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Caro leitor

Eu sofro de insônia. Isso é muito frequente na minha família. Algumas noites eu não durmo. Uma madrugada
eu estava bem acordada às três horas, quando vi um bonito jovem com olhos escuros e cabelos longos em um
vídeo no Youtube, fazendo um teste para Britain's Got Talent. Ao lado dele estava uma encantadora mulher. O
título era algo como "garoto tímido cativa juízes". Então eu cliquei nele. A princípio o vídeo contava a triste
história de vida de Antoine, o processo de bulling na escola e as consequências disso. Este vídeo é o triunfo de
cada criança agredida.
Eu chorei a primeira vez que o vi. Até o momento, tive de assisti-lo, pelo menos, 15 vezes (com outras 48
milhões de pessoas). O nome do jovem é Jonathan Antoine. Sua parceira é Charlotte Jaconelli, que o acompanha
na música. Eles fizeram o teste como Charlotte e Jonathan em Got Talent Grã-Bretanha em 2012. Ambos foram
contratos por uma gravadora. Espero sinceramente que o Sr. Antoine tenha a atenção do Metropolitan Opera
House. Na minha vida eu nunca tinha ouvido falar desse tipo de voz.
Este livro que você está prestes a ler é um daqueles que praticamente se escreveu sozinho. É sobre duas
pessoas muito sofridas que juntos, superam as próprias tragédias. Wolf Patterson e Sarah Brandon participam do
livro Nascido no Texas, minha história na Edição especial da Silhouette, e ele a acusava de abrigar macacos
voadores e usar uma vassoura como transporte. Ignorando o fato de que eles jogavam juntos e eram amigos no
World of Warcraft, mas inimigos na vida real. Quando Wolf se torna alvo de uma ex-amante psicopata, Sara
estará no centro das atenções com ele.
O terceiro livro da minha nova série Morcai Battalion: The Recruit, pela primeira vez, será lançado em edição
brochura, com cenas adicionais. Continua a relação turbulenta entre a chefe do staff médico Madeline Ruszel e
Dtimun, o comandante da Morcai Battalion um alienígena misterioso e enigmático. Sou grata a Harlequin(HQN)
por me dar a oportunidade de vê-lo impresso.
Também sou grata a todos vocês que leem meus livros. Eu ainda sou sua maior fã.
Diana Palmer

SINOPSE

Wolf Patterson e Sara Brandon se odeiam, mas são vizinhos próximos nos seus rancho no Wyoming, Texas.
Sempre que se encontram faíscas surgem entre eles, apesar de Wolf interpretar mal as atitudes de Sara e de Sara
não se conformar com a maneira com a qual ele a trata, algum tipo de trégua se faz. De repente, Sara percebe o
rosto, não convencionalmente bonito, do rancheiro alto, de olhos azuis claros e belos cabelos escuros e, ele a
atrai como nenhum outro homem a atraiu. E Wolf percebe a vulnerabilidade que Sara esconde do resto do
mundo.
Duas pessoas apaixonadas, maltratadas pela vida e com fortes inclinações para brigar. Sob a mira de uma ex-
amante desequilibrada e vingativa.
Será que o amor poderá superar todos os problemas e se fortalecer nos corações de Sara e Wolf?

Capítulo um

Não era a longa fila que irritava Sara Brandon, mas a pessoa que estava nela. E não apenas a pessoa que
estava na fila, mas a maneira como esta pessoa a observava, também.
Ele estava encostado no balcão da farmácia em Jacobsville, com um ar arrogante e divertido, olhando para ela
com aqueles olhos azuis frios como o Ártico, que pareciam desnudá-la. Como se soubesse exatamente o que ela
tinha sob suas roupas. Como se ele pudesse ver sua pele cremosa. Como...
Ela limpou a garganta e o encarou.
Isso o divertiu ainda mais.
─ Eu a estou incomodando, senhorita Brandon? - Perguntou ele com uma fala arrastada.
Ele era esbelto. Fisicamente devastador. Quadris estreitos, bronzeado, de ombros largos, belas mãos e pés
grandes. Seu Stetson encobria sua testa e parte dos seus olhos, de modo que apenas o brilho deles era visível sob
a aba do chapéu. Suas pernas, longas e musculosas em um jeans caro, estavam cruzadas, apenas os bicos das
botas de cor marrom apareciam debaixo do jeans. Sua camisa de cambraia estava aberta no pescoço deixando
aparecer uma estreita extensão de pelos pretos grossos e encaracolados do seu tronco.
O idiota sabia que era... excitante. Por essa razão deixava os primeiros botões desabotoados, ela estava certa
disso. Não podia esconder completamente sua reação a ele, e ele percebia. Isso a deixava louca.
─ Você não me incomoda, o Sr. Patterson. - Disse tentando manter a voz firme, mas soou um pouco abafada.
Aqueles olhos azuis deslizaram sobre seu corpo esguio e elegante, vestido com calças pretas apertadas e blusa
de gola alta também preta. O sorriso dele se alargou quando ela fechou o casaco de couro preto tentando se
cobrir. Seu longo cabelo negro caía por suas costas até a cintura, emoldurando o belo rosto. Lábios carnudos e
perfeitamente curvados como se fizesse um beicinho levava a um nariz reto e a grandes olhos negros. Ela era
uma beleza. Mas, não era vaidosa. Ao contrário, odiava a sua aparência. E odiava também a atenção que atraía.
Sara cruzou os braços sobre os seios e desviou o olhar.
─ Oh, eu estava me perguntando sobre isso. - Disse ele com sua voz profunda e lenta. ─ Você não me parece de
todo calma.
─ Então me diga como realmente eu pareço.
Ele se afastou do balcão e começou a se aproximar dela. Era alto. E se aproximou um pouco mais, como se
para forçá-la a olhar para cima e ver o quanto era pequena em relação a ele. Ela recuou nervosamente.
─ Parece uma potranca, dando os primeiros passos no pasto. - Disse ele em voz baixa.
─ Eu já saí para o pasto há um longo tempo, Sr. Patterson e eu não estou nervosa.
Ele só levantou uma sobrancelha. E franziu os lábios sensuais.
─ Bem, para mim você parece nervosa. Deixou os macacos voadores* em casa, certo?
Sua boca se abriu
─ Escuta aqui... - Ela estremeceu com a virada repentina de cabeças e rapidamente baixou a voz. ─ Eu não
tenho... macacos voadores em minha casa!
─ Oh, eu sei. Você provavelmente os esconde na floresta. Junto com a vassoura.
Ela rangeu os dentes.
─ Senhorita Brandon - Bonnie chamou da caixa registradora. ─ O seu remédio.
─ Obrigada. - Disse Sara, e rapidamente se afastou do ameaçador e alto corpo de Wofford Patterson. Wolf era o
seu apelido. Ela podia entender o por quê. Ele era realmente um predador. E era um golpe de sorte ele não gostar
dela.
Sara pagou seu remédio para azia, sorriu para Bonnie, olhou para Wofford Patterson e se dirigiu para a porta
da frente.
─ Voe a uma velocidade segura agora. - Ele avisou em um tom de voz agradável.
Ela se virou, balançando seu longo cabelo preto.
─ Se eu realmente tivesse macacos voadores, eu os mandaria jogar você na maior lagoa de estrume de todo o
estado do Texas, e depois jogaria um fósforo aceso nela. - Disse Sara.
Todos riram, especialmente Wofford Patterson. Com as faces corando, Sara quase correu para fora do prédio.

***

─ Eu vou matá-lo. - Ela murmurou para si mesma enquanto caminhava para seu Jaguar branco. ─ Eu vou matá-
lo, e então vou esquartejá-lo, e então...
─ Falando sozinha. Tsc, tsc, tsc.
Ouviu som de passos atrás dela. Ele a estava seguindo.
Ela se virou.
─ Você é o homem mais detestável, chato, insuportável, irritante, e... desagradável que eu já conheci na minha
vida! - Falou com raiva.
Ele deu de ombros.
─ Eu duvido. Você é que inspira antipatia nas pessoas.

*Este termo é uma referência ao filme Mágico de Oz, onde os macacos voadores faziam o trabalho sujo pela bruxa malvada, Evanora.
Sara fechou as mãos pequenas em punhos ao lado do corpo, segurando o saco de papel da farmácia em uma
delas. Ela estava queimando de raiva.
Ela olhou para o lado e viu Cash Grier, o chefe de polícia Jacobsville, se aproximando pela calçada.
─ Eu quero que você o prenda. - Ela gritou, apontando para Wofford.
─ Ei, o que eu fiz agora? - Wofford perguntou com uma cara séria. ─ Eu estava pedindo apenas que dirigisse
com segurança, porque eu me preocupo com sua saúde -. Ele deu-lhe um sorriso angelical.
Ela estava quase tremendo de raiva.
Cash tentou esconder um sorriso.
─ Bem, senhorita Brandon... - Começou amigável.
─ Senhorita? Está mais para Sr. Brandon. - Wolf disse em voz alta.
Ela jogou o saco com os comprimidos nele.
─ Ela me agrediu - Gritou Wolf. ─ Agressão é crime, certo?
─ Oh, eu adoraria por as mãos em você. - Ela murmurou baixinho.
─ Adoraria mesmo, querida. - Ele falou lentamente, enquanto a observava pegar o saco de pílulas. ─ Eu era uma
lenda no meu tempo. - Ele disse sorrindo.
Ela recuou um dos pés calçados com um belo sapato, tentando ganhar impulso.
─ Se você o chutar, eu realmente vou ter que cumprir a lei, Sara. - Lembrou Cash.
Sara parecia estar com tanta raiva como sentia.
─ Você não pode simplesmente... bem, feri-lo? - Perguntou melancolicamente. ─ Um pouquinho?
Cash tentou não rir e não conseguiu.
─ Se eu atirar nele, eu vou ter que me prender. Pense como seria isso.
─ Você deveria ir para casa. - Disse Wolf fingindo preocupação. ─ Eu aposto que você não alimentou os
macacos voadores durante o dia todo.
Ela bateu o pé.
─ Seu porco!
─ A semana passada eu era uma cobra. Isso é uma promoção? - Ele perguntou em voz alta.
Ela deu um passo em direção a ele. Cash se colocou entre eles.
─ Sara, vá para casa. Agora. Você poderia ir, por favor. - Acrescentou ele.
Ela soprou uma mecha de cabelo do seu rosto e virou para o Jaguar.
─ Eu deveria ter mudado para o inferno. Teria sido mais tranquilo.
─ Os macacos voadores teriam se sentido em casa, também. - Sussurrou Wolf.
─ Um dia... - Ela disse, erguendo um punho.
─ Estou sempre em casa. - Disse ele com um sorriso. ─ Venha. Eu vou encontrar algumas luvas de boxe.
─ Elas param uma bala? - Ela perguntou com veemência. E acrescentou algumas palavras em persa. Na verdade,
um monte delas, em um tom alto, irritado e provocante. Ela bateu o pé para enfatizar o que queria dizer.
─ Seu irmão ficaria horrorizado, quero dizer, se ele ouvisse o tipo de coisa que sai da boca de sua irmãzinha
caçula. - Disse Wolf com altivez. Ele olhou Cash. ─ Você fala Persa. Você não pode prendê-la por xingar as
pessoas da minha família dessa maneira?
Cash parecia encurralado.
─ Vou para casa. - Disse Sara furiosamente.
─ Percebe-se - Wolf respondeu preguiçosamente.
Ela disse o que ele poderia fazer em Persa.
─ Oh, são necessários dois para isso. - Ele respondeu na mesma língua, e seus olhos claros brilhavam.
Ela entrou no carro, acelerou e saiu cantando pneu pela rua.
─ Um dia - Disse Cash a Wolf. ─ Ela vai matá-lo, e eu vou ter que aparecer no julgamento para dizer que foi
legítima defesa.
Wolf apenas riu.

***

Sara excedeu os limites de velocidade. Ela ainda estava tremendo quando parou na frente da casa que seu
irmão Gabriel tinha comprado em Comanche Wells, na estrada para Jacobsville. Ela esperava que Michelle já
tivesse voltado da faculdade, e estivesse em casa, mesmo que por pouco tempo. Michelle iria ouvir e ficar do
lado dela. Ela iria entender. Ela sabia mais sobre Sara que os habitantes da cidade.
Michelle sabia que o padrasto de Sara a havia assediado e quase chegado a estuprá-la, graças a Gabriel que
chegou mais cedo e arrombou a porta do seu quarto e o tirou de cima dela, isso não aconteceu. Sara teve que
depor no julgamento que enviou seu padrasto para a prisão, sentar-se na cadeira das testemunhas e dizer a
estranhos exatamente o que o animal tinha feito a ela. E as coisas asquerosas que ele tinha dito, enquanto estava
fazendo. Ela não teve coragem de dizer tudo.
O advogado de defesa foi eloquente acusando Sara de provocar um homem mais velho e deixá-lo tão excitado
ao ponto dele perder o controle. Não era assim, mas ela tinha certeza de que algumas pessoas do júri acreditaram.
Seu padrasto tinha ido para a cadeia. E morreu quando saiu. Sara estremeceu violentamente, lembrando como
e por quê. A mãe expulsou Sarah e Gabriel de casa após a condenação e eles foram viver na rua. Um dos
defensores públicos que tratou do caso em um segundo julgamento, quando seu padrasto foi baleado pela polícia,
tinha uma tia solteira que os acolheu, os tratou com carinho e deixou a eles a maior parte de seus bens.
Ela era milionária, e o defensor público, seu sobrinho, recusou-se a ouvir uma palavra sobre Sara e Gabriel
rejeitarem a herança. Eles ainda pensavam nele como da família. Ele tinha sido gentil quando eles foram
rejeitados por todos.
A mãe deles foi embora, profundamente triste pela morte do seu segundo marido e se recusou a ter qualquer
contato com os filhos depois disso. Tinha sido devastador, especialmente para Sara, que se sentia responsável por
tudo o que aconteceu.
A experiência a afetou muito, transformando-a em uma prisioneira. Sara tinha vinte e quatro anos, era linda e
estava sozinha. Ela não namorava ninguém. Nunca.
A maneira como Wolf Patterson a observava, no entanto, era nova e perturbadora. Ela... gostava. Mas ela não
podia se dar ao luxo de deixá-lo saber. Se ele a perseguisse, se as coisas esquentassem, ele iria descobrir seu
segredo. Ela não conseguia esconder suas reações a qualquer tipo de intimidade física. Ela havia tentado uma
vez, apenas uma vez, com um garoto da escola que ela gostava. O encontro tinha terminado em choro e o
deixado furioso, ele a chamou de estúpida por provocá-lo e depois fugir. E ela desistiu de ter encontros.
Ela entrou, fechou a porta atrás dela, jogou a bolsa sobre a mesa lateral e subiu. Ela tinha comido uma leve
refeição antes de ir à farmácia, de modo que tinha o dia livre para fazer o que quisesse. Ela era rica. Não tinha
que trabalhar. Mas também não tinha vida social. Pelo menos, não no mundo real. No mundo virtual, no
entanto...

***

Ela ligou seu computador de última geração e entrou no site do jogo World of Warcraft. Sara jogava em
segredo. Ela não tinha contado a ninguém sobre seu hábito. Gabriel sabia, mas ninguém mais. Ela tinha criado
um avatar na Horde, uma bela elfo sangrento, um personagem com cabelo loiro, quase branco, e olhos azuis, um
tipo físico oposto ao dela, gostava de pensar, rindo. Havia um mundo de distância entre o personagem e a morena
com cabelo preto que ela era realmente.
Acessou sua personagem, uma feiticeira poderosa, Casalese, e entrou no jogo. No momento em que entrou,
recebeu uma mensagem.
Você quer fazer uma incursão comigo? - Perguntou ele.
"Ele" era o Elfo sangrento, Nível 90, um cavaleiro da morte chamado Rednacht. Os dois se conheceram em
um evento de férias no jogo, eles começaram a conversar e tinham se tornado amigos virtuais há mais de um ano.
Não usavam as suas verdadeiras identidades, então, ela não tinha ideia de quem ele realmente era. Ela não queria
um amante. Ela só queria um amigo. E eles se tornaram amigos, usando apenas um codinome na conta, então ela
sabia quando ele estava online. E vice-versa. Ambos tinham alcançado o nível 90 ao mesmo tempo. Eles haviam
comemorado em uma pousada no jogo com bolo, suco, e fogos de artifício que receberam na nova área,
Pandaria.
Foi uma noite mágica. Rednacht era divertido. Ele nunca fazia comentários muito pessoais, mas mencionava
coisas que estavam acontecendo em sua vida ao longo do tempo. Ela também comentava sobre a sua vida. Mas
só de um modo geral. Sara tinha problemas reais em sua vida particular. Por causa da profissão de Gabriel, ela
tinha que ter um cuidado redobrado.
A maioria das pessoas não sabia o que seu irmão fazia para viver. Ele era um soldado de aluguel que muitas
vezes trabalhava para Eb Scott. Ele era um mercenário especializado. Sara se preocupava com ele, porque só
tinham um ao outro. Mas ela percebeu que Gabriel não podia viver sem a emoção. Ainda não, de qualquer
maneira. Ela queria saber o que mudaria quando Michelle, que ficou sob a responsabilidade dos dois depois da
morte repentina da madrasta, terminasse a faculdade. Mas isso era algo para se preocupar no futuro.
Eu prefiro ir para um campo de batalha. - Ela digitou. Tive uma manhã difícil.
KKK. Eu também. Bom. Podemos atacar a Aliance até que não haja mais sede de vingança em nós. - Respondeu
ele.
Ela riu novamente.
É uma boa ideia.
Um par de horas depois ela se sentia como uma nova mulher. Ela se despediu dele, saiu do jogo, desligou o
computador, fez uma refeição leve e foi para a cama. Ela sabia que estava se escondendo da vida em seu
playground virtual, mas era, pelo menos, uma forma de vida social. No mundo real, eu não tinha nada.

***

Sara amava ópera. O teatro local em San Antonio tinha sido fechado no início do ano, embora tenha sido
fundada uma nova companhia de ópera, ela ainda não havia estreado. No entanto, ela sentia falta e assistir uma
boa ópera. A única opção disponível era em Houston. Era uma longa viagem, mas o Houston Grand Opera estava
apresentando "A Little Night Music".* Uma das músicas era "Send in the clowns"* sua predileta. Ela era uma
mulher adulta. Ele tinha um bom carro. Não havia nenhuma razão para ela não fazer essa viagem.
Então ela entrou no Jaguar e voou pela estrada, tentando chegar antes do espetáculo começar. Ela iria se
preocupar depois em voltar para casa no escuro.
Ela adorava qualquer coisa relacionada à arte, incluindo teatro, sinfonias e balé. Ela tinha ingressos tanto para
a Sinfônica quanto para a temporada de balé de San Antonio. Mas, esta noite ela desfrutaria desse espetáculo fora
da cidade.
Ela estava olhando para o programa quando sentiu um movimento próximo. Ela se virou para olhar o recém-
chegado que se sentou, e deparou com o brilho claro e divertido dos olhos de seu pior inimigo no mundo.
─ Oh, droga. - Era o que ela deveria ter dito. O que ela disse foi muito menos convencional, e em Persa.
─ Boca suja. - Ele sussurrou de volta na mesma língua.
Ela rangeu os dentes, esperando sua próxima observação. Pisaria na sua bota grande e sairia do edifício
rapidamente se ele dissesse uma palavra.
Mas ele foi distraído por sua bela acompanhante antes que pudesse dizer qualquer outra coisa. Igual à outra
mulher com quem Sara o tinha visto em outro espetáculo, esta também era uma bela loira. Ele não parecia gostar
morenas, o que certamente era uma vantagem para Sara.
Por que na terra ele sempre tinha que se sentar ao lado dela? Ela quase gemeu. Ela havia comprado seus
ingressos com semanas de antecedência. Certamente ele tinha feito o mesmo. Então, como eles conseguiram
sentar lado a lado em cada espetáculo que compareceram em San Antonio, e também em Houston? Da próxima
vez, prometeu a si mesma, ela esperaria para ver aonde ele iria se sentar antes de sentar-se também. No entanto,
como as cadeiras eram numeradas, isso poderia ser um problema.
A orquestra começou a afinar seus instrumentos. Minutos depois, a cortina subiu.
Assim que as magníficas composições de Stephen Sondheim começaram a ser tocadas, e os bailarinos
evoluíam pelo palco ao som das valsas imponentes, Sara pensou que havia chegado ao céu. Ela se lembrou de
valsas como estas em um evento na Áustria. Ela tinha dançado com um cavalheiro de cabelos grisalhos, um
conhecido de seu guia da excursão, que dançava maravilhosamente. Apesar de viajar sozinha, compartilhava
espetáculos como esse com outras pessoas, a maioria idosa. Sara não fazia excursões, porque não queria ter nada
a ver com os homens. Ela conheceu a maior parte do mundo, acompanhada por Gabriel ou pessoas idosas.
Fechou os olhos, e se deixou envolver pelo som que vinha da orquestra, que estava tocando, no seu entender,
uma das mais belas canções já escritas, "Send in the Clowns".

***

Chegou o intervalo, mas ela não se moveu. A acompanhante de Wolf se levantou, mas ele continuou no lugar.
─ Você gosta de ópera, certo? - Ele perguntou, com os olhos intensos, passeando pelo cabelo escuro e o vestido
preto elegante, com um corpete discreto e mangas curtas. O casaco de couro estava no encosto da poltrona,
porque o teatro estava quente.
─ Sim - Disse ela, esperando com os dentes trincados o que ele diria depois.

*A Little Night Music (Um pouco de música noturna) - É um musical escrito por Hugh Wheeler, com música e letras de Stephen Sondheim. Inspirado no
filme de Ingmar Bergman Smiles of a Summer Night, conta o envolvimento romântico de vários casais. Seu título é uma tradução inglesa literal
do Serenade No. 13 de Mozart. O musical inclui a popular canção "Send in the Clowns." Desde sua produção original na Broadway em 1973, o musical
tem desfrutado de produções no West End, por companhias de ópera. Foi adaptado para o cinema em 1977, com direção de Harold Prince e estrelado
por Elizabeth Taylor.
─ O barítono é muito bom - Disse ele, cruzando uma longa perna. ─ Ele veio do Metropolitan. Ele disse que não
aguentava mais a cidade de Nova York. Ele queria viver em um lugar mais tranquilo.
─ Sim, eu li sobre isso.
Seus olhos pousaram em suas mãos. Ela as tinha em seu colo, segurando firmemente sua pequena bolsa e
cravando as unhas no couro. Ela não parecia ter nenhuma preocupação, mas estava completamente rígida.
─ Você veio sozinha?
Ela assentiu com a cabeça.
─ É um longo percurso até Houston e já anoiteceu.
─ Eu percebi.
─ Da última vez, em San Antonio, você estava com o seu irmão e Michelle - Disse ele. Seus olhos se estreitaram.
─ Sem homens. Nunca?
Ela não respondeu. Em suas mãos, a bolsa estava sendo esmagada.
Para sua surpresa, uma mão grande, magra e bonita tocou seus dedos longos e os acariciou delicadamente.
─ Não. - Disse laconicamente.
Ela mordeu o lábio e o olhou impotente, com a angústia dos últimos anos refletida em seus belos olhos
escuros.
Ele prendeu a respiração.
─ O que diabos aconteceu com você? - Ele perguntou com os dentes cerrados.
Ela retirou as mãos, levantou-se, colocou o casaco e saiu pela porta. No momento em que ela chegou ao seu
carro, estava chorando.

***

Era tão injusto. Ela não tinha um pneu furado há anos. Acontecia agora, nesta noite, em uma rua escura, em
uma cidade estranha, a muitos quilômetros do seu apartamento em San Antonio? Quando Gabriel e Michelle não
estavam, ela não gostava de ficar sozinha na pequena propriedade de Comanche Wells. Era afastada e muito
perigosa, se um dos inimigos de Gabriel quisesse se vingar o rancho seria o lugar perfeito. Já tinha ocorrido, uma
vez. Felizmente, Gabriel estava em casa.
Ela já tinha chamado o reboque, mas a empresa não tinha um veículo disponível no momento. Eles
informaram que demoraria apenas alguns minutos. Ela desligou e sorriu tristemente.
Um carro se aproximou vindo da direção do teatro, diminuiu e depois parou bem na frente de onde ela
estacionou o carro. Um homem alto saiu e aproximou-se da sua janela.
Ela congelou até que percebeu quem era. Então abriu a janela.
─ Este é um péssimo lugar para se estar com um pneu furado - Wolf disse - Venha. Vou levá-la para casa.
─ Mas eu tenho que ficar com o carro. Liguei para um reboque, e eles estarão aqui em poucos minutos.
─Vamos esperar pelo reboque no meu carro - Disse ele com firmeza. ─ Eu não vou deixar você aqui sozinha.
Ela estava agradecida. Mas não queria admitir em voz alta.
Ele riu suavemente quando viu a expressão no rosto dela ao abrir a porta do carro.
─ Aceitar a ajuda do inimigo não irá causar urticária.
─ Quer apostar? - Ela perguntou. Mas, com um suspiro, entrou no carro dele.

***

Era um Mercedes. Ela nunca tinha dirigido um, mas conhecia muitas pessoas que já tinham. Eram quase
indestrutíveis, e duravam para sempre.
Ela estava curiosa com as janelas. Elas pareciam estranhas. Além disso, a estrutura da porta também era
diferente.
Ele percebeu sua curiosidade.
─ Blindagem. - Disse ele. - Vidro à prova de balas.
Ela olhou para ele.
─ Você tem muitas pessoas que usam lançadores de foguetes contra você, certo?
Ele apenas sorriu.
Impossível não pensar sobre isso. Ele falava várias línguas. Não era muito conhecido no local, apesar de viver
em Jacobsville por vários anos. Das poucas informações que conseguiu reunir, descobriu que ele trabalhou na
elite da unidade de Resgate de Reféns do FBI. Mas, depois disso, ele esteve envolvido em outras atividades, que
ninguém sabia quais eram.
Gabriel o achava divertido. Disse que Wolf só tinha se mudado para Jacobsville porque estava à procura de
um pouco de paz e sossego. Nada mais.
─ Meu irmão conhece você.
─ Sim.
Ela olhou para ele. Ele estava olhando para o celular e digitando, aparentemente, enviando um e-mail para
alguém.
Ela desviou o olhar. Provavelmente ele estava falando com seu encontro, talvez pedindo desculpas por deixá-
la esperando.
Ela queria dizer a ele para ir embora, que não se importava em esperar o reboque sozinha. Mas se importava.
Ela estava com medo do escuro e dos homens que poderiam aparecer quando ela estivesse sozinha e vulnerável.
Odiava ter medo.
Ele olhou para as mãos dela. Ela estava apertando a bolsa novamente.
Ele colocou o celular no bolso.
─ Eu não mordo.
Ela pulou. E engoliu em seco.
─ Desculpe.
Seus olhos se estreitaram. Ele a provocava deliberadamente há um longo tempo, desde que ela bateu no seu
carro e, em seguida, o acusou de causar o acidente. Sara era agressiva quando estavam em público. Mas sozinha
com ele, parecia estar com medo. Muito medo. Uma mulher tão linda, com tantos complexos.
─ Por que está tão nervosa? - Ele perguntou em voz baixa.
Ela forçou um sorriso.
─ Eu não estou nervosa - Disse. E olhou em volta para as luzes do carro.
Wolf estreitou os olhos, avaliando.
─ Houve um engavetamento fora do centro - Disse ele. ─ Isso era o que eu estava verificando no meu telefone. O
reboque deve estar aqui em breve.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Obrigada - Disse ela bruscamente.
Ele levantou uma sobrancelha.
─ Você realmente se acha tão atraente? - Perguntou em um tom frio.
Seus olhos surpresos encontraram os dele.
─ O que?
Havia algo em seus olhos gelados, em sua aparência. Ela estava trazendo de volta lembranças que ele odiava,
memórias de outra bela morena, tímida, provocante e manipuladora.
─ Você está sentada aí rígida. Você me olha como se esperasse ser atacada. - Seus lábios sensuais formaram um
sorriso frio. ─ Você teria sorte - Acrescentou provocativamente. ─ Eu sou muito seletivo com as mulheres. Você
não é o meu tipo.
Ela parou de torcer a bolsa.
─ Sorte a minha. - Disse ela com um sorriso gelado. ─ Porque eu não quero você nem se fosse o último homem
na Terra!
Seus olhos brilharam. Ele queria destruir alguma coisa. Ele não poderia deixá-la sozinha aqui, mas queria. Ela
o enfurecia.
Ela começou a abrir a porta do carro.
Ele trancou a porta a partir do painel de controle.
─ Você não vai a lugar nenhum até que o reboque chegue aqui. - Ele se inclinou em direção a ela, de repente,
sem qualquer aviso prévio.
Ela recostou na porta, de repente, tremendo. Seus olhos estavam arregalados e assustados. Seu corpo retesado.
Ela olhou para ele, tremendo.
Ele amaldiçoou em voz baixa.
Ela engoliu em seco. E engoliu em seco novamente. Não conseguia nem olhar para ele. E odiava demonstrar
fraqueza. Movimentos bruscos sempre a assustavam. Ela nunca conseguiu lidar com o que aconteceu no seu
passado. E não conseguia superar isso.
Um veículo que se aproximou, reduziu a velocidade, baixou os faróis e parou atrás deles.
─ É o reboque - Disse Sara. ─ Por favor, deixe-me sair.
Ele destrancou a porta. Ela saiu apressada e correu até o motorista do reboque.
Wolf também saiu, amaldiçoando-se pela expressão no rosto dela. Ela não tinha feito nada para ele a ofender,
nada além de demonstrar medo. Ele não tinha o costume de ofender ou ameaçar mulheres. Estava desconcertado
com a sua própria reação a ela.
─ Obrigada por ficar comigo. - Ela disse a Wolf em um tom angustiado. ─ Ele vai me deixar no meu
apartamento e levar o carro para a oficina. - Disse, apontando para o motorista idoso. ─ Boa noite.
Ela correu para o reboque e subiu no banco do passageiro enquanto o motorista guinchava o carro.
Wolf estava de pé ao lado de seu carro quando o reboque foi embora. Sara nem sequer virou a cabeça.

***

Como Gabriel ficaria em casa por alguns dias. Sara foi para Comanche Wells cozinhar para ele.
Ele percebeu sua postura retraída.
─ O que há de errado, querida? - Ele perguntou em voz baixa, enquanto bebiam café na mesa da cozinha.
Ela fez uma careta.
─ Eu tive um pneu furado quando estava voltando para casa de Houston depois da ópera.
─ À noite? - Ele perguntou, surpreso. ─ Por que você foi dirigindo? Por que você não contratou uma limusine?
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Eu estou tentando... crescer um pouco. - Ela disse, dando um sorriso trêmulo. ─ Ou eu estava.
─ Eu odeio pensar em você sentada no escuro esperando por um reboque - Disse ele.
─ O Sr. Patterson me viu ali e parou. Eu fiquei sentada no carro dele até o reboque chegar.
─ O Sr. Patterson? - Ele sussurrou. ─ Wolf também estava em Houston?
─ Aparentemente ele gosta de ópera também, e há uma companhia aqui no momento - Ela sussurrou.
─ Entendo.
Ela o fitou com uma expressão perturbada.
─ Ele... ele não fez nada. Só se virou no assento e se inclinou para mim. Eu... reagi como uma louca.
─ Nós já tivemos essa discussão antes. - Ele começou.
─ Eu odeio terapeutas. - Ela disse com veemência. ─ Este último disse que eu queria que as pessoas sentissem
pena de mim, e provavelmente exagerei o que aconteceu!
─ Ele o que? - Retrucou. ─Você nunca me disse!
─ Eu fiquei com medo que você batesse nele e acabasse na cadeia. - Disse ela.
─ É o que eu teria feito. - Disse asperamente.
Ela suspirou e tomou um gole de café.
─ De qualquer forma, não estava ajudando. - Ela fechou os olhos. ─ Eu não consigo superar isso. Eu apenas não
consigo.
─ Existem homens bons no mundo - Disse ele. ─ Alguns moram aqui em Jacobsville.
Ela deu um sorriso cansado.
─ Não importa...
Gabriel sabia o que ela tinha passado. Ele não sabia que aquela tentativa de estupro não tinha sido a primeira,
que seu padrasto tinha passado meses fazendo comentários sugestivos, tentando tocá-la, tentado levá-la para a
cama bem antes de usar a força. Isso, combinado com a exposição no tribunal durante o julgamento, tinha
afetado Sara de tal maneira que fazia Gabriel temer sobre seu futuro. Era uma situação terrível para acontecer a
uma menina na idade de treze anos!
─ Você adora crianças. - Ele disse em voz baixa. ─ Você está se condenando a uma vida solitária.
─ Eu tenho o meu jogo.
─ Você vive neste mundo virtual. - Disse ele, irritado. ─ Como substituto para uma vida social.
─ Eu não posso lidar com uma vida social. - Ela disse. ─ Eu nunca tive tanta certeza de algo. - Ela se levantou e
se inclinou para beijar sua testa. ─ Deixe-me com minhas atividades inofensivas. Eu vou fazer uma torta de maçã
para você.
─ Suborno.
Ela riu.
─ Suborno.

***

Na sexta-feira seguinte, Gabriel estava na mercearia, quando Wolf Patterson entrou. Ele aparentava estar
aborrecido, mesmo antes de ver Gabriel.
─ Ela está com você? - Perguntou Wolf.
Gabriel soube imediatamente a quem ele estava se referindo. E balançou a cabeça negando.
─ Ela é louca? - Perguntou sério. ─ Por Deus, eu fiquei sentado com ela no meu carro até o reboque chegar, e ela
agiu como se eu fosse atacá-la!
─ Sou grato pelo que você fez. - Gabriel disse, deixando de lado a questão. ─ Ela deveria ter contratado uma
limusine para ir a Houston. Vou me certificar de que ela faça isso na próxima vez.
Wolf se acalmou, mas só um pouco. Ele enfiou as mãos nos bolsos de seus jeans caros.
─ Ela deu ré e bateu no meu carro, você sabe. Então ela me culpou por isso. Foi assim que tudo começou. Eu
odeio mulheres agressivas. - Disse ele.
─ Ela tende a reagir de forma exagerada. - Gabriel disse evasivamente.
─ Eu nem gosto de morenas. - Disse secamente. Seus olhos azuis brilharam. ─ Ela não é meu tipo.
─ Certamente você não é o dela. - Disse o jovem com um sorriso.
─ Quem é? - Perguntou Wolf. ─ Um desses vegetarianos que comem tofu?
─ A Sara... não gosta de homens.
Wolf levantou uma sobrancelha.
─ Ela gosta de mulheres?
─ Não!
Os olhos de Wolf se estreitaram.
─ Você não está sendo claro.
─ Correto. - Disse Gabriel. E franziu os lábios. ─ Mas eu vou dizer uma coisa. Se alguma vez ela demonstrasse
qualquer interesse em você, eu a levaria para fora do país o mais rápido possível.
Wolf olhou para ele.
─ Você sabe o que eu quero dizer. - Gabriel acrescentou. ─ Você não serve para nenhuma mulher, muito menos
para a minha irmã. Por que você não superou o que aconteceu no passado, depois de todo esse tempo.
Wolf trincou os dentes.
Gabriel colocou a mão em seu ombro.
─ Wolf, nem todas as mulheres são como Ysera. - Disse suavemente.
Wolf se afastou dele.
Gabriel sabia quando o assunto estava encerrado. Então, sorriu.
─ Como vai o jogo?
Ele lançou a isca, e Wolf caiu.
─ Lançaram uma nova expansão. - Disse ele, e sorriu. ─ Eu estou louco para experimentar, agora que tenho
alguém para fazer masmorras comigo.
─ Sua mulher misteriosa. - Gabriel riu.
─ Eu suponho que seja uma mulher. - Disse, encolhendo os ombros. ─ As pessoas muitas vezes não são o que
parecem nestes jogos. Eu estava parabenizando alguém do meu grupo no jogo por seu estilo maduro de jogar, e
ele me informou que tinha doze anos. - Ele riu. ─ Você nunca sabe com quem está jogando.
─ Sua mulher misteriosa pode ser um homem. Ou uma criança. Ou realmente uma mulher.
Wolf assentiu.
─ Eu não estou à procura de relacionamentos em um RPG - Respondeu rapidamente.
─ Sábia decisão. - Gabriel não disse a ele o que Sarah fazia para se divertir. Ele realmente não poderia vendê-la
para o inimigo. - Ele hesitou e olhou para a rua. ─ Há um boato por aí.
Wolf virou a cabeça.
─ Que boato?
─ Ysera escapou. - Ele lembrou a Wolf. ─ Temos procurado por mais de um ano, você sabe. Um dos homens de
Eb pensou tê-la visto, em uma pequena fazenda, nos arredores de Buenos Aires. Com um homem de quem nós
dois nos lembramos dos velhos tempos.
O rosto de Wolf se contraiu como se tivesse levado um tiro.
─ Alguma informação sobre o que ela está fazendo lá?
Gabriel assentiu gravemente.
─ Vingança. - Ele disse simplesmente. Seus olhos se estreitaram. ─ Você precisa contratar alguma segurança
extra. Ela mandaria decapitar você se tivesse chance.
─ E eu gostaria de retribuir o favor se pudesse fazê-lo legalmente. - Disse Wolf com alguma malícia.
Gabriel colocou as mãos nos bolsos dos jeans.
─ Tal como o resto de nós. Mas você é o único em perigo, se ela realmente ainda estiver viva.
Wolf não gostava de se lembrar da mulher, ou das coisas que fez por causa de suas mentiras. Ele ainda tinha
pesadelos. Seus olhos estavam frios e distantes.
─ Eu pensei que ela estava morta. Eu esperava que ela estivesse morta... - Confessou baixinho.
─ É difícil matar uma cobra venenosa. - Disse categoricamente o outro homem. ─ Apenas tenha cuidado.
─ Tenha cuidado você também - Disse Wolf.
─ Sempre tenho.
Gabriel queria conversar com o outro homem sobre Sara, preveni-lo, para evitar uma tragédia futura.
Mas o amigo não parecia estar realmente interessado em Sara, e ele estava relutante em compartilhar detalhes
íntimos do passado de Sara com seu pior inimigo. Era uma decisão que poderia ter consequências. E ele não
imaginava quais, no momento.

Capítulo Dois

Gabriel voltou a trabalhar, e Sara foi passar o fim de semana no rancho no Wyoming com Michelle durante as
férias de primavera dela. Depois disso, Michelle, voltou para a Faculdade, e Sara foi às compras no centro de San
Antonio.
Sara comprou roupas leves e, em seguida, tentou encontrar outras roupas de meia estação no enorme mercado de
San Antonio, apreciando os sons e cheiros do mercado. Poucos minutos depois, ela foi para River walk* e sentou-se
em uma pequena mesa, vendo os barcos passarem. Estavam em abril. O tempo estava quente e seco, e flores
cresciam nos canteiros em torno da cafeteria. Era um de seus lugares favoritos.
Ela colocou a bolsa debaixo da mesa e se inclinou para trás, seu cabelo bonito balançou com o movimento. Ela
estava vestindo calças e sapatos pretos e uma blusa rosa que realçava sua aparência elegante. Seus olhos negros
dançavam enquanto ouvia uma banda de mariachi*.
Ela moveu a cadeira para dar espaço aos dois homens que sentaram atrás dela. Um deles era Wolf Patterson. Seu
coração falhou uma batida. Ela se apressou em terminar o seu cappuccino, recolheu as sacolas e foi ao balcão para
pagar.
─ Fugindo? - Ele perguntou com uma voz sedosa, e profunda atrás dela.
─ Eu terminei meu café. - Ela disse secamente, sorriu e agradeceu ao empregado quando ele lhe entregou o troco.
Quando ela se virou, Wolf estava bloqueando a saída. Seus olhos pálidos brilhavam com hostilidade. Parecia que
ele queria fritá-la em uma panela com óleo quente.
Ela engoliu o nervosismo que sempre a assaltava quando ele estava por perto. Ela tentou dar um passo atrás, mas
não havia espaço. Seus olhos enormes e belos arregalaram com apreensão.
─ Quando seu irmão vai voltar? - Ele perguntou.
─ Eu não tenho certeza. - Disse ela. ─ Ele acredita que, talvez, no fim de semana.
Ele balançou a cabeça. E estreitou os olhos.
─ Do que você tem medo? - Ele perguntou com os dentes cerrados.
─ De nada, Sr. Patterson. - Disse ela. ─ Porque eu não sou seu tipo.
─ Sem dúvida.
Ela estava disposta a tentar empurrá-lo para passar por ele, frustrada além do comportamento racional quando o
colega dele o chamou.
Quando ele se distraiu, ela passou pelo lado dele, e saiu apressada da cafeteria. E nem sequer se importou com as
pessoas que assistiram.

***
Uns dias depois, na mesma semana, houve uma apresentação de balé. Sara amava balé. Adorava a cor, os
figurinos, a iluminação, tudo. Ela havia estudado balé na infância. Houve um tempo em que sonhava ser a primeira
bailarina. Mas os longos anos de treinamento e os sacrifícios que a carreira exigia eram demais para uma jovem que
acabava de descobrir vida.
Aqueles foram dias bons. Seu pai ainda estava vivo. Sua mãe era amigável, embora distante. Ela se lembrou dos
momentos felizes que passavam juntos com um sorriso amargo. Como sua vida poderia ter sido diferente se o pai
não tivesse morrido.

* River Walk - É uma rede de passarelas ao longo das margens do rio San Antonio , Texas. Com muitos bares, lojas, restaurantes, natureza e arte
popular, o River Walk é uma parte importante da cidade e uma atração turística.

*Mariachi - É um gênero musical popular do México e é também o nome dado aos grupos musicais que tocam este gênero.
Mas ficar relembrando o passado não servia a nenhum propósito real, disse a si mesma. Essa era a sua vida, e
teria que tentar lidar com ela.
Sentou-se na poltrona perto do palco, sorrindo enquanto lia o programa. Ela conhecia a primeira bailarina, uma
menina doce que amava seu trabalho e não se incomodava com as longas horas e sacrifícios que a carreira exigia.
Lisette também era bonita, loira, alta e magra, com olhos escuros grandes como castanhas.
O balé era o Lago dos Cisnes, um de seus favoritos. Os figurinos eram impressionantes, os bailarinos
espetaculares, a música quase mágica. Ela sorriu, seu coração transbordando de felicidade ao antecipar o delicioso
espetáculo.
Sentiu um movimento próximo e quase teve um ataque cardíaco quando viu Wolf Patterson e outra bela loura se
aproximando das poltronas ao lado da dela. Na verdade, ela gemeu.
A mulher parou para conversar com alguém que conhecia. Wolf sentou-se na poltrona ao lado de Sara e deu um
olhar avaliador para o vestido preto e o casaco de couro conservador.
Um olhar que poderia ter parado um touro enfurecido.
─ Você está me seguindo? - Perguntou ele.
Ela contou até dez. Amassando o programa que estava em suas mãos.
─ Quero dizer, apenas duas semanas atrás, você estava na ópera, em Houston, e você está aqui hoje à noite no balé,
em San Antonio, sentada ao meu lado. - Ele meditou. ─ Se eu fosse um homem vaidoso... - Acrescentou em um tom
de voz lento e profundo.
Ela voltou seus olhos negros para ele e fez um comentário em Persa o que fez os cabelos dele se arrepiarem. Ele
respondeu a ela na mesma língua, com os olhos mordazes fixos nela.
─ Que língua é essa? - Sua companheira loira perguntou com um sorriso.
Wolf resmungou mais algumas palavras enquanto Sara virava a cabeça e tentava se concentrar na cortina do
palco. A orquestra começou a afinar os instrumentos.
─ Você não vai me apresentar? - A loira perguntou enquanto percebia o desconforto de Sara com sincera
preocupação.
─ Não, não vou. - Wolf disse, enfatizando cada palavra. ─ A cortina está para subir. - Acrescentou rapidamente.

***

Sara queria se levantar e sair. Quase fez isso. Mas ela não podia suportar dar essa satisfação a ele. Então, ela se
perdeu na cor e na beleza do Lago dos Cisnes, com o coração na garganta enquanto os bailarinos abriam espaço
para a entrada da primeira bailarina, e Lisette entrava no palco.
A beleza elegante de sua amiga era evidente, mesmo à distância. Ela se virou e fez uma pirueta, saltando com
precisão e graça. Sara invejava esse talento. Uma vez que ela imaginou a si mesma no palco com uma roupa igual a
que bela Lisette estava vestindo.
Naturalmente, a realidade tornou aquele sonho impossível. Ela não podia se imaginar na frente de um monte de
pessoas, com todos olhando, sem entrar em pânico. Não depois do julgamento.
Seu rosto retesou quando recordou o julgamento, as insinuações do advogado de defesa, a raiva no rosto de seu
padrasto, a angústia de sua mãe. Ela não percebeu que havia amassado o programa com seus dedos finos, ou que o
olhar trágico em seu rosto estava chamando a atenção do seu inimigo que estava sentado na poltrona ao lado.
Wolf Patterson tinha visto esse olhar antes, muitas vezes em zonas de combate. Era semelhante ao que
chamavam o olhar de "mil jardas"* familiar aos veteranos de guerra, uma expressão vazia, um olhar que refletia os
eventos terríveis que nenhum mortal deveria ter testemunhado.
Mas Sara Brandon era mimada, rica e bonita. O que teria motivado uma mulher como ela a ter esse olhar
perturbado?
Ele riu para si mesmo, suas feições duras demonstravam um leve desprezo. Pequena Sara, tentando os homens,
ridicularizando as suas paixões, fazendo-os implorar por satisfação e, em seguida, rindo quando eles a atingiam.
Rindo com desprezo e repugnância. Dizendo coisas...
Uma mão suave tocou a dele. A loira ao lado dele estava franzindo a testa.

* Olhar de mil jardas - O termo “Olhar de mil jardas” foi concebido na Primeira Guerra Mundial e designa os rostos dos soldados cansados da guerra. Popularizado
na Segunda Guerra, esse termo nomeia a capacidade que esses olhares realmente parecem ter de enxergar algo que está muito, mas muito distante. Os olhos mantêm uma
posição fixa quando o olhar está focando em algo razoavelmente próximo, mas não focam em nada, os olhos se comportam como se estivesse olhando para algo muito, muito
distante. É descrito como um olhar sem foco, atordoado, visto em rostos de quem sofreu uma severa angustia psicológica e tenta lidar com esse problema dissociando o
evento e os seus “participantes”.
Ele se repreendeu mentalmente e desviou os olhos de Sarah. Conseguiu dar um sorriso para sua acompanhante,
mas era um sorriso falso. Sara o perturbava. Ela o lembrava de coisas antigas, coisas fatais, coisas insuportáveis. Ela
era tudo o que ele odiava em uma mulher.
Mas ele a queria. A visão de seu corpo esbelto, elegante o atormentava. Fazia muito tempo. Depois de Ysera não
tinha sido capaz de confiar em outra mulher, desejar outra mulher.
No fundo de sua mente ainda podia ouvir a zombaria e os risos. Ele não era capaz de controlar o desejo, e Ysera
se divertia com isso. Ela adorava manipulá-lo, atormentá-lo. E quando ela se cansou de humilhá-lo na cama, ela o
tinha enviado, usando de uma mentira, em uma vingança pessoal.
Wolf fechou os olhos. Um arrepio percorreu seu corpo musculoso. Ele não podia fugir do passado. Ele ainda o
assombrava. Não houve consequências, mas poderia ter havido. Ysera, pelo menos, deveria ter sido
responsabilizada, mas fugiu do país antes que pudesse ser presa. Por mais de um ano, não ouviu falar dela. Pensou
que finalmente ela tinha encontrado o que merecia e que estava morta. Agora ela estava de volta, ainda viva, ainda o
assombrando. Ele nunca teria paz pelo o resto de sua vida.
─ Wolf. - A loira sussurrou nervosa. Ela envolveu a mão no punho fechado dele. ─ Wolf!
Sara percebeu, tarde demais, que algo estava acontecendo com ele. Virou a cabeça a tempo de ver uma expressão
de angústia no rosto tenso do homem e a preocupação substituiu seu ressentimento habitual.
A mão dele estava fechada em punho no braço da poltrona. A loira estava tentando acalmá-lo. Parecia um fio
desencapado.
─ Sr. Patterson. - Disse Sara, sua voz suave de modo a não assustá-lo. ─ Está bem?
Ele olhou para ela, voltando do passado com a dor ainda presente em seus olhos. Ele fixou o olhar nela e parecia
que a odiava.
─ Que diabos você tem a ver com isso? - Ele cerrou os dentes.
Ela mordeu seu lábio inferior. Ele parecia exasperado, perigoso, pronto para atacar. Sara voltou sua atenção para
o palco com uma palidez mortal em seu rosto. Eu sou uma idiota por me preocupar.
Ele estava tentando lidar com memórias que o estavam corroendo. Sara o lembrava de muitas coisas que ele só
queria esquecer. Xingou baixinho em persa, levantou-se e saiu do teatro.
A loira olhou para Sara sem graça, como se quisesse se explicar ou pedir desculpas. Em seguida, ela apenas
sorriu tristemente e o seguiu.

***

Aquele olhar assustado no rosto de Wolf assombrou Sara pelo resto da semana. Ela não podia tirar aquele olhar
da cabeça. Wolf, naqueles poucos segundos, a olhou como se a odiasse. Ela percebeu que não era necessariamente a
ela que ele odiava. Talvez fosse a alguém que ela o lembrasse. Sorriu tristemente para si mesma. Que falta de sorte,
sentir o início de uma atração por um homem pela primeira vez em sua vida, e descobrir que ele a odiava, porque
provavelmente, ela o lembrava de outra mulher. Uma antiga paixão, talvez alguém que ele tinha amado e perdido.
Bem, não tinha jeito de olhar nessa direção de qualquer maneira, ela consolou-se. Ela esteve realmente a sós com
ele apenas uma vez, e a reação dela quando ele chegou perto demais foi vergonhosa. Ainda corava, lembrando como
havia fugido dele no dia do pneu furado. Wolf não entendeu por que ela reagiu daquela maneira. E ela não podia lhe
dizer.

***

Mais tarde naquela noite, ela colocou seu pijama, acomodou o laptop no colo, deitou na cama e entrou no jogo.
Seu amigo estava online.
Olá. - Ela digitou.
Olá. - Ele respondeu.
Normalmente era mais falante do que isso.
Está ocupado? - Ela perguntou.
Não. Más recordações. - Disse depois de um minuto.
Eu sou especialista nisso. - Ela escreveu com tristeza.
Houve uma breve pausa.
Você quer falar sobre isso? - Ele perguntou.
Ela sorriu para si mesma.
Falar não ajuda. Quer ir para o campo de batalha? - Ela escreveu.
KKK. - Ele digitou na tela, e a convidou para um grupo. Entraram em uma fila para um campo de batalha.
Por que a vida tem que ser tão difícil? - Ela escreveu enquanto esperava.
Eu não sei. - Respondeu ele.
Eu não posso escapar do passado. - Ela escreveu. Ela não podia contar-lhe tudo, mas podia falar um pouco. Ele era
o único amigo de verdade que ela tinha. Lisette era gentil e doce, mas tinha pouco tempo disponível para conversar.
Eu também não posso. - Ele escreveu depois de um minuto. Você tem pesadelos? -Ele perguntou de repente.
Ela fez uma careta e escreveu.
O tempo todo.
Eu também. - Ele hesitou um pouco. Somos pessoas feridas. - Escreveu.
Sim.
Tentando confortar um a outra. - Acrescentou com outro "kkk".
Ela sorriu de volta, e sorriu para si mesma.
VJ. - Ela escreveu, uma gíria de jogador para "volto já". Eu preciso de café.
Boa ideia. Eu vou fazer um pouco e enviar-lhe uma xícara por e-mail. - Ele escreveu.
Sara riu para si mesma. Ele era uma boa companhia. Ela se perguntou quem ele era na vida real, se era um
homem ou uma mulher ou até mesmo uma criança. Fosse o que fosse, era bom ter alguém para conversar, mesmo
que a maioria das palavras durante a conversa fosse monossilábicas.
Ele estava de volta antes que chegasse sua vez na fila.
Devíamos ter um desses programas de chat. - Disse ele. ─ Para que possamos conversar ao invés de digitar.
Seu coração quase parou.
Não.
Por quê?
Ela mordeu o lábio inferior. Será que ele não percebia que a vida real poderia destruir a fantasia? Ela não queria
saber se ele era jovem, velho ou mulher.
Você está com medo. - Ele escreveu.
Ela hesitou, com as mãos no teclado.
Sim.
Eu entendo.
Não. Você não entende - Ela respondeu. ─ Acho difícil estar com as pessoas. Com a maioria das pessoas. Eu não...
Eu não gosto de deixar as pessoas se aproximarem muito de mim.
Bem vinda ao clube.
Assim, em um jogo, é algo diferente. - Ela tentou explicar.
Sim. - Houve uma hesitação. Você é uma mulher?
Sim.
Jovem?
Sim. - Ela fez uma pausa. Você é homem?
Não houve hesitação dessa vez.
Definitivamente.
Ela hesitou novamente.
Casado?
Não. E provavelmente nunca serei. - Outra pausa. Você é casada?
Não. E provavelmente nunca serei. - Disse ela, acrescentando uma carinha sorridente. Você trabalha?
E agora, era a hora das mentiras.
Sou cabeleireira. - Ela mentiu. O que você faz?
Ele hesitou.
Coisas perigosas.
Seu coração pulou uma batida.
Policial? - Ela escreveu.
Ele riu.
Como descobriu?
Eu não sei. Você parece ser muito honesto. Nunca tente saquear os despojos quando nós fazemos masmorras.
Ajuda os outros jogadores se eles então em apuros. Sempre use suas habilidades no jogo para auxiliar os
jogadores de nível inferior. Coisas assim.
Houve uma longa hesitação.
Está descrevendo a si mesma também.
Ele sorriu para si mesma.
Obrigada.
Pessoas feridas. - Refletiu. Encontrando conforto juntas.
Ela concordou com a cabeça.
O que você escreveu... Dá uma sensação boa de alguma forma.
Dá, não é?
A tela do computador irradiava um novo calor. Claro, eles poderiam estar mentindo. Ela não trabalhava, não
precisava, e ele poderia não ser policial. Mas não importava, porque eles nunca iriam se encontrar pessoalmente. Ela
não ousaria. Ela cometeu muitos erros em sua curta vida, tentando fugir do passado. Nunca seria capaz de fazê-lo.
Isso era tudo o que poderia esperar, um relacionamento online com um homem que poderia até mesmo não gostar
dela no mundo real. Mas, por incrível que pareça, isso era quase o suficiente.
Hora de ir. - Disse ele. Quando estava na vez deles se juntarem à batalha.
Depois de você. - Ela escreveu novamente. O que era uma piada; porque uma vez que eles formavam um grupo, eles
chegariam juntos.

***

Ela estava sentada no parque, alimentando os pombos. Era estúpido de se fazer, uma vez que os pássaros se
tornavam um incômodo. Mas ela tinha pão que sobrou de um almoço solitário, e os pássaros a faziam se sentir
confortável, arrulhando a seus pés enquanto ela espalhadas as migalhas.
Vestindo um suéter com decote em V, verde, jeans e botas. Ela parecia muito jovem, com cabelo longo em uma
trança caindo pelas costas e o rosto sem maquiagem, com exceção de um leve toque de batom.
Wolf Patterson olhou para ela com emoções contraditórias que nunca tinha sentido em sua vida. Ela era duas
pessoas diferentes. Uma era impetuosa, temperamental e brilhante. A outra era bonita, problemática e medrosa. Ele
não tinha certeza de qual era a Sara real.
Ele se sentia culpado pela maneira como a tinha tratado no balé. Ele não tinha a intenção de tratá-la daquela
maneira. As lembranças o corroeram até se sentir meio morto. Saber que Ysera estava lá fora, em algum lugar,
tramando contra ele, o estava deixando perturbado. Com a memória dela vieram outras, desagradáveis, que Sara o
fazia lembrar.
Ela sentiu que alguém a estava observando e virou a cabeça um pouco. Lá estava ele, a poucos metros de
distância, de pé, com as mãos nos bolsos, franzindo a testa.
Ele ficou fascinado ao ver a reação dela. Seu corpo esbelto congelou no lugar, metade das migalhas dentro e
metade fora do saco que estava segurando. Ela apenas olhou para ele, seus grandes olhos negros arregalados de
apreensão.
Ele se aproximou.
─ Uma vez eu atirei em um cervo que tinha esse mesmo olhar, esperando receber o tiro - Disse ele em voz baixa.
Ela corou e olhou para baixo.
─ Eu não caço mais. - Observou ele, em pé ao lado dela. ─ Eu caçava homens. Isso acaba com seu gosto por
sangue.
Ela mordeu o lábio inferior, com força.
─ Não faça isso. - Disse ele com uma voz suave que ela nunca o tinha ouvido usar. ─ Eu não vou te machucar.
Na verdade, Sara tremeu. Ela conseguiu dar uma risada fraca. Quantas vezes na sua vida tinha ouvido isso de
homens que a desejavam, que a perseguiam.
Ele se ajoelhou na frente dela e forçou-a a olhar para ele.
─ Quero dizer. - Ele disse calmamente. ─ Nós temos nossas diferenças. Mas fisicamente, você não tem
absolutamente nada a temer de mim.
Ela engoliu com dificuldade. Quando seus olhos encontraram os dele, refletiam suas memórias de medo e dor.
Olhos azuis gelados se estreitaram. Ele deu um tiro no escuro, mas viu que tinha atingido o alvo.
─ Alguém machucou você. Um homem.
Ela tentou, mas não conseguiu fazer as palavras saírem da sua boca. Suas mãos apertavam com tanta força a
bolsa que os nós dos dedos ficaram brancos.
Sua vulnerabilidade o machucou.
─ Eu não posso imaginar um homem cruel o suficiente para tentar ferir algo tão bonito. - Ele disse baixinho.
O lábio inferior de Sara tremeu. Ela não pode evitar que uma lágrima deslizasse pelo canto do olho.
─ Oh, Deus, me desculpe. - Disse ele bruscamente.
Ela suspirou e enxugou as lágrimas, como se isso a enraivecesse.
─ Você deveria estar ajudando o inimigo? - Ela perguntou em um tom abafado.
Ele sorriu. O antagonismo era muito melhor do que aquelas lágrimas silenciosas. Doídas.
─ Uma trégua?
Ela olhou para os olhos azuis.
─ Trégua?
Ele balançou a cabeça concordando.
─ Nós não queremos espantar os pombos. Obviamente, eles estão morrendo de fome. Você os está preocupando. -
Ela o estava preocupando, também, mas ele não iria admitir isso. Ele se sentiu culpado pelas coisas que tinha dito.
Não tinha percebido que ela foi machucada. Ela tinha um espírito forte, valente, então ele não estava esperando essa
vulnerabilidade.
Ela se endireitou um pouco e jogou mais migalhas para os pássaros. Eles se reuniram em torno deles, arrulhando.
─ Suponho que se a polícia passar por aqui vai me prender. Ninguém gosta de pombos.
Ele se levantou e sentou suavemente no banco ao lado dela, longe o suficiente para não deixá-la nervosa.
─ Eu gosto. - Ele corrigiu. ─ Se forem bem feitos.
Uma pequena risada saiu de sua garganta e seus olhos negros se iluminaram como fogos de artifício à noite.
─ Eu comi no Marrocos, quando eu estive lá em uma missão. - Ele comentou.
─ Eu também estive lá. Naquele lindo hotel em uma colina em Tanger. - Ela começou.
─ O El Minzah.* - Disse ele sem pensar.
Sua mão congelou no saco.
─ Isso... mesmo. - Ela gaguejou.
─ Eles tinham um motorista chamado Mustafá e um grande Mercedes sedan - Continuou ele, sorrindo.
Ela riu. Isso mudou toda a sua aparência, deixou-a ainda mais bonita.
─ Ele me levou para as cavernas fora da cidade, onde os piratas bárbaros escondiam seus roubos.
─ Você? Sozinha? - Ele sondou suavemente.
─ Sim.
─ Você sempre está sozinha. - Ele disse pensativo.
Ela hesitou. Em seguida, balançou a cabeça concordando. Voltou-se para os pombos.
─ Eu não... me relaciono bem com as pessoas. - Confessou.
─ Nem eu. - Disse ele abruptamente.
Ela jogou outro punhado de migalhas para os pombos.
─ Você tem aquele olhar.
─ Qual olhar?
─ Meu irmão também tem. - Disse ela sem olhar para ele. ─ Chamam de olhar de mil jardas.
Ele abaixou a cabeça e estreitou os olhos azuis olhando para o que podia ver do rosto dela. Ele não disse uma
palavra.
Ela levantou os olhos e fez uma careta.
─ Sinto muito. - Ela disse, corando. ─ Eu sempre meto os pés pelas mãos quando falo com você. - Ela moveu-se
inquieta. ─ Você me deixa nervosa.
Ele deu uma risada curta.
─ Eu e o exército russo talvez. - Sussurrou.
Ela se virou para encará-lo. Ela não tinha entendido.
Ele lentamente estendeu a mão para levantar seu rosto e olhou para seus olhos negros por mais tempo do que
gostaria.
─ Você defende sua posição. - Explicou. ─ Contra-ataca. Admiro o espírito combativo.
Ela desviou o olhar.
─ Você também contra-ataca.
─ É um velho costume.
Ela jogou mais algumas migalhas.
─ Realmente você não gosta de mulheres, certo? - Ela retrucou, então corou e franziu a testa. ─ Desculpe! Eu não
quis dizer...

