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-4ª Edição
Do 26° ao 28° milheiro

© Copyright 1989 by
Centro Espírita Caminho da Redenção
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil

Capa de José Luiz Cechelero
Foto da capa de Franklin Wagner
Impressão: LIS Gráfica e Editora Ltda

Impresso no Brasil
Presita en Brazilo

LIVRARIA
ESPÍRITA
ALVORADA
EDITORA

Todo o produto desta obra é destinado à manutenção da Mansão do
Caminho, Obra Social do Centro Espírita Caminho da Redenção (Sal-
vador - Bahia - Brasil.)

SUELY CALDAS SCHUBERT

O SEMEADOR
DE ESTRELAS

L I V R A R I A ESPÍRITA ALVORADA EDITORA
C.G.C. (MF) 15.176.233/0006-21 - I.E. 01.917.200
Rua Jayme Vieira Lima, 1 - Pau da Lima
41235-000 - Salvador - Bahia - Brasil
1998

Dados de Catalogação na Publicação ( C I P ) Internacional
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Schubert, Suely Caldas.
O semeador de estrelas / Suely Caldas Schubert. —
Salvador, BA : Livr. Espírita Alvorada, 1989.

1. Espíritas - Biografia 2. Espiritismo 3. Franco,
Divaldo Pereira, 1927- 4. Médiuns - Brasil I. Título.

CDD-133.9092
-133.9
89-2354 -920.9133910981

índices para catálogo sistemático:
1. Brasil : Médiuns : Biografia 920.9133910981
2. Espíritas : Biografia e obra 133.9092
3. Espiritismo 133.9

SÚMULA

APRESENTAÇÃO 7
1 — O Semeador de Estrelas 13
2 — Joanna — Além do Tempo 14
3 — Joanna e Divaldo 27
4 — Joanna: A Família Espiritual 35
5 — A Pregação Espírita 39
6 — Na Africa Portuguesa — "Persona Non Grata" 51
7 — Os Bens Materiais 61
8 — A Psicografia — Messe de Amor 66
9 — 0 Suicida do Trem 77
10 — A Presença de Victor Hugo 86
11 — Amélia Rodrigues e as Histórias do Evangelho —
Cicerone em Israel 95
12 — Manoel Philomeno de Miranda — Uma Biblio-
teca Espiritual 100
13 — O Máscara-de-Ferro — O Quase Suicídio — A
Agressão — A Comunicação Mediúnica Através
de Chico Xavier 108
14 — Mediunidade e Oratória 133
15 — Resgatando Almas — O Franciscano 145
16 — A Moça de Catanduva 154
17— Desde os Tempos das Cruzadas 161
18—A Felicidade de Bezerra de Menezes 171
19— A Estesia de Tagore 176
20 — Agora. Enquanto é Hoje 182

21 — N o m e Escrito no Livro dos Céus 186
22 — A Moça da Praia — Evitando um Suicídio 191
23 — Nas Mãos de Nilson 199
24 — Em Um Minuto Apenas 202
25 — Fatos Mediúnicos em Israel 207
26 — Os Três Passes 212
27 — Com Marco Prisco na Avenida Ipiranga 217
28 — Além da Morte 225
29 — A Louca 232
30 — Chico e Divaldo — A Carta 238
3 1 — 0 "deus" Huracán — A Chuva — O Palácio de
Metal — A Chegada de Huracán — As Curas .. 242
32 — A Casa de Jesus — A Embaixatriz 267
33 — As Duas Mensagens 279
34 — Francisco, Chico e Divaldo — A Primeira Men-
sagem 281
35 — Francisco, Ubaldi e Divaldo — A Segunda Men-
sagem 288
36 — Página a Divaldo 295
37 — Jesus — As Três Questões 300
38 — A Outra Platéia de Divaldo Franco 307
39 — Prece na Pousada de Francisco 314
40 — O Archote da Fé 317
41 — Palavras Finais 320

conforme elucida Allan Kar- dec no capítulo 1 de A Gênese. Assim. foram transmitidas ao ho- mem. unindo as duas conquistas máximas do ser: a sabedoria e o amor — as duas asas da evolução que propiciarão ao Espírito alçar-se aos campos da luz. propelindo-o aos seus mais altos destinos. . vamos encontrar a trajetória do ser humano. Três grandes revelações. como parte do grandioso projeto espiritual que o Cristo de Deus inspira e orienta. neste constante vir-a-ser em busca das conquistas. APRESENTAÇÃO Dentro da programação espiritual que Jesus elaborou para o nosso planeta e que. a sua evolução dialética. os homens conheceram os missionários — Espíritos que se notabilizaram em todos os campos humanos abrindo perspectivas novas para a gran- de família terrena. No transcurso dos evos. o Espiritismo clarifica. Cada uma delas assinalan- do períodos diferentes e definitivos para a Humanidade. no tempo certo e previsto. do somar experiências que o amadureçam como Espírito imortal. na atualidade. etapas evoluti- vas no transcurso dos milênios. a Humanidade tem recebido vultos luminares que trazem como missão abrir caminhos e espaços no imenso cipoal de erros e experiências frustradas em que a maioria se deixou enredar. A Doutrina Espírita inaugura a era da razão. da fé ra- cional e coerente. Épocas bem precisas marcam estágios.

prossegue assessoran- do a implantação da Doutrina Espírita na face da Terra. Com a Doutrina Espírita a ciência e a fé se completam e integram um todo. o que é bem pouco em termos de evolução. o pro- gresso terreno é avaliado em milênios. sim. Informam-nos os Benfeitores Espirituais que na Espiritualidade o tempo terreno. . Um século e três décadas transcorreram. Em ter- mos de Brasil. quando o céu e a Terra se dão as mãos para deixarem falar as Vozes da Imor- talidade. pois. Fruto do ensino dos Espíritos e do trabalho do homem — eis a soma das conquistas humanas. todavia. embora o re- torno de Allan Kardec à Vida Maior. os conhecimentos doutriná- rios apenas começaram a ser semeados pelo planeta. Conforme o próprio Codificador registra. que é o próprio Senhor. chega-nos a Terceira Revelação. de maneira abrangente. Por primeira vez o homem tem con- dições de compreender. Todo um programa se desenvolve e é bem nítido o as- cendente espiritual a nortear os caminhos. A aliança da ciência e da religião vem libertar o homem da escravidão intelecto-moral. já se pode divisar fases marcantes caracterizando a programação espiritual em plena ação. pois um século re- presenta muito pouco na dimensão extrafísica. quis Deus que a Terceira Re- velação não fosse personificada. mas. por outro queda- va-se prisioneiro da fé irracional ou de sua ausência total. consubstanciada na Doutrina dos Espíritos. Pode-se distin- guir com clareza como se delineia essa linha de atividades. a interagir sobre encarnados e desencarnados.8 SUELY CALDAS SCHUBERT No século passado. A falange do Espírito de Verdade. que representasse um conjunto de Numes Tutelares. se de um lado se dei- xava dominar pela ciência fria e estéril. O advento do Espiritismo assinala uma nova era para a Humanidade. Nesses cento e trinta anos. a falange do Espírito de Verdade. porém. o caminho de sua libertação.

Um desses arautos. Tal como acontece com Francisco Cândido Xavier — sem fazer nenhuma com- paração. Evi- denciando que ele participa. Um pouco de sua existência está neste livro. As "vozes dos céus" estão falando! Através de arautos. Já se pode avaliar a sua existência apostolar num con- junto de atividades vividas durante quatro décadas. pois. o médium e orador espírita Divaldo Pereira Franco. pela sua própria condição de Espí- rito imortal. Há qua- renta anos. Um desses semeadores é. utilizando-se de seu organismo corpóreo e a espiritual. também Divaldo está inserido num contexto de tra- balho no campo do Amor e da Paz. que escre- vemos com a mais profunda felicidade. Seu labor missionário tem como mentora a veneranda Joamia de Angelis. O programa de Divaldo para a existência atual. dando sinais. Em nossos estudos e pesquisas sobre este vulto tão que- rido. a fim de integrar o ser humano em sua realidade cósmica. foi-nos possível divisar a grandiosa planificação espi- ritual que rege a sua atual encarnação. enquanto encarnado. estão entre nós. atra- vés das mesas girantes. de porta-vozes adrede preparados. semeiam as verdades imorredouras. primeiro. pois cada um tem tarefas bem definidas — sobre cuja vida escrevemos nosso livro Testemunhos de Chico Xavier. hoje pode-se prosseguir ouvindo-as. O SEMEADOR DE ESTRELAS g Tal como aconteceu no advento do Consolador. que antecede ao berço e sobrevive ao túmulo— a Doutrina Espírita abre os horizontes do infinito aos olhos aturdidos do homem dos nossos dias. quando as vozes falaram diretamente. sem dúvida. a partir de seus de- poimentos gravados por nós. de duas humanidades — a terrena. permanecem. o quase menino Divaldo iniciou publicamente a sua missão terrena. vieram para ficar. iniciou- se na Espiritualidade. é Divaldo Pereira Fran- co. como parte do roteiro de implantação da Doutrina dos Espíritos na face terrena. por todos os títulos. dando prosseguimento a tarefas espe- .

semear a Boa Nova em sua feição de Consolador. com o nosso modesto esforço. já no exercício da mediunidade. Mas. de Cristianismo puro que a Doutrina veio revivescer. tanto quanto lhe fosse possível e por todos os meios ao seu alcance. de alguma forma. tendo ouvido a palavra de Jesus e por Ele se dei- xado imolar. todo esse plano. cujos ascendentes estão no Mun- do Maior. a vida de Divaldo Franco. Comprometeu-se ele. Na obra de Divaldo Franco encontramos bem delinea- das as três principais tarefas a que ele se dedica de corpo e alma: o orador. deixan- do em cada uma de suas passagens um rastro de luz in- delével. obedece a uma primorosa elaboração em cuja direção está a figura radiosa de Joanna de Angelis. a ser um semeador de Jesus. Como orador ele dá ênfase à filosofia espírita. Como médium ele pratica a ciência à luz do Espiri- tismo. acrisolado em muitas reencarnações vitoriosas. a missão assumida por Divaldo . Por muitas vezes esse Ser Superior tem descido à carne para exemplificar as virtudes que lhe são inerentes. por cer- to. embora as três estejam perfeitamente integradas e não se consiga dissociar uma de outra. pro- pelindo-a em sua trajetória para o progresso. em profundidade. Espírito de escol. Mas. Somente um médium com estas características poderia dar curso a um programa espiritual de tal magnitude. o médium e a vivência espírita. Esperemos conseguir. A semear o Evangelho a todas as gentes. retratar. Joanna de Angelis é um desses Numes Tute- lares que envolve de amor a Humanidade sofredora. con- forme se infere ao estudar-se. Como pessoa humana ele vive a religião espírita.10 SUELY CALDAS SCHUBERT cíficas por ele exercidas em antecedente reencarnação.

Juiz de Fora (MG). com vistas à implantação do Evangelho de Jesus à luz do Espiritismo. no cumprimento desse belíssimo plano espiritual que Joanna de Angelis idealizou. O SEMEADOR DE ESTRELAS 11 Franco. novembro de 1988 Suely Caldas Schubert . ao mesmo tem- po em que reúne e promove a imensa família espiritual sob a sua responsabilidade.

Os anos passam e ele caminha. . brilham estrelas que se acendem na noite dos tempos. A "via-láctea". com seu caminho de estrelas. . A seara é g r a n d e . . . Mas nem todas medram agora. decididos. refulge e aponta. a direção do Cristo cósmico. O semeador sai a s e m e a r . Eis que vem o semeador e a percorre. todavia. O semeador segue adiante. Não olha para trás. 1 O SEMEADOR DE ESTRELAS "Divaldo tem uma estrela na boca". Na esteira dos seus passos. As sementes de luz são lançadas — lúculas que perma- necem brilhando. disse um dia Chico Xavier. Divaldo Franco semeia. Todas as terras percorridas recebem a ensementação. iluminada. . O mundo o chama para ouvi-lo falar desse Ideal que o abrasa. Seus passos são firmes. A missão de semear é intemporal. Quarenta anos percorrendo as leiras do coração hu- mano. incansáveis.

— Eu poderia levá-lo. Ele. sem nenhum sentido especial? — Tenho. Eu sou engenheiro. Ao terminar a reunião eu me dirigi ao moço. Quando estava na etapa final da palestra. fala com aquele jovem que está ali gra- vando — porque ele é da nossa família espiritual — e pede- lhe que te leve a conhecer a pequenina aldeia de São Miguel Nepantla. como deveria fazer e onde era a rodoviária. Joanna de Angelis me apareceu e disse: — Ao terminar. eu teria muito prazer de levá-lo até ali.ALÉM DO TEMPO No ano de 1969 eu me encontrava proferindo uma con- ferência na Cidade do México. no domingo. trabalho no setor de petróleo e. desde que seja no domingo. num Congresso Internacional. pois sou funcionário da PEMEX. perto de Cuernavaca. indagou: — O senhor tem interesse em ir a um lugar destes. 2 JOANNA . sim. muito surpreso. . Ela me acenou com a cabeça para que eu aceitasse a proposta. Nós vivemos lá. de uns vin- te e seis anos. Chamei-o e perguntei-lhe se me poderia dar informação de como chegar a São Miguel Nepantla.

à sua época. Per- guntei ao rapaz: — Quem teria sido Juana Inés de La Cruz? — Uma poetisa — respondeu — das mais formosas da literatura hispânica. isto sim. aos quinze anos de idade. porque eu os olho e constato que Joan- na escreve escorreitamente. No domingo. no estilo poético. intencionalmente. ru- mamos para a aldeia que ficava a oitenta e um quilômetros da capital do México. voltar ao estilo que viveu outrora. porque renunciou a tudo para se dedicar aos pestosos. Tempos depois. Foi a primeira feminista que se conhece nas Américas espanholas. não acho esta crítica justa. parece-me até um pouco de prevenção. O SEMEADOR DE ESTRELAS 15 E assim fizemos. mas não de forma in- compreensível. Joanna se me revelou como Sóror Jua- na Inés. em versos brancos. Era uma mulher muito culta. fui para a Ordem de São Jerônimo e adotei o nome de Juana Inés de La Cruz. no século dezessete. Chegamos à região e Joanna nos levou às ruínas de uma casa. Posteriormente. Um dia eu perguntei-lhe: — Por que a senhora escreve assim? As pessoas acham- na difícil. ao escrever um tema. O Espírito pode assim. e explicou-me: — Eu vivi aqui e o meu nome era então Juana de Asba- je. naquela época possuía uma vasta biblioteca e teve uma morte muito dolorosa. Nesse momento eu a vi com a personalidade de Juana Inés de La Cruz. que fora modesta. por ocasião de uma epidemia que se abateu sobre a capital mexicana. Eu não tinha a menor idéia de quem se tratava. ." Com toda a honestidade. Algumas pessoas dizem: "Eu não leio os livros psico- grafados pelo Divaldo porque não os entendo. que ela intitulou "Um recanto seguro". do século dezessete e que é um dos mo- tivos de orgulho da alma mexicana. muito deli- cado. com a sua família.

vestir a idéia com palavras. porque tudo o que nós temos aqui existe lá. Ela foi a primeira feminista do mundo. Quando trazemos uma idéia. Quando o homem era primitivo. Verbalizar. é o mundo de lá em rela- ção ao de cá. inclusive o português. Há lá uma árvore. no entanto. mas também pelo conteúdo. o grego e o latim. a pri- meira teatróloga e considerada a maior poetisa de língua hispânica. No México. beleza e construção de frases. nós defrontamos em nossa esfera física. Espíritos — prossegue Joanna — verbalizar o que pensamos. na linguagem terrena. Vamos utilizar uma linguagem que eleve o grau de entendimento da criatura. às vezes. Tem-se que dizer por paralelismo. acima de tudo. Mede-se o nível de evolução do indi- víduo pela forma que ele tem de se expressar. é algo que. uma doutri- na de cultura e nós não devemos adotar a gíria ou uma lin- guagem vulgar para facilitar o nível da conversação. seria uma árvore. mas. a ma- neira de vestir a idéia é-lhe importante. grunhia. não é necessariamente. A ten- dência para a civilização deu-lhe o vocabulário. uma árvore. há alas dedicadas ex- clusivamente a ela. a nota de cem pesos tem a sua efígie. Não apenas pela forma. — Ê difícil. viveu para a literatura. Falava e escrevia fluentemente seis idiomas. Nesse aspecto. Quando o padre Vieira estava no Brasil. Ê a deusa do México. um fato desconhe- cido. no México. porque limitamos o pensamen- to. As palavras têm conteúdo emocional pelo qual são co- nhecidas. a gente vê a missão his- tórica desse Espírito. No Museu de Chapultepec. nos séculos dezessete e dezoito. ela escreveu- lhe uma carta e um artigo reprochando-lhe determinado . quando foi Juana Inés. Foi uma mulher revolucionária. Este é um grande problema. teremos de o vestir com expressões conhecidas e nem sempre o logramos. para nós. símile das nossas. praticamente uma alta personalidade histórica.16 SUELY CALDAS SCHUBERT — Porque o Espiritismo é. é matá-la. era uma monja que possuía milhares de volumes lidos e co- mentados. mas nem tudo o que existe lá. Joanna me disse que.

contami- nou-se e morreu. ela se dedicou à Ordem. O nome civil dela. que se publicou na Bahia. Ê impressionante. A Or- dem era mística e muito austera. a de São Jerônimo. as formas. Aí nasceu um vínculo com o Brasil. reencarnou-se no Brasil. Foi o suficiente para que se desfizesse de toda a biblioteca. como o Espírito plasma. na qual entrou como noviça e exer- ceu todas as funções até ser Abadessa. Joana e foi para o convento como Joana Angélica de Jesus. procurou examinar o que fazer . também. em jornal exis- tente na época. No convento na Bahia. era dedicada também à caridade. que era uma mu- lher acostumada a pensar e a escrever.. no México. a estatura. Para poder mantê-lo estudou mais o português e o conheceu em profundidade. Ê muito curiosa essa programação das reencarnações. a Abadessa chamou-a e disse que ela era uma religiosa orgulhosa da cultura e que a Ordem. como se pode constatar nas pinturas que a retratam. assim. no Brasil. a madre lhe deu o nome de Juana Inés de La Cruz. vendendo-a e dando os proventos aos pobres. Informou-me.. Joanna plasmou o mesmo rosto nas duas últimas reencarnações. como Joana Angélica. No Brasil. in- clusive. de uma cortina. ela aceitou os votos de si- lêncio e como eram monjas enclasuradas nunca um secular podia vê-las. Mas. Fazia-se voto de silêncio e de dedicação total. Depois. também. Quando tomou hábitos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 17 comportamento. tudo quanto constitui conquista ou perda. a fisionomia. lembrando no inconsciente do atendimen- to aos pobres e aos pestosos. era Juana de Asbaje. Vestiu então um buril e foi atender aos pestosos. viveu numa Ordem religiosa. sendo. o psiquismo. Quando se tornou Abadessa. contemplativa. Atendiam a todos através de um véu. a feiúra. na qual estava. Ela era. noutra oportunidade. ela. entregando-se em holocausto. a beleza física. Oportunamente.

em 1822. Quando desencarnou. assim o supuseram. Santo Agostinho. já pensando nessa obra que viria muitos anos depois. que buscavam. cujas filhas se equivocavam. de repente. prepotentes. de ma- drugada. como estrangeira-brasileira (Espíritos estrangeiros que somos todos nós aqui. que lhes era im- posto. a paz que perderam. sendo levada para o contato com os Espíritos da Codificação e para uma adaptação do pen- samento cristão. Aquelas pessoas aclimatadas a sensações muito fortes e. o Consolador estava pro- gramado para o Brasil e ela. Muitos pais. Ela reeducava aquelas pessoas. Assim. digamos. dentre os quais. eram vencidas por crises histéricas. porque O tinham que respeitar. Entre elas muitas havia. faziam um mecanismo de transferência psicológica para o Cristo-homem e não para o Cristo-Deus. . Dedicava as horas vagas. eu santifiquei a arte de amar e entender. eram enter- radas vivas. mas. no arrependimento dos erros. sendo levadas a amar ao Cristo. meu filho — asseverou-me ela —. Referiu-se às cenas noturnas do monasterio. não "pensar mal" e sendo atormentadas. Jovens que realmente amaram e foram enganadas e outras que nem sequer se equivocaram. aceitou uma das mais difíceis tarefas — notem que Espírito líder — a de reeducar mulheres equivocadas. quando fazia visitas às celas. internadas ali para não saírem mais. foi convidada a fazer parte da equipe do Espírito de Verdade. porém. os pais. Passou por uma adaptação mental para pensar em termos cósmicos e não em termos terrenos. ao cristão liberado que devia vir no Espiritismo. Começou aí a participar da tarefa. que estava deturpado pelos conceitos dog- máticos. — Ali. para conversas con- soladoras e profundas meditações. com ex- ceção dos silvícolas). isto é. as chamadas "arre- pendidas".18 SUELY CALDAS SCHUBERT de modo a atender à Ordem e servir a Jesus. coibidas. como sucedeu também com outros. que o fize- ram antes. do conceito católico. a "Mansão do Caminho".

por- que nós já vivemos aqui. ao meio-dia. Como te disse. Mas. Fomos. fizemos uma visita a Assis. Assim eu tive notícia de mais esta reencarnação de Joanna. que estava comigo. E confirmou que um de seus filhos. Ela faz o paralelo entre aquele que . a luta tiranizante da transformação moral no dia-a-dia. Ela deu o título de "Emulo de Jesus" e está no livro A Ser- viço do Espiritismo. exatamente — porque era uma hora em que se encontraria deserto o lugar e não teria turistas. vinculado também aos nossos sentimentos. um grupo de quatro pessoas. Mais tarde. tendo dado a vida em holocausto. e descemos à crip- ta onde estão os seus despojos carnais. as glórias terrestres não terás que conquistá-las. A nossa vincula- ção com Jesus é muito antiga e esta existência tua deves levá-la com muita abnegação e sacrifício. e estando no Monte Aventino (ano de 1970) numa viagem histórica que realiza- mos com objetivos doutrinários. O SEMEADOR DE ESTRELAS 19 Posteriormente. a mim. que nos pediu visitássemos a cripta onde está inuma- do São Francisco. no mês de agosto do ano de 68 por fidelidade a Jesus. por estímulo dela. até o fim. no intervalo de palestras. ela me levou e ao Nilson. faz muito tempo. elucidando-me: — Eu tenho muito amor histórico a esta região. aquele que morrera com ela na fo- gueira. E me contou que havia sido a personalidade Joana de Cusa — e eu a vi transfigurar-se na mártir — a que se refere o Evangelho. E diante do túmulo ela me levou ao transe mediúnico escrevendo uma mensagem que eu reputo muito profunda. Ali ela me falou: — Eu desejo aqui escrever uma mensagem. a uma região próxima às Aguas Termais de Caracala e apontou um dos morros. era alguém que estava hoje reencarnado. visitando Roma. a esta luta eu te incito e te invito com freqüência até o últi- mo hausto da tua existência. não interessam e espero que a ti também não.

através de médiuns responsáveis. porque eu desejo ainda que alguém es- creva uma mensagem neste local. Ali. Ao terminar de ditá-la. a partir do século primeiro. vai também escrever uma página. determinou: — Aquieta-te. encontramos a revela- ção do passado espiritual da Terra e de nosso país. . O Espiritismo. de Emmanuel e Brasil. especialmente. intitulada "Encontro na Estrada". A partir. e. ela me desvelaria um outro ângulo de suas existências. Joanna nar- rou-me várias das suas reencarnações. Pátria dó Evan- gelho. em sucessivas reencarnações. que na Terra foi bailarina. que fica na parte superior da cidade.20 SUELY CALDAS SCHUBERT acompanhou Jesus em todas as Suas pegadas com um espí- rito de fidelidade. Logo. levou-me a passar pela mes- ma estrada. e que eu já conhecia. de abnegação que ninguém teria feito igual. E me trouxe uma jovem. O que realmente aconteceu. Muitas revelações têm sido feitas. . Ê a estrada que liga Assis a Santa Maria dos Anjos. Depois conduziu-nos ao Monasterio de Santa Clara. oferece ao homem a possibilidade de conhecer a história espiritual da Humanidade. pelos Espíritos Su- periores. estando esta mensagem in- serida no livro No Longe do Jardim. . de Humberto de Campos. Coração do Mundo. ao longo do tempo. depois. em seguida. na sua escalada evolutiva. dos livros A Caminho da Luz. oferecendo-nos condições de visualização de um enorme painel com a tra- jetória do ser humano. explicando-me: — Eros (que é um pseudônimo). ambos psicografados pelo médium Francisco Cândido Xavier. diante do corpo em conservação de Clara de Assis. Mais tarde.

de recomeço e de refazer a sua caminhada. Existem várias provas disto. da qual se tornam condutores. em nosso próprio Movimento Espírita. numa demonstração flagrante de desco- nhecimento doutrinário. Quando nos referimos a tais Entidades Superiores que lideram o Movimento. A Misericórdia Divina proporciona ao homem ensejos benditos de aprendizagem. Em cada uma de suas reencarnações. embora alguns tenham uma visão distorcida a respeito desses Mentores. no sentido de inspiradores e/ou motivadores do progresso. realmente. um dos guias espirituais da Humanidade. contudo. em função do respeito. o fazemos na compreensão racional. no entendimento da traje- tória espiritual dos povos que a Doutrina enseja. para que aprenda a alçar seu próprio vôo. sem haver. sim. sobrepondo-se à imensa mole humana. sem sombra de dúvidas. é a de que existem Espíritos Superiores como Mentores de nações. de determinados grupos humanos. em várias . O SEMEADOR DE ESTRELAS 21 Inúmeros vultos históricos nascem e renascem com ta- refas específicas. ela pontificou como Espírito de Luz sen- do reconhecida e venerada com diversos nomes. dos quais pas- sam a ser devotos. admiração e amor que lhes dedicamos. de que existem. Esta é uma realidade comprovada. Uma das mais belas facetas. Joanna de Angelis é. lúcida. Mesmo porque os Benfeitores lutam para que o homem se liberte dessas amarras. em O Li- vro dos Espíritos. os Benfeitores que têm responsabilidades para com a marcha da Doutrina em nosso país. mas. de nossa parte. por cuja evolução laboram com abnegado amor. muitas delas no seio da Igreja Católica. Allan Kardec a isto se refere. pois já se podem detectar algumas dessas lide- ranças espirituais. São incontáveis as almas que o seu coração amorável e sábio reuniu para formar a sua grande família espiritual. quaisquer laivos de endeusamento em relação a encarnados e desencarnados. pelo que se desdobram em ensina- mentos e exemplificações. perguntas 519 a 521.

Os Benfeitores da Espiritualidade Maior. assim. e o faz em nada menos que 54 itens. que ao longo do tempo foi-lhe sendo revelada. Divaldo Franco. com vistas à obra mediúnica de Divaldo e à orientação imprimida por Joanna de Angelis. discreto. sempre se manteve dentro de uma ética irrepreensível. humilde. Colocados todos esses critérios de investigação ao nos- so alcance. todavia. A perfeita identidade de propósitos. jamais alardeou a superioridade de sua Mentora. A maioria. Prudente. as principais caracte- rísticas dos Espíritos Superiores> esclarecendo ser essencial que o médium as conheça para avaliar a categoria dos Espí- ritos comunicantes.22 SUELY CALDAS SCHUBERT partes do mundo. aconselham-na. porém. * * * As explicações de Divaldo sobre a circunstância de ser Joanna de Angelis um dos Espíritos da Codificação são bas- . preferindo tudo aceitar sem uma avaliação crite- riosa. no capítulo X X I V de O Livro dos Médiuns. como também jamais cessam de conclamar ao estudo constante e à renovação moral. no decurso dessas quatro décadas de labor apostolar. vamos encon- trar a coerência e a total identificação com os postulados da Doutrina. o que lhe ampliou a família de forma considerável. O Codificador relaciona. * * * Allan Kardec aborda. dão-nos a melhor resposta. a vivência consentânea e por todos comprovada. principalmente. atestando um pro- grama espiritual superior a cumprir-se com fidedignidade. que "descobre" a história real de Joanna de Angelis. a questão da identificação dos Espíritos. negligencia essa pesquisa. É no exterior. esquece. a fideli- dade a Jesus e a Kardec. Tais critérios devem ser sempre utilizados pelos mé- diuns na análise crítica que devem realizar de seu desempe- nho mediúnico.

A primeira dessas mensagens está no capítulo I X . Este fato é muito significativo. Algumas dessas Entidades já traziam os seus nomes em nossos registros históricos. as mesmas caracterís- . sem re- velar a sua verdadeira identidade. na Bahia. con- forme Humberto de Campos. como Joana Angélica. mas o faz como "Um Espírito Amigo". e a segunda. Espíritos de escol se desdobraram para que o Espiri- tismo florescesse em nosso solo abençoado. deixando-se conhecer. A princípio ela se identifica ao médium como "Um Es- pírito A m i g o " e somente mais tarde com o pseudônimo atual. Joana Angélica. só após quatro décadas de labor com o mé- dium é que ela se deixa identificar como tal. item 15. Ela tem o ensejo de assinar duas comunicações psico- gráficas que foram inseridas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. portan- to. Contudo. o seu pensamento cristão adaptado à visão nova que a Terceira Revelação propiciaria. pois evi- dencia os vínculos com a Falange do Consolador que. item 7. Nessas diferentes reencarnações. As raízes históricas de Joanna de Angelis estão. especialmente nas hostes da Igreja católica. convidada a participar da Falange do Espírito da Verdade tem. cujas raízes foram bus- car a ubérrima terra baiana para se fixarem. trasladaria da França para o nosso país a árvore do Evangelho. A sua participação nas lutas pela Independência do Brasil. "Dar-se-á ao que tem". Joanna plasma o mesmo rosto. conforme Divaldo elu- cida. contudo. quando ditou uma mensagem alusiva. então. que também foi o berço do Espiritismo em terras brasileiras. no capítulo X V I I I . ela que é reconhecida. só foi tornada pública por ocasião do ses- quicentenário desta memorável data. O SEMEADOR DE ESTRELAS 23 tante coerentes com todo o seu passado histórico e o seu presente. amada e venerada em alguns países da Europa com os di- versos nomes de suas diferentes reencarnações. "A paciên- cia". finalmente.

sempre voltado para os in- teresses materiais. que o acompanhava. É a prova inconteste da reencarnação. Joan- na o convida e a Nilson. mostrando o Espírito superior a habitar diferentes corpos e imprimindo nestes a marca inconfundível de sua individualidade. os caracteres de sua personalidade tam- bém despontam vitoriosos nessas várias existências terrenas. Ao encontrar Jesus. é tomada de verdadeira fé e reconhece estar diante do Mestre a quem passa a amar com toda a alma. pela fé que a alimenta de sagrada chama. narra. também. na educação de seu único filho. A cena final da vida dessa estóica mulher é impressio- nante e recomendamos a sua leitura. a conhecer . pois não apenas tem de testemunhar por si mesma. o martírio de Joana de Cusa — talvez o mais expressivo exemplo de amor ao Cristo que nos é dado conhecer. na obra mencionada. esposa de Cusa. Por Ele vence os problemas domésticos e compreende as dificuldades íntimas do marido. narra Divaldo. # » * Em sua primeira viagem a Roma. Deste testemunho de fé profunda e ver- dadeira não abdica nem mesmo para livrar o próprio filho do sacrifício. mas também pelo filho amado que ela entrega a Jesus em suprema renúncia. enquanto empenha-se. A trama da vida coloca-a em situação ímpar. Com a morte deste. * ** Humberto de Campos. O exemplo de renúncia e sacrifício de Joana atravessa o tempo. Joana. em seu es- tilo inconfundível.24 SUELY CALDAS SCHUBERT ticas morfológicas que hoje a identificam de maneira assom- brosa. em seu belíssimo livro Boa Nova. Por outro lado. Por amor a Jesus e aos ideais do Evangelho nascente ela se deixa imolar. intendente de Ântipas. psicografia de Francisco Cândido Xavier. Joana pôde dedicar- se integralmente a Jesus.

a exemplo de outras. transportados pela "máquina do tempo". Joana de Cusa dera a vida a Jesus. também. com o passado ali. realmente está eternizada co- mo cenário de sacrifícios e testemunhos cristãos e na sua psicosfera estão registrados os feitos e os fatos de um pugi- lo de almas que. Naquele instante decisivo. tão presente e vivo. Após entretecer considerações demoradas. a cidade dos Césares e dos mártires. hoje conhe- cida como a "Cidade Eterna". Joanna de Angelis passa a ser tam- bém Joana de Cusa. defendendo os mesmos ideais. por um Amor Maior. em outros lugares e tempos. que vamos encontrar qua- se dois mil anos depois à porta do convento da Lapa. se deram em holocausto ao Amor. envolvidos todos por indescritível emoção. na- quela região. ela esclarece que. ao lado de inúmeros outros cristãos. vivendo para Jesus e por Ele novamente oferecendo a própria vida. Impossível imaginar-se cena mais tocante que a deste reencontro de almas. resgatado dos arquivos da ambiência etérica. desentranhado não apenas dos arquivos mnemónicos. Sua coragem e decisão são as mesmas com que enfren- tou o circo e é o mesmo e definitivo amor com que se en- trega a Deus. O SEMEADOR DE ESTRELAS 25 as colinas e. e de vivência plena do Evangelho. na Bahia. que o Mestre já lhe conhece a superior fidelidade — que se pode morrer por um ideal. . No transcurso da narrativa Divaldo a vê transfigurar-se na mártir e. mas. Joana Angélica é Joana de Cusa que retorna do passado e que se deixa imolar para mostrar aos homens — não a Jesus. a fim de que permaneçam vívidos os exemplos de fé. no Monte Aventino ela aponta o local onde se erguia a Domus Áurea (Casa Dourada) onde Nero vivia. da fé acrisolada e estuante. de estoicismo. * * * É esse Espírito talhado na forja do sacrifício e da abne- gação. como se estivessem mergulhados em seus arcanos. Roma.

o reinado do Amor e da Paz. so- mando experiências. com a plenitude do conhecimento. Joana de Cusa. E o faz já por quatro décadas sucessivas. a sementeira do Evangelho a várias regiões do globo e a libertação definitiva desse grande con- tingente de almas que integram a sua família espiritual. Juana Inés de La Cruz. ao mesmo tempo. hoje. orientando e assessorando a obra mediúni- ca de Divaldo Franco. . que mantém a obra. uma era nova se anunciava para a Humanidade com o advento do Consolador prometido por Jesus. assegurando a sua continuida- de. reunindo ali um grupo afei- çoado. mártir e santa muitas vezes até ressurgir como a Ins- trutora Espiritual Joanna de Angelis?) Nunca. no caso da Mentora de Divaldo "colecionando" reencarnações vito- riosas. Juntos concreti- zam a "Mansão do Caminho". há dois mil anos. na Terra. (Não será assim a ressurreição a que Jesus se refere? O mesmo Espírito transfundindo-se através de sucessivas vidas. adquirindo conhecimentos e. pelo menos. ela que. De revelar o seu acendrado amor ao Evangelho e mostrar- lhes que este é o caminho. Ansiando por levar ao mundo as notícias da Doutrina Espírita elabora um projeto grandioso que pudesse signifi- car. vive para o Cristo. ressurgem na presença de luz de Joanna de Angelis. Ei-la. ela teve ensejo de falar aos homens. como agora.26 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. para mostrar ao mundo que é possível instalar-se. Joana Angélica. seu filho espiritual.

o irmão da pessoa que nos . entorpecem os sentidos e aniquilam os ideais. eu a vi por primeira vez. mas eu te afianço ser necessário que. A minha memória guardou a data. à noite. contes com a minha presença de amiga na razão direta em que eu possa contar contigo nas necessidades do nosso programa. Não a vi com as características de religiosa com que ela se vem apresentando nos últimos trinta anos. na tua fideli- dade à palavra do Senhor. 3 JOANNA E DIVALDO No dia 5 de dezembro de 1945. Não esperes de mim aquilo que o mundo pode dar e que tu conseguirás com teu próprio es- forço. Isto se deu na residência de uma família amiga. onde o grupo se encontrava semanalmente. num porão. Por uma curiosa "coincidência" esteve ontem e talvez esteja hoje. todas as terças-feiras em um quarto modesto. Não te prometo as regalias nem as comodidades que. às vezes. porque foi um momento de muita significação e importância na minha atual exis- tência. na palestra. próxima de mim e uma voz muito meiga que me disse: — Eu tenho a tarefa de caminhar contigo na atual exis- tência corporal e envidarei todos os esforços para que a nossa tarefa se coroe de êxito. mas vi uma claridade muito grande. É muito significativo constatar a similitude de acontecimentos.

Portanto. Era na residência de sua irmã Eunice. a necessidade.28 SUELY CALDAS SCHUBERT franqueava a sua casa para as nossas reuniões — o senhor Ederlindo Sá Roriz. A Vingança do Judeu. em Juiz de Fora. àquele tempo. não pude sopitar a minha curio- sidade de fazer-lhe uma pergunta. Já tinha alguma noção de Doutrina Espírita. de certo modo. constituiu-nos um farol aceso lutando contra a ventania. porque tinha muita preocupa- ção com os nomes. no exercício de mediunidade. no Centro Espírita Joanna de Angelis. Eu fiquei algo frustrado. Já havia lido alguns ro- mances Eleonora. que eram os romances da época. A partir daquela época a nossa vida passou a ter uma diretriz e um significado de bom direcionamento. Fui seu hóspede em Pedro Leopoldo. eu per- guntei: — Como é o seu nome? — Chama-me "um Espírito Amigo". Vítimas do Preconceito. logo ao amanhecer do dia imediato. (Nota da Editora) . Ainda me recordo que. porque nós não tínhamos a menor idéia do que era o Espiritismo. Nestes qua- renta e dois anos * que nos separam daquela oportunida- de. essa Entidade. ao estar na casa de Chico Xavier. naquela noite de 5 de dezembro apareceu-nos esse ser espiritual e se comprometeu a ajudar-nos. ( * ) A narrativa foi feita no mês de setembro de 1987. a princípio anônima. porquan- to eu passei a senti-la e vê-la quase diariamente. e então. MG. mas o "Espírito Amigo" me atendeu. estava estudando-o. Passaram-se os anos e aquele "Espírito Amigo" conti- nuava a estar comigo. naquela mesma noite. No ano de 1949 eu conheci o médium Francisco Cândi- do Xavier. que nós nos reuníamos para tentarmos os primeiros passos. já havia lido O Livro dos Espíritos.

Certa vez. O Espírito sorriu. Jesus eu já sei que o é. com essa visão transcendental. O Espírito sorriu outra vez. Foi o mesmo que não ter visto. Eu vou pegar uma beiradinha de nada. do Ministério da Agricultura. pois todos sabiam quem era o seu guia. E o Chico. Eu queria ter um para mim. não posso dizer quem é.. e respondeu: — Divaldo. você. eu vou dizer: o teu Guia é Jesus. Todo mundo queria ter um guia e eu também. havia uma mentalidade guiista. mas não sei quem é. você há de ter tido qualquer nome na Terra. — Ê. — Eu não sei. Quando me apareceu eu me queixei. o do nome do guia. onde era datilografo. que resolvi conversar seriamente com o "Espirito Amigo". . mas todos in- formam: Fulano é o meu guia. Divaldo. — Por favor — insisti — me dê um nome. que era filho de Deus). di- zendo que estava muito desgostoso. menos eu. eu vi. com a mineirice dele. tu me chamarás Joanna. Ao largo dos anos as pessoas sempre me perguntavam: — Mas. disse: — Divaldo. viu quem é o meu guia? (Porque. mas Ele é o guia de todo mundo. uma senhora insistiu tanto neste assunto. Eu quero um guia para mim.. eu lhe perguntei: — Chico. O SEMEADOR DE ESTRELAS 29 Quando despertamos e antes que ele fosse trabalhar na "Fazenda Modelo". Pois as pessoas me per- guntam e eu respondo: "Um Espírito Amigo". que coisa. à época. pois eu não sei. quero lhe fazer uma pergunta: Quem é o seu guia? (Era o meu ponto nevrálgico). pois ficamos como es- távamos. jovialmente e falou: — Bem. da Humanidade inteira.

à época. chama-me Joanna de Angelis. tivesse desabrocha- do. Eu me comovi e me senti profundamente a ela vincula- do. tão anônima. em Salvador. foi mulher? — Sim. a respeito de nossas vinculações e te dissesse quem eu era. eu fui mulher.. e me deixou fixar a imagem. mas ela me apareceu com um esplendor que me fazia recordar uns quarenta anos de ida- de. E perguntei-lhe: — Por que a senhora não me disse antes? — Tu eras muito imaturo. — Mas. Quem pre- tende servir a Jesus deve aprender com o tempo e discipli- nar a vontade. o véu azul. A mediunidade é um ministério de autocon- trole. e eu a vi.. Ela desencarnou. aquela idade que está além do tempo e além do espaço. Finalmente o meu desejo fora atendido. Ela me apareceu luminosa. na última encarnação. Se eu te anunciasse. de disciplina e de serviço. pois me aparece assim. Tu sabes quem foi a Abadessa Joana Angélica de Jesus. na tua ingenuidade e no teu entu- . era a da paciência. Divaldo. — A senhora deixa-me ver o seu rosto. e que deu a vida nas lutas da Independência da comunidade brasileira. com mais de sessenta anos.30 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive uma pequena decepção. com uma riqueza de detalhes talvez maior do que a que eu estou vendo nas pessoas agora. no momento. como se isto em mim. só Joanna? — Olha. — Quer dizer que a senhora. Ela então se materializou diante de mim. aqui. por ocasião do teu começo. Quando ouvi o nome latino fiquei mais satisfeito. E a primeira lição de sabe- doria que eu te queria dar. as mãos estendidas.. Eu fui Abadessa do Convento da Lapa. porém. eu ain- da queria algo mais. uma beleza e uma idade indimensional. achei o nome tão sim- ples. .

é claro. A identificação das Entidades que se comunicam por um médium. Entretanto. entre nós. Alguns médiuns têm dificuldade. tornar-se um problema angustiante. . Quero dizer-te que. no princípio. Agora já transcorreram mais de dez anos e estás em condições de saber. c o m o no caso de Divaldo. pois c o m o tempo a revelação se fará. O SEMEADOR DE ESTRELAS 31 siasmo baratearias muito estas informações. de captar a identidade dos Espíritos que o assistem. já és um homem. a não ser nos casos de pesquisa científica ou quando vêm espontaneamente. de re- pente. a abandonavas. uma tarefa passa a ter valor depois que os dez primeiros anos são vividos com abnegação. Allan Kardec comenta sobre o tema. Neste caso. já merece uma promoção de responsabilidade. não carece necessariamente de ser feita. Isto não deve. os Espíritos responsáveis. já tens uma visão mais cósmica da vida e assim já nos podemos entender muito mais.. Por- que até dez anos de atividades pode-se considerar um tra- balho de entusiasmo. no capí- tulo X X I V de O Livro dos Médiuns. A questão do Guia Espiritual e o desejo do médium em saber-lhe a identidade expressam uma curiosidade bem humana e própria de todos os indivíduos. pois não tinhas essa maturidade que os anos ofere- cem e que o sofrimento imprime na personalidade. porque. é bastante normal que este queira saber-lhe o nome. mas quem é fiel em dez anos de lutas. É oportuno recordarmo-nos de como o Professol Rivail teve ciência do seu Guia Espiritual. — Ademais — prosseguiu Joanna — eu não confiava em ti. em que Joanna queria permanecer incógnita. Agora. Não te poderia dar uma tarefa além das tuas forças.. há de se fazer a distinção entre os vários comunicantes e o Mentor Espiritual do medianeiro. contudo. A não ser.

. — Zéfiro — que já se manifestava nas reuniões da família Baudin. o outro. Allan Kardec já interro- gara o Espírito Z. Ao ser in- formado. K . — O nome Verdade. porque "os nossos médiuns o viam envolto num véu azul". ( . até que. — Meu Espírito familiar. ) A . agradeço-te o me teres vindo visitar. é um guia que te protegerá e ajudará. ficou sendo para Kardec um amigo e protetor. um Espírito feminino. na sessão em casa do senhor Baudin. nada mais saberás a respeito. ao tempo em que a família Baudin se dispersou. chamar-me-ei A Verdade. mais tarde. . para ti. sobre a questão de seu (dele) Espírito protetor. estarei à tua dispo- sição. isto. (Idem) Leon Denis. O Espírito Z. cuja personalidade se ocultava sob vago pseudônimo. um dos quais Jerônimo (de Pra- ga). por sua vez afirma: "O nosso grupo (mediúnico) achava-se sob a proteção de dois Espíritos elevados. de que falei acima. ) A . o Codificador trava com ele o seguinte diálogo: " A ." Esclarece Denis. quem quer que tu se- jas. K . . — Terás animado na Terra alguma personagem conhecida? R — Já te disse que. constitui uma alusão à verdade que eu procuro? R — Talvez. aqui.32 SUELY CALDAS SCHUBERT Ele esclarece que até àquela época denominava por Espírito familiar todos os Espíritos simpáticos. o "Espírito Azul". . que adotaste. era dotado de maravilhosa penetração. Consentirás em dizer-me quem és? R — Para ti. (Obras Póstumas — Grifos no original)" Antes desse diálogo. para ti. que esta Entidade era assim denominada. sou a Verdade. pelo menos. contudo. anunciou que reencarnaria. ( . e todos os me- ses. que seu Espí- rito familiar estava presente. durante um quarto de hora. quer dizer discrição. (No Invisível) . K .

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a Entidade Espiritual estabelecia a ligação histórica entre a promessa do Mestre e o advento da Terceira Reve- lação. . Divaldo não deveria ser inteirado desses dados antes de. uma década para que o trabalhador da seara espírita mereça uma pro- moção de responsabilidades e. tornando-a. de credibilidade perante o Mundo Espiritual Superior. pelo menos. numa curiosidade bastante natural. um fato real — a promessa consumou-se. que vê freqüentemente a seu lado. um decênio de trabalho contí- nuo e perseverante. é uma revelação no- tável. Quando Joanna de Angelis revela a sua identidade e se deixa ver na beleza de sua elevação espiritual. capítulo I X . que simboliza o próprio Cristo. portanto. ao responder ao então Professor Ri- vail. o zelo quanto ao desempenho do programa espiritual traçado são impressionantes. perfeitamente. A discrição. Nesse diálogo com o médium ela ressalta a necessidade da disciplina. mais tarde. de paciência. quando então assina como "Um Espírito A m i g o " . O SEMEADOR DE ESTRELAS 33 Os Guias Espirituais. tenta iden- tificar aquele "Espírito Amigo". Naquele instante. no mínimo. o Consolador. o Espírito de Verdade. a partir daí. Segundo ela. do autocontrole e do serviço constante na tarefa da mediunidade. item 7 e que versa exatamente sobre esta vir- tude. identifica-se. transmite também ao médium um valioso ensinamento. O prazo de. certamente. identificam-se ou ado- tam um pseudônimo ou denominação qualquer. a prudência. que o ajuda e orienta. * * * Divaldo. É um teste completo de persistência. Afirmando que a primeira lição era a da paciência. com a promessa de Jesus de que enviaria. O Espírito da Verdade. ela repete o primei- ro tema que aborda em O Evangelho Segundo o Espiritismo. tendo em vista as circunstâncias.

34 SUELY CALDAS SCHUBERT de fidelidade aos compromissos assumidos. . de vivência. que não se consegue realizar antes de serem percorridas todas as etapas concernentes à própria evo- lução. en- fim. O processo de crescimento espiritual e quaisquer tare- fas de cunho espiritual requerem todo um laborioso ama- durecimento. integral.

Eu irei escrever muito pelas tuas mãos e tempo virá que eu te requisitarei várias horas para o ministério da escrita. e das cinco às seis ela escrevia uma página. para que possam lutar e triunfar na sua atual experiência. — A princípio. Levantava-me às cinco horas da manhã. quan- do as forças te diminuírem e as distâncias se fizerem in- transponíveis. Porque. sob a direção de Francisco de Assis. A mensagem escrita chegará periodicamente co- mo estímulo. do passado eu trago comigo um número muito grande de almas que me são afins e estão espalhadas. para levá-la de volta aos braços do Carpinteiro Galileu. tu irás convidá-las pela palavra e. será uma marcha muito longa. Comecei a psicografá-la diariamente. neste largo período. às quais desejo mandar a minha mensagem de amiga. a mensagem escrita chegará até elas. e ela escrevia. Essas almas são a família espiritual de Joanna. mesmo viajando. .A FAMÍLIA ESPIRITUAL Os anos sucederam-se e Joanna de Angelis explicou-me: — A nossa. Caminhare- mos muito. Nova- mente elas virão e muitas necessitarão do alimento ao longo do tempo. que o fazia. Às cinco da manhã. des- pertava. 4 JOANNA . reunindo. que es- taria espalhada e que ela tem a tarefa de chamar. Isso me criou uma disciplina mediúnica ao largo dos anos. Já psicografei quase seis mil mensa- gens.

Po- dem. Todavia. pois o amor é intemporal e triunfa da noite dos milênios para ser um eterno amanhecer. Muitas vezes até. vindo aqui reunir-se numa mesma família. Cada vez menos presos à matéria. acometem o ser humano. podem ser derivadas das lembranças desses afetos dos quais se está momentanea- mente apartado. ilimitado número de exis- tências corpóreas. todos têm avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não. as almas afins se buscam no espaço e no tem- po e intercambiam as vibrações de amor e de alegria por se reencontrarem. não tem a perturbá-la o egoísmo. um perene "festival de bênçãos". uns seguem a outros na encarnação. ou num mesmo círculo. ao regressarem à erraticidade. assim. Não há distância que não possa ser vencida pelo amor. pela razão mesma de que mais depurada. item 18. nem as sombras das paixões. por vezes. pela simpatia e pela semelhança das inclinações. . Assim Joanna se empenha em nutrir espiritualmente to- dos esses corações que lhe estão vinculados. mais viva se lhes torna a afeição recíproca. sem motivo aparente. novamente se reúnem como amigos que vol- tam de uma viagem. sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga. Não existe tempo nem épocas. nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. As saudades. A encarnação apenas momentaneamente os separa. a nostalgia que." (O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ditosos por se encontrarem juntos. os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição. Estas são uma prova cabal de que os verdadeiros liames são os do amor. porquanto. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. esses Espíritos se buscam uns aos outros. portanto. Após cada existência. capítulo I V . percorrer. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cati- veiro.36 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o espaço.) Este trecho de Allan Kardec exprime bem o em que consistem as famílias espirituais.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 37 Em várias de suas reencarnações. à mesa edificante das idéias religiosas. o ignorante e o sábio. exaustas. . no mundo.(. transportando-a do santuário doméstico para o recinto do próprio coração. de outro modo. em esforço gradativo. até trazer a igreja ao próprio lar. por isto assevera: "E. o revoltado e o infeliz. Mais do que ninguém. . o indagador e o crente. a alimentar-se espiritualmente. Como nutrir tantas almas? Como ampará-las e escla- recê-las? Como consolá-las em suas dores? Como trazer de volta as que se transviaram? C o m o . há séculos. afirma: "Não falta alimento do céu às criaturas. Pouca gente medita na infinita misericórdia que serve. com recursos espe- cíficos. Logicamente isso aumenta-lhe o círculo de responsabilidades. Inclina-se o Mestre ao bem de todos os homens. desde a taba do indígena às catedrais das grandes metró- poles.. desfale- cerão no caminho. compreende Jesus que. ao comentar este passo do Evangelho." (Marcos. Nesses postos de socorro sublime.) Jesus manifesta invariável preocupação em nutrir os espíritos dos tutelados. porque alguns deles vieram de longe. ela pontificou como mártir e santa. as criaturas cairiam. ? Jesus preocupa-se com a multidão. socorrer e amparar a tantos que a buscam. através de mil modos diferentes. com fervor e devoção. Cheio de abnegação e amor sabe alimentar. o que nos leva a imaginar quão grande deve ser a sua equipe espiritual para atender. A forma como é realizado este atendimento sugere-nos uma estrutura tão grandiosa e tão perfeitamente organizada que nos leva a malabarismos mentais. se os deixar ir em jejum para suas casas. ligadas à Igreja Ca- tólica. o homem aprende. .. 8:3) Emmanuel. tornando-se co- nhecida e venerada por milhões de pessoas.

um perfeito encadeamento histórico. no qual é possível verificar a trajetória de um grupo muito grande de almas que.) Estas perspectivas que o Espiritismo desvenda à Hu- manidade. Divaldo. conforme ela orienta.38 SUELY CALDAS SCHUBERT nos imensos despenhadeiros que marginam a senda evolu- tiva. engrandece de maneira prodigiosa a idéia que temos da Bondade Di- vina e de toda essa fantástica corrente de amor e solida- riedade entre os seres humanos. como está bem claro. FEB. mais tarde. encontra-se sob a tutela espiritual de Francisco de Assis. . os convidaria inicial- mente pela palavra e. através das páginas psi- cografadas. Joanna de Angelis tem agora outro recurso para chegar aos corações que se lhe vinculam — a mediunidade." (Pão Nosso — capítulo 124 — Ed. Há em todo esse processo uma notável programação espiritual. de que aos poucos nos inteiramos.

5 A PREGAÇÃO ESPÍRITA Assim. graças a Deus. não os há. na Codificação. pessoalmente. en- contro sempre respaldo no pensamento kardequiano. sociológicas. Isto é perfeitamente lí- cito. tem as suas heranças culturais. a moral inspirada no Cristianismo. do meu ponto de vista. Para mim. recor- dando aos amigos portugueses a Doutrina Espírita. que me permite assim expressar. da filosofia e da religião. "nos moldes brasileiros". foi-me possível pregar com absoluta tranqüilidade em toda parte. este direito de liberdade. que "as leis de Deus estão escritas na consciência" humana. que Kardec defende em O Livro dos Espíritos. por ser até hoje. que pode ser apresentado como contribuição às áreas da ciên- cia. a Doutrina que melhor interpreta o pensamento de Jesus. porque. mas a Doutrina Espírita conforme apresentada por Allan Kar- dec. econômicas e não se pode estabelecer uma linha de comportamento rí- gida para os povos com padrões de temperamentos tão diversos. em Portugal. teríamos padrões . do contrário. Ê o direito de liberdade de consciência que ninguém pode violar. quando fala. que aliás. em cujo comportamento reli- gioso está a ética. não como às vezes a malícia e a má vontade de alguns querem dizer. Sabemos que cada país tem as suas idiossincrasias. Sempre temos o cuidado de pregar o Espiritismo con- soante está na Codificação.

A ver- dade é que a Metapsíquica. dos quais já nos libertamos. por conseqüência. Aceito-a como filosofia comportamental. conforme a cada um melhor lhe aprouver. Sempre coloco o Espiritismo como re- ligião. "de uma nova Metapsíquica". Portanto. quando abandonamos a ortodoxia ances- tral. eu o teria na condição. e. nem filosófico. Como a Doutrina Espírita é simples. ela seria corpo tão estranho que necessitaria de novos teólogos para nos dizerem como en- tendê-la. na Sociedade Es- pírita de Paris em 1. desde que. a Parapsicologia. porém. qual ocorre com o Espiritismo. E sendo convidado para . também encontraram a imortalidade da alma. e não necessita de pessoas que a interpretem para nós. mas cujo método de investigação científica é utilizado pelas chamadas doutrinas acadêmicas. No entanto. na comemora- ção anual do "Dia dos Mortos". retirando-se a feição religiosa do Espiritismo. sempre apresento a Doutrina Espírita como ciência que o é." de novembro de 1868. clara e pura. de acordo com a corrente dos investigadores moder- nos. a Psicotrô- nica. sem que esteja jungido à chamada herança judaico-cristã — que aliás não diminuiria em nada o valor da minha crença — aceitar o componente do Es- piritismo religioso sem prevalência de um aspecto sobre o outro é natural. para mim. porque se tal ocorresse. é inevitável que nos preparemos para esse porvir. sabendo que há um amanhã. sem defraudar-lhe os objetivos. Portanto. um campo muito amplo para que cada um se movimente no seu corpo. capaz de iluminar o idealismo clássico e atender a todas as necessidades do pensamento histórico da criatura humana. instrumentos que nos dêem uma metodologia de ciência eminentemente espiritista. porque assim o admito. oferece-nos. para mim. Dumas. essas ciências não dispõem de um comportamento ético. con- forme está no discurso de Allan Kardec. em verdade. porque ainda não temos. a reen- carnação.40 SUELY CALDAS SCHUBERT de comportamento sob supervisão de chefes. Também nela encontro a seiva de sustentação do conceito religioso. como diz M.

que começa com o estudo a respeito de Deus e atinge a sua grande exaltação nas Leis Morais. o filho de Deus. anuo total e plenamente com o con- ceito que Emmanuel. um ho- mem. imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!? E neste sentido. A nossa pregação. mas esse Cons- trutor da Nossa Terra e o Governador (no bom sentido da palavra). fundamentada nos objetivos da Doutrina. mais me merece Jesus. sendo ainda um Espírito em processo de evolução. para servir-lhe de modelo e guia" (questão 625 de O Livro dos Espíritos. e não seríamos tão infantis para irmos a um país estrangeiro levar esse pensamento libertador com as falhas de uma opinião pessoal.). da Trindade. . se Kardec nos merece tanta conside- ração. sem a estrutura documental da Codificação. por serem as Leis Naturais. Então. pois sabemos pela resposta que os Espíritos deram ao Codificador que Ele é "o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. é abso- lutamente kardequiana. que aliás não há. o Nazareno. mas sobretudo. sim. português ou espanhol. Há. e principalmente. que é um ato ancestralmente religio- so. pela mediunidade ímpar de Francisco Cândido Xavier. a Doutrina Espírita interpretada pelo temperamento de cada povo. em O Livro dos Espíritos. Sigo a diretriz do Cristianismo. portanto. não o Cristo da teologia católica. em qualquer lugar. porque o respeito que me merece Allan Kardec. como é natural. que se apresentam como fundamentais para a vida. Daí não cometeríamos a leviandade de apresentar um modelo brasileiro. a Quem aprendemos a amar e a respeitar em pro- fundidade. baseadas na Lei do Amor e têm o seu início na "Lei de Adoração". O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 41 fazer palestras eu apresento a Doutrina conforme a vejo e conforme a sinto. não apenas em O Evangelho Segundo o Espiritismo. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. como não há um mo- delo francês. nos apresenta em torno de Jesus. que nenhum espírita o admite.

Por certo que Divaldo. especialmente. uma adequação do discurso a ser feito. sobretudo. escrita ou falada. portanto. com a sua percuciente capaci- dade na transmissão dos princípios doutrinários. Daí não falarem a um chinês. os Espíritos da Codificação. não é de bom aviso atacar bruscamente os pre- conceitos. que alguns citam como verdade. aliada à inspiração e orientação dos Benfeitores Espirituais que o assessoram. especial- mente os que temos a tarefa de difusão doutrinária. Entre- tanto. esse conselho dos Espíritos citados. Aliás. tem feito a necessária adequação ao nível das platéias que o ouvem. Faz uma . ou a um maometano como falarão a um francês ou a um cristão. sem dissociar ou dar maior realce a um dos seus três aspectos. se fores um orador mais ou menos hábil. da forma de abordagem dos temas. capítulo 27 item 301 questão 3. dos estágios evolutivos.°. e. de cada cultura e. Por essa razão é que os Espíritos muitas vezes falam no sen- tido da opinião dos que os ouvem: é para os trazer pouco a pouco à verdade. ao responderem a certa pergunta de Allan Kardec. (O Livro dos Médiuns. pois estes fatores influem no grau de assimilação e apreensão dos ensina- mentos.) Deve existir. Esse é o melhor meio de não se ser ouvido. Divaldo coloca a questão em seu devido termo. o respeito às peculiaridades de cada povo.já haviam esclarecido quanto à melhor forma para o entendimento de qualquer assunto: "Aliás. Divaldo ressalta que apresenta a Doutrina Espírita con- forme está na Codificação.42 SUELY CALDAS SCHUBERT Doutrina Espírita — "modelo brasileiro" — curiosa afirmativa esta. como se se devesse criar um modelo de cada nacionalidade para atender — talvez seja por isto que surgiu esta idéia — ao patriotismo local. Apropriam sua linguagem às pessoas. deveria me- recer uma reflexão mais demorada de todos nós. como tu mesmo farás. É que têm a certeza de que seriam repelidos. no seu todo.

simultaneamente é traçado um paralelo entre esses conhecimentos e os ensinos do Espiritismo. para servir-lhe de modelo e guia. com certo caráter político embutido no bojo da ação assis- tencial. Por outro lado não se pode esquecer que muitos fazem uma opção pelo aspecto religioso. sendo ainda um Espírito em processo de evolução imagine-se o respeito que a nós não merecerá Aquele que é o protótipo da perfeição que se pode conceber na Terra!?" Atualmente há uma certa tendência. portanto. — uma parte mais amena. em geral. depois. Tudo isto. — um enfoque evangélico. Comprova-se isto pelo teor de suas palestras que. que pode vir na forma narrativa de uma passagem ou de um caso. pela resposta que os Espíritos deram a Kardec que Ele é o ser mais perfeito que Deus ofereceu à Humanidade. que aqueles vêm corroborar. do seu aspecto moral ou re- ligioso. também me merece Jesus. incorrendo. em detrimento sobretudo. cujas ilações advindas sempre ressaltam a figura do Cristo. contudo. se Kardec nos merece tanta considera- ção. seja para referendar os comentários anteriores. apresentam três tempos distintos: — uma abordagem científica. seja para possibilitar as deduções filosóficas decorrentes. a missão do Espiritismo como Consolador e a necessidade . no mesmo engano. questão 625 de O Livro dos Espíritos — então. Ou também em se priorizar uma abordagem social. em se dar ênfase ao aspecto científico da Dou- trina. o Nazareno — pois sabemos. A divulgação doutrinária através de Divaldo é realiza- da de forma abrangente e completa. em diversos campos do saber hu- mano e. em que quase sempre são relatados casos do cotidiano. quando são feitos comentários e mencionadas inúmeras citações dos mais eminentes pesquisadores do passado e da atualidade. por parte de alguns espíritas. de exercê-la nas áreas decor- rentes dessa óptica própria. a quem aprendi a amar pela sua grandeza. é uma forma pessoal de se fazer a leitura da Doutrina e. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 43 afirmativa muito importante: "O respeito que me merece Allan Kardec.

a prevalência dos pontos básicos da Dou- trina que nunca deixam de ser ressaltados. Em seu depoimento Divaldo menciona o discurso de Allan Kardec. variando. preterir ou omitir a de Jesus. contudo. como a significar que a Codificação é ciência e o Evangelho do Cristo é a parte religiosa que. Este discurso tem sido invocado sempre que surge esta questão. nas reuniões em geral. afirma o mestre lionês. Vamos tentar analisá-lo. portanto. embora existam outros textos em que o Codifica- dor evidencia o seu pensamento em relação a este assunto. como é óbvio. porque o enfoque evangélico. para nos servir de uma admirável imagem do Evangelho". em nosso meio. apresentam.44 SUELY CALDAS SCHUBERT de evangelização do ser humano. essa linha de raciocínio. Nesse caso "descerão sobre eles em línguas de fogo. o pensamento de Kardec precisa ser considerado no seu todo. especialmente se a finalidade da reunião for a lei da caridade. é a parte inicial. concomitantemente. enfra- quecer. conforme está em Mateus X V I I I : 2 0 . a vontade. via de regra. No texto em apreço. para então dizer que nas reuniões espíritas quando as pessoas alcançam essa homogeneidade de pensamentos terão a se- cundá-las os bons Espíritos. às vezes. que está na "Revista Espírita" de dezembro de 1868. quando há predomi- nância do aspecto científico. Nota-se. pois ele tem um fio condutor de raciocínio. na seqüência que apresentamos. e. de acordo com a inspiração e circunstância. e que depois prossiga analisando a comunhão de pensamen- tos. segundo essas pessoas. É significativo que ele tenha começado o discurso com a citação de Jesus. Como elo de ligação desses três momentos está a Codificação Kardequiana. a força mental. como se pode observar. As palestras do orador baiano. não constitui a Dou- trina Espírita. Refere-se a seguir que todas as reuniões religiosas são fundamentadas . costuma-se ressaltar a figura de Kardec e a sua obra — que reconhecemos como missio- nária e realmente notável — e.

espe- cificamente as mediúnicas. que "quer dizer laço. que os que assim falam desconhecem "a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 45 nessa comunhão de pensamentos e comenta que para se estar reunido em nome de Jesus é essencial assimilar a sua doutrina. seja qual for o seu objetivo. por isso se diz: a fé política. Acrescenta então. Nesse ponto detemo-nos um pouco. pois refere-se a ensinamentos diretos dos Espíritos. que muitas pessoas negam a utilidade das assembléias religiosas e dos edifícios consagrados a tais assembléias. arrematando: "O isolamento religioso. sem que isto signifique opi- nião. conforme está evidenciado até agora e nos parágrafos seguintes (RE. conduz ao egoísmo. que deve ser a essência das assembléias religiosas" e que tal argumento por parte dos espíritas é um contra-senso. científicas e industriais. de princípios e de crenças". e que neste sen- tido se diz a religião política. concluindo que "quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu haverá menos gente nos hospícios". como o isolamento social. Explicando sobre a ligação religiosa afirma: "O laço estabelecido por uma religião. Passa depois a analisar a palavra religião. um laço essencialmente moral. . como em matéria de ciência". Uma religião em sua acepção nata e verdadeira. 355). mas sim a característica de fé conscienciosa." Assevera que os homens precisam de "ensi- namentos diretos em matéria de religião e de moral. é. é um laço que religa os homens numa comunidade de sen- timentos. pág. que liga os corações. Como também é bastante claro que ele as engloba como assembléias religiosas. que "em seu radicalismo pensam que seria melhor construir hospícios do que templos". É óbvio que Kardec está exaltando as excelências das reuniões espíritas. Esclarece que esse nome foi dado a um conjunto de "princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé". nos quais ressalta ter o homem necessidade de tais assembléias religiosas pois ele já tem as reuniões políticas. pois.

dos princípios absolutos em matéria de fé. as aspirações. não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevita- velmente se teria equivocado. o público não veria aí senão uma nova edição. perguntarão. No sentido filo- sófico. uma variante. afirma o Codificador." Faz em seguida. então. a indul- gência e a benevolência mútuas. esclarece. de cerimônias e de privilégios. uma casta sacer- dotal com seu cortejo de hierarquias. Se o Es- piritismo se dissesse uma religião. não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública. o Espiritismo não é uma religião. se se quiser. tendo como efeito estabelecer "a fraternidade." . "Por que. E complementa: "Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião. a palavra religião é inseparável da de culto. na opinião geral. mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza. e nós nos glorificamos por isto. No sentido filosófico. o Espiritismo é uma religião. e que. desperta exclusivamente uma idéia de forma. porque é a doutrina que funda os elos da fra- ternidade e da comunhão de pensamentos. castas e hierarquias. na acepção usual do vocábulo. que o público poderia confundir com misticismos e abusos. todavia. "o Espiritismo é uma religião".46 SUELY C A L D A S S C H U B E R T que identifica os pensamentos." Observa-se o cuidado de Allan Kardec em não concei- tuar o Espiritismo como uma religião nos moldes tradicio- nais: com cultos. a solidariedade. que o Espiritismo não tem. Neste senti- do. sem dúvida. senhores. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. não sobre uma simples convenção. então o Espiritismo é uma religião? Ora. rituais. duas perguntas que se tornaram clás- sicas: "Se assim é. sim. declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas idéias diferentes.

