmulo. o bom samaritano. o carinho. Divaldo pode. lutas e testemunhos por ele vividos no cumprimento de sua missão.." .. e não o ouviram". simbolizar. as orienta- ções. o médium baiano. indiferentes. Ainda pode- remos considerar o bálsamo e o unguento postos nas feridas do assaltado como sendo a devoção. e o doutor da lei. examine- mo-los como o doutor e o levita sem piedade. o que a Doutrina postula e o que Jesus recomenda aos seus discípulos. e não o viram. assemelhemo-la ao en- carregado da estalagem. tenhamo-lo como o bom samaritano e a via entre Jerusalém e Jericó convencionemos como a estrada dos de- veres fraternos por onde todos transitamos. zombeteiro e frio.

a areia alva. . Mas fomos. na estrada. erramos a estrada. e perguntamos onde ficava o local que procurávamos. foram marcan- tes. Nós achamos estranho. para irmos com as crianças e vivermos um pouco em contato com a Natureza. 22 A MOÇA DA PRAIA - EVITANDO UM SUICÍDIO Era do nosso hábito. meu filho. nós. que sabíamos o caminho como a palma da mão. Dois fatos. onde estavam plantados dez mil coqueiros. entre muitos que aconteceram. na nossa mediunidade. que hoje se transformou em um lugar famoso. O vendedor respondeu que fôssemos em frente até encontrarmos o rio Jacuípe. O rio desa- guando no mar. um amigo que possuía uma propriedade ampla. passarmos o sábado ou o domingo em uma praia muito deserta. e particular- mente nos anos 60. Paramos numa venda. Chegamos a uma região de beleza invulgar. gentil- mente. na periferia de Salvador. porque ficava no sentido opos- to ao que pensávamos. naquela época. ia dirigindo a kombi e por mais que tentássemos encontrar o lugar não acertávamos. no começo da obra. Certo dia. aí dobrássemos por outro trecho da estrada e sairíamos lá. nos emprestou a chave da casa. Maximiano. A paisagem de coqueiros. De uma feita.

Era mãe de seis filhos e algum tempo atrás contrairá tuberculose pulmonar. e o parto um gran- de risco de vida. mar a dentro — não sei nadar — e peguei a senhora que estava numa crise de loucura. Quando fizemos a volta. num lugar muito deserto. e o médico diagnosticou estar ela realmente grávida e tuberculosa.192 SUELY CALDAS SCHUBERT Eramos nove pessoas. olhei na direção do mar e vi que uma pessoa adentrava pelas águas. ti- rando-a da água. Ma- ria. Carmem. Pedi a Maximiano: — Meu filho. Ela teve uma crise de desespero muito grande e a custo conseguimos acalmá-la. Ziza. muito necessitada. que seria o sétimo filho. Com a doença. aquela mulher vai-se matar! Todos ficaram surpresos e acharam até absurdo. Lygia. e nós a arrastamos para a praia. sugerindo-lhe o aborto. naquela mesma noite. e ela. coincidentemente advirá uma nova concepção. porque ela está tentando suicidarse. sujando-me de sangue. Naquele estado ela foi ao Quarto Centro de Saúde. Ziza e outras tias. Mas o aborto tam- bém era um grande risco de vida. pare o carro. que . uma pessoa muito pobre. Então ouvi uma voz que me disse: — Salta. Aí no posto. fui buscar água. em Salvador. não tinha como solucionar o problema. Era uma casa muito modesta. limpei a roupa e então per- guntei-lhe: — Por que a senhora quis matar-se? Ela contou uma história muito curiosa. Quando conseguiu acalmar-se. então chegaram os outros. mas resolveu ir. Segurei-a. onde ela residia. Lygia. Ali ela teve uma hemopti- se muito forte. Ela nada conhecia de Espiritismo. Ele falou-lhe que naquele estado a gestação era um grande perigo. Levamo-la a uma casa que ficava a uns duzentos metros. na Calçada. alguém aconselhou que fosse a um Cen- tro Espírita que havia nesse bairro. Mas eu saí correndo.

' Foi o senhor quem estava falando — disse. pois morava a qua- renta quilômetros de distância. Mas. e viajou. fizemos um culto evangélico e tomamo-la sob a nossa responsabilidade emocional. o marido esteve lá. — Mas. Ficou na cidade. Indaguei: — Você se lembra do moço que estava falando? — Não. emocionado. Perguntei-lhe qual era o endereço do Centro e ela dis- se que era na rua Barão de Cotegipe. Saqueia hora as crianças ficaram nervosas. que Deus soluciona sempre todos os problemas. — Você pediu ajuda e eu vim. — Sa terça-feira — recomendei-lhe — você vai à reu- nião e vamos ver o que os Espíritos aconselharam. Quando ele acabou de falar. a misericórdia de Deus. No domingo pela manhã achou que a única solução para a sua vida era o suicídio. O SEMEADOR DE ESTRELAS 193 era uma quinta-feira. ela quis tirar uma con- sulta e mandaram-na dar o nome e o endereço na portaria para na terça-feira buscar a resposta. porque o salão é muito grande e não o vi bem. como é que o senhor veio parar aqui? Deve ler sido a Providência Divina — respondi- lhe. Ela assim o fez. começaram a chorar. À noite. e ela muito desesperada saiu correndo para entrar pelo mar e matar-se. etc. bê- bado. senhor. e deu-lhe uma surra muito grande. à tarde. Foi no justo momento em que nós passávamos. Já a havia abandonado. surpresa. foi ao Centro. que era o dia em que os Espíritos iriam atender a consulta. no sábado. Tirei os óculos escuros e perguntei-lhe: — Seria eu? — Meu Deus. Aplicamos-íke um passe. trazido pelos Espíritos. Ela ficou desesperada. Lá ouviu um homem moço fa- lar muito sobre os deveres perante a vida. .

que arquivamos em ordem alfabética e lá estava escrito exatamente assim: "Receberá. Quando chegamos a Salvador. a interferência po- derosa dos Espíritos e de alguma forma o merecimento dessa senhora. Assim eu notei. Hoje está um adulto. eu fui à pasta de orien- tações espirituais. já se emancipou.194 SUELY CALDAS SCHUBERT Conversamos muito. coti- zamo-nos. a criança era muito frágil. do Laboratório Seabra. inclusive um chamado Pulmonina. pois ela não tinha a me- nor condição de mantê-la. Ela ficou mais consolada. Fomos direto. por- quanto. Aí não erramos mais. quando ela chegou. e deve ser poupada. no momento próprio. para tratamento especializado. mostramos-lhe o resultado da consulta e conseguimos interná-la no Hospi- tal Santa Terezinha. Desejo anotar a interferência dos Espíritos. Mas eu fiquei com uma curiosidade de saber o que é que os Espíritos teriam colocado na consulta. Nós ficamos com a criança que nasceu por último. Ela ficou boa. recuperou-se completamente. Isto foi em 1964. uma vez mais. Siga a orientação médica e acrescente os seguintes remédios.. A sua vida é muito preciosa para você e a Divindade. para nos desvia- rem da rota no momento próprio. porque nós erramos vinte e tantos quilô- metros de estrada num percurso que fazíamos a cada quin- ze dias. o suicídio teria sido consumado. a clarida- de do fenômeno mediúnico e também a lei do mérito. se passássemos alguns segundos antes ou depois. a solução para o mag- no problema da vida. . passamos o dia. arranjamos algum dinheiro para ela comprar qualquer coisa de emergência e fomos para a tal praia." Então vinham três remédios da Homeopatia. específi- cos para a tuberculose.. Na terça-feira.

tais estados emocionais ficam íegistrados no seu psiquismo e passam a fazer parte do seu acervo como aprendizado. especial- mente. Emoções negativas. entretanto. também. ocorre. Quando o médium atinge essa vivência profunda precisa . Em alguns desdobramentos. a nosso ver. Assim. por breves minutos. tais como o ódio. o medianeiro se recompõe. As comunicações desses nossos irmãos são as mais do- lorosas para o médium. testemunha. nessas regiões de sofrimentos. em parte e em breves minutos pelo médium. como "li- ções vivas". as que mais dulcificam e aprimoram os sentimentos. Cessa- da esta. a mágoa profunda. são. enquanto dura a sintonia mental e fluídica. O fato de o médium conviver com esses dramas. tudo. compartilhando por instantes das dores que avas- salam essas Entidades. Com o passar dos anos. no exercício contínuo de socorro e aprendizado junto a esses sofredores. expectador de- les. também. Os conteúdos psicológicos desses Espíritos em difi- culdades são como que absorvidos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 195 Comoventes são os esforços da Espiritualidade Maior para impedir que uma pessoa cometa o suicídio. exauridas pelo desespero e pela dor. o media- neiro terá conseguido vivenciar uma gama muito intensa de emoções e experiências que o enriquecem de forma no- tável. já têm condições de serem socorridas e encaminhadas para tratamento. quando buscamos aprender com os Ami- gos Espirituais a tarefa de resgatar algumas das Entidades que. que os experiência e deles se im- pregna. de certa maneira. com quaisquer outros estados emocionais que o Espírito comunicante exteriorize e o médium venha a captar. proporciona-lhe uma fantástica vi- vência. Entretanto. o desequilíbrio mental. durante as reuniões mediúnicas. enfim. tor- nando-se. incursionamos. Nestes anos de atividades mediúnicas temos tido o ensejo de conhecer um pouco do que sejam os tormentos tenebrosos que existem no "vale dos suicidas". passa pelo campo emocional do médium que as sente momentaneamente.

No extraordinário livro Memórias de um Suicida. a captação de seus sintomas e dores. ou. pois compete-lhe envolver o Espírito em vibrações opostas àquelas negativas de que ele é portador. É evidente. es- clarece: "As vibrações mentais dos assistentes encarnados e. o seu desespero e desequilíbrio. O ódio. físico-material. na sala de reuniões. sentado em seu lugar. assusta um pouco e tem sido causa de receio e evasão de algumas pessoas às tarefas mediú- nicas. ainda. contudo. de for- ma atenuadíssima. protegido e de- fendido por uma corrente vibratória entre encarnados e desencarnados e. todavia.196 SUELY C A L D A S S C H U B E R T estar muito atento e vigilante. Esse quadro parece assusta- dor e chocante. ou mesmo quaisquer sensações que os Espíritos transmitem. por exemplo. . da médium. é óbvio. cuja saúde. ou uma facada no peito. que essas captações por parte do médium são muito atenuadas. que está a salvo. estes não são dele. pelas defesas estabelecidas pe- los Mentores. Alguns médiuns — como é o nosso caso — têm desde o início do exercício da mediunidade essa aptidão para assimilar as angústias e aflições das Entidades que se ma- nifestam por seu intermédio. às vezes. Ocorre que certos médiuns são muito impressionados e receiam a rigidez ou dormência muscular momentânea que os acometem em certas comunicações. a coisa funciona de outro jeito. o desejo de vingança. sobretudo. Isso. sentindo. Na prática. porém. particularmente. É que o médium sabe e sente que apesar de captar tais estados. o médium sente essas aflições e sofrimentos. um tiro que ele próprio desfechou no ouvido. da compaixão e da solidariedade. a taquicardia. a crueldade. tudo isso deve encontrar no médium a con- traparte do amor. Quando um Espírito está com dor. narrando a comunicação de um suicida que se atirara sob um trem. o sarcasmo. a falta de ar. o sofrimento moral acerbo. o desequilíbrio afetivo. o esmagamento de suas pernas num desastre. Yvon- ne Pereira. nos quais deve confiar incondicionalmente. a frieza.

cujo envoltório astral forte- mente se ressentia das impressões animalizadas deixadas pelo corpo carnal que se extinguia sob a pedra do sepul- cro! Eram como que compressas anestesiantes que se apli- cassem na organização fluídica do penitente. deveriam impor-se e domar as emitidas pela entidade sofredora. através do filtro humano representado pelo mag- netismo mediúnico. sem o qual o infeliz não assimilaria. incapaz de algo pro- duzir distante do inferior. assim. que os . o qual. refletindo os esplendores do firma- mento ensolarado. nenhum benefício que se lhe desejasse apli- car!" (os grifos são do original) * * * É exatamente por saberem e conviverem — na tarefa socorrista — com os sofrimentos superlativos dos suicidas e. por ser este um crime contra as Leis Divinas. luta árdua. formoso e sobranceiro. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 197 físico-astral. encontrava-se em condições satisfatórias. dominando suavemente as vibrações nefastas do suicida depois de passar pelo áureo veículo mediúnico. fornecidas pela mé- dium e pelos guias assistentes. como ondas revoltas de imensa torrente que se despejasse abruptamente no seio esmeraldino do oceano. enfermas. na rea- lização de sublime operação psíquica. Era como sedativo divino que piedosamente gotejasse virtudes hialinas sobre suas chagas anímicas. A corrente poderosa pouco a pouco apresentou os frutos salutares que era de se esperar. positiva- mente descontroladas. Estabeleceu-se. reagiam con- tra as do comunicante. que. investiam violentamente sobre aquelas. de forma alguma. viciadas. suavizándo- me o efervescer das múltiplas excitações. uma vez que influen- ciações saudáveis. a fim de torná-la em condições de suportar a verdadeira terapêutica requisi- tada pelo melindroso caso. moral e mental. tornava-a assimilável por este. fluidos magnéticos mesclados de essên- cias espirituais aconselháveis no caso. adaptando-a em afinidades com o paciente. ma- ter ializando-a. pois que fora anteriormente examinada pelos provedores do importante certame espiritual.

198 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Benfeitores Espirituais envidam todos os esforços no sen- tido de impedirem que exista um maior número de suicí- dios no mundo. Assim. uma v e z mais. de que o Mundo M a i o r se utilizou para impedir à mulher de consumar o seu intento. . Vinte quilômetros de erro na estrada — e uma vida foi salva de séculos de tormento e dor. D i v a l d o foi o instrumento.

A casa era modes- tíssima. Corram nesta direção. Numa dessas vezes. nós ficamos na praia com as crianças e as tias. porque a correnteza as está levando para o mar alto. Nós íamos com as crianças e as tias. gritando por so- corro. Depois de uma hora mais ou menos. num domingo. subimos no peitoril da janela para olhar o mar e. ocor- reu um outro fato e que envolve Nilson. Eu não sei nadar. há alguém se afogando. mas Nilson sabe. não vimos ninguém. assustado: — Nilson. ouvi um grito de socorro. 23 NAS MÃOS DE NILSON Nesse mesmo lugar. Praia virgem. Nós deitávamos até no chão. a casa tinha umas três camas e iam umas trinta pes- soas. Joanna me apareceu e avisou: — Duas das tias estão correndo perigo de vida. Mas era um desses lugares preservados pela Divindade para o contato com a Natureza. Depois fomos almoçar e deitamos para repousar um pouco. Saímos a correr na direção indicada. deserta. Levantamos. Levávamos alguns col- chões. Maria Seippel e Carmem Prazeres haviam . Eu disse. naquela imensidão. aonde íamos periodicamente.

Lentamente. Schubert) . que come- çaram a gritar. com o manto. demonstrações da Misericórdia de Deus. Quando percebe- ram. todos. Entraram numa corrente marítima. Depois disso nós brincamos. Maria. com problemas hepáticos. já não tinha forças e foi seguran- do-o até à jangada. Às mãos de Nilson Joanna confiou o salvamento. sem darem-se conta. Então. estarrecidos. muito nervosa. vamos orar! Nilson era o único que sabia nadar. ficamos na areia. além de nós. abrir os braços. vi Joanna erguer-se e. a jangada começou a se deslocar. primeiro. colocando-a na praia. até que salvou. fora da jangada. Ele trouxe Carmem. quando lhes propus: — Vamos orar. a vida de Maria. Lygia. e Carmem saltou para ver se nadava. não conseguindo. segurou-se. Pegou. pois. Nós. (Nota de Suely C. ali mesmo. Isso foi em 1965. A jangada prosseguiu sendo levada.200 SUELY CALDAS SCHUBERT sentado em uma jangada que estava ali e. Ele atirou-se ao mar e nadou. Ziza e as crianças. Nas mãos de Nilson as vidas de Carmem e Maria. em vá- rios quilômetros. fizemos um culto evangélico de agradecimento. que as carregava. automaticamente. Havia um toro de madeira que ele tomou e jogou-o no mar para apoiar-se. pois poderia ter sido uma tra- gédia. Automaticamente. mas. foi trazendo-a. e pediu a Maria que tivesse calma. Não havia uma pessoa sequer. já estavam longe da praia. que estava quase se afogando. ( * ) Carmem Prazeres desencarnou em 23 de maio de 1987. São estas. muito lentamente. deixou-a na areia e vi Joanna chaman- do-o. apegou-se à borda da jangada. afirman- do que Maria e Carmem * deviam a vida a Nilson. como se estivesse empurrando a frágil embarcação para a praia. Carmem. também.

de pai. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 201 Nas mãos de Nilson Pereira. são mãos de sustento. pois ex- pressa os cuidados. Essas mãos seguras e firmes. Mãos fortes e belas que falam de um coração bondo- so e fiel. A magnífica e comovedora visão de Joanna a proteger a jangada com as tias é por demais significativa. de irmão. Será que já nos demos conta disso? O episódio merece uma reflexão mais profunda de cada um. Nessas abençoadas mãos o labor do bem se desenvolve e se mantém constante. . Mãos que aram e semeiam a leira dos corações. de apoio. de bondade para a vida de Divaldo. por algumas vezes. o zelo com que os Benfeitores da Vida Maior cercam a nossa vida. de amigo. a vida de Divaldo.

Pedi licença às pessoas que estavam na frente e atendi-a. Morando na Barra — que é um bairro sofisticado de Salvador. à véspera. (Ê curioso ver como Deus nos armou do instinto de conser- vação da vida. Naquela situação resolveu suicidar- se. enquanto a ira deseja que matemos o corpo. e. muito nervosa e agitada. para que o marido ficasse com um problema de consciência. onde o mar bate no penhasco — ela resolveu suicidar-se e. um dra- ma com o marido. perto do farol. chegaram a ter vá- rios atritos. Pegou o filhinho de quatro anos para ir na direção do farol. muito grave. Contou-me que era muito feliz na vida conjugal. lá no Centro. (Ê um trecho muito movimentado. o marido arranjou uma companheira e começou a maltratá-la. quando. de repente. matar o filho. quando chegou uma senhora com uma criança. Ela me disse que teria de voltar para casa. à fila. Ela con- siderava aquilo o ponto final do casamento — agressão física! Ficou desesperada. 24 EM UM MINUTO APENAS Eu estava atendendo. pois estava vivendo um drama muito sério. ele agredira-a. imediata- mente. batera-lhe.) Quando estava atravessando a avenida.) . Ela estava tão inquieta que me pediu que a atendesse de imediato. um dia. tinha tido um filho. por vingança. a criança escapuliu-lhe da mão.

tivesse o dese- jo de matá-lo. explicando-lhe que a vida era o dom mais precioso de Deus e que ela passasse a freqüentar a nossa Casa. e. sentou-se e teve uma crise de choro. de formação católica. já estava próxima ao penhasco. Já que o seu casamento estava em tal situação. ainda há pouco. o que é um paradoxo. inte- ressada pelo título. ela fosse franca com o marido e lhe dissesse que o direito que ele tinha de ir a casa de uma companheira. na medida do possível. com raiva o leu: "Num minuto apenas. no Banco . ela voltou à casa e telefonou àquele senhor. puxando a criança e lendo a página. O dinheiro muda de mão. Então. havia um senhor que era espírita — Elísio Dórea — e que um dia. . ela também tinha de procurar aquilo que lhe fizesse bem. o ausente chega. Com essa angústia toda. ela saiu renovada e passou a fre- qüentar as reuniões públicas. Conversamos muito. deu-lhe o endereço. Ela terminou de ler. passou o ímpeto — em um minuto! Parou e olhou em torno. embora. nem queria morrer." Foi andando. o garoto apanhou um papel que estava no chão. ficou angustiada ante o pavor de vê-lo morrer atropelado. Ela o arrebatou e ia jogá-lo fora quando viu es- crito "UM MINUTO APENAS". Ela viu que era escrita por mim — era uma página mediúnica. O SEMEADOR DE ESTRELAS 203 Ao percebê-lo solto. o amor parte. não queria viver. O amigo espírita explicou-lhe que era fácil encontrar-se co- migo. O impulso havia desaparecido. Quando conseguiu segurar o filho e abaixou-se para dar- lhe umas palmadas. tentou falar-lhes sobre o Espiritismo. aqui viesse e a sur- preendesse. Nesse momento recordou-se de que. Caso ele tivesse qual- quer suspeita do seu comportamento. . reagiram incontinenti. olhou-o melhor. caso duvidasse de sua integridade moral. Foi mudando de comporta- . Mas. Contou o acontecido. e ela ali estava para pedir uma orientação. a tormenta acalma. a dor passa. Conversei demoradamente com ela. indo à sua casa jantar. onde trabalhava o marido. não sabia o que fazer da vida. ela e o marido. No final estava escrito: Marco Prisco. agora. a vida muda..

na fila. então. está adolescente de quinze anos e a paz voltou à família. E ela. o lar está reconstituído. Aquele filho. quando irrompeu um homem. está dignificando o seu nome.204 SUELY CALDAS SCHUBERT mento. como aquele que o senhor se permite. um ato de amor — respondi-lhe — mas de um amor fraterno. ao invés de desrespeitá-lo. ela hoje dedica a vida à prática do bem. porquanto era também muito agressiva. realmente. A família foi reconstituída e hoje são excelentes espíri- tas. Mais de um mês depois. à frente de todos: — Me disseram que o senhor é o amante de minha mulher e eu vim aqui para pôr isto em pratos limpos. ao senhor que desrespeitou o seu lar e a sua famí- lia. para não o odiar. Através dela foi trazido. dizendo. que era um inimigo. Ele a colo- cou no coldre. Entrou pelo salão e chegou perto de mim com a arma em punho. o casal tem três filhos. Aclarada a causa do desajuste conjugal. Pedi-lhe. com o tempo. pelos Benfei- tores Espirituais. Ele levou um choque com as minhas palavras e ficou sem ação. . na cintura. um ex-marido a quem ela não soubera respeitar na encarnação passada e que estava atirando o atual esposo invigilante ao adultério. quase assassinado. visivelmente de- sesperado. que guardasse a arma. ele teve a célebre crise de choro (que sempre ocorre nesses casos) e depois saíram abraçados. passou a canalizar as suas energias para a aplicação de passes. estava ma- goada e reagia facilmente. e não escuso. Ele. com um revólver na mão. — O senhor há de notar que é. para que ela enveredasse pelo sui- cídio. público. enquanto ela revelou a mediuni- dade de psicofonia. O que sua esposa está buscando aqui é o amor universal. ela estava conversando comi- go. Falei-lhe demoradamente. o agente da grande perturbação.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 205

O obsessor reencarnou. Ê o filho caçula, está dentro
de casa agora, apaziguando os dois.
Um minuto apenas!
Duas vidas salvas por uma página caída na calçada da
movimentada avenida. C o m o foi parar aí? Que prodigiosos
recursos espirituais foram carreados para que aquela mu-
lher a lesse, no momento certo? Como, na fração de um
minuto, a criança vê a página no chão e, num impulso, a
segura?
Num átimo o vento poderia tê-la deslocado do lugar.
Alguém poderia pisá-la, amassando-a. A mãe, desesperada,
puxando o filho pela mão, poderia ter passado antes ou
depois que a folha de papel aí estivesse. Ou ter ido pelo
outro lado da rua. Ou então ...
Quantas coisas poderiam ter impedido que o tão espe-
rado momento da leitura acontecesse. As probabilidades
contrárias são quase incalculáveis.
No entanto, em um minuto apenas, a mulher caminha
naquela direção, no local exato e, no seu desespero, vê o
filho escapulir de suas mãos em meio ao trânsito intenso.
Segura-o. Por um estranho paradoxo teve medo que ele
morresse atropelado — ela que pensava em matá-lo. É, pre-
cisamente, neste instante, que a luz do Mundo Maior in-
cide sobre ambos.
A criança pega a página solta no chão. E ela vai parar
nas mãos da agonia.
Um minuto apenas!
0 que é isto? É o tempo exato do socorro, do amparo,
das bênçãos divinas.
Alguém, um dia, num minuto de luz, idealizou aquela
página e a transmitiu para a Terra. Outro alguém, predis-
posto ao amor, num momento de elevação captou a men-
sagem. A partir daí, a trajetória do bem se faz. Por cami-
nhos insuspeitados, para nós, que temos a nossa visão
obliterada pelos estreitos limites físicos.

206 SUELY CALDAS SCHUBERT

Salvar alguém das garras da loucura, do desespero, das
horríveis voragens do suicídio, do crime — não é esta a
meta do Consolador? E, trazê-lo de volta, resgatá-lo dessas
tenebrosas malhas, recuperá-lo, promovê-lo não são estas
as finalidades da Doutrina Espírita?
O desfecho deste lindo caso é comovedor.
A reencarnação a fazer cumprir as suas leis, nos leva
a outras reflexões.
Em um minuto apenas, a Misericórdia Divina se der-
rama, plena de bênçãos, sob as tortuosas vielas dos passos
humanos, corrigindo, saneando, reparando, transforman-
do-as em estradas luminosas no rumo da Vida Maior.
Precisamos de outras provas disto?

