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RESUMO

O Teólogo do Espírito Santo: Um Estudo sobre o Ensino de Calvino sobre a Palavra e o


Espírito por Rev. Augustus Nicodemus Lopes

Wirlan Pajeú de Moraes1


INTRODUÇÃO

O título "Calvino, o teólogo do Espírito Santo." pode confundir algumas pessoas.


Calvino escreveu muito sobre o Espírito Santo, mas nunca escreveu uma obra específica sobre
o assunto, como, por exemplo, John Owen e Abraham Kuyper.
Alguns têm criticado Calvino por não haver dado atenção mais direta ao Espírito
Santo em seus escritos, especialmente nas Institutas. A crítica é injusta. Existem razões
suficientes para esta aparente falta de atenção.
Em primeiro lugar, a doutrina do Espírito Santo não era o foco do debate de Calvino
com a Igreja Católica Romana da sua época, e nem da sua polêmica com os reformadores
radicais, os Anabatistas e os "Entusiastas", conhecidos como a ala de esquerda da Reforma.
Em segundo lugar, Calvino tinha a visão bíblica-neotestamentária de que o Espírito
Santo geralmente agia nos bastidores, como o agente da Trindade. Sua Pneumatologia é
desenvolvida dentro das demais áreas da Teologia Sistemática, como Teontologia (estudo da
Pessoa de Deus), Soteriologia e Eclesiologia.
E por fim, não se pode exigir de Calvino uma abordagem do assunto que seja aguçada
pelas questões relacionadas com o surgimento do movimento pentecostal, séculos após a sua
morte. Mesmo assim, Calvino é surpreendentemente atual no que diz sobre o Espírito.
Calvino foi o primeiro a sistematizar de forma clara o ensino bíblico sobre o Espírito Santo.
Não é que ninguém, antes dele, não houvesse escrito sobre o assunto. Mas, é que poucos,
antes e depois de Calvino, conseguiram ser tão claros, simples, e bíblicos.
Calvino integrou indissoluvelmente a doutrina do Espírito Santo aos demais temas e
áreas da teologia, como regeneração, santificação, os meios de graça, e o conhecimento de
Deus, entre outros. Sua teologia é uma unidade orgânica, onde o Espírito aparece
apropriadamente como o Soberano dinamizador. Calvino resgatou alguns aspectos da doutrina
do Espírito Santo que estavam soterrados debaixo da teologia medieval da Igreja Católica,
como por exemplo, a relação entre a Palavra e o Espírito.

1
Discente do curso de pós-graduação em Estudos Teológicos do CPAJ.
O ensino de Calvino influenciou profundamente os estudos subsequentes dentro dos
círculos Reformados. Sua ênfase na ação soberana do Espírito continua na tradição reformada
entre os Puritanos ingleses.

O CONTEXTO TEOLÓGICO DE CALVINO

A doutrina do Espírito Santo de Calvino foi moldada em meio ao intenso conflito


doutrinário que marcou a Reforma do século XVI.
A Igreja Católica e o cativeiro das Escrituras
Para Calvino e a Igreja Católica as Escrituras eram a Palavra de Deus, inspiradas pelo
Espírito Santo, infalíveis, e autoritativas. O ponto de discórdia entre Calvino e os católicos
era quanto ao ensino papista de que a autoridade da Escritura dependia do testemunho da
Igreja. A Igreja Católica afirmava que o cânon das Escrituras, a sua preservação, a sua origem
divina e sua autoridade, deviam ser aceitos pelos fiéis como verdadeiros porque a Igreja assim
o afirmava. A autoridade das Escrituras, enfim, dependia do testemunho da Igreja.
Calvino levantou-se contra. Ele considerava esse ensino como sendo uma afronta ao
Espírito Santo, e um abuso de autoridade por parte da Igreja. Era a Igreja que estava fundada
sobre as Escrituras, e não o contrário. A autoridade das Escrituras não dependia do
testemunho da Igreja, e sim o contrário: a Igreja só possuía autoridade enquanto estivesse
dentro da doutrina bíblica.
Para Calvino, a maior de todas as provas da autoridade e inspiração das Escrituras era
que o próprio Deus nos falava através delas. Calvino chamava a isto o testemunho interno do
Espírito.
O efeito do ensino de Calvino foi libertador. Através da ênfase no testemunho interno
do Espírito Santo como a evidência máxima da divindade e da autoridade das Escrituras, ele
libertou as Escrituras e a sua interpretação do cativeiro imposto pela Igreja Medieval, e as
colocou de volta onde elas pertenciam de direito, nas mãos do Espírito Santo.

