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a obra de alice canabrava

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na historiografia brasileira

Flávio A z e v e d o Marques de Saes


Professor Titular — FEA/USP

Se algum pesquisador fizer um levantamento da historiografia brasi-


leira nos anos quarenta e cinqüenta, encontrará vários títulos de histó-
ria e c o n ô m i c a — entre livros e artigos — assinados p o r A. P. Canabrava.
Se for um j o v e m pesquisador estrangeiro t e n d o seu primeiro contato
c o m a historiografia brasileira, certamente ficará intrigado c o m a abre-
viatura, perguntando-se quais os n o m e s ocultos sob essas iniciais. Ao
compulsar as publicações de A. P. Canabrava e confrontando-as c o m os
demais títulos da historiografia da época, certamente notará algumas
características distintivas de sua obra — seja pelos temas tratados, seja
pelo m é t o d o de abordagem, seja ainda pela natureza da pesquisa reali-
zada. E talvez se mostrará surpreso ao saber que tais iniciais ocultavam
um n o m e feminino — o de Alice Piffer Canabrava — pois ainda eram
poucas as historiadoras brasileiras naquela época.
Ao p r o p o r este contato imaginário c o m a historiografia brasileira
dos anos quarenta, quero ressaltar dois temas que exigem u m a atenção
particular ao se tratar da obra de Alice Canabrava: de um lado, a n a t u -
reza peculiar de sua pesquisa em história econômica e, do outro, o fato
de u m a m u l h e r estar encetando u m a expressiva carreira na Universi-
dade, n u m a época em que a presença feminina era ainda p o u c o m a r -
cante. C o n v é m prevenir desde logo que o viés deste artigo é o da
história econômica, e não o da história de gênero. A questão do g ê -

T e x t o a p r e s e n t a d o n o S i m p ó s i o " A participação feminina n a c o n s t r u ç ã o d e novas


disciplinas: o caso da historiografia e c o n ô m i c a no Brasil", c o o r d e n a d o pelo p r o -
fessor T a m á s S z m r e c s á n y i , no V C o n g r e s s o L a t i n o - A m e r i c a n o de H i s t ó r i a das
Ciências e da T e c n o l o g i a ( R i o de Janeiro, 28 a 31 de j u l h o de 1 9 9 8 ) , p r o m o v i d o
pela S o c i e d a d e L a t i n o - A m e r i c a n a de H i s t ó r i a das Ciências e da T e c n o l o g i a .

história econômica & história de empresas II. 2 (1999), 41-61 I 41


nero só é levantada p o r m i m c o m o parte das notas biográficas de Alice
Canabrava, e o seu tratamento específico exigiria a atenção de pesqui-
sadores mais b e m qualificados para essa empreitada. De qualquer m o -
do, procurarei abordar estes dois aspectos da carreira da historiadora
Alice Canabrava, já que em ambos e n t e n d o haver certo pioneirismo
em sua atuação.

Breve Nota Biográfica: da Escola Normal


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à Cátedra de História Econômica

Alice Canabrava nasceu em Araras, Estado de São Paulo, em 1 9 1 1 .


Araras situa-se próxima de Campinas, n u m a região, então, tipicamente
cafeeira. Aliás, sua família tinha u m a propriedade de m é d i o p o r t e que
fora doada pelo Visconde de Nova Granada ao avô de Alice Canabrava.
Este era m é d i c o naquela cidade e, tendo tratado do Visconde, recebeu
c e m alqueires c o m o " a g r a d e c i m e n t o " (Canabrava, 1997:162). O s o -
b r e n o m e Piffer v e m de sua mãe, nascida na Áustria, e que, segundo a
própria Alice Canabrava, estava habituada ao trabalho árduo, e não via
razões para a m u l h e r se abster do estudo e do trabalho. Seu pai, c o m
raízes brasileiras, era h o m e m culto, afeito à leitura, e t a m b é m n ã o a d m i -
tia a inferioridade feminina em relação às tarefas intelectuais. Defini-
ram-se, assim, desde a infância de Alice Canabrava duas influências que,
e m b o r a distintas, confluíam ao afirmar o valor do estudo e do trabalho
para a mulher.
C o n c l u í d o o curso primário, Alice Canabrava fez o ginásio, c o m o
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interna, no Colégio Stafford em São Paulo. Posteriormente, ingressou
na Escola N o r m a l da Praça da R e p ú b l i c a , t a m b é m na cidade de São

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A m a i o r p a r t e destas notas biográficas r e p r o d u z i n f o r m a ç õ e s colhidas em c o n v e r -
sas informais c o m a Professora Alice C a n a b r a v a e t a m b é m em dois d e p o i m e n t o s
feitos p o r ela: para a revista E c o n o m i a Aplicada [Canabrava (1997)] e para u m a
série sobre as m u l h e r e s na Universidade de São Paulo, organizada pela Prof." Eva
Blay [Canabrava ( s / d ) ] . Esta série foi o b j e t o d e u m artigo e m q u e t r e c h o s d o s
d e p o i m e n t o s são r e p r o d u z i d o s [Blay e L a n g (1984)]. Na m e d i d a do possível, estas
i n f o r m a ç õ e s relativamente subjetivas f o r a m confrontadas c o m fontes d o c u m e n -
tais. É claro q u e s e m p r e p e r m a n e c e a possibilidade de um d u p l o viés: o da p r ó p r i a
Professora Alice C a n a b r a v a e o do a u t o r deste a r t i g o t e n t a n d o " i n t e r p r e t a r " as i n -
f o r m a ç õ e s p o r ela fornecidas.
3 Alice C a n a b r a v a n o s l e m b r a q u e ela e sua i r m ã foram as duas ú n i c a s m e n i n a s de
Araras, à é p o c a , q u e prosseguiram os estudos além do p r i m á r i o e n u m ginásio da
capital (Canabrava, s / d ) .

