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A reforma que precisamos

Reforma Universitária: documento aprovado pela Comissão Política Nacional do PCB para
balizar e subsidiar as ações e posicionamentos da militância e o aprofundamento da discussão
sobre o tema no conjunto do Partido.

Desde o final de 2003, o governo brasileiro anuncia a realização de uma "reforma universitária",
que transformaria profundamente a situação do ensino superior, adequando-o às exigências dos
tempos atuais. As declarações do anterior ministro da educação (Cristóvão Buarque) e do atual
(Tarso Genro), além das manifestações de outras figuras do primeiro escalão governamental, como
as do ministro da Casa Civil, José Dirceu, foram objeto de comentários os mais variados, tanto por
colunistas da imprensa como por parte de integrantes da "comunidade acadêmica", especialmente
quando essas declarações fizeram referência a questões como: o ingresso diferenciado nas
instituições públicas ("cotas"), a utilização de vagas ociosas nas instituições particulares e a
autonomia, especialmente financeira, das universidades federais. Quanto a este último tema, deve-
se salientar que, se projetos de implantação de modelos empresariais para a administração das
universidades públicas, tal como o que advogava a transformação das instituições públicas de
ensino superior em "organizações sociais", foram momentaneamente postos à margem, ainda são
reafirmadas antigas posições favoráveis à "autonomia financeira" das universidades públicas.
Segundo essas posições, o Estado teria tão somente a incumbência de assegurar um orçamento
mínimo para as instituições de ensino, que passariam a ter legalmente a obrigação de obter recursos
adicionais para o desenvolvimento de suas atividades.
Entre os comentários feitos, alguns manifestaram apoio irrestrito às possíveis propostas
governamentais, defendendo, inclusive, sua implementação imediata através de Medida Provisória,
outros foram profundamente críticos, afirmando que a reforma implicaria em "piora" imediata das
condições - já precárias - de funcionamento das universidades públicas, principalmente as federais,
chegando algumas dessas críticas a classificar a iniciativa governamental como tipicamente
neoliberal e como uma imposição do Banco Mundial e do FMI.
Frente a esta situação polêmica é preciso perguntar: é necessário realizar com urgência uma reforma
do ensino superior brasileiro? Que aspectos deveriam ser prioritariamente abordados? É possível,
com a reforma, atender a interesses da grande maioria da população que sempre foram colocados
em segundo plano?
Para se responder de modo devido a essas questões, é necessário, mesmo que muito sucintamente,
contextualizar a própria problemática das "reformas" na sociedade brasileira, considerando tanto a
conjuntura atual como também a trajetória histórica das lutas sociais no Brasil. Inicialmente, é
preciso ter em conta que o debate sobre a premência das "reformas", presente em todo o mundo
desde as décadas finais do século XX, resulta das transformações pelas quais o capitalismo passou a
partir da crise dos anos setenta e da generalização das formulações políticas que tinham por objetivo
assegurar, sob a hegemonia do setor financeiro internacional, a expansão continuada do capital e a
aspirada mercantilização universal de todo e qualquer tipo de produção humana, fosse ela
"material" ou "simbólica".
Neste sentido, o tempo das "reformas globais" expressa o acirramento da luta de classes, manifesto
tanto no aumento da exploração dos trabalhadores pelo capital e na degradação das condições de
trabalho, como, em contrapartida, pelas diferentes formas de resistência empreendidas pelos
movimentos sociais, seja nas sociedades capitalistas avançadas, seja naquelas outras - como a
brasileira - periféricas e subalternas. Mas, se é preciso situar o debate sobre as reformas levando em
conta o cenário mundial contemporâneo, também não se pode esquecer que as lutas por ações
governamentais que impulsionassem mudanças estruturais na sociedade brasileira são parte
importante da tradição política das classes dominadas no Brasil. A história da república brasileira
assinala a persistente demanda popular por medidas que, possibilitando o atendimento dos
interesses mais imediatos da grande maioria da população brasileira, fossem instrumentos políticos
para a reestruturação de uma ordem social geradora das mais extremas desigualdades.
Assim, não podemos nos esquecer que, entre os trabalhadores brasileiros, as reformas - como
demonstra o trágico desfecho das lutas pelas "reformas de base" durante o governo Goulart - não
são somente uma palavra de ordem dos ideólogos do neoliberalismo, nascida no final dos anos
oitenta. Ainda que conservadores de todo tipo e qualidade tenham, nas últimas décadas, procurado
se apropriar deste elemento central dos discursos das esquerdas, não é possível dissimular uma
verdade política incontestável: as reformas sempre foram - e são - objeto das lutas entre as classes,
do enfrentamento de interesses antagônicos e não conciliáveis.
