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INTRODUÇÃO

TIPOS HISTÓRICOS DE PROCESSO PENAL


PRINCÍPIOS GERAIS DO PROCESSO PENAL
ESTRUTURA FUNDAMENTAL DO PROCESSO PENAL
MEDIDAS DE COACÇÃO E DE GARANTIA PATRIMONIAL
VÍCIOS DOS ACTOS PROCESSUAIS
RECURSOS

Bibliografia:
Código de Processo Penal Anotado e Comentado
Gonçalves, Manuel Lopes Maia
Anotações das aulas.

INTRODUÇÃO

1. Considerações gerais
Ao Direito Penal cabe a função de proteger os bens, os valores
fundamentais da comunidade, através:
- Da prevenção de lesões que sejam de recear no futuro – a chamada
função preventiva;
- A punição daquelas lesões, daquelas infracções que já tiveram lugar –
função punitiva.
Esta função de protecção de bens e valores que são fundamentais da
comunidade e centralizada (dotada de um poder central).
O Estado chama a si o exercício desta função, da protecção da ordem
social, e pelo exercício da mesma, toda a tarefa de investigar e de esclarecer,
de prosseguir, sentenciar e punir os crimes cometidos dentro da chamada área
da sua jurisdição, isto é, dentro do território em que ele exerce a sua autoridade
político-judiciária.
O estado vai administrar a justiça virado para os próprios particulares, na
medida em que ele consagra o princípio da “nulla pena sine processum”, isto é,
ninguém poderá ser sentenciado sem que primeiramente haja um processo, ou
sem que seja através de um processo.
Este princípio garante que a aplicação das penas e medidas de segurança 1 [1]

só pode ser feita em conformidade com as disposições do Código de Processo


Penal.
A aplicação do princípio nulla pena sine processum (art. 29º/1, 32º CRP,
2º CPP):
a) Garante desde logo todos os direitos que são concedidos ao arguido,
na medida em que se respeita a dignidade humana do indivíduo,
portanto, do infractor;
b) E por outro lado, constitui um limite à função punitiva do Estado, na
medida em que perante o cometimento de um crime, de uma infracção de
1[1]
De natureza criminal
natureza criminal, o Estado não pode de qualquer maneira, de uma forma
cega e brutal, punir essa pessoa; mas antes terá que o fazer através de
um processo penal, segundo uma forma legal que ele próprio, através do
que o órgão legislativo estipulou.
Portanto:
- É uma garantia para o cidadão, na medida em que lhe são
garantidos determinados direitos que ele poderá exercer ou não;
- Traduz-se num limite ao próprio Estado, na medida em que impõe
que o sentenciamento das infracções seja feito através de processo (s)
regulado (s) por normas processuais.
O Direito Processual Penal, é um direito que vem fixar que vem definir as
condições existentes e necessárias para averiguar se o agente praticou um
certo facto, qual a reacção que lhe deve corresponder e qual a forma a aplicar.
O processo penal, é um conjunto de actos que tendem a investigar e a
esclarecer a prática de um crime, encontrar o seu agente, a responsabilidade
que lhe cabe e determinar a legislação que pune esse acto.
O Direito Processual Penal é o conjunto de normas que vão regular os
actos de processo.
Cabe ao Direito Processual Penal e ao Direito Penal regulamentar as
condições, os termos necessários para averiguar se um determinado agente
praticou um crime.
Entre Direito Processual Penal e o Direito Penal, existe não uma relação de
subordinação, mas uma complementaridade funcional.
No Direito Penal, para que haja aplicação de uma pena, isto é, para que o
Direito Penal reaja, exige-se que haja o cometimento de um crime. O Direito
Penal só exerce a sua função punitiva aquando do conhecimento exacto de
quem cometeu o crime.
Para o Processo Penal, não interessa quem cometeu o crime, basta a
notícia, basta que alguém chegue ao Ministério Público e diga: “está um
homem morto no Parque Eduardo VII”.
Há notícia de um crime, quem foi não interessa, isto basta para
desencadear o processo penal. Imediatamente se fazem as diligências
necessárias com vista à investigação.

2. O fim do Processo Penal


A finalidade do processo penal é a descoberta da verdade e a realização da
justiça.
Visa-se a comprovação, a realização, a definição e a declaração do direito
ao caso concreto. Comprovar que uma pessoa pratica um determinado crime;
definir e declarar qual a norma objecto do direito pelo qual deve ser punido.
Mais do que a chamada segurança jurídica, a finalidade do processo
penal é alcançar a própria justiça.

3. Objecto do processo penal


É um conjunto de factos humanos, devidamente situados no tempo e no
espaço, que integram os pressupostos de que depende a aplicação ao seu
autor de uma pena ou de uma medida de segurança:
a) Conjunto de factos humanos, mas não de qualquer facto, factos que
são crime;
b) Situados no tempo, se ainda é ou não é possível de sanção penal;
saber também o “quando”, nomeadamente por uma questão de prova: o
momento, a que horas, inclusivamente para a própria qualificação do
crime;
c) Situados no espaço, para se saber qual o Tribunal que vai apreciar;
interessa saber o local onde o crime foi cometido.
Este conjunto de factos tem de integrar outros pressupostos, de que
dependem a aplicação de uma determinada pessoa, de uma pena ou de uma
medida de segurança.
A averiguação destes factos é feita durante o inquérito ou, eventualmente,
também na chamada instrução.
Nesta fase investigatória vai trazer-se para o processo tudo quanto possa
incriminar ou não um determinado indivíduo. E portanto, nesta fase vão-se
coligir os factos, tudo aquilo que interessa imputar ao arguido, porque há
determinadas situações circunstanciais que não interessam.
Terminado o inquérito, o Ministério Público recolhe os elementos de facto e
vai inseri-los na acusação.
O Tribunal só pode conhecer e só pode sentenciar os factos que constam
da acusação, no processo que lhe é levado.
Dir-se-á que o objecto do processo penal é a própria acusação.

4. Âmbito do Processo Penal


O processo penal abrange o conjunto das normas que disciplinam, quer a
intervenção da existência de um crime e a aplicação ao agente que praticou
esse crime de uma pena ou de uma medida de segurança, mas também, numa
fase posterior, o controlo da execução das reacções criminais.
O Processo Penal:
- Abrange não só a investigação, esclarecimento e punição do crime;
- Mas também o controlo da execução das reacções criminais.
5. Localização Direito Processual Penal no sistema jurídico
Ele faz parte do Direito Processual em geral.
O direito processual civil: um direito mais completo, que tem a ver com as
relações entre as pessoas; o processo penal também tem a ver com as
relações entre as pessoas e também entre as pessoas e o Estado.
Uma das formas de integrar lacunas em processo penal, será através do
recurso às normas de processo civil, primeiramente normas de processo penal,
depois normas de processo civil que se harmonizem com o processo penal.
Fazendo a comparação entre dos dois ramos de direito.
a) Direito Processual Civil:
Tem como causa uma relação de natureza privatistica, de direito privado.
Pertence aos sujeitos dessa mesma relação, é dirigido por eles e dirige-se
contra pessoas singulares ou colectivas.
Não implica necessariamente uma decisão judicial. As partes podem pôr fim
ao litígio, ou podem nem sequer exercê-lo, podem nem sequer recorrer aos
Tribunais. A investigação é levada a cabo pelas próprias partes: é ao autor que
antes de fazer a petição inicial faz a investigação.
Se o réu não contestar, deverá ser condenado liminarmente. Em qualquer
altura as partes podem vir ao processo para transigir. É uma relação de
natureza privatistica.
b) Direito Processual Penal:
Tem-se uma relação de natureza pública, que inclusivamente só pode ser
exercida contra pessoas singulares.
Tem de haver uma decisão, ou do Ministério Público para arquivar, por ex.,
o processo; ou do juiz de sentenciar ou absolver o arguido. O Ministério Público
uma vez feita a acusação, já não pode desistir, não pode fazer acordos, não
pode transigir.
Se há notícias de um crime público, o processo tem de ser desencadeado
imediatamente, tem de haver investigação.
A submissão de um criminoso, de um arguido, a reacções criminosas, só
pode dar-se dentro do Estado e pela via do processo 2 . [2]

O processo penal é praticamente indisponível.


Há os chamados crimes particulares, é como que uma declaração apenas
entre dois sujeitos – entre o ofendido e o ofensor. Ele pode desistir do processo
(não o Ministério Público, mas o assistente), é uma excepção.
O crimes semi-públicos, em que se o ofendido desistir da queixa o
processo é arquivado.
Em processo penal à existência de uma fase de inquérito, uma fase
secreta. É uma fase de investigação que é levada a cabo por uma entidade
isenta – o Ministério Público. Não vigora o princípio da auto-responsabilidade
probatória das partes. Isto é, se o arguido não contestar, não se consideram
provados ou não se têm como provados os factos que lhe são imputados. Há a
impossibilidade de qualquer transacção ou renúncia ao objecto do processo,
não vigora o princípio do dispositivo.
Encontra-se uma quase total discricionariedade do juiz na investigação dos
factos que constem da acusação o Tribunal tem inteira legitimidade e tem
inteira discricionariedade para os investigar.
É um direito de natureza pública, porque nele intervém o Estado no
exercício da sua função jurisdicional: ao Estado e só ao Estado compete a
perseguição e condenação dos criminosos.

HISTÓRICOS DE PROCESSO PENAL

7. Processo tipo inquisitório

É um tipo de processo que é característico dos Estados absolutistas, com o


poder absoluto dos Reis e da Igreja; e ainda dos Estados totalitários, em que
se verifica uma posição de supremacia total do Estado sobre o indivíduo.
Há um juiz, mas que não é independente do poder político. E, ao mesmo
juiz, à mesma entidade, compete instruir, acusar e julgar. Isto é, compete fazer
a investigação, finda esta, se já coligiu elementos, deduz a acusação; e depois
vai julgar.
Há uma prevalência total da verdade formal da verdade material. A
confissão era a rainha das provas: bastava o arguido confessar o seu crime
para que se fosse condenado. É a chamada verdade formal 3 . [3]

2[2]
Princípio da nulla pena sine processum – ninguém será sentenciado sem que contra ele seja elaborado um
processo.

3[3]
Hoje procura-se a verdade material, saber como é que realmente os factos se passaram.
Ao arguido não eram reconhecidos direitos. O arguido era uma coisa, era
um objecto a quem era feito o processo.
Por conseguinte era admitida a tortura para obter a confissão do arguido.

8. Processo tipo acusatório


O que caracteriza este processo é que o Estado e o cidadão estão em
igualdade, um quer punir, o outro quer defender-se, são reconhecidos ambos
os direitos.
O grande impulso deste processo surge com os filósofos, com os
doutrinários da Revolução francesa e todo o movimento jus-naturalista, desde
logo o Iluminismo, há que reconhecer os direitos inalienáveis da pessoa
humana.
Nasce a teoria da separação constitucional dos poderes e surge a
independência dos juízes: surge a publicidade, a contrariedade e a oralidade
dos julgamentos.
No processo tipo acusatório entendia-se o processo penal como uma
oposição de interesses:
a) Por um lado o Estado, a querer punir;
b) Do outro lado o indivíduo, a querer afastar a punição, a querer-se
defender-se.
Ambos dispõem dos mesmos meios; não há supremacia por parte do
Estado.
Vale o princípio do dispositivo, o processo pode ser transaccionado. Vale
também o princípio do juiz passivo, o juiz limita-se a ouvir o que a acusação
tem a dizer e o que a defesa tem a dizer; dá como certos os factos que não
foram contraditados por cada uma das partes e profere a sentença, apenas
com base nesses mesmos factos.
Resulta daqui uma sentença formal. O juiz apenas tem de ter em conta
aquilo que não foi impugnado, é uma sentença formal, que resulta dos autos 4 .
[4]

Em processo penal, neste tipo de acusatório, aquilo que não foi impugnado
pela outra parte considera-se como certo, o princípio da auto-
responsabilidade probatória das partes.
Tem-se também outro princípio, o princípio da total inocência do
acusado até à condenação, todo o indivíduo se considera inocente até ser
condenado.
A acusação e a prisão só são possíveis dentro das formas e dos casos
previstos na lei. É a consagração do “nullum crimen sine legem”. Ninguém
pode ser sentenciado por um crime que não está legalmente previsto, nem
pode ser aplicada nenhuma pena que igualmente não esteja prevista.

9. Processo reformado ou misto


Misto porque tem-se aqui inserida uma fase investigatória que não se
confunde com o processo inquisitório, mas que é levada a cabo por uma
entidade distinta.
Consagra-se os princípios da contrariedade, da publicidade e da oralidade
do julgamento e da livre convicção probatória.
Aparece a figura do júri, ao lado da criação do Ministério Público com o
órgão judicial de acusação.

4[4]
Não a que resulta da realidade de como os factos se passaram.
10. Processo mitigado
Criado em Portugal durante a vigência do Estado Novo.
Cria-se o Ministério Público, mas subordina-se a sua actividade ao juiz. A
competência da instrução preparatória era do juiz: finda esta, ele ordena ao
Ministério Público que acusasse. E se não concordasse com a acusação do
Ministério Público, ele poderia ordenar que fizesse nova acusação, depois ia
julgar.
Cria-se a figura do defensor, aparece como colaborador da realização dos
interesses da administração da justiça. O defensor é a pessoa que vai assistir
tecnicamente o arguido.

11. Sistema processual penal actual


Concebe o processo penal como parte da ordenação comunitária. Ele está
ao serviço da comunidade e não ao serviço do Estado.
Caracteriza-se desde logo pela existência de um princípio não inquisitório,
mas um princípio de investigação, integrado numa fase secreta que é chamado
inquérito e que tem como finalidade esclarecer e instituir autoritariamente o
facto que deve ser sujeito a julgamento.
É vedado ao Ministério Público, transigir, fazer qualquer acordo com o
arguido ou com o defensor, no sentido de deixar de deduzir aquela acusação.
Caracteriza-se ainda pela existência de certas limitações à liberdade do
arguido.
O Ministério Público actuará em todo o processo segundo princípios de
estrita objectividade (art. 53º/1 CPP) e vinculado ao princípio da legalidade.

12. Direito Processual Penal como direito constitucional aplicado


Com o processo penal põem-se em causa direitos, liberdades e garantias
do cidadão. Assim sendo, tem-se que admitir desde logo que ele tem de estar
em concreta conformação com a Constituição.
O art. 29º CRP, vem dizer que “ninguém pode ser sentenciado
criminalmente”, este “sentenciado” refere-se a toda a elaboração de um
processo com vista ao provimento de uma decisão sobre o mérito ou dos
méritos da actuação do arguido.
Há todo um princípio constitucional que está a regular e a atribuir aos
Tribunais a administração da justiça e a forma como ela deve ser administrada
(arts. 29º e 32º CRP).
Só a lei é que estabelece em que condições é se que podem ser restritas ou
limitadas as liberdades dos cidadãos.

13. Fontes de Direito Processual Penal Português


a) A Lei:
- Lei internacional;
- Lei nacional.
Dentro da lei internacional, pode-se fazer uma referência a:
- Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão;
- Convenção europeia sobre os Direitos do Homem;
- Convenção europeia para a Repressão do Terrorismo; entre outras.
Dentro da lei nacional, tem-se:
- A Constituição da República Portuguesa;
- Código de Processual Penal;
- Lei Orgânica dos Tribunais;
- Lei Orgânica do Ministério Público.
b) A Jurisprudência
O art. 205º CRP, ao admitir que os Tribunais são órgãos de soberania com
competência para administrar a justiça em nome do povo, faz com que não nos
restem dúvidas de que as decisões dos Tribunais que administram a justiça em
nome do povo constituem uma fonte material de Direito Processual Penal.
Dentro da jurisprudência, tem-se a jurisprudência judicial, a interpretação
jurídica – como fonte material de direito – na medida em que tal interpretação
se faz através de exigências juridicamente concretas, no caso concreto.
Os Tribunais, ao interpretarem a lei, estão exercer aqui uma função
criadora; e fazem-no no caso concreto.
A lei é geral e abstracta. Cabe precisamente aos Tribunais aplicar a lei ao
caso concreto e fazer a sua interpretação, isso é a função criadora da
jurisprudência.
Tem-se depois a chamada jurisprudência obrigatória, como fonte formal
de direito, a qual é estabelecida na sequência de recurso extraordinário,
previsto no art. 437º CPP.
c) A Doutrina
A Doutrina é também uma fonte material de Direito Processual Penal, na
medida em que lhe compete a construção dogmática jurídico-processual.
Tal como na jurisprudência, também através da Doutrina se pretendem
encontram soluções justas e adequadas para concretos problemas da vida
comunitária.

14. Interpretação da lei processual penal


Em toda e qualquer interpretação de uma norma processual penal têm que
estar sempre presentes as normas da Constituição, esta tem que estar sempre
subjacente a qualquer interpretação da lei processual penal, na medida em que
esta tem de estar sempre em conformidade com a Constituição e com o próprio
fim do processo penal.

15. Integração da lei processual penal


Nos casos omissos aplica-se, primeiramente os preceitos da legislação
processual, terá o intérprete que se socorrer de preceitos do processo civil que
se harmonizem com os princípios do processo penal. Só na falta de preceito
em qualquer destes dois ramos que possa ser aplicado, deverá o intérprete
socorrer-se dos princípios gerais do processo penal (art. 4º CPP).

16. Aplicação pessoal, no tempo e no espaço


a) Aplicação no espaço (art. 6º CPP)
Coincide com os limites do Estado português, sendo extensivo ao território
português, nos termos e com os limites que são definidos em tratados (ex. as
embaixadas).
b) Aplicação pessoal
Abrange todas as pessoas a quem é aplicado o direito penal. Tem restrições
e limites, desde logo, as derivadas do próprio Direito Penal substantivo, etc.
c) Aplicação temporal (art. 5º CPP)
Em princípio rege a regra geral, que é a aplicação imediata da nova lei
processual penal, princípio “tempus regis actum”, formulado no art. 5º/1 CPP,
conduz a que os actos do processo criminal sejam regulados pela lei em vigor
no momento da respectiva prática.
Deriva desde logo uma não retroactividade da nova lei processual
penal, na medida em que os actos praticados na vigência da lei processual
penal revogada mantêm a sua validade.
Sintetizando:
Regra geral – “tempus regis actum” – aplicação imediata da lei processual
penal:
- Tem como corolário, a não retroactividade da lei processual penal;
- As excepções derivam das alíneas a) e b) do n.º 2 do art. 5º CPP e
são:
· Agravamento sensível e evitável (tem de ser uma situação potencial)
da situação processual do arguido;
· Quebra de harmonia e da unidade dos actos processuais.
PRINCÍPIOS GERAIS DO PROCESSO PENAL

PRINCÍPIOS RELATIVOS AO IMPULSO PROCESSUAL

16. Princípio da oficialidade


Em causa está saber a quem compete a iniciativa ou o impulso processual,
portanto, o impulso de investigar a infracção, e quem compete também a
decisão de submeter ou não o infractor a julgamento.
Tem-se que considerar que tal iniciativa é tarefa estatal e ela é realizada
oficiosamente, em certos casos mesmo à margem da vontade e da actuação
dos particulares.
Em determinado tipo de crime, o Estado age oficiosamente: não necessita
da participação, ou do impulso particular, para que se desencadeie todo o
processo de investigação, com vista a determinar quem foram os agentes e a
decisão de os submeter ou não a julgamento. O exercício da acção penal
compete ao Ministério Público – princípio da oficialidade.
Ao lado do Ministério Público, tem-se determinadas entidades oficiais que
podem promover e realizar certas diligências, mas sempre actos que são ou
delegados pelas autoridades judiciárias, ou sempre em coordenação com o
Ministério Público – os chamados órgãos de polícia criminal (arts. 55º e 56º
CPP).
Esta subordinação às autoridades judiciárias advém do art. 248º CPP. O art.
242º CPP, refere os casos de denúncia obrigatória, mas só para os órgãos de
polícia criminal, como também para os magistrados – entidades judiciárias (juiz
ou Ministério Público).
Com esta denúncia obrigatória, com esta obrigação de comunicação dos
actos, com o levantamento dos autos de notícia e porque, nos termos do art.
48º CPP, é o Ministério Público que tem legitimidade para promover o processo
penal, então, a partir do momento em que o Ministério Público tem
conhecimento de um crime inicia toda a parte do inquérito.
Desde a notícia do crime que é dada ao Ministério Público, até ao
julgamento, tudo se vai desenvolver oficiosamente, através de órgãos ou
entidades em que o Estado, detentor do poder soberano de investigar, de
esclarecer determinados factos praticados pelos agentes e de sentenciar.
Quer-se dizer, que se impede, se proíbe, a actuação de particulares na
investigação dos factos que constituem crime.
É nisto que se traduz o princípio da oficialidade, é o carácter público da
promoção processual.
Há limitações ao princípio da oficialidade:
a) Crimes particulares:
São constituídos por infracções de pequena gravidade, de infracções que,
não se relacionando com bens jurídicos fundamentais da comunidade, apenas
atingem a pessoa visada e a comunidade em si própria não se sente lesada, e
por conseguinte, não sente necessidade de reagir.
Deixa-se ao particular que tome a iniciativa de dar conhecimento, e depois
ele próprio, se quiser, após a diligência do inquérito, que deduza acusação.
Se o ofendido por um crime particular, quiser que haja procedimento
criminal, dá conhecimento ao Ministério Público e tem de declarar que se quer
constituir assistente, mas não é ele que vai fazer o inquérito, quem o faz é o
Ministério Público.
Simplesmente, depois de submeter o arguido ou não a julgamento, através
da dedução de acusação5 , essa decisão última pertence ao particular, se ele
[5]

não o fizer o processo é arquivado.


b) Crimes semi-públicos:
Aqui a comunidade já se sente lesada, sente que os seus valores
fundamentais foram violados. No entanto, põe acima dos valores comunitários
os valores individuais que foram infringidos, que foram violados, porque
entende que a reacção contra essa infracção depender a vítima, do ofendido.
Se o ofendido entende que não deve queixar-se, então a comunidade
também não o faz, mas se o fizer, a partir do momento em que o ofendido se
queixou, então o Estado assume nos seus ombros todo o processo, sem mais
intervenção do ofendido: já não se torna necessário ele constituir-se assistente
e deduzir acusação particular.
A lei deixa nestes casos o direito de denúncia ao particular. Se ele quiser
queixar-se, então prossegue tudo como se fosse um crime público, como se a
comunidade se sentisse violada. O Estado assume todo o processo, desde o
inquérito até ao julgamento.
A queixa, a constituição de assistente, e a dedução de acusação por
particular, são momentos distintos.
1º Momento: a pessoa queixa-se e tem de declarar que se vai constituir
assistente (art. 246º CPP).
2º Momento: a pessoa constitui-se assistente. Para tanto precisa de
advogado para assinar o requerimento 6 . Têm que estar reunidos os
[6]

pressupostos processuais, como a personalidade, a legitimidade, etc. e


tem de pagar a taxa de justiça.
3º Momento: dedução da acusação particular é o momento ainda mais
posterior, só surge depois de feito o inquérito.
Nos crimes particulares, se o ofendido não declarar na queixa que se quer
constituir assistente, vai ser notificado pelo Ministério Público para o fazer. Só
após a constituição de assistente é que o Ministério Público inicia o inquérito.
No final do inquérito o particular é notificado para deduzir acusação
particular (art. 285º CPP). Se o assistente não deduzir acusação particular, o
processo é arquivado.
5[5]
É a imputação de factos praticados a uma determinada pessoa

6[6]
É um momento posterior à queixa
c) Crimes públicos:
Aqueles que pela sua gravidade e consequência, atingem de tal maneira os
valores da comunidade que esta não pode ficar inactiva. E por conseguinte,
basta a notícia do crime para que o Ministério Público desencadeie todo o
processo. E mais: é obrigado a deduzir acusação, e durante o julgamento,
tem que a sustentar (art. 53º/2-c CPC), tem que mantê-la. Só poderá deixar de
o fazer no final do julgamento, quando se passa à fase das alegações gerais.

