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N.

6 DEZ 2017

2017: o ano
da agricultura
O clima ajudou e a terra respondeu
com safras recordes de milho e soja
ODS 2: AGRICUTURA AS NOVAS CARAS DoS OS DIVERSOS SENTIDOS
SUSTENTÁVEL arranjos FAMiliares DAS DIVISÕES REGIONAIS
E COMBATE À FOME BRASILEIRoS ao longo do tempo
De outubro/2017
a fevereiro/2018.

CENSO AGRO 2017.


NÓS VAMOS COLHER INFORMAÇÕES,
O PRODUTOR RURAL VAI COLHER RESULTADOS.

Com o Censo Agro 2017, o IBGE vai a campo para coletar informações
e criar um retrato fiel da nossa agropecuária, que representa um dos setores
mais importantes para o país, porque movimenta a economia e a vida de todos
nós. Assim, a partir desses dados atualizados, o Brasil poderá criar políticas
e soluções para todo tipo, tamanho e característica de produtor rural. Se desejar
saber mais sobre o questionário ou outras informações, visite nosso site.
Receba bem o recenseador do IBGE e responda corretamente as perguntas.

JUNTOS, VAMOS COLHER RESULTADOS PARA O BRASIL.

Saiba mais em
censoagro2017.ibge.gov.br
ou ligue 0800 721 8181
editorial
De grão em grão o Brasil colheu convivência doméstica. Seja por opção, neces-
ao longo de 2017 a safra recorde sidade ou outro motivo, pessoas de vários ní-
que contribuiu para um impacto positivo na veis de parentesco, ou sem parentesco algum,
economia nacional e manteve o país entre passam a viver sob o mesmo teto, mostrando
os principais produtores de soja, milho e arroz. que o relacionamento entre as pessoas pode
Uma produção rural diversificada e potente, dar certo em vários formatos.
além de impulsionar a economia, também Na fauna e flora brasileiras, diversidade
pode ser a base para o Brasil ser referência também é o tom. Uma multiplicidade de plan-
mundial de projetos de agricultura sustentável tas e animais convivendo em seis biomas que
e de combate à fome – temas que fazem parte chamam a atenção mundial por sua variedade
do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável de espécies. Dentro do território, esta diversi-
nº 2, assunto de nossa terceira entrevista dade nos ajuda a pensar formas de organização
da série sobre os ODS. espacial que são levadas em conta na divisão
Outro assunto bastante atual são os novos do país em Grandes Regiões, juntamente
arranjos familiares que vêm se desenhando nos com fatores sociais e econômicos.
lares brasileiros. O modelo tradicional forma- Esperamos que esses temas propiciem
do por pai-mãe-filhos não foi descartado, mas uma ótima leitura a todos!
a sociedade se abre para novas formas de Equipe da redação

expediente Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística


Avenida Franklin Roosevelt, 166 sala 900 A - Centro - Rio de Janeiro - RJ 20021-120

UNIDADE RESPONSÁVEL Foto de capa Leandro Rodrigues Santos, Retratos a Revista


Coordenação de Licia Rubinstein Karina Meirelles, Marina do IBGE
Comunicação Social Fotografia Cardoso, Mauro Lambert, é uma publicação
Diana Paula de Souza A. Zucherman Pedro Renaux e Rodrigo mensal do Instituto
Presidente
Editor Carlos Coutinho Paradella para distribuição
Roberto Olinto Ramos
Marcelo Benedicto Ivan Amaral Revisão de textos interna e externa.
Diretor-Executivo Eduardo Peret Marília Loschi A publicação não é
Fernando J. Abrantes Editora assistente
João Neto Pedro Renaux comercializada.
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Helga Szpiz Ilustração 20.000 exemplares as matérias e as imagens
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José Sant`Anna Bevilaqua
Pedro Vidal em contato através do
Reportagem
Centro de Documentação nosso e-mail.
João Neto Tratamento de imagens
e Disseminação
Marcelo Benedicto Licia Rubinstein
de Informações
Marília Loschi Pedro Vidal
David Wu Tai Críticas e sugestões:
Mônica Marli Logística de distribuição
Escola Nacional de Editoração eletrônica Helena Pontes revistaretratos@ibge.gov.br
Ciências Estatísticas Licia Rubinstein Colaboradores
Maysa Sacramento Pedro Vidal Bruno Bimbato, Frederico
de Magalhães Simone Mello Takahashi, Helga Szpiz,
Larissa de Pieri Grizoli,

dez 2017 retratos a revista do ibge 3


e
5 #ibge/publicações  

26 cruzadas temáticas

i b g
16 novos arranjos
familiares
Família mosaico e
outras formas de se
fazer um lar

8 cinco faces
do Brasil
As divisões
regionais e suas
13 biodiversidade
brasileira
6 fome zero e
agricultura
mudanças na história
O mapa do tesouro
sustentável da nossa flora e fauna
Segurança alimentar
e nutrição fazem parte
do ODS 2

24 milho e soja:
safra recorde
As influências positivas
da colheira de 2017
na economia

4 retratos a revista do ibge dez 2017


#ibge agenciadenoticias.ibge.gov.br
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Brasil: uma visão geográfica e Atlas do espaço rural brasileiro
ambiental do início do século XXI A obra traz, de forma espacializada,
Organizada em nove capítulos, a publicação estatísticas do Censo Agropecuário 2006
reúne estudos sobre a formação territorial e de outras pesquisas agropecuárias,
do Brasil, seu processo demográfico, a populacionais e econômicas, bem como
formação das cidades e a evolução do informações geográficas referentes às
espaço rural e das atividades agrope- características territoriais, ambientais,
cuárias, a questão ambiental e as formas de povoamento, localização, acessibilidade
contemporâneas de vivenciar e gerir as e fluxos. Os mapas enfatizam as relações
múltiplas diversidades do Brasil. Assim, o e continuidades geográficas estabelecidas
leitor tem acesso ao contexto de múltiplas atualmente entre o rural e o urbano
alterações verificadas no território brasileiro. no Território Nacional.