Essa ressalva é importantíssima. no conceito conhecido tradicionalmente. freqüentemente. conflitos de idéias ou cisões. evidentemente conside- radas com o sentido mais alto e transcendente de religio- sidade. já que fora tão deturpada do seu sentido mais profundo e transcendente. fazendo-se preces". e de resto para o seu país e para a cultura do povo francês. com recolhi- mento e respeito. a prudência e o bom-senso de Kardec em relação a pontos que pudessem gerar dúvidas. tudo deveria ser colocado de maneira lógica e racional dentro do próprio conselho anteriormente citado. no qual enfatiza que as assembléias religiosas são válidas e fundamentais para auxiliar os ho- mens desde que haja a perfeita comunhão de pensamentos. Para a sua época como também para o futuro. incluindo aí as reuniões espíritas. aquelas onde existam cultos e práticas exteriores. Ele volta a falar a pa- lavra laço e nesse momento enseja uma grande lição para o futuro: "Qual é. É essencial entendermos a grande dificuldade do mis- sionário da Terceira Revelação. isto é. sem que por isso fossem "tomadas por assembléias religiosas". neste trecho: "não podia nem devia en- feitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado". extraído de O Livro dos Médiuns. Mas o discurso não termina aí. e então faz a ressal- va. em artigos e pales- tras. Prosseguindo em seu discurso. o laço que deve existir entre os espíri- tas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato . pois. em encontrar palavras que exprimissem o seu pensamento. Temos ressaltado. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 47 É oportuno avaliar a forma como Kardec se refere ao vocábulo religião. pois com todo o intróito feito por ele. Qualquer vocábulo mal colocado poderia levar a que se tomasse a doutrina nas- cente como uma religião a mais. acrescenta que "as reu- niões espíritas podem ser feitas religiosamente. (grifos nossos) Vê-se que para ele a palavra religião não passava de um título.

de fevereiro de 1868 (mesmo ano do discurso). todo espiritual. Na comunicação de São Luiz. por outras palavras.48 SUELY CALDAS SCHUBERT material. todo huma- nitário: o da caridade para todos. quando este faz a apreciação da obra A Gênese. na sessão anual comemorativa do "Dia dos Mortos". Allan Kardec." Mais algumas considerações e o Codificador encerra a sua palavra. são estas as suas palavras iniciais: "Esta obra vem a ponto. Com muito cuidado evita a utilização do vocábulo religião. em sua época. que compreende os vivos e os mortos. a religião do Espiritismo. no sen- tido que a Doutrina está hoje bem estabelecida do ponto .° de novembro de 1868. 359) sintetizando notavel- mente os pontos básicos do Espiritismo e como deve ser a conduta do verdadeiro espírita. São esses os liames que devem unir os es- píritas. Qual o sen- timento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral. ou. lutou denodadamente para ampliar o raciocínio humano. em 1. por nenhuma prática obrigatória. que traz um longo parágrafo (pág. embora em vários momentos ele esteja implícito. Tem sido muito difícil a implantação de uma nova mentalidade a respeito desse conceito de religião e também na própria forma de vivenciar a Doutrina. É o laço que deve unir todos os Espíritas numa santa comunhão de pensamentos. Os homens não conseguem despojar-se das práticas exteriores. é o amor. desde que sabemos que os mortos sempre fazem parte da humanidade". na Sociedade de Paris. A caridade é o assunto da parte final do discurso. inclusive nas orien- tações dos Espíritos. o laço é o sentimento. a caridade. publicada na "Revista Espírita". esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. o amor do próximo. quando Kardec conclui dizendo: "eis o Credo. Em todos os momentos em que deu o seu contributo pessoal vemo-lo nesse esforço de explicar a vivência da Doutrina Espírita. religião que se pode conciliar com todas as maneiras de adorar a Deus.

junta. como elemento propulsor do progresso. Estando ele próprio ainda muito preso a preconceitos e limitações.(. instruir e dirigir — formariam um todo só. o homem tem sentido dificuldades em apreender esse novo conceito. . associa. . Ao atributo de consolador. constitui-se em algo notavelmente superior a tudo o que o homem conhece. .) O Espiri- tismo atualmente entra numa nova fase. A Terceira Revelação é exatamente a existência e a possibilidade dessa aliança. movimenta-se desa- jeitadamente na amplitude e na liberdade que o Espiritismo proporciona ao pensamento humano. Por ser a aliança da ciência e da religião. A religiosidade emanada do seu atributo de consolador não é antagônica à Ciência e à Filosofia. tem precedentes muito arraigados no coração dos adeptos. Acostumado a enxergar as religiões e as ciências tradicionais com suas limitações e preconceitos. com suas restrições e relativismo. Seja qual for a direção que tome de agora em diante." (grifo no original) Como se vê. e a partir daí estes três atributos — consolar. Ao contrário. São Luiz esclarece que a Doutrina está bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso e que entraria numa nova fase — com a publicação de A Gênese. ponto de convergência entre ambas. nada mais belo que essa convergência que preexiste ao Homem. Evidentemente que uma doutrina com essas caracte- rísticas é absolutamente nova para o ser humano. para que ninguém possa temer que ela se desvie de sua rota. que é um fato concreto e irreversível como conquista evo- lutiva. com sua óptica distorcida pelos atavismos milenares. alia o de instrutor e diretor do espírito. como em moralidade. Ao atributo de consolador alia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 49 de vista moral e religioso (grifos nossos). em ciência e em filosofia. o de instrutor do espírito. ou seja. dessa associação como conquis- ta máxima da Humanidade. essa nova visão e significado.

sua influência se es- tenderá pelos séculos vindouros. 79) (grifos nossos) . deixa bem patenteado o modo como apresenta a Doutrina Espírita em todos os lugares onde é convidado.50 SUELY CALDAS SCHUBERT Divaldo. seus ensinamentos e exemplos. ) " (Cristianismo e Espiritismo — 7. ed. amou. ele preside aos destinos do globo em que viveu. sofreu. en- carreirá-lo para a senda do bem. e é sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revela- a ção ( . pág. Leon Denis parece-nos ter sido quem primeiro O denomi- nou desta forma: "A passagem de Jesus pela Terra. Ainda hoje. com seu sacrifício. portanto. . FEB. Gover- nador espiritual deste planeta. veio. . deixaram traços indeléveis. Ele faz referência a Jesus como Governador da Terra.

entre outras pessoas. principalmente da cidade de Luanda. pessoalmente. no mês de agosto do mesmo ano. Depois de um largo intercâmbio epistolar com a antiga colônia ultramarina de Angola. e brindaram-me com uma passagem Salvador — Johannesburg — Lourenço Mar- ques — Luanda — Salvador. Estabelecemos um contato muito demorado e cuida- doso. com a extraordinária senhora Maria Cleofé Coutinho de Oliveira. mesmo que corresse algum risco com- preensível. em São Paulo. eu passei a receber correspondência de Moçambique e de Angola. ela com os amigos cotizaram-se. 6 NA ÁFRICA PORTUGUESA - "PERSONA NON GRATA" Graças aos efeitos da estada em Portugal. Voltou a Luanda e. ela perguntou-me se aceitaria um convite para ir. dos nossos irmãos Francisco e Nena Galves. e se ela estava disposta aos mesmos perigos eu seguiria com muito prazer. o confrade José de Pina Gou- vêa — que hoje reside no Brasil. àquele país e se teria a coragem de aí pre- gar o Espiritismo. a senhora Cleofé teve a precaução de ir à África do Sul e a Moçambique. onde a polícia política era muito severa. preparando todo o terreno. Respondi-lhe que teria. que hospedam o nosso . No ano de 1971. e é o en- carregado da livraria do Centro Espírita União. Em Lourenço Marques.

o mesmo acontecendo com outros confrades. realmente. naquela cidade. Ele me confessou. porque realmente. ninguém aí traba- lhava. e se chegarem policiais. para estar ao lado de vocês. O Gouvêa. com tudo fechado — o local era uma quadra de basquete. muito dedicado. que se precisava de auto- rização por escrito e. mas. no sábado. ante essa dificuldade. levou-me à autoridade. detetives e a en- cerrarem. em Portugal. eu irei. Falei-lhe demoradamente sobre o Espiritismo e termi- nei aplicando-lhe um passe para provar-lhe a excelência dos ensinamentos da Doutrina. e irei uniformizado. Mas. ele me disse: — O senhor pode fazer a conferência.52 SUELY CALDAS SCHUBERT Chico Xavier — ficou empolgado. que eu autorizo. O homem ficou tão profundamente tocado que me levou a palácio para conse- guir com a autoridade competente a permissão — que não foi possível. residente na cidade de Leiria. na chamada Cidade Baixa de Lou- renço Marques — eu disse aos amigos entristecidos: — Se vocês me levarem ao chefe de polícia eu lhe pedirei permissão para a nossa conferência. Mas. a polícia civil negou que se realizasse o ato espírita. numa conversa que durou mais de duas horas. e fizeram uma grande propaganda. prendendo-nos? A sua palavra não basta — res- pondi-lhe. a secretaria junto do governador não estava funcionando. que sua mãe. por ser um sábado. Convidamo-lo à mesa e proferi a pa- lestra para mais de mil pessoas. — Capitão. . à última hora. Eu mantive o contato com o capitão que dirigia o labor. depois. era médium e que ele iria facilitar a nossa conferência. — Mas. E foi. Eles haviam pedido permissão às autoridades para que eu proferisse uma conferência pú- blica. A conferência era num sábado e. Lembro-me como hoje.

segundo diziam. Nova Lisboa. porque a Tanzânia está muito perto de Moçambi- que. em 20 de agosto. eu psicografei uma mensagem do Espírito Monsenhor Manuel Alves da Cunha. e os amigos preferi- ram organizar a palestra no quartel das Forças Armadas da cidade. e. Ê que. que eram treinados na Rússia. Lobito e Sá da Bandeira. Por essa época havia o movimento revolucionário contra Portugal. daí seguindo a Luanda. O programa se estendeu por várias cidades: Novo Redondo. caso viesse a criar qualquer conflito com a polícia ( * ) PIDE — Polícia Internacional de Defesa do Estado. voltando a Luanda. onde proferi outra pales- tra. que ficou superlotado. ela deixou um documen- to assinado como responsável pelo que eu dissesse ou fi- zesse. O bispo da cidade esteve presente e o tema versou sobre a reencarnação. No Lobito reunimo-nos no salão da Biblioteca Muni- cipal. Fui. Suku Akale Kumue Lene". teve lugar num dos salões mais respeitados do país. Foram convidados os elementos mais representativos da capital. Quando a revista chegou a Luanda — porque todo o material era censurado — ela foi apreen- dida pela PIDE(*) e Dona Maria Cleofé chamada à respon- sabilidade. em Cuba. A reunião foi presidida por um general. também. Luanda era uma das cidades mais belas da África portuguesa. em Luanda. entre os quais o extraordinário confrade João Xavier de Almeida: o auditório dos Ex-alunos de Coimbra. ali ficavam os descontentes. retornei a Lourenço Marques. (Nota da Editora) . realizei uma conferência na cidade de Nampu- la. "Kiangola. quando lá estive. A minha primeira conferência. Retornando ao Brasil. que era um grande núcleo militar para a defesa da fronteira. Depois. Nesse ínterim. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 53 A seguir. à cidade da Beira. e isto foi uma verdadeira audácia de Dona Maria Cleofé e de seus cola- boradores. capital de Angola. esta mensagem foi publicada em "Reformador".

54 SUELY CALDAS SCHUBERT do Estado. os autóctones. pois que eu estaria desencaminhando a men- talidade cultural e religiosa do país. em 1975. Nessa ocasião Angola já era independente. de prisão. veio uma conseqüên- cia muito curiosa.. espírita. Dona Maria Cleofé é uma senhora viúva. proibido de circular (Di- mensões da Verdade). Ela se apresen- tou e manteve uma larga discussão com as autoridades. que a ameaçaram. se preparavam para matar os portugueses e salgá-los e a Entidade fez transpirar o que permanecia em segredo. que os espíritas não sabem: eu fui con- siderado "persona non grata". inclusive. A mensagem. proibido de retornar a Por- tugal e a qualquer província ultramarina. em Lisboa. foi recebi- da publicamente. Então. como previra Monse- nhor Manuel Alves da Cunha na sua mensagem. A verdade é que ela conseguiu convencê-los sobre a sua e a minha inocência. depois da independência — é uma mensagem profética — o país . Maria Cleofé explicou que eu sou médium e que de outra maneira jamais poderia tomar conhecimento do fato. ocorrência que se repetiria mais tarde. A P1DE afirmava que a página publicada não era uma mensa- gem mediúnica — já que não acreditava em mediunidade — afirmando que os dados aí contidos me foram forne- cidos. em Angola. foi chamada a depor em Luanda. Mas. quando do meu retorno àquele país. demonstrando que havia permissão para as conferências. quando os próprios negros. muito culta. porém. o livro de Joanna de Angelis estava no "Index expurgatorius" da Igreja. Ela explicou tudo. Fizeram uma cuidadosa pesquisa para saber quem me teria concedido tais dados. parte dela no idioma kimbundu e com um glossário vocabular. como atitude providencial.. O seu depoimento foi admirável e o assunto pareceu encerrado. especialmente ficaram surpresos em o Espírito narrar uma carnificina que houve na cidade de Seles. Já. Com esta mensagem.

a Angola e a Moçambique. a "Comunhão Espírita Cristã". nascendo uma Entidade semelhante. a Portugal. Ele viajou para lá. mais tarde. O senhor Casimiro Duarte dera-me a notícia. como efeito da jornada a Lourenço Mar- ques e por toda Moçambique. a partir daquele 1971. que desencarnou há poucos anos. o Jô. o que se repetiria. Nesse ínterim. que ainda funciona. Retornei. Assim. . onde esteve vários meses. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 55 entraria num regime muito pior do que aquele do qual se desejava libertar. na cidade do Porto. a mesma Sociedade — em homenagem à Entidade do . um dos fun- dadores convidou Joaquim a ir à Europa. Agora a sua capital (de Moçambique) já não tinha mais o nome de Lourenço Marques — era Mapu- to — porque uma das primeiras providências dos revolu- cionários foi a de mudar os nomes portugueses para os do dialeto local. voltando a Portugal. que funciona na cidade de Rio Tinto. fiquei proibido de voltar a Angola. alguém que pudesse ficar lá por uma larga temporada. eu fui convidado a retornar. quando esteve pessoalmente no Brasil. Mas. evadiram-se para evitar per- seguições. não só a Portugal. Joaquim fez um trabalho notável. a qualquer das suas províncias. e ficou célebre o "dia dos cravos vermelhos". como também às suas ex-Colônias ultramarinas. os espíritas me escreveram pe- dindo que mandasse alguém do Brasil para lhes en- sinar Espiritismo. As colônias passaram a ter a sua independên- cia e. em Moçambique. porque alguns daqueles confrades que viviam em Lourenço Marques (Maputo). via Johannesburg (África do Sul). veio a independência. narrando e lamentando o fato. Esse Monsenhor foi um grande antropólogo que viveu em Angola e aí realizou benefícios incalculáveis. dentre eles. O regime fari- saico e ditatorial caiu. O confrade Eduar- do de Mattos escreveu-me. em abril de 75. e. propiciando-lhe os meios e com ele fundou na referida cidade de Rio Tinto. Eu indiquei o confrade Joaquim Alves. com isto. em Lourenço Mar- ques. . em 1972. quando criou.

e. Aí deu-se um fato curioso. Mas. certa vez. pernambucano. transferiu-se do lar. que eu não notara. Foi nessa oportunidade que me aconteceu um fato curiosíssimo. visitei muitas cidades. Fazia muito calor e tive a feliz idéia de abrir a janela da frente do edifício e a porta do fundo. . Quando vi que não podia entrar no apartamento. muito amigos. em Salazar. fechou a porta e eu fiquei preso do lado de fora. Retornei então. convidou-me para falar lá). José Pereira Sendão. um pijama de listras. dando entrevistas em emissoras de rádios. desencarnado em 1935. a jornais e cuja coleção temos arquivada. mas que eu achava uma beleza. assal- tou-me quase um pânico e pensei: às oito horas da noite. uma escola para . quando me vierem buscar. muito feio. que se tornou espírita (ele me tinha ido ouvir em Luanda. descendo. O casal. Os dois Espíri- tos.. súbito. na sacada. estavam sendo travadas as lutas. me pediram para que forçasse um pouco a porta que dava acesso a uma escada lateral. no térreo. por gentileza. no Hotel no qual nos hospedávamos. apareceram-me o Espírito Marcelo Ribeiro.56 SUELY CALDAS SCHUBERT mesmo nome existente em Uberaba. criada por Chico Xa- vier e Waldo Vieira. para me proporcionar maior tranqüilidade. Os confrades me ofereceram para descanso um andar de um edifício e recomendaram-me que não abrisse a porta a ninguém. anteriormente. encontrarão a casa vazia e já estarei rouco de tanto pedir ajuda. enquanto pensava num modo de resolver a situação. que sempre me acompanha nas viagens e uma outra Entidade muito amiga (que me aparece desde a minha juventude e que se diz ser um "correio". Na verdade o seu nome é Walter de Albuquer- que. porque me traz notícias). quando fui à cidade de Sa- lazar — hoje se chama Dalatando — a convite do teólogo Dr. Estava de pijama. a Angola. encontraria. ainda em 75. Um golpe de vento. em várias palestras e numa reunião pública que tivemos. Nisto. e recrudesciam as reações. para os espíritas todos. e debrucei-me na amurada sobre o quintal para olhar a natureza.

eu pediria à professora para que um menino entrasse pelo basculante do banheiro e abrisse a porta para mim. No dia imediato. a professora estava de costas para a entrada e os meninos todos de frente. na direção da África do Sul. que era professor e homem de muita cultura. Mas. mas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 57 meninos autóctones. muito pálido. em seguida. A professora. que se desen- volveu entre nós. voltou-se. ex-sacerdote. Isto posto. e tam- bém deparou-se com a cena. no térreo. eu vi o Espírito da mãezinha dela e lho disse. ficou muito descon- fiada. ele e os familiares foram obrigados a emigrar. poliglota. talvez apreensivo. realizada ao som dos canhões e das metra- lhadoras que matraqueavam ao longe. voltei a Luanda. Ela. Entrei. parecendo uma zebra. Respondi-lhe que era espírita e mé- dium. quando as crianças me viram puseram-se a rir diante da minha fi- gura inusitada. Desci a escada e o que aconteceu foi muito engraçado. senão perigoso. vindo. por sua vez. Coisa curiosa aconte- ceu com o Dr. com aquele pijama de listras. expliquei-lhe que era hóspede do casal lá de cima e iria proferir uma conferência nessa noite.. porque. Sendão. A minha aparição repentina. ela me perguntou se eu era feiticeiro. muito agradável. Por pouco . Esta professora chama- va-se Lourdes e arrebanhou praticamente o edifício inteiro para a palestra. resolvi forçar a porta lateral. Chamou dois menino- zinhos. como é óbvio. subimos. e. na conversa. Ao agradecer a esta senhora. Achei tudo isto muito estranho. pois ouvira dizer que viria um feiticeiro aba- lar a cidade de Salazar. Muito sem jeito. atravessando o deserto. elucidei todo o problema e precisava tanto de ajuda que ela se resolveu por anuir. profundamente aliviado. que realmente cedeu. Quando a situação ali se tornou insuportável para os portugueses. com mi- lhares de pessoas. na quadra de basquete da cidade (sobre o que havia muita propaganda). aliás. como o tempo passava e não havia outro jeito a não ser arrombar a porta da cozinha. e um deles foi introduzido pelo basculante do banheiro.. Ela ficou muito sensibilizada. abrir a porta da cozinha. e contei-lhe com de- talhes o sucedido.

as palestras foram am- pliadas. do Dr. Nas igrejas. Ali sofreram muito. em 75. onde ele foi trabalhar como caldereiro numa indústria. A primeira mensagem do Monsenhor Manuel Alves da Cunha. no último mês de fevereiro (1985). a fim de semearmos. depois que se estabeleceu. Retornei quatro vezes. onde era absoluta e totalmente desconhecida. Proferi uma série de conferências. No en- tanto. naquela época. em 1979 retornei à África do Sul. Estive pregando em Johannesburg. voltou a me convidar para um retorno. na maioria delas. Verneeging. ele. nesse país. foram cria- das algumas Instituições espíritas que continuam em plena função. estando na África do Sul. como efeito daquele encontro. realizam-se fenômenos mediúnicos. sendo meu ami- go. por nós fundado. depois se mudaram para Vanderbijlpark. A convite. vem funcionando na ci- dade de Verneeging. Em tudo há um encadeamento im- pressionante. sem o conhecimento do Espiritismo e sem a crença na reen- carnação. Esse homem. Vanderbijlpark e mais outras cidades nas cercanias de Johannesburg. de orientação protestante. para sobre- viver. como nas igrejas inglesas e americanas. a Doutrina Espírita.58 SUELY CALDAS SCHUBERT não morreram nesse deserto. mas. Springs. a fim de atender aos inúmeros con- vites. Pretória. quando estive lá. portanto. Inclusive. Um Centro Espírita. com várias Sociedades funcionando no país. . Somente usava o período de férias para viagens dou- trinárias. a es- posa e os filhos para um campo de refugiados. resultado daquelas duas estadas em Angola. sendo levados. até que (oram salvos pelas tropas e pela aviação sul-africanas. Voltei lá. Sendão. porque todas as cidades vinham participar. Krugerdorps. como eu ainda era servidor público não me pude alongar por mais tempo. ditada a Divaldo tem a data de 20 de agosto de 1971 . O movimento espírita está im- plantado. .

O que nos chama a atenção. . que revela fatos ciosamente mantidos às ocultas do público. tornando ainda mais autêntico o seu pensamento. na Benguela. é o próprio fato de o Monsenhor Alves da Cunha utilizar-se da mediunidade para enviar páginas de alento e advertência ao povo de An- gola. por tal razão. como valiosa cooperadora nobre na construção do Mundo N o v o . advertindo. . Ele não desconhece as dificuldades. todavia. agitada por inconfessáveis interesses que te insuflaram outros algozes. Alude. às jazidas. desejas progresso. Menciona o episódio de antropofagia ocorrido em Seles (Angola). ainda. O autor emprega várias palavras no idioma kimbundu. quase. Nesta. cujo título é "KiaNgola. com que um dia surgi- rás entre as nações. os valores inesgotáveis que estão esperando no teu sub- solo. Deus te abençoe". Am- bas são de uma beleza comovedora e ressumam bondade. para surgirem no momento próprio. às riquezas guardadas no sub- solo: "Sob as tuas verdes terras. Não é difícil compreender-se a surpresa das autorida- des de Luanda ante o texto da mensagem. dormem jazi- das de riquezas inexauríveis. decorrendo em sofrimento". todavia. Monse- nhor Alves da Cunha faz uma profecia em relação aos ideais de liberdade e os caminhos percorridos para consegui-la. por ele tão amado. demoram-se guardados. do ano de 1975 consta da obra Sementes de Vida Eterna. bem sabes. O título citado por Divaldo: "Kiangola. não sendo. em 1936 e que planejavam repeti-lo em Equimina. Paz!" o autor afirma: "Este é um doloroso e necessário parto: o da liberdade. amor e compaixão pelos filhos de Angola. inclusive: 'Com as mãos em armas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 59 e está inserida no livro Sol de Esperança. Suku Akale Kumue Lene" traduz-se: "Angola. A segunda. . seguindo a trilha errada". Kutu- luka Kua Muxima (Paze!)" "Angola. E porque tens o destino da paz. mas fomentas a guerra. consumado." Na segunda mensagem.

o futuro propiciará cada vez maior número de médiuns nesse estágio em que se encontram hoje. também. com a lucidez que lhe é peculiar. pessoas como Divaldo Franco. afirma: "A mediunidade será o último estado da raça humana enca- minhando-se ao termo de seu destino". entre- tanto. isto não o impede de ditar ao médium o seu recado espiritual. Em decorrência da publicação dessas páginas. principalmente em relação aos povos. de evidenciar a mediunidade como meio de comunicação entre os dois planos. Por agora.60 SUELY C A L D A S S C H U B E R T os entraves que ainda subsistem para a penetração de uma página mediúnica fora dos círculos de fé espiritista. As mensagens do Monsenhor Alves da Cunha levam-nos a uma antevisão do futuro quando os homens utilizarão do intercâmbio mediúnico para essa troca tão importante de notícias. mas. não so- mente a nível individual ou familiar ou de pequenos grupos. Chico Xavier ou Yvonne Pereira são exceções e se destacam entre todos pela mediunidade vivenciada integralmente e pelo cunho evangélico de suas vidas. Há o objetivo maior e simultâneo de registrar a profe- cia e a solidariedade ao povo de Angola. às Nações. mas. Divaldo é considerado "persona non grata" e proibido de retornar a Portugal e províncias ultramarinas. às raças. . entretanto. inclusive. de experiências e ensinamentos. Leon Denis.

agora. tentaram obsequiar-nos com importâncias em dinheiro. não temos nenhum patrimônio ou valores monetários amealhados. e também. não necessariamente a "Mansão do Caminho". ou emocionadas. Eu me posso recordar de um fato que me permito narrar. quiseram oferecer-nos bens e valores expressivos. próximo da desencarnação. renunciando totalmente a tais ofertas e transfe- rindo-as para Instituições de caridade. Sem- pre tive o pudor de nunca aceitar. porém.E. Outras vezes. deixando. no silêncio da discrição. noutras vezes. sempre encontramos pes- soas generosas que nos desejaram brindar com objetos de alto preço. dentro de casa. ficando com as mãos limpas e o coração tranqüilo. exibicio- nismo. para a "Mansão do Caminho". abrindo mes- mo caderneta bancária. . nunca antes dando divulga- ção dos fatos. para não parecer. fomos a esses doadores demonstrando-lhes que não podíamos aceitar absolutamen- te nada. Quando tivemos a ocasião de o saber. conforme está exarado em ata do C. 7 OS BENS MATERIAIS Ao longo de nossa existência. por isto ou aquilo. para não parecer que renunciáva- mos. de certo modo. Sempre tivemos o zelo de evitar a simonía e. Periodicamente aparecem pessoas que me pretendem colocar na condição de herdeiros nos seus testamentos. "Caminho da Redenção".

em absoluto. então. de pagar impostos. Eu era jovem. que a represen- tava. tido em conta de pessoa honrada. nenhum patrimônio que não fos- se adquirido com o meu suor ficasse deixando uma marca negativa na minha conduta espírita. sem que nos envolvamos. como testemunha de que tenha sido homem probo. havia sonhado com um ser espiritual pedindo- lhe que me desse proteção e socorro. não podia aceitar a sua dádiva. ( * ) Hermenegildo Silva desencarnou no ano de 1988. a fim de que. . e. em- bora judia. (Nota ua Editora) . Ela havia. o que ganhava dava para sus- tentar-me e à família. receber o aluguel etc. Um pequeno apartamento que adquiri ao longo dos tem- pos. para que a "Mansão do Caminho" viesse a ser proprietária. mas. e a pessoa que ficou no seu lugar é o advogado Manoelito Fernandes. Diante do seu advogado me entregou a escritura da referida casa. a prestação. minha conduta espírita seja com- provada como diz o Evangelho. Para minha surpresa. em Salvador. uma judia muito rica. . "Dai gratuitamente". quando da minha desencarnação. no entanto. o bom-senso já se consolidara em mim. falei-lhe que. que era o Hotel Nova Cintra. Dona Sara Niesembauer. esta dama contou-me que. Diante daquela surpresa. Um dia mandou-me chamar à sua resi- dência. Esta senhora ouviu falar sobre mim e terminou por sensibilizar-se. mais tarde. até hoje (1987) responsável por representar-me — é o confrade Her- menegildo Silva *. gentilmente. Depois de largo diálogo o próprio advogado teve de fazer a transferência do imóvel. colo- cado uma casa em meu nome.62 SUELY CALDAS SCHUBERT Vivia. entreguei à pessoa que se fez. o que me causou um grande espanto. que busco ser. através de um dos mais brilhantes advogados do Estado da Bahia. que se encarrega. Está no Evangelho. eu era um funcionário modesto.

transitória e efêmera. Ter — a grande preocupação do homem. "Conhecereis a verdade e ela vos libertará". Dependente dos bens terrestres deixa-se escravizar por eles. Entretanto. deixando-se levar. Acumula-os ao redor de si. ter dinheiro. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 63 Esta é uma das preocupações dos médiuns espíritas que desejam pautar a sua vivência nesse princípio básico preco- nizado por Jesus. 0 ter é quantitativo. no templo. ao realizar a cura de um homem coxo que se encontrava à porta Formosa. tudo o que julga ter não o acompanhará na grande viagem que empreenderá um dia. De possuidor passa a possuído. é imprescindível ter recursos materiais. O ser é qualitativo. para fazer o bem. É célebre o exemplo de Pedro. " N ã o tenho prata nem ouro. O autoconhecimento leva ao processo de crescimento espiritual. . vivendo em função daquilo que acredita ser prioritário. acerca dos dons espirituais. de libertação. " Muitos julgam que para exercer a caridade. Ilude-se com a sua posse. pela magia das palavras." " N ã o tenho prata nem o u r o . pela suave entonação. * * * O jovem está diante dEle. embe- vecido. pouco antes. Voltado para essa aspiração empenha-se em lutas cons- tantes para acumular os bens que julga indispensáveis à vida material. para realizar alguma coisa em proveito do próximo. Ouvira-lhe a voz. isto te dou. ter as condições fi- nanceiras. pelo Seu magnetismo. Só o que real- mente é constituirá a sua bagagem. Ser — a meta prioritária que a maioria desconhece ou esquece. mas o que tenho. .

e vem e segue-me. Há algo além das coisas efêmeras que o mund lhe tem dado. então. envolve-o no Seu amor e aguarda. Aqueles olhos. ." O moço hesita. dos seus compro- missos. que nesse instante o fitam parecem percorrer todos os escaninhos de sua alma. Lembrando-se. o príncipe se afasta. desde a minha moci- dade.64 SUELY CALDAS SCHUBERT Em seu íntimo soube que eram para ele aquelas pai vras e que vinham ao encontro de sua inquietude interio A figura majestosa do Rabi o atrai. O jovem príncipe. Daí a dias. 0 Rabi o olha ternamente. dos amigos que o bajulavam. riqueza. e terás um tesouro no céu. que Jesus olhando para ele o amou e lhe disse: "— Vai. "— Tudo isto tenho observado. e dá-o aos pobres. vaidades." Narra Marcos." O j o v e m segue ao encontro do destino que acabara de escolher. Em seus ouvidos ressoa a v o z do Mestre: "Dá tudo o que tens e segue-me. Aproxima-se mai Ao seu redor o tempo pára e toda a sua vida parec agora desfilar diante dEle. durante as corridas. . que o mancebo rico iria disputar os jogos em Cesaréia. inquieto. talvez. pra zeres — tudo o que lhe é imprescindível parece perder significado. em Primícias do Reino. encontra a morte na arena. psi- cografado por Divaldo. . "— Bom Mestre. Conforto. de lutas sofridas e angustiantes." Informa Amélia Rodrigues. da vitória que julgava certa. quase correndo. e compreendendo o alcance da sua luta interior. que farei para herdar a vida eterna?" Jesus fala-lhe sobre os mandamentos. vende tudo quanto tens. sente a gravidade do mo- mento. Diante dele a libertação definitiva ou a opção de milênios. "Dá tudo o que tens.

é verticalidade. é quali- dade. no transcurso dos evos. "Dá tudo o que tens" — o ter é quantidade. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 65 Onde estará hoje o moço rico? Por certo. * * * Divaldo zela para que o patrimônio moral e espiritual que conquistou permaneça inalterado. conseguiu vencer a horizontalidade do mundo e mergulhou na sublime verti- calidade que Jesus lhe propôs um dia. "E segue-me" — segui-lo é a vivência do ser. . é horizon- talidade.

Foi uma sensação estranha e muito agradável. Estava na cidade de Muritiba. Naquele domingo de carnaval. este pediu-me que pegasse de um lápis. que era espírita de primeira plana. na casa de uma famí- lia espírita — Rafael e Dona Hilda Veiga — onde fundamos um grupo: Grupo Espírita "Fraternidade e Trabalho". e como fazíamos naquele tempo para fugir da balbúrdia em Salvador. e. despertei com uma es- tranha sensação no braço. automaticamente. com o pseudônimo de "Um Espírito Amigo". uma mensagem assinada por Marco Prisco. nos recolhíamos a uma ci- dade do interior da Bahia (Muritiba). dizendo ser necessário muito treino. passei a psicografar. começou a dar-me orientações. Conversando com Abel Mendonça. com um grupo de con- frades. Professora Rachel Ribeiro. atendendo-lhe a sugestão. era uma sensação de cãibra e formigamento. quando Joanna de Angelis. A partir daí. 8 A PSICOGRAFIA - "MESSE DE AMOR" A minha primeira mensagem psicográfica aconteceu no ano de 1949. recente- mente desencarnada. que mais tarde seria enfeixada no livro Ementário Espírita. Abel Mendonça. este passou a deslizar com tal facilidade que escrevi. num domingo de carnaval. intitulada "Na sub- tração e na soma". .

na Federação. em um jornal que havia em Belo Horizonte. comecei a publicar as primeiras men- sagens. intitulado "Síntese Espírita". capitaneados por Ari Schmidt. que era um confrade muito dedicado. Depois comecei a encaminhar essas mensagens para alguns poucos jornais. na hora que a gente precisa não acha. esta senhora nos disse: — Divaldo. na presidência do Dr. Pro- feri uma palestra e psicografei lá. no auditório. achavam que as mensagens tinham conteúdo tão bom que ele se prontificou a imprimir. uma men- sagem de Antônio Luiz Sayão. Foi ele quem me apresentou ao público da Federação Espí- rita Brasileira. mas não cheguei a divulgar quinze delas. Hospedei-me com Ismael Gomes Braga. num outro. as mensagens começaram a ser di- vulgadas e amigos nossos do Paraná. por que você não enfeixa essas mensagens tão maravilhosas num livro? Porquanto a mensagem solta e publicada em jornal. estava. Wantuil de Freitas e. Em 1962 (ainda não havia publicado nenhum livro). igualmente em Belo Horizonte. deveria ir-se de avião até o Rio e do Rio tomava-se uma outra aeronave até lá. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 67 A partir de 1952.. Nessa oportunidade. A. a data foi 16 de janeiro de 1951. . que foi dirigido por um grupo de amigos e pelo Professor Rubens Romanelli. o Professor Carlos Juliano Torres Pastorino. porém se as enfeixasse num livro ficaria muito bom e mais fácil. depois. mensalmente. então. cha- mado "O Poder". es- tando reunido com Pastorino e um grupo de pessoas na resi- dência de Elisabeth Keetmann. de Arlindo Silva. se não me engano. porque foi graças ao seu estímulo que eu vim a publicar o Messe de Amor. ou o trem "Expresso Azul". a quem eu conhecera no ano de 1951 — e para vir à capital mineira. uma delas e a distribuir pelo Brasil todo. Numa das vezes em que fui a Belo Horizonte — eu já era amigo e me correspondia com Ismael Gomes Braga. com quem travei o primei- ro contato e que se tornaria um grande amigo nosso. àquela época. já que.

Também pelo fato de a mediunidade ser uma auxiliar para a própria pa- lestra — eu v i a as cenas que descrevia. que passava céleremente ante a minha visão psíquica e que eu ia lendo. Muitas vezes. que. a arcar com o ônus desta atividade. O Professor Pastorino mandou publi- car o livro sob a égide de uma editora da Entidade que ele fundou. no dia 5. Ela selecionou as mensagens e organizou o livro Messe de Amor. A Editora Sabedoria publica a obra e na hora que eu recebo o livro. houve um fato muito interessante. obviamente. uma vasta cultura. ele achava que as mensagens tinham valor. nessa noite falei a Joanna de Angelis. por que havia a "Mansão do Caminho". e. eu via uma fita como de tele- tipo. se. um teólogo profundo. chamada Grupo de Estudos SPIRITVS. que foi apresentado no Ministério da Fazenda. dizendo que se eu estava dis- posto a pagar. Foi o meu período das dissertações evangélicas. lidos e pesquisados. no trabalho do bem. Como é natural. na sua biblioteca de mais de trinta mil li- vros. para demonstrar nos atos aquilo que se apresentava na palavra. .68 SUELY CALDAS SCHUBERT Então perguntei a Pastorino. Ele respondeu-me: — Não apenas eu acho que têm valor. enunciando os postulados ali escritos. realmente. como me pronti- fico a lançar um livro delas decorrente. ela iria interceder junto aos Mentores da Vida Maior para que a mesma tivesse o seu início. das narrativas de Amélia Ro- drigues. que dei- xou um legado. um poliglota famoso e mestre. fiquei muito sensibilizado com aquela sugestão e Joanna concordou. posteriormente as transcreveria para o papel. Ela me confirmou que estava na minha tarefa a ativi- dade do livro. Daí. que o meu programa essencial. Ê interessante notar-se como surgem as ciladas do mal. Fiquei muito comovido. já que estava programada para momento oportuno. seria através da divulgação oral e pelo exemplo. nas palestras. no dia 5 de maio de 1964. todavia.

Coloquei o livro encostado em um quebra-luz. um anjo que Deus colocou no meu caminho. disse-me: — Você não tem de se preocupar com isto.00. Foi-me. Telefonei ao Professor Pastorino e ele. que estava encostado. Eu era hóspede de Celeste Mota. O botão bem fechadinho. — Mas como farei? — indaguei. cortamos a página e a recolocamos di- reito. Depois de apresentado o livro e vendido todos eles a Cr$ 5. Chegou com um botão de rosa de haste muito longa. no sentido transversal ao livro. um verdadeiro filósofo. O quarto estava em penumbra. O livro ia ser apre- sentado naquele dia. psicólogo. porque uma das mensagens estava. essa alma nobre. Ela surgiu muito luminosa. filólogo. tudo foi urna ma- ravilha. Cheguei a casa com um exemplar. Enquanto eu fi- quei olhando-o deu-se um fenômeno muito interessante. um homem muito calmo. pegare- mos de uma gilete. de cabeça para baixo. Colocou-o em pé. Quando ainda estava sob efeito da emoção. dessas fadas madrinhas das tradições das histórias. é que ela era uma fada. O SEMEADOR DE ESTRELAS 69 Nesse dia — é a data do meu aniversário — muito emocio- nado. Começamos a fazer o trabalho e cortamos pelo menos duzentas páginas. tive um cho- que. uma verdadeira benfeitora. Pastorino reuniu uma equipe e foi um êxito. quando tomei o livro e o abri. A idéia que eu tenho até hoje. lamentavelmente. — Muito simplesmente — prosseguiu ele —. ao acaso. apareceu- me Joanna de Angelis. porque jamais me havia passado pela ca- beça a idéia de escrever uma página. quanto mais ser mé- dium de um livro. e fiquei muito emocionado. especialmente naqueles dias mais difíceis do começo. que foi o seu primeiro preço. . onde me agasalhei a partir de junho de 1956 até janeiro de 1970. paginada ao revés.

a caírem as pétalas. O médium. Se tu tiveres coragem para levá-lo adiante. à medida que as pétalas iam caindo davam- me a impressão de serem de sangue. para que este faça os sulcos que achar conveniente. Joanna falou-me: — Aí tens o símbolo do teu futuro psicográfico. Foi assim. Se estiveres disposto a dar o teste- munho do silêncio. os Espí- ritos. de forma que te sangre o coração. até serem jogadas ao lixo. Tu estás disposto? — Sim. Ela é instrumento submisso. é aquele que não confia em Deus e que não é real- mente um bom instrumento. e se tu aceitares isto como fenômeno natural. tudo bem. conta comigo. que iam manchando o livro de capa verdinha. Ademais — prosseguiu ela — a enxada não se preocupa pelos sulcos que foram feitos. A flor será a mensagem. Mas. mas a tua será a parte do sofrimento. mas. tornando- se uma rosa belíssima. . a ter ferida a alma com os espinhos da perversidade alheia e ver as mensagens serem levadas à praça pública do ridí- culo. Ela se preocupa em ser dócil nas mãos do agricultor. não esperes flores.70 SUELY CALDAS SCHUBERT O botão começou a desabrochar. Quem vai defender-se perde tempo e enquanto se está defendendo os Amigos Espirituais não podem tomar as decisões compa- tíveis para que permaneça a verdade. sem te defenderes nem as procurar defender ou a nós. que o impacto do trabalho psico- gráfico teve início. sim. a receber a crítica mordaz e sarcástica. portanto. As manchas se desvaneceram. nós teremos uma longa viagem. Eu te trarei vários Amigos que pretendem colaborar nesse labor contigo. que se de- fende. Como médium. que não são teus e sim do Cristo. a abrir-se. porque o nosso defensor é Jesus. meu filho. — Então. senhora. mas a capa ficou assinalada pelo sucedido. Nesse momento. a tua tarefa é ser fiel ao dever e não te preocupares com os resultados. Depois começou a jenecer.

minha mãe. a linguagem simbólica. ante a realização de sua primeira obra no campo da psicografia. Essa imagem ou símbolo sintetiza o assunto e é deveras marcante. Os Espíritos usam. pesavam sobre mim. Tínhamos a "Mansão". Este episódio da rosa e do livro MESSE DE AMOR está parcialmente narrado no livro Divaldo Franco em Ube- raba. ou ser médium de um. emocionais e tinha de lutar muito co- migo mesmo. ou fazem acompanhar as suas palavras de figuras ilustra- tivas que simbolizem o que estão pretendendo transmitir. ela não me havia dito antes para não me assustar. minha irmã solteira. Joanna de Angelis observa a emoção de seu médium. Surge Primícias do Reino e outros lhe se- guiriam. de seu filho espiritual. muita vez. que não possuía as re- sistências doutrinárias. as sessões normais e outros compromissos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 71 Nesse dia. Mais tarde sai o seu segundo livro. porém. atendendo a pedidos. e depois vê-lo materializar-se em páginas e páginas formando um volume. com a ajuda de Nilson. Trabalhava para sustentar a família. viagens etc. a colocar no papel aquelas mensagens que me inspirava com as visões policrô- micas de Israel. tais as responsabilidades que. embora estivesse no programa. que também trabalhava para nos ajudar. Aqui vemo-lo. das mais significativas para o ser humano. em toda a sua extensão e beleza. dessa revelação. Escrever um livro. Então. Amélia Ro- drigues se propôs. palestras. já àquela época. é realmente uma belíssima emoção. E quando esse livro é fruto de um labor conjunto entre o plano físico e o espi- . Depois Dimensões da Verdade e logo viria o primeiro de Marco Prisco. tornando-se assim inesquecível. Glossário Espírita-Cristão. tê-lo nas mãos. meu pai. Joanna esclareceu ainda que. Espírito e Vida.

objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. V I I I . pela ação da sua vontade. maleável e dúctil ao comando mental. que lhe confira determinadas proprieda- des. conforme está no prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo. É uma rosa fluídica. Ela sabe que o instante de alegria é bastante fugaz e que urge preparar o médium para as grandes responsabilidades assumidas. a seu bel-prazer. "Do laboratório do Mundo Invisível". na Terra.72 SUELY CALDAS SCHUBERT ritual torna-se algo precioso. ) o Espírito atua sobre a matéria. traz um objetivo bem mais complexo: o de adverti-lo. Em O Livro dos Médiuns. encontra-se a explicação desse tipo de fenômeno: " ( . Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito. Pode igualmente. saindo do plano do ideal para a concretização no plano humano. que muitas vezes a exerce de modo instintivo. São "as vozes do Céu" que. sim. que podem distrair e perturbar a caminhada. transmitem o "divino concerto". quando necessá- . para representar a soma de duas mentes que vibram na mesma freqüência. mas. pois transcende ao esforço co- mum do escritor. operar na matéria elementar uma trans- formação íntima. Quando a mentora coloca a rosa encostada ao livro ela o faz com o fito de marcar de maneira indelével aquele momento. àquela época. cap. Divaldo Franco está. portanto. não vem aplau- dir ou também se comover com o sentimento que o domina e. Ela surge. da matéria cós- mica universal tira os elementos de que necessite para for- mar. Somente assim. que se expressam nas mesmas faixas de interesse e de dois corações que se afini- zam nos mesmos ideais. encontrando instrumentos afinados. . formada com substância do plano espiritual. aos seus olhos. radiosa. no início do seu la- bor psicográfico e Joanna o vê emocionado ante o primeiro resultado. pode a obra psico- gráfica desenvolver-se a contento. . Que a alegria ou a emoção feliz sejam vividas conscientemente e não com ilusões perigosas.

conta comigo. traçada no plano espiritual e que antecedeu à reencarnação de Divaldo Franco. a conscientização dos compromissos assumidos. tornarem-se momentaneamente vi- síveis e até mesmo tangíveis." À primeira vista. Em certos casos. se estivesse equivocado quanto aos rumos a seguir. Mas. se não esti- vesse suficientemente embasado para a sua missão. Portanto. Porque não haveria sofrimentos nem renúncias. Não haveria motivo para tanto. porém. Conta comigo. a disciplina rígida. esses objetos. pois logo em seguida começa a fenecer e suas pétalas caem como gotas de san- gue manchando a capa verde do livro. aos olhos de pessoas vivas. de vida muito efêmera. Há formação. de certa forma. subordinada à sua vontade. atento que do nada o Espírito nada pode tirar. a aus- teridade. toda uma programação de elevados objetivos. a festa de corações. Os objetos que o Espírito for- ma têm existência temporária. isto é." Esta é a sua proposta inicial. Se Divaldo estivesse numa aventura pelos campos da mediunidade. são graves e pro- féticas. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. As palavras de Joanna. em seguida. . O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 73 rio. porém. esta é verdadei- ramente a imagem inicial do quadro vivo que surge então aos seus olhos. ou a uma necessidade que ele experimenta. e. mas se tiveres coragem. enfim. a mentora é muito firme ao definir o futuro. a renúncia a si mesmo e aos favores mundanos. o amor à Causa. Divaldo poderia até pensar que aquela flor apoiada ao Messe de Amor representasse a comemora- ção. diz. podem apresentar todas as aparên- cias da realidade. se pretendesse apenas as loas do mundo. sem disso se aperceber. Afirma: "se tu tiveres coragem para levar adiante. não criação. na autenticidade dessa missão fazem parte a fir- meza e honestidade de propósitos. tais pa- lavras jamais seriam ditas. . . 0 botão desabrocha e transforma-se em uma belíssima rosa.

por que o sofrimento? Por que o mediunato tem tão alto preço? Seria muito fácil atender ao mundo. nas disputas. a partir da publicação: — dar o testemunho do silêncio. de forma que faça sangrar o coração. o mediunato. — ver a mensagem ser levada à praça pública do ridí- culo. é a "mediunidade gloriosa" de Leon Denis. do ideal de servir a Jesus. transcende ao simples exercício e prática da mediunidade. perma- neçam ardendo para que haja luz. e relaciona as situa- ções previstas. capítulo X X X I I de O Livro dos Médiuns. no mundo em que estamos. quem quer viver na luz para levá-la a toda parte. E a candeia que se acen- de. na bus- ca do prestígio — formas de se granjear os títulos passa- geiros da Terra. tal como Kardec classifica no "Vocabulário Espí- rita". Esses passos não são sofridos. — ser jogada ao lixo. aos mais recônditos cantos do co- ração humano. É o man- dato mediúnico de que nos fala André Luiz em Nos Domí- nios da Mediunidade. antes são causas de sofrimentos. a "missão providencial dos médiuns". na algazarra própria dos que valorizam as conquistas materiais. — receber a crítica mordaz e sarcástica. ou seja. É fazer da própria existência a "candeia viva". nas questões onde o personalismo preponderasse. Mas. . não tem outro an- seio senão o de consumir-se para que a luz se faça. não o conseguirá sem o imprescindível tri- buto pela ousadia de enfrentar as trevas. e aceitar tudo isto sem se defender — eis o programa traçado! Mas. que brilha para iluminar caminhos. onde os óleos do bem e do amor.74 SUELY CALDAS SCHUBERT "A tua será a parte do sofrimento". E. — ferir a alma com os espinhos da perversidade alheia.

Joanna de Angelis diria mais tarde. quando. capítulo 24: "A qualquer ataque. Joanna entende que não haverá necessidade nem condições para defesas. sob a superior orientação de Joanna de Angelis. perante os ataques de qualquer pro- cedência. narra em "Viagem Espírita em 1862". por certo que o médium escreve com a segurança de quem já viveu e exemplificou o conselho. o médium segue. Essa fidelidade à tarefa tem sido cumprida pelo mé- dium. que é lição de coragem pouco conhecida. no transcurso do tempo. Hoje já se pode avaliar qual foi o comportamento de Divaldo face a todas as lutas e agressões que o alcançaram. absolutamente fiel à tarefa. uma a uma. na íntegra. Após o lançamento do primeiro livro. Allan Kardec. que em nenhum momento deixou de seguir e viver a promessa feita no dia 5 de maio de 1964. ressaltada pela autora espiritual a lição de coragem que o ato de silenciar. O defensor de nossa honra e do nosso trabalho é o Senhor. o mesmo tipo de comportamento. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 75 Assim. o silêncio. Essa vivência dá extraordinária força de autenticidade à vida missionária de Divaldo Franco. Dival- do Franco. sem pretensão. sig- nifica. em mensagem inserta no livro Após a Tempes- tade. Nessas quatro décadas de atividades mediúnicas. . que respondia com o silêncio os ataques que lhe eram dirigidos e que essa atitude mereceu aprovação unânime dos espíri- tas. as diretrizes traçadas pela instrutora espiritual. A nós nos cabe a glória de servir. com os quais esteve em contato durante as viagens que realizou naquele ano. nessas circunstâncias. As palavras proféticas pronunciadas por ela se foram cumprindo. tem sempre a mesma coerência doutrinária." Quando as mãos mediúnicas de Divaldo anotaram essa passagem. exatamente vinte anos depois.

Bênçãos de ver. hoje se levanta aos céus. do coração afeito ao bem e ao perdão. da consciência pacificada. também proporciona a alegria sublime de quem está colaborando com Jesus. primeiramente. para agra- decer e orar por ele. foram as bênçãos que o labor iria proporcionar. multiplicadas. nas lições da vida. Ela reservou a surpresa a fim de que melhor fosse aproveitada à medida que surgisse. e que um coro de vozes. Bênçãos de saber que um número cada vez maior de pessoas se beneficiam com as mensagens psicografadas. todavia. as páginas que a sua fa- culdade mediúnica foi propiciando. Joanna deixou que ele as sentisse e fosse descobrindo. do dever bem cumprido.76 SUELY CALDAS SCHUBERT O que Joanna não disse. . que a messe de amor. Bênçãos que adviriam. no devido tempo. Bênçãos de um número cada vez maior de Benfeitores Espirituais que encontraram na sua mediunidade o canal adequado e sintonizado para que pudessem falar à Terra. se exige sacrifícios inauditos.

Vai ver que ele nem se quis matar. foram as circunstâncias. dizendo que aquele era um pai de dez filhos. Eu vou orando por elas e. intercedia. de vez em quando. conversando. digo: se este aqui já não evoluiu. Ela é paciente. . um operário modesto. sob os vagões da loco- motiva e foi triturado. e dizia: Meu Jesus. com todo o estardalhaço. E o jornal. Assim. Tenho uma cadernetinha para anotar nomes de pessoas necessitadas. dava uma de advogado. vou dar o seu lugar para outro. que me impactou: um homem jogou-se sobre a linha férrea. mas esse era especial. contava a tragédia. olhando para ela. já faz muitos anos. sempre aparece no mesmo lugar e desaparece num outro. fico orando. Fazia a minha prece. Somos muito amigos. Aquilo me impressionou tanto que resolvi orar por esse homem. Da minha janela eu vejo uma estrela e acompanho o seu ciclo. Orava e pedia. quem se mata (como dizia minha mãe) "não está com o juízo no lugar". coloquei-lhe o nome na minha caderneta de pre- ces especiais — as preces que eu faço pela madrugada. dedicando-lhe mais de cinco minutos (e eu tenho uma fila bem grande). então. 9 O SUICIDA DO TREM Eu nunca me esquecerei que um dia havia lido num jornal acerca de um suicídio terrível. Comecei a orar por esse homem desconhecido. não posso fazer mais.

não lhes posso contar os meus sofrimentos. — Você me inspira muita ternura — prosseguiu — e o amo por gratidão. aprendi a não recla- mar e não me estou queixando. Um dia. e se eu lhe pedir que você não chore. Há muitos anos eu me joguei embaixo . Não estava em condições de inter- ceder pelos outros. — Se você chorar eu tam- bém chorarei muito. como não tenho a quem me queixar.) Daí a pouco a emoção foi-me tomando. onde quer que estivesse. Encontrava-me com uma grande vontade de chorar. por que você vai chorar? — perguntei-lhe. fiquei muito contente com o que ele me dizia. sou muito difícil de fazê-lo por fora. — Porque eu gosto muito de você. O Espírito retrucou: — Divaldo. — Mas. Nessa noite cheguei à janela para conversar com a minha estrela e não pude orar. quando me dei conta. e as lágrimas não saem.78 SUELY CALDAS SCHUBERT Passaram-se quase quinze anos e eu orando por ele dia- riamente. porquanto eu vivo para con- solar os outros. porque sofro um problema grave e. Fico aflito. entrou um Espírito e me perguntou: — Por que você está chorando? — Ah! meu irmão — respondi — hoje estou com muita vontade de chorar. Como é natural. Nesse ínterim. mas. Eu amo muito a você e amo por amor. o que é que você fará? — Hoje nem me peça. apren- di a chorar para dentro. Porque é o único dia que eu consegui fazê-lo. experimento a dor. volumosas. Deixe-me chorar! — Não faça isto — pediu. que não con- sigo verter. chorava. Além do mais. não tenho esse direito. eu tive um problema que me fez sofrer muito. e. (Eu tenho uma grande inveja de quem chora aquelas lágrimas enormes.

então.) — Quando adquiri a consciência total — prosseguiu ele — já se haviam passado mais de catorze anos. Lembrei- me de minha família e fui à minha casa. sempre que você me chamava pelo nome. Quando acabava de pas- sar. E não há como definir a sensação eterna da tragédia. eu conseguia respirar. — Eu perguntei — continuou o Espírito — quem é? Quem está pedindo a Deus por mim. que já havia morrido. Comecei a refletir que eu não tinha o di- reito de ter feito aquilo. Até que um dia escutei alguém cha- mar pelo meu nome. Meu filho é um bandido. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 79 das rodas de um trem. aí eu vi você nesta janela. (Note que eu nunca o vira. A minha filha é hoje uma perdida. Encontrei a esposa blasfemando. porque . — Comovi-me. quando eu ia respirar. Ele não quis matar-se. injuriando-me: "— Aquele desgraçado deser- tou. com tanta misericórdia? Mamãe surgiu e esclareceu-me: — Ê uma alma que ora pelos desgraçados. porque não teve comida e nem paz e foi-se vender para tê-los. chamando por mim. que a morte não me matara e que alguém pedia a Deus por mim. com tanto carinho. de minha mãe. ouvi alguém chamar por mim. Fê-lo com tanto amor. Transcorreu muito tempo mesmo. pois o sofrimento logo voltou. eternamente. Lembrei-me de Deus. novamente. escutava o apito e começava tudo outra vez. chorei muito e a partir daí passei a vir aqui. para escutar a pessoa que me chamava. sem ter- minar nunca e sem nunca morrer. via-o crescer ao meu encontro e sentia-lhe as rodas me triturando. Mais tarde." Até que um dia esta força foi tão grande que me atraiu. em face das diferenças vibra- tórias. que aquilo me aliviou por um segundo. até o momento em que deixei de ouvir o apito do trem. Dei-me con- ta. Passei a ter interregnos em que alguém me chamava. para agüentar aquele morrer que nunca morria e não sei dizer-lhe o tempo que passou. passei a ouvir alguém dizendo: "Ele não fez por mal. reduzindo-nos à mais terrível miséria. Eu ouvia o trem apitar.

eu lhe venho pedir: em nome de todos nós. Aproximou-se. pelo menos por nós. Que supremo desespero leva uma pessoa a jogar-se sob as rodas de um trem! Que suprema covardia moral leva o ser humano a desertar da vida. que será de nós. emocionado — aí eu comecei a somar às "dores físicas" a dor moral. — São lágrimas de felicidade. buscar a morte. Fui visitar meu filho na cadeia. porque agora eu me posso reabilitar. pelo ato de autodestruição. Igualmente emocionado. Depois. falei-lhe: — Perdoe-me. ele nos reduziu a esse estado. que você está sofrendo. Deixando-nos. num destes lugares miseráveis. eu sou feliz. Uma empatia muito grande por esse Espírito se fez em meu coração. . Além de você. ninguém tinha dó de mim. na infeliz suposição de que resolverá assim todos os seus problemas. por toda uma onda de efeitos que decorrem do seu ato insensato. narrado por Divaldo. me deu um abraço. onde ela estava expos- ta como mercadoria. não sofra mais. mas. ele chorou. Porque o suicida não responde só pelo gesto. encostou a cabeça no meu ombro e chorou demoradamente. fui atraído à minha filha. Pela primeira vez. mais ninguém orava. também. — Divaldo — falou-me. não sofra! Porque se você se entristecer. dos danos que o meu suicídio trouxe. O suicida do trem — como passei a chamá-lo desde que me inteirei deste caso. que se matou para não enfrentar a res- ponsabilidade. E a primeira pessoa a quem eu con- solo é você. Doridamente." — Senti-lhe o ódio terrível. que estamos aprendendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito de sofrer. e por amor a nós. só você. os que somos permanentemente tristes? Se você ago- ra chora. sendo tudo isto lançado a seu débito na lei de responsabi- lidades.80 SUELY CALDAS SCHUBERT teve um pai egoísta. os infelizes. um estranho. o que será de nós. Então hoje. Estou aprenden- do a consolar alguém. mas eu não esperava comovê-lo.

triturado pelas rodas. engolido sob o mons- truoso veículo. que parecia ter prosseguido no seu trajeto. prestou-lhe socorro através da prece. pai de dez filhos. embora já ligado à reunião. contemplava a máquina. Até que um grito de pavor. A impressão que tive é que estava ao lado dele. A esta altura da cena. atordoante. es- tremecendo tudo à sua passagem. Fato que merece ressaltado. chumbado ao solo. à espera de que se consumasse o atro destino que para si mesmo esco- lhera. porém. num sofrimento indescritível. Ele vinha. vinha novamente. há muitos anos. numa repetição enlouque- cedora. Ao escrever sobre o caso relembro e revivo o impacto da comunicação mediúnica. que. mas este foi especial. Mas o trem. A terrível cena marcou-me o psiquismo de forma in- delével. dentro da sala. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 81 Sua tragédia fez-me recordar certa reunião mediúnica. é que Divaldo não o auxi- liou através da sintonia mediúnica. A cena que exteriorizava era terrivelmente assustadora. torcendo-se e gemendo de forma comovente. . em minha condição de médium. em que fui incorporada por um suicida que também se jogara sob um trem. sentia-se. de olhos esbugalhados. ou com ele. na via férrea. cujo farol era como um olho desco- munal mantendo-o imóvel. estático. no transcurso dos anos. num processo de repetição constante. no meu lugar habitual. para minha segurança e alívio. e o trem crescia ao nosso encontro como um negro monstro de ferro. um urro de animal ferido indicava o momento do impacto de seu corpo — um minús- culo boneco que logo desapareceu. numa noite sombria. 0 infeliz suicida. porém. visto que ele não foi trazido à reunião. tornava-se gi- gantesco e havia como quê uma atração hipnótica na paté- tica figura do homem. O médium. Muitos outros suicidas comuni- caram-se por nosso intermédio. Da mesma forma como ocorreu com Dival- do em relação a esse pobre operário. sentia-me.

82 SUELY CALDAS SCHUBERT No torvelinho de seus sofrimentos. só a Dens assiste esse direito. também. sem motivos plausíveis. "Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais. que. como a lhe mar- carem o sinistro compasso das dores superlativas. quando ouviu o seu nome e se sentiu balsamizado pelo amor. de ime- diato. ouvindo o apito a cada instante e o ruído das rodas. e. Ah! o refrigério da oração! Possibilitou-lhe. uma pausa. Na pergunta 943 lê-se: "Donde nasce o desgosto da vida. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência e resigna- ção." 944 — "Tem o homem o direito de dispor da sua vida? "Não. sentindo-se morrer e remorrer. . sofrendo os efeitos da sua decomposição. da sa- ciedade. esmagado sob toneladas de ferro. rom- pido bruscamente conserva fortes resquícios de vitalidade e magnetismo. se apodera de certos indivíduos? "Efeito da ociosidade. Refere-se também ao fato de que o Espírito permanece jungido aos despojos carnais. o Codificador aduz os seus comentários. quanto obra com o fito de felicidade mais sólida e mais durável que o espera. numa fração de tempo. Menciona o laço que une o Espírito ao corpo. a vibra- ção da prece o atingiu. que registrou em O Livro dos Espíritos as respostas dos Benfeitores Espirituais. por largo período. da falta de fé e. A questão do suicídio foi objeto de interesse de Allan Kardec. que. o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. O suicídio volun- tário importa numa transgressão desta lei." Na parte final da questão 957. ressaltando os sofrimentos dos suicidas.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 83

Em o livro O Céu e o Inferno, o Codificador reúne, na
segunda parte, comunicações de suicidas que dão notícias
de seus sofrimentos após a desencarnação.
Na literatura mediúnica desponta a obra magistral de
Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida. Em alguns tre-
chos deste livro a autora refere-se ao profundo trauma vi-
bratório que a morte sob o trem acarreta ao perispírito do
suicida, o que o coloca, talvez, na mais difícil situação espi-
ritual, entre tantos outros infelizes que se mataram por
outras formas.