17. Princípio da legalidade


Surge como forma de controlo da actividade do Ministério Público, que é um
órgão hierarquicamente dependente e responsável.
Como é que o Ministério Público desencadeia o processo (art. 262º CPP)?
Tem de haver, a chamada notícia do crime: se o crime for semi-público ou
particular, tem de ser o ofendido ou a pessoa a quem a lei confere legitimidade
para tal a queixar-se, tem de haver uma queixa.
Se o caso se trata de um crime público, basta que alguém dê a notícia ao
Ministério Público, basta o conhecimento por parte do Ministério Público para
que ele desenvolva a acção penal.
O princípio da legalidade, traduz-se, desde logo em processo penal, na
obrigatoriedade de o Ministério Público proceder, dar ou deduzir a acusação e
sustentá-la efectivamente (art. 53º CPP), por todas as infracções de cujos os
pressupostos tenha tido conhecimento e que tenha logrado recolher no
Inquérito indícios suficientes.
O princípio da legalidade não é apenas aplicado ao Ministério Público. Os
juízes e os órgãos de polícia criminal também estão sujeitos a este princípio.
Se quanto ao impulso inicial basta a notícia do crime, já para o impulso
processual sucessivo, imediato, que será a dedução da acusação, torna-se
necessário que durante o inquérito tenham sido recolhidos indícios suficientes
de se ter verificado o crime e quem foi o seu agente.
Após dedução de acusação, não acabou ainda a obrigação do Ministério
Público respeitar a legalidade. Durante a fase de julgamento ele deve não só
manter essa acusação, como sustentá-la efectivamente (art. 53º/2-c CPP).
Esta expressão “sustentar efectivamente”, quer dizer que o Ministério
Público, perante a prova que está a ser produzida em audiência de julgamento,
não pode pura e simplesmente desistir.
Terminada aquela fase de julgamento em que se faz a prova dos factos,
então já o Ministério Público fica liberto da obediência ao princípio da
legalidade.
Nos crimes particulares, o princípio da legalidade não existe, o Ministério
Público, não é obrigado a deduzir acusação; apenas está obrigado a fazer o
inquérito: a partir do momento em que há queixa, declaração de constituição de
assistente, então o Ministério Público é obrigado a fazer inquérito. Mas uma
vez findo, não está obrigado a deduzir acusação porque isso é um direito que
compete em exclusivo ao particular.
Nos crimes semi-públicos, pode acontecer que ao Ministério Público seja
retirada a legitimidade para continuar. Mas aqui não se tem nenhuma ofensa ao
princípio da legalidade, o que acontece é que o ofendido, até à sentença pode
desistir da queixa, da instância.

18. Princípio da oportunidade


Consiste este princípio numa certa margem de discricionariedade concedida
ao Ministério Público para que ele desde logo resolva determinados casos, os
arquive, não lhes dê seguimento (arts. 277º segs. CPP). Estas situações:
- Ou é desde logo afastada, porque se trata daquelas bagatelas penais,
e por conseguinte, nem há lugar à promoção do processo.
- Ou então há indícios da prática do crime, houve toda uma
investigação, mas não se determinam os agentes, ou determinam-se os
agentes mas eles são irresponsáveis ou inimputáveis, ou estão isentos
de aplicação de pena – no final do inquérito o processo é arquivado.
Concede-se ao Ministério Público a faculdade de dispor do processo:
concede-se portanto um certo poder discricionário para resolver desde logo o
processo. É o chamado princípio da oportunidade, concedido ao Ministério
Público e que certa forma constitui uma limitação ao princípio da legalidade.
Este princípio é aceite em casos muito restritos no Código de Processo Penal –
arts. 277º e 280º.
Uma outra situação em que se verifica o princípio da oportunidade é no art.
281º CPP – suspensão provisória do processo. Aí também, desde que se
verifiquem todos os requisitos, isto é, desde que haja indícios suficientes da
prática do crime, desde que seja conhecido o agente e determinada a sua
responsabilidade, se o crime não for punível em abstracto com pena superior a
5 anos, se o arguido for primário, se for diminuta a culpa na sua actuação, se
houver a concordância do assistente e do próprio arguido e também do Juiz de
Instrução Criminal, o Ministério Público numa situação destas, pode decidir-se
não pelo arquivamento, mas pela “suspensão provisória do processo”. Isto é, o
processo fica latente, fica suspenso: aplica-se ao arguido certas injunções e
normas de conduta. Esta situação mantém-se durante um certo prazo (até 2
anos); se ele cumprir, no fim do prazo o processo é arquivado; se não cumprir,
volta tudo ao princípio e, porque há indícios suficientes, é deduzida acusação.
Mas, se o legislador está a conceder ao Ministério Público a possibilidade
de, em certas situações, não deduzir acusação, não obedecer ao princípio da
legalidade, então há que controlar a própria legalidade do Ministério Público; ou
seja, controlar a sua actuação sempre que o Ministério Público não obedece à
lei.
Uma das formas de controlar a sua actuação é através da chamada
intervenção hierárquica: quer isto dizer que o processo é levado ao
conhecimento de um superior (art. 278º CPP).
A instrução é uma fase facultativa, em que se requer a intervenção do Juiz
de Instrução Criminal. O assistente é a pessoa ofendida, vítima do crime (...)
que requereu ao juiz a sua intervenção como tal, e por tanto quer também
colaborar no processo, ao lado do Ministério Público.
O assistente pode requerer ao Juiz de Instrução Criminal que venha fazer
uma reapreciação do processo, é nisto que consiste o requerimento de
abertura do processo o assistente chama ao juiz de instrução, através de um
requerimento em que expõe as razões porque discorda da actuação do
Ministério Público, eventualmente pode requerer que ele faça certas diligências
e requerer que ele aprecie a conduta do arguido no sentido de o submeter a
julgamento através de um despacho de pronúncia, tem-se aqui, também, uma
forma de controlo da actividade do Ministério Público.
As formas de controlo do Ministério Público são:
- Pelo superior hierárquico (art. 278º CPP);
- Pelo assistente (art. 287º/1-b CPP).

19. Princípio da acusação ou do acusatório


Com a adopção deste princípio, pretende-se assegurar o carácter isento,
objectivo, imparcial e independente da decisão judicial.
Com o processo penal pretende-se atingir uma determinada finalidade, e
essa finalidade será atingida com objectividade, com imparcialidade e mediante
um órgão independente7 . [7]

Para que isto seja assim, torna-se necessário que a entidade julgadora não
possa ter também funções de investigação e da acusação da infracção, por
conseguinte:
- O Ministério Público investiga e acusa;
- O juiz julga, aprecia a conduta do arguido.
Ao lado desta distinção entre entidade julgadora e entidade acusadora há
que estipular e postular um princípio de igualdade de “armas” entre a acusação
e defesa. Ambos devem ter mesmos direitos e os mesmos poderes.
Mas o Ministério Público tem mais poderes, tem uma máquina investigatória
ao seu dispor. Esta igualdade de direitos só será relevante nas fases seguintes
ao Inquérito, na fase de Instrução (quando houver) e na fase de julgamento.
Nesta fase o Ministério Público e o arguido têm os mesmos direitos, está
assegurado pelo princípio do acusatório.
Se ambos têm os mesmos direitos e os mesmos poderes, então ambos
participam na realização do direito, na administração da justiça. É uma
chamada participação constitutiva dos sujeitos processuais afectados na
decisão do caso em apreço, ambos contribuem na definição do direito ao caso:
- O Ministério Público acusando, imputando ao arguido à prática de
determinados factos;
- O arguido defendendo-se, se o quiser fazer, impugnando,
contestando, trazendo justificações para a sua prática.

20. Princípios relativos à prossecução processual


Qual a estrutura do processo penal português?
- Tem-se uma entidade acusadora distinta da entidade julgadora;
- Há o reconhecimento da participação constitutiva dos sujeitos
processuais na definição do direito ao caso;
- Existe por outro lado uma igualdade de poderes, nomeadamente na
fase da instrução e de julgamento;
- Ao juiz é permitido investigar os factos que são submetidos à sua
apreciação em julgamento.
O processo penal português será de estrutura basicamente acusatória8 , [8]

mas integrado por um princípio da investigação.


Com este princípio da investigação permite-se ao juiz recolher provas sobre
os factos já constantes da acusação e da pronúncia.
Trata-se ainda, numa fase de inquérito, na possibilidade que é dada ao
Ministério Público de investigar autonomamente a prática do crime, após a
denúncia, após o conhecimento ou após a notícia do crime, ele vai proceder à
investigação.
7[7]
Pretende-se que haja independência na sua decisão, independência no sentido da imparcialidade e isenção.

8[8]
Enquanto ele se processa serão sempre respeitados os direitos e reconhecida a personalidade ética do arguido.
Alteração substancial dos factos (art. 359º/1 CPP).
Pode acontecer que o juiz, conhecendo desses factos, impute ao arguido a
prática de um crime diverso daquele que vem descrito na acusação.
A alteração substancial dos factos descritos na acusação implica sempre
que se apurem novos factos ou que seja uma modificação dos que estão
descritos na acusação, de tal maneira que essa modificação se venha a
traduzir num agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis ao
arguido.
O Tribunal é livre de fazer qualificação jurídica diferente daquela que é feita
pelo Ministério Público.
Não há alteração dos factos, se o arguido vier acusado pela prática de
determinados factos e em julgamento não se provarem todos esses factos de
que vem acusado, mas apenas parte deles; e com base naqueles foram
provados ele será condenado por um determinado tipo de crime.
O essencial a tomar em conta é a alteração substancial dos factos. Esta
determinação e este conceito de alteração substancial dos factos insere-se no
princípio da acusação, nos poderes que são dados ao juiz para que este,
dentro do “thema probandum”9 , possa investigar exaustivamente e
[9]

oficiosamente todos esses factos; e se durante essa investigação ele se


aperceber que há outros factos, terá de os comunicar ao Ministério Público.
O princípio da economia processual, em processo penal não vinga, porque
o arguido tem o direito de se defender. Pode até não o fazer, pode concordar
em ser julgado por esses factos e prepara a sua defesa; e depois até pode nem
apresentar contestação. Mas isso não impede que tenha que haver um novo
processo.

21. Implicações do princípio da acusação


Desde logo a inadmissibilidade de investigação inicial por parte do
Tribunal, a investigação pertence a uma entidade própria.
O Tribunal não pode por sua iniciativa começar uma investigação com o
objectivo de esclarecer a existência de um crime, de determinar os seus
agentes e a responsabilidade deles. Isso compete quase exclusivamente ao
Ministério Público.
Ainda como implicação deste princípio da acusação ou acusatório, impõe-
se, para que haja a dedução de acusação contra alguém, que se verifique forte
suspeita da prática de um crime, e que seja de tal maneira forte que a
comunidade se sinta obrigada a chamar o agente à razão, através de
julgamento.
Portanto, quando se deduz acusação contra alguém tem que se ter sempre
presente se há ou não há, fortes indícios da prática do crime, não basta haver
meras suspeitas.
Torna-se necessária uma forte suspeita da prática de um crime para que a
comunidade possa chamar aquele indivíduo à responsabilidade.
Outra implicação do princípio da acusação, é a imputação dos factos ao
arguido, constitui, define e fixa perante o Tribunal o objecto do processo.
É o mesmo que dizer-se que o objecto10 do processo penal é a [10]

acusação.
9[9]
Tema que lhe é dado a apreciar.

10[10]
No sentido daquilo que vai ser submetido a julgamento, submetido à apreciação do Tribunal.
22. A pronúncia
O despacho de pronúncia, é a imputação ao arguido da prática de
determinados factos, só que agora não pelo Ministério Público, mas por uma
entidade judicial que é o Juiz de Instrução Criminal.
Em termos práticos é muito mais gravoso para o arguido ir para julgamento
com o despacho de pronúncia do que com uma acusação, porque:
- Enquanto a acusação se baseava em indícios recolhidos por uma
entidade não judicial, o Ministério Público;
- No despacho de pronúncia, houve já uma comprovação desses
mesmos factos.
A pronúncia comprova os factos deduzidos na acusação.
A estes efeitos, ou a estas consequências, chama-se em direito, a
vinculação temática do Tribunal, o Tribunal está vinculado a um tema, que é
a acusação11 . [11]

Analisando esta vinculação temática, encontra-se ainda três princípios:


1) Princípio da identidade: o objecto do processo deve manter-se o
mesmo desde a acusação até ao trânsito em julgado da sentença;
2) Princípio da unidade ou indivisibilidade: o objecto do processo deve
ser conhecido e julgado pelo Tribunal na sua totalidade, é indivisível;
3) Princípio da consunção: o objecto do processo deve considerar-se
irrepetivelmente decidido na sua totalidade.
O Tribunal não conheceu, mas devia ter conhecido, porque os factos
constam da acusação; se não conheceu, transitou em julgado a sentença. O
objecto do processo deve considerar-se irrepetivelmente julgado, decidido na
sua totalidade12 . [12]

O objectivo que se pretende com a adopção do princípio da acusação é,


desde logo, uma protecção do arguido contra alargamentos arbitrários da
actividade cognitiva e decisória do Tribunal.
Pretende-se atingir a garantia do respeito pelo direito de contrariedade e de
audiência. Isto é, o arguido tem o poder de se fazer ouvir, o arguido tem o
poder de contraditar, de impugnar, de contestar os factos de que é acusado.
Este princípio da acusação é a garantia da estrutura acusatória do
processo, na medida em que não há processo tipo acusatório sem princípio de
acusação.

23. Princípio do contraditório e da audiência


O juiz penal, no desenvolvimento da sua actividade, por tanto na
prossecução processual deve ouvir quer a acusação, quer a defesa. E mais:
deve fazer ressaltar e sobressair, quer as razões da acusação, quer as razões
de defesa.
Incumbe ao Tribunal, ao juiz penal, fazer sobressair as razões, quer de
acusação, quer da defesa.
Nenhum arguido poderá ser condenado sem que lhe tenha sido dada a
possibilidade de se fazer ouvir, de se defender.
Daí que a última pessoa a ser ouvida, a pronunciar-se num julgamento e
após as alegações finais é o arguido. Resultando, que o juiz só pode proferir a
11[11]
Factos que constam da acusação.

12[12]
Ainda que o não tenha sido.
sua decisão depois de dar ao arguido a possibilidade de contestar, de
contrariar as razões ou os factos que lhe são imputados.
Este princípio do contraditório está directamente relacionado com o
princípio da audiência.
A oportunidade que é conferida a todo o participante no processo de influir
através da sua audição na decisão do caso concreto.
Através do princípio da audiência tem-se o reconhecimento da dignidade
pessoal do homem, impedindo que ele se torne num objecto do processo. O
arguido, como qualquer outro sujeito processual, é um sujeito activo, é um
sujeito participativo em todo o processo. Por conseguinte, deve ser ouvido
porque através das suas declarações ele contribui para a decisão do caso
concreto.

24. Princípio da suficiência


No processo penal vão-se resolver todas as questões que interessam à
decisão daquela causa (art. 7º CPP).
Atribui-se ao juiz penal a competência para conhecer de todas as questões.
Mas por vezes os juízes deparam-se com determinadas questões no processo
penal que, ou porque têm um objecto diferente, ou porque têm uma natureza
distinta da questão principal a resolver no processo penal, ou ainda porque se
revelam de uma complexidade extrema, a sua resolução terá de ser decidida
noutro Tribunal.
Estas questões que condicionam e por vezes, limitam o conhecimento do
juiz penal são aquilo a que se chama: questões prejudiciais em processo
penal.
Questões de natureza civil, duas teses:
a) Tese do conhecimento obrigatório: o juiz penal é obrigado a conhecer
todas as questões; bem ou mal, o juiz penal tem delas conhecer. Em
processo penal, o juiz deve conhecer de tudo.
b) Tese da devolução obrigatória: sempre que aparece uma questão
prejudicial, há que devolvê-la para o Tribunal competente.
c) Tese ecléctica ou intermediária ou tese da devolução facultativa:
Há questões que pelo seu relevo, pela sua complexidade ou pela
especialidade de que se revestem, impõem que a sua decisão seja tomada por
um Tribunal mais qualificado para o seu conhecimento
Concede-se um certo poder discricionário quanto à devolução ou não
devolução da questão prejudicial para outro Tribunal.
É a tese da devolução facultativa, que é uma tese intermediária: o juiz
analisa a questão e se entender que não se sente à vontade para a resolver
em conformidade, devolve-a para o Tribunal que considere competente para a
resolver (art. 7º/2 CPP).

25. Requisitos para a devolução de uma questão prejudicial surgida em


processo penal
a) Requisitos de natureza substancial
Que esta questão seja de resolução necessária para se conhecer da
infracção penal. Isto é torna-se necessário conhecer da questão prejudicial
para se prosseguir a acção penal – necessidade.
Entende-se pois que a questão de natureza não penal seja importante para
a decisão da causa em processo penal, isto é, que a questão prejudicial
implique o conhecimento de um elemento constitutivo da infracção. Mas não
um elemento qualquer: tem que ser um elemento de tal modo relevante que
possa decidir sobre a absolvição ou a condenação do arguido, não basta uma
mera circunstância atenuante.
Outro requisito – conveniência da sua resolução em processo penal – é
que essa questão possa ser resolvida convenientemente no processo penal.
Isto é, o Tribunal penal só deverá deixar de ordenar a devolução quando no
processo penal tiver prova segura de todos os elementos da infracção.
Por conseguinte, conjugando com o primeiro requisito (da necessidade), ou
decide pela absolvição ou pela condenação, isto é, o Tribunal já tem elementos
estão dependentes do conhecimento da questão prejudicial e ela pode
resolver-se convenientemente no processo penal. Então, deve ser devolvida.
b) Requisitos de natureza formal
A questão só pode resolvida após o termo do inquérito. O Ministério Público
conhece a infracção, para determinar quem foram os seus agentes e outros
meios de prova.
Legitimidade para a suspensão do processo (art. 7º/3 CPP).
A legitimidade para a suspensão é oficiosa 13 ou pode ser requerida pelo
[13]

Ministério Público, pelo assistente ou até pelo próprio arguido. São estes os
sujeitos processuais com legitimidade para se pronunciarem sobre a
suspensão ou, eventualmente, a requerem, o regime está previsto no art. 7º/4
CPP.

26. Limites ao conhecimento de questão de natureza civil


a) Caso julgado
O Tribunal penal não pode decidir uma questão prejudicial se esta já está
definitivamente resolvida, se já há um caso julgado sobre a questão.
b) Litispendência
Se a questão está a ser resolvida noutro Tribunal, se já está uma acção
pendente não vai agora o Tribunal Penal pedir a outro que a resolva. Aguarda,
em princípio que seja decidida a questão no Tribunal competente.
São estas as questões que se levantam à chamada suficiência do
processo penal. Ao falarmos da suficiência do processo penal diz-se que o
processo se suspende14 . [14]

· Princípio da concentração, tudo se deve resolver em processo penal;


· Princípio da imediação, o juiz penal toma conhecimento directo com
o facto na própria audiência.

27. Princípio da investigação ou da verdade material


Pretende-se saber, após a iniciativa promocional de qualquer espécie de
processo penal e com vista à sua prossecução normal, a quem compete dispor
do processo. Isto é, se o processo contínua na disponibilidade das partes ou se
se deixa ao Tribunal a tarefa de investigar, embora sem desprezar o contributo
das partes, o facto que é sujeito a julgamento; e assim, é o Tribunal que irá ele
próprio constituir as bases para a sua decisão.
No primeiro caso, se após iniciativa processual – a queixa se se deixa o
processo a particulares, temos um processo presidido pelo princípio da
13[13]
Pertence ao Tribunal.

14[14]
Suspende-se para resolver esta questão prejudicial.
discussão. Isto é, cada uma das partes fará valer a sua pretensão, utilizando
as mesmas armas; tem os mesmos argumentos, tem à sua disposição tudo. O
juiz terá uma posição passiva; apenas lhe cabe respeitar as normas e presidir à
audiência, manter a disciplina na audiência e proferir a decisão de acordo com
aquilo que é provado ou não provado em audiência.
No segundo caso tem-se, um processo em que vigora o princípio da
investigação.

