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Em quase todas as culturas que hoje conhecemos, o fenômeno religioso está presente, em

menor ou maior escala.


Há muitas similaridades entre o fenômeno religioso entre os povos, o que sugere a
existência de um fator comum à experiência religiosa de todos os homens.
Essas semelhanças são devidas a experiências comuns a todos os mortais. Por exemplo,
a universalidade das necessidades humanas, tanto as de ordem física quanto as de
ordem espiritual, a tendência à unidade e completação do homem como ser finito que
é e a consciência da existência de um poder transcendental operante no mundo, se
bem que de modo Intangível.
A fim de poder saber quando determinado comportamento é tido como religioso, é preciso
definir o termo religião. Há, literalmente, centenas de definições de religião. Essas
definições podem ser classificadas em dois grandes grupos: definições que encaram a
religião como o reconhecimento de um mistério, que exige interpretação, e definições
que define religião como o sentimento de absoluta dependência de Deus.
A definição de Sir James Frazer é particularmente sugestiva. Diz ele que "religião é a
propiciação (ação ou ritual com que se procura agradar uma divindade) ou
conciliação (fazer aliança; harmonizar) de poderes superiores ao homem, que, se
crê, dirigem o curso da natureza e da vida humana". Como se verifica, segundo essa
definição, religião consiste de dois elementos, um teórico e um prático, isto é, "a crença
em poderes maiores do que o homem e o desejo de agradar a esses poderes". Diz o
citado autor, no mesmo lugar: ‘obviamente, a fé vem primeiro, pois precisamos de crer
na existência de um ser divino antes de procurarmos agradá-lo. Mas, a não ser que a
crença leve o homem à prática correspondente, ela não será uma religião, mas
simplesmente uma teologia’.
Para Émile Durkheim, religião é um fato essencialmente coletivo. Diz ele: "Religião é
um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, a coisas
separadas e proibidas - crenças e práticas que unem, numa comunidade moral chamada
igreja, a todos aqueles que a elas aderem."
Não se pode negar a significação do aspecto coletivo da religião, porém parece-nos óbvio
que também não se pode reduzir religião à mera experiência coletiva. Diz Spinks:
"Qualquer definição que salienta os aspectos comunitários da religião em sacrifício do
elemento individual é defeituosa, pois um dos aspectos mais importantes da religião é
a apreensão individual de um Poder, Objeto ou Principio supremo".
Gordon Allport e William James, que apresentam a religião como algo tipicamente
individual. A ênfase é sobre a experiência pessoal. E William James disse que "no sentido
mais amplo e em termos gerais, pode-se dizer que a vida religiosa consiste na crença
de que existe uma ordem invisível e que nossa felicidade suprema consiste em
pormo-nos em harmonia com essa ordem em que cremos". E, em consonância com
sua posição teórica, diz ele: "Religião, portanto, como eu agora arbitrariamente vos peço
admitir, significará para nós os sentimentos, atos e experiências de indivíduos em sua
solitude, enquanto se percebem a si mesmos em relação com o que quer que seja que
eles considerem divino".
J. Bissett Pratt, ao definir religião, ele inclui tanto o aspecto coletivo como o individual.
Diz ele: "Religião é uma atitude social de indivíduos ou de comunidades para com o
poder, ou poderes, que eles creem exercer controle final sobre seus interesses e
destinos". Em primeiro lugar, a definição diz que religião é uma atitude. Ora, diz ele, a
palavra atitude, tal como é usada aqui, significa o lado responsivo da consciência,
encontrado em fenômenos como a atenção, o interesse, a expectação, o sentimento,
as tendências à reação, etc. A definição, portanto, sugere que religião não é questão de
determinado departamento da vida psíquica, mas envolve o homem como um todo.
A outra vantagem desse conceito é que ele indica que religião é imediatamente
subjetiva, diferindo, assim, das ciências que dão ênfase ao conteúdo, ao invés de à
atitude, mas ao mesmo tempo ela indica que religião envolve e pressupõe a aceitação
do objetivo. Portanto, "religião é atitude de um 'eu' para com um 'objeto' em que ele
genuinamente acredita".