25

FATOS MEDIÚNICOS EM ISRAEL

Quando fui a Israel, levei um gravador pequeno para
registrar o que o guia ia dizendo e consignar as minhas im-
pressões, porque depois que daí saísse não me recordaria
de todos os detalhes.
Em Tiberíades, há um ancoradouro de barcos e fui
gravando tudo. Numa grande emoção, sentei-me nas pe-
dras, enquanto Juan e Nilson choravam. . . Quando o guia
viu-nos em tal estado, sugeriu:
— Acho bom irmos embora, porque senão o tempo
não dará para visitar o restante. ..
Saimos todos em "estado alfa".
Quando entramos no carro, apareceu-me o Espírito
Marcelo Ribeiro e falou-me:
— Baiano, tu deixaste o gravador lá, sobre as pedras.
Levei um susto terrível e pedi ao guia:
— Pare, imediatamente; vamos voltar, porque o meu
gravador ficou lá.
— Se ficou, perdeu, porque já devem tê-lo tirado do
lugar.
Mas, o Marcelo afirmou:
— Volta rapidamente, pois estou tomando conta; a
meninada está a cinqüenta metros .. .
— Volte, imediatamente — insisti.

208 SUELY CALDAS SCHUBERT

Retornamos, e quando íamos chegando, vimos um me-
nino apontando para o gravador.
Eu gritei:
— Não o toque. È meu — e consegui reavê-lo.
Mas, o nosso guia era um árabe, falando espanhol per-
feitamente. Ele falava nove idiomas. A certa altura nos in-
formou:
— Vou lhes mostrar agora a estalagem do "Bom Sa-
maritano".
Entramos e fiquei empolgado. Quando estávamos as-
sim, naquele entusiasmo, apareceu-me Joanna e disse-me:
— O conhecimento evangélico do senhor deixa muito
a desejar. (Quando ela está muito austera chama-me de
senhor, que é para quebrar a intimidade)
Eu, crente que conhecia o Evangelho de capa a capa...
— Mas, como?
— Porque o senhor está aqui considerando que esta é
a hospedaria do "Bom Samaritano"...
— Porém, é a hospedaria do "Bom Samaritano", con-
forme o senhor o afirma. (E perguntei ao guia só para
confirmar).
Ela, tranqüilamente, prosseguiu:
— A narrativa de Jesus é uma parábola, e uma pará-
bola é um conto imaginativo por paralelismo. Não foi nesta
hospedaria. Para mostrar quem era o próximo, Jesus con-
cebeu uma história com a figura do "bom samaritano". Por-
tanto, podia ser esta como qualquer outra estalagem, caso
houvesse acontecido...
Aí, despertei. . . Então voltei-me para o guia e perguntei:
— Mas, o senhor tem certeza do que está informando?
— Sim, tenho.
Ansioso por sua reação, passei-lhe o argumento. Ele
caiu em si.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 209

— Daqui por diante o senhor diga: em uma hospedaria
como esta...
— Qual é afinal a religião que vocês professam? —
indagou-nos. — Porque católicos, não são, pois que não se
benzeram e nem se ajoelharam nenhuma vez; protestantes,
também não, porque não me tentaram convencer. Qual é a
sua religião?
— Nós somos espiritas.
— O que é isto?
Então aproveitei o ensejo... Esqueci-me de onde esta-
va e, com Juan e Nilson do lado, gentilmente, ele foi "dou-
trinado". Quando descobriu que acreditávamos na imorta-
lidade da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, no que
eles acreditam, mas de forma diferente, sensibilizou-se. Era
maometano, fazia o culto cinco vezes, ouviu-nos e res-
pondeu:
— Eu já atendi turistas de todos os tipos, mas os se-
nhores são o grupo mais equilibrado — de um equilíbrio
especial — que eu conheço. São equilibrados porque não
bebem, não fumam, não comem coisas vulgares, mas são
completamente loucos porque acreditam que a alma retor-
na, e esta não volta: a alma que serviu ao Alcorão está lá
nas delícias.
— Como são as delícias? — indaguei.
Ele explicou, e nessa altura fomos nós que o achamos
estranho.
Para completar, Juan informou-lhe:
— O Divaldo é médium, ele vê e conversa com os
"mortos".
— O senhor vê os "mortos"? — perguntou, surpreso.
— Não, porque quem morreu acabou. Eu vejo os vivos,
que venceram a morte. ..
ü assunto encerrou-se neste ponto.
Fizemos todo o roteiro. No último dia, já éramos muito
amigos, e ele então, para nossa surpresa, indagou-me:

210 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Senhor Divaldo, vou perguntar-lhe uma coisa, com
toda a sinceridade. O senhor promete ser leal comigo?
— Sim, eu prometo.
— O senhor vê quem já se foi?
— Sim, eu vejo.
— Como é que vê?
— Como o senhor está vendo aquela árvore ali.
— Mas, eu não o posso conceber. Agora, que nos vamos
despedir, se o senhor me puder dar assim uma prova, uma
coisa qualquer...
— Eu lhe vou dar agora esta prova — afirmei. — Eu
vi o seu pai que já m o r r e u . . .
Ele ficou lívido.
— Como o senhor pode tê-lo visto, se meu pai está no
paraíso?
— O senhor o colocou lá, mas ele não é obrigado a ficar.
O genitor dele me ditou uma mensagem em árabe, que
eu escrevi com muita dificuldade, tendo a mão conduzida.
Eu lhe disse que não tinha conhecimento algum do idioma,
porque o meu alfabeto é latino, mas pedi um papel, e o pai
escreveu uma citação do Alcorão, o versículo 114, uma sura:
"A esperança na bondade de Deus é o coroamento de uma
vida digna."
Ele leu em árabe e traduziu-a para nós. Ficou abaladís-
simo. Eu descrevi-lhe o pai, fisionomicamente.
Despedimo-nos, e ele, profundamente impressionado,
prometeu escrever-me. Assim, mantivemos correspondência
por algum tempo, hoje interrompida.

Muitos e extremamente ricos foram os acontecimentos
mediúnicos vivenciados por Divaldo quando de sua viagem
a Israel.

O S E M E A D O R DE ESTRELAS 211 Não é muito difícil imaginar o que representa para um médium como ele. que tem condição de captar a ambiência etérica dos locais onde se encontra. esse contato com a psi- cosfera das regiões onde Jesus viveu. Estes fatos aqui narrados pelo médium são uma peque- na amostra dentre as interessantes e comoventes experiên- cias que a psicosfera da "Terra Santa" lhe propiciou. .

ingênua. a certa altura. porém. que é uma pessoa muito dis- traída. estavam as encarregadas em plena função. todos os benefi- ciados saíram e entrou novo grupo. chegou perto dele e aplicou-lhe a bioener- gia com todo o amor. Terminando. aplicou passes em todos. os comentários. 26 OS TRÊS PASSES Em nossa Casa temos o plantão de passes. mais cuidadosamente ainda. Preparou a água. Fez então a leitura de praxe. em seguida. a prece e aplicou os passes. Ela pensou: naturalmente ele não se sentiu melhor. fez uma leitura maior e comentou-a. para ser beneficiada. saí- ram todos e ele não se mexeu do lugar. Deu-lhe. tor- nar-se receptiva às bênçãos divinas. chegando junto ao senhor. Entraram outras pessoas e ela ficou intrigada. Aproximou-se do homem e repetiu o socorro fluí- dico. a água fluidificada. cada um tem de fazer a sua parte. Terminado o mister. flui- dificou-a. Certo dia. pois já o atendi por três vezes. transmitiu-lho por terceira vez. agora. mas ele continuou sen- tado. dizendo: — Agora o senhor já pode ir. dizendo. Então. Por que o senhor veio aqui? . e. explicou que o passe é uma transfusão de energias. que a pessoa tem de se abrir para Deus. Uma de nossas passistas. quando entrou um senhor e sentou-se.

Ela deu-lhe O Livro dos Espíritos. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 213 — Minha senhora. realizamos o melhor ao nosso alcance. Lançamos mil sementes. A dor de cabeça passou.. As que ficarem aparentemente perdidas no asfalto. pois nunca sabemos quando a semente vai germinar. uma dor de cabeça violenta. eu não estou entendendo nada do que a senhora está jazendo. vi a porta aberta. fez estes movi- mentos sobre a minha cabeça. enquanto ele ficou-lhe como afilhado emocional. saiamos a semear. Hoje é passista plantonista da Casa. eu não entendi nada. porque o resultado da colheita é de Deus. a senhora veio. De- pois. na outra sala. A senhora chegou. escondendo-se no comodismo. por estar muito fresquinho e agradável. — Agora estou ótimo! A senhora pode explicar-me o que é isto? — Bem. Então. primeiro. fez aqueles gestos outra vez. Muita gente diz: — Não se deve dar passes. nas pedras e na terra safara. aqui é uma Instituição Espírita — e explicou-lhe tudo. a luz é paga lá. Podemos ver como funciona o mecanismo do Mundo Espiritual. o número de passes aplicados. uma que germine vai dar-nos dez mil. O que importa é semear. A nossa tarefa é ajudar sempre. Eu pensei: — Da- qui não saio enquanto esta senhora fizer isto sobre a minha cabeça. O homem passou a freqüentar as reuniões. Então sentei-me aqui. Eu sofro de uma dispepsia nervosa.. estava com calor terrível. se perdermos novecentas e no- venta e nove. a forma de ministrá-los. En- trei. Que elas caiam onde caírem. não se deve fazer isto ou aquilo. A aplicação do passe. Se não der resultado. deve-se restringi-los ou atender a to- dos? Estas são algumas das questões constantemente formu- . serão res- gatadas por uma apenas que encontre terra boa. Eu sou o cobrador da luz. — Vamos passar o verbo para a ação positiva: Vamos fazer.

porque. Mas. Nesse contexto todo. intitulado "Passes". uma coisa é evidente e fundamen- tal: o sentimento com que o passe é transmitido. talvez. o entusiasmo de ser útil. pois. com a finalidade de aprimo- rá-lo. Manoel Philo- meno de Miranda refere-se aos passes de dispersão fluídica e ao longitudinal. nem as mais simples. atualmente. as nossas dificuldades. pelo suave magnetismo do Seu amor. de suprir. cursos de passes. no afã desse aprimoramen- to. Em razão disso surgiram algumas técni- cas para a aplicação do passe. surgiram algumas novidades para se ministrá-lo. Jesus curava pelo olhar. . à distância. em Grilhões Partidos e Painéis da Obses- são. O passe é um ato de amor e deve ser transmitido no clima que este sentimento propicia a quem o cultiva. As técnicas seriam. de sen- tir-se solidário com o próximo. até livros específicos sobre o assunto. isto é. tal- vez até com prejuízo do verdadeiro sentido de doação e de amor que são primordiais. Técnicas foram criadas. estudadas e debatidas pelos que se interessam pelo bom andamento dos trabalhos espíritas. palestras. este assunto — passes — tornou-se um problema complexo. Os próprios autores espirituais fazem referência a algumas des- sas técnicas. expressando uma preocupação permanente em nosso meio espírita quanto à prática correta para a sua aplicação. Isto motivou uma corrente de opinião que diz não se- rem necessárias as técnicas. Isto envolve a alegria de servir. pelo impulso da vontade. André Luiz. . é todo um exercício de amar. bastando apenas a imposição de mãos. a nos- sa carência de valores íntimos impede-nos de conseguir me- lhores resultados. menciona o passe longitudinal e o rota- tório utilizado pelos Instrutores Espirituais. no capítulo de Missionários da Luz. Todavia. Ele deixou-nos o exemplo. pela imposi- ção das mãos. páginas são escritas. porque . os recursos auxiliares na con- dução das energias espirituais e físicas. seminários. tão complicadas que dificultam o que deveria ser simples.214 SUELY CALDAS SCHUBERT ladas.

na sala própria. unindo senti- mentos. conforme se vê. que não se vá tocar o receptor ou fazer ruídos. Esses cuidados. Uma pessoa que age. E para que esse amor logre atingir a finalidade para a qual é canalizado. do qual Ele é o Governador Espiritual. Outro ponto que merece ser ressaltado e do qual não se deve prescindir nessa tarefa é o da ética do passe. usando ou não as técnicas. lutando pela reforma íntima e constante progresso espiritual. naquele instante . Na verdade. ingênua. estalar de dedos etc. O amor que o passista deve cultivar a fim de que se torne médium dos Espíritos Amigos e juntos. o passista não pode prescindir dos va- lores morais indispensáveis. a pergunta que ela lhe faz após a terceira aplicação. O amor dos Benfeitores Espirituais. que ela era uma pessoa distraída. O amor de Jesus Cristo que impregna o nosso planeta. a fim de tornar-se um bom servidor. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 215 este é um trabalho que jamais deverá ser feito de maneira maquinal. a essência do passe é o amor. constituem a ética do passe. nada mais nada menos por três vezes consecutivas no senhor que per- manecia sentado. no seu conjunto. Kardec é bem claro sobre esta questão quando diz que o médium deve evitar tudo que o transforme em agente de consultas. Aliás. Entretan- to. O pas- sista deve preservá-la. Obviamente. Também que se evitem quaisquer tipos de consultas e orientações no momento da aplicação. A pretex- to de doar. o aplica. poderia ter sido feita da primeira vez. logo no início. É oportuno falarmos a respeito do passe a propósito deste tão interessante caso narrado por Divaldo. conforme assevera Leon Denis. possam doá-los a quem necessita. Divaldo esclarece. sempre tão abnegados e solícitos em socorrer as dores hu- manas. A médium passista. O amor que dimana do nosso Pai e Criador em favor de todos os Seus filhos.

Semear — eis um tema muito sério para nossa medi- tação. pelo desejo puro e simples de ajudar.216 SUELY CALDAS SCHUBERT preciso. em prejuízo da espontaneidade de sentimentos e do legítimo desejo de praticar o bem e a caridade. desta ou da- quela prática. um diploma daquele que quer servir nesta área. quase que se exige hoje em dia. Não se está condenando os novos conhecimentos espe- cializados em torno deste ou daquele assunto. . com o uso das técnicas em nossos serviços espi- ritistas. mas. Este é um bom exemplo para quantos se preocupam. Semear — ensina Jesus. em demasia. não se deve fazer isto ou aquilo. Semear sempre — ele nos conclama. enfatizando que o excessivo uso das téc- nicas tem empalidecido o vero sentimento da caridade e do amor. Divaldo ressalta então a questão das restrições: não se deve fazer assim. E no tocante ao passe. pelo sentimento.

um con- frade se ofereceu para ir buscar-me no hotel. Após alguns momentos percebi que era um lugar muito turbulento e complicado. Não obstante. para não ficar parado naquele local. Acertamos que ele iria pegar-me na Avenida Ipiranga. Fiquei muito constrangido. a minha atitude é de com- preensão para todo e qualquer problema humano. e vi pelo vidro. Todo o mundo tem o direito de viver como lhe apraz. que o outro também parou. porque o rapaz me olhou demoradamente. mas foi pior pois eram muito chocantes. nas proximidades. Andei um pouco mais e resolvi virar-me. quando eu ia proferir uma palestra na Federação Espírita do Estado de São Paulo. eu me postei no local indicado. quando então observei que o aspecto dessa pessoa era um tanto estranho. Sendo espírita. para facilitar-lhe o esforço e ganharmos tempo. Continuei a an- . À hora aprazada. 27 COM MARCO PRISCO NA AVENIDA IPIRANGA Em certa ocasião. surpreendi-me. aguar- dando. porque não me cabe o direito de jul- gar. Parei numa vitrine. à porta do Cine do mesmo nome. Procurei olhar os cartazes. uma banca de jornais e encaminhei-me até lá. como em relação aos indivíduos. À medida que eu andava. Vi. Muitas pessoas atormenta- das e uma grande confusão. percebi uma pessoa se- guindo-me. mais adiante.

que não espe- rava. — Ele declarou que as suas iniciais são M e P. Tratava-se de Marco Prisco. Um Espirito.) Bem. (Pensei: naturalmente ele me conhe- ce. um tanto embaraçado. E o descreveu com uma clareza impressionante. enfrentar a situação. também o vi a meu lado e ele me disse: . aliás. notei-o agora e pode ser que o senhor me co- nheça de algum lugar. Ele me olhou muito constrangido. a vesti- menta e todos os detalhes. Já que o está vendo per- gunte-lhe quem é. saber o de que se tratava.. — Estou vendo um Espírito perto do senhor. pensando o que se- riam tais coisas.218 SUELY CALDAS SCHUBERT dar e comecei a orar. Pensei que devia tomar uma atitude. mas é que eu estou obser- vando uma coisa que sempre me acontece e vou dizer-lhe francamente: sucede que eu vejo coisas. .. O senhor acredita em Espí- ritos? — Não. . — Eu vejo coisas — prosseguiu — e estou vendo junto ao senhor algo curioso. — E o que é? — Bem. Neste momento. . — Não sei de quem se trata. senhor. preparando-me para encerrar o assunto. não sei se acredito — acrescentei. Virei-me subitamente e perguntei-lhe: — O senhor desejava alguma coisa? Ele assustou-se com a minha indagação. começou a gaguejar e tentou explicar: — O senhor não se incomode. e respondeu: — O senhor deve estar intrigado por eu o estar seguin- do. É um romano. Mentalmente roguei ajuda espiritual e aguardei. não é? — Bem. Pensei: ele me conhece. Foi a minha vez de ficar surpreso. .

— Bem. agredia-o de forma violenta. Tentou explicar a situação: — Eu não sei o que fazer. quando me ataca eu saio a caçar (foi a expressão que ele usou). — Eu tenho dignidade. Eu sou uma pessoa de sociedade. cada dia ele caía mais. mas. Era-lhe o obsessor. Atenda-o! — M e P. o antigo marido traído na encarnação anterior. uma volúpia. vou descendo. nove.. — O senhor acredita? — indagou bem mais animado. ele está balançando a cabeça afirmati- vamente. Como conseqüência. . Enquanto ele falava. — Ah! acho que sei quem é. Eu sou es- pírita e estou indo agora a uma conferência. Desde en- tão passou a ter um sonho com um homem que o perseguia. usando expressões sórdidas. não agüento.. conhece? — prosseguiu o moço. porque ele é amigo meu. se não o encontro. trabalho. vamos dizer dez por cento. atenda-o. Ela foi minha. pegou-me as duas mãos e notei que as suas estavam geladas. Então escla- reci ao rapaz: — Não vamos render muito o assunto aqui. ao mesmo tempo. — Eu estou com vinte e seis anos — afirmou-me.. senhor. Então eu o procuro. repetindo: — Ela é minha. Adolescente. de muito boa aparência. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 219 — Divaldo. . porque estou muito atormentado. ao seu lado. de bai- xo teor vibratório. já que você foi muito honesto. eu ouço. e. vi uma Entidade malévola. E descia a detalhes muito desagradáveis. Tenho um tipo padrão. Você está dese- jando ser esclarecido? — Estou sim. . naquele período fora seduzido por uma pessoa de maus instintos. Em poucos minutos contou-me a sua vida de dissabo- res e aflições. Eu vejo. eu vou dizer-lhe que acredito. porém. Ê uma loucura. fui bus- cá-lo para podermos ajudá-lo.. que começou a me desafiar. chama-se Marco Prisco! — Isto mesmo.

Ninguém nasceu para sofrer. O que será isto? — Você vai saber.. Eis como Divaldo relata o seu conhecimento com Marco Prisco: "Em 1950. três. mas conseqüência de nossos erros. um cristão exemplar. o desejo de matar-me. eu o apre- sentei a alguns amigos que iriam propiciar-lhe a terapia do passe e o conhecimento da Doutrina. na Federação Espírita do Estado de São Pau- lo.220 S U E L Y C A L D A S SCHUBER1 oito. Um dia. sete. Conheci Simão Pedro e o apóstolo Paulo. . Hoje é um espírita de- dicado. Tive a honra de militar nas catacumbas. a vergonha. Acompanhei-lhe a conva- lescença moral. em nossa conversa. Mantivemos correspondência. . sandálias. ele assistiu à palestra. Casou-se mais tarde. Às vezes interno-me para recuperação. A dor não é de Deus. Leia-o. este livro vai levá-lo à renovação. . Reencontrei-o um ano depois. que me disse: — Eu sou Marco Prisco. Ele agradeceu comovido e despedimo-nos. de beleza física muito grande. o que achar. a seu pedido. É uma loucura! E depois. Levamo-lo à Federação.zero. aparentando uns vinte e dois anos. Chegou o confrade que me viera buscar. cabelo cortado à Júlio César. Opor- tunamente (1949) escrevi por tuas mãos uma página. estude-o. Dei-lhe o Evangelho Segundo o Espiritismo e disse-lhe: — Amigo. bem romano. Enfrente as dificuldades que virão. o ódio de mim mesmo. se você o estudar vai superar tudo. durante o processo de cura e tudo será diferente. pescoço bem grosso. Daí por diante ele começou a me aparecer. fez-se pai. me apareceu pela primeira v e z o Espírito de um j o v e m romano. após dar-lhe o meu endereço. de toga. falei-lhe: .

" Muito interessante este caso. Dois médiuns. natural. nem de longe. Um romano na Avenida Ipiranga! É bastante curiosa a cena. espontânea. e na História? — Na História fui um desastre. . A ligação espiritual que existe entre cada um dos médiuns com Marco Prisco. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 221 — Mas. é o referencial que os aproxima. em meio à movimentada Avenida Ipiran- ga. você só me fala do tempo cristão. Só me recordo dos tempos do Cristianismo. O Espírito (esclarece Divaldo). por gratidão àquela reencarnação na qual foi ditoso. É exatamente essa faculdade mediúnica que o faz observar o médium baiano. é a mediunidade do jovem. todavia. em primeiro lugar. das cata- cumbas. embora não lhe entenda o mecanismo e. A vidência é uma situação corriqueira para o rapaz. plasma a sua presença com aquelas carac- terísticas do seu período de felicidade. Quando finalmente se defrontam é relevante observar- mos os pontos em que o diálogo se estruturou. despercebido do público. porém intenso e revelador. Isto. as possíveis implicações na vida de uma pessoa. obviamente. Mas. Pode-se imaginar quantos preparativos e cuidados foram necessários para que ambos se encon- trassem. Marco Prisco promove o encontro entre o moço ator- mentado e Divaldo. 0 ambiente é conturbado. Vê junto a este um Espírito que se apresenta à romana. lhe chama a atenção. O que ressalta. o fato mediúnico acon- tece em toda a sua plenitude. imprime os seus mo- mentos de felicidade e.

pois o perseguidor constrange a sua vítima a agir contra a sua própria vontade. Referindo-se ao jovem em questão. pelas dívidas do passado que o tornam vulnerável ao seu perseguidor. a sintonia com Entidades e planos inferiores. O jovem vive um angustiante drama. em que as dissipações atin- giram o auge ( . o obsessor persegue aquela que o traíra no pretérito. A partir desse forte vínculo a sintonia se torna pos- sível. em pro- . muitas vezes. apresenta-se com carac- terísticas de subjugação. embora) as tendên- cias guardadas da vida anterior. Segundo a narrativa. o obsessor explica: — "O corpo era moço. que merecia uma severa punição. Teofrastus. exatamente. Entidade de grande cultura e crueldade e que dirige uma organização das trevas. e principalmente. também. favorecendo ao perseguidor dominar-lhe a mente por largos períodos. Iden- tificando nela (em corpo de homem. em desequilibrar o jovem — no qual " v ê " a esposa traidora — até levá-lo ao suicídio. . Observe-se que o ex-marido do passado identificou no rapaz de hoje a mulher que o traíra em precedente exis- tência. O plano' consiste. no caso em pauta.. Vejamos como Miranda relata o caso. relata um caso muito semelhante a este. A obsessão o prende em suas malhas. No livro Nos Bastidores da Obsessão. . através da perversão da mente inquieta. se constitui em ponte para a Vida Maior. agora reencarnada num corpo mas- culino. Para consumar a sua vingança tem o apoio do Dr. através da psicografia de Divaldo.222 SUELY CALDAS SCHUBERT É maravilhosa a faculdade mediúnica! Muito embora enseje a visão e. Manoel Philo- meno de Miranda. A obsessão. mas o espírito que o animava era o da assassina. ) fácil seria perturbar-lhe os centros ge- nésicos.

principalmente no setor moral. Jorge Andréa. foi fácil modificar-lhe o interesse e inclinar-lhe a libido em sentido oposto ao da lei natural. Tão fortemente me liguei à sua vida. cujo processo de- sencadeará desajustes. sob a rigorosa assis- tência de um hipnotizador destacado pelo Dr. Teofrastus. praticada por técnicos do nosso lado. imanando-nos em processo de vampirização em que me locupleto e através do qual a destruo. que o homossexual ao atender aos sentidos em satisfação sexual. produzindo irreparável distonia nos centros da emoção. pela sensação de culpa. ." (grifos do original) 0 jovem conta o seu angustiante problema a Divaldo. Ninguém se realiza no caminho do dese- quilíbrio e da desordem. O SEMEADOR DE ESTRELAS 223 cesso de hipnose profunda. . emérito escritor. que o ódio se converteu em estímulo de gozo. até que o suicídio seja sua única solução. atirando-a cada vez em charco mais vil. quando o assédio obsessivo é mais intenso ele acaba por ceder ao domínio hipnótico. A tormenta interior que o avassala se acentua dia após dia. sem qualquer sombra de dúvida. jamais estará em processo de realização conforme pensam algumas escolas. Nos momentos mais difíceis. assim se refere à questão do homossexualismo: "Consideramos. A prática deformante é resultado da distonia íntima que carrega consigo. pela rejeição a si mesmo. Daí por diante associei-me à sua organização física e psíquica. fragilizado pela dívida moral do passado. Arrefecida a atua- ção maléfica advém-lhe um sofrimento maior pelo remorso. — "Em pleno amadurecimento (continua o persegui- dor espiritual) das faculdades sexuais. já que o seu corpo era masculino. Dr. experimentando as sensações que lhe eram agradáveis e criamos um condicionamento em que nossos interesses agora passariam a ser comuns. A vivência desses mecanismos desarmônicos despertará .