* * *

Assim, Divaldo em prece, roga a Jesus por esse operá-
rio suicida, procurando socorrer e minimizar-lhe as dores,
que ele sabe serem superlativas. E o faz durante quase quin-
ze anos, diariamente, onde quer que estivesse.
As vibrações o atingem, porque feitas com amor e ver-
dadeiro desejo de ajudar.
Sobre a prece Allan Kardec dedica o capítulo X X V I I
de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde, no item 10,
descreve a ação benéfica que ela proporciona.
"Dirigido, pois, o pensamento para um ser qualquer,
na Terra ou no espaço, de encarnado para desencarnado,
ou vice-versa, uma corrente fluídica se estabelece entre um
e outro, transmitindo de um ao outro o pensamento, como
o ar transmite o som."

* **

A oração de Divaldo soa, então, aos seus ouvidos, re-
percute vibratoriamente em seu mundo interior e, a prin-
cípio, é um pequeno instante de alívio, para tornar-se, de-
pois, um interregno entre tantos tormentos, proporcionan-
do-lhe condições de raciocinar — o que o fez lembrar-se de
Deus, de sua mãe e da situação em que se encontrava.

84 SUELY CALDAS SCHUBERT

Socorrido e amparado pela solicitude e desvelo mater-
nos, foi sendo atraído para junto daquele que lhe enviava
a vibração lenificadora.
Na voragem de suas angústias acerbas, foi alcançado
pela força poderosa do amor. Esta força que se faz suavi-
dade e doçura, que atua anônima, se preciso for, para agi-
gantar-se mais adiante e mostrar-se invencível, por ser, em
verdade, o maior elemento propulsor da evolução humana.
Os corações que amam em plenitude, que amam o amor e
por ele vivem, fazem-se ponte para socorrer os caídos, os
desgraçados, os que ainda não aprenderam a amar.
O infeliz suicida despertou para a realidade. E esta lhe
é ainda mais amarga. As dores morais o visitam e se insta-
lam em seu coração ao verificar as conseqüências do
seu ato.
É então que esse ser humano, com toda a sua terrível
carga de aflições, encontra Divaldo sofrido e triste. Quer
ajudá-lo e este desejo incontido o aproxima do médium,
que o vê pela primeira vez. Consolá-lo é o seu pensamento
e por isso passa a narrar o seu pungente drama a fim de
testemunhar-lhe, com o seu exemplo vivo, o quanto recebe-
ra dele.
"Se você chora, que será de nós que estamos apren-
dendo a sorrir com a sua alegria? Você não tem o direito
de sofrer, pelo menos por nós, e por amor a nós, não so-
fra mais."
O encontro emociona-o e chora abraçado a Divaldo
— as primeiras lágrimas suaves a lhe refrigerarem o cora-
ção — na ânsia de consolar o benfeitor, de lhe ser útil, de
minorar-lhe as angústias interiores.
No silêncio da madrugada, tendo por testemunha a es-
trela amiga — que, cintilando, é c o m o um coração que pulsa
em direção a ambos —, dois corações humanos se encon-
tram, se aproximam e se deixam envolver pela suave magia
do amor.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 85

A missão consoladora da Doutrina Espírita, de que nos
fala Kardec:
"Coloco em primeira instância o consolo que é preciso
oferecer aos que sofrem, erguer a coragem dos caídos, arran-
car um homem de suas paixões, do desespero, do suicídio,
detê-lo talvez no limiar do crime! Não vale mais isto do
que os lambris dourados?"
(Trecho do discurso de Allan Kardec aos espíritas de Lyon
e Bordeaux, In "Viagem Espírita em 1862" — Ed. "O Cla-
rim".)

10

A PRESENÇA DE VICTOR HUGO
NA OBRA MEDIÚNICA
DE DIVALDO

No mês de abril de 1970, terminando as palestras feitas
em Juiz de Fora, na Semana do Livro, retornei ao Rio numa
Kombi, já à noite, deixando, por distração, o quebra-vento
aberto. Era uma noite muito fria e eu me gripei. Cheguei ao
Rio afônico e com uma febrícula.
No dia seguinte passei com muita febre e, à noite, ape-
sar de medicado, a gripe não amainou. Era o dia de Culto
evangélico, na casa de Celeste e Lena * e não pude parti-
cipar, tal o estado de prostração em que me encontrava.
As duas amigas e Honorata, a auxiliar, começaram o
Culto, quando de repente vi entrar, no quarto onde me en-
contrava, uma Entidade veneranda que me disse:
— Eu sou Victor Hugo. Há alguns anos venho entran-
do em contato psíquico contigo, inspirando-te na narração
de alguns fatos nas conferências, para gerar um clima de
sintonia. Tenho uma tarefa a propor-te: eu gostaria de escre-
ver dez romances através de ti.

( * ) Srta. Celeste Moreira da Mota e Da. Brasília Gonçalves, em
cujo lar Divaldo se hospedou, no R i o , por vários anos. Celeste já
desencarnou. (Nota da Editora)

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 87

Fiquei muito surpreso, porque jamais me havia passado
pela mente ser "médium de romance". Acreditava que essa
parte da psicografia ficaria reduzida a páginas soltas, a te-
mas evangélicos, a estudos doutrinários breves, e julguei
que, o que via e ouvia, era uma alucinação, um delírio pro-
veniente da febre. Mas, o Espírito instou e propôs-me:
— Por favor, levanta-te, toma do material, que eu que-
ro escrever.
Ainda assim, pelo estado em que me encontrava, não
me animei, por estar convencido de que era uma alucina-
ção, já que eu não tinha condições de ser médium de uma
Entidade tão nobre. Todavia, o Espírito voltou a insistir e
Joanna de Angelis me apareceu, confirmando-o para tirar-
me a dúvida e pediu-me que fizesse um esforço, porque a
febre e aquele estado psicológico especial eram também um
recurso de que Victor Hugo usava para "quebrar" as mi-
nhas resistências de personalidade, a fim de que meus cli-
chês mentais — pelo hábito de falar incessantemente —
não viessem a interferir na obra que ele tinha preparado
para ser psicografada.
Com muito esforço levantei-me e, apoiando-me à pare-
de, fui até à sala. Quando Celeste e Lena me viram, muito
pálido e tiritando de frio e febre, ficaram muito surpresas;
eu lhes expliquei a ocorrência. Foi providenciado papel, até
papel de embrulhar pão, que foi recortado, e outras folhas
soltas. Sentei-me à mesa, pedi-lhes a colaboração, e como
estava na parte final do Culto evangélico, antes da prece
derradeira, o Espírito veio, curvou-se sobre mim, e, quan-
do começou a escrever, deu-se um fenômeno que, a partir
daí, me seria familiar: à medida em que a mão escrevia, eu
tinha a sensação de estar no cinema, vendo a projeção de
um filme, mas um filme em "tecnicolor", em tela muito
ampla, com uma beleza incomparável.
Quando voltei ao normal e li a mensagem que se inti-
tulava "O Duque di Bicci di M..", era exatamente o que tinha
visto psiquicamente, com a diferença de que eu observava
muito mais do que estava escrito. Era como se eu tivesse

88 SUELY CALDAS SCHUBERT

ido ao cinema com um cego e fosse descrever-lhe o que es-
tava vendo. O que eu via era muito mais do que podia
transmitir.
Ao terminar a psicografia eu estava total e radicalmente
curado, bem disposto, passaram a febre, a indisposição; eu
me recuperei.
No dia imediato, pela manhã, o Espírito escreveu mais
dois capítulos e determinou o programa de prosseguimento
do trabalho.
Houve um fato muito curioso. Uma das personagens,
Girolamo, havia, num desses capítulos, cometido um crime
hediondo e, como eu o vira, fiquei muito chocado; aquilo
me produziu um certo ressentimento contra a personagem
e, naturalmente, enquanto aguardava o desenvolver do ro-
mance, comecei a imaginar como é que a Lei iria alçancá-lo,
a fim de que resgatasse aquele crime — ele matara três
crianças de uma forma impiedosa, depois de dar-lhes um
narcótico, porque ia ser o legatário dos bens, caso as crian-
ças, herdeiras diretas, viessem a desencarnar. Quando fui
psicografar, com esse estado de alma, Victor Hugo escla-
receu:
— Você não pode interferir na trama do meu livro.
Essas personagens desencarnaram no século XVIII, e você
está criando clichês mentais que me irão dificultar a narra-
tiva. Por favor, não antecipe o desenvolvimento do romance.
Para minha surpresa, Victor Hugo, a partir daí, come-
çou a escrever de uma forma que não dava o encadeamento;
ele não numerava os capítulos e eu me dava conta que era,
digamos, o capítulo sexto, o décimo, a segunda parte do
livro, etc. Somente quando terminou a obra, que eu ia dati-
lografar, é que me pediu que numerasse os capítulos nas fo-
lhas, a lápis, que eu grampeava e colocava num classifi-
cador, perfuradas, para facilitar a movimentação. Aí então,
enquanto datilografava, já coordenado, tive a idéia de toda
a trama da obra. Foi um fato muito curioso, uma grande
lição para mim.

Hugo então me explicou que iria fazer obra doutriná- ria. ao cenário terrestre. que fora sua filha na reencarnação anterior. para adestrar o leitor que. quando veio escrever outro livro. ele conseguiu fazer um trabalho muito próprio também para a época em que vivia a médium. não conhecesse a Dou- trina Espírita. a fim de corroborar e estimulá-lo o. doutrinário. psicológico. Ao longo da história dos povos a intervenção dos Es- píritos é como um sopro forte agitando e despertando o homem para uma outra realidade. e. Victor Hugo. . em que faria a narração e. em que o autor ga- nhava pelo número de frases e quanto mais rendia. ele ia ter características mais modernas. Utilizando-se de Zilda Gama. estilo folhetim. a interromperia para estudo de itens importantes. a fim de entender a trama da Justiça Divina. Entidades de elevada hierarquia espiritual orientam e inspiram esse intercâmbio. O SEMEADOR DE ESTRELAS 89 Mais tarde. de dar a contribuição que gostaria de oferecer ao Movimento Espírita. eu já estava mais adestrado e ele me disse que ia usar um tipo de literatura que chamaria de "sinco- pada". Do Abis- mo às Estrelas. periodicamente. deixando entre espaços o comentário filosófico. para o espírita. Agora. renovando a mentalidade humana no momento propício e permitindo que o homem tenha uma janela aberta para o infinito. cada vez mais entender melhor os ensinamentos que a Doutrina revela. minuciosas. por acaso. A volta do romancista. desde que a "Voz do Sepulcro" o chamou para a seara espírita. melhor para o próprio autor. no seu tem- po. à seme- lhança das nossas novelas. Em todos os tempos os fenômenos mediúnicos noti- ciam a interferência dos planos invisíveis na esfera ter- restre. porque não tivera oportunidade. na Terra. A mentalidade moderna não permitia mais as narra- ções antigas. do trabalho. poeta e dramaturgo francês. pelas letras mediúnicas.

em O Grande Enigma: "O Universo inteiro está submetido à lei de solidariedade. mantendo. solidária. pelos canais da mediunidade. que já adquiriram títulos de enobrecimento. para só citar alguns. como a demonstrar uma planificação de ordem divina. a fim de manter o homem em contato permanente com os grandes gênios da Humanidade. na similitude de seus destinos e de seus fins. muitos de seus filhos mais ilustres em todos os campos do saber humano. na escala da vida. in- teressados no progresso. empenham-se em prosseguir au- . Há uma ligação permanente." A Terceira Revelação.90 SUELY CALDAS SCHUBERT é parte dessa grandiosa e eloqüente programação da Espi- ritualidade Maior. todavia. que se uni- versaliza quanto mais conquistam em evolução. No advento do Consolador. permanecem. explica e comprova. que a Doutrina Espírita desvenda. Pas- cal. a todos os seres pensantes. retornam à Terra. ) De igual maneira. esses liames que mantêm. guiando e inspiran- do o ser humano. indo de Sócrates e Platão aos Evangelistas. num processo in- teragente. as almas ligadas à Terra. A solidariedade que as liga funda-se na identidade de sua natureza. de maneira insofismável. promovendo-o. como viajores do tempo. por exemplo. porém. avançam pelas sendas do progresso nas estradas cósmicas. Espíritos Superiores. desvendando a trajetória do Espírito através dos evos. os sagrados liames do Amor. Por isso. a Fènelon. ( . todas as Almas estão unidas por múltiplas relações. Na gigantesca espiral evolutiva os Espíritos nascem e renascem em incontáveis orbes e. Erasto. A fa- lange do Espírito da Verdade é integrada por vultos que se notabilizaram desde a Antigüidade até a Idade Moderna. Através desse conhecimento que ela nos faculta. deixa entrever. Afirma Leon Denis. a fim de que atinja os seus mais altos destinos. . todos estes. a unir os homens. . pode-se inferir o quanto são sábias e justas essas Leis Divinas que regem a vida de todas as humanidades. Franklin e Swendenborg. na igualdade de seus sofrimen- tos através dos tempos.

quando. Victor Hugo retorna. o centenário de sua permanência no Mundo Maior. Por isso. o seu ta- lento e estro. Victor H u g o es- creve. ou. . Párias em Redenção inicia essa série. Em 1985. através de Divaldo. o sinete de autenticidade. transmitindo ensinamentos e manten- do vivos os laços do afeto. Victor Hugo fez-se amado em seu país natal não apenas pelo seu genial talento. retornam sempre. dando-lhes as mãos do socorro e do amparo. em Paris. pelas lutas em prol da liberdade e dos direitos humanos. primeiro através de Zilda Gama e hoje. Escritor fecundo. então. que expresse. Este é o quinto livro ditado pelo famoso romancista ao médium baiano. Com abnegação e renúncia dão sinais de suas presenças. primeiramente através da mé- dium Zilda Gama. intitulado Árdua Ascensão. da melhor forma. que medeia entre um e outro médium. a página de apresentação do seu mais recente livro. Hugo retorna. mas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 91 xiliando os que estão na retaguarda. ele próprio. a possibilidade que temos de tê-lo conosco nessas páginas de luz que a me- diunidade proporciona. após um pe- ríodo de silêncio nas letras mediúnicas. deseja marcar a sua volta pelos canais da mediunidade. ao se completarem os cem anos de sua desen- carnação. vencendo o aparente silêncio dos túmulos. também. Vem falar aos que estão na liça terrestre. pelas provas inequívocas de seu elevado amor à Humanidade. e comemorar. pelas mãos me- diúnicas de Divaldo Pereira Franco. exatamente no dia 22 de maio. Não se sabe o que é mais admirável: se o fato inusitado de um gênio como Victor Hugo retornar do além para pros- seguir escrevendo. fazem ouvir as suas vozes. pelo patriotismo. Por isso. como figura humana que se distinguiu pelo caráter. E mais que isto: almeja deixar nessa primeira obra psicográfica de Divaldo. também. que foi sua filha na última encarnação. no ano de 1971. porém. O escritor espiritual.

Hugo dita a Divaldo em 2 de junho de 1971. no prefácio de Párias em Redenção retoma a mesma linha de pensamento — como a dar continuidade — do prefácio que escreveu. em Salvador. de Ponta Grossa ( P R ) . o sentido social. muito menos a teve em suas mãos. algumas linhas que esclarecem. Ressalta o Professor Camargo Ribas. o prefácio de Párias em Redenção. mas nunca lera. para a sua magistral obra Os Miseráveis. o Pro- fessor Ulisses Camargo Ribas. calcada em cima daquela que o Autor Espiritual havia colocado no pórtico de sua mais famosa obra — Os Miseráveis". como se continuasse nesta o que ficou omitido naquela. publicada em 1862. que é usada quatro vezes em Os Miseráveis e cinco em Párias em Redenção. agora por via medúnica. no limiar da narrativa. reali- zou um excelente estudo comparativo." Premido pelo editor. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. Até a palavra inicial é a mesma. . conforme acentuou o Professor Camargo Ribas "uma nova epígrafe. elucidando. conforme escla- recimento de o tradutor de Os Miseráveis. alguns outros pontos. intitulando-o "Elucidações". inclu- sive.92 SUELY CALDAS SCHUBERT Assim. mais parece uma epígrafe. Prossegue Camargo Ribas: "Victor Hugo usa na obra psicografada palavras que determinam uma igualdade de pensamento. so- bretudo. quando encarnado. pois são apenas treze linhas no meio da página inicial do romance fadado a atravessar os séculos e se tornar um marco no mundo literário. Hugo se contentou em inscrever. sabe apenas que foi escrita por Hugo. no qual estaria "o mundo e em particular o século X I X " . Segundo tem-se do médium é que não conhecia e nem co- nhece a obra Os Miseráveis. Sobre essa identificação de pensamento e estilo. No seu retorno. Menciona Camargo Ribas: "O Autor não pôde. que Victor Hugo desejava colocar um prefácio filosófico que estivesse à altura da obra. que é. o editor cortou-lhe o desejo e publicou a obra com um prefácio mui pequeno.

Franco. e a miséria moral. página 9. sintonizado e sensibilizado com os problemas que avassalam o ser humano — proble- mas que persistem através dos tempos e que o inspiraram a escrever sobre os miseráveis sociais — os quais. afirma Victor Hugo. . livros como este serão ne- cessários'. que tem agora uma conotação diferente. no prefácio de Párias em Redenção. mas existe também no tema. apenas nos dois prefácios men- cionados. diz Victor Hugo no prefácio de Os Miseráveis. livros como este não serão inúteis'. esquecidas do papel sublime do Crucificado. está escrito na altura das linhas 19 e 20: ' ( . sobre os párias morais. na obra Os Miseráveis. como Espírito. na sua "Elucidação". ) enquanto as religiões. o fazem retornar. já que. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 93 "Há um detalhe mui interessante e marcante (continua o Professor de Ponta Grossa). na atua- lidade. que . "Livros como este serão ne- cessários". produzindo o conciliá- bulo do crime com a insensatez. Na obra psicografada pelo médium Divaldo P. Hugo analisa as questões sociais através da visão evolutiva do ser. portanto. pelo canal mediúnico." Esta particularidade apontada pelo professor paranaen- se. termina o seu prefácio assim: ' ( . "Livros como este não serão inúteis". lutarem pela supremacia nos ce- nários do mundo. Espírito. ao seu tema favorito e escrever. social e econômica estabelecerem a revolta das massas. pois. . . ) enquanto sobre a terra houver igno- rância e miséria. atesta o desejo do autor de identificar-se e de dar conti- nuidade à sua obra. (grifos no original) "As duas frases finais destes prefácios — explica Ca- margo Ribas — têm o mesmo significado. O grande escritor francês. sendo que a de Os Miseráveis é uma negação que afirma e a da obra psico- grafada é dita diretamente numa afirmativa. da maneira de escrever de Victor Hugo. A identi- ficação não está. . hoje.

Através de Zilda Gama escreve Do Calvário ao Infinito e. na ânsia de ter. o que o fará emergir. retratando ainda o drama dos desas- sisados morais. Reduzido à condição de extrema miserabilidade moral o homem vai encontrar o bendito ensejo de se redimir. Falta-lhe o pão à mesa das necessidades morais. o autor espiritual expressa de maneira magistral a redenção do ser humano. Os miseráveis são agora os párias em redenção. Nesses dois títulos. A sôfrega busca pelo pão ainda continua. as mesmas neces- sidades e carências a impulsionarem o homem e a fazê-lo malfeitor.94 SUELY CALDAS SCHUBERT se processa no transcurso das reencarnações sucessivas re- gidas pela lei de causa e efeito. na sua obra mais famosa. E mais que isto: exprime o anseio do homem de se projetar no infinito. Victor Hugo esparze a força do seu gênio nessas pá- ginas que a mediunidade proporciona. final- mente. em sua escalada evolutiva. . de vencer. tão carentes e marginaliza- dos quanto os que tratou em vida. de conseguir. simbo- lizados em alguns personagens. dita Do Abismo às Estrelas. por Divaldo Franco. que têm o mesmo sentido. de alcançar o rumo das estrelas. o mesmo significado.

nenhuma defesa. Foi a época das histórias do Evangelho. um dia me disse: — Divaldo. que assim seja. mas. depois. nesta vida. Só lhe permito cartas. Mas. se alguém o agredir. não conte comigo. eu pedi a Pastorino que esperasse mais tempo. Se o senhor quiser. que eu narrava nas palestras. reviso e. a insigne escritora baiana. . pensei em transpor do gravador para o papel essas narrativas evangélicas. Ouvindo as palestras. 11 AMÉLIA RODRIGUES E AS HISTÓRIAS DO EVANGELHO - CICERONE EM ISRAEL Amélia Rodrigues. nenhum comentário. Ela me plasmava as cenas com tal beleza e realismo que eram como se estivessem acontecendo naquele instante. — O senhor não vai escrever. nada de sua autoria — disse-me. Nenhum artigo. desen- carnada. Se o senhor deixar transcrever a palestra. Pode deixar que eu faço todo o trabalho. o seu estilo vai ficar explícito. Joanna tinha outros planos. Então. me inspirava nos primeiros tempos de pregação. o professor Carlos Pastorino. poderá fazê-lo. publicamos.

Desfilaram. Ela me levou aos lugares que eu já conhecia pelas descrições que ela própria fazia e pelas cenas plasmadas durante as confe- rências que eu proferia. Assim. entre outros. as personagens que estão no Primícias. por essa época. menos Jesus. porque. Joanna esclareceu-me: — O prefácio. Marta.96 SUELY CALDAS SCHUBERT Durante dez anos Dona Amélia me inspirou. de suavís- simas tonalidades que iam do horizonte róseo aos cambian- . tal como sucedia no instante da psicografia ou das palestras. voltei a ver aqueles vultos dos tempos evangélicos. a Samaritana. para bem o explicar. em desdobramento. Maria e Lázaro — os irmãos de Betânia — como também os que foram curados: o obsidiado gera- seno. a mulher hemorroíssa. etc. Aí. Em 1981 eu fui a Israel. em corpo espiritual. ante os meus olhos e a minha emoção — o doutor da Lei. o moço rico. Primícias do Reino. e o Es- pírito Dona Amélia Rodrigues foi a minha cicerone. Diante deles. nós o escreveremos a quatro mãos. ao lado de João Batista —o precursor — Simão Pedro. e. já lhes daremos a resposta. numa paisagem do entardecer. a um local da "Mansão". por ideoplastia. Dona Amé- lia me levou. Quando terminamos de psicografar Primícias do Reino. Tiago. João — o evangelista — Maria de Magdala e muitos outros vultos que povoam os fastos do Evangelho e que fazem parte do livro de Dona Amélia. Assim surgiu o seu primeiro livro. entre árvores. ela me informou: — Agora eu tenho a permissão de selecionar aqueles temas que pregamos juntos e escrevê-los em forma de men- sagens. Foi o pe- ríodo de treinamento. Passaram-se os anos. antes que façam perguntas. Houve um fato. ela plasmou. Zaqueu — o publicano. Quando o livro ficou pronto. o paralítico de Cafarnaum. que nós chamamos de "Recanto de Joanna". porque muita gente ouviu estas páginas em forma de palestras. muito comovedor.

É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. seja nas palestras inspirando ao médium. ditando-os. partícipe de muitos dos fatos narrados. seja na psi- cografia. porém. Esses "respingos históricos". ainda. "A vontade não é um atributo especial do espírito. quanto maior não deve ser sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam. se é dado ao médium a possibilidade de vê-las. é o pensamento transformado em força motriz. Essas criações fluídicas são realmente impressionantes e. ao descrevê- los. em nossa opinião. não apenas as assiste. — ("Revista Espírita" — 1864. A sua importância ressalta logo às primeiras páginas quando Amélia Rodrigues apresenta um escorço histórico sobre a Palestina. pág. uma prece gratulatoria. 352) Primícias do Reino é. A integração e vivência dos tempos evangélicos é tão presente e marcante na vida da autora que ela. prosseguem em todo o livro. Mas se tem a força de agir sobre os órgãos materiais. já que Amélia Rodrigues é profunda conhece- dora dos ambientes e. como também (por certo por impregnação vibratória e por entrar na faixa dessas freqüências) sente-se como participante delas." Allan Kardec. o mais belo livro de mensagens evangélicas da literatura mediúnica es- pírita. então. . este. entre cinti- lações das primeiras estrelas. Foi uma das visões mais lindas e como- vedoras da minha atual existência. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 97 tes de um azul profundo da imensidão sideral. é o pensamento chegado a um certo grau de energia. possibilitando ao leitor um painel muito bem delineado do período e dos locais onde viveu Jesus. plasma instantaneamente as cenas que a sua própria mente rememora. Dona Amélia fez.

permanecendo as mesmas emoções como que impressas em nosso ser. Em Devassando o Invisível. fatos. cujo autor espiritual é Bezerra de Menezes. a nós impossível de descrever. qual espectadora muda do imenso drama. e diz a certa altura: "Entrementes. Yvonne Pereira. sem contudo. cuja mediunidade realmente admirá- vel legou-nos preciosas obras de elevado padrão doutriná- rio. drama. cenas. porém. Yvonne informa: "Desenrolou-se. as emoções e impressões que as personagens deve- riam viver. a história sob o irresistível in- fluxo do grande Charles. ao que julgamos inédito sobre a Terra. então. seqüên- cia admirável de uma realidade incontestável. Exata- mente pelo fato de que esses painéis fluídicos são como que carregados por parte das vibrações e emoções dos persona- gens que os vivenciaram. Quando isto ocorre a emoção é indescritível. sem todavia vê-lo. Nós nos víamos presente em todas as cenas. portanto. efeito. forte e dominadora. lucilante. tornou-se vida. São essas vibrações que. Amor e Ódio. e como se todas as cenas e panoramas fossem desenhos delicadís- simos. perder nossa atual perso- nalidade.98 SUELY CALDAS SCHUBERT Em nossos modestos trabalhos como médium temos tido a feliz oportunidade de presenciar algumas dessas cenas fluídicas elaboradas pelos Benfeitores Espirituais." C o m relação a outro livro seu. mes- clada de tons dourados. ecoando em nossas sensibili- dades. Sua pala- vra. o transportam para a cena e o fazem tornar-se presente a ela. afligin- . ela men- ciona como foi a recepção da obra "A Tragédia de Santa Maria". incomodando-nos mesmo. por exemplo. as visões do drama que então nos eram fornecidas decorriam em ambiência branca. reper- cutindo no médium. Sentíamos. a se movimentarem em cenários celestes. esclarece-nos a respeito do assunto em alguns de seus livros. como se raios de sol puríssimo ilu- minassem a transparência branca. ditado por Charles. que a "narrou" e cuja "voz"ouvimos sempre.

Especialmente para o médium psicógrafo ou psicofô- nico. . Geralmente. Como também exis- tem casos em que tais lembranças permanecem como a servirem de treino. "assistir" às cenas e tornar-se partícipe delas f o i também. porém. para aprender a desligar-se delas entrando em sintonia com as faixas vibratórias da harmo- nia e da paz. Para Divaldo. equilibrado e. quando há projeção dessas cenas deprimentes. Essas visões constituem-lhe grande sofrimento e um treino bastante difícil para que se mantenha sereno. Ao contrário." (grifos no original) Contudo. Essa notável possibilidade da criação desses cenários e revivescência de episódios verídicos é uma preciosa fonte de riquíssimas experiências para o médium. não é dado ao médium ter somente visões de beleza transcendental. são-lhe muito freqüen- tes as cenas fluídicas projetadas pelas mentes desequili- bradas. muitas vezes. O SEMEADOR DE ESTRELAS 99 do-nos. advertências e lições para o medianeiro. ele assiste. as quais. até que a obra foi escrita e terminada. ao l a d o da profunda f e l i c i d a d e de "vivê-las". uma técnica auxiliar das palestras. os Benfeitores Espirituais providenciam para que isto se dê. sobretudo. É preciso muita firmeza e equilíbrio para conse- guir-se que tais cenas se apaguem da mente. utilizada por Dona Amélia Rodrigues. o que é uma tortura moral muito intensa. a fim de poupar o médium.

Miranda. que foi um beletrista famoso. Mas. Fora uma pessoa que. tendo convivido muito com Petitinga. amigo íntimo de Carneiro Ribeiro — que também se notabilizou pela réplica e tréplica com Ruy Bar- bosa — ele. havia trabalhado na União Espírita Baiana. portanto afeito a uma área de informações de natureza geral sobre o comércio. no mês de janeiro. apareceu-me o Es- pírito Manoel Philomeno de Miranda. como é compreensível. Eu era muito jovem e. Guardei as mensagens. e no próximo encontro uma outra ditada pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. 12 MANOEL PHILOMENO DE MIRANDA - UMA BIBLIOTECA ESPIRITUAL Numa das viagens a Pedro Leopoldo. no ano de 1950. no mundo. com vistas a uma . na Terra. se dedicava à escritu- ração mercantil. fiquei muito sensibilizado. Chico Xavier psicografou para mim uma mensagem ditada pelo Espirito José Petitinga. permanecendo confiante em Deus. dedicando-se. houvera aprimorado os conhecimen- tos lingüísticos que levara da Terra. um gran- de latinista. bebi nelas a inspiração. tendo exercido vários cargos. dizendo que. No ano de 1970. especialmente à tarefa do estudo da mediunidade e da desobsessão. atual Federação. Quando chegou ao Mundo Espiritual foi estudar em mais profundidade as alienações por obsessão e as técnicas correspondentes da desobsessão.

Levou-me a uma reunião. e todos o sabemos. onde re- side. religiosas. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 101 programação de atividades para a Doutrina Espírita. que fica sobre a cidade de Salvador. na referida obra. das técnicas obsessivas e de desobsessão. acredito. re- fere-se à sua estrutura que faz lembrar muito "Nosso Lar". começou a escrever Nos Bastidores da Obsessão. A "Mansão do Caminho" seria uma espécie de depar- tamento terrestre daquela comunidade. que existem inumeráveis colônias espirituais. pela primeira vez. mostrou-me como eram realizadas as experiên- cias de prolongamento da vida física através da transfusão de energia utilizando-se do perispírito. disse-me que gostaria de escrever por meu intermédio. no futuro. ele ficou quase trinta anos realizando estudos e pesquisas e elaborando trabalhos que mais tarde iria enfei- xar em livros. como não há vio- lência na Lei. para trazer o seu contributo em torno da mediunidade. como foi fundada. um esclarecimento: foi Dona Otília Gonçalves. Escreveu o Além da Morte explicando que ali se deteve para o refazimento e permanecendo. revelou-nos acerca de uma colônia espiritual chamada "Re- denção". Ao me aparecer. que são relatos. apare- cendo-me diariamente. a primeira diretora da "Mansão do Caminho". quem. e aí. narrando as impressões que tivera ao desencarnar. no Mundo Espiritual. Ela descreve. até hoje. para reunir os desencarnados pelas suas afinidades lingüísticas. . Agora. Convidado por Joanna de Angelis. em torno da vida espiritual. a fim de que haja o natural processo evolutivo porque. então. pela mediunidade. da obsessão e desobs- sessão. culturais. como existem milhares de cidades terrestres. Depois de uma convivência de mais de um mês. para facilitar o intercâmbio psíquico entre ele e mim. ao escrever uma carta para sua filha Elza. Chico Xavier disse-nos. todos esses fenômenos ocorrem tranqüila- mente e são lentos. desencarna- da em 1952.

aqui. Em fichários que ficam em regiões menos felizes. . esquecendo-se de si mesma. escreve algo que beneficia a Humanidade — no caso do escritor — é um profissional. ao abrir-se o livro. ficam também registrados. com um tipo de letra bem caracterís- tica. Se a pessoa. Disse-me que. fazem muito lembrar as da Terra. as letras adquirem uma vibração musical e se transformam em verdadeiros can- tos. seja quem for. porém. mais desarvoradas. nesses fichários muito sensíveis. À medida que a mente. mas. ao se abrirem esses livros. vê e capta os registros psíquicos de quando o autor estava elaborando a tese. Esses fichários. em que a pessoa ouve. o que ele produz é edificante. Quando a pessoa escreve por ideal e não é remunerado. sofrido. as letras adquirem relevo e são de uma forma muito agradável à vista. que captam a onda mental e tudo imprimem. Mostrou-me como são arquivados os trabalhos gráficos que se fazem na Terra. nessa biblioteca. no planeta. E quando os livros são abertos (são os crimes. elaboram cenas de- gradantes e deprimentes. que dá um estado muito de- sagradável ao leitor. quando um escritor ou um médium. tendo uma peculiar luminosidade. a vulgaridade) exsudam uma espécie de plasma pegajoso e nauseante. vai elaborando. levou-me a uma curiosa biblioteca. a criatura humana. são a concupiscência. exceto àquele que se familiariza com essas idéias e se compraz nelas. nutrindo-se com tal tipo de energia grafada. simultaneamente vai plasmando lá. onde estão registradas as idéias que se vão transformar em roteiro de orientação ou de degradação da criatura humana. o faz por ideal e estando num momento difícil. para ajudar a sociedade. na Terra. O oposto também é verdadeiro. mas ainda assim escreve com beleza. 102 SUELY CALDAS SCHUBERT Na visita que Manoel Philomeno me permitiu fazer à Colônia em que ele se hospedava. aqueles que. traduzindo a nobreza do seu conteúdo. nessa bi- blioteca fica inscrito.

etéreo." (grifos no original) Manoel Philomeno de Miranda. tangíveis. não desanimarmos e continuarmos as nossas ta- refas. Entre tantos informes esclarecedores. ao se aproximar de Di- valdo para o necessário período de afinização. . como é lógico e compreensível. a sua gratificação. há uma in- teressante comunicação do Espírito Mesmer. que é o verdadeiro corpo do Espírito. tirado desses meios moleculares. como o vosso se forma de coisas mais palpáveis. na própria ação. não apenas os textos. que a certo trecho diz: "O mundo dos invisíveis é como o vosso. embora o esteja realizando por entre dores e lágrimas. as emoções com que foram elaborados. quando estamos desalentados e sofridos. antes de iniciarem o trabalho mediúnico de psicografia. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 103 Eis por que vale a pena. regis- tra. materiais. se assim nos podemos expressar. é fluídico. a tenacidade. O mundo dos Espíritos não é um reflexo do vosso. Divaldo destaca a biblioteca onde estão registrados e arquivados os traba- lhos gráficos elaborados pelos encarnados. transmite-lhe a primeira "aula". acima de tudo. 155). a renún- cia e. Em vez de ser material e grosseiro. para tornar real algo que gostaria que acontecesse. o do prazer. Na "Revista Espírita". o que lhes dá um valor muito maior. o desportivo. o vosso é que é uma imagem grosseira e muito imperfeita do reino de além-túmulo. de 1865 (pág. Para cada obra escrita existe o seu correspondente no plano espiritual. mas. o esforço. que. Porque o tra- balho diletante. já tem. especialmente. levan- do-o a conhecer a colônia espiritual onde reside. enquanto o de sacrifício e de so- frimento exige a abnegação da pessoa. da natureza do perispírito.

visto que vivem dessa vida tanto quanto da vida corporal. é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualidades boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar. Sendo esses fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as propriedades. es- critos com intenções edificantes ou com sentimentos de per- turbação e de desequilíbrio." (item 18) Assim. mediúnico ou não. Os escritores alegam. São tais Entidades que o inspiram. como basta que module uma ária. de maneira geral. as emoções e vibrações corres- pondentes." Prossegue Kardec: "Sendo apenas Espíritos encarna- dos. capítulo X I V . como também atrairão para junto do autor aque- les Espíritos que se afinizam com a onda mental que o tipifica. que escrevem sob o influxo de uma força que parece brotar do mundo íntimo — denominada inspiração — de certa forma inex- . Mesmo não sendo um fenômeno mediúnico na acepção da palavra e ainda que o autor não seja médium ostensivo. como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável. os homens têm uma parcela da vida espiritual. uma página ou um livro. sempre estará acompanhado por Entidades que têm interes- se naquilo que escreve. seja para o lado negativo ou positivo. durante o sono e. em A Gênese. o Codificador es- clarece: "Tem conseqüências de importância capital e direta para os encarnados a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. no estado de vigília.104 SUELY CALDAS SCHUBERT Informa Allan Kardec. muitas vezes. Os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais. item 14." Nesta mesma obra. não somente expressarão e registrarão essas intenções. para que esta repercuta na atmosfera. "Basta que o Espirito pense uma coisa para que esta se produza. pri- meiramente. modificándo- se pela pureza ou impureza dos sentimentos. no item 16.

O processo ocorre da seguinte forma: o escri- tor tem o seu cabedal intelectual. É exatamente na eclosão dessas idéias que os Espíritos atuam. no dia-a-dia terreno. por sintonia vi- bratória. O SEMEADOR DE ESTRELAS 105 plicável para os que não têm conhecimento ou não aceitam a participação espiritual. ao fim do qual o escritor se sente exaurido. como um fluxo de idéias que acorrem à mente do escritor. das construções mentais. moroso demais em relação às criações mentais que se sucedem rápidas. no momento do sono físico. irá ao encontro daqueles que lhe comungam os mesmos ideais e intenções. a bagagem de conhecimentos desta e de outras encarnações. seja provocando-a. seja in- tensificando o fluxo dos pensamentos. A inspiração é assim. o encar- nado absorverá idéias com as quais sintoniza e que brota- rão. Entretanto. de afirmar-se que o escritor não tenha o mérito e a capacidade de ser o autor daquilo que escreve. mais tarde. motivando-a. Há. que é. mas. em forma de inspira- ção ou "insight". ao passo que estes o inspiram e ajudam na estruturação das idéias e na ação de escrever. . Junto a estes afins. se não conseguir passá-las para o papel. a par disto. em desdobramento espiritual. então. também exultante por ter realizado o processo de criação intelectual. porém. como que um estado febricitante de escrita. transbordando através do pro- cesso da escrita. em regiões próprias ao estágio evolutivo em que se demora. lhe fogem. Não se trata aqui. extravasando. aqueles Espíritos que se sentem afins com as idéias que estão sendo grafadas. atrairá. É que o homem encarnado. e com todo esse acervo pessoal é que produz as suas obras literárias. a aptidão literária. tão intensa e com tal força que parecem não caber dentro de si mesmas. Simultânea e naturalmente ha- verá uma identificação entre encarnado e desencarnados. velozes. de uma forma estuante. às vezes. quase sempre. Um outro ponto deve ser considerado. e que.

nos vícios. mais funestas do que as que professam entre vós". Neste. ou a mundos inferiores à Terra. ele contribui com excelentes páginas geralmente enfocando a mediunidade ou apresentando es- tudos muito específicos sobre as alienações mentais. que é comumente chamado moratória. ao tratar da emancipação da alma. quando volvem. vão para junto dos seres que lhes são superiores. morrendo na Terra. enquanto dormem. C o m estes viajam. conversam e se instruem. Em outros livros. consta do livro Painéis da Obsessão. então. onde os chamam velhas afeições. Painéis da Obsessão e Tramas do Destino. ou em busca de gozos quiçá mais baixos do que os em que aqui tanto se deleitam. Allan Kardec. os processos obsessivos e a sua terapêutica. recebe dos Espíritos Superiores a seguinte resposta: "O sono liberta a alma parcialmente do corpo. Trabalham mesmo em obras que se lhes deparam concluídas. o autor explica as técnicas de transfusão de energias ao perispírito.106 SUELY CALDAS SCHUBERT Em O Livro dos Espíritos." Explicam. Grilhões Partidos. Nas Fronteiras da Loucura. Vão beber doutrinas ainda mais vis. "esses vão. Quando dorme. (questão 402) Manoel Philomeno de Miranda é autor de Nos Basti- dores da Obsessão. Os casos de moratória no corpo físico acontecem seja por mé- rito da pessoa e/ou necessidade premente que prossiga por mais tempo no plano terreno. o homem se acha por algum tempo no estado em que fica permanentemente depois que morre. todos psicografados por Divaldo. O assunto do prolongamento da vida física (mencio- nado por Divaldo). . ao mundo espiritual". que os homens de bem "quando dormem. de diversos autores espirituais. mais ignó- beis. Com aqueles que se empenham no mal.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 107 M a n o e l Philomeno de Miranda é-nos particularmente querido. das primeiras letras. de interesses comuns e pelo amparo e orientação que dele temos recebido como aluna. por afinidades de trabalhos. Ele é o Patrono das atividades que realizamos sobre mediunida- de e obsessão/desobsessão. que nos consideramos. .

a pouco e pouco. um sacerdote romano. vem-me à mente uma tentativa malograda de suicídio. Mas eu era muito jovem para entender essas sutilezas da mediunidade. co- meçando a exercer a mediunidade. É uma tarefa muito séria e de alta responsabi- lidade. com ares adversários contra mim. No rol das minhas lembranças. Dizia que a solução para mim . quando eu contava deze- nove anos. ameaçando-me. a Entidade começou a dar-me uma assis- tência negativa. à medida que se passava o tempo. fui constatando. Nos momentos difíceis da minha vida ele esteve presente. de tal forma que a sua atuação tornou-se muito dolorosa. sofri um desses fenômenos e ouvi uma voz me cha- mando e me hipnotizando. 13 O "MÁSCARA-DE-FERRO" Até onde vai a minha lembrança eu sempre detectava a presença de uma Entidade. respei- tável. a princípio de forma educada e depois com muita rispidez. pois. no mar. que ser médium não é uma viagem ao país da fantasia. Passaram-se os anos e. numa atitude agres- siva. Nesse ínterim. se eu não seguisse as suas diretrizes ele terminaria por me destruir. mais eu me afeiçoava ao contexto do Espiritismo. quando me tornei espírita. por afogamento. Numa noite — eu tinha certas visões desagradáveis — então.E prometendo que.

que era a vida física. dizendo que me ma- taria. (Até hoje eu não sei nadar). com aspecto dominador. atirou-se às ondas e me resgatou. Uma delas ocorreu à época em que eu ainda estudava. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 109 — a única — seria destruir o corpo. . Sempre tive muita vontade de estudar e havia feito o cha- mado artigo 100. iria ser plenamente feliz. que naquele tempo se chamava artigo 91. que é muito vigilante. Morávamos perto da praia. trazendo-me para a praia. onde estavam as pessoas que me amavam. que o meu labor era com a religião tradicional. quando eu me lancei mar a den- tro. na Terra. que nunca falta. percebeu o que estava acontecendo e me acompanhou. Aquele foi um período amargo da minha vida. Fui entrando sob aquele fascínio. Notou. de pijama e sem saber o que havia acontecido. Passaram-se os anos. Eu saltei a janela e fui sendo arrastado pela indução hipnótica em direção ao mar. partiria para o Mundo Espiritual. quando ele me viu a debater e gritar. mas eu pros- segui. Ao dar-me conta da situação. que corresponderia hoje ao supletivo do 1º" grau. e que já era tempo de me libertar dessa canga difícil. Nilson. eu sofria muito. porque. e estava preparando-me para fazer o supletivo do 2° grau. Nilson estava próximo. fosse qual fosse a justificativa. Nesse exato momento. aquelas que estão vinculadas a mim. as mais dolorosas. As primeiras ondas molharam-me os pés. Repetia que eu tinha deveres para com a sua antiga doutrina e que a estava conspurcando. se destruísse o corpo. vi a Entidade. até que as ondas bateram no meu rosto. o dos testemunhos. provo- cando-me um choque e despertando-me. Era madrugada e não havia ninguém por perto. que não tinha o direito de me desviar dela. Esse Espírito criou-me injunções. e. não adiantava recalcitrar: ou eu abandonava o meu compromisso recebido com o Espiritismo ou ele me des- truiria. porque ele conhecia a interferência Divina. amparado por ele. Quando eu ia saindo das águas. fiquei desesperado: ver-me com roupa dentro do mar. orando.

eu tive uns cortes. Voltei-me. Eu orava.110 SUELY CALDAS SCHUBERT Em certa ocasião. entrando no processo de sintonia. me puxou pelas costas. senão a de se render. depois do expediente no IPASE. quando eu ia a uma aula. em direção da Cidade Baixa. já trabalhava . desembaracei-me das pessoas. Desci uma rua do Pelourinho. e. Juntaram- se algumas pessoas. e. caminhava tranqüilamente pela rua da Misericórdia. por passar seguida- mente pela porta onde um amigo tinha uma loja de calça- dos. quando alguém. porque vi como os Espíritos podem. tinha a vida normal de uma pessoa que procura manter a dignidade. este me viu e notou a minha palidez. Como de outras oportunidades. Eu residia muito distante do centro da cidade. que me lançou sobre uma vitrine de uma joalheria. imediatamente. ou te matarei. provocando um certo pânico e um grande susto. armar um indiví- duo para cometer um crime contra aqueles a quem detes- tam. Você me desculpe!" Houve uma confusão momentânea. voltei à normalidade. subitamente. ele disse: "— Perdoe-me. conversou comigo. desde que o outro ou aqueles dêem margem. fiquei muito aturdido. que é muito movimentada. um murro no rosto. ameaçou-me: — Vou humilhar-te de tal forma. que não terás outra alternativa. eu o vi. mas. mas. enxuguei o rosto com o lenço e saí. e enquanto alguém me ajudava a levantar. em certas ocasiões. quando caí. Recebi um golpe. e sempre me sugestionei que qualquer coisa que me sucedesse a minha primeira providência seria a de voltar para casa. só nesta hora. Chamou-me. es- tava tão atordoado que me perdi. desculpe-me! Eu tive a impressão de que você era o indivíduo que anda perturbando a paz de minha mulher e quis puni-lo. depois que me voltei de frente para o agressor. Esta bofetada me marcou muito a vida. no meio daqueles rostos. seguindo. julgando ser um colega. para casa. tantas vezes. então. Como é natural.

Havia sido orador de uma turma de mé- dicos. foi quando esse mesmo Espírito que me vinha perseguindo se incorporou no mé- dium Chico Xavier e. apartamento núme- ro tal? Eu me recordei de um incidente muito desagradável. em 1960. — Pois vou refrescar-lhe a memória. eu es- tava em Uberaba. Sempre que estava na ci- dade. na pregação. que eu procurei não dar prosseguimento. o ódio. citando outro fato — do dia 14 de julho do ano passado. número tanto. quando você estava no Rio de Janeiro. Posteriormente. quando uma pessoa que estava dialogando comigo. e no grupo de desobsessão. e a bondade de Chico Xavier sempre me agasalhou em seu coração generoso. foi tomada de cólera e provocou uma discussão. E começou a citar fatos (que eu passei a recordar). num gesto de quem mete a mão no bolso e tira algo. eu tinha permissão de tomar parte como se fosse membro que residisse fora. me disse como se estivesse a ler anotações: — Estou aqui com a sua ficha. Fui à reunião. à rua tal. sofrendo então uma agressão de forma tão inesperada. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 111 na mediunidade. naquele dia — quarta-feira — eu me integrava na sessão. porém. participando dos trabalhos habituais. no dia 13 de janeiro. sem qualquer motivo aparente. Naquele tempo. em Uberaba. na cidade citada do norte do Paraná. — Recorda-se — prosseguiu. mas isto lhe açulava. e vários Espíritos se comunicaram através dos diversos mé- diuns presentes. . O momento culminante. Você se lembra do ano de 1955 quando foi a Apucarana. por primeira vez? Eu não me lembrava. que haviam sucedido naquela oportunidade. Chico Xavier participava das reuniões da Comunhão Espírita Cristã. cada vez mais. que me chocou profundamente.

algo tímido: — Meu irmão. não experimen- tando rancor. eu fui saindo daí. Com muita habilidade. no Colégio Militar. Eu sei que não destruirei. porque o senhor está incorporado num médium. com desejo de atirar-me de lá de cima — era o 12. Eu retruquei. já não havendo mais para onde afastar-me e sentindo nos olhos da criatura como ela estava possessa. permanecendo com aquela impressão terrível. que por pou- co não me prejudicou a conferência nessa noite. Eu venho hoje aqui para ter- mos um acerto. o senhor é a maior prova da legitimi- dade. mas aniquilarei o seu corpo e ficará do nosso lado. enquanto eu fui recuando até à janela da sala. . indo participar de uma doutrina abjeta.112 SUELY CALDAS SCHUBERT Guardei a data por ser o dia da libertação. para engrossar as filei- ras do clero. e trai-nos vergo- nhosamente. conversando comigo. mas com muita agressividade emocional. O Espírito dizia com rudeza: — Fui eu quem incorporou essa pessoa para destruir- lhe a vida. da Queda da Bastilha. o dom. — Você se comprometeu conosco — afirmava. utili- zando-se de sofismas muito bem construídos. Passou a atacar o Espiritismo com muita nobreza de linguagem. deixando que esta concessão seja colocada no ridículo de um populacho incapaz de a compreender. tais como: — A minha reação contra o Espiritismo tem funda- mento. desviando-me. Apesar do ódio que ele destilava. na Tijuca. O que é impressionante — e grave — é que o Espírito falava com autoridade sobre mim. eu sentia respeito e consideração. e evadi-me do lugar. da justeza do fenômeno espírita. quando retornasse à Terra. a chamada Igreja militante. porque o Espiritismo está barateando a mediunida- de. a graça. em si- lêncio. A pessoa foi investindo contra mim. o carisma.º andar do edifício. exalta- do —.

ou melhor. Vou dar-lhe uma determinação: retorne a Salvador. trazemos o fenômeno mediúnico. buscando ilu- minar consciências. Como você consideraria. com quem mante- nho contato direto e apresente-se para confessar-se. aparentemente. arrepen- der-se. preconizada por todas as religiões. porém. porque anda com o archote da fé. tomar hábito e servir à causa da Verdade. incendiando tudo à sua passagem. é um desses responsáveis. se eu. . apenas repetimos Jesus. incapaz de competir com o po- der e a opulência da Igreja. porém. ele usou de um outro argumento: — Quando o Espiritismo apareceu. Ao mesmo tempo. para nós. é o mo- mento culminante da união com Deus. o Espiritismo barateia a mediunidade. procure o sacerdote fulano de tal (cujo nome não devo declinar por- que ainda está encarnado). Todavia. nós não a vulgarizamos. a Igreja Romana podia ser comparada a um holojote que projetava imensa claridade no céu enquanto ele era uma talisca de fósjoro acesa que se abria na treva. — Você. mas. a culpa não é do Espiritismo. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma em uma constelação de astros a iluminar os céus e a Igreja vai apagando a sua claridade. é a prova robusta da imortalidade da alma. o senhor me desculpe. Como os senhores. entre palhaços. — Mas. explicamos o fenômeno mediúnico a fim de facilitar as pessoas a se en- contrarem consigo mesmas. jeras e o povo que aí foi para divertirse? A Eucaristia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 113 — Este manequim de quem me utilizo — respondeu. porque nós não barateamos a mediu- nidade. é um instrumento dócil. na igreja tal. meu irmão. ele tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. prontamente —. fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. muito bem colocado. os espíritas. podem atreverse a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? Bem se vê que era um sofisma. de um lado para outro. um sacerdote da respeitável religião.

Não com- preendo por que o irmão se volta contra mim. Utilizar- me-ei da bondade. que se concretizou. não tenho como me evadir da presença de Jesus. a zombaria. pelo menos: — Ou aceita a minha voz — é o meu ultimato — ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. o meu compromisso é com Jesus. A verdade é que. sendo desmoralizado pelos seus correli- gionários e confrades. defrontará com a minha presença. Por onde quer que eu haja passado. se você se obstinar.114 SU ELY CALDAS SCHUBERT — Eu não posso. Mas. Ele declinou o nome: J. a não ser que a perca em defi- nitivo. porque. exatamente. Farei tudo por persuadi-lo. veja bem (e utilizou de outro sofisma): O pastor está conduzindo as ovelhas. Eu sou um empregado a serviço de uma Nova Era. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integração nesse trabalho ou não. contra Ele eu não posso — retrucou — mas. dois anos depois. durante vários anos e até hoje ainda. Eu sou escravo. — Não. o descrédito e tantas coisas que nos . o desrespeito e o sofri- mento lhe estarão esperando. Mas se o senhor não me libertar dEle. ele a chama e vai atrás. a partir do dia 10 de junho de 1962 as provações me aguardavam: a ironia. se for isso que aconteça. eu e o meu povo. com muito prazer. eu não posso. O momento é hoje e se você não voltar ao nosso compromisso. uma delas tresmalha ou se desvia. em grande parte. se o senhor se voltar contra Ele.S. da oferenda de recursos e valores para você triunfar no mundo. E me fez um prognóstico sombrio. Mas ele não a deixa. Não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. usa o bordão e ela volta ou morre.T. Se não a alcança. contra você eu posso. que. O irmão de- veria voltar-se contra Aquele que me dirige. Ele me liberta. A comunicação alongou-se. a humilhação. liberte-me dEle e eu passarei de mão. Ou retorna para o nosso seio ou lhe bateremos tanto de bordão. aonde quer que vá. eu fui convidado a um pesado testemunho. É o que farei com você.

ele re- tornou e falou-me: — Vou deixá-lo por um período. jovem ainda. fazia muitos anos. só que o ferro estava como que incandes- cente. é claro. Eu havia assistido a um fil- me. . sob esta epígrafe. as lutas e as dores. — Você mudou apenas de roupa. eu já não sou aquela mes- ma pessoa. nós estávamos impossibilitados de rece- . pela paciência. perdoe-me. Aquilo me impressionou de forma tal. Você não me conven- ce. segui ao meu quarto. Um esclarecimento: comecei a chamar esse Espírito pelo nome de o "máscara-de-ferro". porque eu o conheço. Anos depois. No dia da bofeta- da. como era natural. em circunstância muito dolorosa. pela abnegação. Dê-me uma oportunidade de reparação. que eu. Passaram-se os anos. pelo trabalho que vem desenvolvendo na sua comunidade e em si mesmo. . pela humildade. chegou à "Mansão do Caminho" uma criança. na rua da Misericórdia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 115 levam ao sofrimento. com algum atavismo clericalista. quando cheguei a casa e entrei discretamente para que os meus pais e a minha irmã não me vissem. quase trinta anos de combate diário. ele me apareceu e o seu rosto me jazia lembrar a personagem do filme com a "más- cara-de-ferro". — O senhor me odeia tanto — disse-lhe — que deve ter um motivo muito forte para isto. ajoelhei-me aos seus pés e lhe pedi perdão. Anos depois. temporariamente. Várias vezes ele me apareceu com aquela expressão terrível. por volta de 1976. mas é a mesma pes- soa e eu o matarei. Eu fiquei muito feliz. sei das suas dívidas. ele me reapareceu. chegavam e se avizinhavam rudes. mesmo continuando as provas. de assistência quase diária. portanto. Certo dia. Todavia. não desanimei. então. Aí. e. mas você me venceu.

Nesta noite. Encerrava-se. Foi o que eu fiz. para re- ceberem a ajuda em nossa casa. mentalmente: Como faria Jesus em uma circunstância destas? A consciência me disse que Ele a receberia. pois o médium. a quem aca- ba de receber. comovi-me e me lembrei de Jesus. traz outros correligionários. para aprender a amar Jesus. . hoje. quase afável. defrontar-se-á com a verdade de sua própria vida. A mediunidade enseja ao ser humano condições de le- vantar. se Deus me der vida. emocionado: — Agora você me convenceu. de sofrimento e miséria. poder re- tornar e vir ainda receber o afago das suas mãos nessa sua casa. é a minha mãe. participando da vida em sua real dimensão. Eu tenho que amar a quem vai ajudá-la na sua tarefa de reden- ção. Ensine-me. agora. outros companheiros que têm o mesmo problema. . o véu do passado. menciona Divaldo. assim. na visão correta. demonstrando a excelência do amor e o poder da caridade. Ele continua aparecendo-me. de uma forma sublime. o que fazer. gradativamente. Ser médium é uma incursão ao país da realidade. dire- mos nós. apareceu-me aquele Espírito e me infor- mou. e isto será tanto mais consciente e preciso quanto mais aprimorada for a faculdade. .116 SUELY CALDAS SCHUBERT ber novos candidatos por falta de espaço e de recursos. e. Vendo a criança num tal estado de abandono. menos hostil. e. de debilidade orgânica. Imediatamente convocamos os nossos colaboradores residentes e a criança foi encaminhada a uma das casas. "Ser médium não é uma viagem ao país da fantasia". que está de volta ao corpo. já participa das nossas reuniões doutrinárias e me- diúnicas. o capítulo do "mascara-de-ferro". Porque esta. Perguntei-me. de vez em quando.

Através da mediunidade abre-se a porta da vida verdadeira e o médium passa a detectar os seus compromissos próximos e remotos. não o faz diretamente. não pro- tege. ela é uma presença amiga. A esta altura. Entretanto. E Joanna de Angelis? Tanto quanto se sabe. os problemas. A aptidão mediúnica é. neste relacionamento. Vivemos na Terra de nossas penitências. tanto quanto relaciona- se com os do plano físico. por certo. Sua influência em muitos acontecimentos foi marcan- te e inequívoca. por decênios. imaginar. o assédio contrá- rio — tudo isso já sabíamos existir a acompanhar-lhe os passos. Não instrui. por excelência. que ninguém poderia. a via direta para esses reencontros. Supor que. acostumou-se. a conviver com os habitantes do Mundo Espiritual. Este é bem o chão dos penitentes e não há como fugir a essa realidade viva e palpável de nossos reencontros com aqueles que são os partícipes de nossa jornada terrena. somente encontrasse amigos e pessoas bondosas. Ao longo de mais de trinta anos esse sacerdote esteve ao lado de Divaldo. de modo ostensivo ou oculto nas som- bras. o conhecimento dessa perseguição sem tréguas. com requintes de planejamento e com tal desfecho. As altas e graves responsabilidades. Quantas e quão belas lições extraímos desse extraordi- nário relato. as lutas ingentes. Deixa-o defrontá-lo porque sabe o quanto é essencial que ambos resolvam e acertem as . deixando sempre sinais indicativos de sua proximi- dade. a nortear os passos do mé- dium baiano nas tarefas doutrinárias. não defende o seu médium desse adversário soez? Não. seria des- conhecer a situação do homem no mundo. de cedo. que é parte da vida de Divaldo. várias indagações afloram à mente do leitor. realizada de maneira fria. mãe e Mentora. calculada. os sacrifícios e renúncias. O SEMEADOR DE ESTRELAS 117 Divaldo Franco. é uma surpreendente revelação.

Todavia. quantos julgam ser da com- petência de seus Guias e Mentores o afastamento de lágri- mas e sofrimentos e de quaisquer testemunhos provacio- nais. a partir do reencontro de corações. agora. julgando que lhes cabe o papel de arredar da estrada humana todas as pedras e obstá- culos. dos Espíritos protetores. favorecendo e facilitando a caminhada. vem provar através dos tempos e dos próprios ensinos de Jesus. porém. do exercício sublime do amor e do perdão. quando a vida se torna difícil. que é médium e exercita a sua faculdade nas reuniões apro- priadas. que se faz. dentro de sua atual programação. para que não lhe arrefeçam o entusiasmo e as energias. que deveria ser assim um passeio feliz no campo da fantasia e da ilusão. A experiência. permanece zelando durante todo o tempo. Mesmo no meio espírita. o entusiasmo e a fé. Evidentemente. Ela está cônscia de que Divaldo. que aquele que inicia a esca- lada torna-se a l v o preferido dos que ainda se demoram nos vales. quando há empeços e os problemas aumentam. está livre de doenças e dores. ele tem possibilidades decisivas de vencer. amparan- do e dando forças ao médium. precisa vivenciar todas essas experiências libertadoras. que freqüenta o Centro Espírita assiduamente. não pode e não deve interferir. minimizando os conflitos. não raro. que persevera nas atividades. Ela sabe que.118 SUELY CALDAS SCHUBERT pendências do passado. Ela bem conhece todo esse ingente processo de conquista. * * # Outra questão que surge: será então uma obsessão? Estaria Divaldo sofrendo um processo obsessivo por tão . está vacinado e imu- ne aos assédios negativos. esmorecem. Por isso permanece no seu posto de sabedoria e amor deixando que ambos vivenciem todas as etapas desse notável esquema de redenção. Quando a coisa não vai bem. pois costuma-se pensar que aquele que se dedica ao bem. Muitos confundem as tarefas e missões dos Guias Espi- riuais.

item 237. quase criança ainda. Quando muito jovem. Realmente. trazê-lo de volta ao seio da Igreja a que ambos serviram juntos. para desvencilhá-lo desses liames e compromissos. iluminados por tochas bruxuleantes. os dias longínquos vividos entre as naves de altares e escuros corredores dos mosteiros. durante todo o período de sua convivência ao lado do médium. Duas reencarnações de Divaldo o separam dessa época. em O Livro dos Médiuns. O SEMEADOR DE ESTRELAS 119 I largo tempo? E nesse caso. em memorável comunicação. a cada investida dramática e dolorosa para derrubá-lo. o sacerdote desencarnado deseja. este esca- pa-lhe das mãos. denomi- nou de archote da fé. Seu projeto. Nun- ca é praticada senão pelos Espíritos inferiores. portanto. um dia. capítulo 23. Divaldo o teme pela sua terrível aparência e porque lhe sente uma estranha ascendência. Deseja o domínio total: submetê-lo à sua vontade. assustadora — como a evocar as ligações do pretérito. parte do plano desse temível adversário. o que é a obsessão: " ( • • • ) é o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas. . até então. sustentado pelas luzes que o Espiritismo propicia. A obsessão no seu aspecto mais grave era. arruinar os novos ideais que o alimentam. não o suficiente. fortalecido por um labor incansável no bem. contudo. ins- talar neste o processo obsessivo. A cada tentativa de implantar em defintivo a sua onda men- tal no cérebro de seu desafeto a fim de teleguiá-lo. cuja brilhante inte- ligência e vasta bagagem cultural facilitavam a execução. era bem este: o da obsessão por subjugação. muito bem urdido. que procu- ram dominar". e. Há um estra- nho fascínio na figura hedionda. como pôde executar a sua ta- refa? Allan Kardec define. inexplicável. aquecido e alimentado por uma fé vibrante e segura — que ele próprio. para conseguir o seu intento não hesita nem mesmo em tentar trazê-lo para o seu lado provocando-lhe o suicídio. afastá-lo da Doutrina Espírita. no passado.

a fim de fortalecê-lo. dentro dos parâmetros comuns ao proces- so obsessivo. . frá- gil e quase indefeso. Pode-se imaginá-lo.120 SUELY CALDAS SCHUBERT Essa perseguição constante e prolongada apresenta uma perspectiva nova e interessante no estudo das relações entre os encarnados e os desencarnados. já amadurecido e tarimbado na vivên- cia mediúnica. após a molda- gem sob altas temperaturas em que são fundidos. pelas "ma- trizes' do passado. como no caso do quase suicídio no mar. Pelas suas características peculiares não pode. Divaldo teve momentos de cessão. inexperiente e pouco conhecedor da Doutrina e da mediunidade. O QUASE SUICÍDIO O trecho inicial da narrativa sobre o "máscara-de-ferro" é também o mais chocante e pungente. que pressupõe a sintonia mental plenamente identificada. desconhecendo a complexidade dos processos obsessórios. inexperiente. de certa forma. vulnerável. o médium é quase levado também ao auto-extermínio. É um momento dramático este. provocadas pelo adversário espiritual. qual ocorre com os metais preciosos. O fato inicia-se com algumas visões. o que vai acir- rar o ânimo do perseguidor que realiza investidas e agres- sões cada vez mais dolorosas. que se utiliza da hip- nose. que se embelezam. A Mentora permite. Há obsessor. carregando no imo da alma o trau- mático suicídio de sua irmã Nair. mas não existe obsidiado. deixando-se. por momentos. não mais se deixa influenciar. embora em alguns lances o algoz quase realize o seu intento. tentando assumir o comando da mente de Divaldo. a rigor. Nos primeiros tempos. objetivando atingi-lo através de terceiros. durante a noite. Jovem. de passivi- dade ante o comando mental que o constringia. Posteriormente. ser classificada como obsessão. dominar mentalmente e obedecendo ao comando que o oprime.