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Paulo. Evidentemente, nos anos vinte, a formação educacional de u m a
menina tinha c o m o alvo m á x i m o a conclusão do curso n o r m a l c o m o
eventual ingresso no magistério p r i m á r i o . Em São Paulo, a Escola
N o r m a l da Praça definia o padrão de qualidade desse nível de ensino.
É claro, no entanto, q u e para u m a m e n i n a do Interior deslocar-se para
cursar em São Paulo, primeiro o ginásio, e depois a escola normal,
envolvia u m a decisão familiar forte e a superação de u m a série de obs-
táculos materiais. Portanto, um ambiente q u e valorizasse a educação
seria fundamental para q u e essa decisão fosse levada adiante.
C o n c l u í d o o curso n o r m a l , no final dos anos vinte, a perspectiva que
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se apresentava a Alice Canabrava era o ingresso no magistério oficial.
Efetivamente foi isso q u e ela fez, i n d o lecionar em M a n d u r i , um p e -
q u e n o distrito do Interior, p r ó x i m o a Piraju (na região da Sorocabana).
A l g u m t e m p o depois conseguiu sua transferência para Araras, c o n t i -
n u a n d o ali a dedicar-se ao magistério primário. E m b o r a se refira sem-
pre a essa experiência c o m grande satisfação — especialmente na tarefa
de alfabetização de crianças — sentia t a m b é m a limitação de h o r i z o n -
tes que a atividade i m p u n h a . M e s m o em Araras, procurava, pela e n -
c o m e n d a de livros na Capital e pelas aulas de francês q u e recebia de um
suíço m o r a d o r na cidade, superar as limitações culturais inerentes ao
ambiente local. Ao m e s m o t e m p o , em busca de alternativas, consultava
o Diário Oficial na esperança de q u e surgisse alguma oportunidade
que lhe permitisse novos vôos. Essa o p o r t u n i d a d e finalmente apareceu
em 1934.
C o m o se sabe, naquele ano foi fundada a Universidade de São Paulo,
que agregava algumas faculdades já existentes — c o m o as de Medicina,
Direito, Engenharia, A g r o n o m i a além do Instituto de Educação e al-
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guns elementos das Escolas de Veterinária, Farmácia e O d o n t o l o g i a
— e criava u m a nova Faculdade — a de Filosofia, Ciências e Letras.

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Vale n o t a r q u e o r e g i m e e d u c a c i o n a l da R e p ú b l i c a Velha definia o e n s i n o n o r m a l
( e alguns cursos " t é c n i c o s " c o m o o d e c o m é r c i o ) c o m o u m "fim d e l i n h a " . O d i -
p l o m a de " n o r m a l i s t a " só p e r m i t i a o exercício do m a g i s t é r i o (assim c o m o o do
e n s i n o comercial só c o n d u z i a ao exercício da atividade de c o n t a d o r e o u t r a s c o r -
relatas); ele n ã o habilitava o seu p o r t a d o r a c a n d i d a t a r - s e a u m a vaga na U n i v e r -
sidade (nos cursos de M e d i c i n a , D i r e i t o , E n g e n h a r i a e o u t r o s ) . Para t a n t o , seria
preciso r e t o m a r os estudos n o s ginásios ou liceus, p r a t i c a m e n t e r e c o m e ç a n d o o
processo e d u c a c i o n a l .
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A m e r i c a n o , J o r g e . A Universidade de São Paulo, São P a u l o , Revista dos Tribunais,
1947.

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 43


dos resultados obtidos deram a Alice Canabrava u m a posição de desta-
q u e entre os jovens historiadores brasileiros da época.
T e n d o sido aberto um concurso para a cátedra de História da A m é -
rica, Alice Canabrava dedicou-se à elaboração da tese c o m a qual iria
c o n c o r r e r — A Indústria do Açúcar nas Ilhas Inglesas e Francesas do Mar
das Antilhas, 1697-1755. Nesse concurso inscreveu-se outro candidato,
Astrogildo R o d r i g u e s de Mello, professor então contratado para reger a
cátedra. Alice Canabrava relata que passou a sentir u m a e n o r m e r e -
sistência entre seus colegas a partir do m o m e n t o em que, pela reper-
cussão de sua tese de d o u t o r a m e n t o , aparecia c o m o candidata potencial
à cátedra:

" D e s t e m o d o , involuntariamente emergi, aos olhos de meus c o -


legas masculinos, c o m o possível candidata ao provimento efetivo da
cadeira de História da América, a ser posta em concurso. Até então, o
relacionamento c o m esses colegas havia sido m u i t o afável, direi até
não isento de estima pessoal. A partir de então, o círculo de hostili-
dade subterrânea c o m e ç o u a se desenhar para m i m c o m evidências,
a se apertar a n o n i m a m e n t e em u m a ou outra ocorrência da ativida-
de universitária, sem alterar a aparência de superficial cordialidade.
(...) A pesquisa histórica, desde m i n h a licenciatura, absorvia cotidia-
n a m e n t e muitas das minhas horas; reservava as férias para o trabalho
na Biblioteca Nacional e no Arquivo Nacional, no R i o de Janeiro.
Passei então a solicitar documentação da Biblioteca do Congresso
dos Estados U n i d o s referente às Antilhas e logo percebi q u e esta
correspondência, cartas e caixas c o m rolos de microfilmes, chegava
violada. O m e s m o acontecia c o m as cartas trocadas c o m a Fundação
Rockfeller, c o m a qual estava tentando obter u m a bolsa de estudo,
de alguns meses, para consultar os arquivos de algumas ilhas daquela
área. Na biblioteca da Faculdade, qualquer obra que requisitasse, ou
estaria fora do lugar ou, após a primeira consulta, não seria mais
encontrada para prosseguimento."
" O u t r a s armadilhas não lograram êxito, e delas tive c o n h e c i -
m e n t o após vários anos passados. A livraria o n d e comprava a m a i o r
parte dos livros para pagá-los mensalmente, ao t o d o ou em parte, foi
avisada do risco que incorria, mas não considerou a advertência c o m
base nas relações de muitos anos. Um funcionário da Faculdade,
c o m o o m e s m o me c o n t o u em anos recentes, foi i n c u m b i d o de me
seguir diariamente e dar conta dos lugares q u e freqüentava. O u v i
conselhos e insinuações de que não devia desafiar a hostilidade já