Então." (Forças Sexuais da Alma) Na Avenida Ipiranga. se defrontam. A reação- resposta. O j o v e m inicia aí a sua longa caminhada no rumo do equilíbrio e da paz. Existe. sedimentar posições inferiores ou pa- ralisar o processo. o processo de- generativo desenvolverá sempre mecanismos de defesa e de impulsos no sentido contrário. não conseguindo. Séculos de experiências. dois médiuns e Marco Prisco. um romano dos tempos de Pedro e Paulo. todavia. pela zona espiritual. da distonia fica a expe- riência e vivência. sempre possibilidades de soerguimento.224 SUELY CALDAS SCHUBERT impulsos específicos que responderão. O grande impulso será sempre dirigido na faixa do equilíbrio e harmonia. pelo pro- cesso de integração na linha positiva da evolução. D i v a l d o prossegue a sua trajetória de equilíbrio e de paz. . após a queda. o mal. jamais. medeiam entre ambos. estará diretamente ligada à ação desencadeante com toda a colheita das necessárias "dores-equilíbrio". o negativo. a fim de criar defesas para a sedimentação de novas posições mais expressivas. portanto evolutivo. Dois médiuns se encontram. algum dia.

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Este livro deve ser publicado para consolar muita — Mas em creio que não o será.Coisa interessante. que estava enfermo. então. . Eu JÁ publiquei outros cinco livros até então. Ele o ouviu. Fui com Celeste Mota. é o meu problema: eu tenho an- gina. aquele no qual Dona Otília. li o primeiro capitulo. Ficamos conversando e depois de algum tempo ele per- guntou-me: — O que é isto que você tem na mão? — É um livro que psicografei. fala que linha morrido "do coração". — E o que vai fazer com ele? — Eu o estou levando a Curitiba para fazer um orça- mento. a fim de conseguir publicá-lo — expliquei. que tinha "angina pectorís'. me disse: — . pensando ter uma brecha de tempo para prosseguir o trabalho. peguei os originais do livro que estava revi- sando. a autora espiritual. Sentou-se. Chegando à sua casa encontrei-o já em convalescença. e depois. seriamente. Não nos conhecíamos. mais próximo a mim e. porque é muito cara uma edição. Quando estava de saída para a casa dele. 28 ALÉM DA MORTE Eu havia ido visitar o senhor Aristides Silva. — Leia algo para eu ouvir. que era o Além da Morte e levei comigo. não tínhamos maior inti- midade.

Por- que. — Eu quero que este livro saia — continuou. Eu fiquei sem ação. Ao retornarem. depois de o publicar. Ele ficou pensativo por alguns instantes. — Este livro vai ser a porta que se abrirá para outras obras. Se for uma edição de três mil exemplares fica em tanto. melhor. — E você acha que fica por quanto uma edição? — indagou-me. Não sabia o que pensar.. Com a renda dos dois será publicado mais um e assim se farão as reedições. eu nem tenho uma idéia. Eu fiquei perplexo. se for de cinco mil ou de dez mil. você publicará outro. Dirigiram-se ao interior da residência onde demora- ram alguns minutos. quanto maior é uma edição. enquanto se eleva a tiragem. prometeu fazer um orça- mento para este. — Só isto? — Mas. . sim? . porque barateia-lhe os custos. Quando ele abriu o cofre e indagou-lhe: — Ireninha. ele trazia uma caixa de sapatos nas mãos e disse-me: — Publique o livro. Ele silenciou. Daí a pouco o senhor Aristides levantou-se e chamou a esposa.. um Espírito amigo comentou comigo: — Ele é muito grande.226 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Concedi à "Mansão do Caminho" os "direitos autorais". e prosseguiu: — E por quanto você faria dez mil exemplares? — Um absurdo! Imagine que fica em dez milhões de cruzeiros ou mais. uma amiga. E entregou-me a caixa. em Curitiba. Agora. o preço por exemplar diminui progressivamente. eu vou dar os dez milhões de cruzeiros a este rapaz. dona Irene. O dinheiro aí está. e.. é muito. em seguida. pensando não ter ouvido bem. conversamos outras coisas. ele vai dar a renda. Nesse instante. mas ela (a esposa) é ainda maior. — Dizem que.

Ele aquiesceu e está dando treze milhões de cruzeiros. O SEMEADOR DE ESTRELAS 227 Ela (prosseguiu a Entidade).000 exemplares ). (N. no entanto. ( * ) Quando concluída.(*) Em agosto de 1959. Uma vez mais. (10. Divaldo termina de psicografar o livro de Otília Gonçalves. Ou. pela psicografia de Chico Xavier. da E . oito anos antes. O tempo fez a sua trajetória e tem despertado os que adormeceram na ilusão e no engano. indo a Uberaba. em seguida. Em poucos momentos. a obra custou os referidos treze milhões de cruzeiros. Essa atitude ainda hoje nos comove pela sua nobreza. porém sem a contribuição que André Luiz espontaneamente ofertara. recebe de André Luiz. a renúncia atinge tão alto signi- ficado quanto no silêncio mais profundo da alma ante o alarido dos inconscientes. como é irreversível. ) . Apresentamos. Joanna de Angelis escreve uma página de intróito. só? Dê treze. propicia que além da morte cada um encontra as respostas ante o enigma da verdade. só é publicado em 1968. Este. No início do ano seguinte. Em raros instantes a renúncia se faz tão bela quanto no silêncio de quem se deixa apagar para que não se apague a luz que brilha adiante. o belo prefácio de André Luiz. ao invés de dizer. intitulado Além da Morte. o prefácio com o mesmo título do livro. Em substituição. Divaldo renuncia a colocar em evidên- cia o que lhe era de direito e por mérito. como a maioria das esposas: — Tudo isto? — propôs ao marido: — Ô Tidinho.

descrentes dos próprios méritos. serão os chamados mortos de amanhã com possibilidade de se perturbarem uns aos outros — caso perseverem na ignorância — cultivemos na Dou- trina Espírita o instituto mundial de esclarecimento da alma. oOo É por isso que saudamos neste livro mais um brado de renovação e esperança concitando-nos ao aproveita- mento das horas. Loucos. além da morte. Fixemos a atenção. Suicidas. como os chama- dos vivos. Por mais se lhes mostre a harmonia do Universo e por muito se lhes fale dos objetivos da vida. Malfeitores que furtaram de si mesmos. Infelizes a se imobilizarem nas trevas. assemelham-se a cegos da razão ante a sabedoria da Natureza. entretanto. Criminosos sentenciados no tribunal da consciência. Doentes que procuraram a enfermidade. . oOo Alcançando a Grande Luz. Há quem diga que os chamados mortos nada têm que ver com os chamados vivos. E apesar do horizonte aberto. SUELY CALDAS SCHUBERT 228 ALÉM DA MORTE Todos os dias chegam corações atormentados. a fim de que o pensamento regenerado consiga redimir as suas próprias criações que substancializam a experiência da Humanidade nas várias nações da Terra. continuam desditosos e dementados. sob a hipnose da ilusão. jazem no chão como pássaros mutilados. de hoje.

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230 SUELY CALDAS SCHUBERT .

O SEMEADOR DE E S T R E L A S 231 .

na Bahia. não porque não goste de nós. mas ele pesava tanto que me deu cãibras. Era horrível. . Eu tive uma experiência que me marcou a vida. talvez. Se uma pessoa é grosseira conosco não nos ofendamos com essa atitude: vai ver que a pessoa tinha um motivo oculto. pois que assim se dá porque alguém acendeu-lhe o pavio. Possivelmente. Joanna de Angelis me disse. Era de borracha com uns dois dedos de espessura. porque alguém acendeu-lhe o pavio da cólera na rua e este veio queimando até aqui e estourou. Eu estava com dezoito anos nessa época. No primeiro calcei-o e saí. 29 A LOUCA Algumas considerações sobre a agressividade das pessoas. nem era contra nós. para que não revide e que nunca devemos acusar a bomba que explode. Ê muito difícil julgar pelas aparências.. Quando eu era muito jovem. nestes longos anos de con- vívio. a prestação. esteve em moda. mas eu o achava uma beleza. Ao vê-lo me apaixonei e comprei um par. Arrependi-me da compra ao terceiro dia.. um tipo de sapato marrom e branco. A pessoa faz uma grosseria conosco. porém aconteceu.

tentando defender o sapato.. quando estava atendendo a fila. pela manhã tenho de amarrar a minha esposa no q u a r t o . Se ele fosse mais baixo do que eu. Fora.. empurrando para o fundo. Eu :enho quatro filhinhos. ele era enorme. tramco meus filhos noutro e saio para trabalhar. .. tenho de lhe dar banho. as pessoas entravam com galinhas. o jeito era sair dali. — Seu Divaldo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 233 Entrei num ônibus. Estou a ponto de matar-me. gaiolas. Dei o sinal. fui empurrado. eu o fui olhando devagar.. porém. Quando o ônibus parou eu o empurrei e desci. Pensei: ele me descobriu e vem dar-me uma surra. porque. chegou no meu pé junto a mim e pisou. de dor. Aí. Nisso veio um homem enorme. Eu não podia reclamar. acho que lhe teria dado um empurrão. eu volto. vi o tal homem aí postado. Ele perguntou-me: — O senhor é o seu Divaldo? — Sim. eu vim aqui para pedir-lhe uma cari- dade. Mas. Já atendia aos pobres e sofredores. mas ainda não era espírita. Confesso que chorei de raiva. olhei o sapato. Baixei a cabeça e. À noite. Uns cem quilos! Eu não sentia tanto a dor no pé. quando o olhei. exercia a mediunidade. porque a valentia da gente é sempre contra o mais fraco. Estou com um problema muito sério: a minha esposa ESTÁ LOUCA. de mágoa. Eu era médium. dar comida aos . com tudo. Era um veículo que servia ao subúrbio. Daí a dias. o primeiro que passou. O senhor imagine que eu trabalho nas docas. não é? Por que não pegou um carro? E pisou com mais força. Eu entrei tam- bém. senão a decorrente de ele estar estragando o meu sapato novo. adentravam-se e iam socando quem já estava. que estava rasgado. quando ele chegou perto. em nossa Casa. . pois ainda o teria que pagar. senhor — respondi contrafeito. fui muito delicado: — O senhor quer tirar o seu pé de cima do meu? — Ah! granfino.

Já não agüento mais! Internei-a num hospício e tirei-a. só que um irmão que já morreu (eu não sabia nada de desencarnado).. para ver se alguém me mata ou se eu mato. — E desamarre-a. Ao chegarmos. Eu ando provocando todo mundo. — Porque você é meu irmão. Ele assustou-se. Por que fazer isto com ela? E comecei a doutriná-lo. — Meu irmão. se ela bater. Levei-a ao candomblé e me disseram que ela "tem" Espírito. que sou deste tamanho.234 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T meus filhos e tenho de cozinhar para o dia seguinte. Você não pertence mais à Terra. ela bate em mim. Ela estava toda amarrada de cordas e despida. porque se acalmou e sentou-a no chão. por que você faz isto? (Eu via o Espí- rito. Fomos entrando.. — Ponha um cobertor sobre ela — pedi-lhe.) — Por que você me chama de irmão? — perguntou-me. quando acabar aqui irei lá com Nilson. Você já morreu e está do outro lado da vida. — A vizinhança já deu queixa na polícia. Ele abriu a porta do quarto e eu entrei. ululando. . (Eu era magrinho. . — Mas. para dar-lhe um passe e observá-la. ouvimo-la urrando. Disse- ram-me que o senhor é médium.) — Não faz mal. porque assim eu não suporto mais. — Ninguém dorme — explicou. Eu acho que o Espírito gostou de mim. Fomos com ele à sua residência. o senhor poderia fazer qualquer coisa para me ajudar? — Se o senhor tiver paciência de me esperar. A fila sempre acabava pela madrugada — uma e trinta ou duas horas. quanto mais no senhor. Assim fizemos. seu Divaldo. acompanhando-o. Ele se dispôs a esperar. louvado seja Deus! Ele desamarrou-a e eu me aproximei. .

— Você não se lembra da pessoa que você pisou no pé? Você nunca me viu? — Não. eu lhe perguntei: — Fulano. (Ele tinha quarenta anos e me chamava de senhor. que se tornara agressivo. Ele me prejudicou nas docas. nunca! Então eu contei-lhe o caso e ele me respondeu: — Ah! seu Divaldo! Naquele tempo eu andava louco. um dia. a mim. . uma semana. porque assim eu iria para a cadeia e ficava livre deste mundo horroroso. Aonde eu ia pela ma- drugada. Retornei lá. provocava as pessoas para ver se alguém me matava ou se eu o matava. dirigin- do-se ao marido dela. a fim de se ver livre da aflição. — Você não se recorda de um sujeitinho antipático. — Deixe que eu lhe fale. Eu sou fulano de tal. Meses depois. . tor- nando-se quase um guarda-costas. você não se recorda de mim? — Não. Joanna de Angelis incorporou-me e conversou com a Entidade. E começou uma discussão entre os dois. — O senhor fique calado. por favor — pedi. era apenas um homem muito sofrido. Então. sim. . acompanhando-me. senhor. senhor. Você se lembra de mim? — perguntou. O marido se tomou de gratidão e amizade por mim. outras vezes. aparentemente. ele ia também. eu odeio este homem. vestidinha. Quando eu voltei ao normal a mulher estava calma. O SEMEADOR DE ESTRELAS 235 — Eu tenho raiva desta mulher. seu Divaldo. Ele tinha um problema tão grande. Ela ficou boa. que tinha dezoito). que entrou no ônibus de sapato marrom e branco? — Não. tomou meu lugar. — Lembro-me. aquele homem rude.

Um homem sofrido. como já elucidava Allan Kardec. sejam as de natureza emocional. pelas aptidões e impulsos que procedem das reencarnações transatas. capítulo X X I I I . . produzidas por encarnados ou por Espíritos que já se despiram da indumentária carnal. A obsessão em certo grau pode ser confundida com a loucura. resul- tante da violência da vida. nos propósitos inferiores a que se a f e r r a m . a obsessão muito prolongada pode ocasionar "desordens patológicas". enquanto que com os tratamentos corporais os tornam verdadeiros loucos. "Entre os que são tidos por loucos. a exce- lente obra Nas Fronteiras da Loucura. sejam pelo impositivo das obsessões infelizes. no entanto. mas. escreve. uma mulher louca. mais tarde. de problemas que aturdem o ser humano. precisariam de um tratamento moral. não revido. através de Divaldo. ) . item 254-6) Manoel Philomeno de Miranda. . A violenta reação das pessoas é. São dele os trechos abaixo: "Queremos deter-nos nas psicopatogêneses espirituais.236 SUELY CALDAS SCHUBERT Isto me ensinou a nunca revidar. Eu não sou uma pessoa boa. Nesses casos. de que os en- fermos não se liberam. permanecendo. muitas vezes. muitos há que ape- nas são subjugados. ." (O Livro dos Médiuns. . com o brilho que lhe é peculiar. "A obsessão é uma fronteira perigosa para a loucura irreversível. ( . Obsidiada. Interessante enfoque sobre as causas da agressividade humana.

à medida que se agrava o quadro da interferência. a vontade do hospedeiro perde os contatos de comando pessoal. ) " U m contínuo aturdimento o toma (ao encarnado). Feliz de quem atende aos que estão passando." Nesses trechos citados. "O Espírito encarnado movimenta-se num labirinto que o atemoriza. . E. O SEMEADOR DE ESTRELAS 237 " N o painel das obsessões. . A v i - são. Por certo. Divaldo atende a um homem na fila. é longa a fila das necessidades. aterrando-o c o m ameaças cruéis. na fila das mi- sérias humanas ajuda uma criatura obsidiada a se reequi- librar. na razão direta em que o invasor assume a governança. Miranda analisa a obsessão por subjugação. que era o caso da mulher a quem Divaldo vai atender. maltratando-o. é interminá- vel a sucessão dos sofrimentos. algemado a um adversário que lhe é im- penitente. em parasitose firme na desconcertada casa mental. . a audição c o m o os demais sentidos confundem a rea- lidade objetiva ao império das vibrações e faixas que re- gista desordenadamente na esfera física e na espiritual. em trânsito para o futuro. ( .

pois. Falam-me de uma Terra nova. sem cerimônia. ricas de bondade e ternura. em que a juven- tude traz no espirito a divina semente do mundo regene- rado. pedindo-te a mesma intimidade para comigo. sinto-te o coração ardendo em luz renovadora e . cabe-me o dever de rogar-te desculpas pelo tom frater- nal de minhas palavras. todavia mais iluminado —. Recebi tua carta hoje e apresso-me a dizer-te do bem que as tuas palavras me trouxeram. qualquer dúvida em escrever-te à vontade. Sou apenas teu irmão mais velho e em se tratando de ti — irmão mais jovem. Entusiasma-me a dedicação de tua mocidade ao nosso idealismo. Espero. Através de tuas expressões. não me trates por "vós". dentro da Consoladora Doutrina que nos irmana. 30 CHICO E DIVALDO Pedro Leopoldo. assim. Tive a impressão de receber notícias de um amigo de muito tempo. Tuas notícias foram muito confortadoras para o meu coração. Não tive. tal o cari- nho espontâneo de tuas frases acolhedoras e generosas. 3 de agosto de 1948 Prezado amigo Divaldo Jesus nos abençoe a todos.

um dia. André Luiz e o nosso grande Humberto hão de ajudar-te a vencer. Emmanuel. portadora para mim de tanto estí- mulo. A atualidade precisa de corações valorosos quais o teu e espero que prossigas sem desânimo. guardando-te essa lembrança. Nada tenho feito. na expecta- tiva de que me proporciones o contentamento de uma . Pode ser? Desde já. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 239 peço ao nosso Mestre Divino abençoar-te os propósitos de trabalhar na edificação sublime do Amanhã. Sou empregado aqui numa repartição. E espan- ta-me o devotamento dos Benfeitores Espirituais que. muito reconhecidamente. em todos os lan- ces difíceis da nossa jornada. Teria muito prazer. meu irmão. mas escre- ver-te-ei sempre. mesmo longe. Reafirmo-te minha gratidão imensa pela alegria em que tuas notícias me envolveram a alma e. sem reparar minha deficiência e fragilidade. Lastimo haver renascido distante da terra abençoa- da em que ressurgiste para a boa luta. num grande combate. Combate pela feli- cidade humana na construção de nossa própria felicidade com o Cristo. Peço ao teu bom coração distribuir minhas lembran- ças com todos os amigos do grupo em que te integras. com brilho. mas. espero não perder-te a amizade. meu caro. agradeço. seguir-te-ei os passos com os meus votos por tua vitória integral. cujos traba- lhos nos compelem a viagens freqüentes. Recolhendo tanto conforfo em tua carta. seja digno da amizade com que me tratam. campo afora. Podes crer que a caridade deles para comigo tem sido infinita e peço-te incluir-me em tuas orações para que eu. Muito grato pelas tuas referências à minha apagada tarefa mediúnica. estimaria receber-te um re- trato. Estamos. sim. Quando te for possível. se utilizam de minhas pobres mãos para o serviço que lhes diz respeito. Será esta a razão da demora de qualquer notícia minha.

acostumado a ver e con- versar com os Espíritos desde a mais tenra idade. cujas águas represadas são uma força tre- menda ameaçando romper o dique das emoções. carregada de es- tranhos presságios. os Benfeitores Espirituais. psicofonia) à feição de uma cachoeira. clariaudiência. a paralisia é uma ameaça muito próxima. preparam um novo dia para o jovem Divaldo. de dolorosas interrogações e de dúvidas angustiantes. sem respostas. A morte de mais dois irmãos torna ainda mais sofrido esse período de intensa busca.240 SUELY C A L D A S S C H U B E R T nova carta. clarividência. sombria e ameaçadora. ante as dúvidas sem soluções e as angústias que se repetem. sempre presente em sua vida. O suicídio da irmã Nair é um choque traumático que o abala profundamente. porém. Nesse conflito todo. Pesadelos. Por outro lado a mediunidade. eclodindo ostensivamente (efeitos físicos. o leito onde as pernas doridas re- pousam. Chico Francisco Cândido Xavier Divaldo. febres. fenecendo. o coração opresso e desalentado e as súplicas de quem se volta para Deus na urgência de um socorro que tarda. A noite parece avizinhar-se de todo. e as espe- ranças. incansáveis e amorosos. atravessa a adolescência sob acerbos sofrimentos. Manoel Philomeno de Mi- randa. Os vultos ami- gos afiguram-se-lhe longínquos e inatingíveis. pelas mãos de Divaldo escreve em 1970. médium de berço. A enfermidade ronda-lhe os passos. referindo-se à mediunidade: . O querido Amigo Espiritual. resultado dos traumas sucessivos. Na sua noite de trevas. pede a Jesus por tua paz e felicidade e abra- ço-te cordialmente o amigo e irmão muito agradecido. uma porta de luz se abre dissi- pando as sombras e prenunciando o amanhecer de bênçãos.

através da qual. chorar sem desespero. em relação a você: irmão! — depois do que. transposta a mínima distância entre você e ela. Ele o lê com avidez e. em suas páginas. . tem o primeiro contato com a obra mediúnica de Chico Xavier. descobre as respostas. roteiro e medica- mento chegassem salvadores.. Já sabe o caminho. doce canto embalante ciciasse u'a melopéia conhecida ou uma berceuse reconfortante. que subitamente se abrisse. . que se abre para Divaldo e o faz saltar do leito e andar ao seu encontro. a partir daí. inaugurando experiência feliz. após vencida. timidamente. revisse paisagem esquecida e agradável e. com o coração voltado para o ideal de servir a Jesus. dilatados os ouvidos. o consolo. que tal porta de luz é a Dou- trina Espírita. transpassada a expiação i n o m i n á v e l . e re- pousar. o portal e banha-se de luz! Aí estão todos os seus A m i g o s Espirituais a esperá-lo! Amanhece o dia!. É com esses sentimentos que escreve pela primeira vez ao médium Francisco Cândido Xavier. escutasse a pronúncia de um terno nome. A resposta afetuosa fê-lo exultar e. O ideal do Bem e do Amor crescem em definitivo sua vida. lenindo as próprias angústias. Jovem. além da qual.. diremos. Transpõe. Por essa época inicia a sua vida profissional e a conso- lida. O Livro dos Espíritos é o seu encontro com Allan Kardec e a Falange do Espírito da Verdade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 241 "Avalie o significado de uma porta libertadora. convidativa. con- solidaria em seu íntimo a afeição que lhe devota. o conhe- cimento. Inteira-se de sua vida e vê nascer um senti- mento profundo de respeito e carinho por aquele que elege para exemplo de devotamento e abnegação à causa espírita. " (Nos Basti- dores da Obsessão) Parafraseando-o. poderia ouvir consolo. banhada que fosse de fraca mas significativa luz. . Simultaneamente vai superando os conflitos íntimos imediatos e se fortalecendo para as lutas contra aqueles que só o tempo poderia solucionar.

31 O "DEUS" HURACÁN Em 1985 fui à Guatemala. pelas montanhas e o irmão vai falar ali no Palácio de Metal. seis mil pessoas? — indaguei. Tenho a mente muito entusiasta e logo imaginei alguma coisa de belo como os palácios da Índia. disseram-me: — Vamos esperar a comissão de recepção. imponente e grandioso. em caravana. em Coatepec. constatei que era um lugar mais simples e menor do que eu esperava. com o seu Palácio de Metal. Veio a comissão e entramos. na cidade. Quando chegou o dia. os confrades me disseram que a pales- tra do dia seguinte seria em Coatepec e que haviam feito uma larga propaganda para atrair umas seis mil pessoas. Eu comecei a imaginar a beleza do Palácio de Metal. irmão Divaldo. toda a província de Coatepec virá para assisti-lo. Viajamos trezentos e vinte quilômetros e quando che- gamos perto. . e após fazer a conferência em Guatemala (DF). há um mês estamos viajando pelos vales. Eu imaginava a cidade de Coatepec. — Mas. os confrades estavam entusias- madíssimos com a minha palestra no Palácio de Metal. porém. Quando entramos. — Sim. — Irmão — disse-me um deles —.

saímos de carro.. O presidente amigo me disse: — Aqui chove muito. eu não sabia que ia chover. — Tudo está preparado. pois fico constrangido. Mas a chuva prosseguia. devia ser quase uma quadra. tudo interditado. cercados de . Fiquei a imaginar um salão assim. às dezenove horas. Às dezoito e trinta a cena se repetiu e ele garantiu-me que a chuva logo passaria. Carroças. O meu anfitrião olhou para mim e falou: — O irmão trouxe guarda-chuva? — Não. carros. bem devagar. e. tem mestre-de-cerimônia. pois preparamos uma entrada triunfal. — Não havendo outra alternativa. — Então vamos correr. As enxurradas eram como rios. — Ainda não. O SEMEADOR DE ESTRELAS 243 O hotel. torrencialmente. Ele voltou a afirmar-me: — Passará já. Quando che- gamos a uma certa distância. a relampejar. tudo estava interrompido. — Não — respondeu-me. quan- do tenho de passar pelo meio do povo a me aplaudir. Às dezessete horas a chuva prosseguia. dizendo que preferia entrar por alguma porta lateral. disse-lhe que já podíamos ir. o salão mede setenta metros por dez. ca- minhões. Só iremos quando faltarem quinze mi- nutos. é chuva tropical. Às dezenove e quarenta. Quando desci do carro a água me veio quase aos joe- lhos. dá aquela pan- cada e logo passa. ônibus. Fomos andando pela rua. Às quinze horas começou a chover. onde me hospedei. era quase todo de tábuas. O irmão já imaginou quase sete mil pessoas aplaudindo a sua entrada? Tentei demovê-lo desse propósito. ainda em construção.. — E se importa de se molhar? Porque não vamos con- seguir ir até lá de carro. a tro- vejar. Eu me aprontei.