É madrugada. Ameaçando-o de morte. esses res- ponderão como por um assassínio. frio. Quan- to aos que conduzem alguém ao auto-extermínio. A agonia da situação é terrível e não entende. a fim de não cair novamente nas mãos de seu per- seguidor. avisa-lhe que o seu compromisso com a Igreja perdura. Está no mar. as ondas molham o seu rosto. embora com atenuantes. no cérebro. Nilson. na certeza de que a Espiritualidade Maior não desam- para. Retoma o comando mental e. atendendo à voz hipnó- tica. está por perto. repercute a voz persuasiva indicando a morte como o melhor caminho e solução para todos os problemas. guiado pelo instinto de sobrevivência. alertando-o para a necessidade vital de uma vigilância inces- sante. Avança um pouco mais. Já. Nos ouvidos. Mas. obstinado em seus propósitos. de pronto. . * * # Em O Céu e o Inferno. Dominador. provocando-lhe um choque que o desperta afinal. o que não a isentará de responsabilidade. o pai. levanta-se do leito. Que deve abandonar o Espiritismo e ingressar de novo nas hostes religiosas a que juntos pertenceram. salta a janela e caminha para o mar. na praia. em plena noite escura e não sabe nadar. Vigia e ora. é o que ensina O Livro dos Espíritos. Allan Kardec informa que o obsessor pode levar a sua vítima ao suicídio. o irmão. quando. Está escuro ainda e a água fria a envolvê-lo não o des- perta. providencialmente. Molha os pés nas primeiras ondas a se quebrarem ao seu encontro. o anjo bom. Chegado o instante preciso atira-se às águas e resgata a quase vítima. A praia está absoluta- mente deserta e ninguém poderia salvá-lo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 121 Assim. o amigo. entra em desespero. Divaldo o vê. mar a dentro. porém continua andando. como veio pa- rar ali. a Misericórdia Divina vela e protege. por pouco não consegue consumar o trágico plano. O episódio marca profundamente a vida do médium.

senão contrabalan- . . "Pensamento e vontade — eis as duas alavancas de pro- pulsão ao infinito e. porque confere ao perseguidor a dominação completa sobre aquele que está sendo visado. pois. aspirações. a inspiração incidente. . . portanto. ) " N o fenômeno hipnológico há outro fator de grande va- lia que é a perseverança. que atua sobre a mente. . senão imprescindíveis para a consecução dos objetivos: a fixação da idéia invasora.122 SUELY CALDAS SCHUBERT A técnica mais usada nesses casos é a hipnose. cons- tante. mais tarde. embora os compromissos negativos de que padece. ( . ( . ) "Se o paciente é experimentado nas disciplinas morais. "Merece relembrado o conceito do Nazareno: 'Onde es- tiver o tesouro aí o homem terá o coração'.. . Lentamente a princípio tem início a penetração da vontade que. ( . se continuada. ( .. termina por do- minar a que se lhe submete. Pensamentos atuam sobre homens e mulheres despre- venidos. em lacerantes conúbios dos quais nascem prisões e surgem alvarás de liber- dade. com razões poderosas. ao mesmo tempo. provocando a aceitação e a automática obediência. convém examinar a questão da sintonia e da sugestão. os dois elos de escra- vidão nos redutos infelizes e pestilenciais do "inferno" das paixões. . por onde transitam opiniões. Manuel Philomeno de Miranda diria. anseios. . pela conquista de outros méritos. ) "A sugestão é. conse- gue. a constância da idéia que se sugere naquele que a recebe. pela psicografia de Divaldo: "As ondas mentais exteriorizadas pelo cérebro mantêm firme intercâmbio em todos os quadrantes da Terra e fora dela. ) " E m todo processo hipnológico. e a sugestão campeia vitoriosa aliciando forças po- sitivas ou negativas com as quais sintonizam. . o que equivale dizer que cada ser respira o clima da província em que situa os valores que lhe servem de retentiva na retaguarda ou que se constituem asas de libertação para o futuro.

após o dia de trabalho no I P A S E . Aturdido. pela rua da Misericórdia. para o bem de Divaldo e dele próprio. indubitavelmente. A AGRESSÃO NA RUA DA MISERICÓRDIA Algum tempo depois nova e desagradável surpresa aguarda Divaldo. Caminha ele. e recebe um soco no rosto. para a sua própria felicidade. portanto. Quase o conse- gue. Rapidamente todos se movimentam após os pri- meiros instantes de surpresa. a vítima e seu agressor. Volta-se. o que proporciona ao companheiro querido a retaguarda necessária. antes quer o seu reajuste à or- dem. mas. em direção ao colégio onde se prepara para o Artigo 91. vê um desconhecido — o autor da agressão — que lhe pede perdão pelo terrível engano. que através dos anos permanece no seu posto. capítulo 4) * * * 0 inteligente e revoltado sacerdote tenta. possivelmente supondo ser um amigo. Repentinamente sente-se puxado pelas costas. atra- vés da hipnose levar o médium ao suicídio. a Espiri- tualidade Maior intervém. O Senhor não deseja a punição do infrator. despreocupado. com tal violência que é atirado sobre a vitrine de uma joalheria. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 123 çar as antigas dívidas pelo menos granjear recursos para resgatá-las por outros processos que não os da obsessão. sem entender a ocorrência. a segurança essencial para o labor nas estradas do mundo. os transeuntes que assistem a cena. confuso. que se quebra ante o impacto. Há um momento de confusão entre os que trabalham na loja. Espantosa e estranha cena que se desenrola como num filme. pleno de fé e amor. ao dever. Divaldo levanta-se ajudado . são também de amor e misericórdia. um conhecido qualquer." (Nos Basti- dores da Obsessão. na pessoa sensível e dedicada de Nilson. "As Leis Divinas são de justiça. no entanto.

Acalenta idéias de vin- gança contra um possível rival que lhe assedia a mulher. visto pelas costas. se possível for. e en- fraquecido pelo difícil testemunho. a par de ser um atavismo. o tema é bastante detalhado pelo Codificador. o que consegue com grande esforço. E. Arma o braço do desconhecido que passa. contudo. representa. traz também alguns cortes. Caminha. usando-o como instrumento para agredir. na questão 95. dizem os Instrutores Espiri- tuais. capítulo V I . Conforme exarado. * * * A aparência dos Espíritos é um assunto muito interes- sante. dentre os rostos que o fitam espantados com o ineditismo do caso. E Divaldo o faz. conforme narra mais adiante. Ele ali está. é Divaldo. humilhar e até matar. o vê novamente. de O Livro dos Espíritos. suplicante. Foi bem fácil fazê-lo supor que este homem. personagem de filme. ao vê-lo apavora-se com seu aspecto. cai-lhe aos pés. Essa postura. impermeável a qualquer pedido de clemência. então. o envoltório fluídico "tem a forma que o Espírito queira". Seu rosto re- corda-lhe o "máscara-de-ferro". tentando alcançar o lar. Em O Livro dos Médiuns. o perispírito é "o princípio de todas as manifestações". .124 SUELY CALDAS SCHUBERT por algumas pessoas. Na solidão do quarto. intitulado "Das Manifestações Visuais". Indiferente. o sacerdote irá intensificar as perseguições du- rante os anos porvindouros. naquela hora. O homem vem a calhar para os pro- pósitos maléficos do perseguidor. de joelhos. um ges- to de humildade de quem pede perdão. a vítima de todo o enredo ouve em silêncio as ameaças da Entidade. Além do rosto contundido pelo mur- ro. desfeito pelo brutal ataque. encontra novamente a presença daquele que o atormenta e. Constrangido. principalmente. sendo abordado por Allan Kardec em suas obras. esgotado e temeroso. Extremamente plástico. pelas ruas próximas.

etc. Assim. os que possam ser tidos por anjos. a faculdade de ver os Espíritos. especialmente nessa narrativa é freqüentemente "visitado" pelo seu adver- sário que se faz visível. ou asas. Em O Livro dos Médiuns. re- side nas propriedades do peripírito. em estado de vigilia? "Depende da organização física. portanto. o Espírito se apre- senta sob a que melhor o faça reconhecível. para o homem. fe- rido. Assim não basta que o Espirito queira mostrar-se. que os Espíritos zombe- teiros podem aparecer com chifres e garras se assim o qui- serem. Freqüentemente surge com o aspecto de sua última encarnação. ( . Assim. com cicatrizes. embora como Espírito nenhum defeito cor- póreo tenha. Divaldo vê os Espíritos e. esclarece Kardec: "Podendo tomar todas as aparências. item 100 — 21 a 26) Nas aparições. é preciso também que encontre a neces- sária aptidão na pessoa a quem deseja fazer-se visível. Sobre este ponto. que pode sofrer diver- sas modificações. mostram atributos característicos da elevação que alcançaram. ao passo que outros trazem sinais indicativos de suas ocupações terrenas. um guerreiro aparecerá com a sua armadura. corcunda. . ele se mostrará estropiado. coxo. . como uma auréola. ." (Capítulo V I . ainda. um sábio com livros. se isso for necessário à prova de sua identidade. apresentando características pessoais que o identifiquem. ao sabor do Espirito. um assassino com um punhal. o Espírito toma a forma que deseja." "De que depende." O Codificador elucida. se tal é o seu desejo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 125 Como se sabe. ) "Freqüentemente. Reside na maior ou menor facilidade que tem o fluido do vidente para se com- binar com o do Espírito. lê-se: "Como pode o Espírito fazer-se visível? "O princípio é o mesmo de todas as manifestações.

de uma vez por todas. das quais ele se diz o agente provocador. É o seu perseguidor implacável que. não se pode deixar de reconhecer a beleza do fenômeno mediúnico que se desenrola ante seus olhos com a força da autenticidade e das vibrações e liames que os unem. Por outro lado. "o máscara-de- ferro". põe "as cartas na mesa". Em 13 de janeiro de 1960. de lem- branças e de sofismas acontece então. afirma: . É possível imaginarmos a emoção e a surpresa com que Divaldo acompanha tais afirmativas.126 SUELY CALDAS SCHUBERT A aparência assumida pelo sacerdote. no caso em foco. mas igualmente o vê e lhe sente as vibrações. Divaldo tem o ensejo de con- versar com o seu adversário por intermédio da mediunidade do Chico. É evidente que a comunicação mediúnica. Divaldo o vê falando através do médium mineiro e pela primeira vez toma conhecimento de todos os detalhes. A COMUNICAÇÃO M E D I Ú N I C A A T R A V É S DE CHICO X A V I E R Notável. Usando um belo sofisma. rememorando ocorrências difíceis. Citações são feitas com precisão de datas e locais. a comunicação mediú- nica desse sacerdote. neste caso. É evidente que esta foi a melhor maneira encontrada por ele para amedrontar o médium. Por que conversar através de um médium. em Uberaba. é semelhante à do personagem de um filme. se já havia um permanente contato entre ambos? É a pergunta que surge. Ele não apenas ouve. sob todos os aspectos. mo- tivos e intenções dessa perseguição sem tréguas. Um impressionante desfile de fatos passados. espontânea. através do nosso querido Chico Xavier. representa uma comprovação admirável de todo o sofrido relacionamento existente há vários anos.

podem atrever-se a apresentar esta eucaristia no circo das misérias humanas? A Entidade coloca a mediunidade em plano muito ele- vado. o dom. obviamente. O intercâmbio mediúnico seria o instante sagra- do da eucaristia. para nós. momenta- neamente. nas entrelinhas. a sua popularização a tem rebaixado. O SEMEADOR DE ESTRELAS 127 "O Espiritismo está barateando a mediunidade. é o momento culminante da união com Deus. o ca- risma." Faz alusão. Prossegue. a Igreja Romana po- dia ser comparada a um holofote que projetava imensa cla- ridade no céu e o Espiritismo era uma talisca de fósforo acesa que se abria na treva. dando reforço substancial aos que combatem a Doutrina. da acusação de vulgarizar o dom mediúnico. e. um sacerdote da respeitável religião fosse a um picadeiro de circo para distribuir a sagrada eucaristia. Descarta-o assim. Como os senhores. um carisma. deixando que este seja colocado no ridículo de um populacho incapaz de o compreender. Um sofisma que realmente impressiona e poderia con- fundir os menos experientes. visto que conhece o seu trabalho. alega que Chico Xavier — o manequim de quem se utiliza no momento — tem feito jus a ser veículo dos Espíritos. os que estão hesitantes. ou melhor. considera que o conhecimento da mediunidade e o seu exercício não deveriam ser de domínio público. Demonstrando o seu pouco apreço ao povo. dizendo: "Quando o Espiritismo apareceu. de que a Igreja tem conhe- cimento da mediunidade e que esta deveria permanecer nos círculos restritos de iniciados. considerando-a um dom. incapaz de competir com o po- . A uma observação de Divaldo. os espíritas. tal como é feito dentro de seus próprios muros. apenas exercida pelos elei- tos. feras e o povo que foi ali para divertir-se? A eucaristia. a graça. "Como você consideraria — prossegue ele — se eu. apenas como medida de efeito. Que a sua propagação. aos menos cultos. comparável à eucaristia. po- rém. entre palhaços.

na atual existência. Admite que um dos motivos da perseguição é também o seu ódio contra o Espiritismo. saia pelo mundo levando nas mãos o archote da fé e. ressumam de suas afir- mativas. quando Divaldo. Deixa entrever o seu amargor contra a Doutrina Espírita. obsta que chegue aos homens. essa nova idéia se alastra e ameaça a he- gemonia da Igreja. cheio de coragem e de tenacidade. Além disso. Naquilo que ele vive. arrostando incontáveis dificuldades. Que vemos agora? Observamos que o Espiritismo se transforma numa constelação de as- tros a iluminar os céus. Divaldo representa hoje tudo o que o fere. dessa nova e intrusa fé a iluminar consciên- cias. Já não mais envolve apenas o ex-companheiro no seu desejo de vingança. de um lado para o outro." Neste ponto. agora sim. uma provocação insuportável e por isto aduz. É inad- missível que o companheiro de antes esteja agora com o archote da fé. buscando iluminar consciências." Toda a sua mágoa se extravasa nessas palavras. despeito. Não suporta a idéia de que ele. pois. Não admite a hipótese de que . a legítima mensagem do Cristo que a Igreja. embora o requinte dos sofismas pretenda ocultar a sua verdadeira face. incendiando tudo à sua passagem. Pela primeira vez o antigo sacerdote se deixa ver na intimidade dos sentimentos desencontrados que o avassa- lam. porque anda com o archote da fé. reconhece agora. timidamente. o sacerdote se revela. todas as emoções contraditórias com as quais não sabe lidar e pe- rante as quais é algoz e vítima. É. e a Igreja vai apagando a sua cla- ridade. Para que se resolva a mudar em de- finitivo. Em seu íntimo mesclam-se a revolta por ter perdido um companheiro e o rancor contra a Dou- trina Espírita que o arrebatou de seu convívio. ódio.128 SUELY CALDAS SCHUBERT der e a opulência da Igreja. teimosamente. o contesta: '"Mas você é um dos responsáveis. mágoa. Revolta. conforme diz. estampa-se um permanente convite para que tam- bém faça o mesmo.

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que este é um dos testes mais difíceis de ser vencido. defrontará com a minha presença e. que apenas começam a existir. O mo- mento é hoje e se não se voltar para o nosso compromisso. em seguida." E faz. acenan- do com os triunfos mundanos. " A o n d e quer que vá. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 129 ele próprio esteja em fracasso. Na parte final da comunicação faz uma advertência muito séria quanto aos meios que adotaria daí por diante. a humilhação. É um ultimato. sabendo. por meios escusos e basicamente anticristãos. rapidamente medraram." Terríveis palavras estas. prepare-se para testemunhar se é verdadeira a sua integra- ção nesse trabalho ou não. no seu sentido legítimo! Não suportam os ventos que pressagiam tempestades e es- . a ser. da oferenda de recursos e valores. Carreadas pelo ódio varreram como um tufão os dias de Divaldo Franco. Caídas em terra fér- til. Sementes de rancor. Corações humanos! Sentimentos frágeis. novas ameaças capazes de ba- lançar até os mais experientes. da for- tuna ou de qualquer forma de poder. em quintais abandonados. sem subterfúgios e cinicamente. ainda hoje. em terrenos baldios. de antemão. segundo Divaldo. e novamente. que se concretizou em grande parte: "Ou aceita o meu ultimato ou aonde for pregar a sua malsinada Doutrina. desmoralizado pelos seus correligionários e confrades não terá coragem de abrir a boca para coisa nenhuma. Confessa. de torpezas. um prognóstico sombrio. Incontáveis médiuns têm sucumbido ante os acenos do prestígio. tal como a religião que pro- fessa e pretende defender. Acrescenta. o desrespeito e o sofrimento o estarão esperando. vacilantes. em leiras descuidadas. que se utili- zará da bondade. Insinua que Divaldo poderia conquistar as glórias do mundo e para isso ele estaria por perto para proporcioná-las. de injúrias foram sen- do lançadas a partir daquele momento.

em sua retaguarda.130 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T tiolam-se sob a inclemência do sol causticante. afáveis. ami- zades que se construíram em dias de sol radioso desmoro- nam ao primeiro sinal de intempérie. amigos. que se consuma por longos anos. a amorável Benfeitora. " . Este impressionante relato de Divaldo nos leva a pro- fundas reflexões. "Chorando para servir". Tem. são algu- mas destas mensagens e que estão enfeixadas no livro Messe de Amor. portanto. A maior parte tem a duração de uma flor e fenece ante os rigores do tempo. . amorosos fecham-se e se distanciam. Corações. Aí estão. . . A decisão está tomada. antes. editado no ano de 1964. "Sinal de Cristo". todos esses sentimentos. São nossos. quando não se tornam agressivos. Divaldo irá verificar. numa reunião mediúnica. mas representa séculos de poderio e legiões de seguidores. Afetos. . . E Viverás". Uma cisão no Movimento Espírita é o projeto ideal que ressalta de qualquer análise por mais superficial que seja. " E m honra do ideal". * Divaldo terá de provar se é verdadeira a sua integração na fé e no trabalho que realiza. "Fidelidade à Fé". É um Espírito comuni- cante apenas. Entre eles uma Entidade clerical. O "circo" para onde leva a "eucaristia" ser-lhe-á a are- na do sacrifício. Fazem parte de nosso ser ainda imaturo e infantil. dois médiuns: Chico e Divaldo. É por essa época que Joanna de Angelis. "Solidão e Je- sus". o apoio da Instituição que defende e pela qual fala. que a predição do Espírito se torna realidade dolorosíssima. ainda não tocada pela palavra do Cristo. pos- sivelmente endereçadas ao filho espiritual. Dois corações que se amam e se reencontram no labor doutrinário. dentro em breve. escreve algumas de suas mais belas páginas.

profunda e permanente — porque. O SEMEADOR DE ESTRELAS 131 A PROVA F I N A L Trinta anos transcorreram desse convívio diário até o surpreendente desfecho. Nesse longo tempo Divaldo funda o Centro Espírita "Caminho da Redenção". tudo isto sob a supervisão do "más- cara-de-ferro" que ainda não se dá por convencido. da qual participa com toda a carga emocional que já lhe escapa ao controle. 0 persistente e tenaz sacerdote necessitou não somente de três decênios para convencer-se da legitimidade da fé e do trabalho de Divaldo. dedica-se ao labor mediúnico. hipocrisia. psicografa livros. O próprio pro- cesso de crescimento do ser. As atividades doutrinárias jamais sofreram solução de continuidade. não cessa nunca essa transformação. Observa-se nesse episódio do "máscara-de-ferro" que a sua doutrinação não foi realizada em uma ou em várias reu- niões mediúnicas. e sim. mas também. Um dos pontos básicos para que se consiga demover o Espírito perseguidor de seus propósitos é a sua vítima mos- trar-se renovada e convencê-lo de suas atuais intenções. o desânimo ou a covardia moral. lan- ça-se à oratória e sai pelo mundo afora a pregar a Doutrina dos Espíritos — portando o archote da fé para iluminar consciências — idealiza e concretiza a "Mansão do Cami- nho". ' Essa riquíssima experiência do médium baiano é a mais autêntica comprovação de tudo o que o Espiritismo prega a respeito das perseguições espirituais e da imprescindível transformação interior. falsida- des. comportamento dúbio. de fato. . ou até mesmo a deserção. em sua dimensão espiritual representa uma seqüência constante de renovações. Não se verificou nenhuma ocorrência que atestasse má-fé. Durante todo este longo período o nosso obstinado ir- mão teve incontáveis ensejos de avaliar o comportamento do médium e a legitimidade de seus propósitos. ao longo de três décadas de acom- panhamento cotidiano. de uma prova ímpar.

Neste mo- mento decisivo reflexiona profundamente. o estivesse acompanhando oculta- mente para certificar-se. Divaldo resgata a nossa fé no ser humano. se este real- mente vive tudo o que prega. redi- mindo os homens e preparando o amanhã feliz que para todos nós começa agora. doutrinação alcançariam o resultado que a atitude daquele instante consegue. Recebe então a criança como mais um de seus filhos sem saber ainda a sua procedência espiritual. Para nós. . conselho. os mecanismos da Justiça Divina resolveriam o caso de forma definitiva. face às dificuldades em que viviam. ei-lo que retorna à sua presença. Assim. encaminham para a Man- são uma criança na mais absoluta indigência. e fiel ao seu com- promisso de vivência evangélica encontra a solução ideal no exemplo de Jesus. pulsante. É possível que embora não aparecesse para o mé- dium. Nenhuma palavra. para todos os que lerem estas páginas sobram motivos para um reflexionamento em torno desse belíssimo episódio. mas chega visceralmente trans- formado. ainda e sempre mais. há algum tempo.132 SUELY CALDAS SCHUBERT Mas. nesse mesmo dia. Ao vê-la. E evidencia que a mensagem de Jesus permanece viva. V e m como outrora. Nenhum compêndio do mundo tem em suas páginas tal poder de persuasão do que o gesto de Divaldo. Divaldo se questiona sobre a possibilidade de acolhê-la. Mais tarde.

professor universi- tário. Ali. a convite da Spiritual Science Fellowship. gótica. No dia seguinte. Marylin Rossner. tendo feito doutorado em Nova York e que seria o nosso tradutor — fomos para o hotel e demos início ao nosso programa. o número de afluentes foi tão grande que as aco modações não permitiram alojar todos os interessados. Marylin. que é dirigida pela professora e médica psiquiatra. não se poderia admitir mais . que havia sido alugada especialmente para aquela finalidade. Depois de recebidos no aeroporto. No primeiro dia. que. Ela é a fundadora-presidente. pro- ferimos uma conferência pública numa igreja de beleza ímpar. PhD. que foi o onze de agosto de 86. ele brasileiro que reside nos Estados Unidos há muitos anos. hoje na cidade de Phoenix. 14 MEDIUNIDADE E ORATÓRIA Durante a viagem pelos Estados Unidos e Canadá. fui a primeira vez a Montreal. realizamos a segunda conferência. que fica no Estado de Quebec. Foi necessário fechar a porta e dizer. lamentavelmente. Dr. na sociedade dirigida pela Dra. à fila que se aglomerava do lado de fora. por falta de espaço e por questão de segurança. que tem o nome de "Marylin's Center". João Zério e nós. no Arizona.

pedimos um voluntário. Joanna de Angelis me disse que eu tinha diante de mim uma personalidade que reali- zava um trabalho expressivo e que vinha do passado traba- lhando com dignidade e verdadeira elevação. um sacerdote belga. A nossa intenção.134 SUELY CALDAS SCHUBERT nenhuma pessoa. que havia vivido nas Ilhas Sandwich. que estava na escadaria de acesso ao segun- do piso.. acreditam na reencarnação. na sua anterior existência. estilo seminário. nessa segunda oportunidade. Realizamos a conferência. aliás. no dia anterior. mas estão profundamente vinculadas ao orientalismo e às dou- trinas esotéricas. veio até nós. e. Joanna. para fazermos uma demonstração da terapia bio-energética. xintoístas. convidou a . Joanna me informava que ele se chamara Damião de Veuster. Levantou- se um senhor. agradeci-lhe a generosidade e disse-lhe que os Espíritos me haviam dito ter sido ele. loucura e obsessão". então. O tema que me foi sugerido era "Psiquiatria. começou a dar detalhes da carta que ele havia dirigido ao Papa e uma série de fatos proban- tes de sua existência passada. de público. sentou-se e eu comecei a aplicar-lhe passes. sintetizado. As escadarias ficaram repletas. no Hawai.. O cavalheiro ficou muito emo- cionado. as salas e o corredor. Ele teve um impacto inicial. ao terminarmos. aqui no Brasil. no qual a Dra. com a tradução de João Zério e. pela razão de ser uma psiquiatra PhD. Ao concluir. Marylin é versada. porque o nosso objetivo era apre- sentar Allan Kardec e o conceito espírita a essas Institui- ções que são mediunistas. era a de apresentar a conceituação kardequiana a respeito da dignidade mediúnica e dos re- cursos terapêuticos que se encontram à nossa disposição. Em seguida levantou-se. taoístas e outras. Fizemos um estudo. a questão do surgi- mento do Espiritismo. já referido no nosso livro mediúnico Sublime Expiação. do fenômeno mediúnico. Logo de- pois. Quando estava terminando. conforme é usual esta prática. após havermos examinado.

ele havia recebido esta revelação por outra fonte. Estávamos na "Mansão do Caminho". e esta biografia estava semiconcluída. e ambos narraram. Divaldo nos mostra a carta de Demitri Trifiatis. com a emoção que havia vivido quando visitou as Ilhas Sandwich. naqueles dados. poeta. havia dados que ele não conseguira coligir e que iria agora pesquisar quanto à veracidade dessas novas revelações. a duas vozes. mais uma vez. recebi uma carta dele. Ao lado disso. E mais do que isto: nas informações que eu lhe passara. exclusivamente para estar conosco — o fundamento que lhe dava a prova. Marylin. realizando uma tarefa verdadeiramen- te fascinante. O nome dele é Demitri Trifiatis. que. de que aquela informação era realidade. ele vinha ter. participa dos trabalhos do Marylin's Center. anos atrás. aonde foi sentir a legitimidade da- quela informação. Agora. Isto é muito confortador. sem margem de dúvi- das. de uma pessoa absolutamente estranha — porque ele viera de outra cidade. mas o próprio autor teve a gentileza de enviar também a tradução. no dia seguinte. O SEMEADOR DE ESTRELAS 135 Dra. por uma dessas "coin- cidências". ontem. Viajou a Molokai. no dia atrás men- cionado e. porque. ele começou a perceber que. quando grava- mos este depoimento. o célebre padre Damião. dia 8 de setembro de 1986. como respaldo à pesquisa que estava fazendo. orientalista. ele se identificava. escritor. o leproso. que transcrevemos a seguir. o que o levou a escrever uma minuciosa biografia de Damião de Veuster. Este homem é filósofo. Os dados que havia coligido eram tão extraordinários que ele se identificou plenamente com essa realidade. Está escrita em inglês. 9 de setembro. Tão sensibi- lizado ficou. . E como era um homem cético resolveu fazer pesquisas a res- peito. para colocar no livro. que nos pediu uma declaração por escrito.

a sua espi- ritualidade. Divaldo Pereira Franco Rua Barão de Cotegipe. sou. dinâ- micas. um dia. no Marylin's Center. do mais fundo do meu coração. Com muito amor em Jesus. Fiquei sensibilizado pelo fato maravilhoso de saber que você se ocupa de tantos órfãos. a sua evolução constituem um bem insupe- rável do mais profundo amor e da mais rica compreensão de um ser compassivo e generoso. o seu trabalho e o seu êxito monumental. onde tive a graça de conversar consigo. Tenho fé de receber notícias suas. que eu considero o mais precioso encontro de minha vida espiritual. . Eu mesmo perdi os meus pais na minha tenra idade. especiais como você. Deus o abençoe Eu sei bem o que significa crescer sem a presença dos pais. O nosso encontro foi para mim experiência luminosa.136 SUELY CALDAS SCHUBERT Montreal (Canadá). Eu peço a Deus que o guarde com boa saúde e ativo. 124 Salvador — BA Brasil Querido amigo Divaldo Já lá se vão duas semanas que tive o privilégio de o encontrar em Montreal. O seu conhecimento. Todos aqueles que são tocados pelos dons que você possui são transformados para sempre.S. Demitri Trifiatis (Damien) P. seu irmão e admi- rador. Por esta razão desejo agradecer. pois este mundo precisa de pessoas privilegiadas. a sua humanidade. 22 de agosto de 1986 Sr.

Fizemos a aplica- ção do passe. Petersburg. que eles chamam de Workshop e. demonstrando. por- quanto compunha-se de espiritualistas. Ao terminarmos. as pessoas emocionaram-se até as lágrimas. sendo que ele não dormia fazia mais de três meses. re- verendos e missionários do Espiritualismo americano. na noite seguinte. Realizávamos uma conferência para aí divulgar o Espiri- tismo. o que havíamos falado sobre mediunidade. começando a experimentar os resultados positivos logo naquela noite do passe. Veio um cavalheiro e sentou-se. que então explicamos com maior riqueza de detalhes. pedimos um voluntário para manter um contato e aplicarmos a terapia bio-energética. na cidade de Greensboro. estavam presentes. porque confirma a mediuni- dade naquele sentido de "universalidade do ensino". tivemos oportunidade de ver alguns Espíritos que se identificaram e o dissemos ao senhor. no "Seminário" deste ano. Ao terminarmos. e ali estava a ocorrência mediúnica que não deixava margem a qualquer dúvida. A notícia correu e. O faio voltaria a repetir-se. Petersburg. Ali também realizamos um "Semi- nário". outros curadores. de mentalistas e de curadores. por efeito. obsessões. O SEMEADOR DE ESTRELAS 137 Isto é muito interessante. explicamo-lo ao auditório selecionado. em St. não sabíamos que este homem era portador de um carcinoma. na Flórida (USA). ao retornarmos este ano a St. Mas. (que agora foi de três dias) senhor Reinaldo E. a que se reporta com tanta propriedade o Codificador. in- teressados no aprendizado da técnica. Foi um fato comovente. o organizador do "Seminário". . Este fato vem confirmar o que ocorreu. terapeutas. Torres. este fato tão singular. no ano pas- sado. nos in- formava que aquele homem havia ficado radicalmente curado. E os médicos que o acompanhavam não tinham qualquer explicação para a sua cura imediata. Para nossa surpresa. identificaçãço dos Es- píritos. na Carolina do Sorte.

encami- nhamento de Entidades. uma série de ocorrências se verifica no plano espiritual. seja no Centro Espírita ou local público. através do estudo da Doutrina Espírita. nesse momento. Os Bons Espí- ritos. pois os Espíritos aproveitam os momentos de elevação para au- xiliarem mais diretamente os encarnados e desencarnados. o que lhe informamos. enquanto o orador discorre sobre o tema. tratamento espiritual. depois fui encaminhada a duas casas de órfãos. ela confirmou que estava em tratamento de coluna. que vem me dar esse recado. mas disse-lhe o nome. Apareceu-nos. — O senhor não repare — explicou-me — sucede que eu tive três mães. mas que prosseguisse com o trata- mento especializado. o auditório solicitou que demonstrássemos uma técnica de meditação e outra de bio-energia. que morreu. Disse mais: — O senhor falou que minha mãe está aqui. isto é. onde vim a ter outras duas mães adotivas. Sabemos. Pedimos um voluntário. É a preocupação dela em vir dizer-me que continua apoiando- me e socorrendo-me. desligamento de Espíritos perse- guidores ou daqueles eventualmente vinculados aos circuns- tantes e até cirurgias espirituais são realizadas durante a . Vários autores espirituais têm relatado esses acontecimentos. nos disseram que ela estava com um problema muito sério de coluna. Mas. e aplicamos-lhe a terapêutica. espe- cificamente na parte que trata da mediunidade que. o que lhe provocou uma grande emoção. Atendimentos diversos. Sentou-se.138 SUELY CALDAS SCHUBERT quando estávamos terminando. então. a minha mãe verdadeira. uma Entidade dizendo ser a mãe dela. razão pela qual se prontificara para a experiência. nunca deixei de amar à minha mãe. quando se realiza uma palestra. eu pode- ria saber o nome dela? Eu estranhei. e aproximou-se uma moça. Ao terminarmos.

O próprio Divaldo receberia. em nossa época. Pelos informes que já possuímos. nas áreas de curas e de notícias espirituais para determinadas pessoas. a comprovação da reencarnação. psicografado por Francisco Cândido Xavier. em A Gênese. nos casos mencionados. É o "Laboratório do Mundo Invisível". pode-se ter uma idéia acanhada do que seriam as providências da Espiritualida- de Maior. a notável atuação dos Espíri- tos Benfeitores nos instantes das palestras do orador baia- no. em suas várias obras. de modo claro. e principalmente. essa atividade se pro- cessa também. o grandioso planejamento para que esses fatos se tornem realidade. oportunamente. de que nos fala Allan Kardec. através de Manoel Philomeno de Miranda. inserida no livro Instruções Psicofôni- cas. in- clusive. portanto. trazer-nos pormeno- rizados informes do mundo extrafísico. Mais tarde. explica. a ação dos Espíritos sobre os fluidos espirituais. itens 13 a 21. Também o Espírito Efigênio S. preciosos esclarecimen- tos sobre o mundo invisível. a mediunidade de Divaldo Franco. É possível aquilatar. os Benfeitores Espi- rituais. André Luiz vem. Depreende-se. de recursos variados desde a criação de painéis fluí- dicos com cenas que têm vida momentânea (derivadas. da própria palestra) até os quadros que propiciem lembranças pretéritas a Entidades que disto necessitem. e que. . Essa ação tem em vista várias finalidades: a compro- vação da imortalidade da alma. capítulo X I V . embora muito superficialmente. a comprovação da presen- ça e comunicabilidade dos Espíritos. antecedendo ao momento da palestra. utilizando-se. na mensagem "Arqui- tetos Espirituais". V I I I de O Livro dos Médiuns e do qual o Espírito São Luís dá notícias detalhadas. O SEMEADOR DÇ ESTRELAS 139 exposição doutrinária. Victor escreve a respeito. no cap. do qual o mundo terrestre é pálida e imperfeita cópia. o Codificador. a excelência da mensagem e dos recursos da Doutrina Espírita.

Mais tarde. aqui em Juiz de Fora. tais Entidades se aproximam de Divaldo e se integram nessa equipe realmente fantástica que Joanna de Angelis reúne. comen- tamos sobre essas ligações que se estabelecem entre o ora- dor e as personagens dos casos que ele tem narrado. para apresentarmos um tra- balho sobre o tema "Mediunidade". algum tempo atrás. no transcurso dessas quatro décadas de divulgação doutriná- ria. debaixo de algumas flores. É bastante óbvio tal programa. Temos observado pessoalmente muitas dessas confir- mações ao longo desses anos de nosso convívio e amizade. através de Divaldo. pois as "coincidências" são realmente impressionantes. quando de sua palestra. espontaneamente. Claro que imediatamente mostramos-lhe o papel. Divaldo inicia a conferência relatando o caso do bispo Pike e seu filho. Em meio à interessante narrativa cap- tamos a presença do bispo e achei muito curioso que ele aí estivesse. porém. o tempo todo. narrado inclusive. Presidente da União Espírita daquela cidade. suicida. . adrede preparadas e estão espiritualmente cônscias de sua parti- cipação dentro de todo esse grande plano de divulgação da Doutrina. toxicômano e. algo hesitante quanto à autenticidade da percepção. isto sim. Aí estávamos a convite do estimado confrade Anísio Brito Neves. escrevemos num papel o nome dele e uma per- gunta sobre a sua presença. comanda e orienta. Recordamo-nos. Mas.140 SUELY CALDAS SCHUBERT Tais pessoas mencionadas e beneficiadas não vieram casualmente ao local e nem se ofereceram como voluntá- rias por um impulso intempestivo. Ao termi- nar. tornaram-se muito freqüentes tais episódios comprobatórios. que em setembro de 1986 a estivemos juntos na 3 3 Semana Espírita de Vitória da Conquista. Divaldo. Já conhe- cíamos o caso. menciona a aproximação do bispo Pike. por exemplo. Este papel ficou dobrado sobre a mesa. Foram. Aos poucos. dirimindo assim qualquer dúvida. Ultimamente. depois.

como uma de suas aptidões do- minantes. em Montreal. belo jovem e promissor pianista que se torna le- proso e que se interna na Colônia de Hansenianos Damião de Vesteur. de Demitri Trifiatis supera qualquer expectativa desses encontros. Nesses casos espe- ciais. então. Divaldo tem uma enorme surpresa: descobre que o voluntário. Victor Hugo narra. emocionados. Infere-se disso tudo que a oratória de Divaldo é pro- fundamente associada à sua faculdade mediúnica e que. materiais) são susceptí- veis de descentralização momentânea. Entretanto. O autor faz. o aparecimento. Afirma o Dr. é nada menos que o padre belga reencarnado. a dramática história de Lucien. totalmente dedicada aos hansenianos. em boa parte deflui dela." . Mas. O homem tem um impacto. indo a Montreal. Marylin e ambos. chama a Dra. no qual aplica o passe. Sob a orientação de Joanna. o médium faz tal revelação de público. Gustavo Geley. que vai tornando cada vez mais fácil e normal um estado primitivamente excepcional e anormal. Damião de Vesteur está no plano espiritual — é o pen- samento natural que assoma após a leitura do trecho em questão. pela psicografia de Divaldo. em sua vida. No excelente livro Sublime Expiação. cujos elementos constitutivos (mentais. dinâmicos. hoje Demitri Trifiatis. uma referência à vida do padre Damião. em seu livro Resumo da Doutrina Espírita: "O médium é um ser. de uma forma ou de outra. O SEMEADOR DE ESTRELAS 141 O mesmo ocorre com a maioria dos que são citados em suas obras mediúnicas e que terminam por surgir. a tendência inata para a descentralização é reforçada pela prática da mediunidade. narram ao auditório que era a segunda vez que tal informe estava sendo trans- mitido e agora com riqueza de detalhes.

re- solve que não precisaria preparar o tema. Onde estão os Instrutores. Assombrado. Está estabelecida a sintonia mediúnica (que persiste há quarenta anos). vem acompanha- da do esclarecimento: nós falaremos por ti. inconsciente ou não. Pode haver uma semi-incorporação ou. desse margem à idéia de que o médium ficaria isento da preparação da palestra. os Espíritos preferem. Divaldo passou por experiência crucial para que entendesse o mecanismo do labor a que estava sendo convidado. ao ser convidado para uma segunda palestra. deixando para os Espíritos esta preocupação. de pú- blico. o transe mediúnico. visto que o papel que este exerce na sintonia e intercâmbio é de grande relevância.142 SU ELY CALDAS SCHUBERT Em outro trecho: "A mediunidade é de essência única. o jovem. com a mente em branco. suplica intimamente a ajuda espiritual. com toda a naturalidade. A palavra espiritual é imperativa. através de ti e estaremos contigo. para suas comuni- cações. Isso. quando vê o Espírito amigo que lhe afirma incisivamente: "Fala! Falaremos por ti e contigo". talvez. uma oratória basicamente mediúnica." O instante inicial da trajetória de Divaldo como orador é. da estruturação do tema. . já que os Espíritos dirigem e atuam diretamente. outras variações como veremos adiante. pois. ocorrendo então. não obstante a diversidade de suas manifestações. essencialmente. No instante azado. Em verdade. por que não se faziam presentes? Apavorado. uma incorporação completa. contudo. porém. a psicofonia. É. um médium preparado. um fato mediúnico. em certos casos. a xenoglossia e até o raro fenômeno de transfiguração. perplexo — e entusiasmado — ante o re- sultado alcançado na sua primeira experiência como porta- voz dos Espíritos. em decorrência do êxito da estréia. todavia. Minutos que parecem séculos transcorrem até que surja um Espírito amigo que o adverte da absoluta necessidade de ele mesmo preparar e estudar o tema e de que aquela é uma lição da qual jamais deveria esquecer-se. vê-se sozinho e despreparado. ou seja. quando percebe alguém ao seu lado. existindo.

e ao labor da pregação dedicaria a sua vida. ( N o capítulo 11 tratamos especificamente de Amélia Rodri- gues). Esse novo período assinala uma mudança na temática das palestras. Bem no início Amélia Rodrigues orienta os temas do Evangelho. podendo ser também. algumas vezes. É evidente — e cumpre ressaltar — que Divaldo trouxe. os Espíritos colocam os trechos dos livros ante os seus olhos para que os leia. obtidos em vidas anteriores. O SEMEADOR DE ESTRELAS 143 É o que preconizam Erasto e Timóteo. Já dentro desse novo método. quando encontramos em um médium o cére- bro povoado de conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Espírito rico de conhecimentos latentes. Estes trechos podem surgir também como se fossem uma fita de telex. suspensa no espaço à sua frente e que ele lê para o público. Conta Divaldo que ela o fazia ver as passagens evangé- licas e a sentir-se como participante delas. pois se . de Francisco Spinelli. em O Livro dos Médiuns." Após essa inolvidável aula de disciplina o orador des- ponta. Divaldo explica que. a assessoria mais constante é a de Vianna de Carvalho. de natureza a nos facilitarem as comuni- cações. capítulo X I X item 225: "Assim. que passam a ter diferentes linhas de abordagem do tema dentro de uma mesma explanação. ao encarnar. dele de preferência nos servimos. Mais tarde. ao fazer citações. de uma policromia indescritível. os recursos próprios para a oratória. de Ivon Costa. o que atende aos diferentes níveis inte- lectuais e emocionais do público presente. porque com ele o fenômeno de comunicação se nos torna muito mais fácil do que com um médium de inteligência limitada e de es- cassos conhecimentos anteriormente adquiridos. As palestras tiveram etapas bastante definidas e mar- cantes. de Carneiro de Campos. Eram quadros fluídicos maravilhosos. de- pendendo do assunto enfocado.

contar as cadeiras do audi- tório (e ao final da palestra é capaz de dizer o seu total. quantas fileiras e t c ) . O que não impede que se ocupe em detectar ocor- rências espirituais relacionadas com os presentes. de que nos fala Geley — que a prática torna cada vez mais natural e simples — e a mediunidade em sua diversidade de manifestações. posteriormente. . enquanto os Espí- ritos falam por seu intermédio. para assim. do profundo amor com que realiza o seu trabalho. diz ele. É neste instante que transmite a pessoas desconhe- cidas as notícias de algum familiar desencarnado ou ainda vários tipos de orientações. com variações do que ocorre na psicografia. Os fenômenos mediúnicos acontecem. Ficam demonstradas.144 SUELY CALDAS SCHUBERT os não tivesse seria apenas um repetidor dos Mentores. especial. do seu inegável carisma. É um estado de transe. enfim. pois pode ver em várias dimensões. sem conseguir transmitir de modo convincente o pensamento deles. à sua frente ou atrás de si. no momento em que atende a um por um. se assim podemos dizer. de pren- dê-lo às suas palavras. de várias maneiras e intensidades. Ele menciona que tem o hábito de. as quais descreve. de galvanizar emoções^ do seu mag- netismo pessoal. duas coisas principais: a descentralização momentânea. Há ainda outros aspectos interessantes para o nosso estudo. São vários gê- neros de mediunidade postos em ação ao mesmo tempo. Assim. o incrível poder de atrair o auditório. como num só bloco. O fato de ver as ocorrências nos dois planos atesta a visão psíquica em avançado grau de expansão. interferir o menos possível. portanto. pois.

em pé. com dor de cabeça. Aproveitava o tempo para fazer a correspondência. Eu me aproximei. funcionários. — Venha cá.) . Tinha o aspecto de um homem com uns setenta anos. Mas. Veja a balbúrdia. mas. na zona tombada da cidade — muito aturdido. pas- sistas. dis- púnhamos do horário das quinze e trinta às dezesseis horas para o lanche. já desencarnado. olhei para a basílica e vi um sacerdote franciscano. (É uma região do chamado "bas-fond". Andei pela Praça da Sé e entrei pelo Terreiro de Jesus. é uma balbúrdia infernal. onde ficam cantadores de viola. de aventuras e interesses escusos. Fitei-o e ele me chamou. 15 RESGATANDO ALMAS - O FRANCISCANO Quando eu trabalhava no IPASE. São três praças conjugadas. meu filho. certa vez. raramente eu saía. ele distendeu o braço e falou: — Veja. o ambiente no Instituto estava tão agi- tado que eu resolvi sair. vendedores ambulantes. aqui está o mar tumultuado das paixões. nós. Quando fui passando pela porta da Catedral — é um lugar muito popular. estas duas e a de São Francisco.

O franciscano prosseguiu. Mas. enquanto lá fora está a algazarra da perdição. O Espírito estava com a razão. explicando-me: — Venha comigo. o jogo. A aventura. Uns negociam o corpo e outros vendem a própria vida. A minha tarefa é ficar aqui à porta da Catedral. orando e debatendo-se na dor íntima. pedi a Deus a felicidade de me dedicar a resgatar almas que estão sendo afogadas no mar das paixões. (A Catedral tem paredes com pinturas de ouro. imediatamente teve um conflito. tudo o que o mundo tem no seu lado mais infeliz está presente. para inspirar e resgatar aqueles que estão no claro/escuro do faz-não-faz. os pun- guistas. Este é o mundo. — Depois que eu morri. entre- mos na igreja. — E o senhor. voltei-me para dentro e ele continuou: — Olhe o que aí está e esqueça do "mundo" que colo- caram aqui dentro. Isto aqui é uma ilha que Deus colo- cou no mar das paixões humanas para diminuir os confli- tos das criaturas.) — Esqueça o que as mãos do mundo puseram aqui. os "vendedores de ilusão" — prosse- guiu ele — as almas atormentadas. Eu fiquei bem à porta. por- que ela ia em busca de aventura. antes do compromisso negativo. Agora venha comigo. chorando muito. muito poder. Ele explicou-me: — Esta alma estava caminhando para o bordel. Indicou-me uma senhora ajoelhada.146 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T — Observe ali. o que faz? — perguntei-lhe. ouça o silencio da fé. olhei para dentro — o santuá- rio — e para fora. . muita obra de arte. Ela passou por aqui — já estava contratada por um cliente — e quando viu a igreja. Venha ver. Cheguei à porta da Catedral. o mundo agitado. estava dominada pelo vício.

mas tem o dever de salvar-se. Retiremos os fluidos externos e a pessoa cria novas condições internas e. Ela entrou e começou a sentir vergonha do seu estado. entre!" Ela não ouviu a minha voz. uma nostalgia do tempo em que freqüentava a igreja. Eu via como se fosse um fruto que se cortasse e fossem caindo as cascas. senão. que vai envol- vendo e se tornando cada vez mais grosseira. mediante o processo continuado. minha filha. mas não se havia entregue ainda à dissolução. falando- Ihe ao ouvido: "— Você tem o direito de jogar fora a sua vida." Ela hesitou e eu a inspirei mais: "— Entre. De repente. Por isto. A opção é treva ou luz. Não iremos fazer o trabalho total. sen- tiu-me. eu me acerquei e a abracei. Perguntei-lhe: — Como é que ela lhe ouviu? — Chegou à mente dela uma saudade. por um pouco. começamos o trabalho de dentro para fora e vamos intuindo para que a pessoa mude também no mesmo sen- tido. cria uma psicosfera. Ajoelhou-se e está fazendo a sua confissão à própria consciência. no tempo em que participava da vida da igreja era uma moça sadia. tinha muito conflito de fé. Agora você veja como nós podemos agir junto aos que abrem a porta da alma para Deus. a mãezinha chegou e me ajudou a introduzi-la na igreja. . Aproximou-se dela e começou a aplicar-lhe passes. — São os fluidos — esclareceu-me o frade — em que ela está envolvida. em volta. ela desmaia. Nesse momento. O SEMEADOR DE ESTRELAS 147 Nesse ligeiro conflito. uma melancolia enor- me e deu-se conta de como se via afastada de Deus. che- ga o momento do equilíbrio. porque o mecanismo de captação varia de acordo com o estado evolutivo de cada um. porém. A mente elabora. a an- gústia fez-se mais forte e ela se lembrou da mãe. por- que. que lhe havia dado tantos conselhos. depois faça o que quiser. Entre. Começou a rememorar que. Ela está sustentada por essas vibra- ções.

que era freqüentador daquela re- gião. nem a alegria. mas. mas não é o templo em si. a convite meu. vai passando um rapaz. De um lado era o tumulto. de vários tipos. Esta aqui está em tratamento. Nisto. atrás. que aqui vem muita gente honesta. com argu- mentos negativos. um rapaz atormentado. a alma sedenta. Há muitos que acusam o templo. sentindo-se exausta. E é justo que a religião seja uma escola. abraçou-o e foi andando ao seu lado. tristes e infelizes. vai-se beneficiar da psicos- fera ambiente. Agora sigamos adiante para você observar a técnica que nós usamos. entran- do e saindo da igreja era grande. Era tão chocante o contraste.148 SUELY CALDAS SCHUBERT O sacerdote continuou a aplicar o passe e ela se dobrou sobre si mesma e ali cochilou. automaticamente. a fim de que. Ele aduziu: — Ela ficará aí. pois que não sabem usar a felicidade. e fiquei à porta. O movimento de Entidades. Toda tarde ela vem para cá para desencharcar-se. um conquistador. porque está perto da desencarnação. Ela estava dormitando e ele me elucidou: — Muitos hão de dizer que a religião é para as pessoas desenganadas. verdadeiramente cristã. Era uma velhinha que cochilava. Temos a considerar. Uma dessas velhinhas típicas das igrejas. do outro o silêncio. ao desencarnar tenha um despertar mais suave. mais tran- qüilo. Eu saí. os enganados e os alegres estão-se compro- metendo. e isto cria uma atmosfera psíquica positiva. que eu olhava para um lado e para o outro. ao cair da tarde. O frade aproximou-se dele. O cliente vinha atrás — era um caso de homossexualismo — a caminho de . nem a saú- de. é a conduta daqueles que vêm ao templo. Foi seguindo e. vinha um acompanhante. um pouco. Quando passou em frente da igreja o doente da alma se benzeu. afervo- rada. Deus não ouve a religião ou o religioso. com problemas de sexo. Por- que os felizes. Vamos ver aquela anciã. mas também um hospital. e com toda a razão.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 149

um bordel. O frade encostou a cabeça ao ouvido do rapaz
e falou-lhe por alguns momentos. Este, de súbito, parou.
Parou e voltou. Chegou defronte da igreja, tornou a benzer-
se e fez uma genuflexão. Nesse instante ele viu o altar ao
fundo. Aí o sacerdote disse:
— Venha!
Ele olhou para a companhia e pediu que esperasse. En-
trou na Catedral e ajoelhou-se num dos bancos próprios,
benzeu-se pela terceira vez e começou a orar o "Pai Nosso",
quando o franciscano se aproximou e pôs-se a aplicar-lhe
passes longitudinais.
Ele me explicou:
— Ê um passe calmante para as funções genésicas.
O moço aí ficou, embevecido, por alguns instantes e
começou a reflexionar em torno da própria vida. Valeria a
pena a prostituição a que se entregava? E terminou choran-
do. Ficou uns quinze minutos, com o acompanhante a certa
distância. Daí a pouco este como que resmungou e resolveu
ir-se, porque o sacerdote inspirou-o para que se fosse em-
bora.
Quando o rapaz se levantou e procurou-o não o encon-
trou; resolveu entrar de novo e ficar, talvez, um pouco mais.
O frade me disse:
— Naturalmente não o resgatamos do vício, mas, hoje,
ele não descerá um degrau a mais na escada da queda moral.
O meu prazo esgotara-se e tive de retornar ao Instituto.
Periodicamente ia ver a terapêutica socorrista, que nin-
guém ou quase ninguém, conhecia! O que eu quero ressaltar
é o amor de Deus e dos Bons Espíritos sem que a gente tome
conhecimento.
Joanna de Angelis diz que quando algo de mau nos
acontece é apenas a "cauda do cometa". Se a "cauda do
cometa" nos causa tanto dano, imagine se o núcleo nos pe-
gasse de frente...
Certo dia, eu estava lá, três a quatro meses depois,
quando o franciscano me disse:

150 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Foi muito bom você ter vindo. Eu estou adestrando
dois substitutos, porque fui promovido. Agora não mais vou
ficar na porta da igreja, irei trabalhar na área dos lupana-
res, para evitar que moças inexperientes resvalem e que cer-
tos crimes ali se cometam. Irei dirigir um grupo de socor-
ristas e estes aqui são dois franciscanos recém-desencarna-
dos que me irão substituir.
Despedimo-nos, como dois bons amigos, e, como pela
outra área raramente eu passava, nunca mais vi este Es-
pírito.
Os dois substitutos continuam lá, há vários anos. São
mais jovens e ainda estão no mesmo local.
Como Deus não nos deixa órfãos! De todas aquelas pes-
soas que por aí passam, algumas se adentram na Catedral,
e dizem: — Senti uma enorme vontade de entrar na igreja,
e, graças a Deus eu o fiz, pois isto salvou-me!
Ê uma programática do mundo espiritual agindo sem-
pre para o bem.

Em O Livro dos Espíritos, na parte referente à Inter-
venção dos Espíritos, questão 519, o Codificador indaga:
"— As aglomerações de indivíduos, como as sociedades,
as cidades, as nações, têm Espíritos protetores especiais?"
A resposta dos Instrutores Espirituais foi a seguinte:
"— Têm, pela razão de que esses agregados são indivi-
dualidades coletivas que, caminhando para um objetivo co-
mum, precisam de uma direção superior."
O surpreendente relato de Divaldo é bem uma pequena
amostra de como a Misericórdia Divina age em benefício
dos seres humanos.
O resgate de almas é trabalho realizado diuturnamente,
em quaisquer situações e lugares. E a certeza dessa ativi-
dade é comovente! Basta apenas a mais leve predisposição,
o mais ligeiro pensamento que expresse desejo de mudan-

O SEMEADOR DE ESTRELAS 151

ça, de renovação moral e as portas do coração se abrem
para a bênção divina. Por isso é que Leon Denis afirma:
" ( . . . ) na morada mais mesquinha, no mais miserável
tugúrio há frestas para Deus e o Infinito". (O Problema do
Ser, do Destino e da Dor)
Em outra obra sua, O Grande Enigma, disserta a res-
peito da prece e de sua importância para o ser humano;
"A prece é a expressão mais alta dessa comunhão das
Almas. Considerada sob este aspecto, ela perde toda a ana-
logia com as fórmulas banais, os recitativos monótonos em
uso, para se tornar um transporte do coração, um ato da
vontade, pelo qual o Espírito se desliga das servidões da
Matéria, das vulgaridades terrestres, pára perscrutar as leis,
os mistérios do poder infinito e a ele submeter-se em todas
as coisas: "Pedi e recebereis"! Tomada neste sentido, a pre-
ce é o ato mais importante da vida; é a aspiração ardente
do ser humano que sente sua pequenez e sua miséria e pro-
cura, p e l o menos um instante, pôr as vibrações do seu
pensamento em harmonia com a sinfonia eterna."
A Doutrina Espírita reconhece o valor e a eficácia da
prece e, uma vez mais, verificamos, na prática — neste caso
narrado por Divaldo — como funciona esse mecanismo de
socorro e atendimento.
Entretanto, é sempre com certa perplexidade que v e -
rificamos, em nosso próprio meio, vicejarem as idéias con-
trárias à prece.
Tais idéias têm encontrado campo propício, a pretexto
de não se adotarem rituais em nossas atividades doutri-
nárias.
Observamos com pesar, que muitos se deixam envolver
por esses argumentos favorecendo assim o programa das
trevas, que começa a ganhar terreno por incúria nossa.
Alega-se, por exemplo, que o fato de se fazer a prece
antes e depois dos trabalhos doutrinários ou mediúnicos é
um ritual. Vê-se que estão confundindo disciplina e método
com ritos. Esta distinção precisa ser muito bem avaliada.

152 SU ELY CALDAS SCHUBERT

"Ritos, segundo o dicionário, são as regras e cerimô-
nias que se devem observar na prática de uma religião. As
normas do ritual.
Ritual: referente a rito(s). Culto. Liturgia. Cerimonial.
Etiqueta.
Liturgia: O culto público e oficial instituído por uma
igreja; ritual.
Disciplina: Regime de ordem imposta ou livremente
consentida. Ordem que convém ao funcionamento regular
de uma organização. Observância de preceitos ou normas.
Método: Modo de proceder; maneira de agir."
Em nossas atividades espíritas existem método e disci-
plina, mas não os ritos, compreendendo-se por tais as ceri-
mônias, as práticas exteriores. 0 fato de se repetir determi-
nada prática — como a prece — não significa que essa repe-
tição caracterize um ritual, conforme vimos, mas, sim, um
método e uma disciplina de trabalho.
A prece é um ato subjetivo, interior. A prece feita em
conjunto significa comunhão de pensamentos, tão necessá-
ria ao êxito das tarefas espíritas, como de resto a qualquer
assembléia religiosa, consoante enfatiza Allan Kardec em
seu discurso do dia 1.° de novembro de 1868.
Jesus legou à Humanidade o 'Pai Nosso", como modelo
de oração. Quase todos os grandes vultos do Espiritismo
referem-se à excelência da prece.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, por várias ve-
zes esse tema é abordado, mormente nos capítulos finais.
E o mestre de Lyon considerou-a tão importante que reu-
niu vários modelos de prece para orientar os espíritas.
Na atualidade, os autores espirituais são unânimes em
exaltar os profundos benefícios decorrentes da prece feita
com o coração, com o sentimento.
É pois, de se estranhar, que em certos setores de nosso
Movimento esteja grassando esse modismo de se querer abo-
lir a prece de nossos eventos e tarefas. São idéias que se
vão infiltrando de modo sutil, quase imperceptível, mas que

O SEMEADOR DE ESTRELAS 153

traduzem uma postura perigosa. Realmente, tirando-se a
oração de nossos trabalhos, fecharemos a porta à inspiração
do Mais Alto, ao intercâmbio com os Mentores do nosso
Movimento. Convém não esquecer que é exatamente através
da prece que nós, encarnados, elevamos nosso padrão vibra-
tório para a sintonia com os Benfeitores Espirituais.

* * *

É comovedor o esforço realizado pelo nosso irmão fran-
ciscano, resgatando almas do "mar das paixões", como ele
próprio diz. Essa atividade é feita no silêncio, no anoni-
mato. Divaldo nem sequer soube-lhe o nome!
Que lição maravilhosa nos transmite esse humilde fra-
de e quanto é reconfortante sabermos que a Bondade do
Pai está atenta ao menor sinal de renovação do ser humano.
Para alguns pode soar estranho este relato, pois, talvez,
a fim de se fugir ao atavismo, muitos se convencem que as
igrejas católicas não oferecem ambiente espiritual propício.
Todavia, o nosso sacerdote mencionado revela que a con-
duta dos que vão ao templo é que vai determinar a sua psi-
cosfera espiritual. É preciso também convir que para nu-
merosas almas a igreja ainda é o refúgio, o abrigo, a fé.
A técnica adotada pelo franciscano lembra, de certa ma-
neira, a que é praticada nas sessões mediúnicas na parte
referente ao resgate dos Espíritos que vêm, conduzidos para
a doutrinação.

16

A MOÇA DE CATANDUVA

Oportunamente fui pregar em Catanduva. Naquele tem-
po viajava-se muito em trens noturnos. Eu o tomava em
Catanduva e ia até São Paulo. Era uma viagem razoavel-
mente confortável.
Numa das vezes em que estive naquela cidade, ao re-
gressar, Dona Lola Sanchez e outros confrades me levaram
até a estação ferroviária. O trem saía às vinte e duas horas
e trinta minutos.
Quando cheguei à plataforma com Dona Lola e os de-
mais companheiros, chamou-me a atenção uma senhora
camponesa despedindo-se da filha. A jovem era uma daque-
las meninas bonitinhas, bem modestas, do interior, vestida
com simplicidade, o cabelo liso, partido ao meio e muito
mimosa.
A mãe abraçava-a e despedia-se, beijava-a e abraçava-a
de novo e a cena comoveu-me. Fiquei olhando a ternura da
mãe com a filha de dezoito ou dezenove anos.
O trem deu o primeiro sinal de partida e me despedi dos
amigos, de Dona Lola, Senhor Benedito, da Aparecida e en-
trei, calmamente.
A mocinha entrou também, apressadamente.
O vagão não estava muito cheio. Eu me sentei à janela,
do lado da plataforma para dar adeus aos amigos, enquanto
que ela sentou-se do outro lado, sozinha.

Vendo a cena eu orei. entrou.. ajeitou-se e foi sentar-se ao lado dela. Ele parecia muito loquaz. que estava junto à janela. daqueles tipos de conquistadores de oca- sião. Examinou-a atentamente. uma despedida quase trágica. A mocinha chorou um pouco e depois recostou-se. A viagem prosseguiu. Recor- dei-me da sua mãe. aliciadores de me- nores . a coitada vai cair nas malhas do sedutor. A mãe dava-lhe adeus e chorava. que brotava do centro car- díaco. . Passou o tempo. Ante a gentileza. num jeito de quem olha a pessoa e despe-a. Dentro em pouco ele já estava conversando com a jo- vem. olhou a todos. eu vi que da mãe saía um fluido leitoso. Entrou um rapaz. comprou frutas. totalmente desarmada. encolheu-se um pouco. Eu pensei: Que coisa estranha esse indivíduo! Parece-se a um desses conquistadores baratos. preparando-se para algum repouso desde que a jornada se- ria longa: umas sete horas em média. cabelo glostorado. aquele fluido foi-se afinando. e a lembrança me sensibilizou tanto que prossegui orando. comigo mesmo: Meu Deus. não saberá defender-se. quase desaparecendo. deteve-se na moça — o olhar dele era tão típico que me chamou a atenção. ele havia passado o braço por trás da pol- trona e se lhe chegara mais perto. Refleti. ofereceu-lhas. porque. Quando chegamos a Araraquara. Ele abriu a porta. Numa estação mais adiante. ele saltou. temendo o que viria depois: Meu Deus. Fiquei distraído com outras coisas e. A medida que o veículo se movia. como se fosse uma nuvem alongada — a idéia era de um arminho muito grosso de meio metro de circunferência.. não deixe que ela seja seduzida — eu rogava. quando percebi. Ela. pedindo a Jesus que a protegesse. a moça ficou animada. tímida. O SEMEADOR DE ESTRELAS 155 Quando a composição começou a mover-se. entrava no trem e se implantava na moça. houve uma parada.

