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-4ª Edição
Do 26° ao 28° milheiro

© Copyright 1989 by
Centro Espírita Caminho da Redenção
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil

Capa de José Luiz Cechelero
Foto da capa de Franklin Wagner
Impressão: LIS Gráfica e Editora Ltda

Impresso no Brasil
Presita en Brazilo

LIVRARIA
ESPÍRITA
ALVORADA
EDITORA

Todo o produto desta obra é destinado à manutenção da Mansão do
Caminho, Obra Social do Centro Espírita Caminho da Redenção (Sal-
vador - Bahia - Brasil.)

SUELY CALDAS SCHUBERT

O SEMEADOR
DE ESTRELAS

L I V R A R I A ESPÍRITA ALVORADA EDITORA
C.G.C. (MF) 15.176.233/0006-21 - I.E. 01.917.200
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil
1998

Dados de Catalogação na Publicação ( C I P ) Internacional
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Schubert, Suely Caldas.
O semeador de estrelas / Suely Caldas Schubert. —
Salvador, BA : Livr. Espírita Alvorada, 1989.

1. Espíritas - Biografia 2. Espiritismo 3. Franco,
Divaldo Pereira, 1927- 4. Médiuns - Brasil I. Título.

CDD-133.9092
-133.9
89-2354 -920.9133910981

índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Médiuns : Biografia 920.9133910981
2. Espíritas : Biografia e obra 133.9092
3. Espiritismo 133.9

SÚMULA

APRESENTAÇÃO 7
1 — O Semeador de Estrelas 13
2 — Joanna — Além do Tempo 14
3 — Joanna e Divaldo 27
4 — Joanna: A Família Espiritual 35
5 — A Pregação Espírita 39
6 — Na Africa Portuguesa — "Persona Non Grata" 51
7 — Os Bens Materiais 61
8 — A Psicografia — Messe de Amor 66
9 — 0 Suicida do Trem 77
10 — A Presença de Victor Hugo 86
11 — Amélia Rodrigues e as Histórias do Evangelho —
Cicerone em Israel 95
12 — Manoel Philomeno de Miranda — Uma Biblio-
teca Espiritual 100
13 — O Máscara-de-Ferro — O Quase Suicídio — A
Agressão — A Comunicação Mediúnica Através
de Chico Xavier 108
14 — Mediunidade e Oratória 133
15 — Resgatando Almas — O Franciscano 145
16 — A Moça de Catanduva 154
17— Desde os Tempos das Cruzadas 161
18—A Felicidade de Bezerra de Menezes 171
19— A Estesia de Tagore 176
20 — Agora. Enquanto é Hoje 182

21 — N o m e Escrito no Livro dos Céus 186
22 — A Moça da Praia — Evitando um Suicídio 191
23 — Nas Mãos de Nilson 199
24 — Em Um Minuto Apenas 202
25 — Fatos Mediúnicos em Israel 207
26 — Os Três Passes 212
27 — Com Marco Prisco na Avenida Ipiranga 217
28 — Além da Morte 225
29 — A Louca 232
30 — Chico e Divaldo — A Carta 238
3 1 — 0 "deus" Huracán — A Chuva — O Palácio de
Metal — A Chegada de Huracán — As Curas .. 242
32 — A Casa de Jesus — A Embaixatriz 267
33 — As Duas Mensagens 279
34 — Francisco, Chico e Divaldo — A Primeira Men-
sagem 281
35 — Francisco, Ubaldi e Divaldo — A Segunda Men-
sagem 288
36 — Página a Divaldo 295
37 — Jesus — As Três Questões 300
38 — A Outra Platéia de Divaldo Franco 307
39 — Prece na Pousada de Francisco 314
40 — O Archote da Fé 317
41 — Palavras Finais 320

no tempo certo e previsto. a Humanidade tem recebido vultos luminares que trazem como missão abrir caminhos e espaços no imenso cipoal de erros e experiências frustradas em que a maioria se deixou enredar. conforme elucida Allan Kar- dec no capítulo 1 de A Gênese. o Espiritismo clarifica. do somar experiências que o amadureçam como Espírito imortal. como parte do grandioso projeto espiritual que o Cristo de Deus inspira e orienta. APRESENTAÇÃO Dentro da programação espiritual que Jesus elaborou para o nosso planeta e que. Três grandes revelações. os homens conheceram os missionários — Espíritos que se notabilizaram em todos os campos humanos abrindo perspectivas novas para a gran- de família terrena. vamos encontrar a trajetória do ser humano. . da fé ra- cional e coerente. na atualidade. a sua evolução dialética. No transcurso dos evos. A Doutrina Espírita inaugura a era da razão. neste constante vir-a-ser em busca das conquistas. Assim. Cada uma delas assinalan- do períodos diferentes e definitivos para a Humanidade. propelindo-o aos seus mais altos destinos. foram transmitidas ao ho- mem. Épocas bem precisas marcam estágios. unindo as duas conquistas máximas do ser: a sabedoria e o amor — as duas asas da evolução que propiciarão ao Espírito alçar-se aos campos da luz. etapas evoluti- vas no transcurso dos milênios.

Todo um programa se desenvolve e é bem nítido o as- cendente espiritual a nortear os caminhos. O advento do Espiritismo assinala uma nova era para a Humanidade. a falange do Espírito de Verdade. se de um lado se dei- xava dominar pela ciência fria e estéril. prossegue assessoran- do a implantação da Doutrina Espírita na face da Terra. Fruto do ensino dos Espíritos e do trabalho do homem — eis a soma das conquistas humanas. quis Deus que a Terceira Re- velação não fosse personificada. por outro queda- va-se prisioneiro da fé irracional ou de sua ausência total. pois. A aliança da ciência e da religião vem libertar o homem da escravidão intelecto-moral. que é o próprio Senhor. quando o céu e a Terra se dão as mãos para deixarem falar as Vozes da Imor- talidade. . embora o re- torno de Allan Kardec à Vida Maior. a interagir sobre encarnados e desencarnados. Por primeira vez o homem tem con- dições de compreender. mas. o caminho de sua libertação. Pode-se distin- guir com clareza como se delineia essa linha de atividades. Conforme o próprio Codificador registra. Um século e três décadas transcorreram. todavia. Informam-nos os Benfeitores Espirituais que na Espiritualidade o tempo terreno. os conhecimentos doutriná- rios apenas começaram a ser semeados pelo planeta. A falange do Espírito de Verdade. Em ter- mos de Brasil. que representasse um conjunto de Numes Tutelares. o que é bem pouco em termos de evolução. sim. Nesses cento e trinta anos. de maneira abrangente. já se pode divisar fases marcantes caracterizando a programação espiritual em plena ação. o pro- gresso terreno é avaliado em milênios. Com a Doutrina Espírita a ciência e a fé se completam e integram um todo.8 SUELY CALDAS SCHUBERT No século passado. consubstanciada na Doutrina dos Espíritos. pois um século re- presenta muito pouco na dimensão extrafísica. chega-nos a Terceira Revelação. porém.

como parte do roteiro de implantação da Doutrina dos Espíritos na face terrena. estão entre nós. foi-nos possível divisar a grandiosa planificação espi- ritual que rege a sua atual encarnação. sem dúvida. pois. dando sinais. dando prosseguimento a tarefas espe- . a fim de integrar o ser humano em sua realidade cósmica. atra- vés das mesas girantes. Um pouco de sua existência está neste livro. Um desses arautos. Tal como acontece com Francisco Cândido Xavier — sem fazer nenhuma com- paração. O SEMEADOR DE ESTRELAS g Tal como aconteceu no advento do Consolador. permanecem. As "vozes dos céus" estão falando! Através de arautos. hoje pode-se prosseguir ouvindo-as. iniciou- se na Espiritualidade. por todos os títulos. Já se pode avaliar a sua existência apostolar num con- junto de atividades vividas durante quatro décadas. é Divaldo Pereira Fran- co. Em nossos estudos e pesquisas sobre este vulto tão que- rido. Há qua- renta anos. pois cada um tem tarefas bem definidas — sobre cuja vida escrevemos nosso livro Testemunhos de Chico Xavier. o quase menino Divaldo iniciou publicamente a sua missão terrena. também Divaldo está inserido num contexto de tra- balho no campo do Amor e da Paz. Um desses semeadores é. que escre- vemos com a mais profunda felicidade. utilizando-se de seu organismo corpóreo e a espiritual. de duas humanidades — a terrena. Evi- denciando que ele participa. a partir de seus de- poimentos gravados por nós. enquanto encarnado. O programa de Divaldo para a existência atual. que antecede ao berço e sobrevive ao túmulo— a Doutrina Espírita abre os horizontes do infinito aos olhos aturdidos do homem dos nossos dias. o médium e orador espírita Divaldo Pereira Franco. primeiro. pela sua própria condição de Espí- rito imortal. semeiam as verdades imorredouras. de porta-vozes adrede preparados. quando as vozes falaram diretamente. vieram para ficar. Seu labor missionário tem como mentora a veneranda Joamia de Angelis.

em profundidade. cujos ascendentes estão no Mun- do Maior. Por muitas vezes esse Ser Superior tem descido à carne para exemplificar as virtudes que lhe são inerentes. A semear o Evangelho a todas as gentes. obedece a uma primorosa elaboração em cuja direção está a figura radiosa de Joanna de Angelis. Comprometeu-se ele. de alguma forma. retratar. pro- pelindo-a em sua trajetória para o progresso. Mas. Como médium ele pratica a ciência à luz do Espiri- tismo. tanto quanto lhe fosse possível e por todos os meios ao seu alcance. semear a Boa Nova em sua feição de Consolador. já no exercício da mediunidade. Esperemos conseguir. Mas. deixan- do em cada uma de suas passagens um rastro de luz in- delével. com o nosso modesto esforço. de Cristianismo puro que a Doutrina veio revivescer. Espírito de escol. Como pessoa humana ele vive a religião espírita. tendo ouvido a palavra de Jesus e por Ele se dei- xado imolar. con- forme se infere ao estudar-se. a ser um semeador de Jesus. o médium e a vivência espírita. embora as três estejam perfeitamente integradas e não se consiga dissociar uma de outra. Como orador ele dá ênfase à filosofia espírita. por cer- to. todo esse plano. Na obra de Divaldo Franco encontramos bem delinea- das as três principais tarefas a que ele se dedica de corpo e alma: o orador. acrisolado em muitas reencarnações vitoriosas. a missão assumida por Divaldo .10 SUELY CALDAS SCHUBERT cíficas por ele exercidas em antecedente reencarnação. Joanna de Angelis é um desses Numes Tute- lares que envolve de amor a Humanidade sofredora. a vida de Divaldo Franco. Somente um médium com estas características poderia dar curso a um programa espiritual de tal magnitude.

Juiz de Fora (MG). O SEMEADOR DE ESTRELAS 11 Franco. com vistas à implantação do Evangelho de Jesus à luz do Espiritismo. ao mesmo tem- po em que reúne e promove a imensa família espiritual sob a sua responsabilidade. novembro de 1988 Suely Caldas Schubert . no cumprimento desse belíssimo plano espiritual que Joanna de Angelis idealizou.

O semeador segue adiante. disse um dia Chico Xavier. Todas as terras percorridas recebem a ensementação. O mundo o chama para ouvi-lo falar desse Ideal que o abrasa. As sementes de luz são lançadas — lúculas que perma- necem brilhando. Divaldo Franco semeia. iluminada. Mas nem todas medram agora. . Seus passos são firmes. a direção do Cristo cósmico. todavia. com seu caminho de estrelas. A seara é g r a n d e . Na esteira dos seus passos. refulge e aponta. . incansáveis. Não olha para trás. Quarenta anos percorrendo as leiras do coração hu- mano. . O semeador sai a s e m e a r . A missão de semear é intemporal. Eis que vem o semeador e a percorre. A "via-láctea". . Os anos passam e ele caminha. brilham estrelas que se acendem na noite dos tempos. . decididos. 1 O SEMEADOR DE ESTRELAS "Divaldo tem uma estrela na boca".

de uns vin- te e seis anos. sem nenhum sentido especial? — Tenho. . sim. Eu sou engenheiro. fala com aquele jovem que está ali gra- vando — porque ele é da nossa família espiritual — e pede- lhe que te leve a conhecer a pequenina aldeia de São Miguel Nepantla. muito surpreso. 2 JOANNA . Ela me acenou com a cabeça para que eu aceitasse a proposta. — Eu poderia levá-lo. eu teria muito prazer de levá-lo até ali. pois sou funcionário da PEMEX. Nós vivemos lá. Quando estava na etapa final da palestra. no domingo. Ele. num Congresso Internacional. perto de Cuernavaca. Joanna de Angelis me apareceu e disse: — Ao terminar. trabalho no setor de petróleo e. Chamei-o e perguntei-lhe se me poderia dar informação de como chegar a São Miguel Nepantla. desde que seja no domingo. como deveria fazer e onde era a rodoviária.ALÉM DO TEMPO No ano de 1969 eu me encontrava proferindo uma con- ferência na Cidade do México. indagou: — O senhor tem interesse em ir a um lugar destes. Ao terminar a reunião eu me dirigi ao moço.

Joanna se me revelou como Sóror Jua- na Inés. Chegamos à região e Joanna nos levou às ruínas de uma casa. Era uma mulher muito culta. que ela intitulou "Um recanto seguro". fui para a Ordem de São Jerônimo e adotei o nome de Juana Inés de La Cruz. Posteriormente. ao escrever um tema. ru- mamos para a aldeia que ficava a oitenta e um quilômetros da capital do México. isto sim. não acho esta crítica justa. que fora modesta. do século dezessete e que é um dos mo- tivos de orgulho da alma mexicana. com a sua família. intencionalmente." Com toda a honestidade. No domingo. e explicou-me: — Eu vivi aqui e o meu nome era então Juana de Asba- je. no estilo poético. Foi a primeira feminista que se conhece nas Américas espanholas. O Espírito pode assim. mas não de forma in- compreensível. O SEMEADOR DE ESTRELAS 15 E assim fizemos. muito deli- cado. porque renunciou a tudo para se dedicar aos pestosos. Eu não tinha a menor idéia de quem se tratava. em versos brancos. naquela época possuía uma vasta biblioteca e teve uma morte muito dolorosa. porque eu os olho e constato que Joan- na escreve escorreitamente. Tempos depois. Nesse momento eu a vi com a personalidade de Juana Inés de La Cruz. no século dezessete. voltar ao estilo que viveu outrora. Per- guntei ao rapaz: — Quem teria sido Juana Inés de La Cruz? — Uma poetisa — respondeu — das mais formosas da literatura hispânica. parece-me até um pouco de prevenção. à sua época. . por ocasião de uma epidemia que se abateu sobre a capital mexicana. Algumas pessoas dizem: "Eu não leio os livros psico- grafados pelo Divaldo porque não os entendo. aos quinze anos de idade. Um dia eu perguntei-lhe: — Por que a senhora escreve assim? As pessoas acham- na difícil.

porque tudo o que nós temos aqui existe lá. o grego e o latim. ela escreveu- lhe uma carta e um artigo reprochando-lhe determinado . Foi uma mulher revolucionária. um fato desconhe- cido. é algo que. é matá-la. mas nem tudo o que existe lá. quando foi Juana Inés. No México. Quando o padre Vieira estava no Brasil. às vezes. Joanna me disse que. para nós. seria uma árvore. Mede-se o nível de evolução do indi- víduo pela forma que ele tem de se expressar. Verbalizar. As palavras têm conteúdo emocional pelo qual são co- nhecidas. Tem-se que dizer por paralelismo. mas. há alas dedicadas ex- clusivamente a ela. na linguagem terrena. inclusive o português. A ten- dência para a civilização deu-lhe o vocabulário. mas também pelo conteúdo. viveu para a literatura. a pri- meira teatróloga e considerada a maior poetisa de língua hispânica. Não apenas pela forma. Quando o homem era primitivo. a ma- neira de vestir a idéia é-lhe importante. símile das nossas. praticamente uma alta personalidade histórica. não é necessariamente. nós defrontamos em nossa esfera física. é o mundo de lá em rela- ção ao de cá. grunhia. beleza e construção de frases. no entanto. uma doutri- na de cultura e nós não devemos adotar a gíria ou uma lin- guagem vulgar para facilitar o nível da conversação. Ê a deusa do México. Vamos utilizar uma linguagem que eleve o grau de entendimento da criatura. — Ê difícil. teremos de o vestir com expressões conhecidas e nem sempre o logramos. a nota de cem pesos tem a sua efígie. Nesse aspecto. porque limitamos o pensamen- to. Falava e escrevia fluentemente seis idiomas.16 SUELY CALDAS SCHUBERT — Porque o Espiritismo é. nos séculos dezessete e dezoito. no México. a gente vê a missão his- tórica desse Espírito. Este é um grande problema. Espíritos — prossegue Joanna — verbalizar o que pensamos. era uma monja que possuía milhares de volumes lidos e co- mentados. Quando trazemos uma idéia. acima de tudo. uma árvore. No Museu de Chapultepec. Há lá uma árvore. vestir a idéia com palavras. Ela foi a primeira feminista do mundo.

Foi o suficiente para que se desfizesse de toda a biblioteca. Mas. ela aceitou os votos de si- lêncio e como eram monjas enclasuradas nunca um secular podia vê-las. sendo. era Juana de Asbaje. a feiúra. Quando tomou hábitos.. reencarnou-se no Brasil. O SEMEADOR DE ESTRELAS 17 comportamento. em jornal exis- tente na época. lembrando no inconsciente do atendimen- to aos pobres e aos pestosos. a estatura. contemplativa. No Brasil. Ê muito curiosa essa programação das reencarnações. tudo quanto constitui conquista ou perda.. noutra oportunidade. Depois. como Joana Angélica. era dedicada também à caridade. Para poder mantê-lo estudou mais o português e o conheceu em profundidade. Atendiam a todos através de um véu. as formas. contami- nou-se e morreu. Ê impressionante. que era uma mu- lher acostumada a pensar e a escrever. o psiquismo. de uma cortina. A Or- dem era mística e muito austera. procurou examinar o que fazer . in- clusive. a beleza física. entregando-se em holocausto. Informou-me. a fisionomia. assim. que se publicou na Bahia. como se pode constatar nas pinturas que a retratam. ela. no México. No convento na Bahia. na qual estava. Joanna plasmou o mesmo rosto nas duas últimas reencarnações. vendendo-a e dando os proventos aos pobres. Quando se tornou Abadessa. na qual entrou como noviça e exer- ceu todas as funções até ser Abadessa. também. como o Espírito plasma. Aí nasceu um vínculo com o Brasil. a de São Jerônimo. Oportunamente. também. viveu numa Ordem religiosa. Joana e foi para o convento como Joana Angélica de Jesus. Fazia-se voto de silêncio e de dedicação total. Vestiu então um buril e foi atender aos pestosos. O nome civil dela. Ela era. a Abadessa chamou-a e disse que ela era uma religiosa orgulhosa da cultura e que a Ordem. a madre lhe deu o nome de Juana Inés de La Cruz. ela se dedicou à Ordem. no Brasil.

Assim. Dedicava as horas vagas. as chamadas "arre- pendidas". prepotentes. os pais. Jovens que realmente amaram e foram enganadas e outras que nem sequer se equivocaram. meu filho — asseverou-me ela —. — Ali. que estava deturpado pelos conceitos dog- máticos. internadas ali para não saírem mais. sendo levada para o contato com os Espíritos da Codificação e para uma adaptação do pen- samento cristão. porque O tinham que respeitar. eram vencidas por crises histéricas. eram enter- radas vivas. Referiu-se às cenas noturnas do monasterio.18 SUELY CALDAS SCHUBERT de modo a atender à Ordem e servir a Jesus. já pensando nessa obra que viria muitos anos depois. eu santifiquei a arte de amar e entender. não "pensar mal" e sendo atormentadas. porém. Aquelas pessoas aclimatadas a sensações muito fortes e. como sucedeu também com outros. do conceito católico. digamos. dentre os quais. de repente. isto é. de ma- drugada. com ex- ceção dos silvícolas). a paz que perderam. o Consolador estava pro- gramado para o Brasil e ela. em 1822. Muitos pais. no arrependimento dos erros. Passou por uma adaptação mental para pensar em termos cósmicos e não em termos terrenos. Começou aí a participar da tarefa. que o fize- ram antes. para conversas con- soladoras e profundas meditações. sendo levadas a amar ao Cristo. que buscavam. Quando desencarnou. assim o supuseram. ao cristão liberado que devia vir no Espiritismo. foi convidada a fazer parte da equipe do Espírito de Verdade. como estrangeira-brasileira (Espíritos estrangeiros que somos todos nós aqui. . cujas filhas se equivocavam. aceitou uma das mais difíceis tarefas — notem que Espírito líder — a de reeducar mulheres equivocadas. quando fazia visitas às celas. Ela reeducava aquelas pessoas. que lhes era im- posto. Santo Agostinho. a "Mansão do Caminho". faziam um mecanismo de transferência psicológica para o Cristo-homem e não para o Cristo-Deus. mas. coibidas. Entre elas muitas havia.

E me contou que havia sido a personalidade Joana de Cusa — e eu a vi transfigurar-se na mártir — a que se refere o Evangelho. a luta tiranizante da transformação moral no dia-a-dia. aquele que morrera com ela na fo- gueira. Mais tarde. por estímulo dela. Ela deu o título de "Emulo de Jesus" e está no livro A Ser- viço do Espiritismo. ela me levou e ao Nilson. vinculado também aos nossos sentimentos. Ali ela me falou: — Eu desejo aqui escrever uma mensagem. faz muito tempo. no intervalo de palestras. que nos pediu visitássemos a cripta onde está inuma- do São Francisco. a esta luta eu te incito e te invito com freqüência até o últi- mo hausto da tua existência. a mim. que estava comigo. as glórias terrestres não terás que conquistá-las. um grupo de quatro pessoas. Assim eu tive notícia de mais esta reencarnação de Joanna. E diante do túmulo ela me levou ao transe mediúnico escrevendo uma mensagem que eu reputo muito profunda. até o fim. exatamente — porque era uma hora em que se encontraria deserto o lugar e não teria turistas. Como te disse. não interessam e espero que a ti também não. a uma região próxima às Aguas Termais de Caracala e apontou um dos morros. elucidando-me: — Eu tenho muito amor histórico a esta região. E confirmou que um de seus filhos. visitando Roma. Ela faz o paralelo entre aquele que . Fomos. por- que nós já vivemos aqui. ao meio-dia. no mês de agosto do ano de 68 por fidelidade a Jesus. Mas. e estando no Monte Aventino (ano de 1970) numa viagem histórica que realiza- mos com objetivos doutrinários. A nossa vincula- ção com Jesus é muito antiga e esta existência tua deves levá-la com muita abnegação e sacrifício. e descemos à crip- ta onde estão os seus despojos carnais. O SEMEADOR DE ESTRELAS 19 Posteriormente. fizemos uma visita a Assis. tendo dado a vida em holocausto. era alguém que estava hoje reencarnado.

Pátria dó Evan- gelho. Mais tarde. E me trouxe uma jovem. O Espiritismo. . levou-me a passar pela mes- ma estrada. oferece ao homem a possibilidade de conhecer a história espiritual da Humanidade. depois. Muitas revelações têm sido feitas. Coração do Mundo. a partir do século primeiro. pelos Espíritos Su- periores. Ê a estrada que liga Assis a Santa Maria dos Anjos. Joanna nar- rou-me várias das suas reencarnações. estando esta mensagem in- serida no livro No Longe do Jardim. diante do corpo em conservação de Clara de Assis. especialmente. ao longo do tempo. Depois conduziu-nos ao Monasterio de Santa Clara. de Humberto de Campos. através de médiuns responsáveis. . oferecendo-nos condições de visualização de um enorme painel com a tra- jetória do ser humano. que fica na parte superior da cidade. A partir. vai também escrever uma página. e. encontramos a revela- ção do passado espiritual da Terra e de nosso país. que na Terra foi bailarina. . de abnegação que ninguém teria feito igual. de Emmanuel e Brasil. Ali. O que realmente aconteceu. ela me desvelaria um outro ângulo de suas existências. em seguida. ambos psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. porque eu desejo ainda que alguém es- creva uma mensagem neste local. em sucessivas reencarnações. Logo. e que eu já conhecia. intitulada "Encontro na Estrada". Ao terminar de ditá-la. dos livros A Caminho da Luz. na sua escalada evolutiva. determinou: — Aquieta-te. explicando-me: — Eros (que é um pseudônimo).20 SUELY CALDAS SCHUBERT acompanhou Jesus em todas as Suas pegadas com um espí- rito de fidelidade.

ela pontificou como Espírito de Luz sen- do reconhecida e venerada com diversos nomes. Uma das mais belas facetas. admiração e amor que lhes dedicamos. Esta é uma realidade comprovada. Quando nos referimos a tais Entidades Superiores que lideram o Movimento. da qual se tornam condutores. de determinados grupos humanos. para que aprenda a alçar seu próprio vôo. no entendimento da traje- tória espiritual dos povos que a Doutrina enseja. sim. Joanna de Angelis é. sem sombra de dúvidas. sobrepondo-se à imensa mole humana. realmente. de que existem. de recomeço e de refazer a sua caminhada. dos quais pas- sam a ser devotos. em função do respeito. Allan Kardec a isto se refere. muitas delas no seio da Igreja Católica. por cuja evolução laboram com abnegado amor. no sentido de inspiradores e/ou motivadores do progresso. pelo que se desdobram em ensina- mentos e exemplificações. São incontáveis as almas que o seu coração amorável e sábio reuniu para formar a sua grande família espiritual. mas. o fazemos na compreensão racional. em várias . Existem várias provas disto. contudo. numa demonstração flagrante de desco- nhecimento doutrinário. é a de que existem Espíritos Superiores como Mentores de nações. Mesmo porque os Benfeitores lutam para que o homem se liberte dessas amarras. perguntas 519 a 521. de nossa parte. Em cada uma de suas reencarnações. O SEMEADOR DE ESTRELAS 21 Inúmeros vultos históricos nascem e renascem com ta- refas específicas. os Benfeitores que têm responsabilidades para com a marcha da Doutrina em nosso país. lúcida. A Misericórdia Divina proporciona ao homem ensejos benditos de aprendizagem. em nosso próprio Movimento Espírita. pois já se podem detectar algumas dessas lide- ranças espirituais. embora alguns tenham uma visão distorcida a respeito desses Mentores. um dos guias espirituais da Humanidade. sem haver. em O Li- vro dos Espíritos. quaisquer laivos de endeusamento em relação a encarnados e desencarnados.

as principais caracte- rísticas dos Espíritos Superiores> esclarecendo ser essencial que o médium as conheça para avaliar a categoria dos Espí- ritos comunicantes. porém. vamos encon- trar a coerência e a total identificação com os postulados da Doutrina. a vivência consentânea e por todos comprovada. que ao longo do tempo foi-lhe sendo revelada. Tais critérios devem ser sempre utilizados pelos mé- diuns na análise crítica que devem realizar de seu desempe- nho mediúnico. discreto. * * * As explicações de Divaldo sobre a circunstância de ser Joanna de Angelis um dos Espíritos da Codificação são bas- . que "descobre" a história real de Joanna de Angelis. como também jamais cessam de conclamar ao estudo constante e à renovação moral. aconselham-na. assim. o que lhe ampliou a família de forma considerável. Os Benfeitores da Espiritualidade Maior. A maioria. esquece. principalmente. sempre se manteve dentro de uma ética irrepreensível. atestando um pro- grama espiritual superior a cumprir-se com fidedignidade. Prudente. Divaldo Franco.22 SUELY CALDAS SCHUBERT partes do mundo. dão-nos a melhor resposta. todavia. humilde. a fideli- dade a Jesus e a Kardec. * * * Allan Kardec aborda. A perfeita identidade de propósitos. no decurso dessas quatro décadas de labor apostolar. preferindo tudo aceitar sem uma avaliação crite- riosa. jamais alardeou a superioridade de sua Mentora. É no exterior. O Codificador relaciona. negligencia essa pesquisa. a questão da identificação dos Espíritos. no capítulo X X I V de O Livro dos Médiuns. e o faz em nada menos que 54 itens. Colocados todos esses critérios de investigação ao nos- so alcance. com vistas à obra mediúnica de Divaldo e à orientação imprimida por Joanna de Angelis.

deixando-se conhecer. portan- to. A primeira dessas mensagens está no capítulo I X . "Dar-se-á ao que tem". Algumas dessas Entidades já traziam os seus nomes em nossos registros históricos. na Bahia. no capítulo X V I I I . con- forme Humberto de Campos. o seu pensamento cristão adaptado à visão nova que a Terceira Revelação propiciaria. mas o faz como "Um Espírito Amigo". sem re- velar a sua verdadeira identidade. contudo. item 7. As raízes históricas de Joanna de Angelis estão. só foi tornada pública por ocasião do ses- quicentenário desta memorável data. Espíritos de escol se desdobraram para que o Espiri- tismo florescesse em nosso solo abençoado. quando ditou uma mensagem alusiva. como Joana Angélica. as mesmas caracterís- . convidada a participar da Falange do Espírito da Verdade tem. cujas raízes foram bus- car a ubérrima terra baiana para se fixarem. Contudo. Nessas diferentes reencarnações. Este fato é muito significativo. só após quatro décadas de labor com o mé- dium é que ela se deixa identificar como tal. item 15. Ela tem o ensejo de assinar duas comunicações psico- gráficas que foram inseridas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. "A paciên- cia". Joanna plasma o mesmo rosto. A sua participação nas lutas pela Independência do Brasil. A princípio ela se identifica ao médium como "Um Es- pírito A m i g o " e somente mais tarde com o pseudônimo atual. e a segunda. pois evi- dencia os vínculos com a Falange do Consolador que. Joana Angélica. finalmente. que também foi o berço do Espiritismo em terras brasileiras. trasladaria da França para o nosso país a árvore do Evangelho. conforme Divaldo elu- cida. especialmente nas hostes da Igreja católica. então. amada e venerada em alguns países da Europa com os di- versos nomes de suas diferentes reencarnações. ela que é reconhecida. O SEMEADOR DE ESTRELAS 23 tante coerentes com todo o seu passado histórico e o seu presente.

Por Ele vence os problemas domésticos e compreende as dificuldades íntimas do marido. a conhecer . narra. intendente de Ântipas. pela fé que a alimenta de sagrada chama. em seu es- tilo inconfundível. Com a morte deste. mas também pelo filho amado que ela entrega a Jesus em suprema renúncia. na educação de seu único filho.24 SUELY CALDAS SCHUBERT ticas morfológicas que hoje a identificam de maneira assom- brosa. em seu belíssimo livro Boa Nova. enquanto empenha-se. Por amor a Jesus e aos ideais do Evangelho nascente ela se deixa imolar. os caracteres de sua personalidade tam- bém despontam vitoriosos nessas várias existências terrenas. A trama da vida coloca-a em situação ímpar. Joan- na o convida e a Nilson. Por outro lado. Ao encontrar Jesus. Joana. na obra mencionada. que o acompanhava. Deste testemunho de fé profunda e ver- dadeira não abdica nem mesmo para livrar o próprio filho do sacrifício. É a prova inconteste da reencarnação. Joana pôde dedicar- se integralmente a Jesus. O exemplo de renúncia e sacrifício de Joana atravessa o tempo. pois não apenas tem de testemunhar por si mesma. * ** Humberto de Campos. psicografia de Francisco Cândido Xavier. sempre voltado para os in- teresses materiais. narra Divaldo. é tomada de verdadeira fé e reconhece estar diante do Mestre a quem passa a amar com toda a alma. A cena final da vida dessa estóica mulher é impressio- nante e recomendamos a sua leitura. mostrando o Espírito superior a habitar diferentes corpos e imprimindo nestes a marca inconfundível de sua individualidade. esposa de Cusa. também. # » * Em sua primeira viagem a Roma. o martírio de Joana de Cusa — talvez o mais expressivo exemplo de amor ao Cristo que nos é dado conhecer.

ela esclarece que. hoje conhe- cida como a "Cidade Eterna". em outros lugares e tempos. No transcurso da narrativa Divaldo a vê transfigurar-se na mártir e. desentranhado não apenas dos arquivos mnemónicos. realmente está eternizada co- mo cenário de sacrifícios e testemunhos cristãos e na sua psicosfera estão registrados os feitos e os fatos de um pugi- lo de almas que. como se estivessem mergulhados em seus arcanos. a cidade dos Césares e dos mártires. Joana de Cusa dera a vida a Jesus. defendendo os mesmos ideais. que vamos encontrar qua- se dois mil anos depois à porta do convento da Lapa. de estoicismo. também. na Bahia. tão presente e vivo. e de vivência plena do Evangelho. se deram em holocausto ao Amor. Naquele instante decisivo. . envolvidos todos por indescritível emoção. Joanna de Angelis passa a ser tam- bém Joana de Cusa. * * * É esse Espírito talhado na forja do sacrifício e da abne- gação. Joana Angélica é Joana de Cusa que retorna do passado e que se deixa imolar para mostrar aos homens — não a Jesus. a exemplo de outras. Impossível imaginar-se cena mais tocante que a deste reencontro de almas. por um Amor Maior. Sua coragem e decisão são as mesmas com que enfren- tou o circo e é o mesmo e definitivo amor com que se en- trega a Deus. Após entretecer considerações demoradas. da fé acrisolada e estuante. com o passado ali. transportados pela "máquina do tempo". mas. ao lado de inúmeros outros cristãos. que o Mestre já lhe conhece a superior fidelidade — que se pode morrer por um ideal. Roma. no Monte Aventino ela aponta o local onde se erguia a Domus Áurea (Casa Dourada) onde Nero vivia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 25 as colinas e. vivendo para Jesus e por Ele novamente oferecendo a própria vida. resgatado dos arquivos da ambiência etérica. na- quela região. a fim de que permaneçam vívidos os exemplos de fé.

vive para o Cristo. ressurgem na presença de luz de Joanna de Angelis. há dois mil anos. no caso da Mentora de Divaldo "colecionando" reencarnações vito- riosas. De revelar o seu acendrado amor ao Evangelho e mostrar- lhes que este é o caminho. o reinado do Amor e da Paz. pelo menos. ao mesmo tempo. orientando e assessorando a obra mediúni- ca de Divaldo Franco. . na Terra. que mantém a obra. Ei-la. a sementeira do Evangelho a várias regiões do globo e a libertação definitiva desse grande con- tingente de almas que integram a sua família espiritual. ela que. (Não será assim a ressurreição a que Jesus se refere? O mesmo Espírito transfundindo-se através de sucessivas vidas. adquirindo conhecimentos e. Ansiando por levar ao mundo as notícias da Doutrina Espírita elabora um projeto grandioso que pudesse signifi- car. hoje. reunindo ali um grupo afei- çoado. Juntos concreti- zam a "Mansão do Caminho". Joana Angélica. como agora. assegurando a sua continuida- de. Juana Inés de La Cruz. so- mando experiências.26 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. para mostrar ao mundo que é possível instalar-se. ela teve ensejo de falar aos homens. E o faz já por quatro décadas sucessivas. uma era nova se anunciava para a Humanidade com o advento do Consolador prometido por Jesus. seu filho espiritual. Joana de Cusa. com a plenitude do conhecimento. mártir e santa muitas vezes até ressurgir como a Ins- trutora Espiritual Joanna de Angelis?) Nunca.

Não a vi com as características de religiosa com que ela se vem apresentando nos últimos trinta anos. Não esperes de mim aquilo que o mundo pode dar e que tu conseguirás com teu próprio es- forço. na tua fideli- dade à palavra do Senhor. A minha memória guardou a data. num porão. Por uma curiosa "coincidência" esteve ontem e talvez esteja hoje. o irmão da pessoa que nos . próxima de mim e uma voz muito meiga que me disse: — Eu tenho a tarefa de caminhar contigo na atual exis- tência corporal e envidarei todos os esforços para que a nossa tarefa se coroe de êxito. contes com a minha presença de amiga na razão direta em que eu possa contar contigo nas necessidades do nosso programa. à noite. mas eu te afianço ser necessário que. Isto se deu na residência de uma família amiga. mas vi uma claridade muito grande. entorpecem os sentidos e aniquilam os ideais. onde o grupo se encontrava semanalmente. porque foi um momento de muita significação e importância na minha atual exis- tência. eu a vi por primeira vez. É muito significativo constatar a similitude de acontecimentos. 3 JOANNA E DIVALDO No dia 5 de dezembro de 1945. na palestra. Não te prometo as regalias nem as comodidades que. todas as terças-feiras em um quarto modesto. às vezes.

que nós nos reuníamos para tentarmos os primeiros passos. de certo modo. não pude sopitar a minha curio- sidade de fazer-lhe uma pergunta. eu per- guntei: — Como é o seu nome? — Chama-me "um Espírito Amigo". (Nota da Editora) . porque nós não tínhamos a menor idéia do que era o Espiritismo. no Centro Espírita Joanna de Angelis. Ainda me recordo que. a princípio anônima. naquela noite de 5 de dezembro apareceu-nos esse ser espiritual e se comprometeu a ajudar-nos. A partir daquela época a nossa vida passou a ter uma diretriz e um significado de bom direcionamento. que eram os romances da época. A Vingança do Judeu. a necessidade. no exercício de mediunidade. porque tinha muita preocupa- ção com os nomes. já havia lido O Livro dos Espíritos. naquela mesma noite. mas o "Espírito Amigo" me atendeu. àquele tempo. Era na residência de sua irmã Eunice. ao estar na casa de Chico Xavier. Já tinha alguma noção de Doutrina Espírita. Portanto. logo ao amanhecer do dia imediato. porquan- to eu passei a senti-la e vê-la quase diariamente. constituiu-nos um farol aceso lutando contra a ventania. essa Entidade. Passaram-se os anos e aquele "Espírito Amigo" conti- nuava a estar comigo. e então. em Juiz de Fora. Vítimas do Preconceito. MG.28 SUELY CALDAS SCHUBERT franqueava a sua casa para as nossas reuniões — o senhor Ederlindo Sá Roriz. ( * ) A narrativa foi feita no mês de setembro de 1987. Já havia lido alguns ro- mances Eleonora. Eu fiquei algo frustrado. estava estudando-o. Nestes qua- renta e dois anos * que nos separam daquela oportunida- de. Fui seu hóspede em Pedro Leopoldo. No ano de 1949 eu conheci o médium Francisco Cândi- do Xavier.

Divaldo. Certa vez. Quando me apareceu eu me queixei. uma senhora insistiu tanto neste assunto. menos eu. Todo mundo queria ter um guia e eu também. não posso dizer quem é. O SEMEADOR DE ESTRELAS 29 Quando despertamos e antes que ele fosse trabalhar na "Fazenda Modelo". com a mineirice dele. você há de ter tido qualquer nome na Terra. pois todos sabiam quem era o seu guia. o do nome do guia. O Espírito sorriu outra vez. à época. você. — Por favor — insisti — me dê um nome. Pois as pessoas me per- guntam e eu respondo: "Um Espírito Amigo". Jesus eu já sei que o é. do Ministério da Agricultura. disse: — Divaldo. . pois ficamos como es- távamos. Eu vou pegar uma beiradinha de nada. — Eu não sei. que era filho de Deus). Foi o mesmo que não ter visto. eu lhe perguntei: — Chico. jovialmente e falou: — Bem. que resolvi conversar seriamente com o "Espirito Amigo". Ao largo dos anos as pessoas sempre me perguntavam: — Mas. mas todos in- formam: Fulano é o meu guia. mas não sei quem é. E o Chico. Eu quero um guia para mim. Eu queria ter um para mim. havia uma mentalidade guiista.. di- zendo que estava muito desgostoso. e respondeu: — Divaldo. O Espírito sorriu. — Ê. onde era datilografo. quero lhe fazer uma pergunta: Quem é o seu guia? (Era o meu ponto nevrálgico). pois eu não sei. eu vou dizer: o teu Guia é Jesus. mas Ele é o guia de todo mundo. da Humanidade inteira. viu quem é o meu guia? (Porque. tu me chamarás Joanna. com essa visão transcendental.. eu vi. que coisa.

as mãos estendidas. como se isto em mim. por ocasião do teu começo. chama-me Joanna de Angelis. com uma riqueza de detalhes talvez maior do que a que eu estou vendo nas pessoas agora. na última encarnação. Eu fui Abadessa do Convento da Lapa. — A senhora deixa-me ver o seu rosto. pois me aparece assim. Se eu te anunciasse.30 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive uma pequena decepção. na tua ingenuidade e no teu entu- . era a da paciência. achei o nome tão sim- ples. em Salvador. Eu me comovi e me senti profundamente a ela vincula- do. aquela idade que está além do tempo e além do espaço. A mediunidade é um ministério de autocon- trole. eu fui mulher. aqui. Finalmente o meu desejo fora atendido. Quando ouvi o nome latino fiquei mais satisfeito. — Mas. no momento. o véu azul. à época. e eu a vi. Tu sabes quem foi a Abadessa Joana Angélica de Jesus. Ela desencarnou. Ela me apareceu luminosa. com mais de sessenta anos. Ela então se materializou diante de mim. tão anônima. eu ain- da queria algo mais. foi mulher? — Sim. — Quer dizer que a senhora.. tivesse desabrocha- do. de disciplina e de serviço. E perguntei-lhe: — Por que a senhora não me disse antes? — Tu eras muito imaturo. mas ela me apareceu com um esplendor que me fazia recordar uns quarenta anos de ida- de.. . uma beleza e uma idade indimensional.. Quem pre- tende servir a Jesus deve aprender com o tempo e discipli- nar a vontade. e me deixou fixar a imagem. só Joanna? — Olha. a respeito de nossas vinculações e te dissesse quem eu era. E a primeira lição de sabe- doria que eu te queria dar. Divaldo. porém. e que deu a vida nas lutas da Independência da comunidade brasileira.

já merece uma promoção de responsabilidade. A não ser. contudo. não carece necessariamente de ser feita. A questão do Guia Espiritual e o desejo do médium em saber-lhe a identidade expressam uma curiosidade bem humana e própria de todos os indivíduos. Allan Kardec comenta sobre o tema. . de captar a identidade dos Espíritos que o assistem. Neste caso. porque. de re- pente.. Quero dizer-te que. mas quem é fiel em dez anos de lutas. entre nós. no princípio.. Agora já transcorreram mais de dez anos e estás em condições de saber. Alguns médiuns têm dificuldade. a abandonavas. no capí- tulo X X I V de O Livro dos Médiuns. c o m o no caso de Divaldo. a não ser nos casos de pesquisa científica ou quando vêm espontaneamente. Isto não deve. — Ademais — prosseguiu Joanna — eu não confiava em ti. é claro. já és um homem. É oportuno recordarmo-nos de como o Professol Rivail teve ciência do seu Guia Espiritual. Por- que até dez anos de atividades pode-se considerar um tra- balho de entusiasmo. Agora. os Espíritos responsáveis. em que Joanna queria permanecer incógnita. O SEMEADOR DE ESTRELAS 31 siasmo baratearias muito estas informações. pois c o m o tempo a revelação se fará. pois não tinhas essa maturidade que os anos ofere- cem e que o sofrimento imprime na personalidade. é bastante normal que este queira saber-lhe o nome. uma tarefa passa a ter valor depois que os dez primeiros anos são vividos com abnegação. tornar-se um problema angustiante. já tens uma visão mais cósmica da vida e assim já nos podemos entender muito mais. Não te poderia dar uma tarefa além das tuas forças. há de se fazer a distinção entre os vários comunicantes e o Mentor Espiritual do medianeiro. A identificação das Entidades que se comunicam por um médium. Entretanto.

contudo. O Espírito Z. — O nome Verdade. K . porque "os nossos médiuns o viam envolto num véu azul". Consentirás em dizer-me quem és? R — Para ti. — Zéfiro — que já se manifestava nas reuniões da família Baudin. . constitui uma alusão à verdade que eu procuro? R — Talvez. para ti. nada mais saberás a respeito. durante um quarto de hora. cuja personalidade se ocultava sob vago pseudônimo. Ao ser in- formado. que esta Entidade era assim denominada. o "Espírito Azul". de que falei acima. por sua vez afirma: "O nosso grupo (mediúnico) achava-se sob a proteção de dois Espíritos elevados. que adotaste. ficou sendo para Kardec um amigo e protetor. e todos os me- ses. ) A . (Idem) Leon Denis. K . ) A . — Terás animado na Terra alguma personagem conhecida? R — Já te disse que. chamar-me-ei A Verdade. até que. ao tempo em que a família Baudin se dispersou. Allan Kardec já interro- gara o Espírito Z." Esclarece Denis. ( . . era dotado de maravilhosa penetração. (Obras Póstumas — Grifos no original)" Antes desse diálogo. é um guia que te protegerá e ajudará. . sou a Verdade. quer dizer discrição. mais tarde. na sessão em casa do senhor Baudin. um Espírito feminino. agradeço-te o me teres vindo visitar. aqui. o Codificador trava com ele o seguinte diálogo: " A . um dos quais Jerônimo (de Pra- ga). isto. sobre a questão de seu (dele) Espírito protetor. pelo menos. (No Invisível) . para ti. — Meu Espírito familiar. K . estarei à tua dispo- sição. que seu Espí- rito familiar estava presente. o outro. .32 SUELY CALDAS SCHUBERT Ele esclarece que até àquela época denominava por Espírito familiar todos os Espíritos simpáticos. ( . quem quer que tu se- jas. anunciou que reencarnaria.

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no mínimo. Segundo ela. Naquele instante. Quando Joanna de Angelis revela a sua identidade e se deixa ver na beleza de sua elevação espiritual. quando então assina como "Um Espírito A m i g o " . a prudência. o zelo quanto ao desempenho do programa espiritual traçado são impressionantes. pelo menos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 33 Os Guias Espirituais. tornando-a. a partir daí. de paciência. item 7 e que versa exatamente sobre esta vir- tude. Divaldo não deveria ser inteirado desses dados antes de. perfeitamente. identifica-se. com a promessa de Jesus de que enviaria. o Espírito de Verdade. que o ajuda e orienta. capítulo I X . que vê freqüentemente a seu lado. É um teste completo de persistência. transmite também ao médium um valioso ensinamento. um decênio de trabalho contí- nuo e perseverante. um fato real — a promessa consumou-se. certamente. portanto. uma década para que o trabalhador da seara espírita mereça uma pro- moção de responsabilidades e. . de credibilidade perante o Mundo Espiritual Superior. A discrição. mais tarde. tendo em vista as circunstâncias. ao responder ao então Professor Ri- vail. é uma revelação no- tável. * * * Divaldo. Afirmando que a primeira lição era a da paciência. O Espírito da Verdade. do autocontrole e do serviço constante na tarefa da mediunidade. O prazo de. identificam-se ou ado- tam um pseudônimo ou denominação qualquer. ela repete o primei- ro tema que aborda em O Evangelho Segundo o Espiritismo. tenta iden- tificar aquele "Espírito Amigo". que simboliza o próprio Cristo. o Consolador. Nesse diálogo com o médium ela ressalta a necessidade da disciplina. a Entidade Espiritual estabelecia a ligação histórica entre a promessa do Mestre e o advento da Terceira Reve- lação. numa curiosidade bastante natural.

. que não se consegue realizar antes de serem percorridas todas as etapas concernentes à própria evo- lução. en- fim.34 SUELY CALDAS SCHUBERT de fidelidade aos compromissos assumidos. O processo de crescimento espiritual e quaisquer tare- fas de cunho espiritual requerem todo um laborioso ama- durecimento. integral. de vivência.

reunindo. mesmo viajando.A FAMÍLIA ESPIRITUAL Os anos sucederam-se e Joanna de Angelis explicou-me: — A nossa. Às cinco da manhã. às quais desejo mandar a minha mensagem de amiga. Já psicografei quase seis mil mensa- gens. sob a direção de Francisco de Assis. Essas almas são a família espiritual de Joanna. A mensagem escrita chegará periodicamente co- mo estímulo. e das cinco às seis ela escrevia uma página. e ela escrevia. Comecei a psicografá-la diariamente. 4 JOANNA . — A princípio. que o fazia. que es- taria espalhada e que ela tem a tarefa de chamar. des- pertava. do passado eu trago comigo um número muito grande de almas que me são afins e estão espalhadas. Eu irei escrever muito pelas tuas mãos e tempo virá que eu te requisitarei várias horas para o ministério da escrita. neste largo período. para levá-la de volta aos braços do Carpinteiro Galileu. Levantava-me às cinco horas da manhã. quan- do as forças te diminuírem e as distâncias se fizerem in- transponíveis. tu irás convidá-las pela palavra e. Nova- mente elas virão e muitas necessitarão do alimento ao longo do tempo. Caminhare- mos muito. Porque. a mensagem escrita chegará até elas. Isso me criou uma disciplina mediúnica ao largo dos anos. será uma marcha muito longa. para que possam lutar e triunfar na sua atual experiência. .

a nostalgia que. sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga. vindo aqui reunir-se numa mesma família. Po- dem. por vezes. assim. nem as sombras das paixões. Após cada existência. Se uns encarnam e outros não. A encarnação apenas momentaneamente os separa. Ditosos por se encontrarem juntos. item 18. pela simpatia e pela semelhança das inclinações.36 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o espaço. porquanto.) Este trecho de Allan Kardec exprime bem o em que consistem as famílias espirituais. uns seguem a outros na encarnação. Estas são uma prova cabal de que os verdadeiros liames são os do amor. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. . percorrer. Não existe tempo nem épocas. Todavia. ou num mesmo círculo. Não há distância que não possa ser vencida pelo amor. novamente se reúnem como amigos que vol- tam de uma viagem. a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. acometem o ser humano. nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cati- veiro. podem ser derivadas das lembranças desses afetos dos quais se está momentanea- mente apartado. não tem a perturbá-la o egoísmo. portanto." (O Evangelho Segundo o Espiritismo. esses Espíritos se buscam uns aos outros. As saudades. todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. pela razão mesma de que mais depurada. capítulo I V . Cada vez menos presos à matéria. mais viva se lhes torna a afeição recíproca. ilimitado número de exis- tências corpóreas. um perene "festival de bênçãos". Assim Joanna se empenha em nutrir espiritualmente to- dos esses corações que lhe estão vinculados. as almas afins se buscam no espaço e no tem- po e intercambiam as vibrações de amor e de alegria por se reencontrarem. os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição. sem motivo aparente. Muitas vezes até. pois o amor é intemporal e triunfa da noite dos milênios para ser um eterno amanhecer. ao regressarem à erraticidade.

. com fervor e devoção. a alimentar-se espiritualmente. transportando-a do santuário doméstico para o recinto do próprio coração. o ignorante e o sábio. através de mil modos diferentes. exaustas. socorrer e amparar a tantos que a buscam. Inclina-se o Mestre ao bem de todos os homens. Nesses postos de socorro sublime. à mesa edificante das idéias religiosas. Mais do que ninguém. por isto assevera: "E. ligadas à Igreja Ca- tólica. de outro modo. em esforço gradativo." (Marcos. no mundo. . compreende Jesus que. ? Jesus preocupa-se com a multidão. o indagador e o crente. o que nos leva a imaginar quão grande deve ser a sua equipe espiritual para atender. até trazer a igreja ao próprio lar. desde a taba do indígena às catedrais das grandes metró- poles.. Como nutrir tantas almas? Como ampará-las e escla- recê-las? Como consolá-las em suas dores? Como trazer de volta as que se transviaram? C o m o . o revoltado e o infeliz. as criaturas cairiam. o homem aprende.(. . se os deixar ir em jejum para suas casas. há séculos. 8:3) Emmanuel. com recursos espe- cíficos. tornando-se co- nhecida e venerada por milhões de pessoas. Pouca gente medita na infinita misericórdia que serve. desfale- cerão no caminho.) Jesus manifesta invariável preocupação em nutrir os espíritos dos tutelados. ao comentar este passo do Evangelho. Cheio de abnegação e amor sabe alimentar.. afirma: "Não falta alimento do céu às criaturas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 37 Em várias de suas reencarnações. Logicamente isso aumenta-lhe o círculo de responsabilidades. porque alguns deles vieram de longe. A forma como é realizado este atendimento sugere-nos uma estrutura tão grandiosa e tão perfeitamente organizada que nos leva a malabarismos mentais. ela pontificou como mártir e santa.

engrandece de maneira prodigiosa a idéia que temos da Bondade Di- vina e de toda essa fantástica corrente de amor e solida- riedade entre os seres humanos. um perfeito encadeamento histórico. como está bem claro. conforme ela orienta. encontra-se sob a tutela espiritual de Francisco de Assis." (Pão Nosso — capítulo 124 — Ed.38 SUELY CALDAS SCHUBERT nos imensos despenhadeiros que marginam a senda evolu- tiva. mais tarde. Joanna de Angelis tem agora outro recurso para chegar aos corações que se lhe vinculam — a mediunidade. no qual é possível verificar a trajetória de um grupo muito grande de almas que. de que aos poucos nos inteiramos. . Divaldo. FEB. os convidaria inicial- mente pela palavra e.) Estas perspectivas que o Espiritismo desvenda à Hu- manidade. através das páginas psi- cografadas. Há em todo esse processo uma notável programação espiritual.

a moral inspirada no Cristianismo. Para mim. a Doutrina que melhor interpreta o pensamento de Jesus. Sempre temos o cuidado de pregar o Espiritismo con- soante está na Codificação. que pode ser apresentado como contribuição às áreas da ciên- cia. que Kardec defende em O Livro dos Espíritos. do meu ponto de vista. 5 A PREGAÇÃO ESPÍRITA Assim. não como às vezes a malícia e a má vontade de alguns querem dizer. da filosofia e da religião. em cujo comportamento reli- gioso está a ética. graças a Deus. en- contro sempre respaldo no pensamento kardequiano. sociológicas. que "as leis de Deus estão escritas na consciência" humana. Sabemos que cada país tem as suas idiossincrasias. por ser até hoje. foi-me possível pregar com absoluta tranqüilidade em toda parte. quando fala. "nos moldes brasileiros". que me permite assim expressar. teríamos padrões . em Portugal. econômicas e não se pode estabelecer uma linha de comportamento rí- gida para os povos com padrões de temperamentos tão diversos. tem as suas heranças culturais. mas a Doutrina Espírita conforme apresentada por Allan Kar- dec. este direito de liberdade. que aliás. recor- dando aos amigos portugueses a Doutrina Espírita. Ê o direito de liberdade de consciência que ninguém pode violar. do contrário. na Codificação. pessoalmente. Isto é perfeitamente lí- cito. porque. não os há.

A ver- dade é que a Metapsíquica. na Sociedade Es- pírita de Paris em 1. sem que esteja jungido à chamada herança judaico-cristã — que aliás não diminuiria em nada o valor da minha crença — aceitar o componente do Es- piritismo religioso sem prevalência de um aspecto sobre o outro é natural. Sempre coloco o Espiritismo como re- ligião. também encontraram a imortalidade da alma. e não necessita de pessoas que a interpretem para nós. eu o teria na condição. Portanto. Portanto. "de uma nova Metapsíquica". sabendo que há um amanhã. Como a Doutrina Espírita é simples. a Psicotrô- nica. a reen- carnação. qual ocorre com o Espiritismo. Aceito-a como filosofia comportamental. sempre apresento a Doutrina Espírita como ciência que o é. dos quais já nos libertamos. a Parapsicologia. con- forme está no discurso de Allan Kardec. capaz de iluminar o idealismo clássico e atender a todas as necessidades do pensamento histórico da criatura humana. para mim.40 SUELY CALDAS SCHUBERT de comportamento sob supervisão de chefes. instrumentos que nos dêem uma metodologia de ciência eminentemente espiritista. porque assim o admito. porque ainda não temos. porque se tal ocorresse. de acordo com a corrente dos investigadores moder- nos. conforme a cada um melhor lhe aprouver. nem filosófico. por conseqüência. clara e pura. No entanto. mas cujo método de investigação científica é utilizado pelas chamadas doutrinas acadêmicas. sem defraudar-lhe os objetivos. Também nela encontro a seiva de sustentação do conceito religioso." de novembro de 1868. como diz M. e. E sendo convidado para . na comemora- ção anual do "Dia dos Mortos". em verdade. desde que. é inevitável que nos preparemos para esse porvir. um campo muito amplo para que cada um se movimente no seu corpo. essas ciências não dispõem de um comportamento ético. quando abandonamos a ortodoxia ances- tral. ela seria corpo tão estranho que necessitaria de novos teólogos para nos dizerem como en- tendê-la. para mim. retirando-se a feição religiosa do Espiritismo. Dumas. porém. oferece-nos.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 41 fazer palestras eu apresento a Doutrina conforme a vejo e conforme a sinto.). Daí não cometeríamos a leviandade de apresentar um modelo brasileiro. A nossa pregação. como não há um mo- delo francês. . mas esse Cons- trutor da Nossa Terra e o Governador (no bom sentido da palavra). da Trindade. que começa com o estudo a respeito de Deus e atinge a sua grande exaltação nas Leis Morais. a Quem aprendemos a amar e a respeitar em pro- fundidade. pela mediunidade ímpar de Francisco Cândido Xavier. que aliás não há. nos apresenta em torno de Jesus. em O Livro dos Espíritos. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. o Nazareno. português ou espanhol. a Doutrina Espírita interpretada pelo temperamento de cada povo. sim. é abso- lutamente kardequiana. portanto. mais me merece Jesus. um ho- mem. baseadas na Lei do Amor e têm o seu início na "Lei de Adoração". e principalmente. sem a estrutura documental da Codificação. se Kardec nos merece tanta conside- ração. que é um ato ancestralmente religio- so. não o Cristo da teologia católica. em qualquer lugar. anuo total e plenamente com o con- ceito que Emmanuel. Então. não apenas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. que se apresentam como fundamentais para a vida. Há. mas sobretudo. como é natural. Sigo a diretriz do Cristianismo. e não seríamos tão infantis para irmos a um país estrangeiro levar esse pensamento libertador com as falhas de uma opinião pessoal. imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!? E neste sentido. para servir-lhe de modelo e guia" (questão 625 de O Livro dos Espíritos. porque o respeito que me merece Allan Kardec. sendo ainda um Espírito em processo de evolução. o filho de Deus. fundamentada nos objetivos da Doutrina. que nenhum espírita o admite. pois sabemos pela resposta que os Espíritos deram ao Codificador que Ele é "o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. por serem as Leis Naturais.

que alguns citam como verdade. de cada cultura e. Divaldo ressalta que apresenta a Doutrina Espírita con- forme está na Codificação. se fores um orador mais ou menos hábil. ou a um maometano como falarão a um francês ou a um cristão. aliada à inspiração e orientação dos Benfeitores Espirituais que o assessoram. como se se devesse criar um modelo de cada nacionalidade para atender — talvez seja por isto que surgiu esta idéia — ao patriotismo local. capítulo 27 item 301 questão 3. Aliás. escrita ou falada. como tu mesmo farás. no seu todo. É que têm a certeza de que seriam repelidos. especial- mente os que temos a tarefa de difusão doutrinária. portanto. Faz uma . dos estágios evolutivos.°.) Deve existir. da forma de abordagem dos temas. pois estes fatores influem no grau de assimilação e apreensão dos ensina- mentos. Entre- tanto. esse conselho dos Espíritos citados. Por essa razão é que os Espíritos muitas vezes falam no sen- tido da opinião dos que os ouvem: é para os trazer pouco a pouco à verdade. sem dissociar ou dar maior realce a um dos seus três aspectos. com a sua percuciente capaci- dade na transmissão dos princípios doutrinários. Esse é o melhor meio de não se ser ouvido. Apropriam sua linguagem às pessoas. e. Daí não falarem a um chinês.já haviam esclarecido quanto à melhor forma para o entendimento de qualquer assunto: "Aliás. sobretudo. deveria me- recer uma reflexão mais demorada de todos nós. ao responderem a certa pergunta de Allan Kardec. não é de bom aviso atacar bruscamente os pre- conceitos. o respeito às peculiaridades de cada povo. Por certo que Divaldo. tem feito a necessária adequação ao nível das platéias que o ouvem. Divaldo coloca a questão em seu devido termo.42 SUELY CALDAS SCHUBERT Doutrina Espírita — "modelo brasileiro" — curiosa afirmativa esta. uma adequação do discurso a ser feito. especialmente. os Espíritos da Codificação. (O Livro dos Médiuns.

em geral. apresentam três tempos distintos: — uma abordagem científica. do seu aspecto moral ou re- ligioso. também me merece Jesus. quando são feitos comentários e mencionadas inúmeras citações dos mais eminentes pesquisadores do passado e da atualidade. Ou também em se priorizar uma abordagem social. se Kardec nos merece tanta considera- ção. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. é uma forma pessoal de se fazer a leitura da Doutrina e. em diversos campos do saber hu- mano e. a missão do Espiritismo como Consolador e a necessidade . contudo. seja para possibilitar as deduções filosóficas decorrentes. — um enfoque evangélico. cujas ilações advindas sempre ressaltam a figura do Cristo. Por outro lado não se pode esquecer que muitos fazem uma opção pelo aspecto religioso. no mesmo engano. simultaneamente é traçado um paralelo entre esses conhecimentos e os ensinos do Espiritismo. em detrimento sobretudo. A divulgação doutrinária através de Divaldo é realiza- da de forma abrangente e completa. — uma parte mais amena. com certo caráter político embutido no bojo da ação assis- tencial. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 43 afirmativa muito importante: "O respeito que me merece Allan Kardec. Comprova-se isto pelo teor de suas palestras que. Tudo isto. por parte de alguns espíritas. incorrendo. o Nazareno — pois sabemos. para servir-lhe de modelo e guia. que aqueles vêm corroborar. de exercê-la nas áreas decor- rentes dessa óptica própria. pela resposta que os Espíritos deram a Kardec que Ele é o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. depois. em que quase sempre são relatados casos do cotidiano. que pode vir na forma narrativa de uma passagem ou de um caso. questão 625 de O Livro dos Espíritos — então. em se dar ênfase ao aspecto científico da Dou- trina. portanto. sendo ainda um Espírito em processo de evolução imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!?" Atualmente há uma certa tendência. seja para referendar os comentários anteriores.

porque o enfoque evangélico. costuma-se ressaltar a figura de Kardec e a sua obra — que reconhecemos como missio- nária e realmente notável — e.44 SUELY CALDAS SCHUBERT de evangelização do ser humano. No texto em apreço. embora existam outros textos em que o Codifica- dor evidencia o seu pensamento em relação a este assunto. Como elo de ligação desses três momentos está a Codificação Kardequiana. via de regra. conforme está em Mateus X V I I I : 2 0 . a prevalência dos pontos básicos da Dou- trina que nunca deixam de ser ressaltados. apresentam. Em seu depoimento Divaldo menciona o discurso de Allan Kardec. nas reuniões em geral. para nos servir de uma admirável imagem do Evangelho". quando há predomi- nância do aspecto científico. não constitui a Dou- trina Espírita. como se pode observar. como é óbvio. essa linha de raciocínio. Nesse caso "descerão sobre eles em línguas de fogo. preterir ou omitir a de Jesus. afirma o mestre lionês. de acordo com a inspiração e circunstância. em nosso meio. o pensamento de Kardec precisa ser considerado no seu todo. variando. Vamos tentar analisá-lo. As palestras do orador baiano. na seqüência que apresentamos. segundo essas pessoas. pois ele tem um fio condutor de raciocínio. que está na "Revista Espírita" de dezembro de 1868. Nota-se. enfra- quecer. a força mental. Este discurso tem sido invocado sempre que surge esta questão. Refere-se a seguir que todas as reuniões religiosas são fundamentadas . especialmente se a finalidade da reunião for a lei da caridade. e. e que depois prossiga analisando a comunhão de pensamen- tos. concomitantemente. contudo. às vezes. a vontade. é a parte inicial. É significativo que ele tenha começado o discurso com a citação de Jesus. como a significar que a Codificação é ciência e o Evangelho do Cristo é a parte religiosa que. portanto. para então dizer que nas reuniões espíritas quando as pessoas alcançam essa homogeneidade de pensamentos terão a se- cundá-las os bons Espíritos.

por isso se diz: a fé política. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 45 nessa comunhão de pensamentos e comenta que para se estar reunido em nome de Jesus é essencial assimilar a sua doutrina. Como também é bastante claro que ele as engloba como assembléias religiosas. é um laço que religa os homens numa comunidade de sen- timentos. que os que assim falam desconhecem "a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos. sem que isto signifique opi- nião. Passa depois a analisar a palavra religião. é." Assevera que os homens precisam de "ensi- namentos diretos em matéria de religião e de moral. que "quer dizer laço. pois refere-se a ensinamentos diretos dos Espíritos. Uma religião em sua acepção nata e verdadeira. pois. como o isolamento social. É óbvio que Kardec está exaltando as excelências das reuniões espíritas. Nesse ponto detemo-nos um pouco. arrematando: "O isolamento religioso. que muitas pessoas negam a utilidade das assembléias religiosas e dos edifícios consagrados a tais assembléias. que liga os corações. de princípios e de crenças". pág. como em matéria de ciência". nos quais ressalta ter o homem necessidade de tais assembléias religiosas pois ele já tem as reuniões políticas. . Esclarece que esse nome foi dado a um conjunto de "princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé". seja qual for o seu objetivo. que "em seu radicalismo pensam que seria melhor construir hospícios do que templos". e que neste sen- tido se diz a religião política. mas sim a característica de fé conscienciosa. Explicando sobre a ligação religiosa afirma: "O laço estabelecido por uma religião. conforme está evidenciado até agora e nos parágrafos seguintes (RE. espe- cificamente as mediúnicas. um laço essencialmente moral. 355). Acrescenta então. científicas e industriais. conduz ao egoísmo. concluindo que "quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu haverá menos gente nos hospícios". que deve ser a essência das assembléias religiosas" e que tal argumento por parte dos espíritas é um contra-senso.

tendo como efeito estabelecer "a fraternidade. mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza. que o público poderia confundir com misticismos e abusos. todavia. o Espiritismo não é uma religião. sim. o Espiritismo é uma religião. então o Espiritismo é uma religião? Ora. "Por que. a solidariedade. que o Espiritismo não tem. declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes. senhores." Faz em seguida. e nós nos glorificamos por isto. não sobre uma simples convenção.46 SUELY C A L D A S S C H U B E R T que identifica os pensamentos. uma variante. de cerimônias e de privilégios. duas perguntas que se tornaram clás- sicas: "Se assim é. na acepção usual do vocábulo. esclarece. No sentido filosófico. Se o Es- piritismo se dissesse uma religião. desperta exclusivamente uma idéia de forma. a indul- gência e a benevolência mútuas. uma casta sacer- dotal com seu cortejo de hierarquias. sem dúvida. Neste senti- do. dos princípios absolutos em matéria de fé. No sentido filo- sófico. a palavra religião é inseparável da de culto. perguntarão. não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública. se se quiser. rituais. e que. "o Espiritismo é uma religião". não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevita- velmente se teria equivocado. castas e hierarquias. E complementa: "Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião. afirma o Codificador." ." Observa-se o cuidado de Allan Kardec em não concei- tuar o Espiritismo como uma religião nos moldes tradicio- nais: com cultos. o público não veria aí senão uma nova edição. na opinião geral. porque é a doutrina que funda os elos da fra- ternidade e da comunhão de pensamentos. as aspirações. então. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

acrescenta que "as reu- niões espíritas podem ser feitas religiosamente. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 47 É oportuno avaliar a forma como Kardec se refere ao vocábulo religião. Prosseguindo em seu discurso. Qualquer vocábulo mal colocado poderia levar a que se tomasse a doutrina nas- cente como uma religião a mais. (grifos nossos) Vê-se que para ele a palavra religião não passava de um título. incluindo aí as reuniões espíritas. evidentemente conside- radas com o sentido mais alto e transcendente de religio- sidade. pois. extraído de O Livro dos Médiuns. pois com todo o intróito feito por ele. sem que por isso fossem "tomadas por assembléias religiosas". com recolhi- mento e respeito. É essencial entendermos a grande dificuldade do mis- sionário da Terceira Revelação. conflitos de idéias ou cisões. e de resto para o seu país e para a cultura do povo francês. Ele volta a falar a pa- lavra laço e nesse momento enseja uma grande lição para o futuro: "Qual é. no qual enfatiza que as assembléias religiosas são válidas e fundamentais para auxiliar os ho- mens desde que haja a perfeita comunhão de pensamentos. aquelas onde existam cultos e práticas exteriores. em encontrar palavras que exprimissem o seu pensamento. fazendo-se preces". freqüentemente. a prudência e o bom-senso de Kardec em relação a pontos que pudessem gerar dúvidas. Mas o discurso não termina aí. tudo deveria ser colocado de maneira lógica e racional dentro do próprio conselho anteriormente citado. Essa ressalva é importantíssima. neste trecho: "não podia nem devia en- feitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado". no conceito conhecido tradicionalmente. Para a sua época como também para o futuro. isto é. Temos ressaltado. já que fora tão deturpada do seu sentido mais profundo e transcendente. e então faz a ressal- va. o laço que deve existir entre os espíri- tas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato . em artigos e pales- tras.