Se Jesus não vier. daí a razão do nome — Palácio de Metal. na cidade. Os intelectuais. irei mudar para melhor. procederei bem. ali estavam. me comoveu. o que será de mim? — conjecturei. Mães com filhinhos às costas e um xale. certamente. Quando eu parei para olhar o Palácio de Metal. chegamos ao local. Ali estavam índios e mestiços guatemaltecos. inspire-me. Esta seria irradiada.244 SUELY CALDAS SCHUBERT água e com a chuva caindo sobre nós. — O que vou dizer a eles. A chuva caindo sobre o zinco fazia um barulho de estremecer. Eu teria de falar para os críticos que ficaram em casa. um bar- racão de meia parede e a chuva entrava por um lado quase saindo pelo outro. As lágrimas me corriam pela face. Era. de ônibus para ouvir a mensagem. Eu afirmo que. Então. O mestre-de-cerimônia fa- lava ao microfone e o povo permanecia firme. tenha misericór- dia de nós! Se eu jamais fui inspirado. mas aquele povo ali era modesto. Cheguei ao palco e exclamei intimamente: — Meu Deus! — Comovi-me. Não havia um assento. de caminhão. Foi um dos dias mais belos da minha vida. se não tenho o que dar. um problema. todos paradinhos. de carroça. — Ê o irmão Divaldo! — anunciou. Olhei o público . Era enorme e estava superlotado. hoje. porém. à véspera. para o Senhor me inspirar sempre. Em cima era de zinco. • . atacara duramente o Espiritismo e ameaçou de excomunhão a quem fosse assistir a palestra espírita. como é comum na região. simples de discernimento. Sentei-me e olhei o público. a partir de hoje. de pé. sem me esquecer dos necessitados ali presentes. — Comecei a orar.. Fui sendo levado até o meu lugar. meu Jesus. sem eu o pedir. de carruagem. Entrei e foram muitas as palmas. semi-alfabetizado. porque o senhor bispo. Alguns haviam vindo desde mais de cem quilômetros de distância: a cavalo. o bispo e as autoridades iriam ouvi-la em casa. Supliquei intimamente: — Meu Deus. por caridade para com eles. Havia. e fiquei envergonhado de mim próprio. E o que vi..

E uma ave que só existe na Guatemala e só em Coatepec. não conseguiria fazer- me ouvir. mas. porque só aí há um fruto. com imensa pureza me olhando como se eu fosse um totem. pare a chuva! Falei sobre a imortalidade da alma. à porta de entrada. nesta hora. porque a sala era muito comprida. Eu me aproximei do microfone e. falou: — Irmão. estamos esperando. O silêncio era sepulcral. lembrei- me da parte em que parara. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 245 novamente. então. não podia continuar. Prossegui. Havia próximo uma indiazinha. Sobre a cabeça havia um tipo de cocar especial. embora eu tenha a voz muito forte. parecendo ter dois metros de altura. a falar e a pedir inti- mamente: — Meus Deus.) O presidente. uma compleição robusta. uma perfeição. Comecei a falar. com uma ternura diferente. Vinte minutos depois voltou a luz fluorescente. mas era um deus asteca. vi aparecer. Deram-me a palavra. mas ninguém saiu do recinto. feito de plumas de quetzal. os olhos eram duas lâmpadas que me alcançavam. faltou luz. Continuei a falar. voltou o rádio. quando me preparava para a pré-tarefa de terminar. Caiu um raio em algum lugar. Eu fiquei sentado. um ser luminescente. De repente. que é um tema universal. Fechei os olhos. para me concentrar. estóico. ouviu-se um estrondo. Levantei-me. Descobri que me amava pela onda de amor que senti por aquele povo. que parece . porque a zoada externa era terrível. em corpo espiritual como nunca havia visto antes com tanta beleza. nem mesmo a chuva. pararam os sons e eu me sentei. e. que é a ave nacional (de onde se originou a moeda) que dá uma pluma que chega a ter dois metros. Ele estava de torso nu. o microfone com defeito de transmissão. Parecia um deus da mi- tologia. Eu estava falando para as minhas necessidades espirituais. um som descontrolado. Alguém disse alto: — Continue! (Mas eu me esquecera onde havia parado.

visivelmente paralítica. alertou-me: — Continue falando. Continua! A mente dele. não tem a mesma plumagem. do lado esquerdo. triunfalmente. como uma seta voou. estava uma mulher deitada ao solo. mas que me chegava em clichês psíquicos transmitidos pelo Espírito. que balsamizava o ambiente. terminando: — Para vós não é estranho o tema da imortalidade. naquele imenso corredor.. então. Uma me- lodia de ordem ritual. disse-me: — Chamam-me Huracán. ele abriu os braços (necessitei de muita imaginação para entender) e por ideoplastia eu o vi numa forma ceri- monial do povo: sobre a cabeça estava uma moldura de águia. era tal que a minha se inun- dou de inspiração e.246 SUELY CALDAS SCHUBERT grão de café. tomou do lodo do riacho para formar a raça asteca. com os . O macho é lindo. soprou-lhe a imortalidade da alma. e comecei a contar a história do povo asteca. dentro do tema da imortalidade. como se deslizasse. naquela grandiosidade. Venho para encerrarmos a nossa noite. envolveu-me por detrás e me senti flutuar. Quando entrei. Mas.. de re- pente. Ele veio andando. eu dizia. Sou teu amigo e teu irmão. no palco. e no lado direito estavam dois outros paralíticos. deixou um rastro de luz. esqueci-me de um detalhe. Comecei a ouvir uma música no ar. a fêmea é pequenina. Ele me apare- ceu com tal adorno. eu já estava terminando o tema. porque quando Huracán desceu à Terra. che- gando. naquela inclinada em direção ao infinito. aquela melodia infinita. e. chegou-se até mim e. em muitas vozes. entretanto. se se pode falar. O Espírito veio vindo. igualmente deficientes nas pernas e nos braços. que não conhecia. Ele foi até a mulher paralítica e curvou-se. ao voar. curvou-se e chegou a mim. de que a ave se nutre. Joanna. nos dois braços cresceu uma plumagem e ele. Ele atravessou-me o corpo e. Foi até o outro lado. eu sou tido como o deus que criou o povo asteca.

os trovões. A cruz permanecia no ar como nunca vi nada igual antes. aproximei-me. a chuva. essas construções pestíferas do ódio foram afastadas ou destruídas pelos raios. da Nicarágua. em quarenta anos de me- diunidade consciente. Aprende a submeter-te sem sugerir. muito comovido. pensei: — Meu Deus. havia uma razão.. Elas não sabem o que é "direito de terras".) E agora — prosseguiu ela — que a mensagem terminou. Esta região está invadida por lutas camponesas.. que gotejava uma luz violácea ou dourada-prateada. Nunca suponhas que o Senhor não sabe. . Nesse momento. e quando passei pela senhora paralítica. só o asteca e o maia. passei-lhe a mão na cabeça e perguntei-lhe: — A senhora gostou? Veio um rapaz. flutuando no ar. pela guerra civil que ronda a Guatemala. (Eu me lembrei de Obreiros da Vida Eterna. de André Luiz. se a chuva tivesse parado antes. Sentei-me. Estas almas estão sendo alicia- das pelos fomentadores das guerras pelas terras. porque recalcitras? Tu achas que deves dizer a Deus o que fazer? Se choveu. correndo. e a chuva parou. mas estão sendo envene- nadas para matar e morrer. o Mentor da comunidade pediu aos céus que uma tempestade varresse o ar. ela não entendeu nada. retirasse os miasmas. A solenidade foi encerrada. eu disse a Joanna de Angelis: — Que pena. Notei cair sobre a multidão flocos de luz e todos ficaram como que revestidos de um ectoplasma de lumines- cência invulgar.. esses vibriões mentais. e res- pondeu-me: — Ela não fala espanhol. Fui saindo. e a paz permanecerá neste ambiente. um indiozinho. provinda de El Salvador.. ficando sobre o povo uma imensa cruz dou- rada. Eu terminei a palestra e percebi que as pessoas chora- vam. — Meu filho. ao referir-se ao fogo purificador para limpar a psicosfera. de Honduras. Então. fechei os olhos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 247 braços abertos. e quando foi anunciada a pa- lestra.

248 SUELY CALDAS SCHUBERT

Vendo o meu interesse, o jovem intérprete esclareceu:
— Esta senhora é minha mãe. O senhor quer saber
alguma coisa?
— Pergunte-lhe se gostou da palestra.
Ele inquiriu-a e traduziu-me a resposta:
— Sim, ela gostou.
— Volte a perguntar-lhe — insisti — se me com-
preendeu.
Ele indagou e respondeu-me:
— Não, ela não compreendeu, ela entendeu, ela sen-
tiu; não é necessário falar quando se pode penetrar a idéia.
Admirado ante tal resposta, prossegui:
— Indague-lhe o que ela veio fazer. (Mas não esperava
a resposta). Ela falou através do intérprete:
— Eu vi o deus e ele me disse que eu trouxesse os
doentes e os aleijados para escutar o "emissário do Se-
nhor".
— O "emissário do Senhor"?
Ela me olhou, profundamente, e completou:
— O senhor tem a "voz de Deus". Eu vi chegar o deus
Huracán e senti o rociar de suas asas abençoando-nos.
Ela falou qualquer outra coisa e o filho esclareceu-me:
— Mamãe o está abençoando. Ela é quem recebe as
mensagens do nosso deus. Ele mandou que se espalhasse
pelas aldeias que o "emissário do Senhor" viria a Coatepec,
e que todo o mundo viesse escutá-lo.
Eu tomei aquela mão engelhada, olhei aquela mulher
sofrida, encostei a minha na sua cabeça e ela sorriu. Qua-
se não se podia mexer. O rapazinho então esclareceu-me:
— Nós moramos a quase trinta quilômetros daqui.
Mamãe veio amarrada num cavalo e eu vim noutro, pu-
xando-a.
Ouvindo-o, senti-me envergonhado. Fui levado pelo jo-
vem aos outros dois paralíticos e um deles falou-me:

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 249

— Nosso deus mandou dizer que se nós viéssemos fi-
caríamos curados. Estamos esperando que o senhor dê
a ordem.
Hesitei, emocionado, mas Joanna orientou-me:
— Mande-o levantar-se, meu filho.
Eu vi que não tinha a "fé que remove montanhas",
porque sendo um homem racional, naquela hora a primei-
ra coisa que pensei foi: quem sou eu? Mas, num momento
como aquele é o Cristo quem está em nós, naquela hora
não somos nós.
Joanna me deu segurança e amparo. Ficou atrás de mim
e tornou a dizer-me:
— Fale, meu filho.
Aproximei-me, e, olhando-o fixamente, disse-lhe:
— Você crê em Deus?
— Creio! — respondeu-me.
— Então, levante e ande, em nome de Deus e de Hura-
cán! Venha!
Ele foi escorregando do palco como quem ia cair. Qui-
seram segurá-lo, porém, pedi que o deixassem. Ele caiu mais
ou menos em pé e qual um pêndulo de relógio oscilou. Equi-
librou-se e deu o primeiro passo.
O silêncio em todo o salão era total. Todos permane-
ciam numa postura de dignidade, como se já soubessem o
que iria acontecer. Nenhum grito, nenhuma emoção. Fé!
A fé que nos falta. E o amor!
Ele andou, segurou o meu braço. Fomos até ali, volta-
mos até acolá.
— E eu, e eu? — indagou o outro, afobadamente.
— Venha, o Senhor está mandando-o também. Venha,
em nome de Deus!
Ele foi desentortando, como se estivesse obsidiado, pa-
decendo de uma obsessão física. Não era um paralítico or-
gânico.

250 SUELY CALDAS SCHUBERT

Recordei-me, imediatamente, de que Kardec narra, no
capítulo 23, de O Livro dos Médiuns, o caso de um obsessor
que atuava nos jarretes de um homem, fazendo-o cair de
joelhos diante de uma moça, humilhando-o terrivelmente.
Mas, ele se foi retorcendo, e do seu corpo saiu um
fluido, como um fumo, como que uma nuvem escura e ele
começou a andar.
— Deus abençoe o "emissário do Senhor" — disseram
repetidas vezes.
A minha emoção foi tão grande que eu não saberia des-
crevê-la. Vi que estava na hora de ir-me embora, porque
não podia suportar mais tão intenso estado emocional —
um sentimento intraduzível. Só sei dizer que meu coração
parecia querer arrebentar-se dentro do peito.
Chamei o presidente e amigo anfitrião, que estava a
regular distância, e pedi-lhe, quase sem voz:
— Vamos? Já que a chuva parou, vamo-nos embora.
Fomos atravessando o salão. Olhei o relógio, eram vinte
e duas e trinta. Alguém veio e me abraçou. Veio outro e fez
o mesmo. E veio outro, mais outro. Quando cheguei à porta,
após atravessar o largo recinto, faltavam quinze minutos
para a meia-noite.
Eram o amor e a visão do deus Huracán, porquanto vi-
vendo eles no contexto de uma crença totêmica, é óbvio que
a resposta espiritual se apresentaria de igual forma. Hura-
cán, seria, pois, o Mentor, o Guia Espiritual da comunida-
de, que se apresentava conforme a concepção deles: uma
águia que habita as grandes alturas, nas montanhas mais
elevadas.
A rua escoara, não havia mais água ou enxurrada.
Não pude dormir. Durante um largo tempo não conse-
gui dormir, porque o deus Huracán havia vindo e a men-
sagem do amor tornara-se realidade em Coatepec.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 251

A PREPARAÇÃO DO A M B I E N T E — A CHUVA
A aparição do deus Huracán e toda essa experiência vi-
vida por Divaldo, na cidade de Coatepec, é uma das mais
belas e comoventes passagens que já encontramos no riquís-
simo acervo de vivências que a mediunidade a serviço de
Jesus proprociona àqueles que, como o médium baiano, a
elegem como fanal de suas vidas.
* * *

Algumas horas antes da palestra começa a chover. Di-
valdo menciona a intensidade da chuva, os relâmpagos e
trovões.
Segundo os confrades que o convidaram, a chuva seria
passageira, tal como acontecia diariamente. Apenas uma
chuva tropical. Entretanto, conforme elucida Joanna de An-
gelis, posteriormente, esta era uma chuva programada para
um fim determinado.
Pelo menos um mês antes da vinda de Divaldo, os mo-
radores de toda a região haviam sido alertados para a vinda
do "emissário do Senhor". Houve uma programação de or-
dem superior para aquela população, constituída de almas
simples e humildes, que, no entanto, estavam sendo induzi-
das a participar de guerrilhas, de movimentos revolucioná-
rios. Para isso, não hesitavam, os fomentadores da guerra,
em contagiá-los com o vírus do ódio, da revolta, da violência.
Gente de índole pacífica, apegada aos costumes locais,
à terra e às tradições dos antepassados, vivia ali pelos vales
e montanhas sem preocupações de posses e conquistas.
Coatepec! Uma cidade perdida nos montes guatemalte-
cos foi assim incluída no roteiro de palestras de Divaldo
Franco.
Uma mulher desse povo generoso, paralítica, é avisada
espiritualmente que seria aquele o dia da chegada. Médium
natural, fizera-se respeitada e acatavam-lhe as orientações.
A mediunidade é parte integrante na vida de todos, na
comunidade. Encarada com naturalidade, faz-se espontânea

252 SUELY CALDAS SCHUBERT

e autêntica, como parte de comunicação entre os dois pla-
nos da vida. Para o povo dessa região, constituído de índios
e mestiços, a certeza na imortalidade da alma e na comuni-
cabilidade dos Espíritos é, portanto, decorrente de fatos
concretos, não de teorias ou de abstrações filosóficas, dis-
tantes do seu alcance.
A notícia se espalhou por todas as aldeias. Quase qua-
tro mil pessoas acorreram ao Palácio de Metal. A médium
paralítica veio amarrada ao cavalo, com a coragem da fé,
de quem sabe e conhece.
A chuva fora programada pela Espiritualidade Maior.
* * *

a
Em O Livro dos Espíritos, no capítulo IX da 2. parte,
os Espíritos da Codificação respondem a Allan Kardec so-
bre a ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza. Veja-
mos o que dizem:
538 — "Formam categoria especial no mundo espírita
os Espíritos que presidem aos fenômenos da Natureza? Se-
rão seres à parte, ou Espíritos que foram encarnados co-
mo nós?
Que foram ou que o serão.
a) Pertencem esses Espíritos às ordens superiores ou
às inferiores da hierarquia espírita?
"Isso é conforme seja mais ou menos material, mais ou
menos inteligente o papel que desempenham. Uns mandam,
outros executam. Os que executam coisas materiais são sem-
pre de ordem inferior, assim entre os Espíritos, como entre
os homens."
539 — A produção de certos fenômenos, das tempesta-
des, por exemplo, é obra de um só Espírito, ou muitos se
reúnem, formando grandes massas, para produzi-los?
"Reúnem-se em massas inumeráveis."
É pois, perfeitamente possível e admissível que a chu-
va fosse solicitada pelo Espírito Protetor da região, com o
fim de purificar a atmosfera.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 253

Ao ouvir as explicações de sua Mentora, Divaldo recor-
da-se do "fogo purificador", conforme descreve André Luiz
em Obreiros da Vida Eterna.
Nesta obra o autor desencarnado relata a sua experiên-
cia na "Casa Transitória", situada em região espiritual de
densas trevas. Eis um trecho a respeito:
"Permanecíamos em região onde a matéria obedecia a
outras leis, interpenetrada de princípios mentais extrema-
mente viciados. Congregavam-se aí longos precipícios infer-
nais e vastíssimas zonas de purgatório das almas culpadas
e arrependidas.
Na verdade, muita vez viajara entre a nossa colônia
feliz e o plano crostal do planeta, atravessando lugares se-
melhantes, mas nunca me demorara tanto em círculo desa-
gradável e escuro como esse. A ausência de vegetação, alia-
da à neblina pesada e sufocante, infundia profunda sensa-
ção de deserto e tristeza." (capítulo V I )
É nessa zona sombria que o fogo etérico, purificador,
vai atuar, em meio a trovões e relâmpagos. Recomendamos
ao leitor uma consulta ao livro mencionado.
A tempestade, no caso em pauta, teria assim, o mesmo
efeito.
O próprio Divaldo tem psicografado várias páginas, que
estão em seus livros, nas quais existem referências acerca
da poluição da psicosfera, bem como da possibilidade de
contágio. Uma dessas mensagens é assinada por João Cleó-
fas, inserida no livro Depoimentos Vivos, intitulada "Rea-
gentes Mentais". O autor refere-se à assepsia da sala mediú-
nica, que, está perfeitamente de acordo com a necessidade
de renovação da psicosfera em toda a região de Coatepec, a
fim de que os miasmas produzidos pelos disseminadores do
ódio desaparecessem, propiciando assim a chegada de Hu-
racán. Foi realizada, então, a purificação da ambiência es-
piritual para que o Palácio de Metal se transformasse em
gigantesca sala mediúnica com seis mil participantes.
Atentemos para o que assinala João Cleófas:

corpos estra- nhos produzidos por Entidades perversas. uma visita aos seus tutelados de maneira mais direta. indelevelmente. com base na programação de Divaldo. também. estabelece. constituem fantasmas per- turbadores que invadem a esfera do serviço. dada a ex- travagância do nome. o seu povo. Vibriões elaborados por mentes viciosas. . o Espírito Huracán. que faz supor uma edificação re- quintada. muitas vezes impossibilitando as realizações nobilitantes do trabalho. das pessoas. seja da exteriorização deletéria de pensamen- tos destrutivos. desde que não nos encontremos devidamente forra- dos para investir nesse campo árduo. Para aten- der àquela região. muito mais marcante e que impressionaria.254 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T " ( • • • ) Utilizemo-nos dos componentes da reação moral elevada contra os invasores microbianos das regiões infe- riores da v i d a . O PALACIO DE M E T A L O local não poderia ser mais surpreendente. Observa-se. o contágio desta ou daquela natureza. a vigilância dos Mentores Espirituais das nações. consegue danificar os mais respeitáveis pro- gramas. . defendê-la da contaminação do ódio e da violência. Por certo. . é ainda uma lição primorosa para todos os que se habituaram a reclamar contra os fenômenos da Natureza. deus e Mentor. seja no campo da inoculação de formas vivas perniciosas à existência. mas a palestra ofereceria o am- biente ideal para que se realizasse o fenômeno mediúnico. ele os atende por outros meios e vias. ) Em qualquer ambiente em que se procedem a tais experiências vitais. ideoplastias for- muladas por fixações negativas. . . fomentando as pro- duções relevantes. ao término da palestra. das cidades. ( . o zelo." A explanação feita por Joanna de Angelis.

O Palácio de Metal não tem nenhum conforto. o enorme pavilhão de zinco transforma-se em imensa câmara mediúnica. conquistada através dos próprios hábitos indígenas. Todos estão de pé. as dificuldades de transpor- te e de acomodações. Estão de pé. a mente está alerta e todos estão expectantes. de frente. No momento. recolhendo energia mental dos en- . O Palá- cio de Metal mergulha na escuridão. como seria de se prever e como aconteceria com outro auditório qualquer. Ele sente que as pessoas presentes aguardam algo. Observemos que ele diz. que lhe era pedido alguma coisa mais. Não pelo núme- ro de pessoas (ele já falou para platéias maiores). mas pela especial vibração que capta no ambiente. não se amo- lenta. interrompe a energia elétrica. eleva o pensamento a Jesus e roga inspiração. Pode-se imaginar a azáfama das Entidades Espirituais coletando o ectoplasma. Algum tempo se passa quando um trovão mais forte. Acostumado a todo tipo de público. Chove dentro e fora do recinto. sem poder preci- sar o que. que Divaldo sente ao chegar ao palco e contemplar. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 255 A multidão atende ao chamado e vem de todas as for- mas. As pessoas não se inquietam. Fala sobre a imorta- lidade da alma. em vigilância. Ninguém se mexe. mentalmente: "Se Jesus não vier o que será de mim?" O orador baiano inicia a palestra. enquanto a chuva continua a cair. Uma emoção profunda o invade. Era muito mais que um simples e habitual auditório. habituado a transmitir emoções. pela primeira vez. o imenso auditório. Não há cadeiras. a desper- tá-las. através da palavra e da sua própria figura carismática. seguido de um raio. principalmente. Há no ar uma sensação diferente. O corpo não se acomoda. Há completo si- lêncio. No escuro. enfrentando a tempestade. todavia. Interessante analisarmos essa postura do público. mas o público se mantém numa disciplina incomparável. o médium sente.

