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- A POESIA MEDIEVAL –

Analisando a produção poética do período, os historiadores da literatura


classificam as cantigas em dois tipos, cada um deles dividido em duas espécies, como
mostra o quadro:

1) CANTIGA LÍRICO-AMOROSA ( a) cantiga de amor


( b) cantiga de amigo

2) CANTIGA SATÍRICA ( a) cantiga de escárnio


( b) cantiga de maldizer

Cantiga lírico-amorosa

Como diz o nome, esse tipo de cantiga expressa subjetivamente o sentimento


amoroso do eu-lírico.

 Cantiga de amor

A cantiga que apresentamos a seguir data do final do século XII. Perceba como a
língua sofreu grandes modificações. Afinal, são quase oito séculos a separar esse texto
do leitor atual. Por isso, apresentamos a versão original e uma versão atualizada da
cantiga.

A dona que eu am’e tenho por senhor


Amostrade-me-a Deus, se vos em prazer for se
non dade-me-a morte.

A que tenh’eu por lume destes olhos meus


e por que choram sempre amostrade-me-a
Deus.se non dade-me-a morte.

Essa que Vós fizestes melhor parecer de quantas


sei, ai Deus, fazede-me-a ver,
se non dade-me-a morte.
Ai Deus, que me-a fizestes mais ca mim amar,
mostrade-me-a u possa com ela falar, se non
dade-me-a morte.

(Bernardo de Bonaval)
A dona que eu sirvo e que muito adoro
mostrai-ma, ai Deus! Pois que vos imploro,
senão, daí-me a morte.

Essa que é a luz destes olhos meus por


quem sempre choram, mostrai-ma, ai Deus!
senão, daí-me a morte.

Essa que entre todas fizestes formosa,


mostrai-ma, ai Deus! onde vê-la eu possa,
senão, daí-me a morte.

A que me fizeste amar mais do que tudo,


mostrai-ma e onde possa com ela falar,
senão, daí-ma a morte.

ENTENDENDO O TEXTO

Responda às questões baseando-se na versão atualizada da cantiga.

1. O eu-lírico é masculino e faz dois pedidos: um na primeira estrofe e outro na última.

a) O que ele pede?


b) A quem ele dirige seus pedidos?
c) Se os pedidos não puderem ser atendidos, qual é a solução entrevista pelo eu-
lírico?

2. Na primeira estrofe, o trovador coloca-se em posição de vassalagem diante da


mulher, além de divinizá-la. Copie os verbos que justifiquem cada uma das afirmativas.
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3. Além de colocar nas mãos de Deus a possibilidade de ser feliz, o poeta atribui a Ele
a responsabilidade pela beleza da mulher. Que fragmento da cantiga expressa a segunda
idéia?
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4. Por ser irrealizável, o amor transforma-se em fonte de sofrimento para o trovador,


que se lamenta no refrão da cantiga. Qual é a função do refrão num texto poético?
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 Nesse texto aparecem as características mais comuns da cantiga de amor:

1) O eu-lírico é sempre masculino. Aliás, só homens escreviam cantigas, pelo


menos em Portugal, já que às mulheres não era dada a possibilidade de se
alfabetizarem. A mulher é chamada de senhor (em galego-português a palavra
era invariável, servia para os dois gêneros).
2) A situação que se retrata na cantiga é a de um amor impossível, pois a mulher a
quem se dirige o eu-lírico é comprometida ou pertence a classe social superior.
Ela é sempre a dona. (A palavra dona procede do latim domina, a mesma
palavra de que resultou em português o verbo dominar.)
3) A declaração amorosa do trovador obedece a determinadas convenções
conhecidas no conjunto como amor cortês (cortês – relativo à corte.)

As convenções do amor cortês refletem a hierarquia do mundo feudal: a mulher,


sempre inatingível, é a senhora a quem o trovador se dirige em vassalagem amorosa.
Por isso, a figura feminina é sempre objeto de adoração por parte do eu-lírico. O
sofrimento amoroso é conhecido como coita, que transforma o trovador num “coitado”.
Assim como existe um serviço de cavalaria – o vassalo frente ao suserano -, existe
um serviço amoroso - o trovador frente à sua dona. As relações amorosas expressam-se
como vassalagem feudal:

uma dona de quem me contento


em ser servido com veneração
Se dela me chamo fiel servidor...

O sofrimento decorrente desse amor não-realizado e não-realizável atinge seu


clímax no desejo de morte, como já vimos na cantiga analisada.