Afaste-o dela! O Espírito olhou-me. eu nunca enjoei.156 SUELY CALDAS SCHUBERT Fiquei a imaginar: Certamente ela é uma mocinha que vai tentar a vida em São Paulo. uma mantilha de renda. muito sem jeito. pedindo por ela. entrou um Espírito vestido à espanhola.. Fiquei orando. mentalmente. você está doente? — Não senhor. muito bonito. a moça teve um engulho e vomitou no homem. O homem deu um salto e gritou: — Miserável! Veja o que fez! — E saiu furioso. — A tua prece foi ouvida — falou-me. Eu fiquei frustrado. atingindo-o de alto a baixo. Olhou para mim e para o par. Dirigiu-se para os dois e começou a aplicar passes na moça. virou-se para mim e justifi- cou-se: — Veja. e aquele . — Você está indo para onde? — Estou indo para São Paulo — explicou-me — para trabalhar como dama de companhia numa casa. Era uma Entidade veneranda. . — Você o conhece? — Não senhor. à antiga. com um pente alto preso aos cabelos. pensando que algo estava errado. é no ho- mem. Terminou. A moça. então. dizia: Não é nela. . dei-o para ela e entendi a técnica que o Espírito usara. De repente. Sentei-me a seu lado. para bloquear o lugar e perguntei-lhe: — Minha filha.. ameaçada de cair nas arma- dilhas de um sedutor profissional. de repente me subiu uma coisa. Logo naquele rapaz. Eu. um vestido longo. porém. fez-me uma saudação e desa- pareceu. De súbito. Tirei um lenço. sorriu e continuou aplicando os passes na moça. tão delicado. tipo sevilhana. ten- tando limpar-se.

todo sujo. Olhei-o e perguntei-lhe. Ele estava até me ofe- recendo um emprego melhor. na estação. vi- mos o rapaz descer do trem. os fatos são vistos pelo ângulo espiritual. que me queria levar para a casa da tia. não é possível. que nunca tinha visto uma moça tão bonita como eu. através da vidência de Divaldo. Ele estava explicando-me quando aconteceu isto. segui com ela. O SEMEADOR DE ESTRELAS 157 rapaz. enquanto eu fiquei a reflexionar na forma como os Espíritos agem. O que é que eu faço agora? — Você vai ser dama de companhia — respondi-lhe. Novamente. a respeito de fluidos: . a fim de defender-me dos "lobos" que existem em São Paulo. em Evolu- ção em Dois Mundos. Quando saltamos. — Este rapaz é um aliciador de moças para a loucura do sexo desregrado. Fiquei-lhe ao lado até chegarmos a São Paulo. Deste interessante caso derivam vários pontos para uma melhor reflexão. De princípio. muito educado. Neste momento. Vale a pena recordar o que diz André Luiz. — Mas. a roupa branca com manchas cor de café. ele ê tão delicado! — respon- deu-me. sorrindo: — Está melhor? Ele deu uma resposta a seu tipo e foi-se. que recebe moças como pensionistas. sobressai a vibração de amor da mãe ao se despedir da filha. veio dar-me o endereço de uma tia. — Você vai fazer exatamente como a sua mãe lhe man- dou — aconselhei. porque ele tem a missão de contratar moças para trabalhar e a tia recebe-as. Expliquei-lhe o que era e ela ficou muito surpresa. — Falou até que estava apaixonado por mim.

pelo qual a criatura assi- mila a força emanente do Criador. tanto quanto o átomo. pois. entretanto. edi- ção F E B ) Este processo. a partícula do pensamento. ge- rando potenciais energéticos com que não havia sonhado. conforme a quan- tidade. em diversos tipos. diante da inteligên- cia que a mobiliza para o bem ou para o mal. mas como o autor ressalta é no plano . em fluido gravitante ou libertador. esparsa em todo o Cos- mo. nomeável. comportamento e trajetórias dos compo- nentes que a integram. ácido ou balsâmico. transubstanciando-a. para influenciar na Criação. absorvido pela mente humana. o homem desencarnado vai lidar. qualidade. por "raio de emoção" ou "raio do desejo". vivificador ou mortí- fero. porém. convertendo-se. em processo vitalista semelhante à respiração.158 SUELY CALDAS SCHUBERT " N o plano espiritual. a subdividir-se. com um fluido vivo e multiforme. como corpúsculo fluídico. "Esse fluido é o seu próprio pensamento contínuo. força essa que lhe opera a diferenciação de massa e trajeto. até certo ponto. pelas barreiras que o corpo físico representa. explicado por André Luiz em relação ao homem desencarnado. evidentemente. a partir de si mesma. segundo a força do sentimento que o tipifica e confi- gura. embora viva e poderosa na composição em que se derrama do espírito que a produz. capítulo X I I I — 1. de vez que podemos defini-lo. a não ser. es- tuante e inestancável. por subproduto do fluido cósmico. não difere do que ocorre ao encarna- do. é igualmente passiva perante o sentimento que lhe dá forma e natureza para o bem ou para o mal. alimentício ou esgotante. impacto e estru- a tura. a nascer-lhe da própria alma. passiva. "E assim como o átomo é uma força viva e poderosa na própria contextura. por acumulação. mais diretamente. à falta de terminologia equivalente." (Evolução em Dois Mundos. é uma unidade na essência. sob a própria responsabilidade." Mais adiante o mesmo autor espiritual afirma em rela- ção à força do pensamento: "A partícula de pensamento. doce ou amargo.

mas. sempre haveria . quantas sur- presas e situações desagradáveis. uma nobre forma de auxiliar o próximo e de exer- cer a caridade. de comparecer a certos lu- gares que lhe seriam prejudiciais. É nesse momento que utiliza a prece em benefício dela. aliás. visando retirá-lo do lado da moça. E eis-nos outra vez diante da eficácia da oração. A técnica de ajuda que a Entidade Amiga adotou é dig- na de menção. não raras vezes. * * * Com sua atenção despertada desde o início da viagem. de pequena monta ou não. Há que se considerar o mérito da moça ou de sua mãe. Quantos impedimentos e obstáculos. que propiciou fosse Divaldo o seu vizinho de poltrona. o homem. seja em benefício pessoal seja em proveito de outrem. se revolta contra certos fatos que. em geral acontecem para o seu próprio benefício. surgem no caminho da criatura exatamente para impedi-la de cometer determinados erros. É que nem sempre nos é dado avaliar ou entender como se processam os atendimentos. O SEMEADOR DE ESTRELAS 159 espiritual que o ser humano tem condiçções de aquilatar esse mecanismo. E da certeza de que face às situações as mais inusitadas e com- plexas. Esta é. sempre se pode usar o excelente recurso da prece. A resposta ao pedido não se fez esperar. nas ocorrências da vida cotidiana. Divaldo registra as más intenções do homem que toma lu- gar junto à jovem. Evidentemente este mérito vale- ria em qualquer circunstância. no trem noturno. ou de ambas. de agir impensadamente! Esses impedimentos proporcionam momentos de reflexão e se constituem em ensejos preciosos para que o auxílio do Mundo Maior se faça. Se a Benfeitora Espiritual tivesse aplicado o passe no homem. a presença dele facili- tou o socorro espiritual. Por não de- tectar as atividades da Espiritualidade.

o homem retirou-se revoltado e com asco.160 SUELY CALDAS SCHUBERT a possibilidade que ele retornasse à carga. haverá um meio de ajudar ao semelhante. Isso o afastou de vez. Esse curioso caso proporciona ainda outras conclusões. todavia. . em qualquer momento. onde estiver- mos. Ficamos. da forma como aconteceu. E de que a prece é o meio mais eficaz quando se deseja ser útil. especialmente quando nos faltem quais- quer outros recursos. com a certeza de que. Agindo direta- mente sobre a jovem.

todo caiado de talco. Fui visitá-la. Um dia eu soube que ela estava muito mal. eu não posso morrer. A doente me disse: — Irmão Divaldo. morra em paz. para tran- qüilizá-la e dizer-lhe que tomaremos conta de seu filho. Olhei-o e o vi gordo. há alguns dias. pois ele será meu filho. uma moça tuberculosa. 17 DESDE O TEMPO DAS CRUZADAS Uma das assistidas pela 'Caravana Auta de Souza". de vinte e dois anos. — Pode ficar em paz. morrerei em paz. — Então. minha irmã — respondi-lhe —. no ca- sebre de taipa e palha. para comprar leite e pó-de-arroz para passar nele. fique com Deus! . — Quando me dão dinheiro — explicou a mãe — eu deixo de comprar comida para mim. já que eu vim aqui em nome de Auta de Souza. Quando lá cheguei o menino já havia nascido. . ficou grávida. — O senhor garante que fará meu filho feliz? — Garanto. porque não tenho com quem deixar o meu filho. — Então. No dia em que alguém puder tomar conta dele. muito pretinho. . minha irmã. — Olhe o meu filhinho — pediu-me. e estava sobre uma rede em cima da cama dela.

Nisso. Virou a cabeça para o lado. na testa. as mangas bufantes. vi aproximar-se um ser venerando. Por debaixo da fresta da porta.162 SUELY CALDAS SCHUBERT Foram suas últimas palavras. ficou muito mal. através da porta. de energias ectoplásmicas. Ele se desdobrou e surgiu aos meus olhos como um pajem francês. fizemos o enterro. a luz movimentava-se chamando-me a aten- ção. terminadas em punhos de renda. aproximadamente. o laço de fita negra. — Peçamos a Deus. Ele estava prostrado pela pneu- monia. antes de se adentrar pelo quarto. com uma luz oscilante. a camisa branca rendada. Ela começou a orar. Veio uma das tias. ela voltou a falar-me: . com muito fervor. Quando o garoto estava com oito meses adoeceu. Eu tenho que viver para poder. febre alta e eu tinha receio de uma convulsão. de prana. Após trinta minutos. na Inglaterra. meu filho. unir-me à mamãe. que lhe restituísse a saúde. perispírito a perispírito. não me deixe morrer. um dia. pois vou fazer uma transfusão de forças. levou o menino e. Depois. pois estava com temperatura de quarenta graus. Ele me pediu: — Tio. os cabelos penteados à escovinha. os sapatos "scarpin" com fivela de prata. Vou desdobrá-lo a fim de o vitalizar. vi como se alguém estivesse caminhando pelo corredor. após tirarmos o cadáver ateamos fogo no barraco. O corpinho da criança tremia. rogando. Chamei algumas pessoas para me ajudarem. carre- gando uma lanterna. e comecei a aplicar-lhe passes. vendo-o quase morto. a roupinha negra. um Espírito vestido à moda do século XVII. Preocupado. Olhou para a criança e falou-me: — Meu filho não deve voltar agora. com a gola alta muito eriçada. a Jesus. ao lado da cama. dobrei-me so- bre ele. de onze anos aproximadamente. Atendi-lhe a solicitação. teve uma hemoptise e morreu. Deite-se ao lado dele. e vi. A Entidade era tão luminosa que. en- quanto recebia a transfusão de forças.

de que participou. Começamos a conversar. diante daquele corpinho frágil que necessitava pros- seguir com a vida física. várias vezes. tudo faremos. de mim. Mudei-lhe a roupinha. O SEMEADOR DE ESTRELAS 163 — Ouço uma voz que afirma que as nossas preces fo- ram atendidas: ele ficará na Terra. — O menino vai viver — afirmei-lhe — porque. tenho sido sua mãe. recebendo os beijos e a ternura dos outros.. nem que eu tenha de lhe dar o meu corpo. Esta reencarnação é-lhe decisiva. recomendou-me: — Não lhe deixe a temperatura cair muito. retornou ao cor- po e eu o vi encaixar-se para prosseguir na prova redentora. custe o que custar. Ele tem de servir a Jesus. Não o deixe fracassar desta vez. por que a senhora demorou tanto a aparecer? — Porque antes de vir vê-lo. Fui primeiro ver os filhos cujas mães.. mas. — Mas. Ele viverá! Deus nos vai ajudar. Meu filho tem de resgatar os crimes cometidos durante a Terceira Cruzada. perde-se de mim. Divaldo. não os podem visitar e deixei o meu — por- que todos são de Deus — por último. a minha vida. o meu dever é amar os estranhos para mais amar ao meu filho. porque ele veio nessa situação para aprender a humildade. a fim de evitar-lhe um colapso cardíaco. visitei todos os que aqui nesta casa não têm mãe. no Além. A criança agora transpirava abundantemente. sem o carinho de mãe. já bem mais tranqüilos e per- guntei-lhe: — Desde quando a senhora é mãe dele? — Desde o século XI. zelosamente. prestamente. e ele sempre que mergulha na névoa do mundo. — Faça isto. Ela me falou com tanto amor e ternura que comecei a chorar. Ela. Daqui a dez anos eu voltarei. se de- pender de nós. . O jovenzinho espiritual. Quase cheguei tarde. minha irmã. eu queria passar antes pelos que não receberam a visita de sua própria genitora.

A Terceira Cruzada deve ter sido há uns 800 anos e pre- gada por Guilherme. Era o interesse da igrejificação do poder. arcebispo de Tiro. Agora é que ele está resgatando. A terapia dos passes é uma tarefa de re- . Cristo. eu parti- cipava da sua festinha — nós comemoramos os aniversários do mês em uma mesma data e aquele era dia do aniversário dele — quando me lembrei de sua mãe espiritual e fiz uma prece. vampirizado pelas vítimas de antanho. para ele. Tagore escreveu para esse menino a página "Testamento do Rei". porque ele era sugado. Meu filho viverá. adquire mérito para um pedido à Divindade. que lhe foi o grande despertador e agora veio em outra prova. — Com quantos anos ele se comprometeu? — Com vinte e seis anos. Ela explicou-me: — Ele voltou sempre na viciação clerical. especialmente para o trabalho anônimo e can- sativo dos passes. era só um móvel para atingir as metas. Quem é fiel e permanece no trabalho por um decênio já não é mais um entusiasta. ela apareceu-me. — Mais tarde — prosseguiu ela — será encaminhado à mediunidade. os obsessores desencarnavam- no. que se não houves- se muito amor em volta dele. No dia seguinte. Apresentou-se-me com a mes- ma beleza espiritual e afirmou-me: — Nas leis do mundo espiritual. quando alguém come- mora dez anos. Tenho notícias de que ele vai viver até ultrapassar a idade na qual ele maculou o nome do Cristo. no dia do aniversário dele. No século XIX ele veio com o "mal de Hansen". Ao final. Indaguei-lhe o porquê dessa demora em reabi- litar o passado. pela conduta irresponsável. tornando-se credor do prosseguimen- to na tarefa. Esse Espírito esclareceu-me. Dez anos depois.164 SUELY CALDAS SCHUBERT Despediu-se de mim e desapareceu. ainda. que está no livro Filigranas de Luz.

Ela ouve a promessa. o compromisso selado à beira de sua humilde enxerga — e o vê no futuro. Aparentemente uma história simples e triste. da morte. A criança é levada para a sua nova vida. entre as dores de um parto em que a vida triunfa. no constante confronto dos contrários. então. feliz —. um bebê recém-nascido compõem um novo quadro. onde a pessoa dá de si mesma e depois. — Eu o farei feliz. Mas. quando o paciente se recupera. aquietando-se-lhe. . Acho este jato de uma beleza comovedora. de chofre. tornam-se conhe- cidos. ignora quem o ajudou. dos muitos que já passaram pela "Mansão do Caminho". prestes a abandonar a vida terrena. prometendo retornar após mais dez anos. graças à sua mediunidade. trabalha- dor. — Ele será meu filho — promete. É apenas um bebé. como se o débil organismo físico a expul- sasse. um novo ato do pungente drama humano. Morte e vida! O crepúsculo. tendo como pano de fun- do a dor e a miséria. a alma que se des- pede. uma mulher tuberculosa. alguém vela por essa solidão e entra no barraco como se fosse o próprio sol a dissipar as sombras dos mais tristes presságios que invadiam o coração dorido da po- bre mãe. adulto. Mas a mulher. Um barraco de taipa e palha. o dia que finda e o ama- nhecer de promessas e esperanças. Ela se despediu. O SEMEADOR DE ESTRELAS 165 denção. mais um. definitivamente. Tese e antítese que se vão fundir na síntese final da Vida que prossegue além da vida. É impressionante a riqueza desses fatos que Divaldo narra e que. luta para manter o filho — a vida que se inicia na carne.

aflige-se. com o auxílio dos médiuns videntes. possível nos foi estudar o mundo invisível. referente às categorias de mé- diuns. até. os sentimentos de que parecem ani- mados. Outros há em quem a faculdade da vidência é ainda . propria- mente falando. Aplica-lhe pas- ses." (it. que aí está en- fermo. Em sua aflição ora e intercede por ele. c o m risco de vida. a expressão da fisionomia. Com o concurso dos médiuns videntes. os traços do sem- blante. o Espiritis- mo. pelo menos freqüente de ver qualquer Espírito que se apresente.166 SUELY CALDAS SCHUBERT A o s 8 meses enferma gravemente. alguns há que só vêem os Espí- ritos evocados e cuja descrição podem fazer com exatidão minuciosa. e a certa altura diz: "O microscópio revelou-nos o mundo dos infinitamente pequenos. preocupa-se. em plena vivência da promessa. Descrevem-lhe. revelou-nos o mun- do dos Espíritos. É seu filho. * * * Em O Livro dos Médiuns. o médium vidente. com as menores particularida- des. conforme descreve. o Codificador esclarece quanto aos médiuns videntes. que por seu lado. "Entre esses médiuns. os gestos. ela ainda não entrara no quarto. Neste momento tem uma belíssima visita. senão perma- nente. Allan Kardec dedica o capí- tulo VI à questão das "Manifestações Visuais". 103) Também no capítulo X I V . como um povo de cegos poderia estu- dar o mundo visível com o auxílio de alguns homens que gozassem da faculdade de ver. conhe- cer-lhe os costumes. "A faculdade consiste na possibilidade. A posse desta faculdade é o que constitui. ainda que seja absolutamente estranho ao vi- dente. de cuja existência não suspeitávamos. as vestes e. também constitui uma das forças ativas da Natureza. Divaldo. Um detalhe que primeiro chama a atenção é que Dival- do vê a Entidade através da porta.

que durante estes sete primeiros anos o Espírito poderia ter. o perispírito sob o comando do Espírito miniaturiza-se e assume a mor- fologia que terá daí por diante à qual imprime no corpo em formação. cuidando. . 168) * * * Pela vidência Divaldo acompanha todo o desenrolar do socorro que a mãe presta ao filho. As narrativas de D i v a l d o e Chico X a v i e r apresentam esta similitude. o que proporciona então uma reação or- gânica contra a infecção. em certos casos. sendo ele próprio convo- cado a colaborar com suas energias para a renovação das forças da criança. conforme lhe fosse conve- niente. uma autonomia maior. mais tarde. a se mover em todos os sentidos. Isto nos recorda um capítulo de nosso livro Testemu- nhos de Chico Xavier. Infere-se. poder-se-ia dizer. Virgínia e um cavalheiro num jardim. no qual Chico narra. Quando este surge dian- te do médium está com a sua aparência anterior. Note-se que embora criança. de sua última existência. Este processo só se completa quando a criança atinge os 7 anos de idade. Sabe-se que. em Zeus Wantuil. Um outro ponto se destaca: é o desdobramento do Es- pírito encarnado no corpo infantil. a sra. no processo reencarnatório. àque- la época uma criança. O SEMEADOR DE ESTRELAS 167 mais ampla: vêem toda a população espírita ambiente. que em desdobramento encontrara um Espírito cercado de luz. em carta da- tada de 25-11-1948. Wantuil de Freitas e o cava- lheiro ele identificaria. isto é. Antes de qualquer comentário é oportuno meditarmos o quão pouco sabemos a respeito do perispírito. portanto. fisica- mente falando. Zêus-Espírito apresenta-se como adulto. quando em desdobramento. Esta era mãe do Dr. (it. editado pela FEB. de seus afazeres. intitulado "Um sonho que se realizou".

1202-1204. Sétima Cruzada. das funções do perispírito e. 1096-1099. Segunda Cruzada. Ressalta ainda deste texto a comovedora dedicação da Entidade que se apresenta como mãe espiritual da criança. Quarta Cruzada. que traz consigo.168 SU ELY CALDAS SCHUBERT Assim se explica. Oitava Cruzada. A ligação entre ambos. Os historiadores costumam estabelecer as seguintes datas para as Cruzadas: Primeira Cruzada. As Cruzadas aconteceram entre os Séculos X I e X I I I . como mãe e filho. A programação das reencarnações varia ao infinito e tanto no caso da criança enferma quanto no de Zeus houve permissão — talvez por necessidade e/ou mérito — dessa autonomia. Essas guerras convulsionaram a Europa e o Oriente Próximo durante 178 anos. durante a Idade Média. Sexta Cruzada. de maneira lógica. Cruzada das Crianças. Quinta Cru- zada. a Igreja de Roma viu nelas uma oportunidade de alargar para . Ela explica que ele cometera graves crimes por ocasião da Terceira Cruzada. 1147-1149. muitas lembranças do passado. 1189-1192. * # * As Cruzadas eram expedições militares de caráter reli- gioso. essa plasticidade do perispírito de um Espírito encarnado. isto. Só aos poucos vamos desvendando essas nuanças do processo reencarnatório. 1212. Além da alegação notória que as lançou — to- mar os Lugares Santos da Cristandade em Jerusalém —. "Entre as "guerras santas" nenhuma foi mais sangren- ta e mais dilatada do que as Cruzadas cristãs. 1270-1274. 1218-1221. vem desde o século X I . 1248-1264. inclusive. 1228-1229. Terceira Cruzada. quando leigos e religiosos se uniram numa tentativa maciça de recuperar a "Terra Santa da Cristandade" em poder dos muçulmanos infiéis. graças à mediunidade e à revelação dos Espíritos.

a Igreja Grega. porém. E tanto nessa obra de conquista como na realização do sonho de estender até ao Oriente o poderio do Ocidente. e foi por esta época que o Espírito hoje reencarnado no menino adotado por Divaldo. Os reis e senhores feudais da Europa ocidental viam perspectivas de adquirir novas terras e ri- quezas e o clero esperava encontrar um escoadouro para os rixentos e desordeiros. "Os próprios Cruzados obedeciam a impulsos conflitan- tes. mas só os mantiveram em sua posse menos de cem anos. . mostravam-se dissolutos e brutais. uma grande força de fé também dirigia os Cruzados. Contudo. os Cruzados fracassaram. Porém jamais seria a mesma Europa. entre 1189 e 1192. Muitos." (Dados extraídos da "Biblioteca de História Universal L i f e " ) *** A Terceira Cruzada aconteceu no século X I I . e a Europa novamente deveria voltar-se sobre si própria. Ao se encerrarem as Cruzadas. uma pro- funda reverência pelo solo pisado por Jesus. O SEMEADOR DE ESTRELAS 169 o Oriente os seus domínios. A própria mãe esclarece que ele usou o nome do Cristo para se locupletar através do poder que a Igreja lhe con- ferira. tinham perfeita noção das recompen- sas prometidas pela Igreja — inclusive a remissão de peni- tências pelos seus pecados e moratórias para as suas dívi- das. Vio- lavam e saqueavam outros cristãos e cometiam terríveis atrocidades contra os inimigos muçulmanos. suas janelas para o mundo tinham-se aberto e todos os aspectos da vida medieval haviam sido afetados. Tomando a cruz. ao final. a lei de Maomé dominava as terras onde se haviam travado as batalhas. o império bizantino dos cristãos orientais estava fatalmente abalado. se comprometeu grave- mente. "Os Cruzados recuperaram os Lugares Santos. onde imperava a sua grande rival.

engajados nas hostes espiritistas. a cada testemunho vivo que apresentam o quanto são gravíssimos os crimes perpetrados em nome do Cristo. o que esta- mos fazendo do nome d'Ele? Da Sua mensagem? Do Con- solador que Ele prometeu à Humanidade? O que fazemos do Cristo? . em nossa mesquinha pequenez quantas vezes o usur- pamos para mascarar nossas tenebrosas intenções? E hoje. pois além do crime em si ainda levam o agravante de usarem o nome d'Ele. que para todos nós deveria ser sagrado. São os mais hediondos que o ser humano pode cometer.170 SUELY C A L D A S S C H U B E R T Como se pode perceber a cada passo dos ensinos dos Espíritos. Entre- tanto.

— Minha filha. Bezerra de Menezes. Ele respondeu-me: — A minha maior felicidade. Mas. amparou-me até uma sacada. acorde. suavemente: — Bezerra. e. uma multidão que me acenava. e eu vi. A Mãe de Jesus pediu-me que lhe dissesse que você já se encontra na Vida Maior. os companheiros que- ridos das hostes espíritas que me vinham saudar. é você. que me parecia vir de fora. se aproximou do leito em que eu ainda estava dormindo. Então. havendo atravessado a porta da imortalidade. Agora. falou. foi quando Ce- lina. Bezer- ra. perguntei ao Dr. bela e radiosa. Celina?! — Sim. Ajudando-me a erguer-me do leito. 18 A FELICIDADE DE BEZERRA DE MENEZES Um dia. Celina. Bezerra. a mensageira de Maria Santíssima. me disse: — Venha ver. meu filho. eu ouvia um murmúrio. qual foi a sua maior felicidade quando chegou ao plano espiritual. tocando-me. Chegaram os meus familiares. Bezerra! Abri os olhos e vi-a. com ternura e lágrimas nos olhos. meu amigo. . desperte feliz. meu filho. sou eu.

a aliança entre a Ciência e a Religião.. Na sua gestão. sobressain- do-se a dos "místicos" e a dos "científicos". realmente. São eles. Celina? — perguntei-lhe — não conheço a ninguém. alicerçadas nas bases sóli- das da Doutrina Espírita. Quem são? — São aqueles a quem você consolou. Bezerra imprimiria o cunho evangélico. no ano de 1895. a orientação pautada nos ensinos de Jesus. são os esquecidos da Terra. das lágrimas que enxuga- mos. que o vêm saudar no pórtico da eternidade. tanto de uma . mas eminentemente sentidos e vividos. a quem você estimulou e guiou. divididos em várias correntes. que chegaram às sessões mediúnicas e a sua palavra caiu sobre eles como um bálsamo numa ferida em chaga viva. os nomes mais expressivos e respeitáveis do meio espírita e despontava como autêntico celeiro de luzes aclarando e dissipando as densas nuvens formadas pelas divergências e disputas em que se empenhavam os espiri- tistas da época. Bezerra concluiu: — A felicidade sem lindes existe. escoimando. como de- corrência do bem que fazemos. reunia. A FEB. Bezer- ra de Menezes leva-nos a recordar alguns momentos da vida desse grande missionário.172 SUELY CALDAS SCHUBERT — Quem são. que eram por ele não apenas ressaltados. os destroçados do mundo.. porquanto. E o Dr. meu filho. Somente uma mensagem desse quilate teria o condão de unir os espíritas. das palavras que semeamos no caminho. fundada em 1884 por Augusto Elias da Silva. então. São aqueles Espíritos atormentados. promovendo. que foi Presidente da Fede- ração Espírita Brasileira. sem nunca per- guntar-lhes o nome. para atapetar a senda que um dia percorreremos. Este belo diálogo mantido entre Divaldo e o Dr.

a sua ação caritativa no desempenho de sua atividade profis- sional e na vivência em geral. em Bra- sília. padecentes. Comunicaram-se quatro entidades: a primeira delas pelo próprio Divaldo e a quarta por nosso intermédio. Uma delas. então. Joanna de Angelis apresenta-se em primeiro lugar e orienta o anda- mento dos trabalhos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 173 quanto de outra. no final do século. os radicalismos prejudiciais que impedem essa associação. A todas estas tarefas alia-se. transmitiu ao Presidente Francisco Thiesen a orientação de Joanna de Angelis sobre a necessidade de fa- zer-se um labor mediúnico. pela nossa psicofonia. Este. Além dessa atuação decisiva à frente do Movimento Es- pírita. colocam-se em con- dições de receberem a sua palavra permeada de amor. e convocou médiuns. Amor que o leva a permanecer entre nós e prosseguir no mesmo amorável atendimento aos que ainda estão jornadeando pela Terra e aos que estão em regiões de sofrimentos e de sombras no plano espiritual. Diz estar satisfeito com as ocorrências do . por ocasião da reunião do Conselho Federativo Nacional. doutrinadores e alguns par- ticipantes. Divaldo. esse Espírito de escol. que. a sessão é iniciada. na sede da FEB. a de doutrinador e dirigente de reuniões mediúnicas. estando presente para as sessões do CFN e palestras. Pode-se imaginar Bezerra de Menezes atendendo aos encarnados e desencarnados com o mesmo e imenso amor que o caracteriza. em novembro de 1985. as suas intenções. Uma sessão mediúnica memorável aconteceu. marcou a hora e local. No momento aprazado. evidentemente. tem vindo ditar a Divaldo e outros médiuns as suas experiências no resgate de almas transviadas. O comunicante transmite. Ele mesmo. Bezerra exercia várias outras ati- vidades.

a época dos místicos e dos científicos. Hoje temos no- vamente as duas correntes: a dos místicos e a dos científi- cos. o que. ao irmão angustiado. de novo. de carências outras. Este é o melhor modo de dividirmos os es- píritas e acabarmos com o Espiritismo. ele não identifica. com prejuízos maiores para si mesmo. em vão. amorosas palavras de esclarecimento.174 SUELY CALDAS SCHUBERT Movimento Espírita. atualiza- da. É nosso interesse manter essa disputa. desliga-se. atormentador- atormentado. o erro em que incorre. a mesma intenção de outrora. a seu lado. da cizânia. Ele não está mais com vocês. só que desta vez não terão a ajudá-los a figura daquele que tanto enaltecem e veneram. Bezerra de Menezes — nome amado e respeitado por todos — singelamente narra a Divaldo a sua mais comoven- te surpresa ao despertar no Mundo Maior. Agora estão sozinhos e não conseguirão vencer-nos. a mensageira de Maria. com paciência e carinho. de pronto. envolvendo a Divaldo. tenta mostrar-lhe. e prosterna-se diante do vulto aureolado de Bezerra de Menezes — cena esta que vimos — que o retira. Arrebatado. de mágoa. Estamos em toda a parte. em seguida. A história se repete. resumidas. por si só. hoje com roupagem diversa. bem de acordo com a época. e transbordando de dor. Temos os nossos médiuns. que transmitem o que planejamos. em pranto. foram: — Estamos vivendo. basta para aquiltarmos a recepção merecida por . em seu bojo. Celina. Vibrante e colérico ele não aceita os argumentos do doutrinador que. transmite. Suas palavras. mais que as palavras. a vibração de amor foi de tal intensidade que a Entidade é atingida no âmago de suas emoções. a figura lu- minosa que se aproxima. le- vando o fermento da discórdia. Tem. Bezerra de Menezes. Entre- tanto. ditas em tom de voz vibrante. mas que traz.

. ao reve- lar-lhe a missão. Descreve aí o calvário por ele enfren- tado no desempenho de sua missão. radiosa como nunca. ao se defrontar com os beneficiários do seu apostolado de amor. sobrelevaram de muito o mal. dos que se doam ao Bem. mostrando-lhe os percalços do caminho. as lutas ingentes. É bem essa. o Codificador escreve uma nota que é um dos trechos mais belos e significativos de sua pena magistral. vendo a obra crescer de maneira tão prodigiosa! Com que compensações deliciosas foram pagas as minhas tribulações! Que de bênçãos e de provas de real simpatia recebi da parte de muitos aflitos a quem a Dou- trina consolou! Este resultado não mo anunciou o Espírito de Verdade que. refiro-me às satisfações morais. apenas me mostrara as dificuldades do caminho. relembra- nos Allan Kardec no trecho citado. Isto nos faz recordar a narrativa de Allan Kardec. a senda crucial daqueles que se resolvem por seguir a Jesus. guardadas as devidas proporções. se me queixasse! Se dissesse que há uma compensação entre o bem e o mal. as bênçãos alcançadas transformam-se em felicidade indescri- tível que transcende ao nosso — por enquanto — estreito entendimento. todavia. também. Celina o conduz até a sacada e o bondoso "médico dos pobres" depara-se com uma cena realmente comovedora. afirmando: "Mas." A felicidade de Bezerra de Menezes. também. Qual não seria. porquanto o bem. que de satis- fações experimentei. E finaliza. faz-lhe. a minha ingratidão. Dez anos e meio depois. sem dúvida intencionalmente. A estrada é aspérrima. Celina ali está. O SEMEADOR DE ESTRELAS 175 ele. não estaria com a verdade. ouve um murmúrio que vem de fora. uma grave advertência. em Obras Póstumas quando o Espírito de Verdade. mas. pois. a par dessas vicissitudes. Entre sorrisos e lágrimas de emoção ele vê chegar os entes queridos do co- ração. os sofrimentos e sacrifícios que lhe seriam exigidos.

e a barba alvinitente. — Eu sou Rabindranath Tagore. de túnica alva. Enquanto psicografava. poeta da Índia. A partir dessa noite. Eu confesso. cortados por um riacho de águas claras no qual deslizava uma barca. Tagore foi ditando as várias mensagens que constituiriam seu primeiro livro. durante certo tempo. que. quando ouvi uma música de uma beleza indefinível. só veio a ser publicado muitos anos depois. uma Entidade veneranda. de tez bem escura. Nesta. 19 A ESTESIA DE TAGORE No ano do aparecimento psicográfico de Marco Prisco. penetrante e bela. levantei-me e providenciei o material para a psicografia. enormes e bri- lhantes. com o título de Filigranas de Luz. em cuja fisionomia. logo em seguida. Imediatamente. em 1949. cujos fios pareciam ter cam- biantes prateados. muito plangente e muito pro- funda. honestamente. de se- rena beleza. sobressaíam os olhos negros. e de- sejo que me grafes alguns pensamentos — disse-me o Es- pírito. tive uma visão belíssima de jardins verdejantes e floridos. entrando em transe mediúnico. continuei a ouvir a melo- dia. certa noite eu estava deitado. em 1965. que nunca havia ouvido falar neste nome ou lera qualquer coisa a seu respeito. no entanto. tocada numa espécie de cítara. Ao som dessa música. .

poderia fazer uma análise cuidadosa. esclarecendo ser o prefácio para o livro que eu psicografara e que se encontrava guardado. após consultar Chico Xavier e dele receber anuência. a pedido dele. Em 1965. Foi. Chico psicografou uma mensagem de Ta- gore. quando o livro finalmente foi lançado. algumas delas pu- blicadas na imprensa espírita e agora enfeixadas no nosso livro ESTESIA. este con- vidou-me a ir com ele a Matosinhos. intitulada "Louvor". também. diretor do "Grupo de Estudos SPIRITVS" escreveu um prefácio. O SEMEADOR DE ESTRELAS 177 Em 1957 ocorreria um fato muito interessante para mim. foram passar uns dias na "Mansão do Caminho" e aproveitei o ensejo para mos- trar-lhes os originais do livro ditado por Tagore. informou-me que conhecia a obra do poeta hindu no original inglês. participava do Culto Evangélico em casa da senhora Her- melita Horta. Quase trinta anos decorreram. Para minha surpresa. nos dias em que esteve na "Mansão". Em visita a Chico Xavier. com certa freqüência. no dia 28 de janeiro desse ano. Em 1960. Como prefácio. como ha- bitualmente fazia. ao terminá-la. nas páginas psicografadas. portanto. E foi tal o seu entusiasmo que ele próprio dati- lografou o livro. e que. mas o original. colo- . entregou-me. Rabindranath Tagore prosseguiu ditando-me as suas páginas. que Nelson Affonso. pois nada comentara a respeito e nem mesmo estava a recordar-me do fato. o Professor Pas- torino expressou-me sua emoção e alegria por encontrar. com o qual. o livro seria publicado. Grande foi a minha surpresa. homem de vastíssima cul- tura. a senhora Elza Pastorino. o Professor Carlos Torres Pastorino e sua esposa. e. o Professor Pastorino. Ao terminar a leitura. naquele momento. pequena cidade pró- xima. não coloquei o pre- fácio recebido por Chico Xavier por timidez. no original indiano e nas traduções de Gui- lherme de Almeida. que está sendo lançado. não o Tagore traduzido. em Pedro Leopoldo. onde o médium mineiro. Na ocasião. posteriormente.

o que. ficam arquivadas. imaginamos. Filigranas de Luz é lançado. O médium baiano fica agradavelmente surpreso. mas não traz o prefácio do autor espiritual. entre nós e aqueles dias. ditado a Chico Xavier em 57. em fotocópia. Mais três anos decorrem até que Divaldo tenha a ocasião de mostrar os originais ao Professor Carlos Pas- torino. uma distân- cia que nos permite. e constatar-se que em ambos ele se mostra com a mesma extraordinária estesia. As páginas recebidas. hoje. Mas. lhe deve ser inerente. em 1960. Este incentiva o médium a publicá-los. É muito interessante observar-se o estilo de Tagore atra- vés de um e de outro médium. a mensagem psicografada por ele três décadas atrás. Em 1965. Divaldo prefere. naquele momento. indo a Matosinhos. intitulada "Louvor" e a entrega a Divaldo. que até então não travara contato com as suas obras. pois não se recordara. dizer que a grandeza deste gesto de renúncia é imensurável. do acontecido.178 SUELY CALDAS SCHUBERT camos. em companhia de Chico Xavier. somente aconteceria cinco anos depois. Em 1957. entretanto. O tempo coloca. que. O fato em si fala mais alto que quaisquer palavras e deve merecer a nossa reflexão. naquele momento. este psicografa a mensagem ditado por Tagore. renunciar a ele. pela nobreza de que se reveste. A primeira visão que Divaldo tem de Rabindranath Tagore é deveras singular e expressa bem o sentido do belo. a partir de 1949. . Tagore não é um nome conhecido do médium. para esta finalidade. re- conhecendo a autenticidade das páginas de Tagore. dizendo ser o prefácio para aquele livro que ele psicografara.

pois o genial poeta hindu parece ter. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 179 A esse respeito. Nesse perío- do. o que torna a sua mensagem altamente positiva. por ele denominado de diferentes maneiras: "Os ouvidos do Zagal Divino registram a voz do co- ração"(. "Rei da Juventude e da Paz". "Rei de todos os Reis"! são algumas das formas com que Tagore revela o seu amor por Ele. um período de maturação. . o título do novo livro Estesia. ." escre- ve por Chico Xavier no prefácio de ESTESIA. a produção psicográfica desse autor permanece inédita. Tagore percorre os caminhos do sentimento e expressa o que existe de mais belo nas aspirações e expectativas hu- manas. quanta estesia na Tua realização!" exclama em seu novo livro. como também acon- tece com muitas outras páginas por ele psicografadas. realmente. que só vieram a ser divulgadas após muitos anos. não po- deria ser mais bem escolhido. a visão e o sentimento da be- leza. "Artista da Vida. mantém o suave lirismo que o caracteriza. a sensibilidade lírica singular capaz de extrair de tudo o significado puro e transcendente. . Mesmo quando descreve as misérias e as dores. a fim de adquirir experiên- cia. "Graças Amado meu! Senhor. Divaldo não tem pressa em publicá-la. "Cancioneiro do silên- cio".) diria ele em Filigranas de Luz. como ninguém. Um ponto que merece mencionado é o extremado zelo com que Divaldo encara a sua mediunidade. A prática mediúnica exige. enquanto vai sendo testado pelos seus Guias Espirituais . bendito sejas!. transcorreram dezesseis anos. Transmitindo uma visão constante da busca do Criador pelo ser humano. Entre o ano em que Rabindranath Tagore inicia o seu trabalho com o médium até a época da publicação de Fi- ligranas de Luz. o autor espiritual fala dos encontros do homem com o Cristo. na sua fase inicial o médium necessita percorrer um longo caminho. pois.

o médium colhe o fruto de seus perse- verantes esforços: recebe dos Espíritos Elevados a consa- gração de suas faculdades. sua rota. sua evolução. porém. por tor- narem conhecidas as suas produções mediúnicas. no estudo calmo e silencioso. que poderão. nem sempre são submetidas ao crivo da razão. irá sofrer críticas as mais diversas. A mediunidade tem. seu campo. Depois de um período de prepa- ração e expectativa. O re- sultado acaba sendo prejudicial ao próprio medianeiro. amadurecidas no santuário de sua alma. que. longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. Muitos não têm a necessária paciência e anelam pelo prestígio.180 SUELY CALDAS SCHUBERT quanto à perseverança. são condizentes com os ensinos da Dou- trina. recolhido. o médium pode entrar em lamentável processo de fascinação. dedicação." André Luiz diria mais tarde. Leon Denis refere-se a isso. Chico Xavier e Yvonne Pereira vamos encontrar esse laborioso processo de adestramento e amadurecimento da faculdade mediúnica. . O exemplo dos nossos mais respeitados médiuns da atualidade. a se tornar cooperador utilíssimo na obra de regeneração que eles vêm realizando. por isso. pelo lápis de Chico Xavier: "Nenhuma árvore nasce produzindo. desiludi-lo e afastá-lo da tarefa." (No Mundo Maior — capítulo 9) Esse processo de amadurecimento. ao lançar obras mediúnicas eivadas de erros doutriná- rios. pois. com a assistência de seus Guias. e qualquer facul- dade nobre requer burilamento. em sua excelente obra No Invisível: "A boa mediunidade se forma lentamente. como também de expec- tativas. que. virá. Em Divaldo Franco. in- clusive. nem sempre são aceitos pelos médiuns. disciplina. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção. não aceitando as críticas por julgá-las injustas. essa fase mais ou menos longa de estudo e trabalho. boa vontade e amor à tarefa. ao abrigo das sugestões do orgulho. Ou ainda.

nos anos de trabalho mediúnico de Dival- do. cuja linguagem poética sabe a mistérios e encantos da Índia. O SEMEADOR DE ESTRELAS 181 O tempo consagrou a missão de cada um e a fidelidade com que se dedicam à Causa. evidentemente. Para os Espíritos Superiores. encontrou. Rabindranath Tagore. . cuja sensibilidade altamente aprimorada é toda voltada para o Bem. o médium ideal para filtrar o seu pensamento. à meditação. não há pressa. em Divaldo Franco. o burilamento imprescindível para torná-lo seu me- dianeiro. afeiçoado à disciplina. O poeta hindu. Espírito trabalhado na forja do sofrimento. encontra assim. que foi Prêmio Nobel em 1913.

porém. Eu lhe seria o pai. nesse momento. significava para mim o pas- so para a concretização de compromissos que assumira. para toda a nossa equipe. Seu choro atraiu-nos a atenção. Era uma criança raquítica e seu estado de miséria era tal que nos constrangeu pro- fundamente. que me disse: — Dá-lhe o meu nome. representava. 20 AGORA. Obviamente. na Terra. ENQUANTO É HOJE Em 1952 fui ao Cartório para registrar o meu primeiro filho. poetisa potiguar. Tê-lo em meus braços. Chamo-me Auta de Souza. em nossa "Mansão do Caminho". A sua chegada. porquanto desencarnei há muito tempo. Foi. o início de uma nova etapa. portanto. o meu intuito era o de lhe dar o meu nome. . mas. em um pequeno depósito de lixo. Fui. Ele havia sido abandonado à porta da rua. me preocupava: que nome declararia como sendo o da mãe da criança? Foi. que vi aproximar-se um Espírito conhecido. com a alma em festa que me dirigi ao Cartório a fim de registrá-lo. não apenas na nossa Instituição. contudo. Recolhemo-lo com carinho e todos os cuidados lhe foram dispensados. Uma dúvida. também. nos registros legais.

A revelação de Divaldo. cuja convivência diária lhe é absolutamente na- tural. o soneto que ele acabara de psicografar. no qual a doce poetisa potiguar traça. em 18 de maio de 1954. já a homenageara colocando o seu nome no setor das nossas atividades assistenciais iniciadas em 1947. Raras vezes. por sugestão dela própria. "Agora. Espírito profundamente ligado a Divaldo. em suaves versos. Auta. O SEMEADOR DE ESTRELAS 183 Encantado com a sugestão e com as vibrações suaves e amoráveis com que ela me envolvia. pela psicografia de Chico Xavier. ditado por Auta de Souza e a mim dedicado. Sente que está sendo convidado a realizar os planos que há muito cons- . Com incontida emoção. desencar- nada em 1901. o jovem baiano ouve a leitura do soneto. intitulado AGORA. pontilhada desde o berço pela presença dos Espíritos. Divaldo percebe estar num momento muito especial de sua vida. sobretudo. enquanto é hoje. . está registrada c o m o mãe de seu primeiro "filho". Derrama em torno compassivo olhar Estende as mãos aos filhos da amargura. é mais um interessante episódio de uma vida imensamente rica de fatos marcantes e." Ao impacto dos primeiros versos. estando em Pedro Leopoldo. de maneira tão persuasiva e bela. todo um programa de amor ao próximo. que era conhecida como Caravana "Auta de Souza". de que Auta de Souza. . com o lirismo que lhe é peculiar. tive a grata surpresa de receber. eis que fulgura O teu santo momento de ajudar!. Em 18 de maio de 1954. tem-se visto uma mensagem de estímulo. pelas mãos de Chico Xa- vier. Anteriormente. dedica- lhe um de seus mais belos sonetos. prontamente registrei Jaguarassu como meu filho e de Auta de Souza. de convite à caridade.

Abrir o coração ao Cristo que vive. "E ajudando e servindo sem cansaço. . "tranqüila. Que ali . Rompe-se." O fecho traz uma promessa que ainda não percebera. Dedicar-se integral- mente ao serviço do Bem. doce e pura. em outras épocas e lugares." Este é o instante. promessas e esperanças que moram dentro dele. Nem mesmo antes. . em obras. o dique das emoções e sob esta força edificaria o mundo à sua volta.184 SUELY C A L D A S S C H U B E R T tituem o tema de suas cogitações profundas e íntimas. cada vez mais. o desfile das dores e misérias que tanto o sensibilizam e às quais está sendo emulado a entender. definitivamente. todos os seus momentos. Não permitas que o tempo marche em vão. "Repara! Aqui e além a desventura Caminha ao léu." Pelos seus olhos passam as figuras sofridas que Auta vai mencionando. Abre teu coração ao Cristo vivo. viver a excelência dos ensinamentos que a Doutrina Espírita reacendia em seu coração. 0 agora seriam todos os dias. Todo o amor que carrega dentro do peito parece explodir naquele instante e. é o ca- minho. O "agora" é a força desencadeante de todos os sentimentos. doce e pura" será transformada. mas uma certeza presente e atuante ao lado dos que 0 procuram. Re- lembra. devotar-se aos sofredores. dos que desejam segui-lo. sem pão. vê-se incapaz de contê-lo por um momento que seja. O Mestre não é uma figura longínqua. A fé que a Doutrina Espírita torna raciocinada. "Agora! Eis o minuto decisivo!. desde então. num relance. sem lar. Alcançarás subindo passo a passo A glória eterna da ressurreição. Acende o próprio amor! Faze brilhar A tua fé tranqüila. Aproveitar o tempo como nunca fizera até então. ele que sente a imperiosa necessidade de servir. sem luz. que está ao lado dos que sofrem. todos os sonhos carinhosamente anelados.

Em breve tempo eis o momento. como o filho busca o pai. Pelo caminho a relê mil vezes. afinal. agora! O moço estende as mãos trêmulas e recebe de Chico Xavier a preciosa mensagem. de onde parte otimista e feliz para o seu destino. para Divaldo. seguir — con- vites decisivos dando-lhe a certeza inabalável de que todos os seus ideais são legítimos e possíveis. Dependeria apenas dele realizar o "agora". os anos. como o aluno busca o mestre. A ação vai ampliar-se cada vez mais. desse Cristo vivo de que o Espiritismo dá notícias para consolo e esperança da Humanidade. Aju- dar e servir sem cansaço. L i g e i r o alcança o bairro da Calçada e transpõe as portas do "Caminho da Redenção". E N Q U A N T O É HOJE. Fazer o futuro com as próprias mãos. do mato. Surge da terra. . Avançam os dias. diz Auta. C o m a alma nos olhos vê a sua Salvador aproximar-se. O mundo o pro- cura para fazê-lo falar desse amor que o anima e motiva. construir o seu próprio destino. Cor/ação. A vida. caminhar. mas. O SEMEADOR DE ESTRELAS 185 está ao lado de Chico Xavier. Os "filhos da amargura" chegam aos magotes. As filas crescem. do sonho a "Mansão do Caminho". todas as manhãs que nascem prosseguem sendo o seu AGORA. Já a tem de cor e também no coração. As crianças o rodeiam e lhe estendem os braços. Hoje. por sentir intimamente que junto ao médium receberia aquilo que precisa saber. começa agora. subir.

Ao vê-la. eu pensei: por que essa pessoa que a recomendou a mim. Ela se aproximou. disse-lhe: — Ah. não ajudou a pobre criatura? Por que têm sempre que pensar em mim para resolver o problema dos outros? Enquanto fazia tais indagações mentais. que bom que a senhora apareceu. eu vim aqui porque um freqüenta- dor desta casa mandou. contando a sua história. Ela foi falando. fui procurado no Centro por uma senhora que me veio pedir ajuda. Eu não posso fazer nada por essa pessoa. Veja este caso! Eu vou ter de dizer um não para ela. Ele mandou perguntar se o senhor pode internar meus quatro filhos. muito humil- demente e disse-me: — Senhor Divaldo. Eu ia ter de negar-lhe. Eu estava muito cansado e comecei a ficar angustiado com o problema dela. falando. Joanna de An- gelis me apareceu. pois não tínhamos mais lugar nem condições para os receber. (Ela já estava ali para verificar o meu comportamento. Ela ouviu a minha queixa e respondeu-me: . Então. 21 NOME ESCRITO NO LIVRO DOS CÉUS Certa vez. pensei).

Não posso porque a senhora é mãe. — E ela veio. O freqüentador. estava anotado Divaldo Franco. Esta pobre irmã chorou muito e pediu a Deus que lhe en- viasse o socorro. por estarem os vossos nomes escritos nos céus. Ela está fazendo-te a caridade de aprenderes a ouvir. Os Benjeitores Espirituais procuraram então quem lhe pudesse ajudar. numa emergência. aduziu: — No Evangelho há um texto que diz: "Não vos ale- greis porque se vos sujeitem os espíritos. Não podes aquiescer em rela- ção ao pedido que ela te jaz." (Lucas 10:20) Quando o Senhor sabe que na Terra alguém ama. alguém está sendo útil. tem calma. saibam a quem pedir ajuda. Não lhe posso aten- der o pedido. Ele resolverá o seu caso. Quando terminou. e é uma falta de caridade separá-la dos filhos. alegrai-vos. E ao invés de te angustiares ou te impacientares. senhora. porque vou ter de negar. alguém está exercendo a caridade. a Divaldo. Mas nós vamos estudar um jeito de ajudá-la sem . Ia passando uma pessoa de bom coração que te conhece e os Espíritos inspiraram-na a pedir-lhe ajuda. . para me consolar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 187 — Então estás triste porque alguém mandou que um necessitado viesse a ti? — Sim. mas. na rua tal. vá lá. . vá lá. podes amá-la. para que. em Salvador. expliquei-lhe: — Receber as crianças eu não posso. só que eu quero pedir a Nosso Senhor que não precisa exagerar muito. sugeriu-lhe: — Minha irmã. antes. Então — prossegue Joanna — tu estás aborrecido. porque o teu nome está escrito no livro do Reino do Céu? — Não. Fez uma pausa e. Viram que. Veio a intuição: manda para o Divaldo que tem o nome escrito em nosso livro. Ele determina que Espíritos gentis anotem o seu nome. Mas a mulher me estava fazendo a caridade de contar o seu caso. inspirado. — Mas tu podes amá-la.

nesse trabalho. Quando uma pessoa me procura com um pro- blema. enfim. que há um perfeito encadeamento da parábola com as ins- truções dadas aos discípulos. o mais difícil possível. exercida com abnegação e total desprendimento. explica onde é e iremos. O trecho do Evangelho.188 SUELY CALDAS SCHUBERT retirá-los do seu convívio. de tolerância. essas pessoas nos fazem a caridade. de Lucas. quando Jesus os orienta: "E depois disto designou o Senhor ainda outros setenta. pois ela representa o exemplo da verdadeira caridade. é o capítulo X. no sábado. eu me imagino na situação dela e penso: talvez. de paciência. o desprendimento. se eu estivesse no seu lugar eu não pediria. Ele afirma-lhes que têm os seus nomes escritos nos céus. . senhor Divaldo. talvez tomasse à força. Portanto. a todas as cidades e lugares onde Ele havia de ir. No diálogo com Marta o Mestre ressalta a relevância das coisas espirituais. Verifica-se. de caridade legítima e completa. tomado em seu conjunto. Fiquei imaginando a caridade que esta mulher me fez. Ela me olhou bem e disse-me: — Ah. e mandou-os adiante da sua face. ensinando-nos a pa- ciência. neste capítulo. de dois em dois." Após transmitir as instruções. O que eu queria mesmo é uma colaboração para criá-los. e se inicia com a missão dos setenta discípulos. A senhora me dá o seu endereço. em que está inserido o versí- culo citado por Joanna de Angelis. Nunca mais — isto foi há mais de trinta anos — eu me precipitei. Logo em seguida Lucas narra a parábola do Bom Samaritano e finaliza com o texto de Marta e Maria. eu estava com tanto medo de que o senhor quisesse ficar com eles. tentando solucionar o problema. Bela lição esta. o amor.

do Evangelho. no seu livro Espírito e a Vida. (pág. porém. narrou-lhe o Senhor. O SEMEADOR DE ESTRELAS 189 Observando a vida de Divaldo Franco encontramo-lo em plena e integral vivência de todo este texto de Lucas. que constitui o capítulo X. o homem caído na orla do ca- minho. que interrogado o Mestre por um doutor pusilânime que o tentava. consideremo-lo como a representação dos muitos Espíritos tombados nos próprios enganos e que retornam à esfera física e são aí acolhidos e adotados c o m o filhos . e jaze da mesma maneira. ao que este respondeu: 'O que usou de misericór- dia para com ele. no versículo 25 e seguintes. edição. a parábola do bom samaritano. após inquiri-lo sobre a Lei. L E A L ) : "Conta Lucas. a respeito da herança celeste. Casualmente passou pela mesma via um doutor. quem seria o próximo do homem sofrido. tomou-se de piedade e o assistiu carinhosamente. embora o vissem. para o qual remetemos o leitor a fim de que sinta em toda a sua beleza a narrativa do evangelista. 111 — 2. Um samaritano. quem seria o próximo.' Disse. na aplicação do amor. seguiram indiferentes.' E ante o assombro do interlocutor o Mestre indagou-lhe. em um texto muito inte- ressante que vale a pena ser lido. Sintetizemos a narrativa: 'Assaltado por malfeitores. então. um pobre homem foi deixado à margem da estrada que descia de Jerusalém a Jerico. Parafraseando esta comparação da autora espiritual: A "Mansão do Caminho" pode ser comparada à hospe- dagem acolhedora e gentil. quando por ali passasse de retorno. dispondo-se a resgatar quaisquer compromissos excessivos. Em seguida Joanna faz uma comparação entre a pa- rábola e as reuniões mediúnicas. do capítulo 10. Jesus: Vai. Consideremos a Parábola do Bom Samaritano através da narrativa de Joanna de Angelis. conduzindo-o na sua alimária até uma hospedaria onde o deixou cercado de cuidados. e depois um levita que. por ali passando e o vendo. a fim de informar-lhe.

Ainda pode- remos considerar o bálsamo e o unguento postos nas feridas do assaltado como sendo a devoção. as orienta- ções.190 SÜELY CALDAS SCHUBERT do coração. perfeitamente. (Lucas 10:23 e 24) Quanto a nós outros. a equipe que colabora. às tarefas sacrificiais do auxílio fraterno. a palavra de Divaldo. as moedas pagas ao hospedeiro simbolizemo-las como as renúncias e dificuldades. Jesus aconselha ao encerrar a parábola: "Vai e faze da mesma maneira. e não o viram." . e não o ouviram". representemos como sendo os companheiros conhecedores da vida imortal. zombeteiro e frio. Pois digo-vos que muitos profetas e reis desejaram ver o que vedes. e o doutor da lei. tenhamo-lo como o bom samaritano e a via entre Jerusalém e Jericó convencionemos como a estrada dos de- veres fraternos por onde todos transitamos. os que deixam o labor em meio ou que são convidados e se conservam indiferentes. lutas e testemunhos por ele vividos no cumprimento de sua missão. Para o nosso querido Divaldo sabem muito bem as pa- lavras de Cristo: "Ditosos os olhos que vêem o que vós vedes. o carinho. o bom samaritano. indiferentes. no- tificados das surpresas além-do-túmulo.. como vimos. Divaldo pode. o médium baiano. pois vive integralmente o que prega. e ouvir o que ouvis. simbolizar. entre- tanto. o que a Doutrina postula e o que Jesus recomenda aos seus discípulos. assemelhemo-la ao en- carregado da estalagem. examine- mo-los como o doutor e o levita sem piedade..

meu filho. no começo da obra. O rio desa- guando no mar. Paramos numa venda. na estrada. entre muitos que aconteceram. e particular- mente nos anos 60. Mas fomos. Nós achamos estranho. passarmos o sábado ou o domingo em uma praia muito deserta. porque ficava no sentido opos- to ao que pensávamos. que hoje se transformou em um lugar famoso. Certo dia. Chegamos a uma região de beleza invulgar. Maximiano. foram marcan- tes. De uma feita. que sabíamos o caminho como a palma da mão. gentil- mente. nós. nos emprestou a chave da casa. para irmos com as crianças e vivermos um pouco em contato com a Natureza. 22 A MOÇA DA PRAIA - EVITANDO UM SUICÍDIO Era do nosso hábito. naquela época. erramos a estrada. na periferia de Salvador. um amigo que possuía uma propriedade ampla. e perguntamos onde ficava o local que procurávamos. O vendedor respondeu que fôssemos em frente até encontrarmos o rio Jacuípe. . ia dirigindo a kombi e por mais que tentássemos encontrar o lugar não acertávamos. Dois fatos. aí dobrássemos por outro trecho da estrada e sairíamos lá. A paisagem de coqueiros. a areia alva. na nossa mediunidade. onde estavam plantados dez mil coqueiros.

alguém aconselhou que fosse a um Cen- tro Espírita que havia nesse bairro. coincidentemente advirá uma nova concepção. e ela. Levamo-la a uma casa que ficava a uns duzentos metros. Lygia. num lugar muito deserto. pare o carro. sujando-me de sangue. Era mãe de seis filhos e algum tempo atrás contrairá tuberculose pulmonar. aquela mulher vai-se matar! Todos ficaram surpresos e acharam até absurdo. Ele falou-lhe que naquele estado a gestação era um grande perigo. Ziza. limpei a roupa e então per- guntei-lhe: — Por que a senhora quis matar-se? Ela contou uma história muito curiosa. Ziza e outras tias. naquela mesma noite. Segurei-a. Aí no posto. Ela nada conhecia de Espiritismo. porque ela está tentando suicidarse. Ali ela teve uma hemopti- se muito forte. Carmem. muito necessitada. na Calçada. onde ela residia. que . em Salvador. Pedi a Maximiano: — Meu filho. e nós a arrastamos para a praia. mas resolveu ir. Naquele estado ela foi ao Quarto Centro de Saúde. mar a dentro — não sei nadar — e peguei a senhora que estava numa crise de loucura. olhei na direção do mar e vi que uma pessoa adentrava pelas águas. Era uma casa muito modesta. fui buscar água. ti- rando-a da água. que seria o sétimo filho. Então ouvi uma voz que me disse: — Salta. não tinha como solucionar o problema.192 SUELY CALDAS SCHUBERT Eramos nove pessoas. e o médico diagnosticou estar ela realmente grávida e tuberculosa. Mas eu saí correndo. Quando fizemos a volta. Lygia. Mas o aborto tam- bém era um grande risco de vida. Ma- ria. Quando conseguiu acalmar-se. então chegaram os outros. e o parto um gran- de risco de vida. sugerindo-lhe o aborto. Com a doença. Ela teve uma crise de desespero muito grande e a custo conseguimos acalmá-la. uma pessoa muito pobre.

Ficou na cidade. Saqueia hora as crianças ficaram nervosas. que Deus soluciona sempre todos os problemas. Indaguei: — Você se lembra do moço que estava falando? — Não. O SEMEADOR DE ESTRELAS 193 era uma quinta-feira. trazido pelos Espíritos. como é que o senhor veio parar aqui? Deve ler sido a Providência Divina — respondi- lhe.' Foi o senhor quem estava falando — disse. Perguntei-lhe qual era o endereço do Centro e ela dis- se que era na rua Barão de Cotegipe. — Sa terça-feira — recomendei-lhe — você vai à reu- nião e vamos ver o que os Espíritos aconselharam. fizemos um culto evangélico e tomamo-la sob a nossa responsabilidade emocional. à tarde. Lá ouviu um homem moço fa- lar muito sobre os deveres perante a vida. Foi no justo momento em que nós passávamos. No domingo pela manhã achou que a única solução para a sua vida era o suicídio. Aplicamos-íke um passe. o marido esteve lá. a misericórdia de Deus. — Mas. e viajou. começaram a chorar. porque o salão é muito grande e não o vi bem. e deu-lhe uma surra muito grande. e ela muito desesperada saiu correndo para entrar pelo mar e matar-se. Tirei os óculos escuros e perguntei-lhe: — Seria eu? — Meu Deus. foi ao Centro. Ela ficou desesperada. surpresa. etc. Quando ele acabou de falar. Mas. emocionado. À noite. . Já a havia abandonado. — Você pediu ajuda e eu vim. bê- bado. Ela assim o fez. no sábado. ela quis tirar uma con- sulta e mandaram-na dar o nome e o endereço na portaria para na terça-feira buscar a resposta. senhor. pois morava a qua- renta quilômetros de distância. que era o dia em que os Espíritos iriam atender a consulta.

e deve ser poupada. por- quanto. Mas eu fiquei com uma curiosidade de saber o que é que os Espíritos teriam colocado na consulta. arranjamos algum dinheiro para ela comprar qualquer coisa de emergência e fomos para a tal praia. para tratamento especializado. passamos o dia. a criança era muito frágil.194 SUELY CALDAS SCHUBERT Conversamos muito." Então vinham três remédios da Homeopatia. que arquivamos em ordem alfabética e lá estava escrito exatamente assim: "Receberá. a interferência po- derosa dos Espíritos e de alguma forma o merecimento dessa senhora. Ela ficou mais consolada. para nos desvia- rem da rota no momento próprio. Quando chegamos a Salvador. no momento próprio. se passássemos alguns segundos antes ou depois. coti- zamo-nos. Assim eu notei. Ela ficou boa. Fomos direto. . Isto foi em 1964. Siga a orientação médica e acrescente os seguintes remédios. específi- cos para a tuberculose.. Aí não erramos mais. Na terça-feira. Nós ficamos com a criança que nasceu por último. mostramos-lhe o resultado da consulta e conseguimos interná-la no Hospi- tal Santa Terezinha. uma vez mais. A sua vida é muito preciosa para você e a Divindade. recuperou-se completamente. do Laboratório Seabra. Hoje está um adulto.. porque nós erramos vinte e tantos quilô- metros de estrada num percurso que fazíamos a cada quin- ze dias. a solução para o mag- no problema da vida. quando ela chegou. inclusive um chamado Pulmonina. o suicídio teria sido consumado. eu fui à pasta de orien- tações espirituais. Desejo anotar a interferência dos Espíritos. já se emancipou. a clarida- de do fenômeno mediúnico e também a lei do mérito. pois ela não tinha a me- nor condição de mantê-la.

tor- nando-se. as que mais dulcificam e aprimoram os sentimentos. entretanto. Os conteúdos psicológicos desses Espíritos em difi- culdades são como que absorvidos. compartilhando por instantes das dores que avas- salam essas Entidades. O SEMEADOR DE ESTRELAS 195 Comoventes são os esforços da Espiritualidade Maior para impedir que uma pessoa cometa o suicídio. Em alguns desdobramentos. como "li- ções vivas". exauridas pelo desespero e pela dor. no exercício contínuo de socorro e aprendizado junto a esses sofredores. nessas regiões de sofrimentos. testemunha. também. Cessa- da esta. o medianeiro se recompõe. durante as reuniões mediúnicas. incursionamos. com quaisquer outros estados emocionais que o Espírito comunicante exteriorize e o médium venha a captar. são. o media- neiro terá conseguido vivenciar uma gama muito intensa de emoções e experiências que o enriquecem de forma no- tável. em parte e em breves minutos pelo médium. proporciona-lhe uma fantástica vi- vência. expectador de- les. ocorre. Quando o médium atinge essa vivência profunda precisa . de certa maneira. tais estados emocionais ficam íegistrados no seu psiquismo e passam a fazer parte do seu acervo como aprendizado. enquanto dura a sintonia mental e fluídica. Assim. a mágoa profunda. enfim. tais como o ódio. a nosso ver. especial- mente. por breves minutos. tudo. o desequilíbrio mental. já têm condições de serem socorridas e encaminhadas para tratamento. As comunicações desses nossos irmãos são as mais do- lorosas para o médium. Com o passar dos anos. quando buscamos aprender com os Ami- gos Espirituais a tarefa de resgatar algumas das Entidades que. O fato de o médium conviver com esses dramas. Nestes anos de atividades mediúnicas temos tido o ensejo de conhecer um pouco do que sejam os tormentos tenebrosos que existem no "vale dos suicidas". passa pelo campo emocional do médium que as sente momentaneamente. também. que os experiência e deles se im- pregna. Entretanto. Emoções negativas.

físico-material. sobretudo. tudo isso deve encontrar no médium a con- traparte do amor. a coisa funciona de outro jeito. nos quais deve confiar incondicionalmente. a frieza. ou uma facada no peito. É que o médium sabe e sente que apesar de captar tais estados. sentado em seu lugar. assusta um pouco e tem sido causa de receio e evasão de algumas pessoas às tarefas mediú- nicas. o médium sente essas aflições e sofrimentos. ainda. Quando um Espírito está com dor. protegido e de- fendido por uma corrente vibratória entre encarnados e desencarnados e.196 SUELY C A L D A S S C H U B E R T estar muito atento e vigilante. o sofrimento moral acerbo. pelas defesas estabelecidas pe- los Mentores. pois compete-lhe envolver o Espírito em vibrações opostas àquelas negativas de que ele é portador. da compaixão e da solidariedade. a falta de ar. o esmagamento de suas pernas num desastre. O ódio. Ocorre que certos médiuns são muito impressionados e receiam a rigidez ou dormência muscular momentânea que os acometem em certas comunicações. de for- ma atenuadíssima. todavia. ou. sentindo. que está a salvo. . a crueldade. a captação de seus sintomas e dores. o desequilíbrio afetivo. que essas captações por parte do médium são muito atenuadas. porém. a taquicardia. No extraordinário livro Memórias de um Suicida. é óbvio. particularmente. um tiro que ele próprio desfechou no ouvido. contudo. na sala de reuniões. estes não são dele. o sarcasmo. às vezes. da médium. o seu desespero e desequilíbrio. narrando a comunicação de um suicida que se atirara sob um trem. Na prática. por exemplo. Isso. ou mesmo quaisquer sensações que os Espíritos transmitem. es- clarece: "As vibrações mentais dos assistentes encarnados e. Yvon- ne Pereira. o desejo de vingança. Alguns médiuns — como é o nosso caso — têm desde o início do exercício da mediunidade essa aptidão para assimilar as angústias e aflições das Entidades que se ma- nifestam por seu intermédio. Esse quadro parece assusta- dor e chocante. cuja saúde. É evidente.

nenhum benefício que se lhe desejasse apli- car!" (os grifos são do original) * * * É exatamente por saberem e conviverem — na tarefa socorrista — com os sofrimentos superlativos dos suicidas e. A corrente poderosa pouco a pouco apresentou os frutos salutares que era de se esperar. uma vez que influen- ciações saudáveis. fluidos magnéticos mesclados de essên- cias espirituais aconselháveis no caso. incapaz de algo pro- duzir distante do inferior. através do filtro humano representado pelo mag- netismo mediúnico. na rea- lização de sublime operação psíquica. adaptando-a em afinidades com o paciente. de forma alguma. investiam violentamente sobre aquelas. Era como sedativo divino que piedosamente gotejasse virtudes hialinas sobre suas chagas anímicas. dominando suavemente as vibrações nefastas do suicida depois de passar pelo áureo veículo mediúnico. assim. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 197 físico-astral. o qual. positiva- mente descontroladas. luta árdua. como ondas revoltas de imensa torrente que se despejasse abruptamente no seio esmeraldino do oceano. encontrava-se em condições satisfatórias. que os . pois que fora anteriormente examinada pelos provedores do importante certame espiritual. refletindo os esplendores do firma- mento ensolarado. moral e mental. a fim de torná-la em condições de suportar a verdadeira terapêutica requisi- tada pelo melindroso caso. cujo envoltório astral forte- mente se ressentia das impressões animalizadas deixadas pelo corpo carnal que se extinguia sob a pedra do sepul- cro! Eram como que compressas anestesiantes que se apli- cassem na organização fluídica do penitente. ma- ter ializando-a. Estabeleceu-se. reagiam con- tra as do comunicante. suavizándo- me o efervescer das múltiplas excitações. que. sem o qual o infeliz não assimilaria. formoso e sobranceiro. por ser este um crime contra as Leis Divinas. fornecidas pela mé- dium e pelos guias assistentes. enfermas. viciadas. tornava-a assimilável por este. deveriam impor-se e domar as emitidas pela entidade sofredora.