Tem sido muito difícil a implantação de uma nova mentalidade a respeito desse conceito de religião e também na própria forma de vivenciar a Doutrina. a caridade. 359) sintetizando notavel- mente os pontos básicos do Espiritismo e como deve ser a conduta do verdadeiro espírita. quando Kardec conclui dizendo: "eis o Credo. quando este faz a apreciação da obra A Gênese. embora em vários momentos ele esteja implícito. na Sociedade de Paris. Os homens não conseguem despojar-se das práticas exteriores. a religião do Espiritismo. é o amor. que traz um longo parágrafo (pág.48 SUELY CALDAS SCHUBERT material. religião que se pode conciliar com todas as maneiras de adorar a Deus." Mais algumas considerações e o Codificador encerra a sua palavra. o amor do próximo. A caridade é o assunto da parte final do discurso. na sessão anual comemorativa do "Dia dos Mortos". Allan Kardec. todo espiritual. em sua época. desde que sabemos que os mortos sempre fazem parte da humanidade".° de novembro de 1868. em 1. Com muito cuidado evita a utilização do vocábulo religião. no sen- tido que a Doutrina está hoje bem estabelecida do ponto . publicada na "Revista Espírita". ou. É o laço que deve unir todos os Espíritas numa santa comunhão de pensamentos. todo huma- nitário: o da caridade para todos. o laço é o sentimento. esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. Qual o sen- timento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral. por nenhuma prática obrigatória. São esses os liames que devem unir os es- píritas. de fevereiro de 1868 (mesmo ano do discurso). lutou denodadamente para ampliar o raciocínio humano. Na comunicação de São Luiz. Em todos os momentos em que deu o seu contributo pessoal vemo-lo nesse esforço de explicar a vivência da Doutrina Espírita. que compreende os vivos e os mortos. inclusive nas orien- tações dos Espíritos. por outras palavras. são estas as suas palavras iniciais: "Esta obra vem a ponto.

" (grifo no original) Como se vê. o de instrutor do espírito. . constitui-se em algo notavelmente superior a tudo o que o homem conhece. dessa associação como conquis- ta máxima da Humanidade. com suas restrições e relativismo. como elemento propulsor do progresso. Ao contrário. tem precedentes muito arraigados no coração dos adeptos. A Terceira Revelação é exatamente a existência e a possibilidade dessa aliança. em ciência e em filosofia. para que ninguém possa temer que ela se desvie de sua rota. Acostumado a enxergar as religiões e as ciências tradicionais com suas limitações e preconceitos. como em moralidade. nada mais belo que essa convergência que preexiste ao Homem. o homem tem sentido dificuldades em apreender esse novo conceito. movimenta-se desa- jeitadamente na amplitude e na liberdade que o Espiritismo proporciona ao pensamento humano. Estando ele próprio ainda muito preso a preconceitos e limitações. instruir e dirigir — formariam um todo só. São Luiz esclarece que a Doutrina está bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso e que entraria numa nova fase — com a publicação de A Gênese. Por ser a aliança da ciência e da religião. Ao atributo de consolador alia. ponto de convergência entre ambas.) O Espiri- tismo atualmente entra numa nova fase. Evidentemente que uma doutrina com essas caracte- rísticas é absolutamente nova para o ser humano. Ao atributo de consolador. e a partir daí estes três atributos — consolar. associa.(. ou seja. . Seja qual for a direção que tome de agora em diante. junta. alia o de instrutor e diretor do espírito. que é um fato concreto e irreversível como conquista evo- lutiva. O SEMEADOR DE ESTRELAS 49 de vista moral e religioso (grifos nossos). . essa nova visão e significado. com sua óptica distorcida pelos atavismos milenares. A religiosidade emanada do seu atributo de consolador não é antagônica à Ciência e à Filosofia.

pág. 79) (grifos nossos) . . ed. sofreu. Leon Denis parece-nos ter sido quem primeiro O denomi- nou desta forma: "A passagem de Jesus pela Terra. amou. veio. Gover- nador espiritual deste planeta. e é sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revela- a ção ( .50 SUELY CALDAS SCHUBERT Divaldo. deixaram traços indeléveis. en- carreirá-lo para a senda do bem. com seu sacrifício. Ainda hoje. FEB. sua influência se es- tenderá pelos séculos vindouros. seus ensinamentos e exemplos. . ) " (Cristianismo e Espiritismo — 7. Ele faz referência a Jesus como Governador da Terra. ele preside aos destinos do globo em que viveu. deixa bem patenteado o modo como apresenta a Doutrina Espírita em todos os lugares onde é convidado. portanto.

que hospedam o nosso . ela com os amigos cotizaram-se. dos nossos irmãos Francisco e Nena Galves. o confrade José de Pina Gou- vêa — que hoje reside no Brasil. em São Paulo. eu passei a receber correspondência de Moçambique e de Angola. pessoalmente. mesmo que corresse algum risco com- preensível. e é o en- carregado da livraria do Centro Espírita União. No ano de 1971. Voltou a Luanda e. Respondi-lhe que teria. entre outras pessoas. preparando todo o terreno. àquele país e se teria a coragem de aí pre- gar o Espiritismo. principalmente da cidade de Luanda. e brindaram-me com uma passagem Salvador — Johannesburg — Lourenço Mar- ques — Luanda — Salvador. no mês de agosto do mesmo ano. Depois de um largo intercâmbio epistolar com a antiga colônia ultramarina de Angola. a senhora Cleofé teve a precaução de ir à África do Sul e a Moçambique. Estabelecemos um contato muito demorado e cuida- doso. Em Lourenço Marques. e se ela estava disposta aos mesmos perigos eu seguiria com muito prazer. com a extraordinária senhora Maria Cleofé Coutinho de Oliveira. ela perguntou-me se aceitaria um convite para ir. 6 NA ÁFRICA PORTUGUESA - "PERSONA NON GRATA" Graças aos efeitos da estada em Portugal. onde a polícia política era muito severa.

Convidamo-lo à mesa e proferi a pa- lestra para mais de mil pessoas. Mas. O homem ficou tão profundamente tocado que me levou a palácio para conse- guir com a autoridade competente a permissão — que não foi possível. Falei-lhe demoradamente sobre o Espiritismo e termi- nei aplicando-lhe um passe para provar-lhe a excelência dos ensinamentos da Doutrina. ante essa dificuldade. mas. para estar ao lado de vocês. era médium e que ele iria facilitar a nossa conferência. numa conversa que durou mais de duas horas. Ele me confessou. O Gouvêa. por ser um sábado. — Mas. depois. na chamada Cidade Baixa de Lou- renço Marques — eu disse aos amigos entristecidos: — Se vocês me levarem ao chefe de polícia eu lhe pedirei permissão para a nossa conferência. ele me disse: — O senhor pode fazer a conferência. e fizeram uma grande propaganda. que se precisava de auto- rização por escrito e. que sua mãe. residente na cidade de Leiria. com tudo fechado — o local era uma quadra de basquete. — Capitão. Eles haviam pedido permissão às autoridades para que eu proferisse uma conferência pú- blica. eu irei. no sábado. a secretaria junto do governador não estava funcionando. em Portugal. à última hora. porque realmente. A conferência era num sábado e.52 SUELY CALDAS SCHUBERT Chico Xavier — ficou empolgado. detetives e a en- cerrarem. prendendo-nos? A sua palavra não basta — res- pondi-lhe. a polícia civil negou que se realizasse o ato espírita. e irei uniformizado. que eu autorizo. Lembro-me como hoje. naquela cidade. levou-me à autoridade. Mas. . e se chegarem policiais. realmente. o mesmo acontecendo com outros confrades. muito dedicado. Eu mantive o contato com o capitão que dirigia o labor. ninguém aí traba- lhava. E foi.

No Lobito reunimo-nos no salão da Biblioteca Muni- cipal. Nova Lisboa. retornei a Lourenço Marques. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 53 A seguir. Suku Akale Kumue Lene". realizei uma conferência na cidade de Nampu- la. porque a Tanzânia está muito perto de Moçambi- que. Quando a revista chegou a Luanda — porque todo o material era censurado — ela foi apreen- dida pela PIDE(*) e Dona Maria Cleofé chamada à respon- sabilidade. ela deixou um documen- to assinado como responsável pelo que eu dissesse ou fi- zesse. em Cuba. (Nota da Editora) . que ficou superlotado. Foram convidados os elementos mais representativos da capital. "Kiangola. também. Nesse ínterim. à cidade da Beira. e isto foi uma verdadeira audácia de Dona Maria Cleofé e de seus cola- boradores. O bispo da cidade esteve presente e o tema versou sobre a reencarnação. em Luanda. onde proferi outra pales- tra. e. que eram treinados na Rússia. voltando a Luanda. que era um grande núcleo militar para a defesa da fronteira. ali ficavam os descontentes. A minha primeira conferência. Lobito e Sá da Bandeira. O programa se estendeu por várias cidades: Novo Redondo. daí seguindo a Luanda. Luanda era uma das cidades mais belas da África portuguesa. Depois. eu psicografei uma mensagem do Espírito Monsenhor Manuel Alves da Cunha. Retornando ao Brasil. entre os quais o extraordinário confrade João Xavier de Almeida: o auditório dos Ex-alunos de Coimbra. Ê que. capital de Angola. teve lugar num dos salões mais respeitados do país. caso viesse a criar qualquer conflito com a polícia ( * ) PIDE — Polícia Internacional de Defesa do Estado. A reunião foi presidida por um general. quando lá estive. Por essa época havia o movimento revolucionário contra Portugal. esta mensagem foi publicada em "Reformador". Fui. em 20 de agosto. e os amigos preferi- ram organizar a palestra no quartel das Forças Armadas da cidade. segundo diziam.

de prisão. proibido de circular (Di- mensões da Verdade). depois da independência — é uma mensagem profética — o país . Já. A mensagem. que a ameaçaram. Fizeram uma cuidadosa pesquisa para saber quem me teria concedido tais dados.. pois que eu estaria desencaminhando a men- talidade cultural e religiosa do país. muito culta. em Lisboa. A verdade é que ela conseguiu convencê-los sobre a sua e a minha inocência. Ela se apresen- tou e manteve uma larga discussão com as autoridades. Dona Maria Cleofé é uma senhora viúva. quando do meu retorno àquele país. Então. Maria Cleofé explicou que eu sou médium e que de outra maneira jamais poderia tomar conhecimento do fato. foi chamada a depor em Luanda. Nessa ocasião Angola já era independente. Com esta mensagem. os autóctones. em 1975. A P1DE afirmava que a página publicada não era uma mensa- gem mediúnica — já que não acreditava em mediunidade — afirmando que os dados aí contidos me foram forne- cidos. Ela explicou tudo. quando os próprios negros. inclusive.. como atitude providencial. ocorrência que se repetiria mais tarde. proibido de retornar a Por- tugal e a qualquer província ultramarina. como previra Monse- nhor Manuel Alves da Cunha na sua mensagem. O seu depoimento foi admirável e o assunto pareceu encerrado.54 SUELY CALDAS SCHUBERT do Estado. que os espíritas não sabem: eu fui con- siderado "persona non grata". espírita. veio uma conseqüên- cia muito curiosa. demonstrando que havia permissão para as conferências. especialmente ficaram surpresos em o Espírito narrar uma carnificina que houve na cidade de Seles. porém. parte dela no idioma kimbundu e com um glossário vocabular. o livro de Joanna de Angelis estava no "Index expurgatorius" da Igreja. em Angola. Mas. foi recebi- da publicamente. se preparavam para matar os portugueses e salgá-los e a Entidade fez transpirar o que permanecia em segredo.

Joaquim fez um trabalho notável. e ficou célebre o "dia dos cravos vermelhos". em Moçambique. a Portugal. alguém que pudesse ficar lá por uma larga temporada. um dos fun- dadores convidou Joaquim a ir à Europa. a partir daquele 1971. mais tarde. Esse Monsenhor foi um grande antropólogo que viveu em Angola e aí realizou benefícios incalculáveis. nascendo uma Entidade semelhante. como também às suas ex-Colônias ultramarinas. O senhor Casimiro Duarte dera-me a notícia. a Angola e a Moçambique. a qualquer das suas províncias. porque alguns daqueles confrades que viviam em Lourenço Marques (Maputo). Eu indiquei o confrade Joaquim Alves. dentre eles. na cidade do Porto. via Johannesburg (África do Sul). As colônias passaram a ter a sua independên- cia e. voltando a Portugal. a mesma Sociedade — em homenagem à Entidade do . que desencarnou há poucos anos. em abril de 75. fiquei proibido de voltar a Angola. como efeito da jornada a Lourenço Mar- ques e por toda Moçambique. Nesse ínterim. com isto. e. O confrade Eduar- do de Mattos escreveu-me. propiciando-lhe os meios e com ele fundou na referida cidade de Rio Tinto. o que se repetiria. veio a independência. evadiram-se para evitar per- seguições. em 1972. o Jô. O regime fari- saico e ditatorial caiu. Ele viajou para lá. os espíritas me escreveram pe- dindo que mandasse alguém do Brasil para lhes en- sinar Espiritismo. Assim. Agora a sua capital (de Moçambique) já não tinha mais o nome de Lourenço Marques — era Mapu- to — porque uma das primeiras providências dos revolu- cionários foi a de mudar os nomes portugueses para os do dialeto local. eu fui convidado a retornar. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 55 entraria num regime muito pior do que aquele do qual se desejava libertar. . que ainda funciona. Mas. onde esteve vários meses. que funciona na cidade de Rio Tinto. a "Comunhão Espírita Cristã". . quando criou. em Lourenço Mar- ques. não só a Portugal. quando esteve pessoalmente no Brasil. Retornei. narrando e lamentando o fato.

estavam sendo travadas as lutas. quando me vierem buscar. criada por Chico Xa- vier e Waldo Vieira. no térreo. apareceram-me o Espírito Marcelo Ribeiro. Fazia muito calor e tive a feliz idéia de abrir a janela da frente do edifício e a porta do fundo. uma escola para . quando fui à cidade de Sa- lazar — hoje se chama Dalatando — a convite do teólogo Dr. Quando vi que não podia entrar no apartamento. convidou-me para falar lá). e. Foi nessa oportunidade que me aconteceu um fato curiosíssimo. a jornais e cuja coleção temos arquivada. Nisto. porque me traz notícias). que sempre me acompanha nas viagens e uma outra Entidade muito amiga (que me aparece desde a minha juventude e que se diz ser um "correio". Retornei então. em Salazar. em várias palestras e numa reunião pública que tivemos. descendo. que se tornou espírita (ele me tinha ido ouvir em Luanda. que eu não notara. e recrudesciam as reações. anteriormente. súbito. O casal. Na verdade o seu nome é Walter de Albuquer- que. a Angola. Um golpe de vento.56 SUELY CALDAS SCHUBERT mesmo nome existente em Uberaba. por gentileza. no Hotel no qual nos hospedávamos. Os dois Espíri- tos. José Pereira Sendão. na sacada. Mas. assal- tou-me quase um pânico e pensei: às oito horas da noite. ainda em 75. desencarnado em 1935. um pijama de listras. visitei muitas cidades. muito amigos. encontraria. . transferiu-se do lar. dando entrevistas em emissoras de rádios. muito feio. enquanto pensava num modo de resolver a situação. me pediram para que forçasse um pouco a porta que dava acesso a uma escada lateral. Estava de pijama. para me proporcionar maior tranqüilidade. pernambucano.. Os confrades me ofereceram para descanso um andar de um edifício e recomendaram-me que não abrisse a porta a ninguém. e debrucei-me na amurada sobre o quintal para olhar a natureza. mas que eu achava uma beleza. Aí deu-se um fato curioso. certa vez. fechou a porta e eu fiquei preso do lado de fora. encontrarão a casa vazia e já estarei rouco de tanto pedir ajuda. para os espíritas todos.

com mi- lhares de pessoas. na direção da África do Sul. voltou-se. ex-sacerdote. Quando a situação ali se tornou insuportável para os portugueses. subimos. Ao agradecer a esta senhora. Desci a escada e o que aconteceu foi muito engraçado. Respondi-lhe que era espírita e mé- dium. Chamou dois menino- zinhos. por sua vez... e contei-lhe com de- talhes o sucedido. e. Esta professora chama- va-se Lourdes e arrebanhou praticamente o edifício inteiro para a palestra. Achei tudo isto muito estranho. poliglota. e um deles foi introduzido pelo basculante do banheiro. a professora estava de costas para a entrada e os meninos todos de frente. A minha aparição repentina. A professora. pois ouvira dizer que viria um feiticeiro aba- lar a cidade de Salazar. atravessando o deserto. ficou muito descon- fiada. senão perigoso. Sendão. no térreo. que se desen- volveu entre nós. Mas. quando as crianças me viram puseram-se a rir diante da minha fi- gura inusitada. na quadra de basquete da cidade (sobre o que havia muita propaganda). Entrei. Por pouco . em seguida. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 57 meninos autóctones. talvez apreensivo. Ela ficou muito sensibilizada. na conversa. vindo. muito agradável. Isto posto. Ela. como o tempo passava e não havia outro jeito a não ser arrombar a porta da cozinha. e tam- bém deparou-se com a cena. eu pediria à professora para que um menino entrasse pelo basculante do banheiro e abrisse a porta para mim. ele e os familiares foram obrigados a emigrar. parecendo uma zebra. ela me perguntou se eu era feiticeiro. mas. muito pálido. que era professor e homem de muita cultura. realizada ao som dos canhões e das metra- lhadoras que matraqueavam ao longe. resolvi forçar a porta lateral. como é óbvio. elucidei todo o problema e precisava tanto de ajuda que ela se resolveu por anuir. que realmente cedeu. voltei a Luanda. Coisa curiosa aconte- ceu com o Dr. porque. expliquei-lhe que era hóspede do casal lá de cima e iria proferir uma conferência nessa noite. profundamente aliviado. com aquele pijama de listras. No dia imediato. aliás. Muito sem jeito. eu vi o Espírito da mãezinha dela e lho disse. abrir a porta da cozinha.

mas. portanto. Nas igrejas. Estive pregando em Johannesburg. Proferi uma série de conferências. sendo levados. Springs. Verneeging. como eu ainda era servidor público não me pude alongar por mais tempo. A primeira mensagem do Monsenhor Manuel Alves da Cunha. estando na África do Sul. do Dr. Voltei lá. Ali sofreram muito. por nós fundado. como nas igrejas inglesas e americanas. vem funcionando na ci- dade de Verneeging. No en- tanto. ele. na maioria delas. como efeito daquele encontro. Um Centro Espírita. onde ele foi trabalhar como caldereiro numa indústria. depois se mudaram para Vanderbijlpark. as palestras foram am- pliadas. Em tudo há um encadeamento im- pressionante. com várias Sociedades funcionando no país. Krugerdorps. foram cria- das algumas Instituições espíritas que continuam em plena função. a fim de semearmos. para sobre- viver. resultado daquelas duas estadas em Angola. a Doutrina Espírita. Sendão. no último mês de fevereiro (1985). Esse homem. onde era absoluta e totalmente desconhecida. depois que se estabeleceu. ditada a Divaldo tem a data de 20 de agosto de 1971 . Inclusive. sendo meu ami- go. a es- posa e os filhos para um campo de refugiados. a fim de atender aos inúmeros con- vites. nesse país. porque todas as cidades vinham participar. voltou a me convidar para um retorno. até que (oram salvos pelas tropas e pela aviação sul-africanas. de orientação protestante. em 1979 retornei à África do Sul. sem o conhecimento do Espiritismo e sem a crença na reen- carnação. . em 75. Retornei quatro vezes. O movimento espírita está im- plantado. Pretória. Somente usava o período de férias para viagens dou- trinárias. Vanderbijlpark e mais outras cidades nas cercanias de Johannesburg.58 SUELY CALDAS SCHUBERT não morreram nesse deserto. naquela época. A convite. . quando estive lá. realizam-se fenômenos mediúnicos.

tornando ainda mais autêntico o seu pensamento. seguindo a trilha errada". A segunda. Não é difícil compreender-se a surpresa das autorida- des de Luanda ante o texto da mensagem. Nesta. quase. por ele tão amado. Kutu- luka Kua Muxima (Paze!)" "Angola. todavia. Alude. O que nos chama a atenção. às jazidas. os valores inesgotáveis que estão esperando no teu sub- solo." Na segunda mensagem. O título citado por Divaldo: "Kiangola. do ano de 1975 consta da obra Sementes de Vida Eterna. dormem jazi- das de riquezas inexauríveis. todavia. às riquezas guardadas no sub- solo: "Sob as tuas verdes terras. desejas progresso. amor e compaixão pelos filhos de Angola. não sendo. para surgirem no momento próprio. demoram-se guardados. . em 1936 e que planejavam repeti-lo em Equimina. . E porque tens o destino da paz. consumado. Ele não desconhece as dificuldades. com que um dia surgi- rás entre as nações. bem sabes. Deus te abençoe". na Benguela. como valiosa cooperadora nobre na construção do Mundo N o v o . advertindo. decorrendo em sofrimento". Suku Akale Kumue Lene" traduz-se: "Angola. que revela fatos ciosamente mantidos às ocultas do público. Monse- nhor Alves da Cunha faz uma profecia em relação aos ideais de liberdade e os caminhos percorridos para consegui-la. ainda. . mas fomentas a guerra. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 59 e está inserida no livro Sol de Esperança. Menciona o episódio de antropofagia ocorrido em Seles (Angola). O autor emprega várias palavras no idioma kimbundu. Paz!" o autor afirma: "Este é um doloroso e necessário parto: o da liberdade. agitada por inconfessáveis interesses que te insuflaram outros algozes. cujo título é "KiaNgola. por tal razão. inclusive: 'Com as mãos em armas. é o próprio fato de o Monsenhor Alves da Cunha utilizar-se da mediunidade para enviar páginas de alento e advertência ao povo de An- gola. Am- bas são de uma beleza comovedora e ressumam bondade.

isto não o impede de ditar ao médium o seu recado espiritual. Divaldo é considerado "persona non grata" e proibido de retornar a Portugal e províncias ultramarinas. às raças.60 SUELY C A L D A S S C H U B E R T os entraves que ainda subsistem para a penetração de uma página mediúnica fora dos círculos de fé espiritista. Há o objetivo maior e simultâneo de registrar a profe- cia e a solidariedade ao povo de Angola. entre- tanto. inclusive. Chico Xavier ou Yvonne Pereira são exceções e se destacam entre todos pela mediunidade vivenciada integralmente e pelo cunho evangélico de suas vidas. principalmente em relação aos povos. não so- mente a nível individual ou familiar ou de pequenos grupos. de experiências e ensinamentos. também. com a lucidez que lhe é peculiar. afirma: "A mediunidade será o último estado da raça humana enca- minhando-se ao termo de seu destino". Em decorrência da publicação dessas páginas. mas. Por agora. entretanto. às Nações. pessoas como Divaldo Franco. Leon Denis. As mensagens do Monsenhor Alves da Cunha levam-nos a uma antevisão do futuro quando os homens utilizarão do intercâmbio mediúnico para essa troca tão importante de notícias. o futuro propiciará cada vez maior número de médiuns nesse estágio em que se encontram hoje. . de evidenciar a mediunidade como meio de comunicação entre os dois planos. mas.

Quando tivemos a ocasião de o saber. fomos a esses doadores demonstrando-lhes que não podíamos aceitar absolutamen- te nada. porém. Sempre tivemos o zelo de evitar a simonía e. e também. por isto ou aquilo. Eu me posso recordar de um fato que me permito narrar. conforme está exarado em ata do C. no silêncio da discrição. quiseram oferecer-nos bens e valores expressivos. Outras vezes. tentaram obsequiar-nos com importâncias em dinheiro. para não parecer. ficando com as mãos limpas e o coração tranqüilo. renunciando totalmente a tais ofertas e transfe- rindo-as para Instituições de caridade. ou emocionadas. sempre encontramos pes- soas generosas que nos desejaram brindar com objetos de alto preço. agora. exibicio- nismo. deixando. não temos nenhum patrimônio ou valores monetários amealhados. não necessariamente a "Mansão do Caminho". noutras vezes. de certo modo.E. Sem- pre tive o pudor de nunca aceitar. Periodicamente aparecem pessoas que me pretendem colocar na condição de herdeiros nos seus testamentos. nunca antes dando divulga- ção dos fatos. "Caminho da Redenção". 7 OS BENS MATERIAIS Ao longo de nossa existência. abrindo mes- mo caderneta bancária. . dentro de casa. próximo da desencarnação. para não parecer que renunciáva- mos. para a "Mansão do Caminho".

falei-lhe que. até hoje (1987) responsável por representar-me — é o confrade Her- menegildo Silva *. Um pequeno apartamento que adquiri ao longo dos tem- pos. que se encarrega. "Dai gratuitamente". em absoluto. que busco ser. em Salvador. Ela havia. uma judia muito rica. Diante daquela surpresa. . minha conduta espírita seja com- provada como diz o Evangelho. através de um dos mais brilhantes advogados do Estado da Bahia. (Nota ua Editora) . não podia aceitar a sua dádiva. a prestação. entreguei à pessoa que se fez. Dona Sara Niesembauer. em- bora judia. Está no Evangelho. Depois de largo diálogo o próprio advogado teve de fazer a transferência do imóvel. Eu era jovem. quando da minha desencarnação. que a represen- tava. sem que nos envolvamos. para que a "Mansão do Caminho" viesse a ser proprietária. o que ganhava dava para sus- tentar-me e à família. colo- cado uma casa em meu nome. tido em conta de pessoa honrada. Diante do seu advogado me entregou a escritura da referida casa. que era o Hotel Nova Cintra. Esta senhora ouviu falar sobre mim e terminou por sensibilizar-se. ( * ) Hermenegildo Silva desencarnou no ano de 1988. Um dia mandou-me chamar à sua resi- dência. no entanto. nenhum patrimônio que não fos- se adquirido com o meu suor ficasse deixando uma marca negativa na minha conduta espírita. receber o aluguel etc. então. . mais tarde. Para minha surpresa. e a pessoa que ficou no seu lugar é o advogado Manoelito Fernandes. gentilmente. e. esta dama contou-me que. havia sonhado com um ser espiritual pedindo- lhe que me desse proteção e socorro. de pagar impostos. o que me causou um grande espanto. como testemunha de que tenha sido homem probo.62 SUELY CALDAS SCHUBERT Vivia. a fim de que. o bom-senso já se consolidara em mim. eu era um funcionário modesto. mas.

pelo Seu magnetismo. " Muitos julgam que para exercer a caridade. tudo o que julga ter não o acompanhará na grande viagem que empreenderá um dia. é imprescindível ter recursos materiais. ter dinheiro. " N ã o tenho prata nem ouro. vivendo em função daquilo que acredita ser prioritário. O ser é qualitativo. transitória e efêmera. Ilude-se com a sua posse. isto te dou. Só o que real- mente é constituirá a sua bagagem. Acumula-os ao redor de si. embe- vecido. Ter — a grande preocupação do homem. Ser — a meta prioritária que a maioria desconhece ou esquece. O autoconhecimento leva ao processo de crescimento espiritual. Entretanto. Voltado para essa aspiração empenha-se em lutas cons- tantes para acumular os bens que julga indispensáveis à vida material. De possuidor passa a possuído. "Conhecereis a verdade e ela vos libertará". . ao realizar a cura de um homem coxo que se encontrava à porta Formosa. para fazer o bem. de libertação. Dependente dos bens terrestres deixa-se escravizar por eles. É célebre o exemplo de Pedro. para realizar alguma coisa em proveito do próximo. mas o que tenho. * * * O jovem está diante dEle. pela suave entonação. . . no templo. Ouvira-lhe a voz." " N ã o tenho prata nem o u r o . 0 ter é quantitativo. acerca dos dons espirituais. pela magia das palavras. deixando-se levar. pouco antes. O SEMEADOR DE ESTRELAS 63 Esta é uma das preocupações dos médiuns espíritas que desejam pautar a sua vivência nesse princípio básico preco- nizado por Jesus. ter as condições fi- nanceiras.

Há algo além das coisas efêmeras que o mund lhe tem dado. e compreendendo o alcance da sua luta interior. 0 Rabi o olha ternamente. O jovem príncipe." Narra Marcos. encontra a morte na arena. . dos seus compro- missos. sente a gravidade do mo- mento. talvez. "— Bom Mestre. envolve-o no Seu amor e aguarda. durante as corridas. psi- cografado por Divaldo. Diante dele a libertação definitiva ou a opção de milênios. desde a minha moci- dade. em Primícias do Reino. e dá-o aos pobres. que farei para herdar a vida eterna?" Jesus fala-lhe sobre os mandamentos. e vem e segue-me." O j o v e m segue ao encontro do destino que acabara de escolher. o príncipe se afasta." O moço hesita. que nesse instante o fitam parecem percorrer todos os escaninhos de sua alma. Aqueles olhos. quase correndo. Daí a dias. vaidades. .64 SUELY CALDAS SCHUBERT Em seu íntimo soube que eram para ele aquelas pai vras e que vinham ao encontro de sua inquietude interio A figura majestosa do Rabi o atrai. da vitória que julgava certa. dos amigos que o bajulavam. Em seus ouvidos ressoa a v o z do Mestre: "Dá tudo o que tens e segue-me. inquieto. que o mancebo rico iria disputar os jogos em Cesaréia. Conforto. que Jesus olhando para ele o amou e lhe disse: "— Vai. "Dá tudo o que tens. "— Tudo isto tenho observado. então. Aproxima-se mai Ao seu redor o tempo pára e toda a sua vida parec agora desfilar diante dEle. . e terás um tesouro no céu. pra zeres — tudo o que lhe é imprescindível parece perder significado. de lutas sofridas e angustiantes. Lembrando-se. vende tudo quanto tens." Informa Amélia Rodrigues. riqueza.

é horizon- talidade. conseguiu vencer a horizontalidade do mundo e mergulhou na sublime verti- calidade que Jesus lhe propôs um dia. "E segue-me" — segui-lo é a vivência do ser. * * * Divaldo zela para que o patrimônio moral e espiritual que conquistou permaneça inalterado. é verticalidade. "Dá tudo o que tens" — o ter é quantidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 65 Onde estará hoje o moço rico? Por certo. no transcurso dos evos. é quali- dade. .

. recente- mente desencarnada. este pediu-me que pegasse de um lápis. Professora Rachel Ribeiro. Abel Mendonça. A partir daí. dizendo ser necessário muito treino. nos recolhíamos a uma ci- dade do interior da Bahia (Muritiba). Foi uma sensação estranha e muito agradável. Conversando com Abel Mendonça. uma mensagem assinada por Marco Prisco. era uma sensação de cãibra e formigamento. automaticamente. com o pseudônimo de "Um Espírito Amigo". Estava na cidade de Muritiba. este passou a deslizar com tal facilidade que escrevi. quando Joanna de Angelis. Naquele domingo de carnaval. despertei com uma es- tranha sensação no braço. 8 A PSICOGRAFIA - "MESSE DE AMOR" A minha primeira mensagem psicográfica aconteceu no ano de 1949. na casa de uma famí- lia espírita — Rafael e Dona Hilda Veiga — onde fundamos um grupo: Grupo Espírita "Fraternidade e Trabalho". e como fazíamos naquele tempo para fugir da balbúrdia em Salvador. passei a psicografar. e. intitulada "Na sub- tração e na soma". com um grupo de con- frades. que era espírita de primeira plana. que mais tarde seria enfeixada no livro Ementário Espírita. começou a dar-me orientações. num domingo de carnaval. atendendo-lhe a sugestão.

num outro. uma delas e a distribuir pelo Brasil todo. porém se as enfeixasse num livro ficaria muito bom e mais fácil. A. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 67 A partir de 1952. comecei a publicar as primeiras men- sagens. uma men- sagem de Antônio Luiz Sayão. igualmente em Belo Horizonte. já que. se não me engano. achavam que as mensagens tinham conteúdo tão bom que ele se prontificou a imprimir. na Federação. àquela época. Foi ele quem me apresentou ao público da Federação Espí- rita Brasileira. de Arlindo Silva. no auditório. Pro- feri uma palestra e psicografei lá. na hora que a gente precisa não acha. que era um confrade muito dedicado. depois. o Professor Carlos Juliano Torres Pastorino. as mensagens começaram a ser di- vulgadas e amigos nossos do Paraná. estava. capitaneados por Ari Schmidt. esta senhora nos disse: — Divaldo. mas não cheguei a divulgar quinze delas. em um jornal que havia em Belo Horizonte. Em 1962 (ainda não havia publicado nenhum livro). Depois comecei a encaminhar essas mensagens para alguns poucos jornais. Numa das vezes em que fui a Belo Horizonte — eu já era amigo e me correspondia com Ismael Gomes Braga. ou o trem "Expresso Azul". com quem travei o primei- ro contato e que se tornaria um grande amigo nosso. porque foi graças ao seu estímulo que eu vim a publicar o Messe de Amor. intitulado "Síntese Espírita". na presidência do Dr. por que você não enfeixa essas mensagens tão maravilhosas num livro? Porquanto a mensagem solta e publicada em jornal. cha- mado "O Poder". Nessa oportunidade. es- tando reunido com Pastorino e um grupo de pessoas na resi- dência de Elisabeth Keetmann. Wantuil de Freitas e.. que foi dirigido por um grupo de amigos e pelo Professor Rubens Romanelli. a quem eu conhecera no ano de 1951 — e para vir à capital mineira. a data foi 16 de janeiro de 1951. . mensalmente. Hospedei-me com Ismael Gomes Braga. deveria ir-se de avião até o Rio e do Rio tomava-se uma outra aeronave até lá. então.

Daí. Foi o meu período das dissertações evangélicas. e. que foi apresentado no Ministério da Fazenda. que o meu programa essencial. que dei- xou um legado. ele achava que as mensagens tinham valor. por que havia a "Mansão do Caminho".68 SUELY CALDAS SCHUBERT Então perguntei a Pastorino. nessa noite falei a Joanna de Angelis. que. nas palestras. posteriormente as transcreveria para o papel. realmente. Fiquei muito comovido. Ela me confirmou que estava na minha tarefa a ativi- dade do livro. Também pelo fato de a mediunidade ser uma auxiliar para a própria pa- lestra — eu v i a as cenas que descrevia. que passava céleremente ante a minha visão psíquica e que eu ia lendo. O Professor Pastorino mandou publi- car o livro sob a égide de uma editora da Entidade que ele fundou. uma vasta cultura. Como é natural. Ele respondeu-me: — Não apenas eu acho que têm valor. lidos e pesquisados. das narrativas de Amélia Ro- drigues. Ela selecionou as mensagens e organizou o livro Messe de Amor. um poliglota famoso e mestre. Ê interessante notar-se como surgem as ciladas do mal. A Editora Sabedoria publica a obra e na hora que eu recebo o livro. houve um fato muito interessante. no dia 5 de maio de 1964. como me pronti- fico a lançar um livro delas decorrente. eu via uma fita como de tele- tipo. chamada Grupo de Estudos SPIRITVS. Muitas vezes. obviamente. na sua biblioteca de mais de trinta mil li- vros. dizendo que se eu estava dis- posto a pagar. fiquei muito sensibilizado com aquela sugestão e Joanna concordou. no trabalho do bem. para demonstrar nos atos aquilo que se apresentava na palavra. seria através da divulgação oral e pelo exemplo. se. um teólogo profundo. ela iria interceder junto aos Mentores da Vida Maior para que a mesma tivesse o seu início. já que estava programada para momento oportuno. enunciando os postulados ali escritos. . no dia 5. a arcar com o ônus desta atividade. todavia.

tudo foi urna ma- ravilha. Ela surgiu muito luminosa. — Mas como farei? — indaguei. Pastorino reuniu uma equipe e foi um êxito. dessas fadas madrinhas das tradições das histórias. pegare- mos de uma gilete. que estava encostado. O SEMEADOR DE ESTRELAS 69 Nesse dia — é a data do meu aniversário — muito emocio- nado. porque jamais me havia passado pela ca- beça a idéia de escrever uma página. um homem muito calmo. no sentido transversal ao livro. quando tomei o livro e o abri. . porque uma das mensagens estava. Eu era hóspede de Celeste Mota. Coloquei o livro encostado em um quebra-luz. Chegou com um botão de rosa de haste muito longa. O botão bem fechadinho. O quarto estava em penumbra. Cheguei a casa com um exemplar. e fiquei muito emocionado. Enquanto eu fi- quei olhando-o deu-se um fenômeno muito interessante. psicólogo. paginada ao revés. um anjo que Deus colocou no meu caminho. de cabeça para baixo. que foi o seu primeiro preço. Depois de apresentado o livro e vendido todos eles a Cr$ 5. Colocou-o em pé. essa alma nobre. Começamos a fazer o trabalho e cortamos pelo menos duzentas páginas. disse-me: — Você não tem de se preocupar com isto. apareceu- me Joanna de Angelis. filólogo. Telefonei ao Professor Pastorino e ele. especialmente naqueles dias mais difíceis do começo. Quando ainda estava sob efeito da emoção. O livro ia ser apre- sentado naquele dia. — Muito simplesmente — prosseguiu ele —. uma verdadeira benfeitora. onde me agasalhei a partir de junho de 1956 até janeiro de 1970. A idéia que eu tenho até hoje. quanto mais ser mé- dium de um livro. lamentavelmente.00. ao acaso. Foi-me. é que ela era uma fada. um verdadeiro filósofo. tive um cho- que. cortamos a página e a recolocamos di- reito.

e se tu aceitares isto como fenômeno natural. — Então. não esperes flores. Foi assim. Ademais — prosseguiu ela — a enxada não se preocupa pelos sulcos que foram feitos. senhora. a receber a crítica mordaz e sarcástica. O médium. que iam manchando o livro de capa verdinha. Nesse momento. porque o nosso defensor é Jesus. mas a tua será a parte do sofrimento. Como médium.70 SUELY CALDAS SCHUBERT O botão começou a desabrochar. Tu estás disposto? — Sim. Depois começou a jenecer. A flor será a mensagem. Eu te trarei vários Amigos que pretendem colaborar nesse labor contigo. para que este faça os sulcos que achar conveniente. Joanna falou-me: — Aí tens o símbolo do teu futuro psicográfico. sim. a abrir-se. é aquele que não confia em Deus e que não é real- mente um bom instrumento. As manchas se desvaneceram. de forma que te sangre o coração. até serem jogadas ao lixo. portanto. mas a capa ficou assinalada pelo sucedido. nós teremos uma longa viagem. a tua tarefa é ser fiel ao dever e não te preocupares com os resultados. Ela se preocupa em ser dócil nas mãos do agricultor. a ter ferida a alma com os espinhos da perversidade alheia e ver as mensagens serem levadas à praça pública do ridí- culo. Ela é instrumento submisso. a caírem as pétalas. Se estiveres disposto a dar o teste- munho do silêncio. mas. à medida que as pétalas iam caindo davam- me a impressão de serem de sangue. que se de- fende. tornando- se uma rosa belíssima. conta comigo. Mas. que o impacto do trabalho psico- gráfico teve início. os Espí- ritos. que não são teus e sim do Cristo. Quem vai defender-se perde tempo e enquanto se está defendendo os Amigos Espirituais não podem tomar as decisões compa- tíveis para que permaneça a verdade. meu filho. . tudo bem. Se tu tiveres coragem para levá-lo adiante. sem te defenderes nem as procurar defender ou a nós.

Os Espíritos usam. Escrever um livro. as sessões normais e outros compromissos. é realmente uma belíssima emoção. Glossário Espírita-Cristão. embora estivesse no programa. das mais significativas para o ser humano. meu pai. ela não me havia dito antes para não me assustar. com a ajuda de Nilson. porém. dessa revelação. tê-lo nas mãos. tais as responsabilidades que. Este episódio da rosa e do livro MESSE DE AMOR está parcialmente narrado no livro Divaldo Franco em Ube- raba. Surge Primícias do Reino e outros lhe se- guiriam. já àquela época. a linguagem simbólica. ante a realização de sua primeira obra no campo da psicografia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 71 Nesse dia. Joanna esclareceu ainda que. Trabalhava para sustentar a família. ou ser médium de um. emocionais e tinha de lutar muito co- migo mesmo. tornando-se assim inesquecível. Tínhamos a "Mansão". Joanna de Angelis observa a emoção de seu médium. muita vez. que não possuía as re- sistências doutrinárias. minha irmã solteira. pesavam sobre mim. viagens etc. Espírito e Vida. atendendo a pedidos. que também trabalhava para nos ajudar. Depois Dimensões da Verdade e logo viria o primeiro de Marco Prisco. a colocar no papel aquelas mensagens que me inspirava com as visões policrô- micas de Israel. Essa imagem ou símbolo sintetiza o assunto e é deveras marcante. ou fazem acompanhar as suas palavras de figuras ilustra- tivas que simbolizem o que estão pretendendo transmitir. Mais tarde sai o seu segundo livro. Então. e depois vê-lo materializar-se em páginas e páginas formando um volume. de seu filho espiritual. Amélia Ro- drigues se propôs. minha mãe. em toda a sua extensão e beleza. palestras. Aqui vemo-lo. E quando esse livro é fruto de um labor conjunto entre o plano físico e o espi- .

transmitem o "divino concerto". radiosa. . saindo do plano do ideal para a concretização no plano humano. São "as vozes do Céu" que. cap. no início do seu la- bor psicográfico e Joanna o vê emocionado ante o primeiro resultado. pois transcende ao esforço co- mum do escritor.72 SUELY CALDAS SCHUBERT ritual torna-se algo precioso. "Do laboratório do Mundo Invisível". na Terra. encontra-se a explicação desse tipo de fenômeno: " ( . V I I I . traz um objetivo bem mais complexo: o de adverti-lo. Somente assim. não vem aplau- dir ou também se comover com o sentimento que o domina e. Que a alegria ou a emoção feliz sejam vividas conscientemente e não com ilusões perigosas. ) o Espírito atua sobre a matéria. que se expressam nas mesmas faixas de interesse e de dois corações que se afini- zam nos mesmos ideais. Ela surge. àquela época. encontrando instrumentos afinados. pela ação da sua vontade. . portanto. mas. maleável e dúctil ao comando mental. conforme está no prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo. para representar a soma de duas mentes que vibram na mesma freqüência. Pode igualmente. operar na matéria elementar uma trans- formação íntima. Ela sabe que o instante de alegria é bastante fugaz e que urge preparar o médium para as grandes responsabilidades assumidas. que muitas vezes a exerce de modo instintivo. quando necessá- . da matéria cós- mica universal tira os elementos de que necessite para for- mar. a seu bel-prazer. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito. É uma rosa fluídica. Quando a mentora coloca a rosa encostada ao livro ela o faz com o fito de marcar de maneira indelével aquele momento. Em O Livro dos Médiuns. aos seus olhos. que lhe confira determinadas proprieda- des. que podem distrair e perturbar a caminhada. formada com substância do plano espiritual. Divaldo Franco está. pode a obra psico- gráfica desenvolver-se a contento. objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. sim.

" À primeira vista. em seguida. tornarem-se momentaneamente vi- síveis e até mesmo tangíveis. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Conta comigo. Os objetos que o Espírito for- ma têm existência temporária. Há formação. Porque não haveria sofrimentos nem renúncias. se estivesse equivocado quanto aos rumos a seguir. se não esti- vesse suficientemente embasado para a sua missão. Em certos casos. a festa de corações. não criação. diz. a conscientização dos compromissos assumidos. 0 botão desabrocha e transforma-se em uma belíssima rosa. o amor à Causa. são graves e pro- féticas. traçada no plano espiritual e que antecedeu à reencarnação de Divaldo Franco. a mentora é muito firme ao definir o futuro." Esta é a sua proposta inicial. atento que do nada o Espírito nada pode tirar. porém. tais pa- lavras jamais seriam ditas. de vida muito efêmera. sem disso se aperceber. de certa forma. a disciplina rígida. a renúncia a si mesmo e aos favores mundanos. porém. na autenticidade dessa missão fazem parte a fir- meza e honestidade de propósitos. Não haveria motivo para tanto. Portanto. subordinada à sua vontade. se pretendesse apenas as loas do mundo. a aus- teridade. e. toda uma programação de elevados objetivos. . ou a uma necessidade que ele experimenta. Afirma: "se tu tiveres coragem para levar adiante. Se Divaldo estivesse numa aventura pelos campos da mediunidade. pois logo em seguida começa a fenecer e suas pétalas caem como gotas de san- gue manchando a capa verde do livro. esta é verdadei- ramente a imagem inicial do quadro vivo que surge então aos seus olhos. As palavras de Joanna. podem apresentar todas as aparên- cias da realidade. esses objetos. isto é. . enfim. aos olhos de pessoas vivas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 73 rio. mas se tiveres coragem. conta comigo. Mas. Divaldo poderia até pensar que aquela flor apoiada ao Messe de Amor representasse a comemora- ção. .

e relaciona as situa- ções previstas. ou seja. aos mais recônditos cantos do co- ração humano. É o man- dato mediúnico de que nos fala André Luiz em Nos Domí- nios da Mediunidade. É fazer da própria existência a "candeia viva". Esses passos não são sofridos. nas questões onde o personalismo preponderasse. . não o conseguirá sem o imprescindível tri- buto pela ousadia de enfrentar as trevas. onde os óleos do bem e do amor. Mas. o mediunato. a "missão providencial dos médiuns". antes são causas de sofrimentos. — ser jogada ao lixo. perma- neçam ardendo para que haja luz. — ver a mensagem ser levada à praça pública do ridí- culo. — receber a crítica mordaz e sarcástica. na bus- ca do prestígio — formas de se granjear os títulos passa- geiros da Terra. do ideal de servir a Jesus. no mundo em que estamos. e aceitar tudo isto sem se defender — eis o programa traçado! Mas. de forma que faça sangrar o coração. capítulo X X X I I de O Livro dos Médiuns. a partir da publicação: — dar o testemunho do silêncio. que brilha para iluminar caminhos. E a candeia que se acen- de. é a "mediunidade gloriosa" de Leon Denis. E. por que o sofrimento? Por que o mediunato tem tão alto preço? Seria muito fácil atender ao mundo. quem quer viver na luz para levá-la a toda parte. tal como Kardec classifica no "Vocabulário Espí- rita".74 SUELY CALDAS SCHUBERT "A tua será a parte do sofrimento". nas disputas. transcende ao simples exercício e prática da mediunidade. na algazarra própria dos que valorizam as conquistas materiais. não tem outro an- seio senão o de consumir-se para que a luz se faça. — ferir a alma com os espinhos da perversidade alheia.

que respondia com o silêncio os ataques que lhe eram dirigidos e que essa atitude mereceu aprovação unânime dos espíri- tas. que é lição de coragem pouco conhecida. em mensagem inserta no livro Após a Tempes- tade. absolutamente fiel à tarefa. uma a uma. O defensor de nossa honra e do nosso trabalho é o Senhor. sem pretensão. ressaltada pela autora espiritual a lição de coragem que o ato de silenciar. A nós nos cabe a glória de servir. que em nenhum momento deixou de seguir e viver a promessa feita no dia 5 de maio de 1964. Após o lançamento do primeiro livro. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 75 Assim. na íntegra. Nessas quatro décadas de atividades mediúnicas. por certo que o médium escreve com a segurança de quem já viveu e exemplificou o conselho. o silêncio. sig- nifica. Joanna entende que não haverá necessidade nem condições para defesas. . o médium segue. as diretrizes traçadas pela instrutora espiritual. com os quais esteve em contato durante as viagens que realizou naquele ano. nessas circunstâncias." Quando as mãos mediúnicas de Divaldo anotaram essa passagem. Hoje já se pode avaliar qual foi o comportamento de Divaldo face a todas as lutas e agressões que o alcançaram. no transcurso do tempo. perante os ataques de qualquer pro- cedência. exatamente vinte anos depois. tem sempre a mesma coerência doutrinária. Allan Kardec. quando. Essa vivência dá extraordinária força de autenticidade à vida missionária de Divaldo Franco. Essa fidelidade à tarefa tem sido cumprida pelo mé- dium. As palavras proféticas pronunciadas por ela se foram cumprindo. o mesmo tipo de comportamento. sob a superior orientação de Joanna de Angelis. capítulo 24: "A qualquer ataque. narra em "Viagem Espírita em 1862". Dival- do Franco. Joanna de Angelis diria mais tarde.

do coração afeito ao bem e ao perdão. e que um coro de vozes. multiplicadas. hoje se levanta aos céus. Bênçãos que adviriam. para agra- decer e orar por ele. primeiramente. . Bênçãos de um número cada vez maior de Benfeitores Espirituais que encontraram na sua mediunidade o canal adequado e sintonizado para que pudessem falar à Terra. nas lições da vida. Joanna deixou que ele as sentisse e fosse descobrindo. as páginas que a sua fa- culdade mediúnica foi propiciando. todavia.76 SUELY CALDAS SCHUBERT O que Joanna não disse. do dever bem cumprido. no devido tempo. foram as bênçãos que o labor iria proporcionar. que a messe de amor. se exige sacrifícios inauditos. da consciência pacificada. Ela reservou a surpresa a fim de que melhor fosse aproveitada à medida que surgisse. Bênçãos de ver. Bênçãos de saber que um número cada vez maior de pessoas se beneficiam com as mensagens psicografadas. também proporciona a alegria sublime de quem está colaborando com Jesus.

um operário modesto. fico orando. sempre aparece no mesmo lugar e desaparece num outro. e dizia: Meu Jesus. então. com todo o estardalhaço. vou dar o seu lugar para outro. 9 O SUICIDA DO TREM Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio terrível. foram as circunstâncias. Somos muito amigos. conversando. que me impactou: um homem jogou-se sobre a linha férrea. dava uma de advogado. mas esse era especial. dedicando-lhe mais de cinco minutos (e eu tenho uma fila bem grande). Da minha janela eu vejo uma estrela e acompanho o seu ciclo. Fazia a minha prece. digo: se este aqui já não evoluiu. Vai ver que ele nem se quis matar. intercedia. Comecei a orar por esse homem desconhecido. de vez em quando. dizendo que aquele era um pai de dez filhos. já faz muitos anos. Orava e pedia. Aquilo me impressionou tanto que resolvi orar por esse homem. E o jornal. olhando para ela. coloquei-lhe o nome na minha caderneta de pre- ces especiais — as preces que eu faço pela madrugada. contava a tragédia. . Tenho uma cadernetinha para anotar nomes de pessoas necessitadas. Ela é paciente. quem se mata (como dizia minha mãe) "não está com o juízo no lugar". não posso fazer mais. Eu vou orando por elas e. Assim. sob os vagões da loco- motiva e foi triturado.

eu tive um problema que me fez sofrer muito.) Daí a pouco a emoção foi-me tomando. Porque é o único dia que eu consegui fazê-lo. fiquei muito contente com o que ele me dizia. — Mas. quando me dei conta. que não con- sigo verter. aprendi a não recla- mar e não me estou queixando. O Espírito retrucou: — Divaldo. onde quer que estivesse. Fico aflito. Encontrava-me com uma grande vontade de chorar. apren- di a chorar para dentro.78 SUELY CALDAS SCHUBERT Passaram-se quase quinze anos e eu orando por ele dia- riamente. e as lágrimas não saem. Nessa noite cheguei à janela para conversar com a minha estrela e não pude orar. não tenho esse direito. como não tenho a quem me queixar. volumosas. Nesse ínterim. Não estava em condições de inter- ceder pelos outros. — Você me inspira muita ternura — prosseguiu — e o amo por gratidão. — Se você chorar eu tam- bém chorarei muito. (Eu tenho uma grande inveja de quem chora aquelas lágrimas enormes. mas. Além do mais. Deixe-me chorar! — Não faça isto — pediu. Há muitos anos eu me joguei embaixo . — Porque eu gosto muito de você. porquanto eu vivo para con- solar os outros. não lhes posso contar os meus sofrimentos. sou muito difícil de fazê-lo por fora. chorava. o que é que você fará? — Hoje nem me peça. e se eu lhe pedir que você não chore. experimento a dor. por que você vai chorar? — perguntei-lhe. Um dia. Eu amo muito a você e amo por amor. entrou um Espírito e me perguntou: — Por que você está chorando? — Ah! meu irmão — respondi — hoje estou com muita vontade de chorar. Como é natural. e. porque sofro um problema grave e.

" Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu. que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. A minha filha é hoje uma perdida. aí eu vi você nesta janela. com tanto carinho. até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem. Ele não quis matar-se. que já havia morrido. novamente. Mais tarde. pois o sofrimento logo voltou. Eu ouvia o trem apitar. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 79 das rodas de um trem. (Note que eu nunca o vira. Dei-me con- ta. com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me: — Ê uma alma que ora pelos desgraçados. Meu filho é um bandido. — Comovi-me. — Eu perguntei — continuou o Espírito — quem é? Quem está pedindo a Deus por mim. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava. para escutar a pessoa que me chamava. Transcorreu muito tempo mesmo. Lembrei- me de minha família e fui à minha casa. chorei muito e a partir daí passei a vir aqui. em face das diferenças vibra- tórias. E não há como definir a sensação eterna da tragédia. reduzindo-nos à mais terrível miséria.) — Quando adquiri a consciência total — prosseguiu ele — já se haviam passado mais de catorze anos. então. Lembrei-me de Deus. Comecei a refletir que eu não tinha o di- reito de ter feito aquilo. porque . escutava o apito e começava tudo outra vez. eternamente. eu conseguia respirar. para agüentar aquele morrer que nunca morria e não sei dizer-lhe o tempo que passou. sem ter- minar nunca e sem nunca morrer. via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as rodas me triturando. sempre que você me chamava pelo nome. passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal. Quando acabava de pas- sar. porque não teve comida e nem paz e foi-se vender para tê-los. Até que um dia escutei alguém cha- mar pelo meu nome. injuriando-me: "— Aquele desgraçado deser- tou. quando eu ia respirar. de minha mãe. chamando por mim. que aquilo me aliviou por um segundo. Fê-lo com tanto amor. Encontrei a esposa blasfemando. ouvi alguém chamar por mim.

falei-lhe: — Perdoe-me. eu lhe venho pedir: em nome de todos nós. só você. emocionado — aí eu comecei a somar às "dores físicas" a dor moral. — São lágrimas de felicidade. buscar a morte. mas eu não esperava comovê-lo. Aproximou-se. os infelizes. encostou a cabeça no meu ombro e chorou demoradamente. Igualmente emocionado. narrado por Divaldo. Então hoje. dos danos que o meu suicídio trouxe. que estamos aprendendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito de sofrer. pelo ato de autodestruição. o que será de nós. os que somos permanentemente tristes? Se você ago- ra chora. ele chorou. mais ninguém orava. não sofra mais. O suicida do trem — como passei a chamá-lo desde que me inteirei deste caso. me deu um abraço. Além de você.80 SUELY CALDAS SCHUBERT teve um pai egoísta. Estou aprenden- do a consolar alguém. Fui visitar meu filho na cadeia. pelo menos por nós. sendo tudo isto lançado a seu débito na lei de responsabi- lidades. não sofra! Porque se você se entristecer. E a primeira pessoa a quem eu con- solo é você. na infeliz suposição de que resolverá assim todos os seus problemas. . que você está sofrendo. num destes lugares miseráveis. e por amor a nós. Deixando-nos. Que supremo desespero leva uma pessoa a jogar-se sob as rodas de um trem! Que suprema covardia moral leva o ser humano a desertar da vida. onde ela estava expos- ta como mercadoria. Porque o suicida não responde só pelo gesto. que será de nós. também. um estranho. — Divaldo — falou-me. ele nos reduziu a esse estado. que se matou para não enfrentar a res- ponsabilidade. Doridamente. mas. ninguém tinha dó de mim. por toda uma onda de efeitos que decorrem do seu ato insensato." — Senti-lhe o ódio terrível. Depois. porque agora eu me posso reabilitar. fui atraído à minha filha. eu sou feliz. Uma empatia muito grande por esse Espírito se fez em meu coração. Pela primeira vez.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 81 Sua tragédia fez-me recordar certa reunião mediúnica. em minha condição de médium. numa noite sombria. em que fui incorporada por um suicida que também se jogara sob um trem. visto que ele não foi trazido à reunião. de olhos esbugalhados. no transcurso dos anos. numa repetição enlouque- cedora. Da mesma forma como ocorreu com Dival- do em relação a esse pobre operário. estático. Ao escrever sobre o caso relembro e revivo o impacto da comunicação mediúnica. porém. à espera de que se consumasse o atro destino que para si mesmo esco- lhera. A esta altura da cena. cujo farol era como um olho desco- munal mantendo-o imóvel. contemplava a máquina. mas este foi especial. A terrível cena marcou-me o psiquismo de forma in- delével. num sofrimento indescritível. 0 infeliz suicida. porém. prestou-lhe socorro através da prece. Ele vinha. A cena que exteriorizava era terrivelmente assustadora. ou com ele. . é que Divaldo não o auxi- liou através da sintonia mediúnica. há muitos anos. dentro da sala. A impressão que tive é que estava ao lado dele. pai de dez filhos. para minha segurança e alívio. na via férrea. embora já ligado à reunião. Fato que merece ressaltado. num processo de repetição constante. Até que um grito de pavor. atordoante. que parecia ter prosseguido no seu trajeto. que. tornava-se gi- gantesco e havia como quê uma atração hipnótica na paté- tica figura do homem. torcendo-se e gemendo de forma comovente. es- tremecendo tudo à sua passagem. e o trem crescia ao nosso encontro como um negro monstro de ferro. um urro de animal ferido indicava o momento do impacto de seu corpo — um minús- culo boneco que logo desapareceu. chumbado ao solo. engolido sob o mons- truoso veículo. triturado pelas rodas. Mas o trem. sentia-me. sentia-se. no meu lugar habitual. Muitos outros suicidas comuni- caram-se por nosso intermédio. vinha novamente. O médium.

. esmagado sob toneladas de ferro. A questão do suicídio foi objeto de interesse de Allan Kardec. Menciona o laço que une o Espírito ao corpo. que. da sa- ciedade. rom- pido bruscamente conserva fortes resquícios de vitalidade e magnetismo. uma pausa. também. sem motivos plausíveis." Na parte final da questão 957. que. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e resigna- ção. a vibra- ção da prece o atingiu. "Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais. sofrendo os efeitos da sua decomposição." 944 — "Tem o homem o direito de dispor da sua vida? "Não. por largo período. Refere-se também ao fato de que o Espírito permanece jungido aos despojos carnais. só a Dens assiste esse direito. O suicídio volun- tário importa numa transgressão desta lei. o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. como a lhe mar- carem o sinistro compasso das dores superlativas. Ah! o refrigério da oração! Possibilitou-lhe. da falta de fé e.82 SUELY CALDAS SCHUBERT No torvelinho de seus sofrimentos. quando ouviu o seu nome e se sentiu balsamizado pelo amor. ressaltando os sofrimentos dos suicidas. que registrou em O Livro dos Espíritos as respostas dos Benfeitores Espirituais. se apodera de certos indivíduos? "Efeito da ociosidade. quanto obra com o fito de felicidade mais sólida e mais durável que o espera. de ime- diato. ouvindo o apito a cada instante e o ruído das rodas. sentindo-se morrer e remorrer. Na pergunta 943 lê-se: "Donde nasce o desgosto da vida. o Codificador aduz os seus comentários. e. numa fração de tempo.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 83

Em o livro O Céu e o Inferno, o Codificador reúne, na
segunda parte, comunicações de suicidas que dão notícias
de seus sofrimentos após a desencarnação.
Na literatura mediúnica desponta a obra magistral de
Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida. Em alguns tre-
chos deste livro a autora refere-se ao profundo trauma vi-
bratório que a morte sob o trem acarreta ao perispírito do
suicida, o que o coloca, talvez, na mais difícil situação espi-
ritual, entre tantos outros infelizes que se mataram por
outras formas.

