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c)

Provas PROTELATÓRIAS: Visa exclusivamente ao retardamento do processo.

Exemplo: Carta rogatória para testemunha abonatória. OBS: O juiz não é dotado de poderes “adivinhatórios” para saber de antemão o grau de relevância da prova, notadamente em se tratando de prova testemunhal. Contra essa suposta violação da ampla defesa, deve ser arguida preliminar de nulidade em apelação. Caso a sentença não seja prolatada em audiência, no interregno entre a audiência e a sentença poderá ser impetrado HC, MS, ou até mesmo Correição parcial contra o indeferimento do juiz (Avena).

4.12. ALEGAÇÕES FINAIS ORAIS E MEMORIAIS

4.12.1. Histórico

Antes da Lei 11.719/08, existiam as chamadas alegações escritas (sempre por

escrito), vulgarmente chamadas de alegações finais. Com a Lei 11.719/08, temos como REGRA a apresentação de ALEGAÇÕES FINAIS ORAIS ao término da audiência (CPP, art. 403).

4.12.2. Cabimento das alegações orais (art. 403)

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1)

Quando não há pedido de diligências;

2)

Quando os pedidos são indeferidos.

Art. 403. Não havendo requerimento de diligências, ou sendo indeferido, serão oferecidas alegações finais orais por 20 (vinte) minutos, respectivamente, pela acusação e pela defesa, prorrogáveis por mais 10 (dez), proferindo o juiz, a seguir, sentença. § 1o Havendo mais de um acusado, o tempo previsto para a DEFESA de cada um será individual.

Havendo mais de um acusado, o tempo será individual para cada um (§1º). Veja que aqui (ao contrário da primeira fase do procedimento do júri; CPP

Art. 411 § 5o Havendo mais de 1 (um) acusado, o tempo previsto para a ACUSAÇÃO e a DEFESA de cada um deles será individual”), o prazo do MP continua o mesmo.

Caso haja assistente de acusação, o advogado do assistente terá mais 10 minutos. Nesse caso, o defensor terá mais 10 minutos (art. 403, §2º). Ou seja, o prazo da defesa pode chegar a 40 minutos.

Art. 403, § 2o Ao assistente do Ministério Público, após a manifestação desse, serão concedidos 10 (dez) minutos, prorrogando-se por igual período o tempo de manifestação da defesa.

4.12.3. Exceção às alegações orais: memoriais

Equivalem às antigas alegações finais ESCRITAS, devendo ser apresentadas

pelas partes num PRAZO SUCESSIVO de 05 dias, começando pela acusação. Quando as alegações orais viram memoriais?

1)

Quando houver pedido de diligências.

2)

Diante da complexidade da causa e/ou pluralidade de acusados.

Art. 403, § 3º O juiz poderá, considerada a complexidade do caso ou o número de acusados, conceder às partes o prazo de 5 (cinco) dias sucessivamente para a apresentação de memoriais. Nesse caso, terá o prazo de 10 (dez) dias para proferir a sentença

Qual a consequência da não apresentação de memoriais? 1º: Não apresentação de memoriais por parte do MP Para alguns doutrinadores, essa não apresentação dos memoriais seria uma tentativa de desistência da ação penal. Como isso, não é possível (princípio da indisponibilidade), cabe ao juiz aplicar o art. 28 do CPP. 2º: Não apresentação de memoriais por parte do advogado do querelante

Ocasiona a Perempção (ver acima), que é causa extintiva da punibilidade. Assim como a falta do pedido de condenação também implica em perempção. Se a ação for privada subsidiária da pública, volta para o MP.

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3º: Não apresentação por parte do advogado de defesa Não é dado ao juiz realizar o julgamento sem a apresentação de memoriais, sob pena de violação ao princípio da ampla defesa (STF Súmula 523).

STF Súmula 523 NO PROCESSO PENAL, A FALTA DA DEFESA CONSTITUI NULIDADE ABSOLUTA, MAS A SUA DEFICIÊNCIA SÓ O ANULARÁ SE HOUVER PROVA DE PREJUÍZO PARA O RÉU.