28. Princípio da discussão


A sua característica geral é a que as partes dispõem do processo, é o
processo que é seguido nos sistemas anglo-saxónico. Consequências:
Às partes compete trazer aos autos toda a matéria factual que há-de servir
de base à decisão, sendo ao juiz proibido, investigar de “motu próprio”, a
veracidade do facto traduzido a julgamento. Vigora o princípio da auto-
responsabilidade probatória das partes, se uma das partes alega um facto,
terá o ónus de fazer a sua prova, tal como a outra parte tem o ónus de
contradizer, de impugnar os factos alegados pela outra.
Vigora o princípio da verdade formal, é a verdade que resulta dos autos,
da força probatória de cada uma das partes e não a verdade material.
Vigora o princípio do dispositivo, é lícito às partes porem fim ao processo,
quer através da desistência, quer através da confissão, quer através da
transacção, podendo ainda acordar sobre determinados aspectos.

29. Princípio da investigação ou verdade material


A missão de carrear, e o esclarecimento do material de facto para o
processo não pertence exclusivamente às partes, também o juiz o poderá
fazer. Ao juiz compete investigar, esclarecer oficiosamente o facto sujeito a
julgamento; ele próprio pode carrear para o processo as provas necessárias
para fundamentar a sua decisão. Está limitado porém, aos factos constantes na
acusação15 . [15]

Consequências da natureza judicial da investigação.


A investigação em processo penal, relativamente aos factos que constam da
acusação, tem natureza judicial, pode ser ordenada oficiosamente pelo
Tribunal.
Resulta daqui que é afastado desde logo o ónus de contradizer ou de
impugnar. Daqui decorre uma outra consequência: se o arguido não contestar,
nem por isso ele será condenado, não vigora o princípio da auto-
responsabilidade probatória das partes. O Tribunal tem o poder e o dever de
investigar oficiosamente o facto que é sujeito a julgamento.
Não há lugar ao princípio do dispositivo, isto é, os sujeitos processuais
não podem desistir, nem podem dispor do processo, nomeadamente fazendo
transacções, acordos ou confissões.
É admitida a confissão, mas limitada, com restrições. O juiz fica sempre com
a possibilidade de apreciar subjectivamente essa mesma confissão; e se
duvidar que o arguido não está a fazer de livre vontade, poderá não a aceitar.
Se o arguido confessar, a sua confissão só é relevante se for integral, sem
reservas, livre de toda e qualquer coacção. Só assim é que ele poderá ser
relevante.

15[15]
Exs. arts. 164º/2, 290º/1, 294º, 40º/1 CPP
O princípio da investigação coexiste como princípio da acusação. Ao
princípio da acusação compete fixar o objecto do processo, compete fixar o
“thema decidendum”, os factos que constam da acusação; e também os factos
que vai recair a prova, o “thema probandum”.
Ao princípio da investigação compete conferir ao Tribunal o poder de carrear
para o processo toda a investigação necessária à prova dos factos que
constam da acusação, ou seja:
- O Ministério Público deduz a acusação e imputa ao arguido a prática
de determinados factos: é o objecto da acusação;
- Através desses factos o arguido vai ser submetido a julgamento;
- E a prova vai incidir única e exclusivamente sobre esses factos:
princípio da acusação;
- Agora, quanto ao alcance, quanto às diligências probatórias para
provar única e exclusivamente esses factos, o Tribunal é livre de fazer as
que entender: princípio da investigação.

30. Princípio “in dubio pro reo”


Aceita-se este princípio como princípio de ónus da prova material e não
como ónus da prova formal.
Não é um mero princípio relativo à prova; é um princípio autónomo, é um
princípio geral de direito. E isto tem consequências várias, desde logo, a nível
de recursos (por ex.).
Quando se invoca este princípio, significa que a prova foi feita; só que não
foi suficiente, o Tribunal, com os elementos de prova que consegui recolher,
não ficou convencido de que o arguido tenha praticado o crime. E sendo assim,
na dúvida favorece-se o arguido, é absolvido.
A aplicação do princípio in dubio pro reo: a sua relevância quanto à
questão de facto e à ausência de limites:
- É relevante desde logo quanto aos elementos em que se baseou e
fundamentou a acusação;
- É relevante quanto às causas de exclusão da ilicitude (ex. legítima
defesa);
- É relevante quanto às causas de exclusão de culpa (ex. estado de
necessidade);
- Ainda quanto às causas de exclusão de pena.
PRINCÍPIO RELATIVOS À FORMA

31. Princípio da publicidade


Traduz-se na publicidade das audiências dos Tribunais (art. 206º CRP, arts.
87º, 321º CPP).
O princípio da publicidade nomeadamente a publicidade das audiências dos
Tribunais é público, mas admite algumas excepções (arts. 321º, 87º CPP).
A razão de ser da publicidade da audiência e a sua justificação encontra-se
desde logo no facto de que com a publicidade pretende-se dissipar, afastar, a
desconfiança sobre a independência e sobre a imparcialidade da justiça penal.

32. Princípio da oralidade


Os actos processuais são orais, atinge-se a decisão através da forma oral,
isto é, ouvindo o depoimento das testemunhas, fazendo o interrogatório ou o
contra-interrogatório e depois lendo inclusivamente a própria decisão – a
sentença. Por conseguinte, a decisão é proferida com base numa audiência de
discussão oral da matéria.
Relacionando com o princípio da oralidade encontra-se o princípio da
imediação, significa o contacto directo que o Tribunal tem com as provas (ex.
art. 355º CPP).
Uma questão se levanta, relacionada quer com o princípio da oralidade quer
com o princípio da imediação e que tem a ver com o conhecimento da matéria
de facto, nomeadamente para efeitos de recurso.
O Tribunal de 1ª Instância, onde o processo está a ser julgado pela primeira
vez, aprecia os factos com base no contacto directo com as provas. Mas o
Tribunal superior para o qual tenha sido interposto recurso, se tiver que
conhecer da matéria de facto:
- Ou se guia pela resposta que é dada pelo juiz do Tribunal de 1ª
Instância;
- Ou então, para apreciar devidamente, tem de ter um relato dos factos.
Aqui põe-se a questão da chamada documentação da audiência (art. 363º
CPP). Esta documentação vai permitir ao Tribunal superior duas coisas:
1) Por um lado, uma melhor apreciação da prova, mais ponderada
eventualmente por parte do Tribunal de 1ª Instância que ficou com
dúvidas quanto à apreciação da matéria de facto para fundamentar a
sentença;
2) Por outro lado, o juiz vai voltar a rever o depoimento das testemunhas
ou aquilo que se passou na audiência de julgamento.
As razões que levaram o legislador a adoptar o princípio da oralidade, e
sobretudo, o princípio da imediação, desde logo permite um contacto vivo e
imediato do Tribunal com o arguido. Permite avaliar a credibilidade das
declarações dos restantes participantes processuais: as testemunhas e os
peritos envolvidos.
Permite ainda que haja plena audiência e participação dos sujeitos
processuais e dos restantes participantes processuais.
Sistema da prova livre: a apreciação da prova é deixada à livre convicção
da entidade julgadora. Significa pois que os factos são dados como provados
ou não de acordo com a convicção que a entidade decisória forma face ao
material probatório que lhe é levado.
33. Princípios relativos à prova
É através da produção de prova em julgamento que o Tribunal vai formar a
sua convicção sobre a existência ou inexistência dos factos, das situações e
das circunstâncias em que ocorreu o crime, os quais serão relevantes para o
acto decisório, ou seja, para a sentença.
A prova é carreada para o processo, ou através das partes ou,
inclusivamente, através do Tribunal. E através da sua apreciação o Tribunal
forma a sua convicção sobre a existência ou não do crime, em que
circunstâncias ele ocorreu, e em função disto vai proferir a decisão.
1) Sistema da prova legal
A apreciação da prova deve obedecer a regras gerais previamente fixadas
na lei, as quais pré-determinam o valor a atribuir às diversas provas.
2) Sistema da livre apreciação da prova (art. 127º CPP)
Deixa-se ao Tribunal a livre apreciação da prova. Este princípio tem alguns
limites, e assim, toda e qualquer apreciação da prova por parte do Tribunal terá
que ser reduzida a critérios objectivos. Esta apreciação da prova deverá ser
susceptível de motivação e de controlo (art. 374º/2 CPP).
Se o Tribunal não fundamentar a sentença, ou não indicar os motivos de
facto ou de direito, esta sentença é susceptível de recurso, na medida em que
estará a ser violado um princípio geral de direito.
Quanto à valoração da prova, ela pode ser:
- Prova testemunhal;
- Prova pericial;
- Prova documental;
- Referência à confissão do arguido.
a) Prova testemunhal (arts. 128º segs. CPP)
É deixada à livre convicção do Tribunal face ao depoimento. O Tribunal é
livre de apreciar se o depoimento que foi lhe prestado merece ou não merece
credibilidade.
b) Prova pericial (arts. 151º segs. CPP)
O juiz não poderá pôr em causa o parecer técnico dos peritos, apenas o
pode criticar. Ele pode pôr em causa, são os factos ou os pressupostos que
serviam de base ao parecer dos peritos. Os meios utilizados podiam não ser os
mais adequados para obter aquele parecer. É subtraído à apreciação do
Tribunal o parecer técnico. Mas já é da livre apreciação do Tribunal os dados
de facto, que serviram de base à emissão desse mesmo parecer técnico.
c) Parecer documental (arts. 164º segs. CPP)
O que se pode por em causa é a qualidade das declarações das partes que
levaram à emissão daquele documento.
Quanto às sentenças, elas apenas comprovam aquilo que cabe dentro do
âmbito do caso julgado. Tudo aquilo que nada tenha a ver com isso, portanto a
fundamentação da sentença, já poderá ser posto em causa pelo Tribunal.
d) Declarações do arguido (arts. 344º - 140º CPP)
Os requisitos que se exigem desde logo são que a confissão seja integral,
sem reservas, livre de toda em qualquer coacção. Exige-se ainda:
- Que não haja co-arguidos;
- Que o crime não seja punível com uma pena superior a cinco anos;
- Que o Tribunal se convença da livre declaração do arguido e da
veracidade dos factos confessados pelo arguido.
A confissão equivale a uma renúncia à produção de prova, quer por parte do
arguido, quer por parte do Ministério Público ou do assistente.
A relevância traduz-se, em que é abreviado o processo penal, traduz-se
numa renúncia à produção de prova e passa-se logo às chamadas alegações
orais. No art. 344º/1 CPP encontram-se os requisitos:
- Livre vontade;
- Livre de qualquer coacção;
- Integral;
- Sem reservas.
No art. 344º/3 CPP encontram-se os condicionalismos da confissão:
- Desde que não haja co-arguidos ou, se os houver, que todos eles
façam a mesma confissão;
- Que o Tribunal na sua convicção não suspeite do carácter livre da
confissão nem tenha dúvidas sobre a imputabilidade do arguido;
- Que o crime não seja punível com pena superior a cinco anos.

34. Síntese
Não há investigação particular, não há detectives, porque a investigação de
um crime é deixada ao Ministério Público mesmo que se trate de um crime
particular. Apresentada a queixa e constituído assistente 16 , o Ministério
[16]

Público investiga.
Quer o Ministério Público, quer o próprio Tribunal, mas principalmente o
Ministério Público, tem que obedecer a determinados requisitos legais, tem
determinados preceitos a cumprir: princípio da legalidade. Se ele durante o
inquérito recolhe indícios suficientes da prática do crime, tem que deduzir
acusação; ou poderá ir para a suspensão provisória do processo.
Em obediência ao princípio da legalidade ele tem que manter e sustentar a
acusação em julgamento.
O Tribunal está sujeito ao princípio da legalidade no sentido em que, se lhe
são apresentados factos pela prática de um determinado crime, tem que aplicar
a lei em relação a esse mesmo crime e não por qualquer outro. Se houver
alteração dos factos que impliquem que haja um novo crime, então terá que dar
disso conhecimento ao Ministério Público.
O processo penal desenrola-se tendo uma entidade acusadora distinta da
entidade julgadora. Simplesmente, não é um puro processo tipo acusatório, na
medida em que se permite que o Tribunal possa investigar autónoma e
oficiosamente o facto que lhe é sujeito à sua apreciação, sujeito portanto a
julgamento – princípio da acusação em termos gerais; e também princípio da
investigação, que é atribuído aos Tribunais.
Se o Tribunal tiver dúvidas quanto à prova que foi fornecida, deverá
absolver o réu, não por ausência de prova, mas porque não se convenceu da
sua culpabilidade na prática do crime – princípio “in dubio pro reo”.
O Tribunal adquire a sua convicção através da oralidade na produção das
provas e através da imediação do contacto imediato com essas mesmas
provas e que isto é importante inclusivamente para conhecer da personalidade
concreta do arguido.
Relativamente aos princípios relativos à prova: os critérios que existem
quanto à valoração e apreciação da prova: critério legal e a livre convicção do

16[16]
O ofendido.
Tribunal, ou livre apreciação da prova. O sistema processual português opta
pelo sistema da livre apreciação da prova.
Sempre que há questões de natureza prejudicial em processo penal (por
exemplo questões de natureza constitucional) essas questões poderão obstar à
apreciação imediata da causa por parte do Tribunal. Terá que ser relegado o
seu conhecimento para o tribunal competente (neste caso, para o Tribunal
Constitucional) embora esta questão possa depois ainda vir a ser suscitada em
sede de recurso. Mas terá de ser alegada logo no início, em 1ª Instância.

ESTRUTURA FUNDAMENTAL DO PROCESSO PENAL

35. Introdução
As pessoas e as entidades que actuam no processo penal chamam-se de
um modo geral participantes processuais. São aquelas pessoas ou entidades
que sendo investidas das mais diversas funções actuam juridicamente no
processo.
A estes participantes processuais a quem competem determinados direitos
e deveres, chamam-se sujeitos processuais, e têm-se:
- O Tribunal;
- O Ministério Público, e na sua dependência os órgãos de polícia
criminal;
- O arguido, associado ao defensor;
- O assistente;
- As partes civis.
Tem-se depois aqueles a que se chama simples participantes
processuais. São pessoas que intervêm no processo, mas que de forma
alguma vão co-determinar a sua tramitação. Eles intervêm e com a sua
intervenção contribuem para a boa decisão da causa, são eles:
- As testemunhas;
- Os peritos;
- Os intérpretes.
Quanto aos órgãos de polícia criminal (art. 55º CPP) têm por função
coadjuvar as autoridades judiciárias com vista à realização das finalidades do
processo.

36. Processo penal como conceito forma de parte


Conceito formal, adjectivo ou processual de parte em processo penal, são
aqueles sujeitos processuais que discutem a causa e esperam do juiz uma
apreciação de mérito.
O conceito adjectivo está ligado ao conceito formal de parte, isto é, dois
sujeitos: o acusador e o acusado, que exercem funções formalmente
contrapostas. O acusador pretende a condenação do arguido: o arguido
pretende afastar essa mesma condenação.
a) Posição da parte acusadora
O Ministério Público não poderá ser visto como uma verdadeira parte em
sentido formal, isto é, ele não tem como finalidade pura e exclusiva obter a
condenação do arguido na medida em que 17 toda a sua actuação é conduzida
[17]

sob critérios de estrita objectividade. O Ministério Público não poderá ser uma

17[17]
Art. 53º in fine CPP
verdadeira parte em processo penal, só o seria se ele pudesse dispor do
processo e sempre pretendesse o custo obter uma condenação.
b) Posição do arguido, a parte acusada
O arguido seria parte em processo penal se ele em vez de ter um direito de
defesa, tivesse um dever de defesa, isto é, se o arguido perante uma
acusação tivesse obrigatoriamente de se defender sob pena de se
considerarem provados os factos que ele não contestasse. Ele não é uma
verdadeira parte, não tem o dever de se defender, ele tem o direito de se
defender.
Do ponto de vista formal não se tem nem uma verdadeira parte acusadora
nem uma verdadeira parte defensora, na medida em que um não tem um dever
de defesa, mas apenas um direito de defesa.
Conceito de parte em sentido material: são titulares de interesses
contrapostos que no processo se discutem e que se encontram concretamente
em jogo.

37. No Direito Processual Penal português


Não se pode falar em partes processuais no processo penal português. O
Ministério Público e o arguido por um lado, não se encontram ao mesmo nível
jurídica e facticamente, e o Ministério Público tem todo um aparelho
investigatório ao seu dispor.
Na fase do inquérito, o arguido não tem um direito igual ao do Ministério
Público. O Ministério Público vai fazer a investigação exaustivamente, o
arguido suporta essa mesma investigação e inclusivamente não se pode opor a
ela. Apenas poderá, depois de ouvido, carrear provas para o Ministério Público,
no sentido de afastar a queixa ou os factos que eventualmente lhe poderão ser
imputados.
Também, quer o Ministério Público, quer o arguido, nenhum deles dispõe do
processo.
O processo penal português é um processo sem partes.
É um processo penal basicamente acusatório mas integrado por um
princípio de investigação.
E é esta característica do processo penal, de se dar ao Tribunal a
possibilidade de, independentemente do concurso das partes em julgamento,
de investigar os factos Constantes da acusação e de valorar a prova adquirida
e introduzida em julgamento, que confere ao processo penal a estrutura de um
processo sem partes.
Deve-se falar, sim, em sujeitos processuais.

38. Estrutura do processo penal


- Inquérito;
- Instrução (que é facultativa);
- Julgamento.
O inquérito é uma fase processual da competência do Ministério Público
(art. 262º CPP) e com ele se pretende investigar a existência de um crime,
determinar os seus agentes, a responsabilidade deles, descobrir e recolher as
provas. Tudo isto com uma finalidade: submeter ou não o arguido, ou o
suspeito (autor da infracção), a julgamento.
Primeiro há que determinar se realmente houve crime, depois, tentar
descobrir o agente.
Depois de descoberto o agente, saber a responsabilidade que lhe cabe,
saber se se trata de um indivíduo que agiu com dolo ou se porventura se trata
de um inimputável, uma vez isto feito (art. 283º CPP) o Ministério Público
deduz acusação. Com a acusação pretende-se submeter o arguido a
julgamento (art. 262º CPP).
Esta acusação é notificada ao arguido. E aqui, entre a decisão de submeter
o arguido a julgamento – que é a acusação – e o julgamento propriamente dito,
pode surgir uma fase intermédia, que é uma fase facultativa – a instrução.
A instrução é presidida, é levada a cabo e é da competência do Juiz de
Instrução Criminal. Vem prevista nos arts. 286º segs. CPP e tem como
finalidade comprovar ou não a acusação.

39. Sujeitos processuais


São eles:
- O Tribunal/juiz penal;
- O Ministério Público;
- O arguido e o defensor, ligado ao arguido está sempre o defensor,
nunca poderá haver audiência de julgamento sem a presença do
defensor. Poderá excepcionalmente, nalguns casos, haver audiência de
julgamento sem a presença do arguido, nomeadamente nos casos
punidos apenas com multa, ou ainda nos acasos do art. 334º/2 CPP. O
arguido poderá não estar presente, mas estará sempre o defensor.
- Assistente18 , é o ofendido que, quando quer intervir no processo,
[18]

adquire essa qualidade, desde que reúna determinados requisitos. Se o


não fizer, está lá o Ministério Público que defenderá mas se ele quiser
também intervir e colaborar no processo, adquire a qualidade de
assistente.
- As partes civis, são aquelas pessoas ou entidades que, embora não
sofrendo directamente com o crime19 no entanto sofreram danos.
[19]

40. O Tribunal
É um órgão de soberania, é um órgão independente, que tem como função
administrar a justiça em nome do povo (art. 202º – 110º CRP).
Como característica dos Tribunais tem-se a independência, (art. 203º
CRP), os tribunais, como órgãos de soberania que são, têm que ser
independentes.
Concede-se por conseguinte plena liberdade aos Tribunais para decidir em
plena liberdade, sem que estejam submetidos a quaisquer ordens da
Assembleia da República, do Governo ou do Presidente da República.
Independência também perante a organização hierárquica judicial. Isto é, o
juiz não está obrigado a aceitar ordens ou instruções de outros juízes a que
deve obediência hierárquica. Esta hierarquia apenas é relevante em matéria de
organização judiciária, o juiz é independente, não está obrigado a aceitar
ordens ou instrução de outros juízes.
Relacionado com esta independência tem-se o carácter inamovível (art.
216º/1 CRP) dos juízes. Juntamente com a inamovibilidade, tem-se a

18[18]
Poderá existir ou não.

19[19]
Não foram vítimas directas.
irresponsabilidade judicial (art. 216º/2 CRP), querendo isto dizer, que os
juízes não respondem pelos seus julgamentos, pelas suas decisões.
A lei processual penal criou um sistema de impedimentos – as chamadas
suspeições – que têm como finalidade garantir imparcialidade das decisões
judiciais e defender o próprio juiz contra a suspeita de não ser imparcial na sua
decisão.
Os impedimentos traduzem-se na impossibilidade que o próprio juiz
declara de participar num processo, alegando qualquer das situações previstas
no art. 39º CPP.
Mas também pode acontecer que o juiz nada diga. Aí o arguido, o Ministério
Público, ou o assistente podem levantar a suspeita e requerer que aquele juiz
seja retirado do processo (art. 43º CPP).
Portanto:
- Impedimento (art. 39º CPP) é o próprio juiz que declara estar
impedido de participar;
- Suspeição (art. 43º CPP), é a escusa ou a recusa que qualquer sujeito
processual tem de ter aquele juiz a participar naquele processo.

41. Princípio do juiz natural


Os cidadãos têm direito de exigirem que uma determinada causa seja
julgada pelo Tribunal previsto como competente por lei anterior ao
conhecimento da infracção, e não por um Tribunal que seja especialmente
criado para o julgar20 . [20]

Os Tribunais têm competência para julgar todo e qualquer tipo de crime,


com a excepção dos Tribunais militares. Todos têm direito a ser julgados por
um Tribunal que já existe no momento do cometimento da infracção, com isto
se prevê o princípio do juiz natural. Com este princípio, pretende-se
salvaguardar os direitos da pessoa.
Está directamente ligado a este princípio de Direito Penal “nullum crimen
sine legem”, nenhuma prática de determinado facto pode ser considerado
crime se não for previsto na lei como tal.