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constituída: iria ser fatalmente reprovada. A m i n h a resposta foi inva-
riavelmente a mesma, sem qualquer a r g u m e n t o : " E u faço o c o n c u r -
so, caberá à banca me reprovar". Ao e n c e r r a m e n t o do prazo para a
inscrição no concurso, o elevador parou de funcionar no m o m e n t o
em que me apresentei. Fomos obrigados a galgar a pé os lances de
escada que levavam ao segundo andar do edifício da Praça da R e p ú -
blica, a Escola N o r m a l Caetano de C a m p o s , carregando nos braços,
em algumas viagens, os c e m exemplares da tese exigidos pelo edital.
Na secretaria aguardavam o e n c e r r a m e n t o alguns de meus contrá-
rios, mas c o m todas as dificuldades, eu lograra me manter dentro do
prazo para a inscrição. A tese havia sido impressa em m i n h a casa, em
mimeógrafo usado, adquirido para a ocasião, receosa de que visto-
riassem as principais firmas do gênero, o q u e de fato aconteceu, para
tentar bloquear m e u trabalho na fase final." (Canabrava, s/d).

Alice Canabrava, embora c o m média mais alta, recebeu m e n o s i n d i -


cações da banca examinadora, tendo obtido nesse concurso apenas o
título de livre-docente. Inconformada c o m o que lhe pareceu u m a
injustiça, não quis p e r m a n e c e r na Faculdade de Filosofia. N a q u e l e ano
de 1946 fora criada a Faculdade de Ciências E c o n ô m i c a s e Administra-
tivas da U S P e, c o m ela, o Instituto de Administração. Alice Canabrava
ingressou, então, no Instituto de Administração (no qual fez várias pes-
quisas sobre a história da administração m u n i c i p a l em São Paulo,
publicadas na Revista de Administração) e, um p o u c o mais tarde, passou a
reger a cátedra de História E c o n ô m i c a Geral e Formação E c o n ô m i c a
do Brasil da Faculdade de Ciências E c o n ô m i c a s e Administrativas. Em
1 9 5 1 , c o m a tese O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província
de São Paulo, 1861-1875, conquistou, p o r concurso, a cátedra. T o r n o u -
se, assim, u m a das primeiras (senão a primeira) m u l h e r a assumir u m a
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cátedra na Universidade de São Paulo.
Na Faculdade de E c o n o m i a da U S P e n c o n t r o u ambiente mais a c o -
lhedor e desenvolveu longo trabalho didático e de pesquisa, criando

E m 1 9 5 2 , o G u i a d a U S P registrava, a l é m d e A l i c e C a n a b r a v a , catedrática d e
H i s t ó r i a E c o n ô m i c a da Faculdade de C i ê n c i a s E c o n ô m i c a s e Administrativas, as
seguintes professoras c o m o r e g e n t e s d a cátedra ( e m b o r a n ã o haja i n f o r m a ç ã o d e
s e r e m o u n ã o concursadas):Vera H e l e n a A m a r a l ( D e s e n h o Artístico, Faculdade d e
A r q u i t e t u r a e U r b a n i s m o ) ; A n i t a M a r c o n d e s C a b r a l (Psicologia) e N o e m y Silveira
R u d o l f e r (Psicologia Eduicacional) na F a c u l d a d e de Filosofia, Ciências e Letras
(Cuia da Universidade de São Paulo,1951-52, São P a u l o , R e i t o r i a da USP, 1952).

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uma i m a g e m que, p o r seu rigor e seriedade, era conhecida até m e s m o
pelos candidatos ao vestibular. C o m o catedrática da Cadeira X (Histó-
ria E c o n ô m i c a Geral e F o r m a ç ã o E c o n ô m i c a do Brasil) e depois titular
do D e p a r t a m e n t o de E c o n o m i a , agregou a seu redor um g r u p o de
assistentes que, em especial nos anos setenta e oitenta, desenvolveu pes-
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quisas sob sua orientação. Em 1981 aposentou-se compulsoriamente,
depois de mais de cinqüenta anos de dedicação ao magistério, mas
manteve ainda suas atividades de pesquisa.
C o n v é m lembrar t a m b é m sua atuação na A N P U H — Associação
Nacional dos Professores Universitários de História. Fundadora da e n -
tidade em 1961 — ainda c o m o A P U H — foi durante longo t e m p o sua
Secretária-Geral, dividindo c o m o Prof. Eurípedes Simões de Paula,
seu Presidente, a tarefa de m a n t e r em atividade a Associação, apesar das
dificuldades materiais inerentes a esse tipo de entidade. Por m e i o de
seus simpósios nacionais e regionais, a A N P U H foi um importante
vetor para a difusão da pesquisa histórica no Brasil, principalmente n u m a
época em que os cursos de pós-graduação ainda não existiam ou se
concentravam em p o u c o s centros universitários. T a m b é m nessa p e r s -
pectiva, e já sob a presidência de Alice Canabrava, foi fundada, em 1 9 8 1 ,
a Revista Brasileira de História, publicação que, de certo m o d o , veio
p r e e n c h e r a lacuna deixada pela i n t e r r r u p ç ã o da periodicidade da
Revista de História (do D e p a r t a m e n t o de História da USP),após a m o r -
te do Professor Simões de Paula.
Esta breve nota biográfica nos sugere alguns comentários sobre o
percurso de Alice Canabrava, q u e a distinguem da média do elemento
feminino de sua geração. Antes de mais nada, o simples fato de prosse-
guir na Capital os estudos além do p r i m á r i o já demonstra um h o r i z o n -
te mais amplo do que o prevalecente para as mulheres à época. C e r t a -