A falta de memoriais demonstra que o acusado está indefeso.

O que o juiz deve fazer diante da não apresentação dos memoriais pela defesa ou da apresentação de péssimos memoriais? Deve intimar o acusado para que constitua novo advogado, “sob pena” de, não

o fazendo, ser-lhe nomeado Defensor Público ou Advogado dativo. (STF HC 96905, setembro de 2009).

O advogado deve SEMPRE pedir a absolvição? Sempre que for possível, sim. Em determinadas situações, é impossível a absolvição (exemplo: 12 testemunhas

+ confissão). Neste caso, outros pedidos podem ser feitos: reconhecimento de atenuante, substituição de pena, etc. 4.13. PROLAÇÃO DA SENTENÇA

4.13.1. Sucessão de atos

REGRA: Prolação em audiência, após as alegações finais orais. EXCEÇÃO: Prolação após a audiência, num prazo de 10 dias da conclusão dos autos após a apresentação de memoriais pelas partes (CPP, art. 403, §3º).

Art. 403. Não havendo requerimento de diligências, ou sendo indeferido, serão oferecidas alegações finais orais por 20 (vinte) minutos, respectivamente, pela acusação e pela defesa, prorrogáveis por mais 10 (dez), proferindo o juiz, a seguir, sentença. [ ] § 3º O juiz poderá, considerada a complexidade do caso ou o número de acusados, conceder às partes o prazo de 5 (cinco) dias sucessivamente para a apresentação de memoriais. Nesse caso, terá o prazo de 10 (dez) dias para proferir a sentença.

4.13.2. Emendatio e Mutatio Libelli

Ambas são formas de alteração pelo juiz, na sentença condenatória ou na decisão de pronúncia, da classificação (definição jurídica) do delito narrado

na peça acusatória.

A diferença é que na emendatio, o juiz altera a definição baseado nos fatos

da peça acusatória, dos quais o acusado se defendeu. Já na mutatio, a nova

classificação decorre do surgimento de novos fatos dos quais o acusado não havia se defendido. Tanto a emendatio quanto a mutatio estão diretamente ligados a dois

princípios:

Princípio da consubstanciação;

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O réu se defende dos FATOS narrados na denúncia ou queixa, e não da

capitulação (definição jurídica, classificação). Princípio da correlação entre acusação e sentença

A sentença deve guardar plena consonância com o FATO descrito na denúncia ou na queixa, não podendo dele se afastar, sob pena de indevida surpresa ao acusado e consequente violação aos princípios do contraditório e da ampla defesa, além de ofensa ao sistema acusatório.

4.13.3. “Emendatio Libelli” Vejamos um exemplo:

Denúncia: Narração de um furto qualificado pela fraude, porém classificado como Estelionato. Sentença: Pode o juiz condenar por furto ou fica preso à classificação do MP? No processo penal o acusado se defende dos FATOS. No caso, foi-lhe imputado um fato que, para o juiz, caracteriza um furto qualificado. Logo, é perfeitamente possível que o juiz condene o acusado pelo furto qualificado sem necessidade de abrir vista para as partes ou coisa que o valha. Apesar de MP ter classificado o delito de outra forma, a defesa se dá em face do fato e não da classificação. Essa é a emendatio libelli. A EMENDATIO LIBELLI, portanto, ocorre quando o juiz, sem modificar a descrição do fato contida na peça acusatória, atribui-lhe definição jurídica diversa, mesmo que tenha que aplicar pena mais grave. OBS: Avena diz que também é possível a emendatio quando o juiz suprime um fato narrado, pois não ocorreria prejuízo da defesa, que, de fato, se defendeu do fato remanescente. Exemplo: Narrado um roubo, o juiz recapitula para furto, pois conclui que a violência narrada na denúncia não ocorreu. Nucci diz o contrário. Em qualquer hipótese de alteração do conteúdo da acusação, deve haver aditamento pelo MP.