42. Consequências do princípio do juiz natural


Só a lei pode instituir o Tribunal e fixar-lhe a competência, a fixação do
Tribunal e da sua competência tem que se feita por uma lei vigente ao tempo
da prática do facto, princípio da irretroactividade.
Outra consequência é a proibição do desaforamento de qualquer causa, isto
é, um Tribunal é competente para julgar uma causa e essa causa não lhe pode
ser retirada.
Outra consequência é a proibição da suspensão discricionária de qualquer
autoridade, nenhuma autoridade poderá, proibir o Tribunal de continuar a
apreciar determinada causa.

43. Competência do Tribunal


Quanto à competência do Tribunal no exercício da sua jurisdição, define-se
a competência, como o âmbito de actuação de cada Tribunal, o que ele
abrange na sua actuação, qual a jurisdição que ele abrange. Isto é, a actuação
de cada Tribunal de forma, a que cada caso penal concreto seja julgado, seja
deferido a sua apreciação a um único Tribunal (e não a vários).
20[20]
Proibição de criação de Tribunais de excepção – art. 209º/4 CRP.
a) Competência material: define o Tribunal que segundo a sua espécie é
competente para julgar um determinado crime, ou para julgar
determinadas pessoas (art. 10º segs. CPP);
b) Competência funcional: atende-se, em face do desenvolvimento do
processo, à fase em que ele se encontra, assim:
· Para a instrução, é competente o Tribunal de Instrução Criminal;
· Para o julgamento, é competente o Tribunal de 1ª Instância (é a
regra);
· Para a fase de recurso, será competente o Tribunal da Relação ou o
Supremo Tribunal de Justiça21 . [21]

c) Competência territorial: define qual o Tribunal, de entre vários da


mesma espécie, que é competente para julgar uma determinada causa,
atento o local onde foi cometido o crime – arts. 19º segs. CPP.

44. Competência territorial


O Tribunal tem uma certa área onde exerce a sua jurisdição, onde actua.
Normalmente coincide com os limites concelhios mas nem sempre é assim,
nomeadamente tratando-se de Lisboa.
A regra é no entanto coincidir com os limites concelhios. Por conseguinte, a
competência territorial define qual o Tribunal, entre os vários da mesma
espécie, que é competente para julgar um determinado caso, atenta a sua
realização no território.
O território nacional está dividido em:
a) Distritos judiciais;
b) Tribunais de Círculo;
c) Tribunais de Comarca;
O Supremo Tribunal de Justiça, tem jurisdição em todo o território, depois
tem-se os distritos judiciais, que abrangem uma série de comarcas que se
encontram definidas por lei.
Exclusivamente, cada distrito judicial tem jurisdição apenas sobre as suas
comarcas, não há interferência entre os distritos judiciais. Os conflitos entre
comarcas de distritos judiciais terão de ser resolvidas pelo Supremo Tribunal de
Justiça.
a) Método da determinação abstracta: faz-se decorrer da lei, isto é, o
próprio legislador que dá a cada Tribunal competência para o
conhecimento de determinados crimes;
b) Método da determinação concreta: tem-se que atender à pena que se
espera que concretamente venha a ser aplicada.
Antes da intervenção do Tribunal é que se vai determinar a competência,
tem que haver um órgão que vá determinar essa competência, tem que ser
feita na própria acusação. Por conseguinte, o método da determinação
concreta faz depender da própria acusação, do próprio órgão acusador, a
definição e a determinação da competência.
O método seguido pelo Direito Processual Penal português é o método da
determinação abstracta. Mas admite também o art. 16º/3 CPP, o método da
determinação concreta da competência.
A incompetência, que consiste precisamente na alegação das partes que
obstam, que impedem a apreciação do mérito da causa por parte de um
21[21]
Para a Relação recorre-se das decisões do Tribunal singular e para o Supremo Tribunal de Justiça, recorre-se das
decisões do Tribunal colectivo.
Tribunal. Tem-se pois dois Tribunais que se consideram competentes ou
incompetentes para julgar o caso. Tem-se de ver quem é que vai resolver este
conflito de competência.
Quanto à incompetência territorial (art. 32º CPP).
Quanto à competência material e na determinação da competência do
Tribunal, ela obtém-se através de dois critérios:
1) Através da natureza ou do tipo legal de crime, critério qualitativo:
neste critério deve atender-se ainda à qualidade do sujeito activo do
crime, do arguido, da pessoa, portanto, que praticou o crime. Atende-se à
natureza, ao tipo legal de crime, à pessoa que praticou o crime.
2) Através da gravidade do crime, critério quantitativo: aqui atende-se
desde logo à pena que é abstractamente aplicável.
A competência material, regra geral distribui-se pelos Tribunais de 1ª
Instância. Dentro destes temos o Tribunal de júri, o Tribunal colectivo e o
Tribunal singular.

45. Conexão
Define-se conexão como a relação que intercede entre vários processos
pendentes que se encontrem na mesma fase, ou se vão instaurar, relação essa
que poderá levar à unificação ou apensação dos vários processos, sem que
seja de atender às normas sobre a competência material ou territorial 22 . [22]

Nunca há conexão em relação a processos que se encontrem em fases


distintas: se um se encontra na fase de instrução e outro na fase de inquérito,
não é possível haver conexão; se um se encontra na fase de instrução e outro
em fase de julgamento, também não; se um se encontra na fase de julgamento
e outro na fase de recurso, também não. Portanto, só não se atende à
competência material ou territorial do Tribunal.
Para haver conexão (arts. 24º segs. CPP), torna-se necessário:
- Que o mesmo agente tenha cometido vários crimes;
- Que o mesmo crime tenha sido cometido por vários agentes em
comparticipação; ou
- Que vários agentes tenham cometido diversos crimes em
comparticipação;
- E destinando-se uns a continuar ou a ocultar os outros.

46. Requisitos para a existência da conexão


Tem de haver dois ou mais Tribunais competentes para julgar o caso.
Tem que haver dois ou mais processos distintos, quer sejam distintos sobre
o ponto de vista formal, quer mesmo quanto ao objecto específico 23 . [23]

Tem de haver derrogação da regra geral da competência do Tribunal, isto é,


um dos Tribunais tem de ceder em relação ao outro: ele é competente porque o
crime foi cometido na sua área, ou é competente materialmente porque é o
Tribunal colectivo ou porque é o Tribunal singular que deve julgar aquele crime,
mas outro é também competente. Há uma derrogação da competência de um
dos Tribunais.
Os processos têm que se encontrar todos na mesma fase – inquérito,
julgamento ou instrução. No recurso não há conexão.
22[22]
Há derrogação das normas de competência material ou territorial, mas nunca funcional.

23[23]
Tratar-se de crimes diferentes
47. Ministério Público
É característico de um sistema acusatório a existência de uma identidade
investigadora e acusadora e de uma entidade julgadora.
Com a criação do Ministério Público visa-se obter a estrutura acusatória do
processo penal, na medida em que se obtém (ou pretende obter-se) a
separação entre a entidade a quem compete presidir e dirigir o inquérito e
elabora a acusação.
O inquérito, tem como finalidade investigar a existência de um crime,
determinar quem foram os seus agentes e a responsabilidade que lhes cabe.
Findo o inquérito, cabe ao Ministério Público, também sempre que havendo
indícios suficientes da prática de um crime e determinados que sejam os seus
agentes, deduzir acusação.
Portanto, compete ao Ministério Público não só a promoção do processo e a
direcção do inquérito, como também elaborar a acusação, tem-se aqui uma
entidade investigadora e acusadora.
Entre o Ministério Público e o Tribunal há uma separação funcional e
institucional. No entanto, estão estritamente correlacionadas.
A actuação do Ministério Público no processo penal não se deixa conduzir
por critérios de discricionariedade e oportunidade, como é característico da
administração pública, mas antes segundo critérios de objectividade e em
obediência estrita ao princípio da legalidade.
O Ministério Público é um órgão autónomo da administração da justiça,
exerce as suas actividades independentemente, não está vinculado a qualquer
poder24 , exerce a sua actividade de forma autónoma (art. 53º CPP).
[24]

Critérios de estrita objectividade


Compete ao Ministério Público investigar e trazer para o processo tudo o
que possa demonstrar a culpabilidade do arguido, mas também lhe compete
carrear para o processo todos os indícios que possam conduzir à minoração da
pena do arguido, ou inclusivamente à prova da sua inocência.
O Ministério Público deve ser isento, imparcial na sua investigação e na
dedução da acusação. Daí que se aplique também ao Ministério Público todo o
sistema de impedimento e suspeições relativo aos juízes (arts. 39º e 43º CPP).
Mas o pedido de escusa não é feito ao Tribunal, mas ao seu superior
hierárquico.

48. Estrutura (arts. 7º, 8º, 9º estatuto do Ministério Público, Lei 47/86)
A estrutura do Ministério Público constitui uma magistratura orgânica e
estruturalmente dependente, inamovível, responsável e hierarquicamente
organizada e subordinada. Os magistrados do Ministério Público são
responsáveis disciplinar e criminalmente (art. 414º CPP). Se o Ministério
Público não promover o processo a sua conduta poderá ser sancionada em
termos penais e certamente o será em termos disciplinares. Encontra-se
hierarquicamente organizado. O Ministério Público exerce funções junto dos
tribunais, sendo assim, a sua área de jurisdição está subordinada à área de
jurisdição dos Tribunais.
A propósito do inquérito, tem competência para o promover o Ministério
Público que exerce funções junto do Tribunal da área onde foi cometido o

24[24]
Poder executivo, judicial, legislativo.
crime. Donde pode surgir conflitos de competência, vale para aqui o mesmo
relativo aos Tribunais, nomeadamente quanto à competência por conexão.
O crime é cometido num determinado local: será competente o delegado do
Ministério Público que exerce funções junto do Tribunal da área onde o crime
foi cometido.

49. Legitimidade
O art. 50º CPP, relativamente a crimes particulares, em que é necessário
haver queixa do ofendido e constituição de assistente.
Quanto aos crimes semi-públicos, o Ministério Público só promove o
processo quando há uma queixa do ofendido ou das pessoas que tenham
legitimidade para se queixar (art. 49º CPP).
Ao Ministério Público não compete definir o direito ao caso, porque é uma
actividade própria dos Tribunais. No entanto, as funções exercidas pelo
Ministério Público verifica-se que em determinados casos ele quase que tem
funções jurisdicionais.
A lei processual penal fala indiferentemente em denúncia, queixa, e em
participação. Entende-se que entre estes conceitos haverá alguma diferença.
a) A queixa
Refere-se essencialmente a crimes particulares e a crimes semi-públicos.
Têm legitimidade para a fazer os ofendidos ou as pessoas a quem a lei
confere legitimidade para tal.
A queixa refere-se ao crime pelo qual não se pode promover oficiosamente
o processo penal. É o ofendido que dá a notícia do crime ao Ministério Público.
A partir desse momento ele tem legitimidade para promover o processo.
b) A denúncia
Entende-se que se refere aos crimes públicos (art. 24º CPP). Tem
legitimidade para a fazer obrigatoriamente os órgãos de polícia criminal e as
autoridades judiciárias e ainda qualquer pessoa que tenha a faculdade de
denunciar um crime.
c) A participação
É mais um acto administrativo, ou um acto do Governo, através do qual se
vai transmitir ao Ministério Público a notícia dum crime ocorrido no exercício
das funções ou por causa delas (art. 242º/1-b CPP).
A denúncia, a queixa e a participação podem ser feitas oralmente. Serão
depois reduzidas a escrito pelas entidades competentes, dando com isso
origem aos autos de notícia.

50. Inquérito
A seguir à recepção das queixas, denúncias e/ou participações, compete ao
Ministério Público dirigir o inquérito (art. 53º/2-b CPP).
Vem definido no art. 262º CPP, e constitui um conjunto de diligências
levadas a cabo pelo Ministério Público, ou por ele delegadas nos órgãos de
polícia criminal, que têm a finalidade investigar a prática de um crime 25 , de
[25]

determinar os seus agentes26 e a responsabilidade que lhes cabe para que,


[26]

apurado tudo isto, se decida se deve ou não deve submeter-se o autor da


infracção a julgamento.
25[25]
Saber em que circunstâncias ocorreu.

26[26]
Saber quem o praticou
Os actos de inquérito vêm regulados nos arts. 267º segs. CPP. Com o
encerramento do inquérito o Ministério Público pode tomar uma de três
posições:
- Deduz acusação;
- Arquiva o inquérito;
- Suspende provisoriamente o processo.

51. Arquivamento do Inquérito


No arquivamento do Inquérito, a que se referem os arts. 277º 27 e 280º [27]

CPP, pode-se falar em dois tipos de arquivamento:


1) Arquivamento por falta de indícios suficientes da prática do crime ou
pela não determinação de quem foram o (s) agente (s) (art. 277º CPP);
2) Arquivamento porque se verifica uma situação de dispensa ou de
isenção de pena (art. 280º CPP)
Arquivando o Inquérito pode acontecer duas situações:
1) Ou a pessoa que se queixou – o ofendido – (a pessoa cujos interesses
foram violados) – se constitui assistente e requer a abertura da instrução
criminal no prazo de cinco dias após a notificação do arquivamento,
conforme se prevê no art. 287º CPP;
2) Ou não há requerimento para a abertura da instrução criminal, os autos
seguem para o superior hierárquico do Ministério Público e este tem trinta
dias para se pronunciar, podendo dizer ao seu subordinado que prossiga
as investigações, ou que deduza a acusação. A isto se refere o art. 278º
CPP.
Os casos de dispensa de pena (art. 280º CPP), são aqueles em que o
arguido confessa o crime, colabora com a justiça e a lei prevê que ele seja
dispensado de pena. E em relação a ele o processo é arquivado.
Os casos de isenção de pena 28 podem ser, por exemplo, a invocação do
[28]

estado de necessidade.
Também nestes casos – arquivamento por isenção de pena – exige a
concordância do Juiz de Instrução Criminal (art. 280º CPP).
No caso previsto no art. 280 CPP, há como que uma antecipação do
julgamento. Porém, se a acusação ainda não tiver sido deduzida, bastará uma
decisão de arquivamento, por parte do Ministério Público, seguida de
concordância do Juiz de Instrução Criminal, não sendo necessária qualquer
intervenção do arguido, uma vez que não chega a haver acusação.
No caso de a acusação já ter sido deduzida, a situação é algo diferente:
então será o juiz a arquivar o processo, com a concordância do Ministério
Público, e agora também a do arguido.
27[27]
Relativamente ao art. 277º CPP é possível distinguir as seguintes modalidades de arquivamento:

a) Arquivamento em sentido estrito, previsto no art. 277º/1 CPP, sempre que se verifique não ter havido crime,
o arguido não o ter praticado a qualquer título, ou ser legalmente admissível o procedimento criminal;

b) Arquivamento por falta de prova indiciária suficiente da verificação do crime ou de quem foram os seus
agentes, modalidade que se encontra prevista no n.º 2 do art. 277º CPP;

c) Arquivamento em caso de dispensa ou isenção de pena, modalidade que se encontra prevista e regulada
no art. 280º CPP. Neste caso o arquivamento depende da concordância do Juiz de Instrução Criminal.

28[28]
Os casos de dispensa de pena são casos de culpa muito diminuta, em que se não justifica a aplicação de
qualquer reacção criminal
A falta de concordância de alguma destas entidades fará que o processo
prossiga, não se operando então o arquivamento nos termos do art. 280º CPP.
Se a instrução já tiver encerrada ou já tiver sido deduzida acusação não
poderão funcionar as disposições do art. 280º CPP.

52. Acusação
O Ministério Público, através de indícios que o levam a convencer-se de que
a pessoa teria cometido o crime. Não precisa de ter uma certeza, basta que
haja indícios, passar-se-á eventualmente à fase seguinte ao inquérito – a fase
do julgamento – em que se produzirão provas e examinarão todas as provas.
E então, submete o arguido a julgamento, isto é, deduz contra ele, uma
acusação.
O Ministério Público convence-se de que o arguido cometeu o crime. E
mesmo que ele tenha dúvidas quanto à prática desse crime, como aqui não
poderá funcionar por analogia o princípio “in dubio pro reo”, então ele deve
acusar. É isso que lhe é imposto pelo princípio da legalidade (art. 283º CPP).
É esta possibilidade razoável que forma convicção do Ministério Público
quanto à suficiência dos elementos que recolheu para submeter o arguido a
julgamento.
Em conclusão, os indícios serão suficientes quando o Ministério Público
conclui que os elementos de prova já recolhidos por si ou conjuntamente com
outros que depois advenham ao processo, numa fase posterior, possam
conduzir à aplicação ao arguido de uma pena ou de uma medida de segurança.

53. Conteúdo da acusação


Tem de haver a identificação do arguido.
Após a identificação, vem a narração dos factos que são imputados ao
arguido.
A seguir, vêm as disposições legais aplicáveis; aliás, constitui uma
nulidade a sua não inclusão.
Depois, vem a indicação da prova, remetendo então para os autos; indica-
se também a prova testemunhal.
Finalmente, coloca-se a data e assina-se.
A tomar a posição de “atendendo ao comportamento anterior do arguido,
não lhe deve ser aplicada uma pena de prisão superior a três anos”, o
Ministério Público está desde logo a determinar a competência do tribunal,
dizendo que aquele caso será julgado pelo tribunal singular e não pelo tribunal
colectivo, como aconteceria se ele nada dissesse.
A acusação é notificada ao arguido, ao assistente se já o houver e também
ao denunciante (art. 285º/3 e 273º/3 CPP), sendo como refere estes artigos
para crimes públicos e semi-públicos. Nos crimes particulares não tem
aplicação o art. 277º/3 CPP, quanto ao assistente, porque quem deduz
acusação é o próprio assistente.
A notificação que é feita ao arguido é uma notificação penal.
A lei processual penal não fala em citação: fala na notificação que reveste
no entanto as características de uma verdadeira citação:
- Ou o arguido é chamado ao tribunal e é notificado directamente da
acusação, se ainda não foi constituído como tal;
- Ou então já está constituído como arguido no processo.
Ao assistente cabe recorrer (interpor recurso), requerer a abertura de
instrução, etc. Ora, não é qualquer indivíduo que pode praticar esses actos.
Tem de estar assessorado por um advogado, por um técnico inserido nos
meios de justiça. Daí que se lhe exija que ele esteja representado por um
advogado.
A partir do momento em que se encontrem preenchidos estes requisitos, o
juiz admite-o como assistente: ele adquiriu a qualidade de sujeito processual.
O ofendido e o assistente são a mesma pessoa, em momentos diferentes e
com qualidades diferentes.
No entanto tratando-se de crime particular, o indivíduo tem de declarar que
se vai constituir assistente. Isto faz com que a queixa siga logo para o
Ministério Público (art. 246º/4 CPP).
Uma vez constituído como assistente, o Ministério Público inicia o inquérito.
Chegando ao fim do inquérito, há que deduzir a acusação. Quem vai acusar
em primeiro lugar é o assistente (art. 285º/1 CPP).
O assistente vai dirigir a acusação ao Tribunal. Pois, não pode ser ao
Ministério Público, porque foi ele que fez o inquérito; já terminou as suas
funções, não tem competência para apreciar a acusação.
O objectivo da acusação é submeter o arguido a julgamento. Portanto, a
acusação é dirigida ao Tribunal. A acusação segue os mesmos termos que a
acusação feita pelo Ministério Público.

54. Suspensão provisória do processo


Pode acontecer que o Ministério Público tenha recolhido indícios suficientes
da prática do crime mas, atendendo a determinadas circunstâncias, lhe seja
permitido não deduzir acusação, lhe seja permitido decidir-se por outra forma
diferente da acusação.
Então:
· Se durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes da
prática do crime;
· Se o crime abstractamente for punível com pena não superior a 3
anos;
· Se se tratar de um delinquente primário, desde que haja uma culpa
diminuta e não haja dolo na prática do crime;
· E depois, desde que haja concordância do arguido, do assistente e
também do Juiz de Instrução Criminal.
A lei, no art. 281º CPP, permite ao Ministério Público que, em vez da
acusação, se decida pela suspensão provisória do processo, mediante a
imposição ao arguido de injunções e regras de conduta.
Se as injunções e as regras de conduta que são oponíveis ao arguido
contêm limitações aos seus direitos, então exige-se a concordância Juiz de
Instrução Criminal.
Estas regras de conduta (art. 281º/2 CPP), não se mantêm indefinidamente.
Estão condicionadas a um certo tempo, num prazo máximo de 2 anos. Por
isso, fala-se em suspensão provisória do processo: o processo chegou ao fim
do inquérito e parou, suspendeu-se, para ver se o arguido cumpre aquilo que
lhe foi imposto.
Mas, se o arguido não cumprir com as regras que lhe foram impostas pelo
art. 281º/2 CPP, então volta-se ao momento em que o processo se suspendeu:
há indícios suficientes, então necessariamente tem de se seguir a acusação –
o Ministério Público vai deduzir a acusação.
A suspensão provisória do processo, sendo uma decisão que cabe ao
Ministério Público, apenas pode ter lugar nos crimes públicos e semi-públicos,
nunca nos crimes particulares. Aí a decisão compete ao assistente, ao
particular, e ele não tem poderes para propor a suspensão provisória do
processo.

55. Instrução
A instrução, não é um novo inquérito, mas tão-só um momento processual
de comprovação.
Trata-se de uma fase dotada de uma audiência rápida e informal, mas oral e
contraditória, destinada a comprovar judicialmente a decisão do Ministério
Público de acusar ou de não acusar, e que portanto termina por um despacho
de pronúncia ou de não pronúncia.
É óbvio, por outro lado, que, tratando-se já de uma fase judicial, a sua
estrutura eminentemente acusatória deverá apresentar-se integrada pelo
princípio da investigação; não terá por isso o Juiz de Instrução Criminal de
limitar-se, em vista da pronúncia, ao material probatório que lhe seja
apresentado pela acusação e pela defesa, mas deve antes – se para tanto
achar razão – instruir autonomamente o facto em apreciação com a
colaboração dos órgãos de polícia criminal.
Tem como finalidade, comprovar judicialmente a decisão de deduzir a
acusação ou de arquivar o inquérito com o fim último de submeter ou não o
arguido a julgamento sendo a sua natureza facultativa (art. 286º/2 CPP).