4) A mesura é uma das convenções que mais se destacam. Esta convenção obriga o
trovador a:
a) Conter-se na expressão do sentimento, embora este possa estar repleto de
sensualidade. É a contenção amorosa.

Algumas vezes se infringe esse código e o erotismo vem à tona, como neste
trecho de cantiga provençal:

Conseguirei, senhora, grande honra


se me déreis a honra de que possa
sob uma coberta abraçar-vos desnuda

(Tradução livre in: MONGELLI, Lênia Márcia et alii. A literatura portuguesa


em perspectiva. São Paulo, Atlas, 1992. p. 34.
b) não divulgar jamais o nome da mulher amada, comprometida e proibida para ele.
Além de proteger a honra da mulher, o ocultamento do nome impregna amor
vassalo de um prestígio quase religioso.

c) Situar a mulher acima de tudo e de todos, inclusive dele próprio. Resulta dessa
atitude a idealização da figura feminina. Na manifestação poética, o eu-lírico
reprimi qualquer indício de orgulho e praticamente suplica à mulher de
confessar seu amor.

Apenas a vi, perdido fiquei:


mas do seu amor que sempre implorei,
se o bem nunca tive e nunca terei...

5) Quanto à forma da composição, é comum o refrão, que repete a idéia básica da


cantiga, às vezes com ligeiras variações. O refrão, além de reproduzir um efeito
semelhante ao de uma prece, revela a natureza musical da cantiga. Basta você
pensar na música popular atual: a grande maioria das letras apresenta refrão.

Para concluir: o exame de um número expressivo de cantigas mostra que as


mulheres retratadas nas cantigas de amor apresentam características muito
semelhantes e são sempre homenageadas da mesma maneira pelo trovador. A
impressão que resta é de que o poeta não fala de uma mulher determinada,
individualizada, mas de uma imagem idealizada de mulher, espécie de modelo
literário.

Ó formosura sem falhas


que nunca um homem viu tanto
para o meu mal e meu quebranto!
Como entre as pedras o rubi
a melhor sois de quantas vi.

 Cantiga de amigo

A cantiga de amigo também expressa um sentimento amoroso, mas difere da


cantiga do amor,. Antes de estudar uma cantiga desse gênero, é importante que você
saiba que amigo, na época, era sinônimo de namorado ou amante.
A cantiga de amigo que vamos estudar, uma das mais conhecidas da literatura
portuguesa, apresenta uma situação curiosa: uma mulher conversa com um pinheiro,
solicitando notícias do amigo (namorado ou amante) que a deixou. E o pinheiro
responde!

Leia as duas versões: a original e a atualizada.


-Ai, flores, ai flores do verde pino, -Vós preguntades pólo voss’amigo?
se sabedes novas do meu amigo? E eu bem vos digo que é san’e vivo.
Ai, Deus, e u é? Ai, Deus, e u é?

Ai, flores, ai flores do verde ramo, Vós preguandades pólo voss’amado?


se sabedes novas do meu amado? E eu bem vos dogo eu é viv’e sano.
Ai, Deus, e u é? Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo, E eu bem vos digo eu é san’e vivo,


aquei que mentiu do que pôs comigo? e será vosc’ant’o prazo saído.
Ai, Deus, e u é? Ai, Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amado, E eu vos digo que é viv’e sano,


aquei que mentiu do que m’á jurado? e será vosc’ant’o prazo passado.
Ai, Deus, e u é? Ai, Deus, e u é?

(DINIS, d. in: Antologia da poesia trovadores


galego-portuguesa. Porto, Lello & Irmão – editores,
1977. p. 250-1.

- Ai flores, ai flores do verde pinheiro, -Vós perguntais pelo vosso amigo?


se por acaso sabeis novidades do meu Eu bem vos digo que ele está são e
amigo, ai, Deus, onde está ele? vivo. Ai, Deus, onde está ele?

Ai flores, ai flores do verde ramo, Vós perguntais pelo vosso amado?


se por acaso sabeis novidades do meu Eu bem vos digo que ele está vivo e
amado, ai, Deus, onde está ele? são . Ai, Deus, onde está ele?

Se sabeis novidades do meu amigo, E eu bem vos digo que ele está são e
aquele que mentiu no que prometeu vivo, e estará convosco no prazo
para min, ai, Deus, onde está ele? combinado. Ai, Deus, onde está ele?

Se sabeis novidades de meu amado, E eu bem vos digo que ele está vivo e
aquele que mentiu no que me jurou, são, e estará convosco no prazo
ai Deus, onde está ele? combinado. Ai, Deus, onde está ele?