Art. 383. O juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou queixa, poderá atribuir-lhe definição jurídica diversa, ainda que, em consequência, tenha de aplicar pena mais grave.

Se, em virtude da emendatio libelli, perceber o juiz que o crime tem pena mínima de 01 ano, deve aplicar o art. 89 da Lei 9.099/95, possibilitando que o MP formule proposta de suspensão condicional do processo.

Art. 383, § 1o Se, em consequência de definição jurídica diversa, houver possibilidade de proposta de suspensão condicional do processo, o juiz procederá de acordo com o disposto na lei.

Lembrando sempre que a suspensão condicional não pode ser ofertada de ofício do juiz. Caso o MP não formule a proposta, aplica-se, analogicamente o art. 28 do CPP. Ver súmulas 337 do STJ e 696 do STF.

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STJ Súmula 337 É cabível a suspensão condicional do processo na desclassificação do crime e na procedência parcial da pretensão punitiva. STF Súmula 696 REUNIDOS OS PRESSUPOSTOS LEGAIS PERMISSIVOS DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO, MAS SE RECUSANDO O PROMOTOR DE JUSTIÇA A PROPÔ-LA, O JUIZ, DISSENTINDO, REMETERÁ A QUESTÃO AO PROCURADOR-GERAL, APLICANDO-SE POR ANALOGIA O ART. 28 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL

O que ocorre se na desclassificação o juiz percebe que é uma IMPO? Conforme o art. 383, §2º, os autos devem ser remetidos ao juízo competente (JECrim). Ver acima competência, perpetuação. Modificação de competência em razão da matéria é absoluta.

Art. 383, § 2o Tratando-se de infração da competência de outro juízo, a este serão encaminhados os autos.

Pode ocorrer emendatio também em crimes de ação penal privada? Sim, em razão da previsão do caput do art. 383 CPP.

Art. 383. O juiz, sem modificar a descrição do fato contida na denúncia ou QUEIXA, poderá atribuir-lhe definição jurídica diversa, ainda que, em consequência, tenha de aplicar pena mais grave.

Pode a ‘emendatio libelli’ ser aplicada em 2ª instância? Sim. Deve-se lembrar do princípio da “non reformatio in pejus”, ou seja, em recurso exclusivo da defesa, a situação do acusado não pode ser agravada. Para alguns é um corolário da ampla defesa, como forma de incentivar o acusado a recorrer. Assim, é possível a emendatio libelli em 2ª instância; porém o Tribunal não poderá, em recurso exclusivo da defesa, alterar a classificação jurídica para reconhecer crime MAIS GRAVE, sob pena de ‘reformatio in pejus’.

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Qual o momento para realizar a emendatio libelli? Em regra, é a sentença. Vale destacar, contudo, que existe importante corrente doutrinária e

jurisprudencial que afirma ser possível, excepcionalmente, a correção do enquadramento típico logo no ato de recebimento da denúncia ou queixa em dois casos:

a) para beneficiar o réu; ou

b) para permitir a correta fixação da competência ou do procedimento a ser

adotado. 4.13.4. “Mutatio Libelli” Vejamos agora outro exemplo:

Denúncia: Narra-se um fato que configura o crime de FURTO SIMPLES (art. 155, caput). Instrução processual: No depoimento da vítima, verifica-se que não foi furto, pois houve VIOLÊNCIA à pessoa (fato não narrado na denúncia). As testemunhas confirmam. Sentença: Pode o juiz condenar por ROUBO? Não, sob pena de ofensa a vários princípios:

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1) Ampla defesa, pois o réu estava se defendendo de um fato e foi condenado

por outro.

2)

Contraditório;

3)

Correlação entre acusação e sentença.