* * *

Assim, Divaldo em prece, roga a Jesus por esse operá-
rio suicida, procurando socorrer e minimizar-lhe as dores,
que ele sabe serem superlativas. E o faz durante quase quin-
ze anos, diariamente, onde quer que estivesse.
As vibrações o atingem, porque feitas com amor e ver-
dadeiro desejo de ajudar.
Sobre a prece Allan Kardec dedica o capítulo X X V I I
de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde, no item 10,
descreve a ação benéfica que ela proporciona.
"Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer,
na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado,
ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um
e outro, transmitindo de um ao outro o pensamento, como
o ar transmite o som."

* **

A oração de Divaldo soa, então, aos seus ouvidos, re-
percute vibratoriamente em seu mundo interior e, a prin-
cípio, é um pequeno instante de alívio, para tornar-se, de-
pois, um interregno entre tantos tormentos, proporcionan-
do-lhe condições de raciocinar — o que o fez lembrar-se de
Deus, de sua mãe e da situação em que se encontrava.

84 SUELY CALDAS SCHUBERT

Socorrido e amparado pela solicitude e desvelo mater-
nos, foi sendo atraído para junto daquele que lhe enviava
a vibração lenificadora.
Na voragem de suas angústias acerbas, foi alcançado
pela força poderosa do amor. Esta força que se faz suavi-
dade e doçura, que atua anônima, se preciso for, para agi-
gantar-se mais adiante e mostrar-se invencível, por ser, em
verdade, o maior elemento propulsor da evolução humana.
Os corações que amam em plenitude, que amam o amor e
por ele vivem, fazem-se ponte para socorrer os caídos, os
desgraçados, os que ainda não aprenderam a amar.
O infeliz suicida despertou para a realidade. E esta lhe
é ainda mais amarga. As dores morais o visitam e se insta-
lam em seu coração ao verificar as conseqüências do
seu ato.
É então que esse ser humano, com toda a sua terrível
carga de aflições, encontra Divaldo sofrido e triste. Quer
ajudá-lo e este desejo incontido o aproxima do médium,
que o vê pela primeira vez. Consolá-lo é o seu pensamento
e por isso passa a narrar o seu pungente drama a fim de
testemunhar-lhe, com o seu exemplo vivo, o quanto recebe-
ra dele.
"Se você chora, que será de nós que estamos apren-
dendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito
de sofrer, pelo menos por nós, e por amor a nós, não so-
fra mais."
O encontro emociona-o e chora abraçado a Divaldo
— as primeiras lágrimas suaves a lhe refrigerarem o cora-
ção — na ânsia de consolar o benfeitor, de lhe ser útil, de
minorar-lhe as angústias interiores.
No silêncio da madrugada, tendo por testemunha a es-
trela amiga — que, cintilando, é c o m o um coração que pulsa
em direção a ambos —, dois corações humanos se encon-
tram, se aproximam e se deixam envolver pela suave magia
do amor.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 85

A missão consoladora da Doutrina Espírita, de que nos
fala Kardec:
"Coloco em primeira instância o consolo que é preciso
oferecer aos que sofrem, erguer a coragem dos caídos, arran-
car um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio,
detê-lo talvez no limiar do crime! Não vale mais isto do
que os lambris dourados?"
(Trecho do discurso de Allan Kardec aos espíritas de Lyon
e Bordeaux, In "Viagem Espírita em 1862" — Ed. "O Cla-
rim".)

10

A PRESENÇA DE VICTOR HUGO
NA OBRA MEDIÚNICA
DE DIVALDO

No mês de abril de 1970, terminando as palestras feitas
em Juiz de Fora, na Semana do Livro, retornei ao Rio numa
Kombi, já à noite, deixando, por distração, o quebra-vento
aberto. Era uma noite muito fria e eu me gripei. Cheguei ao
Rio afônico e com uma febrícula.
No dia seguinte passei com muita febre e, à noite, ape-
sar de medicado, a gripe não amainou. Era o dia de Culto
evangélico, na casa de Celeste e Lena * e não pude parti-
cipar, tal o estado de prostração em que me encontrava.
As duas amigas e Honorata, a auxiliar, começaram o
Culto, quando de repente vi entrar, no quarto onde me en-
contrava, uma Entidade veneranda que me disse:
— Eu sou Victor Hugo. Há alguns anos venho entran-
do em contato psíquico contigo, inspirando-te na narração
de alguns fatos nas conferências, para gerar um clima de
sintonia. Tenho uma tarefa a propor-te: eu gostaria de escre-
ver dez romances através de ti.

( * ) Srta. Celeste Moreira da Mota e Da. Brasília Gonçalves, em
cujo lar Divaldo se hospedou, no R i o , por vários anos. Celeste já
desencarnou. (Nota da Editora)

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 87

Fiquei muito surpreso, porque jamais me havia passado
pela mente ser "médium de romance". Acreditava que essa
parte da psicografia ficaria reduzida a páginas soltas, a te-
mas evangélicos, a estudos doutrinários breves, e julguei
que, o que via e ouvia, era uma alucinação, um delírio pro-
veniente da febre. Mas, o Espírito instou e propôs-me:
— Por favor, levanta-te, toma do material, que eu que-
ro escrever.
Ainda assim, pelo estado em que me encontrava, não
me animei, por estar convencido de que era uma alucina-
ção, já que eu não tinha condições de ser médium de uma
Entidade tão nobre. Todavia, o Espírito voltou a insistir e
Joanna de Angelis me apareceu, confirmando-o para tirar-
me a dúvida e pediu-me que fizesse um esforço, porque a
febre e aquele estado psicológico especial eram também um
recurso de que Victor Hugo usava para "quebrar" as mi-
nhas resistências de personalidade, a fim de que meus cli-
chês mentais — pelo hábito de falar incessantemente —
não viessem a interferir na obra que ele tinha preparado
para ser psicografada.
Com muito esforço levantei-me e, apoiando-me à pare-
de, fui até à sala. Quando Celeste e Lena me viram, muito
pálido e tiritando de frio e febre, ficaram muito surpresas;
eu lhes expliquei a ocorrência. Foi providenciado papel, até
papel de embrulhar pão, que foi recortado, e outras folhas
soltas. Sentei-me à mesa, pedi-lhes a colaboração, e como
estava na parte final do Culto evangélico, antes da prece
derradeira, o Espírito veio, curvou-se sobre mim, e, quan-
do começou a escrever, deu-se um fenômeno que, a partir
daí, me seria familiar: à medida em que a mão escrevia, eu
tinha a sensação de estar no cinema, vendo a projeção de
um filme, mas um filme em "tecnicolor", em tela muito
ampla, com uma beleza incomparável.
Quando voltei ao normal e li a mensagem que se inti-
tulava "O Duque di Bicci di M..", era exatamente o que tinha
visto psiquicamente, com a diferença de que eu observava
muito mais do que estava escrito. Era como se eu tivesse

88 SUELY CALDAS SCHUBERT

ido ao cinema com um cego e fosse descrever-lhe o que es-
tava vendo. O que eu via era muito mais do que podia
transmitir.
Ao terminar a psicografia eu estava total e radicalmente
curado, bem disposto, passaram a febre, a indisposição; eu
me recuperei.
No dia imediato, pela manhã, o Espírito escreveu mais
dois capítulos e determinou o programa de prosseguimento
do trabalho.
Houve um fato muito curioso. Uma das personagens,
Girolamo, havia, num desses capítulos, cometido um crime
hediondo e, como eu o vira, fiquei muito chocado; aquilo
me produziu um certo ressentimento contra a personagem
e, naturalmente, enquanto aguardava o desenvolver do ro-
mance, comecei a imaginar como é que a Lei iria alçancá-lo,
a fim de que resgatasse aquele crime — ele matara três
crianças de uma forma impiedosa, depois de dar-lhes um
narcótico, porque ia ser o legatário dos bens, caso as crian-
ças, herdeiras diretas, viessem a desencarnar. Quando fui
psicografar, com esse estado de alma, Victor Hugo escla-
receu:
— Você não pode interferir na trama do meu livro.
Essas personagens desencarnaram no século XVIII, e você
está criando clichês mentais que me irão dificultar a narra-
tiva. Por favor, não antecipe o desenvolvimento do romance.
Para minha surpresa, Victor Hugo, a partir daí, come-
çou a escrever de uma forma que não dava o encadeamento;
ele não numerava os capítulos e eu me dava conta que era,
digamos, o capítulo sexto, o décimo, a segunda parte do
livro, etc. Somente quando terminou a obra, que eu ia dati-
lografar, é que me pediu que numerasse os capítulos nas fo-
lhas, a lápis, que eu grampeava e colocava num classifi-
cador, perfuradas, para facilitar a movimentação. Aí então,
enquanto datilografava, já coordenado, tive a idéia de toda
a trama da obra. Foi um fato muito curioso, uma grande
lição para mim.

para adestrar o leitor que. A volta do romancista. deixando entre espaços o comentário filosófico. cada vez mais entender melhor os ensinamentos que a Doutrina revela. porque não tivera oportunidade. psicológico. a fim de entender a trama da Justiça Divina. Victor Hugo. melhor para o próprio autor. no seu tem- po. em que faria a narração e. de dar a contribuição que gostaria de oferecer ao Movimento Espírita. por acaso. periodicamente. que fora sua filha na reencarnação anterior. para o espírita. na Terra. renovando a mentalidade humana no momento propício e permitindo que o homem tenha uma janela aberta para o infinito. a interromperia para estudo de itens importantes. à seme- lhança das nossas novelas. pelas letras mediúnicas. ao cenário terrestre. ele ia ter características mais modernas. poeta e dramaturgo francês. Ao longo da história dos povos a intervenção dos Es- píritos é como um sopro forte agitando e despertando o homem para uma outra realidade. Entidades de elevada hierarquia espiritual orientam e inspiram esse intercâmbio. e. A mentalidade moderna não permitia mais as narra- ções antigas. Utilizando-se de Zilda Gama. desde que a "Voz do Sepulcro" o chamou para a seara espírita. O SEMEADOR DE ESTRELAS 89 Mais tarde. . ele conseguiu fazer um trabalho muito próprio também para a época em que vivia a médium. eu já estava mais adestrado e ele me disse que ia usar um tipo de literatura que chamaria de "sinco- pada". doutrinário. minuciosas. Em todos os tempos os fenômenos mediúnicos noti- ciam a interferência dos planos invisíveis na esfera ter- restre. do trabalho. a fim de corroborar e estimulá-lo o. estilo folhetim. Do Abis- mo às Estrelas. em que o autor ga- nhava pelo número de frases e quanto mais rendia. Agora. Hugo então me explicou que iria fazer obra doutriná- ria. quando veio escrever outro livro. não conhecesse a Dou- trina Espírita.

explica e comprova. a Fènelon. que a Doutrina Espírita desvenda. A solidariedade que as liga funda-se na identidade de sua natureza. desvendando a trajetória do Espírito através dos evos. solidária. pelos canais da mediunidade. pode-se inferir o quanto são sábias e justas essas Leis Divinas que regem a vida de todas as humanidades. como a demonstrar uma planificação de ordem divina. avançam pelas sendas do progresso nas estradas cósmicas. que se uni- versaliza quanto mais conquistam em evolução. permanecem. guiando e inspiran- do o ser humano. num processo in- teragente. Espíritos Superiores. Pas- cal. todos estes. Franklin e Swendenborg. Através desse conhecimento que ela nos faculta. Na gigantesca espiral evolutiva os Espíritos nascem e renascem em incontáveis orbes e. os sagrados liames do Amor. todas as Almas estão unidas por múltiplas relações. mantendo. Erasto." A Terceira Revelação. na similitude de seus destinos e de seus fins. a fim de manter o homem em contato permanente com os grandes gênios da Humanidade. na igualdade de seus sofrimen- tos através dos tempos. a fim de que atinja os seus mais altos destinos. Há uma ligação permanente. que já adquiriram títulos de enobrecimento. na escala da vida. Por isso. retornam à Terra. promovendo-o.90 SUELY CALDAS SCHUBERT é parte dessa grandiosa e eloqüente programação da Espi- ritualidade Maior. . No advento do Consolador. empenham-se em prosseguir au- . para só citar alguns. de maneira insofismável. a unir os homens. por exemplo. . em O Grande Enigma: "O Universo inteiro está submetido à lei de solidariedade. esses liames que mantêm. Afirma Leon Denis. a todos os seres pensantes. como viajores do tempo. todavia. ( . ) De igual maneira. indo de Sócrates e Platão aos Evangelistas. porém. as almas ligadas à Terra. in- teressados no progresso. deixa entrever. A fa- lange do Espírito da Verdade é integrada por vultos que se notabilizaram desde a Antigüidade até a Idade Moderna. muitos de seus filhos mais ilustres em todos os campos do saber humano.

dando-lhes as mãos do socorro e do amparo. O escritor espiritual. Párias em Redenção inicia essa série. deseja marcar a sua volta pelos canais da mediunidade. Com abnegação e renúncia dão sinais de suas presenças. Victor H u g o es- creve. Vem falar aos que estão na liça terrestre. Em 1985. o seu ta- lento e estro. retornam sempre. após um pe- ríodo de silêncio nas letras mediúnicas. transmitindo ensinamentos e manten- do vivos os laços do afeto. também. primeiro através de Zilda Gama e hoje. então. e comemorar. através de Divaldo. porém. vencendo o aparente silêncio dos túmulos. ou. que foi sua filha na última encarnação. que medeia entre um e outro médium. Não se sabe o que é mais admirável: se o fato inusitado de um gênio como Victor Hugo retornar do além para pros- seguir escrevendo. Por isso. . quando. Este é o quinto livro ditado pelo famoso romancista ao médium baiano. mas. da melhor forma. E mais que isto: almeja deixar nessa primeira obra psicográfica de Divaldo. Escritor fecundo. pelas provas inequívocas de seu elevado amor à Humanidade. pelas mãos me- diúnicas de Divaldo Pereira Franco. fazem ouvir as suas vozes. exatamente no dia 22 de maio. O SEMEADOR DE ESTRELAS 91 xiliando os que estão na retaguarda. Hugo retorna. pelo patriotismo. ao se completarem os cem anos de sua desen- carnação. no ano de 1971. Victor Hugo fez-se amado em seu país natal não apenas pelo seu genial talento. a possibilidade que temos de tê-lo conosco nessas páginas de luz que a me- diunidade proporciona. Por isso. o centenário de sua permanência no Mundo Maior. Victor Hugo retorna. primeiramente através da mé- dium Zilda Gama. pelas lutas em prol da liberdade e dos direitos humanos. que expresse. o sinete de autenticidade. ele próprio. intitulado Árdua Ascensão. também. em Paris. a página de apresentação do seu mais recente livro. como figura humana que se distinguiu pelo caráter.

reali- zou um excelente estudo comparativo. que Victor Hugo desejava colocar um prefácio filosófico que estivesse à altura da obra. Menciona Camargo Ribas: "O Autor não pôde. Prossegue Camargo Ribas: "Victor Hugo usa na obra psicografada palavras que determinam uma igualdade de pensamento. . mas nunca lera. agora por via medúnica." Premido pelo editor. de Ponta Grossa ( P R ) . Até a palavra inicial é a mesma. intitulando-o "Elucidações". algumas linhas que esclarecem. alguns outros pontos. em Salvador. Ressalta o Professor Camargo Ribas. que é usada quatro vezes em Os Miseráveis e cinco em Párias em Redenção. sabe apenas que foi escrita por Hugo. o prefácio de Párias em Redenção. no prefácio de Párias em Redenção retoma a mesma linha de pensamento — como a dar continuidade — do prefácio que escreveu.92 SUELY CALDAS SCHUBERT Assim. o editor cortou-lhe o desejo e publicou a obra com um prefácio mui pequeno. mais parece uma epígrafe. no limiar da narrativa. no qual estaria "o mundo e em particular o século X I X " . quando encarnado. calcada em cima daquela que o Autor Espiritual havia colocado no pórtico de sua mais famosa obra — Os Miseráveis". so- bretudo. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. elucidando. pois são apenas treze linhas no meio da página inicial do romance fadado a atravessar os séculos e se tornar um marco no mundo literário. publicada em 1862. No seu retorno. muito menos a teve em suas mãos. Hugo se contentou em inscrever. o Pro- fessor Ulisses Camargo Ribas. Hugo dita a Divaldo em 2 de junho de 1971. como se continuasse nesta o que ficou omitido naquela. para a sua magistral obra Os Miseráveis. o sentido social. conforme escla- recimento de o tradutor de Os Miseráveis. inclu- sive. conforme acentuou o Professor Camargo Ribas "uma nova epígrafe. Segundo tem-se do médium é que não conhecia e nem co- nhece a obra Os Miseráveis. Sobre essa identificação de pensamento e estilo. que é.

sobre os párias morais. livros como este não serão inúteis'. afirma Victor Hugo. . ." Esta particularidade apontada pelo professor paranaen- se. pelo canal mediúnico. atesta o desejo do autor de identificar-se e de dar conti- nuidade à sua obra. apenas nos dois prefácios men- cionados. . diz Victor Hugo no prefácio de Os Miseráveis. social e econômica estabelecerem a revolta das massas. O grande escritor francês. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 93 "Há um detalhe mui interessante e marcante (continua o Professor de Ponta Grossa). portanto. termina o seu prefácio assim: ' ( . no prefácio de Párias em Redenção. hoje. esquecidas do papel sublime do Crucificado. (grifos no original) "As duas frases finais destes prefácios — explica Ca- margo Ribas — têm o mesmo significado. ) enquanto sobre a terra houver igno- rância e miséria. lutarem pela supremacia nos ce- nários do mundo. mas existe também no tema. Espírito. Hugo analisa as questões sociais através da visão evolutiva do ser. Franco. como Espírito. livros como este serão ne- cessários'. na atua- lidade. já que. ao seu tema favorito e escrever. página 9. "Livros como este não serão inúteis". . está escrito na altura das linhas 19 e 20: ' ( . A identi- ficação não está. da maneira de escrever de Victor Hugo. Na obra psicografada pelo médium Divaldo P. ) enquanto as religiões. sintonizado e sensibilizado com os problemas que avassalam o ser humano — proble- mas que persistem através dos tempos e que o inspiraram a escrever sobre os miseráveis sociais — os quais. que . na obra Os Miseráveis. que tem agora uma conotação diferente. o fazem retornar. pois. sendo que a de Os Miseráveis é uma negação que afirma e a da obra psico- grafada é dita diretamente numa afirmativa. e a miséria moral. na sua "Elucidação". produzindo o conciliá- bulo do crime com a insensatez. "Livros como este serão ne- cessários".

o mesmo significado. por Divaldo Franco. na ânsia de ter. o autor espiritual expressa de maneira magistral a redenção do ser humano. tão carentes e marginaliza- dos quanto os que tratou em vida. em sua escalada evolutiva. Através de Zilda Gama escreve Do Calvário ao Infinito e. Reduzido à condição de extrema miserabilidade moral o homem vai encontrar o bendito ensejo de se redimir. . o que o fará emergir. as mesmas neces- sidades e carências a impulsionarem o homem e a fazê-lo malfeitor. Os miseráveis são agora os párias em redenção. de conseguir. dita Do Abismo às Estrelas. que têm o mesmo sentido.94 SUELY CALDAS SCHUBERT se processa no transcurso das reencarnações sucessivas re- gidas pela lei de causa e efeito. Victor Hugo esparze a força do seu gênio nessas pá- ginas que a mediunidade proporciona. E mais que isto: exprime o anseio do homem de se projetar no infinito. Falta-lhe o pão à mesa das necessidades morais. de alcançar o rumo das estrelas. retratando ainda o drama dos desas- sisados morais. na sua obra mais famosa. Nesses dois títulos. simbo- lizados em alguns personagens. final- mente. de vencer. A sôfrega busca pelo pão ainda continua.

11 AMÉLIA RODRIGUES E AS HISTÓRIAS DO EVANGELHO - CICERONE EM ISRAEL Amélia Rodrigues. depois. Joanna tinha outros planos. publicamos. um dia me disse: — Divaldo. não conte comigo. Se o senhor deixar transcrever a palestra. . o professor Carlos Pastorino. me inspirava nos primeiros tempos de pregação. que eu narrava nas palestras. o seu estilo vai ficar explícito. Foi a época das histórias do Evangelho. Pode deixar que eu faço todo o trabalho. nenhum comentário. nenhuma defesa. Mas. Então. reviso e. desen- carnada. pensei em transpor do gravador para o papel essas narrativas evangélicas. nesta vida. que assim seja. se alguém o agredir. eu pedi a Pastorino que esperasse mais tempo. Nenhum artigo. Ela me plasmava as cenas com tal beleza e realismo que eram como se estivessem acontecendo naquele instante. Se o senhor quiser. — O senhor não vai escrever. Ouvindo as palestras. Só lhe permito cartas. a insigne escritora baiana. nada de sua autoria — disse-me. poderá fazê-lo. mas.

numa paisagem do entardecer. ela plasmou. muito comovedor. porque. ante os meus olhos e a minha emoção — o doutor da Lei. voltei a ver aqueles vultos dos tempos evangélicos. Primícias do Reino. ela me informou: — Agora eu tenho a permissão de selecionar aqueles temas que pregamos juntos e escrevê-los em forma de men- sagens. que nós chamamos de "Recanto de Joanna". ao lado de João Batista —o precursor — Simão Pedro. porque muita gente ouviu estas páginas em forma de palestras. a Samaritana. antes que façam perguntas. Em 1981 eu fui a Israel. etc. menos Jesus. o moço rico. a um local da "Mansão". Diante deles. Zaqueu — o publicano. e. por essa época. a mulher hemorroíssa. Quando terminamos de psicografar Primícias do Reino. o paralítico de Cafarnaum. para bem o explicar. João — o evangelista — Maria de Magdala e muitos outros vultos que povoam os fastos do Evangelho e que fazem parte do livro de Dona Amélia. Maria e Lázaro — os irmãos de Betânia — como também os que foram curados: o obsidiado gera- seno. em desdobramento. Dona Amé- lia me levou. Ela me levou aos lugares que eu já conhecia pelas descrições que ela própria fazia e pelas cenas plasmadas durante as confe- rências que eu proferia. Desfilaram. já lhes daremos a resposta. de suavís- simas tonalidades que iam do horizonte róseo aos cambian- . entre árvores. Passaram-se os anos. Quando o livro ficou pronto. Assim. tal como sucedia no instante da psicografia ou das palestras. e o Es- pírito Dona Amélia Rodrigues foi a minha cicerone. em corpo espiritual. Aí. Foi o pe- ríodo de treinamento. nós o escreveremos a quatro mãos. por ideoplastia. as personagens que estão no Primícias. Assim surgiu o seu primeiro livro. Marta. Tiago. Joanna esclareceu-me: — O prefácio. entre outros.96 SUELY CALDAS SCHUBERT Durante dez anos Dona Amélia me inspirou. Houve um fato.

pág. plasma instantaneamente as cenas que a sua própria mente rememora. já que Amélia Rodrigues é profunda conhece- dora dos ambientes e. o mais belo livro de mensagens evangélicas da literatura mediúnica es- pírita. não apenas as assiste. este. em nossa opinião. porém. "A vontade não é um atributo especial do espírito. se é dado ao médium a possibilidade de vê-las. quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido." Allan Kardec. A integração e vivência dos tempos evangélicos é tão presente e marcante na vida da autora que ela. — ("Revista Espírita" — 1864. Esses "respingos históricos". ao descrevê- los. seja nas palestras inspirando ao médium. prosseguem em todo o livro. 352) Primícias do Reino é. Essas criações fluídicas são realmente impressionantes e. ainda. Mas se tem a força de agir sobre os órgãos materiais. A sua importância ressalta logo às primeiras páginas quando Amélia Rodrigues apresenta um escorço histórico sobre a Palestina. Dona Amélia fez. Foi uma das visões mais lindas e como- vedoras da minha atual existência. é o pensamento chegado a um certo grau de energia. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 97 tes de um azul profundo da imensidão sideral. . possibilitando ao leitor um painel muito bem delineado do período e dos locais onde viveu Jesus. seja na psi- cografia. uma prece gratulatoria. é o pensamento transformado em força motriz. como também (por certo por impregnação vibratória e por entrar na faixa dessas freqüências) sente-se como participante delas. partícipe de muitos dos fatos narrados. entre cinti- lações das primeiras estrelas. então. ditando-os.

Em Devassando o Invisível. Sua pala- vra. então." C o m relação a outro livro seu.98 SUELY CALDAS SCHUBERT Em nossos modestos trabalhos como médium temos tido a feliz oportunidade de presenciar algumas dessas cenas fluídicas elaboradas pelos Benfeitores Espirituais. efeito. sem todavia vê-lo. a história sob o irresistível in- fluxo do grande Charles. portanto. por exemplo. Yvonne informa: "Desenrolou-se. e diz a certa altura: "Entrementes. Nós nos víamos presente em todas as cenas. o transportam para a cena e o fazem tornar-se presente a ela. Sentíamos. porém. as emoções e impressões que as personagens deve- riam viver. ecoando em nossas sensibili- dades. a nós impossível de descrever. ela men- ciona como foi a recepção da obra "A Tragédia de Santa Maria". forte e dominadora. sem contudo. Yvonne Pereira. ao que julgamos inédito sobre a Terra. Quando isto ocorre a emoção é indescritível. Amor e Ódio. esclarece-nos a respeito do assunto em alguns de seus livros. como se raios de sol puríssimo ilu- minassem a transparência branca. permanecendo as mesmas emoções como que impressas em nosso ser. as visões do drama que então nos eram fornecidas decorriam em ambiência branca. perder nossa atual perso- nalidade. drama. mes- clada de tons dourados. cuja mediunidade realmente admirá- vel legou-nos preciosas obras de elevado padrão doutriná- rio. reper- cutindo no médium. seqüên- cia admirável de uma realidade incontestável. incomodando-nos mesmo. Exata- mente pelo fato de que esses painéis fluídicos são como que carregados por parte das vibrações e emoções dos persona- gens que os vivenciaram. fatos. qual espectadora muda do imenso drama. que a "narrou" e cuja "voz"ouvimos sempre. São essas vibrações que. afligin- . tornou-se vida. cenas. cujo autor espiritual é Bezerra de Menezes. e como se todas as cenas e panoramas fossem desenhos delicadís- simos. lucilante. a se movimentarem em cenários celestes. ditado por Charles.

advertências e lições para o medianeiro. "assistir" às cenas e tornar-se partícipe delas f o i também. . as quais. Especialmente para o médium psicógrafo ou psicofô- nico. Essas visões constituem-lhe grande sofrimento e um treino bastante difícil para que se mantenha sereno. utilizada por Dona Amélia Rodrigues. ao l a d o da profunda f e l i c i d a d e de "vivê-las". Essa notável possibilidade da criação desses cenários e revivescência de episódios verídicos é uma preciosa fonte de riquíssimas experiências para o médium. muitas vezes. Ao contrário. o que é uma tortura moral muito intensa. É preciso muita firmeza e equilíbrio para conse- guir-se que tais cenas se apaguem da mente. porém. sobretudo. a fim de poupar o médium. uma técnica auxiliar das palestras. equilibrado e. Geralmente. não é dado ao médium ter somente visões de beleza transcendental. O SEMEADOR DE ESTRELAS 99 do-nos. quando há projeção dessas cenas deprimentes. até que a obra foi escrita e terminada." (grifos no original) Contudo. Como também exis- tem casos em que tais lembranças permanecem como a servirem de treino. Para Divaldo. são-lhe muito freqüen- tes as cenas fluídicas projetadas pelas mentes desequili- bradas. ele assiste. para aprender a desligar-se delas entrando em sintonia com as faixas vibratórias da harmo- nia e da paz. os Benfeitores Espirituais providenciam para que isto se dê.

no mês de janeiro. que foi um beletrista famoso. No ano de 1970. permanecendo confiante em Deus. havia trabalhado na União Espírita Baiana. apareceu-me o Es- pírito Manoel Philomeno de Miranda. Eu era muito jovem e. atual Federação. tendo exercido vários cargos. Chico Xavier psicografou para mim uma mensagem ditada pelo Espirito José Petitinga. dizendo que. Guardei as mensagens. se dedicava à escritu- ração mercantil. bebi nelas a inspiração. Quando chegou ao Mundo Espiritual foi estudar em mais profundidade as alienações por obsessão e as técnicas correspondentes da desobsessão. Fora uma pessoa que. e no próximo encontro uma outra ditada pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. dedicando-se. amigo íntimo de Carneiro Ribeiro — que também se notabilizou pela réplica e tréplica com Ruy Bar- bosa — ele. tendo convivido muito com Petitinga. com vistas a uma . no ano de 1950. houvera aprimorado os conhecimen- tos lingüísticos que levara da Terra. especialmente à tarefa do estudo da mediunidade e da desobsessão. Miranda. um gran- de latinista. Mas. portanto afeito a uma área de informações de natureza geral sobre o comércio. como é compreensível. na Terra. fiquei muito sensibilizado. no mundo. 12 MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA - UMA BIBLIOTECA ESPIRITUAL Numa das viagens a Pedro Leopoldo.

no futuro. que fica sobre a cidade de Salvador. A "Mansão do Caminho" seria uma espécie de depar- tamento terrestre daquela comunidade. então. que existem inumeráveis colônias espirituais. das técnicas obsessivas e de desobsessão. e aí. ao escrever uma carta para sua filha Elza. no Mundo Espiritual. Depois de uma convivência de mais de um mês. quem. culturais. começou a escrever Nos Bastidores da Obsessão. desencarna- da em 1952. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 101 programação de atividades para a Doutrina Espírita. onde re- side. para reunir os desencarnados pelas suas afinidades lingüísticas. na referida obra. . re- fere-se à sua estrutura que faz lembrar muito "Nosso Lar". a fim de que haja o natural processo evolutivo porque. como foi fundada. e todos o sabemos. Levou-me a uma reunião. Chico Xavier disse-nos. acredito. Ao me aparecer. revelou-nos acerca de uma colônia espiritual chamada "Re- denção". religiosas. pela primeira vez. como existem milhares de cidades terrestres. ele ficou quase trinta anos realizando estudos e pesquisas e elaborando trabalhos que mais tarde iria enfei- xar em livros. como não há vio- lência na Lei. que são relatos. até hoje. Agora. todos esses fenômenos ocorrem tranqüila- mente e são lentos. para trazer o seu contributo em torno da mediunidade. da obsessão e desobs- sessão. um esclarecimento: foi Dona Otília Gonçalves. a primeira diretora da "Mansão do Caminho". pela mediunidade. em torno da vida espiritual. apare- cendo-me diariamente. Escreveu o Além da Morte explicando que ali se deteve para o refazimento e permanecendo. Ela descreve. mostrou-me como eram realizadas as experiên- cias de prolongamento da vida física através da transfusão de energia utilizando-se do perispírito. para facilitar o intercâmbio psíquico entre ele e mim. Convidado por Joanna de Angelis. disse-me que gostaria de escrever por meu intermédio. narrando as impressões que tivera ao desencarnar.

À medida que a mente. sofrido. ao abrir-se o livro. Mostrou-me como são arquivados os trabalhos gráficos que se fazem na Terra. para ajudar a sociedade. elaboram cenas de- gradantes e deprimentes. as letras adquirem uma vibração musical e se transformam em verdadeiros can- tos. escreve algo que beneficia a Humanidade — no caso do escritor — é um profissional. exceto àquele que se familiariza com essas idéias e se compraz nelas. traduzindo a nobreza do seu conteúdo. aqueles que. quando um escritor ou um médium. mas. mas ainda assim escreve com beleza. Se a pessoa. vê e capta os registros psíquicos de quando o autor estava elaborando a tese. as letras adquirem relevo e são de uma forma muito agradável à vista. seja quem for. nessa biblioteca. Em fichários que ficam em regiões menos felizes. no planeta. tendo uma peculiar luminosidade. 102 SUELY CALDAS SCHUBERT Na visita que Manoel Philomeno me permitiu fazer à Colônia em que ele se hospedava. mais desarvoradas. O oposto também é verdadeiro. nesses fichários muito sensíveis. vai elaborando. o que ele produz é edificante. Esses fichários. a vulgaridade) exsudam uma espécie de plasma pegajoso e nauseante. Disse-me que. nutrindo-se com tal tipo de energia grafada. nessa bi- blioteca fica inscrito. levou-me a uma curiosa biblioteca. . que dá um estado muito de- sagradável ao leitor. na Terra. em que a pessoa ouve. que captam a onda mental e tudo imprimem. o faz por ideal e estando num momento difícil. ao se abrirem esses livros. Quando a pessoa escreve por ideal e não é remunerado. simultaneamente vai plasmando lá. onde estão registradas as idéias que se vão transformar em roteiro de orientação ou de degradação da criatura humana. fazem muito lembrar as da Terra. aqui. E quando os livros são abertos (são os crimes. com um tipo de letra bem caracterís- tica. esquecendo-se de si mesma. ficam também registrados. porém. são a concupiscência. a criatura humana.

acima de tudo. como é lógico e compreensível. quando estamos desalentados e sofridos. que é o verdadeiro corpo do Espírito." (grifos no original) Manoel Philomeno de Miranda. há uma in- teressante comunicação do Espírito Mesmer. 155). . transmite-lhe a primeira "aula". na própria ação. o esforço. embora o esteja realizando por entre dores e lágrimas. as emoções com que foram elaborados. o vosso é que é uma imagem grosseira e muito imperfeita do reino de além-túmulo. que. Em vez de ser material e grosseiro. não desanimarmos e continuarmos as nossas ta- refas. Para cada obra escrita existe o seu correspondente no plano espiritual. que a certo trecho diz: "O mundo dos invisíveis é como o vosso. de 1865 (pág. a sua gratificação. como o vosso se forma de coisas mais palpáveis. tirado desses meios moleculares. levan- do-o a conhecer a colônia espiritual onde reside. já tem. a renún- cia e. materiais. mas. ao se aproximar de Di- valdo para o necessário período de afinização. especialmente. o do prazer. para tornar real algo que gostaria que acontecesse. regis- tra. da natureza do perispírito. antes de iniciarem o trabalho mediúnico de psicografia. o que lhes dá um valor muito maior. Entre tantos informes esclarecedores. tangíveis. é fluídico. O mundo dos Espíritos não é um reflexo do vosso. a tenacidade. Divaldo destaca a biblioteca onde estão registrados e arquivados os traba- lhos gráficos elaborados pelos encarnados. se assim nos podemos expressar. o desportivo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 103 Eis por que vale a pena. não apenas os textos. etéreo. Na "Revista Espírita". enquanto o de sacrifício e de so- frimento exige a abnegação da pessoa. Porque o tra- balho diletante.

Mesmo não sendo um fenômeno mediúnico na acepção da palavra e ainda que o autor não seja médium ostensivo. as emoções e vibrações corres- pondentes. como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. sempre estará acompanhado por Entidades que têm interes- se naquilo que escreve. pri- meiramente. os homens têm uma parcela da vida espiritual. não somente expressarão e registrarão essas intenções. modificándo- se pela pureza ou impureza dos sentimentos.104 SUELY CALDAS SCHUBERT Informa Allan Kardec. Sendo esses fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as propriedades. de maneira geral. mediúnico ou não." Prossegue Kardec: "Sendo apenas Espíritos encarna- dos. muitas vezes. que escrevem sob o influxo de uma força que parece brotar do mundo íntimo — denominada inspiração — de certa forma inex- ." Nesta mesma obra. no estado de vigília. item 14. o Codificador es- clarece: "Tem conseqüências de importância capital e direta para os encarnados a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. "Basta que o Espirito pense uma coisa para que esta se produza. seja para o lado negativo ou positivo. como basta que module uma ária. durante o sono e. Os escritores alegam." (item 18) Assim. como também atrairão para junto do autor aque- les Espíritos que se afinizam com a onda mental que o tipifica. es- critos com intenções edificantes ou com sentimentos de per- turbação e de desequilíbrio. em A Gênese. uma página ou um livro. é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar. no item 16. São tais Entidades que o inspiram. para que esta repercuta na atmosfera. visto que vivem dessa vida tanto quanto da vida corporal. capítulo X I V . Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais.

no momento do sono físico. mas. seja provocando-a. e com todo esse acervo pessoal é que produz as suas obras literárias. ao fim do qual o escritor se sente exaurido. como que um estado febricitante de escrita. lhe fogem. em regiões próprias ao estágio evolutivo em que se demora. em desdobramento espiritual. O processo ocorre da seguinte forma: o escri- tor tem o seu cabedal intelectual. ao passo que estes o inspiram e ajudam na estruturação das idéias e na ação de escrever. A inspiração é assim. a aptidão literária. Há. extravasando. a bagagem de conhecimentos desta e de outras encarnações. velozes. também exultante por ter realizado o processo de criação intelectual. . mais tarde. se não conseguir passá-las para o papel. e que. Não se trata aqui. como um fluxo de idéias que acorrem à mente do escritor. quase sempre. então. irá ao encontro daqueles que lhe comungam os mesmos ideais e intenções. Junto a estes afins. aqueles Espíritos que se sentem afins com as idéias que estão sendo grafadas. Entretanto. o encar- nado absorverá idéias com as quais sintoniza e que brota- rão. É exatamente na eclosão dessas idéias que os Espíritos atuam. moroso demais em relação às criações mentais que se sucedem rápidas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 105 plicável para os que não têm conhecimento ou não aceitam a participação espiritual. Simultânea e naturalmente ha- verá uma identificação entre encarnado e desencarnados. tão intensa e com tal força que parecem não caber dentro de si mesmas. porém. transbordando através do pro- cesso da escrita. seja in- tensificando o fluxo dos pensamentos. das construções mentais. a par disto. motivando-a. em forma de inspira- ção ou "insight". por sintonia vi- bratória. É que o homem encarnado. de afirmar-se que o escritor não tenha o mérito e a capacidade de ser o autor daquilo que escreve. Um outro ponto deve ser considerado. de uma forma estuante. que é. no dia-a-dia terreno. às vezes. atrairá.

Com aqueles que se empenham no mal. mais funestas do que as que professam entre vós". C o m estes viajam. vão para junto dos seres que lhes são superiores. quando volvem. o autor explica as técnicas de transfusão de energias ao perispírito. que os homens de bem "quando dormem. Quando dorme." Explicam. mais ignó- beis. conversam e se instruem. Grilhões Partidos. de diversos autores espirituais. onde os chamam velhas afeições. Neste.106 SUELY CALDAS SCHUBERT Em O Livro dos Espíritos. ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. Allan Kardec. . Trabalham mesmo em obras que se lhes deparam concluídas. nos vícios. o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. que é comumente chamado moratória. Vão beber doutrinas ainda mais vis. Nas Fronteiras da Loucura. O assunto do prolongamento da vida física (mencio- nado por Divaldo). "esses vão. então. ou a mundos inferiores à Terra. (questão 402) Manoel Philomeno de Miranda é autor de Nos Basti- dores da Obsessão. ao tratar da emancipação da alma. ele contribui com excelentes páginas geralmente enfocando a mediunidade ou apresentando es- tudos muito específicos sobre as alienações mentais. morrendo na Terra. Os casos de moratória no corpo físico acontecem seja por mé- rito da pessoa e/ou necessidade premente que prossiga por mais tempo no plano terreno. consta do livro Painéis da Obsessão. Painéis da Obsessão e Tramas do Destino. os processos obsessivos e a sua terapêutica. recebe dos Espíritos Superiores a seguinte resposta: "O sono liberta a alma parcialmente do corpo. ao mundo espiritual". todos psicografados por Divaldo. Em outros livros. enquanto dormem.

de interesses comuns e pelo amparo e orientação que dele temos recebido como aluna. . das primeiras letras. Ele é o Patrono das atividades que realizamos sobre mediunida- de e obsessão/desobsessão. por afinidades de trabalhos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 107 M a n o e l Philomeno de Miranda é-nos particularmente querido. que nos consideramos.

co- meçando a exercer a mediunidade. É uma tarefa muito séria e de alta responsabi- lidade. de tal forma que a sua atuação tornou-se muito dolorosa. respei- tável. quando me tornei espírita. mais eu me afeiçoava ao contexto do Espiritismo. a Entidade começou a dar-me uma assis- tência negativa. Nesse ínterim. a princípio de forma educada e depois com muita rispidez. Dizia que a solução para mim . se eu não seguisse as suas diretrizes ele terminaria por me destruir. no mar. Numa noite — eu tinha certas visões desagradáveis — então. quando eu contava deze- nove anos. 13 O "MÁSCARA-DE-FERRO" Até onde vai a minha lembrança eu sempre detectava a presença de uma Entidade. No rol das minhas lembranças. a pouco e pouco. vem-me à mente uma tentativa malograda de suicídio. um sacerdote romano. pois. sofri um desses fenômenos e ouvi uma voz me cha- mando e me hipnotizando.E prometendo que. ameaçando-me. com ares adversários contra mim. Nos momentos difíceis da minha vida ele esteve presente. Mas eu era muito jovem para entender essas sutilezas da mediunidade. que ser médium não é uma viagem ao país da fantasia. por afogamento. fui constatando. Passaram-se os anos e. à medida que se passava o tempo. numa atitude agres- siva.

de pijama e sem saber o que havia acontecido. que é muito vigilante. que o meu labor era com a religião tradicional. que não tinha o direito de me desviar dela. mas eu pros- segui. fosse qual fosse a justificativa. aquelas que estão vinculadas a mim. Quando eu ia saindo das águas. as mais dolorosas. percebeu o que estava acontecendo e me acompanhou. que nunca falta. eu sofria muito. amparado por ele. Esse Espírito criou-me injunções. Aquele foi um período amargo da minha vida. Eu saltei a janela e fui sendo arrastado pela indução hipnótica em direção ao mar. Fui entrando sob aquele fascínio. As primeiras ondas molharam-me os pés. Sempre tive muita vontade de estudar e havia feito o cha- mado artigo 100. Passaram-se os anos. Nilson. porque ele conhecia a interferência Divina. que corresponderia hoje ao supletivo do 1º" grau. provo- cando-me um choque e despertando-me. Nilson estava próximo. que era a vida física. e estava preparando-me para fazer o supletivo do 2° grau. Morávamos perto da praia. e. se destruísse o corpo. Ao dar-me conta da situação. onde estavam as pessoas que me amavam. que naquele tempo se chamava artigo 91. trazendo-me para a praia. Era madrugada e não havia ninguém por perto. porque. vi a Entidade. iria ser plenamente feliz. dizendo que me ma- taria. . até que as ondas bateram no meu rosto. o dos testemunhos. fiquei desesperado: ver-me com roupa dentro do mar. quando eu me lancei mar a den- tro. Nesse exato momento. Notou. não adiantava recalcitrar: ou eu abandonava o meu compromisso recebido com o Espiritismo ou ele me des- truiria. na Terra. atirou-se às ondas e me resgatou. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 109 — a única — seria destruir o corpo. quando ele me viu a debater e gritar. e que já era tempo de me libertar dessa canga difícil. Uma delas ocorreu à época em que eu ainda estudava. (Até hoje eu não sei nadar). Repetia que eu tinha deveres para com a sua antiga doutrina e que a estava conspurcando. com aspecto dominador. partiria para o Mundo Espiritual. orando.

Juntaram- se algumas pessoas. porque vi como os Espíritos podem. fiquei muito aturdido. e. eu tive uns cortes. em certas ocasiões. provocando um certo pânico e um grande susto. depois que me voltei de frente para o agressor. senão a de se render. mas. tinha a vida normal de uma pessoa que procura manter a dignidade. só nesta hora. enxuguei o rosto com o lenço e saí. então. depois do expediente no IPASE. um murro no rosto. Você me desculpe!" Houve uma confusão momentânea. desembaracei-me das pessoas. Recebi um golpe. e. Como de outras oportunidades. desde que o outro ou aqueles dêem margem. ou te matarei. quando alguém. para casa. Desci uma rua do Pelourinho. conversou comigo. tantas vezes. subitamente. imediatamente. em direção da Cidade Baixa. Esta bofetada me marcou muito a vida. quando eu ia a uma aula. Eu orava. eu o vi. e enquanto alguém me ajudava a levantar. que não terás outra alternativa. Chamou-me. mas. no meio daqueles rostos. desculpe-me! Eu tive a impressão de que você era o indivíduo que anda perturbando a paz de minha mulher e quis puni-lo. este me viu e notou a minha palidez. seguindo. caminhava tranqüilamente pela rua da Misericórdia. armar um indiví- duo para cometer um crime contra aqueles a quem detes- tam. Voltei-me. Eu residia muito distante do centro da cidade. voltei à normalidade. quando caí. julgando ser um colega.110 SUELY CALDAS SCHUBERT Em certa ocasião. ele disse: "— Perdoe-me. por passar seguida- mente pela porta onde um amigo tinha uma loja de calça- dos. e sempre me sugestionei que qualquer coisa que me sucedesse a minha primeira providência seria a de voltar para casa. Como é natural. me puxou pelas costas. já trabalhava . que é muito movimentada. es- tava tão atordoado que me perdi. que me lançou sobre uma vitrine de uma joalheria. ameaçou-me: — Vou humilhar-te de tal forma. entrando no processo de sintonia.

citando outro fato — do dia 14 de julho do ano passado. e a bondade de Chico Xavier sempre me agasalhou em seu coração generoso. em 1960. E começou a citar fatos (que eu passei a recordar). em Uberaba. quando você estava no Rio de Janeiro. eu tinha permissão de tomar parte como se fosse membro que residisse fora. foi tomada de cólera e provocou uma discussão. e no grupo de desobsessão. Naquele tempo. sem qualquer motivo aparente. cada vez mais. Sempre que estava na ci- dade. naquele dia — quarta-feira — eu me integrava na sessão. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 111 na mediunidade. eu es- tava em Uberaba. me disse como se estivesse a ler anotações: — Estou aqui com a sua ficha. foi quando esse mesmo Espírito que me vinha perseguindo se incorporou no mé- dium Chico Xavier e. Havia sido orador de uma turma de mé- dicos. à rua tal. porém. e vários Espíritos se comunicaram através dos diversos mé- diuns presentes. sofrendo então uma agressão de forma tão inesperada. quando uma pessoa que estava dialogando comigo. Chico Xavier participava das reuniões da Comunhão Espírita Cristã. que me chocou profundamente. no dia 13 de janeiro. . — Pois vou refrescar-lhe a memória. O momento culminante. participando dos trabalhos habituais. o ódio. Você se lembra do ano de 1955 quando foi a Apucarana. número tanto. por primeira vez? Eu não me lembrava. mas isto lhe açulava. num gesto de quem mete a mão no bolso e tira algo. que haviam sucedido naquela oportunidade. Fui à reunião. que eu procurei não dar prosseguimento. apartamento núme- ro tal? Eu me recordei de um incidente muito desagradável. na pregação. na cidade citada do norte do Paraná. — Recorda-se — prosseguiu. Posteriormente.

o carisma. quando retornasse à Terra. permanecendo com aquela impressão terrível. Eu sei que não destruirei. o dom. eu sentia respeito e consideração. exalta- do —. algo tímido: — Meu irmão. O que é impressionante — e grave — é que o Espírito falava com autoridade sobre mim. e evadi-me do lugar. enquanto eu fui recuando até à janela da sala. . a graça. A pessoa foi investindo contra mim. utili- zando-se de sofismas muito bem construídos. que por pou- co não me prejudicou a conferência nessa noite. não experimen- tando rancor. no Colégio Militar. desviando-me. O Espírito dizia com rudeza: — Fui eu quem incorporou essa pessoa para destruir- lhe a vida. com desejo de atirar-me de lá de cima — era o 12. para engrossar as filei- ras do clero. tais como: — A minha reação contra o Espiritismo tem funda- mento. mas com muita agressividade emocional. Eu venho hoje aqui para ter- mos um acerto. Passou a atacar o Espiritismo com muita nobreza de linguagem.112 SUELY CALDAS SCHUBERT Guardei a data por ser o dia da libertação. Apesar do ódio que ele destilava.º andar do edifício. Eu retruquei. — Você se comprometeu conosco — afirmava. mas aniquilarei o seu corpo e ficará do nosso lado. já não havendo mais para onde afastar-me e sentindo nos olhos da criatura como ela estava possessa. Com muita habilidade. e trai-nos vergo- nhosamente. da justeza do fenômeno espírita. o senhor é a maior prova da legitimi- dade. porque o senhor está incorporado num médium. deixando que esta concessão seja colocada no ridículo de um populacho incapaz de a compreender. eu fui saindo daí. a chamada Igreja militante. indo participar de uma doutrina abjeta. conversando comigo. na Tijuca. da Queda da Bastilha. porque o Espiritismo está barateando a mediunida- de. em si- lêncio.

porém. porque nós não barateamos a mediu- nidade. um sacerdote da respeitável religião. — Você. porém. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma em uma constelação de astros a iluminar os céus e a Igreja vai apagando a sua claridade. Como você consideraria. fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. é um instrumento dócil. incendiando tudo à sua passagem. de um lado para outro. preconizada por todas as religiões. apenas repetimos Jesus. na igreja tal. porque anda com o archote da fé. incapaz de competir com o po- der e a opulência da Igreja. jeras e o povo que aí foi para divertirse? A Eucaristia. arrepen- der-se. para nós. nós não a vulgarizamos. explicamos o fenômeno mediúnico a fim de facilitar as pessoas a se en- contrarem consigo mesmas. podem atreverse a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? Bem se vê que era um sofisma. meu irmão. entre palhaços. trazemos o fenômeno mediúnico. O SEMEADOR DE ESTRELAS 113 — Este manequim de quem me utilizo — respondeu. procure o sacerdote fulano de tal (cujo nome não devo declinar por- que ainda está encarnado). ou melhor. — Mas. aparentemente. prontamente —. tomar hábito e servir à causa da Verdade. o Espiritismo barateia a mediunidade. ele tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. Como os senhores. muito bem colocado. se eu. é a prova robusta da imortalidade da alma. é o mo- mento culminante da união com Deus. Vou dar-lhe uma determinação: retorne a Salvador. os espíritas. a Igreja Romana podia ser comparada a um holojote que projetava imensa claridade no céu enquanto ele era uma talisca de fósjoro acesa que se abria na treva. mas. ele usou de um outro argumento: — Quando o Espiritismo apareceu. Ao mesmo tempo. com quem mante- nho contato direto e apresente-se para confessar-se. . o senhor me desculpe. Todavia. é um desses responsáveis. a culpa não é do Espiritismo. buscando ilu- minar consciências.

Ele me liberta. O irmão de- veria voltar-se contra Aquele que me dirige. O momento é hoje e se você não voltar ao nosso compromisso. ele a chama e vai atrás. em grande parte. se o senhor se voltar contra Ele. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integração nesse trabalho ou não. exatamente. eu e o meu povo. eu fui convidado a um pesado testemunho. porque. Farei tudo por persuadi-lo. uma delas tresmalha ou se desvia. contra Ele eu não posso — retrucou — mas. a não ser que a perca em defi- nitivo. da oferenda de recursos e valores para você triunfar no mundo. eu não posso. que se concretizou. Ou retorna para o nosso seio ou lhe bateremos tanto de bordão. Eu sou um empregado a serviço de uma Nova Era. não tenho como me evadir da presença de Jesus. Não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. que. defrontará com a minha presença. sendo desmoralizado pelos seus correli- gionários e confrades. E me fez um prognóstico sombrio. com muito prazer. se for isso que aconteça. Utilizar- me-ei da bondade. pelo menos: — Ou aceita a minha voz — é o meu ultimato — ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. Não com- preendo por que o irmão se volta contra mim. aonde quer que vá. a zombaria. A verdade é que. Ele declinou o nome: J.S. o descrédito e tantas coisas que nos . a partir do dia 10 de junho de 1962 as provações me aguardavam: a ironia. veja bem (e utilizou de outro sofisma): O pastor está conduzindo as ovelhas. o meu compromisso é com Jesus. dois anos depois. Mas ele não a deixa. usa o bordão e ela volta ou morre. o desrespeito e o sofri- mento lhe estarão esperando. A comunicação alongou-se. Eu sou escravo. contra você eu posso. — Não. liberte-me dEle e eu passarei de mão. Por onde quer que eu haja passado. a humilhação. se você se obstinar. Mas. durante vários anos e até hoje ainda.114 SU ELY CALDAS SCHUBERT — Eu não posso. É o que farei com você. Mas se o senhor não me libertar dEle. Se não a alcança.T.

porque eu o conheço. como era natural. chegavam e se avizinhavam rudes. quase trinta anos de combate diário. portanto. mas você me venceu. ele me apareceu e o seu rosto me jazia lembrar a personagem do filme com a "más- cara-de-ferro". por volta de 1976. Um esclarecimento: comecei a chamar esse Espírito pelo nome de o "máscara-de-ferro". — Você mudou apenas de roupa. com algum atavismo clericalista. ele me reapareceu. eu já não sou aquela mes- ma pessoa. pela paciência. Aí. perdoe-me. nós estávamos impossibilitados de rece- . No dia da bofeta- da. Todavia. segui ao meu quarto. ele re- tornou e falou-me: — Vou deixá-lo por um período. Eu havia assistido a um fil- me. Você não me conven- ce. Passaram-se os anos. jovem ainda. sei das suas dívidas. temporariamente. quando cheguei a casa e entrei discretamente para que os meus pais e a minha irmã não me vissem. fazia muitos anos. . mesmo continuando as provas. na rua da Misericórdia. em circunstância muito dolorosa. só que o ferro estava como que incandes- cente. ajoelhei-me aos seus pés e lhe pedi perdão. chegou à "Mansão do Caminho" uma criança. . que eu. mas é a mesma pes- soa e eu o matarei. de assistência quase diária. pela abnegação. Anos depois. pelo trabalho que vem desenvolvendo na sua comunidade e em si mesmo. Anos depois. sob esta epígrafe. — O senhor me odeia tanto — disse-lhe — que deve ter um motivo muito forte para isto. não desanimei. Aquilo me impressionou de forma tal. Eu fiquei muito feliz. e. Certo dia. Dê-me uma oportunidade de reparação. as lutas e as dores. então. O SEMEADOR DE ESTRELAS 115 levam ao sofrimento. pela humildade. Várias vezes ele me apareceu com aquela expressão terrível. é claro.

. que está de volta ao corpo. de uma forma sublime. Foi o que eu fiz. o capítulo do "mascara-de-ferro". o véu do passado. agora. se Deus me der vida. Porque esta. demonstrando a excelência do amor e o poder da caridade. mentalmente: Como faria Jesus em uma circunstância destas? A consciência me disse que Ele a receberia. Nesta noite. de sofrimento e miséria.116 SUELY CALDAS SCHUBERT ber novos candidatos por falta de espaço e de recursos. menciona Divaldo. . A mediunidade enseja ao ser humano condições de le- vantar. Ensine-me. comovi-me e me lembrei de Jesus. já participa das nossas reuniões doutrinárias e me- diúnicas. de vez em quando. quase afável. assim. é a minha mãe. para aprender a amar Jesus. e. o que fazer. . emocionado: — Agora você me convenceu. Ele continua aparecendo-me. Perguntei-me. "Ser médium não é uma viagem ao país da fantasia". Encerrava-se. para re- ceberem a ajuda em nossa casa. na visão correta. gradativamente. e. dire- mos nós. defrontar-se-á com a verdade de sua própria vida. poder re- tornar e vir ainda receber o afago das suas mãos nessa sua casa. Ser médium é uma incursão ao país da realidade. Imediatamente convocamos os nossos colaboradores residentes e a criança foi encaminhada a uma das casas. Vendo a criança num tal estado de abandono. participando da vida em sua real dimensão. menos hostil. pois o médium. e isto será tanto mais consciente e preciso quanto mais aprimorada for a faculdade. hoje. apareceu-me aquele Espírito e me infor- mou. a quem aca- ba de receber. outros companheiros que têm o mesmo problema. de debilidade orgânica. Eu tenho que amar a quem vai ajudá-la na sua tarefa de reden- ção. traz outros correligionários.

a via direta para esses reencontros. somente encontrasse amigos e pessoas bondosas. de modo ostensivo ou oculto nas som- bras. com requintes de planejamento e com tal desfecho. os problemas. calculada. Vivemos na Terra de nossas penitências. acostumou-se. não pro- tege. o assédio contrá- rio — tudo isso já sabíamos existir a acompanhar-lhe os passos. as lutas ingentes. Este é bem o chão dos penitentes e não há como fugir a essa realidade viva e palpável de nossos reencontros com aqueles que são os partícipes de nossa jornada terrena. Entretanto. por excelência. que é parte da vida de Divaldo. seria des- conhecer a situação do homem no mundo. neste relacionamento. por certo. A aptidão mediúnica é. Sua influência em muitos acontecimentos foi marcan- te e inequívoca. os sacrifícios e renúncias. deixando sempre sinais indicativos de sua proximi- dade. não defende o seu médium desse adversário soez? Não. a conviver com os habitantes do Mundo Espiritual. o conhecimento dessa perseguição sem tréguas. Através da mediunidade abre-se a porta da vida verdadeira e o médium passa a detectar os seus compromissos próximos e remotos. A esta altura. O SEMEADOR DE ESTRELAS 117 Divaldo Franco. Supor que. por decênios. realizada de maneira fria. Não instrui. de cedo. a nortear os passos do mé- dium baiano nas tarefas doutrinárias. imaginar. ela é uma presença amiga. Quantas e quão belas lições extraímos desse extraordi- nário relato. Ao longo de mais de trinta anos esse sacerdote esteve ao lado de Divaldo. tanto quanto relaciona- se com os do plano físico. várias indagações afloram à mente do leitor. é uma surpreendente revelação. mãe e Mentora. E Joanna de Angelis? Tanto quanto se sabe. As altas e graves responsabilidades. Deixa-o defrontá-lo porque sabe o quanto é essencial que ambos resolvam e acertem as . que ninguém poderia. não o faz diretamente.

118 SUELY CALDAS SCHUBERT pendências do passado. que aquele que inicia a esca- lada torna-se a l v o preferido dos que ainda se demoram nos vales. ele tem possibilidades decisivas de vencer. Mesmo no meio espírita. agora. pois costuma-se pensar que aquele que se dedica ao bem. A experiência. Ela sabe que. precisa vivenciar todas essas experiências libertadoras. Ela está cônscia de que Divaldo. julgando que lhes cabe o papel de arredar da estrada humana todas as pedras e obstá- culos. porém. minimizando os conflitos. * * # Outra questão que surge: será então uma obsessão? Estaria Divaldo sofrendo um processo obsessivo por tão . que deveria ser assim um passeio feliz no campo da fantasia e da ilusão. Todavia. dos Espíritos protetores. favorecendo e facilitando a caminhada. quantos julgam ser da com- petência de seus Guias e Mentores o afastamento de lágri- mas e sofrimentos e de quaisquer testemunhos provacio- nais. o entusiasmo e a fé. quando há empeços e os problemas aumentam. que é médium e exercita a sua faculdade nas reuniões apro- priadas. Muitos confundem as tarefas e missões dos Guias Espi- riuais. amparan- do e dando forças ao médium. quando a vida se torna difícil. esmorecem. Quando a coisa não vai bem. Por isso permanece no seu posto de sabedoria e amor deixando que ambos vivenciem todas as etapas desse notável esquema de redenção. a partir do reencontro de corações. está livre de doenças e dores. Evidentemente. permanece zelando durante todo o tempo. do exercício sublime do amor e do perdão. Ela bem conhece todo esse ingente processo de conquista. que se faz. dentro de sua atual programação. vem provar através dos tempos e dos próprios ensinos de Jesus. que freqüenta o Centro Espírita assiduamente. não raro. para que não lhe arrefeçam o entusiasmo e as energias. está vacinado e imu- ne aos assédios negativos. não pode e não deve interferir. que persevera nas atividades.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 119 I largo tempo? E nesse caso. era bem este: o da obsessão por subjugação. como pôde executar a sua ta- refa? Allan Kardec define. aquecido e alimentado por uma fé vibrante e segura — que ele próprio. portanto. durante todo o período de sua convivência ao lado do médium. não o suficiente. Seu projeto. capítulo 23. em memorável comunicação. parte do plano desse temível adversário. arruinar os novos ideais que o alimentam. item 237. fortalecido por um labor incansável no bem. Duas reencarnações de Divaldo o separam dessa época. muito bem urdido. para conseguir o seu intento não hesita nem mesmo em tentar trazê-lo para o seu lado provocando-lhe o suicídio. A cada tentativa de implantar em defintivo a sua onda men- tal no cérebro de seu desafeto a fim de teleguiá-lo. . Deseja o domínio total: submetê-lo à sua vontade. até então. o sacerdote desencarnado deseja. ins- talar neste o processo obsessivo. e. denomi- nou de archote da fé. no passado. A obsessão no seu aspecto mais grave era. um dia. Realmente. a cada investida dramática e dolorosa para derrubá-lo. trazê-lo de volta ao seio da Igreja a que ambos serviram juntos. este esca- pa-lhe das mãos. cuja brilhante inte- ligência e vasta bagagem cultural facilitavam a execução. iluminados por tochas bruxuleantes. em O Livro dos Médiuns. que procu- ram dominar". Nun- ca é praticada senão pelos Espíritos inferiores. o que é a obsessão: " ( • • • ) é o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas. Há um estra- nho fascínio na figura hedionda. afastá-lo da Doutrina Espírita. contudo. assustadora — como a evocar as ligações do pretérito. quase criança ainda. Divaldo o teme pela sua terrível aparência e porque lhe sente uma estranha ascendência. inexplicável. Quando muito jovem. sustentado pelas luzes que o Espiritismo propicia. os dias longínquos vividos entre as naves de altares e escuros corredores dos mosteiros. para desvencilhá-lo desses liames e compromissos.

pelas "ma- trizes' do passado. A Mentora permite. não mais se deixa influenciar. Há obsessor. frá- gil e quase indefeso. inexperiente. qual ocorre com os metais preciosos. dentro dos parâmetros comuns ao proces- so obsessivo. embora em alguns lances o algoz quase realize o seu intento. por momentos. O fato inicia-se com algumas visões. objetivando atingi-lo através de terceiros. Pelas suas características peculiares não pode. Jovem. como no caso do quase suicídio no mar. Nos primeiros tempos. Posteriormente. durante a noite. que se utiliza da hip- nose.120 SUELY CALDAS SCHUBERT Essa perseguição constante e prolongada apresenta uma perspectiva nova e interessante no estudo das relações entre os encarnados e os desencarnados. já amadurecido e tarimbado na vivên- cia mediúnica. que pressupõe a sintonia mental plenamente identificada. de passivi- dade ante o comando mental que o constringia. mas não existe obsidiado. ser classificada como obsessão. Pode-se imaginá-lo. O QUASE SUICÍDIO O trecho inicial da narrativa sobre o "máscara-de-ferro" é também o mais chocante e pungente. de certa forma. provocadas pelo adversário espiritual. a fim de fortalecê-lo. desconhecendo a complexidade dos processos obsessórios. . inexperiente e pouco conhecedor da Doutrina e da mediunidade. vulnerável. o que vai acir- rar o ânimo do perseguidor que realiza investidas e agres- sões cada vez mais dolorosas. após a molda- gem sob altas temperaturas em que são fundidos. Divaldo teve momentos de cessão. deixando-se. o médium é quase levado também ao auto-extermínio. que se embelezam. carregando no imo da alma o trau- mático suicídio de sua irmã Nair. dominar mentalmente e obedecendo ao comando que o oprime. tentando assumir o comando da mente de Divaldo. É um momento dramático este. a rigor.

quando. Chegado o instante preciso atira-se às águas e resgata a quase vítima. em plena noite escura e não sabe nadar. providencialmente. a Misericórdia Divina vela e protege. O episódio marca profundamente a vida do médium. avisa-lhe que o seu compromisso com a Igreja perdura. Retoma o comando mental e. na certeza de que a Espiritualidade Maior não desam- para. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 121 Assim. Allan Kardec informa que o obsessor pode levar a sua vítima ao suicídio. * * # Em O Céu e o Inferno. alertando-o para a necessidade vital de uma vigilância inces- sante. na praia. de pronto. Mas. embora com atenuantes. Molha os pés nas primeiras ondas a se quebrarem ao seu encontro. . É madrugada. Dominador. repercute a voz persuasiva indicando a morte como o melhor caminho e solução para todos os problemas. guiado pelo instinto de sobrevivência. Avança um pouco mais. Já. provocando-lhe um choque que o desperta afinal. a fim de não cair novamente nas mãos de seu per- seguidor. Quan- to aos que conduzem alguém ao auto-extermínio. obstinado em seus propósitos. o irmão. Nilson. por pouco não consegue consumar o trágico plano. o anjo bom. o amigo. A praia está absoluta- mente deserta e ninguém poderia salvá-lo. o que não a isentará de responsabilidade. Nos ouvidos. mar a dentro. Está escuro ainda e a água fria a envolvê-lo não o des- perta. porém continua andando. esses res- ponderão como por um assassínio. atendendo à voz hipnó- tica. o pai. no cérebro. salta a janela e caminha para o mar. as ondas molham o seu rosto. está por perto. A agonia da situação é terrível e não entende. Está no mar. entra em desespero. como veio pa- rar ali. Divaldo o vê. Que deve abandonar o Espiritismo e ingressar de novo nas hostes religiosas a que juntos pertenceram. Vigia e ora. levanta-se do leito. é o que ensina O Livro dos Espíritos. Ameaçando-o de morte. frio.