(Nota da Autora) . o consagrado escritor espírita. "A decomposição do processo revela o seguinte: em todo sistema de comunicação — mediúnica ou não — o com- ( * ) Este artigo foi. posteriormente.256 SUELY CALDAS SCHUBERT carnados e utilizando Divaldo como médium dos fenôme- nos que viriam a seguir. em sintonia com a de Huracán. na qual. de março de 1971. Quando a luz se acende. triunfalmente. inserido no livro Sobrevivên- cia e Comunicabilidade dos Espíritos — Edição FEB. o autor demons- tra as etapas do processo da comunicação mediúnica. os olhos eram duas lâmpadas que me alcança- vam. Mas está diferente. enquan- to a Entidade. Ele estava de torso nu. aproximando-se de Divaldo. escreveu em Reformador. " ( . uma perfeição. inunda-se de cli- chês psíquicos. e. um ser lumi- nescente. Parecia um deus da mitologia. Inun- da-se interiormente de um amor imenso por aquele povo simples que o ouvia. A mente do médium. É neste estado que o vê chegar. de idéias que vão sendo transmitidas para o auditório. • • ) eu vi aparecer. mas era um deus asteca. à porta de entrada. em corpo espiritual como eu nunca havia visto antes com tanta beleza. como se deslizasse. uma com- pleição robusta." Ao mesmo tempo. Miranda. identifica-se. excelente arti- go intitulado "Técnica da Comunicação Espírita". * * * Hermínio C. já não fala da mesma forma anterior. ouviu-se uma melodia no ar. inspira-lhe a palavra. o orador retoma a palavra. A CHEGADA DE HURACÁN A descrição que Divaldo faz de Huracán dá-nos uma idéia da sua beleza e espiritualidade. a partir daquele instante. parecendo ter dois metros de altura. estóico. e extravasa este sentimento em vibra- ções e palavras.* Vale a pena transcrevermos um trecho. Ele veio andando.

idéias. Isso quer dizer que ela passou por um processo de codificação. é preciso decidir quanto à forma. então. ao tama- nho e ao processo de divulgação. ainda não podemos transmitir o nosso pensamento na sua forma original. com a dispensa dos símbolos criados para comunicá-lo. portanto. O primeiro trabalho é. já convertida num dos meios usuais empregados para torná-la comum. ou seja. ( . ) Com isto chegamos ao terceiro componente do proces- so de comunicação. sensações e impressões em um sistema de códigos. tal como foi concebida na mente daquele que a enviou. . para comunicá-la. e sim. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 257 ponente inicial é a idéia. É evidente. àquele que recebe a mensagem. e sim. Isso porque. na fase atual da nossa evolução espiritual. . que a mensagem não é recebida na sua forma original. à cor. Aquele que deseja transmitir uma idéia. É evidente que a clareza da comunicação dependerá fortemente da maior ou menor lu- cidez que existir na concepção da idéia original. ( . descodificá-la para reconvertê-la à forma original e ser. concebida na mente daquele que deseja transmiti-la a alguém. É que. ) O segundo componente do sistema é a expressão formal do pensamento. segundo o processo que tiver à sua disposição. sinais ou imagens sensoriais que sejam comuns a uma gran- de quantidade de gente. que é a interpretação por parte daquele que a recebe. o de converter pensamentos. . terá de traduzi-la de alguma forma. ao ser transformada em sinais ou símbolos de idéias que surgem no plano do nosso entendi- mento como representações das próprias idéias. Cabe. Se o pensamento deve ser expresso em palavras há que fazer a escolha da língua. . absorvida como pensamento puro. pois. nós não pensamos em palavras. Alcançamos o quarto componente do processo de co- municação quando a reação do recipiendario ao conteúdo da mensagem recebida é enviada de volta à fonte de onde . em imagens ou impressões fugidias que passam pelo nosso consciente como "flashes" velozes que precisamos agarrar às pressas para que não se percam. se for em imagens. assim.

mais velozes serão as imagens concebidas e exteriorizadas pela sua mente. Joanna de Angelis. André Luiz afirma. Huracán inunda- lhe a mente de clichês psíquicos.258 SUELY CALDAS SCHUBERT proveio ("feedback"). É oportuno observarmos que a maior parte das lendas e das tradições que integram o folclore de cada povo. . da sua boa predisposição psíquica e moral. eventual reação. . . ou seja. provocando. a história da raça asteca. A mensagem intitula-se "O amor e a alma" e está inserida no livro Seara do Bem." * * * O artigo de Hermínio Miranda prossegue com outras elucidações e recomendamos a sua leitura. de acordo com o processo descrito por Hermínio Miranda. Ao entrar em sintonia com Divaldo. quando da comu- nicação de Teresa de Jesus. traz um componente espiritual muito forte e verdadeiro. na cidade de Lisieux (França). De muitas ma- neiras se poderia vestir essa imagem. Isso aconteceu com Divaldo. fixas ou móveis. há necessidade de uma intermediação do Guia Espiritual do médium. Se o Espírito tem um padrão espiritual muito elevado. O Espírito desen- carnado deseja transmitir a idéia de que a clareza da men- sagem depende da pureza daquele que a recebe. vestido. ( . e até em sons ou em combinações audio- visuais. evidenciando uma freqüência vibratória de on- das curtíssimas. assim. transmiti-la em pala- vras — prosa e verso. que as legiões angélicas se exprimem em "raios super-ultra-curtos''. encontramos a mecânica do pro- cesso utilizado nas comunicações mediúnicas. Nessas quatro etapas descritas por ele. em imagens — coloridas ou não. por sua vez. ) Imaginemos o mecanismo em ação. captando-lhe o pensamento. transmitindo-lhe. tão ao gosto da técnica moderna. em Mecanismos da Me- diunidade. Quanto mais evoluído for o Espírito comunicante. transmitiu-o ao médium.

nem de tal coisa precisam. é . * * * Em O Livro dos Médiuns. Allan Kardec indaga: "Os Espíritos que aparecem com asas têm-nas realmen- te. que uma pessoa queira vê-lo. Assim. esclarece: "Quando o Espírito nos aparece. tampouco. que obedece ao comando mental. deixando um rastro de luz e. para isso. Ora. Ao se retirar. não basta. o Codificador. Abre os braços que se cobrem de uma pluma- gem. e alça vôo como uma seta. Ainda no capítulo men- cionado. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 259 naturalmente. dourada. sobre o público. Aparecem da maneira por que precisam impressionar a pessoa a quem se mostram. o que explica não ser generalizada a visibilidade dos Espíritos. são possíveis em razão das propriedades do perispírito. não basta a sua vontade. uma luz vio- lácea. outros envoltos em amplas roupagens. esta combinação nem sempre é pos- sível. não basta que o Espírito queira mostrar- se. capítulo V I . passa através do corpo do médium e se posta no início do extenso corredor. como uma ave. como pingos. da qual escorria. ou essas asas são apenas uma aparência simbólica? Os Espíritos não têm asas. porquanto a modificação do peris- pírito se opera mediante sua combinação com o fluido pe- culiar ao médium. Assim é que uns aparecerão em trajes comuns. é que pôs o seu peris- pírito no estado próprio a torná-lo visível. Na cabeça traz a moldura da águia e surge em toda a beleza do ritual do povo asteca. alguns com asas. como atributo da categoria espiritual a que pertencem. visto que podem ir a toda parte como Espíritos. pelas formas e cores com que a imaginação popular o adorna. flutuante." Todas essas transformações. Mas. questão 12. Huracán é o deus do povo e tem a forma de uma gran- de águia. na aparência dos Espíri- tos. referindo-se à aparição dos Espíri- tos. uma imensa cruz lumi- nosa.

somam-se a este primeiro e maior deles. A cruz. onde não existem quaisquer barreiras do sectarismo religioso. não é. . agora. porém. isto sim. que en- tre eles haja uma espécie de afinidade e também. conforme Suas próprias palavras. Em primeiro lugar. Espírito de alta envergadura. uma evoca- ção de sofrimentos. A cruz. de grilhões que escravizam o ser huma- no. Outros significados. de penitências que o martirizem. pois.260 SUELY CALDAS SCHUBERT necessário que os dois fluidos possam combinar-se. trazê-lO à nossa lembrança. Na Espiritualidade Maior. pairando sobre as pessoas. traz uma mensagem de redenção. o Justo. revestindo-se com a forma carac- terística da águia sagrada a fim de ser identificado por eles. atende aos anseios daqueles que estão sob a sua tutela. é uma mensagem de esperança. * * * O deus asteca deixa no ar. sobre a multidão. a cruz significa a presença de Cristo junto dos homens. Quando se quer evidenciar a Sua presen- ça. Huracán é um dos Benfeitores Espirituais dos povos. Os elementos de força desse símbolo não encontram equivalência em nenhum outro. é imprescindível "tomar a cruz so- bre os ombros e segui-lO". é o símbolo mais utilizado. provavelmente. Para ir até Ele. o ca- minho da libertação. porven- tura. A cruz. ao mesmo tempo que evoca os erros humanos. alçou-se aos céus pelas traves da cruz. todavia. Assim como Ele. uma cruz luminosa. a cruz é um símbolo uni- versal. assim também os homens encontrarão nela a redenção final. que se verifiquem ainda outras condições que desconhecemos." A caridade e abnegação com que a Espiritualidade Maior atende aos seres humanos é difícil de ser dimensio- nada. que a emissão do fluido da pessoa seja suficientemente abundante para operar a transformação do perispírito e. Carregar a cruz é redimir-se.

embora os homens O queiram crucificar de todas as maneiras e atá-10 ao madeiro de sofrimentos que. Sabiam que o aviso da sua chegada. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 261 Jesus não permaneceu na cruz. deus criador da raça aste- ca. acorreram em massa. na verdade. Nenhuma conotação de fanatismo. vencendo distâncias e dificuldades. e o ambiente propício às . a imensa corrente mediúnica a envolver Divaldo. Apenas uma certeza tranqüila e natural do amparo divino. afirma: "0 Cristo e a Cruz do amor são os termos sempre atuais da equação da vida verdadeira. AS CURAS Numa noite especial. num momento especial. O circuito mediúnico está fechado. e absolutamente seguros de que o deus Huracán os visitaria. carregando os filhos. Divaldo vive uma experiência extraordinária. significava uma proteção direta a toda a gente. portanto. o Caminho. sem os quais o homem não logrará a Liberdade. usando o símbolo da cruz. Bezerra de Menezes. inabaláveis na certeza. pela psicografia de Divaldo. como a sig- nificar que somente Jesus é. verdadeiramente. Por isso. Uma fé natural. O conjunto vibratório dessas pessoas é. em bela mensagem incluída no livro Terapêutica de Emergên- cia. O público respirava fé. do intercâmbio com os invisíveis e da pro- teção de Huracán. completo. foram engendrados por nós e são apenas nossos. que ecoara pelos vales e montanhas da região. desde cedo. a Verdade e a Vida. nada que signi- ficasse um estado emocional de histeria coletiva animava aquelas pessoas. Estavam todos absolutamente certos de que Huracán viria — tal como fora anunciado pela médium paralítica — através do "emissário do Senhor". uma civilização pré-colombiana." Huracán. intitulada "Cruz e Cristo". espontânea e simples. Espírito Superior. transmite uma mensagem de amor e paz.

penetrando os nervos. Levanta-se. aos poucos. A corrente de amor é luz. a reger o concerto das emo- ções e dos sentimentos. No instante das curas dos dois paralíticos. nutre. em algumas ocasiões. É o sinete da sua presença para todo o povo. é vida. Adredemente pre- parados sabem que algo diferente irá acontecer. Aglutinam-se os elementos magnéticos e a essa força Divaldo dá a ordem de comando direcionando-a. sob a ação fluídica que. conforme entendimentos prévios com o Espírito Mentor. O primeiro recebe a ordem e a atende. Joanna o assessora e participa do processo. conhecido na região pelo nome de Huracán. esticando o corpo. que está sendo executada em acordes grandiosos. portanto. Cada componente destacado na nar- rativa teve importante desempenho. grande parte dessa carga vibratória. Há um perfeito desencadear dessas forças e dos sentimentos de cada um. Divaldo teve ensejo de esclarecer. os ossos. a medula. . irriga-os com uma vitalidade nova que. foi a partir dela que tudo se tornou possível. à feição de um lubrificante desenrijece. balança-se como um pêndulo e consegue enfim equilibrar-se. e. tonifica. desempena-se. os membros. sob o comando dessa energia poderosa que o invade e plenifica interior- mente. Dá os primeiros passos e está curado. as células. Joanna de Angelis está ali. Todo o episodio é como uma majestosa e sublime sin- fonia. Em Coatepec tudo estava delineado. que Joanna entra em contato com os Mentores Espirituais dos países que são visitados e que as programações são fei- tas a partir dos acordos efetuados. Os dois paralíticos estão expectantes. mas. os tecidos. impelindo-a. Ele vacila sobre as próprias pernas. A cura é a mensagem de Huracán.262 SUELY CALDAS SCHUBERT atividades que o Plano Superior programara e que se de- senvolvem num crescendo de emoções transcendentes. fora canalizada para os enfermos.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 263 O segundo enfermo. No entanto. Nestes últimos tempos. na razão direta da pureza da substância inoculada. * * * Vejamos como Allan Kardec esclarece a respeito das curas. Uma vez que as curas desse gênero assentam num princípio natural e que o poder de operá-las não cons- titui privilégio. pode fornecer princípios reparadores ao corpo." Em relação à subjugação corporal. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura. capítulo 23. depende também da energia da vontade que. é um caso diferente. cuja autenticidade não sofre contestação. o Espírito. Tra- ta-se de uma subjugação corporal. essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional. em A Gênese. conforme explica Divaldo. pela imposição das mãos. o Codificador infor- ma. capítulo X I V . quanto maior for. a de curar instantaneamente. A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. encarnado ou desencar- nado. os quais são s i m p l e s transformações dele." (grifos no original) "É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio de exercício. itens 31 a 34: "Como se há visto. pois. condensado no perispírito. item 240: . O poder curativo estará. mas. é o agente propulsor que infiltra num corpo deterio- rado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. o que se segue é que elas não se operam fora da Natureza e que só são miraculosas na aparência. todavia. em épocas diversas e no seio de quase todos os povos. esse fluido. tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tan- to maior força de penetração dará ao fluido. em O Livro dos Médiuns. surgiram indivíduos que a possuíam em grau eminente. Pela identidade da sua natureza. o fluido universal é o elemento pri- mitivo do corpo carnal e do perispírito. apareceram muitos exemplos notáveis. mas. seja ho- mem ou Espírito.

a respeito da subjugação. sob o império de uma obses- são dessa natureza. que o forçava. nas paredes. por uma necessidade incessante de escrever. na parte inicial do livro. porém. Conhecemos um homem. mais longe a subjugação corporal: pode levar aos mais ridículos atos. . A primeira não implica na perda da lucidez intelec- tual. não obstante a resistência que lhe opunha. Outras vezes. conven- cidos de que absolutamente não o era. através do próprio Divaldo. a se ajoelhar e beijar o chão dos lugares públicos e em presença da multidão. o seguinte: "Assim. mesmo nas ruas. Traduz-se. nem belo e que. . se via constrangido. ainda nos momentos menos oportunos. a subjugação pode ser física. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo. ) No se- gundo caso. porquanto tinha consciência plena do ridículo do que fazia contra a sua vontade e com isso sofria horrivelmente. à falta de pena ou lápis. nas por- tas. ( . podem irromper enfermidades orgânicas. não obstante se negue à obediência. Vimos alguns que. obrigando o indivíduo. Vai. A subjugação pode ser moral ou corporal. porquanto a ação dá-se diretamente sobre os centros motores. o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. cuja contri- buição no campo das obsessões tem sido notável. psíquica e simul- taneamente físio-psíquica. sentia nas costas e nos jarretes uma pressão enérgica. por se criarem . escreve em Nas Fronteiras da Loucura. intitulada "Análise das obsessões". a ceder à violência que o oprime. estamos. Esse homem passava por louco entre as pessoas de suas relações. onde quer que se encontrassem. Neste caso. no médium escrevente. simulavam escrever com o dedo. que não era jovem." O Espírito Manoel Philomeno de Miranda. por uma força irresistível. a pôr-se de joelhos diante de uma moça a cujo respeito nenhuma pretensão nutria e pedi-la em casamento. às vezes.264 SUELY CALDAS SCHUBERT "A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado.

transformador e coletor. o grande pavilhão de zinco é um feé- rico palácio. Espiritualmente." Mais adiante. conservadores e regeneradores de energia. As bênçãos recaem a flux sobre o Palacio de Metal. "temos igualmente variados mananciais de força mediúnica." * * * As curas são realizadas. pode ser comparado a um dínamo complexo. ou mesmo sob a vigorosa e contínua ação fluí- dica dilacerarem-se os tecidos fisiológicos ou perturbar-se o anabolismo como o catabolismo. indu- tor. em que se verifica a transubstanciação do trabalho psicofísico em for- ças mento-eletromagnéticas. André Luiz afirma: "O Espírito. com capa- cidade de assimilar correntes contínuas de força e exteriori- zá-las simultaneamente. Como médium dessa carga vibratória de altíssima freqüência. no laboratório das células em que circulam e se harmonizam. ele irá direcioná-la. encarnado ou desencarnado. na essência. ao mesmo tempo. engalanado de luzes e irradiando claridade para toda a região. esclarecendo ainda. com singulares prejuízos físicos. incidindo em distúrbio no metabolismo geral. o autor compara o gerador mediúnico ao gerador elétrico. forças essas que guardam consigo. para que isto se dê. na pequena Coatepec. em toda a parte. imaginemo-lo como sendo um dínamo gerador. . Para que nos façamos mais simplesmente compreen- didos. a propriedade de agentes emissores e recepto- res. cons- . As emoções são superlativas e deixam Divaldo em um estado diferente. de fontes de força eletromotriz. mas. . assim como dispomos. que. todo o seu cosmo psicossomático atua como um dínamo. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 265 condições celulares próprias para a contaminação por vírus e bactérias. mediante a permuta harmoniosa. No livro Mecanismos da Mediunidade. neste mesmo capítulo.

dos princípios ou correntes mentais. num local insólito. igual a todos os outros no calendário terres- tre. de serem a "luz do mundo". . que pro- porciona aos seres humanos. tal como prometeu Jesus. afinal. de serem.266 SUELY CALDAS SCHUBERT ciente ou inconsciente. junto ao povo humilde. em nosso caminho. num dia qualquer. pequena e simples. "deuses". sendo possível observá-los. Divaldo vivência a experiência que Jesus promete àqueles que O amam e O seguem." Todo este comovente episódio leva-nos a reflexionar a respeito da infinita bondade de nosso Pai do Céu. de tornarem- se o "sal da Terra". Numa cidadezinha do planeta. alimentando grandes iniciativas de socorro às necessidades humanas e de expansão cultural. o ensejo sublime de crescerem espiritualmente.

àquele tempo. Nós já adquiríramos a "Mansão do Caminho". Quando meditava sobre o Cristianismo primitivo. e outra pode estar pedindo esmolas e ser or- gulhosa. agradáveis.. Mas. mas havia muita gente que me ajudava. faziam "estação de águas". tiravam seus largos períodos de férias. a figura do irmão. em que se veja. ficavam presunçosos. Não é que se deva deixar as nossas roupas e andar maltrapilhos. Eu via os companheiros fazendo palestras (sem censurá-los) e saindo dali eram homens do mundo. o que me empolgava era ver os ricos se tornarem simples. pessoas comuns. . o lar de crianças. Não é a postura externa. Isso me chocava muito. nos moldes do cristão primitivo. como até hoje o faço. sem ter os meios. 32 A CASA DE JESUS Algumas considerações sobre ser cristão e ser espírita. se o Espiritismo é a revivescência do Cristianismo. porque uma pessoa pode estar coberta de jóias e ser simples. conforme acreditamos. os poderosos se tornarem amigos. realmente. é que o Cristianismo tem de ser uma re- volução interna. Um espírita. Eu apenas auxiliava banhando os internos. e não a de alguém a que estamos be- neficiando. ficavam com "status" de ricos. pobres que eram. nós teríamos de viver à semelhança dos cristãos. E então eu no- tava que muitos companheiros se tornavam espíritas e. simples que eram. no próximo. .. . porque.

então. sim. Isto me provocava uma grande dor e dizia-me a mim mesmo: estão morrendo! Por que os hospitais não possuem lugar para acolhê-los. porque as pessoas pensam muito em obras. sequer? Foi quando sonhei em fazer uma obra que fosse um desafio para minha juventude. e os fundadores ficarem de longe. a maternidade. vamos começar atendendo o pobre no fogão de tijolo. en- quanto estão discutindo. Eu passava de ônibus ou de bonde e via as pessoas dor- mindo embaixo das marquises. Então. temos de preparar a pessoa para a vida que irá enfrentar. para eu próprio trabalhar. Sou uma mulher muito rica. imaginei uma casa para se morrer. Estava numa reunião quando contei esta minha idéia.268 SUELY CALDAS SCHUBERT Então. mesmo que eu queira ir à favela. da sociedade. Um dia. "a caridade chega atrasada". Não pensei em uma obra para outros trabalharem e. O Dr. até o dia em que possa ter o elétrico. conversando com Chico Xavier. criando um problema doméstico. falou: — Senhor Divaldo. Bezerra informou-nos. pensei: — Meu Deus! Todo mundo só pensa em fazer obra para quem vai viver. — e para quem vai morrer? Se nós cremos que a vida continua. O senhor tem vontade de fazer isto e não tem . eu sempre desejei ser útil. e mesmo que eu queira visitar os pobres. o hospital. para minha surpresa. Du- rante o tempo em que se está planejando. Viajei a São Paulo para uma série de palestras. um dia. o meu marido nunca o permitiria. a escola. nem a Santa Casa de Misericórdia. mas não dispunha dos meios para concretizá-la. Bezerra o que ele acha desta idéia. Assim. propus-lhe: — Pergunte ao Dr. Porque é muito cômodo construir uma obra para os outros se esforçarem. a creche etc. Uma senhora pre- sente sensibilizou-se com o projeto e. que seria ideal um trabalho de tal natureza. os pobres estão morrendo. fazer construções e plantas e mil coisas e.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 269 o dinheiro. Eu fazia os curativos engulhando e até vomitando. preencheu um cheque e mo entregou. uma saleta e uma cozinha que é um "cochicho" (uma palavra baiana). . com alguns amigos. Vivia em constantes crises con- vulsivas. perdia o controle dos esfíncteres. Chamava-se André. E deveria ficar sempre aberta. Ele teve tantas crises de epilepsia que ficou deformado. sofria de artritismo e reumatismo e consolidou várias juntas — não dobrava o corpo. dávamos os plantões noturnos. Respondi-lhe: — Vinte mil cruzeiros. dentro da lama. Porque eu queria um lugar onde se pudesse levar uma pessoa em quase decomposição. Eu era uma pessoa sensível. dentro da lama do mar. Depois. mas asseado. que era um nada. Nós. Nasci num lar modesto. Num lugar muito arrumadinho. Vejam as bênçãos da Divindade. — Aqui está. Cheguei a Salvador. . Coloquei à porta uma tabuleta com o nome: CASA DE JESUS.000. Eu e Nilson o lavávamos. fui à região da invasão e encontrei uma tapera. e não posso fazê-lo. . na crise. (Vamos dizer que esta quantia corresponda hoje a Cz$ 200.00) Ela abriu a caderneta. Isto me dava uma repugnância de estômago — pela falta de hábito. como epiléptico. Uma ruína de taipa (feita com varas e barro). Colocamos até creolina para que os bichos saíssem. Recolhemos um epiléptico. Agora o problema é com o senhor. o pobre não pode cuspir à vontade. Quanto será necessário para adqui- rir uma casa como a que necessita? Eu havia imaginado uma casa dentro do mangue. Eu tenho o dinheiro e a vontade. Então vou dar-lhe os recursos para que o senhor concretize este trabalho. Saímos e fomos recolher os que dormiam em baixo das marquises. Tinha dois quartos. da invasão. Tinha uma ferida na cabeça que não cicatrizava. às vezes. ele.