4)

Sistema acusatório, pois o juiz estará condenando sem que tenha havido

imputação. Seria como se o juiz estivesse agindo de ofício. Por conta disso existe o instituto da ‘mutatio libelli’, que é a alteração da capitulação E do fato imputado. Assim, a MUTATIO LIBELLI ocorre quando, durante o curso da instrução processual, surge prova de elementar ou circunstância não contida na narração da peça acusatória. Nessa hipótese, não é possível que o acusado seja, de pronto, condenado pelo fato novo, sob pena de violação aos princípios da ampla defesa, inércia da jurisdição e correlação entre acusação e sentença. A fim de se evitar a violação desses princípios, deve se dar a “mutatio libelli”, com o consequente aditamento da peça acusatória pelo MP e posterior oitiva da defesa.

Art. 384. Encerrada a instrução probatória, se entender cabível nova definição jurídica do fato, em consequência de prova existente nos autos de elemento ou circunstância da infração penal não contida na acusação, o Ministério Público deverá aditar a denúncia ou queixa, no

prazo de 5 (cinco) dias, se em virtude desta houver sido instaurado o processo em crime de ação pública, reduzindo-se a termo o aditamento, quando feito oralmente.

- Há quem diga que agora a iniciativa é do MP, devendo o juiz se manter

inerte (Renato Brasileiro).

- Outra parte da doutrina (Nucci, Tourinho e Avena, por exemplo), diz que a

possibilidade de o juiz tomar a iniciativa está implícita, por dois motivos:

1) por conta do prazo de 05 que o MP tem que, por lógico, pressupõe uma determinação do juiz de vista dos autos; 2) pela possibilidade de o juiz mandar os autos para o art. 28 quando o MP não faz o aditamento, que por óbvio, também pressupõe uma determinação judicial de vista dos autos.

Art. 384, § 1o Não procedendo o órgão do Ministério Público ao aditamento, aplica-se o art. 28 deste Código.

Renato: A partir do momento em que o MP percebe que surgiu uma nova elementar (violência à pessoa) ou circunstância, deverá fazer um aditamento à Denúncia ou à queixa, num prazo de 05 dias, exatamente para imputar o art. 157 ao acusado. OBS1: O aditamento pode ser feito oralmente em audiência. OBS2: O MP somente poderá aditar a QUEIXA em se tratando de ação penal privada subsidiária da pública. Após o aditamento, procede-se à oitiva da defesa, num prazo de 05 dias.

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Art. 384, § 2o Ouvido o defensor do acusado no prazo de 5 (cinco) dias e admitido o aditamento, o juiz, a requerimento de qualquer das partes, designará dia e hora para continuação da audiência, com inquirição de testemunhas, novo interrogatório do acusado, realização de debates e julgamento.

Somente após a manifestação da defesa o juiz decidirá sobre o recebimento ou rejeição do aditamento. Contra a rejeição cabe RESE; contra o recebimento cabe HC. O que ocorre se o MP se recuse a fazer o aditamento? Conforme o art. 384, §1º, cabe ao juiz aplicar o art. 28 do CPP. Caso também não haja aditamento pelo procurador-geral, o juiz nada poderá fazer, senão absolver o acusado caso entenda que a imputação originária não foi comprovada. Portanto, deve absolver o acusado. Mas lembre-se que a absolvição diz respeito à imputação originária, portanto nada impede que uma nova denúncia seja oferecida pelo outro crime. A coisa julgada fica limitada aquilo que constou na primeira peça inicial acusatória.

Art. 384, § 1o Não procedendo o órgão do Ministério Público ao aditamento, aplica-se o art. 28 deste Código.

Após o recebimento do aditamento, deve-se proceder a uma nova instrução, com novo interrogatório e possibilidade de nova oitiva de testemunhas. MP DEFESA JUIZ Aditamento da peça acusatória: art. 157 CP. Oitiva em 5 dias. Duas possibilidades:

Em regra: oralmente, reduzido a termo. Muito semelhante a uma defesa preliminar (aquela mesmo de certos procedimentos especiais), veja: acusado sendo ouvido antes de o juiz receber o aditamento. REJEITA ou RECEBE Intenção: que o juiz não receba o aditamento.