. porque confere ao perseguidor a dominação completa sobre aquele que está sendo visado. "Pensamento e vontade — eis as duas alavancas de pro- pulsão ao infinito e. ( . que atua sobre a mente. Manuel Philomeno de Miranda diria. pela conquista de outros méritos. . ( . ) " E m todo processo hipnológico. o que equivale dizer que cada ser respira o clima da província em que situa os valores que lhe servem de retentiva na retaguarda ou que se constituem asas de libertação para o futuro.122 SUELY CALDAS SCHUBERT A técnica mais usada nesses casos é a hipnose. ( . a constância da idéia que se sugere naquele que a recebe. os dois elos de escra- vidão nos redutos infelizes e pestilenciais do "inferno" das paixões. conse- gue. ( . pela psicografia de Divaldo: "As ondas mentais exteriorizadas pelo cérebro mantêm firme intercâmbio em todos os quadrantes da Terra e fora dela. Lentamente a princípio tem início a penetração da vontade que. . a inspiração incidente. "Merece relembrado o conceito do Nazareno: 'Onde es- tiver o tesouro aí o homem terá o coração'. . com razões poderosas. Pensamentos atuam sobre homens e mulheres despre- venidos. aspirações. ) " N o fenômeno hipnológico há outro fator de grande va- lia que é a perseverança. em lacerantes conúbios dos quais nascem prisões e surgem alvarás de liber- dade. . ao mesmo tempo. se continuada. cons- tante. . . por onde transitam opiniões... mais tarde. . pois. termina por do- minar a que se lhe submete. embora os compromissos negativos de que padece. e a sugestão campeia vitoriosa aliciando forças po- sitivas ou negativas com as quais sintonizam. senão imprescindíveis para a consecução dos objetivos: a fixação da idéia invasora. senão contrabalan- . convém examinar a questão da sintonia e da sugestão. ) "Se o paciente é experimentado nas disciplinas morais. ) "A sugestão é. portanto. provocando a aceitação e a automática obediência. anseios.

são também de amor e misericórdia. os transeuntes que assistem a cena. Rapidamente todos se movimentam após os pri- meiros instantes de surpresa. a vítima e seu agressor. Divaldo levanta-se ajudado . O Senhor não deseja a punição do infrator. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 123 çar as antigas dívidas pelo menos granjear recursos para resgatá-las por outros processos que não os da obsessão. pleno de fé e amor. para a sua própria felicidade. possivelmente supondo ser um amigo. atra- vés da hipnose levar o médium ao suicídio. e recebe um soco no rosto. o que proporciona ao companheiro querido a retaguarda necessária. antes quer o seu reajuste à or- dem. na pessoa sensível e dedicada de Nilson." (Nos Basti- dores da Obsessão. Aturdido. que através dos anos permanece no seu posto. despreocupado. Repentinamente sente-se puxado pelas costas. vê um desconhecido — o autor da agressão — que lhe pede perdão pelo terrível engano. um conhecido qualquer. Caminha ele. indubitavelmente. "As Leis Divinas são de justiça. para o bem de Divaldo e dele próprio. que se quebra ante o impacto. pela rua da Misericórdia. Volta-se. a Espiri- tualidade Maior intervém. sem entender a ocorrência. a segurança essencial para o labor nas estradas do mundo. capítulo 4) * * * 0 inteligente e revoltado sacerdote tenta. no entanto. Espantosa e estranha cena que se desenrola como num filme. confuso. em direção ao colégio onde se prepara para o Artigo 91. Quase o conse- gue. mas. após o dia de trabalho no I P A S E . portanto. A AGRESSÃO NA RUA DA MISERICÓRDIA Algum tempo depois nova e desagradável surpresa aguarda Divaldo. Há um momento de confusão entre os que trabalham na loja. com tal violência que é atirado sobre a vitrine de uma joalheria. ao dever.

Ele ali está. sendo abordado por Allan Kardec em suas obras. traz também alguns cortes. capítulo V I . Acalenta idéias de vin- gança contra um possível rival que lhe assedia a mulher. suplicante. Arma o braço do desconhecido que passa. de O Livro dos Espíritos. Além do rosto contundido pelo mur- ro. Constrangido. principalmente. se possível for. usando-o como instrumento para agredir. representa. encontra novamente a presença daquele que o atormenta e. Em O Livro dos Médiuns. visto pelas costas. O homem vem a calhar para os pro- pósitos maléficos do perseguidor. a par de ser um atavismo. é Divaldo. Seu rosto re- corda-lhe o "máscara-de-ferro". o envoltório fluídico "tem a forma que o Espírito queira". Essa postura. * * * A aparência dos Espíritos é um assunto muito interes- sante. pelas ruas próximas. o vê novamente. então. dizem os Instrutores Espiri- tuais. esgotado e temeroso. um ges- to de humildade de quem pede perdão. impermeável a qualquer pedido de clemência. E. desfeito pelo brutal ataque. o que consegue com grande esforço. intitulado "Das Manifestações Visuais". Conforme exarado. dentre os rostos que o fitam espantados com o ineditismo do caso. tentando alcançar o lar. humilhar e até matar. conforme narra mais adiante. cai-lhe aos pés. contudo. o sacerdote irá intensificar as perseguições du- rante os anos porvindouros. Foi bem fácil fazê-lo supor que este homem. . E Divaldo o faz. ao vê-lo apavora-se com seu aspecto. naquela hora. a vítima de todo o enredo ouve em silêncio as ameaças da Entidade. personagem de filme. Extremamente plástico. na questão 95. Na solidão do quarto. Caminha. de joelhos. e en- fraquecido pelo difícil testemunho. Indiferente.124 SUELY CALDAS SCHUBERT por algumas pessoas. o perispírito é "o princípio de todas as manifestações". o tema é bastante detalhado pelo Codificador.

ele se mostrará estropiado. esclarece Kardec: "Podendo tomar todas as aparências. é preciso também que encontre a neces- sária aptidão na pessoa a quem deseja fazer-se visível. item 100 — 21 a 26) Nas aparições. se isso for necessário à prova de sua identidade. especialmente nessa narrativa é freqüentemente "visitado" pelo seu adver- sário que se faz visível. lê-se: "Como pode o Espírito fazer-se visível? "O princípio é o mesmo de todas as manifestações. ) "Freqüentemente. O SEMEADOR DE ESTRELAS 125 Como se sabe. Freqüentemente surge com o aspecto de sua última encarnação. Reside na maior ou menor facilidade que tem o fluido do vidente para se com- binar com o do Espírito. que os Espíritos zombe- teiros podem aparecer com chifres e garras se assim o qui- serem. o Espírito se apre- senta sob a que melhor o faça reconhecível. ou asas. em estado de vigilia? "Depende da organização física. mostram atributos característicos da elevação que alcançaram. um assassino com um punhal. o Espírito toma a forma que deseja. Divaldo vê os Espíritos e. que pode sofrer diver- sas modificações. Sobre este ponto. Em O Livro dos Médiuns. ao sabor do Espirito. ao passo que outros trazem sinais indicativos de suas ocupações terrenas. embora como Espírito nenhum defeito cor- póreo tenha. com cicatrizes. os que possam ser tidos por anjos. apresentando características pessoais que o identifiquem. . fe- rido. Assim." O Codificador elucida. re- side nas propriedades do peripírito. portanto. um guerreiro aparecerá com a sua armadura. etc. para o homem. ainda. como uma auréola." "De que depende. Assim. um sábio com livros. a faculdade de ver os Espíritos. Assim não basta que o Espirito queira mostrar-se. . ( . se tal é o seu desejo. corcunda. coxo." (Capítulo V I . .

de uma vez por todas. neste caso. é semelhante à do personagem de um filme. Ele não apenas ouve. mo- tivos e intenções dessa perseguição sem tréguas. das quais ele se diz o agente provocador.126 SUELY CALDAS SCHUBERT A aparência assumida pelo sacerdote. a comunicação mediú- nica desse sacerdote. no caso em foco. A COMUNICAÇÃO M E D I Ú N I C A A T R A V É S DE CHICO X A V I E R Notável. Um impressionante desfile de fatos passados. É evidente que a comunicação mediúnica. espontânea. Citações são feitas com precisão de datas e locais. Divaldo o vê falando através do médium mineiro e pela primeira vez toma conhecimento de todos os detalhes. Por que conversar através de um médium. sob todos os aspectos. É evidente que esta foi a melhor maneira encontrada por ele para amedrontar o médium. "o máscara-de- ferro". Divaldo tem o ensejo de con- versar com o seu adversário por intermédio da mediunidade do Chico. representa uma comprovação admirável de todo o sofrido relacionamento existente há vários anos. É o seu perseguidor implacável que. de lem- branças e de sofismas acontece então. não se pode deixar de reconhecer a beleza do fenômeno mediúnico que se desenrola ante seus olhos com a força da autenticidade e das vibrações e liames que os unem. em Uberaba. se já havia um permanente contato entre ambos? É a pergunta que surge. através do nosso querido Chico Xavier. Em 13 de janeiro de 1960. põe "as cartas na mesa". mas igualmente o vê e lhe sente as vibrações. Usando um belo sofisma. É possível imaginarmos a emoção e a surpresa com que Divaldo acompanha tais afirmativas. afirma: . rememorando ocorrências difíceis. Por outro lado.

os espíritas. "Como você consideraria — prossegue ele — se eu. aos menos cultos. A uma observação de Divaldo. Prossegue. a Igreja Romana po- dia ser comparada a um holofote que projetava imensa cla- ridade no céu e o Espiritismo era uma talisca de fósforo acesa que se abria na treva. de que a Igreja tem conhe- cimento da mediunidade e que esta deveria permanecer nos círculos restritos de iniciados. é o momento culminante da união com Deus. Um sofisma que realmente impressiona e poderia con- fundir os menos experientes. O SEMEADOR DE ESTRELAS 127 "O Espiritismo está barateando a mediunidade. O intercâmbio mediúnico seria o instante sagra- do da eucaristia. dizendo: "Quando o Espiritismo apareceu. visto que conhece o seu trabalho. Que a sua propagação. da acusação de vulgarizar o dom mediúnico. entre palhaços. Como os senhores. momenta- neamente. o ca- risma. deixando que este seja colocado no ridículo de um populacho incapaz de o compreender. dando reforço substancial aos que combatem a Doutrina. e. Descarta-o assim. o dom. ou melhor. po- rém. feras e o povo que foi ali para divertir-se? A eucaristia. comparável à eucaristia. podem atrever-se a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? A Entidade coloca a mediunidade em plano muito ele- vado. a graça. apenas como medida de efeito. os que estão hesitantes. considerando-a um dom. tal como é feito dentro de seus próprios muros. um sacerdote da respeitável religião fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. a sua popularização a tem rebaixado. incapaz de competir com o po- . para nós." Faz alusão. Demonstrando o seu pouco apreço ao povo. nas entrelinhas. um carisma. alega que Chico Xavier — o manequim de quem se utiliza no momento — tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. considera que o conhecimento da mediunidade e o seu exercício não deveriam ser de domínio público. obviamente. apenas exercida pelos elei- tos.

todas as emoções contraditórias com as quais não sabe lidar e pe- rante as quais é algoz e vítima. mágoa. despeito. na atual existência. essa nova idéia se alastra e ameaça a he- gemonia da Igreja." Toda a sua mágoa se extravasa nessas palavras." Neste ponto. o contesta: '"Mas você é um dos responsáveis. ódio. incendiando tudo à sua passagem. Admite que um dos motivos da perseguição é também o seu ódio contra o Espiritismo. embora o requinte dos sofismas pretenda ocultar a sua verdadeira face. e a Igreja vai apagando a sua cla- ridade. É. Não admite a hipótese de que . pois. É inad- missível que o companheiro de antes esteja agora com o archote da fé. Em seu íntimo mesclam-se a revolta por ter perdido um companheiro e o rancor contra a Dou- trina Espírita que o arrebatou de seu convívio. teimosamente. Já não mais envolve apenas o ex-companheiro no seu desejo de vingança. Deixa entrever o seu amargor contra a Doutrina Espírita. saia pelo mundo levando nas mãos o archote da fé e. uma provocação insuportável e por isto aduz. Divaldo representa hoje tudo o que o fere. conforme diz. Além disso. Não suporta a idéia de que ele.128 SUELY CALDAS SCHUBERT der e a opulência da Igreja. agora sim. estampa-se um permanente convite para que tam- bém faça o mesmo. dessa nova e intrusa fé a iluminar consciên- cias. obsta que chegue aos homens. reconhece agora. quando Divaldo. ressumam de suas afir- mativas. arrostando incontáveis dificuldades. buscando iluminar consciências. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma numa constelação de as- tros a iluminar os céus. porque anda com o archote da fé. Para que se resolva a mudar em de- finitivo. a legítima mensagem do Cristo que a Igreja. timidamente. cheio de coragem e de tenacidade. Naquilo que ele vive. Revolta. Pela primeira vez o antigo sacerdote se deixa ver na intimidade dos sentimentos desencontrados que o avassa- lam. de um lado para o outro. o sacerdote se revela.

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Incontáveis médiuns têm sucumbido ante os acenos do prestígio. Carreadas pelo ódio varreram como um tufão os dias de Divaldo Franco." E faz. Caídas em terra fér- til. desmoralizado pelos seus correligionários e confrades não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. O mo- mento é hoje e se não se voltar para o nosso compromisso. vacilantes. Na parte final da comunicação faz uma advertência muito séria quanto aos meios que adotaria daí por diante. por meios escusos e basicamente anticristãos. e novamente. a ser." Terríveis palavras estas. que este é um dos testes mais difíceis de ser vencido. que se utili- zará da bondade. que apenas começam a existir. em leiras descuidadas. de injúrias foram sen- do lançadas a partir daquele momento. " A o n d e quer que vá. o desrespeito e o sofrimento o estarão esperando. segundo Divaldo. É um ultimato. novas ameaças capazes de ba- lançar até os mais experientes. Corações humanos! Sentimentos frágeis. em terrenos baldios. defrontará com a minha presença e. sem subterfúgios e cinicamente. em seguida. um prognóstico sombrio. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 129 ele próprio esteja em fracasso. Acrescenta. Sementes de rancor. sabendo. rapidamente medraram. de torpezas. ainda hoje. no seu sentido legítimo! Não suportam os ventos que pressagiam tempestades e es- . que se concretizou em grande parte: "Ou aceita o meu ultimato ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. de antemão. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integra- ção nesse trabalho ou não. acenan- do com os triunfos mundanos. a humilhação. Confessa. tal como a religião que pro- fessa e pretende defender. Insinua que Divaldo poderia conquistar as glórias do mundo e para isso ele estaria por perto para proporcioná-las. da oferenda de recursos e valores. da for- tuna ou de qualquer forma de poder. em quintais abandonados.

"Chorando para servir". a amorável Benfeitora. " . Tem. são algu- mas destas mensagens e que estão enfeixadas no livro Messe de Amor. dentro em breve. * Divaldo terá de provar se é verdadeira a sua integração na fé e no trabalho que realiza. ainda não tocada pela palavra do Cristo. . Entre eles uma Entidade clerical. que a predição do Espírito se torna realidade dolorosíssima. pos- sivelmente endereçadas ao filho espiritual. amigos. "Solidão e Je- sus". Dois corações que se amam e se reencontram no labor doutrinário. Afetos. A maior parte tem a duração de uma flor e fenece ante os rigores do tempo. todos esses sentimentos. portanto. . Aí estão. escreve algumas de suas mais belas páginas. quando não se tornam agressivos. Divaldo irá verificar. É um Espírito comuni- cante apenas. A decisão está tomada. . Uma cisão no Movimento Espírita é o projeto ideal que ressalta de qualquer análise por mais superficial que seja.130 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T tiolam-se sob a inclemência do sol causticante. o apoio da Instituição que defende e pela qual fala. . numa reunião mediúnica. Corações. que se consuma por longos anos. amorosos fecham-se e se distanciam. E Viverás". afáveis. São nossos. editado no ano de 1964. "Sinal de Cristo". ami- zades que se construíram em dias de sol radioso desmoro- nam ao primeiro sinal de intempérie. É por essa época que Joanna de Angelis. . Fazem parte de nosso ser ainda imaturo e infantil. mas representa séculos de poderio e legiões de seguidores. Este impressionante relato de Divaldo nos leva a pro- fundas reflexões. dois médiuns: Chico e Divaldo. " E m honra do ideal". O "circo" para onde leva a "eucaristia" ser-lhe-á a are- na do sacrifício. em sua retaguarda. antes. "Fidelidade à Fé".

psicografa livros. de fato. da qual participa com toda a carga emocional que já lhe escapa ao controle. O SEMEADOR DE ESTRELAS 131 A PROVA F I N A L Trinta anos transcorreram desse convívio diário até o surpreendente desfecho. Durante todo este longo período o nosso obstinado ir- mão teve incontáveis ensejos de avaliar o comportamento do médium e a legitimidade de seus propósitos. e sim. Observa-se nesse episódio do "máscara-de-ferro" que a sua doutrinação não foi realizada em uma ou em várias reu- niões mediúnicas. o desânimo ou a covardia moral. ou até mesmo a deserção. Um dos pontos básicos para que se consiga demover o Espírito perseguidor de seus propósitos é a sua vítima mos- trar-se renovada e convencê-lo de suas atuais intenções. em sua dimensão espiritual representa uma seqüência constante de renovações. O próprio pro- cesso de crescimento do ser. As atividades doutrinárias jamais sofreram solução de continuidade. ' Essa riquíssima experiência do médium baiano é a mais autêntica comprovação de tudo o que o Espiritismo prega a respeito das perseguições espirituais e da imprescindível transformação interior. tudo isto sob a supervisão do "más- cara-de-ferro" que ainda não se dá por convencido. Não se verificou nenhuma ocorrência que atestasse má-fé. profunda e permanente — porque. mas também. ao longo de três décadas de acom- panhamento cotidiano. não cessa nunca essa transformação. Nesse longo tempo Divaldo funda o Centro Espírita "Caminho da Redenção". falsida- des. hipocrisia. 0 persistente e tenaz sacerdote necessitou não somente de três decênios para convencer-se da legitimidade da fé e do trabalho de Divaldo. dedica-se ao labor mediúnico. lan- ça-se à oratória e sai pelo mundo afora a pregar a Doutrina dos Espíritos — portando o archote da fé para iluminar consciências — idealiza e concretiza a "Mansão do Cami- nho". comportamento dúbio. de uma prova ímpar. .

redi- mindo os homens e preparando o amanhã feliz que para todos nós começa agora. os mecanismos da Justiça Divina resolveriam o caso de forma definitiva. . Nenhuma palavra. Divaldo resgata a nossa fé no ser humano. e fiel ao seu com- promisso de vivência evangélica encontra a solução ideal no exemplo de Jesus. doutrinação alcançariam o resultado que a atitude daquele instante consegue. pulsante. Neste mo- mento decisivo reflexiona profundamente. É possível que embora não aparecesse para o mé- dium. o estivesse acompanhando oculta- mente para certificar-se. face às dificuldades em que viviam. ainda e sempre mais. se este real- mente vive tudo o que prega. Mais tarde. Nenhum compêndio do mundo tem em suas páginas tal poder de persuasão do que o gesto de Divaldo. Divaldo se questiona sobre a possibilidade de acolhê-la. encaminham para a Man- são uma criança na mais absoluta indigência. conselho. Para nós. Recebe então a criança como mais um de seus filhos sem saber ainda a sua procedência espiritual. V e m como outrora. Ao vê-la.132 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. mas chega visceralmente trans- formado. há algum tempo. nesse mesmo dia. ei-lo que retorna à sua presença. Assim. para todos os que lerem estas páginas sobram motivos para um reflexionamento em torno desse belíssimo episódio. E evidencia que a mensagem de Jesus permanece viva.

No dia seguinte. hoje na cidade de Phoenix. realizamos a segunda conferência. professor universi- tário. pro- ferimos uma conferência pública numa igreja de beleza ímpar. Marylin Rossner. Foi necessário fechar a porta e dizer. no Arizona. ele brasileiro que reside nos Estados Unidos há muitos anos. 14 MEDIUNIDADE E ORATÓRIA Durante a viagem pelos Estados Unidos e Canadá. por falta de espaço e por questão de segurança. que. lamentavelmente. que foi o onze de agosto de 86. que é dirigida pela professora e médica psiquiatra. o número de afluentes foi tão grande que as aco modações não permitiram alojar todos os interessados. Depois de recebidos no aeroporto. Dr. No primeiro dia. Marylin. Ali. PhD. a convite da Spiritual Science Fellowship. não se poderia admitir mais . à fila que se aglomerava do lado de fora. gótica. que fica no Estado de Quebec. tendo feito doutorado em Nova York e que seria o nosso tradutor — fomos para o hotel e demos início ao nosso programa. que tem o nome de "Marylin's Center". que havia sido alugada especialmente para aquela finalidade. João Zério e nós. na sociedade dirigida pela Dra. fui a primeira vez a Montreal. Ela é a fundadora-presidente.

Ele teve um impacto inicial. de público. na sua anterior existência. Quando estava terminando. Joanna de Angelis me disse que eu tinha diante de mim uma personalidade que reali- zava um trabalho expressivo e que vinha do passado traba- lhando com dignidade e verdadeira elevação. que estava na escadaria de acesso ao segun- do piso. que havia vivido nas Ilhas Sandwich. e. loucura e obsessão". taoístas e outras. sentou-se e eu comecei a aplicar-lhe passes. Joanna me informava que ele se chamara Damião de Veuster. no Hawai. então. conforme é usual esta prática. Ao concluir. a questão do surgi- mento do Espiritismo. era a de apresentar a conceituação kardequiana a respeito da dignidade mediúnica e dos re- cursos terapêuticos que se encontram à nossa disposição. O tema que me foi sugerido era "Psiquiatria. Fizemos um estudo. convidou a . Levantou- se um senhor. no qual a Dra. estilo seminário. Logo de- pois. começou a dar detalhes da carta que ele havia dirigido ao Papa e uma série de fatos proban- tes de sua existência passada. xintoístas. ao terminarmos. com a tradução de João Zério e. Realizamos a conferência. do fenômeno mediúnico. As escadarias ficaram repletas.. A nossa intenção. para fazermos uma demonstração da terapia bio-energética. O cavalheiro ficou muito emo- cionado. Marylin é versada. sintetizado. aliás. após havermos examinado. as salas e o corredor. porque o nosso objetivo era apre- sentar Allan Kardec e o conceito espírita a essas Institui- ções que são mediunistas. pela razão de ser uma psiquiatra PhD. no dia anterior. já referido no nosso livro mediúnico Sublime Expiação. agradeci-lhe a generosidade e disse-lhe que os Espíritos me haviam dito ter sido ele. acreditam na reencarnação. mas estão profundamente vinculadas ao orientalismo e às dou- trinas esotéricas. veio até nós. Joanna. nessa segunda oportunidade. Em seguida levantou-se. pedimos um voluntário.134 SUELY CALDAS SCHUBERT nenhuma pessoa. um sacerdote belga. aqui no Brasil..

Divaldo nos mostra a carta de Demitri Trifiatis. realizando uma tarefa verdadeiramen- te fascinante. O nome dele é Demitri Trifiatis. Os dados que havia coligido eram tão extraordinários que ele se identificou plenamente com essa realidade. sem margem de dúvi- das. aonde foi sentir a legitimidade da- quela informação. exclusivamente para estar conosco — o fundamento que lhe dava a prova. orientalista. ele se identificava. como respaldo à pesquisa que estava fazendo. a duas vozes. escritor. para colocar no livro. quando grava- mos este depoimento. porque. naqueles dados. participa dos trabalhos do Marylin's Center. no dia atrás men- cionado e. o leproso. ele começou a perceber que. Isto é muito confortador. de uma pessoa absolutamente estranha — porque ele viera de outra cidade. mas o próprio autor teve a gentileza de enviar também a tradução. dia 8 de setembro de 1986. E mais do que isto: nas informações que eu lhe passara. ele vinha ter. de que aquela informação era realidade. e ambos narraram. por uma dessas "coin- cidências". Marylin. ontem. 9 de setembro. Este homem é filósofo. que nos pediu uma declaração por escrito. anos atrás. que. poeta. Tão sensibi- lizado ficou. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 135 Dra. com a emoção que havia vivido quando visitou as Ilhas Sandwich. e esta biografia estava semiconcluída. Agora. havia dados que ele não conseguira coligir e que iria agora pesquisar quanto à veracidade dessas novas revelações. o célebre padre Damião. Ao lado disso. que transcrevemos a seguir. ele havia recebido esta revelação por outra fonte. recebi uma carta dele. Está escrita em inglês. Estávamos na "Mansão do Caminho". mais uma vez. o que o levou a escrever uma minuciosa biografia de Damião de Veuster. Viajou a Molokai. no dia seguinte. E como era um homem cético resolveu fazer pesquisas a res- peito.

Deus o abençoe Eu sei bem o que significa crescer sem a presença dos pais.136 SUELY CALDAS SCHUBERT Montreal (Canadá). 22 de agosto de 1986 Sr. O nosso encontro foi para mim experiência luminosa. Eu peço a Deus que o guarde com boa saúde e ativo. . pois este mundo precisa de pessoas privilegiadas. a sua espi- ritualidade. a sua humanidade.S. Por esta razão desejo agradecer. sou. onde tive a graça de conversar consigo. especiais como você. Fiquei sensibilizado pelo fato maravilhoso de saber que você se ocupa de tantos órfãos. Divaldo Pereira Franco Rua Barão de Cotegipe. do mais fundo do meu coração. a sua evolução constituem um bem insupe- rável do mais profundo amor e da mais rica compreensão de um ser compassivo e generoso. um dia. Demitri Trifiatis (Damien) P. no Marylin's Center. Com muito amor em Jesus. Todos aqueles que são tocados pelos dons que você possui são transformados para sempre. Tenho fé de receber notícias suas. 124 Salvador — BA Brasil Querido amigo Divaldo Já lá se vão duas semanas que tive o privilégio de o encontrar em Montreal. Eu mesmo perdi os meus pais na minha tenra idade. dinâ- micas. O seu conhecimento. o seu trabalho e o seu êxito monumental. seu irmão e admi- rador. que eu considero o mais precioso encontro de minha vida espiritual.

terapeutas. explicamo-lo ao auditório selecionado. Fizemos a aplica- ção do passe. Ao terminarmos. no ano pas- sado. O SEMEADOR DE ESTRELAS 137 Isto é muito interessante. Mas. identificaçãço dos Es- píritos. por- quanto compunha-se de espiritualistas. o organizador do "Seminário". A notícia correu e. (que agora foi de três dias) senhor Reinaldo E. as pessoas emocionaram-se até as lágrimas. Ali também realizamos um "Semi- nário". e ali estava a ocorrência mediúnica que não deixava margem a qualquer dúvida. este fato tão singular. obsessões. Petersburg. em St. E os médicos que o acompanhavam não tinham qualquer explicação para a sua cura imediata. Realizávamos uma conferência para aí divulgar o Espiri- tismo. por efeito. não sabíamos que este homem era portador de um carcinoma. porque confirma a mediuni- dade naquele sentido de "universalidade do ensino". re- verendos e missionários do Espiritualismo americano. na cidade de Greensboro. que então explicamos com maior riqueza de detalhes. in- teressados no aprendizado da técnica. de mentalistas e de curadores. Para nossa surpresa. demonstrando. O faio voltaria a repetir-se. ao retornarmos este ano a St. no "Seminário" deste ano. Este fato vem confirmar o que ocorreu. Ao terminarmos. . outros curadores. que eles chamam de Workshop e. sendo que ele não dormia fazia mais de três meses. Veio um cavalheiro e sentou-se. pedimos um voluntário para manter um contato e aplicarmos a terapia bio-energética. na noite seguinte. tivemos oportunidade de ver alguns Espíritos que se identificaram e o dissemos ao senhor. Torres. a que se reporta com tanta propriedade o Codificador. nos in- formava que aquele homem havia ficado radicalmente curado. Foi um fato comovente. na Carolina do Sorte. na Flórida (USA). estavam presentes. Petersburg. começando a experimentar os resultados positivos logo naquela noite do passe. o que havíamos falado sobre mediunidade.

então. depois fui encaminhada a duas casas de órfãos. isto é. o que lhe provocou uma grande emoção. uma série de ocorrências se verifica no plano espiritual. tratamento espiritual. Atendimentos diversos. que vem me dar esse recado. e aplicamos-lhe a terapêutica. nos disseram que ela estava com um problema muito sério de coluna. Sabemos. nunca deixei de amar à minha mãe. Os Bons Espí- ritos. que morreu. Ao terminarmos. seja no Centro Espírita ou local público. Sentou-se. mas que prosseguisse com o trata- mento especializado. e aproximou-se uma moça. o que lhe informamos. É a preocupação dela em vir dizer-me que continua apoiando- me e socorrendo-me. ela confirmou que estava em tratamento de coluna. pois os Espíritos aproveitam os momentos de elevação para au- xiliarem mais diretamente os encarnados e desencarnados. através do estudo da Doutrina Espírita. Pedimos um voluntário. Disse mais: — O senhor falou que minha mãe está aqui. nesse momento. eu pode- ria saber o nome dela? Eu estranhei. Apareceu-nos. encami- nhamento de Entidades.138 SUELY CALDAS SCHUBERT quando estávamos terminando. o auditório solicitou que demonstrássemos uma técnica de meditação e outra de bio-energia. Mas. mas disse-lhe o nome. desligamento de Espíritos perse- guidores ou daqueles eventualmente vinculados aos circuns- tantes e até cirurgias espirituais são realizadas durante a . uma Entidade dizendo ser a mãe dela. Vários autores espirituais têm relatado esses acontecimentos. razão pela qual se prontificara para a experiência. espe- cificamente na parte que trata da mediunidade que. onde vim a ter outras duas mães adotivas. — O senhor não repare — explicou-me — sucede que eu tive três mães. quando se realiza uma palestra. a minha mãe verdadeira. enquanto o orador discorre sobre o tema.

psicografado por Francisco Cândido Xavier. essa atividade se pro- cessa também. preciosos esclarecimen- tos sobre o mundo invisível. a excelência da mensagem e dos recursos da Doutrina Espírita. utilizando-se. e que. no cap. in- clusive. a comprovação da reencarnação. O SEMEADOR DÇ ESTRELAS 139 exposição doutrinária. capítulo X I V . a mediunidade de Divaldo Franco. o grandioso planejamento para que esses fatos se tornem realidade. do qual o mundo terrestre é pálida e imperfeita cópia. explica. Pelos informes que já possuímos. Também o Espírito Efigênio S. pode-se ter uma idéia acanhada do que seriam as providências da Espiritualida- de Maior. de modo claro. em A Gênese. em nossa época. embora muito superficialmente. nas áreas de curas e de notícias espirituais para determinadas pessoas. V I I I de O Livro dos Médiuns e do qual o Espírito São Luís dá notícias detalhadas. O próprio Divaldo receberia. e principalmente. itens 13 a 21. a notável atuação dos Espíri- tos Benfeitores nos instantes das palestras do orador baia- no. Mais tarde. na mensagem "Arqui- tetos Espirituais". a comprovação da presen- ça e comunicabilidade dos Espíritos. a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. inserida no livro Instruções Psicofôni- cas. o Codificador. nos casos mencionados. André Luiz vem. através de Manoel Philomeno de Miranda. de que nos fala Allan Kardec. os Benfeitores Espi- rituais. Essa ação tem em vista várias finalidades: a compro- vação da imortalidade da alma. antecedendo ao momento da palestra. . de recursos variados desde a criação de painéis fluí- dicos com cenas que têm vida momentânea (derivadas. trazer-nos pormeno- rizados informes do mundo extrafísico. É o "Laboratório do Mundo Invisível". da própria palestra) até os quadros que propiciem lembranças pretéritas a Entidades que disto necessitem. oportunamente. Victor escreve a respeito. portanto. Depreende-se. em suas várias obras. É possível aquilatar.

Aos poucos. Divaldo inicia a conferência relatando o caso do bispo Pike e seu filho. Aí estávamos a convite do estimado confrade Anísio Brito Neves. pois as "coincidências" são realmente impressionantes. porém. debaixo de algumas flores. Este papel ficou dobrado sobre a mesa. para apresentarmos um tra- balho sobre o tema "Mediunidade". por exemplo. aqui em Juiz de Fora. algum tempo atrás. no transcurso dessas quatro décadas de divulgação doutriná- ria. quando de sua palestra.140 SUELY CALDAS SCHUBERT Tais pessoas mencionadas e beneficiadas não vieram casualmente ao local e nem se ofereceram como voluntá- rias por um impulso intempestivo. através de Divaldo. Divaldo. algo hesitante quanto à autenticidade da percepção. Em meio à interessante narrativa cap- tamos a presença do bispo e achei muito curioso que ele aí estivesse. tais Entidades se aproximam de Divaldo e se integram nessa equipe realmente fantástica que Joanna de Angelis reúne. Recordamo-nos. suicida. É bastante óbvio tal programa. narrado inclusive. comen- tamos sobre essas ligações que se estabelecem entre o ora- dor e as personagens dos casos que ele tem narrado. escrevemos num papel o nome dele e uma per- gunta sobre a sua presença. menciona a aproximação do bispo Pike. . adrede preparadas e estão espiritualmente cônscias de sua parti- cipação dentro de todo esse grande plano de divulgação da Doutrina. Foram. Ao termi- nar. que em setembro de 1986 a estivemos juntos na 3 3 Semana Espírita de Vitória da Conquista. toxicômano e. comanda e orienta. Mas. depois. o tempo todo. Temos observado pessoalmente muitas dessas confir- mações ao longo desses anos de nosso convívio e amizade. Já conhe- cíamos o caso. Presidente da União Espírita daquela cidade. tornaram-se muito freqüentes tais episódios comprobatórios. espontaneamente. Claro que imediatamente mostramos-lhe o papel. Mais tarde. dirimindo assim qualquer dúvida. isto sim. Ultimamente.

Divaldo tem uma enorme surpresa: descobre que o voluntário. No excelente livro Sublime Expiação. belo jovem e promissor pianista que se torna le- proso e que se interna na Colônia de Hansenianos Damião de Vesteur. Mas. Gustavo Geley. o médium faz tal revelação de público. hoje Demitri Trifiatis. Infere-se disso tudo que a oratória de Divaldo é pro- fundamente associada à sua faculdade mediúnica e que. que vai tornando cada vez mais fácil e normal um estado primitivamente excepcional e anormal. de uma forma ou de outra. dinâmicos. totalmente dedicada aos hansenianos. então. O homem tem um impacto. em Montreal. como uma de suas aptidões do- minantes. cujos elementos constitutivos (mentais. O autor faz. em boa parte deflui dela. Afirma o Dr. a tendência inata para a descentralização é reforçada pela prática da mediunidade. no qual aplica o passe. narram ao auditório que era a segunda vez que tal informe estava sendo trans- mitido e agora com riqueza de detalhes. de Demitri Trifiatis supera qualquer expectativa desses encontros. emocionados. materiais) são susceptí- veis de descentralização momentânea. em sua vida. em seu livro Resumo da Doutrina Espírita: "O médium é um ser. a dramática história de Lucien. chama a Dra. Marylin e ambos. o aparecimento. indo a Montreal. pela psicografia de Divaldo. Entretanto. Damião de Vesteur está no plano espiritual — é o pen- samento natural que assoma após a leitura do trecho em questão. é nada menos que o padre belga reencarnado. Victor Hugo narra. O SEMEADOR DE ESTRELAS 141 O mesmo ocorre com a maioria dos que são citados em suas obras mediúnicas e que terminam por surgir. Nesses casos espe- ciais. uma referência à vida do padre Damião." . Sob a orientação de Joanna.

para suas comuni- cações. vem acompanha- da do esclarecimento: nós falaremos por ti. quando vê o Espírito amigo que lhe afirma incisivamente: "Fala! Falaremos por ti e contigo". através de ti e estaremos contigo. de pú- blico. um médium preparado. já que os Espíritos dirigem e atuam diretamente. não obstante a diversidade de suas manifestações. essencialmente. contudo. inconsciente ou não. com toda a naturalidade. um fato mediúnico. A palavra espiritual é imperativa. re- solve que não precisaria preparar o tema. uma oratória basicamente mediúnica. com a mente em branco. . todavia. talvez. vê-se sozinho e despreparado.142 SU ELY CALDAS SCHUBERT Em outro trecho: "A mediunidade é de essência única. outras variações como veremos adiante. Minutos que parecem séculos transcorrem até que surja um Espírito amigo que o adverte da absoluta necessidade de ele mesmo preparar e estudar o tema e de que aquela é uma lição da qual jamais deveria esquecer-se. visto que o papel que este exerce na sintonia e intercâmbio é de grande relevância. por que não se faziam presentes? Apavorado. No instante azado. a xenoglossia e até o raro fenômeno de transfiguração. quando percebe alguém ao seu lado. Está estabelecida a sintonia mediúnica (que persiste há quarenta anos). uma incorporação completa. Em verdade. Divaldo passou por experiência crucial para que entendesse o mecanismo do labor a que estava sendo convidado. Onde estão os Instrutores. Pode haver uma semi-incorporação ou. É. suplica intimamente a ajuda espiritual. da estruturação do tema. existindo. ou seja. porém. em certos casos. Assombrado. desse margem à idéia de que o médium ficaria isento da preparação da palestra. ocorrendo então. Isso. perplexo — e entusiasmado — ante o re- sultado alcançado na sua primeira experiência como porta- voz dos Espíritos. os Espíritos preferem. a psicofonia. deixando para os Espíritos esta preocupação. pois. o transe mediúnico. ao ser convidado para uma segunda palestra." O instante inicial da trajetória de Divaldo como orador é. o jovem. em decorrência do êxito da estréia.

de uma policromia indescritível. ao encarnar. os Espíritos colocam os trechos dos livros ante os seus olhos para que os leia. Bem no início Amélia Rodrigues orienta os temas do Evangelho. de Ivon Costa. suspensa no espaço à sua frente e que ele lê para o público. Estes trechos podem surgir também como se fossem uma fita de telex. os recursos próprios para a oratória. pois se . de- pendendo do assunto enfocado. Mais tarde. Esse novo período assinala uma mudança na temática das palestras. algumas vezes. em O Livro dos Médiuns. quando encontramos em um médium o cére- bro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes." Após essa inolvidável aula de disciplina o orador des- ponta. ( N o capítulo 11 tratamos especificamente de Amélia Rodri- gues). de Carneiro de Campos. a assessoria mais constante é a de Vianna de Carvalho. de natureza a nos facilitarem as comuni- cações. ao fazer citações. capítulo X I X item 225: "Assim. podendo ser também. obtidos em vidas anteriores. As palestras tiveram etapas bastante definidas e mar- cantes. Eram quadros fluídicos maravilhosos. Já dentro desse novo método. e ao labor da pregação dedicaria a sua vida. dele de preferência nos servimos. Divaldo explica que. É evidente — e cumpre ressaltar — que Divaldo trouxe. que passam a ter diferentes linhas de abordagem do tema dentro de uma mesma explanação. porque com ele o fenômeno de comunicação se nos torna muito mais fácil do que com um médium de inteligência limitada e de es- cassos conhecimentos anteriormente adquiridos. o que atende aos diferentes níveis inte- lectuais e emocionais do público presente. de Francisco Spinelli. Conta Divaldo que ela o fazia ver as passagens evangé- licas e a sentir-se como participante delas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 143 É o que preconizam Erasto e Timóteo.

É um estado de transe. de que nos fala Geley — que a prática torna cada vez mais natural e simples — e a mediunidade em sua diversidade de manifestações. contar as cadeiras do audi- tório (e ao final da palestra é capaz de dizer o seu total. portanto. Assim. do profundo amor com que realiza o seu trabalho. pois. para assim. interferir o menos possível. do seu inegável carisma. Ficam demonstradas. se assim podemos dizer. as quais descreve. à sua frente ou atrás de si. diz ele. É neste instante que transmite a pessoas desconhe- cidas as notícias de algum familiar desencarnado ou ainda vários tipos de orientações. sem conseguir transmitir de modo convincente o pensamento deles. enquanto os Espí- ritos falam por seu intermédio.144 SUELY CALDAS SCHUBERT os não tivesse seria apenas um repetidor dos Mentores. no momento em que atende a um por um. quantas fileiras e t c ) . duas coisas principais: a descentralização momentânea. Há ainda outros aspectos interessantes para o nosso estudo. como num só bloco. Ele menciona que tem o hábito de. São vários gê- neros de mediunidade postos em ação ao mesmo tempo. o incrível poder de atrair o auditório. . enfim. de pren- dê-lo às suas palavras. O que não impede que se ocupe em detectar ocor- rências espirituais relacionadas com os presentes. de várias maneiras e intensidades. especial. O fato de ver as ocorrências nos dois planos atesta a visão psíquica em avançado grau de expansão. Os fenômenos mediúnicos acontecem. de galvanizar emoções^ do seu mag- netismo pessoal. com variações do que ocorre na psicografia. posteriormente. pois pode ver em várias dimensões.

Tinha o aspecto de um homem com uns setenta anos. onde ficam cantadores de viola. (É uma região do chamado "bas-fond". — Venha cá. ele distendeu o braço e falou: — Veja. nós. na zona tombada da cidade — muito aturdido. de aventuras e interesses escusos. Andei pela Praça da Sé e entrei pelo Terreiro de Jesus. pas- sistas. Aproveitava o tempo para fazer a correspondência. em pé. olhei para a basílica e vi um sacerdote franciscano. São três praças conjugadas. vendedores ambulantes. mas. estas duas e a de São Francisco. Quando fui passando pela porta da Catedral — é um lugar muito popular. com dor de cabeça. Mas. aqui está o mar tumultuado das paixões. Fitei-o e ele me chamou. é uma balbúrdia infernal. o ambiente no Instituto estava tão agi- tado que eu resolvi sair. raramente eu saía. meu filho. Eu me aproximei.) . já desencarnado. Veja a balbúrdia. dis- púnhamos do horário das quinze e trinta às dezesseis horas para o lanche. 15 RESGATANDO ALMAS - O FRANCISCANO Quando eu trabalhava no IPASE. certa vez. funcionários.

enquanto lá fora está a algazarra da perdição. explicando-me: — Venha comigo. olhei para dentro — o santuá- rio — e para fora. o mundo agitado. (A Catedral tem paredes com pinturas de ouro. A aventura. Ela passou por aqui — já estava contratada por um cliente — e quando viu a igreja. o que faz? — perguntei-lhe. Cheguei à porta da Catedral. por- que ela ia em busca de aventura. Indicou-me uma senhora ajoelhada. os pun- guistas. A minha tarefa é ficar aqui à porta da Catedral. o jogo. estava dominada pelo vício. orando e debatendo-se na dor íntima. para inspirar e resgatar aqueles que estão no claro/escuro do faz-não-faz. muito poder. Ele explicou-me: — Esta alma estava caminhando para o bordel. Isto aqui é uma ilha que Deus colo- cou no mar das paixões humanas para diminuir os confli- tos das criaturas. voltei-me para dentro e ele continuou: — Olhe o que aí está e esqueça do "mundo" que colo- caram aqui dentro. os "vendedores de ilusão" — prosse- guiu ele — as almas atormentadas.) — Esqueça o que as mãos do mundo puseram aqui. chorando muito. O franciscano prosseguiu. Agora venha comigo. ouça o silencio da fé. Este é o mundo. Eu fiquei bem à porta. muita obra de arte. Uns negociam o corpo e outros vendem a própria vida. Venha ver. imediatamente teve um conflito. pedi a Deus a felicidade de me dedicar a resgatar almas que estão sendo afogadas no mar das paixões. tudo o que o mundo tem no seu lado mais infeliz está presente. antes do compromisso negativo. Mas. — E o senhor. O Espírito estava com a razão. .146 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T — Observe ali. — Depois que eu morri. entre- mos na igreja.

Nesse momento. Não iremos fazer o trabalho total. porque o mecanismo de captação varia de acordo com o estado evolutivo de cada um. falando- Ihe ao ouvido: "— Você tem o direito de jogar fora a sua vida. . mas tem o dever de salvar-se. Eu via como se fosse um fruto que se cortasse e fossem caindo as cascas. começamos o trabalho de dentro para fora e vamos intuindo para que a pessoa mude também no mesmo sen- tido. porém. cria uma psicosfera. eu me acerquei e a abracei. — São os fluidos — esclareceu-me o frade — em que ela está envolvida. tinha muito conflito de fé. Ajoelhou-se e está fazendo a sua confissão à própria consciência. a an- gústia fez-se mais forte e ela se lembrou da mãe. depois faça o que quiser. De repente. por um pouco. minha filha. Por isto. uma melancolia enor- me e deu-se conta de como se via afastada de Deus. a mãezinha chegou e me ajudou a introduzi-la na igreja." Ela hesitou e eu a inspirei mais: "— Entre. que vai envol- vendo e se tornando cada vez mais grosseira. che- ga o momento do equilíbrio. Agora você veja como nós podemos agir junto aos que abrem a porta da alma para Deus. no tempo em que participava da vida da igreja era uma moça sadia. Perguntei-lhe: — Como é que ela lhe ouviu? — Chegou à mente dela uma saudade. Ela entrou e começou a sentir vergonha do seu estado. Aproximou-se dela e começou a aplicar-lhe passes. em volta. A opção é treva ou luz. sen- tiu-me. Retiremos os fluidos externos e a pessoa cria novas condições internas e. mediante o processo continuado. senão. ela desmaia. por- que. mas não se havia entregue ainda à dissolução. Entre. O SEMEADOR DE ESTRELAS 147 Nesse ligeiro conflito. A mente elabora. que lhe havia dado tantos conselhos. Começou a rememorar que. entre!" Ela não ouviu a minha voz. Ela está sustentada por essas vibra- ções. uma nostalgia do tempo em que freqüentava a igreja.

automaticamente. O cliente vinha atrás — era um caso de homossexualismo — a caminho de . Agora sigamos adiante para você observar a técnica que nós usamos. a convite meu. nem a saú- de. Uma dessas velhinhas típicas das igrejas. um conquistador. que era freqüentador daquela re- gião.148 SUELY CALDAS SCHUBERT O sacerdote continuou a aplicar o passe e ela se dobrou sobre si mesma e ali cochilou. com argu- mentos negativos. Vamos ver aquela anciã. ao cair da tarde. Era uma velhinha que cochilava. De um lado era o tumulto. mas também um hospital. a fim de que. Ele aduziu: — Ela ficará aí. vai-se beneficiar da psicos- fera ambiente. que eu olhava para um lado e para o outro. afervo- rada. um pouco. de vários tipos. mais tran- qüilo. porque está perto da desencarnação. Por- que os felizes. do outro o silêncio. pois que não sabem usar a felicidade. O frade aproximou-se dele. Quando passou em frente da igreja o doente da alma se benzeu. os enganados e os alegres estão-se compro- metendo. Temos a considerar. nem a alegria. Há muitos que acusam o templo. mas não é o templo em si. tristes e infelizes. Ela estava dormitando e ele me elucidou: — Muitos hão de dizer que a religião é para as pessoas desenganadas. Nisto. Foi seguindo e. e fiquei à porta. Deus não ouve a religião ou o religioso. é a conduta daqueles que vêm ao templo. verdadeiramente cristã. um rapaz atormentado. ao desencarnar tenha um despertar mais suave. E é justo que a religião seja uma escola. Toda tarde ela vem para cá para desencharcar-se. sentindo-se exausta. entran- do e saindo da igreja era grande. vai passando um rapaz. a alma sedenta. O movimento de Entidades. mas. Esta aqui está em tratamento. atrás. Eu saí. Era tão chocante o contraste. vinha um acompanhante. com problemas de sexo. abraçou-o e foi andando ao seu lado. e com toda a razão. que aqui vem muita gente honesta. e isto cria uma atmosfera psíquica positiva.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 149

um bordel. O frade encostou a cabeça ao ouvido do rapaz
e falou-lhe por alguns momentos. Este, de súbito, parou.
Parou e voltou. Chegou defronte da igreja, tornou a benzer-
se e fez uma genuflexão. Nesse instante ele viu o altar ao
fundo. Aí o sacerdote disse:
— Venha!
Ele olhou para a companhia e pediu que esperasse. En-
trou na Catedral e ajoelhou-se num dos bancos próprios,
benzeu-se pela terceira vez e começou a orar o "Pai Nosso",
quando o franciscano se aproximou e pôs-se a aplicar-lhe
passes longitudinais.
Ele me explicou:
— Ê um passe calmante para as funções genésicas.
O moço aí ficou, embevecido, por alguns instantes e
começou a reflexionar em torno da própria vida. Valeria a
pena a prostituição a que se entregava? E terminou choran-
do. Ficou uns quinze minutos, com o acompanhante a certa
distância. Daí a pouco este como que resmungou e resolveu
ir-se, porque o sacerdote inspirou-o para que se fosse em-
bora.
Quando o rapaz se levantou e procurou-o não o encon-
trou; resolveu entrar de novo e ficar, talvez, um pouco mais.
O frade me disse:
— Naturalmente não o resgatamos do vício, mas, hoje,
ele não descerá um degrau a mais na escada da queda moral.
O meu prazo esgotara-se e tive de retornar ao Instituto.
Periodicamente ia ver a terapêutica socorrista, que nin-
guém ou quase ninguém, conhecia! O que eu quero ressaltar
é o amor de Deus e dos Bons Espíritos sem que a gente tome
conhecimento.
Joanna de Angelis diz que quando algo de mau nos
acontece é apenas a "cauda do cometa". Se a "cauda do
cometa" nos causa tanto dano, imagine se o núcleo nos pe-
gasse de frente...
Certo dia, eu estava lá, três a quatro meses depois,
quando o franciscano me disse:

150 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Foi muito bom você ter vindo. Eu estou adestrando
dois substitutos, porque fui promovido. Agora não mais vou
ficar na porta da igreja, irei trabalhar na área dos lupana-
res, para evitar que moças inexperientes resvalem e que cer-
tos crimes ali se cometam. Irei dirigir um grupo de socor-
ristas e estes aqui são dois franciscanos recém-desencarna-
dos que me irão substituir.
Despedimo-nos, como dois bons amigos, e, como pela
outra área raramente eu passava, nunca mais vi este Es-
pírito.
Os dois substitutos continuam lá, há vários anos. São
mais jovens e ainda estão no mesmo local.
Como Deus não nos deixa órfãos! De todas aquelas pes-
soas que por aí passam, algumas se adentram na Catedral,
e dizem: — Senti uma enorme vontade de entrar na igreja,
e, graças a Deus eu o fiz, pois isto salvou-me!
Ê uma programática do mundo espiritual agindo sem-
pre para o bem.

Em O Livro dos Espíritos, na parte referente à Inter-
venção dos Espíritos, questão 519, o Codificador indaga:
"— As aglomerações de indivíduos, como as sociedades,
as cidades, as nações, têm Espíritos protetores especiais?"
A resposta dos Instrutores Espirituais foi a seguinte:
"— Têm, pela razão de que esses agregados são indivi-
dualidades coletivas que, caminhando para um objetivo co-
mum, precisam de uma direção superior."
O surpreendente relato de Divaldo é bem uma pequena
amostra de como a Misericórdia Divina age em benefício
dos seres humanos.
O resgate de almas é trabalho realizado diuturnamente,
em quaisquer situações e lugares. E a certeza dessa ativi-
dade é comovente! Basta apenas a mais leve predisposição,
o mais ligeiro pensamento que expresse desejo de mudan-

O SEMEADOR DE ESTRELAS 151

ça, de renovação moral e as portas do coração se abrem
para a bênção divina. Por isso é que Leon Denis afirma:
" ( . . . ) na morada mais mesquinha, no mais miserável
tugúrio há frestas para Deus e o Infinito". (O Problema do
Ser, do Destino e da Dor)
Em outra obra sua, O Grande Enigma, disserta a res-
peito da prece e de sua importância para o ser humano;
"A prece é a expressão mais alta dessa comunhão das
Almas. Considerada sob este aspecto, ela perde toda a ana-
logia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em
uso, para se tornar um transporte do coração, um ato da
vontade, pelo qual o Espírito se desliga das servidões da
Matéria, das vulgaridades terrestres, pára perscrutar as leis,
os mistérios do poder infinito e a ele submeter-se em todas
as coisas: "Pedi e recebereis"! Tomada neste sentido, a pre-
ce é o ato mais importante da vida; é a aspiração ardente
do ser humano que sente sua pequenez e sua miséria e pro-
cura, p e l o menos um instante, pôr as vibrações do seu
pensamento em harmonia com a sinfonia eterna."
A Doutrina Espírita reconhece o valor e a eficácia da
prece e, uma vez mais, verificamos, na prática — neste caso
narrado por Divaldo — como funciona esse mecanismo de
socorro e atendimento.
Entretanto, é sempre com certa perplexidade que v e -
rificamos, em nosso próprio meio, vicejarem as idéias con-
trárias à prece.
Tais idéias têm encontrado campo propício, a pretexto
de não se adotarem rituais em nossas atividades doutri-
nárias.
Observamos com pesar, que muitos se deixam envolver
por esses argumentos favorecendo assim o programa das
trevas, que começa a ganhar terreno por incúria nossa.
Alega-se, por exemplo, que o fato de se fazer a prece
antes e depois dos trabalhos doutrinários ou mediúnicos é
um ritual. Vê-se que estão confundindo disciplina e método
com ritos. Esta distinção precisa ser muito bem avaliada.

152 SU ELY CALDAS SCHUBERT

"Ritos, segundo o dicionário, são as regras e cerimô-
nias que se devem observar na prática de uma religião. As
normas do ritual.
Ritual: referente a rito(s). Culto. Liturgia. Cerimonial.
Etiqueta.
Liturgia: O culto público e oficial instituído por uma
igreja; ritual.
Disciplina: Regime de ordem imposta ou livremente
consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular
de uma organização. Observância de preceitos ou normas.
Método: Modo de proceder; maneira de agir."
Em nossas atividades espíritas existem método e disci-
plina, mas não os ritos, compreendendo-se por tais as ceri-
mônias, as práticas exteriores. 0 fato de se repetir determi-
nada prática — como a prece — não significa que essa repe-
tição caracterize um ritual, conforme vimos, mas, sim, um
método e uma disciplina de trabalho.
A prece é um ato subjetivo, interior. A prece feita em
conjunto significa comunhão de pensamentos, tão necessá-
ria ao êxito das tarefas espíritas, como de resto a qualquer
assembléia religiosa, consoante enfatiza Allan Kardec em
seu discurso do dia 1.° de novembro de 1868.
Jesus legou à Humanidade o 'Pai Nosso", como modelo
de oração. Quase todos os grandes vultos do Espiritismo
referem-se à excelência da prece.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, por várias ve-
zes esse tema é abordado, mormente nos capítulos finais.
E o mestre de Lyon considerou-a tão importante que reu-
niu vários modelos de prece para orientar os espíritas.
Na atualidade, os autores espirituais são unânimes em
exaltar os profundos benefícios decorrentes da prece feita
com o coração, com o sentimento.
É pois, de se estranhar, que em certos setores de nosso
Movimento esteja grassando esse modismo de se querer abo-
lir a prece de nossos eventos e tarefas. São idéias que se
vão infiltrando de modo sutil, quase imperceptível, mas que

O SEMEADOR DE ESTRELAS 153

traduzem uma postura perigosa. Realmente, tirando-se a
oração de nossos trabalhos, fecharemos a porta à inspiração
do Mais Alto, ao intercâmbio com os Mentores do nosso
Movimento. Convém não esquecer que é exatamente através
da prece que nós, encarnados, elevamos nosso padrão vibra-
tório para a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

* * *

É comovedor o esforço realizado pelo nosso irmão fran-
ciscano, resgatando almas do "mar das paixões", como ele
próprio diz. Essa atividade é feita no silêncio, no anoni-
mato. Divaldo nem sequer soube-lhe o nome!
Que lição maravilhosa nos transmite esse humilde fra-
de e quanto é reconfortante sabermos que a Bondade do
Pai está atenta ao menor sinal de renovação do ser humano.
Para alguns pode soar estranho este relato, pois, talvez,
a fim de se fugir ao atavismo, muitos se convencem que as
igrejas católicas não oferecem ambiente espiritual propício.
Todavia, o nosso sacerdote mencionado revela que a con-
duta dos que vão ao templo é que vai determinar a sua psi-
cosfera espiritual. É preciso também convir que para nu-
merosas almas a igreja ainda é o refúgio, o abrigo, a fé.
A técnica adotada pelo franciscano lembra, de certa ma-
neira, a que é praticada nas sessões mediúnicas na parte
referente ao resgate dos Espíritos que vêm, conduzidos para
a doutrinação.

16

A MOÇA DE CATANDUVA

Oportunamente fui pregar em Catanduva. Naquele tem-
po viajava-se muito em trens noturnos. Eu o tomava em
Catanduva e ia até São Paulo. Era uma viagem razoavel-
mente confortável.
Numa das vezes em que estive naquela cidade, ao re-
gressar, Dona Lola Sanchez e outros confrades me levaram
até a estação ferroviária. O trem saía às vinte e duas horas
e trinta minutos.
Quando cheguei à plataforma com Dona Lola e os de-
mais companheiros, chamou-me a atenção uma senhora
camponesa despedindo-se da filha. A jovem era uma daque-
las meninas bonitinhas, bem modestas, do interior, vestida
com simplicidade, o cabelo liso, partido ao meio e muito
mimosa.
A mãe abraçava-a e despedia-se, beijava-a e abraçava-a
de novo e a cena comoveu-me. Fiquei olhando a ternura da
mãe com a filha de dezoito ou dezenove anos.
O trem deu o primeiro sinal de partida e me despedi dos
amigos, de Dona Lola, Senhor Benedito, da Aparecida e en-
trei, calmamente.
A mocinha entrou também, apressadamente.
O vagão não estava muito cheio. Eu me sentei à janela,
do lado da plataforma para dar adeus aos amigos, enquanto
que ela sentou-se do outro lado, sozinha.

tímida. pedindo a Jesus que a protegesse. Examinou-a atentamente. ofereceu-lhas. Ele abriu a porta. a coitada vai cair nas malhas do sedutor. olhou a todos. Ela. houve uma parada. aliciadores de me- nores . Dentro em pouco ele já estava conversando com a jo- vem. Numa estação mais adiante. Quando chegamos a Araraquara. a moça ficou animada. deteve-se na moça — o olhar dele era tão típico que me chamou a atenção. A medida que o veículo se movia. eu vi que da mãe saía um fluido leitoso. daqueles tipos de conquistadores de oca- sião... não saberá defender-se. num jeito de quem olha a pessoa e despe-a. Ele parecia muito loquaz. Entrou um rapaz. encolheu-se um pouco. entrava no trem e se implantava na moça. Refleti. Vendo a cena eu orei. porque. O SEMEADOR DE ESTRELAS 155 Quando a composição começou a mover-se. ele havia passado o braço por trás da pol- trona e se lhe chegara mais perto. que brotava do centro car- díaco. Fiquei distraído com outras coisas e. A mocinha chorou um pouco e depois recostou-se. e a lembrança me sensibilizou tanto que prossegui orando. quando percebi. aquele fluido foi-se afinando. totalmente desarmada. Recor- dei-me da sua mãe. ele saltou. uma despedida quase trágica. Ante a gentileza. como se fosse uma nuvem alongada — a idéia era de um arminho muito grosso de meio metro de circunferência. Passou o tempo. comprou frutas. . não deixe que ela seja seduzida — eu rogava. A viagem prosseguiu. ajeitou-se e foi sentar-se ao lado dela. quase desaparecendo. preparando-se para algum repouso desde que a jornada se- ria longa: umas sete horas em média. que estava junto à janela. temendo o que viria depois: Meu Deus. A mãe dava-lhe adeus e chorava. comigo mesmo: Meu Deus. entrou. cabelo glostorado. Eu pensei: Que coisa estranha esse indivíduo! Parece-se a um desses conquistadores baratos.

fez-me uma saudação e desa- pareceu. ten- tando limpar-se. atingindo-o de alto a baixo. e aquele . — Você o conhece? — Não senhor. Logo naquele rapaz. mentalmente. dizia: Não é nela. tão delicado. uma mantilha de renda. à antiga. Olhou para mim e para o par. Dirigiu-se para os dois e começou a aplicar passes na moça. muito sem jeito. entrou um Espírito vestido à espanhola.156 SUELY CALDAS SCHUBERT Fiquei a imaginar: Certamente ela é uma mocinha que vai tentar a vida em São Paulo. tipo sevilhana. de repente me subiu uma coisa. sorriu e continuou aplicando os passes na moça. Sentei-me a seu lado. Era uma Entidade veneranda. Fiquei orando. a moça teve um engulho e vomitou no homem. dei-o para ela e entendi a técnica que o Espírito usara. ameaçada de cair nas arma- dilhas de um sedutor profissional. porém. . — Você está indo para onde? — Estou indo para São Paulo — explicou-me — para trabalhar como dama de companhia numa casa. virou-se para mim e justifi- cou-se: — Veja. Eu fiquei frustrado. O homem deu um salto e gritou: — Miserável! Veja o que fez! — E saiu furioso. Eu. muito bonito. . é no ho- mem. pensando que algo estava errado. com um pente alto preso aos cabelos. — A tua prece foi ouvida — falou-me. um vestido longo. Tirei um lenço. você está doente? — Não senhor. A moça.. Terminou.. De repente. De súbito. Afaste-o dela! O Espírito olhou-me. pedindo por ela. então. eu nunca enjoei. para bloquear o lugar e perguntei-lhe: — Minha filha.

os fatos são vistos pelo ângulo espiritual. a respeito de fluidos: . através da vidência de Divaldo. muito educado. que recebe moças como pensionistas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 157 rapaz. O que é que eu faço agora? — Você vai ser dama de companhia — respondi-lhe. Quando saltamos. em Evolu- ção em Dois Mundos. Ele estava explicando-me quando aconteceu isto. sorrindo: — Está melhor? Ele deu uma resposta a seu tipo e foi-se. todo sujo. que me queria levar para a casa da tia. — Este rapaz é um aliciador de moças para a loucura do sexo desregrado. Neste momento. vi- mos o rapaz descer do trem. Expliquei-lhe o que era e ela ficou muito surpresa. a roupa branca com manchas cor de café. Deste interessante caso derivam vários pontos para uma melhor reflexão. Ele estava até me ofe- recendo um emprego melhor. Vale a pena recordar o que diz André Luiz. — Mas. — Falou até que estava apaixonado por mim. Olhei-o e perguntei-lhe. sobressai a vibração de amor da mãe ao se despedir da filha. segui com ela. Novamente. De princípio. não é possível. na estação. enquanto eu fiquei a reflexionar na forma como os Espíritos agem. porque ele tem a missão de contratar moças para trabalhar e a tia recebe-as. ele ê tão delicado! — respon- deu-me. que nunca tinha visto uma moça tão bonita como eu. Fiquei-lhe ao lado até chegarmos a São Paulo. veio dar-me o endereço de uma tia. a fim de defender-me dos "lobos" que existem em São Paulo. — Você vai fazer exatamente como a sua mãe lhe man- dou — aconselhei.

a nascer-lhe da própria alma." (Evolução em Dois Mundos. impacto e estru- a tura. a partir de si mesma. alimentício ou esgotante. como corpúsculo fluídico.158 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o plano espiritual. com um fluido vivo e multiforme. evidentemente. "E assim como o átomo é uma força viva e poderosa na própria contextura. em diversos tipos. mas como o autor ressalta é no plano . por subproduto do fluido cósmico. entretanto. à falta de terminologia equivalente." Mais adiante o mesmo autor espiritual afirma em rela- ção à força do pensamento: "A partícula de pensamento. "Esse fluido é o seu próprio pensamento contínuo. pelo qual a criatura assi- mila a força emanente do Criador. doce ou amargo. de vez que podemos defini-lo. absorvido pela mente humana. porém. ge- rando potenciais energéticos com que não havia sonhado. es- tuante e inestancável. por acumulação. a subdividir-se. em fluido gravitante ou libertador. ácido ou balsâmico. segundo a força do sentimento que o tipifica e confi- gura. é uma unidade na essência. pelas barreiras que o corpo físico representa. diante da inteligên- cia que a mobiliza para o bem ou para o mal. transubstanciando-a. não difere do que ocorre ao encarna- do. comportamento e trajetórias dos compo- nentes que a integram. para influenciar na Criação. força essa que lhe opera a diferenciação de massa e trajeto. nomeável. pois. tanto quanto o átomo. embora viva e poderosa na composição em que se derrama do espírito que a produz. sob a própria responsabilidade. esparsa em todo o Cos- mo. conforme a quan- tidade. por "raio de emoção" ou "raio do desejo". é igualmente passiva perante o sentimento que lhe dá forma e natureza para o bem ou para o mal. mais diretamente. edi- ção F E B ) Este processo. em processo vitalista semelhante à respiração. a não ser. convertendo-se. capítulo X I I I — 1. explicado por André Luiz em relação ao homem desencarnado. vivificador ou mortí- fero. até certo ponto. passiva. qualidade. o homem desencarnado vai lidar. a partícula do pensamento.