* El Minzah
─ Não. - Ele interrompeu, e seus olhos ficaram gelados. ─ Eu não gosto de mulheres. Especialmente morenas.
─ Isso foi horrível de dizer. - Ela se desculpou sem olhar para ele. ─ Eu disse que não me dou bem com as pessoas.
Eu não sei como ser diplomática.
─ Eu não me importo de falar francamente. - Disse. ─ Então, é a minha vez agora. - Ele esperou até que ela olhasse,
para ele continuar. ─ Você foi gravemente ferida fisicamente, por um homem em algum momento de seu passado.
Sara deixou o saco com as migalhas cair no chão. Ela colocou os braços, em volta de si mesma e estremeceu.
Ele queria puxá-la para perto, abraçá-la, confortá-la. Mas quando ele se aproximou, ela levantou e abaixou a
cabeça.
─ Deus, Sara o que aconteceu com você? - Ele perguntou com os dentes cerrados.
Ela engoliu em seco. E engoliu em seco novamente.
─ Eu não posso falar sobre isso.
Ele tentaria descobrir através de Gabriel. Não tinha o direito de ser curioso, mas ela era muito bonita para passar
a vida fechada em si mesma dessa forma. Levantou-se, também, mas não se aproximou.
─ Você deveria fazer terapia. - Ele disse suavemente. ─ Isto não é maneira de viver.
─ Eu deveria estar na terapia? - Ela disse com uma risada curta. ─ E você?
Sua expressão endureceu.
─ O que?
─ Você não tem imagina a sua expressão no balé.
Ele ergueu o queixo. Seus olhos pálidos brilharam.
─ Nós estávamos falando sobre você.
─ Algo aconteceu com você também. - Disse teimosamente. ─ Eu pensei que você me odiava porque bati no seu
carro e o culpei. Mas não era nada disso, certo? Você me odeia porque eu pareço com ela, porque o faço lembrar
ela.
O rosto de Wolf se transformou em pedra. Os braços ao lado do corpo de retesaram.
─ Você... a amava. - Ela adivinhou.
Os olhos azuis dele dardejaram um olhar furioso, como pedaços cortantes de gelo, em direção ao seu rosto.
─ Maldita seja. - Sussurrou em um tom feroz. Ele se virou e foi embora.
Sara o observou ir, sem se ofender. Ela começou a compreendê-lo, só um pouco. Havia algo traumático em seu
passado também. Algo que o prendia, não o deixando estar em paz. Ele amou aquela mulher. Ela viu isso em seus
olhos.
Talvez ela estivesse morta. Ou ela o tivesse abandonado por outro homem. Seja qual fosse o motivo, ele ainda
estava ligado a ela, envolvido por ela. Ele não conseguia superar isso, como Sara não conseguia superar o que tinha
acontecido com ela.
Pessoas atormentadas, ela pensou e sorriu tristemente. Pegou o saco de migalhas do chão, jogou-o em um cesto
de lixo próximo, e voltou para o seu apartamento.

***

Gabriel voltou para casa naquele fim de semana. Ele parecia cansado e não muito feliz.
─ Semana ruim? - Perguntou Sara. Eles estavam no rancho em Comanche Wells. Ela só ficava lá quando Gabriel
estava em casa. Ela ficava nervosa por estar longe da cidade e sozinha.
─ Muito ruim. - Disse ele. ─ Nós estamos tendo alguns problemas nos campos de petróleo. Terroristas, sequestros,
o de costume, ele acrescentou com um sorriso. ─ Como você está?
Parecia uma pergunta corriqueira, exceto que os olhos de Gabriel estavam focados no rosto dela, enquanto
esperava por uma resposta.
─ Eu... estou na mesma. Por que você pergunta?
─ Porque Wolf Patterson me telefonou e me perguntou o que tinha acontecido com você, que a faz se afastar,
quando ele se aproxima de você.
Seu coração falhou uma batida.
─ Ele não tinha o direito. - Ela começou furiosamente.
─ Ele me lembrou de que esperou o reboque com você uma noite depois da ópera em Houston, quando o pneu do
seu carro furou, e que você quase correu para entrar na cabine com o motorista quando o reboque chegou. Então ele
me contou também sobre uma conversa que vocês tiveram no parque. Ele disse que você ficou com medo quando
ele se aproximou.
─ Só porque ele estava sendo sarcástico e desagradável. - Ela respondeu. ─ Eu não posso suportar aquele homem!
Seus olhos se estreitaram.
─ Eu conheço você muito bem para acreditar nisso. - Disse ele. ─ Você o acha atraente.
Ela corou.
Ele deixou escapar um longo suspiro.
─ Ele passou por inferno por causa de uma mulher que se parecia com você. - Ele disse depois de um minuto. ─ Ele
não é um homem mau. Não iria machucá-la deliberadamente. Mas ele pode não ser capaz de evitar. Wolf tem
cicatrizes. Muitas cicatrizes.
─ Você pode me dizer por quê?
Ele balançou a cabeça negando.
─ É muito pessoal.
─ Eu entendo.
Ele teve alguns problemas muito sérios com as mulheres. A mãe o odiava.
─ O que?
─ Ela não queria um filho, mas o marido queria. Quando ele morreu, ela enviou Wolf de um grupo de amigos para
outro. Em uma dessas casas, o pai era um alcoólatra. Ele bateu em Wolf até que ele teve idade suficiente para se
defender. Sua mãe achou engraçado quando as autoridades tentaram fazê-la trazê-lo de volta. Ela disse que não
tinha lugar na sua vida para um pirralho chorão que desde o início não queria.
Sara sentou-se, ela estava formando um quadro muito triste da infância de Wolf.
─ Mas ele acabou na polícia. Esteve no FBI. - Ela se lembrou de tê-lo ouvido dizer.
Gabriel não queria responder.
─ Ele foi policial em San Antonio por um tempo. Trabalhou para várias agências ao longo dos anos. Mas ele deixou
sua antiga vida para trás quando se estabeleceu aqui ao comprar o rancho.
─ Ele não parece um homem que se acomodaria em uma cidade pequena. - Ela disse calmamente.
─ Jacobsville é mais do que uma cidade pequena. - Ele respondeu. ─ Wolf tem inimigos. Jacobsville é cheio de
mercenários e ex-militares, e ele tem amigos aqui. Incluindo eu.
Ela franziu a testa.
─ Ele tem inimigos?
─ Mortais. - Ele respondeu. ─ Ele já sofreu um ataque.
─ Alguém tentou matá-lo? - Ela perguntou surpresa, odiando a sua própria reação ao saber que alguém tinha tentado
matá-lo.
Gabriel notou.
─ Sim. O que o torna um alvo, juntamente com qualquer um que se aproxime dele. - Ele colocou sua grande mão
sobre a dela. ─ Você já teve tragédias e traumas suficientes em sua vida. Eu não quero você perto dele.
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Sara o que você acha que está sentindo... - Disse ele, escolhendo as palavras. ─ Não iria acabar bem. Vocês não
superaram o passado. Ambos poderiam machucar seriamente um ao outro.
─ Entendi.
─ Ele não é homem para você. Eu não posso contar a ele o que aconteceu com você, e eu sei que você não vai
contar. Ele é agressivo com as mulheres que ele quer. Você não pode se dar ao luxo de deixar que ele a queira. Você
entendeu?
Ela engoliu em seco.
─ Sim.
─ Eu sinto muito.
Ela suspirou, forçou um sorriso e mudou de assunto.
─ Que tal uma fatia de bolo? Eu fiz um de chocolate.
Ele sorriu de volta.
─ Isso seria legal.

Capítulo Três
Sara ficou triste ao lembrar o que Gabriel tinha dito sobre Wolf Patterson. Até então, ela não tinha percebido o
quanto estava mudando sua atitude em relação a ele. Quando ele se ajoelhou diante dela no parque, para conversar
naquele tom suave, seu coração tinha começado a derreter. Mas ela sabia que Gabriel estava certo. Ela não podia se
dar ao luxo de encorajar um homem como ele.
Gabriel disse que Wolf era agressivo com as mulheres que ele queria. Portanto, o seu irmão sabia que ele tinha
mulheres.
Ela não devia ter ficado surpresa. Wolf era um homem bonito. Quando não a estava provocando e sendo
sarcástico, ele era interessante. Aquelas mulheres loiras que sempre o acompanhavam, certamente se apaixonavam
por ele. Pensou amarga.
Loiras. Loiras sempre. Ele odiava as morenas. Sara era morena...
Quanto mais pensava nisso, mais doía. Ela havia se enterrado em seus estudos por anos, aprendeu línguas,
viajou, fez tudo que podia para apagar as memórias horríveis da sua mente. Conseguia ser bem sucedida, às vezes,
por dias, mas os pesadelos retornavam e ela acordava gritando.
Durante o dia não havia problema. Podia cavalgar. Ela adorava cavalos, e era uma amazona talentosa. A
liberdade de andar pelos pastos montada em Black Silk, o mais rápido cavalo de Gabriel, era uma emoção
indescritível. Mantinha a dor à distância. E trazia paz.
Black Silk tinha um espírito selvagem, livre, como a própria Sara. Colocou a sela no animal, apertou a cilha* e
montou graciosamente. Ela o incitou a um galope através do campo. Sorrindo, o corpo esguio colado à sela, o longo
cabelo preto esvoaçando, ela oferecia uma imagem digna de ser pintada por um artista.
Mas o homem dirigindo pela estrada que a observava, estava cheio de horror. Ela poderia quebrar o pescoço
cavalgando assim!
Ele acelerou o carro e dirigiu até o final da pastagem, parou a Mercedes próximo a cerca, em seguida, desligou o
motor e saiu.
Sara surpresa, o viu e conduziu Black Silk para perto da cerca, afagando o animal para aliviar seu nervosismo.
Ela deixou-o caminhar para a nascente e ficou imóvel na sela, enquanto o cavalo bebia. Um furioso Wolf Patterson
saltou a cerca e se aproximou dela.
─ Desça. - Ele disse em um tom irado.
Sem dizer nada, ela continuou sentada e olhou para ele.
Ele estendeu a mão e a puxou do dorso do cavalo como se ela não pesasse nada. Ele ficou ali, segurando-a em
seus braços, e fitando os olhos escuros que pareciam surpresos.
─ Sua louca, você poderia ter morrido! - Ele rosnou com os dentes cerrados.
─ Mas... eu sempre cavalgo... assim. - Ela disse.
O rosto dele estava pálido. Os olhos brilhavam como fogos de artifício, e percorriam o belo rosto, os grandes
olhos negros e a curva suave da boca de Sara. Ele gemeu, quase tremendo de desejo, e de repente desceu a boca
direto sobre os lábios macios, sem um único sinal de hesitação.
Wolf sentiu o corpo de Sara enrijecer. Ele insistiu, mas quanto mais aprofundava o beijo, mais ela ficava rígida.
Depois de alguns segundos, ele percebeu que Sara tinha medo dele.
Wolf se forçou a desacelerar, embora a boca de Sara fosse o néctar mais doce tinha saboreado em anos. Ele tocou
o lábio superior dela com ternura, provocando, brincando com ele em um silêncio quebrado apenas pelo ritmo e o
som áspero de sua própria respiração.
─ Não, não vou machucá-la. - Ele sussurrou. ─ Não lute comigo. Abra a boca para mim. Deixe-me saboreá-la...
Ela nunca tinha sentido nada parecido. Suas mãos frias e trêmulas circundaram firmemente o pescoço dele,
permitindo que ele a beijasse. Fazia anos desde que ela tinha mesmo, apenas, tolerado um beijo. A boca de Wolf era
sensual, forte, muito habilidosa. Ela não sabia o que fazer, mas relaxou um pouco. Sentia-se bem. Parecia...
maravilhoso. Nada como o homem em seus pesadelos...
Ele levantou a cabeça alguns segundos depois e olhou em seus grandes e curiosos olhos negros.
─ Você não sabe como fazer isso. - Disse ele em um tom profundo e surpreso.
Ela engoliu em seco. Podia sentir o gosto dele em sua boca, algo como café e hortelã.
Ele estava fascinado. Encostou a boca de novo, tocando os lábios dela gentilmente, sorrindo fracamente, porque
ela não estava resistindo.
─ Assim. - Ele sussurrou, e ensinou a ela pequenos, lentos e suaves movimentos dos lábios que eram excitantes.
Ela correspondeu aos movimentos, com o coração acelerado. Wolf era o seu maior inimigo no mundo e ela o
estava deixando beijá-la. Não só isso... Ela estava correspondendo ao beijo. Ele tinha gosto de mel...
─ Isso mesmo, querida. - Ele sussurrou. ─ Sim. Assim...

*Cilha - cinta larga de couro ou de tecido reforçado, que cinge a barriga das cavalgaduras para apertar a sela ou a carga.
Os braços de Wolf contraíram e sua boca abriu, pressionando os lábios entreabertos de Sara. Seu corpo estava
enrijecendo enquanto a abraçava. Ele não sentia nada tão poderoso há muito tempo. A boca de Sara era o mel mais
doce que ele já tinha provado.
Ela sentiu a força dos braços duros, e o calor do peito musculoso contra seus seios. Ela gemeu baixinho enquanto
sensações que ela nunca tinha sentido em sua vida atravessavam seu corpo.
Ele ouviu seu gemido suave e de repente pressionou-a contra ele, enquanto a febre do desejo ameaçava queimá-
lo. Então, sentiu que ela enrijecia.
Ele se forçou a levantar cabeça. Os olhos de Sara estavam arregalados e chocados, mas agora não havia medo
neles. Seus olhos se estreitaram quando ele percebeu o motivo. Os mamilos dela estavam duros, como pequenas
pedras pressionando em seu peito. Ela saberia por que estavam assim, perguntou-se. Porque ela agia como uma
mulher em sua primeira vez com um homem.
Ele ergueu o queixo dela enquanto a observava. Sentindo-se orgulhoso.
─ Você já esteve com um homem? - Ele perguntou em um sussurro rouco.
A reação dela o surpreendeu. Ela fez um som como um soluço preso na garganta e o empurrou freneticamente.
─ Coloque-me no chão. Coloque-me no chão, por favor!
Wolf a colocou no chão. Ela parecia perturbada.
A reação dela o irritou. Ele não queria tocá-la. O jeito que ela estava cavalgando o tinha feito ficar com medo, só
Deus sabia o motivo. Ele só estava tentando mantê-la segura. Mas ela se afastou como se ele tivesse feito algo
intolerável.
Seus olhos claros se estreitaram.
─ Sua vida amorosa não é da minha conta. - Disse ele rapidamente. ─ Mas foi uma boa representação.
A língua de Sara estava grossa.
─ representação?
Sua boca se curvou em um sorriso frio e sarcástico.
─ A virgem assustada. - Explicou. Ele deslizou as mãos nos bolsos, e lembranças de ódio inundaram sua mente, de
outra morena, provocante, tímida e inocente. Só que ela não era inocente. Ela o havia atormentado, arruinado a sua
vida. E tudo tinha começado da mesma forma.
Ela colocou os braços em volta do peito. Sentia-se completamente gelada. Anatomicamente, ela ainda era
virgem. Mas apenas devido a uma barreira física que tinha parado seu padrasto por tempo suficiente para Gabriel
arrombar a porta.
Ela fechou os olhos, envolta em uma onda de náusea. Ela estava de volta aquele tempo, aquele lugar, em seu
quarto, gritando por ajuda, que não esperava receber. Sua mãe tinha ido fazer compras. Gabriel estava na escola. Só
que ele tinha saído mais cedo da aula. Graças a Deus por isso!
Ela estremeceu.
Wolf a observava, dividido entre emoções conflitantes. Parte dele estava queimando com um forte desejo de
deitá-la na grama e tomá-la ali mesmo. Outra parte mais racional acreditava que tudo era uma representação. Uma
mulher viajada, sofisticada, e da idade dela com medo de beijar? Ela tinha que estar fingindo. Em seu carro, depois
da ópera, no parque e agora aqui. Tentando-o, fingindo estar com medo para torná-lo vulnerável. Para, em seguida,
atacá-lo. Exatamente como Ysera havia feito.
Ysera. Seus olhos se fecharam com um gemido silencioso. Ele a tinha amado. O que ela fez foi além de
crueldade.
Sarah se afastou. Montou na sela. Ele não olhou para Wolf Patterson.
─ Eu tenho montado desde que tinha três anos de idade. - Ela informou. ─ Quando eu era jovem, participava de
rodeios. Eu sei lidar com cavalos.
─ Agora eu sei, certo? - Ele disse. E sorriu. Mas, não era um sorriso amável. Era desdenhoso, arrogante. ─ Apenas
para registro, eu não gosto de morenas. Você deve ter notado que as mulheres com quem saio são loiras.
Ela não respondeu.
─ A virgenzinha assustada não vai funcionar novamente. - Acrescentou. ─ Você vai ter que pensar em algo um
pouco mais original. Eu sou uma raposa velha, querida. Conheço as mulheres.
Ela sentiu um arrepio na espinha. E levantou o queixo.
─ Apesar do que possa pensar eu não estou disponível para um tórrido romance, o Sr. Patterson. - Disse com
altivez. ─ E definitivamente não com você.
Ele apenas sorriu.
─ Sorte sua. - Ele retrucou.
Sara lutou contra a lembrança de como ele havia sido amigável e gentil com ela. Ela não queria lembrar. Sua
mão apertou as rédeas. Então, involuntariamente, lembrou o que Gabriel disse sobre a mãe de Wolf, e estremeceu
por dentro. A mãe tinha causado um dano incalculável a ele. Sem dúvida, houve outra mulher, também, mais
recentemente, que tinha acrescentado outras cicatrizes. Wolf era a pessoa mais desconfiada que ela já havia
conhecido. Ela não confiava nas pessoas, também, mas não podia contar a ele. Ele não gostava dela. Mas por que o
beijo? Sara não conseguia entender como Wolf passava de uma paixão ardente a um comportamento frio e vice-
versa com ela.
Ele estava observando de perto o cavalo.
─ Pensando em alguma coisa? - Ela perguntou friamente.
─ Você não conseguiu fazer a vassoura voar?
Os olhos negros brilharam como um relâmpago.
─ Se eu tivesse uma vassoura, bateria em você com ela!
─ E você sabe o que eu faria se você fizesse isso, certo? - Sua voz era carinhosa e rouca. Seus olhos eram sensuais,
assim como aquela boca dura e esculpida, sorrindo como se soubesse tudo o que ela estava sentindo. Ela podia ver
em sua mente o que ele estava pensando, como arrastá-la e puxá-la em seus braços, abaixar a cabeça...
Ela engoliu em seco, e lutou contra uma nova e perturbadora fome.
─ Eu tenho que ir para casa. - Ela virou o cavalo com habilidade.
─ Hora de alimentar os macacos voadores?
Ela começou a dizer algo, mordeu a língua em vez disso e partiu a galope, com o rosto vermelho.

***

Em geral, Gabriel não gostava de festas, mas sempre havia uma exceção. Jacobsville promovia eventos
beneficentes para ajudar o abrigo de animais local. Havia um baile no Centro Cívico, e quase todos os moradores da
cidade participariam. Esse era um dos vários eventos que seriam feitos ao longo do ano. Este era o de primavera.
Sara foi com o irmão. Michelle voltaria para casa em breve, mas tinha uma entrevista de emprego em San
Antonio, e quis passar lá o fim de semana no apartamento de Sarah. Então, só Gabriel e Sarah foram ao evento.
Sara deixou o cabelo, naturalmente espesso e negro, caindo até a cintura nas costas. Ela usava um vestido branco
longo, que favorecia a sua pele cor de oliva clara, os olhos negros e a sua beleza. Como acessório usava apenas, um
colar de pérolas e brincos combinando.
Estava deslumbrante.
Wolf Patterson a observava à distância e odiou vê-la naquele vestido. Ele se lembrou de Ysera com um vestido
semelhante quando foram a uma discoteca em Berlim. Ao final da noite, ele havia retirado o vestido. Ysera o havia
enfeitiçado, seduzido, sussurrado o quanto o amava, o quanto o queria. Então, depois o ridicularizava, ria dele, o
fazia se sentir como um idiota.
Sara notou aquele olhar no rosto dele e não ao conseguiu entender. Ela desviou o olhar e sorriu para um senhor
idoso que parecia ter vindo sozinho ao evento.
─ Uma menina bonita como você não deveria estar perdendo tempo com um ancião como eu. - Brincou ele. ─ Você
deveria estar lá na pista dançando.
Ela sorriu tristemente enquanto bebia um refrigerante.
─ Eu não sei dançar. - Ela sabia, mas não podia suportar ficar tão perto de um homem. Não mais.
─ É uma vergonha. Você deveria pedir ao nosso chefe de polícia algumas aulas. - Ele riu, apontando para Cash
Grier, que estava na pista de dança com sua bela esposa ruiva, Tippy, dançando uma valsa magistral.
─ Eu tropeçaria nos meus próprios pés e mataria alguém. - Sara riu suavemente.
─ Ei, Sara. - Era um dos homens de Eb Scott. Ela o conhecia. Gabriel o tinha convidado para ir a sua casa algumas
vezes. Ele era alto, moreno, bonito, de olhos verdes brilhantes. ─ Quer dançar comigo?
─ Sinto muito. - Ela recusou com um sorriso. ─ Eu não sei dançar...
─ Isso é um absurdo. Eu posso te ensinar. - Ele retirou a bebida da mão dela e a puxou em direção a pista de dança.
Ela reagiu mal. Se afastou dele, corando.
─ Ted, não. - Ela disse em um tom cortante, puxando a mão.
Ele já havia bebido. E não percebeu o que estava acontecendo com ela.
─ Ah, vamos lá, é apenas uma dança!
Wolf Patterson agarrou-o pelo pescoço e quase o jogou para longe de Sara.
─ Ela disse que não quer dançar. - Ele disse para o homem, e sua postura era beligerante o suficiente para fazer o
outro homem entender. Felizmente, eles estavam em um canto e não chamaram a atenção. Sara estava muito
envergonhada no momento.
─ Céus! Desculpe, Sara. - Ted disse nervosamente, olhando para Wolf Patterson, cujos olhos brilhavam como gelo
recém-formado.
─ Tudo bem. - Ela disse com uma voz rouca. Mas suas mãos tremiam.
Ted fez uma careta, acenou para Wolf e desapareceu.
Sara engoliu em seco, em seguida, engoliu em seco novamente. Ela estava tremendo. Qualquer tipo de agressão
feita por um homem, embora leve, era o suficiente para desequilibrá-la.
─ Venha comigo. - Wolf disse calmamente. Ele se colocou de lado, indicando a porta lateral.
Ela o seguiu para o lado de fora do salão. A noite estava fria, e seu casaco estava na sala como os de todas as
outras pessoas. Wolf retirou o paletó e o colocou sobre os ombros macios e nus dela. A jaqueta tinha o calor e
cheiro másculo de seu corpo.
─ Você vai ficar com frio. - Protestou ela.
Ele colocou as mãos nos bolsos e deu de ombros.
─ Não sinto muito frio.
Eles olharam para o longo pasto que levava a uma área arborizada em torno do centro comunitário. A noite
estava tranquila, exceto para o som distante de cães uivando. A lua crescente emitia luz suficiente para que eles
enxergassem um ao outro.
─ Obrigada. - Ela murmurou, sem olhar para cima.
Ele suspirou profundamente.
─ Ele estava bêbado. Vai pedir desculpas a próxima vez em que encontrar com você.
─ Sim.
─ Você tem alguns problemas reais com os homens. - Disse ele depois de um minuto.
─ Não, eu...
Ele virou-se rapidamente em direção a ela. Ela pulou para trás apavorada. Ele riu com frieza.
─ Não?
Ela mordeu o lábio inferior e olhou para baixo.
─ Você acha que pode superar as coisas. - Disse ela em um tom triste. ─ Mas o passado o persegue. Você não pode
escapar, não importa o quão rápido você corra, ou o mais longe você vá.
─ Eu concordo com você. - Ele disse com amargura.
─ Me desculpe, se eu te incomodei naquele dia. - Ela disse.
─ Você me lembra ela. - Ele respondeu. ─ Ela era bonita, também. Morena, olhos negros, pele morena. Com
iluminação apropriada... - Ele hesitou. ─ Eu a faço lembrar o homem que a machucou? - Ele perguntou
bruscamente.
─ Ele era loiro. - Ela disse hesitante.
─ Eu entendo.
Ela fechou os olhos.
─ Gabriel não me diz coisa alguma sobre você. - Disse Wolf.
─ Estamos quites. Ele também não me diz coisa alguma sobre você, nada.
Ele deu uma risadinha.
─ Interessada, não é?
─ Não... desse jeito. - Disse ela com os dentes cerrados.
─ Realmente? - Ele virou e se aproximou dela. ─ Você retribuiu o meu beijo lá na pastagem.
Ela corou.
─ Eu... você me pegou desprevenida.
─ Você é tão inexperiente assim? - Ele perguntou sem rodeios. ─ Essa inocência é verdadeira ou um fingimento?
Algo para desarmar um homem e fazê-lo sentir-se protetor?
Sara apertou mais o casaco ao redor de seus ombros magros.
─ Eu vivo bem comigo mesma. - Ela disse depois de um minuto... ─ Eu não preciso de outras pessoas.
─ Eu me sinto assim, também, a maior parte do tempo. Mas existem as longas noites vazias quando eu tenho que ter
uma mulher só para passar o tempo.
Seu rosto estava queimando.
─ Mulheres de sorte. - Ela murmurou.
A mão dele subiu, muito lentamente, e afastou do rosto dela uma mecha de cabelos negros longos e sedosos.
─ Sim, elas são. Eu sou um amante carinhoso. - Ele disse suavemente.
Ela recuou nervosamente. Não gostou das imagens mentais que estavam se formando em sua mente.
─ Sara, você está bem? - Gabriel perguntou da porta.
Os dois se viraram para olhar para ele.
─ Sim. - Ela disse.
Ele dirigiu um olhar eloquente a Wolf.
─ É melhor você entrar. Está frio.
─ Vou entrar em um minuto. - Ela prometeu.
Gabriel assentiu e entrou no salão, mas com óbvia relutância.
─ Seu irmão não me quer perto de você. - Disse Wolf.
─ Sim. Ele me disse que você é... - Ela corou quando se lembrou do que Gabriel havia dito sobre Wolf ser agressivo
com as mulheres que queria. ─ Ele disse que você tem um passado com o qual não pode lidar.
─ Como você. - Ele respondeu.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Ele disse que poderíamos nos prejudicar mutuamente.
─ Ele está certo. - Ele respondeu com os olhos escuros semicerrados. ─ Passado de um certo ponto, eu não seria
gentil. E eu acho que a violência é o que assusta você.
─ Eu não posso fazer isso. - Ela disse, com voz aguda.
─ Fazer o quê?
─ Dormir... com alguém.
O rosto dele contraiu.
─ Então você não deve enviar sinais de que está disponível. Você não acha?
─ Eu não faço isso!
─ Você ficou em meus braços como uma boneca feita de seda e me deixou beijá-la. - Disse suavemente, com sua
voz rouca e sensual. Ele se inclinou para frente conspiratoriamente. ─ Isso é um sinal.
─ Fiquei surpresa. - Ela respondeu. ─ Eu não estava esperando.
─ Você não gosta de homens perto de você. - Disse ele, pensando em voz alta. ─ Você estava com medo de Ted.
Mas gostou quando eu toquei em você, Sara.
─ Eu não!
Wolf traçou o arco suave da boca de Sara com o dedo em uma apreciação lenta e sensual que a fez tremer.
Ele se aproximou mais, observou-a elevar o rosto impotente, sentiu a aceleração da respiração dela.
─ Seu irmão estava certo. - Ele sussurrou enquanto se inclinava para ela. Sua boca tremia próximo aos lábios
entreabertos de Sara, mal os tocando, roçando. ─ Eu sou muito mais perigoso do que pareço.
Ela queria fugir. Ela realmente queria fugir. Mas a sensação dele tão perto dela, o cheiro dele, familiar e amado,
o intenso calor de sua boca brincando com a dela, tornava-a imprudente. Ela nunca tinha realmente desejado beijar
um homem. Mas ela amava quando Wolf a beijava. Ele fazia as más recordações desaparecerem.
Os dedos de Wolf percorriam para cima e para baixo o longo pescoço de Sara, fazendo pequenos movimentos
sensuais enquanto com a boca acariciava os lábios dela.
─ Você pode se tornar um vício. - Ele sussurrou. ─ Isso seria a pior coisa que poderia acontecer.
Ela arregalou os olhos, e viu o rosto dele enrijecer, os olhos reluzirem.
─ Estou falando sério. - Ele disse bruscamente. ─ Eu odeio as morenas. Eu não quero me vingar do passado em
você, mas eu poderia não ser capaz de evitá-lo. - Sua boca esmagou brevemente a dela em um beijo violento e, em
seguida, se afastou. ─ Ela gostava de me deixar louco na cama, e depois ria de mim quando eu perdia o controle.
Ela engasgou com as imagens que atravessaram a sua mente.
─ Eu não acho que ela sentia alguma maldita coisa por mim. Mas ela fingia que sim. Ela me disse que era virgem.
Ela até mesmo agia como uma...
Ele se afastou de Sara. Seus olhos claros faiscaram.
─ Assim como você. - Ele disse em uma voz rouca. ─ Ela se afastava de mim para me fazer chegar mais perto, em
seguida, fingia que eu tinha conseguido ultrapassar as barreiras por que eu não era como os outros homens e de mim
ela não tinha medo.
Sara começou a entender o que Gabriel quis dizer. E ela sentiu uma sensação de perda. Este homem foi ainda
mais machucado do que ela.
─ Você já fez terapia? - Perguntou ela, com tristeza.
─ Terapia? - Ele riu alto. ─ Eu passei dois anos com uma mulher me ridicularizando a cada vez que eu estava em
seus braços, fazendo-me implorar por satisfação. Uma droga de terapia pode corrigir isso? - Ele perguntou em tom
áspero.
Ela fez uma careta.
─ Então eu saio com loiras. Eles não trazem más recordações, e posso fazê-las perder o controle, fazê-las me
implorar. - Ele sorriu friamente. ─ Vingança.
Ela sentiu um intenso mal-estar. Ele faria isso com ela, se eles se envolvessem. Ela pagaria pelos traumas que a
outra mulher havia lhe causado. Ela não tinha percebido até então que se sentia diferente com ele do que jamais se
sentiu com outros homens.
─ Eu a choquei? - Ele perguntou sarcasticamente.
─ Sim. - Ela disse suavemente. ─ Eu... nunca tive... Bem, isso não é inteiramente verdade. - Ela baixou os olhos. ─
Meu padrasto tentou me estuprar. Ele foi violento e vulgar e houve um julgamento... Eu tive que testemunhar contra
ele. Ele foi para a cadeia.
─ Você o provocou? - Ele perguntou friamente. ─ Até deixá-lo louco, e ele tomar uma atitude?
Por que ela tinha pensado que ele poderia ser diferente dos outros homens? Ela riu baixinho para si mesma. Ela
retirou o paletó e entregou a ele.
─ Tenho certeza de que isso foi o que eu fiz. - Disse ela. ─ Deve ter sido minha culpa.
Ele não podia ver seu rosto. E não percebeu que ela estava sendo sarcástica.
─ Maldito idiota. - Ele retrucou. ─ Não fique pensando que vai ter a chance de me tentar.
─ Senhor Patterson - Ela disse com orgulho ferido. ─ Nunca me ocorreu que você seria tão estúpido. Com licença.
Ela passou por ele e entrou no centro cívico. Encontrou Gabriel de pé perto das bebidas. Ela estava calma, mas
muito pálida.
─ Eu gostaria de ir para casa, por favor. - Ela disse assustada.
Gabriel olhou por sobre a cabeça dela e observou a expressão fria de Wolf Patterson. Ele olhou para o amigo,
mas Sara parecia não suportar mais.
─ Sim. - Ele disse. ─Vamos.

***

Sara fez café. Eles se sentaram à mesa da cozinha e beberam.


─ O que ele disse?
─ O mesmo de sempre. - Ela suspirou. ─ Mas ele me contou sobre aquela mulher...
─ Ysera?
Ela olhou para cima.
─ Esse é o nome dela?
Ele balançou a cabeça. Seu rosto estava sombrio.
─ Nós a odiávamos. Nós sabíamos o que ela estava fazendo com ele, mas você não pode separar um homem de uma
mulher pela qual ele pensa que está apaixonado. A maldita quase o destruiu. - Ele franziu a testa. ─ Ele nunca falou
sobre isso com ninguém. Nem mesmo comigo. Eu soube por uma garota que trabalhou com ela. Ela acreditava que
Ysera era mentalmente perturbada. Eu concordo com ela.
─ Ele me contou sobre ela como um alerta. - Ela disse e balançou a cabeça. ─ Eu não posso imaginar um homem
submetendo-se a isso.
─ Ele a amava. - Ele disse simplesmente.
Sara suspirou e tomou um gole de café.
─ Ele disse que não acreditava que a terapia poderia fazer algo por ele. - Ela corou.
─ O que mais ele disse?
Ela riu com amargura.
─ Ele disse que eu devo ter provocado o nosso padrasto até que ele enlouqueceu por mim.
─ Eu vou quebrar a porra do pescoço daquele idiota!
─ Não, não vai. - Ela disse, puxando-o pela manga da camisa para que ele se sentasse novamente. Ele não sabe nada
sobre mim. Isto foi o que um dos meus amigos pensou.
─ Você tinha treze anos!
Ela fez uma careta.
─ Talvez eu estivesse vestindo short demasiado curto...
─ Oh, Deus, não faça isso para você mesma! - Ele explodiu. ─ Você era uma criança, muito mais inocente do que a
maioria das garotas de sua idade. Ele a perseguiu por meses.
─ Eu não lhe disse isso! - Disse ela, envergonhada.
─ O promotor me disse. - Ele respondeu. E estava lívido. ─ Disse que tinha que ter pena de morte para casos como
o seu.
Ela olhou para a mesa.
─ Eu não tenho paz. Eu tenho pesadelos. - Ela sorriu tristemente. ─ Aquele homem que joga WoW comigo,
lembra? Ele diz que tem pesadelos também. Claro, ele disse ser um homem, mas poderia ser uma mulher, um
homem ou uma criança, que não ia importar, eu não sei, mas ele... ele me dá paz. Nós nos damos muito bem juntos.
Ele disse que não poderia escapar do passado. Eu sei como ele se sente.
Gabriel não se atreveu a dizer que o amigo que jogava com ela WoW não era outro senão Wolf Patterson. O
jogador era o único verdadeiro confidente que ela tinha, além de Gabriel. Esse jogo era uma das poucas coisas boas
em sua vida triste. Talvez fosse a única coisa que Wolf tivesse também.
─ Você sabe quem ele é no mundo real? - Ele perguntou casualmente.
─ Oh, não. Eu não quero saber. - Acrescentou. ─ O jogo não é como a vida real. Nós nos divertimos jogando juntos
como crianças. - Ela riu. ─ É muito engraçado. Eu não tenho amigos, você sabe. Mas eu encontro um amigo nele.
Eu posso falar com ele. Não sobre coisas íntimas. Mas ele é uma pessoa compassiva.
─ Como você também é.
Ela sorriu.
─ Eu estou tentando ser.
─ Sara, você entende agora por que eu disse que você não pode se dar ao luxo de deixar Wolf se aproximar de
você?
Ela assentiu com a cabeça.
─ Alguém disse que Ted se tornou insistente em dançar com você. - Ele retrucou.
─ Sim. Ele tentou me forçar a dançar com ele. - Ela disse inquieta. ─ O Sr. Patterson agarrou-o pelo pescoço e
quase o jogou contra uma parede. - Ela estremeceu. ─ Ele é assustador quando perde a paciência.
─ Só porque ele nunca a perde. - Gabriel respondeu. ─ Este é um homem que você não quer ver ficar irritado. Bem,
se você for um homem, eu digo. Eu nunca soube que ele tenha machucado uma mulher. - Ele a estudou. ─ Ele foi
agressivo com Ted?
─ Sim.
Ele não queria pressupor o óbvio, mas a situação era clara para ele. Ted estava tentando flertar com Sara, e Wolf
tentou protegê-la. Ciúmes? Possivelmente.
─ Isso não vai terminar bem. - Disse ele, pensando em voz alta.
─ Você acha que eu não sei disso? - Ela perguntou a ele. ─ Ele até me disse que... se vinga em outras mulheres o
que a morena fez com ele. - Ela corou.
─ Ele não fala sobre isso com ninguém. - Ele repetiu. ─ Por que ele falou com você sobre isso?
─ Eu não entendo por que, também. - Disse ela. ─ Ele odeia as morenas.
─ Certifique-se que ele não se interesse por você. - Ele disse com firmeza.
Ela assentiu com a cabeça. Estava se lembrando de como era beijar Wolf, estar nos braços dele, e não queria se
lembrar. Não se atrevia a dizer a Gabriel como o relacionamento entre eles tinha avançado para o nível físico.
─ Não se preocupe. - Ela disse suavemente, e sorriu. ─ Eu não sou suicida.

***

Poucos dias depois, ela teve a oportunidade de lembrar essas palavras.

Capítulo quatro
Sara estava passando de carro pelo rancho de Wolf Patterson em um domingo à tarde, a caminho de casa
depois de comprar pão no mercado quando notou uma grande forma preta caída no meio da estrada.
Ela parou bem a tempo de evitar bater no que estava na estrada, um grande Rottweiler. Havia sangue por toda
parte.
Ela estacionou o carro no meio da estrada. Infelizmente não havia tráfego, sendo assim não podia sinalizar
pedindo ajuda. Ela se aproximou do grande cão cuidadosamente. Ele ganiu. Havia sangue no focinho e uma
perna estava dobrada em um ângulo estranho.
─ Oh céus. - Ela correu para o carro, pegou um cobertor no banco de trás e o colocou no banco da frente. Em
seguida, voltou para perto do cão. Ele era enorme, mas talvez ela pudesse levantá-lo. Se pudesse carregá-lo até o
carro, poderia encontrar um veterinário. Esperava não ser mordida, mas não podia ficar sem fazer nada.
Agachou-se, falando suavemente, acariciando a cabeça do cão.
─ Pobre coitado. - Sussurrou, e deslizou seus braços por baixo dele.
Ela estava vestindo um suéter amarelo e calça preta. A roupa ficou cheia de sangue enquanto ela lutava para
erguer o enorme animal. Ouviu um veículo se aproximando e cuidadosamente recolocou o cão no chão. Correu
em direção ao caminhão, agitando os braços freneticamente.
─ Que diabos...? - Disse Wolf Patterson, quando saiu correndo do caminhão. Ela estava coberta de sangue. Ele
sentiu uma pontada de medo. Se ela tivesse sido ferida. ─ Sara! - Foi quando viu Hellscream, que se encontrava
caída na estrada. ─ O que aconteceu? - Ele disse um pouco fora de si. ─ É a minha cadela.
─ Eu não sei. - Ela lamentou. ─ Quase a atropelei antes de vê-la deitada na estrada. Alguém deve tê-la atropelado
e fugiu! Maldito idiota insensível que fez isso! Eu tentei levantá-la e colocá-la no meu carro para levá-la ao
veterinário, mas ela é muito pesada!
─ Vou levá-la ao veterinário. - Ele disse. E olhou para Sara assustado. ─ Sua blusa está encharcada de sangue.
─ Isso sai. É só lavar - Ela disse. ─ Oh, apresse-se, ela está com dor!
Ele se virou e colocou a grande cadela no assento ao seu lado e afastou-se rapidamente.
Sara foi para casa, tomou um banho e lavou as roupas. Esperava que a cadela ficasse bem. Gabriel tinha ido
encontrar Eb Scott. Ela desejou que ele estivesse em casa, assim poderia convencê-lo a ligar para Wolf e
perguntar sobre o animal. Se sentia desconfortável com Wolf para ligar ela mesma.
Estava sentada à mesa da cozinha tomando café quando ouviu um carro chegar.
Ela foi até a porta, olhou através do olho mágico, e viu Wolf Patterson caminhando para a varanda.
Ele estava vestindo roupas de cowboy, jeans, camisa de cambraia, um surrado Stetson preto e botas marrons
que tinham visto melhores dias.
Ela abriu a porta antes que ele pudesse bater.
─ Como ela está? - Ela perguntou.
Ele balançou a cabeça para enfatizar o que dizia.
─ Ela vai ficar bem. É domingo e a equipe tinha ido embora, então eu tive que ajudar o Dr. Rydel a segurá-la
enquanto ele limpava as feridas e suturava. Ele também estabilizou a fratura da perna dela. Ela está muito
machucada, mas ele diz que ela vai ficar curada. - Ele hesitou. ─ Obrigado por tentar socorrê-la.
─ Eu nunca poderia deixar um animal ferido na estrada.
─ Alguém fez. E eu vou descobrir quem. - Acrescentou friamente.
Olhando para aqueles penetrantes olhos azuis, ela ficou feliz por não ser a pessoa que deixou o cão ferido na
estrada.
─ você quer... café? - Ela perguntou.
─ Sim. Gabe está?
─ Ele foi encontrar Eb Scott, mas já deve estar voltando. Você quer falar com ele?
─ Sim. Eu vou esperar, se eu puder.
─ Claro.
Ela serviu café em uma caneca enquanto ele sentava em uma cadeira à mesa. Ele a observou se movimentar
pela cozinha, pegando o creme e o açúcar para colocar sobre a mesa.
─ Você cozinha? - Ele perguntou de repente.
Ela riu suavemente.
─ Sim.
Ele estava olhando para o livro de receitas na prateleira em cima do balcão. ─ Cozinha francesa?
─ Eu gosto de doces franceses. - Disse ela. ─ Nós não vivemos perto o suficiente da cidade para comprá-los,
então eu aprendi a fazê-los. Meu pai adorava os éclairs*. - Recordou com um sorriso triste.
─ Sua mãe cozinhava?
O rosto de Sara se fechou.
─ Açúcar ou creme no seu café? - Ela perguntou.
Wolf fitou o rosto dela subitamente pálido. Ele balançou a cabeça.
─ Sua mãe a culpou pelo que aconteceu.
Ela sentou-se e colocou as mãos em volta da caneca.
─ Sim.
─ Ela a via como uma rival, eu acho.
Ele fazia soar como se Sara fosse adulta quando aconteceu. Mas era doloroso demais discutir sobre isso.
─ Eu não sei como ela me via. Ela me odiava. Eu nunca mais a vi depois do julgamento. Ela morreu há algum
tempo.
Ele levou a caneca aos lábios e levantou uma sobrancelha.

*Éclair - No Brasil conhecido como Bomba de chocolate é um doce de confeitaria caracterizado pelo formato longo, feito com massa: 250ml de água [pode-se trocar metade da medida por leite];100g de manteiga sem sal;1g de
sal;165g de farinha de trigo peneirada; 5 ou 6 ovos. Preparo: Preaqueça o forno a 200 graus, e prepare uma assadeira grande, untada e coberta com papel manteiga. Em uma panela média ferva a água, a manteiga e o sal.
Adicione a farinha de trigo toda de uma vez e cozinhe, mexendo sem parar com uma colher de pau, por uns 3 ou 4 minutos, até a massa se desgrudar do fundo da panela [lembra muito a massa de coxinha].Passe a massa para a
tigela da batedeira e deixe amornar. Quando amornar, comece a bater em velocidade baixa, acrescentando os ovos aos poucos. Bata até formar uma massa mole, lisa e brilhante. Passe a massa para um saco de confeitar
com bico liso de uns 2,5 ou 3 cm de diâmetro.Modele a massa do formato desejado, sobre o papel manteiga: pequenas bolinhas para carolinas, linhas de uns 10cm de comprimento para bombas, etc. Leve ao forno por 10
minutos. Depois disso, abaixe o forno para 160 graus e asse por mais uns 40 minutos, até a massa dourar. Retire do forno, deixe esfriar por uns 5 minutos e passe os doces para uma grade, para esfriar [assim a massa não forma
umidade na base, o que comprometeria sua textura]. Recheie e coloque a cobertura de chocolate derretido, fondant ou açúcar peneirado. Recheio de creme de confeiteiro, ganache de chocolate branco, brigadeiro , etc.
─ Você poderia fazer uma ferradura corroer nesse café. - Ressaltou.
Ela sorriu.
─ Eu gosto de café forte.
─ Eu também.
Ele bebeu novamente.
─ Minha mãe me abandonou quando eu tinha quatro anos. Ela odiava o meu pai. Eu tive a infelicidade de me
parecer com ele.
Ela não revelou o que Gabriel lhe disse sobre esta parte da vida de Wolf.
─ Sinto muito. - Disse ela. ─ Eu não sei o que é ter uma mãe carinhosa. Gabriel e eu nunca tivemos muito amor
da nossa.
Ele virou a caneca nas mãos.
─ Nem eu.
─ Ela ainda está viva?
Os olhos dele deixaram transparecer uma raiva contida.
─ Eu não sei. Eu não me importo.
Ela suspirou.
─ Eu sentiria o mesmo se a minha ainda estivesse viva.
Ele tomou um gole de café.
─ Aquela blusa que você estava vestindo era cara. - Ele disse depois de um minuto. ─ Você nem mesmo hesitou
em socorrer Hellie.
─ Esse é o nome dela? Hellie? - Perguntou com um sorriso.
Ele balançou a cabeça afirmando. Mas não acrescentou que era o apelido de Hellscream. Ela não entenderia a
referência, de qualquer maneira. Hellscream era um Orc masculino em seu jogo online Wow e ele achou que o
nome seria engraçado para uma cadela. Hellscream era o odiado líder das forças da Horde.
─ Eu a comprei quando me mudei para cá. Ela tem três anos. A minha melhor garota. - Ele acrescentou com um
sorriso, um dos poucos sorrisos genuínos que ela já tinha visto em seu rosto duro.
Ela observou o dorso das mãos dele. Havia cicatrizes finas sobre elas.
Ele levantou uma sobrancelha.
─ Quer perguntar alguma coisa? - Ele sussurrou.
─ Você disse que tem cicatrizes em suas mãos por descer pelas cordas dos helicópteros do FBI. - Disse ela.
─ Sim.
─ Como você conseguiu as cicatrizes nas costas de suas mãos por fazer isso? Você usava luvas, certo?
Sua expressão se tornou estranha.
─ Você é perceptiva.
Ela estudou o rosto dele.
─ Isso significa que você não está me contando tudo, Sr. Patterson.
Ele olhou nos olhos dela e, em seguida, desviou o olhar.
Ela era tão formal com ele. Bem, ela era jovem e ele não. Ele tinha trinta e sete contra os vinte e poucos dela.
A diferença de idade entre eles o fazia estremecer. Embora se sentisse tentado, ela era muito jovem para um
homem com seu passado conturbado. Sem mencionar que ele era amigo de Gabriel. Não podia se dar ao luxo de
se envolver com Sara. Ela era cautelosa com seu passado, havia se insinuado para o padrasto e o tinha separado
de sua mãe. Ela fingia ser inocente, mas será que era? Ysera tinha usado esse truque com ele. Ele não confiava
nas mulheres. A maioria era sedutora e dissimulada.
─ Nunca fica aqui no rancho quando Gabe está fora da cidade, certo? - Ele perguntou, para quebrar o silêncio
constrangedor.
─ Não. - Disse ela. ─ Fico nervosa... se estiver sozinha à noite.
─ Você tem um apartamento em San Antonio, certo? Lá você fica sozinha.
─ Conheço os vizinhos. - Disse ela. ─ Aqui sou apenas eu. - Ela engoliu em seco. ─ Gabriel tem inimigos. Um
deles tentou me matar a algum tempo atrás. Eu tive muita sorte que Gabriel estava em casa no momento.
Wolf franziu a testa. Ele não tinha pensado que a linha de trabalho de Gabe a colocaria em risco. Mas é claro
que sim. Ele mesmo tinha seus próprios inimigos. Um deles tinha tentado matá-lo, mas agora suspeitava que
Ysera estava por trás desse ataque. Ela jurou vingança sangrenta quando ele a entregou às autoridades.
Os olhos dele percorreram a blusa de seda azul que Sara usava. Havia uma fileira de botões de pérolas na
parte da frente. Por baixo da blusa podia-se ver o contorno dos seios, firmes e empinados. A visão o fez gemer.
─ Você poderia... Não fazer isso, por favor? - Ela perguntou, cruzando os braços sobre a blusa.
Ele se recostou na cadeira e olhou para ela. Um olhar sensual em seus olhos claros.
─ Em alguns momentos, você parece ser duas pessoas diferentes. - Disse ele. ─ Uma impetuosa e mal-humorada,
e outra assustada e vulnerável.
─ Todos nós temos diferentes facetas em nossa personalidade, eu acho. Mais café? - Perguntou ela, para mudar
de assunto.
Ele balançou a cabeça aceitando. Seus olhos demonstravam que ele estava planejando alguma coisa, mas ela
não percebeu até ser tarde demais. Quando ela se inclinou para alcançar a caneca dele, ele segurou sua mão e
gentilmente a puxou para sentar em seu colo.
─ Nada imoral. - Prometeu, a voz profunda e rouca. Sua grande mão espalmou o rosto dela, levantando
suavemente para ver os suaves olhos pretos. Eles pareciam enormes em seu rosto bonito, triste e preocupado. ─
Seu irmão vai chegar a qualquer momento. - Ele a lembrou.
Sim. Mas ela estava preocupada com o que poderia acontecer nesse intervalo. Ela colocou a mão no peito
dele, e sentiu os pelos grossos, onde a camisa estava aberta. Ela engasgou e tentou puxar a mão.
Ele abriu mais alguns botões, observando o rosto dela enquanto pressionava os dedos longos e frios dela nos
pelos do seu peito. Ela estremeceu um pouco com a sensação de senti-lo tão perto. Sentiu a musculatura quente e
rígida sob o pelo. Seu coração batendo forte, como o dele. Ela realmente deveria protestar e levantar-se.
Mas quando pensou em fazer isso, o polegar dele roçou seu lábio inferior, num afago que a fez estremecer.
Era óbvio que ela não tinha um amante que sabia o que fazer com ela, pensou Wolf. Ele não deveria tocá-la, é
claro. Isso só iria piorar as coisas.
Enquanto pensava nisso, Wolf inclinou a cabeça e roçou os lábios dela com os seus, separando-os com
ternura. Era como naquele dia na pastagem quando ele a tinha retirado do cavalo, com medo de que ela fosse se
matar. Ele não tinha sido capaz de tirar da cabeça a resposta tímida de Sara. Isso o assombrava.
Recordou-se que a inocência dela poderia ser falsa. Aprendeu isso com Ysera.
Os dedos de Wolf acariciavam para cima e para baixo o pescoço dela, fazendo-a prender abruptamente a
respiração, sua boca explorou delicadamente os lábios macios.
Ele foi machucado. Sara também, de certa forma. Talvez o homem que ela tinha tirado da mãe tinha sido rude
com ela. Ele franziu a testa, lembrando que ela havia mandado um homem para a prisão por tentar ser íntimo
com ela. Isso o preocupava.
Ele levantou a cabeça e olhou para os grandes e fascinantes olhos. Seus próprios olhos se estreitaram quando
sentiu o calor começar a tomar seu corpo. Fazia um longo tempo. Muito longo. Ele a queria. E se odiava por isso.
A grande mão de Wolf deslizou para baixo e envolveu um dos seios dela, estimulou o mamilo com o polegar
até que ele ficou duro, e o corpo dela enrijeceu.
Foi então que ele perdeu o controle. E a beijou com voracidade. Ela tinha gosto de mel. Seu corpo estava
quente e suave em seus braços. Ele a virou para que os seios dela ficassem em contato com o seu peito. Ele
gemeu, queimando de vontade de tê-la.
Ela quis protestar. Mas a sensação da boca de Wolf sobre a dela era embriagadora. Ela se agarrou a ele,
gemendo baixinho quando sentiu seu corpo começar a inchar. Ela nunca tinha sentido nada assim, nunca quis
tanto ter a boca de um homem sobre a dela, exigindo e estimulando. Ela nem estava assustada. Essa era a
primeira vez que não sentia medo.
Ele se levantou com ela em seus braços, e seus olhos brilhavam como relâmpago azul. Ele não conseguia
pensar em nada além de alívio. Ele podia deitá-la no sofá na sala ao lado, pressionar o seu corpo dolorido sobre o
dela. Ele poderia retirar o jeans apertado e entrar nela duro e rápido, fazendo-a gritar de prazer.
Só que estavam em plena luz do dia, e ele podia ver o rosto de Ysera, zombando, rindo. Ele era um fraco, ela
zombava enquanto ele morria em seus braços, um fraco que não conseguia controlar o desejo, que se tornava
ridículo quando seu rosto se tornava rígido enquanto seu corpo se apertava contra o dela procurando satisfação...
E ele estremeceu.
Sara viu os pensamentos tortuosos refletidos nos olhos pálidos de wolf. Ela tinha ficado desconfortável,
quando ele a levantou nos braços, temendo o que poderia acontecer. Eles estavam sozinhos, e ela não tinha
certeza sobre quando Gabriel voltaria para casa. Ela nunca tinha tentado ter intimidade com ninguém. Havia
razões pelas quais ela não se sentia capaz de ter qualquer relacionamento, e um era físico, uma razão que ela era
tímida demais para falar, especialmente com um homem como Wolf Patterson.
Mas seu nervosismo a deixou quando ela olhou nos olhos deles. Ele parecia perturbado. Ele cheirava bem, um
cheiro de limpeza e virilidade, como se ele tivesse acabado de tomar banho antes de vir aqui. Ele devia ter
tomado, porque levantou a cadela, e ela estava coberta de sangue. Seu rosto estava tenso de angústia.
─ Está tudo bem. - Ela disse suavemente. Ela levantou a mão e acariciou seu rosto duro. ─ Está tudo bem. -
Sussurrou.
Ele estremeceu. Seu rosto se contraiu.
─ Droga! - Ele falou irritado.
Ele a colocou na cadeira e saiu da casa. Sara ouviu a porta bater. Mas não ouviu o carro arrancar.
Ela não entendeu suas próprias reações a ele. Sentia-se tão familiarizada com ele, como se eles
compartilhassem segredos que nunca poderiam compartilhar com outras pessoas. Ela sabia que Wolf não havia
ido embora. Não tinha certeza de como sabia, mas sabia.
Ela estava certa, um minuto depois, ele entrou na casa. Seu chapéu cobria parte dos olhos. Aparentava uma
frieza incomum.
Ele voltou para a cozinha e ficou na frente dela.
─ Eu não preciso de piedade, compaixão ou qualquer outra coisa vinda de você. - Ele disse friamente.
─ Eu sei disso. - Ela disse suavemente. Seus olhos cheios de compaixão. Ela entendeu a raiva e a dor, ela tinha
convivido por tanto tempo com esses sentimentos que estava familiarizada com eles. ─ Sente-se. Eu vou servir
mais café.
─ Você sabia que eu ia voltar? - Ele falou sarcasticamente.
Ela deixou escapar um longo suspiro.
─ Às vezes a parte mais difícil de ser tão machucado é não ser capaz de dizer a ninguém. - Disse ela, olhando
para sua própria xícara de café. ─ Mesmo Gabriel não sabe tudo. Eu... não pude dizer a ele.
Wolf sentia uma ligação forte com ela que ultrapassava os laços de sangue. Ele tirou o chapéu, o colocou em
uma cadeira vazia e sentou-se montado em outra em frente à caneca de café e ao lado de Sara. Ele segurou a
caneca com os cotovelos apoiados na mesa. Seus olhos brilhavam com um pouco de mágoa.
─ Há quanto tempo você a conhecia? - Ela perguntou, dando-lhe uma abertura, se ele quisesse falar.
Ele tomou um gole de café.
─ Há uns três anos mais ou menos. - Ele disse calmamente. ─ Ela estava saindo com outro homem da minha
unidade. Mas ela o deixou por mim. Fiquei lisonjeado em primeiro lugar... Ela era extraordinariamente bela.
Sabia tocar piano, falar várias línguas, inclusive sabia cantar. Eu tive algumas mulheres. Mas ela era diferente...
sofisticada. Era mais experiente do que eu. Eu nunca tinha conhecido alguém tão desinibida.
Doeu ouvir isso. Ela ficou surpresa, mas conseguiu disfarçar.
─ No começo, era extasiante. - Disse ele, sem olhar para ela. ─ Entrei de cabeça. Ela era tudo em que eu
conseguia pensar. Me apaixonei. Eu tinha certeza que era recíproco. Ela estava sempre fazendo coisas para mim,
dando-me as coisas, e na cama ela era o sonho erótico de qualquer homem. - Ele suspirou lentamente. ─ Eu
nunca tinha feito sexo com as luzes acessas. - Disse ele em um sussurro. ─ Eu tinha inibições. Alguns dos lares
adotivos em que vivi, eram profundamente religiosos. Fui criado para acreditar que um homem não deve fazer
certos tipos de coisas. O sexo era pecado fora do casamento. Então, eu pensava dessa forma. Sentir prazer com
Ysera me fazia sentir culpado.
Ela olhou para o rosto dele. Ele ficava mais retesado à medida que as memórias retornavam.
─ Ela queria me ver atingir o orgasmo. - Disse ele. Olhou para Sara e teve que reprimir o riso ao ver sua
expressão. ─ Muito franco para você, Sara? - Ele perguntou baixinho.
Sara engoliu em seco. E corou, mas balançou a cabeça negando.
─ Você não consegue falar sobre isso com mais ninguém, certo?
─ Não. - Ele respondeu.
─ Tudo bem. - Disse ela. ─ Eu não... Eu não sei muito sobre isso. Mas eu posso ouvir.
Ele se perguntou o quanto ela sabia. Sara parecia verdadeiramente envergonhada, mas ele desviou o olhar. Ele
precisava falar sobre isso. No fundo, o passado o corroía como uma ferida.
─ Então eu passei a acender as luzes. Ela me observava. Então, começava a rir. - Suas mãos apertaram em torno
da caneca de café. ─ Quanto mais excitado eu ficava, mais ela se tornava ofensiva. Quando eu perdia o controle,
ela ria como um demônio e dizia que eu era ridículo...
Sara estremeceu.
Ele viu isso. Tomou um gole de café, e queimou a boca, mas não notou.
─ Claro, ela pedia desculpas depois. Dizia que era inocente. - Ele comentou. ─ E não percebia que me magoava
quando ria. Prometia não fazer mais isso. Mas sempre fazia. Uma e outra vez. Ela me excitava até me deixar
louco e, em seguida, acendia as luzes e zombavam de mim quando eu estava mais vulnerável. - Ele fechou os
olhos. Não antes de perceber o rosto pálido de Sara e seu olhar solidário. ─ Ironicamente, quanto mais ela me
magoava, mais eu a queria. Ela conseguia me excitar mais rápido do que qualquer outra mulher que eu já tinha
conhecido. Eu não posso explicar o que eu sentia. - Ele respirou e bebeu mais café. Seu rosto estava rígido com a
dor da recordação. ─ O ego de um homem é o seu ponto fraco. Nenhum de nós gosta de ser vulnerável, nem
mesmo nos melhores momentos. Tentei odiá-la. Mas não conseguia. Eu não podia deixar de desejá-la. Então...
Ele hesitou.
Sara pegou a mão dele.
Ele largou a caneca de café. Seus dedos se entrelaçaram aos dela. O conforto inesperado tornou mais fácil
falar sobre isso.
─ Estávamos em uma área perigosa na periferia de um assentamento em um país Africano devastado pela guerra.
Nós estávamos reunidos investigando um líder rebelde que estava torturando mulheres jovens, Ysera disse que
sabia quem ele era. Ela desenhou um mapa e fez um de seus informantes nos levar diretamente à porta dele. - Ele
fechou os olhos e estremeceu. ─ Ela nos disse que ele estava fortemente armado e que sabia que estávamos
chegando. E que se não atacássemos com tudo, nós seríamos mortos. Então, nós... entramos atirando.
Seus dedos apertaram os dela, mas Sara não disse uma palavra. Só esperou.
─ Nós matamos um homem, sua esposa... e seu filho de três anos de idade.
Sara respirou profundamente.
─ Foi uma vingança. Ele era um homem bonito e ela o queria, mas ele não queria nada com ela. Ele disse que a
esposa valia dez vezes mais que ela. Isso a deixou furiosa.
A expressão de Wolf era de puro desespero. Ela se levantou da cadeira e puxou sua cabeça para seus seios,
segurando sua bochecha lá, balançando, beijando seu cabelo escuro.
─ Sinto muito. - Ela sussurrou. ─ Eu sinto muito!
Ele estremeceu. Passou seus braços em volta dela e a apertou em um abraço. Ele nunca tinha dito uma só
palavra sobre isso a alguém. Só homens de sua pequena unidade tinham conhecimento do fato. Era a maior
vergonha da sua vida. Foi por isso que ele deixou a unidade, e passou a evitar contato com o mundo.
─ Há quanto tempo isso aconteceu? - Ela sussurrou.
─ Um ano. Quase dois agora. - Ele gemeu. ─ Foi um erro da nossa parte, e a casa tinha sido usada como base
para os insurgentes. Nenhuma acusação foi feita, e os meios de comunicação nunca ouviram falar sobre isso.
Mas tivemos que conviver com a culpa. Um dos meus homens não pode. Ele se matou. Outro se tornou
alcoólatra.
Ela descansou a bochecha contra a cabeça dele.
─ Foi por isso que você veio morar aqui?
─ Não. Me mudei para cá há três anos. Havia outras memórias, não tão terríveis, mas perturbadoras. Eu queria
uma mudança, uma mudança de cenário. Eu pensei que isso fosse ajudar.
Sara respirou fundo.
─ Mas as memórias são portáteis. - Ela disse em voz alta, lembrando o que ele lhe tinha dito antes. ─ Você não
pode deixá-las para trás. Eles permanecem com você.
─ Eu sei disso... Eu tenho pesadelos.
─ Eu também. - Ela sussurrou.
A cabeça dele se aconchegou mais aos seios dela. Ele virou, e sua boca encontrou o seio macio, então ele
passou a estimulá-lo através do tecido sedoso da blusa.
Ela estremeceu.
─ Por favor. - Disse ele com voz rouca quando ela se afastou rígida. ─ Oh, Deus, me deixe fazer isso!
Wolf levantou e a pegou nos braços. Sua boca cobriu a dela, e ele estremeceu enquanto a levava para a sala.
Ele a deitou no sofá e deitou sobre ela, sua boca devorando os lábios macios.
─ Eu não toquei uma mulher, desde então. - Ele sussurrou contra sua boca. ─ Eu não confiei em uma mulher
desde então. Mas eu estou tão... inferno!... faminto!
As palavras terminaram em um gemido. Ele colocou uma de suas longas pernas entre as dela. Forçando-as a
abrirem. Ela suspirou e empurrou seu peito, com muito medo.
Ele levantou a cabeça. Sua boca estava inchada. Seus olhos claros estavam brilhando.
─ Você é realmente tão ingênua? - Ele perguntou entredentes. ─ Ou você está fingindo, como ela fazia?
Sara engoliu em seco. Lambeu os lábios e sentiu o gosto dele.
─ Você sabe... o que é um hímen imperfurado? - Ela perguntou, corando quando disse isso.
Wolf enrijeceu. Seus olhos eram os únicos sinais de vida na rigidez súbita de seu rosto.
─ Sim. - Ele disse depois de um minuto.
─ Eu... Eu não posso. - Ela ainda conseguiu dizer. Seus lábios tremiam. Ela desviou os olhos. ─ Foi o que me
salvou, quando ele tentou... - Ela engoliu em seco. ─ Gabriel arrombou a porta e o impediu. - Lágrimas
deslizaram dos seus olhos.
Ele não disse o que estava pensando, que o corpo dela tentaria um santo, e que o pobre homem provavelmente
perdeu o controle, da mesma forma que ele perdia com Ysera. Mas ele não queria magoá-la. Ela tinha suas
próprias cicatrizes. E tinha sido gentil com ele. Mais do que merecia. Ela o escutou sem julgá-lo. E foi a primeira
pessoa a lhe dar apoio.
Wolf virou-se de costas e a colocou deitada a seu lado. Ele estava excitado e dolorido.
Sara o acariciou no peito. Ele agarrou a mão dela e a afastou do peito.
─ Não faça isso. - Ele retrucou.
─ O... o quê?
─ Oh Deus, você é realmente tão ingênua? - Ele gemeu. Sem pensar, pegou a mão dela e a colocou sobre uma
parte da sua anatomia que estava muito desperta.
Ela pulou para trás como se tivesse tocado uma cobra. Seus olhos, chocados e assustados, perceberam no que
tinha tocado. Pulou do sofá e quase caiu sentada no chão. Sara estava lembrando o que aconteceu com o seu
padrasto. Ele fez a mesma coisa naquela noite. E havia dito coisas... coisas obscenas, sobre sua condição e o que
pretendia fazer com ela. Ele forçou-a a deitar na cama e rasgou as suas roupas. Ela gritou...
─ Sara!
Ela estremeceu. Seus olhos negros assustados estavam enormes no rosto branco como cera. Wolf estava na
frente de Sara, surpreso com a reação dela.
Não parecia fingimento. Sara parecia realmente estar com medo da intimidade. Seus olhos claros se
estreitaram.
─ Eu não vou forçá-la. - Ele disse suavemente. ─ Eu nunca faria isso. Eu juro!
Ela colocou os braços em volta do peito e olhou para o chão.
─ Gostaria de morrer. - Ela disse hesitante.
─ Sara!
Ela se virou e correu de volta para a cozinha e se colocou em frente à janela. Viu uma nuvem de poeira a
distância e reconheceu a caminhonete preta descendo a estrada.
─ É Gabriel. - Ela ofegou consciente da presença de Wolf atrás dela.
Ele gentilmente pegou a mão dela e a levou até uma cadeira.
─ Sente-se. Eu vou fazer outro café.
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Sinto muito.
─ Não. Eu sinto muito por pagar uma compaixão sincera com luxúria. - Ele murmurou. ─ Eu me envergonho do
que fiz.
Ela olhou para cima, surpresa.
Ele procurou seu rosto pálido.
─ Da próxima vez. - Ele disse baixinho. ─ Será a sua vez de falar.
─ Eu... Eu não sei se posso.
─ Eu disse a você coisas que eu nunca sonhei em dizer a outra pessoa, e muito menos a uma mulher. - Disse ele,
desviando o rosto enquanto enchia a cafeteira com água.
─ Lamento o que ela fez com você. - Disse ela suavemente. ─ Eu levo uma vida protegida. Eu não sabia, nem
sonhava que havia pessoas como ela no mundo. - Ela engoliu em seco. ─ Com as luzes acesas... Eu nunca
poderia!
Wolf se perguntou com quem ela havia se relacionado depois da experiência ruim, e com que frequência. Ele
queria saber. Não deveria dar importância a isso, mas dava. Ele voltou sua atenção para fazer o café. E realmente
esperava que Gabriel não percebesse o que estava acontecendo.