Fui até ela. a saltar. enquanto nós. pobres como nós. sim. Assim. passávamos a noite. veio um outro doente. pu- lando. — O que ela é sua? — Nada. Ele falou uma quantia que eu não tinha e eu lhe disse. depois de sair do hospital neste estado? Olhei ao redor e vi um táxi. Dona Antônia Vilas-Boas. Havia um rapazinho moreno ao seu lado. com tanta dificuldade. — O que é? — indagou-me. eu passo aqui para cozinhar. Depois. pas- savam o dia. os homens. tomar conta da casa. Em seguida veio uma senhora que eu encontrei na rua. — Quero. Eu a vi atravessando a Praça Municipal. que era psicopata e ti- vera um derrame cerebral. com câncer. segurándose a um pau. senhor! Ela havia saído do hospital de isolamento e ia para um bairro muito pobre. Observando-a. Vou convidar umas amigas que freqüentam o "Caminho da Redenção". O chofer me olhou e respondeu: . Eu nunca havia usado um táxi. pensei: Meu Deus! Como é que esta criatura vai pegar o bonde. — É para levar aquela senhora ali. Ela me propôs: — Durante as horas em que vocês estiverem trabalhan- do. coloquei-o em meu ombro. porque não podia. teria de tomar o bonde. peguei-lhe o braço. — A senhora quer ajuda? — indaguei-lhe. A casa ficava aberta vinte e quatro horas. Fui até o chofer e perguntei-lhe por quanto a levaria até a casa. à guisa de apoio.270 SUELY CALDAS SCHUBERT Apareceu-nos uma senhora. Esta mulher teve varíola e a amputação de uma perna. duas ou três senhoras. encontrei-a agora — esclareci. muito longe. Foi a cena mais comovedora da minha vida. em silêncio.

assistindo a tudo em silêncio. eu tenho onde levá-la. Não tenho para onde ir. Eu tenho a "Casa de Jesus". o chofer estava parado. Ela me apontou uma casinha humilde e quando chegamos a frente. Aí começou a vomitar. a comida e nada mais. Levei-a até uma "avenida" de casas — um beco de ca- sas. mas o máximo que lhe posso dar é uma cama "patente". ela começou a tossir e expeliu uma lombriga. Estávamos conversando. — Meu filho. O rapaz ao lado. mas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 271 — Se você pode fazer a caridade. le- vantei-a. Quando chegou no ponto em que os buracos impediam a sua passagem. Esta criatura veio a morrer nos meus braços. Carreguei-a de volta ao carro e levei-a para a "Casa de Jesus". porque eu também não posso? Quanto é que você tem? Eu tomei do que tinha e lhe entreguei. pois as lombrigas saíam . para não contaminar meus filhos. Só havia homens internados. uma viela. para onde vou levá-la? Então lhe expliquei: — Se a senhora não tem para onde ir. descemos e eu a car- reguei. Era uma mulher que me pareceu fina pela forma que falava. Aquela que a expulsava de casa era uma filha de criação e o rapaz era o marido dela. Foi a morte mais terrível que eu já vi. Foi a primeira mulher. eu estou na rua. Sabem de que? Vitimada por lombrigas. Morreu asfixiada. olhando de longe a cena. Eu fiquei apavorado. A mulher começou a chorar. Eu a coloquei no carro com o rapazinho e fomos até aonde o carro pôde ir. A "filha" pegou uma mala e jogou-a na rua. Eu a colocara no chão e fiquei parado. Eu chamei o táxi. ela morreu asfixiada. um colchão de palha. Eram os únicos bens daquela criatura. dizendo: — Você dá a sua parte e o resto fica por minha conta. uma moça veio à janela e falou: — Aqui você não entra. pensando: e agora. Ele recebeu-o. peguei-a pelas axilas.

se nós soubéssemos. eu me encontrava muito sofrido. elas saíram e encontraram um homem. no Uruguai. um dia. possivelmente. porque a vida é muito incerta. Eu tinha um salário. Eu estava pensando: o que vamos fazer? Nessa hora. dávamos tudo o que recebíamos já que pedíamos a outrem — porquanto fica muito fácil fazer a caridade pedindo aos outros. pedindo esmo- la... mas. Assistiram a uma peça. Tive Um choque tremendo. Duas damas (disse ele). tomando todo o espaço disponível. comovida. Dentro havia um álbum de fotografias. ela morreu. por todos os orifícios naturais. no passado. Teria sido salva. a gente só entra com o sor- riso e a simpatia — por isso. Tínhamos dezesseis doentes. o Dr. tirou o pesado casaco de peles para dar-lhe. na miséria com os miseráveis. da sociedade de Moscou. porém. Uma delas. As duas ricas damas. esta mulher tinha sido Embaixatriz do Brasil no Egito. co- moveram-se e todo o teatro também. nós vivíamos ali. Bezerra me apareceu e contou uma história muito bonita. os colchõezinhos espalhados.272 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T pelo nariz. Esta mulher antes de morrer. Eu a abri. à porta. Por incrível que pareça. foram ao Teatro Bolshoi. na TChecoslováquia. tínhamos a casa de meus pais. me disse: — Pegue ali a minha mala e abra-a. muito ricas. explicando: . e terminou os seus dias terrenos numa situação dessas. A outra. Havia sido esposa de um Embaixador. Havia alguns poucos amigos que participavam deste trabalho. impediu-lhe o gesto. que retratava a história de um rei cristão que termina louco. pois o dinheiro não dava para que fôsse- mos comer em outro lugar. com um purgante de óleo. entre os quais o confrade Augusto Soares. Uma noite. Quando terminou. pois ele estava sofrendo o frio da noite de Moscou. uma ópera. Vivíamos ali. o Nilson também. onde morávamos. Em momentos. comendo a mesma comida. vendo aquela cena choraram. eu não pude fazer nada.

porque a maré tombou a casinha e o terreno sumiu. Ela deteve o gesto bom e concluiu: — De fato. aproximando-me dele. tomaram chá com biscoitos. num acesso de raiva. assim mesmo. A "Casinha de Jesus" me ensinou a trabalhar. o sofredor morre ao abandono. está melhor? Em meio à crise. mas. Bezerra concluiu: Enquanto se discute a caridade. André ficava totalmente imobilizado e fazíamos tudo para atendê-lo. Vestiu o casaco novamente. Prossegue. Vamos fazer como sugeriu. Não fiques triste. dizendo ao homem: — Daqui a pouco eu lhe mandarei cobertores e agasalhos. ele não vai va- lorizá-lo. e confia.. Aloísio estava na crise de nervos. ele é um doente mental. o prédio possuía vários quartos e aí os alojamos. Naturalmente me veio uma reação. chamava-se Aloísio. Seu casaco é muito caro. Pela manhã. depois discute-se o que se fará. ele pegou o uri- nol e derramou-o na minha cabeça. que é muito forte. Tiramos os doentes. as águas subiram e derru- baram a casa. também era carregado. perguntei-lhe: — Como vai. Um dia. a atender diretamente os enfermos. hemiplégico. Ao chegarem. O outro. a dama generosa lem- brou-se do mendigo e chamando um lacaio recomendou-lhe que levasse os cobertores. O Dr. O SEMEADOR DE ESTRELAS 273 — Não faça isto! Quando chegarmos a casa mandare- mos cobertores. Durante três anos mantivemos a casa. quando cheguei para a reunião. A caridade tem de ser o socorro do momento. rapidamente.. deitaram-se e es- queceram o necessitado. Entraram na carruagem e foram para o palácio. eu pensei. Aloísio. Morrera congelado pela madrugada. . Numa maré do mês de agosto. a dar banho em doentes. Quando este chegou ao local o homem estava morto. você tem razão. Lá no 'Ca- minho da Redenção".

me informou: — Tio Divaldo. Assim. Mas. a Caravana "Auta de Souza". na Irmã Dulce. pois penso que não me seriam recusados. Auta de Souza me falou: — Meu filho. enquanto viverem. eu fico ajudando a tia Marieta. é só chegar e mandar fazer o necessário. doentes. pois eu já adquiri o hábito de tratar dos doentes. é colocada em asilo. porém. Para mim. o doente. de cegos. é que não sejam jogadas na vala. Uma coisa comovedora ocorreu. Depois. no bairro do Pau da Lima. loucos. Levamos Aloísio e o colocamos numa casinha. Acompanhamo-los até a hora da morte e fazemos o enterro: a primeira coisa que as velhinhas pedem. nós temos cento e setenta famílias. que já está com dezoito anos. se elas ajudaram a criar as nossas crianças. aquela que colaborou. a tomar conta dela. Eu comecei. as tias já estão ficando idosas. mas. passamos a ir. pelo menos um caixãozinho. quando se iniciou a "Colônia da Fraternidade". . . já não podíamos cuidar deles em outro local. agora é a hora de tomarmos conta delas. . Assim. Agora. sendo difícil amar o aleijado. Uma das meninas que ela criou. enro- ladas em lençol. de hansenianos. quando idosa. Ê muito cômodo! Lá. eu quero que você vá visitar os pobres da invasão. famílias irrecuperáveis. este é o Cristianismo que me faz bem. eu creio conseguir as vagas possíveis. Oito anos atrás uma delas teve um derrame cerebral. nós nos preparamos para esse Cristianismo de ação. Certo dia. Hoje.274 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive de ir limpar-me e trocar de roupa. Pregar é muito fácil. Ele morreu em nossos braços. Quase sempre. cuidar de crianças é muito gratificante por- que nos agrada muito. levávamos sacos de queimados (balas) e distribuíamos. . Porque é muito fácil amar a pessoa bonitinha. Nós temos uma enfermeira. no asilo de velhos. mas eu tenho de dar o exem- plo. funcionários. . o feio. a Verinha. também. paralíticos. eu reflito que.

Fazemos os Natais todos. quem faz a caridade são eles e não eu. Por isso. mas não me conhece. nos buracos do Pau da Lima. A maternidade é cercada de preocupações e zelos. Quando é que eu vou fazer a minha caridade pessoal?! Que não tem de ser. Portanto. nas noites de quinta-feira. mas é uma festa! E eu estaria exibindo os meus necessita- dos. porque. Devemos lidar com os loucos. a mim. depois. numa experiência que fará muito bem a nós mesmos. Como eu faço as minhas visitas. os obsidiados. porque nin- guém quer ir lá. porque o espírita está ficando muito intelectualizado. para falar mal. Isto. porque ele atendia na peregrinação com aquele povo todo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 275 Temos de convidar os companheiros (não é que todo mundo vá dar banho em pobre. não há ninguém para ter inveja. mas. Se eu for com a turma toda é uma beleza. as pessoas generosas dão e eu aplico isto para os que necessitam. ele visitava so- zinho. senão. porque aí não há ninguém para competir conosco. sozinho. à lama. me fascina. de noite. com dinheiro. os ingratos. Um lugar para as pessoas morrerem! Tem-se um lugar para nas. porque com os demais a gente recebe a gratificação. O exemplo de Chico Xavier a vida inteira é digno de aplauso. os feridos. eu vou lá. os piores. mas. de madrugada. mas esta é a caridade daquelas pessoas. para que ninguém vá comigo. os mais graves. nessa convivência agradável que estamos tendo. muita gente me vê. Está desaparecendo tudo isto. não é isto) para a ação da caridade vivida. tudo é feito para que o ser que reveste da indumentária carnal . eu saio com os meus pacotes para ir aos meus doentes — se é que posso chamá-los assim. escondido. tenha visitas em casa ou não. escondido até do pessoal da "Mansão". esse ângulo do Cristianismo. E quando é que eu vou fazer a caridade? Se eu peço. ne- cessariamente.

nem sempre o ser humano logra atingi-los. no conceito de Divaldo Franco. Um lugar para morrer. a morte deveria ser cercada de maiores pre- parativos. vai traçando o mapa das suas dores futuras. em todo o mundo. infelizmente. para que o homem melhore a sua qualidade de vida. des- pojou o momento solene do desprendimento carnal de sua gravidade. dilapidando os bens terrenos. Para morrer não há necessidade de um local especial. aos poucos. Não obstante todos esses direitos serem reconhecidos. o zelo com os que estavam para abandonar o corpo físico. reduzindo-o a um simples automatismo fisiológico. A civilização ocidental. entregando-se a toda sorte de loucuras e. Mesmo assim. acabou! Todavia. à educação e instrução. Há uma luta social muito intensa. Tem-se um lugar para viver. também. Os rituais severamente cumpridos e preservados visavam a propiciar ao morto um feliz ingresso nas paragens espi- rituais. Os Direitos Humanos reconhecem e proclamam o di- reito à vida. os esforços. é óbvio. Morreu. No Egito Antigo. de um melhor cuidado. incluindo. a morte era cercada de solenidades. apenas um depósito de pacientes termi- . à moradia. dos quais é herdeiro.276 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T possa ingressar na vida terrena sob os melhores cuidados médicos e hospitalares. porquanto o homem continua sendo o "lobo do homem". do seu cunho espiritual. Um lugar para morrer! Poder-se-ia dizer: morre-se em qualquer lugar. Entretanto. Quase todas as civilizações antigas mantinham os ritos da morte. a Humanidade ainda sofre profundamente as seqüe- las de seu próprio estágio evolutivo. a tendência geral são para que ele sobreviva tendo os seus mínimos direitos respeitados. não seria. a fim de proporcionar ao homem um retorno mais equilibrado à Pátria verdadeira.

Muito mais que isto. engalanando-se de flores e recebendo a visita dos Benfei- tores da Vida Maior. deixa entrever essas experiências. sabe que. exemplificou e viveu tudo quanto pregou. Ele fala de "seus" doentes. de "seus" as- sistidos. Ele narra a sua vida. com o único fito de não os deixar ao relento. a pobreza das instalações eram. a pequenina "Casa de Jesus" se revestia de luz e se tornava suntuosa. Entretanto. Divaldo fala de suas experiências mais intensas no campo do amor ao próximo. Uma casa para morrer. Três anos onde se exercitou na prática do amor. Exercício de amor que mantém em secreto. e tanto lhe era significativo esse local que o chamou de "Casa de Jesus. No instante das preces e após as breves preleções e conversas. o pórtico de libertação para os aflitos e desesperançados. onde. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 277 nais. Um local que fosse a fronteira entre os dois mundos. * * * Divaldo fala de vivência espírita. de seguir as "pegadas do Nazareno"." A simplicidade do ambiente. sob as marquises. timidamente. todo o tempo. Três anos onde colheu. De viver o Cristianis- mo puro. o leito humilde era forrado do mais puro sentimento de amor. E o faz agora. ao lado de Nilson e outros amigos. da presença ale- gre dos amigos. o teto era o céu estrelado e a casinha flutuava em meio às luzes. ainda assim. afastado dos olhos do mundo. quando amadurecido espiritualmente. ao longo desses quatro decênios. bem mais confortáveis que a calçada fria das ruas. . Durante três anos ele viveu a idéia e o ideal. Os cômodos se ampliavam. algumas das mais belas e dolorosas lições da vida. pensou o jovem Divaldo. aos poucos.

profusamente. está paralisada no leito da ignorância. muita vez. todos os dias. . o desamor. Onde está a Humanidade? Dorme ao relento sob as marquises. ou habita o luxuoso edifício. debate-se em convulsões na agonia do não ter. entre sedas.278 SUELY CALDAS SCHUBERT Na sementeira de luz e de esperança. onde oculta. Semear estrelas nos corações humanos! Deixar um ras- tro de estrelas para a Humanidade. a face da dor. é o viandante que percorre as trilhas da loucura. do cansaço. para que elas cintilem. os vícios. é o homem à procura de si mesmo! A "Casa de Jesus" é o pórtico do mundo e simboliza o pólo convergente de todas as buscas humanas. do não ser. atravessa as es- tradas do mundo equilibrando-se. de amor e de paz que realiza. pois ele próprio se consome. desajeitadamente. entre o bem e o mal e tem. a violência. no exercício do amor. em total doação. nós sabemos que tais sementes deixam um rastro de estrelas.

está identificando e iniciando a sua programação espiritual. posteriormente. Durante quinze anos o programa se consolida. até mesmo. em seguida. a "Mansão do Caminho". reflete um momento es- pecial. de âmbito na- cional. centrada em uma determinada região ou. um momento histórico na vida de Divaldo Franco — vida que é por si mesma parte da história da Doutrina Es- pírita no Brasil e no mundo. A Espiritualidade Maior é pródiga em orientações. Todavia. não apenas de uma tarefa localizada. mensagens. a obra defini- tiva. Primeiro é preciso estruturar e estabelecer as bases do labor. Divaldo. . formar equipes. con- solidar as atividades — para isso surgem o Centro Espírita "Caminho da Redenção" e. O plano espiritual prevê uma abrangência muito mais ampla da semeadura. 33 AS DUAS MENSAGENS O que se vai ler. muito jovem. Trata-se. É o início da década de 50. avi- sos. É importante atentarmos para a amplitude desse pro- grama da Espiritualidade Maior. arregimentar os trabalhadores. é necessário reali- zar o árduo ministério da semeadura além-fronteiras dessas mesmas bases.

O labor se realiza entre risonhas perspectivas. . da abundância. E das chegam às suas mãos pelos canais mediúnicos de Chico Xavier e Pietro Ubaldi. mas pleno de esperanças benfazejas. sim.280 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T É o período da fartura. É por essa época que Divaldo recebe as duas mais ex- pressivas mensagens que o Mundo Maior envia. enirc sorrisos e promessas. em clima de lutas. Essas mensagens levam a assinatura de Francisco de Assis.

quando fugimos à luta. não nos cabe a desis- tência. 34 FRANCISCO. Trabalho por todos os lados. Nem as revelações do fim. visíveis e invisíveis do pretérito. quanto a frutos imediatos do trabalho reajustador. . agora. Nem os receios do início. Deus te abençoe. é o nosso lema. CHICO E DIVALDO - A PRIMEIRA MENSAGEM Meu filho. é aquela que nos marca por almas ociosas e enfermiças. pois. Seria irrisão. valíamo-nos da inteligência para oprimir e per- turbar. Ontem. Ontem. Perseverança no bem. sobre o repouso. . como abençoado programa de cada dia. A única renúncia destrutiva. Nem nos enganemos. Imprescindivel caminhar agindo na sementeira subli- me do futuro. Não te iludas. o poder em nossas mãos apaixonadas . Defrontados por imensa assembléia de adversários. por vazia e inútil. Estamos a pleno caminho da redenção.

que a colheita não vem ao nosso campo. de novo. Temos compromissos Não nos congregamos aí agora pela primeira vez. Todos os nossos centros de ação prosseguem ativos e bem inspirados na direção do bem. depois de quatro séculos de civilização bahiana e brasileira. ligada ao nosso coração e à nossa mente. de frater- nidade e de amor. . espalhando o temor e muitas vezes o sofrimen- to. Em cada trecho da estrada. . compassivo agente da Infinita Bondade. roga- ríamos ao conjunto mais esforço e mais agilidade na la- voura do cristianismo aplicado. em nome dAquele que é o Amor mesmo. Continuemos. Façamos de nossa parte. em ação intensiva na tarefa do es- clarecimento e da caridade. seremos surpreendidos pelas vibrações das nossas próprias obras. Esperamos que todos os irmãos se mantenham a postos. e. É preciso que a esponja do trabalho incessante funcione em nossas mãos. que o tempo guardou. contudo. transbordando luz no sa- crifício pela Humanidade inteira. mas não ignoramos. Avançar em execução dos Divinos Propósitos é nosso dever. Não nos acha- mos reunidos. sempre mais. . para que os dias para nós. valorizamos os recursos intelectuais. na atualidade. Hoje. por acaso. O tem- po.282 SUELY CALDAS SCHUBERT e rudes. Se uma nova dire- triz nos fosse facultado trazer aos companheiros. filho meu. na obra da caridade sem fronteiras e sem limites. de esclarecimento benéfico. senão por prêmio a suor e à dedicação. Toda a expressão de amparo aos nossos semelhan- tes é de nosso apostolado. ago- ra. sejam efetivamente marcos redentores. Há centenas de trabalhadores invisíveis em função de auxílio constante ao "Caminho" e à "Carava- na". nos guarda. sob a sua custódia a fim de nos desdobrarmos com o seu concurso. que se transformaram em legítimas assembléias de socorro espiritual. Não desfaleças. buscamos o poder de servir e auxiliar.

reconstrói a minha casa. com res- peito à sua missão terrena. que outros permaneçam no país do entretenimento co- lhendo flores passageiras para a curiosidade leviana ou insatisfeita. na an- gústia da busca. na obra cristã que o Espiritismo nos descerra. o abrigo. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 283 A escola. Francisco (Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier. A minha Igreja!" . n o dia 3 de outubro de 1950. abraça-te com muito carinho o velho com- panheiro. em Pedro Leopoldo. seja o nosso motivo de cada hora. o templo da fé. Cada qual se sintoniza com as situações a que confia o próprio coração. Vai. a casa de traba- lho. Que outros discutam à frente do Cristo. "— Francisco." Reiteradas vezes ela se repete e o "poverello". Francisco Bernardone ouve uma voz a conclamá-lo: "— Francisco. o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho são faces do nosso ministério que não pode- mos esquecer.) Aos vinte e três anos. Divaldo recebe a primeira das duas mais definitivas provas que a Espiritualidade Maior lhe endereçou. a assistência aos sofredores. Mas que o serviço ao pró- ximo com Jesus por norma sublime. reconstrói a casa de pedra. pois. Há sete séculos atrás. e repara-a. Neste propósito e formulando votos para que nos unamos cada vez mais. minha casa ameaça ruína. através de dois médiuns diferentes.

ou outro elemento radioativo. Quão longe ainda estamos da Igreja do Cristo! A voz de Francisco atravessa o tempo e ecoa em plena era nuclear. Ou levam às periferias onde os barracos se apertam para existir. ou que nome tenha. ao peso da dor. A caridade da esmola é feita. Morre-se de lepra e de contaminação por césio.284 SUELY CALDAS SCHUBERT Atender ao pedido é a meta de Francisco. asfal- tadas e repletas. E no pequeno trajeto que tem de transpor para chegar até ao homem ele percorre todos os caminhos do ser humano ao encontro da Verdade. a Casa? Onde a Igreja a ser reconstruída? Na claridade do dia. O edifício de luxo ou o barraco de taipa podem abrigar a mesma miséria moral. Os andarilhos nem sempre estão rotos e mal-cheirosos. abraça-o e o beija — e encontra a Igreja do Cristo! Francisco aponta a Divaldo o mesmo caminho. Um homem caminha. Francisco descobre. Pode estar sob a marquise tentando um lugar para morrer. na estrada poeirenta. embora distanciados pelo nível social. 0 homem segue. "— Francisco. . reconstrói a minha Igreja!" Francisco desperta! Corre ao encalço do viandante le- proso. Onde. porém. Alcança-o. O andarilho de hoje chama-se André. vacilante. Vai ao encontro de Francisco e lhe estende a mão. As estradas da Ümbria estão em toda a parte. Tem a pele em chagas purulentas — é a face da miséria e do sofrimento humano. Aloísio.

enterrada na lama. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 285 Cura-se a hanseníase e surgem as chagas da contami- nação radioativa. propiciar-lhes recursos para que não mais se deixem contaminar pelos elementos negativos." O abrigo. além de amparar. sobretudo. É ter o amor que liberta da escravidão moral e trans- miti-lo no engrandecimento do ser humano. A "Casa de Jesus". entre as casas da . E prossegue: "A escola. ressurge intemporal. são faces do nosso ministério que não podemos esquecer. derrubada pela maré. a casa de trabalho. É esclare- cer. indimensional. o templo da fé. É acordar o homem para as realida- des superiores da vida. a assistência aos sofredores. através de Chico. Tenta-se preservar os Direitos Humanos. de Assis. Os gabinetes psiquiátricos e os estudiosos do assunto pesquisam a melhor forma de manter a sanidade mental do homem. todavia. o aborto é encarado como prática normal e saneadora. É. para as modernas megalópoles ou para as províncias anônimas. Divaldo começa a construção. des- conhecida da maioria. o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho. o abrigo. a casa de trabalho. desenvolve esforços para des- pertar o homem. a escola. o templo da fé. e as crianças. um por um foram sendo construídos. Francisco. enquanto a obsessão grassa em larga escala. A Igreja do Cristo ameaça ruína! Construí-la é muito mais do que levantar abrigos para os viandantes dos vícios. mais que fornecer-lhe a esmola da caridade. "Toda a expressão de amparo aos nossos semelhantes é de nosso apostolado" — escreve Francisco. são empurradas para a margina- lidade. aos milhões.

Quando nos encontrar- mos com mais calma — respondia-me. Adiava e prometia mais para frente. na "Mansão". Ê a casa de Jesus. a Escola. começamos a viajar no tempo. Pessoalmente. estudiosa e prati- cante insipiente da Mediunidade.. especialmente. — Qualquer dia desses. A Igreja do Cristo é o ser humano. o Abrigo. É o local para morrer. durante vários anos. ficamos meditando em como teria sido a reunião mediúnica em que Francisco se comunica através de Chico e.286 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T "Mansão do Caminho". o Templo. A Igreja do Cristo são o Lar. desde a Pedro Leopoldo das primeiras horas. depois. a Ofi- cina. delicadamente. Dir-se-ia que toda a vida de D i v a l d o está aí registrada. Emocionada. esquivou-se. isto é. a ponto de atrasar o término do livro. através da psicografia de Chico Xavier. . o Hospital. pois cada página expres- sa um marco de tempo. Transcende ao espaço físico para se tornar uma forma de ser e de viver. Enfim. de todas as formas possíveis. grafadas c o m a letra inconfundível de nosso tão querido Chico Xavier. da Era do Espírito. — Preciso saber como foi — dizia-lhe — para "entrar no clima" e fazer os comentários à altura. pelo menos tentar. Por dois anos consecutivos tentamos obter dele as informações sobre as duas comunicações. quando gravava um de seus depoimentos para esta obra. Divaldo nada quis contar a respeito. É Amor. que Divaldo nos entregou uma volumosa pasta. É onde "morre" o homem velho e "nasce" o homem novo.. de Ubaldi. Suely. — Aí estão — disse-me — as mensagens que me foram endereçadas. São muitas e muitas mensagens. Foi em Salvador. como investigadora.

Foi assim que descobrimos a mensagem de Francisco. Chico e D i v a l d o . é Francisco mesmo! Que beleza de men- sagem! Que emoção devem ter vivido. Num átimo. Por certo não é uma voz desconhecida. Francisco. pensamentos. Há quase quarenta anos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 287 Durante um período muito feliz elas chegaram e esti- mularam o jovem destinatário à concretização de seus com- promissos e ideais. Ela vem lhe falar através da psico- grafia. A candeia não deve permanecer oculta. precisa ser colocada bem alto para que a sua luz se projete à distância. É uma voz amiga. Há quanto tempo?. Também Chico Xavier e Pietro Ubaldi a reconhecem. Ao nosso lado. ouve a "sua voz". Pode-se imaginar quanto e quando?. que ele já ouvira antes. nos acorreram: — Meu Deus. . Ubaldi e Divaldo se reencontram e se reconhecem. os mais diversos. quase meni- no. portanto. jovem. Francisco. É difícil descrever a nossa felicidade e emoção enquan- to líamos as belas palavras que o médium mineiro captou. uma surpresa maravilhosa! Nada sabía- mos a respeito. Sei que ele permite.. que sejam divulgadas por in- sistência nossa e argumentos de que não mais é possível mantê-las fechadas em pastas e gavetas. que significa isto? Jesus. Divaldo. como também poucas pessoas têm conhe- cimento da existência dessas páginas. eu agradeço-lhe por estar lendo isto! Foi. hoje. .. e se fazem instrumentos da mensagem para aquele que chegando e inicia o seu testemunho terreno. Não é um som estranho. . Chico. Divaldo explicava o significado de cada uma delas e descrevia o momento feliz do seu recebimento pelas mãos abençoadas de Chico.