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Suas p r i m e i r a s assistentes, ainda n o s anos q u a r e n t a , foram M a r i a Celestina Teixeira
M e n d e s e M i r i a m Lifschitz, a m b a s formadas pela F a c u l d a d e de Filosofia, C i ê n c i a s
e Letras da USP. N o s anos c i n q ü e n t a o u t r o s historiadores e cientistas sociais f o r -
m a d o s pela U S P passaram pela C a d e i r a X , c o m o F e r n a n d o H e n r i q u e C a r d o s o ,
F e r n a n d o N o v a i s e José A l b e r t i n o R o d r i g u e s . A partir dos anos sessenta, seus assis-
t e n t e s f o r a m , e m geral, e x - a l u n o s d a F a c u l d a d e d e C i ê n c i a s E c o n ô m i c a s e A d m i n i s -
trativas d a U S P , m u i t o s d o s quais t a m b é m tiveram sua o r i e n t a ç ã o e m dissertações
d e m e s t r a d o e teses d e d o u t o r a d o c o m o A n t o n i o E m í l i o M u n i z B a r r e t o , R o n a l d o
M a r c o s dos Santos, Iraci d e i N e r o d a C o s t a , F r a n c i s c o Vidal L u n a , N e l s o n H . N o -
z o e , Zélia M . C a r d o s o de M e l l o e o a u t o r deste a r t i g o . Cf. Canabrava, Alice Piffer
( c o o r d . ) , História da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São
Paulo (1946-1981), Volume Dois — Personália, São P a u l o , F E A - U S P , 1 9 8 4 .

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m e n t e , o ambiente familiar propício respondeu p o r essa possibilidade,
q u e não era c o m u m na época. N ã o se deve, p o r é m , deixar de r e c o n h e -
cer sua própria determinação quando, concluído o curso n o r m a l , n ã o
se c o n t e n t o u c o m essa situação. É certo que p ô d e beneficiar-se das
mudanças q u e se processavam então no sistema educacional, a b r i n d o
aos normalistas o acesso à Universidade. T a m b é m é certo que entre os
alunos da Faculdade de Filosofia havia várias mulheres. M e s m o assim,
o seu percurso pessoal denota u m a profunda determinação em busca
de objetivos que, se não podiam ser claramente definidos de início
(pelas próprias limitações legais impostas), foram sendo construídos c o m
persistência e obstinação. Ainda mais expressivo, no entanto, foi seu
percurso após a conclusão do curso de História e Geografia. O ingresso
na carreira d o c e n t e t a m b é m não era exclusivo dos h o m e n s , mas t u d o
indica que a ascensão a postos mais elevados era vista c o m o u m a a m e a -
ça ao d o m í n i o masculino. Ainda hoje, cinqüenta anos após a o c o r r ê n -
cia desses fatos, não é difícil imaginar as restrições que se i m p u n h a m à
m u l h e r naquela época. Por mais que o relato de Alice Canabrava c o n -
tenha u m a alta dose de subjetividade, entendo que ele expressa u m a
real situação da m u l h e r em qualquer ambiente de trabalho nos anos
quarenta. Neste sentido, o seu percurso teve caráter pioneiro, ao conse-
guir superar os obstáculos que a ela se opuseram.
Seu sucesso, no entanto, não p o d e ser explicado apenas em t e r m o s
da sua tenacidade em enfrentar os obstáculos. Ele foi fruto t a m b é m de
um dado objetivo — qual seja, a qualidade de seu trabalho de pesquisa,
q u e acabou p o r i m p o r - s e face à resistência oposta pelo e l e m e n t o m a s -
culino. É a esse aspecto do percurso de Alice Canabrava que nos volta-
m o s a seguir.

A Obra de Alice Canabrava na


Historiografia Econômica do Brasil

Da mesma forma q u e a trajetória profissional de Alice Canabrava


nos mostra um e l e m e n t o de pioneirismo, suas pesquisas de história
e c o n ô m i c a t a m b é m se revestem do m e s m o caráter.
No Brasil dos anos quarenta, a História E c o n ô m i c a não era u m a dis-
ciplina b e m definida. Ainda assim, as duas teses que Alice Canabrava
apresentou à cadeira de História da América da Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras da U S P (e que lhe deram os graus de doutora e de
livre-docente) p o d e m ser classificadas inequivocamente c o m o pesqui-
sas de História Econômica.Trata-se de algo visível nos títulos de ambas:

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 49


O Comércio Português no Rio da Prata, 1580-1640 (defendida em 1942)
e A Indústria do Açúcar nas Ilhas Inglesas e Francesas do Mar das Antilhas,
1691-1755 (de 1946). O m e s m o se p o d e dizer de O Desenvolvimento da
Cultura do Algodão na Província de São Paulo, 1861-1875 (de 1951), tese
c o m q u e conquistou a cátedra de História E c o n ô m i c a da Faculdade de
Ciências Econômicas e Administrativas da USP. Essas três obras c o n s -
t i t u e m o núcleo de u m a primeira fase das pesquisas históricas de Alice
Canabrava e a vinculam claramente à História Econômica. C o m o situá-
las diante do que se produzia em termos de história e c o n ô m i c a no
Brasil à época?
A p r o d u ç ã o historiográfica no Brasil antes de 1930 foi d o m i n a d a
pelo padrão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em
1838, e esse padrão era disseminado pelos institutos provinciais. Carlos
G u i l h e r m e M o t a (1978:28) a caracterizou c o m o "a historiografia da
elite oligárquica, e m p e n h a d a na valorização dos feitos dos heróis da
raça branca". E m b o r a predominasse, no âmbito acadêmico, u m a h i s t ó -
ria "positivista" (que, p o r sua própria natureza privilegia os aspectos
políticos), p o d e m o s encontrar alguns historiadores voltados a temas
e c o n ô m i c o s (e sociais). O p r ó p r i o Taunay, c o m suas obras sobre café e
bandeiras foi um deles. Suas pesquisas, de inegável valor, restringem-
se, no entanto de forma quase exclusiva a u m a compilação exaustiva
das fontes. Seu sucessor na cadeira de História do Brasil da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras da U S P — Alfredo Ellis Jr. p o d e ser visto
c o m o um continuador da obra de Taunay. Entretanto, Capelato, Glezer
e Ferlini (1995:19) e n t e n d e m que Ellis sofreu t a m b é m a influência de
Capistrano de Abreu, historiador que teria aberto novos r u m o s à p e s -
quisa histórica brasileira — seja pelos temas q u e abordou (econômicos
e sociais), seja p o r seu padrão de análise, claramente distinto do p r e d o -
m i n a n t e até então. N o s anos vinte encontramos ainda alguns esboços
de História Econômica nos trabalhos de Vitor Viana (de 1922) e de
Lemos B r i t o (de 1923), que refletem, para Iglésias (1959), um crescente
interesse pelo tema, embora sem representar ainda u m a ruptura radical
c o m a velha historiografia brasileira.
Foi sem dúvida nos anos trinta que ocorreu u m a sensível renovação
no p e n s a m e n t o social brasileiro. Novos autores foram então revelados
p o r obras q u e p r o p u n h a m "novas interpretações" da história e da s o -
ciedade brasileiras. Oliveira Viana, Gilberto Freire, Sérgio B u a r q u e de
H o l a n d a e Caio Prado Jr. produziram estudos q u e se t o r n a r i a m clássi-
cos na definição de outros caminhos para a compreensão da sociedade
brasileira. Mas, t a m b é m a História E c o n ô m i c a do Brasil teve novas e

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substanciais contribuições: R o b e r t o Simonsen,J. F. N o r m a n o e,já nos
anos quarenta, Caio Prado J ú n i o r publicaram obras notáveis sobre a
história econômica do Brasil, p r o p o n d o efetivamente interpretações
sobre o seu processo de desenvolvimento. Apesar das profundas dife-
renças entre esses autores, t i n h a m em c o m u m u m a preocupação " i n -
terpretativa" que, em geral, se projetava em propostas "políticas".
A obra de Alice Canabrava distingue-se dos estudos desses autores
em diversos sentidos: seus objetos, m é t o d o s de pesquisa e fontes utili-
zadas refletiam em grande medida a formação q u e tivera no curso de
História e Geografia da Faculdade de Filosofia da USP. Tratava-se, antes
de mais nada, de estudos monográficos q u e se c o n t r a p u n h a m clara-
m e n t e à tendência de produzir grandes interpretações. A esse respeito,
vale reproduzir um c o m e n t á r i o de Sérgio B u a r q u e de Holanda:

"Se os m o d e r n o s estudos de história econômica, tais c o m o , entre


nós, vem praticando especialmente Alice P. Canabrava, p o d e m ser
responsabilizados até certo p o n t o pela renúncia às vastas sínteses em
proveito de trabalhos monográficos, n i n g u é m negará q u e t e n d e m a
oferecer, p o r outro lado, algumas vantagens claras. Entre elas a de
contribuírem para desfazer as ilusões raciais, políticas ou nacionais
que por tanto t e m p o v e m perseguindo certos espíritos." (Holanda,
1952).

Q u a n t o aos m é t o d o s de pesquisa e à preferência pelas fontes p r i m á -


rias, pode-se sugerir a incorporação de um padrão de investigação típi-
co da escola francesa dos Annales. Em resenhas sobre as duas primeiras
teses de Alice Canabrava, F e r n a n d Braudel e V i t o r i n o Magalhães
G o d i n h o insistiam nessa identidade. Sobre O Comércio Português no Rio
da Prata dizia Braudel:

" N o tocante a estas regiões deserdadas, no c o m e ç o de sua rude


vida colonial, u m a j o v e m historiadora brasileira,Alice Piffer Canabrava,
formada e orientada, posso assegurar, pela leitura e c o n h e c i m e n t o de
nossos Annales, acaba de escrever um livro, seu primeiro livro. C o m
satisfação, posso dizer que se trata de um livro de grande i m p o r t â n -
cia." (Braudel, 1948:547).

N ã o era m u i t o diferente a apreciação geral de G o d i n h o a respeito da


pesquisa sobre o açúcar nas Antilhas:

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 51


oposição ao latifúndio q u e dominava a vida econômica da América
espanhola. Mais do q u e isso:

" P o d e m o s p o r t a n t o dizer que, na base da evolução complexa q u e


p r o v o c o u no século X V I I o comércio de contrabando, evolução
q u e se processou no terreno social, e c o n ô m i c o e político, estavam
em g e r m e os aspectos fundamentais q u e caracterizaram a Argentina
na época da Independência." (Canabrava, 1984b:189-191).