Art. 384, § 2o Ouvido o defensor do acusado no prazo de 5 (cinco) dias e admitido o

aditamento, o juiz, a requerimento de qualquer das partes, designará dia e hora para continuação da audiência, com inquirição de testemunhas, novo interrogatório do acusado, realização de debates e julgamento.

§ 3o Aplicam-se as disposições dos §§ 1o e 2o do art. 383 ao caput deste artigo.

Art. 383

§ 1o Se, em consequência de definição jurídica diversa, houver possibilidade de proposta de

suspensão condicional do processo, o juiz procederá de acordo com o disposto na lei.

§ 2o Tratando-se de infração da competência de outro juízo, a este serão encaminhados os

autos.

§ 4o Havendo aditamento, cada parte poderá arrolar até 3 (três) testemunhas, no prazo de 5

(cinco) dias, ficando o juiz, na sentença, adstrito aos termos do aditamento.

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§ 5o Não recebido o aditamento, o processo prosseguirá.

Cabe ‘mutatio libelli’ em crime de ação penal privada? Em regra, somente caberia em ação penal pública e ação penal privada subsidiária da pública. Nucci: Não cabe ao juiz abrir vista ao querelante para que adite a peça (ofenderia o princípio da disponibilidade). Entretanto, pode o querelante fazê-lo ‘de ofício’. Tourinho: Pode ocorrer, nos mesmos moles do aditamento pelo MP, ou seja, mediante abertura de prazo para manifestação da defesa. Não há ofensa ao aludido princípio, pois ninguém está fazendo o aditamento pela defesa ou a obrigando a fazer. Um possível impedimento ao aditamento é a eventual decadência de fato que não foi narrado, mas que já era conhecido anteriormente. Outra possibilidade seria no caso de o fato se tornar conhecido para o querelante somente na instrução processual (tomou ciência do acontecimento agora), por outro lado, se esse fato já era de conhecimento do querelante, desde antes do início o processo, não será possível o aditamento, pois teria havido renúncia tácita. Outra parte da doutrina: Não é possível, pois o art. 384 fala em Ação Pública. Ademais, ofenderia o princípio da disponibilidade da ação penal.

Art. 384. Encerrada a instrução probatória, se entender cabível nova definição jurídica do fato, em consequência de prova existente nos autos de elemento ou circunstância da infração penal não contida na acusação, o Ministério Público deverá aditar a denúncia ou queixa, no prazo de 5 (cinco) dias, se em virtude desta houver sido instaurado o processo em CRIME DE AÇÃO PÚBLICA, reduzindo-se a termo o aditamento, quando feito oralmente.

Recurso cabível contra a rejeição do aditamento Em regra, a rejeição do aditamento assemelha-se à rejeição da peça acusatória, portanto o recurso cabível seria o RESE (art. 581, I).

Art. 581. Caberá recurso, no sentido estrito, da decisão, despacho ou sentença:

I - que não receber a denúncia ou a queixa;

Porém, caso essa rejeição ao aditamento ocorra na própria audiência, proferindo-se sentença em seguida, caberá recurso de apelação, que tem o condão de absorver o RESE. Alteração da Lei: Mutatio libelli benéfica ao réu. Agora também é necessário o aditamento. Exemplo:

Denúncia: Peculato apropriação art. 312, caput. Instrução: Comprova-se que o acusado não cometeu o peculato do art. 312, caput, pois o verdadeiro autor da subtração confessa. Na realidade o denunciado teria cometido somente o peculato culposo (art. 312, §2º).

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Sentença: Antes da Lei - A defesa seria ouvida (e somente ela) sempre que a desclassificação fosse BENÉFICA. Depois na sentença o juiz poderia condenar pelo peculato culposo. Não havia necessidade do MP se manifestar.

Art. 384 Se o juiz reconhecer a possibilidade de nova definição jurídica do fato, em consequência de prova existente nos autos de circunstância elementar, não contida, explícita ou implicitamente, na denúncia ou na queixa, baixará o processo, a fim de que a defesa, no prazo de oito dias, fale e, se quiser, produza prova, podendo ser ouvidas até três testemunhas.