Se a Benfeitora Espiritual tivesse aplicado o passe no homem. nas ocorrências da vida cotidiana. ou de ambas. Evidentemente este mérito vale- ria em qualquer circunstância. É nesse momento que utiliza a prece em benefício dela. mas. de comparecer a certos lu- gares que lhe seriam prejudiciais. Há que se considerar o mérito da moça ou de sua mãe. quantas sur- presas e situações desagradáveis. o homem. em geral acontecem para o seu próprio benefício. aliás. uma nobre forma de auxiliar o próximo e de exer- cer a caridade. a presença dele facili- tou o socorro espiritual. que propiciou fosse Divaldo o seu vizinho de poltrona. sempre se pode usar o excelente recurso da prece. surgem no caminho da criatura exatamente para impedi-la de cometer determinados erros. Por não de- tectar as atividades da Espiritualidade. seja em benefício pessoal seja em proveito de outrem. se revolta contra certos fatos que. visando retirá-lo do lado da moça. E eis-nos outra vez diante da eficácia da oração. O SEMEADOR DE ESTRELAS 159 espiritual que o ser humano tem condiçções de aquilatar esse mecanismo. A técnica de ajuda que a Entidade Amiga adotou é dig- na de menção. não raras vezes. Esta é. de agir impensadamente! Esses impedimentos proporcionam momentos de reflexão e se constituem em ensejos preciosos para que o auxílio do Mundo Maior se faça. sempre haveria . no trem noturno. Quantos impedimentos e obstáculos. A resposta ao pedido não se fez esperar. É que nem sempre nos é dado avaliar ou entender como se processam os atendimentos. E da certeza de que face às situações as mais inusitadas e com- plexas. * * * Com sua atenção despertada desde o início da viagem. de pequena monta ou não. Divaldo registra as más intenções do homem que toma lu- gar junto à jovem.

com a certeza de que. . especialmente quando nos faltem quais- quer outros recursos. onde estiver- mos. haverá um meio de ajudar ao semelhante. o homem retirou-se revoltado e com asco. Ficamos. Esse curioso caso proporciona ainda outras conclusões. todavia. da forma como aconteceu. E de que a prece é o meio mais eficaz quando se deseja ser útil. Isso o afastou de vez. Agindo direta- mente sobre a jovem. em qualquer momento.160 SUELY CALDAS SCHUBERT a possibilidade que ele retornasse à carga.

Quando lá cheguei o menino já havia nascido. porque não tenho com quem deixar o meu filho. Fui visitá-la. 17 DESDE O TEMPO DAS CRUZADAS Uma das assistidas pela 'Caravana Auta de Souza". para comprar leite e pó-de-arroz para passar nele. todo caiado de talco. eu não posso morrer. minha irmã. A doente me disse: — Irmão Divaldo. morrerei em paz. fique com Deus! . . no ca- sebre de taipa e palha. de vinte e dois anos. — O senhor garante que fará meu filho feliz? — Garanto. muito pretinho. ficou grávida. Olhei-o e o vi gordo. — Quando me dão dinheiro — explicou a mãe — eu deixo de comprar comida para mim. minha irmã — respondi-lhe —. para tran- qüilizá-la e dizer-lhe que tomaremos conta de seu filho. uma moça tuberculosa. — Então. pois ele será meu filho. já que eu vim aqui em nome de Auta de Souza. No dia em que alguém puder tomar conta dele. — Então. há alguns dias. — Olhe o meu filhinho — pediu-me. morra em paz. e estava sobre uma rede em cima da cama dela. — Pode ficar em paz. Um dia eu soube que ela estava muito mal. .

162 SUELY CALDAS SCHUBERT Foram suas últimas palavras. após tirarmos o cadáver ateamos fogo no barraco. as mangas bufantes. Ele se desdobrou e surgiu aos meus olhos como um pajem francês. na testa. rogando. ao lado da cama. Ele estava prostrado pela pneu- monia. Por debaixo da fresta da porta. Atendi-lhe a solicitação. levou o menino e. Após trinta minutos. que lhe restituísse a saúde. de prana. e vi. perispírito a perispírito. meu filho. Depois. a roupinha negra. O corpinho da criança tremia. e comecei a aplicar-lhe passes. os sapatos "scarpin" com fivela de prata. febre alta e eu tinha receio de uma convulsão. carre- gando uma lanterna. en- quanto recebia a transfusão de forças. A Entidade era tão luminosa que. teve uma hemoptise e morreu. Ele me pediu: — Tio. um Espírito vestido à moda do século XVII. não me deixe morrer. dobrei-me so- bre ele. ficou muito mal. com muito fervor. pois estava com temperatura de quarenta graus. terminadas em punhos de renda. antes de se adentrar pelo quarto. um dia. — Peçamos a Deus. a camisa branca rendada. o laço de fita negra. a luz movimentava-se chamando-me a aten- ção. na Inglaterra. de onze anos aproximadamente. Veio uma das tias. a Jesus. unir-me à mamãe. Vou desdobrá-lo a fim de o vitalizar. Nisso. através da porta. Preocupado. com a gola alta muito eriçada. Olhou para a criança e falou-me: — Meu filho não deve voltar agora. Eu tenho que viver para poder. vendo-o quase morto. aproximadamente. com uma luz oscilante. pois vou fazer uma transfusão de forças. ela voltou a falar-me: . de energias ectoplásmicas. fizemos o enterro. Deite-se ao lado dele. Virou a cabeça para o lado. Quando o garoto estava com oito meses adoeceu. Ela começou a orar. vi como se alguém estivesse caminhando pelo corredor. os cabelos penteados à escovinha. vi aproximar-se um ser venerando. Chamei algumas pessoas para me ajudarem.

nem que eu tenha de lhe dar o meu corpo. recebendo os beijos e a ternura dos outros. tenho sido sua mãe. . Ele viverá! Deus nos vai ajudar. diante daquele corpinho frágil que necessitava pros- seguir com a vida física. Quase cheguei tarde. já bem mais tranqüilos e per- guntei-lhe: — Desde quando a senhora é mãe dele? — Desde o século XI. no Além. várias vezes. retornou ao cor- po e eu o vi encaixar-se para prosseguir na prova redentora. zelosamente. e ele sempre que mergulha na névoa do mundo. Mudei-lhe a roupinha. perde-se de mim. O SEMEADOR DE ESTRELAS 163 — Ouço uma voz que afirma que as nossas preces fo- ram atendidas: ele ficará na Terra. minha irmã. Começamos a conversar. a minha vida. por que a senhora demorou tanto a aparecer? — Porque antes de vir vê-lo. O jovenzinho espiritual. Fui primeiro ver os filhos cujas mães. visitei todos os que aqui nesta casa não têm mãe. Daqui a dez anos eu voltarei. mas. Ele tem de servir a Jesus. Ela. A criança agora transpirava abundantemente. Esta reencarnação é-lhe decisiva. não os podem visitar e deixei o meu — por- que todos são de Deus — por último. eu queria passar antes pelos que não receberam a visita de sua própria genitora. recomendou-me: — Não lhe deixe a temperatura cair muito. porque ele veio nessa situação para aprender a humildade. tudo faremos. prestamente. de que participou. — O menino vai viver — afirmei-lhe — porque. de mim.. — Mas. se de- pender de nós. a fim de evitar-lhe um colapso cardíaco. Meu filho tem de resgatar os crimes cometidos durante a Terceira Cruzada. Divaldo.. — Faça isto. o meu dever é amar os estranhos para mais amar ao meu filho. Não o deixe fracassar desta vez. custe o que custar. sem o carinho de mãe. Ela me falou com tanto amor e ternura que comecei a chorar.

eu parti- cipava da sua festinha — nós comemoramos os aniversários do mês em uma mesma data e aquele era dia do aniversário dele — quando me lembrei de sua mãe espiritual e fiz uma prece. quando alguém come- mora dez anos. pela conduta irresponsável. Ao final. que se não houves- se muito amor em volta dele. Quem é fiel e permanece no trabalho por um decênio já não é mais um entusiasta. os obsessores desencarnavam- no. Meu filho viverá.164 SUELY CALDAS SCHUBERT Despediu-se de mim e desapareceu. adquire mérito para um pedido à Divindade. No dia seguinte. Apresentou-se-me com a mes- ma beleza espiritual e afirmou-me: — Nas leis do mundo espiritual. Cristo. porque ele era sugado. tornando-se credor do prosseguimen- to na tarefa. que lhe foi o grande despertador e agora veio em outra prova. Indaguei-lhe o porquê dessa demora em reabi- litar o passado. A Terceira Cruzada deve ter sido há uns 800 anos e pre- gada por Guilherme. Tenho notícias de que ele vai viver até ultrapassar a idade na qual ele maculou o nome do Cristo. Agora é que ele está resgatando. ela apareceu-me. Era o interesse da igrejificação do poder. vampirizado pelas vítimas de antanho. arcebispo de Tiro. no dia do aniversário dele. Esse Espírito esclareceu-me. ainda. que está no livro Filigranas de Luz. era só um móvel para atingir as metas. A terapia dos passes é uma tarefa de re- . Tagore escreveu para esse menino a página "Testamento do Rei". especialmente para o trabalho anônimo e can- sativo dos passes. — Mais tarde — prosseguiu ela — será encaminhado à mediunidade. Ela explicou-me: — Ele voltou sempre na viciação clerical. Dez anos depois. No século XIX ele veio com o "mal de Hansen". — Com quantos anos ele se comprometeu? — Com vinte e seis anos. para ele.

o dia que finda e o ama- nhecer de promessas e esperanças. É apenas um bebé. graças à sua mediunidade. um novo ato do pungente drama humano. entre as dores de um parto em que a vida triunfa. alguém vela por essa solidão e entra no barraco como se fosse o próprio sol a dissipar as sombras dos mais tristes presságios que invadiam o coração dorido da po- bre mãe. uma mulher tuberculosa. de chofre. Aparentemente uma história simples e triste. Mas a mulher. Ela se despediu. como se o débil organismo físico a expul- sasse. prestes a abandonar a vida terrena. definitivamente. onde a pessoa dá de si mesma e depois. dos muitos que já passaram pela "Mansão do Caminho". tendo como pano de fun- do a dor e a miséria. Morte e vida! O crepúsculo. da morte. Acho este jato de uma beleza comovedora. O SEMEADOR DE ESTRELAS 165 denção. aquietando-se-lhe. um bebê recém-nascido compõem um novo quadro. Um barraco de taipa e palha. a alma que se des- pede. Tese e antítese que se vão fundir na síntese final da Vida que prossegue além da vida. trabalha- dor. A criança é levada para a sua nova vida. tornam-se conhe- cidos. luta para manter o filho — a vida que se inicia na carne. o compromisso selado à beira de sua humilde enxerga — e o vê no futuro. Mas. no constante confronto dos contrários. . então. mais um. quando o paciente se recupera. — Eu o farei feliz. feliz —. É impressionante a riqueza desses fatos que Divaldo narra e que. Ela ouve a promessa. adulto. — Ele será meu filho — promete. ignora quem o ajudou. prometendo retornar após mais dez anos.

pelo menos freqüente de ver qualquer Espírito que se apresente. "A faculdade consiste na possibilidade. Aplica-lhe pas- ses. alguns há que só vêem os Espí- ritos evocados e cuja descrição podem fazer com exatidão minuciosa. preocupa-se.166 SUELY CALDAS SCHUBERT A o s 8 meses enferma gravemente. os gestos. os traços do sem- blante. que por seu lado. Neste momento tem uma belíssima visita. a expressão da fisionomia. Com o concurso dos médiuns videntes. conforme descreve. como um povo de cegos poderia estu- dar o mundo visível com o auxílio de alguns homens que gozassem da faculdade de ver. Um detalhe que primeiro chama a atenção é que Dival- do vê a Entidade através da porta. "Entre esses médiuns. o Codificador esclarece quanto aos médiuns videntes." (it. em plena vivência da promessa. aflige-se. A posse desta faculdade é o que constitui. É seu filho. os sentimentos de que parecem ani- mados. Descrevem-lhe. ainda que seja absolutamente estranho ao vi- dente. até. Allan Kardec dedica o capí- tulo VI à questão das "Manifestações Visuais". o Espiritis- mo. ela ainda não entrara no quarto. Em sua aflição ora e intercede por ele. senão perma- nente. de cuja existência não suspeitávamos. que aí está en- fermo. com as menores particularida- des. com o auxílio dos médiuns videntes. referente às categorias de mé- diuns. as vestes e. e a certa altura diz: "O microscópio revelou-nos o mundo dos infinitamente pequenos. * * * Em O Livro dos Médiuns. revelou-nos o mun- do dos Espíritos. 103) Também no capítulo X I V . c o m risco de vida. propria- mente falando. também constitui uma das forças ativas da Natureza. possível nos foi estudar o mundo invisível. conhe- cer-lhe os costumes. Outros há em quem a faculdade da vidência é ainda . Divaldo. o médium vidente.

Virgínia e um cavalheiro num jardim. isto é. Zêus-Espírito apresenta-se como adulto. Infere-se. uma autonomia maior. (it. As narrativas de D i v a l d o e Chico X a v i e r apresentam esta similitude. Antes de qualquer comentário é oportuno meditarmos o quão pouco sabemos a respeito do perispírito. intitulado "Um sonho que se realizou". 168) * * * Pela vidência Divaldo acompanha todo o desenrolar do socorro que a mãe presta ao filho. em carta da- tada de 25-11-1948. no qual Chico narra. de seus afazeres. o perispírito sob o comando do Espírito miniaturiza-se e assume a mor- fologia que terá daí por diante à qual imprime no corpo em formação. . Wantuil de Freitas e o cava- lheiro ele identificaria. àque- la época uma criança. O SEMEADOR DE ESTRELAS 167 mais ampla: vêem toda a população espírita ambiente. cuidando. em Zeus Wantuil. que em desdobramento encontrara um Espírito cercado de luz. em certos casos. conforme lhe fosse conve- niente. portanto. Um outro ponto se destaca: é o desdobramento do Es- pírito encarnado no corpo infantil. Quando este surge dian- te do médium está com a sua aparência anterior. Isto nos recorda um capítulo de nosso livro Testemu- nhos de Chico Xavier. fisica- mente falando. sendo ele próprio convo- cado a colaborar com suas energias para a renovação das forças da criança. mais tarde. Este processo só se completa quando a criança atinge os 7 anos de idade. no processo reencarnatório. Note-se que embora criança. poder-se-ia dizer. a sra. que durante estes sete primeiros anos o Espírito poderia ter. o que proporciona então uma reação or- gânica contra a infecção. editado pela FEB. Esta era mãe do Dr. Sabe-se que. a se mover em todos os sentidos. de sua última existência. quando em desdobramento.

Além da alegação notória que as lançou — to- mar os Lugares Santos da Cristandade em Jerusalém —. Ressalta ainda deste texto a comovedora dedicação da Entidade que se apresenta como mãe espiritual da criança. 1189-1192. Ela explica que ele cometera graves crimes por ocasião da Terceira Cruzada. Terceira Cruzada. Cruzada das Crianças. que traz consigo. vem desde o século X I . A programação das reencarnações varia ao infinito e tanto no caso da criança enferma quanto no de Zeus houve permissão — talvez por necessidade e/ou mérito — dessa autonomia. como mãe e filho. As Cruzadas aconteceram entre os Séculos X I e X I I I . a Igreja de Roma viu nelas uma oportunidade de alargar para . muitas lembranças do passado. 1202-1204. Sexta Cruzada. "Entre as "guerras santas" nenhuma foi mais sangren- ta e mais dilatada do que as Cruzadas cristãs. das funções do perispírito e. Quinta Cru- zada. de maneira lógica. essa plasticidade do perispírito de um Espírito encarnado.168 SU ELY CALDAS SCHUBERT Assim se explica. graças à mediunidade e à revelação dos Espíritos. Só aos poucos vamos desvendando essas nuanças do processo reencarnatório. Sétima Cruzada. quando leigos e religiosos se uniram numa tentativa maciça de recuperar a "Terra Santa da Cristandade" em poder dos muçulmanos infiéis. A ligação entre ambos. Quarta Cruzada. Segunda Cruzada. 1248-1264. Os historiadores costumam estabelecer as seguintes datas para as Cruzadas: Primeira Cruzada. Essas guerras convulsionaram a Europa e o Oriente Próximo durante 178 anos. 1218-1221. isto. 1096-1099. durante a Idade Média. 1228-1229. 1270-1274. inclusive. 1212. Oitava Cruzada. * # * As Cruzadas eram expedições militares de caráter reli- gioso. 1147-1149.

os Cruzados fracassaram. suas janelas para o mundo tinham-se aberto e todos os aspectos da vida medieval haviam sido afetados. mostravam-se dissolutos e brutais. Tomando a cruz. . entre 1189 e 1192. tinham perfeita noção das recompen- sas prometidas pela Igreja — inclusive a remissão de peni- tências pelos seus pecados e moratórias para as suas dívi- das. O SEMEADOR DE ESTRELAS 169 o Oriente os seus domínios. se comprometeu grave- mente. onde imperava a sua grande rival. Vio- lavam e saqueavam outros cristãos e cometiam terríveis atrocidades contra os inimigos muçulmanos. "Os Cruzados recuperaram os Lugares Santos. a Igreja Grega. e a Europa novamente deveria voltar-se sobre si própria. a lei de Maomé dominava as terras onde se haviam travado as batalhas. Os reis e senhores feudais da Europa ocidental viam perspectivas de adquirir novas terras e ri- quezas e o clero esperava encontrar um escoadouro para os rixentos e desordeiros. mas só os mantiveram em sua posse menos de cem anos. A própria mãe esclarece que ele usou o nome do Cristo para se locupletar através do poder que a Igreja lhe con- ferira. Porém jamais seria a mesma Europa. e foi por esta época que o Espírito hoje reencarnado no menino adotado por Divaldo. "Os próprios Cruzados obedeciam a impulsos conflitan- tes. uma grande força de fé também dirigia os Cruzados. Muitos. o império bizantino dos cristãos orientais estava fatalmente abalado. E tanto nessa obra de conquista como na realização do sonho de estender até ao Oriente o poderio do Ocidente. Ao se encerrarem as Cruzadas. Contudo. porém." (Dados extraídos da "Biblioteca de História Universal L i f e " ) *** A Terceira Cruzada aconteceu no século X I I . ao final. uma pro- funda reverência pelo solo pisado por Jesus.

170 SUELY C A L D A S S C H U B E R T Como se pode perceber a cada passo dos ensinos dos Espíritos. São os mais hediondos que o ser humano pode cometer. que para todos nós deveria ser sagrado. o que esta- mos fazendo do nome d'Ele? Da Sua mensagem? Do Con- solador que Ele prometeu à Humanidade? O que fazemos do Cristo? . a cada testemunho vivo que apresentam o quanto são gravíssimos os crimes perpetrados em nome do Cristo. engajados nas hostes espiritistas. pois além do crime em si ainda levam o agravante de usarem o nome d'Ele. Entre- tanto. em nossa mesquinha pequenez quantas vezes o usur- pamos para mascarar nossas tenebrosas intenções? E hoje.

meu filho. Bezerra de Menezes. e eu vi. que me parecia vir de fora. Bezer- ra. Bezerra. Agora. desperte feliz. sou eu. qual foi a sua maior felicidade quando chegou ao plano espiritual. meu filho. perguntei ao Dr. os companheiros que- ridos das hostes espíritas que me vinham saudar. bela e radiosa. Então. Ele respondeu-me: — A minha maior felicidade. A Mãe de Jesus pediu-me que lhe dissesse que você já se encontra na Vida Maior. Celina?! — Sim. . é você. havendo atravessado a porta da imortalidade. eu ouvia um murmúrio. meu amigo. suavemente: — Bezerra. com ternura e lágrimas nos olhos. me disse: — Venha ver. se aproximou do leito em que eu ainda estava dormindo. Ajudando-me a erguer-me do leito. falou. acorde. Chegaram os meus familiares. tocando-me. e. amparou-me até uma sacada. foi quando Ce- lina. Bezerra! Abri os olhos e vi-a. 18 A FELICIDADE DE BEZERRA DE MENEZES Um dia. uma multidão que me acenava. Celina. Mas. — Minha filha. a mensageira de Maria Santíssima.

. a aliança entre a Ciência e a Religião. Este belo diálogo mantido entre Divaldo e o Dr. escoimando. para atapetar a senda que um dia percorreremos. que o vêm saudar no pórtico da eternidade. Bezer- ra de Menezes leva-nos a recordar alguns momentos da vida desse grande missionário. alicerçadas nas bases sóli- das da Doutrina Espírita. E o Dr. sem nunca per- guntar-lhes o nome. a orientação pautada nos ensinos de Jesus. então. Celina? — perguntei-lhe — não conheço a ninguém.172 SUELY CALDAS SCHUBERT — Quem são. reunia. Bezerra imprimiria o cunho evangélico. os destroçados do mundo. A FEB. das lágrimas que enxuga- mos. mas eminentemente sentidos e vividos. divididos em várias correntes.. realmente. tanto de uma . São eles. sobressain- do-se a dos "místicos" e a dos "científicos". os nomes mais expressivos e respeitáveis do meio espírita e despontava como autêntico celeiro de luzes aclarando e dissipando as densas nuvens formadas pelas divergências e disputas em que se empenhavam os espiri- tistas da época. no ano de 1895. a quem você estimulou e guiou. que chegaram às sessões mediúnicas e a sua palavra caiu sobre eles como um bálsamo numa ferida em chaga viva. porquanto. como de- corrência do bem que fazemos. das palavras que semeamos no caminho. Bezerra concluiu: — A felicidade sem lindes existe. Quem são? — São aqueles a quem você consolou. meu filho. que foi Presidente da Fede- ração Espírita Brasileira. Na sua gestão. são os esquecidos da Terra. fundada em 1884 por Augusto Elias da Silva. promovendo. São aqueles Espíritos atormentados. Somente uma mensagem desse quilate teria o condão de unir os espíritas. que eram por ele não apenas ressaltados.

Joanna de Angelis apresenta-se em primeiro lugar e orienta o anda- mento dos trabalhos. as suas intenções. esse Espírito de escol. Além dessa atuação decisiva à frente do Movimento Es- pírita. Este. a sessão é iniciada. tem vindo ditar a Divaldo e outros médiuns as suas experiências no resgate de almas transviadas. a de doutrinador e dirigente de reuniões mediúnicas. que. padecentes. colocam-se em con- dições de receberem a sua palavra permeada de amor. No momento aprazado. Uma delas. transmitiu ao Presidente Francisco Thiesen a orientação de Joanna de Angelis sobre a necessidade de fa- zer-se um labor mediúnico. Ele mesmo. O comunicante transmite. A todas estas tarefas alia-se. pela nossa psicofonia. Pode-se imaginar Bezerra de Menezes atendendo aos encarnados e desencarnados com o mesmo e imenso amor que o caracteriza. no final do século. a sua ação caritativa no desempenho de sua atividade profis- sional e na vivência em geral. Comunicaram-se quatro entidades: a primeira delas pelo próprio Divaldo e a quarta por nosso intermédio. Bezerra exercia várias outras ati- vidades. Diz estar satisfeito com as ocorrências do . e convocou médiuns. doutrinadores e alguns par- ticipantes. Divaldo. Uma sessão mediúnica memorável aconteceu. evidentemente. na sede da FEB. estando presente para as sessões do CFN e palestras. os radicalismos prejudiciais que impedem essa associação. por ocasião da reunião do Conselho Federativo Nacional. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 173 quanto de outra. em novembro de 1985. marcou a hora e local. Amor que o leva a permanecer entre nós e prosseguir no mesmo amorável atendimento aos que ainda estão jornadeando pela Terra e aos que estão em regiões de sofrimentos e de sombras no plano espiritual. em Bra- sília. então.

com prejuízos maiores para si mesmo. Ele não está mais com vocês. Suas palavras. Temos os nossos médiuns. a vibração de amor foi de tal intensidade que a Entidade é atingida no âmago de suas emoções. mais que as palavras. de novo. ele não identifica. só que desta vez não terão a ajudá-los a figura daquele que tanto enaltecem e veneram. o erro em que incorre. a figura lu- minosa que se aproxima. Vibrante e colérico ele não aceita os argumentos do doutrinador que. Bezerra de Menezes. a mesma intenção de outrora. o que. le- vando o fermento da discórdia. de mágoa. Arrebatado. Entre- tanto. ditas em tom de voz vibrante.174 SUELY CALDAS SCHUBERT Movimento Espírita. atualiza- da. e transbordando de dor. amorosas palavras de esclarecimento. Hoje temos no- vamente as duas correntes: a dos místicos e a dos científi- cos. de pronto. basta para aquiltarmos a recepção merecida por . em pranto. ao irmão angustiado. Tem. Agora estão sozinhos e não conseguirão vencer-nos. tenta mostrar-lhe. da cizânia. Este é o melhor modo de dividirmos os es- píritas e acabarmos com o Espiritismo. em seu bojo. de carências outras. foram: — Estamos vivendo. a mensageira de Maria. Celina. com paciência e carinho. bem de acordo com a época. atormentador- atormentado. que transmitem o que planejamos. envolvendo a Divaldo. a seu lado. por si só. desliga-se. e prosterna-se diante do vulto aureolado de Bezerra de Menezes — cena esta que vimos — que o retira. a época dos místicos e dos científicos. em vão. É nosso interesse manter essa disputa. Estamos em toda a parte. em seguida. mas que traz. A história se repete. resumidas. Bezerra de Menezes — nome amado e respeitado por todos — singelamente narra a Divaldo a sua mais comoven- te surpresa ao despertar no Mundo Maior. transmite. hoje com roupagem diversa.

ouve um murmúrio que vem de fora. relembra- nos Allan Kardec no trecho citado. É bem essa. em Obras Póstumas quando o Espírito de Verdade. as lutas ingentes. o Codificador escreve uma nota que é um dos trechos mais belos e significativos de sua pena magistral. sobrelevaram de muito o mal. a par dessas vicissitudes. todavia. Celina ali está. O SEMEADOR DE ESTRELAS 175 ele. uma grave advertência. Qual não seria. dos que se doam ao Bem. sem dúvida intencionalmente." A felicidade de Bezerra de Menezes. mostrando-lhe os percalços do caminho. também. faz-lhe. Isto nos faz recordar a narrativa de Allan Kardec. Celina o conduz até a sacada e o bondoso "médico dos pobres" depara-se com uma cena realmente comovedora. A estrada é aspérrima. a senda crucial daqueles que se resolvem por seguir a Jesus. Descreve aí o calvário por ele enfren- tado no desempenho de sua missão. ao se defrontar com os beneficiários do seu apostolado de amor. radiosa como nunca. que de satis- fações experimentei. vendo a obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi da parte de muitos aflitos a quem a Dou- trina consolou! Este resultado não mo anunciou o Espírito de Verdade que. pois. também. Entre sorrisos e lágrimas de emoção ele vê chegar os entes queridos do co- ração. as bênçãos alcançadas transformam-se em felicidade indescri- tível que transcende ao nosso — por enquanto — estreito entendimento. a minha ingratidão. não estaria com a verdade. afirmando: "Mas. se me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal. guardadas as devidas proporções. . os sofrimentos e sacrifícios que lhe seriam exigidos. porquanto o bem. ao reve- lar-lhe a missão. mas. refiro-me às satisfações morais. E finaliza. Dez anos e meio depois. apenas me mostrara as dificuldades do caminho.

enormes e bri- lhantes. muito plangente e muito pro- funda. . que. e de- sejo que me grafes alguns pensamentos — disse-me o Es- pírito. em cuja fisionomia. levantei-me e providenciei o material para a psicografia. Eu confesso. 19 A ESTESIA DE TAGORE No ano do aparecimento psicográfico de Marco Prisco. tocada numa espécie de cítara. Imediatamente. — Eu sou Rabindranath Tagore. em 1949. certa noite eu estava deitado. penetrante e bela. só veio a ser publicado muitos anos depois. que nunca havia ouvido falar neste nome ou lera qualquer coisa a seu respeito. de tez bem escura. cujos fios pareciam ter cam- biantes prateados. Tagore foi ditando as várias mensagens que constituiriam seu primeiro livro. uma Entidade veneranda. tive uma visão belíssima de jardins verdejantes e floridos. Enquanto psicografava. poeta da Índia. honestamente. Nesta. entrando em transe mediúnico. sobressaíam os olhos negros. quando ouvi uma música de uma beleza indefinível. continuei a ouvir a melo- dia. em 1965. A partir dessa noite. de túnica alva. de se- rena beleza. e a barba alvinitente. no entanto. com o título de Filigranas de Luz. cortados por um riacho de águas claras no qual deslizava uma barca. Ao som dessa música. durante certo tempo. logo em seguida.

quando o livro finalmente foi lançado. não coloquei o pre- fácio recebido por Chico Xavier por timidez. o Professor Pastorino. em Pedro Leopoldo. pois nada comentara a respeito e nem mesmo estava a recordar-me do fato. que Nelson Affonso. Em 1965. Rabindranath Tagore prosseguiu ditando-me as suas páginas. Foi. Chico psicografou uma mensagem de Ta- gore. após consultar Chico Xavier e dele receber anuência. Como prefácio. nos dias em que esteve na "Mansão". poderia fazer uma análise cuidadosa. algumas delas pu- blicadas na imprensa espírita e agora enfeixadas no nosso livro ESTESIA. entregou-me. onde o médium mineiro. colo- . O SEMEADOR DE ESTRELAS 177 Em 1957 ocorreria um fato muito interessante para mim. participava do Culto Evangélico em casa da senhora Her- melita Horta. no dia 28 de janeiro desse ano. pequena cidade pró- xima. com certa freqüência. mas o original. posteriormente. E foi tal o seu entusiasmo que ele próprio dati- lografou o livro. naquele momento. intitulada "Louvor". Quase trinta anos decorreram. e que. não o Tagore traduzido. homem de vastíssima cul- tura. Grande foi a minha surpresa. e. esclarecendo ser o prefácio para o livro que eu psicografara e que se encontrava guardado. Ao terminar a leitura. que está sendo lançado. a pedido dele. o Professor Carlos Torres Pastorino e sua esposa. foram passar uns dias na "Mansão do Caminho" e aproveitei o ensejo para mos- trar-lhes os originais do livro ditado por Tagore. Em visita a Chico Xavier. no original indiano e nas traduções de Gui- lherme de Almeida. ao terminá-la. portanto. Em 1960. como ha- bitualmente fazia. nas páginas psicografadas. este con- vidou-me a ir com ele a Matosinhos. o Professor Pas- torino expressou-me sua emoção e alegria por encontrar. diretor do "Grupo de Estudos SPIRITVS" escreveu um prefácio. também. a senhora Elza Pastorino. informou-me que conhecia a obra do poeta hindu no original inglês. Para minha surpresa. o livro seria publicado. com o qual. Na ocasião.

ficam arquivadas. O médium baiano fica agradavelmente surpreso. Tagore não é um nome conhecido do médium. Divaldo prefere. que até então não travara contato com as suas obras. uma distân- cia que nos permite. em fotocópia. O fato em si fala mais alto que quaisquer palavras e deve merecer a nossa reflexão. Filigranas de Luz é lançado. pela nobreza de que se reveste. hoje. mas não traz o prefácio do autor espiritual. entre nós e aqueles dias. As páginas recebidas. entretanto. A primeira visão que Divaldo tem de Rabindranath Tagore é deveras singular e expressa bem o sentido do belo. Mais três anos decorrem até que Divaldo tenha a ocasião de mostrar os originais ao Professor Carlos Pas- torino. em 1960. intitulada "Louvor" e a entrega a Divaldo. lhe deve ser inerente. em companhia de Chico Xavier. do acontecido. imaginamos. dizer que a grandeza deste gesto de renúncia é imensurável. dizendo ser o prefácio para aquele livro que ele psicografara. Em 1965. e constatar-se que em ambos ele se mostra com a mesma extraordinária estesia. renunciar a ele. este psicografa a mensagem ditado por Tagore. Em 1957. Mas. indo a Matosinhos.178 SUELY CALDAS SCHUBERT camos. . naquele momento. para esta finalidade. pois não se recordara. É muito interessante observar-se o estilo de Tagore atra- vés de um e de outro médium. re- conhecendo a autenticidade das páginas de Tagore. a partir de 1949. O tempo coloca. que. naquele momento. somente aconteceria cinco anos depois. ditado a Chico Xavier em 57. Este incentiva o médium a publicá-los. o que. a mensagem psicografada por ele três décadas atrás.

quanta estesia na Tua realização!" exclama em seu novo livro. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 179 A esse respeito. Nesse perío- do. um período de maturação. por ele denominado de diferentes maneiras: "Os ouvidos do Zagal Divino registram a voz do co- ração"(. "Rei de todos os Reis"! são algumas das formas com que Tagore revela o seu amor por Ele. o autor espiritual fala dos encontros do homem com o Cristo. o que torna a sua mensagem altamente positiva. como também acon- tece com muitas outras páginas por ele psicografadas. que só vieram a ser divulgadas após muitos anos. não po- deria ser mais bem escolhido. Mesmo quando descreve as misérias e as dores. Tagore percorre os caminhos do sentimento e expressa o que existe de mais belo nas aspirações e expectativas hu- manas. pois. Divaldo não tem pressa em publicá-la. pois o genial poeta hindu parece ter. transcorreram dezesseis anos. . a sensibilidade lírica singular capaz de extrair de tudo o significado puro e transcendente. "Rei da Juventude e da Paz". A prática mediúnica exige. Um ponto que merece mencionado é o extremado zelo com que Divaldo encara a sua mediunidade. realmente. na sua fase inicial o médium necessita percorrer um longo caminho. a produção psicográfica desse autor permanece inédita.) diria ele em Filigranas de Luz. . a visão e o sentimento da be- leza. a fim de adquirir experiên- cia. "Cancioneiro do silên- cio". enquanto vai sendo testado pelos seus Guias Espirituais . Entre o ano em que Rabindranath Tagore inicia o seu trabalho com o médium até a época da publicação de Fi- ligranas de Luz." escre- ve por Chico Xavier no prefácio de ESTESIA. Transmitindo uma visão constante da busca do Criador pelo ser humano. como ninguém. "Graças Amado meu! Senhor. "Artista da Vida. mantém o suave lirismo que o caracteriza. . bendito sejas!. o título do novo livro Estesia.

em sua excelente obra No Invisível: "A boa mediunidade se forma lentamente. amadurecidas no santuário de sua alma. desiludi-lo e afastá-lo da tarefa." (No Mundo Maior — capítulo 9) Esse processo de amadurecimento. o médium pode entrar em lamentável processo de fascinação. essa fase mais ou menos longa de estudo e trabalho. pois. seu campo. pelo lápis de Chico Xavier: "Nenhuma árvore nasce produzindo. ao abrigo das sugestões do orgulho. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção. por isso. não aceitando as críticas por julgá-las injustas. in- clusive. como também de expec- tativas. Depois de um período de prepa- ração e expectativa.180 SUELY CALDAS SCHUBERT quanto à perseverança. nem sempre são aceitos pelos médiuns. boa vontade e amor à tarefa. . dedicação. Chico Xavier e Yvonne Pereira vamos encontrar esse laborioso processo de adestramento e amadurecimento da faculdade mediúnica. Leon Denis refere-se a isso. disciplina. a se tornar cooperador utilíssimo na obra de regeneração que eles vêm realizando. que. nem sempre são submetidas ao crivo da razão. com a assistência de seus Guias. e qualquer facul- dade nobre requer burilamento. sua rota. que poderão. longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. A mediunidade tem. O exemplo dos nossos mais respeitados médiuns da atualidade. Ou ainda. virá. porém. no estudo calmo e silencioso. que. por tor- narem conhecidas as suas produções mediúnicas. O re- sultado acaba sendo prejudicial ao próprio medianeiro. irá sofrer críticas as mais diversas. sua evolução. Em Divaldo Franco. o médium colhe o fruto de seus perse- verantes esforços: recebe dos Espíritos Elevados a consa- gração de suas faculdades. recolhido. Muitos não têm a necessária paciência e anelam pelo prestígio." André Luiz diria mais tarde. ao lançar obras mediúnicas eivadas de erros doutriná- rios. são condizentes com os ensinos da Dou- trina.

o burilamento imprescindível para torná-lo seu me- dianeiro. à meditação. Espírito trabalhado na forja do sofrimento. O SEMEADOR DE ESTRELAS 181 O tempo consagrou a missão de cada um e a fidelidade com que se dedicam à Causa. encontrou. evidentemente. nos anos de trabalho mediúnico de Dival- do. o médium ideal para filtrar o seu pensamento. que foi Prêmio Nobel em 1913. O poeta hindu. não há pressa. cuja linguagem poética sabe a mistérios e encantos da Índia. cuja sensibilidade altamente aprimorada é toda voltada para o Bem. Rabindranath Tagore. em Divaldo Franco. Para os Espíritos Superiores. encontra assim. afeiçoado à disciplina. .

o início de uma nova etapa. também. Obviamente. A sua chegada. com a alma em festa que me dirigi ao Cartório a fim de registrá-lo. portanto. Tê-lo em meus braços. Uma dúvida. não apenas na nossa Instituição. o meu intuito era o de lhe dar o meu nome. contudo. Recolhemo-lo com carinho e todos os cuidados lhe foram dispensados. Foi. porém. em um pequeno depósito de lixo. Chamo-me Auta de Souza. ENQUANTO É HOJE Em 1952 fui ao Cartório para registrar o meu primeiro filho. em nossa "Mansão do Caminho". que vi aproximar-se um Espírito conhecido. Eu lhe seria o pai. significava para mim o pas- so para a concretização de compromissos que assumira. 20 AGORA. nos registros legais. na Terra. representava. poetisa potiguar. para toda a nossa equipe. Ele havia sido abandonado à porta da rua. Fui. que me disse: — Dá-lhe o meu nome. Era uma criança raquítica e seu estado de miséria era tal que nos constrangeu pro- fundamente. nesse momento. me preocupava: que nome declararia como sendo o da mãe da criança? Foi. porquanto desencarnei há muito tempo. mas. Seu choro atraiu-nos a atenção. .

Em 18 de maio de 1954. . já a homenageara colocando o seu nome no setor das nossas atividades assistenciais iniciadas em 1947. de que Auta de Souza. ditado por Auta de Souza e a mim dedicado." Ao impacto dos primeiros versos. sobretudo. com o lirismo que lhe é peculiar. é mais um interessante episódio de uma vida imensamente rica de fatos marcantes e. no qual a doce poetisa potiguar traça. de convite à caridade. Sente que está sendo convidado a realizar os planos que há muito cons- . Auta. desencar- nada em 1901. Derrama em torno compassivo olhar Estende as mãos aos filhos da amargura. em 18 de maio de 1954. o soneto que ele acabara de psicografar. "Agora. prontamente registrei Jaguarassu como meu filho e de Auta de Souza. que era conhecida como Caravana "Auta de Souza". O SEMEADOR DE ESTRELAS 183 Encantado com a sugestão e com as vibrações suaves e amoráveis com que ela me envolvia. A revelação de Divaldo. enquanto é hoje. Raras vezes. . por sugestão dela própria. está registrada c o m o mãe de seu primeiro "filho". Divaldo percebe estar num momento muito especial de sua vida. estando em Pedro Leopoldo. em suaves versos. tive a grata surpresa de receber. tem-se visto uma mensagem de estímulo. o jovem baiano ouve a leitura do soneto. dedica- lhe um de seus mais belos sonetos. eis que fulgura O teu santo momento de ajudar!. pelas mãos de Chico Xa- vier. cuja convivência diária lhe é absolutamente na- tural. Espírito profundamente ligado a Divaldo. todo um programa de amor ao próximo. pontilhada desde o berço pela presença dos Espíritos. de maneira tão persuasiva e bela. Com incontida emoção. pela psicografia de Chico Xavier. Anteriormente. intitulado AGORA.

vê-se incapaz de contê-lo por um momento que seja. ele que sente a imperiosa necessidade de servir. Todo o amor que carrega dentro do peito parece explodir naquele instante e." O fecho traz uma promessa que ainda não percebera. "Repara! Aqui e além a desventura Caminha ao léu. Re- lembra. num relance. desde então. doce e pura. viver a excelência dos ensinamentos que a Doutrina Espírita reacendia em seu coração. todos os sonhos carinhosamente anelados. O "agora" é a força desencadeante de todos os sentimentos. Dedicar-se integral- mente ao serviço do Bem. Nem mesmo antes. promessas e esperanças que moram dentro dele." Este é o instante. cada vez mais. Abre teu coração ao Cristo vivo. Não permitas que o tempo marche em vão. "E ajudando e servindo sem cansaço. Abrir o coração ao Cristo que vive. definitivamente. todos os seus momentos. mas uma certeza presente e atuante ao lado dos que 0 procuram. "tranqüila. é o ca- minho. em obras. devotar-se aos sofredores. . Aproveitar o tempo como nunca fizera até então.184 SUELY C A L D A S S C H U B E R T tituem o tema de suas cogitações profundas e íntimas. dos que desejam segui-lo. sem luz. Alcançarás subindo passo a passo A glória eterna da ressurreição. Rompe-se. A fé que a Doutrina Espírita torna raciocinada. doce e pura" será transformada. Que ali . sem pão. 0 agora seriam todos os dias." Pelos seus olhos passam as figuras sofridas que Auta vai mencionando. sem lar. em outras épocas e lugares. o dique das emoções e sob esta força edificaria o mundo à sua volta. . Acende o próprio amor! Faze brilhar A tua fé tranqüila. o desfile das dores e misérias que tanto o sensibilizam e às quais está sendo emulado a entender. "Agora! Eis o minuto decisivo!. O Mestre não é uma figura longínqua. que está ao lado dos que sofrem.

construir o seu próprio destino. para Divaldo. As filas crescem. Cor/ação. desse Cristo vivo de que o Espiritismo dá notícias para consolo e esperança da Humanidade. como o aluno busca o mestre. do mato. O mundo o pro- cura para fazê-lo falar desse amor que o anima e motiva. de onde parte otimista e feliz para o seu destino. E N Q U A N T O É HOJE. Os "filhos da amargura" chegam aos magotes. Avançam os dias. como o filho busca o pai. Fazer o futuro com as próprias mãos. do sonho a "Mansão do Caminho". A ação vai ampliar-se cada vez mais. Aju- dar e servir sem cansaço. seguir — con- vites decisivos dando-lhe a certeza inabalável de que todos os seus ideais são legítimos e possíveis. afinal. começa agora. subir. L i g e i r o alcança o bairro da Calçada e transpõe as portas do "Caminho da Redenção". Já a tem de cor e também no coração. diz Auta. Surge da terra. As crianças o rodeiam e lhe estendem os braços. agora! O moço estende as mãos trêmulas e recebe de Chico Xavier a preciosa mensagem. caminhar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 185 está ao lado de Chico Xavier. Em breve tempo eis o momento. A vida. todas as manhãs que nascem prosseguem sendo o seu AGORA. Dependeria apenas dele realizar o "agora". Hoje. Pelo caminho a relê mil vezes. mas. C o m a alma nos olhos vê a sua Salvador aproximar-se. por sentir intimamente que junto ao médium receberia aquilo que precisa saber. os anos. .

fui procurado no Centro por uma senhora que me veio pedir ajuda. Eu não posso fazer nada por essa pessoa. Ela ouviu a minha queixa e respondeu-me: . Veja este caso! Eu vou ter de dizer um não para ela. Joanna de An- gelis me apareceu. (Ela já estava ali para verificar o meu comportamento. pois não tínhamos mais lugar nem condições para os receber. Ao vê-la. Ela se aproximou. contando a sua história. disse-lhe: — Ah. muito humil- demente e disse-me: — Senhor Divaldo. Ela foi falando. Eu estava muito cansado e comecei a ficar angustiado com o problema dela. Então. Eu ia ter de negar-lhe. eu vim aqui porque um freqüenta- dor desta casa mandou. falando. 21 NOME ESCRITO NO LIVRO DOS CÉUS Certa vez. não ajudou a pobre criatura? Por que têm sempre que pensar em mim para resolver o problema dos outros? Enquanto fazia tais indagações mentais. Ele mandou perguntar se o senhor pode internar meus quatro filhos. eu pensei: por que essa pessoa que a recomendou a mim. pensei). que bom que a senhora apareceu.

podes amá-la. sugeriu-lhe: — Minha irmã. porque o teu nome está escrito no livro do Reino do Céu? — Não. . Esta pobre irmã chorou muito e pediu a Deus que lhe en- viasse o socorro. — E ela veio. Quando terminou. a Divaldo. e é uma falta de caridade separá-la dos filhos. — Mas tu podes amá-la. . Veio a intuição: manda para o Divaldo que tem o nome escrito em nosso livro. numa emergência. alegrai-vos. expliquei-lhe: — Receber as crianças eu não posso. inspirado. Então — prossegue Joanna — tu estás aborrecido. na rua tal. para que. Ele resolverá o seu caso. alguém está exercendo a caridade. Os Benjeitores Espirituais procuraram então quem lhe pudesse ajudar. Não lhe posso aten- der o pedido. mas. vá lá. senhora. Não podes aquiescer em rela- ção ao pedido que ela te jaz. saibam a quem pedir ajuda. Ia passando uma pessoa de bom coração que te conhece e os Espíritos inspiraram-na a pedir-lhe ajuda. só que eu quero pedir a Nosso Senhor que não precisa exagerar muito. vá lá. O SEMEADOR DE ESTRELAS 187 — Então estás triste porque alguém mandou que um necessitado viesse a ti? — Sim." (Lucas 10:20) Quando o Senhor sabe que na Terra alguém ama. E ao invés de te angustiares ou te impacientares. aduziu: — No Evangelho há um texto que diz: "Não vos ale- greis porque se vos sujeitem os espíritos. Mas nós vamos estudar um jeito de ajudá-la sem . Ela está fazendo-te a caridade de aprenderes a ouvir. porque vou ter de negar. Fez uma pausa e. Ele determina que Espíritos gentis anotem o seu nome. por estarem os vossos nomes escritos nos céus. Viram que. O freqüentador. Mas a mulher me estava fazendo a caridade de contar o seu caso. em Salvador. tem calma. antes. para me consolar. estava anotado Divaldo Franco. Não posso porque a senhora é mãe. alguém está sendo útil.

de Lucas. quando Jesus os orienta: "E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta. exercida com abnegação e total desprendimento. no sábado. de caridade legítima e completa. a todas as cidades e lugares onde Ele havia de ir. . O que eu queria mesmo é uma colaboração para criá-los. explica onde é e iremos. nesse trabalho. que há um perfeito encadeamento da parábola com as ins- truções dadas aos discípulos. Nunca mais — isto foi há mais de trinta anos — eu me precipitei. o amor.188 SUELY CALDAS SCHUBERT retirá-los do seu convívio. de dois em dois. neste capítulo. No diálogo com Marta o Mestre ressalta a relevância das coisas espirituais. se eu estivesse no seu lugar eu não pediria. O trecho do Evangelho. tentando solucionar o problema. Ele afirma-lhes que têm os seus nomes escritos nos céus. o mais difícil possível. o desprendimento. de tolerância. pois ela representa o exemplo da verdadeira caridade. eu estava com tanto medo de que o senhor quisesse ficar com eles. A senhora me dá o seu endereço. Quando uma pessoa me procura com um pro- blema. essas pessoas nos fazem a caridade. tomado em seu conjunto. enfim. Portanto. Bela lição esta. de paciência. e mandou-os adiante da sua face. Ela me olhou bem e disse-me: — Ah. Logo em seguida Lucas narra a parábola do Bom Samaritano e finaliza com o texto de Marta e Maria. Verifica-se. em que está inserido o versí- culo citado por Joanna de Angelis. ensinando-nos a pa- ciência. é o capítulo X. e se inicia com a missão dos setenta discípulos. Fiquei imaginando a caridade que esta mulher me fez. senhor Divaldo." Após transmitir as instruções. eu me imagino na situação dela e penso: talvez. talvez tomasse à força.

que interrogado o Mestre por um doutor pusilânime que o tentava. quando por ali passasse de retorno. um pobre homem foi deixado à margem da estrada que descia de Jerusalém a Jerico.' Disse. do Evangelho. embora o vissem. Um samaritano. Sintetizemos a narrativa: 'Assaltado por malfeitores. quem seria o próximo. Jesus: Vai. que constitui o capítulo X. (pág. e jaze da mesma maneira. do capítulo 10. quem seria o próximo do homem sofrido. ao que este respondeu: 'O que usou de misericór- dia para com ele. O SEMEADOR DE ESTRELAS 189 Observando a vida de Divaldo Franco encontramo-lo em plena e integral vivência de todo este texto de Lucas. após inquiri-lo sobre a Lei. e depois um levita que.' E ante o assombro do interlocutor o Mestre indagou-lhe. Em seguida Joanna faz uma comparação entre a pa- rábola e as reuniões mediúnicas. L E A L ) : "Conta Lucas. o homem caído na orla do ca- minho. a respeito da herança celeste. dispondo-se a resgatar quaisquer compromissos excessivos. por ali passando e o vendo. a parábola do bom samaritano. edição. no versículo 25 e seguintes. Parafraseando esta comparação da autora espiritual: A "Mansão do Caminho" pode ser comparada à hospe- dagem acolhedora e gentil. para o qual remetemos o leitor a fim de que sinta em toda a sua beleza a narrativa do evangelista. Casualmente passou pela mesma via um doutor. a fim de informar-lhe. seguiram indiferentes. na aplicação do amor. consideremo-lo como a representação dos muitos Espíritos tombados nos próprios enganos e que retornam à esfera física e são aí acolhidos e adotados c o m o filhos . conduzindo-o na sua alimária até uma hospedaria onde o deixou cercado de cuidados. porém. Consideremos a Parábola do Bom Samaritano através da narrativa de Joanna de Angelis. então. narrou-lhe o Senhor. tomou-se de piedade e o assistiu carinhosamente. em um texto muito inte- ressante que vale a pena ser lido. 111 — 2. no seu livro Espírito e a Vida.

o carinho. entre- tanto. as orienta- ções. e o doutor da lei. (Lucas 10:23 e 24) Quanto a nós outros. pois vive integralmente o que prega.. o médium baiano. lutas e testemunhos por ele vividos no cumprimento de sua missão.. simbolizar. como vimos. indiferentes. Pois digo-vos que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes. e não o ouviram".190 SÜELY CALDAS SCHUBERT do coração. no- tificados das surpresas além-do-túmulo. Divaldo pode. examine- mo-los como o doutor e o levita sem piedade. zombeteiro e frio. a palavra de Divaldo. assemelhemo-la ao en- carregado da estalagem. a equipe que colabora. Ainda pode- remos considerar o bálsamo e o unguento postos nas feridas do assaltado como sendo a devoção. perfeitamente. o que a Doutrina postula e o que Jesus recomenda aos seus discípulos. Para o nosso querido Divaldo sabem muito bem as pa- lavras de Cristo: "Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes. representemos como sendo os companheiros conhecedores da vida imortal. Jesus aconselha ao encerrar a parábola: "Vai e faze da mesma maneira. tenhamo-lo como o bom samaritano e a via entre Jerusalém e Jericó convencionemos como a estrada dos de- veres fraternos por onde todos transitamos. os que deixam o labor em meio ou que são convidados e se conservam indiferentes. e ouvir o que ouvis." . às tarefas sacrificiais do auxílio fraterno. as moedas pagas ao hospedeiro simbolizemo-las como as renúncias e dificuldades. o bom samaritano. e não o viram.

Paramos numa venda. Mas fomos. Nós achamos estranho. na estrada. naquela época. onde estavam plantados dez mil coqueiros. Maximiano. O vendedor respondeu que fôssemos em frente até encontrarmos o rio Jacuípe. um amigo que possuía uma propriedade ampla. A paisagem de coqueiros. e perguntamos onde ficava o local que procurávamos. erramos a estrada. no começo da obra. foram marcan- tes. para irmos com as crianças e vivermos um pouco em contato com a Natureza. gentil- mente. Chegamos a uma região de beleza invulgar. O rio desa- guando no mar. entre muitos que aconteceram. ia dirigindo a kombi e por mais que tentássemos encontrar o lugar não acertávamos. Dois fatos. na periferia de Salvador. e particular- mente nos anos 60. . nos emprestou a chave da casa. nós. aí dobrássemos por outro trecho da estrada e sairíamos lá. Certo dia. De uma feita. que hoje se transformou em um lugar famoso. a areia alva. que sabíamos o caminho como a palma da mão. meu filho. na nossa mediunidade. 22 A MOÇA DA PRAIA - EVITANDO UM SUICÍDIO Era do nosso hábito. porque ficava no sentido opos- to ao que pensávamos. passarmos o sábado ou o domingo em uma praia muito deserta.

Mas eu saí correndo. alguém aconselhou que fosse a um Cen- tro Espírita que havia nesse bairro. num lugar muito deserto. porque ela está tentando suicidarse.192 SUELY CALDAS SCHUBERT Eramos nove pessoas. na Calçada. e ela. Ali ela teve uma hemopti- se muito forte. fui buscar água. Lygia. Naquele estado ela foi ao Quarto Centro de Saúde. sujando-me de sangue. Pedi a Maximiano: — Meu filho. Quando fizemos a volta. Ziza e outras tias. mas resolveu ir. onde ela residia. que seria o sétimo filho. olhei na direção do mar e vi que uma pessoa adentrava pelas águas. Ma- ria. então chegaram os outros. mar a dentro — não sei nadar — e peguei a senhora que estava numa crise de loucura. Ela teve uma crise de desespero muito grande e a custo conseguimos acalmá-la. Carmem. Ele falou-lhe que naquele estado a gestação era um grande perigo. em Salvador. e o parto um gran- de risco de vida. não tinha como solucionar o problema. Segurei-a. Era uma casa muito modesta. muito necessitada. Quando conseguiu acalmar-se. Com a doença. naquela mesma noite. uma pessoa muito pobre. que . coincidentemente advirá uma nova concepção. aquela mulher vai-se matar! Todos ficaram surpresos e acharam até absurdo. Ziza. Mas o aborto tam- bém era um grande risco de vida. limpei a roupa e então per- guntei-lhe: — Por que a senhora quis matar-se? Ela contou uma história muito curiosa. Levamo-la a uma casa que ficava a uns duzentos metros. sugerindo-lhe o aborto. Aí no posto. e o médico diagnosticou estar ela realmente grávida e tuberculosa. e nós a arrastamos para a praia. Então ouvi uma voz que me disse: — Salta. ti- rando-a da água. Lygia. Era mãe de seis filhos e algum tempo atrás contrairá tuberculose pulmonar. Ela nada conhecia de Espiritismo. pare o carro.

trazido pelos Espíritos. e ela muito desesperada saiu correndo para entrar pelo mar e matar-se. foi ao Centro. Aplicamos-íke um passe. Foi no justo momento em que nós passávamos. . começaram a chorar. Mas. como é que o senhor veio parar aqui? Deve ler sido a Providência Divina — respondi- lhe. — Mas.' Foi o senhor quem estava falando — disse. surpresa. pois morava a qua- renta quilômetros de distância. à tarde. fizemos um culto evangélico e tomamo-la sob a nossa responsabilidade emocional. Ficou na cidade. — Você pediu ajuda e eu vim. Lá ouviu um homem moço fa- lar muito sobre os deveres perante a vida. no sábado. que Deus soluciona sempre todos os problemas. a misericórdia de Deus. Ela ficou desesperada. À noite. Quando ele acabou de falar. o marido esteve lá. O SEMEADOR DE ESTRELAS 193 era uma quinta-feira. emocionado. Saqueia hora as crianças ficaram nervosas. e viajou. ela quis tirar uma con- sulta e mandaram-na dar o nome e o endereço na portaria para na terça-feira buscar a resposta. No domingo pela manhã achou que a única solução para a sua vida era o suicídio. senhor. Já a havia abandonado. bê- bado. Indaguei: — Você se lembra do moço que estava falando? — Não. — Sa terça-feira — recomendei-lhe — você vai à reu- nião e vamos ver o que os Espíritos aconselharam. Perguntei-lhe qual era o endereço do Centro e ela dis- se que era na rua Barão de Cotegipe. porque o salão é muito grande e não o vi bem. Ela assim o fez. Tirei os óculos escuros e perguntei-lhe: — Seria eu? — Meu Deus. etc. e deu-lhe uma surra muito grande. que era o dia em que os Espíritos iriam atender a consulta.

. Assim eu notei. Na terça-feira. e deve ser poupada. específi- cos para a tuberculose.194 SUELY CALDAS SCHUBERT Conversamos muito. Fomos direto. a solução para o mag- no problema da vida. inclusive um chamado Pulmonina. eu fui à pasta de orien- tações espirituais. para tratamento especializado.. do Laboratório Seabra. arranjamos algum dinheiro para ela comprar qualquer coisa de emergência e fomos para a tal praia. o suicídio teria sido consumado. se passássemos alguns segundos antes ou depois. a clarida- de do fenômeno mediúnico e também a lei do mérito. mostramos-lhe o resultado da consulta e conseguimos interná-la no Hospi- tal Santa Terezinha. já se emancipou. pois ela não tinha a me- nor condição de mantê-la. Aí não erramos mais. para nos desvia- rem da rota no momento próprio.." Então vinham três remédios da Homeopatia. a criança era muito frágil. porque nós erramos vinte e tantos quilô- metros de estrada num percurso que fazíamos a cada quin- ze dias. Mas eu fiquei com uma curiosidade de saber o que é que os Espíritos teriam colocado na consulta. Desejo anotar a interferência dos Espíritos. Ela ficou mais consolada. coti- zamo-nos. por- quanto. a interferência po- derosa dos Espíritos e de alguma forma o merecimento dessa senhora. Hoje está um adulto. uma vez mais. A sua vida é muito preciosa para você e a Divindade. Isto foi em 1964. que arquivamos em ordem alfabética e lá estava escrito exatamente assim: "Receberá. no momento próprio. quando ela chegou. Ela ficou boa. recuperou-se completamente. Nós ficamos com a criança que nasceu por último. passamos o dia. Quando chegamos a Salvador. Siga a orientação médica e acrescente os seguintes remédios.

Nestes anos de atividades mediúnicas temos tido o ensejo de conhecer um pouco do que sejam os tormentos tenebrosos que existem no "vale dos suicidas". entretanto. tais como o ódio. Entretanto. O fato de o médium conviver com esses dramas. exauridas pelo desespero e pela dor. especial- mente. também. as que mais dulcificam e aprimoram os sentimentos. Com o passar dos anos. enquanto dura a sintonia mental e fluídica. como "li- ções vivas". no exercício contínuo de socorro e aprendizado junto a esses sofredores. passa pelo campo emocional do médium que as sente momentaneamente. em parte e em breves minutos pelo médium. Emoções negativas. também. tudo. tor- nando-se. de certa maneira. são. As comunicações desses nossos irmãos são as mais do- lorosas para o médium. Em alguns desdobramentos. compartilhando por instantes das dores que avas- salam essas Entidades. enfim. testemunha. que os experiência e deles se im- pregna. por breves minutos. Assim. durante as reuniões mediúnicas. proporciona-lhe uma fantástica vi- vência. a mágoa profunda. Cessa- da esta. a nosso ver. quando buscamos aprender com os Ami- gos Espirituais a tarefa de resgatar algumas das Entidades que. tais estados emocionais ficam íegistrados no seu psiquismo e passam a fazer parte do seu acervo como aprendizado. Quando o médium atinge essa vivência profunda precisa . Os conteúdos psicológicos desses Espíritos em difi- culdades são como que absorvidos. já têm condições de serem socorridas e encaminhadas para tratamento. expectador de- les. o desequilíbrio mental. o media- neiro terá conseguido vivenciar uma gama muito intensa de emoções e experiências que o enriquecem de forma no- tável. o medianeiro se recompõe. ocorre. O SEMEADOR DE ESTRELAS 195 Comoventes são os esforços da Espiritualidade Maior para impedir que uma pessoa cometa o suicídio. incursionamos. com quaisquer outros estados emocionais que o Espírito comunicante exteriorize e o médium venha a captar. nessas regiões de sofrimentos.