D i v a l d o foi o instrumento.198 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Benfeitores Espirituais envidam todos os esforços no sen- tido de impedirem que exista um maior número de suicí- dios no mundo. Assim. . de que o Mundo M a i o r se utilizou para impedir à mulher de consumar o seu intento. Vinte quilômetros de erro na estrada — e uma vida foi salva de séculos de tormento e dor. uma v e z mais.

naquela imensidão. Depois de uma hora mais ou menos. 23 NAS MÃOS DE NILSON Nesse mesmo lugar. Levávamos alguns col- chões. ocor- reu um outro fato e que envolve Nilson. Saímos a correr na direção indicada. A casa era modes- tíssima. Praia virgem. deserta. gritando por so- corro. assustado: — Nilson. nós ficamos na praia com as crianças e as tias. Levantamos. Numa dessas vezes. porque a correnteza as está levando para o mar alto. num domingo. não vimos ninguém. aonde íamos periodicamente. Eu não sei nadar. a casa tinha umas três camas e iam umas trinta pes- soas. Nós íamos com as crianças e as tias. ouvi um grito de socorro. Eu disse. Maria Seippel e Carmem Prazeres haviam . Nós deitávamos até no chão. subimos no peitoril da janela para olhar o mar e. Joanna me apareceu e avisou: — Duas das tias estão correndo perigo de vida. Depois fomos almoçar e deitamos para repousar um pouco. Mas era um desses lugares preservados pela Divindade para o contato com a Natureza. há alguém se afogando. Corram nesta direção. mas Nilson sabe.

pois. Carmem. muito lentamente. e pediu a Maria que tivesse calma. ali mesmo. São estas. Lentamente. Quando percebe- ram. Ele trouxe Carmem. sem darem-se conta. afirman- do que Maria e Carmem * deviam a vida a Nilson. muito nervosa. também. (Nota de Suely C. não conseguindo. Pegou. foi trazendo-a. Lygia. A jangada prosseguiu sendo levada. em vá- rios quilômetros. Depois disso nós brincamos. Não havia uma pessoa sequer. além de nós. Automaticamente. todos. que estava quase se afogando. ( * ) Carmem Prazeres desencarnou em 23 de maio de 1987. e Carmem saltou para ver se nadava. Nas mãos de Nilson as vidas de Carmem e Maria. que as carregava. automaticamente. Nós. até que salvou. com problemas hepáticos. colocando-a na praia. fora da jangada. quando lhes propus: — Vamos orar. que come- çaram a gritar. Isso foi em 1965. fizemos um culto evangélico de agradecimento. apegou-se à borda da jangada. Ziza e as crianças. já estavam longe da praia. vi Joanna erguer-se e. deixou-a na areia e vi Joanna chaman- do-o. pois poderia ter sido uma tra- gédia. como se estivesse empurrando a frágil embarcação para a praia. já não tinha forças e foi seguran- do-o até à jangada. Schubert) . segurou-se. Ele atirou-se ao mar e nadou. primeiro. a vida de Maria. estarrecidos. Às mãos de Nilson Joanna confiou o salvamento.200 SUELY CALDAS SCHUBERT sentado em uma jangada que estava ali e. Então. com o manto. Entraram numa corrente marítima. ficamos na areia. vamos orar! Nilson era o único que sabia nadar. mas. demonstrações da Misericórdia de Deus. Maria. abrir os braços. a jangada começou a se deslocar. Havia um toro de madeira que ele tomou e jogou-o no mar para apoiar-se.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 201 Nas mãos de Nilson Pereira. A magnífica e comovedora visão de Joanna a proteger a jangada com as tias é por demais significativa. Mãos fortes e belas que falam de um coração bondo- so e fiel. de apoio. são mãos de sustento. Nessas abençoadas mãos o labor do bem se desenvolve e se mantém constante. o zelo com que os Benfeitores da Vida Maior cercam a nossa vida. Será que já nos demos conta disso? O episódio merece uma reflexão mais profunda de cada um. a vida de Divaldo. Mãos que aram e semeiam a leira dos corações. de irmão. por algumas vezes. de bondade para a vida de Divaldo. . de amigo. Essas mãos seguras e firmes. pois ex- pressa os cuidados. de pai.

Contou-me que era muito feliz na vida conjugal. Ela me disse que teria de voltar para casa. perto do farol. matar o filho. Morando na Barra — que é um bairro sofisticado de Salvador. ele agredira-a. um dra- ma com o marido. Naquela situação resolveu suicidar- se. por vingança. batera-lhe. 24 EM UM MINUTO APENAS Eu estava atendendo. lá no Centro. (Ê um trecho muito movimentado. de repente. tinha tido um filho. Ela estava tão inquieta que me pediu que a atendesse de imediato. Pegou o filhinho de quatro anos para ir na direção do farol. quando chegou uma senhora com uma criança. enquanto a ira deseja que matemos o corpo.) . Pedi licença às pessoas que estavam na frente e atendi-a. Ela con- siderava aquilo o ponto final do casamento — agressão física! Ficou desesperada. imediata- mente.) Quando estava atravessando a avenida. onde o mar bate no penhasco — ela resolveu suicidar-se e. à fila. muito nervosa e agitada. para que o marido ficasse com um problema de consciência. e. à véspera. (Ê curioso ver como Deus nos armou do instinto de conser- vação da vida. um dia. a criança escapuliu-lhe da mão. muito grave. chegaram a ter vá- rios atritos. pois estava vivendo um drama muito sério. quando. o marido arranjou uma companheira e começou a maltratá-la.

o amor parte. agora. Conversei demoradamente com ela.. o garoto apanhou um papel que estava no chão. ela também tinha de procurar aquilo que lhe fizesse bem. ela e o marido. no Banco . Ela viu que era escrita por mim — era uma página mediúnica. . inte- ressada pelo título. indo à sua casa jantar. Caso ele tivesse qual- quer suspeita do seu comportamento. a dor passa. O impulso havia desaparecido. Já que o seu casamento estava em tal situação. Ela terminou de ler. ela fosse franca com o marido e lhe dissesse que o direito que ele tinha de ir a casa de uma companheira. ela saiu renovada e passou a fre- qüentar as reuniões públicas. embora. na medida do possível. não queria viver. a vida muda. caso duvidasse de sua integridade moral. não sabia o que fazer da vida. sentou-se e teve uma crise de choro. o ausente chega. Foi mudando de comporta- . onde trabalhava o marido." Foi andando. Conversamos muito. Então. havia um senhor que era espírita — Elísio Dórea — e que um dia. Mas. de formação católica. e. deu-lhe o endereço. puxando a criança e lendo a página. No final estava escrito: Marco Prisco. tentou falar-lhes sobre o Espiritismo. . ficou angustiada ante o pavor de vê-lo morrer atropelado. ainda há pouco. já estava próxima ao penhasco. Ela o arrebatou e ia jogá-lo fora quando viu es- crito "UM MINUTO APENAS". e ela ali estava para pedir uma orientação. tivesse o dese- jo de matá-lo. nem queria morrer. O dinheiro muda de mão. Com essa angústia toda. Nesse momento recordou-se de que. Quando conseguiu segurar o filho e abaixou-se para dar- lhe umas palmadas. ela voltou à casa e telefonou àquele senhor. o que é um paradoxo. olhou-o melhor. O amigo espírita explicou-lhe que era fácil encontrar-se co- migo. aqui viesse e a sur- preendesse. explicando-lhe que a vida era o dom mais precioso de Deus e que ela passasse a freqüentar a nossa Casa. com raiva o leu: "Num minuto apenas. a tormenta acalma. O SEMEADOR DE ESTRELAS 203 Ao percebê-lo solto. reagiram incontinenti. passou o ímpeto — em um minuto! Parou e olhou em torno. Contou o acontecido.

um ato de amor — respondi-lhe — mas de um amor fraterno. . Mais de um mês depois. passou a canalizar as suas energias para a aplicação de passes. ela estava conversando comi- go. Ele a colo- cou no coldre. que era um inimigo. que guardasse a arma. realmente. Aclarada a causa do desajuste conjugal. à frente de todos: — Me disseram que o senhor é o amante de minha mulher e eu vim aqui para pôr isto em pratos limpos. visivelmente de- sesperado. o casal tem três filhos. Aquele filho. para não o odiar. enquanto ela revelou a mediuni- dade de psicofonia. ele teve a célebre crise de choro (que sempre ocorre nesses casos) e depois saíram abraçados. com o tempo. ao invés de desrespeitá-lo. Através dela foi trazido. porquanto era também muito agressiva. um ex-marido a quem ela não soubera respeitar na encarnação passada e que estava atirando o atual esposo invigilante ao adultério. A família foi reconstituída e hoje são excelentes espíri- tas. O que sua esposa está buscando aqui é o amor universal. está dignificando o seu nome. e não escuso. na cintura. na fila. dizendo. então. ela hoje dedica a vida à prática do bem. Ele levou um choque com as minhas palavras e ficou sem ação. Ele. com um revólver na mão. o agente da grande perturbação. está adolescente de quinze anos e a paz voltou à família. como aquele que o senhor se permite. Entrou pelo salão e chegou perto de mim com a arma em punho. ao senhor que desrespeitou o seu lar e a sua famí- lia.204 SUELY CALDAS SCHUBERT mento. o lar está reconstituído. estava ma- goada e reagia facilmente. quase assassinado. E ela. para que ela enveredasse pelo sui- cídio. Pedi-lhe. pelos Benfei- tores Espirituais. quando irrompeu um homem. Falei-lhe demoradamente. público. — O senhor há de notar que é.

O SEMEADOR DE ESTRELAS 205

O obsessor reencarnou. Ê o filho caçula, está dentro
de casa agora, apaziguando os dois.
Um minuto apenas!
Duas vidas salvas por uma página caída na calçada da
movimentada avenida. C o m o foi parar aí? Que prodigiosos
recursos espirituais foram carreados para que aquela mu-
lher a lesse, no momento certo? Como, na fração de um
minuto, a criança vê a página no chão e, num impulso, a
segura?
Num átimo o vento poderia tê-la deslocado do lugar.
Alguém poderia pisá-la, amassando-a. A mãe, desesperada,
puxando o filho pela mão, poderia ter passado antes ou
depois que a folha de papel aí estivesse. Ou ter ido pelo
outro lado da rua. Ou então ...
Quantas coisas poderiam ter impedido que o tão espe-
rado momento da leitura acontecesse. As probabilidades
contrárias são quase incalculáveis.
No entanto, em um minuto apenas, a mulher caminha
naquela direção, no local exato e, no seu desespero, vê o
filho escapulir de suas mãos em meio ao trânsito intenso.
Segura-o. Por um estranho paradoxo teve medo que ele
morresse atropelado — ela que pensava em matá-lo. É, pre-
cisamente, neste instante, que a luz do Mundo Maior in-
cide sobre ambos.
A criança pega a página solta no chão. E ela vai parar
nas mãos da agonia.
Um minuto apenas!
0 que é isto? É o tempo exato do socorro, do amparo,
das bênçãos divinas.
Alguém, um dia, num minuto de luz, idealizou aquela
página e a transmitiu para a Terra. Outro alguém, predis-
posto ao amor, num momento de elevação captou a men-
sagem. A partir daí, a trajetória do bem se faz. Por cami-
nhos insuspeitados, para nós, que temos a nossa visão
obliterada pelos estreitos limites físicos.

206 SUELY CALDAS SCHUBERT

Salvar alguém das garras da loucura, do desespero, das
horríveis voragens do suicídio, do crime — não é esta a
meta do Consolador? E, trazê-lo de volta, resgatá-lo dessas
tenebrosas malhas, recuperá-lo, promovê-lo não são estas
as finalidades da Doutrina Espírita?
O desfecho deste lindo caso é comovedor.
A reencarnação a fazer cumprir as suas leis, nos leva
a outras reflexões.
Em um minuto apenas, a Misericórdia Divina se der-
rama, plena de bênçãos, sob as tortuosas vielas dos passos
humanos, corrigindo, saneando, reparando, transforman-
do-as em estradas luminosas no rumo da Vida Maior.
Precisamos de outras provas disto?

25

FATOS MEDIÚNICOS EM ISRAEL

Quando fui a Israel, levei um gravador pequeno para
registrar o que o guia ia dizendo e consignar as minhas im-
pressões, porque depois que daí saísse não me recordaria
de todos os detalhes.
Em Tiberíades, há um ancoradouro de barcos e fui
gravando tudo. Numa grande emoção, sentei-me nas pe-
dras, enquanto Juan e Nilson choravam. . . Quando o guia
viu-nos em tal estado, sugeriu:
— Acho bom irmos embora, porque senão o tempo
não dará para visitar o restante. ..
Saimos todos em "estado alfa".
Quando entramos no carro, apareceu-me o Espírito
Marcelo Ribeiro e falou-me:
— Baiano, tu deixaste o gravador lá, sobre as pedras.
Levei um susto terrível e pedi ao guia:
— Pare, imediatamente; vamos voltar, porque o meu
gravador ficou lá.
— Se ficou, perdeu, porque já devem tê-lo tirado do
lugar.
Mas, o Marcelo afirmou:
— Volta rapidamente, pois estou tomando conta; a
meninada está a cinqüenta metros .. .
— Volte, imediatamente — insisti.

208 SUELY CALDAS SCHUBERT

Retornamos, e quando íamos chegando, vimos um me-
nino apontando para o gravador.
Eu gritei:
— Não o toque. È meu — e consegui reavê-lo.
Mas, o nosso guia era um árabe, falando espanhol per-
feitamente. Ele falava nove idiomas. A certa altura nos in-
formou:
— Vou lhes mostrar agora a estalagem do "Bom Sa-
maritano".
Entramos e fiquei empolgado. Quando estávamos as-
sim, naquele entusiasmo, apareceu-me Joanna e disse-me:
— O conhecimento evangélico do senhor deixa muito
a desejar. (Quando ela está muito austera chama-me de
senhor, que é para quebrar a intimidade)
Eu, crente que conhecia o Evangelho de capa a capa...
— Mas, como?
— Porque o senhor está aqui considerando que esta é
a hospedaria do "Bom Samaritano"...
— Porém, é a hospedaria do "Bom Samaritano", con-
forme o senhor o afirma. (E perguntei ao guia só para
confirmar).
Ela, tranqüilamente, prosseguiu:
— A narrativa de Jesus é uma parábola, e uma pará-
bola é um conto imaginativo por paralelismo. Não foi nesta
hospedaria. Para mostrar quem era o próximo, Jesus con-
cebeu uma história com a figura do "bom samaritano". Por-
tanto, podia ser esta como qualquer outra estalagem, caso
houvesse acontecido...
Aí, despertei. . . Então voltei-me para o guia e perguntei:
— Mas, o senhor tem certeza do que está informando?
— Sim, tenho.
Ansioso por sua reação, passei-lhe o argumento. Ele
caiu em si.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 209

— Daqui por diante o senhor diga: em uma hospedaria
como esta...
— Qual é afinal a religião que vocês professam? —
indagou-nos. — Porque católicos, não são, pois que não se
benzeram e nem se ajoelharam nenhuma vez; protestantes,
também não, porque não me tentaram convencer. Qual é a
sua religião?
— Nós somos espiritas.
— O que é isto?
Então aproveitei o ensejo... Esqueci-me de onde esta-
va e, com Juan e Nilson do lado, gentilmente, ele foi "dou-
trinado". Quando descobriu que acreditávamos na imorta-
lidade da alma, na comunicabilidade dos Espíritos, no que
eles acreditam, mas de forma diferente, sensibilizou-se. Era
maometano, fazia o culto cinco vezes, ouviu-nos e res-
pondeu:
— Eu já atendi turistas de todos os tipos, mas os se-
nhores são o grupo mais equilibrado — de um equilíbrio
especial — que eu conheço. São equilibrados porque não
bebem, não fumam, não comem coisas vulgares, mas são
completamente loucos porque acreditam que a alma retor-
na, e esta não volta: a alma que serviu ao Alcorão está lá
nas delícias.
— Como são as delícias? — indaguei.
Ele explicou, e nessa altura fomos nós que o achamos
estranho.
Para completar, Juan informou-lhe:
— O Divaldo é médium, ele vê e conversa com os
"mortos".
— O senhor vê os "mortos"? — perguntou, surpreso.
— Não, porque quem morreu acabou. Eu vejo os vivos,
que venceram a morte. ..
ü assunto encerrou-se neste ponto.
Fizemos todo o roteiro. No último dia, já éramos muito
amigos, e ele então, para nossa surpresa, indagou-me:

210 SUELY CALDAS SCHUBERT

— Senhor Divaldo, vou perguntar-lhe uma coisa, com
toda a sinceridade. O senhor promete ser leal comigo?
— Sim, eu prometo.
— O senhor vê quem já se foi?
— Sim, eu vejo.
— Como é que vê?
— Como o senhor está vendo aquela árvore ali.
— Mas, eu não o posso conceber. Agora, que nos vamos
despedir, se o senhor me puder dar assim uma prova, uma
coisa qualquer...
— Eu lhe vou dar agora esta prova — afirmei. — Eu
vi o seu pai que já m o r r e u . . .
Ele ficou lívido.
— Como o senhor pode tê-lo visto, se meu pai está no
paraíso?
— O senhor o colocou lá, mas ele não é obrigado a ficar.
O genitor dele me ditou uma mensagem em árabe, que
eu escrevi com muita dificuldade, tendo a mão conduzida.
Eu lhe disse que não tinha conhecimento algum do idioma,
porque o meu alfabeto é latino, mas pedi um papel, e o pai
escreveu uma citação do Alcorão, o versículo 114, uma sura:
"A esperança na bondade de Deus é o coroamento de uma
vida digna."
Ele leu em árabe e traduziu-a para nós. Ficou abaladís-
simo. Eu descrevi-lhe o pai, fisionomicamente.
Despedimo-nos, e ele, profundamente impressionado,
prometeu escrever-me. Assim, mantivemos correspondência
por algum tempo, hoje interrompida.

Muitos e extremamente ricos foram os acontecimentos
mediúnicos vivenciados por Divaldo quando de sua viagem
a Israel.

. que tem condição de captar a ambiência etérica dos locais onde se encontra. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 211 Não é muito difícil imaginar o que representa para um médium como ele. esse contato com a psi- cosfera das regiões onde Jesus viveu. Estes fatos aqui narrados pelo médium são uma peque- na amostra dentre as interessantes e comoventes experiên- cias que a psicosfera da "Terra Santa" lhe propiciou.

em seguida. dizendo: — Agora o senhor já pode ir. mais cuidadosamente ainda. que a pessoa tem de se abrir para Deus. Preparou a água. Terminando. porém. Aproximou-se do homem e repetiu o socorro fluí- dico. Uma de nossas passistas. agora. dizendo. saí- ram todos e ele não se mexeu do lugar. aplicou passes em todos. Certo dia. a certa altura. Por que o senhor veio aqui? . que é uma pessoa muito dis- traída. a água fluidificada. chegando junto ao senhor. estavam as encarregadas em plena função. para ser beneficiada. flui- dificou-a. 26 OS TRÊS PASSES Em nossa Casa temos o plantão de passes. cada um tem de fazer a sua parte. fez uma leitura maior e comentou-a. Entraram outras pessoas e ela ficou intrigada. e. Terminado o mister. tor- nar-se receptiva às bênçãos divinas. ingênua. quando entrou um senhor e sentou-se. Fez então a leitura de praxe. explicou que o passe é uma transfusão de energias. transmitiu-lho por terceira vez. chegou perto dele e aplicou-lhe a bioener- gia com todo o amor. pois já o atendi por três vezes. todos os benefi- ciados saíram e entrou novo grupo. Ela pensou: naturalmente ele não se sentiu melhor. os comentários. Deu-lhe. mas ele continuou sen- tado. Então. a prece e aplicou os passes.

o número de passes aplicados.. fez aqueles gestos outra vez. enquanto ele ficou-lhe como afilhado emocional. Que elas caiam onde caírem.. Então. saiamos a semear. Eu sou o cobrador da luz. a senhora veio. En- trei. eu não entendi nada. Ela deu-lhe O Livro dos Espíritos. vi a porta aberta. Muita gente diz: — Não se deve dar passes. eu não estou entendendo nada do que a senhora está jazendo. As que ficarem aparentemente perdidas no asfalto. escondendo-se no comodismo. — Agora estou ótimo! A senhora pode explicar-me o que é isto? — Bem. a luz é paga lá. Hoje é passista plantonista da Casa. Lançamos mil sementes. O que importa é semear. Então sentei-me aqui. fez estes movi- mentos sobre a minha cabeça. A senhora chegou. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 213 — Minha senhora. Eu pensei: — Da- qui não saio enquanto esta senhora fizer isto sobre a minha cabeça. serão res- gatadas por uma apenas que encontre terra boa. uma que germine vai dar-nos dez mil. Se não der resultado. A nossa tarefa é ajudar sempre. Podemos ver como funciona o mecanismo do Mundo Espiritual. A dor de cabeça passou. primeiro. aqui é uma Instituição Espírita — e explicou-lhe tudo. uma dor de cabeça violenta. O homem passou a freqüentar as reuniões. deve-se restringi-los ou atender a to- dos? Estas são algumas das questões constantemente formu- . A aplicação do passe. — Vamos passar o verbo para a ação positiva: Vamos fazer. se perdermos novecentas e no- venta e nove. a forma de ministrá-los. realizamos o melhor ao nosso alcance. estava com calor terrível. nas pedras e na terra safara. pois nunca sabemos quando a semente vai germinar. por estar muito fresquinho e agradável. De- pois. não se deve fazer isto ou aquilo. Eu sofro de uma dispepsia nervosa. porque o resultado da colheita é de Deus. na outra sala.

. seminários. Técnicas foram criadas. bastando apenas a imposição de mãos. Mas. palestras. O passe é um ato de amor e deve ser transmitido no clima que este sentimento propicia a quem o cultiva. pela imposi- ção das mãos. até livros específicos sobre o assunto. à distância. no afã desse aprimoramen- to. no capítulo de Missionários da Luz. tal- vez até com prejuízo do verdadeiro sentido de doação e de amor que são primordiais. talvez. nem as mais simples. os recursos auxiliares na con- dução das energias espirituais e físicas. a nos- sa carência de valores íntimos impede-nos de conseguir me- lhores resultados. de sen- tir-se solidário com o próximo. Isto envolve a alegria de servir. de suprir. Nesse contexto todo. porque. em Grilhões Partidos e Painéis da Obses- são. expressando uma preocupação permanente em nosso meio espírita quanto à prática correta para a sua aplicação. Manoel Philo- meno de Miranda refere-se aos passes de dispersão fluídica e ao longitudinal. uma coisa é evidente e fundamen- tal: o sentimento com que o passe é transmitido. . menciona o passe longitudinal e o rota- tório utilizado pelos Instrutores Espirituais. este assunto — passes — tornou-se um problema complexo. pelo suave magnetismo do Seu amor. pois. intitulado "Passes". Jesus curava pelo olhar. porque . pelo impulso da vontade. As técnicas seriam. as nossas dificuldades. Todavia. isto é. cursos de passes. surgiram algumas novidades para se ministrá-lo. Em razão disso surgiram algumas técni- cas para a aplicação do passe.214 SUELY CALDAS SCHUBERT ladas. tão complicadas que dificultam o que deveria ser simples. André Luiz. atualmente. estudadas e debatidas pelos que se interessam pelo bom andamento dos trabalhos espíritas. o entusiasmo de ser útil. páginas são escritas. Ele deixou-nos o exemplo. Os próprios autores espirituais fazem referência a algumas des- sas técnicas. é todo um exercício de amar. Isto motivou uma corrente de opinião que diz não se- rem necessárias as técnicas. com a finalidade de aprimo- rá-lo.

nada mais nada menos por três vezes consecutivas no senhor que per- manecia sentado. na sala própria. possam doá-los a quem necessita. Na verdade. que ela era uma pessoa distraída. Aliás. naquele instante . unindo senti- mentos. É oportuno falarmos a respeito do passe a propósito deste tão interessante caso narrado por Divaldo. a fim de tornar-se um bom servidor. sempre tão abnegados e solícitos em socorrer as dores hu- manas. logo no início. O amor de Jesus Cristo que impregna o nosso planeta. do qual Ele é o Governador Espiritual. que não se vá tocar o receptor ou fazer ruídos. Também que se evitem quaisquer tipos de consultas e orientações no momento da aplicação. E para que esse amor logre atingir a finalidade para a qual é canalizado. estalar de dedos etc. ingênua. conforme se vê. Entretan- to. O amor que dimana do nosso Pai e Criador em favor de todos os Seus filhos. O amor dos Benfeitores Espirituais. A médium passista. a essência do passe é o amor. a pergunta que ela lhe faz após a terceira aplicação. O amor que o passista deve cultivar a fim de que se torne médium dos Espíritos Amigos e juntos. o passista não pode prescindir dos va- lores morais indispensáveis. poderia ter sido feita da primeira vez. usando ou não as técnicas. O pas- sista deve preservá-la. Divaldo esclarece. Esses cuidados. no seu conjunto. o aplica. lutando pela reforma íntima e constante progresso espiritual. Uma pessoa que age. Kardec é bem claro sobre esta questão quando diz que o médium deve evitar tudo que o transforme em agente de consultas. conforme assevera Leon Denis. constituem a ética do passe. Obviamente. Outro ponto que merece ser ressaltado e do qual não se deve prescindir nessa tarefa é o da ética do passe. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 215 este é um trabalho que jamais deverá ser feito de maneira maquinal. A pretex- to de doar.

um diploma daquele que quer servir nesta área. E no tocante ao passe. Semear sempre — ele nos conclama.216 SUELY CALDAS SCHUBERT preciso. mas. pelo sentimento. com o uso das técnicas em nossos serviços espi- ritistas. Semear — eis um tema muito sério para nossa medi- tação. não se deve fazer isto ou aquilo. Este é um bom exemplo para quantos se preocupam. em prejuízo da espontaneidade de sentimentos e do legítimo desejo de praticar o bem e a caridade. pelo desejo puro e simples de ajudar. Divaldo ressalta então a questão das restrições: não se deve fazer assim. quase que se exige hoje em dia. desta ou da- quela prática. . Semear — ensina Jesus. Não se está condenando os novos conhecimentos espe- cializados em torno deste ou daquele assunto. enfatizando que o excessivo uso das téc- nicas tem empalidecido o vero sentimento da caridade e do amor. em demasia.

À hora aprazada. e vi pelo vidro. porque o rapaz me olhou demoradamente. nas proximidades. aguar- dando. Continuei a an- . Muitas pessoas atormenta- das e uma grande confusão. uma banca de jornais e encaminhei-me até lá. Após alguns momentos percebi que era um lugar muito turbulento e complicado. Parei numa vitrine. Procurei olhar os cartazes. a minha atitude é de com- preensão para todo e qualquer problema humano. à porta do Cine do mesmo nome. um con- frade se ofereceu para ir buscar-me no hotel. percebi uma pessoa se- guindo-me. que o outro também parou. Vi. para facilitar-lhe o esforço e ganharmos tempo. porque não me cabe o direito de jul- gar. mas foi pior pois eram muito chocantes. para não ficar parado naquele local. surpreendi-me. À medida que eu andava. 27 COM MARCO PRISCO NA AVENIDA IPIRANGA Em certa ocasião. Não obstante. Acertamos que ele iria pegar-me na Avenida Ipiranga. Sendo espírita. Andei um pouco mais e resolvi virar-me. mais adiante. quando eu ia proferir uma palestra na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Todo o mundo tem o direito de viver como lhe apraz. como em relação aos indivíduos. Fiquei muito constrangido. quando então observei que o aspecto dessa pessoa era um tanto estranho. eu me postei no local indicado.

saber o de que se tratava. também o vi a meu lado e ele me disse: . não é? — Bem. — Eu vejo coisas — prosseguiu — e estou vendo junto ao senhor algo curioso. aliás. não sei se acredito — acrescentei. pensando o que se- riam tais coisas. . notei-o agora e pode ser que o senhor me co- nheça de algum lugar. Foi a minha vez de ficar surpreso. começou a gaguejar e tentou explicar: — O senhor não se incomode. — Estou vendo um Espírito perto do senhor. Mentalmente roguei ajuda espiritual e aguardei.. Neste momento. Ele me olhou muito constrangido. — Não sei de quem se trata. Pensei: ele me conhece.. (Pensei: naturalmente ele me conhe- ce. enfrentar a situação. um tanto embaraçado. que não espe- rava.) Bem.218 SUELY CALDAS SCHUBERT dar e comecei a orar. Virei-me subitamente e perguntei-lhe: — O senhor desejava alguma coisa? Ele assustou-se com a minha indagação. a vesti- menta e todos os detalhes. Já que o está vendo per- gunte-lhe quem é. O senhor acredita em Espí- ritos? — Não. preparando-me para encerrar o assunto. . mas é que eu estou obser- vando uma coisa que sempre me acontece e vou dizer-lhe francamente: sucede que eu vejo coisas. — Ele declarou que as suas iniciais são M e P. senhor. . — E o que é? — Bem. E o descreveu com uma clareza impressionante. . Pensei que devia tomar uma atitude. Tratava-se de Marco Prisco. É um romano. e respondeu: — O senhor deve estar intrigado por eu o estar seguin- do. Um Espirito.

Então eu o procuro.. Enquanto ele falava. Tentou explicar a situação: — Eu não sei o que fazer. Era-lhe o obsessor. vi uma Entidade malévola. vou descendo. vamos dizer dez por cento. de bai- xo teor vibratório. — Eu estou com vinte e seis anos — afirmou-me. Atenda-o! — M e P. Você está dese- jando ser esclarecido? — Estou sim. agredia-o de forma violenta. trabalho. Eu sou es- pírita e estou indo agora a uma conferência. Então escla- reci ao rapaz: — Não vamos render muito o assunto aqui. — Eu tenho dignidade. Ê uma loucura. já que você foi muito honesto. Em poucos minutos contou-me a sua vida de dissabo- res e aflições. Como conseqüência. Adolescente. porém. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 219 — Divaldo. nove. uma volúpia. naquele período fora seduzido por uma pessoa de maus instintos. que começou a me desafiar.. E descia a detalhes muito desagradáveis. . mas. ele está balançando a cabeça afirmati- vamente. não agüento. cada dia ele caía mais. quando me ataca eu saio a caçar (foi a expressão que ele usou). de muito boa aparência. fui bus- cá-lo para podermos ajudá-lo. ao seu lado. Desde en- tão passou a ter um sonho com um homem que o perseguia.. e.. se não o encontro. chama-se Marco Prisco! — Isto mesmo. eu vou dizer-lhe que acredito. . repetindo: — Ela é minha. — O senhor acredita? — indagou bem mais animado. ao mesmo tempo. eu ouço. o antigo marido traído na encarnação anterior. Eu sou uma pessoa de sociedade. atenda-o. senhor. Ela foi minha. usando expressões sórdidas. . porque ele é amigo meu. Tenho um tipo padrão. — Bem. — Ah! acho que sei quem é. pegou-me as duas mãos e notei que as suas estavam geladas. conhece? — prosseguiu o moço. porque estou muito atormentado. Eu vejo.

Leia-o. o ódio de mim mesmo. Acompanhei-lhe a conva- lescença moral. Casou-se mais tarde. A dor não é de Deus. aparentando uns vinte e dois anos.220 S U E L Y C A L D A S SCHUBER1 oito. o desejo de matar-me. o que achar. eu o apre- sentei a alguns amigos que iriam propiciar-lhe a terapia do passe e o conhecimento da Doutrina. Reencontrei-o um ano depois. Enfrente as dificuldades que virão. Chegou o confrade que me viera buscar. estude-o. durante o processo de cura e tudo será diferente. . Um dia. Mantivemos correspondência. fez-se pai. falei-lhe: . sete. me apareceu pela primeira v e z o Espírito de um j o v e m romano.zero. na Federação Espírita do Estado de São Pau- lo. sandálias. ele assistiu à palestra. pescoço bem grosso. Ele agradeceu comovido e despedimo-nos. de toga. Opor- tunamente (1949) escrevi por tuas mãos uma página. . mas conseqüência de nossos erros. de beleza física muito grande. cabelo cortado à Júlio César. se você o estudar vai superar tudo. um cristão exemplar. três. Daí por diante ele começou a me aparecer. Dei-lhe o Evangelho Segundo o Espiritismo e disse-lhe: — Amigo. Ninguém nasceu para sofrer. O que será isto? — Você vai saber. . que me disse: — Eu sou Marco Prisco. Conheci Simão Pedro e o apóstolo Paulo. a vergonha. Hoje é um espírita de- dicado. este livro vai levá-lo à renovação. Às vezes interno-me para recuperação. em nossa conversa. Levamo-lo à Federação. Tive a honra de militar nas catacumbas.. bem romano. a seu pedido. após dar-lhe o meu endereço. Eis como Divaldo relata o seu conhecimento com Marco Prisco: "Em 1950. É uma loucura! E depois.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 221 — Mas. obviamente. Dois médiuns. Um romano na Avenida Ipiranga! É bastante curiosa a cena. O Espírito (esclarece Divaldo). nem de longe. é a mediunidade do jovem. por gratidão àquela reencarnação na qual foi ditoso. o fato mediúnico acon- tece em toda a sua plenitude. as possíveis implicações na vida de uma pessoa. espontânea. embora não lhe entenda o mecanismo e. Vê junto a este um Espírito que se apresenta à romana." Muito interessante este caso. natural. É exatamente essa faculdade mediúnica que o faz observar o médium baiano. Só me recordo dos tempos do Cristianismo. Mas. A vidência é uma situação corriqueira para o rapaz. A ligação espiritual que existe entre cada um dos médiuns com Marco Prisco. e na História? — Na História fui um desastre. Isto. plasma a sua presença com aquelas carac- terísticas do seu período de felicidade. Marco Prisco promove o encontro entre o moço ator- mentado e Divaldo. imprime os seus mo- mentos de felicidade e. é o referencial que os aproxima. em primeiro lugar. lhe chama a atenção. Quando finalmente se defrontam é relevante observar- mos os pontos em que o diálogo se estruturou. 0 ambiente é conturbado. Pode-se imaginar quantos preparativos e cuidados foram necessários para que ambos se encon- trassem. em meio à movimentada Avenida Ipiran- ga. O que ressalta. porém intenso e revelador. . você só me fala do tempo cristão. todavia. das cata- cumbas. despercebido do público.

Manoel Philo- meno de Miranda. O plano' consiste. . ) fácil seria perturbar-lhe os centros ge- nésicos. a sintonia com Entidades e planos inferiores. A obsessão. exatamente. embora) as tendên- cias guardadas da vida anterior. A partir desse forte vínculo a sintonia se torna pos- sível.. Para consumar a sua vingança tem o apoio do Dr. favorecendo ao perseguidor dominar-lhe a mente por largos períodos. mas o espírito que o animava era o da assassina. através da psicografia de Divaldo. O jovem vive um angustiante drama. em desequilibrar o jovem — no qual " v ê " a esposa traidora — até levá-lo ao suicídio. o obsessor persegue aquela que o traíra no pretérito. também. em pro- . muitas vezes. em que as dissipações atin- giram o auge ( .222 SUELY CALDAS SCHUBERT É maravilhosa a faculdade mediúnica! Muito embora enseje a visão e. que merecia uma severa punição. pelas dívidas do passado que o tornam vulnerável ao seu perseguidor. agora reencarnada num corpo mas- culino. . no caso em pauta. o obsessor explica: — "O corpo era moço. Referindo-se ao jovem em questão. relata um caso muito semelhante a este. e principalmente. Vejamos como Miranda relata o caso. Observe-se que o ex-marido do passado identificou no rapaz de hoje a mulher que o traíra em precedente exis- tência. No livro Nos Bastidores da Obsessão. Iden- tificando nela (em corpo de homem. Teofrastus. Segundo a narrativa. através da perversão da mente inquieta. apresenta-se com carac- terísticas de subjugação. Entidade de grande cultura e crueldade e que dirige uma organização das trevas. se constitui em ponte para a Vida Maior. pois o perseguidor constrange a sua vítima a agir contra a sua própria vontade. A obsessão o prende em suas malhas.

— "Em pleno amadurecimento (continua o persegui- dor espiritual) das faculdades sexuais. sem qualquer sombra de dúvida." (grifos do original) 0 jovem conta o seu angustiante problema a Divaldo. produzindo irreparável distonia nos centros da emoção. A tormenta interior que o avassala se acentua dia após dia. Jorge Andréa. . até que o suicídio seja sua única solução. já que o seu corpo era masculino. O SEMEADOR DE ESTRELAS 223 cesso de hipnose profunda. Ninguém se realiza no caminho do dese- quilíbrio e da desordem. foi fácil modificar-lhe o interesse e inclinar-lhe a libido em sentido oposto ao da lei natural. pela rejeição a si mesmo. emérito escritor. fragilizado pela dívida moral do passado. Tão fortemente me liguei à sua vida. principalmente no setor moral. imanando-nos em processo de vampirização em que me locupleto e através do qual a destruo. experimentando as sensações que lhe eram agradáveis e criamos um condicionamento em que nossos interesses agora passariam a ser comuns. A prática deformante é resultado da distonia íntima que carrega consigo. praticada por técnicos do nosso lado. . Teofrastus. Daí por diante associei-me à sua organização física e psíquica. A vivência desses mecanismos desarmônicos despertará . pela sensação de culpa. Dr. assim se refere à questão do homossexualismo: "Consideramos. sob a rigorosa assis- tência de um hipnotizador destacado pelo Dr. que o ódio se converteu em estímulo de gozo. atirando-a cada vez em charco mais vil. cujo processo de- sencadeará desajustes. Arrefecida a atua- ção maléfica advém-lhe um sofrimento maior pelo remorso. que o homossexual ao atender aos sentidos em satisfação sexual. Nos momentos mais difíceis. jamais estará em processo de realização conforme pensam algumas escolas. quando o assédio obsessivo é mais intenso ele acaba por ceder ao domínio hipnótico.

Existe. sempre possibilidades de soerguimento. a fim de criar defesas para a sedimentação de novas posições mais expressivas. O grande impulso será sempre dirigido na faixa do equilíbrio e harmonia. Então. jamais. Dois médiuns se encontram. pela zona espiritual. D i v a l d o prossegue a sua trajetória de equilíbrio e de paz. estará diretamente ligada à ação desencadeante com toda a colheita das necessárias "dores-equilíbrio". não conseguindo. sedimentar posições inferiores ou pa- ralisar o processo. portanto evolutivo. após a queda. medeiam entre ambos. algum dia. se defrontam. pelo pro- cesso de integração na linha positiva da evolução. . O j o v e m inicia aí a sua longa caminhada no rumo do equilíbrio e da paz. A reação- resposta." (Forças Sexuais da Alma) Na Avenida Ipiranga. da distonia fica a expe- riência e vivência. Séculos de experiências. o processo de- generativo desenvolverá sempre mecanismos de defesa e de impulsos no sentido contrário. todavia. dois médiuns e Marco Prisco. um romano dos tempos de Pedro e Paulo.224 SUELY CALDAS SCHUBERT impulsos específicos que responderão. o mal. o negativo.

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pensando ter uma brecha de tempo para prosseguir o trabalho.Coisa interessante. que estava enfermo. Ficamos conversando e depois de algum tempo ele per- guntou-me: — O que é isto que você tem na mão? — É um livro que psicografei. e depois. não tínhamos maior inti- midade. me disse: — . que era o Além da Morte e levei comigo. que tinha "angina pectorís'. Chegando à sua casa encontrei-o já em convalescença. Eu JÁ publiquei outros cinco livros até então. aquele no qual Dona Otília. Fui com Celeste Mota. Quando estava de saída para a casa dele. peguei os originais do livro que estava revi- sando. — Leia algo para eu ouvir. então. é o meu problema: eu tenho an- gina. li o primeiro capitulo. 28 ALÉM DA MORTE Eu havia ido visitar o senhor Aristides Silva. porque é muito cara uma edição. fala que linha morrido "do coração". a fim de conseguir publicá-lo — expliquei. . seriamente. Não nos conhecíamos. mais próximo a mim e. — E o que vai fazer com ele? — Eu o estou levando a Curitiba para fazer um orça- mento. Este livro deve ser publicado para consolar muita — Mas em creio que não o será. a autora espiritual. Sentou-se. Ele o ouviu.

eu nem tenho uma idéia. O dinheiro aí está. e prosseguiu: — E por quanto você faria dez mil exemplares? — Um absurdo! Imagine que fica em dez milhões de cruzeiros ou mais. pensando não ter ouvido bem. — Só isto? — Mas. em seguida. Não sabia o que pensar. depois de o publicar. Ele ficou pensativo por alguns instantes. eu vou dar os dez milhões de cruzeiros a este rapaz. Nesse instante. e. conversamos outras coisas. Eu fiquei sem ação. Agora. — Dizem que. Dirigiram-se ao interior da residência onde demora- ram alguns minutos. se for de cinco mil ou de dez mil.. é muito.226 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T Concedi à "Mansão do Caminho" os "direitos autorais". Eu fiquei perplexo. dona Irene. Ele silenciou. uma amiga. melhor. Com a renda dos dois será publicado mais um e assim se farão as reedições. — Este livro vai ser a porta que se abrirá para outras obras. Se for uma edição de três mil exemplares fica em tanto. ele vai dar a renda.. em Curitiba. você publicará outro. — Eu quero que este livro saia — continuou. um Espírito amigo comentou comigo: — Ele é muito grande. Quando ele abriu o cofre e indagou-lhe: — Ireninha. porque barateia-lhe os custos. quanto maior é uma edição. ele trazia uma caixa de sapatos nas mãos e disse-me: — Publique o livro. mas ela (a esposa) é ainda maior. E entregou-me a caixa. Por- que. Daí a pouco o senhor Aristides levantou-se e chamou a esposa. — E você acha que fica por quanto uma edição? — indagou-me. Ao retornarem. enquanto se eleva a tiragem.. . prometeu fazer um orça- mento para este. o preço por exemplar diminui progressivamente. sim? .

como é irreversível. a obra custou os referidos treze milhões de cruzeiros. Essa atitude ainda hoje nos comove pela sua nobreza. o belo prefácio de André Luiz. (10. intitulado Além da Morte. pela psicografia de Chico Xavier. como a maioria das esposas: — Tudo isto? — propôs ao marido: — Ô Tidinho. propicia que além da morte cada um encontra as respostas ante o enigma da verdade. Ele aquiesceu e está dando treze milhões de cruzeiros. (N. Divaldo termina de psicografar o livro de Otília Gonçalves. Apresentamos. Em raros instantes a renúncia se faz tão bela quanto no silêncio de quem se deixa apagar para que não se apague a luz que brilha adiante. oito anos antes. Ou. ( * ) Quando concluída. só? Dê treze. em seguida. a renúncia atinge tão alto signi- ficado quanto no silêncio mais profundo da alma ante o alarido dos inconscientes. o prefácio com o mesmo título do livro. Em substituição. da E .000 exemplares ). recebe de André Luiz. ) . Uma vez mais. Este. Divaldo renuncia a colocar em evidên- cia o que lhe era de direito e por mérito. No início do ano seguinte. indo a Uberaba. O tempo fez a sua trajetória e tem despertado os que adormeceram na ilusão e no engano.(*) Em agosto de 1959. ao invés de dizer. no entanto. Joanna de Angelis escreve uma página de intróito. O SEMEADOR DE ESTRELAS 227 Ela (prosseguiu a Entidade). só é publicado em 1968. porém sem a contribuição que André Luiz espontaneamente ofertara. Em poucos momentos.

Doentes que procuraram a enfermidade. a fim de que o pensamento regenerado consiga redimir as suas próprias criações que substancializam a experiência da Humanidade nas várias nações da Terra. além da morte. Há quem diga que os chamados mortos nada têm que ver com os chamados vivos. jazem no chão como pássaros mutilados. . Suicidas. de hoje. Infelizes a se imobilizarem nas trevas. sob a hipnose da ilusão. oOo Alcançando a Grande Luz. Malfeitores que furtaram de si mesmos. Fixemos a atenção. Por mais se lhes mostre a harmonia do Universo e por muito se lhes fale dos objetivos da vida. Criminosos sentenciados no tribunal da consciência. oOo É por isso que saudamos neste livro mais um brado de renovação e esperança concitando-nos ao aproveita- mento das horas. entretanto. serão os chamados mortos de amanhã com possibilidade de se perturbarem uns aos outros — caso perseverem na ignorância — cultivemos na Dou- trina Espírita o instituto mundial de esclarecimento da alma. assemelham-se a cegos da razão ante a sabedoria da Natureza. E apesar do horizonte aberto. descrentes dos próprios méritos. continuam desditosos e dementados. SUELY CALDAS SCHUBERT 228 ALÉM DA MORTE Todos os dias chegam corações atormentados. Loucos. como os chama- dos vivos.

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230 SUELY CALDAS SCHUBERT .

O SEMEADOR DE E S T R E L A S 231 .

Ê muito difícil julgar pelas aparências. Era horrível. Ao vê-lo me apaixonei e comprei um par. . a prestação. porque alguém acendeu-lhe o pavio da cólera na rua e este veio queimando até aqui e estourou. na Bahia. A pessoa faz uma grosseria conosco. talvez. nestes longos anos de con- vívio. mas eu o achava uma beleza. porém aconteceu. Joanna de Angelis me disse. Possivelmente. Arrependi-me da compra ao terceiro dia.. Quando eu era muito jovem. 29 A LOUCA Algumas considerações sobre a agressividade das pessoas. um tipo de sapato marrom e branco. nem era contra nós. Eu estava com dezoito anos nessa época. mas ele pesava tanto que me deu cãibras. para que não revide e que nunca devemos acusar a bomba que explode. Se uma pessoa é grosseira conosco não nos ofendamos com essa atitude: vai ver que a pessoa tinha um motivo oculto. No primeiro calcei-o e saí.. Era de borracha com uns dois dedos de espessura. esteve em moda. não porque não goste de nós. Eu tive uma experiência que me marcou a vida. pois que assim se dá porque alguém acendeu-lhe o pavio.

ele era enorme. eu o fui olhando devagar. as pessoas entravam com galinhas. com tudo.. Já atendia aos pobres e sofredores. mas ainda não era espírita. adentravam-se e iam socando quem já estava. não é? Por que não pegou um carro? E pisou com mais força. tentando defender o sapato. Estou com um problema muito sério: a minha esposa ESTÁ LOUCA. Fora. de dor. o jeito era sair dali. . Aí. vi o tal homem aí postado. em nossa Casa. porque a valentia da gente é sempre contra o mais fraco. O senhor imagine que eu trabalho nas docas. . pela manhã tenho de amarrar a minha esposa no q u a r t o . senão a decorrente de ele estar estragando o meu sapato novo. olhei o sapato. dar comida aos . Uns cem quilos! Eu não sentia tanto a dor no pé. Estou a ponto de matar-me. Eu :enho quatro filhinhos. quando o olhei. fui empurrado. Baixei a cabeça e. Daí a dias. porque. quando ele chegou perto. de mágoa. tramco meus filhos noutro e saio para trabalhar. Dei o sinal. exercia a mediunidade. empurrando para o fundo. pois ainda o teria que pagar. Quando o ônibus parou eu o empurrei e desci. Confesso que chorei de raiva. tenho de lhe dar banho. Ele perguntou-me: — O senhor é o seu Divaldo? — Sim. Eu era médium. Nisso veio um homem enorme. Mas.. fui muito delicado: — O senhor quer tirar o seu pé de cima do meu? — Ah! granfino. Eu entrei tam- bém. — Seu Divaldo. Se ele fosse mais baixo do que eu. que estava rasgado. senhor — respondi contrafeito. Era um veículo que servia ao subúrbio. chegou no meu pé junto a mim e pisou. À noite. o primeiro que passou. acho que lhe teria dado um empurrão. porém. quando estava atendendo a fila. eu vim aqui para pedir-lhe uma cari- dade. O SEMEADOR DE ESTRELAS 233 Entrei num ônibus.. Pensei: ele me descobriu e vem dar-me uma surra. eu volto. gaiolas.. Eu não podia reclamar.

Já não agüento mais! Internei-a num hospício e tirei-a. Assim fizemos. porque assim eu não suporto mais. acompanhando-o. — Porque você é meu irmão. Ele abriu a porta do quarto e eu entrei. para dar-lhe um passe e observá-la. ouvimo-la urrando. — Meu irmão. Fomos entrando. se ela bater. Ela estava toda amarrada de cordas e despida. (Eu era magrinho.) — Não faz mal. Ele assustou-se. ela bate em mim. . que sou deste tamanho. Disse- ram-me que o senhor é médium.) — Por que você me chama de irmão? — perguntou-me. Eu ando provocando todo mundo. quando acabar aqui irei lá com Nilson. — Mas. Ele se dispôs a esperar. louvado seja Deus! Ele desamarrou-a e eu me aproximei. — Ninguém dorme — explicou. — E desamarre-a. .. Eu acho que o Espírito gostou de mim. Levei-a ao candomblé e me disseram que ela "tem" Espírito. seu Divaldo. Você já morreu e está do outro lado da vida.. para ver se alguém me mata ou se eu mato. — Ponha um cobertor sobre ela — pedi-lhe.234 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T meus filhos e tenho de cozinhar para o dia seguinte. Fomos com ele à sua residência. por que você faz isto? (Eu via o Espí- rito. Você não pertence mais à Terra. quanto mais no senhor. só que um irmão que já morreu (eu não sabia nada de desencarnado). . porque se acalmou e sentou-a no chão. — A vizinhança já deu queixa na polícia. Ao chegarmos. ululando. Por que fazer isto com ela? E comecei a doutriná-lo. A fila sempre acabava pela madrugada — uma e trinta ou duas horas. o senhor poderia fazer qualquer coisa para me ajudar? — Se o senhor tiver paciência de me esperar.

Então. Meses depois. Ela ficou boa. O marido se tomou de gratidão e amizade por mim. aparentemente. Ele me prejudicou nas docas. Ele tinha um problema tão grande. — O senhor fique calado. Quando eu voltei ao normal a mulher estava calma. que tinha dezoito). . por favor — pedi. E começou uma discussão entre os dois. que entrou no ônibus de sapato marrom e branco? — Não. eu lhe perguntei: — Fulano. — Você não se lembra da pessoa que você pisou no pé? Você nunca me viu? — Não. ele ia também. a mim. — Deixe que eu lhe fale. eu odeio este homem. . outras vezes. Retornei lá. você não se recorda de mim? — Não. que se tornara agressivo. um dia. a fim de se ver livre da aflição. tomou meu lugar. acompanhando-me. sim. Aonde eu ia pela ma- drugada. tor- nando-se quase um guarda-costas. Eu sou fulano de tal. (Ele tinha quarenta anos e me chamava de senhor. — Lembro-me. seu Divaldo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 235 — Eu tenho raiva desta mulher. vestidinha. uma semana. . Você se lembra de mim? — perguntou. porque assim eu iria para a cadeia e ficava livre deste mundo horroroso. dirigin- do-se ao marido dela. — Você não se recorda de um sujeitinho antipático. Joanna de Angelis incorporou-me e conversou com a Entidade. provocava as pessoas para ver se alguém me matava ou se eu o matava. era apenas um homem muito sofrido. aquele homem rude. senhor. senhor. nunca! Então eu contei-lhe o caso e ele me respondeu: — Ah! seu Divaldo! Naquele tempo eu andava louco.

através de Divaldo. sejam pelo impositivo das obsessões infelizes. ) . item 254-6) Manoel Philomeno de Miranda. pelas aptidões e impulsos que procedem das reencarnações transatas. não revido. Um homem sofrido. precisariam de um tratamento moral. . . "Entre os que são tidos por loucos. mais tarde." (O Livro dos Médiuns. ( . A obsessão em certo grau pode ser confundida com a loucura. muitos há que ape- nas são subjugados. como já elucidava Allan Kardec. Nesses casos. capítulo X X I I I . muitas vezes. com o brilho que lhe é peculiar.236 SUELY CALDAS SCHUBERT Isto me ensinou a nunca revidar. uma mulher louca. . Interessante enfoque sobre as causas da agressividade humana. produzidas por encarnados ou por Espíritos que já se despiram da indumentária carnal. de problemas que aturdem o ser humano. a exce- lente obra Nas Fronteiras da Loucura. São dele os trechos abaixo: "Queremos deter-nos nas psicopatogêneses espirituais. permanecendo. "A obsessão é uma fronteira perigosa para a loucura irreversível. Eu não sou uma pessoa boa. sejam as de natureza emocional. A violenta reação das pessoas é. Obsidiada. escreve. de que os en- fermos não se liberam. enquanto que com os tratamentos corporais os tornam verdadeiros loucos. no entanto. a obsessão muito prolongada pode ocasionar "desordens patológicas". . nos propósitos inferiores a que se a f e r r a m . mas. resul- tante da violência da vida.

"O Espírito encarnado movimenta-se num labirinto que o atemoriza. aterrando-o c o m ameaças cruéis. na fila das mi- sérias humanas ajuda uma criatura obsidiada a se reequi- librar. que era o caso da mulher a quem Divaldo vai atender. à medida que se agrava o quadro da interferência. na razão direta em que o invasor assume a governança. ( . é longa a fila das necessidades." Nesses trechos citados. ) " U m contínuo aturdimento o toma (ao encarnado). em trânsito para o futuro. algemado a um adversário que lhe é im- penitente. E. é interminá- vel a sucessão dos sofrimentos. . Por certo. Feliz de quem atende aos que estão passando. a vontade do hospedeiro perde os contatos de comando pessoal. maltratando-o. a audição c o m o os demais sentidos confundem a rea- lidade objetiva ao império das vibrações e faixas que re- gista desordenadamente na esfera física e na espiritual. . Miranda analisa a obsessão por subjugação. A v i - são. em parasitose firme na desconcertada casa mental. O SEMEADOR DE ESTRELAS 237 " N o painel das obsessões. . Divaldo atende a um homem na fila.

não me trates por "vós". sem cerimônia. pedindo-te a mesma intimidade para comigo. 3 de agosto de 1948 Prezado amigo Divaldo Jesus nos abençoe a todos. Recebi tua carta hoje e apresso-me a dizer-te do bem que as tuas palavras me trouxeram. Sou apenas teu irmão mais velho e em se tratando de ti — irmão mais jovem. tal o cari- nho espontâneo de tuas frases acolhedoras e generosas. ricas de bondade e ternura. cabe-me o dever de rogar-te desculpas pelo tom frater- nal de minhas palavras. Espero. Tuas notícias foram muito confortadoras para o meu coração. dentro da Consoladora Doutrina que nos irmana. em que a juven- tude traz no espirito a divina semente do mundo regene- rado. Através de tuas expressões. Entusiasma-me a dedicação de tua mocidade ao nosso idealismo. assim. 30 CHICO E DIVALDO Pedro Leopoldo. Não tive. Tive a impressão de receber notícias de um amigo de muito tempo. qualquer dúvida em escrever-te à vontade. todavia mais iluminado —. Falam-me de uma Terra nova. pois. sinto-te o coração ardendo em luz renovadora e .

meu irmão. Lastimo haver renascido distante da terra abençoa- da em que ressurgiste para a boa luta. Peço ao teu bom coração distribuir minhas lembran- ças com todos os amigos do grupo em que te integras. se utilizam de minhas pobres mãos para o serviço que lhes diz respeito. mas. Emmanuel. Estamos. com brilho. sim. Reafirmo-te minha gratidão imensa pela alegria em que tuas notícias me envolveram a alma e. Nada tenho feito. E espan- ta-me o devotamento dos Benfeitores Espirituais que. guardando-te essa lembrança. portadora para mim de tanto estí- mulo. na expecta- tiva de que me proporciones o contentamento de uma . Recolhendo tanto conforfo em tua carta. sem reparar minha deficiência e fragilidade. seja digno da amizade com que me tratam. num grande combate. cujos traba- lhos nos compelem a viagens freqüentes. A atualidade precisa de corações valorosos quais o teu e espero que prossigas sem desânimo. meu caro. estimaria receber-te um re- trato. mesmo longe. Pode ser? Desde já. campo afora. em todos os lan- ces difíceis da nossa jornada. Teria muito prazer. André Luiz e o nosso grande Humberto hão de ajudar-te a vencer. Será esta a razão da demora de qualquer notícia minha. Muito grato pelas tuas referências à minha apagada tarefa mediúnica. Podes crer que a caridade deles para comigo tem sido infinita e peço-te incluir-me em tuas orações para que eu. agradeço. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 239 peço ao nosso Mestre Divino abençoar-te os propósitos de trabalhar na edificação sublime do Amanhã. um dia. mas escre- ver-te-ei sempre. seguir-te-ei os passos com os meus votos por tua vitória integral. Quando te for possível. Sou empregado aqui numa repartição. muito reconhecidamente. Combate pela feli- cidade humana na construção de nossa própria felicidade com o Cristo. espero não perder-te a amizade.

eclodindo ostensivamente (efeitos físicos. os Benfeitores Espirituais. O suicídio da irmã Nair é um choque traumático que o abala profundamente. preparam um novo dia para o jovem Divaldo. Nesse conflito todo. o leito onde as pernas doridas re- pousam. a paralisia é uma ameaça muito próxima. incansáveis e amorosos. ante as dúvidas sem soluções e as angústias que se repetem. Os vultos ami- gos afiguram-se-lhe longínquos e inatingíveis. acostumado a ver e con- versar com os Espíritos desde a mais tenra idade. Pesadelos. pelas mãos de Divaldo escreve em 1970. sem respostas. A enfermidade ronda-lhe os passos. fenecendo. uma porta de luz se abre dissi- pando as sombras e prenunciando o amanhecer de bênçãos. clarividência.240 SUELY C A L D A S S C H U B E R T nova carta. Na sua noite de trevas. resultado dos traumas sucessivos. psicofonia) à feição de uma cachoeira. A morte de mais dois irmãos torna ainda mais sofrido esse período de intensa busca. Manoel Philomeno de Mi- randa. Por outro lado a mediunidade. sombria e ameaçadora. porém. A noite parece avizinhar-se de todo. médium de berço. febres. pede a Jesus por tua paz e felicidade e abra- ço-te cordialmente o amigo e irmão muito agradecido. e as espe- ranças. referindo-se à mediunidade: . cujas águas represadas são uma força tre- menda ameaçando romper o dique das emoções. o coração opresso e desalentado e as súplicas de quem se volta para Deus na urgência de um socorro que tarda. atravessa a adolescência sob acerbos sofrimentos. Chico Francisco Cândido Xavier Divaldo. O querido Amigo Espiritual. clariaudiência. de dolorosas interrogações e de dúvidas angustiantes. sempre presente em sua vida. carregada de es- tranhos presságios.

em suas páginas. o portal e banha-se de luz! Aí estão todos os seus A m i g o s Espirituais a esperá-lo! Amanhece o dia!. Por essa época inicia a sua vida profissional e a conso- lida. revisse paisagem esquecida e agradável e. roteiro e medica- mento chegassem salvadores. O ideal do Bem e do Amor crescem em definitivo sua vida. Simultaneamente vai superando os conflitos íntimos imediatos e se fortalecendo para as lutas contra aqueles que só o tempo poderia solucionar. que se abre para Divaldo e o faz saltar do leito e andar ao seu encontro. É com esses sentimentos que escreve pela primeira vez ao médium Francisco Cândido Xavier.. Transpõe. timidamente. Inteira-se de sua vida e vê nascer um senti- mento profundo de respeito e carinho por aquele que elege para exemplo de devotamento e abnegação à causa espírita. Ele o lê com avidez e. que tal porta de luz é a Dou- trina Espírita. e re- pousar. " (Nos Basti- dores da Obsessão) Parafraseando-o. . banhada que fosse de fraca mas significativa luz. Já sabe o caminho. diremos. poderia ouvir consolo. lenindo as próprias angústias.. descobre as respostas. transpassada a expiação i n o m i n á v e l . após vencida. A resposta afetuosa fê-lo exultar e. o consolo. a partir daí. o conhe- cimento. dilatados os ouvidos. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 241 "Avalie o significado de uma porta libertadora. que subitamente se abrisse. escutasse a pronúncia de um terno nome. inaugurando experiência feliz. . convidativa. . através da qual. Jovem. chorar sem desespero. tem o primeiro contato com a obra mediúnica de Chico Xavier. con- solidaria em seu íntimo a afeição que lhe devota. em relação a você: irmão! — depois do que. além da qual. com o coração voltado para o ideal de servir a Jesus. O Livro dos Espíritos é o seu encontro com Allan Kardec e a Falange do Espírito da Verdade. doce canto embalante ciciasse u'a melopéia conhecida ou uma berceuse reconfortante. transposta a mínima distância entre você e ela.

constatei que era um lugar mais simples e menor do que eu esperava. os confrades me disseram que a pales- tra do dia seguinte seria em Coatepec e que haviam feito uma larga propaganda para atrair umas seis mil pessoas. disseram-me: — Vamos esperar a comissão de recepção. Eu comecei a imaginar a beleza do Palácio de Metal. irmão Divaldo. — Irmão — disse-me um deles —. — Mas. Quando entramos. Eu imaginava a cidade de Coatepec. com o seu Palácio de Metal. seis mil pessoas? — indaguei. — Sim. Quando chegou o dia. Tenho a mente muito entusiasta e logo imaginei alguma coisa de belo como os palácios da Índia. toda a província de Coatepec virá para assisti-lo. imponente e grandioso. 31 O "DEUS" HURACÁN Em 1985 fui à Guatemala. porém. em caravana. Viajamos trezentos e vinte quilômetros e quando che- gamos perto. os confrades estavam entusias- madíssimos com a minha palestra no Palácio de Metal. na cidade. pelas montanhas e o irmão vai falar ali no Palácio de Metal. em Coatepec. e após fazer a conferência em Guatemala (DF). Veio a comissão e entramos. . há um mês estamos viajando pelos vales.

quan- do tenho de passar pelo meio do povo a me aplaudir. tudo estava interrompido. O meu anfitrião olhou para mim e falou: — O irmão trouxe guarda-chuva? — Não. Às dezessete horas a chuva prosseguia. disse-lhe que já podíamos ir. Quando che- gamos a uma certa distância. Às quinze horas começou a chover. o salão mede setenta metros por dez. — E se importa de se molhar? Porque não vamos con- seguir ir até lá de carro. Fiquei a imaginar um salão assim. cercados de . é chuva tropical. O irmão já imaginou quase sete mil pessoas aplaudindo a sua entrada? Tentei demovê-lo desse propósito. eu não sabia que ia chover. O SEMEADOR DE ESTRELAS 243 O hotel. pois fico constrangido. tem mestre-de-cerimônia. As enxurradas eram como rios.. Eu me aprontei. Às dezenove e quarenta. ca- minhões. O presidente amigo me disse: — Aqui chove muito. Mas a chuva prosseguia. saímos de carro. devia ser quase uma quadra. — Não havendo outra alternativa. bem devagar. era quase todo de tábuas. Quando desci do carro a água me veio quase aos joe- lhos. Carroças. dá aquela pan- cada e logo passa. Fomos andando pela rua. carros. tudo interditado. — Ainda não. Só iremos quando faltarem quinze mi- nutos. pois preparamos uma entrada triunfal. onde me hospedei. Às dezoito e trinta a cena se repetiu e ele garantiu-me que a chuva logo passaria. ônibus. a tro- vejar. a relampejar. — Então vamos correr. dizendo que preferia entrar por alguma porta lateral. às dezenove horas. — Não — respondeu-me. — Tudo está preparado. ainda em construção. torrencialmente. e.. Ele voltou a afirmar-me: — Passará já.