***

Gabriel foi perspicaz, mas ambos pareciam tão miseráveis que ele não fez nenhum comentário. Sara pediu
desculpas depois de um minuto e subiu.
Gabriel virou-se para o amigo com um olhar reprovador.
─ Não é o que você está pensado. - Wolf disse calmamente. ─ Ela... me ouviu.
O outro homem ficou surpreso.
─ Você contou a ela?
Ele balançou a cabeça afirmativamente. E tomou um gole de café.
─ Eu nunca fui capaz de falar sobre isso. Ela é uma boa ouvinte. - Ele conseguiu dar um sorriso fraco. ─ Ela
ficou surpresa.
─ Ela não é muito experiente. - Gabriel disse calmamente. ─ De muitas maneiras, ela ainda é uma criança.
Os olhos claros de Wolf se estreitaram.
─ Ela disse que você arrombou uma porta para chegar até ela.
O rosto de Gabriel se contraiu.
─ Por que você não me contou? - Ele perguntou.
─ Porque é um segredo de Sara, não meu. - Gabriel disse calmamente. ─ Ela acorda gritando às vezes, tarde da
noite. Eu não sei se ela dorme mais do que algumas horas por noite.
Wolf se perguntou o que de tão terrível um homem poderia fazer a uma mulher para provocar tal reação. Sara
não era totalmente inocente. Ela certamente sabia o que era paixão. Até que ele a havia feito tocá-lo intimamente,
ela parecia desfrutar do que faziam.
─ Ela deveria estar fazendo terapia. - Disse Wolf.
─ Roto.
─ Desculpe?
─ O roto falando do esfarrapado. - Explicou Gabriel. ─ Você precisa mais do que ela. Você nunca foi capaz de
lidar com o que aconteceu.
─ Como lidar com a morte de inocentes? - Wolf perguntou com os dentes cerrados.
─ Do mesmo modo como lidamos com todas as mortes. - Veio à resposta resignada. ─ Faz parte da profissão.
Pessoas morrem. Assim é a guerra.
─ Era uma criança!
Gabriel agarrou o pulso do outro homem, forte.
─ A intenção é tudo dentro da lei. - Disse ele. ─ Você nunca faria mal a uma criança. Nunca!
Os olhos de Wolf estavam brilhantes de emoção.
─ Mas eu fiz.
─ Por causa das mentiras daquela psicopata mentirosa. - Gabriel disse brevemente. ─ E isso me lembra de algo
que temos que discutir.
─ O quê?
─ Eb tem um contato em Buenos Aires. Ele fez uma identificação positiva de Ysera.
─ É realmente ela?
Gabriel assentiu gravemente.
─ Ela e seus velhos truques. Ela formou um novo grupo rebelde, e com eles voltou para a África. Ela permanece
como informante oficial da Red Scar.
A Red Scar era uma das organizações mais brutais fundada por facções religiosas para fomentar a rebelião nas
províncias africanas, onde os recursos naturais preciosos estavam em jogo. Sua unidade tinha lidado com ela
antes. Ysera tinha sido uma parte integrante, mas nenhum dos homens de Gabriel ou de Wolf tinha sabido de sua
conexão até que fosse tarde demais.
─ E agora? - Perguntou Wolf.
─ Agora estamos fazendo todo o possível para organizar um grupo para cuidar das suas costas. - Gabriel disse
calmamente. ─ Ela tinha se mantido escondida desde que tudo aconteceu, com a Interpol tentando localizá-la.
Mas agora ela se sente segura, e espalhou a notícia de que ela quer você morto por traí-la. Ela tem um novo
namorado. Um milionário brasileiro. Assim, graças ao seu novo namorado agora ela tem o dinheiro para fazer o
trabalho!

Capítulo Cinco
─ Bem. - Wolf disse a Gabriel. ─ Eu deveria saber que isso ocorreria algum dia. Sofri atentados antes.
─ Um que quase o matou. - Lembrou Gabriel. Seus olhos negros se estreitaram. ─ Mas Ysera não estava por trás
dele. Agora, nós poderíamos ter problemas reais. Eu me preocupo com Sara. - Acrescentou. ─ Alguém pensou
que ela estava aqui sozinha, no ano passado, e tentou matá-la por causa de um inimigo que eu fiz. Felizmente eu
estava em casa no momento.
─ Felizmente. - Foi à resposta sombria.
Gabriel tomou um gole de café.
─ Se Ysera quer se vingar de você, ela também poderia acertar alguém que está ao seu lado.
─ Eu nunca deixaria ninguém machucar Sara. - Ele disse que em um tom que fez Gabriel olhá-lo surpreso. - Ele
fez uma careta. ─ Eu sei. Poderíamos nos machucar mutuamente... Mas ela me dá paz. - Ele confessou, odiando
admitir isso.
─ Uma coisa rara em nossa linha de trabalho. - Disse o outro homem. E olhou para seu café. ─ Tente não
machucá-la. Ela teve uma vida difícil.
─ Gostaria de saber se existem pessoas no mundo que estão verdadeiramente livres de más recordações.
─ Eu tenho sérias dúvidas.
Ele terminou o café. Seus olhos claros encontraram os do outro homem.
─ Ela é surpreendentemente frágil. - Ele disse depois de um minuto. ─ Quantos anos ela tem?
─ Vinte e quatro.
─ E não tem um relacionamento?
Gabriel respondeu.
─ Há razões para isso.
Wolf tinha uma boa ideia do que se tratava. Ele se perguntou se o padrasto tinha sido o amor da vida dela, se
ela havia ficado devastada quando ele foi para a prisão por causa do seu testemunho.
─ Você não vai me dizer quais são, vai? - Wolf perguntou.
Gabriel sacudiu a cabeça.
─ Isso é problema de Sara.
─ Tudo bem.
─ E você vigie as suas costas. - Gabriel disse, levantando-se. ─ Ysera era perigosa o suficiente quando perdeu
tudo e se escondeu. Mas agora, com respaldo financeiro, poderia se tornar sua pior inimiga. Eu gostaria de ter
acabado com ela quando tivemos a chance.
─ As autoridades a deixaram livre. - Wolf disse friamente.
─ O dinheiro compra tudo. - Disse Gabriel. ─ Ela gastou tudo o que tinha, mas conseguiu sair do país bem
debaixo das vistas da milícia.
─ Que vergonha. - Foi à resposta.
Gabriel assentiu.
─ Como vai o jogo? - Ele brincou.
Ele deu de ombros.
─ Minha amiga bruxa e eu somos o terror dos campos de batalha em todos os lugares. - Ele riu, em seguida, fez
uma careta. ─ Isso me lembra de que eu tenho que ligar para Rydel e saber como está Hellie.
─ Hellie? O que aconteceu?
─ Eu descia a estrada para ver o meu novo touro quando sua irmã sinalizou na estrada próxima a minha
propriedade, coberta de sangue.
─ O que?
─ Alguém atropelou Hellie. - Wolf disse, acalmando o outro homem. ─ Sara parou para socorrê-la. Ela estava
tentando carregar Hellie para o seu carro para levá-la a um veterinário. - Ele sorriu suavemente. ─ A blusa estava
coberta de sangue, ela provavelmente teria arruinado o interior do carro, e ela não deu a mínima importância. -
Seus olhos escuros brilhavam ternamente. ─ Sua irmã é uma mulher incrível.
Gabriel sorriu tristemente.
─ Sim. Ela adora animais. Tivemos um cão, quando morávamos com nossa mãe e seu segundo marido. - Seu
rosto se contraiu com a lembrança.
─ O que aconteceu?
─ O marido de nossa mãe ficou zangado com Sara e matou o cão. - Disse rapidamente. ─ Ele deixou o cão
deitado na varanda da frente para que ela o encontrasse no momento em que chegasse à casa.
─ Querido Deus. - Wolf lamentou.
─ Ela nunca superou isso. - Continuou ele. ─ Ela nunca mais teve um cão ou um gato. Ela adora cavalos, mas
não quer um animal de estimação para não se apegar demais.
─ E eu pensei que a minha vida tinha sido difícil.
─ Você disse a Sarah o nome da sua cadela?
Wolf riu alto.
─ Não. Ela já me tem em mau conceito. Eu não quero qualquer observação inteligente sobre um homem adulto
que joga jogos para crianças no computador.
Gabriel riu, também, e tentou não parecer aliviado.
─ Vários homens adultos jogam, incluindo alguns dos nossos colegas.
─ Sim. - O sorriso desapareceu. ─ Às vezes isso nos ajuda a escapar do mundo real e entrar em um onde a dor
não acompanha cada minuto maldito.
Gabriel estudou a expressão no rosto do homem mais velho.
─ Tente não ferir Sara demasiadamente. - Disse rispidamente.
A vulnerabilidade de Wolf estava refletida em seu rosto por alguns segundos.
─ Ela é o tipo de mulher que faz você se sentir... seguro. - Ele disse, procurando as palavras. ─ Como se você
estivesse em pé na neve, e ela fosse como o calor que emana em uma pequena sala.
Gabriel estava impressionado. Wolf não percebia o que estava admitindo?
Aparentemente não, porque ele riu.
─ Eu não confio em mulheres. - Disse ele. ─ Ela teria que se aproximar de mim para correr perigo, e isso não vai
acontecer. Ela estará segura comigo. Eu vou cuidar dela quando você não estiver por perto.
Gabriel hesitou, mas apenas por um minuto.
─ Obrigado.
─ Sem problemas. Tente não ser morto.
─ Eu tenho um grande casaco e uma camisa com uma letra S sobre ela. - Gabriel comentou ironicamente.
Wolf riu.

***

Foi uma ideia estúpida. Wolf soube disso antes de estacionar o carro no fim da pastagem, onde Sara galopava
em uma das novas éguas que Gabriel havia comprado. Durante vários dias ele não fez nada além de lembrar a
sensação da boca macia de Sara sob seus lábios, e sofria por isso. Era suicídio se envolver com ela. Mas ele não
podia evitar.
Ele se aproximou da cerca e colocou um pé na tábua mais baixa apenas para olhá-la. Ela estava linda em seu
cavalo, elegante, serena e graciosa.
Ela o viu e apeou graciosamente do cavalo e foi até a cerca de madeira alta. Ele se inclinou sobre a cerca.
─ Você fica linda em um cavalo. - Ele disse, sorrindo.
Ela sorriu de volta.
─ Você está bem? - Ela perguntou.
Ele deu de ombros.
─ Um pouco melhor do que antes, talvez. Ele procurou seus olhos. ─ Que tal um jantar em Houston e em
seguida, ópera? Eles estão apresentando Carmen de Bizet.
Seu coração pulou uma batida, mas ela hesitou. Estava se lembrando do que Gabriel disse.
─ Sim, eu sei que podemos machucar um ao outro. - Disse ele, como se estivesse lendo seus pensamentos. ─
Não tem importância. Eu quero sair com você.
─ Eu... Eu gostaria de ir. - Confessou.
Ele sorriu gentilmente.
─ Que tal 18 horas sexta-feira? Jantamos antes de sair. Onde posso buscá-la? Aqui?
─ Gabriel vai viajar hoje à noite. Eu vou ficar no apartamento em San Antonio, até que ele volte.
─ Ótimo. - Ele murmurou. ─ Você o suborou para ele viajar?
Ela riu. Seus olhos negros brilharam como velas acesas, e seu belo rosto irradiou alegria.
─ Na verdade, não.
Ele riu.
─ Bem. Vista algo bonito. Mas não muito sexy. - Acrescentou ele com uma sobrancelha levantada. ─ Eu não
quero fazer uma visita até a sala de emergência se as coisas ficarem fora de controle.
Ela corou, mas depois riu também.
Ele balançou a cabeça.
─ Você nunca pensou em fazer uma pequena cirurgia?
─ Não, não havia nenhuma razão para isso. - Ela disse depois de um minuto. ─ Eu nunca quis... com ninguém.
Seus olhos claros brilharam.
─ Eu poderia fazer você querer... comigo.
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Eu não vou fazer. - Ele disse suavemente, e passou o dedo na parte de trás de sua mão numa carícia suave. ─
Eu realmente não posso me dar ao luxo de perder minha única confidente.
Ela sorriu.
─ Isso funciona para ambos os lados.
Ele procurou seus olhos negros.
─ Sabemos muito um sobre o outro, certo?
Ela assentiu com a cabeça.
─ Pessoas com almas despedaçadas.
Ela sorriu. E queria dizer a ele que alguém já tinha dito isso a ela, mas não quis responder a perguntas sobre o
seu único verdadeiro prazer na vida.
─ Sim. - Disse ela. ─ Pessoas atormentadas. - Ela apertou os lábios cheios e suaves. ─ Talvez pudéssemos usar
fita adesiva.
Ele pensou sobre isso por um minuto e de repente explodiu em gargalhadas verdadeiras.
─ Sim, apenas duas coisas que você precisa na vida, fita adesiva e WD40.
Ela sorriu.
─ Se ele não se move e deveria se mover, use o WD40. Se ele se move e não deveria, você usa a fita adesiva!
─ Você é o tipo de mulher que recomendaria usar filme plástico como controle de natalidade. - Ele murmurou.
Ela riu apesar de corar um pouco envergonhada.
─ Como está Hellie? - Ela perguntou.
─ A cada dia melhor. Ela manca ao redor da casa fazendo barulho com o gesso. Vou levá-la para vê-la quando
voltarmos da ópera, se você quiser.
Perigoso. Seria tarde demais quando eles voltassem para Houston. Mas ela não podia resistir ao perigo.
─ Eu gostaria.
Ele estava se lembrando do que Gabriel lhe disse sobre o padrasto deles ter matado o cão Sara. Ele sorriu
tristemente.
─ Você ama animais, certo?
─ Sim. - Ela disse com os suaves olhos pretos.
Ele olhou para a égua que se movimentava impaciente.
─ Eu notei. - Ele se afastou da cerca. ─ Sexta-feira as dezoito.
─ Até lá então.
Ele ergueu a mão, acenou e foi embora. Sara o observou ir cheia de dúvidas. Na verdade, ela não tinha
contado a ele tanto quanto ele tinha contado a ela. Esperava não se arrepender.

***

Sara checou tudo em seu armário, ela tinha muitos vestidos, mas estava procurando o vestido perfeito para
usar a noite. Escolheu um vestido preto elegante um pouco abaixo dos joelhos de alças finas. O corpete tinha um
decote quadrado, não muito baixo, mas também não muito recatado. Deixou o cabelo solto e usou colar e brincos
de pérolas. Estava linda, mas não percebeu isso. Ela não gostava de olhar em espelhos.
Wolf estava vestindo um smoking com uma gravata e uma camisa de seda preta. Parecia tão elegante e bonito
que Sarah perdeu o fôlego. Sem o seu Stetson de costume, o cabelo grosso, liso e negro como a cabeça de um
corvo ficava visível.
─ Reparando o meu cabelo grisalho, certo? - Ele sussurrou.
─ Cabelos grisalhos?
Ele estendeu a mão e acariciou sua bochecha. Seu rosto estava sombrio.
─ Tenho trinta e sete anos, Sara.
─ Não parece.
Ele respirou fundo.
─ Já vivi muito. - Ele murmurou. ─ Se eu fosse um carro, estaria no ferro velho.
─Você estaria em uma sala de exposições, como uma raridade para colecionadores. - Ela disse, com os olhos
negros brilhando.
Ele riu. Seus olhos a observavam calmamente.
─ É uma pena eu não gostar de morenas. - Ele brincou. ─ Você realmente é muito bonita.
Ela corou.
─ É apenas a roupa.
Ele franziu a testa ligeiramente.
─ Não gosta da sua aparência, certo?
Ela agarrou a bolsa.
─ Eu odeio ter os homens me olhando. - Disse um pouco nervosa.
─ Por quê?
Ela moveu-se inquieta.
─ Devemos ir certo?
─ Sim.
Ela saiu do apartamento e fechou a porta.
─ Eu espero que você goste de cozinha francesa. - Disse ele com um sorriso. ─ Eu encontrei um pequeno e
encantador bistrô, nessa mesma rua.
Ela engasgou.
─ É o meu lugar favorito para comer.
Ele riu.
─ É um dos meus, também.

***
Eles pediram cordeiro e batatas com ervas para o jantar, e um creme brulée* de sobremesa. Sara saboreou
cada etapa da refeição. Mas eles demoraram muito em conseguir uma mesa. O balé começava às vinte horas, e
ainda tinham um longo caminho até Houston. Mas Wolf não parecia se preocupar com o tempo.
─ Como você pode comer bem e não engordar? - Ele riu.
─ Corro para queimar calorias. - Ela disse, sorrindo. ─ Exercício somado a estresse e ansiedade, eu acho.
Ele se inclinou sobre a mesa e acariciou o dorso da pequena mão.
─ Eu sou como você. - Ele disse. ─ Eu não posso ficar parado.
Ela estudou seu rosto em silêncio.
─ Você está diferente. Menos assustador.
Wolf segurou seus dedos.
─ Eu nunca tinha falado sobre isso com ninguém. - Ele procurou seus olhos negros. ─ Eles me mandaram para
um psicólogo, também. - Ele fez uma careta. ─ A ideia dele era me hipnotizar e me fazer contar toda a minha
infância.
Sara respirou fundo.
─ A minha terapeuta disse que a culpa era minha.
Ele não argumentou. Também pensava a mesma coisa. Uma mulher jovem, bonita, experimentando seu poder,
com um rancor contra a mãe, tentando se vingar roubando seu namorado.
─ Eu não gosto de ser analisado. - Disse ele.
Ela assentiu com a cabeça. Olhou nos olhos dele fixamente e depois afastou o olhar.
─ Eu nunca contei a ninguém sobre... bem, você sabe. - Ela disse, corando. ─ É tão íntimo. Eu nunca poderia
falar sobre isso com o meu irmão. Não tenho amigos próximos também. - Ela se lembrou da amiga bailarina, mas
não era uma relação estreita. Lisette era uma conhecida não uma amiga verdadeira. Na verdade, ela nunca havia
dito a Michelle sobre seus problemas físicos, e Michelle era como sua irmã.
─ Também não tenho amigos íntimos, exceto, talvez, o seu irmão. E eu nunca poderia dizer a outro homem que
ela me fez.
─ Ele deve ter ferido seu orgulho. - Ela disse tristemente.
Ele fechou os dedos em torno dos dela.
─ Eu não estou brincando, você deve acreditar. - Ele disse, com a voz baixa e suave enquanto procurava os olhos
dela. ─ Eu não tive uma mulher desde Ysera. Não confio em ninguém.
─ E eu não posso ter ninguém. - Disse ela. A pele em suas altas maçãs do rosto corando. ─ Não na minha
condição atual.
Seus dedos acariciavam a mão dela sedutoramente.
─ Você sabe que há maneiras de dar prazer a uma mulher sem penetração? - Ele perguntou em voz alta.
A mão de Sara tremeu e ela quase derrubou o copo de vinho. Mas, conseguiu segurá-lo a tempo.
─ Inferno! Ela ofegou e corou.
Ele riu suavemente.
─ Aí vem à vassoura. - Brincou, mas não de forma maliciosa. Seus olhos baixaram até o corpete do vestido dela,
para as pontas duras dos seios empurrando contra o tecido macio. ─ Você fica excitada quando digo coisas
íntimas. Eu gosto disso.
Ela tomou um gole de vinho, colocou a taça na mesa e cruzou os braços sobre o peito, olhando desconfiada ao
redor para se certificar de que ninguém tinha ouvido.
─ Estamos sozinhos no mundo, Sara. - Ele disse suavemente. ─ Você não percebeu?
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Ouça, eu não posso...
Os olhos claros de Wolf brilharam e seus dedos deslizaram intimamente entre os dela.
─ Você pode comigo. - Ele sussurrou com voz rouca. ─ Só comigo.
Ela se sentia impotente. Na verdade, não era uma sensação ruim. Todo o seu corpo tremia enquanto o
observava, sentia o aperto repentino da mão dele ao redor da sua.

* Creme Brullée - Ingredientes: 8 gemas; 200 g de açúcar refinado; essência de baunilha; 1 litro de creme de leite fresco; açúcar cristal para a cobertura de caramelo.
Modo de preparo: Misture as gemas, o açúcar refinado, a baunilha e acrescente o creme de leite à mistura e misture até obter um creme homogêneo;
leve o creme ao fogo em banho-maria e mexa até que o creme forme uma fina camada na colher; distribua o creme em
seis tigelinhas, você pode usar uma peneira para tirar possíveis bolinhas que podem ter se formado; deixe o creme na geladeira por pelo menos 5 horas;
coloque açúcar cristal sobre cada tigela e aqueça para formar o caramelo, o ideal é usar um maçarico culinário para dar a consistência ideal do Creme
Brulée.
A expressão no rosto dela o fez querer se levantar e gritar. Ele se perguntou se ela percebia que estava
revelando o desejo suave em seus olhos.
─ É melhor irmos. - Ele disse secamente, porque estava lutando contra a emoção mais poderosa que sentira em
anos. Ele ainda tinha que dirigir até Houston e ir à ópera. Mas depois, ele prometeu a si mesmo quando a ajudou
a levantar, gostaria de saber tudo sobre ela. Queria conhecê-la física e intimamente. Talvez ela estivesse dizendo
a verdade sobre sua inocência. Mas de um jeito ou de outro, ele ia descobrir.
Sara, felizmente, sem saber o que Wolf planejava, sorriu com seu coração nos olhos quando ele pagou a conta
e segurando a sua mão a conduziu para fora do restaurante em direção ao estacionamento.
Era uma noite fria de maio. Chegariam demasiado tarde ao balé. Ela vestia um casaco de cashmere macio que
aderia, suavemente, às suas curvas. Ele fez uma pausa para destravar o Mercedes, mas em vez de ajudá-la a
entrar, puxou-a diretamente contra seu corpo poderoso, tão próximo que ela podia sentir sua súbita e instantânea
ereção.
Ela engasgou e tentou se afastar, mas ele não permitiu. Não com grosseria, mas firmemente. E observou seus
olhos surpresos.
─ Você sente o quão excitado eu estou? - Ele sussurrou. ─ E quase não toquei em você. - Uma grande e fina mão
a puxou contra seu quadril enquanto a outra viajou corajosamente acariciando seu corpo e parando nos bicos
duros dos seios macios. ─ Eu quero tirar o seu vestido e colocar minha boca sobre o mamilo e sugar.
Ela estremeceu. E cravou as unhas no tecido caro da jaqueta dele e realmente respirou profundamente.
─ Sim, você quer isso, não é? - Ele sussurrou próximo aos seus lábios. ─ Eu posso me despir colocar você em
uma cama sob o meu corpo nu e possuir você, mesmo sem penetrá-la. - Ele estremeceu com o pensamento. ─ E
você me deixaria fazer isso, certo? - Ele sussurrou. ─ Peito contra peito, coxa com coxa, no escuro, movendo-se
um contra o outro como os movimentos da água em um rio, buscando satisfação, dando prazer um ao outro quase
com loucura...
Ela gemeu fazendo-o se excitar ainda mais. Ele a empurrou contra a porta do carro e moveu uma poderosa e
longa perna entre as dela, levantando-a enquanto a beijava com desespero.
Sua boca insistiu, exigiu. Ele separou os lábios dela, invadindo a sua boca com a língua. O movimento rítmico
dos seus quadris a fez gritar.
O grito baixo e impotente dela o trouxe de volta a sanidade. Com um gemido, ele deu um passo para trás,
constrangido ao perceber o quão perto esteve de possuí-la, ali mesmo, em público.
Sara parecia tão constrangida quanto ele.
Os olhos dela estavam cheios de lágrimas. Ela não tinha percebido o quão vulnerável era, e quão sedutor ele
poderia ser. Era um erro. Ela estava entrando em algo que não poderia controlar, não estava pronta para isso
ainda. Wolf era um homem que não estava pronto para um relacionamento de longo prazo. Era um homem ferido
que ainda queria se vingar de todas as mulheres por causa do que uma mulher sem coração tinha feito a seu ego.
Ela não podia confiar nele, nem se atrever a confiar nele. Mas ela o queria!
Seus olhos se encontraram, e ele sentiu todo o seu corpo enrijecer. Ela ia permitir. Ele sabia sem que uma
palavra fosse dita.
Ele a ajudou a entrar no carro e sentou-se ao lado dela.
─ Coloque o cinto de segurança. - Ele sussurrou com voz rouca.
Ela engoliu em seco. Ela ainda podia sentir o gosto dele em sua boca.
─ Qual é o balé que vamos ver em Houston? - Ela conseguiu dizer.
─ O balé começa em cinco minutos, e é em Houston. Chegaremos, talvez, depois do início do segundo ato. Nós
estamos voltando para casa. - Ele respondeu bruscamente.
─ Oh.
Wolf pegou a mão dela e a apertou. Ela podia sentir a tensão nele. Sabia o que ele queria dizer. Ele não a
estava levando para o apartamento dela. Ele a estava levando para casa dele. Isso não ia acabar bem, mas ela não
conseguiu encontrar uma desculpa para não concordar em ir com ele.
Pela primeira vez, ela queria um homem de uma maneira que nunca pensou ser possível. Então, parou de se
preocupar.

***

Wolf parou em frente à casa e desligou o motor. Ele abriu a porta e a deixou andar na frente dele em direção à
varanda. Ele colocou a chave na fechadura, girou, entrou com ela e fechou a porta atrás deles. E desligou a luz da
varanda.
Sara sentia-se viva, animada. Olhou para Wolf. O rosto dele estava rígido. Seus olhos azuis eram os únicos
pontos vivos naquela expressão inescrutável.
Wolf pegou a mão dela e a levou para a sala de estar, onde uma única lâmpada estava ligada. Olhando
diretamente nos olhos dela, ele tirou o casaco e a gravata, tirou os sapatos e o cinto e desabotoou a camisa até o
cós da calça.
Pegou a bolsa das mãos nervosas de Sara, jogou-a em uma cadeira. Ela ficou parada na sua frente enquanto
ele abria o vestido e o deslizava pelos seus braços, deixando-a apenas com um sutiã de renda preta.
A grande mão de Wolf deslizou sobre os ganchos do sutiã abrindo-os, em seguida, sob as alças descendo-as
pelo braço. Olhando para o rosto dela, ele afastou o sutiã dos seios atrevidos e o deixou cair no chão. Seus olhos,
brilhantes e suaves, os devoravam como se fossem doces.
─ Achei que fossem rosados. - Sussurrou, traçando os mamilos duros com as postas dos dedos. ─ Mas, em vez
disso tem a cor de chocolate ao leite. - Ele sorriu suavemente e inclinou a cabeça. ─ Eu pensei que ia ficar louco
antes de chegarmos aqui. Deus Sara, eu estou faminto...
Seus lábios se fecharam sobre um dos mamilos sensíveis, acariciando-o com a língua.
Ela nunca sentiu antes o que estava sentindo. Arqueou as costas para lhe dar melhor acesso, seu corpo tremia
com o prazer recém-descoberto. Wolf a ergueu nos braços e a deitou no sofá, acariciando seu corpo, enquanto
saboreava os seus seios quentes e macios.
─ Eu acho que a tirei de um sonho. - Ele sussurrou. Sua mão livre foi sob a calcinha e a tocou. Ele a sentiu
estremecer, enquanto sentia a mão delicada segurar o seu pulso. Ele levantou a cabeça e fitou os olhos grandes e
chocados.
─ Você disse que era virgem. - Ele sussurrou. ─ Veremos.
Ela corou intensamente.
Os olhos claros se estreitaram quando ele pressionou os dedos, sentindo a barreira.
─ Nunca espero sinceridade de uma mulher. - Ele retrucou. ─ Mas isto... - continuou, enquanto aumentava a
pressão dos dedos suavemente... ─ Não é mentira.
─ Por... por favor? - Ela sussurrou, empurrando. ─ Não...
─ Não? - Perguntou com expressão zombadora. Seu sorriso estava cheio de sarcasmo. ─ Você me tentou a noite
toda, e agora quer parar?
─ Eu não sou... ela. - Sara tentou lembrá-lo.
Mas ele estava cego pelo desejo, revivendo as noites com Ysera, ouvindo-a rir dele, ridicularizá-lo. Sara era
como ela, bonita e ansiosa, até que as carícias ficavam mais íntimas. Em seguida, ela esfriaria, como Ysera. Não
demoraria a ouvir os risos... ainda assim insistia em tocá-la. Ele observou a expressão chocada no rosto delicado
quando as primeiras sensações de prazer começaram a surgir enquanto ele a tocava descaradamente.
─ Sim, você gosta disso, não é? - Ele perguntou, enquanto a tocava novamente. Ele riu quando ela se arqueou,
tremendo, a boca entreaberta, os olhos arregalados, surpresa pela forma como o seu corpo respondia ao toque
dele.
─ Por favor. - Ela gemeu.
─ Tão comedida. Tão recatada. - Ele disse, lembrando como Ysera o excitava para depois, humilhá-lo. ─ Fria e
elegante, tentando os homens até que eles queimem como tochas e, em seguida, zombando deles quando ficam
descontrolados. Mas você não está rindo agora, hein? - Zombou ele com os olhos fixos no rosto afogueado,
enquanto a levava ao clímax. ─ Sim, assim. - Ele sussurrou, o rosto corado enquanto a observava. ─ Quero vê-la
perder o controle, querida. - Respirando profundamente continuou. ─ Sim. Assim... assim mesmo!
Ela arqueou, chorando sem parar, sentindo o primeiro orgasmo da sua vida. E ele estava olhando, rindo,
zombando.
─ Agora, quem está vulnerável? - Ele rosnou, os toques da sua mão faziam Sara emitir sons guturais dos quais
ela nunca tinha ouvido falar.
Wolf despiu-a, sussurrou o que faria com ela, e como ela se sentiria, rindo de sua resposta impotente.
Revivendo o passado, ele sentia que estava se vingando do que Ysera fizera. Ela gritou, arqueando seu corpo
estremecendo novamente e novamente quando ele a levou ao clímax novamente.
Ele estava morrendo de vontade de tê-la. E nada poderia contê-lo. Despiu-se e colou seu corpo ao dela, sua
boca se fundiu com a dela antes de se acomodar entre as longas e trêmulas pernas. Ele não se atreveu a tentar
penetrá-la, mas estava certo de conseguir encontrar sua própria satisfação sem isso. Ele sussurrou palavras
eróticas, uniu as pernas dela e começou a se movimentar entre elas, esfregando, empurrando para baixo uma e
outra vez, seu corpo ficou tenso, a mente clamava por satisfação. Ele enterrou o rosto afogueado no pescoço
delicado, movendo os quadris contra os dela no quarto frio. As luzes estavam acesas, mas ela não podia vê-lo, ele
não permitiria que ela o visse, enquanto ele arremetia cegamente na busca por satisfação.
As coxas musculosas mantinham as pernas de Sara presas e, naquela posição, ele finalmente encontrou a
pressão e o ritmo certos, para levá-la a outro clímax. Sentiu-a tremer e gritar, enquanto arremetia uma última vez
para encontrar um prazer tão intenso que quase o fez perder a consciência.
Ela estava chorando. Ele estava vagamente consciente das lágrimas em sua bochecha que estava fortemente
pressionada no pescoço delicado. Seu grande corpo estremeceu após o clímax mais explosivo que nunca tinha
sentido em sua vida. Foi mais do que isso. Foi um orgasmo. E ele nunca tinha experimentado um. Depois de um
minuto, ele levantou a cabeça e olhou para ela. Seu rosto estava quase branco.
─ Deixe-me... ir.... - Ela sussurrou sem fôlego. ─ Oh por favor...!
O rosto dele enrijeceu.
─ Sara...
Ela se moveu rapidamente, lutando para se afastar dele, agarrando sua roupa íntima. Ela correu para a porta de
trás.
Ele tremia de paixão saciada. Ele levantou-se e pegou a calça antes de ir atrás dela, com os pés descalços.
Ela correu para o estábulo, tão histérica que nem sequer parou para pensar se alguém poderia estar lá. Ela não
se importava. Estava apavorada. Vestiu as roupas íntimas e se encolheu no canto da parede, dobrando os joelhos.
Ela ouviu a voz dele, zombando dela, rindo dela, levando-a até...
A culpa era dela. Ela o provocou, e sabia que ele não estava pronto. Wolf estava vivendo no passado. Agora
aqui estava ela, tremendo como uma criança espancada, escondida nas sombras, tão envergonhada que não
conseguia nem abrir os olhos. Seu padrasto tinha dito coisas vulgares, a obrigou a olhar para ele, riu enquanto
tentava forçá-la.
Em seguida, sua mãe a tinha ofendido. Disse que ela tinha provocado o que aconteceu. O advogado de defesa
a tinha descrito como uma adolescente sedutora que brincava de seduzir os homens. Os jornais a tinham tratado
como uma ninfeta destruidora de lares. Depois o tiroteio, o rosto de seu padrasto quando as balas o atingiram, as
maldições da mãe, depois o horror de tentar ir para a escola, viver com a vergonha e a desgraça!
─ Sara!
Ela gritou quando ele parou na frente dela. Ele acendeu as luzes, e ela ainda não tinha notado. Seu rosto estava
aterrorizado. Ele deu um passo adiante, e ela ergueu as duas mãos, com as palmas viradas para ele, tremendo.
─ Não, por favor, por favor, não! - Soluçou.
Ele tinha sido policial há alguns anos atrás. Ele reconheceu o medo e a postura. Fechou os olhos e estremeceu.
Meu Deus, por que não tinha percebido!
─ Sara. - Disse baixinho, ajoelhando-se a poucos metros dela. ─ Quantos anos você tinha quando isso
aconteceu? Quando seu padrasto tentou forçá-la?
A voz dela parecia presa na garganta.
─ Tre... ze... - Ela chorou. ─ Eu tinha treze anos.
Ele fechou os olhos. Sua mão se fechou em punho ao seu lado. Ele tinha assumido que ela tinha sido uma
rival pelo afeto do namorado da mãe. Havia tirado conclusões erradas. Só Deus sabia quanto dano tinha causado
esta noite. Ele descontou em Sara o que Ysera tinha feito a ele. E esse era o resultado.
─ Querida, está muito frio aqui. - Disse ele em um tom sufocado. ─ vamos para casa...
─ Não. - Seus grandes olhos negros apavorados. ─ Não!
Ele fez uma careta. Pegou o telefone celular e digitou. Suas mãos tremiam. Ele teve que digitar os números
duas vezes antes do telefone tocar no outro lado da linha. Seu rosto parecia esculpido em pedra.
─ Madra, você pode vir até a fazenda? Eu fiz algo... Há uma menina. Por favor. Eu não sei quanto dano causei. -
Disse ele com os dentes cerrados. ─ Sim. Sim, eu vou mandar um carro. Depressa. Obrigado.
Ele desligou e ligou para uma empresa de aluguel de carros, deu um endereço e uma ordem. E desligou o
telefone.
─ Madra vem cuidar de você. - Disse ele. ─ Ela é médica. Sara, você vai me deixar levá-la para dentro?
Ela nem sequer o ouviu. Ela estava presa no passado, no terror, sozinha.

Capítulo Seis
Wolf pegou um cobertor no depósito do estábulo e o colocou sobre os ombros nus de Sara, tomando o
cuidado para não tocá-la. Ela ainda estava tremendo. Ele não conseguia sequer fazê-la responder. Wolf nunca se
sentira tão miserável, tão cruel, em sua vida. Ele odiava o que tinha feito. E não sabia como remediar isso.
Sara estava ciente do som de um carro chegando. Wolf se afastou. Um minuto depois ele estava de volta com
uma bela mulher loira.
A mulher parecia jovem até Sara ver seu rosto de perto. Ela deveria ser, mais ou menos, da idade de Wolf.
Madra falou com Sara, muito gentilmente, e tirou o estetoscópio.
A médica fez um rápido exame e, em seguida, aplicou uma injeção em seu braço. Ela estava tremendo. O
cobertor a fazia sentir-se mais aconchegada.
Depois de um minuto, ela começou a relaxar.
─ Você tem que levá-la para dentro agora. - Madra disse suavemente.
─ Querida, eu vou levantar você em meus braços. - Wolf disse suavemente, um tom contido em sua voz
profunda quando ele se aproximou. ─ Eu não vou machucá-la. Eu juro.
Sara enrijeceu, mas não disse nada. Ela fechou os olhos e estremeceu quando ele a levou para dentro da casa,
para o quarto de hóspedes no andar de baixo. Wolf colocou-a sobre a colcha.
─ Deixe-me sozinha com ela. - Madra disse suavemente.
─ Claro.
Ele saiu, foi direto para o seu escritório, fechou a porta, abriu uma garrafa de uísque e encheu um copo.

***

─ Isso não vai ajudar. - Madra disse, alguns minutos depois parada na porta.
Ele bebeu o último gole do líquido âmbar que estava no copo. Durante sua ausência, ele tinha recolhido o
vestido e os sapatos de Sara da sala de estar. Colocaria no quarto de hóspedes mais tarde, quando a oportunidade
surgisse. Ele não queria embaraçar Sara ainda mais abertamente exibindo suas roupas na sala de estar.
Wolf já tinha guardado a sua própria roupa, exceto o casaco. Era embaraçoso ter que listar seus pecados a uma
velha amiga, mas Sara precisava de ajuda. De jeito nenhum ele iria deixá-la sair dali sozinha. Não depois de ter
visto a expressão em seu rosto.
Ele estava pálido e sombrio.
─ Ela falou com você?
Ela balançou a cabeça negando.
─ Ela está dormindo. Tudo o que ela repetia era: por favor, não. - Madra olhou para ele.
Ele afastou o olhar do rosto da amiga para não ver a acusação em seus olhos escuros.
─ Eu não tinha estado com uma mulher por um longo tempo. Apenas... perdi o controle. Eu não a forcei. -
Acrescentou entre os dentes. ─ Isso não seria mesmo possível. Ela é... virgem. - Disse em um tom torturado. ─
Excessivamente virgem. Precisa de uma pequena cirurgia. - Ele soltou um suspiro longo e áspero. ─ Mesmo
assim, eu a fiz ficar morrendo de medo.
Ela suspirou e sentou-se no sofá de couro ao lado da mesa.
─ Você quer falar sobre isso?
Ele riu com frieza.
─ Não. Mas eu vou ter que falar. Ela foi atacada, quase estuprada pelo padrasto. Durante este tempo, eu pensei
que ela tinha tentado afastá-lo da mãe, que era uma rivalidade, ele ficou excitado, e ela se assustou com a paixão
dele. - Ele passou a mão sobre o rosto magro e contraído. ─ Ela tinha treze anos, Madra. - Seus olhos estavam
fechados, e ele estremeceu. ─ Treze.
─ Querido Deus, que monstros podem ser alguns homens. - Disse ela.
─ Sim. - Ele se sentou na ponta da mesa e cruzou os braços sobre o peito. ─ Eu consegui falar com ela. - Ele
confessou. ─ sobre Ysera. Ela me ouviu. Não me criticou. Eu pensei que a timidez dela era encenação. Algumas
mulheres pensam que fingir inocência é uma maneira de chamar a atenção de um homem. Eu realmente não
acreditei quando ela falou o sobre o problema físico. - Ele olhou para o chão. ─ Eu fui um tolo. Eu a feri, quando
ela já havia sido ferida o suficiente. Gabriel, o irmão dela, disse que nós poderíamos ferir um ao outro, porque
nenhum de nós tinha superado o passado. Gabriel estava certo. Oh, Deus, como eu queria tê-lo escutado!
Madra balançou a cabeça.
─ Ela deveria ter feito terapia. Você também - Acrescentou ela. ─ Eu venho dizendo isso a você há anos.
─ Eu não posso falar com um estranho sobre Ysera. - E ela... - Ele disse. E apontou com a cabeça em direção ao
quarto. ─ Não conseguiu, nem mesmo, falar com o próprio irmão sobre o padrasto. Ele foi para a prisão por seu
testemunho. Eu sabia disso, e não confiei nela. Eu não percebi o quão jovem ela era quando aconteceu... - Ele
fechou os olhos. - Deus, Madra, o que eu vou fazer? Eu não posso deixá-la ir para casa sozinha. O irmão está no
exterior. Ela não tem família. No entanto, se forçá-la a ficar aqui... ela vai me odiar ainda mais.
─ Traga outra mulher para ficar com ela, até que ela seja capaz de voltar para casa. - Madra sugeriu.
Ele a olhou. Depois de um minuto, balançou a cabeça concordando.
─ Vou ligar para Bárbara Ferguson. Ela é dona de um café na cidade. Seu filho é tenente da polícia. Ela faria isso
por mim. - Ele fez uma careta. ─ Todo mundo vai saber. Isso vai machucá-la mais...
─ Eu conheço Bárbara. - Disse ela. ─ Ela não é fofoqueira. Não vai contar a ninguém o motivo real. Mas você
tem que ter controle sobre si mesmo, Wofford. - Acrescentou suavemente. ─ Isto não é maneira de viver.
Ele levantou a cabeça e passou a mão pelo cabelo grosso.
─ O irmão dela vai esfregar o chão comigo. - Ele sussurrou. E riu com frieza. ─ Eu vou deixar que ele faça isso.
Pode ajudar a ambos.
─ O que vai ajudar é terapia.
Ele hesitou, mas apenas por um momento.
─ Eu conheço uma psicóloga em Washington. - Ele disse depois de um minuto. ─ Ela foi terapeuta de Colby
Lane. Ela tem uma cobra como animal de estimação. - Acrescentou com uma risada. ─ Talvez Sara fale com ela,
se eu concordasse em falar com ela, também. Se ela não carregar uma das minhas armas e atirar em mim com
ela.
─ Viva um dia de cada vez. - Madra aconselhou gentilmente.
Ele se levantou e a abraçou calorosamente.
─ Obrigado por ter vindo aqui.
─ Mark nunca me perdoaria se eu não tivesse vindo. - Ela disse com um sorriso. ─ Nós três somos amigos desde
a escola primária.
─ Ele passou a minha frente ou eu teria me casado com você primeiro. - Ele brincou.
Ela riu. Eles eram como irmãos durante todos esses anos.
─ Claro que teria. - Ela olhou para a garrafa de uísque. ─ Essa é uma ideia muito ruim. - Comentou.
Ele deu de ombros.
─ Uma arma é pior.
Ela fez uma careta.
─ Todos nós cometemos erros.
─ Este foi o pior da minha vida, e eu não sou o único pagando por isso. - Disse ele tristemente. ─Você pode ficar
até eu chamar Bárbara e ver se ela pode vir?
─ Claro. - Ela disse.
─ Vou fazer um café. - Disse ele, e sorriu.

***

Bárbara veio com uma bolsa para passar a noite. Ela fez uma careta quando viu o rosto de Wolf. O grande
homem de olhos azuis gelados passava muito tempo no seu café. Ela havia se afeiçoado a ele. Ele tinha sido
reticente ao telefone, mas quando ela chegou e viu o rosto transtornado dele, começou a entender o que
provavelmente tinha acontecido. Sara era tão inocente, e ele tão mundano. E ela tinha ouvido falar coisas sobre
Wolf por seu filho, o tenente da polícia de San Antonio, Rick Marquez, que era um amigo de Rourke, um
mercenário que passava temporadas em Jacobsville em operações secretas. Wolf conhecia Rourke.
─ Eu fiz algo imperdoável. - Ele disse para Bárbara. ─ Muito obrigado por ter vindo. Eu não posso deixar Sara ir
para casa. Ela ficaria sozinha, e eu... Eu evoquei algumas memórias terríveis para ela.
Bárbara assentiu.
─ Tudo certo. Tenho pessoas que podem cuidar da cafeteria enquanto estou aqui. - Ela disse suavemente.
─ Tudo bem.
─ Eu tenho que ir para casa. Obrigada por enviar o carro. - Disse Madra para Wolf. ─ Você vai chamar aquela
psicóloga ou vou ter que perturbá-lo até que você faça?
Ele concordou com a cabeça. E a abraçou.
─ Diga a Mark que eu agradeço por ele permitir que você viesse.
─ Você sabe que ele faria qualquer coisa por você. - Disse ela. ─ Além disso, você é o padrinho dos nossos
filhos. Como eu poderia recusar?
─ Ela vai ficar bem? - Wolf acrescentou com preocupação.
─ Ela está traumatizada. - Disse Madra. ─ Mas é mental, não físico. Você não a machucou.
─ Isso é o que você pensa. - Ele disse miseravelmente.
Ela deu um tapinha no ombro dele.
─ Durma um pouco. Na parte da manhã, você pode pedir desculpas.
─ De manhã, ela estará procurando a chave do armário de armas. - Ele disse pesadamente.
Madra se despediu de Bárbara e foi até o carro de aluguel que estava esperando para levá-la para casa.

***

Bárbara entrou no quarto e olhou para a jovem pálida dormindo sob as cobertas da cama grande.
Wolf olhou para a cadeira onde tinha colocado o vestido e os sapatos de Sara enquanto Bárbara se aproximava
da cama.
─ Ela nunca vai me perdoar. - Wolf disse rangendo os dentes. ─ E Gabe vai me matar quando souber.
─ Como ele vai saber? - Bárbara perguntou.
─Porque eu vou contar a ele. - Disse ele rapidamente. ─ Eu mereço ser castigado. - Seu rosto estava tomado por
uma expressão de dor. ─ Ela me ouviu. Eu desabafei, e ela me ouviu. Então eu retribuí com... isso. - Ele se virou.
─ Madra está certa. Você pode pedir desculpas amanhã. Sara não é vingativa. - Acrescentou ela em voz baixa. ─
Dê-lhe tempo.
Ele balançou a cabeça.
─ Isso não ajuda.
─ Tente dormir um pouco. Eu também vou.
─ Obrigado por vir. - Disse.
Ela sorriu.
─ Eu gosto de Sara.