Na prática. que está a salvo. todavia. a coisa funciona de outro jeito. Alguns médiuns — como é o nosso caso — têm desde o início do exercício da mediunidade essa aptidão para assimilar as angústias e aflições das Entidades que se ma- nifestam por seu intermédio. é óbvio. o médium sente essas aflições e sofrimentos. que essas captações por parte do médium são muito atenuadas. O ódio. a frieza. a crueldade.196 SUELY C A L D A S S C H U B E R T estar muito atento e vigilante. Ocorre que certos médiuns são muito impressionados e receiam a rigidez ou dormência muscular momentânea que os acometem em certas comunicações. pelas defesas estabelecidas pe- los Mentores. o seu desespero e desequilíbrio. físico-material. Esse quadro parece assusta- dor e chocante. ou mesmo quaisquer sensações que os Espíritos transmitem. porém. sobretudo. sentindo. ainda. Isso. sentado em seu lugar. ou uma facada no peito. por exemplo. cuja saúde. da compaixão e da solidariedade. nos quais deve confiar incondicionalmente. o esmagamento de suas pernas num desastre. . contudo. É evidente. às vezes. Yvon- ne Pereira. o desejo de vingança. es- clarece: "As vibrações mentais dos assistentes encarnados e. o sarcasmo. tudo isso deve encontrar no médium a con- traparte do amor. No extraordinário livro Memórias de um Suicida. ou. É que o médium sabe e sente que apesar de captar tais estados. o sofrimento moral acerbo. protegido e de- fendido por uma corrente vibratória entre encarnados e desencarnados e. a taquicardia. o desequilíbrio afetivo. particularmente. pois compete-lhe envolver o Espírito em vibrações opostas àquelas negativas de que ele é portador. assusta um pouco e tem sido causa de receio e evasão de algumas pessoas às tarefas mediú- nicas. da médium. Quando um Espírito está com dor. a captação de seus sintomas e dores. narrando a comunicação de um suicida que se atirara sob um trem. estes não são dele. de for- ma atenuadíssima. a falta de ar. na sala de reuniões. um tiro que ele próprio desfechou no ouvido.

suavizándo- me o efervescer das múltiplas excitações. como ondas revoltas de imensa torrente que se despejasse abruptamente no seio esmeraldino do oceano. sem o qual o infeliz não assimilaria. dominando suavemente as vibrações nefastas do suicida depois de passar pelo áureo veículo mediúnico. positiva- mente descontroladas. cujo envoltório astral forte- mente se ressentia das impressões animalizadas deixadas pelo corpo carnal que se extinguia sob a pedra do sepul- cro! Eram como que compressas anestesiantes que se apli- cassem na organização fluídica do penitente. Estabeleceu-se. assim. deveriam impor-se e domar as emitidas pela entidade sofredora. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 197 físico-astral. investiam violentamente sobre aquelas. viciadas. refletindo os esplendores do firma- mento ensolarado. fluidos magnéticos mesclados de essên- cias espirituais aconselháveis no caso. A corrente poderosa pouco a pouco apresentou os frutos salutares que era de se esperar. Era como sedativo divino que piedosamente gotejasse virtudes hialinas sobre suas chagas anímicas. o qual. por ser este um crime contra as Leis Divinas. moral e mental. tornava-a assimilável por este. nenhum benefício que se lhe desejasse apli- car!" (os grifos são do original) * * * É exatamente por saberem e conviverem — na tarefa socorrista — com os sofrimentos superlativos dos suicidas e. na rea- lização de sublime operação psíquica. luta árdua. pois que fora anteriormente examinada pelos provedores do importante certame espiritual. que. a fim de torná-la em condições de suportar a verdadeira terapêutica requisi- tada pelo melindroso caso. ma- ter ializando-a. através do filtro humano representado pelo mag- netismo mediúnico. adaptando-a em afinidades com o paciente. que os . de forma alguma. formoso e sobranceiro. fornecidas pela mé- dium e pelos guias assistentes. enfermas. uma vez que influen- ciações saudáveis. incapaz de algo pro- duzir distante do inferior. encontrava-se em condições satisfatórias. reagiam con- tra as do comunicante.

de que o Mundo M a i o r se utilizou para impedir à mulher de consumar o seu intento. Vinte quilômetros de erro na estrada — e uma vida foi salva de séculos de tormento e dor.198 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Benfeitores Espirituais envidam todos os esforços no sen- tido de impedirem que exista um maior número de suicí- dios no mundo. D i v a l d o foi o instrumento. Assim. . uma v e z mais.

Corram nesta direção. Depois fomos almoçar e deitamos para repousar um pouco. Nós deitávamos até no chão. Praia virgem. num domingo. ocor- reu um outro fato e que envolve Nilson. ouvi um grito de socorro. a casa tinha umas três camas e iam umas trinta pes- soas. Levantamos. A casa era modes- tíssima. Numa dessas vezes. porque a correnteza as está levando para o mar alto. não vimos ninguém. há alguém se afogando. subimos no peitoril da janela para olhar o mar e. mas Nilson sabe. Nós íamos com as crianças e as tias. Depois de uma hora mais ou menos. nós ficamos na praia com as crianças e as tias. 23 NAS MÃOS DE NILSON Nesse mesmo lugar. gritando por so- corro. Levávamos alguns col- chões. Joanna me apareceu e avisou: — Duas das tias estão correndo perigo de vida. Eu não sei nadar. assustado: — Nilson. Mas era um desses lugares preservados pela Divindade para o contato com a Natureza. aonde íamos periodicamente. Maria Seippel e Carmem Prazeres haviam . Saímos a correr na direção indicada. naquela imensidão. Eu disse. deserta.

afirman- do que Maria e Carmem * deviam a vida a Nilson. Quando percebe- ram. Ele atirou-se ao mar e nadou. que come- çaram a gritar. pois. ( * ) Carmem Prazeres desencarnou em 23 de maio de 1987. Não havia uma pessoa sequer. muito lentamente. automaticamente. (Nota de Suely C. e pediu a Maria que tivesse calma. Nós. Ele trouxe Carmem. Nas mãos de Nilson as vidas de Carmem e Maria. Ziza e as crianças. abrir os braços. não conseguindo. São estas. segurou-se. até que salvou. Então. Schubert) . Isso foi em 1965. foi trazendo-a. fora da jangada. A jangada prosseguiu sendo levada. já não tinha forças e foi seguran- do-o até à jangada. com problemas hepáticos. mas. vamos orar! Nilson era o único que sabia nadar. apegou-se à borda da jangada. como se estivesse empurrando a frágil embarcação para a praia. Lygia. a vida de Maria. pois poderia ter sido uma tra- gédia. ficamos na areia. primeiro. a jangada começou a se deslocar. que estava quase se afogando. Automaticamente. Às mãos de Nilson Joanna confiou o salvamento. fizemos um culto evangélico de agradecimento. deixou-a na areia e vi Joanna chaman- do-o. estarrecidos. muito nervosa. Entraram numa corrente marítima. todos. também. Pegou. que as carregava. vi Joanna erguer-se e. com o manto. em vá- rios quilômetros. Lentamente. Havia um toro de madeira que ele tomou e jogou-o no mar para apoiar-se. Carmem. Depois disso nós brincamos. sem darem-se conta. além de nós. já estavam longe da praia. Maria. quando lhes propus: — Vamos orar. ali mesmo. e Carmem saltou para ver se nadava. colocando-a na praia.200 SUELY CALDAS SCHUBERT sentado em uma jangada que estava ali e. demonstrações da Misericórdia de Deus.

o zelo com que os Benfeitores da Vida Maior cercam a nossa vida. Será que já nos demos conta disso? O episódio merece uma reflexão mais profunda de cada um. A magnífica e comovedora visão de Joanna a proteger a jangada com as tias é por demais significativa. Nessas abençoadas mãos o labor do bem se desenvolve e se mantém constante. de pai. de bondade para a vida de Divaldo. a vida de Divaldo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 201 Nas mãos de Nilson Pereira. . pois ex- pressa os cuidados. Essas mãos seguras e firmes. de amigo. são mãos de sustento. por algumas vezes. Mãos fortes e belas que falam de um coração bondo- so e fiel. de irmão. Mãos que aram e semeiam a leira dos corações. de apoio.

pois estava vivendo um drama muito sério. quando. à fila. batera-lhe. 24 EM UM MINUTO APENAS Eu estava atendendo. matar o filho. (Ê curioso ver como Deus nos armou do instinto de conser- vação da vida. um dia. muito grave. Pedi licença às pessoas que estavam na frente e atendi-a. à véspera. Ela estava tão inquieta que me pediu que a atendesse de imediato. por vingança. onde o mar bate no penhasco — ela resolveu suicidar-se e. de repente. Naquela situação resolveu suicidar- se. chegaram a ter vá- rios atritos.) . a criança escapuliu-lhe da mão. quando chegou uma senhora com uma criança. o marido arranjou uma companheira e começou a maltratá-la. para que o marido ficasse com um problema de consciência. lá no Centro. imediata- mente. Pegou o filhinho de quatro anos para ir na direção do farol. tinha tido um filho. Ela me disse que teria de voltar para casa. Ela con- siderava aquilo o ponto final do casamento — agressão física! Ficou desesperada. um dra- ma com o marido. muito nervosa e agitada. Contou-me que era muito feliz na vida conjugal. ele agredira-a. (Ê um trecho muito movimentado. e.) Quando estava atravessando a avenida. enquanto a ira deseja que matemos o corpo. perto do farol. Morando na Barra — que é um bairro sofisticado de Salvador.

o garoto apanhou um papel que estava no chão. indo à sua casa jantar. ela também tinha de procurar aquilo que lhe fizesse bem. Ela o arrebatou e ia jogá-lo fora quando viu es- crito "UM MINUTO APENAS". onde trabalhava o marido. ficou angustiada ante o pavor de vê-lo morrer atropelado. Ela terminou de ler. ela saiu renovada e passou a fre- qüentar as reuniões públicas. Ela viu que era escrita por mim — era uma página mediúnica. No final estava escrito: Marco Prisco. o amor parte. ela voltou à casa e telefonou àquele senhor. e ela ali estava para pedir uma orientação. Mas. deu-lhe o endereço. explicando-lhe que a vida era o dom mais precioso de Deus e que ela passasse a freqüentar a nossa Casa. . Já que o seu casamento estava em tal situação. ela e o marido. sentou-se e teve uma crise de choro. e. Conversei demoradamente com ela. reagiram incontinenti.. O dinheiro muda de mão. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 203 Ao percebê-lo solto. olhou-o melhor. Quando conseguiu segurar o filho e abaixou-se para dar- lhe umas palmadas. Nesse momento recordou-se de que. Então. tentou falar-lhes sobre o Espiritismo. passou o ímpeto — em um minuto! Parou e olhou em torno. tivesse o dese- jo de matá-lo. puxando a criança e lendo a página. de formação católica. a dor passa. o ausente chega. não queria viver. no Banco . Foi mudando de comporta- . inte- ressada pelo título. Contou o acontecido. não sabia o que fazer da vida. com raiva o leu: "Num minuto apenas." Foi andando. Conversamos muito. a tormenta acalma. O impulso havia desaparecido. embora. ainda há pouco. aqui viesse e a sur- preendesse. ela fosse franca com o marido e lhe dissesse que o direito que ele tinha de ir a casa de uma companheira. o que é um paradoxo. a vida muda. havia um senhor que era espírita — Elísio Dórea — e que um dia. caso duvidasse de sua integridade moral. já estava próxima ao penhasco. Caso ele tivesse qual- quer suspeita do seu comportamento. na medida do possível. O amigo espírita explicou-lhe que era fácil encontrar-se co- migo. agora. nem queria morrer. Com essa angústia toda.

então. um ato de amor — respondi-lhe — mas de um amor fraterno. na fila. público. o agente da grande perturbação. um ex-marido a quem ela não soubera respeitar na encarnação passada e que estava atirando o atual esposo invigilante ao adultério. — O senhor há de notar que é. com o tempo. como aquele que o senhor se permite. Ele. passou a canalizar as suas energias para a aplicação de passes. ao senhor que desrespeitou o seu lar e a sua famí- lia. pelos Benfei- tores Espirituais. e não escuso. está adolescente de quinze anos e a paz voltou à família. dizendo. que guardasse a arma. estava ma- goada e reagia facilmente. porquanto era também muito agressiva. para que ela enveredasse pelo sui- cídio. visivelmente de- sesperado. para não o odiar. o casal tem três filhos. E ela. quando irrompeu um homem. A família foi reconstituída e hoje são excelentes espíri- tas. enquanto ela revelou a mediuni- dade de psicofonia. Aclarada a causa do desajuste conjugal. Falei-lhe demoradamente. Pedi-lhe. Através dela foi trazido. . O que sua esposa está buscando aqui é o amor universal. está dignificando o seu nome.204 SUELY CALDAS SCHUBERT mento. que era um inimigo. quase assassinado. ela estava conversando comi- go. ela hoje dedica a vida à prática do bem. Ele levou um choque com as minhas palavras e ficou sem ação. com um revólver na mão. Aquele filho. Entrou pelo salão e chegou perto de mim com a arma em punho. o lar está reconstituído. Mais de um mês depois. ele teve a célebre crise de choro (que sempre ocorre nesses casos) e depois saíram abraçados. à frente de todos: — Me disseram que o senhor é o amante de minha mulher e eu vim aqui para pôr isto em pratos limpos. ao invés de desrespeitá-lo. realmente. na cintura. Ele a colo- cou no coldre.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 205

O obsessor reencarnou. Ê o filho caçula, está dentro
de casa agora, apaziguando os dois.
Um minuto apenas!
Duas vidas salvas por uma página caída na calçada da
movimentada avenida. C o m o foi parar aí? Que prodigiosos
recursos espirituais foram carreados para que aquela mu-
lher a lesse, no momento certo? Como, na fração de um
minuto, a criança vê a página no chão e, num impulso, a
segura?
Num átimo o vento poderia tê-la deslocado do lugar.
Alguém poderia pisá-la, amassando-a. A mãe, desesperada,
puxando o filho pela mão, poderia ter passado antes ou
depois que a folha de papel aí estivesse. Ou ter ido pelo
outro lado da rua. Ou então ...
Quantas coisas poderiam ter impedido que o tão espe-
rado momento da leitura acontecesse. As probabilidades
contrárias são quase incalculáveis.
No entanto, em um minuto apenas, a mulher caminha
naquela direção, no local exato e, no seu desespero, vê o
filho escapulir de suas mãos em meio ao trânsito intenso.
Segura-o. Por um estranho paradoxo teve medo que ele
morresse atropelado — ela que pensava em matá-lo. É, pre-
cisamente, neste instante, que a luz do Mundo Maior in-
cide sobre ambos.
A criança pega a página solta no chão. E ela vai parar
nas mãos da agonia.
Um minuto apenas!
0 que é isto? É o tempo exato do socorro, do amparo,
das bênçãos divinas.
Alguém, um dia, num minuto de luz, idealizou aquela
página e a transmitiu para a Terra. Outro alguém, predis-
posto ao amor, num momento de elevação captou a men-
sagem. A partir daí, a trajetória do bem se faz. Por cami-
nhos insuspeitados, para nós, que temos a nossa visão
obliterada pelos estreitos limites físicos.

206 SUELY CALDAS SCHUBERT

Salvar alguém das garras da loucura, do desespero, das
horríveis voragens do suicídio, do crime — não é esta a
meta do Consolador? E, trazê-lo de volta, resgatá-lo dessas
tenebrosas malhas, recuperá-lo, promovê-lo não são estas
as finalidades da Doutrina Espírita?
O desfecho deste lindo caso é comovedor.
A reencarnação a fazer cumprir as suas leis, nos leva
a outras reflexões.
Em um minuto apenas, a Misericórdia Divina se der-
rama, plena de bênçãos, sob as tortuosas vielas dos passos
humanos, corrigindo, saneando, reparando, transforman-
do-as em estradas luminosas no rumo da Vida Maior.
Precisamos de outras provas disto?

25

FATOS MEDIÚNICOS EM ISRAEL

Quando fui a Israel, levei um gravador pequeno para
registrar o que o guia ia dizendo e consignar as minhas im-
pressões, porque depois que daí saísse não me recordaria
de todos os detalhes.
Em Tiberíades, há um ancoradouro de barcos e fui
gravando tudo. Numa grande emoção, sentei-me nas pe-
dras, enquanto Juan e Nilson choravam. . . Quando o guia
viu-nos em tal estado, sugeriu:
— Acho bom irmos embora, porque senão o tempo
não dará para visitar o restante. ..
Saimos todos em "estado alfa".
Quando entramos no carro, apareceu-me o Espírito
Marcelo Ribeiro e falou-me:
— Baiano, tu deixaste o gravador lá, sobre as pedras.
Levei um susto terrível e pedi ao guia:
— Pare, imediatamente; vamos voltar, porque o meu
gravador ficou lá.
— Se ficou, perdeu, porque já devem tê-lo tirado do
lugar.
Mas, o Marcelo afirmou:
— Volta rapidamente, pois estou tomando conta; a
meninada está a cinqüenta metros .. .
— Volte, imediatamente — insisti.

208 SUELY CALDAS SCHUBERT

Retornamos, e quando íamos chegando, vimos um me-
nino apontando para o gravador.
Eu gritei:
— Não o toque. È meu — e consegui reavê-lo.
Mas, o nosso guia era um árabe, falando espanhol per-
feitamente. Ele falava nove idiomas. A certa altura nos in-
formou:
— Vou lhes mostrar agora a estalagem do "Bom Sa-
maritano".
Entramos e fiquei empolgado. Quando estávamos as-
sim, naquele entusiasmo, apareceu-me Joanna e disse-me:
— O conhecimento evangélico do senhor deixa muito
a desejar. (Quando ela está muito austera chama-me de
senhor, que é para quebrar a intimidade)
Eu, crente que conhecia o Evangelho de capa a capa...
— Mas, como?
— Porque o senhor está aqui considerando que esta é
a hospedaria do "Bom Samaritano"...
— Porém, é a hospedaria do "Bom Samaritano", con-
forme o senhor o afirma. (E perguntei ao guia só para
confirmar).
Ela, tranqüilamente, prosseguiu:
— A narrativa de Jesus é uma parábola, e uma pará-
bola é um conto imaginativo por paralelismo. Não foi nesta
hospedaria. Para mostrar quem era o próximo, Jesus con-
cebeu uma história com a figura do "bom samaritano". Por-
tanto, podia ser esta como qualquer outra estalagem, caso
houvesse acontecido...
Aí, despertei. . . Então voltei-me para o guia e perguntei:
— Mas, o senhor tem certeza do que está informando?
— Sim, tenho.
Ansioso por sua reação, passei-lhe o argumento. Ele
caiu em si.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 209

— Daqui por diante o senhor diga: em uma hospedaria
como esta...
— Qual é afinal a religião que vocês professam? —
indagou-nos. — Porque católicos, não são, pois que não se
benzeram e nem se ajoelharam nenhuma vez; protestantes,
também não, porque não me tentaram convencer. Qual é a
sua religião?
— Nós somos espiritas.
— O que é isto?
Então aproveitei o ensejo... Esqueci-me de onde esta-
va e, com Juan e Nilson do lado, gentilmente, ele foi "dou-
trinado". Quando descobriu que acreditávamos na imorta-
lidade da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, no que
eles acreditam, mas de forma diferente, sensibilizou-se. Era
maometano, fazia o culto cinco vezes, ouviu-nos e res-
pondeu:
— Eu já atendi turistas de todos os tipos, mas os se-
nhores são o grupo mais equilibrado — de um equilíbrio
especial — que eu conheço. São equilibrados porque não
bebem, não fumam, não comem coisas vulgares, mas são
completamente loucos porque acreditam que a alma retor-
na, e esta não volta: a alma que serviu ao Alcorão está lá
nas delícias.
— Como são as delícias? — indaguei.
Ele explicou, e nessa altura fomos nós que o achamos
estranho.
Para completar, Juan informou-lhe:
— O Divaldo é médium, ele vê e conversa com os
"mortos".
— O senhor vê os "mortos"? — perguntou, surpreso.
— Não, porque quem morreu acabou. Eu vejo os vivos,
que venceram a morte. ..
ü assunto encerrou-se neste ponto.
Fizemos todo o roteiro. No último dia, já éramos muito
amigos, e ele então, para nossa surpresa, indagou-me:

210 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Senhor Divaldo, vou perguntar-lhe uma coisa, com
toda a sinceridade. O senhor promete ser leal comigo?
— Sim, eu prometo.
— O senhor vê quem já se foi?
— Sim, eu vejo.
— Como é que vê?
— Como o senhor está vendo aquela árvore ali.
— Mas, eu não o posso conceber. Agora, que nos vamos
despedir, se o senhor me puder dar assim uma prova, uma
coisa qualquer...
— Eu lhe vou dar agora esta prova — afirmei. — Eu
vi o seu pai que já m o r r e u . . .
Ele ficou lívido.
— Como o senhor pode tê-lo visto, se meu pai está no
paraíso?
— O senhor o colocou lá, mas ele não é obrigado a ficar.
O genitor dele me ditou uma mensagem em árabe, que
eu escrevi com muita dificuldade, tendo a mão conduzida.
Eu lhe disse que não tinha conhecimento algum do idioma,
porque o meu alfabeto é latino, mas pedi um papel, e o pai
escreveu uma citação do Alcorão, o versículo 114, uma sura:
"A esperança na bondade de Deus é o coroamento de uma
vida digna."
Ele leu em árabe e traduziu-a para nós. Ficou abaladís-
simo. Eu descrevi-lhe o pai, fisionomicamente.
Despedimo-nos, e ele, profundamente impressionado,
prometeu escrever-me. Assim, mantivemos correspondência
por algum tempo, hoje interrompida.

Muitos e extremamente ricos foram os acontecimentos
mediúnicos vivenciados por Divaldo quando de sua viagem
a Israel.

que tem condição de captar a ambiência etérica dos locais onde se encontra. esse contato com a psi- cosfera das regiões onde Jesus viveu. . Estes fatos aqui narrados pelo médium são uma peque- na amostra dentre as interessantes e comoventes experiên- cias que a psicosfera da "Terra Santa" lhe propiciou. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 211 Não é muito difícil imaginar o que representa para um médium como ele.

explicou que o passe é uma transfusão de energias. tor- nar-se receptiva às bênçãos divinas. flui- dificou-a. Deu-lhe. em seguida. dizendo. mais cuidadosamente ainda. todos os benefi- ciados saíram e entrou novo grupo. transmitiu-lho por terceira vez. Por que o senhor veio aqui? . chegou perto dele e aplicou-lhe a bioener- gia com todo o amor. mas ele continuou sen- tado. agora. cada um tem de fazer a sua parte. para ser beneficiada. que a pessoa tem de se abrir para Deus. 26 OS TRÊS PASSES Em nossa Casa temos o plantão de passes. Certo dia. aplicou passes em todos. porém. Terminado o mister. chegando junto ao senhor. a prece e aplicou os passes. os comentários. estavam as encarregadas em plena função. Uma de nossas passistas. e. Preparou a água. Terminando. que é uma pessoa muito dis- traída. dizendo: — Agora o senhor já pode ir. ingênua. Aproximou-se do homem e repetiu o socorro fluí- dico. Entraram outras pessoas e ela ficou intrigada. a certa altura. Ela pensou: naturalmente ele não se sentiu melhor. saí- ram todos e ele não se mexeu do lugar. quando entrou um senhor e sentou-se. fez uma leitura maior e comentou-a. Então. Fez então a leitura de praxe. pois já o atendi por três vezes. a água fluidificada.

Eu sou o cobrador da luz. fez aqueles gestos outra vez. Então sentei-me aqui. nas pedras e na terra safara. A aplicação do passe. — Agora estou ótimo! A senhora pode explicar-me o que é isto? — Bem. eu não entendi nada. — Vamos passar o verbo para a ação positiva: Vamos fazer. En- trei. A nossa tarefa é ajudar sempre. deve-se restringi-los ou atender a to- dos? Estas são algumas das questões constantemente formu- . Ela deu-lhe O Livro dos Espíritos. enquanto ele ficou-lhe como afilhado emocional. A dor de cabeça passou.. Podemos ver como funciona o mecanismo do Mundo Espiritual. eu não estou entendendo nada do que a senhora está jazendo. uma que germine vai dar-nos dez mil.. O homem passou a freqüentar as reuniões. na outra sala. Se não der resultado. Lançamos mil sementes. vi a porta aberta. uma dor de cabeça violenta. porque o resultado da colheita é de Deus. Então. aqui é uma Instituição Espírita — e explicou-lhe tudo. o número de passes aplicados. A senhora chegou. De- pois. realizamos o melhor ao nosso alcance. a luz é paga lá. As que ficarem aparentemente perdidas no asfalto. não se deve fazer isto ou aquilo. Muita gente diz: — Não se deve dar passes. O que importa é semear. Eu pensei: — Da- qui não saio enquanto esta senhora fizer isto sobre a minha cabeça. por estar muito fresquinho e agradável. escondendo-se no comodismo. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 213 — Minha senhora. estava com calor terrível. a forma de ministrá-los. serão res- gatadas por uma apenas que encontre terra boa. pois nunca sabemos quando a semente vai germinar. se perdermos novecentas e no- venta e nove. Eu sofro de uma dispepsia nervosa. a senhora veio. Hoje é passista plantonista da Casa. fez estes movi- mentos sobre a minha cabeça. saiamos a semear. Que elas caiam onde caírem. primeiro.

Isto envolve a alegria de servir. as nossas dificuldades. à distância. André Luiz. talvez. menciona o passe longitudinal e o rota- tório utilizado pelos Instrutores Espirituais. Os próprios autores espirituais fazem referência a algumas des- sas técnicas. este assunto — passes — tornou-se um problema complexo. pela imposi- ção das mãos. Jesus curava pelo olhar. com a finalidade de aprimo- rá-lo. tal- vez até com prejuízo do verdadeiro sentido de doação e de amor que são primordiais. a nos- sa carência de valores íntimos impede-nos de conseguir me- lhores resultados. cursos de passes. Ele deixou-nos o exemplo. porque . seminários. o entusiasmo de ser útil. Técnicas foram criadas. Em razão disso surgiram algumas técni- cas para a aplicação do passe. O passe é um ato de amor e deve ser transmitido no clima que este sentimento propicia a quem o cultiva. porque. intitulado "Passes". estudadas e debatidas pelos que se interessam pelo bom andamento dos trabalhos espíritas. uma coisa é evidente e fundamen- tal: o sentimento com que o passe é transmitido. atualmente. tão complicadas que dificultam o que deveria ser simples. As técnicas seriam. é todo um exercício de amar. isto é. pelo suave magnetismo do Seu amor. de suprir. de sen- tir-se solidário com o próximo. expressando uma preocupação permanente em nosso meio espírita quanto à prática correta para a sua aplicação. Manoel Philo- meno de Miranda refere-se aos passes de dispersão fluídica e ao longitudinal. Mas. surgiram algumas novidades para se ministrá-lo. até livros específicos sobre o assunto. nem as mais simples. . palestras. pelo impulso da vontade.214 SUELY CALDAS SCHUBERT ladas. pois. Isto motivou uma corrente de opinião que diz não se- rem necessárias as técnicas. . bastando apenas a imposição de mãos. no capítulo de Missionários da Luz. os recursos auxiliares na con- dução das energias espirituais e físicas. páginas são escritas. no afã desse aprimoramen- to. Nesse contexto todo. Todavia. em Grilhões Partidos e Painéis da Obses- são.

na sala própria. conforme se vê. É oportuno falarmos a respeito do passe a propósito deste tão interessante caso narrado por Divaldo. nada mais nada menos por três vezes consecutivas no senhor que per- manecia sentado. A pretex- to de doar. logo no início. naquele instante . O amor dos Benfeitores Espirituais. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 215 este é um trabalho que jamais deverá ser feito de maneira maquinal. do qual Ele é o Governador Espiritual. O pas- sista deve preservá-la. constituem a ética do passe. Na verdade. possam doá-los a quem necessita. o aplica. Aliás. Outro ponto que merece ser ressaltado e do qual não se deve prescindir nessa tarefa é o da ética do passe. a pergunta que ela lhe faz após a terceira aplicação. o passista não pode prescindir dos va- lores morais indispensáveis. Obviamente. Uma pessoa que age. A médium passista. Kardec é bem claro sobre esta questão quando diz que o médium deve evitar tudo que o transforme em agente de consultas. sempre tão abnegados e solícitos em socorrer as dores hu- manas. ingênua. unindo senti- mentos. Também que se evitem quaisquer tipos de consultas e orientações no momento da aplicação. E para que esse amor logre atingir a finalidade para a qual é canalizado. que não se vá tocar o receptor ou fazer ruídos. estalar de dedos etc. poderia ter sido feita da primeira vez. Entretan- to. Esses cuidados. usando ou não as técnicas. O amor que o passista deve cultivar a fim de que se torne médium dos Espíritos Amigos e juntos. no seu conjunto. O amor de Jesus Cristo que impregna o nosso planeta. O amor que dimana do nosso Pai e Criador em favor de todos os Seus filhos. Divaldo esclarece. a fim de tornar-se um bom servidor. que ela era uma pessoa distraída. lutando pela reforma íntima e constante progresso espiritual. a essência do passe é o amor. conforme assevera Leon Denis.

. desta ou da- quela prática. não se deve fazer isto ou aquilo. Divaldo ressalta então a questão das restrições: não se deve fazer assim.216 SUELY CALDAS SCHUBERT preciso. Este é um bom exemplo para quantos se preocupam. quase que se exige hoje em dia. pelo desejo puro e simples de ajudar. em demasia. enfatizando que o excessivo uso das téc- nicas tem empalidecido o vero sentimento da caridade e do amor. Semear — ensina Jesus. em prejuízo da espontaneidade de sentimentos e do legítimo desejo de praticar o bem e a caridade. pelo sentimento. E no tocante ao passe. com o uso das técnicas em nossos serviços espi- ritistas. mas. um diploma daquele que quer servir nesta área. Não se está condenando os novos conhecimentos espe- cializados em torno deste ou daquele assunto. Semear sempre — ele nos conclama. Semear — eis um tema muito sério para nossa medi- tação.

quando eu ia proferir uma palestra na Federação Espírita do Estado de São Paulo. porque o rapaz me olhou demoradamente. Procurei olhar os cartazes. aguar- dando. Todo o mundo tem o direito de viver como lhe apraz. Acertamos que ele iria pegar-me na Avenida Ipiranga. Após alguns momentos percebi que era um lugar muito turbulento e complicado. quando então observei que o aspecto dessa pessoa era um tanto estranho. surpreendi-me. Sendo espírita. para facilitar-lhe o esforço e ganharmos tempo. nas proximidades. e vi pelo vidro. mas foi pior pois eram muito chocantes. À hora aprazada. mais adiante. 27 COM MARCO PRISCO NA AVENIDA IPIRANGA Em certa ocasião. que o outro também parou. percebi uma pessoa se- guindo-me. Fiquei muito constrangido. porque não me cabe o direito de jul- gar. Continuei a an- . para não ficar parado naquele local. Não obstante. eu me postei no local indicado. Muitas pessoas atormenta- das e uma grande confusão. Andei um pouco mais e resolvi virar-me. como em relação aos indivíduos. Parei numa vitrine. à porta do Cine do mesmo nome. Vi. À medida que eu andava. um con- frade se ofereceu para ir buscar-me no hotel. a minha atitude é de com- preensão para todo e qualquer problema humano. uma banca de jornais e encaminhei-me até lá.

— Estou vendo um Espírito perto do senhor. um tanto embaraçado. Um Espirito. — E o que é? — Bem.. Tratava-se de Marco Prisco. Ele me olhou muito constrangido. começou a gaguejar e tentou explicar: — O senhor não se incomode. — Não sei de quem se trata. . — Ele declarou que as suas iniciais são M e P. (Pensei: naturalmente ele me conhe- ce. pensando o que se- riam tais coisas.218 SUELY CALDAS SCHUBERT dar e comecei a orar. não é? — Bem. Pensei que devia tomar uma atitude. . — Eu vejo coisas — prosseguiu — e estou vendo junto ao senhor algo curioso.) Bem. a vesti- menta e todos os detalhes. enfrentar a situação. preparando-me para encerrar o assunto. . mas é que eu estou obser- vando uma coisa que sempre me acontece e vou dizer-lhe francamente: sucede que eu vejo coisas. O senhor acredita em Espí- ritos? — Não. Mentalmente roguei ajuda espiritual e aguardei. também o vi a meu lado e ele me disse: . Pensei: ele me conhece. não sei se acredito — acrescentei. Já que o está vendo per- gunte-lhe quem é. senhor. Virei-me subitamente e perguntei-lhe: — O senhor desejava alguma coisa? Ele assustou-se com a minha indagação. Neste momento. aliás. E o descreveu com uma clareza impressionante.. que não espe- rava. notei-o agora e pode ser que o senhor me co- nheça de algum lugar. Foi a minha vez de ficar surpreso. . e respondeu: — O senhor deve estar intrigado por eu o estar seguin- do. É um romano. saber o de que se tratava.

Ela foi minha. senhor. porque estou muito atormentado. . fui bus- cá-lo para podermos ajudá-lo. de muito boa aparência. pegou-me as duas mãos e notei que as suas estavam geladas. Eu sou es- pírita e estou indo agora a uma conferência.. — Bem. — O senhor acredita? — indagou bem mais animado. e. eu vou dizer-lhe que acredito. já que você foi muito honesto. Ê uma loucura. porque ele é amigo meu. . ele está balançando a cabeça afirmati- vamente. vou descendo. ao seu lado. Eu sou uma pessoa de sociedade. E descia a detalhes muito desagradáveis.. uma volúpia. usando expressões sórdidas. agredia-o de forma violenta. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 219 — Divaldo. ao mesmo tempo. de bai- xo teor vibratório. Adolescente. Eu vejo. Enquanto ele falava. vamos dizer dez por cento. o antigo marido traído na encarnação anterior. Como conseqüência. nove. chama-se Marco Prisco! — Isto mesmo. Você está dese- jando ser esclarecido? — Estou sim. mas. vi uma Entidade malévola. cada dia ele caía mais. — Ah! acho que sei quem é. Era-lhe o obsessor.. Desde en- tão passou a ter um sonho com um homem que o perseguia. eu ouço. Então escla- reci ao rapaz: — Não vamos render muito o assunto aqui. naquele período fora seduzido por uma pessoa de maus instintos. Tentou explicar a situação: — Eu não sei o que fazer. repetindo: — Ela é minha. conhece? — prosseguiu o moço. Tenho um tipo padrão. atenda-o. não agüento. . quando me ataca eu saio a caçar (foi a expressão que ele usou). — Eu tenho dignidade. porém. trabalho. Em poucos minutos contou-me a sua vida de dissabo- res e aflições. Atenda-o! — M e P.. Então eu o procuro. — Eu estou com vinte e seis anos — afirmou-me. se não o encontro. que começou a me desafiar.

estude-o. O que será isto? — Você vai saber. três. sete. após dar-lhe o meu endereço. . Chegou o confrade que me viera buscar. fez-se pai. falei-lhe: . de beleza física muito grande. Enfrente as dificuldades que virão. Tive a honra de militar nas catacumbas. Às vezes interno-me para recuperação. pescoço bem grosso. Eis como Divaldo relata o seu conhecimento com Marco Prisco: "Em 1950. um cristão exemplar. o que achar. o ódio de mim mesmo. me apareceu pela primeira v e z o Espírito de um j o v e m romano. A dor não é de Deus..220 S U E L Y C A L D A S SCHUBER1 oito. em nossa conversa. sandálias. Ninguém nasceu para sofrer.zero. Um dia. Dei-lhe o Evangelho Segundo o Espiritismo e disse-lhe: — Amigo. . bem romano. Reencontrei-o um ano depois. aparentando uns vinte e dois anos. É uma loucura! E depois. de toga. que me disse: — Eu sou Marco Prisco. Conheci Simão Pedro e o apóstolo Paulo. este livro vai levá-lo à renovação. Hoje é um espírita de- dicado. Ele agradeceu comovido e despedimo-nos. cabelo cortado à Júlio César. Levamo-lo à Federação. a vergonha. a seu pedido. Acompanhei-lhe a conva- lescença moral. Casou-se mais tarde. na Federação Espírita do Estado de São Pau- lo. Leia-o. durante o processo de cura e tudo será diferente. o desejo de matar-me. se você o estudar vai superar tudo. Mantivemos correspondência. eu o apre- sentei a alguns amigos que iriam propiciar-lhe a terapia do passe e o conhecimento da Doutrina. Daí por diante ele começou a me aparecer. . Opor- tunamente (1949) escrevi por tuas mãos uma página. mas conseqüência de nossos erros. ele assistiu à palestra.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 221 — Mas." Muito interessante este caso. é o referencial que os aproxima. Marco Prisco promove o encontro entre o moço ator- mentado e Divaldo. você só me fala do tempo cristão. Só me recordo dos tempos do Cristianismo. 0 ambiente é conturbado. obviamente. plasma a sua presença com aquelas carac- terísticas do seu período de felicidade. espontânea. Pode-se imaginar quantos preparativos e cuidados foram necessários para que ambos se encon- trassem. Isto. das cata- cumbas. Dois médiuns. A vidência é uma situação corriqueira para o rapaz. . em meio à movimentada Avenida Ipiran- ga. o fato mediúnico acon- tece em toda a sua plenitude. as possíveis implicações na vida de uma pessoa. imprime os seus mo- mentos de felicidade e. Mas. Quando finalmente se defrontam é relevante observar- mos os pontos em que o diálogo se estruturou. O Espírito (esclarece Divaldo). É exatamente essa faculdade mediúnica que o faz observar o médium baiano. em primeiro lugar. despercebido do público. O que ressalta. embora não lhe entenda o mecanismo e. por gratidão àquela reencarnação na qual foi ditoso. Um romano na Avenida Ipiranga! É bastante curiosa a cena. lhe chama a atenção. nem de longe. porém intenso e revelador. e na História? — Na História fui um desastre. natural. todavia. A ligação espiritual que existe entre cada um dos médiuns com Marco Prisco. Vê junto a este um Espírito que se apresenta à romana. é a mediunidade do jovem.

Teofrastus. pelas dívidas do passado que o tornam vulnerável ao seu perseguidor. agora reencarnada num corpo mas- culino. Iden- tificando nela (em corpo de homem. apresenta-se com carac- terísticas de subjugação. No livro Nos Bastidores da Obsessão. se constitui em ponte para a Vida Maior. Entidade de grande cultura e crueldade e que dirige uma organização das trevas. . Vejamos como Miranda relata o caso. o obsessor explica: — "O corpo era moço. pois o perseguidor constrange a sua vítima a agir contra a sua própria vontade. exatamente. embora) as tendên- cias guardadas da vida anterior. também.. através da psicografia de Divaldo. O plano' consiste. relata um caso muito semelhante a este. que merecia uma severa punição. através da perversão da mente inquieta. em pro- . favorecendo ao perseguidor dominar-lhe a mente por largos períodos. Referindo-se ao jovem em questão. A obsessão. A obsessão o prende em suas malhas. em que as dissipações atin- giram o auge ( . ) fácil seria perturbar-lhe os centros ge- nésicos. no caso em pauta. o obsessor persegue aquela que o traíra no pretérito. em desequilibrar o jovem — no qual " v ê " a esposa traidora — até levá-lo ao suicídio. O jovem vive um angustiante drama.222 SUELY CALDAS SCHUBERT É maravilhosa a faculdade mediúnica! Muito embora enseje a visão e. mas o espírito que o animava era o da assassina. a sintonia com Entidades e planos inferiores. muitas vezes. Observe-se que o ex-marido do passado identificou no rapaz de hoje a mulher que o traíra em precedente exis- tência. A partir desse forte vínculo a sintonia se torna pos- sível. Segundo a narrativa. . e principalmente. Para consumar a sua vingança tem o apoio do Dr. Manoel Philo- meno de Miranda.

" (grifos do original) 0 jovem conta o seu angustiante problema a Divaldo. Jorge Andréa. atirando-a cada vez em charco mais vil. Arrefecida a atua- ção maléfica advém-lhe um sofrimento maior pelo remorso. Daí por diante associei-me à sua organização física e psíquica. Nos momentos mais difíceis. emérito escritor. O SEMEADOR DE ESTRELAS 223 cesso de hipnose profunda. que o ódio se converteu em estímulo de gozo. principalmente no setor moral. Dr. quando o assédio obsessivo é mais intenso ele acaba por ceder ao domínio hipnótico. que o homossexual ao atender aos sentidos em satisfação sexual. Teofrastus. Ninguém se realiza no caminho do dese- quilíbrio e da desordem. foi fácil modificar-lhe o interesse e inclinar-lhe a libido em sentido oposto ao da lei natural. — "Em pleno amadurecimento (continua o persegui- dor espiritual) das faculdades sexuais. imanando-nos em processo de vampirização em que me locupleto e através do qual a destruo. pela rejeição a si mesmo. fragilizado pela dívida moral do passado. sob a rigorosa assis- tência de um hipnotizador destacado pelo Dr. . A vivência desses mecanismos desarmônicos despertará . praticada por técnicos do nosso lado. pela sensação de culpa. Tão fortemente me liguei à sua vida. A prática deformante é resultado da distonia íntima que carrega consigo. A tormenta interior que o avassala se acentua dia após dia. produzindo irreparável distonia nos centros da emoção. . até que o suicídio seja sua única solução. experimentando as sensações que lhe eram agradáveis e criamos um condicionamento em que nossos interesses agora passariam a ser comuns. jamais estará em processo de realização conforme pensam algumas escolas. já que o seu corpo era masculino. sem qualquer sombra de dúvida. cujo processo de- sencadeará desajustes. assim se refere à questão do homossexualismo: "Consideramos.

algum dia. . o negativo. sedimentar posições inferiores ou pa- ralisar o processo.224 SUELY CALDAS SCHUBERT impulsos específicos que responderão. sempre possibilidades de soerguimento. portanto evolutivo. um romano dos tempos de Pedro e Paulo. A reação- resposta. após a queda. o processo de- generativo desenvolverá sempre mecanismos de defesa e de impulsos no sentido contrário. Então. estará diretamente ligada à ação desencadeante com toda a colheita das necessárias "dores-equilíbrio". O j o v e m inicia aí a sua longa caminhada no rumo do equilíbrio e da paz. todavia. Séculos de experiências. dois médiuns e Marco Prisco. o mal. D i v a l d o prossegue a sua trajetória de equilíbrio e de paz. Existe. a fim de criar defesas para a sedimentação de novas posições mais expressivas. pelo pro- cesso de integração na linha positiva da evolução. medeiam entre ambos. não conseguindo." (Forças Sexuais da Alma) Na Avenida Ipiranga. Dois médiuns se encontram. jamais. O grande impulso será sempre dirigido na faixa do equilíbrio e harmonia. da distonia fica a expe- riência e vivência. se defrontam. pela zona espiritual.

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a fim de conseguir publicá-lo — expliquei. Quando estava de saída para a casa dele. 28 ALÉM DA MORTE Eu havia ido visitar o senhor Aristides Silva. é o meu problema: eu tenho an- gina. a autora espiritual. então. fala que linha morrido "do coração". Ele o ouviu. peguei os originais do livro que estava revi- sando. — E o que vai fazer com ele? — Eu o estou levando a Curitiba para fazer um orça- mento. li o primeiro capitulo. Chegando à sua casa encontrei-o já em convalescença. Não nos conhecíamos. mais próximo a mim e. . me disse: — . pensando ter uma brecha de tempo para prosseguir o trabalho. Sentou-se. não tínhamos maior inti- midade. que era o Além da Morte e levei comigo. Fui com Celeste Mota. porque é muito cara uma edição. que tinha "angina pectorís'. seriamente. e depois. Eu JÁ publiquei outros cinco livros até então.Coisa interessante. — Leia algo para eu ouvir. Este livro deve ser publicado para consolar muita — Mas em creio que não o será. aquele no qual Dona Otília. Ficamos conversando e depois de algum tempo ele per- guntou-me: — O que é isto que você tem na mão? — É um livro que psicografei. que estava enfermo.

você publicará outro. se for de cinco mil ou de dez mil. . Não sabia o que pensar. Ele ficou pensativo por alguns instantes. Ele silenciou. dona Irene. o preço por exemplar diminui progressivamente. Com a renda dos dois será publicado mais um e assim se farão as reedições. pensando não ter ouvido bem. um Espírito amigo comentou comigo: — Ele é muito grande. Eu fiquei perplexo. depois de o publicar. porque barateia-lhe os custos. Quando ele abriu o cofre e indagou-lhe: — Ireninha. — Eu quero que este livro saia — continuou. eu vou dar os dez milhões de cruzeiros a este rapaz. Se for uma edição de três mil exemplares fica em tanto. Ao retornarem. enquanto se eleva a tiragem. uma amiga. sim? . ele trazia uma caixa de sapatos nas mãos e disse-me: — Publique o livro. Nesse instante. e. conversamos outras coisas. Dirigiram-se ao interior da residência onde demora- ram alguns minutos.226 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Concedi à "Mansão do Caminho" os "direitos autorais".. quanto maior é uma edição. ele vai dar a renda. em Curitiba.. — Este livro vai ser a porta que se abrirá para outras obras. Por- que. O dinheiro aí está. e prosseguiu: — E por quanto você faria dez mil exemplares? — Um absurdo! Imagine que fica em dez milhões de cruzeiros ou mais. — Só isto? — Mas. — Dizem que. E entregou-me a caixa. Agora. Daí a pouco o senhor Aristides levantou-se e chamou a esposa. em seguida. — E você acha que fica por quanto uma edição? — indagou-me. prometeu fazer um orça- mento para este. melhor.. Eu fiquei sem ação. é muito. mas ela (a esposa) é ainda maior. eu nem tenho uma idéia.

Divaldo renuncia a colocar em evidên- cia o que lhe era de direito e por mérito. o prefácio com o mesmo título do livro. indo a Uberaba. (10. em seguida. Em substituição. só? Dê treze. ao invés de dizer. da E . Apresentamos. Ou. pela psicografia de Chico Xavier. intitulado Além da Morte. Joanna de Angelis escreve uma página de intróito. Este. Divaldo termina de psicografar o livro de Otília Gonçalves. ) . a obra custou os referidos treze milhões de cruzeiros. Em raros instantes a renúncia se faz tão bela quanto no silêncio de quem se deixa apagar para que não se apague a luz que brilha adiante. no entanto. Uma vez mais. recebe de André Luiz. oito anos antes. O tempo fez a sua trajetória e tem despertado os que adormeceram na ilusão e no engano. (N. Em poucos momentos. como é irreversível. a renúncia atinge tão alto signi- ficado quanto no silêncio mais profundo da alma ante o alarido dos inconscientes. Ele aquiesceu e está dando treze milhões de cruzeiros. Essa atitude ainda hoje nos comove pela sua nobreza. porém sem a contribuição que André Luiz espontaneamente ofertara. ( * ) Quando concluída.(*) Em agosto de 1959. como a maioria das esposas: — Tudo isto? — propôs ao marido: — Ô Tidinho. o belo prefácio de André Luiz. No início do ano seguinte. O SEMEADOR DE ESTRELAS 227 Ela (prosseguiu a Entidade). só é publicado em 1968.000 exemplares ). propicia que além da morte cada um encontra as respostas ante o enigma da verdade.

Há quem diga que os chamados mortos nada têm que ver com os chamados vivos. Loucos. E apesar do horizonte aberto. Suicidas. além da morte. entretanto. Criminosos sentenciados no tribunal da consciência. Malfeitores que furtaram de si mesmos. Infelizes a se imobilizarem nas trevas. continuam desditosos e dementados. jazem no chão como pássaros mutilados. Por mais se lhes mostre a harmonia do Universo e por muito se lhes fale dos objetivos da vida. Doentes que procuraram a enfermidade. oOo É por isso que saudamos neste livro mais um brado de renovação e esperança concitando-nos ao aproveita- mento das horas. oOo Alcançando a Grande Luz. assemelham-se a cegos da razão ante a sabedoria da Natureza. sob a hipnose da ilusão. . a fim de que o pensamento regenerado consiga redimir as suas próprias criações que substancializam a experiência da Humanidade nas várias nações da Terra. descrentes dos próprios méritos. de hoje. serão os chamados mortos de amanhã com possibilidade de se perturbarem uns aos outros — caso perseverem na ignorância — cultivemos na Dou- trina Espírita o instituto mundial de esclarecimento da alma. como os chama- dos vivos. SUELY CALDAS SCHUBERT 228 ALÉM DA MORTE Todos os dias chegam corações atormentados. Fixemos a atenção.

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230 SUELY CALDAS SCHUBERT .

O SEMEADOR DE E S T R E L A S 231 .

na Bahia. nem era contra nós. pois que assim se dá porque alguém acendeu-lhe o pavio.. nestes longos anos de con- vívio. Se uma pessoa é grosseira conosco não nos ofendamos com essa atitude: vai ver que a pessoa tinha um motivo oculto.. Arrependi-me da compra ao terceiro dia. Ê muito difícil julgar pelas aparências. a prestação. Ao vê-lo me apaixonei e comprei um par. Era horrível. mas ele pesava tanto que me deu cãibras. talvez. A pessoa faz uma grosseria conosco. Eu tive uma experiência que me marcou a vida. mas eu o achava uma beleza. não porque não goste de nós. Quando eu era muito jovem. . porque alguém acendeu-lhe o pavio da cólera na rua e este veio queimando até aqui e estourou. Era de borracha com uns dois dedos de espessura. 29 A LOUCA Algumas considerações sobre a agressividade das pessoas. para que não revide e que nunca devemos acusar a bomba que explode. Possivelmente. porém aconteceu. um tipo de sapato marrom e branco. No primeiro calcei-o e saí. esteve em moda. Joanna de Angelis me disse. Eu estava com dezoito anos nessa época.

Quando o ônibus parou eu o empurrei e desci. as pessoas entravam com galinhas.. Estou a ponto de matar-me. o jeito era sair dali. eu volto. Pensei: ele me descobriu e vem dar-me uma surra. pela manhã tenho de amarrar a minha esposa no q u a r t o . empurrando para o fundo. eu o fui olhando devagar. tenho de lhe dar banho. ele era enorme. porque. Estou com um problema muito sério: a minha esposa ESTÁ LOUCA. o primeiro que passou. não é? Por que não pegou um carro? E pisou com mais força. olhei o sapato. . em nossa Casa. com tudo. porém. eu vim aqui para pedir-lhe uma cari- dade. Aí. Uns cem quilos! Eu não sentia tanto a dor no pé. . Mas. senão a decorrente de ele estar estragando o meu sapato novo.. O senhor imagine que eu trabalho nas docas. acho que lhe teria dado um empurrão. dar comida aos . Eu não podia reclamar. de mágoa. Daí a dias. Ele perguntou-me: — O senhor é o seu Divaldo? — Sim. Já atendia aos pobres e sofredores. Nisso veio um homem enorme. senhor — respondi contrafeito. quando estava atendendo a fila. Eu :enho quatro filhinhos. chegou no meu pé junto a mim e pisou.. — Seu Divaldo. Dei o sinal. fui empurrado. Se ele fosse mais baixo do que eu. Eu era médium. que estava rasgado. pois ainda o teria que pagar. tentando defender o sapato. O SEMEADOR DE ESTRELAS 233 Entrei num ônibus. fui muito delicado: — O senhor quer tirar o seu pé de cima do meu? — Ah! granfino. Era um veículo que servia ao subúrbio. Fora. de dor. gaiolas. Baixei a cabeça e. Confesso que chorei de raiva. mas ainda não era espírita. Eu entrei tam- bém. quando ele chegou perto. quando o olhei. vi o tal homem aí postado. adentravam-se e iam socando quem já estava.. exercia a mediunidade. À noite. tramco meus filhos noutro e saio para trabalhar. porque a valentia da gente é sempre contra o mais fraco.

Eu ando provocando todo mundo. Por que fazer isto com ela? E comecei a doutriná-lo.) — Por que você me chama de irmão? — perguntou-me. seu Divaldo. para ver se alguém me mata ou se eu mato. porque assim eu não suporto mais. Ao chegarmos. quanto mais no senhor. . se ela bater.) — Não faz mal. para dar-lhe um passe e observá-la. Ele assustou-se. o senhor poderia fazer qualquer coisa para me ajudar? — Se o senhor tiver paciência de me esperar. — A vizinhança já deu queixa na polícia. Ele abriu a porta do quarto e eu entrei. .. louvado seja Deus! Ele desamarrou-a e eu me aproximei.. — Mas. Você não pertence mais à Terra. Já não agüento mais! Internei-a num hospício e tirei-a. acompanhando-o. Disse- ram-me que o senhor é médium. que sou deste tamanho. Fomos com ele à sua residência. só que um irmão que já morreu (eu não sabia nada de desencarnado). Assim fizemos. ouvimo-la urrando. ululando. Fomos entrando. Ela estava toda amarrada de cordas e despida. — E desamarre-a. A fila sempre acabava pela madrugada — uma e trinta ou duas horas. Eu acho que o Espírito gostou de mim. Você já morreu e está do outro lado da vida. . (Eu era magrinho.234 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T meus filhos e tenho de cozinhar para o dia seguinte. por que você faz isto? (Eu via o Espí- rito. — Ponha um cobertor sobre ela — pedi-lhe. porque se acalmou e sentou-a no chão. — Porque você é meu irmão. ela bate em mim. quando acabar aqui irei lá com Nilson. — Meu irmão. — Ninguém dorme — explicou. Levei-a ao candomblé e me disseram que ela "tem" Espírito. Ele se dispôs a esperar.

uma semana. vestidinha. — Lembro-me. que se tornara agressivo. sim. . era apenas um homem muito sofrido. tor- nando-se quase um guarda-costas. senhor. . aquele homem rude. Você se lembra de mim? — perguntou. Joanna de Angelis incorporou-me e conversou com a Entidade. nunca! Então eu contei-lhe o caso e ele me respondeu: — Ah! seu Divaldo! Naquele tempo eu andava louco. porque assim eu iria para a cadeia e ficava livre deste mundo horroroso. Ele tinha um problema tão grande. O SEMEADOR DE ESTRELAS 235 — Eu tenho raiva desta mulher. — Você não se lembra da pessoa que você pisou no pé? Você nunca me viu? — Não. E começou uma discussão entre os dois. Eu sou fulano de tal. . eu lhe perguntei: — Fulano. Retornei lá. (Ele tinha quarenta anos e me chamava de senhor. provocava as pessoas para ver se alguém me matava ou se eu o matava. tomou meu lugar. eu odeio este homem. senhor. dirigin- do-se ao marido dela. ele ia também. — Deixe que eu lhe fale. você não se recorda de mim? — Não. que tinha dezoito). a fim de se ver livre da aflição. — Você não se recorda de um sujeitinho antipático. por favor — pedi. a mim. outras vezes. O marido se tomou de gratidão e amizade por mim. Então. Ele me prejudicou nas docas. Ela ficou boa. Meses depois. acompanhando-me. Aonde eu ia pela ma- drugada. aparentemente. que entrou no ônibus de sapato marrom e branco? — Não. Quando eu voltei ao normal a mulher estava calma. seu Divaldo. um dia. — O senhor fique calado.

através de Divaldo. A obsessão em certo grau pode ser confundida com a loucura. com o brilho que lhe é peculiar. nos propósitos inferiores a que se a f e r r a m . Obsidiada. sejam as de natureza emocional. de que os en- fermos não se liberam. Interessante enfoque sobre as causas da agressividade humana. a obsessão muito prolongada pode ocasionar "desordens patológicas". não revido. pelas aptidões e impulsos que procedem das reencarnações transatas. . ) . de problemas que aturdem o ser humano. ( . escreve. A violenta reação das pessoas é. a exce- lente obra Nas Fronteiras da Loucura. item 254-6) Manoel Philomeno de Miranda. . . mais tarde. muitas vezes. "Entre os que são tidos por loucos. precisariam de um tratamento moral. Nesses casos. uma mulher louca.236 SUELY CALDAS SCHUBERT Isto me ensinou a nunca revidar. resul- tante da violência da vida. capítulo X X I I I . "A obsessão é uma fronteira perigosa para a loucura irreversível. São dele os trechos abaixo: "Queremos deter-nos nas psicopatogêneses espirituais. mas. . produzidas por encarnados ou por Espíritos que já se despiram da indumentária carnal. sejam pelo impositivo das obsessões infelizes. permanecendo." (O Livro dos Médiuns. muitos há que ape- nas são subjugados. Eu não sou uma pessoa boa. enquanto que com os tratamentos corporais os tornam verdadeiros loucos. Um homem sofrido. como já elucidava Allan Kardec. no entanto.

( . E. a audição c o m o os demais sentidos confundem a rea- lidade objetiva ao império das vibrações e faixas que re- gista desordenadamente na esfera física e na espiritual. Divaldo atende a um homem na fila. algemado a um adversário que lhe é im- penitente. Miranda analisa a obsessão por subjugação. é interminá- vel a sucessão dos sofrimentos. ) " U m contínuo aturdimento o toma (ao encarnado). "O Espírito encarnado movimenta-se num labirinto que o atemoriza. . A v i - são. em parasitose firme na desconcertada casa mental. aterrando-o c o m ameaças cruéis. a vontade do hospedeiro perde os contatos de comando pessoal." Nesses trechos citados. é longa a fila das necessidades. Por certo. na fila das mi- sérias humanas ajuda uma criatura obsidiada a se reequi- librar. . maltratando-o. Feliz de quem atende aos que estão passando. O SEMEADOR DE ESTRELAS 237 " N o painel das obsessões. na razão direta em que o invasor assume a governança. em trânsito para o futuro. à medida que se agrava o quadro da interferência. que era o caso da mulher a quem Divaldo vai atender. .

Falam-me de uma Terra nova. Espero. dentro da Consoladora Doutrina que nos irmana. ricas de bondade e ternura. assim. Sou apenas teu irmão mais velho e em se tratando de ti — irmão mais jovem. pedindo-te a mesma intimidade para comigo. todavia mais iluminado —. sem cerimônia. Através de tuas expressões. em que a juven- tude traz no espirito a divina semente do mundo regene- rado. não me trates por "vós". qualquer dúvida em escrever-te à vontade. Tuas notícias foram muito confortadoras para o meu coração. cabe-me o dever de rogar-te desculpas pelo tom frater- nal de minhas palavras. Entusiasma-me a dedicação de tua mocidade ao nosso idealismo. Recebi tua carta hoje e apresso-me a dizer-te do bem que as tuas palavras me trouxeram. tal o cari- nho espontâneo de tuas frases acolhedoras e generosas. Não tive. 3 de agosto de 1948 Prezado amigo Divaldo Jesus nos abençoe a todos. pois. Tive a impressão de receber notícias de um amigo de muito tempo. sinto-te o coração ardendo em luz renovadora e . 30 CHICO E DIVALDO Pedro Leopoldo.

em todos os lan- ces difíceis da nossa jornada. Recolhendo tanto conforfo em tua carta. A atualidade precisa de corações valorosos quais o teu e espero que prossigas sem desânimo. Estamos. Pode ser? Desde já. Muito grato pelas tuas referências à minha apagada tarefa mediúnica. guardando-te essa lembrança. meu caro. na expecta- tiva de que me proporciones o contentamento de uma . sim. com brilho. seja digno da amizade com que me tratam. Quando te for possível. se utilizam de minhas pobres mãos para o serviço que lhes diz respeito. Emmanuel. muito reconhecidamente. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 239 peço ao nosso Mestre Divino abençoar-te os propósitos de trabalhar na edificação sublime do Amanhã. Podes crer que a caridade deles para comigo tem sido infinita e peço-te incluir-me em tuas orações para que eu. mas. espero não perder-te a amizade. num grande combate. Teria muito prazer. campo afora. André Luiz e o nosso grande Humberto hão de ajudar-te a vencer. estimaria receber-te um re- trato. Sou empregado aqui numa repartição. cujos traba- lhos nos compelem a viagens freqüentes. seguir-te-ei os passos com os meus votos por tua vitória integral. mesmo longe. portadora para mim de tanto estí- mulo. Reafirmo-te minha gratidão imensa pela alegria em que tuas notícias me envolveram a alma e. Combate pela feli- cidade humana na construção de nossa própria felicidade com o Cristo. Lastimo haver renascido distante da terra abençoa- da em que ressurgiste para a boa luta. Nada tenho feito. Será esta a razão da demora de qualquer notícia minha. Peço ao teu bom coração distribuir minhas lembran- ças com todos os amigos do grupo em que te integras. sem reparar minha deficiência e fragilidade. E espan- ta-me o devotamento dos Benfeitores Espirituais que. um dia. meu irmão. agradeço. mas escre- ver-te-ei sempre.

os Benfeitores Espirituais. Manoel Philomeno de Mi- randa. carregada de es- tranhos presságios. clariaudiência. incansáveis e amorosos. sombria e ameaçadora. O querido Amigo Espiritual. médium de berço. uma porta de luz se abre dissi- pando as sombras e prenunciando o amanhecer de bênçãos. e as espe- ranças. Na sua noite de trevas. fenecendo. Pesadelos. pelas mãos de Divaldo escreve em 1970. Nesse conflito todo. febres. A morte de mais dois irmãos torna ainda mais sofrido esse período de intensa busca. A enfermidade ronda-lhe os passos. resultado dos traumas sucessivos. o coração opresso e desalentado e as súplicas de quem se volta para Deus na urgência de um socorro que tarda. Por outro lado a mediunidade.240 SUELY C A L D A S S C H U B E R T nova carta. Chico Francisco Cândido Xavier Divaldo. ante as dúvidas sem soluções e as angústias que se repetem. de dolorosas interrogações e de dúvidas angustiantes. porém. psicofonia) à feição de uma cachoeira. preparam um novo dia para o jovem Divaldo. sempre presente em sua vida. pede a Jesus por tua paz e felicidade e abra- ço-te cordialmente o amigo e irmão muito agradecido. a paralisia é uma ameaça muito próxima. O suicídio da irmã Nair é um choque traumático que o abala profundamente. cujas águas represadas são uma força tre- menda ameaçando romper o dique das emoções. atravessa a adolescência sob acerbos sofrimentos. eclodindo ostensivamente (efeitos físicos. acostumado a ver e con- versar com os Espíritos desde a mais tenra idade. clarividência. referindo-se à mediunidade: . sem respostas. A noite parece avizinhar-se de todo. Os vultos ami- gos afiguram-se-lhe longínquos e inatingíveis. o leito onde as pernas doridas re- pousam.

com o coração voltado para o ideal de servir a Jesus. A resposta afetuosa fê-lo exultar e. a partir daí. Por essa época inicia a sua vida profissional e a conso- lida. Inteira-se de sua vida e vê nascer um senti- mento profundo de respeito e carinho por aquele que elege para exemplo de devotamento e abnegação à causa espírita. O ideal do Bem e do Amor crescem em definitivo sua vida. escutasse a pronúncia de um terno nome. em relação a você: irmão! — depois do que. após vencida. através da qual. tem o primeiro contato com a obra mediúnica de Chico Xavier. inaugurando experiência feliz. lenindo as próprias angústias. . . chorar sem desespero. além da qual. convidativa. O Livro dos Espíritos é o seu encontro com Allan Kardec e a Falange do Espírito da Verdade.. doce canto embalante ciciasse u'a melopéia conhecida ou uma berceuse reconfortante. em suas páginas.. transpassada a expiação i n o m i n á v e l . Ele o lê com avidez e. descobre as respostas. " (Nos Basti- dores da Obsessão) Parafraseando-o. banhada que fosse de fraca mas significativa luz. e re- pousar. que tal porta de luz é a Dou- trina Espírita. timidamente. É com esses sentimentos que escreve pela primeira vez ao médium Francisco Cândido Xavier. que se abre para Divaldo e o faz saltar do leito e andar ao seu encontro. o consolo. con- solidaria em seu íntimo a afeição que lhe devota. Jovem. dilatados os ouvidos. que subitamente se abrisse. roteiro e medica- mento chegassem salvadores. revisse paisagem esquecida e agradável e. Transpõe. o conhe- cimento. Simultaneamente vai superando os conflitos íntimos imediatos e se fortalecendo para as lutas contra aqueles que só o tempo poderia solucionar. Já sabe o caminho. o portal e banha-se de luz! Aí estão todos os seus A m i g o s Espirituais a esperá-lo! Amanhece o dia!. . poderia ouvir consolo. transposta a mínima distância entre você e ela. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 241 "Avalie o significado de uma porta libertadora. diremos.

porém. Viajamos trezentos e vinte quilômetros e quando che- gamos perto. os confrades me disseram que a pales- tra do dia seguinte seria em Coatepec e que haviam feito uma larga propaganda para atrair umas seis mil pessoas. Quando chegou o dia. constatei que era um lugar mais simples e menor do que eu esperava. em caravana. 31 O "DEUS" HURACÁN Em 1985 fui à Guatemala. na cidade. — Sim. Veio a comissão e entramos. . os confrades estavam entusias- madíssimos com a minha palestra no Palácio de Metal. disseram-me: — Vamos esperar a comissão de recepção. — Mas. irmão Divaldo. pelas montanhas e o irmão vai falar ali no Palácio de Metal. e após fazer a conferência em Guatemala (DF). com o seu Palácio de Metal. Eu comecei a imaginar a beleza do Palácio de Metal. em Coatepec. seis mil pessoas? — indaguei. imponente e grandioso. — Irmão — disse-me um deles —. Quando entramos. toda a província de Coatepec virá para assisti-lo. Eu imaginava a cidade de Coatepec. há um mês estamos viajando pelos vales. Tenho a mente muito entusiasta e logo imaginei alguma coisa de belo como os palácios da Índia.