Então. como jamais de algum outro modo se pode fazer. a bênção de Deus está sobre ti. Por isso minha pala- vra é breve. Ama o próximo. como tu fazes. UBALDI E DIVALDO - A SEGUNDA MENSAGEM Ao Divaldo O meu instrumento está cansado. porque eles oferecem por amor e no amor tudo se transforma em alegria. ajuda quem sofre. mas te basta. Semeia o bem e o bem voltará a ti. Esta é a palavra à inteligência daqueles que cal- culam por interesse. Continua a tua obra santa. Se o mundo só compreendesse esta grande lei: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". Mais felizes aqueles que fazem o bem por amor. e a grande cidade na qual ele se encontra está cheia de vibrações contrá- rias a que minha voz desça até vós. felizes eles. 35 FRANCISCO. com- preenderia também que tudo significa beneficiar a si pró- prio. Sabe lutar e sabe sofrer melhor. sabendo tudo e com tudo melhor lutarás e vencerás. . mais que todos os felizes. Coragem! Eu amo a todos quantos lutam pelo bem.

poder de armas ou de dinheiro. como está com todos os bons e isto vale mais do que qualquer riqueza. Sobre ti está o olhar do teu amigo Francisco. recebida em São Paulo. desce à terra o Reino de Deus. isto é. Vai. José Passini) . Sê tu um dos escolhidos para esta grande transfor- mação do mundo. Será contigo a paz eterna que só Deus pode dar. o paraíso.) 4 de outubro de 1953 Pietro Ubaldi (Tradução do Prof. (Mensagem da "Sua Voz". Sabe que Deus está contigo. para o amigo Divaldo Pereira Franco. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 289 Assim. continua e não temas.

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deve chegar a Divaldo. dessa segunda vez. como sucede com Chico Xavier. O primeiro já o fizera. seria preciso que ela chegasse novamente. Sabem os Numes Tutelares que. três anos após a primeira. por essa época. Ela tem. todavia. Um jovem de vinte e seis anos — que recebe da mais Alta Espiritualidade o estímulo e a confirmação de sua missão terrena. o porta-voz de todo esse pro- . O programa espiritual está em curso e é muito vasto e abrangente. Esse fato encerra. Joanna de Angelis supervisiona e inspira. a vi- vência mediúnica de Ubaldi frente à juventude e aparente inexperiência do médium baiano. arregimentando os primeiros companheiros de equipe. Divaldo estaria definindo a sua jornada terrestre. E o faz. estabelecendo as bases de todo o seu labor. Todos chegam a seu tempo e trazem compromissos bem traçados e precisos.292 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco de Assis volta a ditar outra mensagem ende- reçada a Divaldo. pela psicografia de Pietro Ubaldi. E essa palavra. Naquele momento dois médiuns estavam aptos a captá-la. diante de Ubaldi. em Divaldo. como a corroborar não a esplên- dida captação de Chico Xavier. fiel representante de Francisco junto aos pupilos em aprendizado e testemu- nhos. mas o fato da presença de Francisco na vida de Divaldo. devem chegar nos anos dourados da juventude física. A maturidade. trazendo o apoio de Francisco. convocado que foi para o im- prescindível trabalho de apoio e sustentação. para que ficassem indelevel- mente marcadas. D i v a l d o aí está. por intermédio de "Sua V o z " . essa presença. a nosso ver. Nilson está presen- te desde as primeiras horas. que está iniciando o seu testemunho terreno. um significado tão ex- pressivo que nos escapa ao entendimento. recrutando-os ao longo do caminho. três anos antes. Era o dia 4 de outubro de 1953. Reencontro? Certamente que sim. A palavra de "Sua V o z " .

ao mesmo tempo. apresentando-se pulcro e digno para o ministério. Francisco. mostrar aos homens o caminho. restaurando-a na sua primitiva pureza. Amor ao próprio Bem. O reencontro de almas. Despojar-se dos bens materiais. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 293 grama e. "— Cavaleiro de Cristo. Jesus o chama para o apostolado do Amor. a luz." O que representa isso para um moço de vinte e seis anos? * * * O jovem filho de Pedro Bernardone. com desvelo e firmeza. no entanto. Ter o ideal do Amor por fanal. O encontro com Pietro Ubaldi é breve. Realizar o bem por amor. enquanto se pre- para para exercer a sua excelsa missão. ante a aproximação daquele que se apresenta como amigo de um tempo imensurável. inspira-o a fim de que o ideal se transforme em realidade de bênçãos. é um marco de luz para o jovem médium. tens medo?" As vozes questionam e infundem ánimo. Metas que Divaldo alcançou e vivencia nesses seus quarenta anos de mediunato. a Verdade! "— Cavaleiro de Cristo. desnudar-se interior- mente diante do Divino Amigo. "Felizes aqueles que fazem o bem por amor. tens medo?" Ele ouve a interpelação e busca entender o programa do Senhor para a sua vida terrena. erguer a Sua Igreja. como tu fazes" — afirma a mensagem de Francisco. . Amor ao Ideal Maior — que é Jesus. Amor ao semelhante. Trinta e cinco anos atrás ele recebe a palavra de "Sua V o z " que lhe diz: "Sobre ti está o olhar do teu amigo. Por certo que as lembranças do passado emergem no seu psiquismo. ouve as "vozes dos céus".

tens m e d o ? " . a Ver- dade e a Vida" nos levará até ao Pai. transcendente. porém a certeza do caminho a seguir. seres humanos. . toda a cora- gem da fé. Por certo Di- valdo a ouve e a identifica. "— Cavaleiro de Cristo. . "— Cavaleiro de Cristo. então. sendo o "Caminho. para nós.294 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco está pronto. É esta coragem de "Cavaleiro de Cristo" que um dia o leva às estradas do mundo para no- vamente empreender a construção da Sua Igreja. tens medo?" Não. do suor e da dor — os materiais de construção que a Humanidade escolheu para atender ao chamado daquele que. que tem os seus alicerces no Amor e. Não há medo em seu coração. A sua voz ecoa nas estradas humanas. Demonstra. Eis o desafio que ele aceita e vence. no futuro que se delineia. ele também não se amedronta. está sendo erigida com a argamassa das lágrimas. . Sete séculos depois ele fala aos homens. A Igreja intemporal. Guarda na alma a coragem da fé e isso o fará arrostar todos os obstáculos.

Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre.... que.. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —. 36 PÁGINA A DIVALDO Bendize.. em Pedro Leo- poldo. em nos ferindo nos socorre! Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. filho.. Exaltando a aflição que te ilumina. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores.. Ansiedades. Amargores. Ambições. Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! Espinheiros.. em 13 de outubro de 1953) ..... AUTA DE SOUZA (Soneto psicografado por Chico Xavier. as dores que carregas Para consolo das alheias dores.. Lutas cegas.. Pesares. cada dia.

Tinham pres- sa de fazê-lo. as dores que carregas Para consolo das alheias dores. Foram anos de bênçãos e de alegrias santificantes. o grão cheio na espiga".. que lhe irão propiciar os "grãos cheios na espiga". enquanto se prepara para os testemunhos que virão. já em Pedro Leopoldo. Na época certa. Tudo vem a seu tempo. depois a espiga e. com freqüência. O jovem baiano acorre. desejam que tenha a comprovação através de outro medianeiro. Auta de Souza vem e escreve versos de luz: Bendize. As "vozes dos céus" se fazem ouvir e pronunciam as mais belas e doces palavras de estímulo. da antena de luz de Chico Xavier. os anos 50 foram marcantes na vida de Divaldo Franco. alerta Jesus. por último. enquanto havia tempo e possibilidade de rea- lizarem o intento.296 SUELY CALDAS SCHUBERT Nove dias após receber das mãos de Pietro Ubaldi a mensagem de "Sua V o z " afirmando-lhe o apoio de Fran- cisco. Utilizam-se.. Realmente. para o lado daquele que o orienta e em quem vê e sente o amigo que- rido. Divaldo. filho. "Primeiro a erva. E o "bom combate" o encon- tra. fortalecido na fé e revestido da "cou- raça da caridade". é presenteado com um belíssimo soneto de Auta de Souza. Esses Amigos e Benfeitores da Vida Maior estão a seu lado e. embora ele tenha ciência disso. o fruto sazonado. então. de apoio e orien- tação. Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! . mais adiante.

. quem se dedica a consolar as dores alheias também carrega as próprias dores. Conviver com os sofrimentos humanos. que estão ao nosso lado. Trilhar esse caminho é tarefa sacrificial e heróica. Pesares. mas o "campo de som- bras" já está sendo percorrido por Divaldo. as dores. Amargores. Entretanto. É impressionante a forma como a poetisa enfoca o trabalho de amor a que ele se entrega. em nos ferindo nos socorre! . O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 297 Espinheiros. . íntimo. Poucos se aventuram a fazê-lo. mostrar a rota àqueles que a perderam. as enfermidades do corpo e da alma... na sua missão de pregar o "Eterno Amor de todos os Amores". Ambições.. O "campo de sombras" é o nosso mundo.. são os vícios e degradações que campeiam por toda parte.. e no qual prosseguirá pela vida a f o r a .. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores. que. falar do amor e doá-lo aos que estão famintos de afeto — semear estrelas na escuri- dão da noite! Este o "caminho de luz" que o jovem mé- dium está abrindo entre as sombras do campo terrestre.. acender a luz da esperança onde jazem os desiludidos.. O res- quício do passado. São as mi- sérias morais e sociais que nos envolvem. estender o esclarecimento aos que ignoram. despertar a fé dos que negam até a si mesmos. . É cedo ainda. na tentativa de minorá-los.. . Ansiedades. os compromissos que assumimos en- quanto no trânsito da marginalidade das Divinas Leis. São as injustiças. Prossegue Auta: Exaltando a aflição que te ilumina. na idade terrena.. Lutas cegas. É o nosso 'campo de sombras" pessoal.. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —..

Não é o instrumento de suplício. o madeiro da agonia infamante. E esse é um ministério de renúncias e sacrifícios íntimos.298 SUELY CALDAS SCHUBERT Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. no caso de Divaldo. as festas. Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre. no dizer de Huberto Rohden e que bem expressa a transcendência desse símbolo. Essa a "cruz cósmica". desiludidos. representa a sua opção pes- soal de vida. nem de leve. . Necessário entender bem o que Auta de Souza quer dizer com este verso. Sendo. A Cruz — cátedra divina. do perdão e do Amor. Através dela Jesus leciona a sublime lição da renúncia. mas de total redenção. pois. cada dia. perseverante. A cruz é a cátedra divina. na vertical sublime da redenção humana. de que a imensa maioria. A cruz é a lição viva do Amor que redime e liberta. todas as dificul- dades que daí advêm são superadas por um sentimento mais profundo e maior: o do amor. Mas. o baru- lho do mundo. alguém — da mesma faixa — prefere atender os que estão maltrapilhos. a disciplina austera. porém se projeta no espaço. de tal forma que ele não se permite a mínima variação — já não digo nem uma fuga — ao padrão que estabelece para sua conduta comportamental. sem a mais leve queixa. se apercebe. à horizontalidade dos homens. A sua missão é perfeitamente traçada e mar- cante: ele elege para si a vivência do bem junto dos que sofrem. a dedi- cação plena e em tempo integral. malchei- rosos. Está presa ao Gólgota das misérias humanas. uma escolha pessoal. Não é. Enquanto a juventude escolhe o estudo. portanto. as aventuras e emoções. Expressa ainda a ação contínua. A cruz. tudo isto é vivido com profunda alegria.

des- sa vivência crística são. pertinentes às pró- prias lutas terrenas no plano horizontal — a "cruz telúrica" — e recebidos. entenda-se bem. . enfrentados e superados com a compreensão de quem elegeu esse caminho e o perlustra na experiência permanente de uma profunda verticalidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 299 Os sofrimentos que resultam desse labor apostolar.

37 JESUS . tive um desdobramento que me causou um grande impacto. frondosa. cujas águas brilhavam como se estivessem salpicadas de estrelas. à margem. e que me marcou muito. bucólico e encantador. de súbito. formando. nesse lugar. mas. para minha grande surpresa. serenidade. Emocionado. que ainda está en- carnada. venha ver. Ele olhou para o céu. quando estive na Palestina. eu tive a sensação de que as nuvens. já não mais aí estava. venha ver Jesus. sua irmã. Aí. Tudo em volta era silêncio. e de que Lena. numa noite. é testemunha. Eu me senti sair do corpo e via-me numa paisagem verdejante.AS TRÊS QUESTÕES Eu me recordo de um fato que aconteceu na casa de Celeste Mota. quando. paz. eu me dei conta de que Nilson estava pró- ximo e lhe disse: — Nilson. se movimentaram de forma diferente. (Mais tarde. quando olhei também. davam-me a impressão de que este perfil era em alto-relevo. com um lago próximo. reconheci o local e verifiquei ser o Mar da Galileia.) Uma figueira enorme. no mês de junho. pro- jetava alguns de seus galhos sobre as águas. onde a Natureza se fazia mais bela e o céu mais azul. Foi no ano de 1957. contra o fundo azul do céu. um enorme perfil de Jesus. As nuvens muito brancas. Eu estava na temporada anual de palestras do Rio. .

. mentalmente. esquece todo o mal que te fizeram. eu Te amo — respondi. (Mas. Tu sabes que eu Te amo.) Nesse instante ouvi uma voz indefinível. a menos de cinco metros de onde me encon- trava. um som que não sei precisar.) E Ele me perguntou por terceira vez: — Tu me amas? — Sim. de cor marrom. os cabelos caídos sobre os ombros. como se fosse um tecido de calhamaço. — Então perdoa todo mal que te façam. — Se tu me amas. — Então perdoa todo o mal que te fizerem. oh! Senhor. de for- ma que eu O via de lado. e eu te darei a plenitude da paz • . (O conceito que eu tenho do Cristo fez- me voltar ao atavismo da Igreja. de costas. tive a impres- são que era uma música. eu não me lembro de males que me estejam fa- zendo — disse. Então. de tal jeito que. Eu me lembro da sua roupa de tarja marrom escuro. vi o vulto diluir-se dian- te dos meus olhos. eu me prosternei. de reis e de certas autoridades. enquanto chorava profundamente. pairando a um metro no ar. ou. que se usou muito em saco de aniagem. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 301 E assim. a uma atitude de respeito. Estático.) Ele voltou a perguntar: — Tu me amas? — Sim. como . Ele virou o rosto e fez um perfil em ângulo reto sobre o ombro direito. envolvido pela emoção incontida. digamos. o porte majestoso. Tu sabes que eu Te amo. emo- cionado. automaticamente. Senhor. Os homens se ajoelham diante de homens. Eu achei que a única postura compatível era aquela — de submissão e de entrega. Ele perguntou-me: — Tu me amas? — Sim. (Mas ninguém nunca me fez mal — pensei. banhado em lágrimas. seu olhar me fitando. a custo. estava Ele.

Não pude dormir mais. Em alguns operou-se uma transformação radical. que os Bons Espíritos usa- ram. o encontro definitivo não ocorreu logo. Mas. ao amor. Quando acordei. de muitas dificuldades. O exemplo mais fecundo que jamais existiu. Pela tua dedicação. de retê-10. pelo teu espírito de serviço à causa do Bem e da mediunidade. à verdade. nenhuma dor nunca me abateu. Em certos casos. graças a Deus. tu irás sofrer muito. para me dar aquela impressão impactante e inesque- cível. estava em pé. . instantânea ou gradual. Nem de longe. na sala. Mas nem todos atenderam ao Seu convite.302 SUELY CALDAS SCHUBERT se a minha vida se estivesse esvaindo na ânsia de segui-10. a vida me ensinou que isto é o prenúncio de muitas dores. porque vive até hoje. Foram palavras proféticas. meu filho. Eu tenho a certeza de que foi um fenômeno ideoplástico. Amélia Rodrigues assim se ex- pressa: "O maior amor que o mundo conheceu. Referindo-se a Jesus." (Pri- mícias do Reino) Várias personagens do Evangelho tiveram o seu encon- tro com Jesus. Amá-lO é começar a vivê-10. Celeste me disse: — Olha. à dignidade. A vida de Jesus é o permanente apelo à mansidão. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração. abso- luta. Era madrugada. Para outros. foi necessário o trabalho laborioso dos séculos. Pela manhã contei a Celeste e a Lena. Ê óbvio que eu não tenho a ingenuidade de supor que se tratava de Jesus. todavia.

. O SEMEADOR DE ESTRELAS 303 Dois exemplos muito significativos são o do mancebo rico e o de Públio Lêntulus. em sua narrativa. Do moço rico.. Tem um compromisso. intensa e feliz! * * * Divaldo Franco traz. para ele. nas corridas. absoluta. Analisando a narrativa de Amélia Rodrigues a respeito dessa personagem do Evangelho. um programa espiritual que recebe a atenção de Francisco de Assis. o príncipe de qualidade. Por Ele renuncia a uma vivência pessoal. psicografados por Francisco Cân- dido Xavier. tal a sua magnitude. também aconteceu. faz a sua dramática opção. constrói a sua vida. então. que. E vai ao encontro da morte. pode-se sentir o quanto o encontro com Jesus repercute no íntimo do jovem. não foi o suficiente para vencer-lhe as últimas resistências da vida material. registra o sen- timento do Mestre em relação ao moço rico: "E Jesus o amou. em sua atual reencarnação.. daí a uma semana. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração. particular. Todavia. as mar- cas significativas desse encontro." Em certo momento a descoberta se realizou — plena. Como teria sido. O evangelista Marcos. A história deste é por demais conhecida através dos belos romances Há Dois Mil Anos e Cinqüenta Anos Depois. O jovem príncipe. quase nada se disse até agora. no tempo de antes. o seu encontro definitivo com o Rabi? Quando? Onde? "Amá-10 é começar a vivê-10. Desse encontro e desse amor a Jesus." É-nos difícil imaginar o quanto isto significa. contudo.

Francisco vela e observa-lhe os passos. Eviden- cia-lhe a autenticidade. uma demonstração ainda mais forte e expressiva. É preciso. a presença de todas as personagens que o integram. exceto Jesus. C o m - preende-se que ela não coloque aí. Algo que marque definitivamente o seu com- promisso com Jesus. todavia. que agora analisamos. enfim. os silêncios íntimos para que fale mais alto a missão de servir. de quem persegue denodadamente um ideal su- blimado. no capítulo 11. as lágri- mas ocultas. a figueira enorme. nos dias futuros. à margem. Amélia Ro- drigues o leva em desdobramento para um recanto da pró- pria " M a n s ã o " e aí plasma. assim. a angústia/inquie- tude. O desdobramento de Divaldo para que possa ver as ce- nas fluídicas plasmadas pelos Benfeitores Espirituais e que representam o seu encontro com Jesus.304 SUELY CALDAS SCHUBERT Por certo ninguém lhe conhece as renúncias. O cenário é aquele em que Jesus atuava. reveste-se. Assim preparam para o jovem baiano um acontecimen- to muito especial. no começo da caminhada. nesse conturbado planeta Terra. de um caráter muito singular. . Divaldo menciona que ao terminar de psicografar o Primícias do Reino. a figura do Mestre. E esse fato vem a ser corroborante deste. O céu atrai-lhe a atenção. Bem jovem. Neste livro. a solidão de quem avança e se afasta da craveira comum. Divaldo recebe da Espiritualidade Superior recursos em profusão para le- vá-la a bom termo. as madrugadas insones quando "conversa com uma estrela". Sabem os Instrutores Espirituais que muitos e doloro- sos testemunhos lhe serão pedidos. por motivos óbvios. nesse desfile de invulgar beleza. fluidicamente. embora permaneça de mãos estendidas para os que tentam acompanhar-lhe os passos decididos ou para os que ainda não sabem o caminho. O mar da Ga- lileia.

bem próximo e com um aspecto real. em que o Mestre desce dos altos planos espirituais para se fazer presente. — Apascenta as minhas ovelhas. quantas se fizerem necessárias. julgo." . que eu. leciona o perdão no passado. emoção. Senhor. amas-me mais do que a estes?" — indagara certa feita o Mestre. É o pre- núncio de sua chegada. porém. É a lição do perdão. Suely. eis que Jesus já não está mais no espaço azul. Ei-10 a alguns metros de distância. Senhor. "— Sim. Jesus tem algo que lhe dizer. ou seja. no perfil de nu- vens. três vezes a indagação.Simão. colocada em três tempos do verbo. felicidade (e. no presente e no futuro. Mas. * * * "Simão. deve emergir das profundezas do ser perante a superioridade dEle em con- fronto com a nossa — minha — posição) são sensações que parecem esmagá-lo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 305 As nuvens se movimentam e formam um imenso perfil de Jesus. Maravilhoso simbolismo este. — Apascenta os meus cordeiros. O jovem ajoelha-se — única atitude que lhe parece pró- pria ante Ele. Jesus repete novamente a pergunta: "—. então. Naquele instante. Tu sabes que Te amo. Tu sabes que Te amo. evidenciando distintamente a gran- diosidade da cena vivida por Divaldo. filho de Jonas. Ao chamar Nilson para que observe o fato. filho de Jonas. por certo. Repete. a an- gústia/inquietude. Amor. Um dia Ele ensinou que se deve perdoar setenta vezes sete vezes. amas-me? — Sim. respeito. para transmitir-lhe a lição imprescindí- v e l .

— Apascenta as minhas ovelhas. Tu sabes tudo. de imediato. Pedro teria dedu- zido se: "Estas três indagações não seriam. que Simão Pedro ouvindo a mesma pergunta do Mestre por três vezes consecutivas. prosternado. no livro já mencionado. Divaldo retemperava as suas energias na rememorização desse en- contro sublime. Certamente. lembrou-se. " . por acaso. Conjecturando consigo mesmo. tu me amas? — Senhor. quando as agressões insensatas lhe foram endereçadas. E de confortá-lo para os embates e dores futuras. o mesmo poder de aprofundar na sua mente as responsabilidades e compromissos que assumira. quando a calúnia e a per- fídia dolorosamente tentaram interceptar-lhe os passos para impedi-lo de cumprir o seu programa espiritual. têm. sabes que eu Te amo. "— Tu me amas? Então perdoa todo o mal que te fizerem e eu te darei a plenitude da p a z . Agora. Divaldo. É notável a analogia com a passagem de Simão Pedro. . Ele lhe aparece e transmite inolvidá- vel lição. . igualmente. para aprofundar nos painéis de sua mente os vínculos do seu dever?" * * * A mensagem implícita nas três perguntas feitas a Dival- do." Elucida Amélia Rodrigues. vive a cena e se banha em lágri- mas de emoção. das três vezes que O negara. A grandiosidade do momento o marcaria para sempre. filho de Jonas. nos instantes cruciais.306 SUELY CALDAS SCHUBERT E pela terceira vez Ele questiona a Simão Pedro: "— Simão.

em nossa reunião mediúnica. Três dias depois. Ao se dirigir do Rio a Juiz de Fora. não aconteceu algo mais grave. uma no joelho e a outra no nariz e no osso frontal. numa curva. sendo realizado no salão da Faculdade de Ciências Econômicas. duas senhoras tiveram fraturas. Primeiramente são necessários alguns esclarecimentos. Divaldo Franco esteve em Juiz de Fora para realizar um Seminário e uma palestra pública. O Seminário. Ao que parece houve problema na barra de direção. dia 18. no dia 23. dividido em três módulos com três horas cada um. e Di- . nas proximidades de Três Rios. e o automóvel. ou seja. o carro em que Divaldo viajava sofreu um acidente. felizmente sem maiores propor- ções. no Centro Espírita "Joanna de Angelis". na sexta-feira. tive- mos interessante comunicação que nos trouxe uma outra visão sobre as atividades que se realizam no plano espiri- tual. Como estivessem a uma velocidade de cinqüenta quilômetros. cuja freqüência foi limitada. se desgovernou indo de encon- tro à barra divisória das pistas. Mesmo assim. de quatrocentos lu- gares e que esteve lotado. 38 A OUTRA PLATÉIA DE DIVALDO FRANCO Nos dias 19 e 20 de setembro de 1987. simultaneamente às palestras proferidas por Divaldo Franco. teve como tema "A Ciência do Espírito".

Mesmo assim. não vivencíamos nada semelhante ao que iremos contar.308 SUELY CALDAS SCHUBERT valdo várias contusões. Mas não o pro- . porque sinto imperiosa necessidade de contar o que me sucedeu. duas costelas fraturadas e pequenos cortes. — Saibam — iniciou ele o seu relato — que eu acom- panhava. porém. a não ser por pequenos relatos de um ou outro Espírito e aquilo que lemos nos livros da Doutrina. pois a ver- dade é que ainda não consigo achá-los simpáticos. a viagem de carro no qual estava aquele homem que os vinha ensi- nar. É necessário ainda mencionar que este é o vigésimo nono ano consecutivo em que Divaldo comparece a esta cidade. Começa a prestar o seu depoimento: — Eu não posso deixar de lhes falar da experiência que vivi neste final de semana. em- bora nos alegrássemos com o acontecido. Sempre promovemos as suas palestras. Isto ocasionou-lhe fortes dores. Não o faço. compareceu a todas as atividades programadas. (1) Ao final da reunião. isto é. Sendo assim. nós não provocamos aquele acidente com o carro. por simpatia. embora soubésse- mos que existe (como também o sabem todos os espíritas). que temos escrito sobre mediunidade e comunicações mediúnicas. de longe. Nestes anos todos. caloroso e deixando transparecer certa emoção. além do desgaste emocional e psíquico. comunica-se por nosso intermédio um Espírito de certa cultura e grande facilidade para falar. com meus companheiros. Tudo o que então ocorreu não foi culpa nossa. os fatos que vamos narrar não são fruto de um entusiasmo de quem o conhece há pouco e por isto se deixou impres- sionar pela palestra magistral e pelo belíssimo Seminário realizado. Faço-o porque preciso. em- bora tivesse de fazê-lo à custa de forte analgésico e outros remédios. nós. Estava veemente. natural nessas ocorrências. Eu mesmo pedi para fazê- lo.