Especificamente quanto à reforma da educação universitária brasileira, toda discussão sobre a
mesma não pode desconsiderar que nosso sistema de ensino superior sempre se defrontou com duas
grandes problemáticas ao longo de todo o século XX. A primeira, a definição do papel das
instituições de ensino (fossem universidades ou não) no processo de desenvolvimento nacional. A
segunda, a demanda por acesso ao ensino superior, que cresceu na proporção em que a
industrialização e a urbanização se intensificaram, com a correlata ampliação das classes médias e
do operariado, isto é, conforme o país, embora sempre inserido de forma subalterna no sistema
internacional, se tornava tipicamente capitalista. A estas duas, somou-se, agravado tanto pela
delongada recessão econômica que marcou o final do século XX em quase todos os países da
América Latina, como pelo aumento da demanda, o problema do financiamento do sistema. As
soluções mais emblemáticas apresentadas encontram-se nas formulações, antagônicas, do Banco
Mundial e da UNESCO. A primeira tem repetidamente defendido a contenção de investimentos por
parte do estado. A segunda, da UNESCO, reafirmou reiteradamente, ao longo da década de noventa,
a importância estratégica do estado estar comprometido com o investimento no ensino superior.
As respostas a estas problemáticas, que marcaram a história das nossas "reformas do ensino",
terminaram por atender insuficientemente aos interesses das classes dominadas da sociedade
brasileira e não propiciaram a fundamental colaboração das instituições de ensino superior para a
implementação de um projeto de desenvolvimento que possibilitasse a superação de nossa - também
histórica - posição subalterna na ordem internacional. Desta forma, sob a predominância do
conservadorismo político e acadêmico, instituíram-se as nossas primeiras universidades,
procurando-se reproduzir, sob os limites históricos impostos por uma ordem burguesa inconclusa,
aspectos das instituições européias e norte-americanas. Mantiveram-se quase intactos, no entanto, o
espírito bacharelesco e a alta seletividade, advindos dos tempos do Brasil imperial.
Pressionada pelos clamores populares, que, desde o final dos anos cinqüenta, denunciavam a
esclerose das nossas instituições de ensino superior, a ditadura militar respondeu à demanda por
acesso com incentivo à criação de faculdades privadas, cuja qualidade sempre foi objeto de
questionamento. Ao problema das relações entre as universidades e o desenvolvimento nacional,
respondeu, mesmo que sob os percalços de uma modernização conservadora, com a estruturação de
programas de pós-graduação e pesquisa, o que resultou na existência de um quantitativo
considerável de mestre e doutores brasileiros, além da constituição de alguns centros de referência
importantes, possibilitando, ainda que sob as amarras das políticas econômicas pró-imperialistas,
um aumento significativo da capacitação em ciência e tecnologia.
Com o fim da ditadura e a redefinição da ordem político-jurídica, através da Constituição de 1988,
esperava-se que demandas presentes desde os tempos das lutas pelas "reformas de base", somadas
às decorrentes de todo o processo mais recente de desenvolvimento capitalista vivido pela
sociedade brasileira, pudessem ser atendidas. Entretanto, a virada "neoliberal" de Collor e Fernando
Henrique, a perpetuação do conservadorismo acadêmico e a força dos interesses privatistas fizeram
com que se reproduzissem, sob forma ampliada, a privatização do ensino superior e o
estrangulamento financeiro das instituições públicas.
Persistimos sendo um dos países latino-americanos com menor acesso ao ensino superior. Nossos
cursos universitários, em sua maioria de qualidade aquém da desejada, não conseguem cumprir
papéis estratégicos para que se torne possível o empreendimento de uma proposta de
desenvolvimento econômico autônomo, norteada pelo atendimento prioritário aos interesses da
maioria da população brasileira. Comparado com os padrões internacionais, o Brasil está em grande
defasagem no que se refere ao número de matrículas no ensino superior, tanto em relação aos países
capitalistas avançados, como aos países com características de desenvolvimento econômico
semelhantes às nossas. Hoje, somente cerca de três milhões e meio de brasileiros estão matriculados
no ensino superior. Destes, aproximadamente 70% são alunos de alguma instituição privada,
notadamente nos cursos "mais baratos" de ciências humanas. A continuar o processo intensivo de
privatização do ensino superior nacional, em breve, somente nas áreas de menor concentração
urbana do país (e onde é menor a incidência das classes médias) o número de matriculados em
instituições públicas poderá ser superior ao dos inscritos nas particulares, geralmente
estabelecimentos isolados, nos quais a dissociação entre ensino, pesquisa e extensão vem a ser
marca registrada.