Olhei o público . Era. Quando eu parei para olhar o Palácio de Metal. Se Jesus não vier. Esta seria irradiada. me comoveu. • . Os intelectuais. porém. Fui sendo levado até o meu lugar. Entrei e foram muitas as palmas. de ônibus para ouvir a mensagem... Eu afirmo que. As lágrimas me corriam pela face. Mães com filhinhos às costas e um xale. ali estavam. Sentei-me e olhei o público. um bar- racão de meia parede e a chuva entrava por um lado quase saindo pelo outro. certamente. à véspera. sem eu o pedir. e fiquei envergonhado de mim próprio. todos paradinhos. de carruagem. Supliquei intimamente: — Meu Deus. o que será de mim? — conjecturei. porque o senhor bispo. por caridade para com eles. Cheguei ao palco e exclamei intimamente: — Meu Deus! — Comovi-me.244 SUELY CALDAS SCHUBERT água e com a chuva caindo sobre nós. E o que vi. simples de discernimento. na cidade. mas aquele povo ali era modesto. Ali estavam índios e mestiços guatemaltecos. irei mudar para melhor. semi-alfabetizado. Foi um dos dias mais belos da minha vida. atacara duramente o Espiritismo e ameaçou de excomunhão a quem fosse assistir a palestra espírita. de pé. para o Senhor me inspirar sempre. — Comecei a orar. hoje. — O que vou dizer a eles. o bispo e as autoridades iriam ouvi-la em casa. chegamos ao local. a partir de hoje. Era enorme e estava superlotado. como é comum na região. Não havia um assento. daí a razão do nome — Palácio de Metal. — Ê o irmão Divaldo! — anunciou. inspire-me. meu Jesus. Então. um problema. procederei bem. tenha misericór- dia de nós! Se eu jamais fui inspirado. A chuva caindo sobre o zinco fazia um barulho de estremecer. Havia. Alguns haviam vindo desde mais de cem quilômetros de distância: a cavalo. de caminhão. Eu teria de falar para os críticos que ficaram em casa. se não tenho o que dar. O mestre-de-cerimônia fa- lava ao microfone e o povo permanecia firme. Em cima era de zinco. de carroça. sem me esquecer dos necessitados ali presentes.

faltou luz. embora eu tenha a voz muito forte. Prossegui. Deram-me a palavra. para me concentrar. Eu fiquei sentado. que é um tema universal. em corpo espiritual como nunca havia visto antes com tanta beleza. porque a zoada externa era terrível. quando me preparava para a pré-tarefa de terminar. Continuei a falar. Ele estava de torso nu. mas ninguém saiu do recinto. que é a ave nacional (de onde se originou a moeda) que dá uma pluma que chega a ter dois metros. não podia continuar. pare a chuva! Falei sobre a imortalidade da alma. os olhos eram duas lâmpadas que me alcançavam. porque a sala era muito comprida.) O presidente. Levantei-me. Havia próximo uma indiazinha. então. falou: — Irmão. nem mesmo a chuva. Comecei a falar. Fechei os olhos. Alguém disse alto: — Continue! (Mas eu me esquecera onde havia parado. Parecia um deus da mi- tologia. que parece . porque só aí há um fruto. estóico. estamos esperando. com uma ternura diferente. feito de plumas de quetzal. um som descontrolado. Eu me aproximei do microfone e. lembrei- me da parte em que parara. uma perfeição. Sobre a cabeça havia um tipo de cocar especial. pararam os sons e eu me sentei. Caiu um raio em algum lugar. De repente. O silêncio era sepulcral. Vinte minutos depois voltou a luz fluorescente. voltou o rádio. E uma ave que só existe na Guatemala e só em Coatepec. não conseguiria fazer- me ouvir. e. uma compleição robusta. vi aparecer. com imensa pureza me olhando como se eu fosse um totem. Descobri que me amava pela onda de amor que senti por aquele povo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 245 novamente. mas. ouviu-se um estrondo. um ser luminescente. mas era um deus asteca. a falar e a pedir inti- mamente: — Meus Deus. o microfone com defeito de transmissão. Eu estava falando para as minhas necessidades espirituais. à porta de entrada. nesta hora. parecendo ter dois metros de altura.

então. ele abriu os braços (necessitei de muita imaginação para entender) e por ideoplastia eu o vi numa forma ceri- monial do povo: sobre a cabeça estava uma moldura de águia. Sou teu amigo e teu irmão. disse-me: — Chamam-me Huracán. de re- pente. Quando entrei. soprou-lhe a imortalidade da alma. no palco. de que a ave se nutre. naquele imenso corredor. igualmente deficientes nas pernas e nos braços. ao voar. se se pode falar. e.246 SUELY CALDAS SCHUBERT grão de café. a fêmea é pequenina. Uma me- lodia de ordem ritual. Ele me apare- ceu com tal adorno. O macho é lindo. Ele foi até a mulher paralítica e curvou-se. eu já estava terminando o tema. era tal que a minha se inun- dou de inspiração e. Joanna. deixou um rastro de luz. estava uma mulher deitada ao solo. que não conhecia. eu dizia. como se deslizasse. dentro do tema da imortalidade. che- gando. Mas. não tem a mesma plumagem. chegou-se até mim e. entretanto. eu sou tido como o deus que criou o povo asteca. Continua! A mente dele. alertou-me: — Continue falando. Foi até o outro lado. Ele atravessou-me o corpo e. visivelmente paralítica.. Ele veio andando. naquela inclinada em direção ao infinito. curvou-se e chegou a mim. como uma seta voou. esqueci-me de um detalhe. terminando: — Para vós não é estranho o tema da imortalidade. que balsamizava o ambiente. tomou do lodo do riacho para formar a raça asteca. e no lado direito estavam dois outros paralíticos. triunfalmente. nos dois braços cresceu uma plumagem e ele. Venho para encerrarmos a nossa noite. Comecei a ouvir uma música no ar. do lado esquerdo. O Espírito veio vindo.. envolveu-me por detrás e me senti flutuar. aquela melodia infinita. porque quando Huracán desceu à Terra. naquela grandiosidade. em muitas vozes. mas que me chegava em clichês psíquicos transmitidos pelo Espírito. e comecei a contar a história do povo asteca. com os .

ao referir-se ao fogo purificador para limpar a psicosfera. pela guerra civil que ronda a Guatemala. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 247 braços abertos. essas construções pestíferas do ódio foram afastadas ou destruídas pelos raios. a chuva. havia uma razão. A solenidade foi encerrada. . correndo. pensei: — Meu Deus.. retirasse os miasmas. Notei cair sobre a multidão flocos de luz e todos ficaram como que revestidos de um ectoplasma de lumines- cência invulgar. flutuando no ar. que gotejava uma luz violácea ou dourada-prateada. Nesse momento. Elas não sabem o que é "direito de terras". e a paz permanecerá neste ambiente. Esta região está invadida por lutas camponesas. de André Luiz. muito comovido. e quando passei pela senhora paralítica. um indiozinho.. provinda de El Salvador. aproximei-me. Fui saindo. ficando sobre o povo uma imensa cruz dou- rada. e a chuva parou. se a chuva tivesse parado antes.) E agora — prosseguiu ela — que a mensagem terminou. os trovões. porque recalcitras? Tu achas que deves dizer a Deus o que fazer? Se choveu. e res- pondeu-me: — Ela não fala espanhol. fechei os olhos. eu disse a Joanna de Angelis: — Que pena. esses vibriões mentais. de Honduras. Estas almas estão sendo alicia- das pelos fomentadores das guerras pelas terras. — Meu filho. Sentei-me. o Mentor da comunidade pediu aos céus que uma tempestade varresse o ar. só o asteca e o maia. ela não entendeu nada. Nunca suponhas que o Senhor não sabe. e quando foi anunciada a pa- lestra. Eu terminei a palestra e percebi que as pessoas chora- vam. Então. A cruz permanecia no ar como nunca vi nada igual antes.. passei-lhe a mão na cabeça e perguntei-lhe: — A senhora gostou? Veio um rapaz. em quarenta anos de me- diunidade consciente. (Eu me lembrei de Obreiros da Vida Eterna.. mas estão sendo envene- nadas para matar e morrer. Aprende a submeter-te sem sugerir. da Nicarágua.

248 SUELY CALDAS SCHUBERT

Vendo o meu interesse, o jovem intérprete esclareceu:
— Esta senhora é minha mãe. O senhor quer saber
alguma coisa?
— Pergunte-lhe se gostou da palestra.
Ele inquiriu-a e traduziu-me a resposta:
— Sim, ela gostou.
— Volte a perguntar-lhe — insisti — se me com-
preendeu.
Ele indagou e respondeu-me:
— Não, ela não compreendeu, ela entendeu, ela sen-
tiu; não é necessário falar quando se pode penetrar a idéia.
Admirado ante tal resposta, prossegui:
— Indague-lhe o que ela veio fazer. (Mas não esperava
a resposta). Ela falou através do intérprete:
— Eu vi o deus e ele me disse que eu trouxesse os
doentes e os aleijados para escutar o "emissário do Se-
nhor".
— O "emissário do Senhor"?
Ela me olhou, profundamente, e completou:
— O senhor tem a "voz de Deus". Eu vi chegar o deus
Huracán e senti o rociar de suas asas abençoando-nos.
Ela falou qualquer outra coisa e o filho esclareceu-me:
— Mamãe o está abençoando. Ela é quem recebe as
mensagens do nosso deus. Ele mandou que se espalhasse
pelas aldeias que o "emissário do Senhor" viria a Coatepec,
e que todo o mundo viesse escutá-lo.
Eu tomei aquela mão engelhada, olhei aquela mulher
sofrida, encostei a minha na sua cabeça e ela sorriu. Qua-
se não se podia mexer. O rapazinho então esclareceu-me:
— Nós moramos a quase trinta quilômetros daqui.
Mamãe veio amarrada num cavalo e eu vim noutro, pu-
xando-a.
Ouvindo-o, senti-me envergonhado. Fui levado pelo jo-
vem aos outros dois paralíticos e um deles falou-me:

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 249

— Nosso deus mandou dizer que se nós viéssemos fi-
caríamos curados. Estamos esperando que o senhor dê
a ordem.
Hesitei, emocionado, mas Joanna orientou-me:
— Mande-o levantar-se, meu filho.
Eu vi que não tinha a "fé que remove montanhas",
porque sendo um homem racional, naquela hora a primei-
ra coisa que pensei foi: quem sou eu? Mas, num momento
como aquele é o Cristo quem está em nós, naquela hora
não somos nós.
Joanna me deu segurança e amparo. Ficou atrás de mim
e tornou a dizer-me:
— Fale, meu filho.
Aproximei-me, e, olhando-o fixamente, disse-lhe:
— Você crê em Deus?
— Creio! — respondeu-me.
— Então, levante e ande, em nome de Deus e de Hura-
cán! Venha!
Ele foi escorregando do palco como quem ia cair. Qui-
seram segurá-lo, porém, pedi que o deixassem. Ele caiu mais
ou menos em pé e qual um pêndulo de relógio oscilou. Equi-
librou-se e deu o primeiro passo.
O silêncio em todo o salão era total. Todos permane-
ciam numa postura de dignidade, como se já soubessem o
que iria acontecer. Nenhum grito, nenhuma emoção. Fé!
A fé que nos falta. E o amor!
Ele andou, segurou o meu braço. Fomos até ali, volta-
mos até acolá.
— E eu, e eu? — indagou o outro, afobadamente.
— Venha, o Senhor está mandando-o também. Venha,
em nome de Deus!
Ele foi desentortando, como se estivesse obsidiado, pa-
decendo de uma obsessão física. Não era um paralítico or-
gânico.

250 SUELY CALDAS SCHUBERT

Recordei-me, imediatamente, de que Kardec narra, no
capítulo 23, de O Livro dos Médiuns, o caso de um obsessor
que atuava nos jarretes de um homem, fazendo-o cair de
joelhos diante de uma moça, humilhando-o terrivelmente.
Mas, ele se foi retorcendo, e do seu corpo saiu um
fluido, como um fumo, como que uma nuvem escura e ele
começou a andar.
— Deus abençoe o "emissário do Senhor" — disseram
repetidas vezes.
A minha emoção foi tão grande que eu não saberia des-
crevê-la. Vi que estava na hora de ir-me embora, porque
não podia suportar mais tão intenso estado emocional —
um sentimento intraduzível. Só sei dizer que meu coração
parecia querer arrebentar-se dentro do peito.
Chamei o presidente e amigo anfitrião, que estava a
regular distância, e pedi-lhe, quase sem voz:
— Vamos? Já que a chuva parou, vamo-nos embora.
Fomos atravessando o salão. Olhei o relógio, eram vinte
e duas e trinta. Alguém veio e me abraçou. Veio outro e fez
o mesmo. E veio outro, mais outro. Quando cheguei à porta,
após atravessar o largo recinto, faltavam quinze minutos
para a meia-noite.
Eram o amor e a visão do deus Huracán, porquanto vi-
vendo eles no contexto de uma crença totêmica, é óbvio que
a resposta espiritual se apresentaria de igual forma. Hura-
cán, seria, pois, o Mentor, o Guia Espiritual da comunida-
de, que se apresentava conforme a concepção deles: uma
águia que habita as grandes alturas, nas montanhas mais
elevadas.
A rua escoara, não havia mais água ou enxurrada.
Não pude dormir. Durante um largo tempo não conse-
gui dormir, porque o deus Huracán havia vindo e a men-
sagem do amor tornara-se realidade em Coatepec.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 251

A PREPARAÇÃO DO A M B I E N T E — A CHUVA
A aparição do deus Huracán e toda essa experiência vi-
vida por Divaldo, na cidade de Coatepec, é uma das mais
belas e comoventes passagens que já encontramos no riquís-
simo acervo de vivências que a mediunidade a serviço de
Jesus proprociona àqueles que, como o médium baiano, a
elegem como fanal de suas vidas.
* * *

Algumas horas antes da palestra começa a chover. Di-
valdo menciona a intensidade da chuva, os relâmpagos e
trovões.
Segundo os confrades que o convidaram, a chuva seria
passageira, tal como acontecia diariamente. Apenas uma
chuva tropical. Entretanto, conforme elucida Joanna de An-
gelis, posteriormente, esta era uma chuva programada para
um fim determinado.
Pelo menos um mês antes da vinda de Divaldo, os mo-
radores de toda a região haviam sido alertados para a vinda
do "emissário do Senhor". Houve uma programação de or-
dem superior para aquela população, constituída de almas
simples e humildes, que, no entanto, estavam sendo induzi-
das a participar de guerrilhas, de movimentos revolucioná-
rios. Para isso, não hesitavam, os fomentadores da guerra,
em contagiá-los com o vírus do ódio, da revolta, da violência.
Gente de índole pacífica, apegada aos costumes locais,
à terra e às tradições dos antepassados, vivia ali pelos vales
e montanhas sem preocupações de posses e conquistas.
Coatepec! Uma cidade perdida nos montes guatemalte-
cos foi assim incluída no roteiro de palestras de Divaldo
Franco.
Uma mulher desse povo generoso, paralítica, é avisada
espiritualmente que seria aquele o dia da chegada. Médium
natural, fizera-se respeitada e acatavam-lhe as orientações.
A mediunidade é parte integrante na vida de todos, na
comunidade. Encarada com naturalidade, faz-se espontânea

252 SUELY CALDAS SCHUBERT

e autêntica, como parte de comunicação entre os dois pla-
nos da vida. Para o povo dessa região, constituído de índios
e mestiços, a certeza na imortalidade da alma e na comuni-
cabilidade dos Espíritos é, portanto, decorrente de fatos
concretos, não de teorias ou de abstrações filosóficas, dis-
tantes do seu alcance.
A notícia se espalhou por todas as aldeias. Quase qua-
tro mil pessoas acorreram ao Palácio de Metal. A médium
paralítica veio amarrada ao cavalo, com a coragem da fé,
de quem sabe e conhece.
A chuva fora programada pela Espiritualidade Maior.
* * *

a
Em O Livro dos Espíritos, no capítulo IX da 2. parte,
os Espíritos da Codificação respondem a Allan Kardec so-
bre a ação dos Espíritos nos fenômenos da Natureza. Veja-
mos o que dizem:
538 — "Formam categoria especial no mundo espírita
os Espíritos que presidem aos fenômenos da Natureza? Se-
rão seres à parte, ou Espíritos que foram encarnados co-
mo nós?
Que foram ou que o serão.
a) Pertencem esses Espíritos às ordens superiores ou
às inferiores da hierarquia espírita?
"Isso é conforme seja mais ou menos material, mais ou
menos inteligente o papel que desempenham. Uns mandam,
outros executam. Os que executam coisas materiais são sem-
pre de ordem inferior, assim entre os Espíritos, como entre
os homens."
539 — A produção de certos fenômenos, das tempesta-
des, por exemplo, é obra de um só Espírito, ou muitos se
reúnem, formando grandes massas, para produzi-los?
"Reúnem-se em massas inumeráveis."
É pois, perfeitamente possível e admissível que a chu-
va fosse solicitada pelo Espírito Protetor da região, com o
fim de purificar a atmosfera.

O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 253

Ao ouvir as explicações de sua Mentora, Divaldo recor-
da-se do "fogo purificador", conforme descreve André Luiz
em Obreiros da Vida Eterna.
Nesta obra o autor desencarnado relata a sua experiên-
cia na "Casa Transitória", situada em região espiritual de
densas trevas. Eis um trecho a respeito:
"Permanecíamos em região onde a matéria obedecia a
outras leis, interpenetrada de princípios mentais extrema-
mente viciados. Congregavam-se aí longos precipícios infer-
nais e vastíssimas zonas de purgatório das almas culpadas
e arrependidas.
Na verdade, muita vez viajara entre a nossa colônia
feliz e o plano crostal do planeta, atravessando lugares se-
melhantes, mas nunca me demorara tanto em círculo desa-
gradável e escuro como esse. A ausência de vegetação, alia-
da à neblina pesada e sufocante, infundia profunda sensa-
ção de deserto e tristeza." (capítulo V I )
É nessa zona sombria que o fogo etérico, purificador,
vai atuar, em meio a trovões e relâmpagos. Recomendamos
ao leitor uma consulta ao livro mencionado.
A tempestade, no caso em pauta, teria assim, o mesmo
efeito.
O próprio Divaldo tem psicografado várias páginas, que
estão em seus livros, nas quais existem referências acerca
da poluição da psicosfera, bem como da possibilidade de
contágio. Uma dessas mensagens é assinada por João Cleó-
fas, inserida no livro Depoimentos Vivos, intitulada "Rea-
gentes Mentais". O autor refere-se à assepsia da sala mediú-
nica, que, está perfeitamente de acordo com a necessidade
de renovação da psicosfera em toda a região de Coatepec, a
fim de que os miasmas produzidos pelos disseminadores do
ódio desaparecessem, propiciando assim a chegada de Hu-
racán. Foi realizada, então, a purificação da ambiência es-
piritual para que o Palácio de Metal se transformasse em
gigantesca sala mediúnica com seis mil participantes.
Atentemos para o que assinala João Cleófas:

" A explanação feita por Joanna de Angelis. indelevelmente. estabelece. Observa-se. consegue danificar os mais respeitáveis pro- gramas. ele os atende por outros meios e vias. Vibriões elaborados por mentes viciosas. corpos estra- nhos produzidos por Entidades perversas. o contágio desta ou daquela natureza. mas a palestra ofereceria o am- biente ideal para que se realizasse o fenômeno mediúnico. constituem fantasmas per- turbadores que invadem a esfera do serviço. . . dada a ex- travagância do nome. ( . ao término da palestra. a vigilância dos Mentores Espirituais das nações. deus e Mentor. com base na programação de Divaldo. das cidades. também. . seja no campo da inoculação de formas vivas perniciosas à existência. defendê-la da contaminação do ódio e da violência.254 SU ELY C A L D A S S C H U B E R T " ( • • • ) Utilizemo-nos dos componentes da reação moral elevada contra os invasores microbianos das regiões infe- riores da v i d a . desde que não nos encontremos devidamente forra- dos para investir nesse campo árduo. muito mais marcante e que impressionaria. é ainda uma lição primorosa para todos os que se habituaram a reclamar contra os fenômenos da Natureza. fomentando as pro- duções relevantes. que faz supor uma edificação re- quintada. Por certo. ) Em qualquer ambiente em que se procedem a tais experiências vitais. das pessoas. ideoplastias for- muladas por fixações negativas. . Para aten- der àquela região. o seu povo. seja da exteriorização deletéria de pensamen- tos destrutivos. O PALACIO DE M E T A L O local não poderia ser mais surpreendente. o zelo. . o Espírito Huracán. muitas vezes impossibilitando as realizações nobilitantes do trabalho. uma visita aos seus tutelados de maneira mais direta.

interrompe a energia elétrica. Chove dentro e fora do recinto. seguido de um raio. principalmente. o médium sente. recolhendo energia mental dos en- . mas pela especial vibração que capta no ambiente. Ele sente que as pessoas presentes aguardam algo. que Divaldo sente ao chegar ao palco e contemplar. No momento. O Palá- cio de Metal mergulha na escuridão. eleva o pensamento a Jesus e roga inspiração. Pode-se imaginar a azáfama das Entidades Espirituais coletando o ectoplasma. de frente. Não há cadeiras. Todos estão de pé. que lhe era pedido alguma coisa mais. Uma emoção profunda o invade. Há completo si- lêncio. O Palácio de Metal não tem nenhum conforto. todavia. pela primeira vez. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 255 A multidão atende ao chamado e vem de todas as for- mas. Há no ar uma sensação diferente. Observemos que ele diz. a desper- tá-las. As pessoas não se inquietam. enfrentando a tempestade. conquistada através dos próprios hábitos indígenas. as dificuldades de transpor- te e de acomodações. Estão de pé. Ninguém se mexe. Era muito mais que um simples e habitual auditório. Interessante analisarmos essa postura do público. através da palavra e da sua própria figura carismática. o enorme pavilhão de zinco transforma-se em imensa câmara mediúnica. Algum tempo se passa quando um trovão mais forte. sem poder preci- sar o que. Fala sobre a imorta- lidade da alma. Não pelo núme- ro de pessoas (ele já falou para platéias maiores). a mente está alerta e todos estão expectantes. mentalmente: "Se Jesus não vier o que será de mim?" O orador baiano inicia a palestra. em vigilância. Acostumado a todo tipo de público. mas o público se mantém numa disciplina incomparável. não se amo- lenta. No escuro. habituado a transmitir emoções. o imenso auditório. como seria de se prever e como aconteceria com outro auditório qualquer. O corpo não se acomoda. enquanto a chuva continua a cair.

escreveu em Reformador. a partir daquele instante. É neste estado que o vê chegar. mas era um deus asteca. posteriormente. Ele estava de torso nu. estóico. inspira-lhe a palavra. inserido no livro Sobrevivên- cia e Comunicabilidade dos Espíritos — Edição FEB. excelente arti- go intitulado "Técnica da Comunicação Espírita". • • ) eu vi aparecer. em corpo espiritual como eu nunca havia visto antes com tanta beleza. Inun- da-se interiormente de um amor imenso por aquele povo simples que o ouvia.256 SUELY CALDAS SCHUBERT carnados e utilizando Divaldo como médium dos fenôme- nos que viriam a seguir. o consagrado escritor espírita. * * * Hermínio C. identifica-se. como se deslizasse. à porta de entrada. e extravasa este sentimento em vibra- ções e palavras. (Nota da Autora) . na qual. enquan- to a Entidade. triunfalmente. uma perfeição. e. A CHEGADA DE HURACÁN A descrição que Divaldo faz de Huracán dá-nos uma idéia da sua beleza e espiritualidade. inunda-se de cli- chês psíquicos.* Vale a pena transcrevermos um trecho. Miranda. ouviu-se uma melodia no ar. aproximando-se de Divaldo." Ao mesmo tempo. parecendo ter dois metros de altura. Parecia um deus da mitologia. uma com- pleição robusta. A mente do médium. de idéias que vão sendo transmitidas para o auditório. Mas está diferente. em sintonia com a de Huracán. já não fala da mesma forma anterior. os olhos eram duas lâmpadas que me alcança- vam. Ele veio andando. "A decomposição do processo revela o seguinte: em todo sistema de comunicação — mediúnica ou não — o com- ( * ) Este artigo foi. " ( . Quando a luz se acende. o orador retoma a palavra. um ser lumi- nescente. o autor demons- tra as etapas do processo da comunicação mediúnica. de março de 1971.

sinais ou imagens sensoriais que sejam comuns a uma gran- de quantidade de gente. . ) O segundo componente do sistema é a expressão formal do pensamento. concebida na mente daquele que deseja transmiti-la a alguém. nós não pensamos em palavras. . em imagens ou impressões fugidias que passam pelo nosso consciente como "flashes" velozes que precisamos agarrar às pressas para que não se percam. Aquele que deseja transmitir uma idéia. Se o pensamento deve ser expresso em palavras há que fazer a escolha da língua. é preciso decidir quanto à forma. Isso quer dizer que ela passou por um processo de codificação. com a dispensa dos símbolos criados para comunicá-lo. . ( . àquele que recebe a mensagem. à cor. . ainda não podemos transmitir o nosso pensamento na sua forma original. já convertida num dos meios usuais empregados para torná-la comum. ( . o de converter pensamentos. e sim. sensações e impressões em um sistema de códigos. segundo o processo que tiver à sua disposição. terá de traduzi-la de alguma forma. Alcançamos o quarto componente do processo de co- municação quando a reação do recipiendario ao conteúdo da mensagem recebida é enviada de volta à fonte de onde . tal como foi concebida na mente daquele que a enviou. Isso porque. portanto. e sim. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 257 ponente inicial é a idéia. pois. É evidente que a clareza da comunicação dependerá fortemente da maior ou menor lu- cidez que existir na concepção da idéia original. que é a interpretação por parte daquele que a recebe. na fase atual da nossa evolução espiritual. para comunicá-la. idéias. É evidente. É que. que a mensagem não é recebida na sua forma original. ao ser transformada em sinais ou símbolos de idéias que surgem no plano do nosso entendi- mento como representações das próprias idéias. Cabe. absorvida como pensamento puro. assim. descodificá-la para reconvertê-la à forma original e ser. O primeiro trabalho é. se for em imagens. ) Com isto chegamos ao terceiro componente do proces- so de comunicação. ou seja. ao tama- nho e ao processo de divulgação. então.

ou seja. encontramos a mecânica do pro- cesso utilizado nas comunicações mediúnicas. na cidade de Lisieux (França). Quanto mais evoluído for o Espírito comunicante. O Espírito desen- carnado deseja transmitir a idéia de que a clareza da men- sagem depende da pureza daquele que a recebe. evidenciando uma freqüência vibratória de on- das curtíssimas. provocando. assim. Ao entrar em sintonia com Divaldo. há necessidade de uma intermediação do Guia Espiritual do médium. Joanna de Angelis. ( . Se o Espírito tem um padrão espiritual muito elevado. André Luiz afirma. É oportuno observarmos que a maior parte das lendas e das tradições que integram o folclore de cada povo. . tão ao gosto da técnica moderna. . Huracán inunda- lhe a mente de clichês psíquicos. de acordo com o processo descrito por Hermínio Miranda. em Mecanismos da Me- diunidade. mais velozes serão as imagens concebidas e exteriorizadas pela sua mente. transmitiu-o ao médium. da sua boa predisposição psíquica e moral. que as legiões angélicas se exprimem em "raios super-ultra-curtos''. transmiti-la em pala- vras — prosa e verso. Nessas quatro etapas descritas por ele. ) Imaginemos o mecanismo em ação. e até em sons ou em combinações audio- visuais. A mensagem intitula-se "O amor e a alma" e está inserida no livro Seara do Bem." * * * O artigo de Hermínio Miranda prossegue com outras elucidações e recomendamos a sua leitura. De muitas ma- neiras se poderia vestir essa imagem. transmitindo-lhe. traz um componente espiritual muito forte e verdadeiro.258 SUELY CALDAS SCHUBERT proveio ("feedback"). Isso aconteceu com Divaldo. captando-lhe o pensamento. por sua vez. em imagens — coloridas ou não. eventual reação. vestido. a história da raça asteca. quando da comu- nicação de Teresa de Jesus. fixas ou móveis. .

da qual escorria. deixando um rastro de luz e. não basta que o Espírito queira mostrar- se. é que pôs o seu peris- pírito no estado próprio a torná-lo visível. Aparecem da maneira por que precisam impressionar a pessoa a quem se mostram. Ainda no capítulo men- cionado. nem de tal coisa precisam. Na cabeça traz a moldura da águia e surge em toda a beleza do ritual do povo asteca. como atributo da categoria espiritual a que pertencem. são possíveis em razão das propriedades do perispírito. tampouco. o que explica não ser generalizada a visibilidade dos Espíritos. capítulo V I ." Todas essas transformações. dourada. que obedece ao comando mental. uma imensa cruz lumi- nosa. outros envoltos em amplas roupagens. Assim é que uns aparecerão em trajes comuns. alguns com asas. referindo-se à aparição dos Espíri- tos. uma luz vio- lácea. visto que podem ir a toda parte como Espíritos. como uma ave. * * * Em O Livro dos Médiuns. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 259 naturalmente. porquanto a modificação do peris- pírito se opera mediante sua combinação com o fluido pe- culiar ao médium. Ora. ou essas asas são apenas uma aparência simbólica? Os Espíritos não têm asas. Ao se retirar. flutuante. esta combinação nem sempre é pos- sível. é . passa através do corpo do médium e se posta no início do extenso corredor. o Codificador. Assim. pelas formas e cores com que a imaginação popular o adorna. esclarece: "Quando o Espírito nos aparece. e alça vôo como uma seta. na aparência dos Espíri- tos. questão 12. Abre os braços que se cobrem de uma pluma- gem. não basta. não basta a sua vontade. Allan Kardec indaga: "Os Espíritos que aparecem com asas têm-nas realmen- te. para isso. que uma pessoa queira vê-lo. Huracán é o deus do povo e tem a forma de uma gran- de águia. Mas. sobre o público. como pingos.

A cruz. Os elementos de força desse símbolo não encontram equivalência em nenhum outro. revestindo-se com a forma carac- terística da águia sagrada a fim de ser identificado por eles. que a emissão do fluido da pessoa seja suficientemente abundante para operar a transformação do perispírito e. não é. o Justo. Assim como Ele. Na Espiritualidade Maior. porven- tura. somam-se a este primeiro e maior deles. atende aos anseios daqueles que estão sob a sua tutela. onde não existem quaisquer barreiras do sectarismo religioso. de penitências que o martirizem. assim também os homens encontrarão nela a redenção final. a cruz é um símbolo uni- versal. que en- tre eles haja uma espécie de afinidade e também. uma cruz luminosa. * * * O deus asteca deixa no ar. trazê-lO à nossa lembrança. Em primeiro lugar. porém. Para ir até Ele. provavelmente. uma evoca- ção de sofrimentos. é uma mensagem de esperança. a cruz significa a presença de Cristo junto dos homens. agora. pois. é imprescindível "tomar a cruz so- bre os ombros e segui-lO". alçou-se aos céus pelas traves da cruz. sobre a multidão. de grilhões que escravizam o ser huma- no. Outros significados. todavia. traz uma mensagem de redenção. Espírito de alta envergadura. que se verifiquem ainda outras condições que desconhecemos. A cruz. é o símbolo mais utilizado. o ca- minho da libertação. .260 SUELY CALDAS SCHUBERT necessário que os dois fluidos possam combinar-se." A caridade e abnegação com que a Espiritualidade Maior atende aos seres humanos é difícil de ser dimensio- nada. isto sim. Quando se quer evidenciar a Sua presen- ça. Carregar a cruz é redimir-se. conforme Suas próprias palavras. Huracán é um dos Benfeitores Espirituais dos povos. ao mesmo tempo que evoca os erros humanos. pairando sobre as pessoas. A cruz.

Estavam todos absolutamente certos de que Huracán viria — tal como fora anunciado pela médium paralítica — através do "emissário do Senhor". Por isso. nada que signi- ficasse um estado emocional de histeria coletiva animava aquelas pessoas. e o ambiente propício às . inabaláveis na certeza. Nenhuma conotação de fanatismo. completo. em bela mensagem incluída no livro Terapêutica de Emergên- cia. Espírito Superior. verdadeiramente. AS CURAS Numa noite especial. acorreram em massa. na verdade. portanto. uma civilização pré-colombiana." Huracán. foram engendrados por nós e são apenas nossos. a imensa corrente mediúnica a envolver Divaldo. O circuito mediúnico está fechado. sem os quais o homem não logrará a Liberdade. do intercâmbio com os invisíveis e da pro- teção de Huracán. usando o símbolo da cruz. Uma fé natural. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 261 Jesus não permaneceu na cruz. pela psicografia de Divaldo. espontânea e simples. O público respirava fé. transmite uma mensagem de amor e paz. intitulada "Cruz e Cristo". embora os homens O queiram crucificar de todas as maneiras e atá-10 ao madeiro de sofrimentos que. o Caminho. carregando os filhos. O conjunto vibratório dessas pessoas é. Apenas uma certeza tranqüila e natural do amparo divino. Divaldo vive uma experiência extraordinária. como a sig- nificar que somente Jesus é. Bezerra de Menezes. desde cedo. a Verdade e a Vida. num momento especial. Sabiam que o aviso da sua chegada. e absolutamente seguros de que o deus Huracán os visitaria. afirma: "0 Cristo e a Cruz do amor são os termos sempre atuais da equação da vida verdadeira. que ecoara pelos vales e montanhas da região. significava uma proteção direta a toda a gente. vencendo distâncias e dificuldades. deus criador da raça aste- ca.

os tecidos. irriga-os com uma vitalidade nova que. Levanta-se. No instante das curas dos dois paralíticos.262 SUELY CALDAS SCHUBERT atividades que o Plano Superior programara e que se de- senvolvem num crescendo de emoções transcendentes. à feição de um lubrificante desenrijece. O primeiro recebe a ordem e a atende. fora canalizada para os enfermos. Divaldo teve ensejo de esclarecer. as células. . portanto. Em Coatepec tudo estava delineado. É o sinete da sua presença para todo o povo. sob a ação fluídica que. impelindo-a. mas. tonifica. penetrando os nervos. A corrente de amor é luz. é vida. Joanna de Angelis está ali. conhecido na região pelo nome de Huracán. Ele vacila sobre as próprias pernas. nutre. Joanna o assessora e participa do processo. A cura é a mensagem de Huracán. foi a partir dela que tudo se tornou possível. esticando o corpo. Aglutinam-se os elementos magnéticos e a essa força Divaldo dá a ordem de comando direcionando-a. grande parte dessa carga vibratória. conforme entendimentos prévios com o Espírito Mentor. em algumas ocasiões. aos poucos. que está sendo executada em acordes grandiosos. desempena-se. os membros. Há um perfeito desencadear dessas forças e dos sentimentos de cada um. que Joanna entra em contato com os Mentores Espirituais dos países que são visitados e que as programações são fei- tas a partir dos acordos efetuados. sob o comando dessa energia poderosa que o invade e plenifica interior- mente. Os dois paralíticos estão expectantes. a reger o concerto das emo- ções e dos sentimentos. a medula. Cada componente destacado na nar- rativa teve importante desempenho. e. Adredemente pre- parados sabem que algo diferente irá acontecer. os ossos. Todo o episodio é como uma majestosa e sublime sin- fonia. Dá os primeiros passos e está curado. balança-se como um pêndulo e consegue enfim equilibrar-se.

itens 31 a 34: "Como se há visto. tanto mais abundante emissão fluídica provocará e tan- to maior força de penetração dará ao fluido. essa é mais rara e o seu grau máximo se deve considerar excepcional. é um caso diferente. pela imposição das mãos. em O Livro dos Médiuns. * * * Vejamos como Allan Kardec esclarece a respeito das curas. o Espírito. a de curar instantaneamente." (grifos no original) "É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio de exercício. em A Gênese. Tra- ta-se de uma subjugação corporal. mas. todavia. em épocas diversas e no seio de quase todos os povos. é o agente propulsor que infiltra num corpo deterio- rado uma parte da substância do seu envoltório fluídico. quanto maior for. cuja autenticidade não sofre contestação. encarnado ou desencar- nado. No entanto. capítulo 23. surgiram indivíduos que a possuíam em grau eminente. conforme explica Divaldo. apareceram muitos exemplos notáveis. depende também da energia da vontade que. na razão direta da pureza da substância inoculada. o fluido universal é o elemento pri- mitivo do corpo carnal e do perispírito. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 263 O segundo enfermo. o que se segue é que elas não se operam fora da Natureza e que só são miraculosas na aparência. os quais são s i m p l e s transformações dele. mas." Em relação à subjugação corporal. capítulo X I V . seja ho- mem ou Espírito. pois. o Codificador infor- ma. Nestes últimos tempos. Uma vez que as curas desse gênero assentam num princípio natural e que o poder de operá-las não cons- titui privilégio. condensado no perispírito. A cura se opera mediante a substituição de uma molécula malsã por uma molécula sã. O poder curativo estará. Depende ainda das intenções daquele que deseje realizar a cura. pode fornecer princípios reparadores ao corpo. item 240: . esse fluido. Pela identidade da sua natureza.

Vai. porém. o Espírito atua sobre os órgãos materiais e provoca movimentos involuntários. que o forçava.264 SUELY CALDAS SCHUBERT "A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. se via constrangido. não obstante se negue à obediência. a subjugação pode ser física. através do próprio Divaldo." O Espírito Manoel Philomeno de Miranda. ainda nos momentos menos oportunos. no médium escrevente. Esse homem passava por louco entre as pessoas de suas relações. a respeito da subjugação. por se criarem . obrigando o indivíduo. o seguinte: "Assim. a ceder à violência que o oprime. às vezes. por uma necessidade incessante de escrever. psíquica e simul- taneamente físio-psíquica. escreve em Nas Fronteiras da Loucura. onde quer que se encontrassem. nas paredes. . conven- cidos de que absolutamente não o era. cuja contri- buição no campo das obsessões tem sido notável. na parte inicial do livro. sentia nas costas e nos jarretes uma pressão enérgica. Vimos alguns que. podem irromper enfermidades orgânicas. a pôr-se de joelhos diante de uma moça a cujo respeito nenhuma pretensão nutria e pedi-la em casamento. mesmo nas ruas. Outras vezes. Traduz-se. . a se ajoelhar e beijar o chão dos lugares públicos e em presença da multidão. ) No se- gundo caso. A primeira não implica na perda da lucidez intelec- tual. nem belo e que. sob o império de uma obses- são dessa natureza. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo. estamos. intitulada "Análise das obsessões". Conhecemos um homem. simulavam escrever com o dedo. mais longe a subjugação corporal: pode levar aos mais ridículos atos. A subjugação pode ser moral ou corporal. por uma força irresistível. que não era jovem. nas por- tas. porquanto a ação dá-se diretamente sobre os centros motores. porquanto tinha consciência plena do ridículo do que fazia contra a sua vontade e com isso sofria horrivelmente. Neste caso. ( . à falta de pena ou lápis. não obstante a resistência que lhe opunha.

o grande pavilhão de zinco é um feé- rico palácio. mas. ou mesmo sob a vigorosa e contínua ação fluí- dica dilacerarem-se os tecidos fisiológicos ou perturbar-se o anabolismo como o catabolismo. As emoções são superlativas e deixam Divaldo em um estado diferente. neste mesmo capítulo. imaginemo-lo como sendo um dínamo gerador. Espiritualmente. Para que nos façamos mais simplesmente compreen- didos. "temos igualmente variados mananciais de força mediúnica." * * * As curas são realizadas. na pequena Coatepec. na essência. para que isto se dê. com capa- cidade de assimilar correntes contínuas de força e exteriori- zá-las simultaneamente. mediante a permuta harmoniosa. . . todo o seu cosmo psicossomático atua como um dínamo. no laboratório das células em que circulam e se harmonizam. a propriedade de agentes emissores e recepto- res." Mais adiante. forças essas que guardam consigo. conservadores e regeneradores de energia. pode ser comparado a um dínamo complexo. As bênçãos recaem a flux sobre o Palacio de Metal. André Luiz afirma: "O Espírito. em que se verifica a transubstanciação do trabalho psicofísico em for- ças mento-eletromagnéticas. de fontes de força eletromotriz. ao mesmo tempo. em toda a parte. transformador e coletor. que. com singulares prejuízos físicos. incidindo em distúrbio no metabolismo geral. indu- tor. assim como dispomos. ele irá direcioná-la. No livro Mecanismos da Mediunidade. encarnado ou desencarnado. esclarecendo ainda. cons- . Como médium dessa carga vibratória de altíssima freqüência. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 265 condições celulares próprias para a contaminação por vírus e bactérias. o autor compara o gerador mediúnico ao gerador elétrico. engalanado de luzes e irradiando claridade para toda a região.

em nosso caminho. junto ao povo humilde. tal como prometeu Jesus. de serem a "luz do mundo". que pro- porciona aos seres humanos.266 SUELY CALDAS SCHUBERT ciente ou inconsciente. Divaldo vivência a experiência que Jesus promete àqueles que O amam e O seguem." Todo este comovente episódio leva-nos a reflexionar a respeito da infinita bondade de nosso Pai do Céu. afinal. sendo possível observá-los. . num local insólito. pequena e simples. de serem. igual a todos os outros no calendário terres- tre. Numa cidadezinha do planeta. alimentando grandes iniciativas de socorro às necessidades humanas e de expansão cultural. de tornarem- se o "sal da Terra". "deuses". dos princípios ou correntes mentais. num dia qualquer. o ensejo sublime de crescerem espiritualmente.

nos moldes do cristão primitivo. Um espírita. 32 A CASA DE JESUS Algumas considerações sobre ser cristão e ser espírita. se o Espiritismo é a revivescência do Cristianismo. Não é que se deva deixar as nossas roupas e andar maltrapilhos. os poderosos se tornarem amigos. simples que eram. tiravam seus largos períodos de férias. ficavam presunçosos. . sem ter os meios. e outra pode estar pedindo esmolas e ser or- gulhosa. como até hoje o faço. àquele tempo. em que se veja. porque uma pessoa pode estar coberta de jóias e ser simples. . E então eu no- tava que muitos companheiros se tornavam espíritas e. é que o Cristianismo tem de ser uma re- volução interna. Não é a postura externa. . a figura do irmão.. e não a de alguém a que estamos be- neficiando. o que me empolgava era ver os ricos se tornarem simples. Nós já adquiríramos a "Mansão do Caminho". Isso me chocava muito. no próximo. Eu via os companheiros fazendo palestras (sem censurá-los) e saindo dali eram homens do mundo. Mas. faziam "estação de águas". nós teríamos de viver à semelhança dos cristãos. realmente. ficavam com "status" de ricos. pessoas comuns. porque. agradáveis. o lar de crianças. mas havia muita gente que me ajudava. Eu apenas auxiliava banhando os internos. pobres que eram.. conforme acreditamos. Quando meditava sobre o Cristianismo primitivo.

fazer construções e plantas e mil coisas e. para eu próprio trabalhar. mesmo que eu queira ir à favela. mas não dispunha dos meios para concretizá-la. Não pensei em uma obra para outros trabalharem e. sim. Uma senhora pre- sente sensibilizou-se com o projeto e. Isto me provocava uma grande dor e dizia-me a mim mesmo: estão morrendo! Por que os hospitais não possuem lugar para acolhê-los. Bezerra informou-nos. nem a Santa Casa de Misericórdia. Sou uma mulher muito rica. sequer? Foi quando sonhei em fazer uma obra que fosse um desafio para minha juventude. pensei: — Meu Deus! Todo mundo só pensa em fazer obra para quem vai viver. O senhor tem vontade de fazer isto e não tem . a maternidade. e mesmo que eu queira visitar os pobres. Eu passava de ônibus ou de bonde e via as pessoas dor- mindo embaixo das marquises. o meu marido nunca o permitiria. da sociedade. criando um problema doméstico. e os fundadores ficarem de longe. até o dia em que possa ter o elétrico. a escola. Viajei a São Paulo para uma série de palestras. que seria ideal um trabalho de tal natureza. conversando com Chico Xavier. o hospital. O Dr. Estava numa reunião quando contei esta minha idéia. para minha surpresa. então. Bezerra o que ele acha desta idéia. imaginei uma casa para se morrer. eu sempre desejei ser útil. falou: — Senhor Divaldo. porque as pessoas pensam muito em obras. — e para quem vai morrer? Se nós cremos que a vida continua. vamos começar atendendo o pobre no fogão de tijolo. en- quanto estão discutindo. propus-lhe: — Pergunte ao Dr. Du- rante o tempo em que se está planejando. Porque é muito cômodo construir uma obra para os outros se esforçarem. Então. os pobres estão morrendo. temos de preparar a pessoa para a vida que irá enfrentar. um dia. Um dia. Assim. "a caridade chega atrasada".268 SUELY CALDAS SCHUBERT Então. a creche etc.

Num lugar muito arrumadinho.00) Ela abriu a caderneta.000. Vivia em constantes crises con- vulsivas. . Saímos e fomos recolher os que dormiam em baixo das marquises. (Vamos dizer que esta quantia corresponda hoje a Cz$ 200. fui à região da invasão e encontrei uma tapera. Cheguei a Salvador. Quanto será necessário para adqui- rir uma casa como a que necessita? Eu havia imaginado uma casa dentro do mangue. Eu e Nilson o lavávamos. como epiléptico. . o pobre não pode cuspir à vontade. mas asseado. Vejam as bênçãos da Divindade. perdia o controle dos esfíncteres. da invasão. Agora o problema é com o senhor. Porque eu queria um lugar onde se pudesse levar uma pessoa em quase decomposição. Chamava-se André. Depois. Nós. sofria de artritismo e reumatismo e consolidou várias juntas — não dobrava o corpo. Eu tenho o dinheiro e a vontade. Colocamos até creolina para que os bichos saíssem. Eu fazia os curativos engulhando e até vomitando. Isto me dava uma repugnância de estômago — pela falta de hábito. dávamos os plantões noturnos. Tinha dois quartos. uma saleta e uma cozinha que é um "cochicho" (uma palavra baiana). na crise. dentro da lama do mar. — Aqui está. Coloquei à porta uma tabuleta com o nome: CASA DE JESUS. e não posso fazê-lo. ele. dentro da lama. . às vezes. Eu era uma pessoa sensível. Ele teve tantas crises de epilepsia que ficou deformado. O SEMEADOR DE ESTRELAS 269 o dinheiro. preencheu um cheque e mo entregou. com alguns amigos. Recolhemos um epiléptico. Respondi-lhe: — Vinte mil cruzeiros. Uma ruína de taipa (feita com varas e barro). Nasci num lar modesto. E deveria ficar sempre aberta. Então vou dar-lhe os recursos para que o senhor concretize este trabalho. Tinha uma ferida na cabeça que não cicatrizava. que era um nada.

duas ou três senhoras. pas- savam o dia. — Quero. depois de sair do hospital neste estado? Olhei ao redor e vi um táxi. pobres como nós. Eu nunca havia usado um táxi. Observando-a. encontrei-a agora — esclareci. teria de tomar o bonde. muito longe. Esta mulher teve varíola e a amputação de uma perna. Ele falou uma quantia que eu não tinha e eu lhe disse. Depois. O chofer me olhou e respondeu: . veio um outro doente. passávamos a noite. coloquei-o em meu ombro. sim. peguei-lhe o braço. Dona Antônia Vilas-Boas. — O que é? — indagou-me. à guisa de apoio.270 SUELY CALDAS SCHUBERT Apareceu-nos uma senhora. os homens. — A senhora quer ajuda? — indaguei-lhe. Eu a vi atravessando a Praça Municipal. Fui até o chofer e perguntei-lhe por quanto a levaria até a casa. senhor! Ela havia saído do hospital de isolamento e ia para um bairro muito pobre. que era psicopata e ti- vera um derrame cerebral. porque não podia. Assim. A casa ficava aberta vinte e quatro horas. Foi a cena mais comovedora da minha vida. Havia um rapazinho moreno ao seu lado. — O que ela é sua? — Nada. a saltar. Vou convidar umas amigas que freqüentam o "Caminho da Redenção". enquanto nós. — É para levar aquela senhora ali. Em seguida veio uma senhora que eu encontrei na rua. segurándose a um pau. pensei: Meu Deus! Como é que esta criatura vai pegar o bonde. com câncer. em silêncio. Fui até ela. Ela me propôs: — Durante as horas em que vocês estiverem trabalhan- do. com tanta dificuldade. eu passo aqui para cozinhar. tomar conta da casa. pu- lando.

Esta criatura veio a morrer nos meus braços. — Meu filho. peguei-a pelas axilas. Foi a morte mais terrível que eu já vi. uma viela. Era uma mulher que me pareceu fina pela forma que falava. Estávamos conversando. porque eu também não posso? Quanto é que você tem? Eu tomei do que tinha e lhe entreguei. descemos e eu a car- reguei. um colchão de palha. para onde vou levá-la? Então lhe expliquei: — Se a senhora não tem para onde ir. Sabem de que? Vitimada por lombrigas. mas o máximo que lhe posso dar é uma cama "patente". Carreguei-a de volta ao carro e levei-a para a "Casa de Jesus". pois as lombrigas saíam . Morreu asfixiada. Eu fiquei apavorado. Eu tenho a "Casa de Jesus". mas. A mulher começou a chorar. ela morreu asfixiada. Ela me apontou uma casinha humilde e quando chegamos a frente. Eram os únicos bens daquela criatura. olhando de longe a cena. o chofer estava parado. Levei-a até uma "avenida" de casas — um beco de ca- sas. para não contaminar meus filhos. Eu chamei o táxi. Eu a coloquei no carro com o rapazinho e fomos até aonde o carro pôde ir. Não tenho para onde ir. Só havia homens internados. eu estou na rua. Aí começou a vomitar. assistindo a tudo em silêncio. Eu a colocara no chão e fiquei parado. dizendo: — Você dá a sua parte e o resto fica por minha conta. Foi a primeira mulher. a comida e nada mais. Aquela que a expulsava de casa era uma filha de criação e o rapaz era o marido dela. Ele recebeu-o. O rapaz ao lado. ela começou a tossir e expeliu uma lombriga. le- vantei-a. eu tenho onde levá-la. Quando chegou no ponto em que os buracos impediam a sua passagem. A "filha" pegou uma mala e jogou-a na rua. uma moça veio à janela e falou: — Aqui você não entra. pensando: e agora. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 271 — Se você pode fazer a caridade.

Quando terminou. na miséria com os miseráveis. nós vivíamos ali. no Uruguai. ela morreu. Dentro havia um álbum de fotografias. na TChecoslováquia. Eu tinha um salário. mas. porém.. Vivíamos ali. o Nilson também. Eu a abri. eu não pude fazer nada. vendo aquela cena choraram. os colchõezinhos espalhados. tínhamos a casa de meus pais. da sociedade de Moscou. tirou o pesado casaco de peles para dar-lhe.. entre os quais o confrade Augusto Soares. a gente só entra com o sor- riso e a simpatia — por isso. o Dr. As duas ricas damas. eu me encontrava muito sofrido. Em momentos. me disse: — Pegue ali a minha mala e abra-a. uma ópera. Bezerra me apareceu e contou uma história muito bonita. Duas damas (disse ele).272 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T pelo nariz. comovida. à porta. por todos os orifícios naturais. no passado. impediu-lhe o gesto. um dia. explicando: . Esta mulher antes de morrer. dávamos tudo o que recebíamos já que pedíamos a outrem — porquanto fica muito fácil fazer a caridade pedindo aos outros. Uma noite. esta mulher tinha sido Embaixatriz do Brasil no Egito. e terminou os seus dias terrenos numa situação dessas. foram ao Teatro Bolshoi. Havia sido esposa de um Embaixador. Tínhamos dezesseis doentes. pois ele estava sofrendo o frio da noite de Moscou. muito ricas. Teria sido salva. Tive Um choque tremendo. pois o dinheiro não dava para que fôsse- mos comer em outro lugar. pedindo esmo- la. Eu estava pensando: o que vamos fazer? Nessa hora. se nós soubéssemos. que retratava a história de um rei cristão que termina louco. com um purgante de óleo. comendo a mesma comida. onde morávamos. Assistiram a uma peça. elas saíram e encontraram um homem. tomando todo o espaço disponível. A outra. Uma delas. Por incrível que pareça. Havia alguns poucos amigos que participavam deste trabalho. co- moveram-se e todo o teatro também. porque a vida é muito incerta. possivelmente.

Tiramos os doentes. Aloísio estava na crise de nervos. Aloísio. A "Casinha de Jesus" me ensinou a trabalhar. rapidamente. Vestiu o casaco novamente. você tem razão. o prédio possuía vários quartos e aí os alojamos.. Durante três anos mantivemos a casa. hemiplégico. também era carregado. Bezerra concluiu: Enquanto se discute a caridade. O Dr. mas. A caridade tem de ser o socorro do momento. ele é um doente mental. André ficava totalmente imobilizado e fazíamos tudo para atendê-lo. tomaram chá com biscoitos. Prossegue. Entraram na carruagem e foram para o palácio. está melhor? Em meio à crise. deitaram-se e es- queceram o necessitado. a dama generosa lem- brou-se do mendigo e chamando um lacaio recomendou-lhe que levasse os cobertores. O SEMEADOR DE ESTRELAS 273 — Não faça isto! Quando chegarmos a casa mandare- mos cobertores. Um dia. Ela deteve o gesto bom e concluiu: — De fato. Vamos fazer como sugeriu. . dizendo ao homem: — Daqui a pouco eu lhe mandarei cobertores e agasalhos. porque a maré tombou a casinha e o terreno sumiu. Pela manhã. O outro. ele pegou o uri- nol e derramou-o na minha cabeça. a dar banho em doentes. chamava-se Aloísio. Numa maré do mês de agosto. as águas subiram e derru- baram a casa. num acesso de raiva. ele não vai va- lorizá-lo. a atender diretamente os enfermos. Ao chegarem.. eu pensei. depois discute-se o que se fará. o sofredor morre ao abandono. perguntei-lhe: — Como vai. assim mesmo. Lá no 'Ca- minho da Redenção". Quando este chegou ao local o homem estava morto. Naturalmente me veio uma reação. Seu casaco é muito caro. e confia. Morrera congelado pela madrugada. quando cheguei para a reunião. Não fiques triste. que é muito forte. aproximando-me dele.

nós nos preparamos para esse Cristianismo de ação. a Caravana "Auta de Souza". Ele morreu em nossos braços. Uma das meninas que ela criou. levávamos sacos de queimados (balas) e distribuíamos. Mas.274 SUELY CALDAS SCHUBERT Tive de ir limpar-me e trocar de roupa. na Irmã Dulce. . sendo difícil amar o aleijado. a Verinha. eu quero que você vá visitar os pobres da invasão. Depois. o feio. pelo menos um caixãozinho. Uma coisa comovedora ocorreu. Acompanhamo-los até a hora da morte e fazemos o enterro: a primeira coisa que as velhinhas pedem. aquela que colaborou. quando idosa. Auta de Souza me falou: — Meu filho. me informou: — Tio Divaldo. enro- ladas em lençol. Oito anos atrás uma delas teve um derrame cerebral. pois penso que não me seriam recusados. se elas ajudaram a criar as nossas crianças. as tias já estão ficando idosas. é só chegar e mandar fazer o necessário. Eu comecei. famílias irrecuperáveis. é colocada em asilo. é que não sejam jogadas na vala. no bairro do Pau da Lima. Para mim. já não podíamos cuidar deles em outro local. . . funcionários. Assim. pois eu já adquiri o hábito de tratar dos doentes. porém. doentes. paralíticos. este é o Cristianismo que me faz bem. Assim. agora é a hora de tomarmos conta delas. . de hansenianos. o doente. quando se iniciou a "Colônia da Fraternidade". também. Certo dia. Levamos Aloísio e o colocamos numa casinha. Ê muito cômodo! Lá. eu reflito que. Pregar é muito fácil. enquanto viverem. mas. Hoje. que já está com dezoito anos. loucos. mas eu tenho de dar o exem- plo. cuidar de crianças é muito gratificante por- que nos agrada muito. no asilo de velhos. de cegos. passamos a ir. eu creio conseguir as vagas possíveis. Quase sempre. eu fico ajudando a tia Marieta. nós temos cento e setenta famílias. a tomar conta dela. Agora. . Porque é muito fácil amar a pessoa bonitinha. Nós temos uma enfermeira.

mas esta é a caridade daquelas pessoas. mas não me conhece. os obsidiados. Quando é que eu vou fazer a minha caridade pessoal?! Que não tem de ser. Por isso. de noite. não há ninguém para ter inveja. escondido até do pessoal da "Mansão". porque aí não há ninguém para competir conosco. Portanto. depois. porque com os demais a gente recebe a gratificação. porque o espírita está ficando muito intelectualizado. com dinheiro. mas. Um lugar para as pessoas morrerem! Tem-se um lugar para nas. as pessoas generosas dão e eu aplico isto para os que necessitam. os feridos. mas. eu saio com os meus pacotes para ir aos meus doentes — se é que posso chamá-los assim. Se eu for com a turma toda é uma beleza. a mim. ele visitava so- zinho. os ingratos. esse ângulo do Cristianismo. porque ele atendia na peregrinação com aquele povo todo. senão. A maternidade é cercada de preocupações e zelos. para falar mal. os piores. Está desaparecendo tudo isto. E quando é que eu vou fazer a caridade? Se eu peço. Fazemos os Natais todos. nas noites de quinta-feira. quem faz a caridade são eles e não eu. numa experiência que fará muito bem a nós mesmos. sozinho. nos buracos do Pau da Lima. porque nin- guém quer ir lá. os mais graves. O SEMEADOR DE ESTRELAS 275 Temos de convidar os companheiros (não é que todo mundo vá dar banho em pobre. ne- cessariamente. me fascina. escondido. para que ninguém vá comigo. O exemplo de Chico Xavier a vida inteira é digno de aplauso. eu vou lá. tenha visitas em casa ou não. Como eu faço as minhas visitas. tudo é feito para que o ser que reveste da indumentária carnal . porque. mas é uma festa! E eu estaria exibindo os meus necessita- dos. Isto. nessa convivência agradável que estamos tendo. de madrugada. Devemos lidar com os loucos. à lama. não é isto) para a ação da caridade vivida. muita gente me vê.

276 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T possa ingressar na vida terrena sob os melhores cuidados médicos e hospitalares. aos poucos. nem sempre o ser humano logra atingi-los. Entretanto. a morte deveria ser cercada de maiores pre- parativos. acabou! Todavia. à educação e instrução. reduzindo-o a um simples automatismo fisiológico. Tem-se um lugar para viver. No Egito Antigo. para que o homem melhore a sua qualidade de vida. des- pojou o momento solene do desprendimento carnal de sua gravidade. à moradia. Há uma luta social muito intensa. apenas um depósito de pacientes termi- . também. incluindo. Os Direitos Humanos reconhecem e proclamam o di- reito à vida. Um lugar para morrer. Morreu. em todo o mundo. Um lugar para morrer! Poder-se-ia dizer: morre-se em qualquer lugar. a Humanidade ainda sofre profundamente as seqüe- las de seu próprio estágio evolutivo. entregando-se a toda sorte de loucuras e. de um melhor cuidado. A civilização ocidental. é óbvio. os esforços. do seu cunho espiritual. Para morrer não há necessidade de um local especial. a tendência geral são para que ele sobreviva tendo os seus mínimos direitos respeitados. a morte era cercada de solenidades. Quase todas as civilizações antigas mantinham os ritos da morte. porquanto o homem continua sendo o "lobo do homem". infelizmente. vai traçando o mapa das suas dores futuras. Não obstante todos esses direitos serem reconhecidos. Mesmo assim. Os rituais severamente cumpridos e preservados visavam a propiciar ao morto um feliz ingresso nas paragens espi- rituais. o zelo com os que estavam para abandonar o corpo físico. não seria. dos quais é herdeiro. dilapidando os bens terrenos. no conceito de Divaldo Franco. a fim de proporcionar ao homem um retorno mais equilibrado à Pátria verdadeira.

Ele narra a sua vida. engalanando-se de flores e recebendo a visita dos Benfei- tores da Vida Maior. da presença ale- gre dos amigos. Exercício de amor que mantém em secreto. onde. timidamente. Os cômodos se ampliavam. Muito mais que isto. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 277 nais. o pórtico de libertação para os aflitos e desesperançados. afastado dos olhos do mundo." A simplicidade do ambiente. algumas das mais belas e dolorosas lições da vida. E o faz agora. todo o tempo. de "seus" as- sistidos. Três anos onde se exercitou na prática do amor. quando amadurecido espiritualmente. aos poucos. Um local que fosse a fronteira entre os dois mundos. . ao lado de Nilson e outros amigos. Durante três anos ele viveu a idéia e o ideal. Ele fala de "seus" doentes. exemplificou e viveu tudo quanto pregou. com o único fito de não os deixar ao relento. * * * Divaldo fala de vivência espírita. bem mais confortáveis que a calçada fria das ruas. Entretanto. pensou o jovem Divaldo. No instante das preces e após as breves preleções e conversas. a pequenina "Casa de Jesus" se revestia de luz e se tornava suntuosa. ainda assim. e tanto lhe era significativo esse local que o chamou de "Casa de Jesus. De viver o Cristianis- mo puro. Divaldo fala de suas experiências mais intensas no campo do amor ao próximo. sob as marquises. o teto era o céu estrelado e a casinha flutuava em meio às luzes. de seguir as "pegadas do Nazareno". deixa entrever essas experiências. Uma casa para morrer. ao longo desses quatro decênios. Três anos onde colheu. sabe que. o leito humilde era forrado do mais puro sentimento de amor. a pobreza das instalações eram.

todos os dias. os vícios. entre o bem e o mal e tem. do cansaço. é o viandante que percorre as trilhas da loucura.278 SUELY CALDAS SCHUBERT Na sementeira de luz e de esperança. Onde está a Humanidade? Dorme ao relento sob as marquises. entre sedas. a violência. Semear estrelas nos corações humanos! Deixar um ras- tro de estrelas para a Humanidade. está paralisada no leito da ignorância. desajeitadamente. em total doação. a face da dor. de amor e de paz que realiza. do não ser. pois ele próprio se consome. ou habita o luxuoso edifício. é o homem à procura de si mesmo! A "Casa de Jesus" é o pórtico do mundo e simboliza o pólo convergente de todas as buscas humanas. atravessa as es- tradas do mundo equilibrando-se. profusamente. nós sabemos que tais sementes deixam um rastro de estrelas. debate-se em convulsões na agonia do não ter. . muita vez. para que elas cintilem. no exercício do amor. onde oculta. o desamor.