56. Legitimidade
Têm legitimidade para requerer a abertura da instrução o arguido ou
assistente, nunca o Ministério Público.
a) O arguido (art. 287º/1-a CPP)
Tem legitimidade para requerer a abertura da instrução em caso de
acusação: ou de acusação formulada, pelo Ministério Público ou acusação
formulada pelo particular que se constitui assistente.
O arguido vai requerer ao juiz que examine novamente os autos do
inquérito, porque ele discorda da atitude do Ministério Público ou do assistente.
Entende que os elementos de prova que constam do processo não são
relevantes de forma a preverem que ele seja condenado, ou que lhe possa ser
aplicada uma pena ou medida de segurança.
b) O assistente (art. 287º/1-b CPP)
Pode requerer a abertura da instrução em caso de arquivamento do
inquérito nos termos do art. 277º CPP; ou por factos pelos quais o Ministério
Público não tiver deduzido acusação.
Mas, tal como o Ministério Público não pode requerer a abertura da
instrução, também, nos crimes particulares, o assistente não pode requerer a
abertura da instrução.
Portanto, uma vez requerida a abertura da instrução pelo arguido ou pelo
assistente, o juiz pratica os designados actos de instrução: vai fazer novas
diligências, vai ouvir novamente as testemunhas, eventualmente vai requerer
exames.
57. Debate instrutório
É uma audiência em que o juiz vai expor sumariamente o que é que se
pretende atingir com o requerimento para a abertura da instrução: vai expor as
diligências que fez, e depois pergunta a cada um dos sujeitos processuais se
tem mais provas para apresentar naquele acto.
Findo o debate, é dada a palavra a cada um dos sujeitos processuais, para
que tirem as suas conclusões.
A instrução termina com a decisão do juiz, proferindo um despacho de
pronúncia ou despacho de não pronúncia (art. 308º CPP).
O juiz pronúncia, o arguido, pelos factos respectivos, que são os descritos
na acusação ou no requerimento para a abertura da instrução e através deste
despacho vai-se submeter o arguido a julgamento.
Caso contrário, se houver arquivamento do processo e durante a instrução
o juiz atender que não foram trazidos aos autos elementos suficientes para
modificar a decisão do Ministério Público, então o juiz profere um despacho de
não pronúncia, isto é, mantém a não submissão do arguido a julgamento.
Se o arguido vai ser submetido a julgamento, vai ter a possibilidade de se
defender. Como não se está a limitar nenhum direito, o despacho de pronúncia
é irrecorrível (art. 400º/1-g CPP).
Mas já é possível recurso quando seja um despacho de não pronúncia (art.
310º CPP). Uma vez que o assistente vê desde logo afastada a possibilidade
de ver a sua posição ser apreciada por um Tribunal, então pode recorrer do
despacho.
O princípio do acusatório impede que seja o juiz a tomar a iniciativa de
alterar a acusação; por isso, se entender que se provam indiciariamente factos
que alterem substancialmente os da acusação, limitar-se-á a não receber a que
foi deduzida, proferindo despacho de não pronúncia e comunicando ao
Ministério Público os factos para que, quanto a eles, abra inquérito.
Mas o se Juiz de Instrução Criminal vier a pronunciar o arguido por outros
crimes, ou venha agravar o crime cometido, estaria-se numa situação de
alteração substancial dos factos descritos na acusação e então essa decisão
era nula (art. 309º CPP).

58. O arguido
Sujeito processual essencial para o processo, de tal maneira que se não
houver arguido não há acusação não pode haver julgamento.
O condenado é a pessoa contra quem já foi proferida uma sentença de
condenação.
O suspeito, será toda a pessoa relativamente à qual exista um indício (não
muito forte) de que praticou um crime, ou se prepara para cometer um crime,
ou nele participou ou se prepara para participar.
O arguido, será a pessoa singular contra quem foi deduzida acusação,
contra quem foi requerida a abertura da instrução penal ou que veio a ser
constituída como tal nos autos.
Com a notificação da acusação a pessoa, ao tomar conhecimento, assume
a qualidade de arguido.
Tem-se de distinguir:
· Por um lado a assunção da qualidade de arguido;
· Por outro lado, a constituição dessa pessoa como arguido (art. 58º
CPP).
A partir do momento da comunicação (art. 58º/2 CPP), adquire-se a
qualidade de sujeito processual. Se faltar essa comunicação, oral ou escrita, as
consequências são desde logo que tudo quanto o arguido disse até esse
momento não pode ser usado contra ele. Ou seja, se ele confessou o crime, se
disse como o preparou, o que fez, etc., tudo isso é como que apagado, não
pode ser usado contra ele (art. 58º/4 CPP).
As outras formas de constituição da qualidade de arguido encontram-se
enumeradas nos arts. 57º e 59º CPP.
Quando uma pessoa formula o pedido de que se quer constituir arguido (art.
59º/2 CPP), adquire essa qualidade a partir do momento em que lhe é
notificado o despacho que o admite como tal.
Pretende-se com a constituição de arguido, desde logo dar conhecimento
tempestivo à pessoa de existência de um processo contra ela, e possibilitar-lhe
a faculdade de ela ir em tempo útil preparando a sua defesa.

59. Estatuto jurídico do arguido


O arguido é um sujeito processual: reconhecem-se-lhe direitos e cabem-lhe
também deveres (art. 61º CPP).
A pessoa deixou de ser um mero objecto do processo e tem todos os
direitos, liberdade e garantias que a Constituição lhe prevê e assegura.
Pretende-se com isso a consagração da verdade material, na medida em
que este sujeito processual goza da protecção do direito.
Há que notar, que a aquisição – quer por assunção, quer por constituição –
da qualidade de arguido não pressupõe a intervenção do Ministério Público.
a) Direitos do arguido:
1) Direito a todas as garantias de defesa, estabelecido no art. 32º/1 29 [29]

CRP.
2) Presunção de inocência até trânsito em julgado da decisão de
condenação (art. 32º/230 CRP). [30]

3) Direito a julgamento no mais curto prazo compatível com as


garantias de defesa (art. 32º/2 CRP).
4) Direito à escolha de defensor, a ser por ele assistido em todos os
actos do processo e a comunicar, mesmo em privado, com ele (art.
32º/3 CRP e 61º/1-d); e) CPP). Porem enquanto o arguido pode
constituir defensor em qualquer altura do processo, o juiz é obrigado a
nomear-lho nos casos em que a lei determina a obrigatoriedade de
assistência do defensor (art. 64º CPP).
5) Direito de estar presente nos actos processuais que directamente lhe
disserem respeito (art. 32º/7 CRP; art. 61º/1-a CPP). Os actos que
dizem respeito ao arguido, são todos aqueles relativamente aos quais
vale em geral o princípio da contrariedade. Quer-se dar ao arguido a
mais ampla possibilidade de tomar posição, a todo o momento, sobre o
material que possa ser feito valer processualmente contra si, ao
mesmo tempo que garantir-lhe uma relação de imediação com o juiz e
com as provas.

29[29]
O processo criminal assegura todas as garantias de defesa, incluindo o recurso.

30[30]
Todo o arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação, devendo ser julgado
no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa.
6) Direito de audiência pelo Tribunal ou pelo Juiz de Instrução Criminal
sempre que eles devam tomar qualquer decisão que pessoalmente o
afecte (art. 61º/1-b CPP).
7) Direito de não responder a perguntas feitas relativamente a factos
que lhe são imputados (art. 61º/1-c CPP).
8) Direito de intervir no inquérito e na instrução, oferecendo provas e
requerendo diligências (art. 61º/1-f CPP).
9) Direito à informação dos direito que lhe assistem (art. 61º/1-g CPP;
vide também arts. 141º/4 e 144º CPP).
b) Deveres processuais do arguido:
1) Dever de comparência perante o juiz, o Ministério Público ou os
órgãos de polícia criminal, sempre que a lei o exija ou que tenha sido
para isso devidamente convocado por alguma dessas entidades (art.
61º/3-a CPP, vide também arts. 116º/2; 208º; 36º; 473º CPP).
2) Deve de responder com verdade às perguntas feitas sobre a
identidade (arts. 61º/3-b; 141º/3 CPP).
3) Sujeição de diligências de prova e a medidas de coacção e de
garantia patrimonial especificadas na lei e ordenadas e efectuadas por
entidade competente (art. 61º/3-d CPP). Estas medidas de coacção
têm de ser as especificadas na lei, decorrência do princípio da
legalidade, e só devem ser utilizadas quando absolutamente
necessárias (princípio da necessidade), vide arts. 191º segs. CPP.
60. O defensor
A função do defensor será não só de carrear para os autos tudo quanto seja
favorável à posição do arguido mas também e sobretudo fazer realçar no
processo tudo o que for útil de modo a favorecer a posição do arguido.
A função do defensor é, conjuntamente com o Tribunal e com o Ministério
Público trazer provas que possam afastar a imputabilidade, ou minorar a pena
a aplicar ao arguido, como também dar realce a essas situações.
O art. 62º CPP, indica quem tem legitimidade para ser defensor. Em
princípio deve ser advogado ou advogado estagiário.
Regra geral cabe ao Juiz de Instrução Criminal ou ao juiz de julgamento
nomear o defensor ao arguido.
Excepcionalmente essa competência poderá caber ao Ministério Público
(art. 62º/3 CPP).
A falta de nomeação de defensor constitui uma mera irregularidade, o
Tribunal não nomeou, ainda está a tempo de o fazer. A falta de assistência,
designadamente nos actos em que é obrigatória a assistência do defensor
constitui uma nulidade insanável. Essa nulidade será invocável a todo o
tempo, até ao trânsito em julgado da sentença, obrigando à repetição de todos
os actos que se praticaram a partir daí.
O Código de Processo Penal submete o arguido a três tipos de
interrogatório31 , como ainda lhe concede uma alegação final no fim da
[31]

audiência de julgamento, quanto aos interrogatórios:


- Um interrogatório não judicial, que é feito pelo Ministério Público e
eventualmente pelos órgãos de polícia criminal a quem foram delegadas
essas funções (art. 143º CPP).
- Um interrogatório judicial, que é feito pelo Juiz de Instrução Criminal;
- Um interrogatório judicial feito pelo juiz de julgamento.
Só o Tribunal é que pode fazer um interrogatório directo ao arguido. Os
outros sujeitos processuais farão esse interrogatório através do Tribunal, a não
ser que este consinta um interrogatório directo (arts. 141º/6; 345º/2 CPP)

61. O assistente
Para se falar em assistente é necessário distinguir:
a) Ofendido: titular de interesses que a lei especialmente quis proteger
com a incriminação, desde que maior de 16 anos (art. 68º/1-a CPP), ou
seja, titular dos interesses que a lei quis especialmente proteger quando
formulou a norma penal;
b) Lesado: o titular de um interesse de natureza civil. É a pessoa
(singular ou colectiva) que sofreu danos ocasionados com a prática do
crime (art. 74º/1 CPP);
c) Partes civis: são as pessoas (singulares ou colectivas) que por terem
legitimidade para deduzirem (lesados) ou contra eles ser deduzido, em
processo penal um pedido de indemnização de natureza cível derivado
da prática de um crime, intervêm ou são chamadas a intervir no
processo, são sujeitos processuais;
31[31]
Quanto aos interrogatórios, eles constituem não só um meio de prova, como são também o exercício do seu
direito de defesa.
d) Assistente: é a pessoa (s) (singular ou colectiva) que, por serem
ofendidas ou porque a lei lhes confere legitimidade para se constituírem
como tal (art. 68º/1 CPP), requereram ao juiz a sua intervenção no
processo penal para ai fazerem valer os seus interesses (de natureza
penal e conjuntamente de natureza cível), quer em colaboração com o
Ministério Público (crimes públicos e semi-públicos), quer
autonomamente nos casos previstos na lei (crimes particulares), e que
por despacho judicial foram admitidas como tal. É um sujeito processual.

62. Legitimidade
Torna-se necessário que a pessoa tenha mais de 16 anos, que seja titular
de um interesse que a lei penal quis proteger (art. 68º CPP).
Se o ofendido nada fizer, tratando-se de um crime público; ou se apresentar
meramente uma queixa, tratando-se de um crime semi-público, os seus
interesses serão defendidos pelo Ministério Público. Se quiser intervir no
processo, então, tem de adquirir a qualidade de sujeito processual. O ofendido
adquire essa qualidade querendo a constituição como assistente, isto é, vai
pedir ao juiz que a admita a intervir nos autos como sujeito processual, na
qualidade de assistente. O assistente tem de ser representado por advogado
(art. 70º CPP).
O ofendido pode requerer a sua constituição como assistente desde o início
do processo até um determinado momento, que difere consoante seja ou não
requerida a abertura da instrução – requisito de tempestividade:
- Se houver Instrução, é até cinco dias antes da data marcada para o
debate instrutório;
- Não havendo instrução, passando-se logo para a fase de julgamento,
então é desde que o requeira até cinco dias antes do início da
audiência de julgamento.
a) Requisitos formais:
- É necessário que tenha legitimidade, e para isso tem de ser o
ofendido ou alguma das pessoas a que se refere o art. 68º CPP;
- Tem que fazer um requerimento ao juiz (Juiz de Instrução Criminal, ou
juiz de julgamento, dependendo da fase em que requerer) – art. 68º/2
CPP;
- Tem que fazer esse requerimento em tempo (art. 68º/2 CPP);
- O art. 70º CPP; faz referência à representação judiciária dos
assistentes.
b) Requisitos substanciais:
Não ter havido renúncia à queixa, se houver renúncia, a pessoa não pode
depois vir a constituir-se assistente.
Também não se pode constituir assistente quem tenha comparticipado num
crime.
O requerimento é acompanhado da respectiva procuração que constitui o
mandatário e é depois levado à apreciação do juiz para proferir um despacho
de admissão ou de indeferimento.
Se faltar algum dos requisitos enunciados, então o juiz deverá proferir um
despacho de indeferimento.

63. O lesado
O lesado é aquela pessoa que não sofre directamente o crime, mas por
efeito dele sofre danos (art. 74º CPP).
Lesado deve ser considerada toda a pessoa que, segundo as normas de
Direito Civil tenha sido prejudicada em interesses seus juridicamente
protegidos, desta perspectiva se alcançando um conceito lacto ou extensivo de
ofendido, que abrangerá todas as pessoas civilmente lesadas pela infracção
penal.
Em suma, dever-se-á considerar lesado, para os efeitos do art. 74º CPP,
todo aquele que perante o Direito Processual Penal tiver legitimidade para
formular o pedido de indemnização.
O lesado, quando só é lesado, porque não é o ofendido, nunca se poderá
constituir como assistente, a lei não lhe confere legitimidade, a não ser que se
encontre previsto no art. 68º CPP.
O assistente tem que estar sempre numa relação directa com o crime; o
lesado, apenas nessa qualidade, nunca se pode constituir assistente. Quando
ofendido e lesado se fundam numa única pessoa então, nesse caso, como
ofendido, já poderá constituir-se como assistente.

16. Posição jurídico-processual do assistente


Nos crimes públicos e semi-públicos, o prosseguimento do processo penal
está assegurado pelo Ministério Público. O assistente pode também participar
mas a entidade principal é o Ministério Público, logo, o assistente apenas
intervirá no processo em colaboração com o Ministério Público, mas será
sempre uma actuação subordinada.
É uma actuação (do assistente) subordinada à actividade do Ministério
Público, de quem o assistente é um mero colaborador. Dir-se-á por conseguinte
que ele é um sujeito processual subordinado.
Há contudo uma excepção, em que se invertem os termos, em que o
assistente passa a sujeito principal e o Ministério Público passa a sujeito
subordinado e que decorre dos crimes particulares.
Neste, o procedimento criminal só tem lugar se houver queixa, constituição
de assistente e só há julgamento se o assistente acusar. O Ministério Público
poderá acusar depois de o assistente o ter feito (art. 285º CPP).
Direitos do assistente:
- Direito de intervenção no inquérito, oferecendo provas, requerendo
diligências;
- Direito de deduzir acusação: quer o art. 69º/2 CPP, quer o art. 284º
CPP, se referem à acusação do assistente;
- Pode também interpor recurso.
O assistente pode ainda na audiência de julgamento:
- Inquirir as testemunhas, directamente;
- Inquirir o arguido, através do Tribunal (art. 345º/2 CPP);
- Tem direito de requerer a consulta dos autos (art. 89º/1 CPP).

17. Posição jurídico-processual do lesado


O lesado sofre danos indirectamente com o crime: ele não é a vítima directa
do crime.
Quando a pessoa é só lesada ou mesmo quando é assistente, a
indemnização cível só será atribuída se for requerida. E tem de ser requerida
no processo penal.
A figura do lesado está directamente relacionada com o pedido de
indemnização cível.
Mas uma vez que o ofendido é ao mesmo tempo lesado, quando o ofendido
se constitui assistente tem igualmente legitimidade para formular um pedido de
indemnização civil.
Quanto a este pedido, diz a lei que ele é deduzido obrigatoriamente no
processo penal, a não ser que a lei, em casos tipificados, permita que seja o
Tribunal civil (art. 71º CPP, excepção do art. 72º CPP).
Que razão levou o legislador a tornar obrigatória a dedução do pedido de
indemnização no processo penal (art. 71º CPP)?
Em princípio, haveria uma economia de tempo, porque o processo penal
devia ser mais rápido.
Uma outra razão é a de que o ofendido economiza dinheiro, porque o
processo penal é mais barato.
Depois, outra razão é o aproveitamento das provas carreadas para o
processo pelo Ministério Público, consagradas com elementos de prova que
são produzidos na própria audiência de julgamento, principalmente as
declarações do ofendido.
Uma razão de ordem geral é a prevenção geral da criminalidade.
O princípio da obrigatoriedade da dedução do pedido de indemnização civil
em processo penal apenas é válido em toda a sua plenitude nos crimes
públicos, embora com as limitações do art. 72º/1-a), b), c), d), e), f), h) CPP.
Para os crimes particulares e para os crimes semi-públicos, vigora o
princípio da opção. Mas opção com estas consequências: é que se o ofendido
ou o assistente quiserem optar pelo processo civil, isso equivale a uma
renúncia ao prosseguimento do processo penal.
O pedido de indemnização é de natureza exclusivamente civil. Não há
indemnizações de ordem penal.
Vigora o princípio da necessidade, na medida em que o pedido de
indemnização é deduzido pelo lesado (art. 74º CPP). Quer isto dizer que só
haverá atribuição de uma indemnização se a mesmo for requerida.

18. Legitimidade para intervir no pedido de indemnização


Do lado passivo, tem-se duas pessoas:
- O arguido, o infractor contra quem é imputada a prática de um crime:
ele será responsável pelo pagamento da indemnização;
- Pode haver também um responsável meramente civil, que é a
pessoa singular ou colectiva que está obrigada ao ressarcimento do dano
que é ocasionado pelo crime.
O lesado, se quer intervir no processo, se quer formular um pedido de
indemnização, ou requerer ao Ministério Público que o represente ou faz-se
representar por advogado (art. 76º/1 e 2 CPP).
Quanto à legitimidade activa, essencialmente pertence ao lesado. Mas
poderá pertencer também a uma parte civil. Neste conceito cabem não só as
pessoas singulares, como também as pessoas colectivas.
A posição do lesado no processo restringe-se ao exercício dos poderes de
sustentação e da prova em matéria cível quanto ao pedido de indemnização.
O lesado pode exercer o seu direito, a partir da sua intervenção no
processo, ou a partir do momento em que as autoridades judiciárias lhe
comuniquem esses direitos.
É-lhe comunicado esses direitos quando, num processo penal o Ministério
Público ou o juiz se aperceber que há alguém que foi afectado pela prática do
crime, isto é, que sofreu danos ocasionados pelo crime, deve notificá-lo e
informá-lo de que tem um direito a ser indemnizado pelos prejuízos sofridos
(art. 75º CPP) – dever de informação.
O arguido pode contestar o pedido de indemnização. Daqui, não decorre
nenhuma consequência, na medida em que a falta de contestação não implica
a condenação no pedido de indemnização.

19. Natureza do pedido de indemnização civil


O pedido de indemnização cível é exclusivamente civil. O que se pretende
é obter uma compensação, um ressarcimento pelos danos sofridos, com a
aplicação das normas de Direito Civil substantivo, no que respeita à formulação
e à atribuição dessa indemnização.
Também, a decisão penal que conhecer do pedido de indemnização civil
constitui caso julgado, isto é, não se pode formular o pedido de indemnização
no processo penal e depois, porque se ficou satisfeito, formular novo pedido no
Tribunal civil, forma-se caso julgado mesmo no que diz respeito à matéria civil
em processo penal.
Há legitimidade activa e passiva:
- A legitimidade activa pertence ao lesado e, eventualmente, a
terceiro;
- A legitimidade passiva, pertence ao arguido e também, se o houver,
a um responsável meramente civil:
· O arguido é chamado directamente ao processo;
· O responsável meramente civil poderá ser demandado ou poderá ele
próprio fazer a sua intervenção porque, nomeadamente se houver um
direito de regresso contra o arguido, tem interesse em discutir se houve
ou não houve causas de exclusão da sua responsabilidade.
É obrigatório a formulação do pedido de indemnização no processo
penal, quando isso não acontecer, o Tribunal não conhece desse pedido.