Percebe-se, portanto, que o estudo de Alice Canabrava sobre o c o -


m é r c i o português na região do Prata p e r m i t i u - l h e , não só c o m p r e e n -
der c o m o se processou a formação econômica, social e política dessa
região, mas t a m b é m e n t e n d e r de que m o d o esses elementos acabam
p o r se contrapor à condição colonial imposta pela C o r o a espanhola.
O Açúcar nas Antilhas (1697-1755) trata de outra situação colonial
americana: a das ilhas inglesas e francesas do m a r das Antilhas. C o m o se
sabe, no século X V I I , ao serem expulsos de P e r n a m b u c o , os holandeses
procuraram implantar nas Antilhas a p r o d u ç ã o açucareira — n ã o em
seus próprios domínios e sim c o m o intermediários para os colonos
ingleses e franceses. C o m base em ampla d o c u m e n t a ç ã o manuscrita,
o r i u n d a de arquivos nacionais e estrangeiros (em especial da Biblioteca
do Congresso dos Estados Unidos), em fontes primárias impressas e
ainda em fontes secundárias, Alice Canabrava reconstituiu o desenvol-
v i m e n t o da produção açucareira nas Antilhas, levando em conta a base
geográfica, os aspectos técnicos, os meios de financiamento e a questão
do mercado. Mereceu u m a especial atenção dela a minuciosa descrição
dos aspectos técnicos da produção antilhana que, em conexão c o m seus
elementos sociais, d e m o n s t r a m "a unidade do sistema colonial pratica-
do pelas metrópoles produtoras de açúcar". Ou seja, havia u m a e n o r m e
semelhança entre a produção açucareira no Brasil e nas Antilhas — não
só no plano técnico, mas t a m b é m nas características das sociedades que
daí emergiram. Ao m e s m o t e m p o , observou u m a diferença f u n d a m e n -
tal que, mais u m a vez, apontava na direção da superação da condição
colonial das diferentes áreas da América:

" D a í pode-se perceber conseqüências profundas no desenvolvi-


m e n t o político. No Brasil, o n d e desde o século X V I I se formara
u m a classe de senhores rurais ligados à terra e enobrecidos p o r ela,
m a d r u g a r a m os m o v i m e n t o s nacionalistas. As possessões antilhanas
francesas e inglesas permaneceram, em sua quase totalidade, votadas

54 I Flávio Azevedo Marques de Saes


à condição de colônias européias. A exceção q u a n t o a Santo D o -
m i n g o é particularmente ilustrativa: aí vamos encontrar, mais do q u e
em qualquer outra parte, no século X V I I I , o s e n h o r de e n g e n h o das
colônias francesas. Lembremos, todavia, q u e o g r u p o responsável pela
revolução de independência e q u e se apossou do poder, constituiu-
se principalmente de h o m e n s de cor, ou seja, de mestiços descen-
dentes de escravos." (Canabrava, 1 9 8 1 : 246).

Mais u m a vez, p o r t a n t o , a conclusão da A u t o r a apontava na direção


do r o m p i m e n t o (ou n ã o - r o m p i m e n t o ) do vínculo colonial a partir das
condições econômicas, sociais e políticas da colonização.
Em sua tese de cátedra — sobre o algodão em São Paulo — parece-
nos estar presente a mesma preocupação, e m b o r a o objeto de estudo
não mais se situe na época p r o p r i a m e n t e colonial. Tendo p o r base uma
ampla d o c u m e n t a ç ã o primária — c o m o a correspondência dos C o n -
selhos Municipais c o m o Presidente da Província, e as notícias publicadas
nos jornais da época — Alice Canabrava revela o processo de desenvol-
v i m e n t o da cultura do algodão em São Paulo, entre 1861 e 1875, c o m o
reflexo dos problemas de mercado gerados pela G u e r r a Civil n o r t e -
americana. Foi-lhe possível, assim, reconstituir os aspectos mais gerais
da expansão e da decadência do algodão em São Paulo, b e m c o m o
reviver aspectos expressivos da vida e da luta quotidiana dos produtores
diante dos desafios representados pela nova produção. É inegável que a
cultura do algodão respondia às características da e c o n o m i a brasileira
c o m o definidas desde o início da colonização:

"Sendo orientada a economia brasileira, desde os primórdios da


história colonial, exclusivamente para as necessidades dos mercados
do exterior, a p r o d u ç ã o algodoeira paulista havia seguido as vicissi-
tudes daqueles mercados, c o n f o r m e a tradição já estabelecida pelos
outros produtos nacionais. Dessa maneira, havia crescido e declinado
rapidamente, condicionada, de m o d o estrito pelas necessidades das
indústrias têxteis européias, principalmente as da Inglaterra." (Ca-
nabrava, 1984a:291-292).

C u m p r e notar, no entanto, que a explicação do declínio da cultura


do algodão não se limitava ao m e r o reflexo do q u e ocorria no exterior.
R e l a t o u a respeito os notáveis esforços no sentido de evitar esse declínio.
A construção da Estrada de Ferro Sorocabana p o r iniciativa de um c o -
merciante de algodão — Luiz M a t h e u s Mailasky — teve p o r objetivo

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 55


reduzir os custos de transporte e facilitar a exportação do produto. Igual-
m e n t e i m p o r t a n t e foi o estabelecimento, até 1875, de seis fábricas de
tecidos, próximas aos centros produtores do algodão, indicando já u m a
certa vitalidade da e c o n o m i a paulista à época e um engajamento na
defesa da produção algodoeira. Estas iniciativas no entanto mostraram-
se insuficientes para i m p e d i r o declínio da p r o d u ç ã o algodoeira em São
Paulo, decorrente dos elevados custos de p r o d u ç ã o e de problemas que
a qualidade do p r o d u t o apresentava para o c o m p r a d o r europeu (relati-
vos tanto ao tipo da fibra q u a n t o à forma de beneficiamento). E n t e n -
deu Alice Canabrava q u e a estrutura social da produção algodoeira, em
grande parte fundada na p e q u e n a propriedade, desprovida de recursos
financeiros, dificultou a solução desses problemas:

" N a essência, p o r t a n t o , das questões técnicas, que explicam, em


grande parte, a perda dos mercados europeus importadores do algo-
dão paulista, p r e d o m i n a m os problemas financeiros que dificultaram
a solução rápida daquelas questões, c o m o exigiam as novas c o n d i -
ções do mercado e u r o p e u após o t é r m i n o da guerra civil america-
na." (Canabrava, 1984a:293).

