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UNIVERSIDADE FEDERAL LATINO-AMEFRICANA E CARIBENHA INSTITUTO LATINO-AMEFRICANO DE ARTES, CULTURAS E HISTÓRIAS ÁFRICA CONTEMPORÂNEA: COLONIZAÇÃO, INDEPENDÊNCIA E RESISTÊNCIA À MODERNIDADE

Foz do Iguaçu, 25 de abril de 2018.

por Nicole Machado

Em “O Atlântico Negro: Modernidade e dupla consciência” (2001) do intelectual britânico Paul Gilroy a cultura negra é compreendida a partir de um stand point muito específico que é o da diáspora e da dupla consciência. A partir dos estudos culturais e na esteira de intelectuais tais como Stuart Hall, Homi Bhabha, Gayatri Spivak e Edward Said ao pensar as particularidades culturais das diásporas, o autor elabora sua metáfora do “Atlântico Negro” onde sinaliza a existência de um contexto transnacional e intercultural no qual parecem atuar as culturas negras. Ele diz logo que o primeiro capítulo tem “como raiz e como rota o esforço envolvido em tentar olhar para (pelo menos) duas direções simultaneamente” (p.35). Paul Gilroy nos propõe como alternativa ao essencialismo e ao relativismo uma reflexão transnacional que possa pensar compreender a experiência negra no mundo a partir da constatação de que as comunidades negras, de ambos os lados do Atlântico estiveram sempre em processos permanente de trocas culturais. Ele busca “tornar os negros percebidos como agentes, como pessoas com capacidades cognitivas e mesmo com uma história intelectual - atributos negados pelo racismo moderno” (p.40) e produzir “um ensaio sobre a inevitável hibridez e mistura de idéias” porque para ele a “história do Atlântico negro fornece um vasto acervo de lições quanto à instabilidade e à mutação de identidades que estão sempre inacabadas, sempre sendo refeitas (p.30) essas são suas razões primordiais para escrever o livro. Um pouco de sua inspiração está no romance Blake or The Huts of America (1859-1862) de Martin Delany tanto que ao finalizar a segunda parte do primeiro capítulo ele nos diz “a argumentação deste capítulo contra os absolutismos étnicos pois sua afirmação do intercultural e do transnacional é mais do que suficiente para avançar a discussão da cultura política negra para além da oposição binária entre perspectivas nacional e a da diáspora” (p.82). Nesse modo de repensar a diáspora Gilroy sublinha que ao “falar do Brasil produz, corretamente, hesitação.” (p.10). Uma vez que para o autor falar qualquer coisa seria no mínimo “irrelevantes num lugar onde o prejudicial ideal de pureza tem um sentido muito

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mais frouxo em relação à política cultural e uma relação totalmente diferente com as ideias de raça e de identidade nacional” (p.10). O autor reconhece como há uma marginalização da história brasileira, como ela tem sido inibida e espera que sua obra possa - se possível - sanar essa marginalização com “o caráter cultural e as dimensões políticas de uma narrativa emergente sobre a diáspora que possa relacionar, senão combinar e unificar, as experiências e interesses negros pelo mundo” (p.11). No Brasil, frente a esses argumentos o sociólogo Antônio Sérgio Alfredo Guimarães

assinala certos desacordos no sentido de apontar a raça como uma categoria interseccional e analítica necessária uma vez que ela revela que certas discriminações são efetivamente raciais e não de classe ou culturais, ou seja, em outras palavras o termo raça como trabalhado em perspectiva localizada no Brasil tornou-se “uma imagem da diferença absoluta entre culturas,

grupos linguísticos, ou aderentes a certos sistemas de crenças (

A raça tornou-se a figura

suprema da diferença porque ela é necessariamente arbitrária em sua aplicação”. (Gates apud Guimarães, 1995, p.32). Reitero aqui como a antropóloga Rita Segato (2005) nos diz que “a idéia de um Atlântico Negro, como estratégia de construção de uma identidade política negra transnacional pode ser um instrumento político até certo ponto eficiente” (grifo nosso) no que se refere às demandas das diferentes populações negras dispersas pelas Américas.

)

Referências:

GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Racismo e Anti-Racismo no Brasil. Novos Estudos CEBRAP N.° 43, novembro 1995 pp. 26-44. SEGATO, Rita Laura. Raça é signo. Brasília: UnB, 2005. (Série Antropologia nº 372) GILROY, Paul. O Atlântico Negro. Modernidade e dupla consciência, São Paulo, Rio de Janeiro, 34/Universidade Cândido Mendes – Centro de Estudos Afro-Asiáticos, 2001.