O presidente amigo me disse: — Aqui chove muito. Às dezoito e trinta a cena se repetiu e ele garantiu-me que a chuva logo passaria. Às dezessete horas a chuva prosseguia. ca- minhões. às dezenove horas. As enxurradas eram como rios. — E se importa de se molhar? Porque não vamos con- seguir ir até lá de carro. Fiquei a imaginar um salão assim. bem devagar.. o salão mede setenta metros por dez. Só iremos quando faltarem quinze mi- nutos. — Ainda não. é chuva tropical. cercados de . carros. ainda em construção. — Então vamos correr. dá aquela pan- cada e logo passa. pois fico constrangido. a relampejar. tem mestre-de-cerimônia. a tro- vejar. onde me hospedei. — Não — respondeu-me.. — Não havendo outra alternativa. quan- do tenho de passar pelo meio do povo a me aplaudir. O SEMEADOR DE ESTRELAS 243 O hotel. disse-lhe que já podíamos ir. Quando che- gamos a uma certa distância. tudo estava interrompido. devia ser quase uma quadra. Às dezenove e quarenta. Carroças. — Tudo está preparado. Fomos andando pela rua. dizendo que preferia entrar por alguma porta lateral. Mas a chuva prosseguia. eu não sabia que ia chover. tudo interditado. Às quinze horas começou a chover. O meu anfitrião olhou para mim e falou: — O irmão trouxe guarda-chuva? — Não. ônibus. pois preparamos uma entrada triunfal. Ele voltou a afirmar-me: — Passará já. Quando desci do carro a água me veio quase aos joe- lhos. Eu me aprontei. torrencialmente. era quase todo de tábuas. saímos de carro. e. O irmão já imaginou quase sete mil pessoas aplaudindo a sua entrada? Tentei demovê-lo desse propósito.

mas aquele povo ali era modesto. daí a razão do nome — Palácio de Metal. Havia. porém. E o que vi. Então. meu Jesus. à véspera. se não tenho o que dar. o bispo e as autoridades iriam ouvi-la em casa. — Ê o irmão Divaldo! — anunciou. para o Senhor me inspirar sempre. Fui sendo levado até o meu lugar.. um problema. Alguns haviam vindo desde mais de cem quilômetros de distância: a cavalo.244 SUELY CALDAS SCHUBERT água e com a chuva caindo sobre nós. • . Cheguei ao palco e exclamei intimamente: — Meu Deus! — Comovi-me. Sentei-me e olhei o público. irei mudar para melhor. de pé. Supliquei intimamente: — Meu Deus. O mestre-de-cerimônia fa- lava ao microfone e o povo permanecia firme. Era. semi-alfabetizado. Quando eu parei para olhar o Palácio de Metal. Entrei e foram muitas as palmas. Os intelectuais. Mães com filhinhos às costas e um xale. ali estavam. todos paradinhos. Era enorme e estava superlotado. atacara duramente o Espiritismo e ameaçou de excomunhão a quem fosse assistir a palestra espírita. Em cima era de zinco. procederei bem. e fiquei envergonhado de mim próprio. simples de discernimento. por caridade para com eles. de carruagem. me comoveu. na cidade. — O que vou dizer a eles. Olhei o público . de ônibus para ouvir a mensagem. o que será de mim? — conjecturei. hoje. de caminhão. chegamos ao local. um bar- racão de meia parede e a chuva entrava por um lado quase saindo pelo outro. Eu teria de falar para os críticos que ficaram em casa. As lágrimas me corriam pela face. inspire-me. A chuva caindo sobre o zinco fazia um barulho de estremecer. Foi um dos dias mais belos da minha vida. Ali estavam índios e mestiços guatemaltecos. de carroça. Eu afirmo que. sem eu o pedir. Não havia um assento. — Comecei a orar. como é comum na região. Se Jesus não vier. Esta seria irradiada. sem me esquecer dos necessitados ali presentes. tenha misericór- dia de nós! Se eu jamais fui inspirado. a partir de hoje. certamente. porque o senhor bispo..

Alguém disse alto: — Continue! (Mas eu me esquecera onde havia parado. porque a sala era muito comprida. Descobri que me amava pela onda de amor que senti por aquele povo.) O presidente. um ser luminescente. uma perfeição. nesta hora. Havia próximo uma indiazinha. Sobre a cabeça havia um tipo de cocar especial. Parecia um deus da mi- tologia. os olhos eram duas lâmpadas que me alcançavam. embora eu tenha a voz muito forte. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 245 novamente. estóico. vi aparecer. Levantei-me. parecendo ter dois metros de altura. mas era um deus asteca. porque a zoada externa era terrível. De repente. Eu me aproximei do microfone e. nem mesmo a chuva. e. pararam os sons e eu me sentei. para me concentrar. porque só aí há um fruto. então. quando me preparava para a pré-tarefa de terminar. que é a ave nacional (de onde se originou a moeda) que dá uma pluma que chega a ter dois metros. com imensa pureza me olhando como se eu fosse um totem. E uma ave que só existe na Guatemala e só em Coatepec. estamos esperando. Continuei a falar. falou: — Irmão. Comecei a falar. ouviu-se um estrondo. Eu fiquei sentado. Ele estava de torso nu. a falar e a pedir inti- mamente: — Meus Deus. Prossegui. mas. Caiu um raio em algum lugar. não podia continuar. que parece . à porta de entrada. lembrei- me da parte em que parara. voltou o rádio. Fechei os olhos. Deram-me a palavra. que é um tema universal. com uma ternura diferente. O silêncio era sepulcral. um som descontrolado. feito de plumas de quetzal. mas ninguém saiu do recinto. o microfone com defeito de transmissão. Eu estava falando para as minhas necessidades espirituais. não conseguiria fazer- me ouvir. pare a chuva! Falei sobre a imortalidade da alma. Vinte minutos depois voltou a luz fluorescente. em corpo espiritual como nunca havia visto antes com tanta beleza. uma compleição robusta. faltou luz.

Ele atravessou-me o corpo e. eu sou tido como o deus que criou o povo asteca. entretanto. naquela inclinada em direção ao infinito. terminando: — Para vós não é estranho o tema da imortalidade. envolveu-me por detrás e me senti flutuar. naquele imenso corredor. não tem a mesma plumagem. e no lado direito estavam dois outros paralíticos.. era tal que a minha se inun- dou de inspiração e. esqueci-me de um detalhe. Foi até o outro lado. ao voar.. Ele foi até a mulher paralítica e curvou-se. se se pode falar. com os . Ele me apare- ceu com tal adorno. Joanna. chegou-se até mim e. em muitas vozes. ele abriu os braços (necessitei de muita imaginação para entender) e por ideoplastia eu o vi numa forma ceri- monial do povo: sobre a cabeça estava uma moldura de águia. naquela grandiosidade. O macho é lindo. visivelmente paralítica. nos dois braços cresceu uma plumagem e ele. Sou teu amigo e teu irmão. Ele veio andando. e. Mas. do lado esquerdo. disse-me: — Chamam-me Huracán. eu já estava terminando o tema. eu dizia. que não conhecia. aquela melodia infinita. que balsamizava o ambiente. curvou-se e chegou a mim. Comecei a ouvir uma música no ar. estava uma mulher deitada ao solo. de re- pente. O Espírito veio vindo. a fêmea é pequenina. tomou do lodo do riacho para formar a raça asteca. Continua! A mente dele. alertou-me: — Continue falando. de que a ave se nutre. soprou-lhe a imortalidade da alma. dentro do tema da imortalidade. Venho para encerrarmos a nossa noite. mas que me chegava em clichês psíquicos transmitidos pelo Espírito. igualmente deficientes nas pernas e nos braços.246 SUELY CALDAS SCHUBERT grão de café. che- gando. como uma seta voou. Quando entrei. porque quando Huracán desceu à Terra. no palco. como se deslizasse. e comecei a contar a história do povo asteca. então. deixou um rastro de luz. triunfalmente. Uma me- lodia de ordem ritual.

Sentei-me. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 247 braços abertos. Aprende a submeter-te sem sugerir. eu disse a Joanna de Angelis: — Que pena... e a paz permanecerá neste ambiente. e res- pondeu-me: — Ela não fala espanhol.) E agora — prosseguiu ela — que a mensagem terminou. e a chuva parou.. Estas almas estão sendo alicia- das pelos fomentadores das guerras pelas terras. Eu terminei a palestra e percebi que as pessoas chora- vam. A solenidade foi encerrada. correndo. mas estão sendo envene- nadas para matar e morrer. retirasse os miasmas. um indiozinho. de André Luiz. ao referir-se ao fogo purificador para limpar a psicosfera. ficando sobre o povo uma imensa cruz dou- rada. se a chuva tivesse parado antes. pela guerra civil que ronda a Guatemala. só o asteca e o maia. essas construções pestíferas do ódio foram afastadas ou destruídas pelos raios. Então. pensei: — Meu Deus. provinda de El Salvador. Fui saindo. aproximei-me.. Elas não sabem o que é "direito de terras". — Meu filho. o Mentor da comunidade pediu aos céus que uma tempestade varresse o ar. . e quando foi anunciada a pa- lestra. fechei os olhos. Nunca suponhas que o Senhor não sabe. muito comovido. havia uma razão. Notei cair sobre a multidão flocos de luz e todos ficaram como que revestidos de um ectoplasma de lumines- cência invulgar. ela não entendeu nada. Nesse momento. em quarenta anos de me- diunidade consciente. e quando passei pela senhora paralítica. A cruz permanecia no ar como nunca vi nada igual antes. Esta região está invadida por lutas camponesas. flutuando no ar. esses vibriões mentais. que gotejava uma luz violácea ou dourada-prateada. (Eu me lembrei de Obreiros da Vida Eterna. da Nicarágua. a chuva. passei-lhe a mão na cabeça e perguntei-lhe: — A senhora gostou? Veio um rapaz. porque recalcitras? Tu achas que deves dizer a Deus o que fazer? Se choveu. de Honduras. os trovões.

248 SUELY CALDAS SCHUBERT

Vendo o meu interesse, o jovem intérprete esclareceu:
— Esta senhora é minha mãe. O senhor quer saber
alguma coisa?
— Pergunte-lhe se gostou da palestra.
Ele inquiriu-a e traduziu-me a resposta:
— Sim, ela gostou.
— Volte a perguntar-lhe — insisti — se me com-
preendeu.
Ele indagou e respondeu-me:
— Não, ela não compreendeu, ela entendeu, ela sen-
tiu; não é necessário falar quando se pode penetrar a idéia.
Admirado ante tal resposta, prossegui:
— Indague-lhe o que ela veio fazer. (Mas não esperava
a resposta). Ela falou através do intérprete:
— Eu vi o deus e ele me disse que eu trouxesse os
doentes e os aleijados para escutar o "emissário do Se-
nhor".
— O "emissário do Senhor"?
Ela me olhou, profundamente, e completou:
— O senhor tem a "voz de Deus". Eu vi chegar o deus
Huracán e senti o rociar de suas asas abençoando-nos.
Ela falou qualquer outra coisa e o filho esclareceu-me:
— Mamãe o está abençoando. Ela é quem recebe as
mensagens do nosso deus. Ele mandou que se espalhasse
pelas aldeias que o "emissário do Senhor" viria a Coatepec,
e que todo o mundo viesse escutá-lo.
Eu tomei aquela mão engelhada, olhei aquela mulher
sofrida, encostei a minha na sua cabeça e ela sorriu. Qua-
se não se podia mexer. O rapazinho então esclareceu-me:
— Nós moramos a quase trinta quilômetros daqui.
Mamãe veio amarrada num cavalo e eu vim noutro, pu-
xando-a.
Ouvindo-o, senti-me envergonhado. Fui levado pelo jo-
vem aos outros dois paralíticos e um deles falou-me:

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 249

— Nosso deus mandou dizer que se nós viéssemos fi-
caríamos curados. Estamos esperando que o senhor dê
a ordem.
Hesitei, emocionado, mas Joanna orientou-me:
— Mande-o levantar-se, meu filho.
Eu vi que não tinha a "fé que remove montanhas",
porque sendo um homem racional, naquela hora a primei-
ra coisa que pensei foi: quem sou eu? Mas, num momento
como aquele é o Cristo quem está em nós, naquela hora
não somos nós.
Joanna me deu segurança e amparo. Ficou atrás de mim
e tornou a dizer-me:
— Fale, meu filho.
Aproximei-me, e, olhando-o fixamente, disse-lhe:
— Você crê em Deus?
— Creio! — respondeu-me.
— Então, levante e ande, em nome de Deus e de Hura-
cán! Venha!
Ele foi escorregando do palco como quem ia cair. Qui-
seram segurá-lo, porém, pedi que o deixassem. Ele caiu mais
ou menos em pé e qual um pêndulo de relógio oscilou. Equi-
librou-se e deu o primeiro passo.
O silêncio em todo o salão era total. Todos permane-
ciam numa postura de dignidade, como se já soubessem o
que iria acontecer. Nenhum grito, nenhuma emoção. Fé!
A fé que nos falta. E o amor!
Ele andou, segurou o meu braço. Fomos até ali, volta-
mos até acolá.
— E eu, e eu? — indagou o outro, afobadamente.
— Venha, o Senhor está mandando-o também. Venha,
em nome de Deus!
Ele foi desentortando, como se estivesse obsidiado, pa-
decendo de uma obsessão física. Não era um paralítico or-
gânico.

250 SUELY CALDAS SCHUBERT

Recordei-me, imediatamente, de que Kardec narra, no
capítulo 23, de O Livro dos Médiuns, o caso de um obsessor
que atuava nos jarretes de um homem, fazendo-o cair de
joelhos diante de uma moça, humilhando-o terrivelmente.
Mas, ele se foi retorcendo, e do seu corpo saiu um
fluido, como um fumo, como que uma nuvem escura e ele
começou a andar.
— Deus abençoe o "emissário do Senhor" — disseram
repetidas vezes.
A minha emoção foi tão grande que eu não saberia des-
crevê-la. Vi que estava na hora de ir-me embora, porque
não podia suportar mais tão intenso estado emocional —
um sentimento intraduzível. Só sei dizer que meu coração
parecia querer arrebentar-se dentro do peito.
Chamei o presidente e amigo anfitrião, que estava a
regular distância, e pedi-lhe, quase sem voz:
— Vamos? Já que a chuva parou, vamo-nos embora.
Fomos atravessando o salão. Olhei o relógio, eram vinte
e duas e trinta. Alguém veio e me abraçou. Veio outro e fez
o mesmo. E veio outro, mais outro. Quando cheguei à porta,
após atravessar o largo recinto, faltavam quinze minutos
para a meia-noite.
Eram o amor e a visão do deus Huracán, porquanto vi-
vendo eles no contexto de uma crença totêmica, é óbvio que
a resposta espiritual se apresentaria de igual forma. Hura-
cán, seria, pois, o Mentor, o Guia Espiritual da comunida-
de, que se apresentava conforme a concepção deles: uma
águia que habita as grandes alturas, nas montanhas mais
elevadas.
A rua escoara, não havia mais água ou enxurrada.
Não pude dormir. Durante um largo tempo não conse-
gui dormir, porque o deus Huracán havia vindo e a men-
sagem do amor tornara-se realidade em Coatepec.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 251

A PREPARAÇÃO DO A M B I E N T E — A CHUVA
A aparição do deus Huracán e toda essa experiência vi-
vida por Divaldo, na cidade de Coatepec, é uma das mais
belas e comoventes passagens que já encontramos no riquís-
simo acervo de vivências que a mediunidade a serviço de
Jesus proprociona àqueles que, como o médium baiano, a
elegem como fanal de suas vidas.
* * *

Algumas horas antes da palestra começa a chover. Di-
valdo menciona a intensidade da chuva, os relâmpagos e
trovões.
Segundo os confrades que o convidaram, a chuva seria
passageira, tal como acontecia diariamente. Apenas uma
chuva tropical. Entretanto, conforme elucida Joanna de An-
gelis, posteriormente, esta era uma chuva programada para
um fim determinado.
Pelo menos um mês antes da vinda de Divaldo, os mo-
radores de toda a região haviam sido alertados para a vinda
do "emissário do Senhor". Houve uma programação de or-
dem superior para aquela população, constituída de almas
simples e humildes, que, no entanto, estavam sendo induzi-
das a participar de guerrilhas, de movimentos revolucioná-
rios. Para isso, não hesitavam, os fomentadores da guerra,
em contagiá-los com o vírus do ódio, da revolta, da violência.
Gente de índole pacífica, apegada aos costumes locais,
à terra e às tradições dos antepassados, vivia ali pelos vales
e montanhas sem preocupações de posses e conquistas.
Coatepec! Uma cidade perdida nos montes guatemalte-
cos foi assim incluída no roteiro de palestras de Divaldo
Franco.
Uma mulher desse povo generoso, paralítica, é avisada
espiritualmente que seria aquele o dia da chegada. Médium
natural, fizera-se respeitada e acatavam-lhe as orientações.
A mediunidade é parte integrante na vida de todos, na
comunidade. Encarada com naturalidade, faz-se espontânea

252 SUELY CALDAS SCHUBERT

e autêntica, como parte de comunicação entre os dois pla-
nos da vida. Para o povo dessa região, constituído de índios
e mestiços, a certeza na imortalidade da alma e na comuni-
cabilidade dos Espíritos é, portanto, decorrente de fatos
concretos, não de teorias ou de abstrações filosóficas, dis-
tantes do seu alcance.
A notícia se espalhou por todas as aldeias. Quase qua-
tro mil pessoas acorreram ao Palácio de Metal. A médium
paralítica veio amarrada ao cavalo, com a coragem da fé,
de quem sabe e conhece.
A chuva fora programada pela Espiritualidade Maior.
* * *

a
Em O Livro dos Espíritos, no capítulo IX da 2. parte,
os Espíritos da Codificação respondem a Allan Kardec so-
bre a ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza. Veja-
mos o que dizem:
538 — "Formam categoria especial no mundo espírita
os Espíritos que presidem aos fenômenos da Natureza? Se-
rão seres à parte, ou Espíritos que foram encarnados co-
mo nós?
Que foram ou que o serão.
a) Pertencem esses Espíritos às ordens superiores ou
às inferiores da hierarquia espírita?
"Isso é conforme seja mais ou menos material, mais ou
menos inteligente o papel que desempenham. Uns mandam,
outros executam. Os que executam coisas materiais são sem-
pre de ordem inferior, assim entre os Espíritos, como entre
os homens."
539 — A produção de certos fenômenos, das tempesta-
des, por exemplo, é obra de um só Espírito, ou muitos se
reúnem, formando grandes massas, para produzi-los?
"Reúnem-se em massas inumeráveis."
É pois, perfeitamente possível e admissível que a chu-
va fosse solicitada pelo Espírito Protetor da região, com o
fim de purificar a atmosfera.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 253

Ao ouvir as explicações de sua Mentora, Divaldo recor-
da-se do "fogo purificador", conforme descreve André Luiz
em Obreiros da Vida Eterna.
Nesta obra o autor desencarnado relata a sua experiên-
cia na "Casa Transitória", situada em região espiritual de
densas trevas. Eis um trecho a respeito:
"Permanecíamos em região onde a matéria obedecia a
outras leis, interpenetrada de princípios mentais extrema-
mente viciados. Congregavam-se aí longos precipícios infer-
nais e vastíssimas zonas de purgatório das almas culpadas
e arrependidas.
Na verdade, muita vez viajara entre a nossa colônia
feliz e o plano crostal do planeta, atravessando lugares se-
melhantes, mas nunca me demorara tanto em círculo desa-
gradável e escuro como esse. A ausência de vegetação, alia-
da à neblina pesada e sufocante, infundia profunda sensa-
ção de deserto e tristeza." (capítulo V I )
É nessa zona sombria que o fogo etérico, purificador,
vai atuar, em meio a trovões e relâmpagos. Recomendamos
ao leitor uma consulta ao livro mencionado.
A tempestade, no caso em pauta, teria assim, o mesmo
efeito.
O próprio Divaldo tem psicografado várias páginas, que
estão em seus livros, nas quais existem referências acerca
da poluição da psicosfera, bem como da possibilidade de
contágio. Uma dessas mensagens é assinada por João Cleó-
fas, inserida no livro Depoimentos Vivos, intitulada "Rea-
gentes Mentais". O autor refere-se à assepsia da sala mediú-
nica, que, está perfeitamente de acordo com a necessidade
de renovação da psicosfera em toda a região de Coatepec, a
fim de que os miasmas produzidos pelos disseminadores do
ódio desaparecessem, propiciando assim a chegada de Hu-
racán. Foi realizada, então, a purificação da ambiência es-
piritual para que o Palácio de Metal se transformasse em
gigantesca sala mediúnica com seis mil participantes.
Atentemos para o que assinala João Cleófas:

o seu povo. o contágio desta ou daquela natureza. ele os atende por outros meios e vias. uma visita aos seus tutelados de maneira mais direta. Para aten- der àquela região. . seja no campo da inoculação de formas vivas perniciosas à existência. muito mais marcante e que impressionaria. ( . . muitas vezes impossibilitando as realizações nobilitantes do trabalho. também. ideoplastias for- muladas por fixações negativas. . que faz supor uma edificação re- quintada. . Vibriões elaborados por mentes viciosas. consegue danificar os mais respeitáveis pro- gramas. ao término da palestra. dada a ex- travagância do nome.254 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T " ( • • • ) Utilizemo-nos dos componentes da reação moral elevada contra os invasores microbianos das regiões infe- riores da v i d a . Por certo. Observa-se. O PALACIO DE M E T A L O local não poderia ser mais surpreendente. deus e Mentor. constituem fantasmas per- turbadores que invadem a esfera do serviço. das pessoas. indelevelmente. desde que não nos encontremos devidamente forra- dos para investir nesse campo árduo. o Espírito Huracán. a vigilância dos Mentores Espirituais das nações. ) Em qualquer ambiente em que se procedem a tais experiências vitais. . das cidades." A explanação feita por Joanna de Angelis. é ainda uma lição primorosa para todos os que se habituaram a reclamar contra os fenômenos da Natureza. estabelece. defendê-la da contaminação do ódio e da violência. seja da exteriorização deletéria de pensamen- tos destrutivos. com base na programação de Divaldo. corpos estra- nhos produzidos por Entidades perversas. mas a palestra ofereceria o am- biente ideal para que se realizasse o fenômeno mediúnico. fomentando as pro- duções relevantes. o zelo.

Era muito mais que um simples e habitual auditório. habituado a transmitir emoções. enfrentando a tempestade. O Palá- cio de Metal mergulha na escuridão. interrompe a energia elétrica. não se amo- lenta. Há no ar uma sensação diferente. que lhe era pedido alguma coisa mais. Estão de pé. Ele sente que as pessoas presentes aguardam algo. eleva o pensamento a Jesus e roga inspiração. o imenso auditório. Pode-se imaginar a azáfama das Entidades Espirituais coletando o ectoplasma. sem poder preci- sar o que. através da palavra e da sua própria figura carismática. Não há cadeiras. mas pela especial vibração que capta no ambiente. o enorme pavilhão de zinco transforma-se em imensa câmara mediúnica. as dificuldades de transpor- te e de acomodações. Chove dentro e fora do recinto. Ninguém se mexe. O Palácio de Metal não tem nenhum conforto. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 255 A multidão atende ao chamado e vem de todas as for- mas. mentalmente: "Se Jesus não vier o que será de mim?" O orador baiano inicia a palestra. a mente está alerta e todos estão expectantes. em vigilância. o médium sente. No escuro. Algum tempo se passa quando um trovão mais forte. Observemos que ele diz. que Divaldo sente ao chegar ao palco e contemplar. seguido de um raio. Interessante analisarmos essa postura do público. Uma emoção profunda o invade. a desper- tá-las. Todos estão de pé. de frente. O corpo não se acomoda. recolhendo energia mental dos en- . Fala sobre a imorta- lidade da alma. As pessoas não se inquietam. conquistada através dos próprios hábitos indígenas. todavia. No momento. enquanto a chuva continua a cair. Não pelo núme- ro de pessoas (ele já falou para platéias maiores). Há completo si- lêncio. mas o público se mantém numa disciplina incomparável. Acostumado a todo tipo de público. como seria de se prever e como aconteceria com outro auditório qualquer. pela primeira vez. principalmente.

posteriormente. inspira-lhe a palavra." Ao mesmo tempo. Inun- da-se interiormente de um amor imenso por aquele povo simples que o ouvia. um ser lumi- nescente. A CHEGADA DE HURACÁN A descrição que Divaldo faz de Huracán dá-nos uma idéia da sua beleza e espiritualidade. Ele estava de torso nu. identifica-se. inunda-se de cli- chês psíquicos. Miranda. e.* Vale a pena transcrevermos um trecho. a partir daquele instante. triunfalmente. ouviu-se uma melodia no ar. A mente do médium. escreveu em Reformador. " ( . (Nota da Autora) . • • ) eu vi aparecer. aproximando-se de Divaldo.256 SUELY CALDAS SCHUBERT carnados e utilizando Divaldo como médium dos fenôme- nos que viriam a seguir. enquan- to a Entidade. mas era um deus asteca. * * * Hermínio C. parecendo ter dois metros de altura. os olhos eram duas lâmpadas que me alcança- vam. Ele veio andando. e extravasa este sentimento em vibra- ções e palavras. estóico. de idéias que vão sendo transmitidas para o auditório. uma com- pleição robusta. em corpo espiritual como eu nunca havia visto antes com tanta beleza. inserido no livro Sobrevivên- cia e Comunicabilidade dos Espíritos — Edição FEB. o consagrado escritor espírita. o autor demons- tra as etapas do processo da comunicação mediúnica. Quando a luz se acende. em sintonia com a de Huracán. "A decomposição do processo revela o seguinte: em todo sistema de comunicação — mediúnica ou não — o com- ( * ) Este artigo foi. na qual. de março de 1971. já não fala da mesma forma anterior. excelente arti- go intitulado "Técnica da Comunicação Espírita". É neste estado que o vê chegar. uma perfeição. o orador retoma a palavra. como se deslizasse. Mas está diferente. Parecia um deus da mitologia. à porta de entrada.

em imagens ou impressões fugidias que passam pelo nosso consciente como "flashes" velozes que precisamos agarrar às pressas para que não se percam. já convertida num dos meios usuais empregados para torná-la comum. é preciso decidir quanto à forma. ( . ou seja. O primeiro trabalho é. . à cor. que é a interpretação por parte daquele que a recebe. para comunicá-la. ao ser transformada em sinais ou símbolos de idéias que surgem no plano do nosso entendi- mento como representações das próprias idéias. sensações e impressões em um sistema de códigos. assim. Isso porque. É evidente. que a mensagem não é recebida na sua forma original. sinais ou imagens sensoriais que sejam comuns a uma gran- de quantidade de gente. Se o pensamento deve ser expresso em palavras há que fazer a escolha da língua. ) Com isto chegamos ao terceiro componente do proces- so de comunicação. então. ) O segundo componente do sistema é a expressão formal do pensamento. àquele que recebe a mensagem. se for em imagens. portanto. ainda não podemos transmitir o nosso pensamento na sua forma original. É que. descodificá-la para reconvertê-la à forma original e ser. É evidente que a clareza da comunicação dependerá fortemente da maior ou menor lu- cidez que existir na concepção da idéia original. nós não pensamos em palavras. terá de traduzi-la de alguma forma. o de converter pensamentos. segundo o processo que tiver à sua disposição. pois. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 257 ponente inicial é a idéia. . com a dispensa dos símbolos criados para comunicá-lo. Cabe. ao tama- nho e ao processo de divulgação. absorvida como pensamento puro. Aquele que deseja transmitir uma idéia. e sim. . na fase atual da nossa evolução espiritual. concebida na mente daquele que deseja transmiti-la a alguém. ( . Isso quer dizer que ela passou por um processo de codificação. idéias. tal como foi concebida na mente daquele que a enviou. Alcançamos o quarto componente do processo de co- municação quando a reação do recipiendario ao conteúdo da mensagem recebida é enviada de volta à fonte de onde . . e sim.

A mensagem intitula-se "O amor e a alma" e está inserida no livro Seara do Bem. Joanna de Angelis. em imagens — coloridas ou não. Quanto mais evoluído for o Espírito comunicante. evidenciando uma freqüência vibratória de on- das curtíssimas. provocando. Se o Espírito tem um padrão espiritual muito elevado. mais velozes serão as imagens concebidas e exteriorizadas pela sua mente. É oportuno observarmos que a maior parte das lendas e das tradições que integram o folclore de cada povo. assim. Huracán inunda- lhe a mente de clichês psíquicos. André Luiz afirma. tão ao gosto da técnica moderna. eventual reação. ou seja. na cidade de Lisieux (França). ( . da sua boa predisposição psíquica e moral. em Mecanismos da Me- diunidade. há necessidade de uma intermediação do Guia Espiritual do médium. a história da raça asteca. Nessas quatro etapas descritas por ele. quando da comu- nicação de Teresa de Jesus. transmitiu-o ao médium. traz um componente espiritual muito forte e verdadeiro. fixas ou móveis. vestido. de acordo com o processo descrito por Hermínio Miranda. O Espírito desen- carnado deseja transmitir a idéia de que a clareza da men- sagem depende da pureza daquele que a recebe. ." * * * O artigo de Hermínio Miranda prossegue com outras elucidações e recomendamos a sua leitura. transmitindo-lhe. De muitas ma- neiras se poderia vestir essa imagem. por sua vez. . que as legiões angélicas se exprimem em "raios super-ultra-curtos''. encontramos a mecânica do pro- cesso utilizado nas comunicações mediúnicas. captando-lhe o pensamento.258 SUELY CALDAS SCHUBERT proveio ("feedback"). transmiti-la em pala- vras — prosa e verso. Isso aconteceu com Divaldo. e até em sons ou em combinações audio- visuais. Ao entrar em sintonia com Divaldo. . ) Imaginemos o mecanismo em ação.

o que explica não ser generalizada a visibilidade dos Espíritos. pelas formas e cores com que a imaginação popular o adorna. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 259 naturalmente. Assim. Ao se retirar. Huracán é o deus do povo e tem a forma de uma gran- de águia. flutuante. referindo-se à aparição dos Espíri- tos. outros envoltos em amplas roupagens. como uma ave. tampouco. porquanto a modificação do peris- pírito se opera mediante sua combinação com o fluido pe- culiar ao médium." Todas essas transformações. dourada. Mas. ou essas asas são apenas uma aparência simbólica? Os Espíritos não têm asas. Abre os braços que se cobrem de uma pluma- gem. não basta a sua vontade. uma luz vio- lácea. Assim é que uns aparecerão em trajes comuns. questão 12. como atributo da categoria espiritual a que pertencem. passa através do corpo do médium e se posta no início do extenso corredor. alguns com asas. não basta que o Espírito queira mostrar- se. é . Ainda no capítulo men- cionado. Aparecem da maneira por que precisam impressionar a pessoa a quem se mostram. que obedece ao comando mental. Ora. visto que podem ir a toda parte como Espíritos. que uma pessoa queira vê-lo. o Codificador. é que pôs o seu peris- pírito no estado próprio a torná-lo visível. como pingos. deixando um rastro de luz e. são possíveis em razão das propriedades do perispírito. Na cabeça traz a moldura da águia e surge em toda a beleza do ritual do povo asteca. Allan Kardec indaga: "Os Espíritos que aparecem com asas têm-nas realmen- te. capítulo V I . uma imensa cruz lumi- nosa. nem de tal coisa precisam. sobre o público. esta combinação nem sempre é pos- sível. e alça vôo como uma seta. esclarece: "Quando o Espírito nos aparece. na aparência dos Espíri- tos. da qual escorria. não basta. * * * Em O Livro dos Médiuns. para isso.

isto sim. * * * O deus asteca deixa no ar. atende aos anseios daqueles que estão sob a sua tutela. Em primeiro lugar. uma cruz luminosa. o ca- minho da libertação. que a emissão do fluido da pessoa seja suficientemente abundante para operar a transformação do perispírito e. A cruz. somam-se a este primeiro e maior deles. o Justo. trazê-lO à nossa lembrança. uma evoca- ção de sofrimentos. a cruz é um símbolo uni- versal. Huracán é um dos Benfeitores Espirituais dos povos. conforme Suas próprias palavras. Quando se quer evidenciar a Sua presen- ça. Na Espiritualidade Maior. é imprescindível "tomar a cruz so- bre os ombros e segui-lO". a cruz significa a presença de Cristo junto dos homens. Carregar a cruz é redimir-se. assim também os homens encontrarão nela a redenção final. sobre a multidão. revestindo-se com a forma carac- terística da águia sagrada a fim de ser identificado por eles. Os elementos de força desse símbolo não encontram equivalência em nenhum outro. de grilhões que escravizam o ser huma- no. . é o símbolo mais utilizado. provavelmente. porven- tura. Espírito de alta envergadura. ao mesmo tempo que evoca os erros humanos. todavia. A cruz. não é. pairando sobre as pessoas. Assim como Ele. que en- tre eles haja uma espécie de afinidade e também. Outros significados. é uma mensagem de esperança. A cruz. de penitências que o martirizem. pois. onde não existem quaisquer barreiras do sectarismo religioso. Para ir até Ele. que se verifiquem ainda outras condições que desconhecemos. porém. alçou-se aos céus pelas traves da cruz. agora.260 SUELY CALDAS SCHUBERT necessário que os dois fluidos possam combinar-se. traz uma mensagem de redenção." A caridade e abnegação com que a Espiritualidade Maior atende aos seres humanos é difícil de ser dimensio- nada.

pela psicografia de Divaldo. a Verdade e a Vida. intitulada "Cruz e Cristo". O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 261 Jesus não permaneceu na cruz. embora os homens O queiram crucificar de todas as maneiras e atá-10 ao madeiro de sofrimentos que. e absolutamente seguros de que o deus Huracán os visitaria. que ecoara pelos vales e montanhas da região. deus criador da raça aste- ca. verdadeiramente. carregando os filhos. transmite uma mensagem de amor e paz. na verdade. significava uma proteção direta a toda a gente. a imensa corrente mediúnica a envolver Divaldo. O circuito mediúnico está fechado. O conjunto vibratório dessas pessoas é. num momento especial. Divaldo vive uma experiência extraordinária. Apenas uma certeza tranqüila e natural do amparo divino. usando o símbolo da cruz. Uma fé natural. afirma: "0 Cristo e a Cruz do amor são os termos sempre atuais da equação da vida verdadeira. Nenhuma conotação de fanatismo. em bela mensagem incluída no livro Terapêutica de Emergên- cia. portanto. O público respirava fé. Por isso. e o ambiente propício às ." Huracán. Estavam todos absolutamente certos de que Huracán viria — tal como fora anunciado pela médium paralítica — através do "emissário do Senhor". Bezerra de Menezes. uma civilização pré-colombiana. Espírito Superior. inabaláveis na certeza. nada que signi- ficasse um estado emocional de histeria coletiva animava aquelas pessoas. do intercâmbio com os invisíveis e da pro- teção de Huracán. acorreram em massa. vencendo distâncias e dificuldades. foram engendrados por nós e são apenas nossos. completo. como a sig- nificar que somente Jesus é. o Caminho. espontânea e simples. Sabiam que o aviso da sua chegada. AS CURAS Numa noite especial. desde cedo. sem os quais o homem não logrará a Liberdade.

foi a partir dela que tudo se tornou possível. sob o comando dessa energia poderosa que o invade e plenifica interior- mente. grande parte dessa carga vibratória. penetrando os nervos. Ele vacila sobre as próprias pernas. a medula. Joanna o assessora e participa do processo. os tecidos. Em Coatepec tudo estava delineado. os membros. impelindo-a. Cada componente destacado na nar- rativa teve importante desempenho. Há um perfeito desencadear dessas forças e dos sentimentos de cada um. desempena-se. mas. balança-se como um pêndulo e consegue enfim equilibrar-se. esticando o corpo. É o sinete da sua presença para todo o povo. Dá os primeiros passos e está curado. . a reger o concerto das emo- ções e dos sentimentos. conforme entendimentos prévios com o Espírito Mentor. tonifica. que Joanna entra em contato com os Mentores Espirituais dos países que são visitados e que as programações são fei- tas a partir dos acordos efetuados. O primeiro recebe a ordem e a atende. Joanna de Angelis está ali. A cura é a mensagem de Huracán. Os dois paralíticos estão expectantes. é vida. Divaldo teve ensejo de esclarecer. à feição de um lubrificante desenrijece. sob a ação fluídica que. conhecido na região pelo nome de Huracán. em algumas ocasiões. que está sendo executada em acordes grandiosos. aos poucos. Aglutinam-se os elementos magnéticos e a essa força Divaldo dá a ordem de comando direcionando-a. fora canalizada para os enfermos. Levanta-se. as células. Todo o episodio é como uma majestosa e sublime sin- fonia. nutre.262 SUELY CALDAS SCHUBERT atividades que o Plano Superior programara e que se de- senvolvem num crescendo de emoções transcendentes. os ossos. irriga-os com uma vitalidade nova que. portanto. e. No instante das curas dos dois paralíticos. Adredemente pre- parados sabem que algo diferente irá acontecer. A corrente de amor é luz.

A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. capítulo 23. seja ho- mem ou Espírito. condensado no perispírito. o Codificador infor- ma. o Espírito. capítulo X I V . mas. apareceram muitos exemplos notáveis. No entanto. depende também da energia da vontade que. em O Livro dos Médiuns. encarnado ou desencar- nado. todavia. o que se segue é que elas não se operam fora da Natureza e que só são miraculosas na aparência. pois. a de curar instantaneamente. surgiram indivíduos que a possuíam em grau eminente. pode fornecer princípios reparadores ao corpo. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura. na razão direta da pureza da substância inoculada. item 240: . * * * Vejamos como Allan Kardec esclarece a respeito das curas. é o agente propulsor que infiltra num corpo deterio- rado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. O poder curativo estará. os quais são s i m p l e s transformações dele. pela imposição das mãos. itens 31 a 34: "Como se há visto." (grifos no original) "É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio de exercício. quanto maior for. Uma vez que as curas desse gênero assentam num princípio natural e que o poder de operá-las não cons- titui privilégio." Em relação à subjugação corporal. esse fluido. conforme explica Divaldo. Tra- ta-se de uma subjugação corporal. o fluido universal é o elemento pri- mitivo do corpo carnal e do perispírito. tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tan- to maior força de penetração dará ao fluido. em épocas diversas e no seio de quase todos os povos. mas. Nestes últimos tempos. em A Gênese. essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional. Pela identidade da sua natureza. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 263 O segundo enfermo. cuja autenticidade não sofre contestação. é um caso diferente.

que não era jovem. Outras vezes. A primeira não implica na perda da lucidez intelec- tual. não obstante a resistência que lhe opunha. cuja contri- buição no campo das obsessões tem sido notável. Neste caso. por uma necessidade incessante de escrever. por uma força irresistível. porquanto tinha consciência plena do ridículo do que fazia contra a sua vontade e com isso sofria horrivelmente. psíquica e simul- taneamente físio-psíquica. a respeito da subjugação. A subjugação pode ser moral ou corporal. mesmo nas ruas. porquanto a ação dá-se diretamente sobre os centros motores. onde quer que se encontrassem. nas paredes. estamos." O Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Conhecemos um homem. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo. ainda nos momentos menos oportunos.264 SUELY CALDAS SCHUBERT "A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. que o forçava. o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. Esse homem passava por louco entre as pessoas de suas relações. obrigando o indivíduo. a pôr-se de joelhos diante de uma moça a cujo respeito nenhuma pretensão nutria e pedi-la em casamento. ( . a ceder à violência que o oprime. conven- cidos de que absolutamente não o era. nas por- tas. à falta de pena ou lápis. sentia nas costas e nos jarretes uma pressão enérgica. a se ajoelhar e beijar o chão dos lugares públicos e em presença da multidão. se via constrangido. mais longe a subjugação corporal: pode levar aos mais ridículos atos. porém. o seguinte: "Assim. às vezes. sob o império de uma obses- são dessa natureza. ) No se- gundo caso. não obstante se negue à obediência. na parte inicial do livro. Vai. simulavam escrever com o dedo. através do próprio Divaldo. Vimos alguns que. intitulada "Análise das obsessões". por se criarem . nem belo e que. . podem irromper enfermidades orgânicas. Traduz-se. escreve em Nas Fronteiras da Loucura. a subjugação pode ser física. . no médium escrevente.

o grande pavilhão de zinco é um feé- rico palácio. André Luiz afirma: "O Espírito. em toda a parte. incidindo em distúrbio no metabolismo geral. As bênçãos recaem a flux sobre o Palacio de Metal. com singulares prejuízos físicos. pode ser comparado a um dínamo complexo. todo o seu cosmo psicossomático atua como um dínamo. em que se verifica a transubstanciação do trabalho psicofísico em for- ças mento-eletromagnéticas. conservadores e regeneradores de energia. No livro Mecanismos da Mediunidade. indu- tor. imaginemo-lo como sendo um dínamo gerador. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 265 condições celulares próprias para a contaminação por vírus e bactérias. . encarnado ou desencarnado. "temos igualmente variados mananciais de força mediúnica. de fontes de força eletromotriz." Mais adiante. Como médium dessa carga vibratória de altíssima freqüência. ao mesmo tempo. na essência. Espiritualmente. o autor compara o gerador mediúnico ao gerador elétrico. na pequena Coatepec." * * * As curas são realizadas. esclarecendo ainda. mediante a permuta harmoniosa. cons- . . a propriedade de agentes emissores e recepto- res. engalanado de luzes e irradiando claridade para toda a região. As emoções são superlativas e deixam Divaldo em um estado diferente. com capa- cidade de assimilar correntes contínuas de força e exteriori- zá-las simultaneamente. no laboratório das células em que circulam e se harmonizam. ou mesmo sob a vigorosa e contínua ação fluí- dica dilacerarem-se os tecidos fisiológicos ou perturbar-se o anabolismo como o catabolismo. neste mesmo capítulo. para que isto se dê. forças essas que guardam consigo. assim como dispomos. ele irá direcioná-la. Para que nos façamos mais simplesmente compreen- didos. mas. transformador e coletor. que.

266 SUELY CALDAS SCHUBERT ciente ou inconsciente. tal como prometeu Jesus. junto ao povo humilde. . o ensejo sublime de crescerem espiritualmente. em nosso caminho. num local insólito. igual a todos os outros no calendário terres- tre. de serem. pequena e simples. Numa cidadezinha do planeta. "deuses". Divaldo vivência a experiência que Jesus promete àqueles que O amam e O seguem. de serem a "luz do mundo". que pro- porciona aos seres humanos. afinal. num dia qualquer." Todo este comovente episódio leva-nos a reflexionar a respeito da infinita bondade de nosso Pai do Céu. de tornarem- se o "sal da Terra". sendo possível observá-los. dos princípios ou correntes mentais. alimentando grandes iniciativas de socorro às necessidades humanas e de expansão cultural.

no próximo. simples que eram. Um espírita. . e outra pode estar pedindo esmolas e ser or- gulhosa. pessoas comuns. mas havia muita gente que me ajudava. conforme acreditamos. porque. sem ter os meios. pobres que eram. Não é a postura externa. nós teríamos de viver à semelhança dos cristãos. o que me empolgava era ver os ricos se tornarem simples. Isso me chocava muito. E então eu no- tava que muitos companheiros se tornavam espíritas e... realmente. nos moldes do cristão primitivo. se o Espiritismo é a revivescência do Cristianismo. Eu apenas auxiliava banhando os internos. ficavam com "status" de ricos. Eu via os companheiros fazendo palestras (sem censurá-los) e saindo dali eram homens do mundo. porque uma pessoa pode estar coberta de jóias e ser simples. . Mas. . faziam "estação de águas". Não é que se deva deixar as nossas roupas e andar maltrapilhos. os poderosos se tornarem amigos. o lar de crianças. e não a de alguém a que estamos be- neficiando. ficavam presunçosos. 32 A CASA DE JESUS Algumas considerações sobre ser cristão e ser espírita. àquele tempo. a figura do irmão. Nós já adquiríramos a "Mansão do Caminho". como até hoje o faço. tiravam seus largos períodos de férias. Quando meditava sobre o Cristianismo primitivo. em que se veja. é que o Cristianismo tem de ser uma re- volução interna. agradáveis.

eu sempre desejei ser útil. mesmo que eu queira ir à favela. Viajei a São Paulo para uma série de palestras. que seria ideal um trabalho de tal natureza. sequer? Foi quando sonhei em fazer uma obra que fosse um desafio para minha juventude. e os fundadores ficarem de longe. o meu marido nunca o permitiria. da sociedade. en- quanto estão discutindo. "a caridade chega atrasada". conversando com Chico Xavier. falou: — Senhor Divaldo. Não pensei em uma obra para outros trabalharem e. Sou uma mulher muito rica. a maternidade. a escola. O Dr. fazer construções e plantas e mil coisas e. para eu próprio trabalhar. Então. pensei: — Meu Deus! Todo mundo só pensa em fazer obra para quem vai viver. Assim. O senhor tem vontade de fazer isto e não tem . e mesmo que eu queira visitar os pobres. Bezerra o que ele acha desta idéia. Porque é muito cômodo construir uma obra para os outros se esforçarem. os pobres estão morrendo. — e para quem vai morrer? Se nós cremos que a vida continua. vamos começar atendendo o pobre no fogão de tijolo. para minha surpresa. nem a Santa Casa de Misericórdia. Estava numa reunião quando contei esta minha idéia. um dia. mas não dispunha dos meios para concretizá-la. Um dia. propus-lhe: — Pergunte ao Dr. Isto me provocava uma grande dor e dizia-me a mim mesmo: estão morrendo! Por que os hospitais não possuem lugar para acolhê-los. então. Du- rante o tempo em que se está planejando. a creche etc. porque as pessoas pensam muito em obras. imaginei uma casa para se morrer.268 SUELY CALDAS SCHUBERT Então. Eu passava de ônibus ou de bonde e via as pessoas dor- mindo embaixo das marquises. criando um problema doméstico. até o dia em que possa ter o elétrico. sim. temos de preparar a pessoa para a vida que irá enfrentar. Uma senhora pre- sente sensibilizou-se com o projeto e. Bezerra informou-nos. o hospital.

dávamos os plantões noturnos. — Aqui está. com alguns amigos. mas asseado. Coloquei à porta uma tabuleta com o nome: CASA DE JESUS. uma saleta e uma cozinha que é um "cochicho" (uma palavra baiana). Ele teve tantas crises de epilepsia que ficou deformado. Vejam as bênçãos da Divindade. Eu fazia os curativos engulhando e até vomitando. fui à região da invasão e encontrei uma tapera. o pobre não pode cuspir à vontade. dentro da lama do mar. como epiléptico. Isto me dava uma repugnância de estômago — pela falta de hábito. e não posso fazê-lo. Chamava-se André. preencheu um cheque e mo entregou. dentro da lama. na crise. Num lugar muito arrumadinho. Saímos e fomos recolher os que dormiam em baixo das marquises. Quanto será necessário para adqui- rir uma casa como a que necessita? Eu havia imaginado uma casa dentro do mangue. Eu e Nilson o lavávamos. que era um nada. Recolhemos um epiléptico. Cheguei a Salvador. Respondi-lhe: — Vinte mil cruzeiros. . às vezes. (Vamos dizer que esta quantia corresponda hoje a Cz$ 200. da invasão. Porque eu queria um lugar onde se pudesse levar uma pessoa em quase decomposição. . Tinha uma ferida na cabeça que não cicatrizava. Agora o problema é com o senhor. Tinha dois quartos. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 269 o dinheiro. Eu era uma pessoa sensível.00) Ela abriu a caderneta. Então vou dar-lhe os recursos para que o senhor concretize este trabalho. sofria de artritismo e reumatismo e consolidou várias juntas — não dobrava o corpo. perdia o controle dos esfíncteres. Vivia em constantes crises con- vulsivas. ele. Depois. Colocamos até creolina para que os bichos saíssem. Nós. Eu tenho o dinheiro e a vontade.000. E deveria ficar sempre aberta. Uma ruína de taipa (feita com varas e barro). Nasci num lar modesto.

Fui até o chofer e perguntei-lhe por quanto a levaria até a casa. Em seguida veio uma senhora que eu encontrei na rua. O chofer me olhou e respondeu: . pensei: Meu Deus! Como é que esta criatura vai pegar o bonde. pu- lando. senhor! Ela havia saído do hospital de isolamento e ia para um bairro muito pobre.270 SUELY CALDAS SCHUBERT Apareceu-nos uma senhora. pas- savam o dia. veio um outro doente. os homens. a saltar. Vou convidar umas amigas que freqüentam o "Caminho da Redenção". Depois. à guisa de apoio. com tanta dificuldade. — O que é? — indagou-me. tomar conta da casa. peguei-lhe o braço. Havia um rapazinho moreno ao seu lado. que era psicopata e ti- vera um derrame cerebral. Dona Antônia Vilas-Boas. coloquei-o em meu ombro. — A senhora quer ajuda? — indaguei-lhe. — É para levar aquela senhora ali. Eu nunca havia usado um táxi. Ele falou uma quantia que eu não tinha e eu lhe disse. A casa ficava aberta vinte e quatro horas. muito longe. Eu a vi atravessando a Praça Municipal. depois de sair do hospital neste estado? Olhei ao redor e vi um táxi. Ela me propôs: — Durante as horas em que vocês estiverem trabalhan- do. teria de tomar o bonde. Foi a cena mais comovedora da minha vida. encontrei-a agora — esclareci. — Quero. duas ou três senhoras. Esta mulher teve varíola e a amputação de uma perna. Fui até ela. enquanto nós. pobres como nós. sim. — O que ela é sua? — Nada. em silêncio. eu passo aqui para cozinhar. segurándose a um pau. com câncer. porque não podia. passávamos a noite. Assim. Observando-a.

mas o máximo que lhe posso dar é uma cama "patente". pois as lombrigas saíam . Eu tenho a "Casa de Jesus". olhando de longe a cena. Quando chegou no ponto em que os buracos impediam a sua passagem. Eu chamei o táxi. para não contaminar meus filhos. Foi a primeira mulher. eu estou na rua. mas. para onde vou levá-la? Então lhe expliquei: — Se a senhora não tem para onde ir. dizendo: — Você dá a sua parte e o resto fica por minha conta. Levei-a até uma "avenida" de casas — um beco de ca- sas. Não tenho para onde ir. Ele recebeu-o. uma viela. pensando: e agora. assistindo a tudo em silêncio. Morreu asfixiada. Sabem de que? Vitimada por lombrigas. Eu a coloquei no carro com o rapazinho e fomos até aonde o carro pôde ir. Foi a morte mais terrível que eu já vi. o chofer estava parado. um colchão de palha. Era uma mulher que me pareceu fina pela forma que falava. Eram os únicos bens daquela criatura. Eu fiquei apavorado. A mulher começou a chorar. Ela me apontou uma casinha humilde e quando chegamos a frente. porque eu também não posso? Quanto é que você tem? Eu tomei do que tinha e lhe entreguei. ela morreu asfixiada. Estávamos conversando. O rapaz ao lado. Aí começou a vomitar. eu tenho onde levá-la. — Meu filho. peguei-a pelas axilas. Eu a colocara no chão e fiquei parado. A "filha" pegou uma mala e jogou-a na rua. le- vantei-a. Esta criatura veio a morrer nos meus braços. Só havia homens internados. Aquela que a expulsava de casa era uma filha de criação e o rapaz era o marido dela. uma moça veio à janela e falou: — Aqui você não entra. ela começou a tossir e expeliu uma lombriga. Carreguei-a de volta ao carro e levei-a para a "Casa de Jesus". O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 271 — Se você pode fazer a caridade. descemos e eu a car- reguei. a comida e nada mais.

pois o dinheiro não dava para que fôsse- mos comer em outro lugar. me disse: — Pegue ali a minha mala e abra-a. possivelmente. eu não pude fazer nada. e terminou os seus dias terrenos numa situação dessas. o Nilson também. um dia. Teria sido salva. entre os quais o confrade Augusto Soares. Quando terminou. tínhamos a casa de meus pais. Eu tinha um salário. na TChecoslováquia. Eu a abri. nós vivíamos ali. os colchõezinhos espalhados. tirou o pesado casaco de peles para dar-lhe. o Dr.272 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T pelo nariz. pois ele estava sofrendo o frio da noite de Moscou. elas saíram e encontraram um homem. Tínhamos dezesseis doentes. porque a vida é muito incerta. tomando todo o espaço disponível. Havia sido esposa de um Embaixador. ela morreu. na miséria com os miseráveis. dávamos tudo o que recebíamos já que pedíamos a outrem — porquanto fica muito fácil fazer a caridade pedindo aos outros. impediu-lhe o gesto. Dentro havia um álbum de fotografias. da sociedade de Moscou. Duas damas (disse ele). Por incrível que pareça. Assistiram a uma peça. A outra. explicando: . foram ao Teatro Bolshoi. comendo a mesma comida. uma ópera. porém.. que retratava a história de um rei cristão que termina louco. Bezerra me apareceu e contou uma história muito bonita. Eu estava pensando: o que vamos fazer? Nessa hora. As duas ricas damas. comovida. eu me encontrava muito sofrido. à porta. co- moveram-se e todo o teatro também.. por todos os orifícios naturais. Tive Um choque tremendo. se nós soubéssemos. vendo aquela cena choraram. Em momentos. Esta mulher antes de morrer. esta mulher tinha sido Embaixatriz do Brasil no Egito. mas. Uma delas. Uma noite. onde morávamos. no passado. Havia alguns poucos amigos que participavam deste trabalho. pedindo esmo- la. a gente só entra com o sor- riso e a simpatia — por isso. com um purgante de óleo. no Uruguai. Vivíamos ali. muito ricas.

Vamos fazer como sugeriu. Aloísio. depois discute-se o que se fará. tomaram chá com biscoitos. Morrera congelado pela madrugada. as águas subiram e derru- baram a casa. O SEMEADOR DE ESTRELAS 273 — Não faça isto! Quando chegarmos a casa mandare- mos cobertores. quando cheguei para a reunião. Vestiu o casaco novamente. Aloísio estava na crise de nervos. ele não vai va- lorizá-lo. Naturalmente me veio uma reação. Bezerra concluiu: Enquanto se discute a caridade. num acesso de raiva. André ficava totalmente imobilizado e fazíamos tudo para atendê-lo. mas. porque a maré tombou a casinha e o terreno sumiu.. Não fiques triste. Numa maré do mês de agosto. você tem razão. deitaram-se e es- queceram o necessitado. O Dr. Quando este chegou ao local o homem estava morto. eu pensei. hemiplégico. Seu casaco é muito caro. dizendo ao homem: — Daqui a pouco eu lhe mandarei cobertores e agasalhos. está melhor? Em meio à crise. . e confia. ele pegou o uri- nol e derramou-o na minha cabeça. Ao chegarem. A caridade tem de ser o socorro do momento. A "Casinha de Jesus" me ensinou a trabalhar.. Entraram na carruagem e foram para o palácio. perguntei-lhe: — Como vai. o prédio possuía vários quartos e aí os alojamos. assim mesmo. a dar banho em doentes. Durante três anos mantivemos a casa. ele é um doente mental. Lá no 'Ca- minho da Redenção". também era carregado. o sofredor morre ao abandono. rapidamente. Ela deteve o gesto bom e concluiu: — De fato. que é muito forte. Prossegue. O outro. Pela manhã. a atender diretamente os enfermos. aproximando-me dele. Um dia. chamava-se Aloísio. Tiramos os doentes. a dama generosa lem- brou-se do mendigo e chamando um lacaio recomendou-lhe que levasse os cobertores.

eu reflito que. Depois. a Verinha. as tias já estão ficando idosas. quando idosa. Hoje. é só chegar e mandar fazer o necessário. pois eu já adquiri o hábito de tratar dos doentes. .274 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive de ir limpar-me e trocar de roupa. Levamos Aloísio e o colocamos numa casinha. Eu comecei. paralíticos. eu quero que você vá visitar os pobres da invasão. é colocada em asilo. Porque é muito fácil amar a pessoa bonitinha. Uma coisa comovedora ocorreu. nós nos preparamos para esse Cristianismo de ação. sendo difícil amar o aleijado. Certo dia. passamos a ir. Oito anos atrás uma delas teve um derrame cerebral. loucos. na Irmã Dulce. a tomar conta dela. o doente. enquanto viverem. Mas. de hansenianos. Assim. doentes. . porém. funcionários. mas. de cegos. . a Caravana "Auta de Souza". . Para mim. se elas ajudaram a criar as nossas crianças. quando se iniciou a "Colônia da Fraternidade". levávamos sacos de queimados (balas) e distribuíamos. no bairro do Pau da Lima. já não podíamos cuidar deles em outro local. Ele morreu em nossos braços. Quase sempre. cuidar de crianças é muito gratificante por- que nos agrada muito. Nós temos uma enfermeira. nós temos cento e setenta famílias. pois penso que não me seriam recusados. Ê muito cômodo! Lá. Auta de Souza me falou: — Meu filho. Acompanhamo-los até a hora da morte e fazemos o enterro: a primeira coisa que as velhinhas pedem. Pregar é muito fácil. mas eu tenho de dar o exem- plo. famílias irrecuperáveis. eu creio conseguir as vagas possíveis. eu fico ajudando a tia Marieta. Assim. Agora. o feio. Uma das meninas que ela criou. também. enro- ladas em lençol. este é o Cristianismo que me faz bem. agora é a hora de tomarmos conta delas. no asilo de velhos. aquela que colaborou. me informou: — Tio Divaldo. . que já está com dezoito anos. é que não sejam jogadas na vala. pelo menos um caixãozinho.

A maternidade é cercada de preocupações e zelos. nos buracos do Pau da Lima. nas noites de quinta-feira. porque aí não há ninguém para competir conosco. senão. ne- cessariamente. porque ele atendia na peregrinação com aquele povo todo. os piores. eu vou lá. Quando é que eu vou fazer a minha caridade pessoal?! Que não tem de ser. sozinho. de noite. a mim. porque com os demais a gente recebe a gratificação. quem faz a caridade são eles e não eu. Está desaparecendo tudo isto. nessa convivência agradável que estamos tendo. os ingratos. os feridos. porque. numa experiência que fará muito bem a nós mesmos. para que ninguém vá comigo. para falar mal. me fascina. Se eu for com a turma toda é uma beleza. com dinheiro. de madrugada. depois. O exemplo de Chico Xavier a vida inteira é digno de aplauso. tudo é feito para que o ser que reveste da indumentária carnal . esse ângulo do Cristianismo. mas. não é isto) para a ação da caridade vivida. as pessoas generosas dão e eu aplico isto para os que necessitam. os mais graves. mas é uma festa! E eu estaria exibindo os meus necessita- dos. tenha visitas em casa ou não. ele visitava so- zinho. escondido até do pessoal da "Mansão". os obsidiados. Fazemos os Natais todos. porque o espírita está ficando muito intelectualizado. muita gente me vê. O SEMEADOR DE ESTRELAS 275 Temos de convidar os companheiros (não é que todo mundo vá dar banho em pobre. mas esta é a caridade daquelas pessoas. Um lugar para as pessoas morrerem! Tem-se um lugar para nas. Como eu faço as minhas visitas. eu saio com os meus pacotes para ir aos meus doentes — se é que posso chamá-los assim. mas não me conhece. mas. Isto. não há ninguém para ter inveja. escondido. porque nin- guém quer ir lá. Por isso. Devemos lidar com os loucos. à lama. E quando é que eu vou fazer a caridade? Se eu peço. Portanto.

a Humanidade ainda sofre profundamente as seqüe- las de seu próprio estágio evolutivo. dilapidando os bens terrenos. Morreu. Não obstante todos esses direitos serem reconhecidos. Tem-se um lugar para viver. do seu cunho espiritual. Entretanto. porquanto o homem continua sendo o "lobo do homem". a fim de proporcionar ao homem um retorno mais equilibrado à Pátria verdadeira. dos quais é herdeiro. Há uma luta social muito intensa. Um lugar para morrer. Os rituais severamente cumpridos e preservados visavam a propiciar ao morto um feliz ingresso nas paragens espi- rituais. Mesmo assim. reduzindo-o a um simples automatismo fisiológico.276 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T possa ingressar na vida terrena sob os melhores cuidados médicos e hospitalares. à educação e instrução. de um melhor cuidado. os esforços. Os Direitos Humanos reconhecem e proclamam o di- reito à vida. a morte era cercada de solenidades. é óbvio. a morte deveria ser cercada de maiores pre- parativos. apenas um depósito de pacientes termi- . infelizmente. Quase todas as civilizações antigas mantinham os ritos da morte. A civilização ocidental. para que o homem melhore a sua qualidade de vida. no conceito de Divaldo Franco. incluindo. Para morrer não há necessidade de um local especial. Um lugar para morrer! Poder-se-ia dizer: morre-se em qualquer lugar. também. a tendência geral são para que ele sobreviva tendo os seus mínimos direitos respeitados. vai traçando o mapa das suas dores futuras. acabou! Todavia. em todo o mundo. No Egito Antigo. à moradia. não seria. des- pojou o momento solene do desprendimento carnal de sua gravidade. o zelo com os que estavam para abandonar o corpo físico. entregando-se a toda sorte de loucuras e. aos poucos. nem sempre o ser humano logra atingi-los.

Uma casa para morrer. ainda assim. onde. . Divaldo fala de suas experiências mais intensas no campo do amor ao próximo. com o único fito de não os deixar ao relento. timidamente. o leito humilde era forrado do mais puro sentimento de amor. Muito mais que isto. Um local que fosse a fronteira entre os dois mundos. E o faz agora. a pequenina "Casa de Jesus" se revestia de luz e se tornava suntuosa. exemplificou e viveu tudo quanto pregou. ao longo desses quatro decênios. Três anos onde se exercitou na prática do amor. Ele fala de "seus" doentes. de "seus" as- sistidos. Exercício de amor que mantém em secreto. Ele narra a sua vida. quando amadurecido espiritualmente. todo o tempo. Durante três anos ele viveu a idéia e o ideal. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 277 nais. e tanto lhe era significativo esse local que o chamou de "Casa de Jesus. De viver o Cristianis- mo puro. da presença ale- gre dos amigos. bem mais confortáveis que a calçada fria das ruas. sabe que. o pórtico de libertação para os aflitos e desesperançados. sob as marquises. a pobreza das instalações eram. o teto era o céu estrelado e a casinha flutuava em meio às luzes. aos poucos. Três anos onde colheu. No instante das preces e após as breves preleções e conversas. algumas das mais belas e dolorosas lições da vida. Entretanto. deixa entrever essas experiências." A simplicidade do ambiente. de seguir as "pegadas do Nazareno". pensou o jovem Divaldo. engalanando-se de flores e recebendo a visita dos Benfei- tores da Vida Maior. Os cômodos se ampliavam. * * * Divaldo fala de vivência espírita. afastado dos olhos do mundo. ao lado de Nilson e outros amigos.