***

Na manhã seguinte, Sara acordou ainda atordoada e com leves lembranças da noite anterior. Ela ainda estava
meio dormindo, e quase engasgou quando viu uma cabeça no travesseiro ao lado dela.
Mas era Bárbara, que se virou e deu-lhe um sorriso sonolento.
─ Bom dia. - Disse a mulher mais velha, baixinho. ─ Como você se sente?
─ Horrível. - Sara corou e olhou ao redor. ─ Eu não me lembro...
─ Madra Collins veio para examiná-la. - Disse Bárbara. ─ Aplicou-lhe uma injeção e colocou-a na cama. Wolf
me pediu para vir e ficar enquanto você estiver aqui. Ele disse que não poderia deixá-la ir para casa sozinha, na
condição em que você estava. - Ela hesitou. ─ Ele está desesperado. Diz que seu irmão vai espancá-lo, e ele vai
deixá-lo fazer isso.
Sara olhou para baixo. Suas lembranças da noite anterior eram vívidas e constrangedoras. Ela tinha vergonha
de ter deixado as coisas irem tão longe. Mas o que mais se lembrava era da expressão de Wolf quando ele se
ajoelhou ao lado dela e pediu-lhe para deixá-lo levá-la para dentro. Ele parecia revoltado quando ela lhe contou a
verdade sobre o que o padrasto tinha feito. Parecia se sentir enojado, envergonhado e culpado.
Realmente não era tudo culpa dele. Ela queria o que tinha acontecido até que percebeu que ele estava se
vingando de Ysera no seu corpo. Ela se perguntou se ele se lembrava disso. Claro que ele se lembrava. Ela se
sentia amarga. Doente.
Sara se sentou e colocou as pernas para fora da cama. Ela percebeu de repente que seu vestido e sapatos ainda
estavam na sala de estar, onde ele a havia despido...
─ Eu não estou vestida. - Ela sussurrou. ─ Meu vestido...
─ Não é esse? - Bárbara perguntou curiosamente, apontando para a cadeira contra a parede. Seu vestido estava
dobrado sobre ela e seus sapatos no chão ao lado da cadeira.
─ Oh. Sim.Você pode me levar para o meu apartamento? - Sara perguntou num sussurro fantasmagórico.
─ Não, você não pode ir para casa ainda.
─ Mas eu...
─ Eu vou ficar aqui com você. - Disse Bárbara. ─ Mas nenhum de nós está disposto a deixá-la sozinha. Você
está traumatizada, Sara.
Ela corou e seus grandes olhos negros pareciam atormentados...
─ Ele contou?
─ Ele só disse que as coisas ficaram fora de controle, isso é tudo.
O que tornava a situação mais fácil. Ela jogou o cabelo embaraçado para trás.
─ Uma de suas mulheres veio cuidar de mim. - Ela disse com um riso amargo.
─ Ela e o marido são amigos de infância de Wolf. - Bárbara explicou. ─ E ele é padrinho dos filhos deles.
─ Oh.
─ Nosso senhor Patterson não tem mulheres. - Bárbara disse, e seus olhos azuis brilharam quando Sara corou. ─
Há boatos sobre isso. Aparentemente, ele leva belas loiras ao teatro, ópera e balé, e depois as deixa na porta de
suas casas e vai embora. Algumas delas ficam frustradas o suficiente para falar sobre isso.
Por alguma razão estranha, isso tornava a noite anterior mais suportável. Mas Sara ainda sentia a tensão do
que tinha acontecido.
─ Onde ele está? - Ela perguntou ansiosamente, olhando para a porta, como se tivesse medo que ele pudesse
entrar por ela a qualquer momento.
─ Eu vou ver. E vou fazer café da manhã para todos nós, então eu vou até San Antonio buscar algumas coisas do
seu apartamento, se você confiar em mim e me der à chave.
─ Quero ir para casa. - Sara disse com um soluço abafado.
Bárbara colocou os braços ao redor dela e a abraçou com força.
─ Você só precisa de um pouco de tempo. - Ela disse suavemente. ─ Você não deixou que um homem te tocasse
desde que aconteceu, certo?
Ela se inclinou para trás.
─ Ele disse a você...?
─ Não. Eu reconheci os sinais. - Respondeu Bárbara. ─ Rick me trouxe uma vez uma jovem que havia sido
estuprada. Ela ficou comigo até que ele tivesse o estuprador sob custódia. Fui ao julgamento e me sentei com ela.
Sara sentiu o calor das lágrimas caindo pelo rosto.
─ Não há necessidade de me dizer algo que você não queira. - Bárbara acrescentou.
Sara suspirou.
─ Meu padrasto tentou me estuprar quando eu tinha treze anos. - Ela confessou. ─ Meu irmão chegou na hora
certa e o impediu. Ele foi preso. Houve um julgamento. - Seus olhos se fecharam. ─ Eu tive que testemunhar. Ele
foi para a cadeia, e minha mãe me jogou para fora da casa, junto com Gabriel. A tia de um dos defensores
públicos nomeados pelo tribunal, no segundo julgamento, nos criou e nos deu um lar.
Ela não mencionou a razão do segundo julgamento. Ela sorriu tristemente.
─ Ela foi a família que nunca tivemos.
─ Pelo menos vocês tiveram alguém para amá-los. - Disse Bárbara.
─ Sim.
─ O julgamento foi a pior parte, eu acho.
Sara estremeceu.
─ Os advogados de defesa podem ser cruéis. - Lembrou Bárbara. ─ Eu não acreditava nisso até que vi com meus
próprios olhos.
─ O advogado disse que eu provoquei meu padrasto até que ele enlouqueceu. Que foi tudo culpa minha.
─ Canalha. - Disse Bárbara.
Sara deixou escapar uma risadinha. E enxugou as lágrimas.
─ Sinto muito. Estou descontrolada esta manhã.
─ Você pode comer alguma coisa?
─ Eu adoraria tomar um café, pelo menos... Se ele não estiver lá. - Ela acrescentou, tremendo com o pensamento
de encarar Wolf novamente com as lembranças do que havia acontecido entre eles na noite anterior.
─ Eu vou ver.
Bárbara colocou suas roupas e foi para a cozinha. Ela estava deserta. Lembrou que Wolf não tinha empregada.
Era uma piada local que ele não iria deixar uma mulher entrar em sua casa, muito menos em sua cozinha. Ele era
um dono de casa excepcional e também diziam, um excelente chef gourmet.
Bárbara não o encontrou em lugar algum. Então, percebeu uma porta entreaberta no fim do corredor, e a abriu.
E lá estava ele. Wolf Patterson. Debruçado sobre sua mesa com um copo virado e abraçado a uma garrafa de
uísque quase vazia.
Então ele não era tão frio quanto Sara pensava, depois de tudo.
Bárbara foi até a mesa e o sacudiu suavemente.
─ A culpa é minha. - Disse ele, meio dormindo. ─ A culpa é minha. Ela vai me odiar para sempre. Oh, Deus, eu
me odeio!
Um gemido saiu de sua garganta, e ele balançou os ombros largos.
Bárbara estremeceu.
─ Senhor Patterson, tem que ir para a cama.
─ Não. Não, eu preciso de uma arma...
─ Pare com isso! - Ela tentou arrastá-lo. Mas ele era pesado. O mais longe que ela conseguiu levá-lo foi até o
sofá. Ela fez uma careta quando conseguiu deitá-lo.
─ Eu sou um canalha. - Ele gemeu. ─ Que eu seja punido pelo que fiz aquela pobre alma atormentada! - Ele
colocou o braço sobre os olhos.
Bárbara pegou um cobertor que estava sobre uma cadeira. Ela o cobriu e empurrou o cabelo preto dele para
trás, como fazia com seu filho adotivo, Rick, quando ele se machucava.
─ Ela vai ficar bem. - Ela disse suavemente. ─ Tente dormir.
─ Ela estava com medo de mim. - Ele disse a voz torturada. ─ Ela estava tremendo toda!
Bárbara afagou o cabelo dele.
─ Durma.
─ Eu sou um canalha. - Ele suspirou. Segundos depois, estava roncando.
Bárbara saiu e fechou a porta suavemente atrás dela. Quando entrou na cozinha para fazer o café da manhã,
viu um vaqueiro em pé na porta da frente.
Ela abriu a porta. Tinha que ser muito discreta. E sorriu.
─ Olá. Você está procurando o patrão?
─ Uh, sim. - Ele começou. ─ Os rapazes estão prontos para ir, nosso capataz apenas precisa saber se ele tem algo
mais planejado para hoje, além de reunir os animais.
─ Ele não está se sentindo bem. - Disse Bárbara, pensando em uma boa desculpa. ─ Ele saiu com a Senhorita
Brandon a noite passada. Ela o trouxe para casa. A senhorita Brandon não podia ir embora, e deixá-lo sozinho,
mas não queria ficar aqui sozinha com ele. Fofocas, você sabe, então ela me chamou. - Ela sorriu. ─ Nós
ficaremos aqui até que ele esteja melhor.
O cowboy relaxou.
─ Espero que ele fique melhor em breve. Se vocês precisarem de alguma coisa, é só nos dizer, ok?
─ Eu farei isso. Tenho certeza que ele vai apreciar essa atitude.
─ É a Sra. Ferguson? Dona do café da cidade? - Disse o homem de repente. ─ Deus, senhora, o chefe é um cara
de sorte por tê-la aqui fazendo a comida para ele. - Ele riu. ─ Sua carne com batatas é a melhor comida do
mundo.
─ Eu ouvi dizer que seu patrão cozinha ainda melhor do que eu. - Ela respondeu.
─ Sim, senhora, mas ele gosta de todos esses molhos extravagantes e especiarias. - Disse ele, dando de ombros.
─ Os rapazes e eu não nos importamos de comer isso ocasionalmente, mas um homem quer comida de verdade.
Claro que foi uma felicidade o dia em que o novo cozinheiro chegou para o alojamento. - Ele sorriu.
Ela riu.
Ele tirou o chapéu.
─ Diga ao patrão que nós vamos trabalhar duro, e esperamos que ele se recupere logo.
─ Eu direi.
Ela fechou a porta. Teria que alertar não só Sara, mas também Wolf sobre aquela desculpa. Ele ia ter uma
senhora ressaca quando acordasse.

***

Bárbara preparou muffins de presunto, molho e uma omelete com as ervas que Wolf cultivava em uma
jardineira colocada na janela da cozinha.
─ Onde ele está? - Sara perguntou, porque Bárbara não tinha dito.
Bárbara passou manteiga no biscoito.
─ Desmaiado sobre a mesa do escritório.
─ Desmaiado?
Bárbara assentiu. Ela pegou as omeletes e colocou no prato.
─ Com metade de uma garrafa de uísque ao lado dele.
─ Mas ele não bebe. - Ela gaguejou. ─ Meu irmão diz que ele nem mesmo toma um licor.
─ Eu acho que ele provavelmente sentiu a necessidade de beber ontem à noite - Foi a resposta calma. ─ Eu o
coloquei no sofá, e ele apagou como uma luz.
─ Ele disse alguma coisa? - Sondou Sara.
─ Só que queria ter uma arma...
Sara gemeu em voz alta.
─ Eu deveria ter dito a ele a verdade. - Ela disse com voz rouca. ─ Eu deveria tê-lo feito entender. A culpa foi
minha!
─ Vocês dois tem muitas cicatrizes. - Disse Bárbara.
Ela colocou a comida na mesa e encheu duas xícaras com café.
─ Sim, e agora mais ainda por causa da noite passada. - Ela colocou o rosto entre as mãos. ─ Eu não sabia, não
sonhei que seria tão difícil parar... - Ela corou.
─ Eu fui casada, você sabe. - Bárbara disse com um sorriso gentil. ─ Eu sei tudo sobre a paixão, acredite ou não.
─ Eu não sei de nada. - Sara confessou. ─ Ou eu não sabia. - Ela mordeu o lábio. ─ Eu nunca namorei depois do
que aconteceu. Bem, eu tentei uma vez. - Confessou. ─ Ele era um bom garoto. Eu estava no meu último ano.
Ele foi muito impaciente e eu só... perdi o controle e comecei a chorar. Ele pensou que eu era louca. Assim, a
notícia se espalhou, e ninguém mais me convidou para sair. Eu não teria ido de qualquer maneira, depois disso. -
Ela disse em um tom tenso, tomando café. ─ Eu pensei que nunca seria capaz de sentir alguma coisa com um
homem.
─ Mas isso não é inteiramente verdade, certo?
Ela balançou a cabeça concordando.
─ Ele é... um homem muito atraente. - Ela disse, mantendo os olhos baixos. ─ Ele é bonito, sensual e... - Ela
olhou para cima. ─ Eu pensei que talvez, apenas talvez... - Ela olhou para o seu café. ─ Então, eu tentei, e agora
nós dois estamos pagando por isso. - Ela bebeu mais café. ─ Ele nunca vai me perdoar.
─ Ele está lutando para perdoar a si mesmo, eu acho. - Bárbara respondeu. ─ Ele só precisa de algum tempo. -
Acrescentou. ─ As coisas vão melhorar. Por agora, não deixe que a omelete esfrie. Ela não fica gostosa quando
você tem que aquecê-las novamente. - Ela riu.
Sara conseguiu esboçar um sorriso e levou um pedaço a sua boca.

***

Wolf ainda não tinha aparecido quando Bárbara foi para San Antonio buscar as roupas de Sara. Sara tinha
tentado ir com ela, mas Bárbara não permitiu. A mulher mais jovem não podia ver a angústia refletida em seu
próprio rosto, mas Bárbara via, e tinha medo de que uma vez que Sara entrasse em seu apartamento, não quisesse
mais sair. Bárbara não queria que ela ficasse sozinha.
Ela não acrescentou que sabia coisas que Sarah não sabia sobre o passado de Wolf e da mulher que queria se
vingar dele e Rick tinha dito que ela estava atrás dele. Sara estaria em perigo em qualquer lugar exceto no rancho
até que seu irmão estivesse em casa novamente. Bárbara distorceu a verdade e disse para Sara que alguém estava
atrás de Gabriel, que Rick sabia e tinha lhe contado, e que seria perigoso para Sara ficar sozinha.
O que significava que Sara não poderia nem mesmo contar para Michelle ou pedir a ela para deixar o
dormitório da Faculdade para vir ficar no apartamento com ela. Isso não teria sido justo, de qualquer maneira.
Ela estava indo muito bem na Faculdade de jornalismo, mas estava tendo problemas com algumas matérias
básicas. Sara não queria ser a causa de ela ser reprovada.
Sara pegou uma calça de Bárbara, juntamente com uma camisa xadrez azul e sapatos baixos; felizmente as
duas mulheres usavam um tamanho semelhante, mesmo no sapato. Ela parecia muito diferente da pessoa serena,
elegante que tinha voltado para casa com Wolf na noite passada.
Sara sabia que Wolf tinha cavalos. Ela olhou para o estábulo e seus olhos negros se toldaram com lembranças
desagradáveis, então voltou sua atenção para o curral. Uma das éguas trotava com um potrinho a seu lado. Eram
Appaloosas*. Há muito tempo Sara não via um desses, embora um vizinho seu no Wyoming os criasse. Eles
eram animais muito bonitos com manchas ou pintas. Ela sorriu, enquanto observava a égua dar cabeçadas
carinhosas no potrinho. E ele relinchar de prazer.
─ Ela tem quatro anos. - Uma voz profunda e tranquila veio por trás dela. ─ Eu a resgatei. Seu antigo
proprietário bateu nela quase até a morte com uma barra de ferro. Deu muito trabalho restituir a confiança dela
nas pessoas.
Ela engoliu em seco. Não conseguia olhar para ele. Sabia que seu rosto estava vermelho.
Sara sentiu-o atrás dela. Não muito perto, mas quase podia sentir o calor do corpo dele.
─ Eu pensei em explodir meus miolos a noite passada. - Ele disse em um tom quase coloquial. ─ Mas eu decidi
que seria melhor esperar e deixar o seu irmão fazer isso por mim.
Ela virou-se muito lentamente e olhou para ele com receio, nos grandes olhos negros.
Ele estremeceu com sua expressão. Suas mãos estavam nos bolsos da calça jeans, e parecia um homem com
uma forte ressaca. Seus olhos estavam vermelhos. Seu rosto estava rígido como uma pedra.
─ Espero que você possa entender por que não podia deixá-la voltar para seu apartamento, e por que perguntei a
Bárbara se podia vir aqui. - Ele disse em um tom baixo. ─ Eu causei um monte de danos. Não foi por que eu
queria me confrontar com os resultados da minha própria estupidez, mas você está fragilizada neste momento. Eu
não vou deixá-la sozinha.
Ela engoliu em seco, desviou o olhar e passou os braços em volta do próprio corpo.
─ Está tudo bem. - Ela disse.

*Appaloosa - É uma raça americana de cavalo, conhecida principalmente pelo padrão de sua pelagem, com manchas ou pintas que por vezes lhe confere o apelido de
"cavalo-pintado". Ele distingue-se pelas cores que são herança de cavalos primitivos, visto que trata-se de uma raça muito antiga, representada em
pinturas rupestres datadas de até 18.000 anos a.C.
─ Bárbara vai estar aqui o tempo todo. - Ele prometeu. ─ Eu não vou... tentar ficar sozinho com você. Eu não
vou tocar em você novamente.
Ela assentiu com a cabeça. As palavras não saíam.
Ele se afastou um pouco, seus olhos voltados para o curral.
─ Você foi honesta comigo sobre quase tudo. Exceto pela idade que você estava quando aconteceu.
─ Eu sei.
O peito de Wolf subia e descia.
─ Eu pensei que ela estava fora da minha vida. Ela nunca saiu. Eu ainda estou tentando fazer com que outras
mulheres paguem pelo que ela me fez. Você não pode imaginar como eu me envergonho do que fiz a você.
─ Eu não conseguia falar sobre isso. - Ela disse depois de um minuto. ─ Ele fez... coisas imorais comigo. Ele
disse coisas muito obscenas. Eu nem sequer entendia algumas delas, até o julgamento. Foi terrível ser pintada
como uma prostituta adolescente. Mas o que aconteceu depois...
Ele colocou uma bota em cima da cerca e olhou para os cavalos, evitando olhar para ela.
─ Diga-me, Sara.
Ela passou as mãos frias na cerca de madeira.
─ Minha mãe contratou outro advogado para ele. Ele encontrou uma brecha na lei que permitiria um novo
julgamento. Mas quando meu padrasto saiu, tudo o que queria era me fazer pagar por colocá-lo na cadeia. Ele
veio atrás de mim com uma arma. Eu estava saindo de casa, para ir à escola, quando de repente ele apareceu. Ele
me xingou, e riu de mim. Ele disse que eu não viveria para testemunhar contra ele uma segunda vez. - Seus olhos
estavam fechados. Ela não podia observar o homem ao seu lado, em pé como uma estátua com olhos faiscando
de ódio. ─ Nosso vizinho era policial. Ele estava saindo para o trabalho, também, quando viu o que estava
acontecendo. Ele pegou seu revólver e ordenou ao meu padrasto para jogar a arma no chão. Ele não obedeceu e
tinha a intenção de me matar quando o policial atirou, a bala atravessou a cabeça dele. - Ela estremeceu toda. E
não conseguiu dizer mais nada.
Ela sentiu os braços de Wolf ao redor dela, e o corpo forte segurando-a ternamente, sem paixão. Ela sentiu as
mãos na parte de trás de sua cabeça, deslizando pelo seu longo cabelo. Uma boca pressionada sobre sua testa. Ela
ouviu palavras sussurradas, palavras suaves e confortadoras, enquanto ela estremecia revivendo o trauma.
─ Houve acusações contra o policial. Eu... eu testemunhei, não queria que ele pagasse por ter me salvado... Toda
essa história triste trouxe algo realmente maravilhoso. O defensor público tinha uma tia solteira que nos acolheu
e deu a Gabe e a mim um lar, ela nos tratou como os filhos que ela nunca teve.
─ E o policial?
─ Meu testemunho o livrou das acusações. - Ela disse. E fechou os olhos estremecendo novamente. ─ Mas o
desfecho dessa história foi mais uma coisa horrorosa para me manter acordada durante a noite. Eu o odiava. Eu
realmente o odiava. Mas eu o vi morrer... Eu me senti responsável. Minha mãe gritou no julgamento me
acusando. Ela disse que eu era uma assassina e que me odiava. - Sara respirou fundo. ─ Minha vida tem sido um
inferno - Soluçou.
Wolf beijou suas pálpebras molhadas, falava suavemente enquanto suas mãos acariciavam lentamente o seu
cabelo.
─ Meu pobre bebê. - Ele sussurrou. ─ Deus, eu sinto muito!
Os punhos cerrados de Sara descansavam em cima da camisa que ele usava. Ele cheirava a cigarro, café e
alguma agradável colônia. Ela deixou sua testa descansar contra o peito dele, enquanto ele a abraçava.
Ele estremeceu pela prova de confiança que ela estava lhe dando, quando tinha feito tudo para trair essa
confiança.
─ Eu nunca teria tocado em você, se soubesse. - Ele disse em um tom áspero.
Ela respirou trêmula.
─ Eu sei.
Ele estava muito instável para perceber o que ela estava admitindo. Ele alisou o cabelo preto e levantou a
cabeça, deixando a brisa fresca tocar os fios do seu próprio cabelo, que estavam encharcadas de suor.
Ela ficou no círculo aconchegante dos braços fortes, os olhos fechados. Surpreendentemente, era o primeiro
momento de paz que ela vivenciava em muitos anos.
O som de um carro vindo pela estrada chamou a atenção. Ela se afastou dele, um pouco inibida quando uma
limusine escura parou na porta da frente.
─ Não é Bárbara. Ela levou o seu próprio carro. - Ela disse.
─ Não. Definitivamente não é Bárbara. - Ele disse concordando. ─ Eu só espero que ela não tenha trazido seus
animais de estimação.
─ Ela? - Ela olhou para ele, preocupada.
─ Eu quase posso ver o que você está pensando. - Ele disse calmamente. ─ Não é uma das minhas mulheres. Eu
não tenho mulheres desde Ysera. Eu disse isso a você e é verdade. - Ela apenas olhou para ele. ─ Eu espero que
você possa me perdoar por isso. - Acrescentou, apontando para a casa. ─ Eu não posso deixar você ir para casa
até que tenha certeza que não vai encontrar nenhuma maneira drástica para esquecer o que eu fiz. - Acrescentou.
─ Não estou entendendo.
Ele colocou as mãos nos bolsos, enquanto uma mulher saía da limusine. Que se afastou depois de deixá-la.
Ela foi para a varanda arrastando uma mala com rodinhas.
─ Você vai entender. - Disse ele. Indo em direção à varanda.
Uma jovem mulher estava em pé na varanda. Ela tinha cabelo preto e pontas com reflexos vermelhos. Estava
usando um vestido preto longo, com bijuterias em prata. Suas unhas estavam pintadas de preto assim como seus
lábios. E tinha um piercing no nariz.
Ela virou e seus olhos prateados se fixaram nas duas pessoas que estavam se aproximando da varanda.
─ Eu sou Emma Cain. - Ela se apresentou. ─ Eu suponho que um de vocês seja Wofford Patterson.
Impressionada Sara deu uma pequena risada.
─ Ela é muito baixa. - Disse Wolf, apontando para Sara. - Por isso provavelmente sou eu. Prazer em conhecê-la.
- Ele estendeu-lhe a mão. ─ Esta é Sara Brandon. - Acrescentou, indicando sua companheira.
─ Só posso ficar dois dias. - Ela disse. ─ Então é melhor começarmos logo. Preciso de um quarto tranquilo e um
bule de café preto. E nós vamos ter que fazer isso um de cada vez. Eu não gosto de fazer com casal.
Sara estava tendo pensamentos horríveis.
─ Fazer com casal? - Ela olhou para Wolf com um olhar tão chocado que ele caiu na gargalhada.
─ Não se trata de sexo em grupo. - Emma disse com uma careta. ─ Será que ele não te disse? Eu sou psicóloga. -
Ela olhou para Sara com um sorriso malicioso. ─ Ambos estão traumatizados, e vim ajudar!

Capítulo Sete
Emma Caim não era o que Sara esperava de uma terapeuta. Ela estava vestida informalmente, e mais parecia
uma gótica do que uma psicóloga, mas sua inteligência ficou evidente desde o início.
Fez Sara se sentar em uma poltrona no escritório de Wolf e tirou o iPod. Ela olhou para suas anotações,
apertou os lábios e, em seguida, recostou-se no sofá.
─ Primeira pergunta. - Ela disse, e sorriu. ─ Como você se sente sobre Wolf Patterson esta manhã?
Sara mordeu o lábio inferior.
─ Nada disso. Não pense em uma resposta. Apenas fale. - Emma sugeriu.
─ Eu não sei como me sinto. - Disse Sara. ─ As coisas foram longe demais. Ele estava... Ele... - Ela tentou
encontrar as palavras.
─ Ele usou você para se vingar de uma mulher que o humilhou. - Foi a resposta.
Sara balançou a cabeça tristemente.
─ E você estava esperando algo totalmente diferente.
Houve uma leve hesitação. Então, Sara balançou a cabeça concordando novamente.
─ Eu nunca fui capaz de sentir qualquer coisa, com outros homens. - Confessou. ─ Mas desde a primeira vez que
eu o vi foi diferente, eu... me sentia estranha quando ele olhava para mim. Era agressiva, porque ficava com
medo do ele me fazia sentir.
Emma sorriu.
─ Ele não sabe disso?
─ Não.
─ Você o queria. - Sara ficou vermelha. ─ Não é pecado desejar alguém. - Emma disse suavemente. ─ É uma
reação humana natural. É assim que temos bebês.
─ Bem, sim, mas...
─ Mas?
Os grandes olhos negros de Sara brilharam com lágrimas contidas.
─ Foi minha culpa as coisas saíram do controle. - Ela sussurrou, como se fosse uma vergonha até mesmo falar
sobre isso. Ela ficou surpresa ao ouvir o que acabou de dizer. Até então, não tinha percebido que se culpava. ─
Eu pensei que ele sentisse alguma coisa por mim.
─ O que tornou tudo pior, certo?
─ Sim. Porque não significou nada para ele - Disse ela. ─ Ele foi muito mal tratado por uma mulher. Ela o
humilhava quando faziam amor. Ela parecia fisicamente comigo. - Acrescentou com um sorriso triste.
Emma assentiu enquanto fazia anotações.
─ O que você sabe sobre ele? - Emma perguntou depois de um minuto.
─ Eu sei que ele tem lembranças terríveis. - Respondeu. ─ Assim como eu, só que piores. Ninguém sabe
exatamente o que ele faz, ou fez, para viver. Ele disse que trabalhou para o FBI, mas ele e meu irmão são
amigos. E meu irmão é um soldado profissional, um mercenário.
─ Acredite em mim, eu conheço os mercenários. - Disse Emma. ─ As pessoas pensam que eles são implacáveis,
que farão qualquer coisa por dinheiro. - Ela balançou a cabeça. ─ Se não fosse pela ética profissional, eu poderia
lhe contar algumas histórias.
─ O Sr. Patterson... Wolf... me contou algumas.
Emma assentiu com a cabeça e sorriu.
─ Senhor Patterson?
─ Era como eu sempre o chamava antes. - Disse ela.
Emma fez mais anotações.
─ Você sabe alguma coisa sobre a infância dele?
─ Sim. - Ela mordeu o lábio. ─ Mas isso é algo que ele mesmo tem que dizer. Eu não falo sobre outras pessoas. -
Acrescentou em tom de desculpa. ─ Eu tive que lhe contar sobre a mulher que o humilhou, porque foi o que o
levou a... fazer aquilo comigo.
─ Admirável. - Emma pensou.
─ Eu não acho que ele tenha falado muito sobre mim. - Sara acrescentou.
Emma riu.
─ Nada, na verdade. - Ela disse, levantando os olhos de prata para o rosto surpreso de Sara. ─ Ele foi muito
eloquente sobre si mesmo, e o quanto ele machucou você. - Ela estudou Sara. ─ Na verdade, eu estava esperando
contusões...
─ Não! - Sara disse, inclinando-se para frente. ─ Oh, não, ele nunca me machucaria desse jeito! Ele nunca me
machucaria fisicamente!
Emma inclinou a cabeça, como um pássaro atento, e esperou.
─ Ele... Ele é muito doce. - Ela sussurrou. E corou.
Emma não disse nada. Só fez mais anotações.

***

Uma hora mais tarde, Emma e Sara foram para a cozinha. Bárbara estava sentada lá com um Wolf Patterson
ansioso.
─ Sua vez. - Disse Emma, sorrindo.
Ele levantou, olhou para Sara, fez uma careta e seguiu Emma até o escritório.

***

─ Ela não é nada do que eu esperava. - Sara disse a Bárbara enquanto bebiam o café. ─ Meu Deus, eu poderia
dizer qualquer coisa a ela!
─ Ela tem uma aparência bastante singular. - Disse a mulher mais velha e riu.
─ Oh, sim.
─ Eu trouxe suas roupas. - Disse Bárbara. ─ E passei no café para ver como as coisas estavam funcionando.
─ Sinto muito...
─ Você é uma das melhores pessoas que eu conheço, Sara. - Bárbara interrompeu. ─ Não é problema, acredite
em mim.
─ Obrigada.
Bárbara sorriu.
─ Estou pensando nisso como férias. - Ela refletiu. ─ Eu não tenho uma há anos.
─ Sim, mas você está cozinhando aqui.
─ Não por obrigação. - Foi a resposta divertida. ─ Você vê a diferença?
Sara teve que concordar.

***

Sara vestiu uma calça comprida e uma blusa de gola alta preta, colocou por cima um casaco longo até a altura
do joelho para esconder seu corpo. Ela não queria parecer atraente. Prendeu o cabelo longo em um rabo de
cavalo com uma fita rosa.
Quando voltou para a cozinha, Wolf estava sentado ali com Bárbara.
─ Onde está à senhorita Caim? - Perguntou Sara.
─ Ela foi para o hotel. - Disse Wolf. ─ Ela vai voltar na parte da manhã.
─ Ela não vai ficar aqui? - Ela perguntou em voz alta.
Wolf tomou um gole de café.
─ Se você estiver disposta a partilhar o quarto com ela e Willie, eu a chamarei de volta.
─ Quem é Willie? - Ela perguntou.
─ Sua cobra píton de dois metros.
Sara lembrou-se então do que tinha ouvido falar sobre a psicóloga pouco tradicional quando ela chegou.
─ Ela cria cobras.
─ Ah, sim. - Concordou ele. ─ Willie é apenas um bebê.
─ Há coisas difíceis de entender. - Comentou Bárbara rindo.
─ Ela é muito boa. - Sara disse quando se sentou ao lado de Bárbara à mesa da cozinha.
─ É verdade - Disse Wolf.
─ Preciso ver o que você tem no freezer. - Bárbara comentou.
─ Pode ficar sentada aí. - Ele respondeu. ─ Eu vou fazer quiche e crepes para o jantar.
─ Você cozinha? - Sara perguntou, surpresa.
─ Sim.
─ Isso será um mimo. - Bárbara riu. ─ Os cozinheiros se cansam de suas próprias comidas ao longo do tempo. -
Acrescentou, quando ambos olharam para ela. ─ Precisa de ajuda?
─ Sim. - Ele olhou para Sara. ─ Pode picar os temperos para mim? - Ele perguntou em voz baixa.
Ela não olhou para ele. Mas concordou.
─ Então, enquanto vocês dois estão fazendo a comida, gostaria de assistir ao noticiário. Tudo bem?
─ Vá em frente. - Disse Wolf. ─ Tenho TV a cabo e todos os canais. Divirta-se.
─ Está bem. - Ela pegou sua xícara de café e hesitou.
─ Eu derramo coisas o tempo todo. - Wolf disse, e sorriu. ─ Leve o seu café com você. O tapete não está limpo.
Ela riu.
─ Eu não estou planejando derramar o café, mas algumas pessoas não gostam de bebidas na sala.
Ele deu de ombros.
─ Eu sou um urso com a mobília.
Sara riu.
─ O que?
─ Há uma comediante. - Ele disse. ─ Eu adorava ver o programa dela alguns anos atrás. Ela dizia que os homens
eram ursos com a mobília. Ela dizia que a mobília para os homens eram somente apoio para alguma coisa.
Ela desviou o olhar quando ele tentou manter contato visual. Wolf sorriu com tristeza. Ainda era cedo.

***

Sara picou os temperos com uma excelente faca que retirou de um exótico suporte de madeira cheio de
desenhos.
─ Você faz isso muito bem. - Ele observou enquanto aquecia o óleo em uma panela.
─ Eu adoro cozinhar.
─ Eu percebi isso. Você tem quase tantos livros de culinária quanto eu.
─ Sim, mas eu não consigo fazer crepes. - Confessou. ─ Eu queimo tudo.
─ Você só precisa de um pouco de prática. Isso é tudo.
Eles trabalhavam bem juntos, dividindo espaço, sem conversar. Ela gostou do que estava sentindo.
Companheirismo era algo que eles realmente nunca tinham tentado.
─ Você gostou de Emma? - Ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Ela não é o que eu esperava de uma psicóloga.
─ É por isso que eu gostei dela. Ela não usa métodos tradicionais.
Ela colocou os temperos em uma tigela.
─ Se você está se perguntando, se eu disse algo sobre você, a resposta é não. Bem, exceto... - Ela corou.
─ Eu contei o resto. - Disse rigidamente. ─ Ela achou que eu tinha batido em você.
─ Não! - Ela exclamou. ─ Eu disse a ela que você nunca me faria mal. Você nunca iria me machucar
fisicamente!
Ele ficou surpreso com a defesa inflamada. Ele a olhou fixamente.
─ Ela me disse isso. Depois de ela confirmar isso comigo. - Ele sorriu lentamente. ─ Ela achou engraçada a
maneira como você me defendeu. - Ele baixou os olhos para a panela. ─ Tenho vergonha de você ter me
defendido depois do que eu fiz.
Ela deixou escapar um longo suspiro.
─ Você deve ter percebido que eu não estava lutando. - Ele parou o que estava fazendo e se virou para ela. Ela
mordeu o lábio inferior. ─ Você está agindo como se eu fosse uma vítima. Eu não sou. Você não me machucou.
─ Eu não a machuquei fisicamente. - Ele disse secamente. ─ O que eu fiz para o seu orgulho é outra coisa.
Sara balançou os ombros esbeltos.
─ Orgulho é o que você tem antes da vida fazer você ter vergonha de ser mulher. Eu não podia deixar que um
homem me tocasse, por anos após o julgamento. Foi pior quando ele foi morto, e as pessoas em meu círculo de
amigos no Wyoming souberam. Essa foi uma das razões que fizeram Gabriel comprar um apartamento em San
Antonio, e a casa em Comanche Wells, para nós, porque ninguém nos conhecia aqui. Era um lugar onde eu
poderia viver sem ter pessoas falando sobre mim.
Ele encostou-se ao balcão, estreitou seus olhos claros, observando, esperando.
─ Eu tentei sair com um rapaz uma vez, quando eu estava no último ano do ensino médio. Ele sabia tudo sobre o
que aconteceu no Wyoming. - Ela olhou para suas mãos. ─ Eu gostava dele. Eu pensei que talvez... Mas quando
ele me levou para casa, tia Maude não estava lá e Gabriel estava em serviço. Ele queria ir mais longe e começou
a me beijar. Eu só... entrei em pânico. Eu lutei com ele e gritei. Ele olhou para mim como se eu fosse louca. Ele
saiu e me deixou lá. Ele contou aos amigos, eu acho, porque toda a escola sabia que eu ficava histérica se um
cara me beijasse. - Ela encolheu os ombros. ─ Então eu parei de tentar. De qualquer maneira, os homens eram
bastante repulsivos para mim.
Wolf a observava em silêncio.
─ Não eu. - Disse ele, com uma voz profunda e lenta.
Ela olhou para ele, corando.
─ Não você. - Ela confessou quase num sussurro. ─ Eu... nunca senti nada parecido.
O coração de Wolf acelerou. Ele se virou.
─ Era muito cedo. - Disse ele, misturando os ingredientes para fazer a quiche.
─ Sim. Eu pensei que eu poderia...
─ Não para você. Era cedo demais para mim depois de Ysera. - Ele misturou o leite, ovos e os temperos para
fazer o recheio. ─ Quando você tem seu ego pisoteado por dois anos, é preciso tempo para curar as feridas.
─ Alguém deveria tê-la enforcado em um poste com o fio de alta tensão. - Ela murmurou.
Ele deixou escapar um longo suspiro.
─ Nós tentamos. A milícia local vasculhou as colinas atrás dela. Mas ela vendeu tudo o que tinha e comprou sua
fuga para fora do país.
─ Você nunca mais a viu novamente?
─ Não. Mas uma das unidades associadas com a nossa a localizou, recentemente, em Buenos Aires. - Ele
respondeu. ─ Dizem que ela é amante de um milionário que vai financiar o seu regresso à África.
─ Ela está voltando? Por quê?
─ Ela estava envolvida no tráfico de drogas. - Disse ele. ─ Ela é uma traficante de alto nível com contatos no
mundo todo. É por isso que nós estávamos atrás dela. Nós trabalhávamos com a Interpol, até eu ser estúpido o
suficiente para confiar nela como informante. - Ele olhou para Sara com ironia. ─ Regra número um da
espionagem, nunca se envolva com uma fonte.
─ Espionagem?
Ele balançou a cabeça confirmando.
─ Eu trabalhei para várias agências federais deste país, e em certa época trabalhei para a Interpol. - Ele parou o
que estava fazendo e virou-se para ela. ─ Mas o meu último trabalho foi como mercenário. Eu trabalhei com o
seu irmão, de fato, em uma incursão na África. Foi assim que nós nos conhecemos. É por isso que ele tentou nos
manter afastados, porque ele sabia o que Ysera me fez.
─ Eu entendo.
─ E fica pior, Sarah. - Disse calmamente. ─ O tráfico de drogas não é o seu único interesse agora. Ela também
quer vingança. Eu ajudei a tirá-la do negócio, ela perdeu um monte de dinheiro. Enquanto estava escondida, não
importava. Agora ela tem alguém para lhe dar apoio financeiro e colocou alguém atrás de mim.
O coração dela pareceu parar de bater. Ela olhou para ele com o medo refletido nos seus olhos, o rosto pálido,
contraído.
─ Então, você não precisa se preocupar se vou ou não vou ser castigado pelo que fiz ontem à noite. - Ele disse
calmamente. ─ Ysera vai fazer isso por você.
─ Você está seguro aqui, certo? - Ela perguntou, incapaz de esconder a preocupação. ─ Você tem amigos como
Eb Scott, Cy Parks e o meu irmão.
Ele observou sua boca macia.
─ Seu irmão provavelmente vai fazer o trabalho por Ysera quando souber o que eu fiz.
─ Ele não vai saber nada por mim. - Ela disse teimosamente. ─ Ou por você. - Acrescentou. ─ Isso é assunto
nosso. Não dele.
Ele inclinou a cabeça.
─ Você não deveria me odiar?
Sara alisou a bancada.
─ Provavelmente.
─ Mas você não me odeia.
Ela balançou a cabeça negando.
─ Por quê?
Ela não respondeu.
Ele cobriu uma das pequenas mãos dela com a sua mão grande.
─ Por quê?
Ela se virou e olhou para ele com os olhos pretos lacrimejantes e tristes.
─ Eu queria o que aconteceu. - Disse ela, fazendo uma careta. ─ Eu pensei...
Ele deu um passo adiante.
─ O que você pensou, querida? - Ele perguntou suavemente.
─ Eu pensei que talvez com você...
Ele pegou uma mecha do cabelo preto dela e brincou com ele.
─ Você nunca esteve em perigo real. - Disse ele. ─ Nós dois sabíamos que não poderíamos ir tão longe.
Ela corou.
─ Mas nós fomos longe o suficiente. - Ele continuou. E procurou os olhos dela. ─ Quanto você sabe sobre
anatomia básica?
─ O que você quer dizer?
─ Você sabe que os espermatozóides são móveis, e podem nadar?
Sara empalideceu. Lembrou-se claramente do que tinha acontecido entre eles.
─ Eu não a penetrei. Mas não é preciso. Eu estava grudado em você quando ejaculei. - Ele sussurrou.
─ Isso não poderia ter acontecido. - Ela retrucou.
─ Mas isso aconteceu. Na verdade, isso também aconteceu com um amigo meu no treinamento básico. Ele e a
namorada eram religiosos. Sem sexo antes do casamento. Mas eles brincavam como fizemos na noite passada.
Ela ficou grávida quando ainda era anatomicamente virgem. Felizmente para ela, ele conhecia alguma anatomia
básica. Eles se casaram e têm quatro filhos agora.
Sua mente estava girando. Ela poderia estar grávida. Uma de suas mãos espalmou-se em seu ventre. Não sabia
se devia rir ou chorar. Ele a odiaria ainda mais se isso acontecesse. Ela fez uma careta.
─ Nós vamos lidar com isso. - Ele disse com firmeza. ─ Aconteça o que acontecer. Mas escute uma coisa. - Ele
ergueu o rosto dela para fitá-la com seus penetrantes olhos azuis. ─ É necessário duas pessoas para se fazer um
bebê. Então você não tem que tomar uma decisão sozinha. Entendeu?
Ela engoliu em seco.
─ Sim.
─ Você vai me dizer, sendo positivo ou não. - Ele disse. ─ Eu não vou esquecer e não vou perdoar se você não
me contar.
Ela soltou um suspiro trêmulo.
─ Está bem.
Ele tocou seu rosto corado.
─ Quando foi a sua última menstruação?
Ela mordeu o lábio.
─ Quando Sara?
─ Duas semanas atrás.
─ Droga!
Ele se virou de costas e continuou a preparar a quiche e não disse mais nenhuma palavra. Ele estava
angustiado. Tinha feito algo incrivelmente estúpido movido pela paixão incontrolável e a abstinência e ela teria
que pagar por isso. Qualquer que fosse a decisão tomada se ela estivesse grávida, isso nunca deveria ter
acontecido. Mas ele não estava apenas se vingando. Ele a quis ao ponto da loucura. Mesmo sem consumar o ato
de amor, tinha sido o prazer físico mais satisfatório da sua vida. Ele teve um orgasmo com ela, mesmo sem a
penetrar. E ela não recebeu nada, só insultos e humilhações.
─ Realmente eu deveria deixar seu irmão me matar. - Ele murmurou.
Sara não sabia o que dizer ou fazer. Wolf parecia abalado. Ela queria ter um filho dele, se ele demonstrasse o
menor interesse. Mas Wolf só queria saber se ela estava ou não grávida. Ela tinha certeza que Wolf não queria
ficar amarrado a ela pelos próximos 18 anos. Talvez sugerisse um aborto.
Era apenas uma terrível complicação em uma situação que poderia ter sido evitada simplesmente se ela tivesse
dito que não queria ir para casa com ele.
─ Eu nem tentei dizer não. - Ela disse em voz alta, em um tom angustiado.
─ Nós dois somos humanos. - Ele disse calmamente. ─ Eu a desejava ao ponto da loucura. Eu acho que você me
queria tanto quanto eu a queria.
─ No começo sim. - Ela concordou.
Wolf continuou a fazer a quiche.
─ Você é virgem. - Disse ele. ─ Eu fiz coisas... - Ele cerrou os dentes. ─ que você deveria ter feito com um
homem jovem e gentil. Alguém proveniente de uma família amorosa. Um homem para cuidar de você, dar-lhe
filhos, envelhecer a seu lado. - Seus olhos brilharam. ─ Eu estou com 37 anos. Você só tem 24 anos. - Ele
argumentou. ─ Quase uma geração de diferença.
Ela olhou para ele, não viu a sua idade, apenas o quão bonito e viril ele era.
─ Eu nunca poderia deixar outro homem me tocar assim. - Confessou, e baixou os olhos antes de ver o espanto
no rosto dele. ─ Então, realmente importa quantos anos você tem?
Ele se virou para ela, com as mãos cobertas de farinha.
─ Nenhum outro homem? Nunca?
Ela balançou a cabeça confirmando.
─ Somente você. Daquela maneira... só você.
Wolf corou.
─ Isso só piora tudo.
Ela olhou nos olhos azuis assombrados.
─ Foi minha culpa também.
Wolf a olhou com os olhos semicerrados.
Ela teve que desviar o olhar. Seu corpo inteiro se sentia tenso quando ele a olhava assim. Ela abraçou o
próprio corpo.
Ele não disse mais uma palavra.

***

Eles comeram quiche, crepes e de sobremesa um creme bruleé delicioso.


─Você deveria abrir um restaurante. - Bárbara disse, quando eles estavam empilhando os pratos na máquina de
lavar louça. ─ Eu nunca comi uma refeição melhor.
Ele riu suavemente.
─ Eu adoro cozinhar. Uma coisa que todos os lares adotivos têm em comum é que a maioria da comida é
intragável. Eu cansei disso, então encontrei uma mulher que sabia cozinhar e pedi para ela me ensinar.
─ Lares adotivos? - Perguntou Bárbara.
Ele assentiu com a cabeça. Mas não deu mais informações. Nem Sarah, que sabia mais sobre o passado dele
do que qualquer outra pessoa.

***

Após o jantar, Bárbara encontrou um filme que queria ver. Wolf foi com Sara ver uma chuva de meteoros que
foi anunciada anteriormente no noticiário. Ela usava uma das jaquetas de couro de Wolf. Ele insistiu, porque ela
não pediu a Bárbara para trazer um casaco. E o tempo estava muito frio.
─ O radiante* está no Noroeste, lá está ele, apontando para cima.
─ Você conhece muito sobre isso.
* Radiante - Ponto no céu de onde parecem surgir os meteoros de uma chuva de meteoros. O radiante indica onde a Terra está encontrando o rastro deixado pelo cometa,
ou asteroide, associado à chuva. As chuvas de meteoros são nomeadas de acordo com a posição de seu radiante. Oriônidas tem radiante na constelação do
Órion, Perseídeas, tem radiante na constelação de Perseu, etc. Dessa forma, o nome da chuva indica a constelação onde está o radiante e para onde devemos olhar para
observá-la.
─ Eu tenho um telescópio Schmidt-Cassegrain*. - Confessou. ─ Com uma abertura de dez polegadas. Lá no
sótão. Quase nunca o uso, porque acho uma atividade solitária procurar por eventos celestiais.
─ Eu tenho um telescópio refletor*. - Confessou. ─ Eu não o uso pela mesma razão.
─ Você tem que vir aqui de vez em quando para vermos juntos, a chuva de meteoros.
─ Isso seria bom.
─ Eu faria qualquer coisa no mundo para compensá-la, você sabe. - Disse depois de um minuto. ─ Você é a
única confidente que eu tive. Eu não confio nas pessoas. É difícil falar sobre a minha vida, especialmente sobre
as coisas desagradáveis do passado.
─ Eu sei.
─ Você acha que pode me perdoar? - Ele perguntou.
Ela sentiu a tensão do corpo dele ao lado dela. Ele estava quase tremendo, enquanto esperava que ela
respondesse.
─ Eu posso perdoá-lo. - Disse ela.
Ele relaxou a postura.
─ Em seu lugar, eu não sei se poderia.
─ Você não sabia. - Disse ele. ─ Eu não podia lhe contar tudo. - Ela se aconchegou em seu casaco. O casaco
tinha o cheiro dele. Era quente e agradável. ─ Eu exagerei.
─ Eu fui para cima de você como um trem desgovernado. - Ele confessou. ─ Apesar de tudo o que havia
acontecido antes na minha vida, eu não consegui controlar o que sentia por você. Eu estava vulnerável e isso me
irritou. Então, descontei em você.
─ Mas não é o que acontece com os homens? - Ela hesitou.
─ Até conhecer Ysera nunca houve uma mulher que pudesse me fazer perder o controle.
Ela pensou sobre isso. Parecia estranho.
Ele se mexeu e se virou em direção a ela. Não havia luz suficiente vinda da janela para que ela visse o rosto
dele.
─ Uma das minhas mães adotivas tentou me seduzir. Eu tinha doze anos. Ela gostava de meninos. - Ele mordeu o
lábio. ─ Eu não consegui me controlar. E fiquei tão envergonhado... Ela tentou me dizer que era natural, mas, em
seguida, o marido chegou e... - Ele se virou.
─ Espero que você tenha dito isso para Emma. - Ela disse.
─ Eu não posso dizer a Emma às coisas que eu posso dizer a você. - Ele explicou tenso.
A mão delicada de sara segurou a dele. Ela sentiu quando ele ficou tenso. Mas os dedos dele se fecharam em
torno dos dela avidamente.
─ Então, eu passei os próximos vinte anos tentando não perder o controle com as mulheres.
─ Por causa disso deve ter sido devastador o que aconteceu com ela.
─ Devastador. - Seus dedos estavam entrelaçados aos dela. ─ Quer saber uma coisa engraçada?
─ O que?
A mão dele apertou a dela.
─ Naquela noite com você, eu tive o primeiro orgasmo da minha vida.
Ela teve o seu primeiro naquela noite também.

*Telescópio Smithd-Casseigran*

* Telescópio refletor - Um telescópio refletor é um telescópio óptico que usa uma combinação de espelhos curvos e planos para refletir a luz e formar uma imagem.
Ela olhou para baixo e virou o rosto.
─ Você está corando?
─ Sim. Não olhe.
Ele riu baixinho.
─ Nós temos memórias muito íntimas para dois inimigos, certo? - Ele ponderou. ─ Eu não deveria embaraçá-la. -
Ele apertou a mão dela novamente. ─ Mas é a verdade. Eu não sabia que era possível um prazer tão intenso
assim.
Ela engoliu em seco.
─ Nem eu. - Confessou em um sussurro.
Ele se inclinou e encostou a testa contra a dela.
─ Eu fiz você chegar ao clímax também. - Ele sussurrou. ─ Uma e outra vez. Eu assisti.
─ Você não deveria...
─ Seu rosto quando chegou ao orgasmo foi a coisa mais linda que eu já vi na minha vida. Eu deveria ter dito isso
naquela hora e não deixar o passado arruinar tudo.
Ela ficou muito quieta. E não disse nada.
─ Eu queria entrar em você. - Ele sussurrou contra a testa dela. ─ Profunda e lentamente. Eu queria... - Ele
engoliu o restante da frase. Ele queria que ela ficasse grávida. Mas não podia admitir isso. Ele estava pensando
agora que poderia ter acontecido de qualquer maneira. Ela poderia estar com seu bebê no ventre neste momento.
─ Wolf... - Ela protestou.
─ Você pode imaginar como seria? - Ele perguntou com voz rouca. ─ Você e eu, tão perto que até mesmo o ar
não poderia passar entre nós?
─ Você não deveria...
A boca de Wolf se moveu para baixo roçando a dela.
─ Eu não posso... fazer com outras mulheres. - Sussurrou.
─ O... O quê? - Ela engasgou.
─ Você me ouviu. - Ele retrucou. ─ Eu não fico excitado com ninguém, exceto com você.
Ela estava sem palavras.
─ Todas aquelas belas loiras...
─ Lindas. Experientes. Dispostas. - Ele suspirou. ─ Eu as levo para casa e volto da porta.
─ Por quê? - Ela perguntou atordoada.
─ Eu não sei por que, querida. - Disse ele. Seus dedos deslizaram através do rabo de cavalo que ela estava
usando, puxando a fita e fazendo o cabelo cair como uma cortina preta lisa pelas costas, ao redor dos ombros. ─
Seu cabelo é tão bonito, Sara. Lindo como você.
─ Eu não entendo. - Disse ela.
─ Nem eu. Mas tudo que tenho que fazer é tocar você. - Murmurou com ironia. Puxou-a para si e engasgou
quando seu corpo reagiu no instante em que seus quadris roçaram os dela. ─ Viu?
Ela ficou muito quieta.
─ Deus, desculpe! - Wolf começou a se afastar.
Os braços dela deslizaram para baixo e envolveram a cintura dele. Ela estava tremendo, mas o abraçava
fortemente.
─ Sara. - Disse ele com os dentes cerrados.
─ Está tudo bem. - Ela disse suavemente. ─ Eu não tenho medo de você.
Wolf colocou as mãos grandes levemente sobre os ombros dela, em seguida, a puxou para aproximá-la mais.
Engoliu em seco, tremendo de desejo, e a abraçou. Mas não a tocou intimamente. Só ficou lá no escuro, abraçado
a ela.
─ Sara. - Sussurrou. ─ E se nós fizemos um bebê?
─ Eu... não sei.
─ Você pode fazer um exame de sangue e descobrir. Não demora muito tempo.
─ Sim.
Ele ergueu o rosto dela.
─ Você vai ter que me dizer.
─ Ok. - Ela suspirou e descansou sua bochecha contra seu peito. ─ Eu vou te dizer.
Ela fechou os olhos. Era o paraíso, ficar tão perto dele, sentindo-se segura, protegida, querida. A única coisa
que faltava para ficar perfeito era ele a amar. Mas isso seria querer a lua.
Capítulo Oito
Sara pediu a Bárbara para trazer o seu laptop. Mais tarde naquela noite, depois que Bárbara foi dormir, ela o
ligou, tomando cuidado de manter o som baixo para não incomodar ninguém.
Ela entrou no jogo com o seu personagem e sorriu quando Rednacht sinalizou.
Como vai? - Perguntou ele. Você não aparece há uns dois dias.
Eu tive alguns problemas. - Disse ela.
Sim. Eu também. - Disse ele. Eu magoei uma pessoa.
Eu também. - Ela respondeu.
Eu me sinto um canalha. - Ele digitou. Ela confiou em mim e eu a machuquei.
Eu fiz o mesmo com alguém. Eu o fiz se sentir culpado por algo que ele não conseguiu controlar.
Ele digitou os caracteres de riso triste.
A vida real pode ser dolorosa. - Ele digitou.
Nem me fale. - Ela disse.
Você quer ir para o campo de batalha?
Eu gostaria, mas já é tarde e eu tenho que me levantar cedo amanhã.
Ok. O emprego de cabeleireira.
Ela tinha mentido para ele sobre isso, e agora estava presa a mentira.
Eu acho que você tem que pegar uma arma e ir atrás dos mal feitores, hein? - Ela brincou.
Algo assim. Eu tenho um inimigo. Muito perigoso.
Seu coração pulou uma batida.
Seja cuidadoso. Eu não tenho ninguém mais no mundo para jogar.
Ele hesitou um pouco.
Nem eu. Cuide-se.
Sara se sentiu acalentada. Ele era uma pessoa muito amorosa. Ela se perguntou que tipo de trabalho ele fazia
na polícia.
Bem, nós conversaremos em poucos dias. - Disse ela. Eu vou fazer algumas horas extras.
Eu também. - Ele disse. Bom trabalho.
Você também.
Boa noite, minha amiga. - Ele digitou.
Ela quase chorou.
Boa noite, meu amigo. - Escreveu de volta.
Depois de um minuto, ela saiu do jogo e desligou o computador. Havia lágrimas em seus olhos.

***

Emma Cain voltou no dia seguinte. Ela e Sarah estavam fazendo um bom progresso. Era a primeira vez que
Sara conseguia falar com alguém sobre sua infância, a traição de sua mãe, sobre o julgamento e suas
consequências. Era bem mais fácil por que ela já havia contado a Wolf.
Ela mencionou isso a Emma.
─ Ele é o tipo mais raro de confidente. - Confessou. ─ Eu consigo contar a ele qualquer coisa. Coisas que não
consigo contar nem mesmo para o meu próprio irmão.
─ Aparentemente, ele pode fazer a mesma coisa com você. - Veio a resposta divertida. ─ É um bom sinal,
também. A fraqueza de um homem é o seu desempenho na cama. Seria difícil para ele dizer a outro homem o
quanto foi humilhado por aquela mulher.
─ Ele é muito bom. - Ela murmurou. ─ Eu mataria aquela mulher.
Emma riu.
─ O que é tão engraçado?
─ Ele me disse a mesma coisa sobre o seu padrasto. - Confidenciou Emma. ─ Ele disse que era uma pena que o
homem estivesse morto, por que ele não poderia acabar com ele por você.
Ela sorriu. Em seguida, o sorriso desapareceu.
─ Você sabe muito sobre anatomia?
─ Eu sou bióloga*. - Disse Emma. ─ É a nossa especialidade.
─ Você é psicóloga...
─ Eu sou psicóloga forense. - Disse Emma, rindo da expressão fascinada de Sara. ─ Minha especialidade é a
mecânica da violência.
─ Meu Deus!
─ Sim, eu tenho formação em anatomia.
Sara engoliu em seco.
─ Pode uma mulher engravidar mesmo sem penetração?
Emma inclinou a cabeça.
─ Houve contato íntimo?
─ Sim.
─ Ele ejaculou?
─ Sim.
Emma suspirou.
─ Então, sim, a mulher pode engravidar desse jeito.
Ela fez anotações
─ Você disse a ele?
─ Ele me disse.
─ Entendo.
Sara suspirou.
─ Eu adoraria ter um filho dele. - Confessou. ─ Mas ele não estava muito entusiasmado. Na verdade, ele insistiu
para que eu diga a ele na hora em que eu souber alguma coisa. - Sara abraçou o próprio corpo. ─ Não posso fazer
um aborto. Eu simplesmente não posso!
─ Não sofra por antecipação. - Aconselhou Emma. ─ Até que saibamos algo concreto, não é nada. Pensamentos
ao vento.
─ Você tem razão.
─ Por que você acha que ele não gostaria de ter um filho com você?
─ Ele acha que eu sou muito jovem. - Ela respondeu.
─ Você tem vinte e quatro anos, certo?
─ Sim, mas ele tem trinta e sete. - Disse ela.
Emma riu.
─ O marido da minha melhor amiga é 17 anos mais velho do que ela. - Disse ela. ─ Eles têm três filhos, e ela
morreria por ele. Ele não achava que ela sabia a diferença entre paixão e amor. Ele ficou chocado! - Sara riu,
surpresa. ─ Então, ignore-o. Ele não sabe o que está falando. Agora, sobre a gravidez. Como você se sente sobre
isso?
─ Eu daria qualquer coisa para estar grávida dele. - Sara disse suavemente. ─ Qualquer coisa!
Emma franziu os lábios. E fez mais anotações.

***

Wolf foi menos entusiasta quando Emma falou com ele.


─ Ela é muito jovem. - Ele disse, quando ela lhe perguntou como se sentia sobre uma criança. ─ Muito ingênua.
Não amadureceu. Ela ficou perdida no passado, nas más recordações. Nunca teve encontros, nunca namorou, não
aprendeu sobre relacionamentos. Não seria justo com ela.
─ E se ela quisesse ter o bebê?
─ Ela não iria querer. - Ele disse com firmeza. ─ Eu a forcei a um relacionamento íntimo que ela realmente não
queria. Se eu não tivesse insistido...
─ Ela disse que ela insistiu.
─ Bem, ela está mentindo. - Ele retrucou. ─ Eu a envolvi, a seduzi, eu usei truques que deveria me envergonhar
de ter usado. - Ele fechou os olhos. ─ Se ela não tivesse um hímen imperfurado, eu a teria tomado. Essa seria a
traição final. Ela tem o direito de escolher o seu primeiro amante. Pelo menos eu não lhe tirei isso.

* Nos Estados Unidos a formação universitária é diferente da nossa, todo o aluno que termina o ensino médio faz o College um curso de 4 anos básico. Profissões como
medicina, direito e psicologia só podem ser feitas depois desse curso básico que pode ser em matemática, arquitetura, engenharia, biologia, etc.
Ela se perguntou como os homens conseguiam manter quaisquer relacionamentos. Certamente eles tinham
ideias estranhas sobre o que as mulheres queriam. Mas não era da sua conta ensinar-lhe a lidar com as mulheres.
Seu trabalho era ouvir e ajudá-los a identificar os seus problemas e superá-los. Era o que ela estava fazendo.
Emma tinha que voltar para casa. E foi com relutância, porque estes dois precisavam continuar a terapia.
─ Eu gostaria de continuar a tê-los como pacientes. - Disse-lhes na porta da frente. ─ Eu duvido muito que vocês
continuem a terapia com outro psicólogo. - Disse ela, franzindo a testa.
Sara mordeu o lábio inferior. Wolf fez uma careta e colocou as mãos nos bolsos de suas calças.
Emma suspirou.
─ Ouçam, ambos têm o Skype?
─ Sim. - Eles disseram em uníssono, em seguida, riram juntos.
─ Nós podemos fazer sessões dessa forma, se quiserem. - Disse Emma. ─ Vamos organizar consultas regulares.
Vai ser quase o mesmo que estar no meu consultório.
─ Isso seria ótimo. - Sara disse, aliviada.
─ Eu posso fazer isso. - Concordou Wolf.
Emma sorriu.
─ Tudo bem, então. Estarei em contato. - Ela olhou na direção da limusine que a estava esperando. O motorista
de roupa preta estava do lado de fora e parecia muito desconfortável.
─ Ele parece impaciente. - Observou Sara.
Emma riu.
─ Ele está apavorado. Eu levo o meu bebê em um transportador no banco de trás comigo.
─ A Píton. - Wolf disse, balançando a cabeça.
─ Estranho, não é, como algumas pessoas têm medo de cobras? - Ela suspirou, depois deu de ombros. ─ Por
anos, isso vem me mantendo solteira e sem encontros.
─ Você precisa encontrar um bom homem que ame répteis. - Aconselhou Sara.
─ Ou pelo menos um que não fique apavorado na presença de um. - Concluiu Wolf.
Emma sacudiu a cabeça.
─ Um dia quem sabe. - Ela meditou. ─ Manterei contato.
O motorista a encontrou no meio do caminho, e se afastou enquanto abria a porta de trás para ela e a fechava
rapidamente.
─ Quer apostar como os vidros da janela interna estão fechados. - Sara perguntou alegremente.
Ele riu alto.
─ Eu aposto que ele queria ter tranca na janela interna.
Ambos acenaram, embora não pudessem ver Emma através das janelas com vidro fumê. E entraram na casa.
─ Eu preciso voltar para casa. - Sara disse calmamente.
Wolf deixou escapar um longo suspiro. Não queria que ela fosse embora. A casa ficaria vazia. Ele estaria
sozinho. Mais uma vez.
─ Amanhã. - Wolf sugeriu.
Ela hesitou. Realmente não queria ir embora.
─ Amanhã. - Ela concordou.

***

Wolf a levou com ele até o galinheiro para coletar os ovos.