Ainda que a educação seja, constitucionalmente, concessão do Estado, o poder discricionário de
seus donos predomina nas instituições de ensino privadas. Da definição das estratégias
institucionais, como a abertura de novos cursos e da qualidade do ensino ofertado, até o
cumprimento da legislação trabalhista, a vontade dos representantes das mantenedoras é, na prática,
quase sempre inquestionável, afirmando-se os interesses imediatos de enriquecimento dos
"educadores empresários".
Nas instituições públicas, apesar de "medidas democratizadoras", como a eleição de seus dirigentes,
persiste, de modo geral, o domínio de "oligarquias acadêmicas", cujos interesses particulares,
exercidos pelo controle institucional, se sobrepõem aos da grande maioria, inclusive daqueles que
geram a riqueza necessária para mantê-las. Sob o disfarce de um aparente "anticorporativismo",
persiste a reprodução de um discurso em que se mescla a defesa da instituição de parâmetros
meritocráticos somados aos que são próprios a gerências empresariais. Para este discurso, o
atendimento dos interesses mais imediatos de todos aqueles que se encontram mais distanciados das
fontes do poder institucional são inadequados, ou mesmo obstáculos à obtenção da excelência
acadêmica.
A perpetuação do atual quadro do ensino superior brasileiro, incapaz hoje de responder
satisfatoriamente às demandas que advém de diversas partes da sociedade, menos no que provocar o
acirramento de tensões - salvo conflitos conjunturais - termina por generalizar a apatia política ou as
diversas formas de clientelismo e carreirismo, hoje disseminadas em nossas instituições
universitárias, além de contribuir para a perpetuação de nossa posição subalterna no cenário
internacional. Desgastada pelos efeitos das políticas neoliberais implantadas, a instituição
universitária brasileira permanece não atendendo aos interesses de classe dos trabalhadores, nem
dos demais integrantes da grande maioria da população brasileira.
Em função disto, a universidade brasileira precisa ser reformada, transformada em suas estruturas.
Não porém dentro de perspectivas que pretendem converter todas as instituições de ensino superior
em "fabriquetas de certificados", cujo modelo maior é a "universidade planetária", proposta pelo
Banco Mundial para os países periféricos, nem tampouco mediante a adequação do nosso sistema
de ensino superior a uma controvertida "internacionalização da educação superior". Acima de tudo,
a reforma do ensino superior brasileiro não pode ser feita segundo os parâmetros daqueles que
defendem, como objetivo prioritário de todo governo brasileiro, a obtenção permanente de
expressivos superávits fiscais, independente do custo social que isto signifique.
Frente à baixa escolaridade média da população brasileira e às históricas restrições ao acesso aos
cursos universitários, uma reforma do ensino superior brasileiro que corresponda aos interesses das
classes populares não pode estar dissociada também de políticas educacionais que tenham entre
seus objetivos prioritários a resolução da continuada crise das redes públicas de ensino fundamental
e médio, estejam elas sob administração municipal, estadual ou mesmo federal. Esta crise, que
advém desde a década de setenta, é hoje responsável pelo fato de que a grande maioria dos
estudantes matriculados nas instituições públicas brasileiras seja oriunda de escolas particulares. A
persistente crise das redes públicas agrava as dificuldades vivenciadas pelos estudantes mais pobres
e reafirma em nossa sociedade, mesmo que indiretamente, práticas preconceituosas, cujo efeito final
é a discriminação desses estudantes por suas características de classe, etnia e gênero.
Assim, sob ótica dos interesses populares, uma reforma do ensino superior brasileiro deve, hoje, ter
como seus principais objetivos:
- O estabelecimento de formas de sustentação financeira das instituições públicas de ensino superior
que levem em consideração a preservação do seu patrimônio, construído ao longo de décadas, a
situação de seus órgãos suplementares - como os hospitais universitários - afora a cobertura das
aposentadorias de seus funcionários. É necessário assegurar a aplicação exclusiva de recursos
públicos para a manutenção das instituições públicas de ensino superior, de forma que estas não
sofram efeitos de medidas políticas conjunturais e se torne possível minimizar a atual importância
da captação de recursos junto a agentes privados (os recursos extra-orçamentários). Igualmente é
necessário destinar recursos específicos para a promoção do aumento das vagas universitárias nas
instituições públicas, criando-se um fundo estatal, especificamente destinado para este objetivo.
- A manutenção da gratuidade para todos os cursos de graduação e pós-graduação strictu sensu,
oferecimento de cursos de extensão gratuitos em iniciativas conveniadas com instituições públicas e
representativas dos trabalhadores.