20. Formulação do pedido de indemnização


Rege esta matéria o art. 77º CPP. Neste artigo tem-se que ter bem presente
quem formula o pedido de indemnização: se é o Ministério Público, se é o
assistente, ou se é o lesado.
Quando formulado pelo Ministério Público o pedido de indemnização é
deduzido na acusação.
Isto quer dizer que o lesado deve fornecer ao Ministério Público os
elementos de facto que fundamentam o seu pedido antes do termo do
inquérito, isto é, antes do Ministério Público formular a acusação.
Quando formulado pelo assistente o pedido de indemnização é deduzido
na acusação ou no prazo em que esta deva ser formulada.
Esta alternativa aplica-se aos crimes públicos e semi-públicos, em que o
assistente pode não acusar, pode pura e simplesmente fazer sua a acusação
do Ministério Público, ou seja, pode aderir à acusação do Ministério Público.
Tem cinco dias após a notificação da acusação do Ministério Público, o
assistente também pode deduzir acusação (art. 284º CPP).
Nos crimes particulares o pedido deve ser formulado na acusação.
Se o assistente não deduzir acusação então deve, nesses cinco dias,
formular o pedido de indemnização, sob pena de o mesmo depois não ser
conhecido.
Se não houver acusação não há prosseguimento do processo penal nos
crimes particulares, em que é obrigatória a acusação por parte do assistente.
Portanto, quando ele deduz a acusação formula também o pedido de
indemnização, na mesma peça processual.
O art. 7º/2 CPP, refere-se ao pedido de indemnização feito pelo lesado, que
intervém no processo através de advogado.
Quando à data do despacho de pronúncia ou da data do julgamento ainda
não são conhecidos os danos, então poder-se-á deixar a formulação do pedido
para uma execução de sentença.

MEDIDAS DE COACÇÃO E DE GARANTIA PATRIMONIAL

21. Noção
São providências de natureza cautelar e processual, limitadoras da
liberdade do arguido que têm em vista assegurar que o processo penal decorra
sem incidentes.
Estas medidas de coacção inserem-se dentro de um conjunto de medidas
de natureza cautelar, que têm em vista assegurar que o processo decorra sem
incidentes.
Pela sua natureza, só excepcionalmente é que elas podem ser aplicadas
para limitar a liberdade das pessoas, estão sujeitas ao princípio da legalidade
(arts. 27º CRP e 191º CPP).
De acordo com o crime, com a infracção cometida pelo arguido, assim o juiz
irá ponderar qual a medida de coacção a aplicar ao arguido, dentro daqueles
que estão previstas na lei; depois será também proporcional à gravidade do
crime (art. 193º CPP32 ). [32]

22. Pressupostos
É obrigatória a prévia constituição de arguido, quanto tenha de ser aplicada
uma medida de coacção (art. 58º/1-b; 192º/1 CPP).
Só o Juiz de Instrução Criminal ou o juiz de julgamento, poderá decidir qual
a medida de coacção a ser aplicada ao arguido (art. 194º/1 CPP).
Há apenas uma, chamada termo de identidade e residência (art. 196º
CPP), que pode ser aplicada pelo Ministério Público. É a única medida de
coacção que foge à regra de aplicação por parte do juiz, pode ser aplicada pelo
Ministério Público.
Todas as restantes medidas de coacção são aplicadas mediante despacho
de juiz, porque o poder judicial é próprio do juiz e não do Ministério Público.
Apenas o juiz tem o poder de limitar os direitos do cidadão.
Por isso é que, sendo as medidas de coacção limitadoras da liberdade das
pessoas, apenas poderão ser aplicadas por despacho de juiz.
Se uma medida de coacção for aplicada (pelo juiz) durante o inquérito,
faltando o requerimento do Ministério Público, entende-se que se está perante
uma nulidade insanável, que poderá ser invocada a todo o tempo. Conduzirá
portanto à anulação de tudo quanto se processou a partir daquela data.

32[32]
Princípio da adequação e da proporcionalidade
O juiz não está vinculado à medida de coacção solicitada pelo Ministério
Público. Isso iria limitar a actividade do juiz no processo; a actividade judicial
como que ficava subordinada a um órgão que não é judicial e que, além do
mais, é hierarquicamente dependente.
Termo de identidade e residência
É uma medida obrigatória para todos os processos que devam continuar
após o interrogatório do arguido:
- É aplicável a todos aqueles que forem constituídos arguidos;
- Sempre cumulável com outra medida de coacção;
- Implica a obrigação de o arguido indicar pessoa que receba as
notificações no caso de vir a residir fora da comarca; de comparecer
perante autoridade competente sempre que para tal seja notificado; de
não mudar de residência sem comunicar a nova residência.
- O arguido é informado de que em caso de incumprimento será
representado pelo seu defensor incluindo a audiência de julgamento (art.
333º CPP).
A não sujeição do arguido a termo de identidade e residência, quando o
processo contínua após o primeiro interrogatório, constitui irregularidade
processual, sujeita ao regime do art. 123º CPP. Nos termos do art. 123º/2
CPP, a reparação da irregularidade deve ser ordenada mesmo oficiosamente,
logo que dela se tome conhecimento, determinando-se que o arguido preste
termo.

23. Caução (carcerária)33 [33]

O arguido é obrigado a depositar uma determinada quantia que irá ser


fixada pelo juiz para que aguarde em liberdade os ulteriores termos do
processo.
Tem como consequência que se o arguido deixar de cumprir as obrigações
que lhe são impostas perde esse dinheiro que depositou.
Pode ser cumulada com outra, com excepção da prisão preventiva,
pressupostos:
- Crime punível com pena de prisão;
- Possibilidade de cumulação com outras que não seja a obrigação de
permanência na habitação e a prisão preventiva (art. 205º CPP);
- Possibilidade da sua substituição por outra ou outras em cumulação
por dificuldades (económicas) do arguido;
- Deve atender-se:
· Aos fins a que se destina;
· À gravidade do crime;
· À condição sócio-económica do arguido.
- Reforço da caução (art. 207º CPP);
- Se o arguido não prestar a caução ou não proceder ao reforço pode
ser decretado o arresto preventivo (art. 206º/4 e 228º CPP);
- Quebra da caução (art. 208º CPP).

24. Proibição de permanência, de ausência e de contactos 34 [34]

O arguido não poderá contactar com determinadas pessoas.


33[33]
Art. 197º CPP.

34[34]
Art. 200º CPP.
Existência de fortes indícios da prática de um crime punível com pena de
prisão de máximo superior a três anos.
Imputação a título de dolo.

25. Obrigação de permanência na habitação35 [35]

O arguido não poderá sair da sua habitação.


Existência de fortes indícios de crime punível com pena de prisão de
máximo superior a três anos.
Imputação a título de dolo.
Possibilidade de utilização de meios de controlo à distância para
fiscalização.

26. Prisão preventiva36 [36]

É a medida de coacção mais grave de todas (engloba todos os requisitos


das restantes), é uma medida de coacção limitadora em absoluto da liberdade
das pessoas.
Tem como sujeito passivo o arguido e tem como requisitos gerais para a sua
aplicação os previstos no art. 204º CPP.
São toda uma série de circunstâncias que se podem verificar
independentemente umas das outras, estes requisitos não são cumulativos:
basta que se verifique um, ou que haja a possibilidade de ser verificar um, para
que as mediadas de coacção possam ser aplicadas.
A prisão preventiva, para além dos requisitos gerais do art. 204º CPP, tem
também requisitos especiais previstos no art. 202º CPP.
É uma medida de natureza excepcional e tem também natureza subsidiária,
isto é, só se aplica se os fins que com ele se pretendem atingir não poderem
ser conseguidos com a aplicação de outra medida de coacção menos gravosa
(art. 28º/2 CRP; arts. 193º/2 – 204º CPP).
Excepção ao princípio da subsidiariedade da prisão preventiva, é o art. 209º
CPP.
Quanto ao prazo de duração máximo, vem previsto no art. 215º CPP.
Quanto à impugnação da prisão preventiva, vêm previstos nos art. 219º e
222º CPP.
A prisão preventiva é aplicada por despacho do juiz e sendo um despacho
judicial, susceptível de recurso. Na generalidade, a decisão é impugnada
mediante recurso para o Tribunal imediatamente superior – Tribunal da Relação
– a julgar no prazo de 30 dias.
Pode-se invocar o habeas corpus (art. 222º CPP), nas situações de prisão
ilegal.
Verificada qualquer das situações referidas no art. 222º CPP, qualquer
pessoas poderá impugnar esta situação de prisão preventiva e fazer uma
petição dirigida ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça em que dá conta
da situação em que se encontra e requerer que seja posto de imediato em
liberdade (ex. art. 220º CPP, ultrapassadas as 48 horas).

27. Revogação substituição e extinção da prisão preventiva

35[35]
Art. 201º CPP.

36[36]
Art. 202º CPP.
A prisão preventiva pode ser suspensa (art. 211º CPP). Mas a suspensão
apenas se verifica em situação de doença grave do arguido, ou tratando-se de
arguida, numa situação de gravidez ou de parto (puerpério).
A revogação vem prevista no art. 212º CPP. O juiz de três em três meses,
ou a solicitação do arguido, poderá revogar pura e simplesmente a prisão
preventiva.
Poderá também, a solicitação ou a requerimento do arguido ou do seu
defensor, substituir a prisão preventiva por qualquer outra medida de coacção.
No art. 214º CPP prevêem-se os casos de extinção:
- Com o arquivamento do inquérito, se não for requerida abertura da
instrução;
- Com o trânsito em julgado do despacho de não pronúncia;
- Com o trânsito em julgado do despacho que rejeita a acusação, nos
termos do art. 311º/2-a CPP;
- Com a sentença absolutória, mesmo que dela tenha sido interposto
recurso; ou
- Com o trânsito em julgado da sentença condenatória.

28. Medidas de garantia patrimonial, finalidade


Pode acontecer que no decurso do processo penal o arguido, receoso de vir
a sofrer uma condenação (de natureza penal), pense em salvaguardar o seu
património.
Sempre que exista um receio fundado de que o arguido possa dissipar os
seus bens e depois não seja possível obter o pagamento da indemnização civil
nem das custas do processo pode o Tribunal oficiosamente ou a requerimento
impor ao arguido a prestação de uma caução económica (art. 227º/2 CPP).
Uma outra medida é o arresto preventivo (art. 228º CPP), características:
- Ele é aplicado quando falta a caução económica, quando o arguido
não cumpre a caução económica.
- Poderá ser decretado mesmo contra comerciantes divergindo aqui do
arresto cível;
- Poderá haver uma oposição a este arresto, deduzida ou pelo arguido
ou pelo detentor dos bens; só que esta oposição, se for feita através de
recurso, este será devolutivo, nunca suspensivo, o arresto manter-se-á
sempre;
- Também se mantém o arresto quando há dúvida relativamente à
titularidade dos bens.

29. Detenção
Figura próxima das medidas de coacção, até porque também ela se vai
prender com a limitação, embora temporária da liberdade do arguido (arts. 254º
segs. CPP).
A finalidade imediata da detenção é garantir que o arguido seja julgado no
prazo máximo de 48 horas. Ninguém pode estar detido mais de 48 horas, sob
pena de a detenção se tornar ilegal. Tem-se que distinguir na detenção:
Detenção em flagrante delito, qualquer autoridade judiciária, qualquer
órgão de polícia criminal, pode proceder à detenção. Exige-se uma certa
conexão temporal, uma certa decorrência natural dos factos, eles devem estar
estritamente ligados uns com os outros, de outra maneira quebrar-se-ia o elo
de ligação e poder-se-ia ir para uma detenção numa situação que já não era
considerada flagrante delito.
A detenção em flagrante delito relaciona-se estritamente com a existência
do processo sumário, pelo que não deve ser dada às autoridades judiciárias ou
policiais a discricionariedade quando à detenção, pois que isso poderá suscitar
dúvidas quanto à sua actuação e possibilitaria que fossem essas entidades a
decidir sobre a forma de processo a seguir.
O art. 255º/3 CPP, relativamente ao carácter semi-público do crime, dispõe
que, se verifiquem os pressupostos da detenção, esta é levada a cabo, mas só
se mantém se, logo em acto seguido, haver queixa por parte de quem para isso
tem legitimidade. Cumpre, para efeito, às autoridades ou às entidades policiais
às quais é o detido entregue ouvir imediatamente os titulares do direito de
queixa. Se estes o exercerem, mandam levantar o auto, em que fique
registada; se a não exercerem, soltam o detido sem qualquer procedimento.
O art. 255º/4 CPP, é reflexo do carácter particular do crime. Aqui não
haverá, em qualquer caso, lugar a detenção, mas apenas à identificação do
infractor, sem qualquer outro procedimento, pois haverá que aguardar uma
eventual iniciativa do titular do direito de acusação.
Não sendo em flagrante delito (art. 257º CPP), a detenção só pode ser
efectuada por mandado emanado do juiz ou também do Ministério Público,
quando ao crime cometido for admissível a sua aplicação de prisão preventiva.
Exige-se portanto que o crime tenha sido cometido com dolo e punível com
uma pena de prisão superior a três anos. Nesse caso pode também o
Ministério Público emitir um mandado de detenção.
Os órgãos de polícia criminal podem proceder à detenção fora do flagrante
delito, só que aqui terão que estar reunidos três pressupostos que vêm
previstos no art. 257º/2 CPP.
a) Se tratar de caso em que é admissível a prisão preventiva;
b) Existirem elementos que tornem fundado o receio de fuga; e
c) Não for possível, dada a situação de urgência e de perigo na demora,
esperar pela intervenção da autoridade judiciária
Tendo que se verificar estes requisitos cumulativamente, então poderá por
iniciativa própria proceder à detenção.
Também na detenção a possibilidade de reagir através do habeas corpus. A
petição é dirigida ao Juiz de Instrução Criminal, e ele deverá deferi-la no mais
curto espaço de tempo, ou seja, deve de imediato pôr a pessoa em liberdade,
ou então, ouvi-la.

30. Comparação entre detenção e prisão preventiva


a) Quanto à sua natureza
A prisão preventiva é uma medida de coacção processual mais grave.
A detenção, é uma medida de natureza cautelar, que não pressupõe tão
pouco a existência de um processo.
b) Quanto às suas finalidades
Na prisão preventiva, pretende-se evitar o perigo de fuga, ou o perigo de
perturbação do inquérito, ou o perigo da continuação da actividade criminosa
(art. 204º CPP).
Com a detenção, pretende-se assegurar apenas a presença do arguido em
acto judicial: primeiro interrogatório, ou outros interrogatórios por parte do
Ministério Público, ou ainda para ser julgado sumariamente, por exemplo.
c) Quanto à duração
A prisão preventiva poderá atingir um máximo de quatro anos.
A detenção, nunca poderá ultrapassar as 48 horas.
d) Competência para a sua aplicação
A prisão preventiva será sempre aplicada pelo Juiz de Instrução Criminal na
fase do inquérito ou da instrução, ou pelo juiz de julgamento em qualquer outra
fase, mesmo na fase de recurso.
No caso da detenção, será competente qualquer entidade judicial (juiz ou
Ministério Público), qualquer autoridade de polícia criminal e até qualquer
pessoa, em flagrante delito.
e) Sujeitos passivos
No caso da prisão preventiva, obrigatoriamente a pessoa tem que já estar
constituída como arguido, previamente deve ser constituída como arguido a
pessoa a quem a prisão preventiva deva ser aplicada.
A detenção é aplicada a qualquer suspeito ou até a um interveniente
processual.

VÍCIOS DOS ACTOS PROCESSUAIS

31. Inexistência
Traduz-se no facto de o acto não ser idóneo a produzir quaisquer efeitos de
natureza processual.
Ex. sentença proferida pelo Ministério Público. Este acto inexiste, não pode
produzir quaisquer efeitos; por conseguinte é insusceptível de ser sanado.
A inexistência tão pouco precisa de ser declarada. Verifica-se o vício da
inexistência quando ao acto faltam elementos que são essenciais à sua própria
substância, de modo que em caso algum pode produzir efeitos jurídicos.

32. Nulidade e irregularidades


A nulidade consiste na inobservância da disposição da lei (processual
penal).
Se a lei prevê que o acto deva ser feito de determinada maneira, e se não é
temos um vício. Esse acto, conforme as suas gravidades e as suas
consequências, será considerado nulo ou irregular.
Sabe-se que se trata de um acto nulo quando a lei expressamente o disser.
Se a lei nada disser, o acto é irregular.
Consagra-se no art. 118º CPP, o princípio da legalidade no domínio das
nulidades dos actos processuais. Assim, para que algum acto processual
relativamente ao qual tenha havido violação ou inobservância das disposições
legais do processo penal padeça do vício a nulidade é necessário que a lei o
diga expressamente; de outro modo o acto viciado sofrerá do vício menor da
irregularidade, submetido ao regime do art. 123º CPP, mas não será nulo.
As nulidades podem ser sanáveis e insanáveis. Estas – as nulidades
insanáveis – são taxativas. Estão enumeradas no art. 119º CPP, acrescendo-
lhes as que assim são cominadas em outras disposições legais. Desde que
não cominadas como insanáveis, as nulidades consagradas na lei serão
sanáveis segundo o regime dos arts. 120º e 121º CPP.

33. Características das nulidades


As nulidades são sanadas:
- Ou pelo trânsito em julgado da sentença final;
- Ou pelo decurso do tempo.
A nulidade tem de ser declarada:
- Pode sê-lo oficiosamente;
- Ou pode ser através de arguição por parte dos interessados.
Poderá ser oficiosamente no caso das nulidades absolutas37 . [37]

O próprio Tribunal pode aperceber-se de que foi cometida uma nulidade


daquele género, conhece dela, e por conseguinte, anula todos os actos
praticados a partir daí.
As nulidades relativas, têm prazos para serem arguidas e só podem sê-lo
pelos próprios interessados.
- Ou pelo arguido, se se tratar de acto que ofenda os seus interesses e
os seus direitos;
- Ou pelo assistente;
- Ou eventualmente pelo Ministério Público.
a) Nulidades gerais
São aquelas que a lei prevê num determinado artigo para determinados
casos – art. 119º CPP38 (nulidades insanáveis).
[38]

Como consequência ou efeito das nulidades, anula os actos inválidos e


ordena a sua repetição. Abrange todos os actos que dependam deste e que
com ele estejam conexos. Portanto, o que está para trás não interessa.
O despacho que conhecer oficiosamente de uma nulidade (o caso de se
tratar de uma nulidade absoluta) deve indicar quais os actos que devem ser
declarados nulos.
b) Nulidades relativas (art. 120º CPP)39 [39]

37[37]
Nulidades insanáveis

38[38]
Artigo 119º (Nulidades insanáveis)

Constituem nulidades insanáveis, que devem ser oficiosamente declaradas em qualquer fase do procedimento,
além das que como tal forem cominadas em outras disposições legais:

a) A falta do número de juízes ou de jurados que devam constituir o tribunal, ou a violação das regras legais
relativas ao modo de determinar a respectiva composição;

b) A falta de promoção do processo pelo Ministério Público, nos termos do artigo 48.º, bem como a sua ausência a
actos relativamente aos quais a lei exigir a respectiva comparência;

c) A ausência do arguido ou do seu defensor, no casos em que a lei exigir a respectiva comparência;

d) A falta de inquérito ou de instrução, nos casos em que a lei determinar a sua obrigatoriedade;

e) A violação das regras de competência do tribunal, sem prejuízo do disposto no artigo 32.º, n.º 2;

f) O emprego de forma de processo especial fora dos casos previstos na lei.

39[39]
Artigo 120.º (Nulidades dependentes de arguição)

1- Qualquer nulidade diversa das referidas no artigo anterior deve ser arguida pelos interessados e fica sujeita à
disciplina prevista neste artigo e no artigo seguinte.

2- Constituem nulidades dependentes de arguição, além das que forem cominadas noutras disposições legais:

a) O emprego de uma forma de processo quando a lei determinar a utilização de outra, sem prejuízo do
disposto na alínea f) do artigo anterior;
É a própria lei que vem dizer em que circunstância é que o acto é nulo.
Diferente é também a forma de arguição. Neste caso das nulidades
relativas, rege o art. 120º/3 CPP: ou a nulidade é praticada durante o acto em
que está presente o interessado (defensor do arguido, assistente ou Ministério
Público) e portanto deve ser arguida até ao final desse acto; ou então é
praticado o acto e o interessado só toma conhecimento dele através duma
notificação.
Nas formas de processo especial (sumário e sumaríssimo) a nulidade dever
ser arguida no início da audiência de julgamento.
Quando o acto não for considerado por lei como nulo, o acto é considerado
como irregular (art. 118º/2 CPP).
A irregularidade não é tanto um, vício, mas é uma imperfeição, o acto é
menos perfeito. Daí que o seu regime também seja diferente e venha previsto
no art. 123º CPP.
- A irregularidade tem que ser arguida no próprio acto, quando os
interessados estejam presentes; ou
- Não estando presentes os interessados nos três dias seguintes ao
seu conhecimento (art. 123º/1 CPP)
A irregularidade do acto apenas afecta o acto em si e, eventualmente,
outros cuja validade possam decorrer dele. Mas, não será a anulabilidade de
tudo quanto se fez.
RECURSOS

34. Princípios gerais


No art. 399º CPP estabelece-se o princípio geral da admissibilidade de
recurso das sentenças e dos despachos judiciais, sempre que a
irrecorribilidade não esteja prevista na lei.
A Constituição garante a todos o acesso aos Tribunais para defesa dos seus
direitos (art. 20º/1 CRP) e prevê a existência de Tribunais de recurso (art. 32º/1
CRP), decorre que o legislador, dispondo embora de uma larga margem de
liberdade no tocante à definição das decisões susceptíveis de ser impugnadas
por via de recurso, e bem assim no que concerne à identificação das pessoas

b) A ausência, por falta de notificação, do assistente e das partes civis, nos casos em que a lei exigir a
respectiva comparência;

c) A falta de nomeação de intérprete, nos casos em que a lei considerar obrigatória;

d) A insuficiência do inquérito ou da instrução e a omissão posterior de diligências que pudessem reputar-se


essenciais para a descoberta da verdade.