Evidencia-se, desse m o d o , q u e a explicação do declínio da produção


exportadora não aparece, em Alice Canabrava, c o m o simples fruto do
fim de um ciclo e reflexo das condições do mercado externo, e sim
c o m o resultado de u m a complexa interação entre fatores externos e
internos, n u m processo q u e aponta no sentido de superar a condição
colonial (por exemplo, pelo estabelecimento de indústrias de tecidos
12
de algodão).
N ã o é necessário lembrar que essa preocupação imanente à obra de
Alice Canabrava nos anos quarenta refletia o p r ó p r i o m o m e n t o históri-
co vivido pelo País desde 1930, q u a n d o a crise do setor exportador
colocou em questão o caráter colonial da economia brasileira, suas
implicações sociais e políticas e, afinal, o problema da superação da
herança colonial. Nesse sentido, parece-nos q u e a pesquisa histórica de
Alice Canabrava respondeu, à sua maneira, às inquietações da época, do
m e s m o m o d o q u e outros autores citados (em particular, R o b e r t o
Simonsen e Caio Prado J ú n i o r ) . É certo q u e o fez de forma peculiar,

U m a avaliação mais m i n u c i o s a das três teses d e Alice Canabrava p o d e ser e n c o n -


trada e m M e l l o , N o z o e e Saes(1985).

56 I Flávio Azevedo Marques de Saes


sem p r o p o r generalizações amplas pois, c o m o dizia nas suas próprias
palavras:

" S ó m e sinto segura q u a n d o apoiada e m d o c u m e n t o s . N ã o sou


pessoa de realizar grandes vôos fora do material. Creio q u e é um
problema de t e m p e r a m e n t o . " (Canabrava, 1997:160).

Entretanto, é inegável que o vasto c o n h e c i m e n t o histórico a c u m u -


lado nos anos trinta e quarenta levou-a à elaboração, nos anos cinqüenta
e sessenta, de alguns trabalhos de síntese em que, ao lado de u m a base
d o c u m e n t a l sólida e muitas vezes original, permitiu-se alguns "grandes
v ô o s " . P o d e m o s lembrar a respeito três deles. Primeiro, a sua I n t r o d u -
ção ao livro de A n t o n i l , Cultura e Opulência do Brasil, cujos originais
datam de 1 7 1 1 . Através desta Introdução, o leitor p o d e situar-se no
m e i o e c o n ô m i c o e social em que Antonil escreveu seu texto e, assim,
c o m p r e e n d ê - l o m e l h o r . Mas apresenta t a m b é m u m a explicação m i n u -
ciosa das técnicas referidas p o r Antonil, conferindo a essa Introdução o
caráter de um texto efetivamente original. Ao lado dela, publicou dois
capítulos bastante conhecidos da coleção História Geral da Civilização
Brasileira, organizada p o r Sérgio B u a r q u e de Holanda. Trata-se de "A
Grande Propriedade R u r a l " , no t o m o referente à época colonial, e de
"A Grande Lavoura", no volume q u e se ocupa da e c o n o m i a do p e r í o -
do imperial. A m b o s associam a u m a visão mais geral da atividade agrí-
cola no Brasil o cuidadoso estudo das técnicas utilizadas nas principais
produções, e representam contribuições de inegável valor para o c o -
n h e c i m e n t o de nossa história econômica.
Naqueles anos, Alice Canabrava t a m b é m se dedicou a outros traba-
lhos típicos do ofício de historiador, elaborando estudos bibliográficos
(colaboração no Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros, dirigido p o r
R u b e n s Borba de Moraes; Roteiro Bibliográfico da História do Brasil);
análises da historiografia (em especial das obras de Varnhagen, Martius
e Capistrano de A b r e u ) , e de questões metodológicas ( c o m o "História
e Economia").
N o s anos setenta, um novo núcleo de pesquisa, em certa medida
t a m b é m pioneiro, revela-se nas publicações de Alice Canabrava. Trata-
se de seus estudos quantitativos sobre a distribuição da riqueza em São
Paulo (Capitania e Província) entre meados do século X V I I I e as p r i -
meiras décadas do século X I X . C o m base em d o c u m e n t a ç ã o m a n u s -
crita, p e r t e n c e n t e p r i n c i p a l m e n t e a o acervo d o D e p a r t a m e n t o d e
Arquivo do Estado de São Paulo (Inventário de Bens Rústicos e Maços