- A ampliação do acesso ao ensino superior público, mediante o aumento da oferta de vagas e
cursos, além da interiorização das instituições universitárias, de acordo com a densidade
demográfica das regiões, restringindo os efeitos discriminatórios das relações de classe, gênero e
étnicas, ainda hoje vigentes. Particularmente deve ser empreendida a oferta de cursos noturnos nas
instituições públicas, assegurando-se condições de manutenção e oferta de serviços essenciais
(como, por exemplo, bibliotecas, transporte, secretarias, bolsas, etc) nos mesmos padrões dos cursos
diurnos.
- A criação de formas de controle social das instituições privadas e públicas, por meio da
redefinição da legislação sobre as mesmas, ampliando-se a representação de diferentes segmentos
da sociedade - sobretudo dos trabalhadores - nos órgãos gestores responsáveis pelas definições das
políticas institucionais. Particularmente no caso das instituições privadas, cuja maioria apresenta
reconhecida precariedade quanto às condições de ensino e trabalho nelas existentes, é fundamental
que este controle incida prioritariamente sobre aspectos pedagógicos, trabalhistas e fiscais.
- A transformação gradual das instituições particulares de ensino superior em fundações sem fins
lucrativos.
- O estabelecimento de um programa de avaliação institucional a partir de amplo debate nas
instituições de ensino superior e na sociedade civil, não o restringindo ao âmbito da chamada
"comunidade acadêmica" nem ao das agências governamentais, ou mesmo do Conselho Nacional
de Educação, cujas estrutura e composição, fortemente favorável aos interesses dos "empresários do
ensino", devem ser objeto de profunda reformulação.
- A redefinição do processo de financiamento da pesquisa acadêmica, hoje exclusivamente realizada
com recursos provenientes de agências - públicas ou privadas - externas às instituições de ensino
superior.
- O estreitamento de relações entre as instituições de ensino superior e órgãos públicos, visando ao
estabelecimento de acordos e convênios que possam significar maior atendimento a demandas da
sociedade e o apoio ao desenvolvimento das atividades universitárias, redefinindo as condições de
realização da chamada extensão universitária.
- A definição de apoio prioritário para determinadas áreas de conhecimento visando ao
favorecimento de políticas que possibilitem maior autonomia econômica ao país, o
desenvolvimento tecnológico e a propriedade intelectual nacional.
- Mudanças nas práticas cotidianas, inclusive de ordem pedagógica, que possibilitem a redução da
evasão e a permanência dos alunos, sobretudo dos mais pobres, afora a melhoria da qualidade do
ensino ofertado, reconhecendo as mudanças nas formas de percepção e representação hoje
existentes na sociedade. É necessário possibilitar a concretização de perspectivas educacionais que
considerem a educação não como um fim imediato mas sim como um processo aberto, permanente
e inconcluso de compreensão da realidade, em que sejam plenamente respeitadas a liberdade de
expressão e a autonomia intelectual.
- A redefinição das políticas de pós-graduação, assegurando-se o apoio aos programas e uma nova
política de bolsas para os estudantes, a fim de garantir: melhores condições de desenvolvimento do
trabalho acadêmico, a integração entre pós-graduação e graduação; a ampliação do acesso e a
redução dos índices de evasão.
- O estabelecimento de programas públicos de apoio à complementação da formação universitária,
sobretudo em instituições públicas.
- O apoio privilegiado às licenciaturas, impedindo o prosseguimento do processo de precarização
hoje em curso, acompanhado do estabelecimento de programas nacionais que tenham por objetivo
estreitar as relações entre o ensino superior e a educação básica.
- A reversão do progressivo processo de aviltamento salarial e empobrecimento de professores e
funcionários técnico-administrativos, mediante a definição de políticas de recuperação do poder
aquisitivo dos mesmos.
- O estabelecimento de legislação nacional que, respeitando especificidades regionais e
institucionais, defina projetos de carreira para docentes e funcionários universitários, bem como as
relações de trabalho no âmbito das instituições de ensino superior, inclusive quanto aos processos
de contratação e demissão, ainda predominantemente sujeitos a atos arbitrários ou a ação de
interesses particulares.
Alcançar esses objetivos implica superar enormes dificuldades de ordem econômica e política,
exigindo-se ações e esforços, a médio e longo prazos, não só de estudantes, professores e
funcionários administrativos mas também da maioria da população. Ao atingi-los, estaremos
conseguindo estabelecer elementos para a superação da condição subalterna da sociedade brasileira
na ordem internacional e a redução das diferenças sociais hoje existentes em nosso país. Não
estaremos, porém, eliminando completamente os efeitos sobre a educação próprios à ordem
capitalista, decorrentes das desigualdades de classe. Isto somente será possível pela construção do
socialismo, meta cuja realização exige a intervenção política constante dos trabalhadores, não só
para denunciar os efeitos da exploração que sofrem, mas para universalizar e construir propostas
que afirmem os seus interesses, que são os da maioria dos brasileiros.