Mesmo que benéfica ao réu, essa solução violava o princípio da correlação entre acusação e sentença, bem como o sistema acusatório, pois o acusado se via condenado por algo que não lhe foi imputado (condenação ex officio). Depois da Lei: Em qualquer situação de “mutatio libelli” (seja a desclassificação mais grave ou mais benéfica), o MP deverá aditar a peça acusatória (art. 384). Concluindo: Na redação antiga do art. 384, se, em decorrência da nova definição jurídica do fato, a pena se mantivesse igual ou inferior à pena do

fato descrito na denúncia, não havia necessidade de aditamento, bastando que

o juiz abrisse vista à defesa para que se manifestasse no prazo de 08 dias.

Essa hipótese era criticada pela doutrina por violar o sistema acusatório (o acusado ver-se-ia condenado por fato não imputado - quase uma condenação de ofício). Com a nova redação do art. 384, o aditamento SEMPRE deverá ocorrer, quando surgir prova de elementar ou circunstância não contida na acusação, independentemente se da nova imputação resultar pena mais grave, igual ou inferior à velha imputação.

Art. 384. Encerrada a instrução probatória, se entender cabível nova definição jurídica do fato, em consequência de prova existente nos autos de elemento ou circunstância da infração penal não contida na acusação, o Ministério Público deverá aditar a denúncia ou queixa, no prazo de 5 (cinco) dias, se em virtude desta houver sido instaurado o processo em crime de ação pública, reduzindo-se a termo o aditamento, quando feito oralmente.(Redação dada pela Lei nº 11.719, de 2008).

É cabível “mutatio libelli” em segunda instância? NÃO. Súmula 453 do STF.

STF Súmula 453 NÃO SE APLICAM À SEGUNDA INSTÂNCIA O ART. 384 E PARÁGRAFO ÚNICO

(demais parágrafos

reforma foi depois) DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL, QUE

POSSIBILITAM DAR NOVA DEFINIÇÃO JURÍDICA AO FATO DELITUOSO, EM VIRTUDE DE CIRCUNSTÂNCIA ELEMENTAR NÃO CONTIDA, EXPLÍCITA OU IMPLICITAMENTE, NA DENÚNCIA OU QUEIXA.

Motivo: A aplicação da “mutatio libelli” na segunda instância violaria o duplo grau de jurisdição, pois a nova imputação seria apreciada originariamente pelo tribunal. Supressão de instância.

CS – PROCESSO PENAL III 61

Apesar de não ser possível a “mutatio libelli” em segunda instância, nada impede que o Tribunal anule a sentença, devolvendo o feito à 1ª instância para que seja aplicado o procedimento da mutatio libelli. Nesse caso, é necessário que haja recurso da acusação. OBS: Avena diz que não é possível que o tribunal casse a sentença, porquanto não há nulidade. 4.13.5. Fato novo x fato diverso e a mutatio libelli

O fato é NOVO quando os elementos de seu núcleo essencial constituem

acontecimento criminoso inteiramente diferente daquele resultante dos

elementos do núcleo essencial da imputação. Exemplo: Receptação e furto de farda do exército. Não se aproveita nada da imputação antiga.

O fato é DIVERSO quando os elementos de seu núcleo essencial correspondem parcialmente aos do fato da imputação, porém com um acréscimo de algum elemento que o modifique. Ex: Furto do vovô roubo. Já tinha prova da subtração, só acrescentou a violência. IMPUTAÇÃO ORIGINÁRIA FATO NOVO FATO DIVERSO FATO X Fato “y” Fato “x+y” A “MUTATIO LIBELLI” somente é cabível quando se tratar de FATO DIVERSO; quando se tratar de FATO NOVO, substituindo por completo a imputação

originária, há necessidade de nova acusação. Nesse caso, deve o acusado ser absolvido da imputação originária, sem prejuízo de oferecimento de nova denúncia pelo fato novo, sendo possível a utilização de prova emprestada. Não há que se falar em coisa julgada, que fica sempre limitada ao fato imputado.