─ Olhe onde você coloca os pés. - Aconselhou. ─ Há titica de galinha em todos os lugares por aqui.
Ela riu suavemente.
─ Eu cresci com as galinhas. Nós as criávamos no rancho no Canadá onde morávamos quando meu pai ainda
estava vivo.
─ Você disse que seu pai era um paramilitar.
─ Sim. - Ela disse tristemente. ─ Ele era o tipo de homem que não podia viver sem o perigo.
─ Eu sei como é isso.
Ela olhou para ele com seus grandes e suaves olhos e depois os baixou, para que ele não pudesse ver sua
vulnerabilidade.
─ Eu acho que para você também seria difícil se estabelecer em algum lugar.
─ Provavelmente. - Ele concordou. ─ Eu vivo aqui há quatro anos, mas eu não fiquei em casa esse tempo todo.
Eu ainda trabalho como mercenário.
O coração de Sara gelou. Ela não tinha desconfiado, mas deveria ter. Ele disse que encontrou Ysera na África,
e não foi há tanto tempo assim.
─ Você se arrisca. - Disse ela.
─ Nem sempre. Eu sou cuidadoso. - Ele olhou para ela e fez uma careta. ─ Não tão cuidadoso o suficiente com
você. - Ele fez uma pausa, olhando para a cabeça inclinada. ─ Você pode me perdoar algum dia, mas eu nunca
vou me perdoar. Nunca!
Ela olhou para rosto contorcido de dor.
─ Não foi sua culpa eu me comportar como uma adolescente assustada. - Ela disse, mas corou. ─ Você não me
machucou.
Ele apertou a mandíbula.
─ Eu feri seu orgulho, como ela feriu o meu.
Ela inclinou a cabeça, estudando-o.
─ Os homens não... dizem aquelas coisas para as mulheres, quando fazem amor? - Ela perguntou em voz baixa,
um pouco envergonhada. ─ Eu vi um filme adulto uma vez. O homem disse a mulher coisas que me chocaram. -
Ela baixou os olhos. ─ Algo parecido com as coisas que você disse. Mas ele não estava bravo com ela, ou
tentando machucá-la.
O corpo de Wolf reagiu às palavras de uma maneira desconfortável. Ele desviou o olhar e virou um pouco, de
modo que sua condição não fosse percebida.
─ Os homens dizem todos os tipos de coisas. - Ele concordou. ─ Mas eu queria te machucar. É por isso que eu
me envergonho.
─ Você quer dizer que eu fui uma substituta de Ysera. - Disse ela.
Ele suspirou profundamente. Levantou a cabeça e olhou para a área cultivada de terra no horizonte...
─ Apenas quase no final. Até... - Disse. ─ Até que as memórias começassem a me assombrar, nunca tive tanto
prazer com o corpo de uma mulher. Mesmo sexo, sexo real, nunca foi tão bom.
Isso minimizou as lembranças amargas. Ela não disse nada. Apenas o olhava fascinada.
─ Eu... eu não sei nada. - Ela gaguejou.
Ele então se virou e a fitou com um olhar terno.
─ Talvez seja por isso que foi tão bom. Eu nunca fui o primeiro, com qualquer mulher em minha vida.
─ Oh.
Ele ergueu o queixo. E foi incrivelmente arrogante.
─ Eu fui o primeiro para você. - Disse ele.
Ela fez uma careta, e seus olhos se encheram de lágrimas.
─ Sara. - Ela largou a cesta de ovos no chão e emoldurou o rosto dela com as mãos, levantando-o para olhar em
seus olhos negros encobertos por lágrimas. ─ Ser forçado não se qualifica como experiência. - Ele disse
calmamente. ─ Querida, ele queria machucá-la. E não fazer amor com você.
Ela engoliu em seco.
Ele se inclinou e beijou as lágrimas, com ternura.
─ Eu proporcionei a você a primeira sensação de prazer. - Ele sussurrou. ─ Desculpe, por ter estragado essa
experiência. Sinto muito!
Ela gemeu. Ele beijou as lágrimas que corriam pelo rosto dela. Então, ele beijou a boca macia, lá no sol
quente, envolvendo-a nos braços com ternura, segurando-a perto o suficiente para aquecê-la, mas não muito
perto para assustá-la.
─ Foi como... chegar perto do sol. - Ela sussurrou em sua boca. ─ Como explodir por dentro.
O corpo dele enrijeceu.
─ Sim.
Ela olhou nos olhos dele.
─ É assim quando se faz amor completamente? - O rosto de Wolf ficou rígido. Os braços dele em torno dela
retesaram. ─ Eu não deveria ter perguntado. - Disse ela, tentando se afastar dele.
─ Fique quieta. - Ele pediu.
Ela não entendeu.
Com um sorriso triste, ele a puxou para perto o suficiente para fazê-la sentir o que estava acontecendo e, em
seguida, afastou-a.
─ Apenas por falar sobre...? - Ela hesitou. Ele suspirou profundamente e assentiu. ─ Sinto muito. Eu não percebi.
Ele fechou os olhos e estremeceu. Mas depois de um minuto, começou a relaxar.
─ Faz um longo tempo. - Ele disse com a voz rouca. ─ E você me excita mais do que qualquer mulher foi capaz
de fazer. - Ele sorriu ao perceber o olhar chocado dela. ─ Eu gosto disso. Na minha idade, é mais uma bênção do
que uma maldição.
─ Sua idade?
─ Você não entende?
Ela conseguiu dar um leve sorriso.
─ Não. Eu não sou muito experiente.
Wolf colocou a mão delicada contra o seu peito e olhou as bonitas unhas com esmalte transparente.
─ Quando um homem envelhece, é mais difícil ficar excitado.
─ Isso não acontece com você. - Ela disse, então corou e abaixou os olhos.
Ele riu maliciosamente.
─ Apenas com você. Isso não acontece com qualquer outra mulher.
Seus olhos fascinados voltaram para ele.
─ E aquelas belas loiras...
─ Não me afetam. - Disse dando de ombros.
─ Uau.
Ele arqueou uma sobrancelha.
─ Uau?
Ela sorriu timidamente.
─ Eu me sinto quase perigosa.
─ Eu também acho. Então, é bom você voltar para casa amanhã, antes que eu cause mais cicatrizes em suas
emoções.
─ Você quer dormir comigo.
─ Não. - Ele respondeu, o rosto duro e os olhos brilhando. ─ Quero fazer amor com você. Durante toda a noite,
durante todo o dia, por uma semana.
Ela corou.
Ele riu e se afastou dela.
─ O que iria nos levar para uma sala de emergência. - Acrescentou com um olhar irônico. ─ Sendo assim, vamos
recolher os ovos e falar sobre algo menos estimulante.
Ela caminhou ao lado dele. Quase pairando no ar. Como se fosse mais jovem, mais aventureira e esperançosa.
─ Eu ouvi que eles estão desenvolvendo uma arma sonora para o departamento de defesa. - Ela comentou.
Ele riu.
─ Não tão desestimulante.
─ Está bem. Eles desenvolveram um novo sutiã que aumentam os seios em dois números. - Ela disse
maliciosamente.
Ele parou e olhou para ela.
─ Por que você precisaria disso? - Ele perguntou suavemente. ─ Seus seios são lindos. Dói só de olhar para eles
através do tecido.
─ Os meus são pequenos...
Ele deu-lhe um beijo na testa.
─ O tamanho não importa. Bem, talvez tamanho importe em certo sentido. - Acrescentou, franzindo a testa. Ele
olhou para ela. ─ Se você fizer aquela cirurgia, nós podemos ter alguns inconvenientes.
─ Por quê?
─ Sou um pouco mais dotado do que a maioria dos homens. - Disse calmamente a Sara. ─ Vou ter que ter muito
cuidado.
Sara se lembrou daquela noite, quando ele tirou a roupa e ela ficou quase histérica com a visão.
─ Sinto muito. - Ele disse rapidamente. ─ Eu não deveria fazer você lembrar.
─ Estava muito nervosa para perceber o que quer que seja. - Ela olhou para ele com olhos arregalados e curiosos.
─ E alguns homens são mais potentes do que outros, às vezes. - Sussurrou ele.
─ Eles são?
Ele gemeu.
Ela olhou para baixo e levantou o rosto rapidamente, extremamente corado.
─ Eles enviaram um robô à Estação Espacial Internacional para fazer companhia aos astronautas. - Ela falou
depressa. ─ E há um boato de que uma agência secreta do governo vai implantar câmeras na próxima colheita de
melões.
O absurdo e a ingenuidade do último comentário dela, quase o fizeram engasgar de tanto rir e diminuíram a
sua excitação.
Ela sorriu.
─ Isso ajudou?
─ Sim, bruxinha, ajudou. - Ele se curvou e a beijou ferozmente, por alguns segundos. ─ Pare de fazer isso
comigo.
Ela sorriu mais ainda.
Ele balançou a cabeça.
─ O que pode salvá-la é voltar para casa amanhã. - Os olhos azuis voltaram para encontrar os dela. ─ Por
enquanto.
Ela estava tão feliz que poderia voar. Ela o seguiu até o galinheiro, sentindo que todas as lembranças ruins
estavam desvanecendo como fumaça.

***

Mais tarde, eles tomaram café na cozinha depois de um jantar maravilhoso que Bárbara havia preparado para
eles.
─ Você é uma ótima cozinheira. - Disse Wolf com um sorriso. ─ Vou sentir falta de ter alguém fazendo o
trabalho duro na cozinha.
─ Você cozinha melhor do que nós duas. - Comentou Sara.
─ Sim. Mas é uma casa grande. É bom ter companhia - Ele disse, e desviou o olhar das mulheres.
─ Podemos voltar a qualquer momento. - Respondeu Bárbara rindo. ─ Eu gosto de sair da cidade.
─ Eu também. - Sara confessou. ─ Eu não saio de San Antonio, a menos que seja para o rancho de Gabriel em
Comanche Wells. E Gabriel está sempre longe de casa ultimamente.
Wolf não respondeu. Gabriel estava envolvido em alguns assuntos diplomáticos delicados em uma região na
África. Ele não se atreveu a dizer isso a ela. Sara estava muito preocupada com o irmão. Esse pensamento levou
a outro, Gabriel disse que Ysera estava atrás dele. Ela tinha dinheiro e os meios. Ele olhou para Sara. E se Sara se
tornasse um alvo?
Wolf sentiu um aperto coração. Ele não podia suportar a ideia de Sara estar em perigo por sua causa. Sua
mandíbula se apertou. Só havia uma coisa a fazer. Tinha que evitá-la por um tempo, confundir Ysera namorando
quantas mulheres pudesse. Isso iria afastá-la de Sara. As pessoas podiam saber que Sara tinha ficado na sua casa,
mas sabiam que Bárbara também ficou.
Ele poderia inventar uma história e espalhá-la. Poderia dizer que Bárbara estava em perigo, e o filho dela tinha
pedido a ele para mantê-la no rancho, mas como não podia fazer isso sem causar fofoca, então ele perguntou a
irmã de seu melhor amigo se ela poderia fazer companhia a Bárbara. Ele balançou a cabeça para si mesmo. Isso
poderia funcionar.
─ Eu quero que vocês duas façam algo por mim. - Ele disse de repente. ─ Bárbara, eu quero que você espalhe
que estava em perigo por causa de uma prisão que Rick fez e veio para o rancho para ficar em segurança,
enquanto Rick está fora da cidade. Sara, irmã do meu melhor amigo, veio junto para servir de companhia. Vocês
entenderam?
Ambas olharam para ele.
─ Eu disse a seus homens que você estava doente e Sara o trouxe para casa, e eu vim para fazer companhia. -
Disse Bárbara.
Ele sorriu.
─ Não é ruim. Mas eu estou obviamente bem agora, e as duas ainda estão aqui. - Ele largou a xícara de café. ─
Eu tenho uma inimiga. Uma mortal. E não quero que nenhuma das duas vire alvo dela, por ela pensar que eu
tenho algo a ver com vocês.
─ Oh. - Disse Bárbara. E sorriu. ─ Estou lisonjeada. Eu acho que sou, pelo menos, cinco ou seis anos mais velha
do que você. - Ela acrescentou, franzindo os lábios. ─ Talvez dez.
Ele riu.
─ Nos dias de hoje as mulheres são interessantes até depois dos cinquenta anos, querida. - Ele brincou. ─ Você
ainda é bonita. E você sabe cozinhar. Você tem que conhecer o capitão de Rick. O homem tem alguns
problemas, mas tem boa aparência. Para as mulheres, quero dizer.
Bárbara pigarreou. Ela estava interessada em alguém, mas ela não ia contar a ninguém. Ainda não.
─ Bom!
Sara se sentiu desconfortável.
─ Tudo bem. - Disse Sara. Preocupava-se com Wolf. E se Ysera mandasse alguém atrás dele? Ela estava muito
menos preocupada com ela mesma e com Bárbara. ─ Você tem muitas pessoas aqui que podem protegê-lo,
certo?
Essa preocupação o fez sentir-se estranho.
─ Sim. Pelo menos dois ex-agentes federais e um homem que trabalhou para a máfia. Ou pelo menos é o que
dizem sobre ele.
─ Fred Baldwin. - Bárbara disse com um sorriso estranho. ─ Ele trabalhou para a polícia depois que salvou a
vida de Carlie Blair.
─ Ele ainda estaria lá, mas não gostava de carregar uma arma o tempo todo - disse Wolf. ─ Eu ainda estou
surpreso com o quão bem ele se encaixa aqui como capataz. Ele faz o trabalho com bastante competência.
─ Ele é um homem doce. - Disse Bárbara. ─ E adora crianças. - Ela sorriu tristemente. ─ É uma pena ele estar
sozinho.
Os olhos de Wolf encontraram os de Sara. E viu a mesma surpresa dele refletida nos olhos dela.
─ Ele perdeu muito peso. - Disse Wolf. ─ Mas é difícil fazê-lo comer coisas saudáveis.
─ Eu vou falar com ele a próxima vez que ele vier até o café. - Bárbara disse, pensativa. ─ Ele vai lá vários dias
por semana.
Os olhos de Sara brilharam com alegria, mas ela escondeu sua reação.
─ Sim. - Wolf disse, limpando a garganta. ─ Ele realmente não gosta muito da comida do alojamento. Todd, que
cozinha para nós, pode fazer bife com gosto de coiote queimado.
─ O cowboy que veio procurar você, disse que ele cozinha muito bem.
─ Esse deve ter sido Orin. - Wolf balançou a cabeça. ─ Juro por Deus, o homem não tem papilas gustativas. Eu
fiz bife Wellington, e ele pensou que eu tinha arruinado um bom corte de carne.
Bárbara riu.
─ Eu vou falar com Fred sobre a dieta dele. - Prometeu ela. E seu rosto se iluminou.
Sara e Wolf trocaram olhares divertidos, mas não disseram nada.

***

Naquela noite, Sarah estava de volta ao passado. Ela se afastava do padrasto, tentando escapar, suas roupas
eram rasgadas, e o homem grande e grosseiro, a ameaçava enquanto a tocava. Então o sonho se transformou em
algo inacreditável. Ela gritou e se sentou na cama, o choque ainda refletido nos seus olhos.
Ela olhou para o lado. Bárbara não acordaria nem se um trem de carga atravessasse a sala, ela pensou, e era
melhor assim. Ela esperava que ninguém mais a tivesse ouvido. O grito deveria ter sido ouvido.
Ele se levantou e foi ao banheiro lavar o rosto. Depois saiu do banheiro e foi em direção à cozinha.
O corredor estava bloqueado por um homem alto, vestindo apenas a calça de seda preta do pijama.
Sara olhou para Wolf com desejo. Ele era a coisa mais linda que ela já tinha visto, ombros largos, corpo
musculoso, sem músculos exagerados, peito coberto de pelos grossos, que seguiam até abaixo da sua cintura
estreita, calças de pijama de cintura baixa. Ela engasgou diante da visão do corpo dele.
Ela usava um pijama de seda, azul marinho, a calça caía até os tornozelos e a blusa tinha gola alta e mangas
compridas. O pijama era recatado, mas seus mamilos estavam eretos e como pequenas bandeiras sob o tecido.
Ele gemeu e a ergueu em seus braços, esmagando-a contra seu peito enquanto seus lábios se moviam em seu
cabelo.
Ela se agarrou a ele. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.
─ Pesadelos? - Ele sussurrou.
─ Sim.
─ Eu também.
Ele a levou para a cozinha e a segurou por mais um minuto, até que pudesse recuperar o controle que quase
tinha perdido.
─ Quer um café? - Ele perguntou baixinho.
Ela olhou para o relógio na parede atrás dele.
─ São 03:00 da manhã.
Ele deu de ombros.
─ Eu costumo assistir ao YouTube na cama enquanto tomo um café e como rosquinhas ou croissants quando não
consigo dormir. Mas eu a ouvi. Deus sabe como, as paredes são bem grossas.
Ela enterrou o rosto em seu pescoço.
─ Você tem pesadelos com Ysera, certo?
─ Sim. E os seus são... bem evidentes. - Ele levantou a cabeça. ─ Eu disse ou fiz algo esta tarde para causar isso?
- Ele perguntou preocupado.
─ Não. Não é preciso ter um gatilho. Eles só aparecem.
Ele balançou a cabeça.
─ Os meus também. - Ele a levou para perto de uma cadeira, mas hesitou em sentá-la lá.
─ O que é? - Ela perguntou.
─ Eu quero que você saiba que eu não sou uma ameaça para você. - Ele disse suavemente. ─ Você vai ter isso
em mente quando eu colocar você na cadeira?
Ela assentiu com a cabeça, mas não entendeu o que ele queria dizer até que ele a sentou na cadeira e se
afastou.
Wolf estava excitado e mal a tinha tocado. Ele estava muito mais excitado do que na noite anterior. Ela
arregalou os olhos. A seda do pijama não escondia a ereção.
Ele riu.
─ Sara, você pode parar de olhar, por favor? - Ele pediu, enquanto se afastava desconfortável, e começava a fazer
o café.
─ Você realmente é... deslumbrante. - Ela disse com a voz rouca. ─ Sinto muito!
Ele levantou uma sobrancelha e riu enquanto a observava.
─ Você é virgem. Não deveria perceber e nem entender coisas como esta.
─ Filmes. Alguns são muito explícitos. - Ela disse afetadamente. ─ E não vamos esquecer os romances.
─ Você lê esse tipo de livro?
─ Bem, sim. Era o único substituto que eu tinha de um relacionamento físico. Até que você apareceu.
Ele olhou para ela.
─ Nós não tivemos um relacionamento físico - Disse ele. E virou-se para fazer o café. ─ Eu perdi o controle e
destruí sua vida.
─ Mas você trouxe Emma para me ajudar. Para ajudar você também. - Ela sorriu. ─ É a primeira vez que eu me
sinto em paz em anos.
─ Mas você teve um pesadelo.
─ Bem, sim, mas esse foi diferente.
Ele ligou a cafeteira e sentou-se, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
─ Como diferente?
─ Desta vez, quando ele me atacou, peguei uma cadeira e bati nele. - Disse ela. E riu. ─ Eu gritei como de
costume, mas desta vez não foi de medo. Foi de... bem... vitória.
O olhar de Wolf suavizou.
─ Isso foi um progresso.
Ela sorriu. E procurou os olhos dele.
─ E você?
Ele deu de ombros.
─ O mesmo maldito sonho. A mesma agonia.
─ Sinto muito. - Ela disse suavemente. ─ Eu esperava que Emma pudesse ajudá-lo, também.
─ Eu acho que ela vai ajudar, eventualmente. - Ele a estudou. ─ Eu apenas não consigo me abrir com ela da
mesma maneira que faço com você. - Ele fez uma careta. ─ É difícil falar sobre isso com uma mulher.
Ela entendeu.
─ Eu não consigo contar algumas coisas a Gabriel também. - Ela concordou. ─ E ele é meu irmão.
─ Então, acho que se eu precisar de um confidente nesse departamento vai ter que ser você. - Ele disse
categoricamente. ─ Você pode ser a intermediária entre Emma e eu. - Acrescentou. ─ Mas eu não vou contar
diretamente a ela o que Ysera me fez.
Ela se sentiu imensamente lisonjeada.
─ Tudo bem. - Ela disse suavemente.
Wolf corou. Ele estudou-a atentamente.
─ Tenho que ficar longe de você por um tempo. - Ele disse. ─ Eu não gosto da ideia. Mas não quero pôr você em
perigo, entende? Ela vai atacar qualquer pessoa que esteja próxima de mim.
─ Então, eu não posso ficar perto de você.
Ele concordou com a cabeça.
Ela deixou escapar um longo suspiro.
─ Está bem.
─ Eu não disse que gosto da ideia. Ou é isso que eu quero.
Ela sorriu.
A cafeteira desligou. Ele se levantou e serviu duas xícaras.
─ Você gosta de ópera, certo?
─ Eu amo ópera.
─ Então, venha comigo.
─ Você vai me levar a um concerto de pijama? - Sara perguntou, com o primeiro lampejo de humor que tinha em
dias.
─ Eu não posso deixar você se vestir. Você pode mandar os macacos voadores para cima de mim. - Ele brincou.
Ela riu e deu um tapinha no braço dele.
─ Pare com isso.
Ele percebeu a mudança no humor de Sara com prazer enquanto a levava para a sala.

Capítulo Nove
Wolf ligou a televisão, mas não em um canal, nem mesmo o blu-ray. Ele ligou o Xbox 360 que estava
conectado à televisão e acessou o YouTube em um vídeo de 2012 de um casal. Ele sentou-se ao lado de Sara
para assisti-lo.
─ São duas crianças. - Disse ela.
─ Ele tinha dezessete. Ela dezesseis anos. Ouça.
Primeiro houve uma entrevista. O rapaz contou como era perseguido pelas outras crianças e como isso o levou
a perda da autoestima. Então, ele contou como sua parceira, uma bela jovem, o ajudou a restaurar a sua confiança
e o levou para o palco para uma audição no Show de talentos da Grã-Bretanha.
Depois ele entrou no palco com sua parceira. Um dos juízes perguntou o nome da dupla e ele disse Charlotte e
Jonathan. Houve mais algumas perguntas. O garoto era tímido e falava pouco. Os juízes e o público não
pareciam muito impressionados.
Em seguida, a música começou. E o menino abriu a boca e começou a cantar "The Prayer" com sua parceira.
No final da primeira estrofe, todo o público estava aplaudindo de pé.
Sara assistiu a apresentação com lágrimas rolando pelo rosto enquanto as últimas notas da música soavam.
Wolf olhou para ela.
─ O triunfo após a humilhação. - Disse suavemente. ─ Você pode imaginar como ele se sente, vendo o público
aplaudindo de pé depois de ele ser rejeitado diversas vezes por sua aparência? Como sua parceira disse realmente
não se deve julgar um livro pela capa.
─ Ele é surpreendente. - Disse ela. ─ Absolutamente maravilhoso.
Wolf balançou a cabeça concordando.
─ Um dia nós o veremos no Metropolitan.
─ Nós? - Ela perguntou em voz baixa.
Ele estreitou os olhos azuis.
─ Nós.
Sara não sabia o que dizer. Ela procurou os olhos dele com um fio de esperança. Ele desviou o olhar e
desligou Xbox e a televisão.
─ Você joga. - Ela disse surpresa.
Ele deu de ombros.
─ É a única diversão que eu tenho.
Ele olhou para ela.
─ Você joga? - Ele perguntou, e riu como se fosse uma pergunta ridícula.
Ela pensou Rednacht e na amizade que tinha com ele. Ela estava relutante em expor essa parte da sua vida,
mesmo para Wolf. Ela apenas sorriu.
─ Eu não sou muito boa com jogos. - Ela mentiu.
Ele balançou a cabeça compreendendo.
─ Cada um com a sua mania, eu acho. Vamos. Eu tenho croissants na geladeira. Eu vou aquecer alguns.
Os croissants recheados com geleia de morango estavam deliciosos. Ela saboreou cada pedacinho com goles
de café.
─ Você faz um excelente café. - Disse ela.
─ Eu gosto dele forte. A maioria das cafeterias serve água marrom quente. Não no Café de Bárbara. -
Acrescentou, rindo. ─ Ela também gosta de um bom café.
─ Ela foi muito simpática de ficar aqui comigo. Ela gosta de Fred, você notou?
Ele riu suavemente.
─ Acho que ele deve gostar dela também. Ele passa tanto tempo no café como aqui. É engraçado, eu não havia
percebido isso até que ela mencionou.
─ Nem eu.
Ele passou seus longos dedos na borda da xícara de café.
─ Você acha que poderá dormir agora?
Ela começou a falar, mas hesitou.
E fez uma careta.
Wolf colocou os pratos e as xícaras na pia.
─ Eu acho que tenho a solução para isso. - Disse ele.
Antes que ela pudesse perguntar qual era, ele se inclinou, pegou-a no colo e levou-a para a sala de estar. Ele
estremeceu quando a deitou no sofá onde haviam tido momentos ardentes dias antes.
─ Eu sei, más lembranças. - Ele disse suavemente. ─ Talvez possamos eliminá-las, um pouco. - Ele se deitou ao
lado dela e colocou um cobertor sobre ambos. Estendeu a mão e desligou o abajur da mesinha, deixando a sala
escura, exceto pelo brilho das luzes do home theater.
─ Algumas regras básicas. - Disse gentilmente quando ela colocou uma pequena mão macia em seu peito. ─
Nada de toques íntimos e nada de ficar muito próximo. E o mais importante. - Ele disse, virando a cabeça para
ela. ─ Nada de roncos, ok?
─ Eu não ronco. - Ela disse com falsa indignação.
─ Vou descobrir isso. - Ele sorriu no escuro. Um suspiro profundo fez o peito dele encostar nos dedos de Sara.
Ele se moveu inquieto, porque a sensação do toque era inebriante.
─ Pare com isso. - Disse ela. ─ Nada de ficar muito próximo. - Ela repetiu as palavras dele.
Wolf riu.
─ Estou tentando, mas gosto de sentir suas mãos em mim. - O coração de Sara acelerou. Ele sentiu isso. E cerrou
os dentes. ─ Talvez esta não seja uma boa ideia. - Ele disse.
Sara se virou para ele e descansou a bochecha contra o seu peito nu. Seu coração estava batendo loucamente.
Mas ela permaneceu parada. Sua pequena mão alisou o pelo preto do peito dele.
─ Vá dormir. - Ela sussurrou. ─ Vamos nos manter mutuamente seguros.
Ele teve que lutar contra uma névoa em seus olhos. Ele nunca teve uma mulher que o tratou com tanta ternura.
Paixão, sim. Até mesmo luxúria. Mas nunca, nunca, ternura. Ele inspirou fundo e fechou os olhos. Ele adorava a
sensação do corpo macio contra o dele, as carícias leves dos dedos delicados no seu peito. Ele estava muito
excitado para dormir...

***

Wolf despertou rapidamente, com os reflexos de um homem que passou a vida adulta em lugares perigosos.
Ele olhou através do vão da porta para o corredor e encontrou Bárbara ali de pé, tentando não rir da imagem
de Wolf com Sara dormindo em seus braços, cobertos com um cobertor macio.
─ Ela teve um pesadelo. - Disse ele em voz baixa.
─ Sinto muito. - Ela disse. ─ Eu durmo muito profundamente.
─ Está tudo bem. Eu acordei. - Ele não queria admitir a ela que tinha pesadelos também. Ele olhou para Sarah e
sorriu suavemente. ─ Ela dormiu profundamente.
─ Eu imagino que você também dormiu. - Ela respondeu. ─ Eu não queria tê-lo acordado.
─ Eu tenho o sono leve. - Disse ele. - Tive que ter.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Vou fazer o café. Quer algo especial?
─ Eu tenho croissants no freezer. Ela gosta dos recheados com geleia de morango. Mas eu gostaria de ovos e
linguiça. A geladeira está cheia de mat.
Bárbara ergueu as sobrancelhas.
─ Mat?
─ Sinto muito. - Ele fez uma careta. ─ Materiais. É um termo de jogo.
─ Vocês e seus jogos de vídeo. - Ela riu. ─ Até nosso chefe de polícia está viciado neles. E ele ensinou Tris a
jogar! Tippy tem que monitorá-la agora para que ela não tenha problemas na rede.
Ele sorriu. A ideia de Cash Grier com esposa e filha ainda o deixava surpreso. Conhecia Grier dos velhos
tempos.
─ Eu vou fazer o café. - Bárbara disse, sorrindo mais uma vez ao olhar para Sara que dormia profundamente.
Wolf acariciou o rosto de Sara com seu nariz.
─ Acorde dorminhoca. - Ele sussurrou. ─ Bárbara está fazendo o café da manhã.
─ Café. Mmm... - Ela suspirou e se virou. E lá estava ele, maior que a vida, tão bonito que fez seu coração dar
um salto, olhando-a com uma expressão que ela não entendia muito bem.
─ Bela Sara. - Disse em um tom suave. ─ Como o céu ao amanhecer. Você me tira o fôlego.
Seus olhos se arregalaram.
─ Você andou bebendo? - Perguntou ela bruscamente.
Ele jogou a cabeça para trás e riu.
─ É bem feito para mim, por tentar ser poético antes do café da manhã. - Ele pensou. E levantou, espreguiçando-
se.
Ela mal tinha acordado, mas se lembrava de ter dormido nos braços fortes de Wolf. E sorriu ao ver o torso
musculoso quando ele se espreguiçou.
Ele a fitou de maneira irônica.
─ Eu estava preocupado.
─ Sobre o que? - Perguntou ela.
Ele deslizou os braços sob ela e a ergueu com cobertor e tudo.
─ Os homens são perigosos de manhã cedo. Você não sabia?
Ela procurou seus olhos claros. E balançou a cabeça negando.
Ele soltou um suspiro longo, profundo e sorriu.
─ A casa ficará vazia. - Ele disse, e seu sorriso desapareceu. ─ Toda a cor vai embora com você.
Ela mordeu o lábio e lutou contra as lágrimas.
─ Não vá atrás daquela mulher horrível. - Ela disse bruscamente. ─ Deixe alguém ir.
Ele roçou a boca sobre o nariz dela.
─ Você está com medo por mim?
─ Claro.
─ Mesmo depois do que eu fiz a você? - Perguntou ele, estremecendo.
Ela se aconchegou ao corpo dele, enterrando o rosto na garganta quente de Wolf.
─ Eu estava me lembrando de que dormi em seus braços. - Ela sussurrou.
Os braços citados contraíram de repente, pressionando os seios macios contra ele, em uma agonia de dor e
arrependimento.
─ Wolf!
Ele diminuiu a pressão.
─ Sinto muito. Eu machuquei você? - Ele perguntou suavemente. E olhou para os seios pequenos com os bicos
endurecidos. A expressão em seu rosto mudou.
Ela viu em seus olhos a intenção.
─ Não se atreva. - Disse ela. ─ Bárbara está na cozinha...
Ele se virou e a levou para o quarto de hóspedes, fechou a porta e tomou a ponta do mamilo em sua boca,
sugando forte.
Ela arqueou o corpo, estremecendo.
─ Sim. - Ele a colocou na cama e deitou em cima dela, começou a desabotoar a blusa do pijama com incrível
destreza. Então sua boca estava em seus seios nus, banqueteando-se neles enquanto a via estremecer, arqueando-
se para se aproximar mais e sem fazer o menor gesto de protesto.
Depois de um minuto, ele levantou a cabeça e fitou os olhos grandes e suaves.
─ Você vai me deixar ir até o fim. - Afirmou ele.
─ Sim. - Ela sussurrou, tremendo.
Sua mão abarcou um pequeno seio macio. Seus olhos ardiam como chamas azuis.
─ Isso é impossível. - Ele murmurou. ─ Absolutamente impossível!
─ Por quê?
Ele tomou o mamilo endurecido levando-o para o calor de sua boca. Ele sugou o mamilo, até que a sentiu
enrijecer o corpo, e dar um grito suave. Aumentou a pressão e sentiu-a chegar ao clímax. Seu corpo estava
atormentado pela excitação, mas ele se recusou a ouvi-lo. Desta vez o prazer seria para ela, só para ela.
Quando ele a sentiu relaxar, levantou a cabeça e olhou para as marcas vermelhas que havia deixado. Mordidas
de amor, ele pensou possessivamente. Ela era sua. Ela lhe pertencia. Wolf fitou os olhos surpresos de Sara.
─ Eu sei. - Disse ele. ─ Eu sou um canalha.
Ela estremeceu.
─ Eu estou envergonhada pelo que aconteceu.
─ Você não deveria. Seus seios são muito, muito sensíveis. Eu gosto de lhe dar prazer. - Ele sussurrou sorrindo
maliciosamente. E olhou nos olhos dela. ─ E eu não olhei.
Ela corou.
Ele suspirou.
─ Eu tenho problemas. Você tem problemas. Eu a machuquei gravemente, mesmo sem ser a minha intenção. -
Ele colocou a mão no seio pequeno e macio. ─ Talvez algumas semanas separados, nos faça bem. Porque se nós
continuarmos assim, Sara, com ou sem cirurgia, acabaremos fazendo amor.
─ Eu sei. - O rosto dela estava triste quando olhou para ele, seu cabelo preto despenteado em torno do belo rosto.
─ Você não quer ir tão longe.
─ Não, eu não quero. - Ele disse gravemente. ─ Eu tenho 37 anos. Eu odeio ficar insistindo nisso, mas você é
muito jovem, até mesmo para a sua idade. Você não encontrou o prazer físico com qualquer homem, só comigo.
Nos dias de hoje, isso não é realmente um... Por que você está me olhando assim?
─ Você acha que eu poderia deixar outro homem me tocar do jeito que você fez? - Perguntou, chocada. Seu rosto
se tornou muito tenso, inexpressivo. ─ O que tem isso a ver com a idade? - Perguntou ela, miseravelmente sem
conseguir esconder a tristeza. ─ Eu fico doente quando penso em outros homens me tocando como você fez. Eu
sempre fico.
─ Meu Deus. - Ele sussurrou reverente.
Sara sentou-se, recolocando a blusa do pijama.
─ Sim, eu tenho problemas. - Confessou. ─ Muitos deles.
Wolf sentou ao lado dela, olhando para o tapete.
─ Eu também. - Seu rosto estava indecifrável.
─ Eu acho que é diferente para os homens. - Vacilou ela. ─ Você disse que não... bem, não faz coisas com outras
mulheres. Mas depois de conversar com Emma por algumas semanas, isso pode mudar. Você pode não ter mais
problemas...
Ele não a estava escutando. Sua mente estava presa ao que ela tinha acabado de dizer. Ele pensou no assunto
com alegria. Ela o queria. Mesmo depois de tê-la magoado, ferido seu orgulho, ela ainda o queria. Ele sentiu
vontade de cantar.
─ O que? - Perguntou ele, de repente, voltando ao presente.
─ Tenho que começar a arrumar minhas coisas. - Disse Sara.
Wolf levantou-se.
─ Se você perceber algo suspeito me chame. - Disse ele com firmeza. ─ Tenha cuidado com as pessoas que se
aproximarem, veja o que elas estão fazendo. Vou colocar alguns homens vigiando você, mas você não vai vê-los.
Se você os vir. - Ele acrescentou sombriamente. ─ Os demitirei imediatamente.
Ela olhou para ele.
─ Você acha que eu estou em perigo?
─ Eu não sei, Sara. - Disse ele. ─ Se ela tem alguém me vigiando e achar que eu poderia estar envolvido com
você, talvez. Essa é outra razão pela qual eu vou ficar longe. Mas se você precisar de mim, eu estarei lá.
Ela sorriu.
─ Obrigada.
Wolf suspirou.
─ Eu não posso deixar que nada aconteça a minha confidente. - Ele disse.
Ela sorriu de volta.
─ Certo.
─ Você não ronca, é claro. - Ele disse enquanto abria a porta. E sorriu. ─ Você parecia um anjo adormecido em
meus braços.
Ela jogou para trás seus longos cabelos. E não respondeu. Aquelas palavras eram como um fogo queimando
em seu coração.
─ Vejo você no café da manhã. - Disse Wolf. E saiu fechando a porta.
Sara tirou a blusa do pijama e se olhou no espelho. Era a primeira vez em muitos anos, que queria ver a si
mesma. E ficou surpresa com a mulher bonita, sensual e feliz refletida espelho. Seus olhos eram como estrelas
negras, brilhando de prazer.
A porta se abriu de repente.
─ Eu queria dizer...
Wolf parou de repente quando ela se virou, o rosto fechou. Ele realmente estremeceu. Ela não tentou se cobrir.
E deixou-o olhar.
─ Você estava vendo quanto dano eu fiz? - Perguntou em voz baixa.
Ela balançou a cabeça negando.
─ Então o quê está fazendo?
─ Eu estava vendo o quão faminto você estava. - Sussurrou. ─ E pensei como foi doce deixar você me tocar...
Ele fechou os olhos. Seu corpo alto estremeceu novamente enquanto ele lutava contra os instintos de jogá-la
na cama e fazer algo, qualquer coisa, para aliviar aquela dor.
Sara vestiu novamente a blusa do pijama, e a abotoou.
─ Sinto muito. - Ela sussurrou. ─ Acho que nunca digo a coisa certa.
─ Eu a desejo tanto que chega a doer. - Ele confessou. ─ Não foi nada que você disse.
Ela o observou em silêncio. Ele estava extremamente excitado.
─ Só por... olhar?
─ Sim. - Ele respondeu.
A vulnerabilidade de Wolf a fez perder todo o medo. Ela relaxou.
─ Você não tem medo de mim. - Disse ele enquanto lutava para se controlar.
─ Não. - Ela disse calmamente. ─ Eu me sinto... - Ela procurou uma palavra. ─ Orgulhosa. - Finalmente, concluiu.
─ Orgulhosa por fazer você me querer depois do que aquela mulher horrível fez a você.
─ Oh, bebê. - Ele suspirou.
─ Eu gosto quando você me chama assim.
Ele ergueu o queixo.
─ Isso é porque você se lembra da última vez em que a chamei assim. - Disse com arrogância. ─ Quando você
estava gritando de paixão.
Ela não sentiu vergonha. Bem, talvez um pouco. Ela assentiu com a cabeça lentamente.
Semanas. Semanas. Ele não poderia ver, nem falar com ela por semanas. Eu vou morrer, ele pensou consigo
mesmo.
─ O que você queria me dizer? - Sara perguntou em voz alta.
─ Que Bárbara, vai levá-la para San Antonio. - Ele disse em um suspiro áspero. ─ Eu queria fazer isso, mas não
quero que nos vejam juntos, por precaução.
─ Está bem.
Ele a observou, através dos olhos famintos, em seguida, se virou.
─ Venha tomar café da manhã antes que esfrie.
─ Ok.
Wolf parou. Ele hesitou na porta. Havia ainda uma possibilidade, mesmo que pequena, de tê-la engravidado
durante a sessão de carícias. Mas era apenas uma hipótese. Ela não tinha sintomas ainda. Ainda não.
Ele pensou em Sara, grávida, a barriga crescendo carregando o seu filho e com os lindos olhos negros
brilhando como lâmpadas, enquanto amamentava o bebê. Sara seria uma mãe maravilhosa.
Ele fechou os olhos. Não. Era muito cedo para isso. Ela estava saindo da escuridão. Precisava de tempo para
explorar, para conhecer outros homens, para ter certeza de que era ele que ela queria. Não queria afastá-la. No
entanto, para a própria segurança dela, teria que fazer isso. Tinha que ser visto com uma série de belas louras
para desviar a atenção de Ysera. Se ela desconfiasse, com sua natureza vingativa, que Sara era sua vida,
encontraria uma maneira de machucá-la, talvez até tentasse matá-la. A única coisa na terra sem a qual ele não
poderia viver era Sara Brandon. Ele tinha que impedir que Ysera descobrisse a verdade.

***

Ele foi gentil com Sara quando se separaram na porta, enquanto Bárbara esperava discretamente no carro.
─ Não será por muito tempo. - Disse ele, hesitante. ─ Só até nós encontrarmos Ysera.
─ Nós? - Ela perguntou, com os olhos arregalados de medo.
Ele emoldurou o rosto com as mãos grandes.
─ Eles. Eu quis dizer eles.
─ Não morra. - Ela sussurrou, lutando contra as lágrimas.
─ Oh, Deus. - Ele gemeu contra sua boca enquanto a beijava e beijava e beijava, na varanda, fora da vista de
Bárbara e dos poucos vaqueiros que circulavam pela área.
Wolf teve que forçar-se a deixá-la ir. Ele beijou as lágrimas que escorriam pelo rosto dela.
─ Lembra o que eu disse. - Ele falou com voz profunda e firme. ─ observe o seu redor. Nunca saia sozinha à
noite, por nenhum motivo. - Ele hesitou. ─ Se alguém te chamar dizendo que eu estou ferido, ou que quero vê-la,
não acredite. Ligue diretamente para mim. O mesmo em relação a Gabe. - Acrescentou. ─ Eles podem usar o seu
irmão para tentar pegar você. Eles tiveram sucesso com Carlie Blair fingindo que o pai estava ferido.
─ Eu lembro. - Ela olhou-o nos olhos. ─ Seja cuidadoso.
─ Sempre sou cuidadoso. Quase sempre. - Ele deu de ombros. ─ Não com você. - Ele acrescentou com ironia.
Ela sorriu.
─ Então, até qualquer dia.
─ Sim. Qualquer dia. - A Forma como ele olhou para ela foi quase uma declaração de intenções.

***

Sara entrou no carro com Bárbara e acenou. Mas não olhou para trás. Se ela o fizesse, e o visse ali de pé, tão
solitário, não conseguiria partir.
─ Tem certeza de que vai ficar bem neste apartamento? - Bárbara perguntou preocupada. ─ Você pode ficar
comigo em Jacobsville.
─ E colocar você em perigo também? - Ela perguntou.
Bárbara fez uma careta.
─ Não tenho nada de valor. O que está acontecendo? Você pode me dizer?
─ Não realmente. - Disse Sara. ─ Só que Wolf tem inimigos e um deles poderia vir atrás de mim. Isso já
aconteceu. Um dos inimigos de Gabriel veio atrás de mim, mas ele estava em casa quando aconteceu. E resolveu
tudo rapidamente.
─ Eu não sabia. Sinto muito.
─ Michelle não sabe, também. - Acrescentou, referindo-se à protegida dela e do irmão. ─ Eu não disse nada a ela
sobre o que está acontecendo, e não vou dizer. Ela está indo muito bem na faculdade. E não quero preocupá-la.
─ Michelle é uma boa pessoa.
─ Sim. Meu irmão é louco por ela. - Ela riu. ─ Mas não se atreva a contar a ninguém. Ele está fazendo um jogo
de espera até que ela termine a faculdade.
─ Ela vai se formar em breve, certo?
─ Na verdade, ela está prestes a se formar. Ela já tem um emprego, também. Vai ser uma boa jornalista. Estou
muito orgulhosa dela. E Gabriel também.
─ Ela teve uma vida dura. Perdeu os pais e foi deixada com a idiota da madrasta, e ainda a viu morrer de
overdose de drogas na frente dela. - Bárbara balançou a cabeça. ─ Gabriel tomou a decisão certa em cuidar dela.
─ E me chamou para ajudar. - Disse Sara. ─ Ela e Gabriel têm sido a minha vida nestes últimos anos.
─ Eu acho que você pode ter outra pessoa no círculo muito em breve. - Ela olhou para o rosto corado de Sara. ─
Ele é um homem muito especial.
─ Oh, sim. - Disse Sara. ─ Mas ele não é um homem que quer se casar. - Ela acrescentou tristemente.
─ Querida, todo homem não quer casar, eles só casam com o incentivo certo. Espere e verá.
Ela faria isso. Sara imaginava se além da paixão que Wolf sentia por ela haveria mais alguma coisa. Ele não
era um homem que confiava nas emoções. Wolf se sentia culpado pela maneira como a tinha tratado e, além
disso, ela era sua confidente, conhecia seus segredos mais íntimos. Mas ele ser capaz de amá-la era outra
questão. Ela não podia se contentar com uma relação baseada apenas em sexo, não com seu passado. Mas,
considerando o que ele tinha dito sobre o seu passado, ela não tinha certeza que ele pudesse confiar em uma
mulher o suficiente para casar com ela. Ysera tinha se assegurado disso.
Teria que esperar e ver, ela supôs. Só esperava se manter a salvo pelas próximas semanas. Já estava sentindo
falta dele. As semanas que iriam ficar separados seriam insuportáveis. Realmente não sabia como iria lidar com
isso. Nunca havia amado um homem antes.
Seu coração pulou em sua garganta. Amor. Era... amor. Ela fechou os olhos. Era surpreendente não ter notado.
De que outra forma poderia ter ficado tão íntima de um homem, se não fosse porque o amava! Quanto tempo
levou para perceber isso. O que faria agora?!

***

Wolf voltou para dentro da casa depois que as mulheres partiram, taciturno e silencioso. Ele olhou ao redor
para os cômodos e pensou que eles eram como a sua vida. Vazios. Alguns abertos, outros muito fechados. Ele
estava sozinho.
Antes gostava de ficar sozinho. Mas agora era uma existência fria. Ele podia imaginar Sara em todos os
quartos, especialmente na sala de estar, onde a ensinou o que era prazer para em seguida, destruir o seu orgulho.
Ele fechou os olhos, odiando-se por isso. Mas então, olhou para o sofá onde tirou a inocência dela, de certo
modo, e onde ela adormeceu em seus braços, tão confiante, que lhe partiu o coração.
─ Sara. - Gemeu.
Ele foi até a cozinha, pegou a xícara que ela tinha usado e a levou aos lábios no exato lugar em que a marca
do batom permanecia. E estremeceu.
Obrigou-se a colocar a xícara na pia com a louça do café. E ficou olhando para tudo sem realmente ver. Sara
tinha ido embora. Ele a tinha deixado ir.
Lembrou-se então do por que a tinha deixado ir.
Depois, colocou os pratos na máquina de lavar louça e a ligou, se concentrou então, em limpar a pia. Em
seguida, entrou em uma sala que ficava trancada, ligou o rádio transmissor e chamou Eb Scott.
─ O que você quer? - Eb perguntou imediatamente.
─ Alguma novidade?
─ Sim. Más notícias. Eu ia ligar mais tarde. Ysera conseguiu passar pela segurança que colocamos no lugar, e
está de volta à África. Ela comprou um hotel antigo e se mudou para lá com seu amante bilionário. Eu tenho um
contato que o conhece. A informação é que ela pagou meio milhão para alguém que não conhecemos, para
eliminá-lo.
Wolf fez uma careta.
─ Vingança.
─ Sim. - Ele hesitou. ─ Você tinha Sara Brandon como hóspede em seu rancho esta semana...
─ Bárbara Ferguson ficou aqui esta semana. - Ele mentiu. ─ Rick Marquez colocou um homem na prisão que
jurou vingança. Sara serviu de companhia. Seu irmão, Gabe, é provavelmente o único amigo que eu tenho.
─ Oh, eu entendo. - Ele riu. ─ Desculpe. Eu estava pensando em outras coisas.
─ Ela é jovem demais para mim. - Wolf disse calmamente.
─ É muito bonita, porém, não é? - Perguntou Eb.
─ O que mais você descobriu?
Eb entendeu a mudança de assunto, mas conseguiu manter a seriedade em sua voz.
─ Os homens contratados por ela pegaram um avião para Heathrow, e nós os perdemos. Nós presumimos que
eles cheguem aos Estados Unidos muito em breve.
─ Eu vou reforçar a minha segurança. Ter um par de homens a mais para me emprestar? Que tal Rourke?
Houve uma hesitação.
─ Alguma coisa está acontecendo com ele. Ele estava na África, então foi para Manaus, e agora ninguém sabe
onde está.
─ Algo secreto, eu imagino.
─ Exatamente. Mas eu tenho dois homens qualificados. Vou mandá-los para você. Certifique-se um deles esteja
sempre ao seu lado.
─ Vou fazer isso.
─ E, Wolf, não seria uma má ideia sair com várias mulheres. - Ele disse calmamente. ─ Para Ysera não ter a
ideia de que você está envolvido com alguma delas. Ela se tornaria um alvo imediatamente, talvez o principal
alvo.
─ Eu estou dois passos à sua frente nisso.
Houve uma hesitação.
─ Gabriel está com alguns problemas, também.
O coração de Wolf pulou.
─ De que tipo?
─ Não é nada grande, ainda. Ele está ajudando a proteger os campos de petróleo em uma pequena cidade no
Oriente Médio, mas os insurgentes não os querem como segurança. Temo que possa haver um conflito muito em
breve.
─ Gabriel. - Lembrou Wolf. ─ É um dos melhores mercenários que já conheci.
─ Quase como você. - Concordou EB. ─ Eu nunca conheci um homem que desenvolvesse estratégias como
você.
Ele riu.
─ Eu tive um grande tutor.
─ Sim. Eu me lembro. Tome cuidado.
─ Vou tomar.
─ E fique longe das mulheres... que são importantes para você. - Acrescentou Eb.
─ Não se preocupe. Eu odeio mulheres.
Eb quase mordeu a língua.
─ Bem. Até mais.
─ Até mais. E obrigado.
─ Isto é o que os amigos fazem.
A conexão caiu. Wolf se recostou na cadeira. Sara. Ele não podia se dar ao luxo de ver Sara, conversar com
ela, tocá-la. Ele iria colocar um alvo na testa dela se o fizesse. Ysera a mataria. Ele estremeceu levemente,
lembrando como ela era vingativa. A mulher era psicopata. Emma disse isso, a partir das poucas informações que
conseguiu obter dele. Sara, tinha contado tudo a Emma, como ele havia pedido a ela para fazer. Wolf não
conseguia se abrir com Emma. Talvez pudesse fazer isso mais tarde. Ele teria que superar os traumas do passado,
se quisesse ter um futuro com...
Ele afastou o pensamento. Sua vida ainda era repleta de perigo. Ele trabalhava para o governo em operações
secretas. Não tinha dito a Sara, mas acreditava que ela soubesse ou suspeitava de qualquer maneira. Não podia
viver sem a adrenalina que envolvia o trabalho.
Caso se envolvesse em um relacionamento, precisaria desistir disso. Tinha quase trinta e oito anos. Estava
ficando um pouco mais lento. Estava em boa forma física, mas sem os mesmos reflexos. Isso o desqualificava
para os grupos de incursão. Por isso, normalmente agora ele fazia o trabalho de planejamento estratégico.
Pensou nos belos seios de Sarah, com uma cabecinha pressionada contra eles, mamando. Ele sentiu um desejo
intenso de que isso fosse real.
Foi então que ele se lembrou do que havia feito com Sara, e as consequências que isso poderia ter. Mas
afastou aquele pensamento. Não era provável. Além disso, não podia pensar em um futuro até que tivesse
resolvido o problema atual e não podia se distrair. Ele teria que deixar algumas pistas falsas, para convencer
Ysera de que realmente era um mulherengo.
Ele pegou o telefone e ligou para o primeiro número na lista de contatos.

Capítulo Dez
Wolf disse que cortaria o contato com Sara por várias semanas, para se certificar de que ela não virasse alvo
de Ysera. Apesar da dor de não vê-lo, isso não teria sido um grande problema, mas na terceira semana depois de
deixar o rancho, ela começou a vomitar o café da manhã.
Ela realmente não tinha acreditado no que Wolf e Emma haviam dito sobre engravidar sem uma relação
completa. Ela não sabia o que fazer. Assim, durante vários dias, não fez nada.
Sara percebeu que era seguida aonde quer que fosse. Tentou limitar suas idas ao supermercado para uma vez
por semana. Ligava para os restaurantes e pedia comida, sem saber que cada entregador era gentilmente detido e
interrogado por seus discretos guarda-costas. Mas estava nervosa sobre o que fazer.
Seria impossível para seus guarda-costas não perceberem que ela estava indo ao médico, mas ela tossiu alto ao
longo do caminho, na esperança de que eles a ouvissem e pensassem que ela estava com gripe.
A Drª. Medlin era uma jovem, loura, doce e bonita. Ela disse a enfermeira para coletar o sangue de Sara e a
deixou tempo suficiente para atender outra paciente. Mas em poucos minutos ela estava de volta com os
resultados, e não estava sorrindo.
─ Você tem que tomar uma decisão. - Ela disse à mulher mais jovem.
Sara fechou os olhos.
─ Estou grávida.
─ Sim, você está. De cerca de três semanas, aproximadamente. Agora, este exame poderia ser um falso positivo.
Mas junto com os outros sintomas, eles fazem um diagnóstico bastante confiável. Quer ter o bebê?
─ Com todo o meu coração. - Sara conseguiu dizer, desviando o olhar para longe.
─ E o pai?
Ela lutou contra o medo.
─ Ele disse que queria saber se isso acontecesse. Ele não... disse que queria que acontecesse. - Confessou. ─ Foi
apenas uma intensa troca de carícias. Você sabe que eu não posso... bem, eu tenho aquele problema...
A médica colocou a mão sobre a dela.
─ Eu sei.
─ Então, nós não chegamos até o final, mas...
─ Não há necessidade de uma relação completa para engravidar.
Sara suspirou.
─ Eu não sei o que fazer. Eu vou ter que dizer a ele. Mas se ele quiser que eu vá a uma clínica para... Eu acho
que não serei capaz. - Seu rosto apresentava uma expressão angustiada. ─ Eu acredito que não poderia fazer isso.
Mas ele disse que uma decisão que afeta duas pessoas não deve ser tomada arbitrariamente apenas por uma.
─ Eu concordo. - Disse a médica e começou a explicar a Sara o que estava prescrevendo, mas Sara não estava
atenta à conversa. Ela estava pensando em seu bebê e como Wolf reagiria à notícia de que seria pai. Ele nunca
havia falado em casamento. Tinha 37 anos, e a única vez em que se envolveu seriamente com uma mulher foi
com Ysera. Se ele ficou solteiro todos esses anos, era por que queria.
─ Sara, você me ouviu? - Perguntou a médica gentilmente.
Sara sorriu.
─ Sim. Claro. - Sara olhou para suas mãos. ─ Você pode fazer algo por mim enquanto eu estou aqui?
─ Claro. O Quê?
Sara corou, mas disse a ela.
A médica se limitou a sorrir.
─ Eu vou chamar a enfermeira.
Sara meditou por três dias. Mas no final, pegou o celular e enviou uma mensagem para Wolf. Ela estava com
medo dele ficar irritado. Ele a tinha advertido para não fazer contato com ele. Mas também disse que queria
saber. Ela não podia contar esse tipo de coisa por telefone. Então ela digitou: Você vai ao concerto sexta-feira à
noite?
Ele mandou uma mensagem respondendo com uma palavra apenas: sim. Ele não escreveu mais nada. Nem
ela.

***

Sexta-feira à noite ela colocou um novo vestido de noite preto, um pouco mais largo na região do abdome,
porque já se notava uma leve protuberância no local. Ela estava radiante. Seus olhos suaves brilhavam e o rosto
estava mais bonito do que nunca. Sua pele estava extremamente sedosa.
Ela sorriu para seu reflexo. O vestido tinha um decote discreto na parte da frente deixando a mostra apenas o
colo. E na parte de trás, um decote mais acentuado mostrando as costas, não tinha mangas apenas, alças grossas,
e caía até os tornozelos. Como ornamento um conjunto de colar, brincos e pulseira com diamantes e esmeraldas.
Ela estava elegante, bonita e feliz.
Pensou na noite pela frente. Quando Wolf a visse, esqueceria a necessidade de mantê-la longe. Ele poderia até
se oferecer para levá-la para casa. Corou pensando sobre o que poderia acontecer em seguida. Seria muito mais
fácil contar a novidade quando ele a estivesse beijando. Lembrou-se da sensação do beijo dele, e corou ainda
mais. Seria, decidiu a noite mais feliz de sua vida. Wolf queria o bebê. Ela tinha certeza disso.

***

Ela contratou uma limusine para a noite. O motorista, já conhecido, a ajudou a se acomodar no banco de trás,
e levou-a para o concerto. A orquestra iria tocar as melodias de Beethoven que não era um de seus compositores
favoritos. Mas ela realmente não foi lá para ouvir. Ele foi ver Wolf, pela primeira vez em semanas. Nem mesmo
a graduação de Michelle na Faculdade a tinha deixado tão feliz.
Ela estava nervosa, mas não deixava transparecer. Conversava com conhecidos no caminho para o seu lugar.
Mas seus olhos buscavam uma pessoa em particular, um homem alto e bonito em um traje de noite, com cabelos
pretos e olhos azuis da cor do Ártico.
Ela localizou o assento reservado e se sentou. Ouviu a orquestra afinar os instrumentos. E fez uma careta.
Esperava ter tempo para conversar com ele, antes do início do concerto, mas seria tarde demais, se ele não se
apressasse. Ele disse a ela que estaria aqui. Mas, e se não aparecesse?
Naquele momento sentiu um movimento ao seu lado. Ela se virou e lá estava ele tão bonito que o coração dela
se contorceu em seu peito. Ao lado dele uma mulher loura, bonita em um vestido de cetim branco. Ele a estava
beijando e rindo. E ela agarrava-se a ele como se estivesse no paraíso.
Sara tão confiante, minutos antes, sentiu seu corpo enrijecer com o início do pânico.
Wolf a viu e foi educado, mas seu rosto não mostrou nenhuma emoção. Eb tinha chamado mais cedo. Ysera
tinha alguém nos bastidores. O homem estaria vigiando. Wolf tinha que ser um bom ator para proteger Sara. Ele
sabia que ia magoá-la. Ele também sairia magoado. Mas a vida dela poderia depender de sua capacidade de
fingir. Ele tinha ido com muitas mulheres bonitas em eventos como este nas últimas semanas, para despistar os
espiões de Ysera. Tinha que continuar fingindo. Não poderia colocar Sarah em perigo, mesmo que isso
significasse ignorá-la.
─ Senhorita Brandon. - Disse com descaso, como se ela fosse uma simples conhecida. ─ Cherry, esta é Sara
Brandon. Seu irmão é o meu melhor amigo.
─ Prazer. - Cherry disse. ─ Que vestido mais bonito!
─ Não é tão bonito quanto o seu. - Sara disse, escondendo sua dor.
─ Eu adoro roupas. - Disse a outra mulher rindo. ─ Eu particularmente adoro me vestir para ele. - Ela olhou para
Wolf com seu coração nos olhos.
─ Ele adora isso também. - Ele riu e se inclinou para beijá-la.
Eles se sentaram ao lado de Sara, que estava torcendo o programa do concerto em suas mãos. Ela desviou os
olhos para o palco e agradeceu a Deus que a cortina estava subindo.

***

Ela nunca soube como conseguiu terminar a noite. Wolf foi muito educado, mas era como se nunca tivessem
se falado, beijado ou ficado íntimos. Ela tinha o bebê dele sob o seu coração, e não poderia dizer a ele. Não
agora.
O concerto acabou. Sara não conseguia se lembrar de nenhuma das sinfonias de Beethoven que tinham
tocado. Sentia-se como se isso fosse um sonho, como se ela não estivesse realmente aqui.
─ Foi lindo não é? - Cherry disse com entusiasmo. ─ Essa música é linda!
─ Sim. - Sara conseguiu responder. ─ Linda.
─ Espero um dia vê-la de novo, Srta. Brandon.
─ Eu também.
─ Boa noite, senhorita Brandon. - Wolf disse sem olhar em seus olhos, e apenas um ligeiro sorriso nos lábios
duros. ─ Vamos para casa Cherry. - Disse ele. ─ É tarde.
─ Oh, sim, claro - Cherry disse e riu pressionando o corpo contra o de Wolf.
Atrás dele, Sara ficou como uma estátua elegante, seu coração quebrado por dentro, um sorriso falso no rosto.
Na porta de saída do teatro, Wolf olhou para trás. Ele teve que desviar seus olhos e endurecer o coração. Se
ele fizesse o que sentia vontade, teria que segurá-la em seus braços e beijá-la até a dor estampada em seu belo
rosto desaparecer, mas isso a colocaria no olho do furacão como ele estava. Wolf deixou o teatro sorrindo, com
seu coração partido no peito. Ele já a tinha machucado tanto. Isso era quase insuportável!
Sara voltou para seu apartamento e chorou até dormir. Wolf estava namorando outra mulher. E parecia muito
envolvido. Não a queria. Ele não poderia ter deixado isso mais evidente.
Ela levantou-se de manhã bem cedo e ligou o computador. No momento em que entrou no jogo, Rednacht
enviou uma mensagem.
Noite ruim? - Ele perguntou
A pior da minha vida. - Ela confidenciou.
Junte-se ao clube. - Ele escreveu.
Ela queria abrir o coração, contar tudo a ele, chorar em seu ombro. Mas ele era um estranho e ela era muito
tímida, mesmo com ele, para falar sobre o que tinha acontecido.
O amor, ela digitou, é a mais terrível emoção humana já descoberta.
Você pode acreditar nisso. - Ele digitou de volta. Houve uma hesitação. Alguém já te machucou?
Sim.
E eu machuquei alguém. - Ele digitou lentamente. Alguém de quem eu gosto muito. Por que foi necessário.
Porque ela é importante para mim.
Isso não fazia sentido.
Por quê?
Eu a coloquei em perigo simplesmente por ser visto com ela.
Sara lembrou que ele era policial. Ele até tinha dito que tinha inimigos.
Por causa do trabalho. - Ela supôs.
Sim.
Ela sabe?
Eu não posso dizer. - Ele respondeu. Ele hesitou. Campo de batalha ou masmorra? - Ele perguntou. Eu estou
com vontade de matar alguém.
Sara riu para si mesma.
Eu também. - Confessou. Campo de batalha. - Disse ela. Muitas pessoas para matar. - Acrescentou. KKK.
Ele riu novamente.
Venha comigo. Eu vou nos colocar na fila. - Disse ele.
Assim ela fez, pensando como era bom ter pelo menos um amigo no mundo com quem falar. Seu amigo tinha
uma mulher em sua vida. Isso a fez sentir-se melhor, porque, na verdade, não queria se envolver com um
estranho online. Infelizmente, o homem que ela desejava não a queria. Era particularmente ruim assumir isso,
finalmente.