dez 2017 retratos a revista do ibge 5


fome zero e
agricultura sustentável
texto e fotos Garantir a segurança alimentar e promover Revista Retratos  Ainda existe fome
  João Neto no Brasil?
arte e design a agricultura sustentável são ações André Martins  As pesquisas do IBGE
  Licia Rubinstein
indispensáveis para assegurar o progresso de e de outros institutos têm revelado
que o Brasil não integra mais o mapa
uma nação. Isso implica pensar em políticas da fome no mundo. É claro que os
voltadas à valorização do agricultor, ao levantamentos sempre mostram um
grupo ou outro que apresenta carac-
combate à fome e à redução da obesidade terísticas de desnutrição, mas isso não
da população. André Costa e Octávio Costa ocorre por problemas de disponibili-
dade de alimentos. O mais provável é
comentam sobre os desafios que o Brasil tem que haja deficiências locais na gestão
pela frente e o papel do IBGE nesse trabalho. das políticas de distribuição, ou mesmo

6 retratos a revista do ibge dez


nov 2017
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 2:
Acabar com a fome, alcançar a segurança
alimentar e melhoria da nutrição e promover
a agricultura sustentável

uma situação temporária, como alcançado a sustentabilidade, Temos algumas informações


o desemprego do provedor de mas estamos evoluindo quando sobre produção e produtividade
uma família, por exemplo. O comparamos com a agricultura agrícola do Censo Agropecu-
que a gente tem observado, de décadas passadas. Estamos ário de 2007. O Censo (Agro-
especialmente após a POF aumentando a nossa produti- pecuário) desse ano vai trazer
(Pesquisa de Orçamentos Fami- vidade, ou seja, usamos menos muitos desses dados.
liares) 2008/2009, é justamente área para obter uma mesma
o contrário. As pessoas estão produção de alimentos. Isso sig- Retratos  Quais são os desa-
André Martins,
comendo mais, só que alimen- nifica uma menor demanda por fios para o IBGE nestas áreas? mestre em Engenharia
tos inadequados. O consumo de desmatamento e de incorpora- André  Na área de produção de Produção pela UFF,
alimentos processados aumen- ção de terras ao sistema produ- alimentar, o desafio é manter as é o pesquisador do
IBGE responsável pelo
tou muito, e isso tem acarretado tivo, mantendo ou aumentando pesquisas já existentes e produ- tema produção de
problemas como obesidade, o a produção de alimentos. zir outras, de forma regular. O alimentos no ODS 2.
que não deixa de ser tão preo- ideal seria transformar a POF,
cupante quanto a fome. Retratos  O que o IBGE já tem que é de cinco em cinco anos,
de pesquisa sobre as condições em uma pesquisa anual, mais
Retratos  Na sua visão, a nutricionais da população simplificada, mas sabemos que
agricultura brasileira pode ser brasileira? isso envolve custos.
considerada sustentável? André  Desde 1974, o IBGE re- Octávio  Na agropecuária,
Octávio Costa Dependendo aliza pesquisas por amostragem ainda precisamos nos debruçar
dos critérios, nenhuma agri- que servem de base para pesqui- sobre os indicadores e planejar
cultura será considerada 100% sa de orçamento do consumo da futuras pesquisas para poder
sustentável. Apesar de já existir população. Tivemos, por exem- atender a esses objetivos. É
um conceito da FAO (Organi- plo, o Endef (Estudo Nacional importante também pensar-
Octávio Costa,
zação das Nações Unidas para da Despesa Familiar) 1974/1975 mos em pesquisas pós-Censo Doutor em Ciências do
a Alimentação e a Agricultu- e a POF 1987/1988, 1995/1996, Agropecuário para alimentar Solo pela UFRRJ, é o
ra) de agricultura sustentável 2002/2003 e 2008/2009, que ser- esses indicadores estabelecidos pesquisador do IBGE
responsável pelo tema
desde 1988, os indicadores de viram de base para atender parte pela ONU e acompanhar a agropecuária no ODS 2.
sustentabilidade agrícola ainda dos indicadores. Em algumas evolução do ODS 2. Algumas
são motivos de controvérsia e pesquisas, inclusive, tivemos es- informações não são pesquisas

i
discussão. A ideia de ter metas e tudo antropométrico, que mediu que vão nos dar e sim registros
indicadores serve para acom- e pesou parte da população. administrativos do governo,
panhar a evolução da agri- como por exemplo, dados do
cultura rumo a práticas mais Retratos  E sobre a produção Banco Central e estimativas de
sustentáveis ao longo do tempo, agrícola? gastos em subsídios agrícolas e
permitindo a comparação com Octávio  O que o IBGE pro- em crédito rural. Formar essas
outros países. No caso brasilei- duz hoje atende parcialmente parcerias também é um desafio
ro, acredito que não tenhamos às demandas dos indicadores. para o IBGE.

dez 2017 rretratos


etratos a revista do ibge 7
b
8 8 retratos a revista do ibge dez 2017
cinco faces
do Brasil
texto  Marcelo Benedicto ilustração e design  Pedro Vidal

O
Mônica Marli

s irmãos Thiago e Felipe Caldas, de nove Eles ainda se confundem na hora de


e sete anos, estão tendo os primeiros dizer o nome de cada “pedaço” do país,
contatos com o tema divisão regional mas Thiago já sabe responder pron-
do Brasil. Para o mais velho, que está tamente que são cinco e que o IBGE
no quarto ano do ensino fundamental, é o órgão responsável por propor essa
a matéria é dada na escola. Já o caçula está divisão. O que ele também tem na ponta
aprendendo sobre o assunto observando da língua é a opinião sobre as aulas de
o irmão estudar. E é ele quem não hesita Geografia. “São chatas! Pelo menos do
na hora de responder o que são as jeito que eu aprendo. Podia ter um globo
regiões do país: “São pedaços do Brasil, gigante, maior do que a minha casa, para
porque o país é muito grande, aí sepa- a gente subir nele e olhar o Brasil. Em
raram em regiões com características um livro não consigo ver nada, só tem
diferentes”. imagens chatas”, reclama.
TERRITÓRIO
DO RIO BRANCO

TERRITÓRIO
DO AMAPÁ

NORDESTE
NORTE ORIENTAL
MARANHÃO
CEARÁ
NORDESTE RIO GRANDE
DO NORTE
AMAZONAS PARÁ
OCIENTAL PARAÍBA
PIAUÍ
PERNAMBUCO
TERRITÓRIO ALAGOAS
DO ACRE
TERRITÓRIO SERGIPE
DO GUAPORÉ
BAHIA
CENTRO-OESTE LESTE
MATO GROSSO GOIÁS SETENTRIONAL