Estávamos nessa expectativa quando fomos sendo levados daqui para ali e. dos guardiães que o defendiam e da vontade férrea que ele demonstrou em não se deixar abater. Quando pressentimos que algo não estava indo certo e tentamos aproximar-nos para "ajudar" a acontecer. projetavam-se no espaço. — Primeiro eu me admirei da luz que o cercava. E foi tal a força e tal a luz que nos assustamos e tentamos correr como cachorrinhos ame- drontados . apenas aplaudimos. os aparelhos eram acionados no nosso plano e para a nossa assembléia. com o triplo de pessoas. fomos impedidos por uma espécie de "campo de força". estrategicamente colocados.. As cenas eram plasmadas. — Enquanto ele falava. no plano extrafísico. tor- navam-se independentes da palestra e em espaços de tempo bem menores que os da dimensão terrestre. O SEMEADOR DE ESTRELAS 309 vocamos. Ao chegar ao local do Seminário novas surpresas me estavam reservadas. que projetaram para nós cenas as mais diversas. Todo o palco estava tomado por aparelhos de natureza espiritual. como se dele de- pendêssemos para resolver as nossas vidas. como se na- quele instante ocorressem. chamado Codificador. assis- timos às pesquisas a que ele ia-se referindo. com muita luz cada um deles. pois eu "via" as dores dele e avaliando-as deduzi que seriam impedimento insuperável.. Vimos chegar os filósofos e . desde as ligadas à nossa própria vida até aquelas outras em que se via o "chefe" de vocês. enquanto inúmeros desses guias de vocês. a partir desse momento ficamos como que imantados àquele individuo. em conseqüência disso. assistimos a tudo. os passageiros. sentia satisfação em imaginar que teriam de suspendê-la. e eu lhes afirmo que uma corrente de luz cercou o veiculo e as pessoas. de forma pouco compreensível para nós. — Até então eu julgava que ele não daria conta da programação. tam- bém ao longo do salão. desejando que se calasse para sempre aquela voz. Todavia. Eu via o público mas este não via a nossa platéia. ganhavam vida. de- fendiam e socorriam.

— Pela primeira vez me foi dado compreender o al- cance do trabalho que esse homem realiza. deram quantas notícias lhes foram permitidas. pois nossas vidas estão enredadas. (O doutrinador quis dizer alguma coisa. cada um de nós acompanhou também trechos de sua pró- pria vida. entretanto. passando por ele. cumulando-o de per- guntas e mais perguntas. sinto que . de forma difícil de explicar. observei que todo o auditório estava imantado a ele. nos dois planos da vida. uma luz que vinha do Alto e que. Pare- ceu-me que poderia compará-lo a uma usina de força e energia.310 SUELY CALDAS SCHUBERT os cientistas em imponente desfile de luzes. Havia uma ligação entre todos. Não se iniciou nesses dias. Eu faço parte da vida de vocês. quando o público "vivo" se reti- rava. embora não lhes tenha simpatia. dizendo ser necessário prestar o seu depoimento até o fim. o impediu. e sendo atendidas pacientemen- te. que ele ia repetindo — no- mes. nem no ano passado. falando de doenças.) — Esclareço. sou alguém que conhecem profundamente. Via as pes- soas correndo aflitas para ele. Ele — vejam bem — que mal podia respirar pela dor. cá da nossa esfera — que ele vê e ouve —. pelo cansaço. nós permanecemos. apelidos. situações. Os parentes. mas o comu- nicante. pedindo notícias de pa- rentes mortos. Nes- te momento. envolvia a todos. Nos intervalos. de alegria. conselhos — enquanto as pes- soas choravam e riam de emoção. não apenas nós. que emitia luz. Enquanto as épocas se desenrolavam. Quando se aproximavam. pois a seqüência de esclareci- mentos em nossa esfera foi ininterrupta. tornando-se mais veemente. que a nossa perseguição em relação a vocês (referindo-se ao grupo) não começou agora.

que eu e o meu grupo finalmente capitulamos. — E eu lhes digo que. constrangido. como aquele menino da pales- tra (2). estão emitindo vibrações solidárias. cada um. mas que são benditas porque lhes impedem de errar. quisera ter meus pés tolhidos. esse ho- mem que lhes veio ensinar. porque eu vi. aos poucos fui envelhecendo como se todas aque- las épocas passassem sobre mim e me sulcassem pro- fundamente. O SEMEADOR DE ESTRELAS 311 simpatizam comigo. afetuosas para mim. não tra- zem defeitos físicos visíveis. cerceiam a liberdade e os fazem ficar atentos e vigi- lantes. . Que mudaram de rumo e se integraram nesta Doutrina — como vocês a chamam. Felizes são vocês (dirigindo-se aos presentes) que conheceram a verdade há mais tempo. aleijado. a "ciência do Espírito". na luz que sua palavra irradiava. que ele era absolutamente verdadeiro. Entrei em contato com a realidade e. tem limitações físicas. tive vergonha e de- sespero. se antes me sentia jovem. — Vejam a minha situação. para espanto geral. forte e po- deroso. no primeiro momento em que logrou adormecer. veio ao nosso encontro para nos dizer que nos compreendia e que não somente nos perdoava. o Se- minário de nossas próprias vidas. mas que amava a cada um e que nos esperava há muito tempo! — Fiquei vexado. À medida que fui assis- tindo às reuniões e descobrindo a "ciência da vida". fui envelhecendo. patético e a emoção toma conta de todos os participantes). Preciso re- nascer aleijado para não incidir nos mesmos crimes (nes- te momento está emocionado. Agora estou uma ruga só! Mas eu quisera ser monstruoso. por exemplo (dirige-se ao grupo). mas. as mãos deficien- tes. certamente. constrições variadas no organis- mo. — Vocês. porque hoje eu sei que vou reencarnar. — Pois foi exatamente assistindo a tudo isto.

contudo. Lembrem-se de mim. um dia. O silêncio. (Ao dizer isto levan- ta o rosto e olha para a frente como quem fita o futuro. eu. A ele. Elas me tocam o coração e já os vejo com sim- patia e com irresistível afeto. Quem sabe. proferida pelo dirigente. Talvez nos encontremos nesse futuro que não está longe. Nas vibrações da oração nos envolvemos. ao passar em frente a ela. talvez um dia. preciso de muito mais. de gratidão a Deus. comemoradas neste ano de 1987. As lágri- mas agora caem dos seus olhos e a voz está embargada. Preciso da deficiência física. entre! Suas últimas palavras. (Pausa longa e demorada.312 SUELY CALDAS SCHUBERT — Eu. vendo abertas as suas portas. da fealdade. um dia. nessa casa que vocês terão e que eu já vejo (3) — é uma casa grande e bonita —. exemplifica e pre- ga.) — Talvez. (Ao dizer estas frases o comunicante emociona-se. os que hoje são mais novos. os nossos caminhos se cruzem. E tenho certeza de que nos iremos reconhecer. no futuro que me aguarda.) Quisera encontrar um de vocês. reflexionando intimamente sobre a bênção da mediunidade com Jesus e sobre o missionário labor do nosso tão querido Divaldo. como também preciso en- trar em contato com a Doutrina Espirita. o nosso carinho e reconhecimento! . nos dois planos da vida. De alguma forma nos reconhecere- mos. foi quebrado pela prece final. nossos caminhos se cruzem e. carregado dessas emoções. no Brasil e no mundo. o arauto da Doutrina Espírita. que a vive. ficaram repercutindo em nossos corações. não se esqueçam de mim. nesses quarenta anos de atividades. a emoção que passou a todos os circunstantes. talvez os mais jovens.) — Eu estou sofrendo muito e recebo as vibrações de vocês. finalmente.

o relato de um Espírito sobre o outro lado do trabalho mediúnico de Chico Xavier. * * * Nota: Este artigo foi publicado em "Reformador". O SEMEADOR DE E S T R E L A S 313 (1) Tivemos há três anos. narrado por Divaldo. (2) Refere-se ao caso de Ugolin. . de novembro de 1984. pu- blicado em "Reformador". (3) Referência feita à futura sede do Centro Espírita "Joan- na de Angelis". que era um jovem de catorze anos. de dezembro de 1987. deficiente e feio. corcunda.

Eis porque. em pleno altar da Natureza. naqueles que virão depois de nós. no entanto. quando se erguer a obra que o Teu amor programou a benefício de todos nós. . todas as Tuas lições. neste lugar dedicado à Tua bondade. Evocando Teu diálogo com a mulher samaritana deixamos o templo material para estar Contigo no coração. Senhor. que deverão encontrar repouso. o nosso pensamento se volta no Teu rumo para pedir-Te que abençoes os propósitos que trazemos em [mente. os cansados do caminho. nesta pausa de atividades. aqueles que Te amamos procuramos sintonia com a Tua Misericórdia. pensando. os combalidos. Evocamos. 39 PRECE DE DIVALDO FRANCO NO TERRENO DA "POUSADA DE FRANCISCO" Senhor Jesus. apoio e encorajamento aqui. que perpassam em [nosso pensamento. antes de quaisquer [outras realizações. os atingidos pelas vicissitudes que buscaram.

levantarmos santuários ao amor. com a Tua mão. seja menos doída e o infortúnio se nos apresente menos desarticulador da esperança. e a Tua voz. Não obstante. receba a nossa oblata a ele dirigida. em Teu nome. este peregrino de Assis. Permite que ele. suave e forte. unidos. Abençoa. nem as nossas iniquidades interiores tisnem a claridade do nosso discernimento. Senhor. nas múltiplas tarefas que desenvolve. conduze-nos. abençoe esse esforço. para que a dor na Terra. . nesta Casa que se erguerá em seu nome para homenagear-lhe a caridade e a abnegação. prometemos serviço para derrapar na negligência. doce e enérgica. a Tua Doutrina nos comanda. repetidas vezes nos hemos comprometido para abandonar. que nos fascina. templos de fraternidade e abrigos à solidariedade humana. em considerando a fragilidade que nos tipifica. O SEMEADOR DE ESTRELAS 315 com a celeridade dos tempos idos. Senhor. Tantas vezes. para que se torne realidade objetiva o nosso programa espiritual de bem fazer. Permite que o Teu discípulo Francisco. a Tua presença. para que o vendaval das paixões não nos derrube. constitui-nos a segurança para que a Vida trabalhe dentro dos postulados do dever. portanto. com o passo lento dos tempos por vir e nos recordamos da necessidade de. no amanhã. assumimos responsabilidade para dela nos evadirmos — hoje não. este punhado de audaciosos servidores [do Teu nome na concretização deste ideal de Amor.

que nos inspiram. tentando aproximar-nos de Ti. elevando-nos. permaneçam conosco. 22 de junho de 1986 . insistam conosco. anjos tutelares do nosso caminho.316 SUELY CALDAS SCHUBERT Que os Bons Espíritos. trabalhando pela nossa redenção. Que assim seja! Barra do Pirai (RJ).

especialmente. incendiando tudo à tua passagem." Allan Kardec ("Viagem Espírita" em 1862) "Tu. firme. porque andas com o archote da fé. Sua palavra é forte. és um desses responsáveis. galvaniza. este Amor que dimana do Cristo. como uma âncora salvadora. porque ele próprio é um apaixo- nado pelo Amor. sobretudo. envolvido pelos Benfeitores do Mundo Maior se transforma em porta- voz dos céus. atrai. como um archote aceso nas trevas de sua alma. por isso. buscando ilu- . Quando começa a falar se transfigura. transcende à dimensão humana pois. o orador. porém. que é o . 40 O ARCHOTE DA FÉ "Eu vim para lançar fogo a Terra — e que quero eu senão que arda?" Jesus "É nesse momento que chega o Espiritismo. O semeador de verda- des eternas. minar consciências. porque leva o magnetismo positivo do amor." (Co- municação mediúnica através de Chico Xavier) Divaldo é. arrebata. persuasiva. de um lado para outro. O seu verbo é inflamado de entusiasmo incomum e. Mas.

e aqueles que o ouvem passam a amá-lo e a amar esse Ideal que noticia. fazer brotar a esperança onde só existe desespero. para que as chamas se alastrem e se transformem em claridade. dar vida aos que estão mortos pelas paixões e vícios. somente explicáveis na sua significação de transcen- dência dos parâmetros comuns. contagiar as pessoas com o seu próprio entusiasmo. * * * Transmitir a Doutrina através da palavra. implantar o Cristo nos corações estiolados. É este Amor a chama sagrada que move a sua vida e rege os seus passos. . reconduzindo os homens ao Seu aprisco — tudo. acender a chama do Ideal em que acredita e pelo qual dá a vida. indiferentes. quei- mando os escombros e proporcionando que das cinzas re- nasça a Fênix que simbolizará o novo homem. É preciso que se esteja abrasado pelo Amor e pelo Ideal Maior. na profunda verticalidade — ele realmente se fez um arauto do Bem e da Paz e sai pelo mundo com o archote da fé ateando um grande incêndio. apáticas. em todos os países visitados as mul- tidões acorrem. fazer andar os que estão paralisados nas an- gústias e fobias. revivescer a palavra dEle. restituir a visão aos que se deixaram cegar pela nega- ção contumaz. consolar.318 SUELY CALDAS SCHUBERT próprio Cristo ao qual ama e serve devotada e apaixonada- mente. a cada palavra para que esse fogo sagrado se ateie. Por toda a parte. que se esteja ali- mentado interiormente pelo combustível da fé legítima e ra- cional. balsamizar as dores. instalar idéias novas onde só existem conceitos sediços. tudo isto exige muito mais do que simplesmente abrir a boca e falar. despertar as consciências cristalizadas. passar-lhes a sagrada emoção que o arrebata. que se esteja morrendo um pouco a cada dia. abrir horizontes novos. buscar os que estão perdidos nas estradas da vida mostrando-lhes o rumo certo. Para conseguir esses resultados verdadeiramente notá- veis. libertar os que se auto-enclau- suraram. E é por este sentimento maior que consegue tocar aqueles que o ouvem.

PALAVRAS FINAIS 41 Aqui nos detemos para refletir em torno do riquíssimo acervo de fatos da vida de Divaldo Franco. . à sua vivência pessoal e doutri- nária. Nesses trinta anos de nosso convívio e amizade com Divaldo. * * * A trajetória da Doutrina Espírita nesses cento e trinta e um anos. ainda hoje ele nos surpreende com as lições de vida que nos dá. nos mantivemos rigorosamen- te atenta a esses exemplos. além disso. onde nos propomos a de- monstrar algo mais que os episódios de sua trajetória ter- rena. por isto. por si só. dá margem a importantes ilações. o que. já nos edificaria e consagraria a sua missão apostolar. É inegável que escrevemos este livro com as tintas da emoção e com elas colorimos cada página. Esta não é uma biografia e. o que ele relata não foi colocado em ordem cronológica. especialmente quanto à programação espiritual e à atuação dos homens. Entretanto. traçar um amplo painel que nos propicie detectar o programa espiritual su- perior a se cumprir. É importante que se preservem os critérios de ava- liação num trabalho como este. sem jamais deixarmos de exercer o bom-senso e a lógica. de seu lançamento até os nossos dias. Desejamos.

para ir surgindo. aos poucos. seria a de se trans- formar em uma ciência a mais. Se na Europa o campo era propício às pesquisas cien- tíficas. . todavia. onde pontifica o Evangelho de Jesus. a Terceira Revelação encontra o caldo de cultura im- prescindível para estabelecer as suas bases iniciais. Emmanuel esclarece em A Caminho da Luz e Humberto de Campos em Brasil. Em contrapartida. trazida pelos Numes Tu- telares ao raciocínio e bom-senso de Allan Kardec. nos rincões brasileiros a Doutrina dos Espíritos en- contra o ambiente favorável para que se fortalecesse o lado moral. No povo fran- cês. o Espiritismo como que se foi apa- gando em toda a Europa. o movimento de expansão da Doutrina. em sua primitiva pureza. quando Kardec ainda estava por terminar a sua gloriosa missão terrena. em permanecendo aí. Aqui ela se beneficiaria do colo- rido evangélico tão entranhado na índole do povo brasilei- ro. Entretanto. e dos desdobramentos filo- sóficos encetados por Leon Denis. do sentimento de toda uma nação. que o tempo. Entre o final do século X I X e o início deste. imprescindível. não foi além da efervescência das primeiras experiências. atávicos. a fim de se lhe ca- racterizar — perante os encarnados — o alto nível cultural. acendem-se as primeiras luzes da Terceira Revelação em terras brasileiras. Este o motivo de sua im- plantação em nosso país. na Europa. Leiras do coração. o estudo e a maturidade gradual têm escoi- mado dos fatores igrejeiros. Coração do Mundo. O fato é que a Doutrina Espírita v e i o a expandir-se nas leiras férteis do Brasil.320 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T Desde a sua chegada à Terra. Pátria do Evan- gelho que o traslado do seu ponto de origem para o nosso país obedeceu ao comando do próprio Cristo. A ten- dência. A França foi-lhe o berço de ouro. especialmente os registrados em seus discursos quando de suas viagens. que a superior orientação do Mundo Maior a norteou. que lhe consolidaram a parte científica. embora todos os prognósticos otimistas e favoráveis feitos pelo próprio Codificador.

Todos os cam- pos do saber têm sido baldos de recursos para equacionar os dramas existenciais do homem. A sua tarefa é grandiosa e está inserida no contexto da programação espiritual superior com vistas à expansão do Espiritismo e. exatamente. do seu retorno ao local onde nas- ceu. também. Ao que sabemos. Mas. assim. na Sorbonne e em Nova York. Negar ou ignorar isto tem causado sérios pre- juízos à Humanidade. Esse trabalho de Divaldo Franco de semear a Doutrina Espírita pelo mundo. Falta-lhes reconhecer. Os Núcleos que se foram formando nesses vinte anos . O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 321 Com o passar dos anos e a expansão cada vez maior das idéias espíritas. o que é prioritário e faz parte da própria natu- reza humana: a sua ligação com Deus e todas as aplicações daí advindas. no berço natal de Kardec realiza palestra na Universi- dade e entrevista numa rádio local. no período de 27 de abril a 25 de maio de 1988. a outras gentes e. nessa mesma ocasião ele vai a Lyon. a Ciência está iluminada pela Religião. leva-nos a maiores reflexões. na ONU. Mas — e aí está o grandioso programa espiritual —. esta é a primeira vez que se fala. ao seu continente de origem. lúcida. na França e ali. todo o ciclo de relançamento do Espiritismo no seu país de origem. ser relançada no seu conteúdo global. Todas essas considerações nos vêm à mente ao nos in- teirarmos das mais recentes viagens e palestras de Divaldo Franco na Europa e nos Estados Unidos. e que esta se fortalece com as conquistas daquela. derivando desta aliança a fé racional. mais se fazia necessário que estas fossem semeadas a outros povos. Como parte da programação ele profere palestras em Paris. Completa-se. sobre Allan Kardec e sobre a Dou- trina Espírita. nesses lugares. realmente. e proporcionando que a Ciên- cia descubra a realidade do Espírito. ser recambiada ao seu país natal. sobretudo. O que se observa em nossos dias é que a Ciência não solucionou as angústias dos seres humanos. evidenciando que.

dão extraordinária força de autenticidade à sua palavra. não encontram uma árvore onde se pudessem abri- gar. no luxuoso cassino. A saída. que gostaria de pregar o Espiri- tismo onde nunca se falara sobre ele. Nas Pegadas do Nazareno) Divaldo afirmou aos companheiros. que se expressa no seu amor às pessoas de todas as nacionalidades — o que as cativa de forma impressionante — a sua vivência espírita. Mas deixa. ele terá uma árvore para se abrigar dos rigores do clima. em N e w York. se empenham até ao sacrifício para que as se- mentes por ele lançadas possam medrar e crescer. seu acendrado amor ao Evangelho. Esses são os passos do semeador. um dia qualquer no futu- ro. Divaldo retorna a essas cidades para realimentar e fortalecer os grupos for- mados. Ao retornar. Seu entusiasmo. para o livro de nosso querido amigo Miguel de Jesus Sardano. Divaldo possui um talento precioso e decisivo: a mediunidade. Abnegados companheiros. Divaldo re- torna com os amigos.322 SUELY CALDAS SCHUBERT de palestras no exterior (só em Paris ele já foi nove vezes. dez vezes — para se ter uma idéia' têm sustentado e propagado o ideal espírita. Certa vez (e escrevemos isto num artigo intitulado "De Paulo de Tarso a Divaldo Franco". sua alegria em pregar a Doutrina Espí- rita. na longínqua Sun City. sob um calor de mais de quarenta graus. uma semente de luz. Escolheu um pequeno país — Bophutatswana e sua capital Sun City. É um trabalho len- to. Entram na cidade e. com uma notável regularidade. . residentes em vá- rios países. na cidade de Vereeniging. Esse labor de semeador que Divaldo realiza é deveras notável. Parte com pequena caravana e ao chegarem à região. encontram uma pessoa que se interessa em conhe- cer a Doutrina e fundam um pequeno Núcleo. mas efetuado com muita segurança e fidelidade à Codificação. como ainda para novas lides de pregação doutriná- ria. África do Sul. Para realizar essa missão. realizam o primeiro culto evangélico-doutrinário em Bophutatswana. Periodi- camente. Queria pregar a Doutrina em plena natureza. árduo.

Divaldo Franco é. certamente como Paulo de Tarso. aí sim. Seu vulto luminoso perpassa através da própria His- tória da Humanidade deixando um rastro de luz a iluminar a noite dos seres humanos. mas Jesus Cristo que vive em mim. É imprescindível que essa presença dos Ben- feitores Espirituais seja ainda a própria comprovação da imortalidade da alma e do intercâmbio com os chamados "mortos". A revelação é progressiva e a Falange do Consolador continua orientando e cuidando para que a Doutrina seja implantada da forma como o Mundo Maior projetou. Mártir. Se observarmos os antecedentes espirituais da obra de Divaldo Franco." *** Os fatos se encadeiam com uma lógica irretorquivel. O SEMEADOR DE ESTRELAS 323 É importante que um trabalho de tal magnitude seja realizado por alguém que fale não apenas por si e pelos conhecimentos e aquisições pessoais. . ela que é um dos Espíritos de Luz que promovem. muito mais destes). santa e benfeitora em suas diversas reencarnações. se ma- nifeste e possa transmitir orientações ao homem angustiado de nossa época. mas que seja também o porta-voz dos Invisíveis (e. pode também dizer: "Já não sou eu quem vive. coerente e fiel a tudo quanto prega. iremos encontrar as suas raízes na própria Codifica- ção Kardequiana. O Programa Espiritual Superior está em curso. para que a Espiritualidade Superior se faça presente. iniciada. inspiram e direcionam a Humanidade nos rumos do progresso espiritual. a "carta viva" da Doutrina Espírita e. assim. ela se fez colaboradora de Jesus. no plano físico. há quarenta e um anos. Os elos dessa imensa corrente se entrosam e se fecham. desde os seus tempos de Joana de Cusa. Joanna de Angelis orienta e dirige. é necessário que esse semeador tenha uma vivência pessoal absolutamente consentânea. A par disso.

por sua magnitude. apraz-nos dizer a Divaldo que nos seus passos cin- .324 SUELY CALDAS SCHUBERT Entre as muitas Entidades Superiores que integram a plêiade liderada pelo Espírito de Verdade. a "Casa de Jesus". Desse Amor que se engrandece e. ou seja: a de dirigir o movimento de difusão da Doutrina Espírita no país e no mundo. Ao encerrarmos este livro. de dar a vida pelo Cristo. onde a dor e a miséria en- contram. Desse Amor que nasce com o menino de Feira de San- tana e. na conturbada arena do mundo. bem cedo. Desse Amor que se torna em prova definitiva para con- vencer e converter o infeliz "Máscara-de-ferro". hoje. Tal como Emmanuel. quando. que hoje. que o leva a percorrer as estradas na tarefa de prega- ção doutrinária. ensina-lhe o caminho da renúncia. através de Divaldo Franco. na manhã da vida. Desse Amor que o faz recolher os pequeninos órfãos da vida para que sejam seus filhos pelo coração e. mas as luzes desse sentimento a clarear-lhes o ingresso na Pátria Verdadeira. superando a si mes- mo. escrito com o mais profun- do amor. sublimado. a fim de testemunhar que se- ria capaz. se extravasa na dire- ção da Humanidade. já são mais de seiscentos. Desse A m o r que o leva à invasão para erguer aí. * * * Este é um livro que trata essencialmente de Amor. en- volvido pela calúnia. silencia. acrisolado nos testemunhos de cada dia. no mo- mento mais crucial de sua existência terrena. se irradiou de seu coração na direção da Vida. não apenas o socorro imediato. E é esse sentimento. A vida e a obra de Divaldo Franco são as expressões múltiplas desse Amor que. ela também participa da Codifi- cação e traz uma responsabilidade bem específica. em meio à lama. está Joanna de Angelis.

Joanna de Angelis. aos que estão andando. Quantos. nessa longa trajetória. entoando a sinfonia eterna do Amor. sob o olhar de Francisco. recolhendo estrelas. guia-lhe os pas- sos e. o caminho da feli- cidade. porque através dele conhece- ram a Doutrina Espírita e aprenderam também a viver. deixando uma esteira bri- lhante a indicar. a amorável Mentora. ao encontro de Jesus. que se lhes vincula. lhe abençoam o nome e o amam. para que a Humanidade compreenda que é possível emergir do abismo da dor e do aturdimento para as estrelas refulgen- tes da Paz e do Bem. Divaldo! Que a sua voz prossiga. conduzem essa gran- de família espiritual. nos rumos dos sofri- mentos humanos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 325 tilam as estrelas que ele semeou. juntos. FIM .