***

Sara foi a uma clínica que ficava a duas quadras do seu apartamento. Ela entrou e saiu de lojas, e até mesmo
pegou um táxi apenas por uma quadra, para despistar seus guarda-costas. Ela não queria que a ida a clínica
constasse do relatório para Wolf. Isso iria machucá-lo, porque ele a conhecia muito bem. Mesmo que ele não
quisesse o bebê, e como iria querer quando tinha uma bela companheira loira grudada nele, ele se sentiria mal se
soubesse que Sara se sentiu forçada a fazer isso. Mas ela faria o que tinha que ser feito. Ela era forte. Poderia
suportar.
Pelo menos, ela pensou que podia, até que começou a preencher a papelada. Mas, enquanto fazia isso,
começou a chorar.
A atendente afagou-lhe a mão.
─ Querida, você não está pronta para isso. - Disse ela em voz baixa. ─ Vá para casa e pense sobre isso por um
dia ou dois, ok? Então, mais tarde, se você realmente quiser, pode voltar.
Sara fitou os simpáticos olhos negros.
─ Obrigada.
A mulher sorriu.
─ De nada.
Sara se levantou e saiu da clínica, as lágrimas ainda rolando pelo rosto. Ela não percebeu que tinha sido vista.
Seus guarda-costas não eram tão fáceis de despistar.

***

Sara colocou um anúncio na internet, em um site confiável, para encontrar uma mulher para lhe servir de
acompanhante. Gabriel tinha sugerido, porque estava preocupado por ela ficar sozinha, agora que Michelle tinha
um apartamento próprio. Michelle estava tão envolvida em seu novo trabalho como repórter de um jornal de San
Antonio, que nunca estava disponível. Além disso, Sara não queria que ela soubesse sobre o bebê. Mas não
demoraria muito para que todos começassem a notar.
No entanto, ela tinha planos. Estava indo para o rancho em Catelow, Wyoming. Era um lugar distante, mas
teria ajuda. Muita ajuda. Um dos seus empregados era um ex-agente do FBI. Outro era um ex-policial em
Billings, Montana. Ninguém poderia ameaçá-la. Estaria segura. E seria pouco provável encontrar com Wofford
Patterson, o que era a verdadeira razão de se estabelecer lá. Embora Wolf tivesse o seu próprio rancho no
Wyoming, e muito perto do rancho dos Brandon, nos últimos meses, ele não o tinha visitado. Ela soube disso por
Gabriel. E agora, com sua bela namorada loira, não era provável que ele viesse para o rancho.
Ela não podia desistir do seu filho. E não ia desistir. Pela primeira vez em sua vida, ele teria alguém para
amar. Teria o seu próprio bebê. O pensamento fez confortar seu coração. Se Wolf algum dia descobrisse, ela iria
enfrentá-lo. Mas agora ela tinha outras coisas para resolver.
A Drª. Medlin tinha um amigo que era obstetra. Deu a Sara o endereço do consultório e a recomendou ao
médico para garantir que Sara fosse incluída na agenda como paciente dele. O médico a aceitou.
Alguém respondeu ao anúncio que Sara colocou na internet procurando uma acompanhante, poucos minutos
depois dela tê-lo postado. A mulher concordou em vir ao encontro de Sara. Então, quando ela tocou a campainha,
Sara estava apreensiva. Era difícil compartilhar sua vida com um completo estranho. Ela esperava que a mulher
não fosse maluca.
Sara abriu a porta, ainda pensando no bebê, e encontrou um par de olhos castanhos escuros emoldurados por
fios de cabelo loiro-claro presos em um coque. A mulher teria um pouco mais de vinte anos, provavelmente vinte
e cinco, do seu ponto de vista. Ela não estava sorrindo. Sua boca era bonita, mas estava contraída. Sua postura
era absolutamente rígida.
─ Senhorita... - Ela olhou para o cartão em sua mão. ─ Senhorita Brandon? Eu sou Amélia Grayson.
─ Prazer em conhecê-la, senhorita Grayson. Por favor, entre.
A mulher entrou na sala e foi direto até uma cadeira. Sentou-se muito ereta, olhando para Sara.
─ O que exatamente você precisa?
─ Companhia. - Disse Sara pesadamente.
─ Para que? - Foi a pergunta desconfiada.
Sara deduziu o que ela estava pensando e riu.
─ Não, não é isso. Desculpe. Eu preciso de alguém para me fazer companhia em um rancho no Wyoming. -
Disse ela. ─ A maioria das pessoas que trabalham lá são homens. - Ela fez uma careta. ─ Eu, não fico muito à
vontade perto de homens.
A outra mulher relaxou.
─ Bem, eu também não. - Ela disse friamente. ─ Quais seriam as minhas tarefas?
─ Eu cozinho. - Disse Sara. ─ Eu sou uma chef gourmet. Mas eu preciso de ajuda com as tarefas domésticas. Eu
tenho uma máquina de lavar louça, todos os aparelhos domésticos de costume. Você terá as noites de sábados e
domingos de folga. E eu pago muito bem. - Ela mencionou a quantia o que deixou Grayson de boca aberta. ─
Senhorita Grayson? - Chamou Sara.
Amélia fechou a boca.
─ No último lugar onde eu trabalhei. - Ela disse lentamente. ─ Eu tinha que preparar a comida, limpar e cuidar
dos quatro filhos do casal, lavar o carro, levar quatro cães para passear, e estava livre apenas na noite de
domingo. Eles me pagavam cerca de um quinto da quantia que você acabou de citar. - Ela corou.
─ Meu Deus! - Sara explodiu.
A senhorita Grayson estava menos rígida.
─ Podemos fazer um período de experiência de um mês para ver se podemos nos adaptar, uma a outra?
Sara sorriu.
─ Claro que podemos. Você pode se mudar para cá ainda hoje, se quiser.
─ Eu vou viver aqui? Eu tinha um apartamento separado no lugar de onde eu venho...
─ Senhorita Grayson, você foi muito desvalorizada no seu último emprego. - Sara disse rapidamente. ─ Mas isso
não vai acontecer aqui, você vai ser o meu tesouro. Claro que você vai viver comigo. Você terá plano de saúde e
todos os benefícios... Senhorita Grayson!
A outra mulher estava chorando. Ela tirou um lenço de sua bolsa e enxugou os olhos.
─ Sinto muito. - Ela disse bruscamente. ─ Algo entrou no meu olho. - Ela olhou para Sara para ver se ela se
atrevia a contestar a afirmação.
Sara sorriu.
─ Nós vamos trabalhar bem juntas. Muito bem. Agora, deixe-me mostrar-lhe o seu quarto!

***

Grayson não era apenas um tesouro, ela era uma trabalhadora incansável. Ela podia fazer a contabilidade do
rancho, sabia costurar, fazer crochê e tricô, e era um manual militar. Mas quando Sarah perguntou se ela alguma
vez tinha prestado o serviço militar, Grayson apenas riu e balançou a cabeça negando.
Ela havia trabalhado para várias famílias nos últimos quatro anos, desde que se formou na universidade no
curso de química. Ela tinha um cérebro brilhante. Sara estava surpresa que uma mulher com tal inteligência
estivesse disposta a limitar-se a tarefas domésticas. Mas ela não disse nada. Ainda não se conheciam o suficiente.
Sara já estava encantada com ela. E não queria arriscar-se a perdê-la por invadir sua privacidade.
O rancho no Wyoming era enorme. Cobria centenas de hectares de terra, e estava ao lado de uma floresta
nacional. No rancho criavam gado Black Angus e um pequeno plantel de cavalos, especialmente para uso dos
cowboys durante o trabalho. Sara tinha um cavalo à sua disposição, uma linda égua Appaloosa, branca como a
neve com manchas marrons em seus flancos. Ela a chamou de "Snow" e Sara a amava. Sua maior tristeza era ter
medo de cavalgar por estar grávida.
Grayson, felizmente, não sabia sobre o bebê. Sara mantinha segredo. Ela observou que Grayson tinha uma
Bíblia e a lia todas as noites, enquanto Sara assistia filmes no Blu-ray. Uma pessoa religiosa poderia achar que
uma mulher grávida, fora do casamento, era uma vergonha. Então, ela estava relutante em contar sobre a
gravidez, por que Grayson estava rapidamente se tornando indispensável.

***

Os pesadelos haviam desaparecido por um tempo. Mas, no Wyoming, eles voltaram com força total. Ela se
sentou na cama, encharcada de suor e chorando após ter acordado aos gritos.
Grayson veio correndo, vestindo uma longa camisola e um igualmente longo robe, de algodão.
─ Senhorita Brandon, o que aconteceu? - Disse ela. Seu longo cabelo estava fugindo do seu coque. Ela parecia
muito diferente da jovem, controlada e recatada que Sara tinha conhecido.
─ Pesa... delo. - Disse Sara angustiada. Ela inclinou a cabeça sobre seus joelhos dobrados. ─ Desculpe. Eu
deveria ter mencionado que eu os tenho. - As lágrimas escorriam livremente.
─ Só um minuto. - Disse Grayson.
Ela voltou rapidamente com uma toalha, sentou-se ao lado de Sara e começou a enxugar o rosto dela.
─ Eu coloquei água para ferver para preparar um chá. - Ela disse suavemente. ─ Venha para a cozinha.
Sara levantou e vestiu um robe que combinava com seu pijama de algodão e foi atrás de Grayson, até a
cozinha. Ela sentou-se à mesa. Por alguma razão, desta vez Wolf estava no seu pesadelo. Ele estava em um lugar
escuro e perigoso. Ela não lembrava muito do pesadelo, mas tinha sangue. Muito sangue!
─ aqui está. - Grayson colocou uma xícara de chá na frente dela. ─ Beba. Isso vai ajudá-la a se acalmar.
─ Obrigada, senhorita Grayson. - Sara disse com voz rouca. E mordeu o lábio. ─ Desculpe...
─ Todo mundo tem pesadelos. - A outra mulher disse suavemente.
Sara sorriu tristemente.
─ Eu não gosto dos meus, eu tenho medo.
─ Algo ruim aconteceu com você. - Foi a afirmação surpreendente.
Os olhos de Sara se arregalaram, chocados. Grayson continuou.
─ Quando você era criança? - Continuou Grayson.
Sara mordeu o lábio inferior.
─ Não há necessidade de falar comigo sobre isso. Mas você deve falar com alguém.
Sara riu suavemente.
─ Eu tenho uma psicóloga. Nós temos sessões via Skype. - Seus olhos escuros brilhavam com humor leve. ─ Ela
tem cobras como animais de estimação.
Grayson franziu a testa.
─ Emma Caim?
Sara engasgou.
─ Como sabe?
─ Não pergunte. Eu não vou dizer.
Sara abriu a boca e a fechou novamente.
─ Isso mesmo, controle seus impulsos curiosos. - Grayson disse com um toque de humor. ─ Eu não falo sobre o
meu passado, nunca.
Sara ficou intrigada. Suas sobrancelhas arquearam.
─ Você deveria se envergonhar pelos seus pensamentos! - a outra mulher disse sarcasticamente. ─ Você devia
lavar o seu cérebro com sabão!
Sara riu.
Grayson também sorriu.
─ Assim é muito melhor.
Sara suspirou e balançou a cabeça.
─ Grayson você é a melhor ideia que eu já tive na minha vida. E se você tentar ir embora, eu vou pedir a
Marsden para trazê-la de volta.
─ Marsden?
─ Ele é um ex-agente do FBI. Nosso capataz aqui.
─ Oh, aquele homem alto. Ele é legal.
─ Muito. - Sara tomou um gole de chá. E sentiu-se um pouco tonta, mas o chá realmente a acalmou. ─ Isso está
muito bom.
─ Eu gosto de chás. Você bebe muito café. - Ela disse suavemente.
─ É descafeinado. - Disse Sara. ─ Só que eu o faço forte. Eu não posso abandoná-lo completamente.
─ Eu tive que desistir. - Grayson disse com tristeza. ─ Eu sinto muita falta.
─ Você pode tomar descafeinado.
─ Seria como comer carne embrulhada.
Sara riu de novo.
─ Tudo bem, eu desisto.
─ Muito bem. Eu quase nunca perco uma batalha. - Ela se recostou na cadeira e suspirou. ─ Eu estou tão feliz
por você ter escolhido vir para cá ao invés de ir para Comanche Wells. - Disse.
─ Mas o rancho de lá é igual a este. - Ela comentou intrigada.
─ Ele vive em Comanche Wells. - Ela deixou escapar.
─ Ele?
─ Um homem que... eu conheço. - Ela hesitou. ─ Eu nunca mais vou voltar para lá.
Sara se solidarizou com ela. E pensou no enorme rancho de Wolf, e nos momentos felizes que passou lá com
ele, apesar das lembranças angustiantes da intimidade que compartilharam. Ele não se comunicou mais depois da
noite da ópera. Esperava que ele fosse telefonar, enviar uma mensagem ou dizer a ela que tudo não passou de um
erro e que não estava interessado na sua estonteante companheira. Mas foi muito estúpido da sua parte esperar
por isso. Era dolorosamente óbvio que ele não a queria. Ela tinha que aprender a aceitar isso.
─ Não se preocupe. - Sara disse suavemente. ─ Eu não quero voltar a Comanche Wells, também. - Grayson a
olhou sem expressão. ─ Pela mesma razão que você tem. - Ela disse com firmeza.
─ Oh. - Grayson tomou um gole do próprio chá. E ficou pensativa. Mas depois de um minuto, seu rosto tornou-
se tranquilo novamente. ─ Você acha que pode dormir agora?
Sara sorriu sonolenta.
─ Eu acho que sim. Obrigada, Grayson. Muito obrigada.
─ De nada. - Disse ela.

***

─ Você não pode fazer isso. - Eb Scott rugiu. ─ Você vai entrar de cabeça em uma armadilha se você abordá-la,
você não sabe disso?
O homem alto, de olhos azuis não estava escutando. Ele estava reunindo seu equipamento, vestia roupas que
alertariam qualquer espectador inteligente, que ele estava fortemente envolvido em operações secretas. Roupas
pretas, um coldre amarrado com velcro em torno de uma poderosa coxa, armas automáticas, luvas de couro,
botas de combate. Parecia um profissional. E era.
Ele se virou para Eb Scott.
─ Não tenho nada por que viver. - Ele disse sem rodeios. ─ Ela destruiu a minha vida, destruiu qualquer chance
que eu poderia ter de ser feliz. E está lá fora, agora, conspirando para acabar com as nossas vidas. Vou dar a ela
uma oportunidade para me pegar, vou fazê-la se mostrar. Cobrei favores para pessoas em três países diferentes.
Eu vou ter todo o apoio possível, incluindo algumas agências federais secretas que nem a você posso revelar. ─ E
daí se isso me matar? - Acrescentou. ─ Só iria acabar com a dor.
Eb fez uma careta.
─ Escuta, eu sei que você não queria colocar Sara na linha de fogo. Você pode dizer isso a ela quando tivermos
Ysera sob custódia...
─ Ela nunca mais vai querer falar comigo enquanto eu viver. - Disse ele em tom amargurado. Seus olhos estavam
tão cheios de dor que EB não podia sequer olhá-los.
─ Você não sabe.
─ Eu sei.
─ Como? Você não teve qualquer contato com ela...
─ Seus homens fizeram um relatório dos movimentos dela até ela ir para Wyoming, três semanas depois de nos
encontrarmos no concerto. - Ele disse calmamente. ─ Eu li.
─ Então?
Wolf olhou para o kit de equipamentos sem vê-lo.
─ Ela foi a uma clínica, Eb. - Disse em uma voz tão fria quanto à morte. ─ Eu fiquei beijando uma mulher no
concerto, fingindo estar envolvido com ela. Sara não sabia o porquê, e eu não podia contar. Ela pensou que eu
não a amava e que um bebê iria complicar tudo. Então, ela foi a uma clínica... - Ele teve que parar. Sua voz
falhou. Wolf limpou as lágrimas em seus olhos que não derramado em anos.
─ Oh Deus, sinto muito! - Eb lamentou.
─ Ter feito isso deve tê-la magoado ainda mais. Ela já tinha cicatrizes suficientes do seu passado.
─ O bebê era seu? - Eb perguntou lentamente.
O olhar de Wolf tornou-se perigoso. Ele se aproximou do outro homem.
─ Que tipo de mulher você acha que Sara é? Claro que era meu!
Ele estava arrasado pelo bebê. E pelo que conhecia sobre Sara, sabia que ela não poderia nem mesmo matar
uma mosca. O efeito que isso teria sobre suas emoções era impensável.
─ Sinto muito. - Eb disse suavemente.
Wolf se afastou.
─ Desculpe também. - Disse laconicamente. ─ Tudo isso, da maneira como eu tenho vivido há anos até o que fiz
a Sara, foi por causa de Ysera. - Seus olhos se tornaram frios como gelo. Ele se virou para EB. ─ Ela vai pagar
pelo que fez. Você pode ter certeza disso.
Ele se virou e fechou o zíper da sacola.

***

─ O que diabos está acontecendo? - Gabriel perguntou surpreso com a presença inesperada de Wolf em seu
acampamento. ─ Você está aposentado!
─ Eu não estou mais. - Disse Wolf. E parecia diferente. O fazendeiro que zombava de sua irmã impiedosamente,
deixando-a louca e enfurecida, havia desaparecido. Em seu lugar estava um mercenário de olhos frios, o mesmo
homem que Wolf tinha sido quando Gabriel o conheceu.
─ Sara não me conta nada. - Insistiu Gabriel. ─ Ela foi viver no rancho no Wyoming, pelo amor de Deus. Ela me
avisou, mas com uma voz extremamente triste...
─ Não quero falar sobre isso. - Wolf disse com voz rouca, e desviou o olhar.
─ Bem. Vamos falar sim! - Gabriel olhou diretamente para Wolf. ─ Agora!
O outro homem nem sequer reagiu.
─ Você é o melhor amigo que tenho no mundo. Isso vai te machucar.
─ Diga-me!
Wolf olhou para suas botas de combate.
─ Eu não sei como.
─ Você a magoou.
Wolf assentiu. E respirou profundamente.
─ Sim. - Ele disse, olhou para baixo. E fechou os olhos estremecendo. ─ Ela me mandou uma mensagem de
texto perguntando se eu ia ao concerto de Beethoven, e eu disse que sim. Ela parecia... um anjo, tão bonita que
quase me cegou. Eu fui acompanhado por mulher loira que já havia namorado. E passei a noite beijando-a.
Estava fingindo que ela me interessava...
─ Você fez o que? - Gabriel explodiu.
─ Ysera tinha alguém no teatro. - Ele continuou, sem perceber o silêncio súbito do outro homem. ─ Eu não podia
pôr Sara em perigo. Eu não podia expô-la, eu tive que encontrar uma maneira de despistar Ysera... Então, eu a
ignorei, eu a tratei como uma simples conhecida. - Ele fechou os olhos e estremeceu. ─ Eu a magoei muito. E
nem pude explicar por quê. Eu não podia falar com ela, nem entrar em contato, seria como por em Sara um alvo.
- Ele não conseguia olhar para Gabriel. ─ Sara pensou que eu lhe virei às costas. Então, na manhã seguinte... -
Ele teve que parar antes de concluir o que estava dizendo. ─ Ela foi a uma clínica...
Gabriel olhou para ele.
─ Uma clínica? - De repente Gabriel entendeu o que Wolf estava dizendo. A mente aceitou a realidade de que a
sua irmã, que não podia tolerar o menor toque de um homem, ficou grávida de seu melhor amigo. ─ Uma
clínica?
Wolf assentiu. Seus olhos tinham uma névoa fina. Ele virou a cabeça. Seu rosto estava pálido e atormentado.
─ Ela não consegue machucar ninguém. - Disse tristemente. ─ Fazer isso, ter esse peso na consciência... - Ele se
virou para o amigo. ─ Mate-me. - Disse ele. ─ Seria uma bênção.
─ Meu Deus. - Gabriel compreendeu tudo, entendeu como o outro homem, estava se sentindo e o que Sara
sentiu. ─ Querido Deus. - Ele repetiu, quase com reverência. ─ Ela te ama. - Ele disse lentamente.
─ Eu sei. - Disse o outro homem com uma voz estrangulada. E desviou o olhar. Suas maçãs do rosto estavam
vermelhas. ─ Eu tinha planos. Todos os tipos de planos. E, em seguida, Ysera decidiu vingar-se. Eu disse a Sara
que não podia me comunicar com ela por várias semanas. Ela sabia sobre Ysera, mas ela não sabia o que eu teria
que fazer para protegê-la. Tinha de ser visto com várias mulheres, para Ysera não perceber que havia uma... sem
a qual eu não poderia viver... - Seus olhos fecharam. ─ Sara tinha o meu bebê sob seu coração, e ela pensou que
eu estava envolvido com outra mulher, que não a queria... Ela pensou que o bebê seria um problema... Eu não
posso... viver com isso!
─ Deus, eu sinto muito. - Gabriel disse pesadamente.
Wolf se endireitou, seus olhos inescrutáveis.
─ Não. Me desculpe pela bagunça que eu fiz na vida dela. - Ele levou um minuto para controlar suas emoções. ─
Pelo menos eu consegui que ela fizesse terapia.
─ Terapia? Sara? Como conseguiu isso? - Gabriel perguntou pasmo. Ele havia tentado, por anos sem sucesso que
ela fizesse terapia.
─ Você se lembra de Emma Cain?
Gabriel estremeceu.
─ Ela cria cobras.
Wolf assentiu.
─ Mas é boa no que faz. Quanto à maneira como eu consegui que Sara fizesse terapia, foi porque eu... comecei a
fazer, também.
Gabriel estava atordoado.
─ Você nunca...
─ Nunca antes teria concordado com isso. - Ele disse, balançando a cabeça. ─ Mas Sara e eu, bem... - Ele fez
uma pausa. Ele não podia falar sobre isso com seu melhor amigo, não quando ela era irmã de Gabriel. Seu rosto
estava vermelho. ─ Nós tivemos um relacionamento. Ou algo assim. Não deveria ter gerado um bebê. Mas
aconteceu.
Gabriel leu nas entrelinhas.
─ Sara tinha que amar você, para que isso acontecesse...
─ Sim. - Ele abaixou a cabeça e aspirou profundamente antes de falar com a voz trêmula. ─ Ela deve estar
desesperada agora, por minha causa. E detesto saber que ela está sozinha!
─ Sara está bem. - Disse Gabriel. ─ Antes de deixar o rancho, ela colocou um anúncio na internet para procurar
uma acompanhante, então, me certifiquei de que ela contratasse uma mulher em quem confio para cuidar dela.
Ela vai ficar bem.
─ É alguém que eu conheço?
─ Não importa quem é. Se eu pudesse entrar em contato com Sara. - Gabriel disse, miseravelmente. - Mas temos
ordens para manter os rádios silenciados. Eu não posso nem dizer onde eu estou ou o que está acontecendo.
O rosto de Wolf era como pedra.
─ Ysera é a razão de Sara ter ido até aquela clínica. Ela me fez magoar Sarah para protegê-la. Ela me custou o
nosso filho. E eu vou fazê-la pagar por isso, mesmo que seja a última coisa que eu faça nesta vida!
─ Você gosta de Sarah. - Gabriel disse lentamente.
─ Gostar! - Ele riu estupidamente. ─ Meu Deus! - Seu rosto tinha uma expressão de perigo. Ele suspirou
novamente. ─ Eu preciso de algumas coisas. - Ele disse depois de um minuto, tentando apagar a dor em suas
feições duras.
Mas Gabriel viu. E entendeu. Ele colocou a mão no ombro do outro homem.
─ O que você precisar. Eu consigo.
─ Obrigado.
─ Ela vai superar isso. - Gabriel disse hesitante. ─ Quando ela descobrir a verdade, ela vai superar.
Wolf olhou diretamente nos olhos.
─ Não. - Disse ele. ─ Não vai.

***

Ysera também tinha comprado uma casa noturna, bem perto do mercado. Chamava-se Maroc, servia a
autêntica cozinha marroquina e exibia shows de dança do ventre com dançarinas espanholas, porque nenhuma
mulher árabe decente ousaria mostrar seu corpo para homens. Mas o verdadeiro propósito do estabelecimento era
encobrir o que acontecia lá dentro. Era um covil de bandidos que estavam envolvidos em roubo, sequestro,
prostituição, drogas e coisas piores.
Wolf olhou ao redor com olhos azuis gelados. Ele tinha uma .45 automática escondida no coldre sob a jaqueta
preta que usava. Tinha também uma Ka-Bar* em um coldre em sua cintura, e uma outra arma em sua bota. Ele
estava pronto para qualquer coisa que ela poderia fazer.
Nas sombras, ele reconheceu um contato, um federal que trabalhava em operações secretas na região. Ele
fingiu não ver o homem que devolveu o favor.
Ele caminhou lentamente pelo corredor e sentou-se em uma mesa perto do palco, onde as dançarinas de dança
do ventre se apresentavam. Ele pediu um uísque e recostou na cadeira para ver as dançarinas. Sabia, sem que
alguém tivesse dito, que estava sendo vigiado por câmeras de vigilância não tão bem ocultas, instaladas perto do
teto.
Na verdade, ele tinha tomado um gole de sua bebida quando sentiu o cheiro de um perfume familiar.
Ele virou a cabeça e uma morena alta com um vestido preto colante, coberta de diamantes, vinha em sua
direção. Os longos cabelos negros desciam pelas costas. Os cintilantes olhos negros como sempre, pareciam
zombar dele. Mas sob o olhar divertido havia um completo desprezo.
─ Oi, Ysera. - Disse em tom de conversa.

Capítulo onze

Sara foi sozinha a consulta com o obstetra, havia mentido para Grayson sobre a necessidade de comprar
algumas coisas na cidade e apenas querer um pouco de ar fresco. Era primavera, e tudo estava lindo e florido.
Dr. Hansen era alto e esguio, com um sorriso fácil e afável. Ele a examinou na presença da enfermeira. E
franziu a testa e então pediu exames de laboratório. Quando ele voltou, ainda estava franzindo a testa.
─ Oh, por favor, não pode haver nada de errado com meu bebê. - Ela disse.
─ Não, não, o bebê está bem. - Ele disse rapidamente.
─ Graças a Deus!
─ Há um pequeno problema. Não é nada grave. - Ele estreitou os olhos. ─ Você tem um problema no coração.
Sara mordeu o lábio inferior.

* Ka-bar - É uma faca, famosa por ter sido usada pelo corpo de fuzileiros navais dos Estados Unidos da América durante a segunda guerra mundial. A faca é fabricada
pela "Ka-Bar Cutlery, Inc" que produz na sua maioria facas táticas de combate, de caça e de lazer.
─ Não é sério. - Como já disse. ─ É um defeito de nascença... Síndrome Wolff-Parkinson White*. - Ele disse,
acenando com a cabeça. ─ Ele não costuma causar problemas, mas pode. Você tem que ser monitorada. Eu
gostaria que você fosse a um cardiologista local, apenas para nos certificarmos de que não haja complicações
durante o parto.
─ Tudo bem. - Disse ela.
─ Ele pode conversar com você também sobre hipertensão.
─ Certo. - Ela ficou intrigada. ─ A Drª. Medlin havia mencionado esse termo. Tem algo a ver com o estresse,
certo?
─ Pode ter. Basta continuar a tomar os comprimidos. - Disse ele com um sorriso, assumindo que a Drª. Medlin já
tinha conversado com ela sobre a hipertensão. ─ Nada para se preocupar com isso. Sério.
Ela ficou aliviada. E passou a mão suavemente sobre a barriga. Ainda não conseguia sentir o bebê. E embora
fosse pouco perceptível, ela o queria.
─ Você realmente quer esta criança. - O médico disse, fascinado.
─ Mais do que qualquer coisa no mundo.
Ele hesitou.
─ Você contou ao pai?
Ela já estava de pé. E balançou a cabeça negando.
─ Ele não me quer. Eu... não posso contar. Mas eu vou contar. - Prometeu. ─ Eu vou ter que fazer isso, mas não
agora. Está bem?
─ Não quero me intrometer. - Disse ele. ─ Mas um homem tem o direito de saber.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Eu concordo.
Ele sorriu.
─ Tudo bem. Joan vai marcar uma nova consulta e vai telefonar avisando o dia e o horário. Eu quero vê-la
novamente em um mês.
─ Obrigada. - Disse ele.
─ É o meu trabalho. - Ele disse sorrindo.

***

Wolf fixou os olhos em Ysera enquanto ela deslizava a mão sobre a mesa e brincava com as unhas longas
sobre o dorso da mão dele.
Ele não reagiu, como teria feito no passado quando ela o excitava dessa maneira. Ele apenas olhou para ela.
Ela se surpreendeu, mas escondeu rapidamente.
─ Estou surpresa de ver você aqui. - Disse ela. Seu sorriso se transformou em puro sarcasmo. ─ Destruir o meu
negócio não foi castigo suficiente para você? O que mais você quer? Eu não o entendo. Tudo que fiz foi ensiná-
lo a alcançar o prazer. - Ela ronronou.
─ Não. Você me ensinou submissão e humilhação. - Ele disse suavemente. ─ Eu fui um bom aluno.
─ Você me queria mais do que a qualquer outra coisa. - Ela riu. ─ Uma vez nós transamos no chão do bar, atrás
do balcão, com todas as pessoas ao redor, porque você não podia esperar.
A humilhação daquele encontro o fez ficar doente. Mas ele não reagiu. Aquela era outra maneira dela tentar
controlá-lo, com as memórias vergonhosas. Então ele só a olhou.
─ Você parece... diferente. - Disse ela lentamente. Seus olhos escuros se estreitaram, e ela deu um sorriso cínico.
─ Eu sei que você tem uma mulher, em algum lugar. Meus homens estão investigando. Eles vão descobrir quem
ela é. E quando eles descobrirem... - Ela se inclinou para frente, quase ronronando. ─ Eu vou mandá-los estuprá-
la. Eu vou matar a sua amante.
─ Você não vai matar ninguém. Nunca mais. - Ele destravou o gatilho da arma debaixo da mesa. Seu sorriso era
tão frio que ela estremeceu. Ela não percebeu o que estava acontecendo. Ela nunca teria esperado isso do seu ex-
amante.
Ele olhou em volta.

* A síndrome de Wolff-Parkinson-White é uma doença congênita em que há uma conexão elétrica adicional entre os átrios e os ventrículos. Os portadores dessa doença
podem ter episódios de batimentos cardíacos extremamente acelerados.
─ Seus homens estão sendo capturados enquanto conversamos. - Ele disse, ainda sorrindo. ─ Seus registros
foram confiscados pelo órgão competente, seus comparsas estão sendo interrogados. E você vai ter uma longa
estadia na prisão, quem sabe até seja condenada a pena de morte.
─ Você vai cair comigo. - Disse ela furiosamente. ─ Você matou aquele homem e a família dele!
─ Enganado por você, que era nossa informante. - Disse ele. ─ O incidente foi investigado, e os meus homens e
eu fomos inocentados. Mas você foi considerada culpada. Por isso fugiu. Mas acabou, querida. - Acrescentou. ─
Você não vai escapar. Não novamente.
─ Deixem que me prendam. - Ela disse com raiva, enfiando a mão no bolso discretamente. Ela apertou um botão
e rezou para que funcionasse e o homem que estava do outro lado do receptor ainda não tivesse sido preso. ─ Eu
posso me articular de dentro da prisão. - Disse ela. E sorriu. ─ Eu posso encontrar sua mulher e mandar matá-la,
mesmo na cela escura da prisão mais remota onde vocês me colocarem! Você nunca vai estar seguro! Ela nunca
estará segura também!
Enquanto ela estava rugindo para ele, um homem saiu de trás de uma cortina e apontou o revólver para Wolf.
Wolf percebeu a intenção de Ysera e o triunfo em seus olhos, com uma fração de segundo tarde demais para
salvar a si mesmo. Mas mesmo quando a bala perfurou o seu peito vinda por trás, ele apertou o dedo no gatilho
da arma que estava segurando embaixo da mesa e disparou, atingindo Ysera em cheio. Antes de perder a
consciência, viu o choque nos olhos dela e o pequeno filete de sangue escorrendo de seus lábios vermelhos
perfeitos...

***

Sara voltou para casa, mas estava preocupada porque o Dr. Hansen a mandou para um cardiologista.
Certamente ele não achava que seu pequeno problema cardíaco seria perigoso para o bebê, certo? E o que ele
disse sobre a hipertensão? Ela sabia que estava sob estresse ultimamente, então talvez esse fosse o motivo para
ele ter prescrito o remédio. O estresse pode causar diversos problemas.
Ela tocou a barriga, sorrindo para si mesma enquanto dirigia. O bebê ficaria bem. Só a magoava não poder
dizer a Wolf. Mas ele não a queria. Ele havia deixado isso bem claro. Um bebê só complicaria a sua vida, por
isso era melhor não dizer nada.
Ela estava tão absorta em seus pensamentos que passou a entrada para o rancho. Em vez de ir para o seu
rancho, ela estava no caminho para o Rancho Royal pertencente aos irmãos Kirk. Mallory, Dalton e Cane.
A esposa de Mallory, Morie Brannt Kirk era sua amiga há muitos anos, desde que tinham se conhecido em um
evento social em San Antonio quando Morie ainda vivia com os pais e o irmão em Branntville.
Sara sorriu, lembrando que Morie era uma trabalhadora incansável nas vendas do enorme rancho pelas quais
King Brannt era famoso. Ele criava gado da raça Santa Gertrudis e seus novilhos eram vendidos todos os anos.
Na verdade, Kirk tinha comprado um novo touro reprodutor no ano passado.
Moire e seu marido, Mallory Kirk haviam percorrido uma estrada tortuosa até o altar. Morie, cansada de
homens que queriam o dinheiro que seu pai tinha fugido para Wyoming e tinha começado a trabalhar no Rancho
Royal como vaqueira. King nunca a tinha autorizado a se envolver de alguma forma no trabalho do rancho, então
ela tinha aprendido com a ajuda de Darby Hanes, capataz dos Kirk.
Ela estava se saindo muito bem no trabalho, até que a namorada maquiavélica de Mallory havia plantado
provas falsas e a acusado de roubar uma peça de arte, de valor inestimável, num armário antigo na casa dos Kirk.
Morie tinha ido para casa com o coração partido porque Mallory não acreditou em sua inocência. Então,
Mallory tinha ido participar da venda de gado em Skylance, o rancho de King Brannt, no Texas, e ficou cara a
cara com uma jovem debutante bonita, rica e coberta de diamantes: Morie.
King quase fez de Mallory o jantar.
Morie ainda ria quando contava a história. A ex-namorada de Mallory, que tinha acusado Morie do roubo,
ficou sem palavras e aterrorizada quando descobriu que a vítima não era uma vaqueira pobre, afinal.
Então, Mallory foi sequestrado por um criminoso que tinha escapado da prisão. Morie foi tentar salvá-lo,
apesar dos protestos do pai, porque ela conhecia o sequestrador. Ela conseguiu que o criminoso lhe dissesse onde
estava Mallory. Foi um ato de extrema coragem, mas Morie amava demais Mallory para ficar sentada e deixá-lo
morrer.
Ao recordar como King e Mallory fizeram as pazes depois, Sara sorriu. De inimigos a melhores amigos. King
até foi ao rancho logo após o nascimento do filho de Morie para pescar truta com Mallory.
Sara estacionou o carro na porta da casa e saiu. Morie deve ter visto seu carro, porque veio até a porta com o
bebê em seus braços, os olhos arregalados de surpresa quando viu sua velha amiga.
─ Venha tomar um café. - Morie disse, abraçando-a. ─ Eu pretendia visitá-la em um dia ou dois. Acabei de ouvir
que você estava de volta ao rancho. - O último comentário era quase uma reprimenda.
─ Me desculpe, eu não contei a ninguém que estava vindo. - Sara disse suavemente. ─ Eu tive alguns...
problemas.
Morie levou-a para a sala de estar. Mavie, a governanta, estava lá.
─ Você não pode segurá-lo durante o dia todo. - Reclamou Mavie. ─ que tal se eu trouxer algo para vocês
comerem, e depois pegar o bebê?
─ Isso seria muito bom. - Morie riu.
Mavie trouxe café e bolo em uma bandeja de prata antiga, em seguida, pegou o menino nos braços e saiu.
─ Ela é um tesouro. - Morie disse a amiga. ─ Eu não sei o que faríamos sem ela.
─ Ela parece ser ótima. - Sara tomou um gole de café e franziu a testa. Suas sobrancelhas arquearam. ─ latte*? -
Perguntou ela. ─ Onde você conseguiu essa preciosidade? Há uma Starbucks* nas proximidades?
Morie sorriu.
─ É uma cápsula de café europeu. Eu o consigo da Alemanha. Não é delicioso?
─ Realmente é. É como ir a uma cafeteria. - Ela suspirou e saboreou o café com gosto.
─ Se você está aqui, então Gabriel deve estar no exterior. - Disse Morie.
─ Sim. Em outro lugar perigoso, eu suponho. - Ela concordou. ─ Ele não pode viver sem a adrenalina. No
entanto, eu me preocupo.
─ Eu sei que sim. - Moire colocou a xícara no pires e estudou a amiga. ─ Alguma coisa está errada.
Sara estremeceu.
─ Você sempre consegue perceber, certo?
─ Somos amigas há um longo tempo. - Morie se inclinou para frente. ─ Vamos. Conte-me.
Sara mordeu o lábio inferior.
─ Estou... grávida.
Morie, que conhecia toda a história de Sarah, ficou atônita.
─ Você está...
─ Grávida. - Sara repetiu impotente.
Morie se abanou.
─ Bem, ele tem que ser um homem especial, considerando seu passado.
─ Sim. Ele era... muito especial. - Sara baixou os olhos. ─ Mas ele não me quer. Mas isso não importa. Eu o vi
em San Antonio. Eu perguntei se ele iria assistir ao concerto à noite e ele disse que sim. Eu ia contar a ele sobre o
bebê. - Ela fechou os olhos e estremeceu. ─ Ele foi com uma bela loira. Ele foi educado comigo, mas indiferente.
Passou o tempo todo beijando a sua bela acompanhante e a tratando como se ela fosse a coisa mais importante do
mundo. Então eu soube que estava tudo acabado.
─ Sinto muito, Sara. - Morie disse suavemente, colocando a mão sobre a da outra mulher.
─ Eu pensei... Bem, você sabe, um bebê precisa de ambos os pais, e ele não me queria. Eu pensei que seria
melhor... - Ela engoliu em seco. ─ Eu fui a uma clínica fazer... Bem, eu tentei ir a uma clínica fazer um aborto,
mas eu perdi a coragem. A enfermeira foi muito atenciosa. Ela me disse para ir para casa e pensar sobre o
assunto um pouco mais. Então eu fiz isso. - Ela sorriu tristemente. ─ Eu não pude fazer. Talvez ele não queira
uma criança, mas eu quero. - Ela disse em voz baixa, sem fôlego, enquanto passava a mão sobre a barriga com
um pequeno sorriso. Eu o quero mais do que tudo no mundo.
─ Este homem deve ser um idiota. - Morie disse irritada.
─ Não é culpa dele realmente. - Ela disse. ─ Você não tem ideia do que aconteceu na vida dele. Foi muito pior
do que qualquer coisa que eu já tive que suportar. Ele não confia nas pessoas. No lugar dele eu não confiaria,
também. Eu queria amá-lo, mas ele não deixou.
Os olhos escuros de Moire se estreitaram.
─ Você ainda o ama.
Sara sorriu tristemente.
─ Com todo o meu coração. - Confessou. ─ Você não pode matar o amor. Eu tentei, acredite em mim.
─ Ele pode descobrir. - Argumentou Moire.
─ Não é provável. Ele e meu irmão são amigos, mas Gabriel não sabe. E quando souber posso fazê-lo jurar
segredo. Ele vai ficar com raiva, no entanto.
─ Não tenho dúvida quanto a isso.
Ela respirou fundo e bebeu mais um gole de café.
* Latte - É uma bebida de café expresso, ou chocolate concentrado, com uma quantidade generosa de espuma de leite no topo.

*Starbucks - É uma empresa multinacional com a maior cadeia de cafeterias do mundo( inclusive no Brasil); tem a sua sede em Seattle, EUA.
.
─ Então eu não preciso me preocupar em ser descoberta por enquanto, de qualquer maneira. Enquanto isso, eu
vou desfrutar da paz e tranquilidade daqui. Eu já tenho um obstetra. E também tenho uma acompanhante. - Ela
acrescentou com um sorriso.
─ Uma acompanhante?
Ela assentiu com a cabeça.
─ Seu nome é Amélia Grayson. É um amor. Cuida da casa e de mim. Ela foi maltratada pelas pessoas para quem
trabalhava, mas eu a estou mimando. Está se tornando indispensável. E, além disso, é ótima cozinheira. - Ela riu.
─ Realmente indispensável. - Concordou Morie.
─ Seu filho é muito bonito. Eu não posso decidir se é mais parecido com você ou com Mal.
─ É uma mistura de nós dois. - Morie disse com um sorriso sonhador. ─ Eu nunca imaginei que pudesse ser tão
feliz. - Ela balançou a cabeça. ─ Eu pensei que meu pai ia matar Mal antes que eu tivesse a chance de me casar
com ele.
─ Qualquer pessoa que a conhece sabe que você jamais poderia roubar alguma coisa.
─ Sim, bem, Gelly Bruner foi muito convincente. Ela nunca quis Mal, mas ele era rico e ela queria o dinheiro
dele. - Ela riu. ─ Se você pudesse ter visto o rosto dela e de Mal quando fomos apresentados na venda de gado!
Era como se ela tivesse engolido uma melancia inteira!
─ Imagino que Mal tinha a mesma aparência. - Sara disse secamente.
─ Sim, ele tinha. Eu não sabia que papai tinha convidado Mal para a venda. Não até que ele entrou com Gelly e
meu pai foi direto para o tio Danny que os estava cumprimentando. Então tio Danny chamou Darryl e eu. Você
se lembra de Darryl?
─ Eu lembro. Ele é um homem muito bonito.
─ É muito doce também, mas eu realmente não queria me casar com ele. Eu estava magoada com a rejeição de
Mal, sentindo pena de mim mesma, se não fosse por isso não teria aceitado o compromisso.
─ Ele vai encontrar alguém algum dia. - Disse Sara.
─ Alguém que o mereça, eu espero. - Retrucou Moire.
─ Como está o seu irmão?- Sara perguntou.
Moire revirou os olhos.
─ Quem sabe? Ele está tendo problemas com um galo.
Sara piscou.
─ Como é?
─ A vizinha dele tem um galo. O galo odeia Cort. Na verdade, ele vai até o rancho para atacar meu irmão. A
última coisa que eu soube, é que o galo correu atrás de vários cowboys, um deles caiu em uma substância
fedorenta inominável. E então ele perseguiu Cort até a varanda da casa. Cort tentou atirar nele, mas errou...
Sara riu alto.
─ Um galo?
─ Um galo. Ele reclamou com a dona dele, mas ela ama o animal estúpido, e não quer se livrar dele.
─ Quem é a dona?
─ Uma jovem que está tentando administrar o rancho, praticamente sozinha com uma pequena ajuda da tia. Acho
que ela gosta de Cort, mas aquele galo está fazendo com que eles se tornem inimigos. Além disso... - Moire disse
com tristeza. ─ Existe... Odalie Everett.
─ A filha de Heather. - Sarah disse, balançando a cabeça, lembrando-se da menina bonita com voz de anjo.
─ Ela quer cantar ópera. Cort quer se casar com ela, mas ela só vive e morre por uma carreira na música. Ele
reclama constantemente. Agora ela está na Itália tendo aulas.
─ Pobre Cort.
─ Uma vez ele se interessou por você. - Morie disse, brincando.
Ela riu.
─ Só por um dia, até que ele percebeu que eu não namorava.
─ Naquele momento, eu pensei que você nunca iria ter uma vida normal. - Moire disse suavemente. - E sorriu
maliciosa. ─ Eu não sei... você parece... diferente. Você não tinha essa aparência que eu me lembre.
─ É o bebê. - Disse Sara. ─ Eu nunca estive tão feliz. Ou tão miserável. - Ela olhou para sua xícara. ─ Se ele me
quisesse, eu não esperaria nada mais da vida.
Morie suspirou.
─ Homens. Você realmente não pode viver sem eles, mas eles podem ser uma grande dor de cabeça.
─ Eu percebi. ─ Ela olhou para o relógio. ─ Meu Deus, eu tenho que ir. Amélia estará fazendo panquecas para
o jantar.
─ Ela sabe como fazer panquecas?
─ Ela é uma cozinheira maravilhosa. - Disse Sara.
─ Vindo de você, isso é um grande elogio. - Morie respondeu, porque sabia que sua amiga era uma excelente
cozinheira.
─ Estou com fome. Eu nunca tenho muito apetite quando tenho que ir ao médico.
─ O que o médico disse?
Sara sorriu.
─ Que estou bem, o bebê está bem e eu tenho que ir a um cardiologista. - Acrescentou.
─ Um cardiologista?
─ Eu tenho um problema cardíaco. - Sara disse, sorrindo. ─ É apenas um pequeno defeito, não acarretará
nenhum problema para o parto, mas ele quer que seja monitorado. E disse para não me preocupar.
─ Graças a Deus!
Sara abraçou Moire.
─ Você é uma grande amiga. Eu sinto muito não tê-la visitado até agora, mas as coisas estavam um pouco
confusas. Eu vivi em San Antonio por um longo tempo. Eu preciso de algum tempo para me acostumar a viver
aqui novamente.
─ Você vai amar quando se adaptar novamente. A primavera aqui é incrível! - Disse Moire
─ Melhor do que no Texas? - Brincou Sara.
─ Diferente. - Respondeu à amiga, sorrindo. ─ Mas bonita.
Morie a acompanhou até o carro, observando os imponentes pinheiros balançados pela brisa.
─ Eles não são lindos? - Ela perguntou. ─ Não temos árvores como estas no Texas.
─ Não, nós não temos. Elas são magníficas.
─ Volte quando você puder ficar mais tempo. - Morie a persuadiu. ─ Eu vou deixar você brincar com o bebê.
─ Isso é um incentivo! - Sara riu. ─ Preciso treinar. Eu nem mesmo sei como trocar fraldas ou preparar
mamadeiras...
─ Você poderia pensar em amamentar. - Morie respondeu. ─ É melhor para o bebê. E muito melhor do que a
mamadeira.
─ Eu vou pesquisar sobre isso. - Disse Sara.
─ Você e a mania de internet. - Morie disse, balançando a cabeça. ─ Ainda joga on line todas as noites?
─ Quase todas as noites. - Concordou Sara. E sorriu. ─ Eu tenho um amigo. É da mesma facção que eu no jogo.
Temos sorte de contar um com o outro. Ele tem problemas emocionais, também. - Ela disse com um sorriso
triste. ─ Eu não sei quem ele é, mas sei que ele trabalha na polícia. Ele é muito gentil. Eu realmente não tenho
ninguém com quem falar.
─ Você tem sim. Bem aqui. - Morie disse, apontando para si mesma.
─ Obrigada.
─ De nada. Eu vou entrar em contato em uma ou duas semanas e podemos sair para almoçar.
─ Eu adoraria. - Ela abriu a porta e se sentou atrás do volante. ─ Obrigada por ser uma boa ouvinte.
─ Isso é o que os amigos fazem. Ligue se precisar de mim. Não importa qual seja a hora.
─ Eu ligo. Obrigada mais uma vez.
─ Dirija com cuidado. - Disse Morie.
Sara sorriu, ligou o motor e foi embora.
Grayson estava esperando na porta quando ela chegou à casa.
─ Finalmente. - Ela disse. ─ Eu estava preocupada.
─ Você poderia ter me ligado. - Disse Sara sorrindo.
─ Ligar para onde? - Grayson disse erguendo o telefone celular de Sara, que ela havia esquecido em casa.
─ Ah, bem, bem, eu não fui sequestrada por terroristas que estavam de tocaia no caminho de casa. - Ela disse
com um sorriso.
Grayson sorriu de volta.
─ É bom vê-la sorrir. - Disse ela.
Sara respirou fundo enquanto retirava a jaqueta e colocava a bolsa na cadeira.
─ Eu não me sentia bem para sorrir. - Confessou. ─ Mas estou melhorando. - Ela se virou. Grayson parecia
preocupada. ─ Realmente estou melhorando - Enfatizou Sara.
─ Tudo bem, as panquecas estão quase prontas. Eu fiz suspiros para a sobremesa, também.
─ Meu doce favorito!
Grayson riu.
─ Eu percebi isso.
Sara a seguiu até a cozinha. Ela ainda estava um pouco enjoada, mas não se atrevia a deixar Grayson notar.
Grayson não sabia que ela estava grávida. A outra mulher era profundamente religiosa, e poderia achar o estado
de Sara ofensivo. Quem sabe ela até quisesse se demitir. Era melhor deixar as explicações para depois. - Decidiu
Sara. Grayson era um tesouro.
Elas tinham acabado de jantar quando alguém bateu na porta da frente.
Grayson se colocou entre Sara e a porta. Ela olhou pelo olho mágico e se inclinou para trás como se tivesse
visto uma cobra.
─ Quem é? - Perguntou Sara.
Grayson abriu a porta sem dizer nada.
Um homem alto, de olhos azuis acinzentados entrou e sorriu para Sara.
─ Ty! - Exclamou Sara. - Ela o conhecia porque ele tinha ajudado o advogado de defesa a reunir provas para
inocentar o policial que matou o seu padrasto. Ela gostava dele. Ele e Gabe tinham se tornado amigos. Mais
tarde, Morie tinha contado a ela como Ty tinha perseguido o criminoso fugitivo que havia sequestrado Mallory.
─ O que você está fazendo aqui?
─ Eu estou em um caso. - Ele disse. ─ É incrível o quanto temos trabalhado no Wyoming ultimamente, e eu
trabalho fora de Houston.
─ Entre! Você já comeu? Amélia fez panquecas. Eu acho que sobraram duas...
Ty notou a mulher loura que estava ao lado de Sara quando a porta foi aberta totalmente. Seu sorriso
desapareceu. Ele deu a Amélia um olhar longo e silencioso.
─ Olá, Grayson. - Disse Ty.
Ela assentiu com a cabeça lentamente.
─ Harding.
Sara franziu a testa.
─ Vocês se conhecem?
─ Pouco. - Grayson disse tensa. ─ Muito pouco.
Ty levou mais tempo para se recuperar do encontro inesperado. Ele ergueu o queixo.
─ Já faz um longo tempo.
Sara ficou intrigada com o nível de tensão que pairava no ar.
─ Ele vive em Houston, e você é de San Antonio, certo Grayson? - Perguntou Sara.
─ Eu cresci em Comanche Wells. - Grayson disse em um tom aborrecido. ─ Ele passava os verões lá com seus
avós.
─ Nós estávamos no colegial na época. - Concordou Ty. Ele estudou Grayson silenciosamente. ─ Foi um longo
tempo atrás.
Grayson assentiu. Ela não o encarou.
─ Você tem visto Currier? - Ele perguntou.
Ela tornou-se muito rígida.
─ Não. Ele está na África.
Ty fez uma careta.
─ Ele não esqueceu, certo? Não foi culpa sua.
─ A culpa foi minha - Ela se afastou.
─ Venha tomar um café, pelo menos - Convidou Sara, fascinada com o que estava aprendendo sobre sua nova
parceira sem ter que fazer uma pergunta.
Ty hesitou. Amélia parecia angustiada.
─ É melhor eu ir. Eu só queria dizer olá e ver como Gabriel estava. Eu não tenho notícias dele.
─ Ele está bem. - Disse Sara. ─ Pelo que eu sei. Eles estão envolvidos em um projeto secreto, provavelmente em
um país próximo da Arábia Saudita.
─ Quando você falar com ele, diga-lhe para me ligar, ok? - Disse Ty. ─ Eu tenho uma oferta. Eu acho que ele
pode se interessar.
─ Você ainda está trabalhando para a agência de detetive particular de Dane Lassiter. - Perguntou Sara.
─ Sim, mas eu estou querendo uma mudança. - Disse ele.
Sara sorriu.
─ E isso é tudo que você vai me contar, certo?
Ele riu.
─ É isso aí.
─ Bem, foi bom vê-lo novamente.
Ele sorriu.
─ Eu estou contente em vê-la também, Sara.
─ Eu vou dizer a Gabe que você quer falar com ele. - Ela prometeu.
─ Obrigado. - Ele olhou para Amélia que estava de costas.
─ Até Grayson.
Ela não respondeu. Apenas assentiu com um gesto de cabeça.
Sara fechou a porta e se aproximou dela.
─ Você o conhece. - Disse ela.
Amélia assentiu com a cabeça, os olhos baixos.
─ Fomos amigos uma vez. - Ela disse.
─ Apenas amigos?
Amélia se fechou como uma planta sensível. Seu sorriso pareceu forçado.
─ Apenas arqueólogos podem desenterrar o passado. - Ela disse. ─ Que tal um suspiro?
Sara se rendeu.
─ Bem. Eu adoraria um.
Amélia entrou na cozinha. E Sara foi atrás dela, mas estava lutando para respirar. Amelia virou franzindo a
testa.
─ Você está chiando como uma máquina a vapor.
Sara riu.
─ Acho que estou. - Ela hesitou, lembrando-se. ─ Eu fui visitar Morie Kirk no caminho de volta para casa. Nós
éramos amigas quando ela vivia no Texas. Nós tomamos lattes. - Acrescentou. ─ Eu não costumo beber qualquer
coisa com cafeína. Eu acho que é devido a isso.
─ Nada mais de cafeína pra você então. - Amélia disse.
Sara riu.
─ Está bem. Nada mais de café. Eu tenho um pequeno problema cardíaco. - Confessou. ─ Eu não deveria beber
qualquer coisa com cafeína. Mas o café estava tão bom! - Ela acrescentou com um suspiro.
─ Eu gosto de lattes, também. - Amélia confessou, rindo. ─ Mas você provavelmente deve deixar de tomar.
─ Eu concordo.
Naquela noite, antes de dormir, Sara recordou o encontro que teve com Wolf no concerto, sua indiferença em
relação a ela, o grande interesse dele em sua companheira loira. Era como se uma faca a atravessasse. Eles
tinham ficado tão íntimos, por um curto período de tempo no rancho, após o trauma ter aberto as comportas do
passado para cada um deles.
Sara o amava. Chegou a pensar que eles poderiam ter um futuro de verdade juntos.
Então ela o tinha visto com a sua acompanhante. Ela tinha planejado contar a ele sobre o bebê naquela noite.
Havia planejado algo mais do que isso. Mas o destino interferiu nisso. O que começou com uma alegre
expectativa acabou em angústia.
Agora aqui estava ela, grávida de um filho que ele nunca saberia. Ele andava com outras mulheres e,
aparentemente, não lamentava o que fez com Sara. Doeu mais do que qualquer coisa em sua vida, ainda mais do
que seu passado trágico.
O pior de tudo era que ela ainda o amava. Como ela poderia amar um rato sem coração como ele, era um
mistério. Ela deveria odiá-lo. Havia tentado odiá-lo. Mas ele a perseguia, até mesmo em suas memórias.
Ela desviou o pensamento para o estranho comportamento de Grayson durante a visita de Ty Harding. Havia
algo estranho ali. Sabia que algo tinha acontecido. Ele se perguntou o que seria. Talvez um dia, se conseguisse
organizar a sua vida, poderia fazer algo para ajudar a pobre Grayson. Ela tinha a sensação de que Amélia
convivia com a sua própria tragédia.
Ela apagou a luz e tentou dormir. Mas era quase de madrugada, antes de finalmente conseguir adormecer.