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 57


de População), a historiadora p ô d e traçar quadros nítidos da distribui-
ção das terras, da riqueza e dos escravos. Alguns resultados marcantes
m e r e c e m registro: o p r e d o m í n i o da riqueza mercantil (homens de n e -
gócio e mercadores), m e s m o n u m m o m e n t o de decadência (1865/67),
a indicar o peso da atividade comercial em São Paulo (Canabrava, 1972a);
a extrema concentração da propriedade fundiária em 1818, assim c o m o
a de escravos, apesar da existência de um grande n ú m e r o de p e q u e n o s
proprietários na sociedade paulista (Canabrava, 1972b e 1976).
Estas breves observações não fazem j u s ao brilho da reconstrução
histórica da sociedade paulista que é feita em conexão c o m dados quanti-
tativos, e q u e se c o n t r a p õ e m a algumas interpretações tradicionais sobre
São Paulo daqueles tempos (como a da "democracia" paulista originá-
ria). E m b o r a essa d o c u m e n t a ç ã o já tivesse sido explorada (mais c o m
vistas a análises qualitativas), e que os estudos quantitativos em história
já estivessem sendo desenvolvidos na época (como no caso da demografia
histórica e dos índices de preços), parece-me q u e aqui t a m b é m Alice
Canabrava se insere n u m a vertente pioneira pela forma que utilizou a
informação quantitativa c o m vistas ao problema da distribuição. E x -
tensas pesquisas adicionais sobre os temas acima (em especial sobre a
posse de escravos) foram realizadas em fontes diversas (inclusive em
cartórios), mas infelizmente não se consubstanciaram em novos textos
de sua autoria, ou n u m livro que consolidasse os resultados a q u e c h e -
g o u em vários anos de pesquisa.
E n t e n d o que esta breve revisão de algumas das obras de Alice C a n a -
brava fornece ao leitor o quadro em que se desenvolveu a sua pesquisa
em História E c o n ô m i c a . A l é m das contribuições específicas aos temas
q u e estudou, seus trabalhos sugerem modelos de abordagem para a
disciplina, associando a erudição histórica, a revelação de fontes p r i m á -
rias muitas vezes inéditas e um tratamento analítico rigoroso. O vasto
crescimento da pesquisa em História E c o n ô m i c a nas últimas décadas
não foi capaz de tornar obsoletas as obras de Alice Canabrava. Os j o -
vens pesquisadores de nossa história econômica p o d e m encontrar em
suas obras verdadeiros modelos de exploração de fontes primárias arti-
culados à explicação de processos históricos específicos. Igualmente
exemplares são as suas análises quantitativas que, ao tratar de forma
adequada os dados disponíveis, e sem se pautar p o r rígidos padrões
teóricos formulados sem contato c o m a realidade histórica particular
(nos moldes, p o r exemplo da New Economic History), inauguraram u m a
i m p o r t a n t e vertente de estudos sobre a distribuição da riqueza no Bra-
sil do século XVIII e do X I X . Nesse sentido, as obras de Alice Canabrava

58 I Flávio Azevedo Marques de Saes


mantêm-se atuais pelas explicações históricas q u e propuseram, e t a m -
b é m c o m o referência metodológica para novas pesquisas sobre a histó-
ria econômica do Brasil.

Um Breve Comentário Final

O pioneirismo de Alice Canabrava, que repetidamente procuramos


mostrar ao longo deste texto, insere-se em processo de m u d a n ç a que
afeta á sociedade brasileira a partir de 1930. C e r t a m e n t e , c o m o m e n i n a
do Interior, ela p o d e r i a ter-se a c o m o d a d o e p e r m a n e c e r à parte das
transformações sociais e culturais q u e se processavam nos centros urba-
nos maiores. No entanto, sua determinação levou-a a ter um papel em
significativos m o m e n t o s da transformação social e de sua profissão.
Seu ingresso na Universidade de São Paulo, na primeira geração de
alunos da Faculdade de Filosofia foi expressiva: ela se deslocou da sua
cidade natal e integrou-se a um dos mais importantes m o v i m e n t o s cul-
turais do País naquele período. Pode-se dizer m e s m o que, c o m o profes-
sora, participou da construção da Universidade, inclusive na fase de
formação da Faculdade de Ciências E c o n ô m i c a s e Administrativas, da
qual foi diretora, em sua fase de consolidação. Procuramos mostrar t a m -
b é m o seu pioneirismo e n q u a n t o mulher, galgando os degraus da car-
reira universitária n u m a época em q u e a presença feminina no mercado
de trabalho em geral, e particularmente em postos elevados na hierar-
quia, era rara e até certo p o n t o hostilizada.
É, porém, c o m o historiadora que queremos ressaltar o seu pioneirismo.
S e m dúvida, ela teve a rara o p o r t u n i d a d e de contar c o m mestres — em
especial Braudel e M o n b e i g — q u e a colocaram em contato c o m o
q u e havia de mais avançado na pesquisa em suas respectivas disciplinas.
Talvez mais do q u e outros de sua geração, ela soube vencer o desafio de
incorporar esses ensinamentos e atualizar-se constantemente, trazen-
do à sua pesquisa o q u e havia de novo e sólido na área de História E c o -
n ô m i c a . Desse m o d o , suas obras apresentam, invariavelmente, esse
caráter pioneiro na exploração de temas importantes e na incorpora-
ção de novas abordagens.
H o u v e , portanto, algumas felizes coincidências: a criação da U S P
c o m um m o m e n t o em q u e Alice Canabrava tinha disponibilidade e
disposição para nela ingressar; o contato c o m a Escola dos Annales no
m o m e n t o em que iria iniciar sua carreira acadêmica; a possibilidade de
ascensão na carreira, pela expansão da Universidade, apesar da resistên-
cia masculina; o ingresso n u m a Faculdade de E c o n o m i a q u e lhe p ô d e

A obra de Alice Canabrava na historiografia brasileira I 59


dar apoio e estímulo na elaboração de u m a história quantitativa. É claro,
no entanto, q u e essas felizes coincidências n ã o teriam resultado em
nada se não houvesse, da parte de Alice Canabrava, a capacidade e a
determinação para enfrentar e n o r m e s desafios pessoais e intelectuais. É
aí q u e se situa precisamente o seu pioneirismo, pelo qual tratou de
percorrer caminhos inéditos (para u m a historiadora e para u m a m u -
lher), ainda que possíveis em situações históricas específicas. Foi esse
pioneirismo que a levou à sua carreira c o m o professora, e a produzir
u m a obra em História E c o n ô m i c a q u e se coloca c o m o u m a referência
obrigatória na historiografia brasileira.

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