Os Reformadores Radicais e seu Desprezo pela Palavra

Calvino batalhava contra o ensino da Reforma radical. Havia, em primeiro lugar,


como os Anabatistas, os "Fanáticos", os "Espiritualistas" e os Antitrinitarianos, que "embora
diferentes em seus propósitos e em suas doutrinas, tinham em comum o desejo de ver uma
Reforma muito mais radical do que a propagada por Lutero e Zwinglio".
Foi contra os excessos dos "Entusiastas" ou "Fanáticos" (como eram conhecidos) na
área de novas revelações contemporâneas do Espírito, que Calvino se concentrou em alguns
de seus escritos.
Os "Entusiastas" enfatizavam o ministério didático do Espírito, um ponto que havia
sido resgatado pelos Reformadores; porém, estavam indo além deles, reivindicando serem
ensinados diretamente pelo Espírito através de novas revelações, por meio de uma luz interior
. Afirmavam que o Espírito não podia ficar restrito a palavras escritas, pois isto diminuiria sua
soberania. Chegavam a ridicularizar os que se apegavam às Escrituras, pois a consideravam
como uma forma inferior e temporária de revelação, e criticavam Calvino e os demais
reformadores por se apegarem à letra que mata.
Os "Entusiastas," portanto, eram uma reação à escravidão das Escrituras por parte da
Igreja que havia vigorado até a Reforma, mas uma reação que estava indo longe demais.
Calvino, naturalmente, simpatizava-se com os "Entusiastas" em vários pontos. Para ambos, as
Escrituras, como Palavra de Deus, não estavam cativas à interpretação da Igreja, mas
deveriam ser livremente examinadas por todos. Calvino, porém, questionava seriamente a
separação entre o Espírito e a Palavra, e considerava qualquer tendência neste sentido como
"demência". Calvino cria na realidade e na atuação de espíritos mentirosos, e que Satanás
estava continuamente iludindo as pessoas, procurando afastá-las da verdade, transfigurando-se
em "anjo de luz" (2 Co 11.3,14). Para ele, "novas revelações", na verdade, eram invenções de
espíritos mentirosos, não provinham do Espírito Santo, sendo o cumprimento de passagens
como 1 Tm 4.1-2.

O Ensino de Calvino sobre o Espírito e a Palavra

Calvino não se limitou a criticar os exageros dos "Entusiastas." Ele apresentou, de


forma positiva e construtiva, o ensino bíblico sobre a direção divina para a Igreja vivendo
após os tempos apostólicos.

O Espírito Fala pelas Escrituras

O Espírito havia sido dado à Igreja, não para trazer novas revelações, mas para nos
instruir nas palavras de Cristo e dos profetas. De acordo com Calvino, o Espírito sela nossas
mentes quando ouvimos e recebemos com fé a palavra da verdade, o Evangelho da salvação
(Ef 1.13). Ele limita-se a guiar os crentes e a iluminar seus entendimentos naquilo que ouviu e
recebeu do Pai e do Filho, e não de Si mesmo (Jo 16.13). Como o ensino divino se encontra
nas Escrituras, a obra do Espírito consiste em iluminá-las, fazendo com que esse ensino seja
entendido pelos fiéis.

O Espírito é reconhecido pela sua harmonia com as Escrituras

Calvino desejava apresentar um critério pelo qual a Igreja pudesse discernir de forma
segura, no âmbito da experiência religiosa, o que realmente procedia da parte do Espírito de
Deus, ou de espíritos enganadores. Para ele, havia somente um critério seguro e infalível: o
Espírito falando nas Escrituras. Assim, não haveria qualquer diminuição do poder e da glória
do Espírito Santo ao concordar com elas, já que Ele as havia inspirado. Para Calvino, não
poderia haver qualquer contradição entre o ensino bíblico e a atuação do Espírito nos tempos
pós-apostólicos.