***

Sara estava preparando uma salada quando o telefone tocou. Atendeu-o, tendo a certeza de que seria ou a
enfermeira para marcar uma consulta com o cardiologista ou Michelle com notícias sobre o seu novo trabalho.
Não era nenhum deles.
─ Sara. - Eb Scott disse, solenemente. ─ É você?
Ela se sentou tremendo. E lembrou o pesadelo que teve, quase como se sua mente estivesse conectada com
Wofford Patterson de um modo estranho.
─ É Wolf. Algo aconteceu com Wolf!
Eb podia ouvir o terror em sua voz.
─ Acalme-se, está bem? Ele levou um tiro. Nós o transportamos em um avião para um hospital em Houston. É
muito grave, mas ele está chamando por você...
─ Eu vou pegar o próximo avião para lá!
─ Alugue uma limusine até o aeroporto. - Eb disse em tom de comando. ─ Eu vou ter um avião esperando por
você, para levá-la diretamente para Houston. Alguém vai encontrá-la no terminal em Sheridan. Vá com ele.
─ Sim. Sim. - Ela estava soluçando. ─ Ele tem que viver. Ele deve viver!
─ Os médicos estão fazendo tudo que podem. É só que...
─ O quê?
─ Entre em contato com a companhia de aluguel de limusine. Então me ligue de volta. Eu vou te contar tudo.
Ela ligou para o serviço de aluguel, disse que era uma emergência e pediu um carro o mais rápido possível e
foi informada que um já estava a caminho.
Ela telefonou para Eb depois de pedir a Grayson para fazer as malas.
─ Vou explicar tudo em um minuto. - Ela disse a Grayson.
─ Scott. - Foi a resposta quando ela discou o número de Eb.
─ Sou eu! Conte-me tudo!
─ Ele sabe que você foi a uma clínica. - Disse ele. ─ Ele ficou louco. Olha, ele não se atreveu a falar com você
naquela noite no concerto, porque Ysera tinha um homem no teatro vigiando. Wolf estava com medo, porque se
ela descobrisse o que ele sentia por você, ela a teria matado. Ysera tinha o dinheiro, os meios, e as pessoas nos
lugares certos para fazê-lo. Então, ele namorou um monte de mulheres por algumas semanas para despistá-la.
─ Meu Deus! - Ela estremeceu. As lágrimas corriam pelo seu rosto.
─ Então, nada mais importava depois disso. - Ele disse, odiando-se por dizer isso. ─ Ele mesmo foi atrás de
Ysera.
─ Oh, não. - Ela gemeu. E cerrou os dentes. ─ Ela atirou nele!
─ Não. Ela mandou um de seus capangas, atirar. Mas, cometeu um erro fatal. Wolf tinha uma 45 apontada para
ela. Quando o capanga dela atirou, Wolf também o fez. Eu não sei por que ele fez isso, acho que não foi
intencional. Ele realmente queria que ela ficasse presa para sempre. Acredito que foi um reflexo, quando a bala o
atingiu.
Ela estava chorando agora.
─ Ele tem de viver. - Ela sussurrou. ─ Oh, eu não posso... Eu não posso... Eu não vou ser capaz! Eu não posso
viver sem ele!
─ Sara. - Disse ele com urgência. ─ Sara, ele ainda está vivo. Você tem que vir aqui e dizer isso a ele. Isso
poderia ser suficiente...
Ela ouviu o som de um carro se aproximando. Olhou para fora da janela em meio a lágrimas.
─ A limusine está aqui.
─ O avião está aterrissando no aeroporto agora. É um grande DC-3. Era um avião militar, e não tem conforto,
mas chegará aqui com segurança. Certo?
─ Está bem. Eb... obrigada!
─ Obrigado a você. Ele é meu amigo também.
─ Você já falou com Gabriel?
─ Eu não posso. - Ele disse em tom triste. ─ Algumas coisas estão acontecendo e eu não posso contar. Eu não
posso entrar em contato com ele e nem você pode. Desculpe. Eu teria contado se pudesse. Wolf é seu melhor
amigo.
─ Estou a caminho. Vejo você em Houston.
Ela desligou. Grayson tinha as malas prontas para algumas noites. Sara deu-lhe um beijo na bochecha.
─ Obrigada. Desculpe. Eu tenho que ir. - Seus olhos estavam vermelhos. ─ Ele pode morrer. - Ela disse com os
lábios trêmulos.
─ Ele vai ficar bem. - Grayson disse suavemente. ─ Você será. Acredite em mim. Um homem durão não vai
morrer sem lutar.
Sara não questionou a observação estranha. Ela estava muito preocupada. Apenas sorriu e correu em direção
ao carro, Grayson estava a dois passos atrás dela com duas malas com rodinhas.
─ Eu só preciso de uma. - Sara disse, olhando para elas.
─ Eu telefonei para Marsden e pedi para cuidar de tudo na casa. Eu vou com você - Disse com firmeza. ─ De
jeito nenhum eu vou deixar você ir sozinha.
Sara começou a chorar novamente.
─ Vamos. - Grayson disse suavemente. ─ Entre. Temos que ir.
Sara assentiu através das lágrimas e sentou no banco de trás do carro.

***
O hospital era novo e moderno. Tinha amplos corredores e iluminação moderna, com plantas em todos os
lugares. Sara teria ficado impressionada se não estivesse tão assustada. Eb Scott estava esperando. Ela correu
para os braços dele e o deixou confortá-la enquanto soluçava.
─ Ele está resistindo. - Disse EB. ─ O capelão do hospital tem sido de grande ajuda.
Ela se inclinou para trás, enxugando as lágrimas com um lenço bordado.
─ Será que ele tem família? - Ela perguntou. ─ Eu sei que ele cresceu em lares adotivos, mas talvez tenha
primos?
Ele balançou a cabeça e sorriu.
─ Só você e eu. Supostamente.
Sara colocou a mão protetoramente sobre a sua barriga e reteve a respiração, espantada.
O rosto de Eb refletia seu estado de choque encantado, ela o fitou nos olhos antes de falar. E corou.
─ Como você sabe? Não pode... - Ela hesitou.
─ Tenho dois filhos. - Ele disse com os olhos verdes brilhando e sorriu. ─ Lembro-me muito bem dos sintomas. -
Ele franziu os lábios. ─ Então, você entrou pela porta da frente e saiu pela porta dos fundos da clínica sem parar?
Ela riu timidamente.
─ Algo assim.
─ Quando ele estiver melhor. - Ele disse. ─ Eu não gostaria de estar na pele dos meus pobres homens, ele vai
culpá-los por não terem registrado o tempo que você ficou realmente na clínica.
─ Ele não deveria saber. - Disse ela tristemente. ─ Eu estava tentando protegê-lo.
─ E ele estava tentando protegê-la.
Ela assentiu com a cabeça. Com lágrimas quentes e salgadas escorrendo pelo rosto.
─ Quando?
─ Quando é que vamos saber alguma coisa? Em breve, espero. - Ele disse.
Sentaram-se na sala de espera. Havia uma família nas proximidades. Uma mulher idosa estava chorando. Ao
lado dela, um adolescente angustiado estava tentando não chorar. Ela olhou para eles e sorriu cordialmente.
Alguém lhe deu uma cadeira. Então, todos esperaram.
Muitos minutos se passaram. Um médico veio e falou com a família ao seu lado. A mulher fez uma expressão
de alegria e alívio e Sara ficou feliz por ela. Ela sorriu. O adolescente estava sorrindo de orelha a orelha. Eles
deram um sorriso para Sara e um olhar de grande simpatia enquanto seguiam o médico pelo corredor.
─Pelo menos alguém teve uma boa notícia. - Disse Sara. ─ Oh, eu gostaria que nós também tivéssemos!
─ Você veio sozinha? - Eb perguntou, preocupado.
Ele estava pensando o que poderia acontecer se Wolf não sobrevivesse. Ela sabia disso, mas não disse nada.
─ Grayson veio comigo. Ela é minha assistente pessoal. - Ela conseguiu abrir um sorriso. ─ Ela não me deixou
vir sozinha. Ela está fazendo as reservas no hotel e alugando um carro.
─ Grayson? - Ele perguntou pausadamente, e tinha um olhar estranho. ─ Amélia Grayson?
Ela ergueu as sobrancelhas.
─ Você a conhece?
Ele sorriu.
─ Não se preocupe.
Ela ia começar a perguntar o que ele quis dizer quando um homem em um uniforme verde saiu do Centro
Cirúrgico, retirando a máscara. Ele se aproximou de Eb.
Sara deslizou a mão na mão de Eb, apavorada, pedindo, implorando, quando o homem parou bem na frente
deles.
─ A bala causou um grande estrago. - Disse ele a EB. ─ Ela perfurou um pulmão, quebrou parte de uma costela,
ricocheteou, destruiu um pedaço do fígado e se alojou no intestino. Mas eu sou um grande cirurgião. - Ele disse
com os olhos brilhando. ─ Eu retirei o tecido danificado do pulmão, retirei as lascas da costela, costurei o fígado
e removi a bala do intestino, o que eu não teria feito se isso fosse causar-lhe mais trauma. - Acrescentou. E fez
uma careta. ─ Ele já tem chumbo suficiente no corpo. - Seus olhos escuros se estreitaram. ─ Vocês dificultam o
meu trabalho.
Sara exultava com alívio. Lágrimas escorriam de seus olhos negros apavorados, manchando seu rosto
enquanto ela permanecia imóvel, ouvindo, esperando.
Eb deu de ombros.
─ Pense nisso como treinamento. Olhe quanto treinamento nós oferecemos.
Ele riu.
─ Se você quiser levá-lo para casa, Micah Steele pode assumir. Ele provavelmente já tratou mais desses casos do
que eu. Sem mencionar o seu homem, Carson, que está de volta à residência médica em Jacobsville.
─ É verdade. - Eb apertou a mão do médico. ─ Obrigado.
─ Para que servem os amigos? - Ele olhou para Sara. ─ Você é amiga de meu paciente?
─ Pode-se dizer que sim. - Disse Eb. ─ Ela está grávida de um filho dele. Ela...
Toda a emoção e todo o medo foram demais para Sara. Ela deslizou para o chão antes que qualquer um dos
homens pudesse segurá-la.

***

Sara recuperou a consciência em uma cama de hospital. Ela tentou se sentar, mas uma enfermeira que,
obviamente, tinha ligações com a máfia a empurrou gentilmente para a cama.
─ Oh, não, não. - Ela disse. ─ Nunca deixei um paciente escapar!
─ Mas ele saiu da cirurgia. - Ela implorou. ─ Você tem que me deixar ir lá vê-lo. Eu tenho que vê-lo...! Você não
entende. Ele não quer viver!
─ Sim, ele quer. - A enfermeira falou com os lábios franzidos. ─ Eb Scott disse a ele que você estava aqui. Ele
está acordado e consciente, e amaldiçoando, porque não o deixam vir vê-la.
O rosto de Sara corou de prazer. Ela voltou a se deitar.
─ Ele sabe que eu estou aqui?
─ Sim.
Ela respirou fundo, a alegria que tinha sido apagada pela dor e pelo medo até agora, voltou a brilhar em seus
olhos.
─ Quando?
─ Quando você pode vê-lo? Assim que a sua pressão arterial voltar ao normal.
─ Mas eu não tenho pressão alta.
─ Tem querida. - Disse a enfermeira suavemente. ─ A sua médica de San Antonio receitou alguns medicamentos
para hipertensão. Você não sabe o que está tomando?
─ Ela me disse algo sobre hipertensão. Eu pensei que fosse por estar muito tensa... - Sara corou. ─ Eu costumava
ser inteligente. Eu acho que a gravidez faz com que as pessoas fiquem suscetíveis a períodos de estupidez. -
Acrescentou, corando. ─ Alguém disse a ele sobre o bebê...?
─ Ainda não. Todos nós pensamos que isso é um trabalho seu. - Ela acrescentou suavemente.
Sara suspirou.
─ Ele vai ficar com raiva, por eu não tê-lo avisado.
─ Aquele homem não vai ficar com raiva de nada. - Disse a enfermeira. ─ A não ser que você fique longe dele. -
Ela fez uma pausa. ─ Ouça.
Ela ouviu uma voz, forte, alta e profunda, usando palavras que poderiam levá-lo preso se ele não parasse de
falar.
─ Por favor. - Pediu Sara, porque sabia de quem era aquela voz.
─ Ok. Deixe-me pegar uma cadeira de rodas.
Ela foi levada em uma cadeira de rodas para a sala de recuperação. Ele estava acordado e exigindo falar com
Sarah. Quando ele a viu, todo o seu rosto mudou.
Sara se levantou da cadeira de rodas e se aproximou dele. Ele estava ligado a uma meia dúzia de máquinas.
Um tubo lhe fornecia oxigênio. Ele cheirava a antisséptico e sangue, e mais alguma coisa que ela não conseguia
identificar, talvez... pólvora. Havia sangue por toda parte, até mesmo no rosto.
Mas ele parecia muito bonito para Sara, que tinha ficado aterrorizada desde o telefonema de Eb Scott. Ela
estendeu a mão e acariciou o cabelo preto para trás. Inclinou-se com lágrimas nos olhos e beijou-lhe a testa, o
nariz, a boca seca.
─ Sara. - Gritou ele.
─ Tudo bem. - Ela sussurrou. ─ Estou aqui. Estou aqui. Eu não vou a lugar nenhum.
─ Eu... Eu a matei. - Ele sussurrou novamente. ─ Não foi?
Sara olhou para Eb Scott, que estava nas proximidades. Ele assentiu com a cabeça.
─ Sim. - Ela disse. E fez uma careta. ─ Sinto muito!
─ Eu soube pelo jeito que me olhava que ela tinha algo planejado, mas eu fui muito lento. - Seus olhos fecharam.
─ Eu tinha uma 45 debaixo da mesa, porque não confiava nela. Eu pretendia prendê-la. Quando recebi o tiro, agi
apenas por reflexo. A arma disparou. Nunca tive a intenção de matá-la.
─ As autoridades sabem disso. - Eb disse, dando um passo para mais perto. ─ Nenhuma acusação será feita. A
Organização inteira está sendo investigada. Muitas prisões foram feitas. Alguns deles ficaram surpresos, porque
estavam aqui na América. - Ele balançou a cabeça. ─ A influência dela era internacional. - Seu rosto endureceu.
─ Pegamos também o homem que estava no teatro, na noite em que você e Sara foram ao concerto.
Os olhos de Wolf tinha um brilho assassino.
─ Não o deixe escapar. Quando eu puder me levantar de novo, eu vou matá-lo.
─ Eu o enviei para a África, para ser julgado. - Informou EB. ─ Você não vai querer ir para a prisão, mesmo por
uma causa nobre.
Wolf estava furioso, era evidente. Sara se aproximou, e todo o ódio abandonou o rosto dele,
surpreendentemente. Os olhos claros procuraram os dela.
─ Você andou chorando, querida. - Ele disse suavemente. ─ Estou bem. Eu estou muito melhor do que pareço.
─ Não, não está. - Ela sufocou um gritinho. Seu lábio inferior tremeu. ─ Eu pensei que você não me quisesse...
As mãos grandes emolduraram o rosto molhado de lágrimas e o puxaram de encontro ao seu peito e ele fez
uma careta.
─ Bobinha!
Ela descansou o rosto contra o peito dele e deixou as lágrimas rolarem. Ela mal podia contê-las. Ela levantou
a cabeça.
─ Sinto muito. - Ela sussurrou. ─ Eu não queria fazer isso.
O polegar dele acariciou o lábio inferior dela. Ela parecia tão angustiada.
─ Eb me disse que você desmaiou. - Ele disse severamente. ─ Sinto muito por tê-la assustado.
Foi a gravidez não o medo o que causou o desmaio. Mas ela não iria dizer a ele, ainda não. Sabia que ele
sentia algo por ela. Mas não queria que uma criança o levasse a um relacionamento que ele não desejasse. Ficaria
calada para ver o que ele realmente queria quando não estivesse mais traumatizado então, tomaria a decisão de
contar a ele ou não sobre o bebê.
─ Só precisava ver se você estava bem. - Disse ela.
Ele sorriu.
─ Eu não estava. Agora eu estou. - Ele acrescentou, olhando nos olhos úmidos dela. ─ Não chore mais. Dói.
Ela enxugou os olhos.
─ Ok.
Os olhos de Wolf se fixaram no lenço cheio de babados de renda, e sorriu.
─ Nunca vi você usar babados.
Ela encolheu os ombros.
─ Minha única mania. Lenços com babados de renda.
Ele riu, recostou-se, estremeceu e fechou os olhos. Ele deixou escapar um longo suspiro.
─ Acho que eles me sedaram. - Ele reclamou. ─ Eu estava agitado, porque fiquei com medo de você morrer
quando soube que tinha desmaiado. - Ele abriu os olhos. ─ Tem certeza de que não é nada?
─ Tenho certeza. - Ela mentiu convincentemente.
─ Bem. Eu vou dormir por um tempo... - Disse. O trauma e o medicamento fizeram efeito e Wolf apagou.
Sara estava exausta, completamente esgotada de tantas emoções, quando saiu para o corredor com Eb.
Grayson estava ali, esperando.
Eb levou Sarah até ela.
─ Eu pedi a eles que entrassem em contato com o seu médico. - EB disse a ela. ─ Só para ter certeza de que você
estava recebendo o tratamento certo. O desmaio me preocupou.
─ Obrigada, Eb. - Ela disse suavemente. ─ Estou tão cansada...
─ Leve-a para um hotel, Grayson e a coloque na cama. - Eb disse calmamente. ─ Ela tem vivido um inferno.
─ Ele também imagino. - Grayson disse suavemente. E sorriu para EB. ─ Bom te ver.
─ É bom ver você, também, Grayson. Ela está em boas mãos. - Ele acrescentou, e uma mensagem silenciosa
passou entre eles.
─ Eu acho que poderia dormir agora. - Sara virou-se para EB. ─ Você acha que ele vai, realmente, ficar bem?
Chame-me se...
─ Eu ligo para você. Eu prometo.
─ Tudo bem. - Ela seguiu Grayson pelo longo corredor.

***

Pela primeira vez em anos ela dormiu como um bebê. Grayson a acordou tarde com a notícia de que Wolf
tinha saído do CTI, onde passou a noite, e foi transferido para um quarto. Sara não sabia disso, ou ela teria
enlouquecido.
─ Ninguém me disse. - Ela murmurou.
─ Ninguém se atreveu. - Grayson disse com um sorriso. ─ Você já estava sofrendo o suficiente. Mas ele se
recuperou tão rapidamente que até mesmo o cirurgião ficou surpreso. Eles acreditam que ele pode ser transferido
em uns dois dias, se continuar a melhorar assim.
─ Eu vou com ele. - Disse Sara. ─ Desculpe. Você pode voltar para o rancho no Wyoming, e ficar lá...
─ Vou com você. - Grayson disse rapidamente. ─ Eu não vou deixá-la sozinha.
Sara mordeu o lábio.
─ Grayson, você é a melhor pessoa que eu conheço.
─ Não. Você é a melhor pessoa que eu conheço. - Ela colocou um prato com ovos e bacon e uma cesta de
croissants sobre a mesa. Havia encomendado o café da manhã no serviço de quarto antes de Sara acordar. ─
Agora coma.
─ Croissant! - Sara exclamou, alegre.
─ Você mencionou que adora croissants. - Foi a resposta divertida. ─ Estava no cardápio do serviço de quarto.
─ Com recheio de geleia de morango. Ela pegou um croissant, colocou creme no seu café e realmente desfrutou
o desjejum.

***

Assim que terminou o café da manhã, elas pegaram um táxi para o hospital. Sara tinha telefonado para Eb,
que as estava esperando no saguão. Ele sorriu.
─ Ele não está feliz. Quer ir para casa. Mas eu acho que é melhor você ir rápido vê-lo, mesmo que por alguns
minutos, para que ele se acalme, antes que as enfermeiras o amordacem e o amarrem à cama.
Ela riu.
─ A situação está tão ruim?
─ Péssima, na verdade.
Ele a levou até uma porta fechada e a abriu. Wolf estava sentado na cama, usando uma roupa de hospital que
mal cobria a extensão do seu peito. Ele olhou para cima quando viu Sara, e a carranca se transformou em um
sorriso radiante.
─ Oi. - Ele disse suavemente.
─ Olá. - Ela respondeu sorrindo.
─ Eu tenho algumas coisas para fazer. Voltarei logo. - Eb disse em voz baixa, e foi se juntar a Grayson no
corredor.

***

─ Como ela está? - Eb perguntou à Grayson, e ele não estava sorrindo.


─ Preocupada. - Disse ela. ─ Eu a estou vigiando como um falcão. Eu não acho que há qualquer perigo, mas
nunca se sabe. Ysera pagou alguém para se vingar de Wolf. Eu não tenho certeza sobre quem ele deve matar,
quando ou onde, se você entende o que quero dizer.
Ele balançou a cabeça.
─ Vamos levá-lo para o rancho assim que ele puder se mover, e vou enviar os melhores homens que eu tenho. -
Eb observou o rosto preocupado de Grayson. - Não quem você está pensando. - Acrescentou suavemente. ─ Ele
está na África.
Ela relaxou.
─ Ok. Desculpe.
─ Tudo bem. - Ele disse.
A fisionomia de Grayson estava fechada.
─ Sara tem pressão alta. - Ela disse. ─ A médica a estava medicando e ela não se deu conta. - Acrescentou. ─ Ela
não sabe que isso poderia afetar sua gravidez. O obstetra não quis assustá-la, mas a encaminhou para um
cardiologista. Ela não vai conseguir ir à consulta. É daqui a dois dias. - Ela riu suavemente. ─ Ela não sabe que
eu sei que ela está grávida. Eu não tenho permissão para saber.
─ Bem. Vou pedir a Micah para indicar um médico em Jacobsville. Diga que o cardiologista telefonou e que
você lhe deu o número dela e contou a ele o que estava acontecendo. Diga que ele pediu para ela falar com
Micah. Ok?
─ Eu posso fazer isso. - Ela concordou.
Os olhos de Eb se estreitaram.
─ Você ainda tem aquela 45?
─ Pode acreditar nisso. - Ela respondeu. Ela se inclinou para trás abriu a jaqueta, o suficiente para deixá-lo ver a
coronha da arma que descansava embaixo do seu braço. ─ Ninguém vai pegá-la, ou a ele, a menos que passem
por cima de mim.
Ele sorriu.
─ Eu acredito nisso. Você é boa, Grayson. Fazer Sara contratá-la como acompanhante sem saber quem você é,
foi genial.
─ Eu tive um bom professor. - Ela disse, sorrindo.
─ O que disse a ela, para que eu não comprometa a história.
Ela deu toda a lengalenga sobre seus ex-empregadores, o trabalho que ela tinha que fazer. E riu.
─ Ela é tão boa que eu me senti mau-caráter por ter mentido.
─ Foi por uma boa causa. Nós não podíamos correr o risco que Ysera soubesse alguma coisa sobre ela. E há
ainda a ameaça pairando sobre Wolf.
─ Não comigo por perto. - Amélia disse com um sorriso. ─ Eu sou uma boa atiradora.
─ Sim, você é, e eu sei muito bem disso. Fui eu quem a treinou. - Disse ele, sorrindo.

***

Wolf olhou para a comida que tinham trazido.


─ Eu não gosto de comida de hospital. - Ele murmurou.
Ela se aproximou, destampou a bandeja, pegou um garfo e começou a alimentá-lo.
─ Pare com isso. - Ela disse baixinho, sorrindo.
Ele a observou enquanto comia. Seus olhos suaves e ternos. Quase amorosos, ela pensou. Então, se lembrou
da noite no teatro, a bela mulher loira. Eb lhe disse que era para enganar Ysera. Será?
A grande mão agarrou o pulso dela. Ele fez uma careta, porque era doloroso erguer o braço. A bala tinha
atingido os músculos do peito.
─ Eu não podia contar para você. - Disse ele, com o rosto contorcido de culpa. ─ Ysera tinha um homem no
teatro naquela noite...
─ Eb me contou. - Disse ela.
─ É a verdade. - Disse ele. ─ Você tem que acreditar em mim, se não acredita em mais nada. Eu não queria que
você se tornasse um alvo. Eu não podia deixá-la machucar você!
Ela sentiu a emoção dele. E ele nem estava tentando escondê-la. Aquela expressão acalmou seus temores.
─ Ela era muito bonita. - Sara disse devagar.
─ Ela não era você. - Ele sussurrou com voz rouca. A maneira como ele disse isso fez os dedos dos pés dela se
dobraram nos sapatos. ─ E não existe em qualquer lugar do mundo uma mulher tão bonita quanto você. Nem
uma mulher que eu queira mais. - Ela corou com prazer. ─ Quando eu sair daqui. - Ele disse com a voz rouca. ─
E eu voltar a andar, adoraria lhe mostrar.
Todo o seu corpo tremia. Ela baixou os olhos para a boca máscula.
─ Você adoraria? - Ela sussurrou.
─ Enquanto isso, você poderia realizar aquela pequena cirurgia. - Disse ele com um sorriso.
─ Wolf!
─ Cuidado, você está derramando o café.
─ Sinto muito. - Ela levou a xícara aos lábios dele e o observou beber. Suas mãos tremiam.
─ E não vai ser como da última vez, Sara. - Disse com voz rouca. ─ Eu juro!
Ela retirou a xícara.
─ Eu sei.
Ele estendeu a mão e tocou o rosto dela, fazendo uma careta com o movimento.
─ E se você me deixar... - Ele sussurrou suavemente. ─ Farei o meu melhor para que você fique grávida.

Capítulo Doze
O café caiu em todos os lugares. Ela corou, deixando a xícara cair na bandeja, ela pegou um guardanapo para
limpá-lo.
─ Me desculpe. - Ela disse tensa.
Ele gemeu interiormente. Não deveria ter dito isso, lembrar a criança que eles tinham perdido.
─ Não se preocupe. Eu posso usar algo. - Ele disse calmamente. ─ É muito cedo para falar sobre isso, de
qualquer maneira. Ainda vai levar muito tempo para me recuperar. Você vai voltar para o rancho comigo quando
eu sair do hospital?
Ela olhou para o rosto dele. Por alguns segundos pareceu que ele queria aquele filho. Mas agora era o mesmo
de antes. Nada mostrava na expressão suave. Nada mesmo. Ela não podia saber o que ele pensava.
─ Se você quiser que eu vá. - Ela disse calmamente.
Ele se inclinou para trás contra os travesseiros. E fez uma careta, mas isso não foi por qualquer desconforto
físico.
─ Eu a machuquei muito, Sara. - Disse ele, sua voz profunda e terna. ─ De muitas maneiras. Eu sei que isso vai
levar tempo. Mas não há outra mulher na minha vida. Somente você.
Ela se moveu para um pouco mais perto.
─ E não existe outro homem na minha. - Ela confessou... ─ Eu nunca poderia fazer essas coisas com mais
ninguém.
O peito dele se encheu de orgulho. Ela, pelo menos, ainda o desejava.
─ Você pode fazer tudo comigo. - Disse ele com voz rouca. ─ Mas será diferente na próxima vez. Muito, muito
diferente.
Os olhos de Sara expressavam preocupação. O pensamento de ter um futuro com ele, tendo intimidades
ocasionalmente, sem laços, sem compromisso. Era deprimente.
─ O que você está pensando. - Ele perguntou.
─ Eu estava pensando... - De repente, ela parou. E esboçou um sorriso. ─ Eu estava pensando se Grayson está
perdendo a paciência. Eu a deixei no corredor.
─ Grayson? - Ele perguntou, franzindo a testa. ─ Amélia Grayson?
Ela arqueou as sobrancelhas. Eb Scott entrou no quarto antes de Sarah perguntar a Wolf se ele conhecia
Grayson.
─ Amélia Grayson está trabalhando para você? - Wolf insistiu.
─ Eu disse a você que... - Eb disse, enquanto gesticulava atrás de Sara até que finalmente Wolf entendeu. ─ Não
é a Grayson que você está pensando. Aquela está em uma prisão federal, lembra? - Ele se virou para Sara,
falando entredentes. ─ Ela era um traficante de armas. Wolf e eu a prendemos em Barbados. Durante uma
investigação de lavagem de dinheiro. Ela nos deu muito trabalho até ser capturada. Mas aquela era Antonia
Grayson, Wolf. Não Amélia.
─ Oh. Claro. - Ele respirou fundo. ─ Minha mente está um pouco confusa por causa da anestesia e da medicação
para a dor, eu acho. - Ele disse com um sorriso tímido. ─ Como é a sua assistente?
─ Ela é muito doce. - Disse Sara. ─ E se preocupa muito comigo. Eu honestamente não sei o que eu faria sem ela
agora. - Ela sorriu suavemente. ─ Estou sendo muito bem tratada.
─ Esse será o meu trabalho, quando eu sair daqui. - Disse Wolf, e seus olhos claros quase a devoravam.
─ Estou tão feliz que você está vivo. - Ela sussurrou. - Então seu rosto ficou sério, e seus olhos escuros
brilharam. ─ Por quê? - Perguntou. ─ Por que fez algo tão incrivelmente perigoso? Existem todos os tipos de
órgãos públicos que lidam com pessoas como ela, mas você foi sozinho atrás dela. Você poderia ter morrido!
─ Oh, Deus! Lá vem a dona da vassoura e dos macacos voadores novamente. - Ele gemeu, inclinando-se contra o
travesseiro. ─ Salve-me! - Ele implorou para Eb.
Eb não podia ajudá-lo. Estava sufocando de tanto rir.
Sara dividida entre a diversão e a fúria, apenas olhava. Suas emoções estavam à flor da pele. Eb sabia por quê.
Wolf não.
─ Vou pegar uma vassoura e vou quebrá-la na sua cabeça. - Prometeu Sara. ─ E se alguma vez você quiser pegar
uma arma de novo para ir atrás de criminosos, vou fazer todos os cowboys da fazenda o amarrarem a uma cerca,
e eu, pessoalmente, vou garantir que eles nunca o soltem!
Ele deu-lhe um olhar irônico.
─ Os homens têm de usar periodicamente o banheiro. - Ele disse provocativamente.
Ela corou.
─ Nós compraremos um penico ou algo assim.
Ele riu.
Ela sorriu timidamente.
─ Bem, você não vai voltar a fazer isso. Nunca mais.
Ele sorriu lentamente.
─ Tudo bem.
O coração dela disparou. Ele não parecia se importar que ela lhe desse ordens. Isso era bastante intrigante.
─ Você pode se divertir me dando ordens, enquanto eu estiver nessa cama. - Disse ele franzindo os lábios. ─
Então, depois nós vamos ver quem vai fazer o quê.
Ela ergueu o queixo.
─ Eu posso soltar os macacos voadores sempre que quiser. - Alertou.
Wolf riu com todo o seu coração. Sua vida tinha acabado quando ele deixou os Estados Unidos. Não tinha
nada para o que voltar, nenhuma razão para viver. Agora, lá estava ela, a alegria de sua vida, a joia mais cara da
sua riqueza. E ele não queria nada mais da vida.
─ Eu tenho que ligar e dizer a Sally que você está se recuperando. - Disse EB. ─ Ela gosta de você.
─ Eu gosto dela também. - Disse Wolf. ─ Como estão as crianças?
─ Crescendo rápido demais. - Disse Eb. Ele queria dizer mais, mas não se atreveu. Não podia arriscar deixar
nada escapar para Sara. ─ Eu volto já.
─ Eu não sei o que teria feito sem ele. - Sara disse, aproximando-se da cama. ─ Ele conseguiu um avião para me
trazer até aqui. Eu estava em péssimo estado, nunca poderia ter feito isso sozinha.
Ele pegou uma das mãos dela e levou a palma até sua boca, beijando-a avidamente.
─ Eu não sei se queria viver. - Ele disse com a voz rouca. ─ Até que eles me disseram que você estava aqui. Eu
pensei que, se ela veio aqui para me ver isso significa que ainda gosta de mim, mesmo que seja só um pouco.
─ Ela gosta muito. - Ela conseguiu dizer.
O peito de Wolf subia e descia pesadamente.
─ Nunca vai esquecer aquela noite no concerto. - Ele disse calmamente. ─ Eu sei. - Ele a interrompeu quando ela
tentou falar. ─ Eu não posso mudar o que aconteceu. Mas vou tentar compensar, quando eu sair daqui.
─ Não se for por culpa. - Disse ela.
─ Definitivamente não é por um sentimento de culpa. - Ele disse calmamente. E olhou nos olhos dela. ─ Você
ainda não sabe muito sobre os homens. Eu te quero. - Acrescentou com voz rouca. ─ Eu quero você, Sarah.
Tanto que é como perder um braço ou uma perna. Eu te quero ao ponto da loucura absoluta.
Ela corou quando encontrou o olhar intenso dele.
─ Eu posso fazer você me querer também. - Ela sussurrou. ─ Eu posso fazer você esquecer todas as memórias
ruins e substituí-las por boas. Se você deixar.
Ela engoliu em seco, e mordeu o lábio. Agora era a hora da verdade nua e crua. Ele queria levá-la para a
cama.
─ Não me olhe assim. - Disse ele. ─ Não.
Ela moveu os ombros, impotente.
─ Eu sei que não recusei... qualquer coisa que você fez comigo, e você acha que eu sou... que não importa para
mim, que...
─ Sara. - Disse ele, puxando-a para mais perto da cama. ─ Eu quero me casar com você.
Ela arregalou os olhos.
─ O quê?
─ Eu quero me casar com você. - Ele franziu a testa. ─ O que você acha que eu estava sugerindo? Algum
esquema para passar algumas noites no seu apartamento? Querida, mesmo se eu tentasse, Grayson me jogaria
diretamente através de uma janela!
─ Ah, então você sabe que ela lê a Bíblia toda noite. - Ela hesitou.
─ Ela lê? - Ele perguntou, inclinando-se para trás. ─ Eb me disse que ela é muito protetora em relação a você. -
Mentiu ele.
─ Sim. - Ela procurou os olhos dele timidamente. ─ Você quer mesmo se casar comigo?
Ele sorriu ironicamente.
─ Sou velho demais para você, nós dois sabemos que...
─ Não!Nunca mais diga isso! - Ela se aproximou, colocando a mão suavemente sobre a boca sensual. ─ Você
não é velho demais para mim. - Seus olhos negros percorreram-no como dedos suaves, acariciando. ─ Você é
lindo para mim.
Ele se livrou do último vestígio de medo que tinha de que ela poderia um dia se arrepender do que ele estava
propondo. Ela era feroz. Como um passarinho em seu ninho, protegendo seus filhotes. Ele podia imaginar como
ela seria com um filho. Ele estava triste por ela ter renunciado ao filho deles devido a uma impressão equivocada
de que ele não a queria. Mas teriam outros. Ele tinha certeza disso.
─ Onde você quer se casar? - Ele perguntou em voz baixa, segurando uma de suas mãos.
─ Podemos fazer na fazenda? - Ela perguntou.
Ele franziu os lábios.
─ Oh, sim, nós podemos fazer na fazenda, mas primeiro vamos nos casar, ok?
─ Você é um demônio. - Ela exclamou.
Ele riu da expressão dela. Era tão fácil agora falar com ela desta forma. Ele olhou para ela com os olhos
cheios de admiração e ternura.
─ Sinto muito. Eu não pude resistir. - Seu sorriso desapareceu. ─ Mas primeiro você tem que ir ao médico, Sara.
- Disse com firmeza. ─ Eu não vou correr o risco de machucar você mais do que eu já fiz. Você me entende?
Ela engoliu em seco.
─ Já fiz.
─ Fez o quê?
─ Eu já fiz... Antes de ir ao concerto. - Ela baixou os olhos. Ela tinha tantos planos para aquela noite, mas tudo
tinha dado errado. Planos tão bonitos.
Wolf respirou fundo, porque entendeu. Ele fechou os olhos e estremeceu. Se não tivesse acabado do jeito que
aconteceu...
Ela viu a dor no rosto dele e rapidamente mudou a expressão do próprio rosto. E o acariciou no peito.
─ De qualquer forma, o que está feito, está feito. - Ela disse com firmeza.
Ele olhou para ela angustiado.
─ Tanta dor. - Ele sussurrou.
Sara traçou o contorno dos lábios e concordou com a cabeça.
─ Mas não mais. - Disse ela com voz rouca.
Ele beijou-lhe os dedos.
─ Não mais. - Ele concordou.

***

Wolf levou vários dias para conseguir se levantar. Ele foi transferido para Jacobsville em uma ambulância
aérea. E apenas dois dias depois que chegou ao hospital o Dr. Micah Steele lhe deu alta, com um sorriso e um
aviso sobre não se exceder.
Sara lhe assegurou que Wolf não faria nada que não devesse ser feito. O homem grande, que parecia muito
mais um lutador do que um médico concordou a contragosto.

***

Os Cowboys fizeram uma fila para ver o chefe chegar de ambulância, eles colocaram os chapéus em seus
peitos, com lágrimas nos olhos.
─ Quando eu puder levantar vocês não vão ter essa moleza. - Ele rosnou, comovido. ─ Balas não podem me
matar! Eu tenho uma capa e um grande S vermelho no meu peito. - Ele acrescentou, rindo, para em seguida, de
repente, fazer uma careta porque sentiu dor.
─ Estamos felizes por você estar bem, chefe. - Disse seu novo capataz, Jarrett Currier, e sorriu. ─ Estamos
felizes de ter... - Ele olhou para as duas mulheres que estavam se aproximando, e seus olhos azuis faiscaram. ─
Que diabos você está fazendo aqui?
─ Cuidado com a língua! - Wolf gritou, pensando que o homem estava se referindo a Sara.
─ Estou aqui para acompanhar a senhorita Brandon. - Disse Amélia. ─ O que você está fazendo aqui? Eu não me
lembro de ninguém dizendo que você trabalhava para o Sr. Patterson!
─ Comecei na semana passada, quando o capataz se aposentou. Se eu soubesse que você estava aqui, eu nunca
teria me candidatado ao cargo. - Ele disse isso com maldade pura.
Amélia o encarou.
─ Eles disseram que você ainda estava na África. - Ela disse friamente.
─ Estou de volta. - Ele disse sem rodeios.
─ Como Eb Scott pode ter alguém como você trabalhando para ele? - Disse ela com um sorriso frio.
─ Se isso é uma provocação, não vai funcionar. - Currier disparou de volta, os olhos brilhando. ─ Não vou
embora, a menos que ele me mande. - Currier apontou para Wolf.
─ Acabei de voltar de uma luta armada. - Wolf disse. ─ Não gostaria de entrar em outra, pelo menos até me
recuperar!
─ Desculpe, chefe. - Currier disse severamente.
─ Sinto muito, chefe. - Amélia concordou pela primeira vez.
Currier acenou com a cabeça, virou-se e marchou em direção ao celeiro. Os outros cowboys murmuraram
cumprimentos, acenaram com a cabeça para Wolf e seguiram o capataz.
─ Então essa é a razão pela qual você não queria voltar para Comanche Wells. - Sara disse, enquanto instalavam
Wolf em seu quarto. ─ Desculpe Amélia. Se você quiser voltar para o rancho no Wyoming...
─ Eu não posso. - Amélia disse suavemente. Mas seu rosto estava triste. O que havia acontecido entre ela e o
novo capataz era, obviamente, ainda extremamente traumático.
─ Sim, sim, você pode. - Disse Sara. ─ Ouça, eu vou estar perfeitamente segura aqui. Você sabe que eu te amo. -
Ela abraçou a outra mulher. ─ Vamos. Estarei de volta antes que você perceba.
─ Mas você vai se casar.
Sara sorriu.
─ Eu não vou desistir do rancho. Enquanto isso, quem sabe o que poderia acontecer? Vá. Você nem sequer
desfez as malas. Chame um carro e compre uma passagem. Na classe executiva Amélia, não na turística. Então
você pode tomar conta de Marsden e dos outros enquanto eu estiver fora. Certo?
─ Você é a melhor chefe do mundo. - Disse Amélia, pensando que teria que falar secretamente com Eb para
informar-lhe que estava partindo. Mas Sara estava certa. Havia proteção suficiente ali para salvaguardar dez
pessoas, quanto mais duas.
─ Ligue-me quando chegar ao rancho, para me avisar que chegou em segurança. Ok? - Pediu Sara.
Amélia sorriu fracamente.
─ Ok.
Sara se perguntou o que poderia ter causado tanto sofrimento quanto ao que ela percebeu no rosto de Amélia
quando viu o belo cowboy. Mas isso era pessoal, e ela não ia interferir. Ela acompanhou a amiga. Então, voltou
para ver como Wolf estava.

***
─ Sente-se melhor? - Ela perguntou a Wolf, notando que a cor do rosto estava normal agora, ele parecia
descansado e com muito menos dor.
─ Melhor. - Ele disse, seus olhos suaves e ternos fixos no rosto dela. ─ Você mandou Grayson de volta para o
Wyoming.
Ela assentiu com a cabeça e, em seguida, fez uma careta.
─ Seu novo capataz é mal educado. - Ela reclamou. ─ Eu não gostei do jeito que ele falou com Amélia.
─ Eu também não. Vou me certificar de que ele saiba disso. Mas não é uma coisa ruim para nós ficarmos aqui
sozinhos, neste momento. - Acrescentou com uma voz profunda e suave. ─ Não é uma coisa ruim mesmo, Sara.
Ela corou, mas seus olhos escuros sorriram para ele.
─ Você ainda não está recuperado. - Ela disse.
─ Eu sei.
Ele se inclinou para trás contra os travesseiros.
─ Precisa de alguma coisa?
─ Meu computador. - Disse ele. ─ Está sobre a mesa. Em seguida, pegue alguns travesseiros e se junte a mim
aqui na cama.
─ O que vamos fazer? - Perguntou ela.
Ele lhe deu um sorriso perverso. Ela engasgou. Ele riu.
─ Não, não é isso. Ainda não. Nós iremos às compras, querida.
─ Compras?
─ Sim. Se não existir na Internet, não existe. Certo?
Ela riu.
─ Verdade.

***

Eles escolheram um conjunto de anel e aliança de casamento. Para Sara de esmeralda e diamante, e para Wolf
uma simples em ouro, e eles solicitaram que fossem enviadas por encomenda rápida. Sara fez os exames de
sangue no hospital, enquanto Wolf estava lá, e Micah já tinha colhido o sangue de Wolf para testes. Eles
receberam os resultados de Wolf antes dele receber alta.
─ Amanhã chegarão às alianças. Pedi para Eb providenciar uma licença de casamento. Daqui a dois dias... -
Disse, procurando seus olhos. ─ Eu vou me casar com você. Aqui no rancho. Eu quero que você vá até a loja da
Marcela em Jacobsville. Ela está fazendo o seu vestido.
─ Um vestido? Um vestido de casamento... - Ela não tinha pensado nisso.
─ Vou colocar um terno e tentar não desmaiar antes de chegar ao altar. - Ele riu e balançou a cabeça. ─ Eu não
vou deixar você escapar. - Seus olhos se estreitaram. ─ Você é minha.
Ela olhou em seus olhos.
─ E você é meu. - Ela sussurrou.
O peito de Wolf subia e descia bruscamente, pela respiração acelerada.
─ Você pode guardar isso para mim? - Perguntou, enquanto desligava o computador rapidamente, antes que ela
pudesse ver os ícones. Ela podia não conhecer jogos, mas ele não queria compartilhar essa parte de sua vida com
ela ainda. Ela podia ficar com ciúmes da mulher desconhecida com quem ele esteve jogando nestes dois últimos
anos. Claro que ele iria contar a ela. Mas, ainda não. Embora não fosse um relacionamento romântico era de
amizade. Esperava que ela entendesse.
Sara pegou o computador, o colocou na mesa e voltou para junto de Wolf.
─ Posso preparar algo para comer, se você estiver com fome.
─ Eu estou com muita fome. - Ele concordou, olhando para a calça preta e a blusa de gola alta também preta que
ela usava. ─ Tranque a porta e solte o cabelo.
Ela olhou para ele, surpresa.
─ O quê?
─ Inferno. Feche a porta e solte o cabelo. Estou faminto.
Sara sentia-se sem fôlego só de olhar para Wolf.
─ Wolf, seu peito...
─ Eu não me importo se ele me matar. - sussurrou. Seu rosto mostrava a tensão. ─ Oh, Deus, querida. Estou
morrendo!
Ela obedeceu e trancou a porta. Desligou o telefone. Soltou o cabelo. Tirou a calça e a blusa. Suas mãos
vacilaram para tirar o sutiã.
─ Vem cá. - Ele disse suavemente. ─ Eu mesmo faço isso.
Ela aproximou-se dele, tão faminta quanto ele. Tinha sido um tempo muito longo. Suas conversas com Emma
Cain lhe haviam mostrado que tinha deixado um incidente triste dominar sua vida por muito tempo. Wolf não era
um homem determinado a machucá-la. Ele era, em um sentido muito real, seu amante. E ela o queria. Ela queria
casar com ele, viver com ele, amá-lo pelo resto da sua vida.
Ele estava usando pijama, mas o retirou enquanto ela se aproximava da cama. Ele puxou as cobertas e a
deixou olhar para ele. Ele já estava dolorosamente excitado.
─ Você é realmente lindo. - Ela sussurrou hesitante.
─ Só para você. - Disse ele, abrindo os braços.
Ela aconchegou-se a ele, estremecendo um pouco quando seu corpo tocou o dele. Ele a virou, fazendo uma
careta. Os músculos ainda doíam.
─ Tem certeza? - Ela perguntou.
Ele roçou sua boca sobre a dela.
─ Eu tenho certeza de que vou morrer se não puder ter você. - Ele sussurrou.
─ Eu não quero que isso aconteça. - Ela sussurrou, arqueando o tronco quando ele encontrou o fecho do sutiã e o
soltou, libertando seus seios.
Wolf os olhou e franziu a testa.
─ Estão maiores... - Sussurrou. ─ Ou é minha imaginação?
─ Eu ganhei peso. - Ela mentiu.
─ Verdade? - Ele sorriu. ─ Os quilos foram para o lugar certo. - Disse ele, traçando com o dedo o contorno do
mamilo e observando a reação dela enquanto fazia isso.
─ Você gosta disso?
─ Muito.
Ele traçou o contorno do mamilo novamente com a ponta do dedo.
─ Eu amo isso.
Ele retirou a calcinha e jogou-a no chão. Seu rosto estava sério.
─ Antes nós brincamos. - Ele disse suavemente. ─ Mas agora é real. Eu tenho que ser lento e cuidadoso com
você. Pode ser desconfortável, mesmo com a cirurgia. Eu sou superdotado.
─ Eu percebi. - Ela corou, tentando parecer sofisticada e falhando miseravelmente.
Ele sorriu.
─ Você está nervosa. Não precisa. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Desta vez... - Ele sussurrou enquanto
baixava a boca para a dela. ─ Não haverá nenhum comentário cínico. Eu só quero lhe dar prazer de todas as
maneiras possíveis.
Ela tentou responder, mas ele estava com a boca no bico dos seus seios e ela se perdeu. A boca de Wolf
deslizou para cima e para baixo no corpo dela, tocando-a de várias maneiras, e em lugares que ela não esperava.
Ela tentou impedi-lo no início, até que a sensualidade do ato, a tornou faminta, a tornou ousada.
Sara deixou escapar gritos suaves enquanto ele a tocava, os dedos sondando, provocando, seduzindo.
Gentilmente colou a boca na dela a ponto de fazê-la gemer, mesmo antes de ele começar a se mover sobre ela.
─ Agora é que as coisas poderiam se complicar... - Ele suspirou em sua boca, enquanto lenta e suavemente,
começou a penetrá-la.
Sara arregalou os olhos quando sentiu pela primeira vez em sua vida, o contato íntimo com um homem.
Na penumbra do quarto, ainda havia luz suficiente para que ele visse a expressão tensa e ansiosa no rosto de
Sara.
─ Shh. - Ele sussurrou. E moveu os quadris, observando a reação dela. ─ Você sente isso quando eu faço assim,
certo? Erga os quadris, só um pouco... isso. Nós estamos indo bem. Isso é bom.
Ela quase não ouvia o que ele estava dizendo. Alguma coisa estava acontecendo. Algo novo. Algo que ela
nunca tinha sentido antes, nem mesmo com ele. Sara arregalou os olhos e abriu a boca quando um choque de
sensações tão intensas a atingiu que acreditou estar morrendo.
─ Sim! - Ela gritou. ─ Sim! Oh, Sim! - Sara fechou os olhos e cerrou os dentes tentando abafar os gemidos. Seus
quadris começaram a fazer movimentos contínuos e involuntários, o corpo tenso buscando alcançar algo que ela
nem sabia que existia. ─ Aí. - Ela murmurou estremecendo. ─ Sim, aí, bem aí, bem...
Ela gritou. Um som que nunca tinha ouvido sair de sua própria garganta em toda a sua vida. Seu corpo
estremeceu sob o olhar encantado de Wolf. Ele a observava fascinado, satisfeito com o prazer que via no corpo
trêmulo, os gritos desamparados de prazer, a emoção, o clímax interminável que fazia com que os quadris de
Sara atingissem os dele com tamanha pressão que ele podia sentir os ossos batendo. E Sara ainda estava
tremendo e soluçando, agarrando-se a ele, o rosto rígido com o clímax, os olhos fechados, os seios arqueando
contra seu peito.
Sara o sentia dentro dela. Ela o sentiu crescer, sentiu o calor e a potência dele aquecê-la. Mas ele só estava
dando prazer e não recebendo. Ela lutava para respirar, para parar de chorar. Tinha sido tão doce, tão bonito...
─ Por favor. - Ela sussurrou.
Ele sorriu com ternura. E moveu os quadris.
─ Gosta disso?
─ Não. Para você. - Ela sussurrou. ─ Eu quero que você sinta o que eu senti. - Ela disse. ─ Diga-me o que fazer.
Eu farei qualquer coisa. Qualquer coisa!
O rosto de Wolf era o retrato da ternura.
─ Não há necessidade de fazer nada, querida. - Ele moveu os quadris e apertou os dentes. ─ Não agora.
─ Eu não vou olhar. - Ela sussurrou. ─ Eu prometo. - E fechou os olhos.
─ Não faça isso. - Ele sussurrou em resposta, sua voz suave enquanto ele se movia para mais fundo dentro dela.
─ Olhe para mim. Olhe para mim. Eu pertenço a você tão certo quanto você pertence a mim. Você se entregou.
Agora eu vou me entregar a você. Olhe!
Wolf explodiu como fogos de artifício. Ela o viu desabar sobre ela, seus quadris pressionados contra os dela, o
rosto contraído, o pescoço tão esticado quanto às cordas de um violão. Ele estremeceu. Sua boca se abriu em um
grito rouco, um grito impotente enquanto seu corpo convulsionava uma, outra e outra vez. Ele soluçou quando a
paixão o atingiu, fazendo seu corpo explodir de prazer. Foi a segunda vez em sua vida ele tinha experimentado
um orgasmo. E, a primeira vez tinha sido com Sara, com a mulher bonita, sensual que estava debaixo dele,
agarrando-se a ele, enquanto ele descia lenta e calmamente da altura que tinha alcançado.
─ Está tudo bem. - Ela sussurrou, tocando-o, beijando-o ternamente no rosto, nos olhos, que estavam
estranhamente úmidos. ─ Está tudo bem, meu amor. Tudo bem.
O amor e a ternura dos lábios em seu rosto o estavam rasgando por dentro. Ele não podia suportar a dor que
havia causado a ela. Ele lhe dera tão pouco, e ela o tinha levado ao paraíso. Ele nunca tinha experimentado
tamanho prazer. Tamanha cumplicidade.
Wolf a aconchegou contra o corpo molhado de suor e ainda trêmulo pelos resquícios da paixão.
─Você está bem? - Ela perguntou em seu peito, a expressão preocupada. ─ Não o machuquei?
Ele a puxou para perto.
─ Eu não sabia o que diabos eles estavam falando quando mencionavam orgasmos até que os senti com você. -
Murmurou instável. ─ Meu Deus! Eu acho que meu corpo inteiro explodiu.
Ela riu suavemente.
─ Então, eu senti o mesmo.
─ Sim. Eu vi. Eu estava olhando.
─ Você viu?
─ Eu estava olhando.
Ele se virou e olhou para os brilhantes e grandes olhos.
─ Eu sonhava em estar dentro de você. - Ele sussurrou. ─ Eu queria fazê-la sentir o que eu senti na última vez
em que estivemos juntos. E então, Ysera reapareceu e a colocou em perigo. E eu...
A voz dele falhou.
─ Wolf ?
─ Eu lhe custei o nosso bebê. - Ele enterrou o rosto em sua garganta. Seus olhos estavam molhados.
─ Oh, querido, não. Não! Você não fez!
─ Você foi a uma clínica!
─ Wolf, olhe para mim. Olhe para mim!
Ele abriu os olhos e levantou a cabeça com relutância. A expressão no rosto dele a feriu. Estava extremamente
angustiado.
Ela pegou uma das mãos dele e a colocou sobre seu seio.
─ Acenda a luz, por favor.
O quarto não estava escuro, mas era difícil ver os detalhes. Ele fez uma careta quando alcançou o abajur e
ligou a pequena lâmpada na mesa de cabeceira.
─ Olhe para mim. - Ela disse, guiando seus dedos sobre os seios. ─ Não estou pálida o suficiente para ser muito
visível, mas... - Ela sussurrou. ─ Você consegue ver todas essas pequenas veias?
Ele franziu a testa. Havia muitas delas. Ele não se lembrava de tê-las visto antes.
─ Sim.
─ Elas estão alimentando glândulas mamárias. - Sussurrou. ─ Estão me preparando para produzir leite.
Ele piscou. Sua mão sustentava o belo seio. Ele estava mais cheio, mais macio, do que se lembrava. Ele sorriu
com prazer. O que ela disse? Algo sobre leite?
─ Querida, os seios só produzem leite quando a mulher está esperando bebê. - Ele disse com um sorriso triste.
─ Sim, eu sei.
Ele ficou muito quieto por um minuto. Sua mão apertada contra o seio dela. Ele levantou os olhos claros e
eles se encararam.
Ela pegou a mão dele e, lentamente, deslizou-a por seu corpo até a pequena protuberância em seu abdome e a
pressionou lá.
─ Oh, Deus! - Wolf exclamou com reverência. E ficou pálido.
─ Eu entrei pela porta da frente e saí pela porta dos fundos da clínica. - Ela hesitou. ─ Eu não pude. Eu só... não
pude. Eu não sei como você ia reagir. Eu pensei que talvez você não quisesse o bebê, mas eu o amava, e não...
A boca de Wolf interrompeu o resto do pequeno discurso apressado. Ele a beijou como nunca havia feito
antes. Com o corpo inteiro tremendo. Ele a puxou para junto de si e a abraçou fortemente, embalando-a e
enterrando o rosto em sua garganta.
─ Wolf? - Perguntou surpresa.
─ Apenas me dê um minuto. - Sussurrou. ─ Leva um pouco de tempo para se ajustar a viagem do inferno para o
paraíso.
Ela não conseguiu conter uma risada suave. Seus braços deslizaram em torno dele e o seguraram com força.
─ Eu queria dizer a você antes. - Disse ela. Mas eu estava com medo.
─ Você pensou que eu não ia querer o nosso bebê.
─ Eu não sei. Eu tinha medo que você não iria querer algo permanente comigo. E eu não poderia viver em
qualquer outro lugar e assistir você visitar o bebê...
Os braços de Wolf contraíram.
─ Nós tivemos um mau começo. - Ele disse. ─ Nós não nos conhecíamos muito bem, e estávamos famintos
demais um pelo outro para conseguirmos conversar.
─ Sim.
Ele levantou a cabeça.
─ Eu quero nosso bebê. - Ele disse solenemente. ─ Eu amo você. Eu quero me casar.
Ela olhou em seus olhos.
─ Tem certeza?
─ Eu nunca tive mais certeza de nada na minha vida.
Ela relaxou um pouco.
─ Está bem.
O movimento suave que ela fez causou uma excitação súbita e aguda nele. Ele fez uma careta e se afastou.
─ Onde você pensa que vai? - Perguntou ela, puxando-o em sua direção.
─ Você está grávida. - Ele começou. E fez uma careta. ─ Eu posso ter machucado o bebê. Eu estava com tanta
fome de você. Eu acho que fui rude!
─ Você não foi rude, e os bebês são muito resistentes. - Ela murmurou. Enquanto estendia a mão e o tocava de
maneira ousada. Ele estremeceu. ─ Agora é só voltar aqui e me deixar cuidar deste pequeno problema que você
tem...
─ Pequeno? - Ele conseguiu dizer enquanto rolava mais uma vez sobre ela e a penetrava.
─ Bommm! - Ela ofegou. ─ Não tão pequeno!
Ele riu maliciosamente.
─ E muito em breve, talvez até mesmo grande o suficiente. - Disse ele com a voz rouca enquanto sua boca descia
sobre a dela. ─ Deixe-me mostrar-lhe algo novo. Deslize suas pernas entre as minhas.
Ela ofegou novamente.
─ Oh, sim, assim mesmo. - Ele rosnou enquanto se movia para baixo contra ela.
Ela estremeceu. Seu corpo ficou tenso quando o prazer de repente se tornou muito profundo. Ela arqueou o
corpo contra o dele.
─ Eu gosto disso. - Ele sussurrou em sua boca. ─ Faça novamente.
Sara repetiu o movimento. Ele parecia mais potente do que tinha sido antes. Ela prendeu a respiração
enquanto o sentia deslizar lentamente bem fundo dentro dela.
─ Você está muito excitada. - Ele sussurrou em sua boca. ─ E muito sensível também. Vou fazer você explodir
feito um foguete. - Ele sussurrou. ─ Enquanto a observo.
Ela estremeceu. O prazer estava chegando a seu limite máximo e a estava queimando por dentro. Ela estava
francamente nervosa, temendo não ser capaz de sobreviver a tanto prazer.
Sara não percebeu que tinha sussurrado freneticamente seu medo no ouvido de Wolf até que ouviu uma risada
suave, e a voz profunda dele.
─ Você vai sobreviver. - Ele sussurrou com voz trêmula quando os movimentos fortes e rápidos começaram a
trazer uma espiral de prazer que os levou a alturas desconhecidas. ─ Mas você vai corar cada vez que olhar para
mim... por uma semana, pelo menos. - Concluiu ele.
Ela começou a gritar, a voz pulsando em sintonia com seu corpo enquanto estremecia e, em seguida,
experimentava um clímax atrás do outro até que pensou que não iria sobreviver. Então, ouviu um gemido
profundo em cima dela, e sentiu um estremecimento furioso, enquanto observava o potente corpo de Wolf se
sacudir em espasmos tão violentos que ela ficou preocupada de que ele não fosse sobreviver também.
Estremeceram juntos, os corpos suados, desfrutando ainda dos resquícios do poderoso prazer que tinham
partilhado, um prazer tão intenso que os deixou mudos por um tempo.
─ O bebê. - Ele sussurrou preocupado. A mão protetora sobre a barriga de Sara.
─ O bebê está bem. - Ela sussurrou de volta. Ele tentou se levantar, mas Sara o segurou junto a ela. ─ Não se
mova. - Ela sussurrou. ─ Eu amo sentir você dentro de mim, sentir o seu peso.
─ Eu sou pesado. - Ele disse.
Ela sorriu contra sua garganta.
─ Não, você não é.
Ele estremeceu novamente quando se moveu.
─ Maldição! - Ele rosnou.
─ Maldição? - Perguntou.
Ele riu.
─ Estou com a pele esfolada.
Os olhos de Sara estavam arregalados.
─ Você está... o quê?
─ Eu estou esfolado. - Ele franziu os lábios e olhou para ela com um sentimento de posse, carinho e alegria pura.
─ Muito esfolado. - Ele se afastou um pouco, fazendo uma careta.
Ela estremeceu, também.
─ Viu?
Ele rolou de costas, gemeu e se deitou na cama.
─ Isso é o que nos acontece por exagerar.
Ela se sentou, rindo com prazer. E estremeceu novamente.
─ Eu não sabia o que as pessoas pudessem ficar esfoladas.
Ele arqueou uma sobrancelha.
─ Não? Mesmo depois de ler todos aqueles romances picantes?
─ São romances, não livros de anatomia. - Disse ela.
Wolf respirou profundamente, relaxou e se acomodou confortavelmente, deixando que ela o observasse.
─ Falando em aulas de anatomia. - Ele murmurou.
Ela corou.
─ Eu disse que você ficaria corada por dias. - Ressaltou ele sorrindo.
Sara riu com prazer.
Ele pegou sua mão e levou-a aos lábios.
─ Agora nós temos um problema real.
─ Nós temos? - Perguntou ela ficando tensa.
─ Sim. Grayson terá que voltar para trabalhar e viver aqui conosco. Como isso será possível sem ter que demitir
o meu novo capataz?
Sara sentiu desaparecer o último de seus medos.
─ Nós a chamamos de volta e lhe contamos sobre o bebê. - Ela disse simplesmente. E sorriu. ─ Isso é tudo o que
precisamos fazer.
─ O bebê. - Ele parou e pressionou a boca faminta na curva do abdome dela. ─ Eu me pergunto se um homem
pode morrer de felicidade.
─ Não se atreva a tentar descobrir. - Ela disse com firmeza.
Ele sorriu contra sua barriga.
─ Vamos ter um menino ou uma menina?
─ Vamos.
Ele riu.
─ Qual dos dois? - Perguntou divertido.
─ Saberemos quando ele ou ela nascer. - Ela respondeu. ─ Eu não quero saber. Ainda não.
Ele levantou a cabeça.
─ Nem eu. - Disse ele, erguendo a cabeça. ─ As pessoas vão rir.
─ Deixe-as rir. Os outros não importam. É o nosso bebê. Só nosso.
─ O nosso bebê. - Ele sussurrou. Seu coração estava cheio de alegria. Ele nunca tinha sonhado que, depois de
tanta tragédia poderia surgir tanta felicidade.
Mas na manhã seguinte, tudo mudou.