LESTE
MERIDIONAL
1940 MINAS GERAIS 1945
ESPÍRITO SANTO
A primeira divisão TERRITÓRIO
O Brasil passou
regional oficial DE PONTA PORÃ SÃO PAULO
RIO DE JANEIRO
a ter sete regiões.
do Brasil. Bahia, PARANÁ
DISTRITO FEDERAL São Paulo era um
Maranhão, Piauí e TERRITÓRIO dos estados do Sul
DO IGUAÇU
SUL
Sergipe não faziam SANTA CATARINA

parte do Nordeste
RIO GRANDE
DO SUL

dez 2017 retratos a revista do ibge 9


Vamos Contar Assim como Thiago, “O símbolo da geografia unitária - aquela que
Para estimular o uso muitas crianças também não separa o físico do social, o natural do
das informações têm essa mesma percepção
produzidas pelo IBGE
em relação ao estudo das humano, o ecológico do cultural - é a região.
de forma lúdica, o
Instituto criou o projeto regiões geográficas. De acordo Ora, o conceito de região foi vendido como
Vamos Contar, que com a pedagoga do IBGE,
promove a interação
Tatiana Barboza Miranda,
sendo um edifício estável. Só que não é”
entre o órgão e os Geógrafo Milton Santos – entrevista à revista Veja (16/11/1994)
educadores brasileiros. isso acontece porque elas se
O site do projeto sentem distantes do conteúdo:
sugere atividades
“a gente fala muito que a
e recursos para
as aulas, como as criança tem que se identificar como clima, fauna e flora, mas nada como algo consolidado,
Caixas das Grandes com o dado, tem que se ver também o aspecto cultural, que os alunos devem decorar.
Regiões Brasileiras na informação para que para que se tenha uma visão Acredito que seja necessário
e As Crianças nas
Regiões do Brasil, que
aquilo faça sentido”. mais próxima do que significa trabalhar menos o produto
tratam do tema divisão Segundo Tatiana, é preciso morar em cada uma delas”. final da regionalização
regional do país. estimular a criança para que ela O professor de Geografia, e mais o sentido de dividir
vamoscontar.ibge.gov.br
desenvolva a curiosidade de Roberto Marques, acredita em regiões”, comenta.
conhecer as regiões. “É muito que outro caminho para esti- Discussões como essa
importante não só destacar mular o interesse das crian- levaram a equipe da Retratos
aspectos geográficos, ças pelo assunto é através de a pensar sobre o quanto um
discussões sobre como é feito adulto conhece do assunto.
o processo de regionaliza- Citar os nomes das cinco
ção. “A divisão regional regiões e apontá-las no mapa
TERRITÓRIO
DO RIO BRANCO muitas vezes é ensi- deve ser uma tarefa fácil para
TERRITÓRIO
DO AMAPÁ
muita gente, mas será que
alguém sabe explicar o que
define cada uma delas? Quem
sabe dizer se o Brasil sempre
AMAZONAS
NORTE foi dividido assim?
PARÁ MARANHÃO
CEARÁ RIO GRANDE
NORDESTE DO NORTE
Os mapas publicados
PARAÍBA
PIAUÍ
PERNAMBUCO
nesta matéria mostram
TERRITÓRIO
DO ACRE ALAGOAS que o país sempre
TERRITÓRIO
DE RONDÔNIA SERGIPE

BAHIA
CENTRO-OESTE
MATO GROSSO GOIÁS
LESTE
DISTRITO
FEDERAL

MINAS GERAIS

ESPÍRITO SANTO
1960
SÃO PAULO RIO DE JANEIRO Bahia e Sergipe
pertenciam à Região
PARANÁ
Leste, com Rio de
SUL Janeiro, Minas Gerais
SANTA CATARINA e Espírito Santo
RIO GRANDE
DO SUL

10 retratos a revista do ibge dez 2017


foi dividido em regiões de criar uma coesão no país”, um povoamento e uma cultura
que agrupavam estados destaca a geógrafa do IBGE, diferente”
geograficamente próximos, Adma Hamam.
porém esses agrupamentos As cinco Grandes Regiões Primeiros recortes
nem sempre foram os brasileiras levam em conta os A primeira regionalização
mesmos. Maranhão, Piauí, limites estaduais e foram divi- oficial do Brasil aconteceu no
Bahia, Sergipe e São Paulo didas a partir de características início da década de 1940. Na
são exemplos de Unidades da comuns, considerando aspectos época, o espaço brasileiro tinha
Federação que alternaram seu físicos, humanos, econômicos e diversas “divisões”, segundo
posicionamento regional ao também culturais. critérios variados e para dife-
longo do tempo. “O Norte é visivelmente o rentes fins. Foi o IBGE, órgão
bioma amazônico, de domínio recém-criado, que teve o papel
Um país de norte a sul florestal. O Nordeste é o semi- de definir uma única divisão
A atual divisão do Brasil com árido. O Sudeste tem o peso regional para o país. E, desde
cinco Grandes Regiões (Norte, econômico. O Centro-Oeste é então, o Instituto passou a ser
Nordeste, Centro-Oeste, a fronteira agropecuária. O Sul o órgão responsável por propor
Sudeste e Sul) foi criada na tem o Pampa, mas sua densi- mudanças quando necessário.
década de 1970 e sofreu modi- dade está relacionada à posição Inicialmente, os desenhos
ficações pontuais: a criação do geográfica de fronteira e aos das regiões se baseavam nas
estado de Tocantins, cuja faixa imigrantes europeus”, define formações naturais: “as divisões
territorial pertencia ao estado Adma e completa: “cada quadro iniciais eram basicamente com-
de Goiás, situado no Centro natural força ponentes físicos, mas
-Oeste, e a divisão do Mato juntar relevo, clima
Grosso, que originou o Mato e vegetação já era
Grosso do Sul.
TERRITÓRIO
DE RORAIMA TERRITÓRIO