3- As nulidades referidas nos números anteriores devem ser arguidas:

a) Tratando-se de nulidade de acto a que o interessado assista, antes que o acto esteja terminado;

b) Tratando-se da nulidade referida na alínea b) do número anterior, até cinco dias após a notificação do
despacho que designar dia para a audiência;

c) Tratando-se de nulidade respeitante ao inquérito ou à instrução, até ao encerramento do debate instrutório


ou, não havendo lugar a instrução, até cinco dias após a notificação do despacho que tiver encerrado o
inquérito;

d) Logo no início da audiência nas formas de processo especiais.


legitimadas a recorrer, não pode eliminar pura e simplesmente a faculdade de
recorrer em todo e qualquer caso, nem inviabilizar na prática essa faculdade.
No tocante a processo penal, o princípio constitucional das garantias de
defesa impõe ao legislador que consagre a faculdade de os arguidos
recorrerem de quaisquer actos judiciais que, no decurso do processo, tenham
como efeito a privação ou a restrição da liberdade ou de quaisquer outros dos
seus direitos fundamentais.
Traduzindo a faculdade de recorrer em processo penal uma expressão do
direito de defesa, a Constituição impõe porém, que o legislador consagre nesse
campo a faculdade de recorrer de todo e qualquer acto do juiz, devendo
admitir-se que tal faculdade seja restringida ou limitada em certas fases do
processo e que, relativamente a certos actos do juiz, possa mesmo não existir,
desde que dessa forma se não atinja o núcleo essencial do direito de defesa.

35. Legitimidade e interesse para agir


O art. 401º/2 CPP, significa que, para poder recorrer, além dos requisitos da
legitimidade, deva ainda o requerente ter necessidade de, no caso concreto,
para realizar o seu direito usar do meio processual que é o recurso.
Dada a extensão dos deveres do Ministério Público, este requisito do
interesse em agir dificilmente lhe não será aplicável. Porém, quanto aos outros
interessados no recurso poderá assim não suceder, e ficará para a
jurisprudência a função de avaliar da existência ou da inexistência do interesse
em agir, tal-qualmente tem sucedido em processo civil. Enquanto a legitimidade
é subjectiva e valorada a priori, o interesse em agir é objectivo e terá que se se
verificar em concreto.
Assim, ressalvado o Ministério Público, só terá interesse em agir para efeito
de interposição de recurso, quem tiver necessidade de usar do recurso para
sustentar o seu direito.
Em face das disposições combinadas dos arts. 48º a 52º e 401º/1-a CPP, e
atentas à origem, natureza e estrutura, bem como o enquadramento
constitucional e legal do Ministério Público tem este, legitimidade e interesse
para recorrer de quaisquer decisões mesmo que lhe sejam favoráveis e assim
concordantes com a sua posição anteriormente assumida no processo.
O assistente não tem legitimidade para recorrer, desacompanhado do
Ministério Público relativamente à espécie e medida da pena aplicada, salvo
quando demonstrar um concreto e próprio interesse em agir.
As limitações ao âmbito do recurso mencionadas nos artigos anteriores e
decorrentes do art. 402º e 403º CPP, acrescem ainda as limitações decorrentes
da proibição reformatio in pejus (art. 409º CPP).

36. Limitações do recurso


No art. 403º/1 CPP, formula-se a possibilidade de limitação do recurso, a
uma parte da decisão sempre que seja possível apreciar autonomamente a
parte de que se recorreu. Isto significa que a parte de que foi interposto
recurso, se houver alteração, não pode ficar em contradição insanável com a
parte de que se não interpôs recurso; se houver essa possibilidade, o recurso
será extensivo a toda a decisão na medida em que esta puder ser afectada.
Mas ainda aqui haverá que atentar na disposição do art. 403º/3 CPP, que
amplia a possibilidade de limitação do âmbito do recurso.
No art. 403º/2 CPP especifica-se o caso em que a lei considera haver
autonomia entre as partes da decisão recorrida, para efeito de interposição de
recurso; trata-se de enumeração que não é taxativa.
Qualquer das alíneas do art. 403º/2 CPP, terá sempre que ser
criteriosamente equacionada com o comando do art. 403º/1 CPP.
O art. 403º/3 CPP, significa que deve começar-se pela apreciação do
recurso, e seguidamente retirar-se da decisão do mesmo todas as
consequências quanto à decisão do Tribunal inferior, alterando-a na medida
estritamente necessária para que não haja contradição com a decisão do
Tribunal superior, respeitando porém sempre as limitações decorrentes da
reformatio in pejus.

37. Reclamação contra despacho que não admitir ou retiver recurso, art.
405º CPP
Apesar de a reclamação ser apresentada na secretaria do Tribunal
recorrido, não deve a mesma ser autuada por apenso, como sucede no
processo civil, mas em separado, nem a sua apresentação tem qualquer efeito
sobre o andamento do processo.
Efectuada a apresentação na secretaria do Tribunal recorrido, o juiz, no
prazo geral, informa-a respondendo, se assim o entender, às razões aduzidas
pelo reclamante e envia-a ao presidente do Tribunal superior. Como a autuação
não é por apenso, convirá que o juiz reclamado não só lavre informações, mas
também junte todos os elementos necessários para que o presidente do
Tribunal superior decida sem necessidade de pedir novos elementos.
A decisão do presidente do Tribunal superior terá que ser notificada ao
reclamante. Se a reclamação for deferida, o recurso considera-se interposto a
partir da notificação, começando a partir desta a correr o prazo para a
motivação, se esta não tiver sido apresentada com a interposição.
Crê-se que a notificação deve ser ordenada pelo Tribunal onde a
reclamação foi apresentada, após comunicação ao mesmo Tribunal da decisão
do presidente do Tribunal superior.

38. Recursos com efeito suspensivo


No art. 408º/1 CPP, enumeram-se os recursos que têm efeito suspensivo do
processo, e portanto também, evidentemente, da decisão recorrida. O processo
fica suspenso e dependente de recurso, com as ressalvas feitas na parte final
das alíneas a) e b).
O art. 408º/1-b CPP tem que ser equacionado com o art. 310º CPP. Como
se deduz desse art. 310º CPP, e de outras disposições, a decisão que
pronunciar o arguido de harmonia com a acusação do Ministério Público é
irrecorrível. Porém, pode haver pronúncia por factos diferentes apontados pelo
Ministério Público, mais precisamente por factos objecto de requerimento do
assistente para a abertura da instrução. Em tal caso, o recurso é admissível, e
se for interposto tem efeito suspensivo no processo.
No art. 408º/2 CPP só a própria decisão recorrida fica suspensa; o recurso
interposto não tem efeito suspensivo sobre todo o mais do processo, que
continua a sua tramitação. Por isso estes recursos sobem imediatamente e
normalmente em separado.

39. Proibição da reformatio in pejus


O sentido da proibição da reformatio in pejus é o de obstar a que o arguido
veja alterada a sentença penal, em seu prejuízo quando só a defesa recorreu,
ou mesmo quando também o Ministério Público recorreu, mas no exclusivo
interesse do arguido.
A proibição, com a ressalva do art. 409º/2 CPP, aplica-se a todas as
sanções, sejam penas ou medidas de segurança, constantes da decisão
recorrida.
A proibição reformatio in pejus não é absoluta, tendo uma limitação, que diz
respeito à agravação da pena de multa, que é sempre possível no recurso,
desde que a situação económica e financeira do arguido tenha entretanto
melhorado de forma sensível.
O Tribunal superior pode em recurso, alterar oficiosamente a qualificação
jurídico-penal efectuada pelo Tribunal recorrido, mesmo que para crime mais
grave, sem prejuízo, porém da proibição da reformatio in pejus.

40. Fundamento do recurso


O disposto no art. 410º CPP, é de principal importância porque enquanto
nos recursos as Relações conhecem em regra de facto e de direito (art. 428º
CPP), o recursos interpostos para o Supremo Tribunal de Justiça visam em
regra exclusivamente o reexame da matéria de direito (art. 434º CPP).
É de salientar porém que os vícios apontados no art. 410º/2 CPP, com
fundamento do recurso, têm que resultar do próprio texto da decisão
recorrida40 , por si ou conjugada com as regras da experiência comum.
[40]

Salvo o caso de decisões proferidas em primeira instância por Tribunais


superiores, os recursos ordinários, são interpostos do Tribunal singular para o
Tribunal da Relação e do Tribunal colectivo e do Tribunal de júri para o
Supremo Tribunal de Justiça.
A regra é a de um único grau de recurso, cuja a tramitação contende, com
os próprios poderes de cognição do Tribunal superior.
A superior garantia que representam os Tribunais colectivos resulta
manifestamente da sua estrutura colegial e da imediação com os factos. É que
há cada vez mais razões para olhar com cepticismo os segundos julgamentos,
necessariamente montados sobre cenários já montados e com prévio ensaio
geral.
É fundamental não esconder a realidade das coisas. Não são
considerações de dogmática ou um certo construtivismo judiciário que abonam
a vantagem ou a fatalidade do recurso directo interposto dos Tribunais
colegiais. As razões encontram-se noutros planos. Assegurada a efectiva
colegialidade, garantido o contraditório e obtida um tanto quanto possível
imediação, o recurso do Tribunal colectivo tem características particularmente
nítidas de remédio jurídico. A previsão de um mecanismo de reapreciação dos
factos não pode – não deve – ser senão uma válvula de segurança. É esta a
economia do recurso para o Supremo Tribunal de Justiça a que se poderia
chamar, de revista alargada.
No que respeita às Relações. Trata-se, neste caso de recurso interposto de
Tribunal singular. Esta circunstância justifica a conveniência de que o recurso
seja apreciado, segundo as normas clássicas da apelação, por um Tribunal
colegial.

40[40]
Não sendo assim portanto permitida a consulta de outros elementos constantes do processo.
Se não tiver havido renúncia ao recurso, as Relações conhecem de facto e
de direito se a tiver havido, o recurso é de direito mas na modalidade de revista
alargada

41. Desistência
Confrontando o texto do art. 415º CPP, com o do art. 401º CPP, sobre a
legitimidade para recorrer, nota-se que no art. 415º CPP, quanto à possibilidade
de desistência do recurso, se omitiram as pessoas indicadas no art. 401º-d
CPP.
Crê-se, que se trata de lapso do legislador, e que portanto o art. 415º CPP,
deve sofrer interpretação extensiva. O art. 415º CPP, consagra uma regra
geral, e foi formulado mais com o propósito de deixar bem explicita a
possibilidade de desistência por parte do Ministério Público, do arguido e do
assistente e indicar até que momento se pode efectivar a desistência do que
com o propósito de aflorar uma regra geral.

42. Vista ao Ministério Público


Os recursos em processo penal são obrigatoriamente motivados no Tribunal
a quo pelo Ministério Público, quando este for recorrente. Quando não for
recorrente, também normalmente o Ministério Público responderá à motivação
do recorrente, porque se trata de um sujeito processual afectado (art. 413º
CPP).
No entanto, cumprirá ao Ministério Público no Tribunal superior apor o seu
visto ou emitir o seu parecer, no qual não está vinculado pela motivação ou
pela resposta do Ministério Público no Tribunal inferior.
No visto a que se refere o art. 416º CPP, o Ministério Público emite o seu
parecer, podendo suscitar quaisquer questões que se lhe oferecem como
cabidas para a decisão e devendo, logicamente, seguir a ordenação
estabelecida nas alíneas do art. 417º/2 CPP; em casos que se afigurem de
extrema simplicidade aporá o visto no processo.
Se o recurso não for rejeitado ou julgado em conferência e houver de
prosseguir, o Ministério Público normalmente já não terá novo visto, sendo só
convocado para a audiência

43. Rejeição do recurso


A rejeição do recurso (art. 420º CPP) é deliberada em conferência, e pode
fundamentar-se na sua manifesta improcedência ou em causa que devia ter
determinado a sua não admissão (art. 414º/2 CPP). A manifesta improcedência
do recurso pode suscitar dificuldades, pela indefinição do que se deve entender
por manifesta improcedência. Um bom critério de orientação poderá ser dado,
com as devidas adaptações, pela manifesta inviabilidade das acções em
processo civil. Recursos em que, perante o Supremo Tribunal de Justiça, se
discuta só matéria de facto, ou em que seja visível um propósito ínvio, como o
de aguardar previsíveis medidas de clemência ou o de retardar o pagamento
de indemnizações não terão cabimento e serão penalizadas pela disposição do
art. 420º/4 CPP.

44. Audiência
Conforme se preceitua no art. 423º/3 CPP, a palavra para as alegações é
dada ao Ministério Público, aos representantes dos recorrentes e dos
recorridos, pela ordem enunciada. Aqui podem suscitar-se dúvidas quando o
Ministério Público não é recorrente. O contraditório e a “igualdade de armas”,
pedras fundamentais do código, impõem que cada uma das partes possa
produzir alegações o mesmo número de vezes que a outra parte, só sendo
possível um ligeiro desvio, nos termos do art. 423º/4 CPP, para que o defensor
fale antes do encerramento da audiência, se não tiver sido o último a intervir
isso manifestamente com o propósito de não cortar o arguido de qualquer via
de defesa.
Assim, quando o Ministério Público é o recorrente, deverá alegar em
primeiro lugar, alegando seguidamente a acusação particular e depois os
arguidos (recorridos). Até aqui não se suscitam quaisquer dúvidas. Mas qual
deve ser a ordem de alegações nos casos em que o Ministério Público não é
recorrente, mas recorrido? Crê-se que a ordem é a estabelecida no texto, e que
mesmo neste caso o Ministério Público deve alegar no início, como primeiro
defensor da legalidade.
Contrariamente ao que sucede com a falta de motivação, a falta de
alegações não implica a rejeição do recurso, sendo por isso lícito a qualquer
das partes não alegar, sem que isso implique a rejeição ou o não conhecimento
do recurso. As alegações têm, função e finalidade diferentes das da motivação,
esta destina-se a manifestar porque é que o recorrente discorda da decisão
recorrida e a apontar qual o sentido em que em seu entendimento, deve ser
proferida a decisão do Tribunal superior, enquanto que as alegações, proferidas
quando o âmbito do recurso já está definido, se destinam a expor
considerações finais, já após a audiência.

RECURSOS ORDINÁRIOS

45. Recurso para a Relação


A tramitação dos recursos perante as Relações e perante o Supremo
Tribunal de Justiça, em grande parte é unitário. Há um conjunto comum de
normas de tramitação a observar em qualquer destes Tribunais, que consta dos
arts. 410º a 426º CPP. Para além deste conjunto comum de normas que
formam a tramitação unitária, há trâmites específicos dos recursos interpostos
para as Relações, constante dos arts. 427º a 431º CPP, e trâmites específicos
dos recursos interpostos para o Supremo Tribunal de Justiça que constam dos
arts. 432º a 436º CPP.
No art. 427º CPP, especificam-se os casos em que há lugar a recursos para
a Relação, que são a regra geral quanto a decisões proferidas por Tribunais de
primeira instância.
Como se deduz do art. 427º CPP, o regime regra é o da interposição para
as Relações dos recursos de decisões dos Tribunais de primeira instância.
Assim, os recursos que são interpostos directamente para o Supremo Tribunal
de Justiça nos casos taxativamente enumerados na lei (art. 432º-c), d), e) CPP.

46. Poderes de cognição41 [41]

Há que assinalar que a declaração referida no art. 364º/1 e 2 CPP ou a falta


do requerimento previsto no art. 389º/2 CPP, ou no art. 391º-E/2 CPP, significa
que as partes renunciaram ao recurso em matéria de facto, conhecendo então
as Relações somente em direito, sem prejuízo do disposto no art. 410º CPP.
41[41]
Art. 428º CPP.
Mas há também a assinalar que, mesmo quando as Relações não
conhecem da matéria de facto, isso não prejudica a possibilidade desses
Tribunais superiores usarem da faculdade conferida pelo art. 410º/2 e 3 CPP, o
que em certos aspectos de algum modo implicaria a apreciação de matéria
fáctica.
Nos casos em que as Relações detectam vícios referidos nas alíneas do art.
410º/2 CPP procedem à renovação da prova se se afigurar que a renovação
perante elas permite evitar o envio do processo para novo julgamento.
Quando a prova ficou documentada e não se verificar o condicionalismo do
art. 430º/1 CPP, as Relações não procedem à renovação, valendo nesse caso
o que documentado ficou.
Daqui conclui-se que bem reduzidos são os casos em que se procede à
renovação de prova; só ela se procede verificando-se cumulativamente as
condições de se verificar algum dos vícios enumerados nas alíneas do art.
410º/2 CPP, e de haver fundadas razões para crer que a renovação evita o
reenvio do processo para novo julgamento.

47. Recursos para o Supremo Tribunal de Justiça


O recurso para as Relações é o regime regra, só havendo portanto lugar a
recurso para o Supremo Tribunal de Justiça nos casos taxativamente previstos
nas alíneas do art. 432º CPP, ou em outras disposições da lei (art. 433º CPP).
De notar que os recursos das decisões interlocutórias do Tribunal de júri e
do tribunal colectivo só sobem ao Supremo Tribunal de Justiça se deverem
subir com os interpostos acórdãos finais; o reconhecimento daqueles recursos
pertencerá à Relação se tiverem subido imediatamente.

48. Poderes de cognição42 [42]

Quando o Supremo Tribunal de Justiça funciona como Tribunal de recurso


compete-lhe aplicar o regime jurídico adequado perante os factos que foram
apurados pelos Tribunais de instância. Perante o Supremo Tribunal de Justiça
funcionando como Tribunal de recurso não há lugar, em caso algum, a
renovação de prova; a lei atendeu à elevada garantia de veracidade que dá a
prova apurada pelos referidos Tribunais.
Mas o Supremo Tribunal de Justiça tem agora poderes que, de algum
modo, se intrometem na apreciação de aspectos fácticos, e que são os da
apreciação da matéria referida no art. 410º/2 e 3 e no art. 434º CPP. Ainda
nestes casos porém, o Supremo Tribunal de Justiça não procede à renovação
de prova, limitando-se a apontar o vício que apurou e a determinar o reenvio do
processo para novo julgamento (arts. 426º e 434º CPP).
Cabe aqui, acentuar ser ponto assente na jurisprudência, maxime na do
Tribunal Constitucional que o duplo grau de jurisdição em matéria de facto
pode garantir-se sem que isso implique a possibilidade de produção de prova
no Tribunal de recurso, bastando que este controle a legalidade da produção e
possa ordenar a reapreciação por outro Tribunal, de categoria idêntica ou
superior à do recorrido.

RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS

49. Fixação de jurisprudência


42[42]
Art. 434º CPP.
O acórdãos que resolvem o conflito e fixam jurisprudência só têm eficácia
nos termos do art. 445º/1 CPP, e podem vir a ser reexaminados e modificados
pelo plenário das secções criminais (art. 447º/2 CPP). Estes acórdãos, que têm
sido designados de assentos, perderam a sua força externa, que era
inconstitucional43 [43]

O recurso interposto nos termos do art. 437º CPP, é um recurso


extraordinário, a interpor num prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado
da decisão de que se recorre. A partir do decurso desse prazo de 30 dias pode
ser interposto recurso no interesse da unidade do direito, nos termos do art.
447º CPP. Este recurso do art. 447º CPP, só pode ser interposto pelo
Procurador-geral da Republica, enquanto que para a interposição do recurso
nos termos do art. 437º CPP, nos 30 dias subsequentes ao trânsito, têm
legitimidade o Ministério Público, o arguido, o assistente e as partes civis. Por
isso se compreende que, além da legitimidade para a interposição outras
diferenças marcantes existam entre os dois recursos, maximé quanto à eficácia
da decisão, que no caso do art. 437º CPP, se produz no processo em que o
recurso foi interposto, não obstante o trânsito que durante 30 dias é
condicional, enquanto que no caso do art. 447º CPP, a decisão é só para efeito
de a jurisprudência ser fixada, não tendo portanto qualquer reflexo no processo
em que o recurso foi interposto.

50. Recursos de decisão proferida contra jurisprudência fixada pelo


Supremo Tribunal de Justiça
O disposto no art. 446º/1 CPP, tem como fundamento a conveniência de
uniformização da jurisprudência, fazendo intervir o Supremo Tribunal de Justiça
sempre que as decisões dos Tribunais inferiores não acatem a jurisprudência
fixada por esse alto Tribunal.
Prevê-se aqui um caso de recurso obrigatório para o Ministério Público.
Tratando-se de um recurso obrigatório para o Ministério Público, pode pôr-se a
questão de saber se, neste caso é lícito ao Ministério Público desistir do
recurso que interpôs.

51. Recursos no interesse da unidade do direito


Os ns.º 1 e 2 do art. 447º CPP, têm campos de aplicação diferentes, o n.º 1
do art. 447º CPP, destina-se a permitir que o Procurador-geral da República,
interponha recurso para fixação de jurisprudência de decisão transitada em
julgado há mais de 30 dais; o n.º 2 do art. 447º CPP, destina-se a permitir que a
mesma entidade interponha recurso para alteração de jurisprudência já fixada,
no sentido de alterar a decisão que foi confirmada, por se impor o seu
reexame.
Em qualquer destes casos, a decisão para resolver o conflito não tem
qualquer eficácia no processo em este recurso extraordinário tiver sido
interposto (art. 447º/3 CPP), assim se distinguindo do recurso extraordinário
regulado nos arts. 437º a 445º CPP, o qual é interposto no prazo de 30 dias a
contar do trânsito em julgado e tem eficácia no processo em que foi interposto.
A disposição do art. 447º/2 CPP, a par de limitações à obrigatoriedade da
jurisprudência uniformizada, coloca a uniformização da jurisprudência nos

43[43]
Acórdão Tribunal Constitucional n.º 743/96, de 28 de Maio, declara a inconstitucionalidade com força obrigatória
geral, o art. 2º CC, na parte em que atribui aos Tribunais competência para fixar doutrina com força obrigatória geral,
por violação do disposto no art. 115º/5 CRP.
moldes agora estabelecidos ao abrigo de criticas que anteriormente foram
formuladas aos assentos do Supremo Tribunal de Justiça, assacando-os de
inconstitucionais.

