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Qual é a essência do pecado?

(Hellern, Notaker e Gaarder, 2001)

Antonio Fernando Nvarro (apud al.)

O Novo Testamento usa a palavra grega hamartia para “pecado”. Esse substantivo
deriva de um verbo que pode significar “perder alguma coisa”. “tomar o caminho errado” ou,
figurativamente, “trapacear com o nosso próprio destino”. Podemos, portanto, dizer que o
pecado designa aquilo que rompe com a intenção de Deus para a vida humana. Essa
palavra tem um sentido muito mais amplo do que “fazer algo errado”.
O pecado é sobretudo um conceito religioso. Ser pecador não significa
automaticamente levar uma vida imoral; pode-se muito bem ser uma pessoa decente. Mas
mesmo que o indivíduo não seja um canalha em termos humanos, do ponto de vista de Deus
ele é um pecador.
Uma explicação sobre o pecado deve começar pela vontade do Criador. Esta
afirma que o homem deve estar com Deus – senhor da vida – e moldar sua existência de
acordo com os objetivos de Deus. O pecado é, portanto, o desejo humano da auto-suficiência,
seu desejo de conseguir viver sem Deus. Romper essa comunhão com Deus leva àquilo que a
Bíblia chama de quebrar a lei, quebrar a santidade, de iniqüidade e apostasia. Podemos dizer
que o pecado é a falta de benevolência. Quer se dirija a Deus quer a nossos próximos, os seres
humanos, o pecado é aquilo que leva ao egoísmo e ao egocentrismo. Martinho Lutero o
definiu sucintamente com a expressão latina incurvatus in se – ou seja, “encurvado em si
mesmo”.
O pecado, porém, não implica apenas as quebras individuais da lei de Deus – ou
da ética cristã. É pior que isso. O pecado é mais profundo. Ele fica “no coração” – ou na
vontade maligna do homem. É essa tendência da vontade – ou toda essa condição – que
engendra aquilo que podemos chamar de pecado real. Assim, do ponto de vista teológico é
importante distinguir entre “pecado” e “pecados”. O pecado é tanto um estado como uma
atividade.
O problema de muitas pessoas é que e;as não têm senso de culpa ou pecado.
Talvez acreditem que são razoavelmente morais, ou pelo menos tão morais quanto seus
vizinhos. Foi esse o caso do jovem rico narrado no Evangelho de São Mateus (19,16-26):
Aí alguém se aproxima dele e disse: “Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?” Por
que me perguntas sobre o que é bom? O Bom é um só. Mas se queres entrar para a Vida,
guarda os mandamentos”. Ele perguntou-Lhe: Quais?” Jesus respondeu: “Estes: Não matarás,
não adulterarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho; honra teu pai e mãe, e amarás

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o teu próximo como a ti mesmo”. Desse-lhe então o moço: “Tudo isso tenho guardado. Que
me falta ainda?” Jesus lhe respondeu: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos
pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me” . O moço, ouvindo essa
palavra, saiu pesaroso, pois era possuidor de muitos bens.
Então Jesus disse aos seus discípulos: “Em verdade vos digo que um rico
dificilmente entrará no Reino dos Céus. E vos digo ainda: é mais fácil um camelo entrar pelo
buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”. Ao ouvirem isso, os
discípulos ficaram muito espantados e disseram: “Quem poderá então salvar-se?” Jesus,
fitando-os, disse: “Ao homem isso é impossível, mas a Deus tudo é possível”.
Esse homem era moralmente correto em todos os aspectos, e o Evangelho de São
Marcos diz que Jesus o amou. Mas havia algo que o impedia de ter uma relação plena e
perfeita com Jesus, e portanto com Deus. Não era simplesmente o fato de ser muito rico, já
que em Israel se considerava isso uma benção de Deus, desde que a riqueza não tivesse sido
acumulada com a exploração dos outros. A passagem não diz de que maneira o homem havia
enriquecido, mas Jesus compara sua riqueza com a pobreza dos outros. O pecado desse
homem rico é que ele era tão apegado a sua riqueza que na verdade quebrava o mandamento
fundamental de amar a Deus e ao próximo.
(O Livro das Religiões, Hellern, Victor; Notaker, Henry & Gaarder Jostein, Cia das Letras, 9a
Edição, 315pp, 2001)

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