RESUMO:

CS – PROCESSO PENAL III 62 CS – PROCESSO PENAL III 63

4.13.6. Imputação alternativa (Afrânio Silva Jardim) Classificação quanto ao conteúdo 1) Imputação alternativa objetiva: É aquela que se refere a dados objetivos dos fatos narrados. 1.1) Imputação alternativa objetiva ampla: É aquela que incide sobre a conduta principal. Ex.: Tício é denunciado por ter praticado receptação OU furto. Viola a ampla defesa. NÃO é admitida. 1.2) Imputação alternativa objetiva restrita: É aquela que incide sobre uma qualificadora. Exemplo: Tício subtraiu objeto mediante escalada OU mediante destreza. Doutrina também NÃO admite. 2) Imputação alternativa subjetiva: Refere-se ao sujeito passivo da imputação. 2.1) Imputação alternativa subjetiva simples: A alternatividade decorre de dúvida sobre a autoria do crime, como no exemplo em que os envolvidos se acusam reciprocamente. Ex.: Pancadaria em fim de balada. Denuncio Tício e Mévio por vias de fato.

CS – PROCESSO PENAL III 64

2.2) Imputação alternativa subjetiva complexa: É aquela que abrange não só o sujeito ativo do delito, como também a própria infração penal. Ex.: Dúvida entre corrupção passiva do particular e corrupção ativa (ou concussão) do funcionário público. Classificação quanto ao momento:

1) Imputação alternativa originária: É aquela contida na própria peça acusatória. Essa imputação NÃO É ADMITIDA pela maioria da doutrina. Viola o princípio da ampla defesa, pois o acusado não sabe do que se defender. 2) Imputação alternativa superveniente: A alternatividade decorre do aditamento à peça acusatória nos casos de “mutatio libelli”.

Nesse caso, por qual crime poderia ser condenado o acusado? Sempre se dizia que podia ser condenado por qualquer dos crimes (o imputado na peça inicial e

o imputado no aditamento). Daí a imputação alternativa.

Art. 384, §4º: Antes da Lei 11.719/09 era possível que, diante do aditamento, o acusado fosse condenado tanto pela imputação originária quanto pela imputação superveniente. Com o novo §4º do art. 384, uma vez feito o aditamento, o magistrado estará adstrito aos seus termos, não mais sendo possível a condenação do acusado pela imputação originária.

Art. 384, § 4o Havendo aditamento, cada parte poderá arrolar até 3 (três) testemunhas, no prazo de 5 (cinco) dias, ficando o juiz, na sentença, adstrito aos termos do aditamento. (Incluído pela Lei nº 11.719, de 2008).

SALVO em duas hipóteses:

Aditamento for feito para inclusão de elemento especializante, como por exemplo, uma qualificadora. No caso de crimes complexos. DENUNCIA INSTRUÇÃO MP SENTENÇA CONDENATÓRIA Imputação originária: 155. Surge violência. Imputação superveniente: art. 157 (aditamento). Por qual imputação? Art. 384§4º § 4o

Havendo aditamento, cada parte poderá arrolar até 3 (três) testemunhas, no prazo de 5 (cinco) dias, ficando o juiz, na sentença, adstrito aos termos do aditamento.

CS – PROCESSO PENAL III 65

4.14. INDENIZAÇÃO CIVIL NA SENTENÇA 4.14.1. Disposições legais Assim dispõe o art. 91 do CP:

CP Art. 91 - São efeitos da condenação:

I - tornar certa a obrigação de indenizar o dano causado pelo crime;

O novo parágrafo único do art. 63 do CPP, bem como o novo art. 387 assim

preveem:

CPP Art. 63. Transitada em julgado a sentença condenatória, poderão promover-lhe a execução, no juízo cível, para o efeito da reparação do dano, o ofendido, seu representante legal ou seus herdeiros. Parágrafo único. Transitada em julgado a sentença condenatória, a execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos termos do inciso IV do caput do art. 387 deste Código sem prejuízo da liquidação para a apuração do dano efetivamente sofrido (novidade da Lei

11.719/08).