ENTENDENDO O TEXTO

1. O autor da cantiga é um dos mais famosos trovadores portugueses,


o rei d. Dinis. Ele se desdobra num eu-lírico que traduz os sentimentos do homem ou da
mulher?
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2. Na cantiga ocorre um diálogo. Na primeira parte, há perguntas e na
segunda, respostas.

a. Delimite as partes.
b. Na primeira parte, quem faz perguntas?
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c. Na segunda parte, quem responde?


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3. As perguntas do eu-lírico feminino demonstram ansiedade.

a. Qual é o motivo dessa ansiedade?


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b. Que recurso poético expressa com bastante ênfase essa ansiedade?


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4. Podemos afirmar que nesta cantiga a natureza:

a. Serve apenas como ambientação do drama vivido pela mulher.


b. Assume um papel importante no conflito amoroso.

 Justifique sua resposta.

5. O refrão da cantiga:

a. Tem lógica tanto na fala da mulher quanto na do pinheiro.


b. Tem lógica apenas na fala da mulher; na fala do pinheiro ele é repetido apenas
para encadear a musicalidade da cantiga.

Características da cantiga de amigo

1. Eu-lírico feminino: o trovador assume o ponto de vista da mulher, uma mulher


solteira e, por isso, não submetida às convenções do casamento.

Por Deus, coitada vivo,


pois não vem meu amigo,
pois não vem, que falei?

2. a mulher sempre se dirige diretamente ao amigo, ou à mãe, irmãs, amigas ou a


algum elemento da natureza – caso este da cantiga estudada.
3. Enquanto a cantiga de amor inspira-se nos valores cultivados pela nobreza, a
cantiga de amigo tem inspiração popular, o que explica sua linguagem mais
fácil.
4. A cantiga de amor expressa sentimentos irrealizáveis no plano físico; a cantiga
de amigo, por sua vez coloca em evidência também a importância do amor
físico.
Sem o meu amigo sinto-me sozinha
E não adormecem estes olhos meus.

5. Quanto à forma, é comum também o refrão, como se pôde observar na cantiga


lida.

 Cantiga satírica

Os trovadores não expressaram apenas seu lirismo. Preocuparam-se também em


satirizar situações de seu tempo, zombando de autoridades, de fatos considerados
ridículos, de outros trovadores e até de mulheres. São as cantigas satíricas. Observe
como um trovador adverte outro a respeito da mulher com quem este vivia:

Vós que tão bem entendeis,


o que um bom segrel entende,
porque demônio viveis
com uma mulher eu se vende?

(Bernardo de Bonaval)

No conjunto, as cantigas satíricas apresentam um retrato vivo de costumes da


época. Tratam de mexericos, das brigas entre trovadores, além de denunciar
comportamentos como a avareza e o adultério. Muitas apresentam linguagem obscena .
Num livro da época – Arte de trovar – define-se assim a cantiga satírica: “...são aquelas
que os trovadores fazem querendo dizer mal de alguém nelas...”
É tarefa muitas vezes difícil distinguir as cantigas satíricas em suas duas espécies,
a de escárnio e a de maldizer.

 Cantiga de escárnio

É a crítica indireta, irônica, mais sutil. São sátiras de intenção social ou individual.
Há também cantigas de escárnio em que um poeta critica a obra de outros trovadores ou
os próprios trovadores.
No trecho seguinte de uma cantiga satírica vemos a denúncia daquilo que o poeta
considera uma “desordem social”:

O que vejo agora, já foi profetizado


por dez e cinco, os sinais do fim.
Anda neste mundo tudo misturado:
faz-se peregrino o mouro ruim.
 Cantiga de maldizer

Apresenta uma crítica mais direta, mais virulenta e mais grosseira que a de
escárnio .

Leia a reposta de um trovador a uma dama que se queixou de nunca ter merecido
dele uma cantiga:

Ai, dona feia, foste-vos queixar


de que nunca vos louvo em meu trovar;
e umas trovas vos quero dedicar
em que louvada de toda maneira;
sereis; tal é o meu louvar:
dona feia, velha e gaiteira.

Ai, dona feia, se com tanto ardor


quereis que vos louve, como trovador,
trovas farei e de tal teor
em que louvada de toda a maneira
seres, tal é o meu louvor:
dona feia, velha e gaiteira.

Ai,dona feia, nunca vos louvei


em meu trovar eu que tanto trovei
e eis que umas trovas vos dedicarei
em que louvada de toda a maneira
sereis e assim vos louvarei:
dona feia, velha e gaiteira.

(João Garcia de Guilhade)

Língua e Literatura. Faraco & Moura. P. 192 até 199.