A Soberania do Espírito

Para Calvino, a Palavra é o instrumento pelo qual Deus dispensa a iluminação do


Espírito aos crentes. Assim, Cristo fala hoje através do ministro do Evangelho, quando o
mesmo expõe fielmente a Palavra. O Espírito torna eficaz a Palavra exposta nos corações dos
que a ouvem. Ao mesmo tempo, a relação Espírito-Palavra não é mágica, ou automática. A
eficácia da Palavra está totalmente na dependência da soberania do Espírito. Para Calvino, a
afirmação de Paulo de que somos ministros de uma nova aliança, do Espírito que vivifica (2
Co 3.6), não é uma garantia de que nossa pregação sempre será acompanhada pelo poder
vivificador do Espírito. Pastores não retém o poder de dispensar a graça do Espírito a
qualquer um que desejem, e quando o desejem. É por um ato soberano que o Espírito torna a
Palavra pregada em Palavra eficaz.

A Influência de Calvino na Confissão de Fé de Westminster

O alvo dos eruditos ali reunidos durante vários anos era um só: formular de forma
sistemática a doutrina bíblica, partindo dos princípios de interpretação herdados da Reforma.
A Igreja Presbiteriana tem adotado essa Confissão como a expressão correta do ensino das
Escrituras. Os seus autores foram profundamente influenciados por João Calvino. Esta
influência se percebe claramente no ensino da Confissão sobre o Espírito Santo, e em
especial, na relação do Espírito com a Palavra.
A Confissão reafirma, com Calvino, que é necessária a íntima revelação do Espírito de
Deus para a compreensão salvadora das coisas reveladas na Palavra (I, 6), e que, finalmente, o
Juiz Supremo pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser examinadas é o Espírito
Santo falando nas Escrituras (I, 8).

RELEVÂNCIA DO ENSINO DE CALVINO PARA NÓS HOJE

A Época em que Vivemos

A influência do movimento neopentecostal, surgido na década de sessenta, tem-se


feito sentir de forma profunda nas denominações evangélicas históricas, e também dentro da
Igreja Presbiteriana do Brasil. o neopentecostalismo manifesta a crença em novas revelações
através de profecia e línguas, visões e sonhos, todos atribuídos ao Espírito Santo, e em alguns
casos, práticas estranhas ao Cristianismo histórico, que são atribuídas ao poder do Espírito
Santo, como "cair" no Espírito, o "sopro" do Espírito, o "riso santo", característica principal
do movimento conhecido como "a bênção de Toronto".

Em que o Ensino de Calvino nos Ajuda Hoje?

Em primeiro lugar, o ensino de Calvino sobre o testemunho interno do Espírito vem


lembrar à Igreja que, nestes tempos difíceis, ela deve buscar de Deus a íntima iluminação do
Espírito para compreender e aplicar as Escrituras à sua vida e missão. Como Calvino,
devemos nos guardar dos excessos de hoje, ao mesmo tempo em que, submetendo-nos à
liberdade do Espírito, procuramos a sua iluminação.
Em segundo lugar, Calvino nos desafia a examinar todas as manifestações espirituais
pelo crivo da Palavra de Deus, quanto à natureza, ao propósito, e ao modo destas
manifestações. Essa prática está pressupondo corretamente o ensino bíblico de que o Espírito
Santo não se contradiz. As Escrituras foram inspiradas por ele.
Em terceiro lugar, o ensino de Calvino nos alerta contra os que pretendem ter total
controle sobre o Espírito, que pretendem dispensar o batismo do Espírito pela imposição de
mãos, que "ensinam" aos crentes imaturos e incautos a falar em línguas. Alerta-nos a rejeitar
todo ensino, movimento, culto, liturgia, onde a Palavra de Deus não receba a devida
proeminência. Se o Espírito fala pela Palavra, a Palavra deve ser o centro.
Calvino foi, de fato, um homem do Espírito Santo, que guiado por Ele, tornou-se o
principal instrumento de Deus para a Reforma do século XVI, movimento que, na realidade,
foi um dos maiores reavivamentos espirituais ocorridos na Igreja Cristã, após o período
apostólico. Todos nós queremos um reavivamento espiritual, da mesma magnitude.
E por fim, vale a pena mencionarmos que "a era do Espírito Santo", como é conhecida
em muitos meios neopentecostais, iniciou-se, não em 1906, com a reunião na rua Azuza, nos
Estados Unidos, mas desde o dia de Pentecoste. as Escrituras nos ensinam que a Igreja já está
vivendo os últimos dias, a dispensação do Espírito, desde o período apostólico. Calvino viveu
e ensinou em plena época do Espírito, tanto quanto nós hoje vivemos e labutamos. O ensino
de Calvino, por ser bíblico, pode nos servir de balizamento, indicando-nos o estreito caminho
do equilíbrio, entre uma vida de piedade e uma mente firmada nas antigas doutrinas da graça.