“A força da atual divisão


DO AMAPÁ

está na simplicidade de se ter


cinco regiões. Ainda hoje ao se
falar de cada uma delas se pode AMAZONAS
NORTE
PARÁ MARANHÃO
CEARÁ
remeter a uma identidade. Isso RIO GRANDE
DO NORTE
PIAUÍ
está no projeto educacional PARAÍBA

NORDESTE
de uma geração. É uma forma ACRE PERNAMBUCO
ALAGOAS
TERRITÓRIO
DE RONDÔNIA SERGIPE

BAHIA
CENTRO-OESTE
MATO GROSSO GOIÁS

DISTRITO
FEDERAL
MINAS GERAIS

SUDESTE ESPÍRITO SANTO

1970 SÃO PAULO RIO DE JANEIRO


O Brasil ganhou o
desenho regional PARANÁ

próximo ao atual. SUL


SANTA CATARINA

RIO GRANDE
DO SUL

dez 2017 retratos a revista do ibge 11


um avanço enorme em Metas do governo do presidente
termos de metodologia”, da República Juscelino Kubits-
comenta Adma. chek. Foi nesse período que a
“Cada quadro natural força Segundo a geógrafa, essas região passou a ser vista como
um povoamento e uma cultura primeiras divisões tinham um espaço organizado pelo
como preocupação a integração homem no qual se deve consi-
diferente. O Norte é visivelmente o e a unidade territorial do país: derar a evolução de estruturas
bioma amazônico. O Nordeste é o “o contexto político era influen- econômicas e sociais e a análise
ciado pela ruptura da política dos fluxos regionais (mercado-
semiárido. O Sudeste tem o peso do café com leite. São Paulo e rias, pessoas ou capital).
econômico. O Centro-Oeste é a Minas Gerais tinham perdido
fronteira agropecuária. um pouco da hegemonia polí- Dividir para conhecer
tica do Brasil”. Para se conhecer um país
O Sul tem o Pampa” Ela também explica que a é necessário dividi-lo, pois é
Adma Hamam partir dos anos 1960 passou a dessa forma que se conseguem
predominar a ideia de plane- perceber as diferenças. “E em
jamento do país, tendo como um país continental como o
ponto de partida o Plano de Brasil, isso se torna ainda mais
essencial”, destaca Adma.
Ela explica, ainda, que a
NORTE 4,12 hab/km 2 divisão regional é um conceito
4,47
chave da Geografia:
ACRE
AMAPÁ 4,69
2,23
NORDESTE 34,15 hab/km 2

“é um método sintético para


AMAZONAS ALAGOAS 112,33
PARÁ 6,07 BAHIA 24,82
RONDÔNIA
RORAIMA
6,58
2,01
CEARÁ
MARANHÃO
56,76
19,81
conhecer o território. Você
TOCANTINS 4,98 PARAÍBA
PERNAMBUCO
66,70
89,63
tenta buscar um pouco
PIAUÍ
RIO GRANDE DO NORTE
12,40
59,99
da história e da dimensão
SERGIPE 94,35
natural, e a síntese disso
são as regiões”. Assim, essa
divisão do espaço geográfico
brasileiro é fundamental
para o desenvolvimento de
teorias e métodos em estudos
acadêmicos, para o planeja-
mento e a gestão do território
nacional, além de ser a base
CENTRO-OESTE 8,75 hab/km 2
para o levantamento e divul-
DISTRITO FEDERAL
GOIÁS
444,07
17,65
gação de dados estatísticos.
MATO GROSSO
MATO GROSSO DO SUL
3,36
6,86 SUDESTE 86,92 hab/km 2

ESPÍRITO SANTO 76,25


MINAS GERAIS 33,41
RIO DE JANEIRO 365,23
SÃO PAULO 166,25

SUL 48,58 hab/km 2

PARANÁ 52,40
RIO GRANDE DO SUL 39,79
SANTA CATARINA 65,29

12 retratos a revista do ibge dez 2017


biodiversidade
texto  Marcelo Benedicto

brasileira
O
design  Pedro Vidal
fotos  ICMBio e Pixabay

território brasileiro abriga cerca de um sofreram o impacto dos ciclos econômicos


terço de todas as florestas tropicais do e do processo de ocupação do espaço
planeta e o maior sistema fluvial do brasileiro. Suas denominações têm como
mundo, além de reunir cerca de 1,8 referência o tipo de vegetação e o relevo
milhões de espécies em seis biomas. Tal predominantes nos ambientes
magnitude faz com que o Brasil esteja em que se situam.
entre os cinco países que possuem maior Ainda hoje, a diversidade encontrada
diversidade biológica na Terra. em cada um desses biomas pode ser
Tomados como uma referência básica percebida a partir de uma comparação
para os projetos de regionalização entre eles e através de uma observação
do país, como mostra a matéria “Cinco das características internas de cada um.
faces do Brasil”, publicada nesta edição, Para realçar aspectos dessa diversidade,
os biomas Amazônia, Cerrado, Caatinga, a Retratos selecionou informações que dão
Mata Atlântica, Pantanal e Pampa a dimensão da variedade de espécies que
são sistemas naturais que compõem nossos biomas, representados

Pau-Brasil
ao longo da história em áreas proporcionais ao espaço
que cada um ocupa no território.

Espécies animais Flora nacional


No Brasil, foram
do Brasil catalogadas mais
de 46 mil espécies
da flora. Essa é uma
Mamíferos 720 riqueza tão vasta
amíferos
1 que, se colocada no
gráfico ao lado, seria
mais de dez vezes
o tamanho da barra
aves Aves 1.924 Arara- correspondente aos
azul-de-lear Peixes. Mais detalhes
podem ser vistos no
répteis Mapa de Biomas do

g
Répteis 759 Brasil do IBGE. Para
2
baixá-lo, acesse:
https://goo.gl/1gT2Pf

anfíbios
Anfíbios 986
3

peixes Peixes 4.388

1 - Tamanduá-bandeira 2 - Jacaré 3 - Sapo


a
nh
ra
Pi

dez 2017 retratos a revista do ibge 13


Mamíferos 311

Caatinga
Répteis 550 Anfíbios 163
12 espécies
Aves 1.000 endêmicas
32 espécies endêmicas