é o viandante que percorre as trilhas da loucura. do cansaço. os vícios. muita vez. o desamor. de amor e de paz que realiza. desajeitadamente. do não ser. . entre sedas. Onde está a Humanidade? Dorme ao relento sob as marquises. a violência. profusamente. debate-se em convulsões na agonia do não ter. a face da dor. para que elas cintilem. em total doação. ou habita o luxuoso edifício. atravessa as es- tradas do mundo equilibrando-se. pois ele próprio se consome. onde oculta. Semear estrelas nos corações humanos! Deixar um ras- tro de estrelas para a Humanidade. no exercício do amor.278 SUELY CALDAS SCHUBERT Na sementeira de luz e de esperança. entre o bem e o mal e tem. está paralisada no leito da ignorância. é o homem à procura de si mesmo! A "Casa de Jesus" é o pórtico do mundo e simboliza o pólo convergente de todas as buscas humanas. todos os dias. nós sabemos que tais sementes deixam um rastro de estrelas.

O plano espiritual prevê uma abrangência muito mais ampla da semeadura. a obra defini- tiva. não apenas de uma tarefa localizada. con- solidar as atividades — para isso surgem o Centro Espírita "Caminho da Redenção" e. reflete um momento es- pecial. avi- sos. posteriormente. Durante quinze anos o programa se consolida. é necessário reali- zar o árduo ministério da semeadura além-fronteiras dessas mesmas bases. um momento histórico na vida de Divaldo Franco — vida que é por si mesma parte da história da Doutrina Es- pírita no Brasil e no mundo. muito jovem. 33 AS DUAS MENSAGENS O que se vai ler. A Espiritualidade Maior é pródiga em orientações. mensagens. de âmbito na- cional. Todavia. formar equipes. a "Mansão do Caminho". até mesmo. arregimentar os trabalhadores. Trata-se. É o início da década de 50. está identificando e iniciando a sua programação espiritual. Primeiro é preciso estruturar e estabelecer as bases do labor. em seguida. centrada em uma determinada região ou. Divaldo. . É importante atentarmos para a amplitude desse pro- grama da Espiritualidade Maior.

em clima de lutas. . É por essa época que Divaldo recebe as duas mais ex- pressivas mensagens que o Mundo Maior envia. E das chegam às suas mãos pelos canais mediúnicos de Chico Xavier e Pietro Ubaldi. Essas mensagens levam a assinatura de Francisco de Assis. O labor se realiza entre risonhas perspectivas. da abundância. enirc sorrisos e promessas. mas pleno de esperanças benfazejas.280 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T É o período da fartura. sim.

pois. Imprescindivel caminhar agindo na sementeira subli- me do futuro. o poder em nossas mãos apaixonadas . como abençoado programa de cada dia. Não te iludas. é aquela que nos marca por almas ociosas e enfermiças. agora. . não nos cabe a desis- tência. Nem as revelações do fim. Ontem. Estamos a pleno caminho da redenção. Nem nos enganemos. Ontem. . visíveis e invisíveis do pretérito. por vazia e inútil. é o nosso lema. quando fugimos à luta. quanto a frutos imediatos do trabalho reajustador. Perseverança no bem. Seria irrisão. Deus te abençoe. sobre o repouso. Nem os receios do início. 34 FRANCISCO. valíamo-nos da inteligência para oprimir e per- turbar. A única renúncia destrutiva. Defrontados por imensa assembléia de adversários. Trabalho por todos os lados. CHICO E DIVALDO - A PRIMEIRA MENSAGEM Meu filho.

depois de quatro séculos de civilização bahiana e brasileira. espalhando o temor e muitas vezes o sofrimen- to. que se transformaram em legítimas assembléias de socorro espiritual. seremos surpreendidos pelas vibrações das nossas próprias obras. ligada ao nosso coração e à nossa mente. na obra da caridade sem fronteiras e sem limites. senão por prêmio a suor e à dedicação. sempre mais. . O tem- po. ago- ra. valorizamos os recursos intelectuais. e. roga- ríamos ao conjunto mais esforço e mais agilidade na la- voura do cristianismo aplicado. de frater- nidade e de amor. Todos os nossos centros de ação prosseguem ativos e bem inspirados na direção do bem. filho meu. mas não ignoramos. Continuemos. de novo. Façamos de nossa parte. em nome dAquele que é o Amor mesmo. buscamos o poder de servir e auxiliar.282 SUELY CALDAS SCHUBERT e rudes. sob a sua custódia a fim de nos desdobrarmos com o seu concurso. Se uma nova dire- triz nos fosse facultado trazer aos companheiros. nos guarda. . transbordando luz no sa- crifício pela Humanidade inteira. na atualidade. Temos compromissos Não nos congregamos aí agora pela primeira vez. Em cada trecho da estrada. Não desfaleças. Hoje. Não nos acha- mos reunidos. sejam efetivamente marcos redentores. compassivo agente da Infinita Bondade. Esperamos que todos os irmãos se mantenham a postos. contudo. em ação intensiva na tarefa do es- clarecimento e da caridade. Há centenas de trabalhadores invisíveis em função de auxílio constante ao "Caminho" e à "Carava- na". por acaso. para que os dias para nós. que a colheita não vem ao nosso campo. Toda a expressão de amparo aos nossos semelhan- tes é de nosso apostolado. É preciso que a esponja do trabalho incessante funcione em nossas mãos. de esclarecimento benéfico. . que o tempo guardou. Avançar em execução dos Divinos Propósitos é nosso dever.

"— Francisco. abraça-te com muito carinho o velho com- panheiro." Reiteradas vezes ela se repete e o "poverello". o abrigo. minha casa ameaça ruína. a assistência aos sofredores. Francisco (Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier. Que outros discutam à frente do Cristo. Neste propósito e formulando votos para que nos unamos cada vez mais. reconstrói a minha casa. n o dia 3 de outubro de 1950. Mas que o serviço ao pró- ximo com Jesus por norma sublime. reconstrói a casa de pedra. a casa de traba- lho. e repara-a. que outros permaneçam no país do entretenimento co- lhendo flores passageiras para a curiosidade leviana ou insatisfeita. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 283 A escola. A minha Igreja!" . em Pedro Leopoldo. seja o nosso motivo de cada hora. o templo da fé. através de dois médiuns diferentes. Cada qual se sintoniza com as situações a que confia o próprio coração. na an- gústia da busca.) Aos vinte e três anos. o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho são faces do nosso ministério que não pode- mos esquecer. Há sete séculos atrás. na obra cristã que o Espiritismo nos descerra. Francisco Bernardone ouve uma voz a conclamá-lo: "— Francisco. Divaldo recebe a primeira das duas mais definitivas provas que a Espiritualidade Maior lhe endereçou. pois. com res- peito à sua missão terrena. Vai.

Morre-se de lepra e de contaminação por césio. O andarilho de hoje chama-se André. ou outro elemento radioativo. Vai ao encontro de Francisco e lhe estende a mão. Tem a pele em chagas purulentas — é a face da miséria e do sofrimento humano. 0 homem segue. . Ou levam às periferias onde os barracos se apertam para existir.284 SUELY CALDAS SCHUBERT Atender ao pedido é a meta de Francisco. vacilante. "— Francisco. As estradas da Ümbria estão em toda a parte. Quão longe ainda estamos da Igreja do Cristo! A voz de Francisco atravessa o tempo e ecoa em plena era nuclear. na estrada poeirenta. O edifício de luxo ou o barraco de taipa podem abrigar a mesma miséria moral. ao peso da dor. reconstrói a minha Igreja!" Francisco desperta! Corre ao encalço do viandante le- proso. Os andarilhos nem sempre estão rotos e mal-cheirosos. abraça-o e o beija — e encontra a Igreja do Cristo! Francisco aponta a Divaldo o mesmo caminho. porém. Alcança-o. Onde. A caridade da esmola é feita. Pode estar sob a marquise tentando um lugar para morrer. asfal- tadas e repletas. ou que nome tenha. Francisco descobre. a Casa? Onde a Igreja a ser reconstruída? Na claridade do dia. Aloísio. E no pequeno trajeto que tem de transpor para chegar até ao homem ele percorre todos os caminhos do ser humano ao encontro da Verdade. Um homem caminha. embora distanciados pelo nível social.

a casa de trabalho. a assistência aos sofredores. desenvolve esforços para des- pertar o homem. propiciar-lhes recursos para que não mais se deixem contaminar pelos elementos negativos. "Toda a expressão de amparo aos nossos semelhantes é de nosso apostolado" — escreve Francisco. o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho. entre as casas da . Divaldo começa a construção. todavia. É ter o amor que liberta da escravidão moral e trans- miti-lo no engrandecimento do ser humano. Francisco. sobretudo. ressurge intemporal. o templo da fé. Tenta-se preservar os Direitos Humanos. É esclare- cer. o templo da fé. mais que fornecer-lhe a esmola da caridade. É acordar o homem para as realida- des superiores da vida. a escola. Os gabinetes psiquiátricos e os estudiosos do assunto pesquisam a melhor forma de manter a sanidade mental do homem. são faces do nosso ministério que não podemos esquecer. de Assis. enquanto a obsessão grassa em larga escala. através de Chico. indimensional. o abrigo. enterrada na lama. e as crianças. além de amparar." O abrigo. A "Casa de Jesus". aos milhões. para as modernas megalópoles ou para as províncias anônimas. E prossegue: "A escola. são empurradas para a margina- lidade. A Igreja do Cristo ameaça ruína! Construí-la é muito mais do que levantar abrigos para os viandantes dos vícios. des- conhecida da maioria. É. a casa de trabalho. derrubada pela maré. um por um foram sendo construídos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 285 Cura-se a hanseníase e surgem as chagas da contami- nação radioativa. o aborto é encarado como prática normal e saneadora.

pois cada página expres- sa um marco de tempo. a ponto de atrasar o término do livro. depois. Dir-se-ia que toda a vida de D i v a l d o está aí registrada. delicadamente. que Divaldo nos entregou uma volumosa pasta. Foi em Salvador. de todas as formas possíveis. o Hospital. Divaldo nada quis contar a respeito. ficamos meditando em como teria sido a reunião mediúnica em que Francisco se comunica através de Chico e. da Era do Espírito. Emocionada. como investigadora. — Preciso saber como foi — dizia-lhe — para "entrar no clima" e fazer os comentários à altura. Por dois anos consecutivos tentamos obter dele as informações sobre as duas comunicações. . desde a Pedro Leopoldo das primeiras horas. o Templo. — Aí estão — disse-me — as mensagens que me foram endereçadas. o Abrigo. Suely.. É Amor. É o local para morrer. São muitas e muitas mensagens. grafadas c o m a letra inconfundível de nosso tão querido Chico Xavier. Ê a casa de Jesus. especialmente. esquivou-se. A Igreja do Cristo são o Lar. de Ubaldi. durante vários anos. através da psicografia de Chico Xavier. A Igreja do Cristo é o ser humano. a Escola. começamos a viajar no tempo. — Qualquer dia desses. pelo menos tentar. É onde "morre" o homem velho e "nasce" o homem novo. Adiava e prometia mais para frente. na "Mansão". quando gravava um de seus depoimentos para esta obra.. Pessoalmente.286 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T "Mansão do Caminho". Quando nos encontrar- mos com mais calma — respondia-me. a Ofi- cina. Enfim. Transcende ao espaço físico para se tornar uma forma de ser e de viver. isto é. estudiosa e prati- cante insipiente da Mediunidade.

Não é um som estranho. eu agradeço-lhe por estar lendo isto! Foi. é Francisco mesmo! Que beleza de men- sagem! Que emoção devem ter vivido. Sei que ele permite. portanto.. que sejam divulgadas por in- sistência nossa e argumentos de que não mais é possível mantê-las fechadas em pastas e gavetas. os mais diversos. Divaldo. Por certo não é uma voz desconhecida. hoje. como também poucas pessoas têm conhe- cimento da existência dessas páginas. Chico e D i v a l d o . precisa ser colocada bem alto para que a sua luz se projete à distância. Ubaldi e Divaldo se reencontram e se reconhecem. Também Chico Xavier e Pietro Ubaldi a reconhecem. É difícil descrever a nossa felicidade e emoção enquan- to líamos as belas palavras que o médium mineiro captou. . jovem. Foi assim que descobrimos a mensagem de Francisco. . Ao nosso lado.. É uma voz amiga. pensamentos. quase meni- no. Divaldo explicava o significado de cada uma delas e descrevia o momento feliz do seu recebimento pelas mãos abençoadas de Chico. Francisco. uma surpresa maravilhosa! Nada sabía- mos a respeito. O SEMEADOR DE ESTRELAS 287 Durante um período muito feliz elas chegaram e esti- mularam o jovem destinatário à concretização de seus com- promissos e ideais. Francisco. Num átimo. Há quase quarenta anos. Pode-se imaginar quanto e quando?. A candeia não deve permanecer oculta. Chico. Ela vem lhe falar através da psico- grafia. . e se fazem instrumentos da mensagem para aquele que chegando e inicia o seu testemunho terreno. Há quanto tempo?. nos acorreram: — Meu Deus. que ele já ouvira antes. que significa isto? Jesus. ouve a "sua voz".

como tu fazes. Ama o próximo. como jamais de algum outro modo se pode fazer. Se o mundo só compreendesse esta grande lei: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". ajuda quem sofre. felizes eles. com- preenderia também que tudo significa beneficiar a si pró- prio. Continua a tua obra santa. Então. 35 FRANCISCO. sabendo tudo e com tudo melhor lutarás e vencerás. Semeia o bem e o bem voltará a ti. porque eles oferecem por amor e no amor tudo se transforma em alegria. UBALDI E DIVALDO - A SEGUNDA MENSAGEM Ao Divaldo O meu instrumento está cansado. e a grande cidade na qual ele se encontra está cheia de vibrações contrá- rias a que minha voz desça até vós. a bênção de Deus está sobre ti. . Sabe lutar e sabe sofrer melhor. mais que todos os felizes. mas te basta. Esta é a palavra à inteligência daqueles que cal- culam por interesse. Mais felizes aqueles que fazem o bem por amor. Por isso minha pala- vra é breve. Coragem! Eu amo a todos quantos lutam pelo bem.

Vai. desce à terra o Reino de Deus. Sabe que Deus está contigo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 289 Assim. para o amigo Divaldo Pereira Franco. isto é. Sê tu um dos escolhidos para esta grande transfor- mação do mundo. poder de armas ou de dinheiro. o paraíso.) 4 de outubro de 1953 Pietro Ubaldi (Tradução do Prof. José Passini) . continua e não temas. recebida em São Paulo. (Mensagem da "Sua Voz". como está com todos os bons e isto vale mais do que qualquer riqueza. Sobre ti está o olhar do teu amigo Francisco. Será contigo a paz eterna que só Deus pode dar.

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E essa palavra. Esse fato encerra. arregimentando os primeiros companheiros de equipe. D i v a l d o aí está. O programa espiritual está em curso e é muito vasto e abrangente. Ela tem. que está iniciando o seu testemunho terreno. E o faz.292 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco de Assis volta a ditar outra mensagem ende- reçada a Divaldo. Reencontro? Certamente que sim. para que ficassem indelevel- mente marcadas. pela psicografia de Pietro Ubaldi. Divaldo estaria definindo a sua jornada terrestre. por essa época. um significado tão ex- pressivo que nos escapa ao entendimento. Nilson está presen- te desde as primeiras horas. Todos chegam a seu tempo e trazem compromissos bem traçados e precisos. Sabem os Numes Tutelares que. Joanna de Angelis supervisiona e inspira. convocado que foi para o im- prescindível trabalho de apoio e sustentação. diante de Ubaldi. O primeiro já o fizera. como sucede com Chico Xavier. A maturidade. A palavra de "Sua V o z " . dessa segunda vez. Um jovem de vinte e seis anos — que recebe da mais Alta Espiritualidade o estímulo e a confirmação de sua missão terrena. estabelecendo as bases de todo o seu labor. todavia. em Divaldo. seria preciso que ela chegasse novamente. a vi- vência mediúnica de Ubaldi frente à juventude e aparente inexperiência do médium baiano. três anos após a primeira. por intermédio de "Sua V o z " . o porta-voz de todo esse pro- . três anos antes. trazendo o apoio de Francisco. deve chegar a Divaldo. a nosso ver. Era o dia 4 de outubro de 1953. fiel representante de Francisco junto aos pupilos em aprendizado e testemu- nhos. devem chegar nos anos dourados da juventude física. como a corroborar não a esplên- dida captação de Chico Xavier. essa presença. mas o fato da presença de Francisco na vida de Divaldo. recrutando-os ao longo do caminho. Naquele momento dois médiuns estavam aptos a captá-la.

a Verdade! "— Cavaleiro de Cristo. Jesus o chama para o apostolado do Amor. Metas que Divaldo alcançou e vivencia nesses seus quarenta anos de mediunato." O que representa isso para um moço de vinte e seis anos? * * * O jovem filho de Pedro Bernardone. Realizar o bem por amor. erguer a Sua Igreja. O reencontro de almas. "— Cavaleiro de Cristo. é um marco de luz para o jovem médium. apresentando-se pulcro e digno para o ministério. Amor ao semelhante. restaurando-a na sua primitiva pureza. inspira-o a fim de que o ideal se transforme em realidade de bênçãos. ante a aproximação daquele que se apresenta como amigo de um tempo imensurável. ouve as "vozes dos céus". a luz. desnudar-se interior- mente diante do Divino Amigo. . Por certo que as lembranças do passado emergem no seu psiquismo. tens medo?" Ele ouve a interpelação e busca entender o programa do Senhor para a sua vida terrena. como tu fazes" — afirma a mensagem de Francisco. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 293 grama e. enquanto se pre- para para exercer a sua excelsa missão. tens medo?" As vozes questionam e infundem ánimo. Francisco. ao mesmo tempo. Amor ao Ideal Maior — que é Jesus. mostrar aos homens o caminho. "Felizes aqueles que fazem o bem por amor. O encontro com Pietro Ubaldi é breve. Ter o ideal do Amor por fanal. Trinta e cinco anos atrás ele recebe a palavra de "Sua V o z " que lhe diz: "Sobre ti está o olhar do teu amigo. Despojar-se dos bens materiais. com desvelo e firmeza. no entanto. Amor ao próprio Bem.

porém a certeza do caminho a seguir. que tem os seus alicerces no Amor e. "— Cavaleiro de Cristo. "— Cavaleiro de Cristo. Sete séculos depois ele fala aos homens. está sendo erigida com a argamassa das lágrimas. para nós. do suor e da dor — os materiais de construção que a Humanidade escolheu para atender ao chamado daquele que. . seres humanos. transcendente. toda a cora- gem da fé. então. . a Ver- dade e a Vida" nos levará até ao Pai. tens m e d o ? " . Por certo Di- valdo a ouve e a identifica. Eis o desafio que ele aceita e vence. no futuro que se delineia. .294 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco está pronto. A Igreja intemporal. sendo o "Caminho. Não há medo em seu coração. A sua voz ecoa nas estradas humanas. Guarda na alma a coragem da fé e isso o fará arrostar todos os obstáculos. É esta coragem de "Cavaleiro de Cristo" que um dia o leva às estradas do mundo para no- vamente empreender a construção da Sua Igreja. Demonstra. ele também não se amedronta. tens medo?" Não.

. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores.. Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! Espinheiros.. em nos ferindo nos socorre! Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. filho. cada dia.. as dores que carregas Para consolo das alheias dores.. AUTA DE SOUZA (Soneto psicografado por Chico Xavier. 36 PÁGINA A DIVALDO Bendize. Pesares... Lutas cegas. que.. em 13 de outubro de 1953) .... Exaltando a aflição que te ilumina. Ambições.. Amargores. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —. em Pedro Leo- poldo. Ansiedades.. Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre..

Utilizam-se. então. Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! . enquanto havia tempo e possibilidade de rea- lizarem o intento. o grão cheio na espiga". enquanto se prepara para os testemunhos que virão. para o lado daquele que o orienta e em quem vê e sente o amigo que- rido.. depois a espiga e. Tudo vem a seu tempo. da antena de luz de Chico Xavier. Tinham pres- sa de fazê-lo. as dores que carregas Para consolo das alheias dores. os anos 50 foram marcantes na vida de Divaldo Franco. de apoio e orien- tação.. embora ele tenha ciência disso. Realmente. Foram anos de bênçãos e de alegrias santificantes. por último. Na época certa. As "vozes dos céus" se fazem ouvir e pronunciam as mais belas e doces palavras de estímulo. que lhe irão propiciar os "grãos cheios na espiga". E o "bom combate" o encon- tra. o fruto sazonado. Divaldo. Auta de Souza vem e escreve versos de luz: Bendize. já em Pedro Leopoldo. é presenteado com um belíssimo soneto de Auta de Souza. mais adiante. fortalecido na fé e revestido da "cou- raça da caridade". "Primeiro a erva. desejam que tenha a comprovação através de outro medianeiro. O jovem baiano acorre. filho. alerta Jesus. com freqüência. Esses Amigos e Benfeitores da Vida Maior estão a seu lado e.296 SUELY CALDAS SCHUBERT Nove dias após receber das mãos de Pietro Ubaldi a mensagem de "Sua V o z " afirmando-lhe o apoio de Fran- cisco.

. Prossegue Auta: Exaltando a aflição que te ilumina. É impressionante a forma como a poetisa enfoca o trabalho de amor a que ele se entrega. na sua missão de pregar o "Eterno Amor de todos os Amores"... Ambições. O res- quício do passado.. e no qual prosseguirá pela vida a f o r a . os compromissos que assumimos en- quanto no trânsito da marginalidade das Divinas Leis. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores. que. que estão ao nosso lado.... É o nosso 'campo de sombras" pessoal.. Lutas cegas. . Trilhar esse caminho é tarefa sacrificial e heróica. na idade terrena. mas o "campo de som- bras" já está sendo percorrido por Divaldo.. Conviver com os sofrimentos humanos. são os vícios e degradações que campeiam por toda parte. É cedo ainda. estender o esclarecimento aos que ignoram. em nos ferindo nos socorre! . . falar do amor e doá-lo aos que estão famintos de afeto — semear estrelas na escuri- dão da noite! Este o "caminho de luz" que o jovem mé- dium está abrindo entre as sombras do campo terrestre. Poucos se aventuram a fazê-lo. O "campo de sombras" é o nosso mundo. Ansiedades. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —.. as enfermidades do corpo e da alma. acender a luz da esperança onde jazem os desiludidos. na tentativa de minorá-los. Entretanto.. as dores. . mostrar a rota àqueles que a perderam. São as mi- sérias morais e sociais que nos envolvem.. quem se dedica a consolar as dores alheias também carrega as próprias dores. Amargores. íntimo. Pesares. São as injustiças.. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 297 Espinheiros. despertar a fé dos que negam até a si mesmos.

E esse é um ministério de renúncias e sacrifícios íntimos. pois. no caso de Divaldo. desiludidos. A cruz é a cátedra divina. a dedi- cação plena e em tempo integral. no dizer de Huberto Rohden e que bem expressa a transcendência desse símbolo. uma escolha pessoal. A Cruz — cátedra divina. Não é o instrumento de suplício. malchei- rosos. porém se projeta no espaço. Essa a "cruz cósmica". sem a mais leve queixa. nem de leve. de que a imensa maioria. portanto. Não é. a disciplina austera. mas de total redenção. o baru- lho do mundo. representa a sua opção pes- soal de vida. Está presa ao Gólgota das misérias humanas. à horizontalidade dos homens. Mas. alguém — da mesma faixa — prefere atender os que estão maltrapilhos. de tal forma que ele não se permite a mínima variação — já não digo nem uma fuga — ao padrão que estabelece para sua conduta comportamental. A cruz é a lição viva do Amor que redime e liberta. A sua missão é perfeitamente traçada e mar- cante: ele elege para si a vivência do bem junto dos que sofrem. Expressa ainda a ação contínua. do perdão e do Amor. na vertical sublime da redenção humana. A cruz. Através dela Jesus leciona a sublime lição da renúncia. Sendo. as festas. cada dia. todas as dificul- dades que daí advêm são superadas por um sentimento mais profundo e maior: o do amor. Enquanto a juventude escolhe o estudo.298 SUELY CALDAS SCHUBERT Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. tudo isto é vivido com profunda alegria. Necessário entender bem o que Auta de Souza quer dizer com este verso. Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre. perseverante. o madeiro da agonia infamante. . as aventuras e emoções. se apercebe.

. pertinentes às pró- prias lutas terrenas no plano horizontal — a "cruz telúrica" — e recebidos. des- sa vivência crística são. entenda-se bem. enfrentados e superados com a compreensão de quem elegeu esse caminho e o perlustra na experiência permanente de uma profunda verticalidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 299 Os sofrimentos que resultam desse labor apostolar.

serenidade. davam-me a impressão de que este perfil era em alto-relevo. eu tive a sensação de que as nuvens. . 37 JESUS . Foi no ano de 1957. um enorme perfil de Jesus. à margem. (Mais tarde. com um lago próximo. onde a Natureza se fazia mais bela e o céu mais azul. mas. eu me dei conta de que Nilson estava pró- ximo e lhe disse: — Nilson. formando. Eu estava na temporada anual de palestras do Rio. Ele olhou para o céu. quando estive na Palestina. venha ver. numa noite. frondosa. Tudo em volta era silêncio. Aí. sua irmã. reconheci o local e verifiquei ser o Mar da Galileia. e de que Lena. já não mais aí estava. As nuvens muito brancas.AS TRÊS QUESTÕES Eu me recordo de um fato que aconteceu na casa de Celeste Mota. Emocionado.) Uma figueira enorme. venha ver Jesus. cujas águas brilhavam como se estivessem salpicadas de estrelas. contra o fundo azul do céu. tive um desdobramento que me causou um grande impacto. nesse lugar. Eu me senti sair do corpo e via-me numa paisagem verdejante. no mês de junho. paz. pro- jetava alguns de seus galhos sobre as águas. e que me marcou muito. é testemunha. bucólico e encantador. de súbito. para minha grande surpresa. quando olhei também. que ainda está en- carnada. se movimentaram de forma diferente. quando.

e eu te darei a plenitude da paz • . — Então perdoa todo mal que te façam.) E Ele me perguntou por terceira vez: — Tu me amas? — Sim. mentalmente. que se usou muito em saco de aniagem. vi o vulto diluir-se dian- te dos meus olhos. estava Ele. emo- cionado. Eu me lembro da sua roupa de tarja marrom escuro. de for- ma que eu O via de lado. banhado em lágrimas. de cor marrom. (Mas ninguém nunca me fez mal — pensei. automaticamente. de reis e de certas autoridades. Então. esquece todo o mal que te fizeram.) Ele voltou a perguntar: — Tu me amas? — Sim. enquanto chorava profundamente. digamos. eu Te amo — respondi. Tu sabes que eu Te amo. Senhor. — Então perdoa todo o mal que te fizerem. Tu sabes que eu Te amo. a custo. Ele virou o rosto e fez um perfil em ângulo reto sobre o ombro direito.) Nesse instante ouvi uma voz indefinível. ou. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 301 E assim. tive a impres- são que era uma música. pairando a um metro no ar.. Estático. Eu achei que a única postura compatível era aquela — de submissão e de entrega. Ele perguntou-me: — Tu me amas? — Sim. envolvido pela emoção incontida. eu não me lembro de males que me estejam fa- zendo — disse. (O conceito que eu tenho do Cristo fez- me voltar ao atavismo da Igreja. os cabelos caídos sobre os ombros. um som que não sei precisar. como se fosse um tecido de calhamaço. — Se tu me amas. de tal jeito que. Os homens se ajoelham diante de homens. (Mas. o porte majestoso. oh! Senhor. seu olhar me fitando. a menos de cinco metros de onde me encon- trava. como . a uma atitude de respeito. de costas. eu me prosternei.

Em certos casos. Eu tenho a certeza de que foi um fenômeno ideoplástico. Amélia Rodrigues assim se ex- pressa: "O maior amor que o mundo conheceu. Mas nem todos atenderam ao Seu convite. foi necessário o trabalho laborioso dos séculos. O exemplo mais fecundo que jamais existiu. Mas. Celeste me disse: — Olha. que os Bons Espíritos usa- ram. de retê-10." (Pri- mícias do Reino) Várias personagens do Evangelho tiveram o seu encon- tro com Jesus. nenhuma dor nunca me abateu. tu irás sofrer muito. todavia. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração. Para outros. abso- luta. Ê óbvio que eu não tenho a ingenuidade de supor que se tratava de Jesus. Pela tua dedicação. Era madrugada. . à dignidade. Referindo-se a Jesus. à verdade. a vida me ensinou que isto é o prenúncio de muitas dores. ao amor. de muitas dificuldades. Amá-lO é começar a vivê-10. Quando acordei. Nem de longe. o encontro definitivo não ocorreu logo. Não pude dormir mais. Em alguns operou-se uma transformação radical. estava em pé. porque vive até hoje. Foram palavras proféticas. para me dar aquela impressão impactante e inesque- cível. A vida de Jesus é o permanente apelo à mansidão. graças a Deus.302 SUELY CALDAS SCHUBERT se a minha vida se estivesse esvaindo na ânsia de segui-10. na sala. pelo teu espírito de serviço à causa do Bem e da mediunidade. instantânea ou gradual. Pela manhã contei a Celeste e a Lena. meu filho.

particular. . também aconteceu. o príncipe de qualidade. contudo. Por Ele renuncia a uma vivência pessoal. um programa espiritual que recebe a atenção de Francisco de Assis. que. em sua atual reencarnação. não foi o suficiente para vencer-lhe as últimas resistências da vida material. pode-se sentir o quanto o encontro com Jesus repercute no íntimo do jovem. constrói a sua vida. O jovem príncipe. no tempo de antes. tal a sua magnitude. Analisando a narrativa de Amélia Rodrigues a respeito dessa personagem do Evangelho.. registra o sen- timento do Mestre em relação ao moço rico: "E Jesus o amou. absoluta." É-nos difícil imaginar o quanto isto significa. Tem um compromisso. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração. O SEMEADOR DE ESTRELAS 303 Dois exemplos muito significativos são o do mancebo rico e o de Públio Lêntulus. as mar- cas significativas desse encontro." Em certo momento a descoberta se realizou — plena. intensa e feliz! * * * Divaldo Franco traz. A história deste é por demais conhecida através dos belos romances Há Dois Mil Anos e Cinqüenta Anos Depois. nas corridas. Como teria sido. em sua narrativa. faz a sua dramática opção. quase nada se disse até agora. então. Todavia. psicografados por Francisco Cân- dido Xavier.. O evangelista Marcos. E vai ao encontro da morte. o seu encontro definitivo com o Rabi? Quando? Onde? "Amá-10 é começar a vivê-10. daí a uma semana. para ele. Desse encontro e desse amor a Jesus. Do moço rico.

nos dias futuros. Francisco vela e observa-lhe os passos. O cenário é aquele em que Jesus atuava.304 SUELY CALDAS SCHUBERT Por certo ninguém lhe conhece as renúncias. assim. reveste-se. a figura do Mestre. Sabem os Instrutores Espirituais que muitos e doloro- sos testemunhos lhe serão pedidos. no começo da caminhada. nesse desfile de invulgar beleza. Divaldo recebe da Espiritualidade Superior recursos em profusão para le- vá-la a bom termo. uma demonstração ainda mais forte e expressiva. de quem persegue denodadamente um ideal su- blimado. a solidão de quem avança e se afasta da craveira comum. por motivos óbvios. Bem jovem. Assim preparam para o jovem baiano um acontecimen- to muito especial. no capítulo 11. Algo que marque definitivamente o seu com- promisso com Jesus. Divaldo menciona que ao terminar de psicografar o Primícias do Reino. nesse conturbado planeta Terra. a figueira enorme. os silêncios íntimos para que fale mais alto a missão de servir. . Eviden- cia-lhe a autenticidade. à margem. É preciso. que agora analisamos. a angústia/inquie- tude. enfim. O mar da Ga- lileia. O desdobramento de Divaldo para que possa ver as ce- nas fluídicas plasmadas pelos Benfeitores Espirituais e que representam o seu encontro com Jesus. todavia. embora permaneça de mãos estendidas para os que tentam acompanhar-lhe os passos decididos ou para os que ainda não sabem o caminho. de um caráter muito singular. E esse fato vem a ser corroborante deste. exceto Jesus. Amélia Ro- drigues o leva em desdobramento para um recanto da pró- pria " M a n s ã o " e aí plasma. as lágri- mas ocultas. fluidicamente. a presença de todas as personagens que o integram. O céu atrai-lhe a atenção. C o m - preende-se que ela não coloque aí. Neste livro. as madrugadas insones quando "conversa com uma estrela".

Repete. Ao chamar Nilson para que observe o fato. O jovem ajoelha-se — única atitude que lhe parece pró- pria ante Ele. amas-me? — Sim. Tu sabes que Te amo. eis que Jesus já não está mais no espaço azul. ou seja. evidenciando distintamente a gran- diosidade da cena vivida por Divaldo. Suely. por certo. amas-me mais do que a estes?" — indagara certa feita o Mestre. filho de Jonas. Jesus repete novamente a pergunta: "—. — Apascenta os meus cordeiros. * * * "Simão. julgo. — Apascenta as minhas ovelhas. três vezes a indagação. É a lição do perdão. então. no presente e no futuro. Ei-10 a alguns metros de distância. respeito. colocada em três tempos do verbo. Jesus tem algo que lhe dizer. É o pre- núncio de sua chegada. Maravilhoso simbolismo este. Senhor. bem próximo e com um aspecto real. Mas. para transmitir-lhe a lição imprescindí- v e l . O SEMEADOR DE ESTRELAS 305 As nuvens se movimentam e formam um imenso perfil de Jesus. Naquele instante. Um dia Ele ensinou que se deve perdoar setenta vezes sete vezes. Tu sabes que Te amo. Amor. emoção. filho de Jonas. deve emergir das profundezas do ser perante a superioridade dEle em con- fronto com a nossa — minha — posição) são sensações que parecem esmagá-lo. Senhor. em que o Mestre desce dos altos planos espirituais para se fazer presente. "— Sim. porém. no perfil de nu- vens.Simão." . a an- gústia/inquietude. quantas se fizerem necessárias. que eu. felicidade (e. leciona o perdão no passado.

filho de Jonas. tu me amas? — Senhor. no livro já mencionado. . prosternado. Tu sabes tudo. nos instantes cruciais. E de confortá-lo para os embates e dores futuras.306 SUELY CALDAS SCHUBERT E pela terceira vez Ele questiona a Simão Pedro: "— Simão. quando as agressões insensatas lhe foram endereçadas. Certamente. por acaso. Pedro teria dedu- zido se: "Estas três indagações não seriam. sabes que eu Te amo. " . de imediato. Conjecturando consigo mesmo. lembrou-se. — Apascenta as minhas ovelhas. vive a cena e se banha em lágri- mas de emoção. o mesmo poder de aprofundar na sua mente as responsabilidades e compromissos que assumira." Elucida Amélia Rodrigues. que Simão Pedro ouvindo a mesma pergunta do Mestre por três vezes consecutivas. A grandiosidade do momento o marcaria para sempre. "— Tu me amas? Então perdoa todo o mal que te fizerem e eu te darei a plenitude da p a z . Divaldo retemperava as suas energias na rememorização desse en- contro sublime. igualmente. têm. Ele lhe aparece e transmite inolvidá- vel lição. . Divaldo. É notável a analogia com a passagem de Simão Pedro. para aprofundar nos painéis de sua mente os vínculos do seu dever?" * * * A mensagem implícita nas três perguntas feitas a Dival- do. das três vezes que O negara. quando a calúnia e a per- fídia dolorosamente tentaram interceptar-lhe os passos para impedi-lo de cumprir o seu programa espiritual. Agora.

o carro em que Divaldo viajava sofreu um acidente. Como estivessem a uma velocidade de cinqüenta quilômetros. teve como tema "A Ciência do Espírito". não aconteceu algo mais grave. Mesmo assim. duas senhoras tiveram fraturas. e o automóvel. se desgovernou indo de encon- tro à barra divisória das pistas. dividido em três módulos com três horas cada um. e Di- . dia 18. nas proximidades de Três Rios. O Seminário. no dia 23. sendo realizado no salão da Faculdade de Ciências Econômicas. cuja freqüência foi limitada. simultaneamente às palestras proferidas por Divaldo Franco. Divaldo Franco esteve em Juiz de Fora para realizar um Seminário e uma palestra pública. ou seja. Ao se dirigir do Rio a Juiz de Fora. 38 A OUTRA PLATÉIA DE DIVALDO FRANCO Nos dias 19 e 20 de setembro de 1987. tive- mos interessante comunicação que nos trouxe uma outra visão sobre as atividades que se realizam no plano espiri- tual. felizmente sem maiores propor- ções. uma no joelho e a outra no nariz e no osso frontal. na sexta-feira. Ao que parece houve problema na barra de direção. Primeiramente são necessários alguns esclarecimentos. numa curva. no Centro Espírita "Joanna de Angelis". de quatrocentos lu- gares e que esteve lotado. em nossa reunião mediúnica. Três dias depois.

isto é. os fatos que vamos narrar não são fruto de um entusiasmo de quem o conhece há pouco e por isto se deixou impres- sionar pela palestra magistral e pelo belíssimo Seminário realizado. por simpatia. a viagem de carro no qual estava aquele homem que os vinha ensi- nar. Faço-o porque preciso. porque sinto imperiosa necessidade de contar o que me sucedeu. Nestes anos todos. Começa a prestar o seu depoimento: — Eu não posso deixar de lhes falar da experiência que vivi neste final de semana. É necessário ainda mencionar que este é o vigésimo nono ano consecutivo em que Divaldo comparece a esta cidade. Estava veemente. Isto ocasionou-lhe fortes dores. com meus companheiros. de longe. Tudo o que então ocorreu não foi culpa nossa. — Saibam — iniciou ele o seu relato — que eu acom- panhava. nós. além do desgaste emocional e psíquico. que temos escrito sobre mediunidade e comunicações mediúnicas. Mesmo assim. Mas não o pro- . em- bora tivesse de fazê-lo à custa de forte analgésico e outros remédios. não vivencíamos nada semelhante ao que iremos contar. caloroso e deixando transparecer certa emoção. embora soubésse- mos que existe (como também o sabem todos os espíritas). a não ser por pequenos relatos de um ou outro Espírito e aquilo que lemos nos livros da Doutrina. comunica-se por nosso intermédio um Espírito de certa cultura e grande facilidade para falar. porém. Sendo assim. em- bora nos alegrássemos com o acontecido. (1) Ao final da reunião. natural nessas ocorrências. Sempre promovemos as suas palestras.308 SUELY CALDAS SCHUBERT valdo várias contusões. Não o faço. compareceu a todas as atividades programadas. Eu mesmo pedi para fazê- lo. nós não provocamos aquele acidente com o carro. pois a ver- dade é que ainda não consigo achá-los simpáticos. duas costelas fraturadas e pequenos cortes.

— Primeiro eu me admirei da luz que o cercava. os aparelhos eram acionados no nosso plano e para a nossa assembléia. — Até então eu julgava que ele não daria conta da programação. com o triplo de pessoas. Eu via o público mas este não via a nossa platéia. apenas aplaudimos. Todo o palco estava tomado por aparelhos de natureza espiritual. ganhavam vida. sentia satisfação em imaginar que teriam de suspendê-la. tor- navam-se independentes da palestra e em espaços de tempo bem menores que os da dimensão terrestre. que projetaram para nós cenas as mais diversas. desde as ligadas à nossa própria vida até aquelas outras em que se via o "chefe" de vocês. O SEMEADOR DE ESTRELAS 309 vocamos. Ao chegar ao local do Seminário novas surpresas me estavam reservadas. Vimos chegar os filósofos e . Todavia. desejando que se calasse para sempre aquela voz. os passageiros. em conseqüência disso. tam- bém ao longo do salão. enquanto inúmeros desses guias de vocês. assis- timos às pesquisas a que ele ia-se referindo. no plano extrafísico. As cenas eram plasmadas. chamado Codificador. com muita luz cada um deles. fomos impedidos por uma espécie de "campo de força". e eu lhes afirmo que uma corrente de luz cercou o veiculo e as pessoas. assistimos a tudo.. de- fendiam e socorriam. pois eu "via" as dores dele e avaliando-as deduzi que seriam impedimento insuperável. projetavam-se no espaço. como se na- quele instante ocorressem.. a partir desse momento ficamos como que imantados àquele individuo. Estávamos nessa expectativa quando fomos sendo levados daqui para ali e. — Enquanto ele falava. estrategicamente colocados. E foi tal a força e tal a luz que nos assustamos e tentamos correr como cachorrinhos ame- drontados . dos guardiães que o defendiam e da vontade férrea que ele demonstrou em não se deixar abater. de forma pouco compreensível para nós. como se dele de- pendêssemos para resolver as nossas vidas. Quando pressentimos que algo não estava indo certo e tentamos aproximar-nos para "ajudar" a acontecer.

Eu faço parte da vida de vocês. — Pela primeira vez me foi dado compreender o al- cance do trabalho que esse homem realiza. o impediu. uma luz que vinha do Alto e que. sou alguém que conhecem profundamente. que a nossa perseguição em relação a vocês (referindo-se ao grupo) não começou agora. Não se iniciou nesses dias. que emitia luz. sinto que . passando por ele. não apenas nós. quando o público "vivo" se reti- rava. Ele — vejam bem — que mal podia respirar pela dor. dizendo ser necessário prestar o seu depoimento até o fim. Via as pes- soas correndo aflitas para ele. Nos intervalos. nós permanecemos. Nes- te momento. mas o comu- nicante. cá da nossa esfera — que ele vê e ouve —. pois nossas vidas estão enredadas. pelo cansaço. tornando-se mais veemente. cada um de nós acompanhou também trechos de sua pró- pria vida. pois a seqüência de esclareci- mentos em nossa esfera foi ininterrupta. envolvia a todos. conselhos — enquanto as pes- soas choravam e riam de emoção. apelidos. Pare- ceu-me que poderia compará-lo a uma usina de força e energia. Enquanto as épocas se desenrolavam. de alegria. deram quantas notícias lhes foram permitidas. Os parentes. Quando se aproximavam.310 SUELY CALDAS SCHUBERT os cientistas em imponente desfile de luzes. nos dois planos da vida. (O doutrinador quis dizer alguma coisa. cumulando-o de per- guntas e mais perguntas. embora não lhes tenha simpatia. Havia uma ligação entre todos. nem no ano passado. pedindo notícias de pa- rentes mortos. observei que todo o auditório estava imantado a ele. falando de doenças. situações. e sendo atendidas pacientemen- te. de forma difícil de explicar.) — Esclareço. entretanto. que ele ia repetindo — no- mes.

constrangido. mas que são benditas porque lhes impedem de errar. tive vergonha e de- sespero. cada um. não tra- zem defeitos físicos visíveis. quisera ter meus pés tolhidos. — Vejam a minha situação. — E eu lhes digo que. cerceiam a liberdade e os fazem ficar atentos e vigi- lantes. porque eu vi. constrições variadas no organis- mo. . aleijado. tem limitações físicas. certamente. forte e po- deroso. por exemplo (dirige-se ao grupo). as mãos deficien- tes. esse ho- mem que lhes veio ensinar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 311 simpatizam comigo. porque hoje eu sei que vou reencarnar. o Se- minário de nossas próprias vidas. Preciso re- nascer aleijado para não incidir nos mesmos crimes (nes- te momento está emocionado. como aquele menino da pales- tra (2). que eu e o meu grupo finalmente capitulamos. patético e a emoção toma conta de todos os participantes). veio ao nosso encontro para nos dizer que nos compreendia e que não somente nos perdoava. fui envelhecendo. aos poucos fui envelhecendo como se todas aque- las épocas passassem sobre mim e me sulcassem pro- fundamente. a "ciência do Espírito". na luz que sua palavra irradiava. que ele era absolutamente verdadeiro. mas. estão emitindo vibrações solidárias. Entrei em contato com a realidade e. se antes me sentia jovem. para espanto geral. Agora estou uma ruga só! Mas eu quisera ser monstruoso. Que mudaram de rumo e se integraram nesta Doutrina — como vocês a chamam. mas que amava a cada um e que nos esperava há muito tempo! — Fiquei vexado. no primeiro momento em que logrou adormecer. — Vocês. afetuosas para mim. Felizes são vocês (dirigindo-se aos presentes) que conheceram a verdade há mais tempo. — Pois foi exatamente assistindo a tudo isto. À medida que fui assis- tindo às reuniões e descobrindo a "ciência da vida".

talvez um dia. Preciso da deficiência física. exemplifica e pre- ga. ficaram repercutindo em nossos corações. finalmente. talvez os mais jovens. nessa casa que vocês terão e que eu já vejo (3) — é uma casa grande e bonita —. da fealdade. como também preciso en- trar em contato com a Doutrina Espirita. (Pausa longa e demorada. contudo. foi quebrado pela prece final.) Quisera encontrar um de vocês. nossos caminhos se cruzem e. não se esqueçam de mim. vendo abertas as suas portas. E tenho certeza de que nos iremos reconhecer.) — Eu estou sofrendo muito e recebo as vibrações de vocês. no futuro que me aguarda. Nas vibrações da oração nos envolvemos. no Brasil e no mundo. os que hoje são mais novos. Elas me tocam o coração e já os vejo com sim- patia e com irresistível afeto. Quem sabe. preciso de muito mais. O silêncio. De alguma forma nos reconhecere- mos. um dia. eu. Talvez nos encontremos nesse futuro que não está longe. de gratidão a Deus. o arauto da Doutrina Espírita. proferida pelo dirigente.312 SUELY CALDAS SCHUBERT — Eu. (Ao dizer estas frases o comunicante emociona-se. que a vive. (Ao dizer isto levan- ta o rosto e olha para a frente como quem fita o futuro. Lembrem-se de mim. nesses quarenta anos de atividades. carregado dessas emoções. um dia. reflexionando intimamente sobre a bênção da mediunidade com Jesus e sobre o missionário labor do nosso tão querido Divaldo. ao passar em frente a ela. entre! Suas últimas palavras. a emoção que passou a todos os circunstantes. As lágri- mas agora caem dos seus olhos e a voz está embargada. os nossos caminhos se cruzem. o nosso carinho e reconhecimento! . A ele. nos dois planos da vida.) — Talvez. comemoradas neste ano de 1987.

corcunda. que era um jovem de catorze anos. * * * Nota: Este artigo foi publicado em "Reformador". narrado por Divaldo. pu- blicado em "Reformador". O SEMEADOR DE E S T R E L A S 313 (1) Tivemos há três anos. o relato de um Espírito sobre o outro lado do trabalho mediúnico de Chico Xavier. (3) Referência feita à futura sede do Centro Espírita "Joan- na de Angelis". de dezembro de 1987. (2) Refere-se ao caso de Ugolin. deficiente e feio. . de novembro de 1984.

em pleno altar da Natureza. antes de quaisquer [outras realizações. Evocamos. o nosso pensamento se volta no Teu rumo para pedir-Te que abençoes os propósitos que trazemos em [mente. no entanto. naqueles que virão depois de nós. . neste lugar dedicado à Tua bondade. apoio e encorajamento aqui. quando se erguer a obra que o Teu amor programou a benefício de todos nós. nesta pausa de atividades. 39 PRECE DE DIVALDO FRANCO NO TERRENO DA "POUSADA DE FRANCISCO" Senhor Jesus. Eis porque. Evocando Teu diálogo com a mulher samaritana deixamos o templo material para estar Contigo no coração. que perpassam em [nosso pensamento. que deverão encontrar repouso. aqueles que Te amamos procuramos sintonia com a Tua Misericórdia. os cansados do caminho. Senhor. todas as Tuas lições. os combalidos. os atingidos pelas vicissitudes que buscaram. pensando.

. prometemos serviço para derrapar na negligência. este peregrino de Assis. que nos fascina. e a Tua voz. Abençoa. com o passo lento dos tempos por vir e nos recordamos da necessidade de. em Teu nome. Tantas vezes. Permite que o Teu discípulo Francisco. suave e forte. para que a dor na Terra. doce e enérgica. a Tua Doutrina nos comanda. Não obstante. nem as nossas iniquidades interiores tisnem a claridade do nosso discernimento. Senhor. receba a nossa oblata a ele dirigida. para que o vendaval das paixões não nos derrube. no amanhã. assumimos responsabilidade para dela nos evadirmos — hoje não. Permite que ele. nas múltiplas tarefas que desenvolve. com a Tua mão. portanto. Senhor. unidos. seja menos doída e o infortúnio se nos apresente menos desarticulador da esperança. nesta Casa que se erguerá em seu nome para homenagear-lhe a caridade e a abnegação. este punhado de audaciosos servidores [do Teu nome na concretização deste ideal de Amor. conduze-nos. repetidas vezes nos hemos comprometido para abandonar. a Tua presença. constitui-nos a segurança para que a Vida trabalhe dentro dos postulados do dever. em considerando a fragilidade que nos tipifica. templos de fraternidade e abrigos à solidariedade humana. para que se torne realidade objetiva o nosso programa espiritual de bem fazer. abençoe esse esforço. levantarmos santuários ao amor. O SEMEADOR DE ESTRELAS 315 com a celeridade dos tempos idos.

22 de junho de 1986 . anjos tutelares do nosso caminho. que nos inspiram. trabalhando pela nossa redenção. elevando-nos. Que assim seja! Barra do Pirai (RJ). tentando aproximar-nos de Ti. insistam conosco.316 SUELY CALDAS SCHUBERT Que os Bons Espíritos. permaneçam conosco.

Mas. atrai. sobretudo. transcende à dimensão humana pois. porém. arrebata. és um desses responsáveis. galvaniza. porque andas com o archote da fé." (Co- municação mediúnica através de Chico Xavier) Divaldo é. porque leva o magnetismo positivo do amor. 40 O ARCHOTE DA FÉ "Eu vim para lançar fogo a Terra — e que quero eu senão que arda?" Jesus "É nesse momento que chega o Espiritismo. porque ele próprio é um apaixo- nado pelo Amor. O semeador de verda- des eternas. minar consciências. O seu verbo é inflamado de entusiasmo incomum e. de um lado para outro. Sua palavra é forte. Quando começa a falar se transfigura. buscando ilu- . envolvido pelos Benfeitores do Mundo Maior se transforma em porta- voz dos céus. que é o ." Allan Kardec ("Viagem Espírita" em 1862) "Tu. como um archote aceso nas trevas de sua alma. persuasiva. o orador. especialmente. incendiando tudo à tua passagem. por isso. firme. este Amor que dimana do Cristo. como uma âncora salvadora.

e aqueles que o ouvem passam a amá-lo e a amar esse Ideal que noticia. implantar o Cristo nos corações estiolados. * * * Transmitir a Doutrina através da palavra.318 SUELY CALDAS SCHUBERT próprio Cristo ao qual ama e serve devotada e apaixonada- mente. balsamizar as dores. despertar as consciências cristalizadas. instalar idéias novas onde só existem conceitos sediços. em todos os países visitados as mul- tidões acorrem. É este Amor a chama sagrada que move a sua vida e rege os seus passos. quei- mando os escombros e proporcionando que das cinzas re- nasça a Fênix que simbolizará o novo homem. a cada palavra para que esse fogo sagrado se ateie. E é por este sentimento maior que consegue tocar aqueles que o ouvem. libertar os que se auto-enclau- suraram. somente explicáveis na sua significação de transcen- dência dos parâmetros comuns. que se esteja morrendo um pouco a cada dia. na profunda verticalidade — ele realmente se fez um arauto do Bem e da Paz e sai pelo mundo com o archote da fé ateando um grande incêndio. buscar os que estão perdidos nas estradas da vida mostrando-lhes o rumo certo. revivescer a palavra dEle. indiferentes. consolar. que se esteja ali- mentado interiormente pelo combustível da fé legítima e ra- cional. tudo isto exige muito mais do que simplesmente abrir a boca e falar. restituir a visão aos que se deixaram cegar pela nega- ção contumaz. acender a chama do Ideal em que acredita e pelo qual dá a vida. apáticas. reconduzindo os homens ao Seu aprisco — tudo. fazer andar os que estão paralisados nas an- gústias e fobias. Por toda a parte. É preciso que se esteja abrasado pelo Amor e pelo Ideal Maior. para que as chamas se alastrem e se transformem em claridade. dar vida aos que estão mortos pelas paixões e vícios. abrir horizontes novos. . fazer brotar a esperança onde só existe desespero. Para conseguir esses resultados verdadeiramente notá- veis. passar-lhes a sagrada emoção que o arrebata. contagiar as pessoas com o seu próprio entusiasmo.

o que ele relata não foi colocado em ordem cronológica. ainda hoje ele nos surpreende com as lições de vida que nos dá. * * * A trajetória da Doutrina Espírita nesses cento e trinta e um anos. à sua vivência pessoal e doutri- nária. É inegável que escrevemos este livro com as tintas da emoção e com elas colorimos cada página. além disso. Entretanto. sem jamais deixarmos de exercer o bom-senso e a lógica. por isto. por si só. Desejamos. o que. de seu lançamento até os nossos dias. Nesses trinta anos de nosso convívio e amizade com Divaldo. É importante que se preservem os critérios de ava- liação num trabalho como este. especialmente quanto à programação espiritual e à atuação dos homens. nos mantivemos rigorosamen- te atenta a esses exemplos. já nos edificaria e consagraria a sua missão apostolar. Esta não é uma biografia e. traçar um amplo painel que nos propicie detectar o programa espiritual su- perior a se cumprir. onde nos propomos a de- monstrar algo mais que os episódios de sua trajetória ter- rena. . dá margem a importantes ilações. PALAVRAS FINAIS 41 Aqui nos detemos para refletir em torno do riquíssimo acervo de fatos da vida de Divaldo Franco.

o movimento de expansão da Doutrina. na Europa. aos poucos. em permanecendo aí. o Espiritismo como que se foi apa- gando em toda a Europa. que a superior orientação do Mundo Maior a norteou. quando Kardec ainda estava por terminar a sua gloriosa missão terrena. O fato é que a Doutrina Espírita v e i o a expandir-se nas leiras férteis do Brasil. A França foi-lhe o berço de ouro. todavia. Entre o final do século X I X e o início deste. que lhe consolidaram a parte científica. em sua primitiva pureza. não foi além da efervescência das primeiras experiências.320 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T Desde a sua chegada à Terra. onde pontifica o Evangelho de Jesus. trazida pelos Numes Tu- telares ao raciocínio e bom-senso de Allan Kardec. especialmente os registrados em seus discursos quando de suas viagens. atávicos. Coração do Mundo. a Terceira Revelação encontra o caldo de cultura im- prescindível para estabelecer as suas bases iniciais. para ir surgindo. que o tempo. Se na Europa o campo era propício às pesquisas cien- tíficas. do sentimento de toda uma nação. embora todos os prognósticos otimistas e favoráveis feitos pelo próprio Codificador. nos rincões brasileiros a Doutrina dos Espíritos en- contra o ambiente favorável para que se fortalecesse o lado moral. Pátria do Evan- gelho que o traslado do seu ponto de origem para o nosso país obedeceu ao comando do próprio Cristo. Entretanto. Em contrapartida. Emmanuel esclarece em A Caminho da Luz e Humberto de Campos em Brasil. seria a de se trans- formar em uma ciência a mais. Leiras do coração. . imprescindível. A ten- dência. No povo fran- cês. o estudo e a maturidade gradual têm escoi- mado dos fatores igrejeiros. Aqui ela se beneficiaria do colo- rido evangélico tão entranhado na índole do povo brasilei- ro. Este o motivo de sua im- plantação em nosso país. e dos desdobramentos filo- sóficos encetados por Leon Denis. a fim de se lhe ca- racterizar — perante os encarnados — o alto nível cultural. acendem-se as primeiras luzes da Terceira Revelação em terras brasileiras.

a Ciência está iluminada pela Religião. Os Núcleos que se foram formando nesses vinte anos . o que é prioritário e faz parte da própria natu- reza humana: a sua ligação com Deus e todas as aplicações daí advindas. Mas — e aí está o grandioso programa espiritual —. e que esta se fortalece com as conquistas daquela. O que se observa em nossos dias é que a Ciência não solucionou as angústias dos seres humanos. Todas essas considerações nos vêm à mente ao nos in- teirarmos das mais recentes viagens e palestras de Divaldo Franco na Europa e nos Estados Unidos. ser relançada no seu conteúdo global. Falta-lhes reconhecer. exatamente. Ao que sabemos. na ONU. todo o ciclo de relançamento do Espiritismo no seu país de origem. derivando desta aliança a fé racional. no berço natal de Kardec realiza palestra na Universi- dade e entrevista numa rádio local. no período de 27 de abril a 25 de maio de 1988. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 321 Com o passar dos anos e a expansão cada vez maior das idéias espíritas. a outras gentes e. Completa-se. Esse trabalho de Divaldo Franco de semear a Doutrina Espírita pelo mundo. Todos os cam- pos do saber têm sido baldos de recursos para equacionar os dramas existenciais do homem. lúcida. realmente. também. ao seu continente de origem. na França e ali. nesses lugares. Como parte da programação ele profere palestras em Paris. esta é a primeira vez que se fala. sobre Allan Kardec e sobre a Dou- trina Espírita. do seu retorno ao local onde nas- ceu. assim. na Sorbonne e em Nova York. Mas. sobretudo. evidenciando que. e proporcionando que a Ciên- cia descubra a realidade do Espírito. mais se fazia necessário que estas fossem semeadas a outros povos. A sua tarefa é grandiosa e está inserida no contexto da programação espiritual superior com vistas à expansão do Espiritismo e. leva-nos a maiores reflexões. nessa mesma ocasião ele vai a Lyon. Negar ou ignorar isto tem causado sérios pre- juízos à Humanidade. ser recambiada ao seu país natal.

sua alegria em pregar a Doutrina Espí- rita. Nas Pegadas do Nazareno) Divaldo afirmou aos companheiros. É um trabalho len- to. Ao retornar. Esse labor de semeador que Divaldo realiza é deveras notável. que gostaria de pregar o Espiri- tismo onde nunca se falara sobre ele. Mas deixa. Abnegados companheiros. para o livro de nosso querido amigo Miguel de Jesus Sardano. se empenham até ao sacrifício para que as se- mentes por ele lançadas possam medrar e crescer. Seu entusiasmo. Escolheu um pequeno país — Bophutatswana e sua capital Sun City. em N e w York. que se expressa no seu amor às pessoas de todas as nacionalidades — o que as cativa de forma impressionante — a sua vivência espírita. Divaldo re- torna com os amigos. seu acendrado amor ao Evangelho. uma semente de luz. ele terá uma árvore para se abrigar dos rigores do clima. árduo. Periodi- camente. Entram na cidade e. . mas efetuado com muita segurança e fidelidade à Codificação. África do Sul. encontram uma pessoa que se interessa em conhe- cer a Doutrina e fundam um pequeno Núcleo. não encontram uma árvore onde se pudessem abri- gar. Certa vez (e escrevemos isto num artigo intitulado "De Paulo de Tarso a Divaldo Franco". Parte com pequena caravana e ao chegarem à região. A saída. Divaldo possui um talento precioso e decisivo: a mediunidade. realizam o primeiro culto evangélico-doutrinário em Bophutatswana. Para realizar essa missão. no luxuoso cassino. Divaldo retorna a essas cidades para realimentar e fortalecer os grupos for- mados. como ainda para novas lides de pregação doutriná- ria. Esses são os passos do semeador. residentes em vá- rios países. sob um calor de mais de quarenta graus. dez vezes — para se ter uma idéia' têm sustentado e propagado o ideal espírita. Queria pregar a Doutrina em plena natureza. na longínqua Sun City. com uma notável regularidade. na cidade de Vereeniging. um dia qualquer no futu- ro.322 SUELY CALDAS SCHUBERT de palestras no exterior (só em Paris ele já foi nove vezes. dão extraordinária força de autenticidade à sua palavra.

ela que é um dos Espíritos de Luz que promovem. Se observarmos os antecedentes espirituais da obra de Divaldo Franco. desde os seus tempos de Joana de Cusa. A par disso. certamente como Paulo de Tarso. ela se fez colaboradora de Jesus. a "carta viva" da Doutrina Espírita e. É imprescindível que essa presença dos Ben- feitores Espirituais seja ainda a própria comprovação da imortalidade da alma e do intercâmbio com os chamados "mortos". Os elos dessa imensa corrente se entrosam e se fecham. no plano físico." *** Os fatos se encadeiam com uma lógica irretorquivel. pode também dizer: "Já não sou eu quem vive. Divaldo Franco é. santa e benfeitora em suas diversas reencarnações. O SEMEADOR DE ESTRELAS 323 É importante que um trabalho de tal magnitude seja realizado por alguém que fale não apenas por si e pelos conhecimentos e aquisições pessoais. mas que seja também o porta-voz dos Invisíveis (e. coerente e fiel a tudo quanto prega. Seu vulto luminoso perpassa através da própria His- tória da Humanidade deixando um rastro de luz a iluminar a noite dos seres humanos. Mártir. iremos encontrar as suas raízes na própria Codifica- ção Kardequiana. mas Jesus Cristo que vive em mim. é necessário que esse semeador tenha uma vivência pessoal absolutamente consentânea. para que a Espiritualidade Superior se faça presente. inspiram e direcionam a Humanidade nos rumos do progresso espiritual. . há quarenta e um anos. muito mais destes). aí sim. A revelação é progressiva e a Falange do Consolador continua orientando e cuidando para que a Doutrina seja implantada da forma como o Mundo Maior projetou. se ma- nifeste e possa transmitir orientações ao homem angustiado de nossa época. assim. iniciada. Joanna de Angelis orienta e dirige. O Programa Espiritual Superior está em curso.

A vida e a obra de Divaldo Franco são as expressões múltiplas desse Amor que. de dar a vida pelo Cristo. bem cedo. E é esse sentimento. já são mais de seiscentos. se irradiou de seu coração na direção da Vida. se extravasa na dire- ção da Humanidade. Tal como Emmanuel. superando a si mes- mo. através de Divaldo Franco. não apenas o socorro imediato. acrisolado nos testemunhos de cada dia. ela também participa da Codifi- cação e traz uma responsabilidade bem específica. en- volvido pela calúnia. Desse Amor que nasce com o menino de Feira de San- tana e. apraz-nos dizer a Divaldo que nos seus passos cin- . Desse Amor que se torna em prova definitiva para con- vencer e converter o infeliz "Máscara-de-ferro". na manhã da vida. Desse A m o r que o leva à invasão para erguer aí. que hoje. sublimado. Desse Amor que se engrandece e. hoje. onde a dor e a miséria en- contram. mas as luzes desse sentimento a clarear-lhes o ingresso na Pátria Verdadeira. a fim de testemunhar que se- ria capaz. escrito com o mais profun- do amor. em meio à lama. silencia. está Joanna de Angelis. no mo- mento mais crucial de sua existência terrena. por sua magnitude. ou seja: a de dirigir o movimento de difusão da Doutrina Espírita no país e no mundo. Ao encerrarmos este livro. ensina-lhe o caminho da renúncia. Desse Amor que o faz recolher os pequeninos órfãos da vida para que sejam seus filhos pelo coração e. * * * Este é um livro que trata essencialmente de Amor. a "Casa de Jesus". quando. na conturbada arena do mundo. que o leva a percorrer as estradas na tarefa de prega- ção doutrinária.324 SUELY CALDAS SCHUBERT Entre as muitas Entidades Superiores que integram a plêiade liderada pelo Espírito de Verdade.

a amorável Mentora. juntos. nos rumos dos sofri- mentos humanos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 325 tilam as estrelas que ele semeou. o caminho da feli- cidade. entoando a sinfonia eterna do Amor. porque através dele conhece- ram a Doutrina Espírita e aprenderam também a viver. sob o olhar de Francisco. aos que estão andando. Divaldo! Que a sua voz prossiga. guia-lhe os pas- sos e. recolhendo estrelas. lhe abençoam o nome e o amam. conduzem essa gran- de família espiritual. ao encontro de Jesus. Quantos. nessa longa trajetória. Joanna de Angelis. FIM . para que a Humanidade compreenda que é possível emergir do abismo da dor e do aturdimento para as estrelas refulgen- tes da Paz e do Bem. deixando uma esteira bri- lhante a indicar. que se lhes vincula.