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ANÁLISE FILOSOFICA DO FILME “FURIA DE TITAS”

O filme retrata uma maneira de conhecer o mundo. Antes do surgimento da filosofia,

do questionamento dos fenômenos naturais tudo era explicado pela ira ou gratidão dos

deuses, revelado por um castigo ou uma recompensa conforme os homens os

obedeciam ou desobedeciam às vontades dos deuses. Em alguns momentos há sinais

de desejo do desvencilhamento da forma como os problemas e fenômenos eram

explicados exclusivamente pela vontade divina, mas sem sucesso.

Há no filme todas as características elementares que conceituam o mito. A rivalidade

entre os deuses Hades e Zeus. A atribuição dos acontecimentos, mesmo os sociais, a

fome da população, por exemplo, à ira dos deuses. Em relação à característica

dogmática, é apresentado um sentimento de insurreição e repúdio aos deuses, não

por todos da população que sofrem os castigos advindos das divindades, mas por

alguns poucos guerreiros. Na cena em que Zeus e Hades estão discutindo com

relação às orações feitas aos deuses, um coração inebriado pelo ódio provoca a

falência e a queda do Olimpo, mas quando estas orações são feitas com amor

aumenta a força e o poder dos deuses, neste caso a força do ódio começou a

provocar a ascensão de Hades o deus das trevas, que poderia passar a dominar o

coração dos seres humanos.

O próprio comportamento de Perceu nos remete a uma resistência a uma crença cega

aos ensinamentos e aos modelos cotidianos, mas de uma forma sutil, pois ele acaba

sucumbindo aos poderes que lhe são atribuídos. Renega o pai e quer vencer pelos

atributos humanos e não divinos.

O filme todo se baseia na disseminação do medo por meio do deus Hades e a busca

pelo equilíbrio e segurança pelo semi-deus Perceu. A forma fantasiosa, improvável e


às vezes até incoerente, que se passa no decorrer do filme, como a existência da

Medusa, por exemplo, são características que dão forma ao mito.

Cada personagem tenta se situar no mundo de uma forma peculiar. A princesa

consciente da fome do povo, e disposta a se sacrificar para aplacar a ira de Hades; a

rainha preocupada com sua beleza e da filha; o rei traído, marido da mãe de Perceu,

em busca de uma vingança sem limites que transcende uma geração, os guerreiros

que negam se curvar aos deuses e a relacionar os acontecimentos com os poderes e

a ira divina.

Percebe-se um contra-senso em relação ao comportamento dos guerreiros que

acompanham Perceu em sua luta. Ao mesmo tempo em que criticam e afrontam os

deuses, incentivam Perceu a utilizar os poderes de proteção de seu pai, Zeus, nas

lutas contra as figuras mitológicas. Mas, isso revela mais uma característica do mito,

qual seja, não se importar com as contradições com as coisas incompreensíveis.