Peixes 3.000 Bioma que só existe no Brasil, é caracterizado pelo clima


seco, com baixa pluviosidade. Devido a esse fator, exemplares
da flora local possuem a capacidade de estocar água.
A hidrografia do Cerrado possui vários rios intermitentes,
que secam totalmente em certas épocas do ano. Para se
Har
pia adaptar a essa realidade, espécies de peixes enterram seus
ovos na lama para que fiquem protegidos durante a seca,
garantindo o surgimento de uma nova população na cheia.
Mamíferos 148
Flora 13.229 10 espécies endêmicas
2.956 espécies
Répteis 107 Anfíbios 49
endêmicas
Aves 510 Flora 5.311

Amazônia
1.547 espécies endêmicas

Peixes 240

É o maior bioma oia


Jib
brasileiro em extensão,
ocupando quase
metade do território

Cerrado
brasileiro (49,3%).
A grande variedade Ocupa 23,9% do território e é
de espécies da flora considerado a caixa d’água do Brasil
por hectare garante por abrigar as cabeceiras de grandes
a convivência de bacias hidrográficas, além de possuir
inúmeras paisagens, uma rede de pequenos rios. Ao longo
parte das quais Répteis 187 Mamíferos 252 de sua extensão, é marcado por
18 espécies endêmicas
fica encoberta em Anfíbios 113
mudanças nas paisagens, que estão
períodos de cheia. É Aves 850 relacionadas às diferentes condições
da Bacia Hidrográfica ambientais. A flora tem como
Amazônica, caracte- característica espécies com raízes
rizada por rios de Peixes 1.000 profundas, em razão da sazonalidade
grande porte, que na distribuição das chuvas. É o bioma
é extraída a base brasileiro mais ameaçado.
da alimentação da
população local:
peixes que chegam Flora 12.683
7.356 espécies endêmicas
a percorrer 4.000 km
em rotas migratórias. Onça pintada

fontes  ICMBio, SiBBr e livros Brasil - Uma visão geográfica e ambiental no início do século XXI
e 5° Relatório Nacional do Brasil para a Convenção sobre Diversidade Biológica
colaboraram Bruno Bimbato, Frederico Takahashi, Mauro Lambert, Karina Meirelles e Marina Cardoso (estagiárias)
fotografias  A. Zucherman, Carlos Coutinho, Ivan Amaral, Jorge Silva, Marcos Amend e Marco Freitas

14 retratos a revista do ibge dez 2017


Mata
Atlântica
Répteis 311 Mamíferos 270
55 espécies endêmicas

Aves 934 Anfíbios 456

Peixes 350
Bioma brasileiro que atualmente tem
a menor cobertura vegetal, resultado
de intensa devastação provocada pela
ocupação histórica de toda sua extensão.
Apesar disso, suas áreas remanescentes
abrigam uma grande biodiversidade. Seu
maior rio é o São Francisco, que nasce no
Cerrado e atravessa a Caatinga. Quanto à
Br vegetação, destaca-se a riqueza de espécies
om
éli de flores e a variedade de árvores, como,
a
por exemplo, a existência de 454 espécies
Flora 18.713 em único hectare no sul da Bahia.
10.211 espécies endêmicas

Pampa
Conjunto de ecossistemas naturais caracterizados
por formações campestres, similar às pradarias
encontradas nos Estados Unidos. O bioma está
localizado somente no Rio Grande do Sul, ocupando
63% do território do estado. Possui trecho de Mata
Mamíferos 74
Atlântica, que compõe uma paisagem integrada
com a vegetação herbácea. O Pampa é marcado Répteis 97 Anfíbios 50
por variações climáticas extremas, o que dificulta a
Aves 120
sobrevivência de algumas espécies.
Peixes 18

Pantanal Flora 1.623


Sapinho de Barriga Vermelha

Mamíferos 132
Grande área de planície inundada que é altamente dependente
das cabeceiras dos rios oriundos do Cerrado. Pode ser vista Répteis 85 Anfíbios 35
como um um prato que enche e transborda, estrutura que Aves 463
propicia o acúmulo de sedimentos. A diversidade biológica
do Pantanal é bem complexa, pois tem relação com a Amazônia, Flora 1.197
o Cerrado e a Mata Atlântica. É a planície de inundação com 146 espécies
endêmicas
maior riqueza de espécies de aves do mundo, com um total
Pacu Peixes 263
de 463 já registradas.

dez 2017 retratos a revista do ibge 15


e
16 retratos a revista do ibge dez 2017
novos arranjos
texto  João Neto  
foto e design  Licia Rubinstein
colaboração  Marina Cardoso
(estagiária) e Rodrigo Paradella familiares
A avó que mora com os filhos e os netos; o padrasto que também é pai;
o filho que se divide entre duas casas; a mãe que cria os filhos sozinha;
casais que optaram por não ter filhos. Quem não conhece um caso assim?
Aquele clássico padrão de família formado por pai-mãe-filhos vem perdendo
espaço e novos perfis vão se configurando nos lares brasileiros. Os últimos
60 anos foram cruciais para essa transformação. A entrada da mulher no
mercado de trabalho, a queda da taxa de fecundidade, a legalização do
divórcio e a onda dos recasamentos provocaram mudanças estruturais
no seio familiar, o que tem levantado discussões sobre o que é família.

A família Sader é um exemplo ela foi diagnosticada com cân- do menino. Desde então, João
dessas novas composições. Pai cer de mama. Foi um período tem se adaptado muito bem ao
solteiro, o bombeiro militar muito difícil, porque os riscos novo lar. Uma das razões é o
Leonardo, 44 anos, cria, com para o bebê eram gigantes. E cachorro e as galinhas da avó
a ajuda da mãe, Sílvia, o filho mesmo estando separado dela, com os quais adora brincar.
João Pedro, 7 anos, depois que acompanhei toda a gestação, Vaidoso, ele diz que plantou
a mãe do garoto morreu, em assisti a todos os exames, no uma árvore sozinho, quando
2012, vítima de câncer. Hoje, dia do nascimento eu estava chegou lá.
todos moram juntos na casa de lá no centro cirúrgico, filmei Já Leonardo conta que foi
Sílvia, em São Gonçalo, Região e fotografei o parto. O João difícil se adaptar à realidade de
Metropolitana do Rio de Janei- ficou dez dias na UTI, porque pai solteiro. “Nunca tive filhos.
ro. Mas nem sempre foi assim. nasceu de sete meses e meio. Depois que o João veio defi-
Até os dois anos de idade, Eu ficava praticamente o dia nitivamente para cá, acabou
João morava com a mãe. Ela e todo no hospital”, relata. aquela vida de solteiro. Minha
Leonardo tiveram um relacio- No dia seguinte à morte mãe me ajuda. A casa é dela,
namento que terminou antes do da mãe, João passou a morar mas sei que a responsabili-
nascimento do menino. definitivamente com o pai. dade pela criação dele é toda
“Quando ela descobriu que Leonardo, porém, não quis se- minha”, diz. Apesar de ser uma
estava grávida, nós já estáva- parar o filho da família mater- avó coruja, dona Sílvia não
mos separados. Logo depois, na, uma promessa feita à mãe adoça e diz que agora o filho