Tylor tem sua definição de religião, que é simplesmente "fé em seres espirituais".
Adotaremos a definição de Clark, que diz: "Religião é a experiência intima do
indivíduo, quando ele sente um Transcendente, e que se expressa em seu
comportamento, quando ele ativamente procura harmonizar sua vida com esse
Transcendente". Portanto, religião é o ato que tem referência especifica ao
Transcendente. Daí, definimos comportamento religioso como sendo qualquer ato
ou atitude que tem referência especifica ao divino ou sobrenatural.
Os estudos de antropologia cultural parecem indicar que expressões religiosas existem
praticamente em todos os níveis de civilização. A religião, portanto, nasceu com o
próprio homem pré-histórico. Herbert Kühn diz que, a princípio, a religião se
expressava em mágica, bruxarias, danças, encantamentos, cânticos sagrados, etc. Mais
tarde, o homem começou a desenvolver formas coerentes de pensamentos, conceitos
subjetivos e concepções mágicas do universo. Finalmente, em fase altamente evoluída,
ele passou a elaborar explicações mais racionais do universo, dando, assim, origem à
filosofia e às formas das chamadas religiões superiores.
Parece que em todas as culturas de que temos conhecimento e em que há formas de
comportamento religioso, a crença em algum poder que controla os destinos do universo
é básica e universal. Seria dif1cil, cremos nós, dizer qual a forma mais primitiva do
fenômeno religioso. O chamado mana.
Uma das ideias fundamentais que deram origem à religião é inegavelmente a ideia
do misterioso, ou, para usar a linguagem de Otto, a ideia do numinoso. Muito antes de o
homem ser capaz de verbalizar sua concepção de vida e do universo, já indicava
preocupação com o mysterium tremedum et fascinans que o envolve. Esse mysterium
tremedum capaz de incutir medo tem também o extraordinário poder de atrair o homem.
Ou, como diz Spinks, a repulsão e a fascinação são polos gêmeos das reações do
homem ao estranho, ao tremendo, ao sugestivo e ao terrível. Vista desse ângulo,
portanto, a religião é a resposta do homem a esse misterioso que lhe infunde pavor e
ao mesmo tempo o fascina e atrai.
O animismo (crença segundo a qual todas as coisas, animadas ou inanimadas, estão dotadas de almas
pessoais, que nelas residem),ou animatismo (crença segundo a qual todos ou determinados objetos
importantes estão dotados de vida ou contêm uma energia comunicável, sendo respeitados como veículos
de um poder impessoal ou como capazes de atuar por motivos de tipo pessoal) , a magia, o totemismo
(pode ser uma árvore, um animal, um rio ou qualquer outro fenômeno na ordem natural com que o homem
primitivo se sinta especialmente relacionado. Em torno desse totem se cria um tabu, isto é, uma crença na
sua intocabilidade), a adoração dos antepassados e a adoração da natureza são considerados
formas primitivas de religião. A ideia do numinoso, entretanto, se bem que existindo
desde as formas mais elementares de religião, não é limitada à religião primitiva. Mesmo
nas formas mais evoluídas dos conceitos religiosos, esta fascinação pelo mistério está
presente. O mysterium é parte integrante da experiência religiosa.
A crença num Deus, o monoteísmo é a forma superior de religião, como a fase mais
avançada de sua evolução histórica da religião. Quando falamos em "Deus", estamos
usando um termo de características bem mais definidas. As ideias de "espírito" ou de
mana são vagas e impessoais; falta-lhes individualidade. Os deuses, entretanto, como
observa Coe, têm individualidade. O homem com eles se relaciona por meio de oração e
outras formas sociais relativamente permanentes, tais como votos e pactos, etc.
É extremamente difícil dizer-se como o homem chegou à ideia de deuses. Talvez o melhor
que se possa fazer é afirmar que, a partir da combinação de várias ideias fundamentais, o
homem chegou a conceber a ideia de deuses individuais. Obviamente, aqui não se discute
o conceito teológico de Revelação, pois por ele Deus se fez conhecer ao homem por sua
própria iniciativa.
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