é necessário reali- zar o árduo ministério da semeadura além-fronteiras dessas mesmas bases. está identificando e iniciando a sua programação espiritual. Trata-se. não apenas de uma tarefa localizada. É importante atentarmos para a amplitude desse pro- grama da Espiritualidade Maior. de âmbito na- cional. A Espiritualidade Maior é pródiga em orientações. 33 AS DUAS MENSAGENS O que se vai ler. muito jovem. Divaldo. arregimentar os trabalhadores. O plano espiritual prevê uma abrangência muito mais ampla da semeadura. até mesmo. em seguida. um momento histórico na vida de Divaldo Franco — vida que é por si mesma parte da história da Doutrina Es- pírita no Brasil e no mundo. Todavia. . con- solidar as atividades — para isso surgem o Centro Espírita "Caminho da Redenção" e. posteriormente. Primeiro é preciso estruturar e estabelecer as bases do labor. reflete um momento es- pecial. a "Mansão do Caminho". avi- sos. Durante quinze anos o programa se consolida. centrada em uma determinada região ou. mensagens. formar equipes. a obra defini- tiva. É o início da década de 50.

É por essa época que Divaldo recebe as duas mais ex- pressivas mensagens que o Mundo Maior envia. em clima de lutas. O labor se realiza entre risonhas perspectivas. mas pleno de esperanças benfazejas. .280 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T É o período da fartura. sim. E das chegam às suas mãos pelos canais mediúnicos de Chico Xavier e Pietro Ubaldi. da abundância. enirc sorrisos e promessas. Essas mensagens levam a assinatura de Francisco de Assis.

Perseverança no bem. Não te iludas. como abençoado programa de cada dia. Estamos a pleno caminho da redenção. quando fugimos à luta. visíveis e invisíveis do pretérito. Nem os receios do início. Seria irrisão. Nem nos enganemos. CHICO E DIVALDO - A PRIMEIRA MENSAGEM Meu filho. Defrontados por imensa assembléia de adversários. o poder em nossas mãos apaixonadas . Ontem. quanto a frutos imediatos do trabalho reajustador. . A única renúncia destrutiva. Trabalho por todos os lados. Nem as revelações do fim. valíamo-nos da inteligência para oprimir e per- turbar. é o nosso lema. sobre o repouso. pois. agora. é aquela que nos marca por almas ociosas e enfermiças. . Ontem. Imprescindivel caminhar agindo na sementeira subli- me do futuro. por vazia e inútil. não nos cabe a desis- tência. 34 FRANCISCO. Deus te abençoe.

sempre mais. em ação intensiva na tarefa do es- clarecimento e da caridade. nos guarda. Não desfaleças. Avançar em execução dos Divinos Propósitos é nosso dever. ago- ra. buscamos o poder de servir e auxiliar. Toda a expressão de amparo aos nossos semelhan- tes é de nosso apostolado. de novo. senão por prêmio a suor e à dedicação. por acaso. Continuemos. Em cada trecho da estrada. que se transformaram em legítimas assembléias de socorro espiritual. de frater- nidade e de amor. em nome dAquele que é o Amor mesmo. ligada ao nosso coração e à nossa mente. Temos compromissos Não nos congregamos aí agora pela primeira vez. Há centenas de trabalhadores invisíveis em função de auxílio constante ao "Caminho" e à "Carava- na". depois de quatro séculos de civilização bahiana e brasileira. na atualidade. O tem- po. valorizamos os recursos intelectuais. na obra da caridade sem fronteiras e sem limites. de esclarecimento benéfico. Esperamos que todos os irmãos se mantenham a postos. que a colheita não vem ao nosso campo. filho meu. para que os dias para nós. roga- ríamos ao conjunto mais esforço e mais agilidade na la- voura do cristianismo aplicado. . . e. que o tempo guardou. sejam efetivamente marcos redentores. compassivo agente da Infinita Bondade. transbordando luz no sa- crifício pela Humanidade inteira. . Todos os nossos centros de ação prosseguem ativos e bem inspirados na direção do bem. É preciso que a esponja do trabalho incessante funcione em nossas mãos.282 SUELY CALDAS SCHUBERT e rudes. contudo. sob a sua custódia a fim de nos desdobrarmos com o seu concurso. Não nos acha- mos reunidos. mas não ignoramos. seremos surpreendidos pelas vibrações das nossas próprias obras. Façamos de nossa parte. espalhando o temor e muitas vezes o sofrimen- to. Hoje. Se uma nova dire- triz nos fosse facultado trazer aos companheiros.

o abrigo. que outros permaneçam no país do entretenimento co- lhendo flores passageiras para a curiosidade leviana ou insatisfeita. reconstrói a minha casa. seja o nosso motivo de cada hora. Que outros discutam à frente do Cristo. Francisco Bernardone ouve uma voz a conclamá-lo: "— Francisco. na an- gústia da busca. na obra cristã que o Espiritismo nos descerra. "— Francisco. pois. Cada qual se sintoniza com as situações a que confia o próprio coração. Há sete séculos atrás. Francisco (Mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier. com res- peito à sua missão terrena. minha casa ameaça ruína. Neste propósito e formulando votos para que nos unamos cada vez mais. reconstrói a casa de pedra. a casa de traba- lho. através de dois médiuns diferentes. n o dia 3 de outubro de 1950. a assistência aos sofredores. A minha Igreja!" .) Aos vinte e três anos. Divaldo recebe a primeira das duas mais definitivas provas que a Espiritualidade Maior lhe endereçou." Reiteradas vezes ela se repete e o "poverello". abraça-te com muito carinho o velho com- panheiro. Vai. Mas que o serviço ao pró- ximo com Jesus por norma sublime. e repara-a. o templo da fé. em Pedro Leopoldo. o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho são faces do nosso ministério que não pode- mos esquecer. O S E M E A D O R DE ESTRELAS 283 A escola.

Alcança-o. Vai ao encontro de Francisco e lhe estende a mão. As estradas da Ümbria estão em toda a parte. Quão longe ainda estamos da Igreja do Cristo! A voz de Francisco atravessa o tempo e ecoa em plena era nuclear. porém. 0 homem segue. Ou levam às periferias onde os barracos se apertam para existir. ou outro elemento radioativo. O edifício de luxo ou o barraco de taipa podem abrigar a mesma miséria moral. asfal- tadas e repletas. a Casa? Onde a Igreja a ser reconstruída? Na claridade do dia. Aloísio. ao peso da dor. Onde. reconstrói a minha Igreja!" Francisco desperta! Corre ao encalço do viandante le- proso. abraça-o e o beija — e encontra a Igreja do Cristo! Francisco aponta a Divaldo o mesmo caminho. na estrada poeirenta. A caridade da esmola é feita. ou que nome tenha.284 SUELY CALDAS SCHUBERT Atender ao pedido é a meta de Francisco. Os andarilhos nem sempre estão rotos e mal-cheirosos. O andarilho de hoje chama-se André. Tem a pele em chagas purulentas — é a face da miséria e do sofrimento humano. vacilante. Um homem caminha. "— Francisco. E no pequeno trajeto que tem de transpor para chegar até ao homem ele percorre todos os caminhos do ser humano ao encontro da Verdade. Pode estar sob a marquise tentando um lugar para morrer. . Francisco descobre. Morre-se de lepra e de contaminação por césio. embora distanciados pelo nível social.

além de amparar. propiciar-lhes recursos para que não mais se deixem contaminar pelos elementos negativos. A "Casa de Jesus". E prossegue: "A escola. o templo da fé. "Toda a expressão de amparo aos nossos semelhantes é de nosso apostolado" — escreve Francisco. A Igreja do Cristo ameaça ruína! Construí-la é muito mais do que levantar abrigos para os viandantes dos vícios. É. Tenta-se preservar os Direitos Humanos. são empurradas para a margina- lidade. entre as casas da . o asilo aos inválidos para a luta física e a proteção às criancinhas ao sol do Evangelho. o abrigo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 285 Cura-se a hanseníase e surgem as chagas da contami- nação radioativa. para as modernas megalópoles ou para as províncias anônimas. enquanto a obsessão grassa em larga escala. Francisco. des- conhecida da maioria. sobretudo. são faces do nosso ministério que não podemos esquecer. aos milhões. É ter o amor que liberta da escravidão moral e trans- miti-lo no engrandecimento do ser humano. de Assis. a casa de trabalho. através de Chico. e as crianças. É acordar o homem para as realida- des superiores da vida. desenvolve esforços para des- pertar o homem. Os gabinetes psiquiátricos e os estudiosos do assunto pesquisam a melhor forma de manter a sanidade mental do homem. Divaldo começa a construção. indimensional. a escola. a casa de trabalho. derrubada pela maré. um por um foram sendo construídos. a assistência aos sofredores." O abrigo. todavia. o templo da fé. o aborto é encarado como prática normal e saneadora. mais que fornecer-lhe a esmola da caridade. enterrada na lama. É esclare- cer. ressurge intemporal.

esquivou-se. como investigadora. quando gravava um de seus depoimentos para esta obra. Transcende ao espaço físico para se tornar uma forma de ser e de viver. . Dir-se-ia que toda a vida de D i v a l d o está aí registrada. grafadas c o m a letra inconfundível de nosso tão querido Chico Xavier. A Igreja do Cristo é o ser humano. — Qualquer dia desses. Suely. durante vários anos. a ponto de atrasar o término do livro. Divaldo nada quis contar a respeito. ficamos meditando em como teria sido a reunião mediúnica em que Francisco se comunica através de Chico e. pelo menos tentar. de todas as formas possíveis. depois. começamos a viajar no tempo. pois cada página expres- sa um marco de tempo. a Ofi- cina. São muitas e muitas mensagens..286 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T "Mansão do Caminho". na "Mansão". Ê a casa de Jesus. Emocionada. isto é. a Escola. — Aí estão — disse-me — as mensagens que me foram endereçadas. estudiosa e prati- cante insipiente da Mediunidade. o Templo. especialmente. A Igreja do Cristo são o Lar.. Quando nos encontrar- mos com mais calma — respondia-me. desde a Pedro Leopoldo das primeiras horas. o Abrigo. Por dois anos consecutivos tentamos obter dele as informações sobre as duas comunicações. através da psicografia de Chico Xavier. de Ubaldi. Enfim. delicadamente. Pessoalmente. É onde "morre" o homem velho e "nasce" o homem novo. da Era do Espírito. É o local para morrer. que Divaldo nos entregou uma volumosa pasta. — Preciso saber como foi — dizia-lhe — para "entrar no clima" e fazer os comentários à altura. o Hospital. Foi em Salvador. É Amor. Adiava e prometia mais para frente.

É uma voz amiga. . Pode-se imaginar quanto e quando?. . pensamentos. Francisco. Por certo não é uma voz desconhecida. Divaldo explicava o significado de cada uma delas e descrevia o momento feliz do seu recebimento pelas mãos abençoadas de Chico. O SEMEADOR DE ESTRELAS 287 Durante um período muito feliz elas chegaram e esti- mularam o jovem destinatário à concretização de seus com- promissos e ideais. . como também poucas pessoas têm conhe- cimento da existência dessas páginas. quase meni- no. Ela vem lhe falar através da psico- grafia. Chico. jovem. Ao nosso lado. nos acorreram: — Meu Deus. Ubaldi e Divaldo se reencontram e se reconhecem. Sei que ele permite. Também Chico Xavier e Pietro Ubaldi a reconhecem. É difícil descrever a nossa felicidade e emoção enquan- to líamos as belas palavras que o médium mineiro captou. que sejam divulgadas por in- sistência nossa e argumentos de que não mais é possível mantê-las fechadas em pastas e gavetas. A candeia não deve permanecer oculta. Não é um som estranho. Num átimo. uma surpresa maravilhosa! Nada sabía- mos a respeito. é Francisco mesmo! Que beleza de men- sagem! Que emoção devem ter vivido. Há quanto tempo?. portanto. Foi assim que descobrimos a mensagem de Francisco.. hoje. Francisco. que ele já ouvira antes. e se fazem instrumentos da mensagem para aquele que chegando e inicia o seu testemunho terreno. que significa isto? Jesus. Chico e D i v a l d o . os mais diversos. eu agradeço-lhe por estar lendo isto! Foi. Há quase quarenta anos. ouve a "sua voz".. precisa ser colocada bem alto para que a sua luz se projete à distância. Divaldo.

com- preenderia também que tudo significa beneficiar a si pró- prio. Por isso minha pala- vra é breve. como tu fazes. Esta é a palavra à inteligência daqueles que cal- culam por interesse. UBALDI E DIVALDO - A SEGUNDA MENSAGEM Ao Divaldo O meu instrumento está cansado. Coragem! Eu amo a todos quantos lutam pelo bem. como jamais de algum outro modo se pode fazer. porque eles oferecem por amor e no amor tudo se transforma em alegria. Continua a tua obra santa. ajuda quem sofre. Ama o próximo. mas te basta. Mais felizes aqueles que fazem o bem por amor. Então. 35 FRANCISCO. Semeia o bem e o bem voltará a ti. Sabe lutar e sabe sofrer melhor. a bênção de Deus está sobre ti. . Se o mundo só compreendesse esta grande lei: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". felizes eles. mais que todos os felizes. sabendo tudo e com tudo melhor lutarás e vencerás. e a grande cidade na qual ele se encontra está cheia de vibrações contrá- rias a que minha voz desça até vós.

Sê tu um dos escolhidos para esta grande transfor- mação do mundo. isto é. Vai. continua e não temas. como está com todos os bons e isto vale mais do que qualquer riqueza. recebida em São Paulo. poder de armas ou de dinheiro. Sabe que Deus está contigo. José Passini) . (Mensagem da "Sua Voz". O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 289 Assim. Sobre ti está o olhar do teu amigo Francisco. para o amigo Divaldo Pereira Franco. Será contigo a paz eterna que só Deus pode dar.) 4 de outubro de 1953 Pietro Ubaldi (Tradução do Prof. o paraíso. desce à terra o Reino de Deus.

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Esse fato encerra. A palavra de "Sua V o z " . Era o dia 4 de outubro de 1953. a vi- vência mediúnica de Ubaldi frente à juventude e aparente inexperiência do médium baiano. mas o fato da presença de Francisco na vida de Divaldo. por intermédio de "Sua V o z " . Reencontro? Certamente que sim. todavia. diante de Ubaldi. Ela tem. Joanna de Angelis supervisiona e inspira. Sabem os Numes Tutelares que. como a corroborar não a esplên- dida captação de Chico Xavier. por essa época. Nilson está presen- te desde as primeiras horas. três anos após a primeira. recrutando-os ao longo do caminho. Todos chegam a seu tempo e trazem compromissos bem traçados e precisos. E essa palavra. essa presença. Divaldo estaria definindo a sua jornada terrestre. que está iniciando o seu testemunho terreno. arregimentando os primeiros companheiros de equipe. Um jovem de vinte e seis anos — que recebe da mais Alta Espiritualidade o estímulo e a confirmação de sua missão terrena. estabelecendo as bases de todo o seu labor. um significado tão ex- pressivo que nos escapa ao entendimento. dessa segunda vez. fiel representante de Francisco junto aos pupilos em aprendizado e testemu- nhos.292 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco de Assis volta a ditar outra mensagem ende- reçada a Divaldo. convocado que foi para o im- prescindível trabalho de apoio e sustentação. O programa espiritual está em curso e é muito vasto e abrangente. para que ficassem indelevel- mente marcadas. seria preciso que ela chegasse novamente. D i v a l d o aí está. trazendo o apoio de Francisco. em Divaldo. pela psicografia de Pietro Ubaldi. como sucede com Chico Xavier. o porta-voz de todo esse pro- . E o faz. a nosso ver. devem chegar nos anos dourados da juventude física. três anos antes. A maturidade. deve chegar a Divaldo. O primeiro já o fizera. Naquele momento dois médiuns estavam aptos a captá-la.

como tu fazes" — afirma a mensagem de Francisco. com desvelo e firmeza. tens medo?" Ele ouve a interpelação e busca entender o programa do Senhor para a sua vida terrena. inspira-o a fim de que o ideal se transforme em realidade de bênçãos. Ter o ideal do Amor por fanal. ao mesmo tempo. Amor ao semelhante. a Verdade! "— Cavaleiro de Cristo. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 293 grama e. Amor ao Ideal Maior — que é Jesus. Realizar o bem por amor. é um marco de luz para o jovem médium. enquanto se pre- para para exercer a sua excelsa missão. O encontro com Pietro Ubaldi é breve. apresentando-se pulcro e digno para o ministério. "Felizes aqueles que fazem o bem por amor. Despojar-se dos bens materiais. Metas que Divaldo alcançou e vivencia nesses seus quarenta anos de mediunato. desnudar-se interior- mente diante do Divino Amigo. tens medo?" As vozes questionam e infundem ánimo. mostrar aos homens o caminho. ouve as "vozes dos céus". erguer a Sua Igreja. ante a aproximação daquele que se apresenta como amigo de um tempo imensurável. a luz." O que representa isso para um moço de vinte e seis anos? * * * O jovem filho de Pedro Bernardone. Trinta e cinco anos atrás ele recebe a palavra de "Sua V o z " que lhe diz: "Sobre ti está o olhar do teu amigo. Amor ao próprio Bem. "— Cavaleiro de Cristo. Jesus o chama para o apostolado do Amor. Francisco. O reencontro de almas. Por certo que as lembranças do passado emergem no seu psiquismo. . no entanto. restaurando-a na sua primitiva pureza.

. Por certo Di- valdo a ouve e a identifica. tens m e d o ? " . Não há medo em seu coração. Demonstra. seres humanos. Sete séculos depois ele fala aos homens. no futuro que se delineia. para nós. "— Cavaleiro de Cristo. "— Cavaleiro de Cristo. que tem os seus alicerces no Amor e. É esta coragem de "Cavaleiro de Cristo" que um dia o leva às estradas do mundo para no- vamente empreender a construção da Sua Igreja. sendo o "Caminho. toda a cora- gem da fé. Eis o desafio que ele aceita e vence. então. a Ver- dade e a Vida" nos levará até ao Pai. . porém a certeza do caminho a seguir. do suor e da dor — os materiais de construção que a Humanidade escolheu para atender ao chamado daquele que. A sua voz ecoa nas estradas humanas. Guarda na alma a coragem da fé e isso o fará arrostar todos os obstáculos. está sendo erigida com a argamassa das lágrimas. ele também não se amedronta. tens medo?" Não.294 SUELY CALDAS SCHUBERT Francisco está pronto. transcendente. . A Igreja intemporal.

. Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre.. cada dia. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores. filho.. Lutas cegas. Amargores.. Ambições.. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —... 36 PÁGINA A DIVALDO Bendize.. Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! Espinheiros. AUTA DE SOUZA (Soneto psicografado por Chico Xavier... as dores que carregas Para consolo das alheias dores.. Ansiedades. em Pedro Leo- poldo. em 13 de outubro de 1953) .. Pesares... em nos ferindo nos socorre! Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. que. Exaltando a aflição que te ilumina.

Louva os dardos e os golpes remissores Do caminho de luz a que te entregas! . Realmente. o fruto sazonado. O jovem baiano acorre. para o lado daquele que o orienta e em quem vê e sente o amigo que- rido. Foram anos de bênçãos e de alegrias santificantes. enquanto havia tempo e possibilidade de rea- lizarem o intento. da antena de luz de Chico Xavier. então. Auta de Souza vem e escreve versos de luz: Bendize. já em Pedro Leopoldo. Esses Amigos e Benfeitores da Vida Maior estão a seu lado e. embora ele tenha ciência disso. As "vozes dos céus" se fazem ouvir e pronunciam as mais belas e doces palavras de estímulo. Na época certa. Tudo vem a seu tempo.. de apoio e orien- tação. por último. filho. com freqüência. E o "bom combate" o encon- tra. alerta Jesus. depois a espiga e. o grão cheio na espiga".. as dores que carregas Para consolo das alheias dores. mais adiante. é presenteado com um belíssimo soneto de Auta de Souza. desejam que tenha a comprovação através de outro medianeiro. Tinham pres- sa de fazê-lo. enquanto se prepara para os testemunhos que virão. Divaldo. Utilizam-se. que lhe irão propiciar os "grãos cheios na espiga". "Primeiro a erva.296 SUELY CALDAS SCHUBERT Nove dias após receber das mãos de Pietro Ubaldi a mensagem de "Sua V o z " afirmando-lhe o apoio de Fran- cisco. fortalecido na fé e revestido da "cou- raça da caridade". os anos 50 foram marcantes na vida de Divaldo Franco.

É o nosso 'campo de sombras" pessoal. que... É cedo ainda. as enfermidades do corpo e da alma. acender a luz da esperança onde jazem os desiludidos.. e no qual prosseguirá pela vida a f o r a .. Trilhar esse caminho é tarefa sacrificial e heróica. íntimo. mas o "campo de som- bras" já está sendo percorrido por Divaldo. Conviver com os sofrimentos humanos. estender o esclarecimento aos que ignoram. Lutas cegas. são os vícios e degradações que campeiam por toda parte. Não te afastes da cátedra divina — A Cruz —. na tentativa de minorá-los. São as mi- sérias morais e sociais que nos envolvem. as dores. na sua missão de pregar o "Eterno Amor de todos os Amores"... Prossegue Auta: Exaltando a aflição que te ilumina. .. falar do amor e doá-lo aos que estão famintos de afeto — semear estrelas na escuri- dão da noite! Este o "caminho de luz" que o jovem mé- dium está abrindo entre as sombras do campo terrestre. São as injustiças. Ambições.... É impressionante a forma como a poetisa enfoca o trabalho de amor a que ele se entrega. O "campo de sombras" é o nosso mundo. Poucos se aventuram a fazê-lo. . na idade terrena. Eis o campo das sombras onde pregas O Eterno Amor de todos os Amores. O res- quício do passado. quem se dedica a consolar as dores alheias também carrega as próprias dores.. Pesares. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 297 Espinheiros. Amargores. despertar a fé dos que negam até a si mesmos.. Entretanto. em nos ferindo nos socorre! . .. mostrar a rota àqueles que a perderam. Ansiedades. os compromissos que assumimos en- quanto no trânsito da marginalidade das Divinas Leis. que estão ao nosso lado.

portanto. A cruz é a lição viva do Amor que redime e liberta. representa a sua opção pes- soal de vida. cada dia. Está presa ao Gólgota das misérias humanas. no caso de Divaldo. . de tal forma que ele não se permite a mínima variação — já não digo nem uma fuga — ao padrão que estabelece para sua conduta comportamental. tudo isto é vivido com profunda alegria. de que a imensa maioria. Mas. malchei- rosos. na vertical sublime da redenção humana. Sendo. A cruz. a dedi- cação plena e em tempo integral. Expressa ainda a ação contínua. as aventuras e emoções. A cruz é a cátedra divina. uma escolha pessoal. o madeiro da agonia infamante. Essa a "cruz cósmica". Não é. Através dela Jesus leciona a sublime lição da renúncia. as festas. a disciplina austera. A sua missão é perfeitamente traçada e mar- cante: ele elege para si a vivência do bem junto dos que sofrem. à horizontalidade dos homens. sem a mais leve queixa. porém se projeta no espaço. o baru- lho do mundo. do perdão e do Amor. nem de leve. E esse é um ministério de renúncias e sacrifícios íntimos. se apercebe. Enquanto a juventude escolhe o estudo. perseverante. Com o Cristo encontra o Amor que nunca morre. pois. Necessário entender bem o que Auta de Souza quer dizer com este verso.298 SUELY CALDAS SCHUBERT Quem com o Cristo padece e renuncia Aprendendo e servindo. Não é o instrumento de suplício. no dizer de Huberto Rohden e que bem expressa a transcendência desse símbolo. mas de total redenção. alguém — da mesma faixa — prefere atender os que estão maltrapilhos. desiludidos. A Cruz — cátedra divina. todas as dificul- dades que daí advêm são superadas por um sentimento mais profundo e maior: o do amor.

enfrentados e superados com a compreensão de quem elegeu esse caminho e o perlustra na experiência permanente de uma profunda verticalidade. . pertinentes às pró- prias lutas terrenas no plano horizontal — a "cruz telúrica" — e recebidos. entenda-se bem. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 299 Os sofrimentos que resultam desse labor apostolar. des- sa vivência crística são.

à margem. Emocionado. com um lago próximo. pro- jetava alguns de seus galhos sobre as águas. é testemunha. Tudo em volta era silêncio. no mês de junho. de súbito. venha ver. Foi no ano de 1957. sua irmã. e que me marcou muito.) Uma figueira enorme. mas. cujas águas brilhavam como se estivessem salpicadas de estrelas. para minha grande surpresa. Eu estava na temporada anual de palestras do Rio. . já não mais aí estava. reconheci o local e verifiquei ser o Mar da Galileia. formando. Ele olhou para o céu. davam-me a impressão de que este perfil era em alto-relevo. eu tive a sensação de que as nuvens. frondosa. contra o fundo azul do céu. tive um desdobramento que me causou um grande impacto. um enorme perfil de Jesus.AS TRÊS QUESTÕES Eu me recordo de um fato que aconteceu na casa de Celeste Mota. e de que Lena. Aí. numa noite. As nuvens muito brancas. nesse lugar. venha ver Jesus. quando. se movimentaram de forma diferente. quando olhei também. onde a Natureza se fazia mais bela e o céu mais azul. paz. quando estive na Palestina. eu me dei conta de que Nilson estava pró- ximo e lhe disse: — Nilson. bucólico e encantador. Eu me senti sair do corpo e via-me numa paisagem verdejante. que ainda está en- carnada. (Mais tarde. serenidade. 37 JESUS .

eu não me lembro de males que me estejam fa- zendo — disse. como se fosse um tecido de calhamaço. a uma atitude de respeito. Os homens se ajoelham diante de homens. Tu sabes que eu Te amo. (O conceito que eu tenho do Cristo fez- me voltar ao atavismo da Igreja.) Nesse instante ouvi uma voz indefinível. a custo. (Mas. seu olhar me fitando. Ele virou o rosto e fez um perfil em ângulo reto sobre o ombro direito. de tal jeito que. eu me prosternei. o porte majestoso. e eu te darei a plenitude da paz • . eu Te amo — respondi. enquanto chorava profundamente. tive a impres- são que era uma música. automaticamente. de for- ma que eu O via de lado. Eu achei que a única postura compatível era aquela — de submissão e de entrega. Ele perguntou-me: — Tu me amas? — Sim. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 301 E assim. envolvido pela emoção incontida. emo- cionado. esquece todo o mal que te fizeram. de reis e de certas autoridades. digamos. mentalmente. um som que não sei precisar. Senhor. — Então perdoa todo o mal que te fizerem. os cabelos caídos sobre os ombros. oh! Senhor. como . vi o vulto diluir-se dian- te dos meus olhos.) Ele voltou a perguntar: — Tu me amas? — Sim.) E Ele me perguntou por terceira vez: — Tu me amas? — Sim. de costas. (Mas ninguém nunca me fez mal — pensei. — Então perdoa todo mal que te façam. que se usou muito em saco de aniagem. Então. a menos de cinco metros de onde me encon- trava. de cor marrom. banhado em lágrimas. Eu me lembro da sua roupa de tarja marrom escuro.. — Se tu me amas. pairando a um metro no ar. ou. estava Ele. Estático. Tu sabes que eu Te amo.

que os Bons Espíritos usa- ram. Era madrugada. Quando acordei. instantânea ou gradual. meu filho. pelo teu espírito de serviço à causa do Bem e da mediunidade. de muitas dificuldades. na sala. à dignidade. Em certos casos.302 SUELY CALDAS SCHUBERT se a minha vida se estivesse esvaindo na ânsia de segui-10. de retê-10. A vida de Jesus é o permanente apelo à mansidão. para me dar aquela impressão impactante e inesque- cível. a vida me ensinou que isto é o prenúncio de muitas dores. Mas nem todos atenderam ao Seu convite. tu irás sofrer muito. Para outros. estava em pé. Eu tenho a certeza de que foi um fenômeno ideoplástico. Nem de longe. à verdade. Celeste me disse: — Olha. foi necessário o trabalho laborioso dos séculos. o encontro definitivo não ocorreu logo. Foram palavras proféticas. Pela manhã contei a Celeste e a Lena. Pela tua dedicação. Mas. Amélia Rodrigues assim se ex- pressa: "O maior amor que o mundo conheceu. O exemplo mais fecundo que jamais existiu. nenhuma dor nunca me abateu. graças a Deus. Amá-lO é começar a vivê-10. abso- luta. . ao amor. porque vive até hoje. Ê óbvio que eu não tenho a ingenuidade de supor que se tratava de Jesus. todavia. Não pude dormir mais." (Pri- mícias do Reino) Várias personagens do Evangelho tiveram o seu encon- tro com Jesus. Referindo-se a Jesus. Em alguns operou-se uma transformação radical. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração.

. para ele. contudo. um programa espiritual que recebe a atenção de Francisco de Assis." Em certo momento a descoberta se realizou — plena. Tem um compromisso.. psicografados por Francisco Cân- dido Xavier. A história deste é por demais conhecida através dos belos romances Há Dois Mil Anos e Cinqüenta Anos Depois. no tempo de antes. tal a sua magnitude. o príncipe de qualidade. também aconteceu. Como teria sido. Todavia. Conhecê-lO é plasmá-10 na mente e no coração. daí a uma semana. Desse encontro e desse amor a Jesus. O SEMEADOR DE ESTRELAS 303 Dois exemplos muito significativos são o do mancebo rico e o de Públio Lêntulus. faz a sua dramática opção. as mar- cas significativas desse encontro. particular. em sua narrativa. o seu encontro definitivo com o Rabi? Quando? Onde? "Amá-10 é começar a vivê-10. intensa e feliz! * * * Divaldo Franco traz. nas corridas. O evangelista Marcos. absoluta. . O jovem príncipe. então." É-nos difícil imaginar o quanto isto significa. constrói a sua vida. pode-se sentir o quanto o encontro com Jesus repercute no íntimo do jovem. Analisando a narrativa de Amélia Rodrigues a respeito dessa personagem do Evangelho. não foi o suficiente para vencer-lhe as últimas resistências da vida material. E vai ao encontro da morte. que. em sua atual reencarnação. Do moço rico. quase nada se disse até agora. Por Ele renuncia a uma vivência pessoal. registra o sen- timento do Mestre em relação ao moço rico: "E Jesus o amou.

de um caráter muito singular. Algo que marque definitivamente o seu com- promisso com Jesus. as madrugadas insones quando "conversa com uma estrela". a angústia/inquie- tude.304 SUELY CALDAS SCHUBERT Por certo ninguém lhe conhece as renúncias. nos dias futuros. assim. E esse fato vem a ser corroborante deste. que agora analisamos. a figueira enorme. nesse conturbado planeta Terra. a presença de todas as personagens que o integram. por motivos óbvios. nesse desfile de invulgar beleza. as lágri- mas ocultas. Francisco vela e observa-lhe os passos. uma demonstração ainda mais forte e expressiva. Bem jovem. a figura do Mestre. Eviden- cia-lhe a autenticidade. no capítulo 11. Divaldo recebe da Espiritualidade Superior recursos em profusão para le- vá-la a bom termo. a solidão de quem avança e se afasta da craveira comum. O céu atrai-lhe a atenção. fluidicamente. Neste livro. Divaldo menciona que ao terminar de psicografar o Primícias do Reino. . C o m - preende-se que ela não coloque aí. Assim preparam para o jovem baiano um acontecimen- to muito especial. reveste-se. embora permaneça de mãos estendidas para os que tentam acompanhar-lhe os passos decididos ou para os que ainda não sabem o caminho. O mar da Ga- lileia. exceto Jesus. É preciso. todavia. os silêncios íntimos para que fale mais alto a missão de servir. de quem persegue denodadamente um ideal su- blimado. à margem. no começo da caminhada. O cenário é aquele em que Jesus atuava. enfim. O desdobramento de Divaldo para que possa ver as ce- nas fluídicas plasmadas pelos Benfeitores Espirituais e que representam o seu encontro com Jesus. Amélia Ro- drigues o leva em desdobramento para um recanto da pró- pria " M a n s ã o " e aí plasma. Sabem os Instrutores Espirituais que muitos e doloro- sos testemunhos lhe serão pedidos.

Senhor. O SEMEADOR DE ESTRELAS 305 As nuvens se movimentam e formam um imenso perfil de Jesus. Repete. Suely. evidenciando distintamente a gran- diosidade da cena vivida por Divaldo. eis que Jesus já não está mais no espaço azul. amas-me mais do que a estes?" — indagara certa feita o Mestre. Ei-10 a alguns metros de distância. Senhor. deve emergir das profundezas do ser perante a superioridade dEle em con- fronto com a nossa — minha — posição) são sensações que parecem esmagá-lo. ou seja. quantas se fizerem necessárias. respeito. então. emoção." . Jesus repete novamente a pergunta: "—. Amor. porém. Tu sabes que Te amo. É o pre- núncio de sua chegada. bem próximo e com um aspecto real. filho de Jonas. Tu sabes que Te amo. "— Sim. amas-me? — Sim.Simão. — Apascenta os meus cordeiros. Naquele instante. leciona o perdão no passado. no perfil de nu- vens. * * * "Simão. colocada em três tempos do verbo. O jovem ajoelha-se — única atitude que lhe parece pró- pria ante Ele. Um dia Ele ensinou que se deve perdoar setenta vezes sete vezes. a an- gústia/inquietude. que eu. Jesus tem algo que lhe dizer. três vezes a indagação. Mas. por certo. É a lição do perdão. julgo. no presente e no futuro. — Apascenta as minhas ovelhas. Ao chamar Nilson para que observe o fato. em que o Mestre desce dos altos planos espirituais para se fazer presente. para transmitir-lhe a lição imprescindí- v e l . filho de Jonas. Maravilhoso simbolismo este. felicidade (e.

E de confortá-lo para os embates e dores futuras. Ele lhe aparece e transmite inolvidá- vel lição. o mesmo poder de aprofundar na sua mente as responsabilidades e compromissos que assumira. — Apascenta as minhas ovelhas. Conjecturando consigo mesmo. sabes que eu Te amo. Certamente. nos instantes cruciais. Pedro teria dedu- zido se: "Estas três indagações não seriam. no livro já mencionado. tu me amas? — Senhor. Divaldo retemperava as suas energias na rememorização desse en- contro sublime. quando a calúnia e a per- fídia dolorosamente tentaram interceptar-lhe os passos para impedi-lo de cumprir o seu programa espiritual. para aprofundar nos painéis de sua mente os vínculos do seu dever?" * * * A mensagem implícita nas três perguntas feitas a Dival- do. Agora. "— Tu me amas? Então perdoa todo o mal que te fizerem e eu te darei a plenitude da p a z . É notável a analogia com a passagem de Simão Pedro. Tu sabes tudo. lembrou-se. vive a cena e se banha em lágri- mas de emoção. " . que Simão Pedro ouvindo a mesma pergunta do Mestre por três vezes consecutivas. .306 SUELY CALDAS SCHUBERT E pela terceira vez Ele questiona a Simão Pedro: "— Simão. têm." Elucida Amélia Rodrigues. por acaso. igualmente. prosternado. quando as agressões insensatas lhe foram endereçadas. . Divaldo. filho de Jonas. de imediato. A grandiosidade do momento o marcaria para sempre. das três vezes que O negara.

nas proximidades de Três Rios. Divaldo Franco esteve em Juiz de Fora para realizar um Seminário e uma palestra pública. 38 A OUTRA PLATÉIA DE DIVALDO FRANCO Nos dias 19 e 20 de setembro de 1987. Ao que parece houve problema na barra de direção. cuja freqüência foi limitada. dividido em três módulos com três horas cada um. e o automóvel. na sexta-feira. o carro em que Divaldo viajava sofreu um acidente. Como estivessem a uma velocidade de cinqüenta quilômetros. não aconteceu algo mais grave. se desgovernou indo de encon- tro à barra divisória das pistas. ou seja. felizmente sem maiores propor- ções. Primeiramente são necessários alguns esclarecimentos. e Di- . numa curva. Mesmo assim. tive- mos interessante comunicação que nos trouxe uma outra visão sobre as atividades que se realizam no plano espiri- tual. Ao se dirigir do Rio a Juiz de Fora. teve como tema "A Ciência do Espírito". em nossa reunião mediúnica. O Seminário. no dia 23. sendo realizado no salão da Faculdade de Ciências Econômicas. dia 18. Três dias depois. duas senhoras tiveram fraturas. de quatrocentos lu- gares e que esteve lotado. simultaneamente às palestras proferidas por Divaldo Franco. uma no joelho e a outra no nariz e no osso frontal. no Centro Espírita "Joanna de Angelis".

Sendo assim. natural nessas ocorrências. É necessário ainda mencionar que este é o vigésimo nono ano consecutivo em que Divaldo comparece a esta cidade. com meus companheiros. em- bora tivesse de fazê-lo à custa de forte analgésico e outros remédios. Faço-o porque preciso. Sempre promovemos as suas palestras. pois a ver- dade é que ainda não consigo achá-los simpáticos. Não o faço. além do desgaste emocional e psíquico. isto é. a viagem de carro no qual estava aquele homem que os vinha ensi- nar. Estava veemente. comunica-se por nosso intermédio um Espírito de certa cultura e grande facilidade para falar. que temos escrito sobre mediunidade e comunicações mediúnicas. duas costelas fraturadas e pequenos cortes. Começa a prestar o seu depoimento: — Eu não posso deixar de lhes falar da experiência que vivi neste final de semana. porque sinto imperiosa necessidade de contar o que me sucedeu. não vivencíamos nada semelhante ao que iremos contar. Mesmo assim. caloroso e deixando transparecer certa emoção. de longe.308 SUELY CALDAS SCHUBERT valdo várias contusões. porém. (1) Ao final da reunião. Mas não o pro- . Tudo o que então ocorreu não foi culpa nossa. em- bora nos alegrássemos com o acontecido. os fatos que vamos narrar não são fruto de um entusiasmo de quem o conhece há pouco e por isto se deixou impres- sionar pela palestra magistral e pelo belíssimo Seminário realizado. a não ser por pequenos relatos de um ou outro Espírito e aquilo que lemos nos livros da Doutrina. por simpatia. Eu mesmo pedi para fazê- lo. embora soubésse- mos que existe (como também o sabem todos os espíritas). nós. — Saibam — iniciou ele o seu relato — que eu acom- panhava. compareceu a todas as atividades programadas. nós não provocamos aquele acidente com o carro. Nestes anos todos. Isto ocasionou-lhe fortes dores.

E foi tal a força e tal a luz que nos assustamos e tentamos correr como cachorrinhos ame- drontados . a partir desse momento ficamos como que imantados àquele individuo. de forma pouco compreensível para nós. pois eu "via" as dores dele e avaliando-as deduzi que seriam impedimento insuperável. estrategicamente colocados. como se na- quele instante ocorressem. os aparelhos eram acionados no nosso plano e para a nossa assembléia. no plano extrafísico. como se dele de- pendêssemos para resolver as nossas vidas. Estávamos nessa expectativa quando fomos sendo levados daqui para ali e. dos guardiães que o defendiam e da vontade férrea que ele demonstrou em não se deixar abater. Ao chegar ao local do Seminário novas surpresas me estavam reservadas. que projetaram para nós cenas as mais diversas. desde as ligadas à nossa própria vida até aquelas outras em que se via o "chefe" de vocês. enquanto inúmeros desses guias de vocês. em conseqüência disso. tam- bém ao longo do salão. e eu lhes afirmo que uma corrente de luz cercou o veiculo e as pessoas. — Até então eu julgava que ele não daria conta da programação. Todavia. assis- timos às pesquisas a que ele ia-se referindo. — Enquanto ele falava. com o triplo de pessoas. com muita luz cada um deles. chamado Codificador.. sentia satisfação em imaginar que teriam de suspendê-la. Vimos chegar os filósofos e . assistimos a tudo. O SEMEADOR DE ESTRELAS 309 vocamos. ganhavam vida. apenas aplaudimos. Todo o palco estava tomado por aparelhos de natureza espiritual.. fomos impedidos por uma espécie de "campo de força". Quando pressentimos que algo não estava indo certo e tentamos aproximar-nos para "ajudar" a acontecer. As cenas eram plasmadas. projetavam-se no espaço. — Primeiro eu me admirei da luz que o cercava. desejando que se calasse para sempre aquela voz. Eu via o público mas este não via a nossa platéia. tor- navam-se independentes da palestra e em espaços de tempo bem menores que os da dimensão terrestre. de- fendiam e socorriam. os passageiros.

Havia uma ligação entre todos. Os parentes. nem no ano passado. (O doutrinador quis dizer alguma coisa. envolvia a todos. pelo cansaço. conselhos — enquanto as pes- soas choravam e riam de emoção. Nos intervalos. de forma difícil de explicar. quando o público "vivo" se reti- rava. que a nossa perseguição em relação a vocês (referindo-se ao grupo) não começou agora.310 SUELY CALDAS SCHUBERT os cientistas em imponente desfile de luzes. Via as pes- soas correndo aflitas para ele. Não se iniciou nesses dias. embora não lhes tenha simpatia. observei que todo o auditório estava imantado a ele. Nes- te momento.) — Esclareço. pedindo notícias de pa- rentes mortos. Ele — vejam bem — que mal podia respirar pela dor. que ele ia repetindo — no- mes. cumulando-o de per- guntas e mais perguntas. Eu faço parte da vida de vocês. não apenas nós. o impediu. dizendo ser necessário prestar o seu depoimento até o fim. — Pela primeira vez me foi dado compreender o al- cance do trabalho que esse homem realiza. apelidos. deram quantas notícias lhes foram permitidas. sou alguém que conhecem profundamente. e sendo atendidas pacientemen- te. pois nossas vidas estão enredadas. tornando-se mais veemente. que emitia luz. uma luz que vinha do Alto e que. entretanto. cada um de nós acompanhou também trechos de sua pró- pria vida. falando de doenças. Pare- ceu-me que poderia compará-lo a uma usina de força e energia. nos dois planos da vida. de alegria. nós permanecemos. sinto que . cá da nossa esfera — que ele vê e ouve —. pois a seqüência de esclareci- mentos em nossa esfera foi ininterrupta. Quando se aproximavam. mas o comu- nicante. passando por ele. Enquanto as épocas se desenrolavam. situações.

mas. cerceiam a liberdade e os fazem ficar atentos e vigi- lantes. — Vejam a minha situação. porque hoje eu sei que vou reencarnar. tive vergonha e de- sespero. fui envelhecendo. a "ciência do Espírito". que ele era absolutamente verdadeiro. constrições variadas no organis- mo. certamente. patético e a emoção toma conta de todos os participantes). Entrei em contato com a realidade e. no primeiro momento em que logrou adormecer. cada um. — E eu lhes digo que. que eu e o meu grupo finalmente capitulamos. na luz que sua palavra irradiava. mas que são benditas porque lhes impedem de errar. Preciso re- nascer aleijado para não incidir nos mesmos crimes (nes- te momento está emocionado. como aquele menino da pales- tra (2). veio ao nosso encontro para nos dizer que nos compreendia e que não somente nos perdoava. esse ho- mem que lhes veio ensinar. O SEMEADOR DE ESTRELAS 311 simpatizam comigo. afetuosas para mim. . estão emitindo vibrações solidárias. Que mudaram de rumo e se integraram nesta Doutrina — como vocês a chamam. as mãos deficien- tes. não tra- zem defeitos físicos visíveis. Agora estou uma ruga só! Mas eu quisera ser monstruoso. quisera ter meus pés tolhidos. tem limitações físicas. constrangido. por exemplo (dirige-se ao grupo). — Pois foi exatamente assistindo a tudo isto. À medida que fui assis- tindo às reuniões e descobrindo a "ciência da vida". Felizes são vocês (dirigindo-se aos presentes) que conheceram a verdade há mais tempo. porque eu vi. — Vocês. se antes me sentia jovem. aleijado. mas que amava a cada um e que nos esperava há muito tempo! — Fiquei vexado. aos poucos fui envelhecendo como se todas aque- las épocas passassem sobre mim e me sulcassem pro- fundamente. o Se- minário de nossas próprias vidas. para espanto geral. forte e po- deroso.

(Ao dizer estas frases o comunicante emociona-se. De alguma forma nos reconhecere- mos. As lágri- mas agora caem dos seus olhos e a voz está embargada. eu. (Pausa longa e demorada. ao passar em frente a ela. exemplifica e pre- ga. A ele. a emoção que passou a todos os circunstantes. E tenho certeza de que nos iremos reconhecer. no Brasil e no mundo. proferida pelo dirigente. ficaram repercutindo em nossos corações. um dia. foi quebrado pela prece final. como também preciso en- trar em contato com a Doutrina Espirita.) — Talvez. reflexionando intimamente sobre a bênção da mediunidade com Jesus e sobre o missionário labor do nosso tão querido Divaldo. Quem sabe. contudo. carregado dessas emoções. os nossos caminhos se cruzem. o arauto da Doutrina Espírita. Preciso da deficiência física. o nosso carinho e reconhecimento! . talvez os mais jovens. nossos caminhos se cruzem e. (Ao dizer isto levan- ta o rosto e olha para a frente como quem fita o futuro. não se esqueçam de mim. Talvez nos encontremos nesse futuro que não está longe. vendo abertas as suas portas. Nas vibrações da oração nos envolvemos. talvez um dia. os que hoje são mais novos. nos dois planos da vida. Elas me tocam o coração e já os vejo com sim- patia e com irresistível afeto.) — Eu estou sofrendo muito e recebo as vibrações de vocês. um dia. nessa casa que vocês terão e que eu já vejo (3) — é uma casa grande e bonita —. nesses quarenta anos de atividades. entre! Suas últimas palavras. de gratidão a Deus. Lembrem-se de mim. no futuro que me aguarda. O silêncio.) Quisera encontrar um de vocês. preciso de muito mais. da fealdade.312 SUELY CALDAS SCHUBERT — Eu. que a vive. comemoradas neste ano de 1987. finalmente.

pu- blicado em "Reformador". (3) Referência feita à futura sede do Centro Espírita "Joan- na de Angelis". de novembro de 1984. (2) Refere-se ao caso de Ugolin. O SEMEADOR DE E S T R E L A S 313 (1) Tivemos há três anos. * * * Nota: Este artigo foi publicado em "Reformador". deficiente e feio. corcunda. . narrado por Divaldo. de dezembro de 1987. o relato de um Espírito sobre o outro lado do trabalho mediúnico de Chico Xavier. que era um jovem de catorze anos.

neste lugar dedicado à Tua bondade. antes de quaisquer [outras realizações. Senhor. pensando. em pleno altar da Natureza. Eis porque. naqueles que virão depois de nós. apoio e encorajamento aqui. quando se erguer a obra que o Teu amor programou a benefício de todos nós. Evocamos. os atingidos pelas vicissitudes que buscaram. Evocando Teu diálogo com a mulher samaritana deixamos o templo material para estar Contigo no coração. 39 PRECE DE DIVALDO FRANCO NO TERRENO DA "POUSADA DE FRANCISCO" Senhor Jesus. que deverão encontrar repouso. aqueles que Te amamos procuramos sintonia com a Tua Misericórdia. nesta pausa de atividades. no entanto. o nosso pensamento se volta no Teu rumo para pedir-Te que abençoes os propósitos que trazemos em [mente. . os combalidos. os cansados do caminho. todas as Tuas lições. que perpassam em [nosso pensamento.

receba a nossa oblata a ele dirigida. para que o vendaval das paixões não nos derrube. doce e enérgica. no amanhã. unidos. templos de fraternidade e abrigos à solidariedade humana. repetidas vezes nos hemos comprometido para abandonar. abençoe esse esforço. e a Tua voz. Permite que ele. nas múltiplas tarefas que desenvolve. constitui-nos a segurança para que a Vida trabalhe dentro dos postulados do dever. prometemos serviço para derrapar na negligência. Senhor. Não obstante. nem as nossas iniquidades interiores tisnem a claridade do nosso discernimento. . O SEMEADOR DE ESTRELAS 315 com a celeridade dos tempos idos. este peregrino de Assis. em Teu nome. Senhor. para que se torne realidade objetiva o nosso programa espiritual de bem fazer. suave e forte. em considerando a fragilidade que nos tipifica. Permite que o Teu discípulo Francisco. com a Tua mão. este punhado de audaciosos servidores [do Teu nome na concretização deste ideal de Amor. conduze-nos. portanto. assumimos responsabilidade para dela nos evadirmos — hoje não. seja menos doída e o infortúnio se nos apresente menos desarticulador da esperança. levantarmos santuários ao amor. para que a dor na Terra. a Tua Doutrina nos comanda. a Tua presença. com o passo lento dos tempos por vir e nos recordamos da necessidade de. que nos fascina. nesta Casa que se erguerá em seu nome para homenagear-lhe a caridade e a abnegação. Abençoa. Tantas vezes.

22 de junho de 1986 . anjos tutelares do nosso caminho. que nos inspiram. tentando aproximar-nos de Ti. insistam conosco. trabalhando pela nossa redenção. permaneçam conosco. elevando-nos.316 SUELY CALDAS SCHUBERT Que os Bons Espíritos. Que assim seja! Barra do Pirai (RJ).

por isso. porque leva o magnetismo positivo do amor. porque ele próprio é um apaixo- nado pelo Amor. arrebata. atrai. Sua palavra é forte. envolvido pelos Benfeitores do Mundo Maior se transforma em porta- voz dos céus. 40 O ARCHOTE DA FÉ "Eu vim para lançar fogo a Terra — e que quero eu senão que arda?" Jesus "É nesse momento que chega o Espiritismo." (Co- municação mediúnica através de Chico Xavier) Divaldo é. de um lado para outro. galvaniza. sobretudo. especialmente. buscando ilu- . transcende à dimensão humana pois. és um desses responsáveis. persuasiva. que é o . Mas. este Amor que dimana do Cristo. O semeador de verda- des eternas. Quando começa a falar se transfigura." Allan Kardec ("Viagem Espírita" em 1862) "Tu. porém. porque andas com o archote da fé. como um archote aceso nas trevas de sua alma. o orador. minar consciências. O seu verbo é inflamado de entusiasmo incomum e. incendiando tudo à tua passagem. firme. como uma âncora salvadora.

indiferentes. buscar os que estão perdidos nas estradas da vida mostrando-lhes o rumo certo. * * * Transmitir a Doutrina através da palavra. apáticas. . para que as chamas se alastrem e se transformem em claridade. dar vida aos que estão mortos pelas paixões e vícios. abrir horizontes novos. instalar idéias novas onde só existem conceitos sediços. tudo isto exige muito mais do que simplesmente abrir a boca e falar. reconduzindo os homens ao Seu aprisco — tudo. revivescer a palavra dEle. É preciso que se esteja abrasado pelo Amor e pelo Ideal Maior.318 SUELY CALDAS SCHUBERT próprio Cristo ao qual ama e serve devotada e apaixonada- mente. balsamizar as dores. que se esteja ali- mentado interiormente pelo combustível da fé legítima e ra- cional. despertar as consciências cristalizadas. a cada palavra para que esse fogo sagrado se ateie. quei- mando os escombros e proporcionando que das cinzas re- nasça a Fênix que simbolizará o novo homem. consolar. que se esteja morrendo um pouco a cada dia. libertar os que se auto-enclau- suraram. Por toda a parte. e aqueles que o ouvem passam a amá-lo e a amar esse Ideal que noticia. fazer brotar a esperança onde só existe desespero. É este Amor a chama sagrada que move a sua vida e rege os seus passos. somente explicáveis na sua significação de transcen- dência dos parâmetros comuns. implantar o Cristo nos corações estiolados. acender a chama do Ideal em que acredita e pelo qual dá a vida. Para conseguir esses resultados verdadeiramente notá- veis. passar-lhes a sagrada emoção que o arrebata. E é por este sentimento maior que consegue tocar aqueles que o ouvem. contagiar as pessoas com o seu próprio entusiasmo. restituir a visão aos que se deixaram cegar pela nega- ção contumaz. em todos os países visitados as mul- tidões acorrem. na profunda verticalidade — ele realmente se fez um arauto do Bem e da Paz e sai pelo mundo com o archote da fé ateando um grande incêndio. fazer andar os que estão paralisados nas an- gústias e fobias.

dá margem a importantes ilações. por si só. além disso. especialmente quanto à programação espiritual e à atuação dos homens. traçar um amplo painel que nos propicie detectar o programa espiritual su- perior a se cumprir. * * * A trajetória da Doutrina Espírita nesses cento e trinta e um anos. sem jamais deixarmos de exercer o bom-senso e a lógica. à sua vivência pessoal e doutri- nária. onde nos propomos a de- monstrar algo mais que os episódios de sua trajetória ter- rena. por isto. É importante que se preservem os critérios de ava- liação num trabalho como este. nos mantivemos rigorosamen- te atenta a esses exemplos. Entretanto. Esta não é uma biografia e. o que ele relata não foi colocado em ordem cronológica. PALAVRAS FINAIS 41 Aqui nos detemos para refletir em torno do riquíssimo acervo de fatos da vida de Divaldo Franco. É inegável que escrevemos este livro com as tintas da emoção e com elas colorimos cada página. de seu lançamento até os nossos dias. o que. Nesses trinta anos de nosso convívio e amizade com Divaldo. ainda hoje ele nos surpreende com as lições de vida que nos dá. . Desejamos. já nos edificaria e consagraria a sua missão apostolar.

o estudo e a maturidade gradual têm escoi- mado dos fatores igrejeiros. quando Kardec ainda estava por terminar a sua gloriosa missão terrena. todavia. A França foi-lhe o berço de ouro. que a superior orientação do Mundo Maior a norteou. Em contrapartida. o Espiritismo como que se foi apa- gando em toda a Europa. a fim de se lhe ca- racterizar — perante os encarnados — o alto nível cultural. Aqui ela se beneficiaria do colo- rido evangélico tão entranhado na índole do povo brasilei- ro. imprescindível. e dos desdobramentos filo- sóficos encetados por Leon Denis. Se na Europa o campo era propício às pesquisas cien- tíficas. não foi além da efervescência das primeiras experiências. a Terceira Revelação encontra o caldo de cultura im- prescindível para estabelecer as suas bases iniciais. do sentimento de toda uma nação. trazida pelos Numes Tu- telares ao raciocínio e bom-senso de Allan Kardec. No povo fran- cês. Pátria do Evan- gelho que o traslado do seu ponto de origem para o nosso país obedeceu ao comando do próprio Cristo. Entretanto.320 SU E L Y C A L D A S S C H U B E R T Desde a sua chegada à Terra. especialmente os registrados em seus discursos quando de suas viagens. na Europa. o movimento de expansão da Doutrina. que o tempo. seria a de se trans- formar em uma ciência a mais. . A ten- dência. para ir surgindo. Emmanuel esclarece em A Caminho da Luz e Humberto de Campos em Brasil. Este o motivo de sua im- plantação em nosso país. acendem-se as primeiras luzes da Terceira Revelação em terras brasileiras. embora todos os prognósticos otimistas e favoráveis feitos pelo próprio Codificador. O fato é que a Doutrina Espírita v e i o a expandir-se nas leiras férteis do Brasil. aos poucos. atávicos. que lhe consolidaram a parte científica. em sua primitiva pureza. onde pontifica o Evangelho de Jesus. Entre o final do século X I X e o início deste. nos rincões brasileiros a Doutrina dos Espíritos en- contra o ambiente favorável para que se fortalecesse o lado moral. Coração do Mundo. em permanecendo aí. Leiras do coração.

a outras gentes e. realmente. no período de 27 de abril a 25 de maio de 1988. ao seu continente de origem. do seu retorno ao local onde nas- ceu. nesses lugares. Todos os cam- pos do saber têm sido baldos de recursos para equacionar os dramas existenciais do homem. e que esta se fortalece com as conquistas daquela. Falta-lhes reconhecer. sobretudo. esta é a primeira vez que se fala. nessa mesma ocasião ele vai a Lyon. Mas. Como parte da programação ele profere palestras em Paris. na Sorbonne e em Nova York. Negar ou ignorar isto tem causado sérios pre- juízos à Humanidade. todo o ciclo de relançamento do Espiritismo no seu país de origem. Os Núcleos que se foram formando nesses vinte anos . O que se observa em nossos dias é que a Ciência não solucionou as angústias dos seres humanos. mais se fazia necessário que estas fossem semeadas a outros povos. Completa-se. derivando desta aliança a fé racional. a Ciência está iluminada pela Religião. na França e ali. ser recambiada ao seu país natal. Todas essas considerações nos vêm à mente ao nos in- teirarmos das mais recentes viagens e palestras de Divaldo Franco na Europa e nos Estados Unidos. A sua tarefa é grandiosa e está inserida no contexto da programação espiritual superior com vistas à expansão do Espiritismo e. evidenciando que. Mas — e aí está o grandioso programa espiritual —. exatamente. no berço natal de Kardec realiza palestra na Universi- dade e entrevista numa rádio local. Ao que sabemos. na ONU. e proporcionando que a Ciên- cia descubra a realidade do Espírito. assim. ser relançada no seu conteúdo global. sobre Allan Kardec e sobre a Dou- trina Espírita. também. lúcida. leva-nos a maiores reflexões. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 321 Com o passar dos anos e a expansão cada vez maior das idéias espíritas. o que é prioritário e faz parte da própria natu- reza humana: a sua ligação com Deus e todas as aplicações daí advindas. Esse trabalho de Divaldo Franco de semear a Doutrina Espírita pelo mundo.

que gostaria de pregar o Espiri- tismo onde nunca se falara sobre ele. uma semente de luz. que se expressa no seu amor às pessoas de todas as nacionalidades — o que as cativa de forma impressionante — a sua vivência espírita. como ainda para novas lides de pregação doutriná- ria. em N e w York. Periodi- camente. Esses são os passos do semeador.322 SUELY CALDAS SCHUBERT de palestras no exterior (só em Paris ele já foi nove vezes. para o livro de nosso querido amigo Miguel de Jesus Sardano. É um trabalho len- to. um dia qualquer no futu- ro. Ao retornar. mas efetuado com muita segurança e fidelidade à Codificação. Seu entusiasmo. ele terá uma árvore para se abrigar dos rigores do clima. dão extraordinária força de autenticidade à sua palavra. Escolheu um pequeno país — Bophutatswana e sua capital Sun City. Divaldo re- torna com os amigos. Entram na cidade e. sua alegria em pregar a Doutrina Espí- rita. Para realizar essa missão. sob um calor de mais de quarenta graus. . na cidade de Vereeniging. Abnegados companheiros. Divaldo retorna a essas cidades para realimentar e fortalecer os grupos for- mados. Queria pregar a Doutrina em plena natureza. seu acendrado amor ao Evangelho. A saída. Certa vez (e escrevemos isto num artigo intitulado "De Paulo de Tarso a Divaldo Franco". Divaldo possui um talento precioso e decisivo: a mediunidade. Parte com pequena caravana e ao chegarem à região. com uma notável regularidade. dez vezes — para se ter uma idéia' têm sustentado e propagado o ideal espírita. na longínqua Sun City. realizam o primeiro culto evangélico-doutrinário em Bophutatswana. árduo. Mas deixa. Nas Pegadas do Nazareno) Divaldo afirmou aos companheiros. África do Sul. se empenham até ao sacrifício para que as se- mentes por ele lançadas possam medrar e crescer. encontram uma pessoa que se interessa em conhe- cer a Doutrina e fundam um pequeno Núcleo. não encontram uma árvore onde se pudessem abri- gar. Esse labor de semeador que Divaldo realiza é deveras notável. residentes em vá- rios países. no luxuoso cassino.

iremos encontrar as suas raízes na própria Codifica- ção Kardequiana. Se observarmos os antecedentes espirituais da obra de Divaldo Franco. inspiram e direcionam a Humanidade nos rumos do progresso espiritual. muito mais destes). no plano físico. mas que seja também o porta-voz dos Invisíveis (e. há quarenta e um anos. iniciada. ela que é um dos Espíritos de Luz que promovem. . pode também dizer: "Já não sou eu quem vive. aí sim. certamente como Paulo de Tarso. A par disso. A revelação é progressiva e a Falange do Consolador continua orientando e cuidando para que a Doutrina seja implantada da forma como o Mundo Maior projetou. ela se fez colaboradora de Jesus. se ma- nifeste e possa transmitir orientações ao homem angustiado de nossa época. é necessário que esse semeador tenha uma vivência pessoal absolutamente consentânea. Divaldo Franco é. a "carta viva" da Doutrina Espírita e. santa e benfeitora em suas diversas reencarnações. Os elos dessa imensa corrente se entrosam e se fecham. O SEMEADOR DE ESTRELAS 323 É importante que um trabalho de tal magnitude seja realizado por alguém que fale não apenas por si e pelos conhecimentos e aquisições pessoais. O Programa Espiritual Superior está em curso. Seu vulto luminoso perpassa através da própria His- tória da Humanidade deixando um rastro de luz a iluminar a noite dos seres humanos." *** Os fatos se encadeiam com uma lógica irretorquivel. assim. É imprescindível que essa presença dos Ben- feitores Espirituais seja ainda a própria comprovação da imortalidade da alma e do intercâmbio com os chamados "mortos". para que a Espiritualidade Superior se faça presente. Mártir. mas Jesus Cristo que vive em mim. Joanna de Angelis orienta e dirige. desde os seus tempos de Joana de Cusa. coerente e fiel a tudo quanto prega.

apraz-nos dizer a Divaldo que nos seus passos cin- . Desse Amor que nasce com o menino de Feira de San- tana e. escrito com o mais profun- do amor. Ao encerrarmos este livro. superando a si mes- mo. quando. por sua magnitude. ela também participa da Codifi- cação e traz uma responsabilidade bem específica.324 SUELY CALDAS SCHUBERT Entre as muitas Entidades Superiores que integram a plêiade liderada pelo Espírito de Verdade. * * * Este é um livro que trata essencialmente de Amor. mas as luzes desse sentimento a clarear-lhes o ingresso na Pátria Verdadeira. em meio à lama. que hoje. na manhã da vida. a fim de testemunhar que se- ria capaz. se irradiou de seu coração na direção da Vida. Desse Amor que se torna em prova definitiva para con- vencer e converter o infeliz "Máscara-de-ferro". no mo- mento mais crucial de sua existência terrena. ensina-lhe o caminho da renúncia. E é esse sentimento. silencia. através de Divaldo Franco. a "Casa de Jesus". Desse Amor que o faz recolher os pequeninos órfãos da vida para que sejam seus filhos pelo coração e. bem cedo. ou seja: a de dirigir o movimento de difusão da Doutrina Espírita no país e no mundo. já são mais de seiscentos. onde a dor e a miséria en- contram. Desse Amor que se engrandece e. sublimado. de dar a vida pelo Cristo. A vida e a obra de Divaldo Franco são as expressões múltiplas desse Amor que. não apenas o socorro imediato. que o leva a percorrer as estradas na tarefa de prega- ção doutrinária. Tal como Emmanuel. en- volvido pela calúnia. está Joanna de Angelis. se extravasa na dire- ção da Humanidade. na conturbada arena do mundo. acrisolado nos testemunhos de cada dia. Desse A m o r que o leva à invasão para erguer aí. hoje.

nos rumos dos sofri- mentos humanos. aos que estão andando. nessa longa trajetória. Joanna de Angelis. para que a Humanidade compreenda que é possível emergir do abismo da dor e do aturdimento para as estrelas refulgen- tes da Paz e do Bem. Quantos. a amorável Mentora. que se lhes vincula. FIM . guia-lhe os pas- sos e. O S E M E A D O R DE E S T R E L A S 325 tilam as estrelas que ele semeou. Divaldo! Que a sua voz prossiga. ao encontro de Jesus. o caminho da feli- cidade. recolhendo estrelas. conduzem essa gran- de família espiritual. porque através dele conhece- ram a Doutrina Espírita e aprenderam também a viver. deixando uma esteira bri- lhante a indicar. sob o olhar de Francisco. entoando a sinfonia eterna do Amor. lhe abençoam o nome e o amam. juntos.