dez 2017 retratos a revista do ibge 17


Fotos deve pedir permissão ao sair. era composto apenas por casais plo, quando um homem que já
Leonardo e João: “Ele tem que me perguntar sem filhos (19,9%), enquanto foi casado e teve filhos se casa
pai e filho passaram se pode sair e se estou dispo- que em 14,4% das casas só novamente, com uma mulher
a morar juntos quando
nível para ficar com o João”, havia um morador. que também já foi casada e
João perdeu a mãe,
em 2012. comenta. Mesmo diante das tem filhos. E, então, após se
adversidades, Leonardo se diz casarem, eles têm mais um
muito satisfeito pelo filho e “Hoje o João é mais filho”, explica. Outro fenômeno
pela família que tem: “Muitas meu amigo do que crescente, conforme comenta
vezes, o João é muito mais meu Eustáquio, é denominado de
amigo do que meu filho”.
meu filho. Sempre ninho vazio: “Esse é o caso de
sonhei em ser pai, casais que tiveram filhos, mas
Estatísticas revelam mas nunca senti que os filhos já saíram de casa”.
novas tendências nos De acordo com a pes-
arranjos vocação para a vida quisadora do IBGE, Cíntia
Dados da Pesquisa Nacional de casado. Nunca Agostinho, as casas têm ficado
por Amostra de Domicílios mais vazias, basicamente, por
vou abandonar minha
(Pnad) revelam que, desde dois motivos: a população está
2005, o perfil composto uni- mãe. Minha família é vivendo mais e tendo menos
camente por pai, mãe e filhos a base de tudo” filhos. “Com o aumento da ex-
deixou de ser maioria nos Leonardo Sader
pectativa de vida da população,
domicílios brasileiros. Na pes- aumenta também o número de
quisa de 2015, o tradicional ar- idosos, principalmente mulhe-
ranjo ocupava 42,3% dos lares Segundo o doutor em res, morando sozinhos. Hoje,
pesquisados. Uma queda de 7,8 demografia da Escola Nacional eles possuem mais indepen-
pontos percentuais em relação de Ciências Estatísticas (Ence), dência física e financeira. O
a 2005, quando abrangia 50,1% José Eustáquio Diniz, uma das número de domicílios com fi-
das moradias. Por outro lado, tendências que mais crescem lhos também vem caindo como
novas tendências ganharam nos domicílios é a chamada um todo justamente porque as
força. Em 2015, por exemplo, família mosaico. “A família mulheres estão tendo menos
quase um em cada cinco lares mosaico é formada, por exem- filhos” explica.

18 retratos a revista do ibge dez 2017


Quatro gerações na mesma casa
Foto
Se cada vez mais os lares brasi- por necessidade do que por ninas. Ele conversa comigo e eu
Vanessa mora com a
leiros abrigam menos pessoas, escolha. “A casa onde a gente repasso para elas. Nunca houve mãe, o marido, quatro
não é o que acontece com a mora é da minha mãe. Como falta de respeito entre eles”, ga- filhos e um neto: juntos
família da auxiliar de serviços tive filho muito jovem e não rante. Já com o filho mais velho, mais por necessidade
do que por escolha.
gerais Vanessa Marques, 34 anos. trabalhava, não tive condições a relação sempre foi amigável,
Ela é mãe de quatro filhos, de sair da casa dela. O pai das ressalta. “Os dois se dão muito
casada com o pai do filho caçula, meninas não me ajudou. Eu tive bem”, conta, orgulhosa.
já é avó e divide a moradia com que bancar tudo sozinha. Só Mesmo atualmente sendo
a mãe. Todos vivem sob o mesmo minha mãe, que é aposentada, casada, Vanessa sempre cumpriu
teto, em uma casa na Vila Pinhei- me ajudou. Nem sei como faria o papel de pai e mãe dos mais
ro, na Zona Norte do Rio de sem a ajuda dela. Até pouco velhos. Ela confessa que desem-
Janeiro. Yuri, 20 anos, é o filho tempo, somente eu trabalha- penhar essa função no dia a dia
mais velho, fruto do primeiro va. Hoje, graças a Deus, meu não é nada fácil. “Depois que
namoro de Vanessa. Do segundo marido e meu filho mais velho tive o Davi, eu foquei um pouco
relacionamento, ela teve Bruna, trabalham, mas, ainda assim, mais nele e deixei os mais velhos
16 anos, e Bianca, 17 anos. Há são muitas bocas para alimen- um pouco de lado e isso deixou
nove anos ela começou um rela- tar. Por causa disso acabamos eles, principalmente as meninas,
cionamento com o auxiliar de morando todos juntos”, explica. com ciúme. Talvez eu tenha
construção civil, Luiz Cláudio, Vanessa diz que a relação en- errado em não dar tanta atenção
28 anos, e tiveram o pequeno tre o marido e os enteados cos- a elas nesse momento”, admite.
Davi Lucas, de 4 anos. Há dois tuma ser tranquila, mas às vezes Mas, por outro lado, ela defende
anos, a casa ganhou mais um ocorrem pequenos desentendi- que o fato de sua família
morador: Enzo Gabriel, filho mentos. “Como toda adolescen- ser diferente das demais não
de Bianca. Dona Josefa, mãe de te, as meninas têm umas atitudes diminui o amor existente entre
Vanessa, completa a família. rebeldes que incomodam o Luiz. todos. “Amo meus filhos da
Vanessa conta que a decisão Mas quando isso acontece, ele mesma forma. Família, para
de morar todos juntos veio mais prefere não confrontar as me- mim, é tudo”, conclui.

dez 2017 retratos a revista do ibge 19


milho e soja:
safra recorde texto  Marília Loschi e Marcelo Benedicto
fotos  Eduardo Peret e Licia Rubinstein  design  Simone Mello
colaboraram  Larissa de Pieri Grizoli e Leandro Rodrigues Santos

e
20 retratos a revista do ibge dez 2017
Com estimativa de produção de 240 milhões
de toneladas e crescimento de mais de 30%
em relação à safra do ano anterior,
o ano de 2017 termina com resultados
recordes na agricultura.