52. Recurso de revisão


A revisão é um recurso extraordinário, admitido no processo civil e também,
por maioria de razão em processo penal, pois que este demanda mais
vincadamente a verdade material. O princípio res judiciata pro veritate habetur,
não pode impedir um novo julgamento, quando posteriores elementos de
apreciação põem seriamente em causa a justiça do anterior. O fundamento
central do caso julgado é uma concessão prática à necessidade de garantir a
certeza e a segurança do direito.
Qualquer sentença penal com trânsito em julgado ou despacho que tenha
posto fim ao processo pode ser objecto de revisão.
Parece, no entanto, que na falta de interesse e atento ao princípio da
actualidade, que informa as medidas de segurança privativas de liberdade, não
há lugar há revisão das decisões que aplicam tais medidas, enquanto estas
forem modificáveis.
É sabido que as medidas de segurança têm como fundamento a
perigosidade do delinquente, sendo uma função desta. Por isso mesmo, só
subsistem enquanto a perigosidade subsistir, e devem acompanhá-la em todas
as suas vicissitudes. Não têm, por isso, a estabilidade das penas, podem a
todo o tempo ser modificadas, e devem de ofício, ser periodicamente revistas.
Estas noções decorrem da natureza utilitária (de prevenção especial) das
mediadas de segurança e correspondem a ensinamentos de toda a doutrina
autorizada. Daí decore também, que na sucessão, do tempo, de leis que
prescrevem diversas medidas de segurança, se aplicará sempre a lei mais
recente, embora mais grave, já que, aplicando-se à perigosidade actual, nunca
haverá retroactividade.
Fundamentos da revisão (art. 449º/1 CPP)
a) Falsidade de meios de prova que tenham sido determinantes para a
decisão
Deve entender-se ser bastante, para fundamentar o pedido de revisão que
os meios de prova considerados falsos por sentença transitada em julgado
tenham influenciado a decisão de rever, não sendo necessária a prova de que
esses meios, só por si, tenham sido determinantes dessa decisão.
b) Crime cometido por juiz ou jurado, relacionado com o exercício da sua
função no processo
Há aqui uma presunção iuris et iure de que o crime cometido pelo juiz ou
jurado, e relacionado com o exercício das suas funções no processo
influenciou a decisão, e de que portanto esta foi injusta, pelo que não há mais
que indagar se esse crime teve ou não influência no processo, admitindo-se a
revisão sem mais delongas.
c) Inconciliabilidade de decisões
Só permite a revisão de sentenças condenatórias.
d) Descoberta de novos factos ou meios de prova que suscitem graves
dúvidas sobre a justiça da condenação

53. Formulação do pedido44 [44]

44[44]
Art. 451º CPP.
A revisão é um recurso extraordinário cujo requerimento inicial tem de ser
apresentado no Tribunal em que o arguido foi julgado e corre o processo onde
se proferiu a sentença que deve ser registada.
O recurso extraordinário de revisão comporta duas fases distintas: a fase do
juízo rescindente e a fase do juízo rescisório.
A fase do juízo rescindente abrange toda a tramitação, desde a dedução
do pedido até à decisão que concede ou denega a revisão; a fase do juízo
rescisório começa no momento em que o processo baixa e termina com o
novo julgamento.
Quando a revisão é denegada, não há fase do juízo rescisório.
Na fase do juízo rescindente, é o Supremo Tribunal de Justiça que detém a
jurisdição. Trata-se de uma questão julgada em única instância, pelo que não é
admissível recurso ordinário da decisão que concede ou denega autorização
para a revisão.
A fase do juízo rescindente é processada primeiramente no Tribunal onde
se proferiu a decisão cuja revisão se pretende e posteriormente à informação e
à remessa referidas no art. 454º CPP, no Supremo Tribunal de Justiça.

EXEMPLO:

António, cobrador da Carris, foi assaltado em plena viagem de eléctrico.


Com efeito, de repente sentiu um forte puxão pela correia da mala de mão em
que guardava o dinheiro, que o fez desequilibrar-se e cair, largando a mala na
queda. Só que, tendo sido atacado pelas costas dentro do eléctrico apinhado
de gente, não teve tempo nem possibilidade de ver o ladrão. Não obstante, ao
recobrar o equilíbrio, imediatamente notou que alguém saltara, com alguma
precipitação, do eléctrico em andamento e se lançara numa corrida pela rua
acima que mais parecia ser uma fuga. Julgando ter descoberto o assaltante,
António pendurou-se no corrimão da porta e, segurando uma pistola que trazia
consigo, disparou dois tiros quase simultâneos sobre o dito corredor, Bento,
sendo sua intenção fazê-lo parar, por forma a recuperar a mala do dinheiro.
Com o primeiro dos tiros atingiu uma das pernas do desafortunado passageiro
corredor mas, com o segundo atingiu, por falta de pontaria, uma terceira
pessoa, Carlos, causando-lhe a morte. Por acaso, essa terceira pessoa era o
verdadeiro ladrão que, segundos antes descera já do eléctrico para se afastar,
com aparente tranquilidade, com a mala do dinheiro escondia debaixo do
casaco.
Aprecie a responsabilidade criminal de António.

António tem uma acção (dar dois tiros) penalmente relevante, porque é um
comportamento humano dominado pela vontade: António não actuou coagido
(no âmbito de uma coacção física ou “vis absoluta”); também não actuou no
âmbito de nenhum movimento reflexo, nem de sonambulismo ou qualquer
outro estado de inconsciência.
A acção de António é um comportamento humano dominado pela vontade
que produz uma alteração objectiva no mundo exterior.
De seguida vai-se verificar se essa acção é ou não típica, isto é, se a
conduta de António preenche, objectiva e subjectivamente, o tipo. Mas qual
tipo?
Aquilo que se identifica imediatamente nesta situação é que António quer
atingir Bento, dispara dois tiros que lhe são dirigidos e atinge Bento, mas
também atinge Carlos.
Seria mais fácil se houvesses apenas um tiro; mas houve dois tiros, ou seja,
pode dizer-se que houve duas acções:
- Um tiro dirigido a Bento, que atinge Bento;
- Outro tiro dirigido a Bento, que atinge Carlos.
Portanto, tem-se que dividir esta responsabilidade penal, na medida em que
António pratica factos penalmente relevantes em dois objectos.
Por outro lado, identifica-se aqui também desde logo uma situação de
“aberratio ictus”, em que o agente visualiza um objecto e atinge outro, não
porque tenha confundido os objectos mas precisamente por uma ineficiente
execução.
Assim,
Em relação a Bento e dentro do primeiro disparo:
A intenção do agente era pará-lo para assim conseguir reaver a mala.
Podemos portanto dizer que o agente tem um dolo de ofensas corporais (art.
143º CP).
Assim, vamos verificar se uma primeira acção o tipo do art. 143º CP está
preenchido.
Elementos objectivos:
Há um agente, António.
Há uma conduta – pegar na arma e disparar – que corresponde à conduta
descrita no tipo, que é ofender corporalmente outra pessoa.
O resultado típico é o ferimento, a própria ofensa sofrida por Bento na
perna.
Há imputação objectiva – firma-se facilmente o nexo de causalidade,
porque é previsível que de um tiro ocorra um ferimento na perna –
objectivamente o tipo do art. 143º CP está preenchido.
Elemento subjectivo:
Há dolo, o dolo (de tipo) é conhecer e querer os elementos objectivos de um
tipo.
O agente conheceu e quis aquilo que fez: o agente conheceu e quis
disparar a arma para ferir o ladrão; o agente quer aquele resultado típico que
previamente conheceu. Portanto, há dolo.
Objectiva e subjectivamente o tipo está preenchido
Em relação ao segundo disparo:
O agente quer atingir Bento e atinge Carlos. Temos aqui uma situação, já
identificada de “aberratio ictus”.
A regra geral será punir agente em concurso efectivo por uma tentativa, é
[1]

um facto negligente:
- Tentativa em relação ao objecto que o agente visou, mas não atingiu;
- É um facto negligente em relação ao objecto que o agente não
visualizou, mas que efectivamente atingiu.
Aplicando esta solução modelar à nossa hipótese, teríamos então um
concurso efectivo de:
- Tentativa de ofensas corporais em relação a Bento – art. 143º CP;
- Homicídio negligente em relação a Carlos – art. 137º CP.
Relativamente à tentativa, temos que provar que os elementos do facto
tentado estão presentes.
Em primeiro lugar, a tipicidade do facto tentado vem prevista no art. 22º CP.
Ai se diz que há tentativa quando o agente pratica actos de execução de um
crime que decidiu cometer sem que o resultado típico se chegue a verificar.
Assim:
O agente praticou actos de execução constitutivos do tipo legal de crime
(art. 2º/2-a CP), na medida em que disparou a arma, sendo sua intenção ferir
Bento , mas o resultado típica ofensa corporal – não se chegou a consumar
[2]

(verificou-se outro objecto).


Neste sentido temos provada e firmada a tentativa do art. 143º CP.
Quanto ao art. 137º CP:
[3]

Vai-se pressupor que há imputação objectiva porque o agente violou o dever


de cuidado que lhe era exigível, de que ele era capaz, ele devia-se certificar se
a sua pontaria era suficientemente boa para, com o eléctrico em movimento e
estando rodeado de pessoas, não atingir outra pessoa.
Não tendo observado esses deveres de cuidado, não há dúvida nenhuma
que a morte de Carlos lhe pode ser imputada.
Assim temos:
- Art. 143º CP, mais tentativa do art. 143º CP (em relação a Bento); e
- Art. 137º CP (em relação a Carlos).
Uma vez identificados e firmados os tipos, sabemos que a tipicidade indicia
a ilicitude.
Vai-se então ver, dentro destas categoria dogmática da teoria do facto
punível que é a ilicitude, se há ou não causas de justificação ou de exclusão da
ilicitude, para podermos concluir se o facto, além de típico, é também ilícito.
Sabemos da matéria de facto que António, quando dispara contra Bento,
tem intenção de o parar porque está convencido que Bento é o ladrão.
Por outras palavras, António pensa que está a actuar em legítima defesa
quando na realidade não está, porque para isso era necessário que Bento
tivesse praticado uma agressão.
Temos então uma situação em que o agente actua com “animus
defendendi” (elemento subjectivo da causa de justificação), mas em que avalia
mal a realidade porque julga que esta excluiria a ilicitude do seu facto.
Ou seja, o agente está em erro sobre um pressuposto de facto de uma
causa de justificação, que é uma situação subsumível ao art. 16º/2 CP, erro
sobre uma circunstância que a exigir excluiria a ilicitude do facto.
Assim, em relação a Bento:
Os factos típicos que António praticou foram o do art. 143º CP (primeiro
disparo) mais tentativa do art. 143º (segundo disparo).
Mas quando os praticou António está em erro sobre um pressuposto de
facto de uma causa de justificação. Se o regime de relevância desse erro nos é
dado pelo n.º 2 do art. 16º CP, então exclui-se o dolo.
Nos termos do n.º 3 do art. 16º CP ressalva-se a punibilidade por
negligência nos termos gerais.
Então:
Em relação às ofensas corporais consumadas (primeiro disparo) o agente
poderá ser responsabilizado por ofensas corporais negligentes, nos termos do
art. 148º CP.
Em relação à tentativa de ofensas corporais (segundo disparo):
As tentativas em Direito Penal são sempre dolosas, não há tentativa
negligente. Por isso não é possível punir uma tentativa negligente, porque é
uma figura que a lei não conhece.
Assim, quanto a este facto o agente não tem responsabilidade criminal.
E mesmo que tivesse, por força do preceituado no art. 23º CP uma tentativa
só é punível se ao crime, a ser considerado, corresponder uma pena superior a
três anos. Como o crime do art. 143º CP tem uma moldura penal de até três
anos, também por uma razão de punibilidade o agente não seria unido.
Mas desde logo porque a tentativa é sempre dolosa, não há tentativas
negligentes em Direito Penal, o agente não seria responsabilizado.
Assim, podemos concluir que a responsabilidade penal de António para com
Bento será de ofensas corporais negligentes nos termos do art. 148º CP, por
remissão do n.º 3 do art. 16º CP. [4]

Em relação a Carlos:
O agente praticou o facto típico de homicídio negligente (art. 137º CP).
Se o facto é típico, vamos ver se também é ilícito, uma vez que sabemos
que a tipicidade indicia a ilicitude. Simplesmente, esse juízo de ilicitude pode
ser quebrado por contra-norma, por causas de exclusão da ilicitude ou de
justificação, que vêm aprovar o facto.
Recapitulando a matéria de facto nos temos que António, por força de uma
“aberratio ictus”, mata Carlos, que na realidade tinha sido o verdadeiro ladrão.
Será que existe aqui alguma causa de justificação que venha a excluir a
ilicitude do facto típico?
Na realidade Carlos tinha sido o ladrão. Donde, poderá configurar-se aqui
uma situação de legítima defesa. Vamos então verificar se os elementos
objectivos e subjectivos da legítima defesa estão preenchidos.
Art. 32º CP:
Por parte de Carlos verifica-se a existência de uma agressão. Agressão,
para efeitos de legítima defesa, é todo o comportamento humano que contraria
a ordem jurídica e que o defendente não é obrigado a suportar.
No caso concreto essa agressão ofende bens de natureza patrimonial de
terceiro.
É uma agressão ilícita porque é contrária à lei (conceito de ilicitude formal),
que neste caso consubstancia desde logo um tipo legal de crime que é o furto
(ou, virtualmente, roubo, porque houve violência para a subtracção).
É uma agressão actual: há já uma consumação formal, mas ainda não há
uma consumação material.
Há várias teses sobre a consumação do crime de furto, nomeadamente a
que é defendida pelo prof. Eduardo Correia segundo a qual, não obstante ter
havido subtracção da coisa móvel objecto do facto (consumação formal do
crime de furto, desde que o agente preencha o elemento subjectivo especifico
do art. 203º CP que é a intenção de apropriação ilegítima para si ou para
terceiro da coisa furtada), só há de alguma forma verdadeira consumação
material do crime quando em relação ao objecto do facto o agente detém para
com ele uma certa “posse pacífica”, em que ele se pode comportar como
verdadeiro detentor ou titular da coisa furtada.
Ora, neste caso da hipótese ainda não há essa posse pacífica . [5]

Assim:
É uma agressão actual e ilícita, que ofende interesses de natureza
patrimonial de terceiro, sendo esses interesses dignos de tutela jurídico-penal.
Vai-se agora ver se o meio é necessário.
Em primeiro lugar, a adequação do meio afere-se no caso concreto; o meio
necessário para repelir a agressão actual e ilícita tem que ser o meio menos
gravoso para o agressor, mas tem que ser simultaneamente um meio eficaz.
Uma arma de fogo em determinadas circunstâncias é um meio adequado
para repelir a agressão – se (X) está na iminência de uma agressão à sua vida
e se utiliza uma arma de fogo para repelir essa agressão, o meio é adequado,
ainda que seja previsível a morte do agressor.
Em segundo lugar, a utilização de uma arma de fogo, mesmo que seja para
salvaguardar bens de natureza patrimonial, desde que dirigida a um órgão não
vital do agressor, é também um meio adequado.
Portanto, a arma de fogo em si nada nos diz quando ao meio ser ou não ser
adequado. A legítima defesa (ao contrário do direito de necessidade), não
assenta numa ideia de ponderação de interesses: não tem de haver uma
sensível superioridade entre o bem que se defende e o bem que se lesa com a
defesa.
Daí que se compreenda que o agente, para salvaguardar o seu património
(propriedade), possa ferir o ladrão. E ninguém diz que o agente está em
excesso de legítima defesa por excesso do meio empregue.
Da mesma forma que para salvaguardar a sua honra ou a sua
autodeterminação sexual o agente possa lesar a vida do agressor. Não deixa
de estar a actuar em legítima defesa. Na legítima defesa a necessidade do
meio não joga com a natureza dos interesses em causa.
Assim, meio necessário será aquele, dentro dos meios que o agente tem à
sua disposição, o meio de eficácia mais suave, ou seja, aquele cujas
consequências são menos gravosas para o agressor. Mas meio
simultaneamente eficaz.
Então, entre uma pedra, um pau e uma arma de fogo, o meio certamente
mais suave será a pedra ou mesmo o pau. Mas poderá não ser um meio eficaz,
tudo depende das circunstâncias do caso concreto.
Na hipótese, atendendo às circunstâncias, parece que se pode afirmar que
o meio utilizado foi um meio necessário.
Assim, uma vez verificada a existência de todos os elementos objectivos da
legítima defesa, vai-se agora analisar o elemento objectivo desta causa de
justificação que é o “animus defendendi”, consciência e vontade que pessoa
tem de se defender.
António não sabe que Carlos é o ladrão, portanto ele não tem consciência
da agressão. Sendo assim, ele não pode ter querido repelir a agressão. Logo,
falta o elemento subjectivo da justificação.
Então, que o facto é ilícito ninguém dúvida, uma vez que falta um elemento
da causa de justificação. Sendo o facto ilícito, como é que vamos
responsabilizar o agente?
O que o agente fez, o resultado, no fim de contas foi bem feito, porque
Carlos era o ladrão. Mas a acção de António, porque não sabia que Carlos era
o ladrão, é desvaliosa. Quando existe desvalor na acção, mas não existe
desvalor no resultado, temos a punibilidade por facto tentado.
Então aplica-se analogicamente, mesmo à legítima defesa, o n.º 4 do art.
38º CP e pune-se o agente por facto tentado.
Vimos também em sede própria que relativamente a esta questão a
Doutrina não é unânime:
- Há quem considere, em relação a todas as causas de justificação
que, quando estão presentes os elementos objectivos e tão só falta o
elemento subjectivo, se aplica a punibilidade por facto tentado;
- Na perspectiva de outros autores, há que distinguir:
· Se as causas de justificação têm, em relação ao elemento
subjectivo, uma bipartição estrutural em que é possível distinguir
o elemento intelectual e o elemento volitivo, ou seja, consciência
da agressão e vontade de se defender, a falta do elemento
subjectivo importa a punição por facto doloso consumado;
· Quando as causas de justificação quanto ao elemento
subjectivo pressupõem apenas o elemento intelectual, que é o
conhecimento da situação objectiva da justificação (de que é
exemplo o consentimento, previsto no art. 38º CP), a falta do
elemento subjectivo importa a punição por facto tentado.
- Há ainda outros autores que negam a existência de elementos
subjectivos nas causas de justificação; e, negando-os, os factos estão
justificados desde que se encontrem preenchidos os elementos
subjectivos
Adoptando agora a primeira solução e aplicando à nossa hipótese
analogicamente o n.º 4 do art. 38º CP, temos então que o agente seria punido,
relativamente a Carlos, por facto tentado, mas o facto praticado pelo agente foi
o homicídio negligente.
Ora, a tentativa é sempre dolosa, não há tentativas negligentes em Direito
Penal. Portanto, o agente não seria responsabilizado juridico-penalmente por
este facto.
Mas mais ainda e isto é que é importante : a justificação nos factos
[6]

negligentes prescinde sempre do elemento subjectivo da justificação, sob pena


de os factos negligentes nunca poderem ser justificados.
O que é que se quer dizer com isso?
Se António está na iminência de ver a sua integridade corporal lesada e,
para repelir essa agressão, pega na pasta e dá com ela na cabeça da pessoa
que o vai ofender corporalmente, António, do ponto de vista jurídico-penal tem
uma acção penalmente relevante que é típica: preenche os elementos
objectivos do crime de ofensas corporais, bem como os elementos subjectivos
porque actuou com dolo, conheceu e quis ferir o seu agressor.
O facto é típico mas está justificado pela intervenção desta causa de
justificação, porque estão preenchidos os elementos objectivos da legítima
defesa: António actuou com consciência de que estava perante a iminência
dessa agressão.
Agora, o que é que acontece se António está na iminência de ser alvo de
uma agressão e distraidamente atira a pasta ao ar, porque está a brincar com
ela, e depois a pasta cai na cabeça daquela pessoa que estava na iminência
de ofender corporalmente António?
Do ponto de vista jurídico-penal António pratica um crime de ofensas
corporais negligentes, porque quando partiu a cabeça àquela pessoa não
conheceu nem quis aquele resultado, isso resultou de uma falta de cuidado.
Logo, repare-se:
Se na primeira situação, em que o agente dolosamente quer partir a cabeça
ao seu agressor, o facto está justificado .
[7]
Nesta segunda situação, e que há um facto negligente, em que há um
desvalor do resultado mas não há um desvalor da acção, o facto tem de estar
necessariamente justificado. Se o facto doloso está justificado, o facto
negligente que é menos desvalioso também tem de estar justificado,
presidindo-se do elemento subjectivo da justificação, da consciência que o
agente tinha de que estava na iminência de ser vítima de uma ofensa corporal.
Se fosse necessário esse elemento, nunca poderia haver justificação de
factos negligentes, porque o agente para ter consciência de que estava perante
a iminência de uma agressão, para repelir essa agressão tinha de sempre de
actuar querendo repelir essa agressão. E portanto, tinha sempre de actuar
dolosamente.
- Se os factos dolosos são justificados – e para esses é preciso a
existência do elemento subjectivo da justificação;
- Os factos negligentes são justificados, prescindindo-se do elemento
subjectivo da justificação.
Portanto, na nossa hipótese, como se trata de um facto negligente
(homicídio negligente) prescinde-se do elemento subjectivo da justificação.
Donde, como o agente objectivamente está perante uma situação de
legítima defesa, o facto por ele praticado esta justificado.

[1]
Só excepcionalmente, nas situações de “aberratio ictus”, e quando a matéria de facto nos permitir concluir isso, é que
nós punimos o agente em concurso efectivo por uma tentativa do facto em relação ao objecto visado, em concurso
com um facto consumado com dolo eventual em relação ao objecto atingido.
Mas isto apenas nos acasos em que a lei seja de molde a permitir-nos concluir que em relação ao objecto não
representado mas atingido pelo agente houve ainda a possibilidade de dolo eventual.
[2]
Decisão de cometimento do crime – elemento subjectivo
[3]
Embora não tenha sido ainda estudada a tipicidade do facto negligente vamos pressupô-la.
[4]
Esta remissão não é automática, tendo que ser analisada caso a caso.
[5]
Para quem considera o crime de furto como um crime de estado vê assim a questão resolvida para efeitos de
legítima defesa.
Desta forma, indo por um ou por outro caminho, está justificada a actualidade da agressão para efeitos de legítima
defesa.
[6]
É uma especialidade dos crimes negligentes
[7]
Num facto doloso podemos distinguir entre desvalor da acção e desvalor do resultado