Capítulo Treze

Sara ainda estava dormindo quando o celular tocou. Wolf esticou a mão por cima da cabeça que ela mantinha
apoiada em seu ombro, para alcançar o celular na mesinha de cabeceira.
─ Alô.
─Sou eu Eb. Ouça, você tem que tirar Sarah daí, agora. - Ele disse com urgência.
Wolf se sentou na cama, movendo-a do lugar. Sara acordou e o olhou sonolenta.
─ O que está acontecendo? - Perguntou Wolf. ─ O homem que Ysera mandou...
─ Não, ele está preso. Não é mais uma ameaça. - Eb disse. ─ Isso é algo novo e ainda pior. Os repórteres
descobriram uma história. Você sabe onde Gabe está, e o que ele está fazendo?
─ Sei onde ele está. Está tudo bem?
─ Sim. Eu o escondi junto com o seu grupo, em um hotel de luxo no Oriente Médio. Mas a protegida dele,
lembra-se dela, Michelle Godfrey?
─ Sim. - Respondeu Wolf.
─ Ela me entrevistou na semana passada. Eu pensei que ela seria honesta e contaria a história na íntegra. Mas,
me enganei. - Ele disse friamente. ─ Ela contou ao mundo que Gabriel e seus homens realizaram um massacre de
mulheres e crianças. Ela publicou fotos...
─ Gabriel morreria antes de ferir uma criança! - Gritou Wolf.
─ Eu sei. - Rosnou Eb. ─ A história não é a que está aparecendo. Eu os escondi, contratei advogados e um
investigador particular, mas por enquanto, a publicidade em torno do caso vai ser um pesadelo. Eles encontrarão
Sara, se ainda não o fizeram.
─ Eu a levarei de volta para o Wyoming hoje. - Disse ele.
─ Você não está em condições para viajar. - Eb protestou.
─ Eu vou assim mesmo. Eles têm médicos no Wyoming. - Ele olhou para o rosto pálido de Sarah, e o tocou com
ternura. ─ Vamos assim que fizermos as malas. Então, foi a protegida deles quem provocou essa situação?
Michelle?
─ Michelle? - Sara arregalou os olhos. ─ O que ela fez? - Ela perguntou sussurrando.
Wolf pôs a mão sobre o telefone.
─ Eu vou lhe contar tudo dentro de um minuto. - Ele se virou para continuar falando com EB. ─ Por quê? -
Perguntou ele.
─ Ela não conhecia o codinome de Gabe quando ele trabalha para mim. - Disse rapidamente Eb. ─ Eu não
percebi o que poderia acontecer. Ela está arrasada, mas as coisas foram longe demais. Saia daí o mais rápido
possível. Eles estão aparecendo com caminhões com satélite aqui.
─ Obrigado, Eb. Por tudo.
─ Você é meu amigo. Eu vou ajudá-lo em tudo o que eu puder. Apresse-se. - Eb acrescentou antes de desligar.
Wolf levantou-se da cama, puxando Sara com ele.
─ Vamos tomar um banho rápido, e depois fazer as malas. Eu vou contar tudo, no chuveiro.
Ele a puxou para o chuveiro e lhe contou o que Michelle tinha feito. As lágrimas de Sara se misturaram com
água e sabonete. Ele a abraçou, e a acalentou enquanto ela chorava.
─ Como ela pôde fazer isso com meu irmão. - Lamentou Sara. ─ Eu pensei que ela o amava!
─ Ela não sabia quem era Angel Le Veut. - Ele respondeu veementemente. ─ Ninguém disse a ela.
─ Nunca vou perdoá-la. - Disse ela. ─ Nunca!
─ Nunca é muito tempo. Temos que ir embora.
─ Você ainda não se recuperou. - Ela chorou. ─ E o casamento!
─ Nós vamos levar tudo conosco para o Wyoming. - Ele disse suavemente. ─ Estou absolutamente certo de que
há pastores lá. - Ele franziu os lábios. ─ E é melhor encontrarmos um rapidamente, porque não há nenhuma
maneira de passar por Grayson sem uma licença de casamento.
─ Como é que você sabe tanto sobre ela? - Sara perguntou.
Ele a beijou com ternura.
─ Tenho espiões. Não se preocupe minha pequena ciumenta, a única mulher com quem desejei me casar foi
você.
Porque ele a desejava? Ou porque ele a amava? Ela não tinha certeza. Mas não tinha forças para ficar longe
dele. Ela o amava muito, agora mais do que nunca, com o bebê dele crescendo dentro do seu corpo.

***

Eles voaram para o Wyoming em um jato particular.


─ Eu tenho uma propriedade vizinha, você sabe. - Ele lembrou.
─ Sim, naquela em que se refugiou por um longo tempo. - Ela lembrou.
A mão dele se fechou sobre a dela.
─ Fugindo das memórias. - Disse ele. ─ Eu não conseguia escapar para longe o suficiente. E então, eu a convidei
para o balé que nunca chegamos a ir. - Wolf desviou o olhar com o semblante fechado. ─ Eu gostaria que
pudéssemos voltar no tempo e refazer aquela noite. - Disse ele calmamente.
─ Eu não. - Ela sussurrou, aconchegando-se a ele. ─ Foi nessa noite que fizemos nosso bebê.
Wolf estremeceu. E a puxou para perto, enterrando o rosto no pescoço quente e delicado de Sara.
─ Sim, mas ainda assim...
─ Você compensou na noite passada. Compensou tudo. - Ela sussurrou em seu ouvido, enquanto estremecia. ─
Foi... indescritível.
─ Para mim, também, Sara. - Disse ele. E beijou as pálpebras fechadas dela. ─ Para mim também.
Eles contrataram uma limusine em Sheridan para levá-los para o rancho, mas pararam no caminho em uma
pequena igreja metodista.
Wolf a levou para dentro.
─ Você não vai ter um vestido adequado. - Disse ele. ─ Nem alianças, por enquanto. Elas estão a caminho. Mas
eu tenho os documentos que precisamos, se você quiser casar comigo, agora.
─ Eu me casaria com você usando jeans, se não houvesse outra opção. - Ela disse ofegante de alegria.
Ele sorriu.
─ O Reverendo Bailey é amigo de Jake Blair, o pastor da igreja de Jacobsville que você visitou. Ele é meu
amigo. Então, ele ligou para o Reverendo Bailey e explicou tudo. Ele está nos esperando.
Eles entraram na igreja. Flores enfeitavam o altar. O Reverendo os recebeu segurando uma pequena caixa de
joias cinza.
─ Não é incrível o que podemos encontrar quando mais precisamos? - Wolf murmurou, piscando para o ministro,
que havia feito a compra para ele. Em seguida, ele abriu a caixa. Havia duas alianças de ouro no interior da
caixinha. Uma para ela, e outra para ele. ─ De ouro amarelo. Eu percebi que é o seu favorito.
─ Eu amei. - Ela tocou as alianças e olhou para ele. ─ Você poderia me dar uma anilha de charuto, no entanto.
Isso seria o suficiente.
Ele se inclinou e beijou-lhe as pálpebras fechadas com tanta ternura que uma das mulheres que estava no altar
desviou o olhar e disfarçou as lágrimas.
─ Minha esposa e minha mãe serão testemunhas. - Disse o Reverendo Bailey. ─ Se vocês estiverem prontos,
podemos começar.
Wolf olhou para Sara.
─ Eu nunca estive tão pronto em minha vida.
─ Eu também. - Sara disse suavemente.
─ Então vamos começar. - Disse o Reverendo.
***

Foi uma cerimônia breve, mas emocionante. Wolf colocou a aliança no dedo de Sara que encaixou
perfeitamente. Ela colocou a outra aliança no dedo dele e o encaixe foi perfeito também. Eles repetiram as
palavras da cerimônia de casamento, olhando fixamente um para o outro. O Reverendo os declarou marido e
mulher.
As lágrimas rolavam pelo rosto de Sara quando Wolf se inclinou para beijá-la com extrema ternura.
─ Senhora Patterson. - Ele sussurrou sorrindo. Sara retribuiu o sorriso.
Com leves beijos Wolf secou as lágrimas do rosto de sara enquanto o Reverendo Baily preenchia a certidão de
casamento.
─ E agora. - Disse ele, depois de ter apertado a mão do pastor e receber as congratulações das pessoas, e deixar
uma grande contribuição para o fundo de indigentes. ─ Vamos para casa. E se tivermos sorte, depois de mostrar
a certidão de casamento para Grayson, talvez ela me deixe dormir com você. - Ele acrescentou com uma risada,
enquanto subiam na limusine. Sara também riu, e se aconchegou ao marido. ─ Lamentavelmente. - Disse ele. ─
Dormir é tudo o que vai acontecer no futuro imediato. - Ele se inclinou para mais perto dela. ─ Eu ainda estou
esfolado.
Ela riu e tentou não corar.
Grayson sorrindo os encontrou na porta.
─ Eu fiz um bolo. - Disse ela. ─ É a primeira vez que eu tento fazer um. Pode não ficar muito bom. Mas eu fiz
quiche e croissants, e estão perfeitos!
Wolf olhou para ela.
─ Você está se sentindo bem? - Perguntou Wolf a Grayson.
Ela olhou para ele.
─ Eu sei cozinhar.
Ele franziu os lábios.
─ Cobras, Sim. Não tenho certeza sobre croissants e...
─ Basta entrar e experimentar antes de começar a fazer comentários sarcásticos. - Ela brincou sorrindo para Sara.
─ Como você está?
─ Triste. - Disse ela. ─ Nossa protegida traiu Gabriel e o expôs na imprensa.
─ Sim, eu soube. Ele está em todos os noticiários. - Disse Grayson. ─ Eles provavelmente vão tentar vir até aqui.
- Ela acrescentou, olhando com preocupação para Wolf.
─ Está tudo sobcontrole. - Ele respondeu. ─ Liguei para os investigadores de todas as agências de aplicação da
lei que eu conheço. Até mesmo para o Serviço Florestal dos Estados Unidos porque este rancho faz fronteira com
as terras deles, nós temos algumas digamos... regalias.
─ Quais são elas? - Perguntou Sara.
─ Espere e verá. - Ele sorriu para ela, puxou-a para mais perto e a beijou na bochecha.
─ Bem, agora... - Grayson começou.
Wolf lhe mostrou a certidão de casamento.
Os olhos castanhos aturdidos de Grayson alternavam entre o papel, Sara e Wolf.
─ Eu posso me casar como qualquer outra pessoa. - Disse ele defensivamente.
Grayson tocou a própria testa como se verificasse a temperatura.
─ Talvez eu esteja alucinando.
─ Não, isso aconteceria se você tivesse se casado. - Retrucou ele. ─ E também o inferno congelaria antes disso.
─ Vocês dois se conhecem? - Sara perguntou com suspeita velada.
─ Mais ou menos. - Disseram ao mesmo tempo, para em seguida, fazerem uma careta juntos.
Wolf olhou para Grayson e levantou as mãos.
─ Maldição! Você não pode guardar segredos dela. Está bem. Foi ideia de Gabe. Grayson é um dos contratados
de Eb.
Sara estava de queixo caído, surpresa.
─ Você é uma... uma mercenária?
Grayson se mexeu desconfortavelmente.
─ Eu sou uma soldada profissional. - Ela murmurou.
─ Você é uma mercenária. - Sussurrou Wolf.
Grayson suspirou.
─ Eu sou uma mercenária. - Ela aceitou.
─ Mas por que, como?
─ Nós tivemos medo de que Ysera descobrisse sobre você. - Amélia disse suavemente. ─ Nenhum de nós queria
ver você ferida, mas não era possível colocar alguém no apartamento, a menos fosse uma acompanhante. Então,
vimos o seu anúncio e tudo se encaixou perfeitamente bem.
─ Então, meu irmão está por trás disto. - Disse Sara. ─ Ele sabia!
─ Sim. Foi quando ele voltou para casa na formatura de Michelle. - Amélia lembrou.
Sara não respondeu. E olhou para Wolf.
─ Eu a havia magoado muito. - Disse ele, fazendo uma careta. ─ Nem seu irmão, nem eu poderíamos suportar se
algo ruim acontecesse a você. Então ele a convenceu a colocar um anúncio e Grayson respondeu.
Ela suspirou.
─ Bem, pelo menos eu me sinto mais segura agora. - Ela olhou para Grayson e, em seguida, fez uma careta. E
olhou para Wolf. ─ Quem é que vai dizer a ela?
─ Você é mulher. ─ Bem... - Wolf parecia desconfortável.
─ Sim, mas você a conhece há mais tempo que eu.
─ Me contar o que? - perguntou Amélia.
─ Não é algo que eu sinto que eu preciso fazer. - Disse Wolf.
─ Você está enrolando... - Disse Sara.
─ Me contar o que? - Amélia perguntou de novo, impaciente.
─ Por que não conta logo? - Sara gemeu.
─ Eu não quero dizer nada. - Ele gemeu, também.
─ Me contar o que, Maldição! - Amélia explodiu.
─ Eu estou grávida. - Sara disse ao mesmo tempo em que Wolf também falava "Ela está grávida".
Amélia olhou para os dois, de cara amarrada.
Wolf agitou a certidão de casamento na frente dela.
Grayson suspirou. Olhou para Sara, cujos olhos estavam marejados.
─ Oh, venha aqui. - Disse Grayson, abraçando Sara. ─ Eu não estou criticando. Eu vou à igreja, mas não digo às
pessoas de que maneira devem viver. E se você ficou grávida antes do casamento, é tudo culpa dele, de qualquer
maneira.
─ O quê? - Ele retrucou.
Amélia olhou para ele por cima do ombro Sara.
─ Eu sei tudo sobre os homens. - Murmurou. ─ Estou acostumada a trabalhar com eles. Homens duros que não
querem compromisso. Eles falam sobre as mulheres com quem dormem...
─ Foi um acidente. - Wolf disse em um tom abafado, olhando para Sara com um olhar de adoração. ─ Mas eu
não me arrependo. Nunca me arrependerei. Sara, e um bebê. É como um presente de Natal.
Amélia soltou Sara e se aproximou do homem grande.
─ Sinto muito. Eu não o conheço muito bem. E fiz suposições. - Ela o abraçou, e depois se afastou. Realmente
muito triste. De repente a expressão dela se iluminou. ─ Eu sei fazer crochê. Eu vou fazer sapatinhos, cobertores
e... Querem comer alguma coisa?
─ Até que não foi tão ruim. - Ele sussurrou no ouvido de Sara enquanto seguiam Amélia, que ainda tagarelava
sem parar, em direção à cozinha.
─ Covarde. - Sara sussurrou, batendo o quadril contra o dele.
─ O mesmo eu digo de você. - Ele sussurrou, e repetiu o gesto. Em seguida, gemeu, porque sentiu o quadril doer.
Ela riu, e se recostou nele.

***

Mas quando assistiram ao jornal, mais tarde, foi uma agonia para Sara, ver o irmão ser massacrado pela mídia
por algo que ela sabia que ele não tinha feito.
Gabriel conseguiu entrar em contato com ela no final do dia.
─ Essa história se alastrou feito rastilho de pólvora. - Disse Gabe a Sara. ─ Eu não sei como diabos eles
descobriram essa história.
─ Nossa protegida disse a eles. - Sara disse friamente.
─ Michelle? - Gabe perguntou, horrorizado. ─ Não! Não, ela nunca faria isso comigo!
─ Ela fez. - Foi a resposta lacônica. ─ Ela apareceu no jornal, explicando a sua posição. Ela disse que os
americanos que cometeram esses crimes devem ser enforcados publicamente.
Ele ficou em silêncio.
─ Eu não esperava isso dela.
─ Nem eu. Não depois de tudo o que fizemos por ela. - Disse Sara.
─ Eu não quero vê-la novamente. Nunca mais. Eu a quero fora da minha vida, e da sua.
─ Sim. Eu vou cuidar disso. Tenha cuidado. - Ela acrescentou suavemente. ─ Eu amo você.
─ Eu também te amo.
─ Há uma pequena coisa que eu tenho que contar...
─ O quê?
─ Estou grávida.
Houve um momento de silêncio provocado pelo choque.
─ Wolf disse que você foi a uma clínica.
─ Eu fui. Eu entrei pela porta da frente e saí pela de trás. E Wolf e eu nos casamos esta manhã.
─ Eu preciso me sentar.
Ela riu suavemente.
─ Estou muito feliz. - Ela sussurrou, baixando a voz para que Wolf não ouvisse e se sentisse envergonhado. ─ Eu
o amo tanto que sinto como se fosse explodir. Ele quer muito esse bebê.
─ Tenho certeza que ele ama você também. - Disse ele.
─ Ele gosta muito de mim. - Disse ela, escondendo a tristeza por ele não a amar. Ele nunca tinha mencionado
sentimentos mais profundos. Ela esperava que com o tempo e o nascimento do bebê os sentimentos dele se
aprofundassem. ─ E a minha acompanhante é uma mercenária, o que acha disso? - Acrescentou com um pouco
de veneno.
─ O gatilho Grayson não vai deixar ninguém machucar você. - Ele comentou.
─ Gatilho Grayson?
─ Ela é a melhor atiradora da unidade. - Ele disse, rindo. ─ Nós a consideramos mais um dos caras do grupo, e
eu quero dizer isso no melhor sentido. Ela é muito religiosa. Nem mesmo nos permitia xingar quando ela estava
por perto. Deu muita dor de cabeça para os rapazes.
─ Eu posso imaginar! Gatilho, eh? - Ela riu.
─ Eu tenho que desligar.
─ Eb Scott disse que contratou advogados para defendê-lo. Tudo vai dar certo. Eu sei que vai.
─ Eu também, mas vai ser difícil por um tempo, até que a mídia encontre outro osso suculento para mastigar. -
Ele disse, resignado. ─ Eu vou estar em contato, mas terá que ser através de Eb. Não posso arriscar que alguém
consiga me rastrear.
─ Está bem. Cuide-se.
─ Você também. Wolf vai cuidar de você. Bom Deus, você deveria tê-lo visto quando chegou aqui, caçando
Ysera. Eu vou lhe dizer... O quê? - Houve uma pausa. ─ Muito bem. Eu tenho que ir. Eu amo você, maninha.
─ Eu amo você também.
Ela desligou, imaginando o que ele ia dizer sobre Wolf. Mas, em seguida, sua mente voltou a se fixar na
origem de todo esse transtorno. Sua vida estava tumultuada novamente. Assim como a de Gabriel. E ela sabia a
quem culpar. Então, telefonou para Michelle. E falou tudo o que pensava sobre ela num sermão que durou cerca
de cinco minutos. Quando desligou, tinha certeza de que nunca mais queria ver, ouvir ou falar com Michele
novamente.
Wolf segurou-a enquanto ela chorava.
─ Eu nunca pensei que Michele pudesse fazer isso conosco. Eu sabia que ela queria ser jornalista, Gabriel e eu
até a incentivamos. Mas eu nunca imaginei...
─ Shh. - Ele sussurrou baixinho, embalando-a contra ele. ─ A vida continua. As pessoas fazem coisas terríveis.
Em seguida, eles pagam caro por isso.
A voz de Wolf estava cheia de remorso.
Ela se inclinou para trás e olhou para ele.
─ Eu nunca o culpei.
─ Eu me culpei. - Ele afastou o longo cabelo preto do belo rosto delicado. Eu quase morri. Mas, continuava
ouvindo a sua voz, sussurrando para mim. Agarrei-me a isso porque pensei que você poderia gostar de mim, ao
menos um pouco...
Ela aconchegou-se mais a ele.
─ Um pouco! - Ela lamentou. E se aconchegou ainda mais.
Ele estava muito quieto. Estava pensando, somando os fatos em sua mente. A resposta ansiosa de Sara a ele,
apesar do seu passado trágico. O fato de Sara amar as mãos dele em seu corpo. A forma como ela reagia quando
ele a tocava, sempre se doando, se entregando, correspondendo...
─ Você me ama. - Ele sussurrou, em tom espantado.
Ela engasgou.
─ Seu homem grande e estúpido. É claro que eu te amo. Por qual outra razão eu iria deixá-lo me tocar se não
fosse assim?
Ele riu.
─ Homem grande e estúpido?
Ela se inclinou para trás, corando.
─ Bem. Não estúpido. Mas bem grande.
Os lábios de Wolf franziram, as sobrancelhas arquearam, e seus olhos brilhavam divertidos.
Foi o suficiente para o rosto de Sara ficar escarlate.
─ Não era isso que eu quis dizer! - Ela exclamou.
Ele apenas riu. A puxou para perto e a beijou.
─ Sinto muito. Eu não pude resistir. - Disse Wolf.
─ Tome cuidado eu sei onde está a vassoura. - Observou Sara.
─ Não. Eu vou me redimir. Grayson! - Gritou Wolf.
Ela veio correndo.
─ O quê?
─ Olhe pela janela, e veja se avista os macacos voadores.
Amélia, que conhecia a piada entre eles, retrucou.
─ Senhor, eu vou encontrá-los e abatê-los, ou morrerei tentando. Eu juro. - Ela colocou a mão sobre o coração,
antes de se retirar com um sorriso nos lábios e deixá-los a sós.

***

Os jornalistas invadiram a cidade. Ocuparam todos os quartos do hotel, lotaram os restaurantes e pressionaram
os moradores locais tentando descobrir alguma coisa sobre Sara, a irmã de Gabriel.
Mas, ambos, Billings e Montana, assim como Jacobsville e Comanche Wells, Texas, eram pequenas
comunidades unidas, e não gostavam de estranhos. Nem mesmo de forasteiros que ofereciam grandes somas de
dinheiro em troca de informações. Os jornalistas conseguiram alojamento e alimentação. Mas não informação.
Então, eles tentaram invadir o rancho. O que também foi inútil. Wolf Patterson os interceptou no caminho que
levava a entrada, junto com um grupo fortemente armado de cowboys e alguns agentes federais. Os repórteres
foram avisados de que não poderiam dar um único passo em terras federais ou arcariam com as consequências.
Claro, que eles não sabiam onde terminava a propriedade dos Brandon ou começava as terras federais, e ninguém
lhes diria. Wolf fez mais alguns comentários irônicos, e voltou para casa.

***

Gabriel entrou em contato uma semana depois, perplexo.


─ Você viu as notícias?
─ Não, estamos boicotando a imprensa. - Disse Sara pelo Skype, estudando o rosto angustiado do irmão. ─
Notícias ruins, certo?
─ Na verdade, Michelle apareceu na televisão em rede nacional para me defender. - Disse ele. ─ Ela encontrou a
única testemunha que sabia da nossa inocência, e contou para todo o mundo ouvir. Ela escreveu artigos, foi a talk
shows, até mesmo se reuniu com o detetive que estava investigando o nosso caso. - Ele corou. ─ Eu acho que ela
realmente não sabia que era eu.
Sara se encolheu.
─ Contou a ela o que eu também disse? - Ele perguntou.
Ela assentiu com a cabeça.
─ Ela nunca vai me perdoar. - Disse Sara.
─ Com o passar do tempo. - Wolf disse por trás dela, deslizando seus braços ao redor de seus ombros e dando-
lhe um beijo suave em sua têmpora. ─ Ela vai perdoar. E a você também Gabriel. Vai dar tudo certo. Eles estão
retirando as acusações, não é?
─ Sim. E os verdadeiros culpados estão sobcustódia. Mas eu não vou voltar para casa agora. - Disse Gabriel com
um sorriso. ─ Eu recebi uma oferta de emprego. Vocês não vão adivinhar de quem.
─ Quem? - Sara provocou. ─ Ok, fala logo.
─ Da Interpol. - Disse ele. ─ Eles gostaram do trabalho que fiz aqui. Eles disseram que eu seria uma boa adição à
equipe. Então, eu estou pensando em aceitar. Por enquanto, pelo menos.
─ O que Eb acha?
─ Ele concordou plenamente. - Ele respondeu. ─ Ele disse que preciso de uma mudança de ritmo, como essa. Ele
tem um monte de novos alunos que podem me substituir, quando precisar de ajuda.
─ Eu poderia ir. - Disse Grayson.
─ Não! - Os três gritaram juntos.
Ela ergueu as mãos para o alto, sorriu com prazer genuíno e voltou para a cozinha.
─ Ela é o nosso tesouro. - Disse Sara. ─ Nós nunca vamos deixá-la ir.
Wolf riu.
─ Não sem algemas e uma arma, de qualquer maneira.
─ Ela realmente é um tesouro. - Gabriel concordou. ─ Ela salvou minha vida uma vez. Não esqueça, eu não disse
nada. Foi uma missão secreta.
─ Uau! - Sara exclamou.
─ Sim. Grayson está em uma classe própria. Bem, é melhor eu ir. Mas eu vou ficar em contato. Eu devo voltar
para casa em poucos meses. A tempo para o nascimento do bebê, espero.
Sara olhou para Wolf. -
─ No inverno. - Ela sussurrou.
─ Neste inverno. - Gabriel disse com um sorriso grande. ─ Eu vou ser tio. Eu não posso esperar. O que vai ser?
─ Um bebê. - Wolf disse contrariado. ─ Você não está ouvindo?
─ Um menino ou uma menina? - Insistiu Gabriel.
─ Nós não temos nenhuma ideia. - Sara disse com os olhos escuros cintilando de felicidade, enquanto colocava a
mão no braço do marido, que a estava envolvendo. ─ Queremos que seja uma surpresa.
─ Eu adoraria ter uma menina com olhos dessa minha outra menina aqui. - Wolf confessou.
─ E eu adoraria ter um menino com olhos azuis das geleiras do Ártico. - Ela respondeu.
─ Eu adoraria se fossem gêmeos. - Disse Gabriel.
─ O quê? - Perguntou Sara.
─ Um de cada. E isso poderia acontecer. Nós temos gêmeos em ambos os lados da família.
─ Que maravilha. - Disse Wolf, sorrindo de orelha a orelha.
─ Então me mantenha informado, ok? - Perguntou Gabriel.
Ambos sorriram.
─ É claro. - Concordou Sara.

***

Os jornalistas finalmente foram embora, mas não até que as flores do verão secaram e caíram de suas hastes.
Um novo escândalo político nacional os levou de volta para Washington, DC.
─ Já era hora. - Disse Sara quando viram a notícia.
─ Sim. O que o obstetra disse? - Wolf perguntou, sorrindo. ─ Eu deveria ter ido com você, mas você não me
deixou ir.
─ Lá só tem mulheres. - Ela disse fingindo ciúme. ─ Eu não vou deixá-las ver um homem estonteante como
você.
Ele franziu os lábios.
─ Elas estão todas grávidas, não é? Não há muito risco de elas quererem me sequestrar.
─ Eu quero raptar você toda vez que o vejo. - Disse ela, com o coração nos olhos.
Ele a puxou para perto e a beijou.
─ Irei a qualquer lugar que você quiser. Sempre que você quiser.
Ela traçou com os dedos os padrões do estampado na frente da camisa que ele usava.
─ Você acha que eu estou sexy desse jeito, toda inchada e tudo mais?
─ Você me deixa sem fôlego. - Ele disse com a voz rouca.
─ Grayson foi à cidade para comprar mantimentos. - Ela disse com o olhar fixo para a camisa de Wolf. ─ Ela vai
demorar mais ou menos uma hora, pelo menos...
Wolf a ergueu nos braços quando ela estava no meio da frase e a levou diretamente para o quarto.
─ Oh! - Ela exclamou quando Wolf a colocou na cama, fechou a porta e começou a tirar as roupas.
─ Você disse as palavras mágicas. - Disse wolf quando estava totalmente nu. Ele foi para a cama,
magnificamente excitado, e de forma muito eficiente a despiu.
─ Que palavras... Mágicas. - Ela conseguiu dizer antes dele beijá-la.
─ Grayson saiu de casa. - Wolf deslizou a boca pelo interior das coxas dela, amando os gemidos suaves que ela
deixava escapar. ─ A presença dela me inibe à noite. Temos que construir uma bendita casa para ela, assim não
precisaremos fazer amor em silêncio.
─ Wolf! - Ela gritou quando os movimentos da boca experiente a fizeram arquear os quadris invadida por uma
onda de prazer e explodir em fogos de artifício.
─ Era a esse som delicioso de prazer que você acabou de emitir que eu estava me referindo. - Ele riu baixinho. ─
Eu gosto quando posso fazer você gritar de prazer.
─ Oh... Meu Deus! - Ela gritou novamente.
─ Outro som delicioso. - Ele deslizou pelo corpo macio e quente até sua boca capturar um mamilo rígido, mas
ele se inclinou para trás rápida e inesperadamente.
Ela viu o que aconteceu e riu.
─ Oh, querido, eu sinto muito. Eu me esqueci de avisar... às vezes, de uns tempos para cá, meus seios vazam. -
Ele estava secando um pequeno esguicho em sua bochecha. E riu. ─ Você não está chateado, está?
Ele franziu os lábios.
─ Eu acho que é extremamente sexy. - Ele murmurou. E moveu os quadris para separar as longas pernas dela. ─
Sabe de uma coisa que eu acho que também é extremamente sexy? Hmm?
─ O quê? - Ela perguntou ofegante.
Wolf entrou nela lentamente, escorregando bem fundo. Ela fez outro som, um som mais alto e trêmulo,
quando ele movimentou os quadris para se acomodar dentro do calor úmido que o acolhia.
─ Esse pequeno som que você acabou de fazer... - Ele sussurrou. ─ Você acha que pode fazê-lo outra vez? - Ele
repetiu o movimento, fazendo-a gemer. E riu fascinado.
─ Eu não posso... acompanhá-lo. - Ela ofegou.
─ Está chegando lá. - Sussurrou Wolf, com outra investida, amando o jeito com que os músculos internos de
Sara se apertavam em torno dele, intensificando o prazer. Ele gemeu. ─ Sim. Faça isso!
─ Ensine-me como fazer!
─ É o que pretendo. - Respondeu. ─ Mas não agora!
─ Claro que não agora. - Ela gemeu.
Wolf aumentou o ritmo das investidas em busca de satisfação. Movimentava os quadris contra os dela em um
ritmo rápido, a fricção cada vez mais intensa os levou a uma explosão de prazer que fez Sara gemer, gemer e
gemer sem parar, antes de emitir, finalmente, um grito agudo, suas unhas arranhando a pele dos quadris de Wolf,
enquanto a agonia do clímax a dominava.
Wolf estava com ela a cada passo do caminho, sentindo o mesmo prazer, dividindo-o. Finalmente, o corpo
forte e musculoso enrijeceu alcançou o orgasmo. Ele ofegou enquanto seu corpo permanecia completamente
aderido ao dela em uma ligação sólida de paixão que parecia nunca acabar.
Ele ainda estava tremendo quando finalmente desabou sobre ela.
─ Isso está ficando cada vez melhor. - Ela sussurrou, atordoada.
─ Cada vez melhor. - Concordou ele, roçando a boca nos lábios macios dela. Moveu-se mais uma vez e gemeu.
─ Você... você já está pronto outra vez? - Ela perguntou.
Ele levantou a cabeça e olhou em seus olhos, deixando-a ver o que estava refletido neles enquanto se tornava
mais rígido e inchado dentro dela.
Ela ofegou com as sensações que ele estava provocando nela.
─ Você...
─ Sim. - Ele se inclinou e a beijou suavemente enquanto seus quadris começaram a se mover. ─ Estou muito
mais potente do que costumava ser. São todos esses gritinhos que você dá. - Disse ele maliciosamente ─ Mas,
que você não se atreve a deixar escapar quando Grayson está dormindo no final do corredor. - Os quadris de
Wolf começaram a se mover rápido, e ele gemeu. ─ Oh, droga. - Ele sussurrou, tremendo. ─ É muito cedo!
─ Não, não é. - Ela disse, enquanto se movia no mesmo ritmo que ele, seu corpo em sintonia com o dele,
sentindo o prazer de Wolf crescer, enquanto seu próprio corpo se arqueava para receber cada impulso rápido. ─
Isso... - Ela sussurrou. ─ Isso, isso, isso!
Wolf gritou quando uma onda de prazer intenso o envolveu. Ele moveu os quadris contra os dela novamente
e estremeceu, sentindo o olhar de Sara fixo seu rosto.
Ao abrir os olhos viu que ela o observava. O êxtase foi tão intenso que quase o fez desfalecer. Ele estremeceu
uma vez, duas vezes, e a sentiu enrijecer embaixo dele ao alcançar o próprio clímax.
Muito mais tarde, Wolf rolou para o lado, com os corpos ainda encaixados, deitou-se de costas, acomodando-
a em cima dele.
─ Você ficou me olhando. - Ele provocou.
─ Sim. É... não sei, observá-lo torna o ato... mais prazeroso.
Ele riu.
─ Sim. Muito mais. Eu também gosto de observar você.
─ Não há mais lembranças ruins? - Ela perguntou deitada em seu peito largo e úmido onde descansava a sua
bochecha.
─ Nenhuma. - Ele beijou o cabelo dela. ─ E você?
─ Sem mais lembranças ruins. - Ela suspirou e fechou os olhos. ─ Eu não sabia que era possível ser tão feliz.
─ Nem eu.
Ela deixou escapar um longo suspiro.
─ Tem um carro vindo pela estrada. - Sara avisou.
─ O gatilho voltou. Rápido, vamos nos vestir e fingir que estávamos jogando damas.
Ela riu em voz alta.
─ Covarde! - Acusou ela.
─ Tenho medo de Grayson. - Ele brincou.
─ Eu não tenho.
Levantaram-se e vestiram-se rapidamente. Quando Grayson estava chegando, eles saíram pela porta dos
fundos para ajudá-la a carregar os mantimentos. Ou pretendiam ajudá-la. Pois quando Sara chegou ao primeiro
degrau desmaiou.

CAPÍTULO 14

Wolf ficou desesperado. Levou-a para o sofá e foi para outra sala telefonar para o médico, enquanto Grayson
providenciava uma toalha úmida e colocava na testa de Sara.
Sara começou a se recuperar uns segundos depois, em seguida, abriu os olhos.
Wolf voltou um minuto depois, com o semblante fechado.
─ Eu chamei uma ambulância. O obstetra do hospital vai nos encontrar na sala de emergência.
─ Eu só desmaiei. - Sara protestou com voz fraca.
─ Melhor prevenir do que remediar. - Disse Wolf, retirando os cabelos longos do rosto dela. ─ Faça isso por
mim. Estou apavorado.
Sara olhou para cima, pronta para sorrir. Mas o rosto de Wolf estava pálido. Seus olhos estavam
atormentados.
─ Eu vou ficar bem. - Ela disse com a voz rouca, segurando a mão dele com força.
Ele não parecia aliviado. Realmente parecia estar aterrorizado.

***

O Dr. Hansen os estava esperando na emergência junto com outro médico, que também a examinou. Eles
fizeram perguntas e tomaram notas, enquanto Wolf segurava a mão dela e parecia extremamente assustado.
─ Vai dar tudo certo. - Disse o Dr. Hansen. ─ O Dr. Butler irá monitorizar a pressão arterial de Sara e verificar
como está o problema cardíaco.
─ Que problema cardíaco? E o que há de errado com a pressão arterial de Sara? - Wolf explodiu, sem disfarçar o
medo nos olhos azuis.
─ Acalme-se, Sr. Patterson. - Disse o Dr. Hansen suavemente, colocando a mão no ombro de Wolf. ─ A pressão
arterial de Sara não está perigosamente alta e as doenças cardíacas sozinhas não constituem um perigo. Ela
apenas apresenta condições que necessitam de monitoramento, isso é tudo.
─ Se for algo sério, talvez devêssemos considerar levá-la a um hospital maior na cidade. - Disse Wolf.
─ Não. - Sara disse friamente. ─ Não, eu não vou!
─ Sara. - gemeu Wolf. ─ Por favor, você tem que ouvir o médico!
─ Isso não será necessário. - O Dr. Hansen disse suavemente. ─ Eu garanto a você que não é necessário. Temos
um hospital maravilhoso aqui. Ele é pequeno, mas o nosso setor de obstetrícia já ganhou prêmios. Temos
algumas das melhores enfermeiras do estado. Ela vai estar em boas mãos.
─ Ela não vai estar em perigo? - Wolf perguntou com voz tensa. Os olhos ainda refletindo o medo que não
conseguia esconder.
─ Não. Você tem a minha palavra. - Disse o Dr. Hansen. ─ E não faço isso com muita frequência.
Ele suspirou. Seus olhos pousaram em Sara.
─ Tudo bem.
─ Sua pressão arterial está muito boa. - Disse o Dr. Hansen. ─ Ideal na realidade. E você está radiante. - O
médico sorriu. ─ Vá para casa e acalme seu marido antes que seja necessário interná-lo!
Sara conseguiu dar um sorriso, mas estava preocupada. Wolf estaria procurando uma saída? Será que ele
queria que ela interrompesse a gravidez? Por isso ele fez todas essas perguntas ao médico? Ela ficou silenciosa e
tristonha durante todo o caminho para casa.
Grayson os encontrou na porta.
─ Como você está? - Ela perguntou preocupada.
─ Eu estou bem. - Disse Sara, mas não estava sorrindo.
─ Grayson, você pode ir à farmácia e comprar um dos mais caros aparelhos de pressão que encontrar?
─ Aparelho de pressão? - Perguntou a Wolf.
─ Sim, enquanto você estiver procurando, tente encontrar um substituto decente para o sal. - Disse Wolf. Ele
retirou algumas notas da carteira e entregou-as a Grayson.
─ Eu volto logo. - Disse Amélia, sorrindo para Sara. ─ Tudo vai dar certo. Nós vamos cuidar bem de você.
Sara apenas balançou a cabeça.
Mas quando Amélia tinha ido embora, ela virou-se para Wolf com olhos assustados.
─ Você realmente não quer o bebê, certo? Eu nunca imaginei precisar de algum contraceptivo. Então eu não
sabia muito sobre isso, na verdade eu não sabia nada relacionado a sexo. Eu deveria... - Wolf a pegou e sentou-se
com ela no sofá. Seu rosto estava crispado. ─ Desculpa. - Disse ela e começou a chorar.
Wolf a puxou contra o corpo estremecendo quando sentiu o calor das lágrimas de Sara contra seu pescoço.
Envolveu-a com força nos braços, embalando-a. E ambos estremeceram.
─ Muito bem. - Ele sussurrou. ─ Este é o momento em que colocamos todas as cartas na mesa. - Os braços
tensos se apertaram ainda mais fortemente em torno do corpo de Sara. ─ Eu quero o bebê. Ele será a maior
alegria da minha vida. Mas não sem você, Sara. Eu posso viver sem um bebê. Mas eu não posso, de forma
alguma, viver sem você! - Sara prendeu a respiração, mal conseguindo acreditar. ─ Quando eu pensei que você
tinha feito um aborto, por ter me visto com aquela mulher no concerto, eu tive a certeza que você nunca poderia
perdoar a si mesma ou a mim por fazer algo tão doloroso. - Wolf apertou ainda mais os braços em torno de Sara,
quase a machucando. Ela nem sequer sentia. ─ Então eu peguei uma arma e fui procurar Ysera. Eu teria deixado
ela me matar, porque eu não poderia, não queria viver sem você em minha vida.
─ Oh, meu Deus. - Ela gemeu, trêmula.
─ Eu não fiz outra coisa, desde que nos conhecemos, senão magoá-la. Tudo por que você era linda e doce, e eu te
queria tanto que chegava a doer. Mas eu não acreditava que você poderia se apaixonar por um homem velho que
tinha tantas cicatrizes no corpo e no coração. Ysera me diminuía, me humilhava, e me usava. À noite em que
estivemos juntos pela primeira vez, eu ainda estava sob os efeitos desse trauma. - Ele fechou os olhos e
estremeceu. ─ Quando fizemos amor, ou quase. Eu a fiz chegar mais de uma vez ao orgasmo e fiquei
observando, e a deixei me observar também. Eu não tinha ideia dos traumas que você carregava. Eu estava tão
envolvido em fazer amor com você, que não consegui... parar. - Ele confessou. ─ Eu nunca tinha sentido nada
parecido. Então, você fugiu, e eu percebi o quão baixo tinha descido.
Ela tocou seu rosto com ternura, sem falar, apenas olhando para ele. Os olhos de Wolf estavam úmidos. E ela
os beijou.
Wolf roçou a bochecha contra a dela.
─ Então, eu fiquei bêbado. Nunca tinha bebido mais do que qualquer outro homem bebe socialmente. Eu não
conseguia aceitar o que eu fiz com você. Saber o que o seu padrasto tinha feito quase me matou. - Seus braços
contraíram. ─ Então, eu pedi para Emma Cain vir aqui, porque eu estava com medo de que você fizesse algo
desesperado. E eu sabia que se perdesse você, eu não poderia continuar vivendo.
─ Você... nunca me disse nada. - Ela começou.
Wolf suspirou e olhou para ela sem nenhum disfarce.
─ Eu amei você... - Ele sussurrou com uma ternura de tirar o fôlego. - Desde que a conheci. Eu amei você. Eu
precisei de você. Eu cheguei ao fundo do poço quando a deixei ir embora. Ysera teria matado você. Eu tinha que
impedi-la. De qualquer maneira. Eu não tinha planejado encontrá-la pessoalmente, mas quando pensei que você
tinha feito um aborto, e que nunca mais a teria, a vida não tinha sentido para mim. - Ela mordeu o lábio inferior.
E ele a beijou suavemente. ─ Então eu fui para a guerra, esperando morrer. Eu não lembro muito bem como tudo
aconteceu. Eu senti como se alguém tivesse me acertado por trás, e comecei a perder a consciência. Ouvi minha
arma disparar. Eu me lembro de ter visto um fio de sangue escorrer da boca de Ysera...
─ Uma vez você disse que eu parecia com ela.
Ele sorriu.
─ Não. Nenhuma semelhança. Eu percebi isso quando vi Ysera novamente. Ela não era bonita, terna ou
amigável, Sara. Era uma cobra. Ela ficou surpresa quando eu não correspondi a seus joguinhos. Ela não
conseguiu acreditar. Ela sabia que havia outra pessoa. E me ameaçou. - Ele não podia contar o tipo de ameaça
que Ysera fez. Sua mandíbula estava tensa. ─ Eu não acredito que pretendia matá-la. Mas talvez,
inconscientemente, quisesse. Mesmo na prisão, Ysera poderia nos fazer mal. - Ele procurou seus olhos. ─ Ela
não é a única pessoa que matei, Sara. Isso é parte do que eu sou. Eu a desejo e a amo, mas quero ter certeza que
você entenda com quem está se envolvendo. Eu não...
Ela colocou a boca sobre a dele com tanta ternura que era como um sussurro de sentimento.
─ Nunca vou deixar você. - Ela sussurrou. ─ Eu vou te amar até morrer, e mais além. E nada, nada que você
disser pode mudar isso.
Uma alegria intensa o invadiu deixando-o extasiado. Wolf a abraçou, embalando-a, o rosto enterrado na
lateral do pescoço delicado e os braços trêmulos.
─ Depois de tanto terror a esperança. - Suspirou Wolf.
─ Esperança. - Ela se agarrou a ele. E riu. ─ Eu nunca fui tão feliz em minha vida!
─ Nem eu. Nem mesmo em sonhos.
Sara acariciou o cabelo escuro.
─ Espero que você tenha me dado um menino. - Ela sussurrou. ─ Um que se pareça com você.
Ele se inclinou para trás.
─ Sara, o bebê...
─ Será lindo. - Disse ela com um sorriso. ─ E eu vou ficar bem. Muito bem. Ninguém que está feliz pode morrer.
Sério.
Ele pareceu relaxar um pouco.
─ Nada mais de sal. - Disse ele. ─ Nada mais de croissants gordurosos. Nada de se excitar demais...
Ela o calou com um beijo.
─ Eu não vou parar de fazer amor com você. - Ela disse com uma risada abafada. ─ Nem se preocupe em sugerir.
─ Talvez seja melhor sermos menos apaixonados. - Ele murmurou.
─ Sem chance. - Ela disse, mordiscando o lábio inferior dele. ─ Eu amo quando você faz amor comigo.
─ Eu amo o jeito como você corresponde.
─ Além disso, o Dr. Hansen disse que fazer amor é saudável e não machuca o bebê. Estou tomando o remédio.
Minha pressão arterial está estável. E nós vamos ter um bebê!
Ele se sentou no sofá e sorriu possessivo.
─ Está bem.
─ Só isso, assim tão fácil?
Ele a beijou.
─ Nunca discuto com mulheres grávidas.
─ É bom continuar assim. - Ela brincou.
Ele sorriu e a beijou novamente.

***

Mais tarde naquela noite, ela ligou seu laptop no quarto de hóspedes, um dos dois que estava vago. Grayson
estava ocupando o outro.
─ Você se importa. - Ela perguntou a Wolf. ─ Tenho que enviar um e-mail para Gabriel.
─ Eu não me importo. - Ele disse um pouco rápido demais. ─ Eu preciso enviar alguns também. Trinta minutos?
─ Sim.

***

Sara se sentiu culpada quando entrou no jogo. Esperava que ele estivesse online. E de fato estava.
Rednach enviou uma mensagem.
Como foram as coisas?
Muito difíceis. - Digitou ela. Mas melhoraram muito. Eu nunca pensei que era possível ser tão feliz e tenho um
futuro maravilhoso a minha espera.
Ele escreveu alguns caracteres de risos e em seguida, uma resposta.
O mesmo acontece comigo. Agora eu tenho uma família. Eu não posso acreditar. Me sinto muito melhor do que
se tivesse ganhado na loteria.
Ela hesitou.
Eu tenho algo triste para lhe dizer.
Eu acho que sei o que é. Você não vai mais jogar.
Eu sinto que é o que devo fazer. Eu não quero ter segredos com ele.
Vai contar a ele sobre mim? - Perguntou ele.
Sim.
Você vai contar a ela sobre mim também, certo?
Sim. - Ele concordou. Em um casamento feliz não existe lugar para segredos.
Estou muito feliz por você. - Ela digitou.
Sim, estou muito feliz por você, também. - Ele concordou.
Eu adorei cada minuto que passei on-line com você, obrigada por estar comigo nos momentos mais difíceis da
minha vida. - Ela digitou.
Você tem feito o mesmo por mim. Vou sentir sua falta.
Vou sentir sua falta. Adeus, meu amigo. - Ela digitou.
Após uma breve hesitação, ele respondeu.
Adeus, minha amiga.
Ela fechou o jogo, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Desligou o computador e foi para a sala, o penhoar
rosa pálido esvoaçando aos seus pés, os longos cabelos negros caindo como seda em suas costas.
Wolf estava de pé junto à janela, usando apenas a calça do pijama. Amélia há muito tempo tinha ido para a
cama e os tinha deixado sozinhos.
Quando Wolf virou para olhar para ela, exibindo o magnífico peito, tinha uma expressão de tristeza refletida
em seus olhos.
Ele se inclinou mais para perto dela.
─ Você andou chorando. - Disse ele. ─ O que aconteceu?
Ela pegou a mão dele e o guiou até uma poltrona. O fez sentar e se sentou em seu colo.
─ Eu tenho uma confissão a fazer.
─ Você está fugindo com Psy porque não pode parar de ouvir Gangham Style no YouTube. - Brincou.
Ela fingiu socá-lo.
─ Não. Preste atenção.
─ Está bem.
Ela mordeu o lábio inferior.
─ Eu não fui honesta com você. Eu jogo. Eu não tenho feito isso ultimamente, porque muitas coisas foram
acontecendo na minha vida. Mas é um jogo online em que você joga com outras pessoas. Eu sei que você gosta
daqueles jogos de console, mas este é jogado em um PC. É um jogo de fantasia, uma espécie de luta, ele é
chamado de World of Warcraft.
Os olhos de Wolf estavam arregalados de surpresa.
Sara pensou que ele estivesse chocado com a revelação. Ela fixou os olhos no peito largo dele.
─ Enfim, há alguns anos eu jogo com um homem. Nós enfrentamos juntos campos de batalha e masmorras. Eu
disse a ele que não tinha o direito de permanecer no jogo, porque eu me casei e meu marido não conseguiria
entender. E eu não quero estar na companhia de outro homem, mesmo em um cenário de fantasia...
Wolf estava imóvel. Ele nem sequer parecia respirar.
─ Eu disse a mesma coisa a uma mulher, no mesmo jogo. - Seus olhos procuraram os dela. ─ O seu personagem
no jogo por acaso é uma bruxa?
Seus lábios se separaram. Ela olhou em seus olhos.
─ Rednacht. - Ela sussurrou, hesitante.
─ Sim. - Ele tomou o rosto dela nas mãos. ─ Casalese? - Ele sussurrou.
─ Oh, meu Deus. - Ela corou. Olhou para ele como se nunca o tivesse visto antes e começou a chorar. ─ Eu me
casei com meu melhor amigo! - Chorando ela o abraçou com toda a força.
Ele retribuiu o abraçou, rindo, tão feliz que não conseguia encontrar as palavras.
─ Eu não acredito nisso! Agora eu entendo porque Gabriel não queria lhe dizer o nome verdadeiro de Hellie.
Ela se inclinou para trás.
─ E qual é?
Ele riu.
─ Hellscream! - Gritou. ─ Dei a ela o nome do líder da Horde. É claro que eu o odeio, mas eu amo Hellie.
Ela riu também.
─ Todos esses anos e nunca suspeitei... - Ela hesitou. ─ Nos solidarizamos falando das pessoas que estavam nos
magoando, e éramos nós mesmos.
─ Sim. - Ele traçou a bochecha dela com a ponta do dedo. ─ Eu causei alguns maus momentos. E você me
ajudou a superar momentos difíceis.
─ Você também.
Ela se aninhou nos braços fortes.
─ Nós podemos correr campos de batalha juntos novamente. - Ela riu.
─ E masmorras. - Disse ele.
─ Eu te amo. - Ela sussurrou.
─ Eu também te amo. - Ele respondeu.

***

A partir daquele dia, eles jogaram a maioria das noites, encantados ao descobrirem que jogavam muito melhor
juntos agora que conheciam a identidade um do outro.
Mas Wolf continuava preocupado com a gravidez dela. Quando o outono chegou, Gabriel telefonou para Sara.
─ Adivinha o que aconteceu? - Ele perguntou sorrindo.
─ O quê?
─ Michelle e eu vamos nos casar!
─ Oh, Gabriel, eu estou tão feliz. Disse a ela que eu não quis dizer aquilo?
─ Sim. Ela entendeu. - Ele hesitou. ─ Eu não contei sobre você e Wolf. Quero dizer, ela sabe que vocês estão
casados, mas não sabe sobre o bebê.
─ Não conte nada. - Disse Sara. ─ Eu estou tendo alguns problemas. Nada grave, mas não quero que ela se
preocupe. Eu também não vou dizer. Ok?
─ Você vai ficar bem?
─ Eu tenho uma babá excepcional, vigia cada passo que dou e cada migalha que como. - Disse ela.
─ Wolf Patterson? - Perguntou Gabriel.
─ Ele também. Mas eu quis dizer Gatilho Grayson. - Ela respondeu. ─ Os dois realmente esconderam o sal! Eu
não consigo encontrá-lo em lugar algum.
─ E você não vai encontrá-lo, bebê! - Wolf gritou do quarto ao lado.
─ Isso mesmo. - Amélia acrescentou também.
─ Desmancha prazeres. - Ela murmurou.
─ Todos nós nos importamos com você. - Disse Gabriel. ─ Então, comporte-se.
─ Está bem. De um abraço em Michelle por mim. Estou muito feliz por ambos. Gostaria de assistir ao
casamento...
─ Você vai estar lá em espírito. O Reverendo Jake Blair vai nos casar.
─ Eu gosto dele. - Ela disse, sorrindo.
─ Eu também. Manteremos contato.
─ Ok. Seja feliz!
─ Eu pretendo. Tchau, querida. Eu amo você.
─ Eu também te amo.
Ela desligou.
─ Gabriel vai casar com Michelle. - Ela disse, entrando na cozinha.
─ Que boa notícia. - Disse Wolf. ─ E eu que pensei que eles nem estavam se falando.
Ela sorriu e o beijou.
─ Isso mostra que você não sabe de tudo. Onde está o sal? - Sussurrou, roçando os lábios aos dele de maneira
provocante.
─ Eu não sei.
─ Sim, você sabe. Vamos. Diga-me.
─ Este não é o sal que você está procurando. Este substituto de sal vai servir bem. - Ele fez um gesto com a mão
como um Cavaleiro Jedi que faz um truque com a mente.
Ela fez uma careta desgostosa.
─ O substituto do sal terá que servir. - Amélia acrescentou, imitando o movimento que Wolf fez com as mãos.
Ela olhou furiosamente de um para o outro e se sentou com um longo suspiro.
─ Ok, será o suficiente. - Ela repetiu mal humorada. Mas por dentro estava satisfeita, por contar com a proteção
dos dois.

***

Pouco tempo depois Gabriel e Michelle ligaram para anunciar que Michelle estava grávida.
Imensamente feliz Sara riu alegremente, mas teve o cuidado de manter a câmara focada apenas em seu rosto.
Ela estava com o rosto um pouco inchado nos últimos dias de gravidez, mas pelo menos eles não podiam ver sua
barriga. Ela os parabenizou e lamentou não estar grávida também.
Quando desligou, Wolf estava balançando a cabeça em desaprovação.
─ Meu Deus, você parece um balão inflado! E disse que gostaria de estar grávida?
─ Cale-se. - Disse ela com firmeza, ou terá fígado acebolado para o jantar!
Wolf fez uma cara de nojo e ela o beijou. ─ Eu não quero preocupar Michelle. Gabriel sabe e disse que não
ia contar a ela, ele me disse que ela está tendo alguns problemas. Nós não queremos deixá-la perturbada.
─ O que você quiser bebê. - Ele disse calmamente. ─ Qualquer coisa que você quiser.
─ Qualquer coisa? - Ela sussurrou.
─ Tudo.
Ela se inclinou na direção dele.
─ Sal!
Wolf riu.
─ Tudo menos isso.
Ela balançou a cabeça e voltou para a sala.

***

Seu bebê nasceu em meados de fevereiro, e não no começo do mês de março como estava previsto, a neve
caía sem cessar, mas chegaram ao hospital sem problemas. O trabalho de parto não foi demorado. Mas o
resultado foi absolutamente inesperado. Para Wolf, pelo menos. Sara já sabia há algum tempo, mas não queria
preocupar Wolf mais do que ele já estava.
Ela riu, exausta, mas feliz.
─ Gêmeos. - Ele exclamou, lutando contra as lágrimas. ─ Um menino e uma menina!
─ Sim, meu amor. Um casal.
Ele se inclinou e a beijou. Puxou um lenço de papel da caixa ao lado da cama e enxugou os olhos.
─ Posso segurá-los? - Ela perguntou a enfermeira.
─ Quando estiverem limpos. Você vai precisar de um roupão, Sr. Patterson.
─ Fico bem de vermelho. - Ele comentou. ─ Algo em seda vermelha, talvez, combinando com saltos altos.
Sara o socou no braço.

***

A enfermeira trouxe os gêmeos. Sara segurou a menina enquanto Wolf o fitava através das lágrimas.
─ Bonito. - Sussurrou. ─ Ambos são.
─ Como é que vamos chamá-los. - Ela perguntou.
─ O nome da minha avó era Charlotte. - Sugeriu ele.
Ela sorriu.
─ Eu gosto de Amélia, também.
─ Em homenagem a Gatilho Grayson? - Perguntou ele. ─ Sim. Eu gosto disso também.
─ Charlotte Amélia então. E o nosso filho? Seu primeiro nome deve ser Wofford.
─ Um Wolf na família é o suficiente. - Disse ele com firmeza. ─ Deveríamos dar o nome do seu irmão.
─ Gabriel vai querer colocar o nome dele no próprio filho. - Ela riu. Seus olhos procuraram os dele. ─ Você tem
um nome do meio?
Ele balançou a cabeça afirmativamente.
─ Dane.
─ Eu gosto. E o nome do meu pai era Marshall.
─ Então, será... Marshall Dane Patterson.
Ela sorriu.
─ De acordo.
Ele riu.
─ Bem. Vou à administração do hospital comunicar os nomes para que eles providenciem as certidões de
nascimento.
Sara e Wolf levaram os bebês para casa, apesar da neve que se acumulava em todos os lugares. Para surpresa
de todos, Gabriel e Michelle vieram para o Wyoming visitar os bebês.
Michelle estava em estado avançado de gravidez. Ela abraçou Sara e chorou ao ver os bebês. Como não
conhecia Wolf muito bem deu nele um abraço hesitante.
─ Eu não posso acreditar que você não me contou! - Disse Michelle. ─ Eu teria vindo imediatamente para
ajudar!
─ Eu tive muita ajuda, e não queria preocupar você. Como você está? - Sara perguntou.
Michelle sorriu.
─ Não era o que eles estavam pensando. - Disse ela, sorrindo. ─ Eu fiz todos os tipos de exames antes de
descobrirem que tenho Síndrome do intestino irritável. Estou em tratamento. O único problema que tenho agora é
azia. - Ela suspirou. ─ Eu teria lhe contado, se tivéssemos tido mais contato.
─ Eu estava preocupada. Eles também estavam. - Ela indicou Wolf e Amélia. ─ E eu estava com medo de deixar
transparecer isso.
─ Eles são tão bonitos. - Michelle disse, fascinada com as crianças. ─ Posso segurar um? Wolf?
Ele se virou, sorrindo, e lhe entregou Dane.
Michelle não conseguia esconder a emoção.
─ É simplesmente perfeito. Como Charlotte. - Ela olhou para Gabriel com seu coração refletido nos olhos. ─ Nós
vamos ter um desses. Eu ainda não posso acreditar.
─ Nem eu posso, ma belle. - Disse ele em voz baixa. ─ Eu mal posso esperar!
─ Nem eu. - Ela riu, abraçando forte o bebezinho.

***

─ Bem, não há nenhuma possibilidade de que o casamento deles termine em divórcio. - Disse Wolf quando
Gabriel e Michelle voltaram para o Texas.
Sara olhou para ele.
─ Nem o nosso. - Disse Sara.
─ Isso é óbvio. - Ele disse suavemente, procurando os olhos dela.
─ O que você está pensando? - Perguntou ela.
─ Sobre o longo caminho que percorremos juntos desde que você bateu no meu carro, e eu a acusei de deixar a
vassoura em casa.
Ela estava preparando uma vitamina de frutas no liquidificador. Desligou o aparelho e olhou para ele.
─ Como assim? - Ela perguntou.
─ Você deu ré com seu carro... - Ele sorriu. ─ sem olhar para onde estava indo. - Disse ele.
─ Eu não fiz isso. Você fez. - Ela disse com altivez.
─ Eu sou o melhor motorista do mundo... O que você está fazendo com essa coisa? Não se atreva... Estou
falando sério! - Wolf avisou.
Amélia, que tinha ouvido a ameaça, seguido por um som incrivelmente alto, saiu da sala e foi ver o que estava
acontecendo.
Wolf Patterson passava pelo corredor em direção ao banheiro. Ele parou bem na frente de Amélia, com
vitamina de fruta escorrendo da cabeça até o nariz, pingando na camisa e no chão de madeira do corredor.
─ Só para sua informação. - Ele disse confidencialmente. ─ Não se aproxime quando ela estiver utilizando o
liquidificador.
Ele suspirou e foi para o banheiro. No final do corredor, um riso alto vinha da cozinha.
Amélia sorriu de orelha a orelha e voltou a trabalhar.

FIM