O
clima ajudou e a terra responde: só de soja,
milho e arroz, as três principais culturas do
país, as safras ultrapassam 225 milhões de
toneladas em 2017 (para se ter uma base
de comparação, a produção total de grãos
em 2016 foi de 186 milhões de toneladas).
Os efeitos são sentidos em cadeia: a boa
colheita aumentou a oferta de produtos no
mercado e possibilitou preços mais baratos
para o consumidor, gerando deflação;
a exportação de soja atingiu patamares
recordes em comparação ao ano passado;
além disto, a ótima produtividade ajudou
a impulsionar a participação da agricultura
no PIB do país e a diminuir o impacto das
quedas de outros setores.

Licia Rubinstein

dez 2017 retratos a revista do ibge 21


“As condições climáticas desse ano foram muito boas
para o desenvolvimento da safra. Mas também não
foi só o clima: teve aumento de quatro milhões de
hectares de área plantada, é um aumento de 7,3%”
Alfredo Guedes

Os maiorais De acordo com Carlos cresceu. Então, se houve cresci- todas as etapas da produção
Soja, milho e arroz Alfredo Guedes, gerente do mento geral do PIB, podemos agro, desde os insumos como
correspondem, juntos, Levantamento Sistemático da dizer que foi por causa da agri- defensivos e fertilizantes e a
a cerca de 94% dos
grãos colhidos no Produção Agrícola (o LSPA, cultura”, comenta Alfredo. compra de máquinas agríco-
Brasil. pesquisa do IBGE que atualiza Ainda que responsável por las, até o momento pós-co-
as estimativas da produção uma pequena fração do PIB lheita, como o processamento
Entre os dez maiores
produtores de arroz
agrícola mês a mês), a safra de brasileiro, a participação da industrial e os serviços de
no mundo, o Brasil 2017 apresentou o maior cres- agropecuária na economia transporte e comércio.
é o único país não cimento desde o início da pes- do país é bem maior do que Os dados do Cepea mos-
asiático (ver mapa).
quisa, em 1975. “As condições parece: além dos números do tram que praticamente todos
climáticas desse ano foram setor primário, a agropecuá- os segmentos do agronegócio
muito boas para o desenvolvi- ria movimenta outros setores, tiveram desempenho positivo,
mento da safra. Mas também como indústria, transpor- gerando crescimento de 5,81%
não foi só o clima: teve au- tes, exportação, produção e no PIB-volume do agronegó-
mento de quatro milhões de vendas de máquinas e equi- cio na avaliação de janeiro a
hectares de área plantada, é um pamentos. Esta visão mais julho de 2017. “A safra recorde
aumento de 7,3%. Mas quando abrangente da participação da foi um ponto forte dentro do
você compara com a produção, agropecuária no país é conso- agronegócio”, avalia Nicole.
vê que foi um aumento muito lidada no que se chama o PIB “E, pela ótica do consumidor,
maior na produtividade, o ren- do agronegócio, calculado o setor teve um desempenho
dimento das lavouras foi muito pelo Centro de Estudos Avan- bastante favorável este ano,
maior do que o anterior”, expli- çados em Economia Aplicada entregando um volume maior
ca Alfredo. (Cepea), da Universidade de a preços menores”.
São Paulo (USP). A boa surpresa na mesa
Movimentando a economia Nicole Rennó, pesquisado- dos brasileiros apareceu nos
No segundo trimestre de 2017, ra do Cepea, explica o concei- números do Índice de Preços
o PIB fechou com pequena alta to: “Enquanto o IBGE divulga ao Consumidor Amplo, o
de 0,3% em relação ao mesmo o PIB dos três grandes setores IPCA, calculado pelo IBGE
período do ano anterior. Se (agropecuária, indústria e para dimensionar a inflação.
observarmos apenas o setor serviços), a gente olha para Em agosto, por exemplo, com
agropecuário, o crescimento dentro desses setores e vê, no boa parte da safra de milho
foi de 14,9%, o maior de todos PIB da indústria, o que é a e soja já colhida, aumentou a
os setores pesquisados, ameni- agroindústria; dentro do PIB oferta desses grãos no merca-
zando o efeito das retrações da dos serviços, o que foi relacio- do e os preços caíram conside-
indústria e dos serviços: “Em nado à agropecuária. Então, a ravelmente: o setor de cereais,
2017, o agro foi praticamente gente traz essas parcelas para leguminosas e oleaginosas
o único setor da economia que o agronegócio”. Isto inclui teve queda de 17,59% nos

22 retratos a revista do ibge dez 2017


Maiores produtores mundiais de grãos
em milhões de toneladas - 2014

soja
Estados Unidos 106,9

Argentina 53,4
Brasil
86,8 Mt
China 12,2
Índia 10,5
milho
Paraguai 10 Estados Unidos 361,1
Canadá 6,1 China 215,6
Ucrânia
Uruguai
3,9
3,2 Argentina
Brasil
33,1 79,9 Mt
Bolívia 2,9 Ucrânia 28,5
Índia 23,7
México 23,3
Indonésia 19
França 18,3
África do Sul 14,3

Maiores produtores mundiais de arroz


em milhões de toneladas - 2014

1º China
206 Mt

10º Japão
10 Mt

5º Vietnã
44 Mt

8º Filipinas
2º Índia 18 Mt
157 Mt
4º Bangladesh
52 Mt 3º Indonésia
70 Mt
7º Myanmar
Licia Rubinstein