Art. 387. O juiz, ao proferir sentença condenatória:

IV - fixará valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração, considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido;

Observações:

Essa sentença condenatória forma um título executivo LÍQUIDO e CERTO (e EXIGÍVEL), pois já indica o valor do prejuízo. Isso apenas quanto ao valor

mínimo, ou seja, nada impede que o ofendido ingresse no cível para liquidar o restante da reparação.

A sentença será parte LÍQUIDA (valor mínimo da reparação, pronto para ser executado) e parte ILÍQUIDA (restante da reparação, devendo ainda ser liquidada no juízo cível). Esta execução tramita no JUÍZO CÍVEL.

Como um dos efeitos da condenação é tornar certa a obrigação de reparar o dano causado pelo delito, essa fixação poderá se dar independentemente de pedido da parte.

O dano, para fins da estipulação deste valor mínimo, é o material/patrimonial. Antes da Lei 11.719/08

Depois da Lei 11.719/08 A sentença condenatória com trânsito em julgado funcionava como título executivo judicial. Havia o reconhecimento da dívida (“an debeatur”). Não havia a fixação de valor (não havia a fixação do “quantum debeatur”). Era necessário um procedimento de liquidação antes da execução. A sentença condenatória com trânsito em julgado funciona como título executivo judicial. Há o reconhecimento da dívida (“an debeatur”). Há a fixação, na própria sentença, de um valor mínimo de reparação por DANOS MATERIAIS. Pode ainda o ofendido buscar a indenização que achar cabível no juízo cível, com base no título judicial (sentença), procedendo-se a posterior liquidação e execução.

CS – PROCESSO PENAL III 66

# A previsão da indenização contida no inciso IV do art. 387 surgiu com a Lei

nº 11.719/2008. Se o crime ocorreu antes da Lei e foi sentenciado após a sua vigência, pode ser aplicado o dispositivo e fixado o valor mínimo de reparação dos danos?

4.14.2. Fixação em capítulo próprio

A fixação desse valor mínimo deve se dar em capítulo próprio da sentença

condenatória. Dois motivos:

a) Se o condenado ou a vítima recorre tão-somente contra o valor fixado a

título de indenização, nada impede a expedição de guia para execução da pena privativa de liberdade.

b) Se o condenado impugnar o capítulo referente à condenação não será

possível a execução por quantia certa, pois esta pressupõe o trânsito em julgado da sentença condenatória. Esta novidade gera um maior interesse de ingresso na relação processual do

assistente da acusação. Isto porque já pode sair com o quantum indenizatório mínimo definido.

A vítima poderá pleitear indenização maior no juízo cível?

SIM. Na sentença penal, o juiz fixará um valor mínimo. Assim, a vítima poderá executar desde logo este valor mínimo e pleitear um valor maior que o fixado na sentença, bastando, para isso, que prove que os danos que sofreu foram maiores que a quantia estabelecida na sentença.

4.14.3. Interesse recursal em recorrer desta decisão

a) Acusado

# O condenado poderá impugnar o valor fixado na forma do art. 387, IV do CPP

por meio de um habeas corpus? NÃO. A via processual do habeas corpus não é

adequada para impugnar a reparação civil fixada na sentença penal condenatória, com base no art. 387, IV do CPP, tendo em vista que a sua

imposição não acarreta ameaça, sequer indireta ou reflexa, à liberdade de locomoção (HC 191.724/RJ, Rel. Min. Laurita Vaz, Quinta Turma, julgado em 15/10/2013) (

b) MP?

CS – PROCESSO PENAL III 67

O MP pode recorrer contra valor arbitrado a título de indenização mínima? Em

regra, não, pois não é dado ao MP tutelar interesses DISPONÍVEIS de particulares (CF, art. 127). EXCEPCIONALMENTE, no caso de vítima pobre, aplica-se analogicamente o art. 68 do CPP, que permite ao MP ingressar com ação civil ex delicto em favor de vítima pobre.