26 Mt
9º Brasil
12 Mt 6º Tailândia
32 Mt

Fonte: Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) dez 2017 retratos a revista do ibge 23
Eduardo Peret
Eduardo Peret

24 retratos a revista do ibge dez 2017


“Em 2017, o agro foi praticamente o único setor
da economia que cresceu. Então, se houve
crescimento geral do PIB, podemos dizer
que foi por causa da agricultura”
Alfredo Guedes

preços, seguido por frutas, polis, por causa da geada – o ram ao município em busca Fotos
com queda de 16,36%, en- que não impede os ótimos re- de negócios rentáveis. Não é Milho e farelo de soja
quanto o índice geral nacional sultados, desde que no restante à toa que no local existe um em Maringá (PR).

apresentou aumento de 1,62% do ano o clima ajude, conforme Centro de Tradições Gaúchas.
nos preços. atesta Marcelo: “É um conjunto Jorge Vieira Salib, 68 anos,
de fatores que faz com que você é um dos produtores de grãos
Para equilibrar as contas tenha uma boa produtivida- de Balsas. Atualmente, sua
O estado do Paraná é o segun- de. De 60 a 70% é o clima que fazenda dispõe de uma área
do maior produtor de cereais, interfere na produção. Agora, de 5.500 hectares, sendo 3.500
leguminosas e oleaginosas no dentro dos fatores que o ho- hectares reservados para a
país, responsável por cerca de mem pode interferir, influencia produção de milho e soja. No
17% da produção, e é o maior na alta produtividade toda a primeiro semestre de 2017, o
produtor de feijão do país. preparação e correção do solo, agricultor avalia que a produ-
Marcelo Lis, 32 anos, é produ- a adubação, o manejo”, explica. ção não foi ruim, mas ficou
tor rural juntamente com seu E comemora: “A safra de 2017 abaixo das expectativas: os
pai em Prudentópolis, cidade foi muito boa”. produtores da região estima-
que mais produz feijão no vam uma colheita de mais de
Paraná desde 2013, de acordo Apostas na próxima safra 50 sacas de soja por hectare,
com a Pesquisa Agrícola Mu- O Matopiba é um conjunto de mas obtiveram em torno de
nicipal (PAM), do IBGE. Ele 337 municípios, num total de 47 sacas por hectare.
e o pai trabalham cerca de 250 aproximadamente 73 milhões Os trabalhos para a pró-
hectares de terras próprias e de hectares, na confluência dos xima safra começaram com
arrendadas, plantando prin- estados do Maranhão, Tocan- o plantio dos grãos entre o
cipalmente feijão preto, mas tins, Piauí e Bahia, em que se fim do mês de outubro e o
também soja, trigo e milho. destaca a produção de soja, mi- início de novembro, forma
O feijão preto é a variedade lho e algodão. A região utiliza de aproveitar a chegada das
mais comum na região, devi- tecnologia moderna e garante primeiras chuvas na região.
do à sua alta procura: “Mesmo mais de 10% da safra de grãos A expectativa é que a colhei-
que aconteça algum impre- do Brasil. ta dos grãos aconteça nos
visto de pegar muita chuva na Distante aproximadamente meses de fevereiro e março de
hora da colheita, ainda vai ter 800 km de São Luís, capital 2018. Uma boa notícia é que
alguém para comprar. É um do Maranhão, o município de além dos resultados dessa e
produto forte de comércio”, Balsas é o principal produtor das próximas safras, 2018 vai
conta Marcelo. de soja do estado. A história trazer mais informações sobre
A cultura do feijão, reali- do cultivo do produto na re- a agropecuária brasileira
zada em três safras em muitas gião teve início há cerca de 40 “colhidas” pelo Censo Agro-
regiões do Brasil, só tem duas anos, período em que pessoas pecuário, que está em campo
safras na região de Prudentó- da Região Sul do país chega- até março.  

dez 2017 retratos a revista do ibge 25


cruzadas temáticas 3 8

14 26 2

Horizontais 1.Norte 2.Nordeste 5.Sul 6.Nordeste Ocidental 10.Centro-Oeste 11.Leste 12.Sudeste 13.Bahia 16.Iguaçu 18.Piauí•Maranhão 19.Minas Gerais 22.Rio Grande do Sul 23.Santa Catarina 24.Paraná 25.Rio Branco
17

19 12

21 7

Verticais 3.Este 4.Centro 7.Nordeste Oriental 8.Leste Setentrional 9.Leste Meridional 14.Goiaz 15.Ponta Porã 17.Rio de Janeiro 20.Espírito Santo 21.Amazonas•Pará 26.Cartografia 27.Norte•Sul
5

16 9 1

23

11 20

13

27

15\18

10

22

24

25

concepção Helga Szpiz e Pedro Vidal

Horizontais 1, 2, 5, 6, 10, 11 e 12 - De 1940 até hoje, o Brasil teve doze nomes de regiões; que nomes são esses? 13 - No mapa de
1940, este estado tinha grafia sem a letra “h”; qual é este estado com a grafia atual? 16 - Nome de um dos dois territórios criados em
1945 que já não existiam em 1960. 18 - Estados do atual Nordeste que mudaram duas vezes de região. 19 - Estado do atual Sudeste
que mudou de região três vezes. 22-24 - Três estados fazem parte da Região Sul desde o mapa de 1940. 25 - Antes de ser chamado
Roraima e Território de Roraima, era chamado de Território do...
Verticais 3, 4, 7, 8 e 9 - Dentre as mudanças de nomes de regiões do Brasil de 1940 até hoje, são exemplos de nomes usados no
passado. 14 - Atualmente não usamos “z” no nome deste estado; como era grafado o nome dele? 15 - Território criado em 1945 que já
não existia em 1960. 17 - Em 1960 Brasília foi construída e a sede da Capital Federal deixou de ser o... 20 - Estado que fez parte do
Este, Leste Setentrional, Leste e agora integra o Sudeste. 21 - Estados que fazem parte do Norte desde o mapa de 1940. 26 - Conjunto
de estudos e operações científicas, técnicas e artísticas que orienta os trabalhos de elaboração de cartas geográficas. 27 - Regiões que
não mudaram de nome desde 1940.

26 retratos a revista do ibge dez 2017