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Universidade Federal do Amazonas

Faculdade de Letras – FLET


Curso de Letra Língua e Literatura Japonesa
Literatura Japonesa 3
Professora: Linda Midori
Aluna: Bianca Paiva Viana

Resenha As irmãs Makioka

O livro escrito por Junichiro Tanizaki entre 1946 e 1948 é uma das maiores obras do autor, se
não a maior, contando na sua versão brasileira publicada pela Editora Estação Liberdade em
2005 (3º Edição) com incríveis 742 páginas de uma trama ora suave ora impactante. O autor
nesta obra se preocupa em mostrar uma vida mais realista e menos sexual do que suas outras
obras, focando muito no estilo de vida caseiro com preocupações diferentes de publicações
polemicas anteriores, apesar disso ainda teve a obra censurada pelo governo japones por ser um
livro que estava indiferente a guerra desse período.

O livro conta a história de quatro irmãs : Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko.

Cada qual com uma personalidade única e marcante:

Tsuruko, a mais velha de todas, na faixa dos 40 quase 50, mãe de 6 filhos se muda no começo do
livro para a casa central em Tóquio e lá vive com sua família, ficando um pouco de fora da trama
principal, enquanto Sachiko, Yukiko e Taeko, moram na casa secundária em Ashiya.

A história conta como uma família muito tradicional e influente, que eram os Makioka, tiveram
de lidar com uma certa queda de status social e dificuldade econômica após a morte da patriarca
da família, que morreu logo após a esposa.

Tudo ficou nas mãos do marido da primogênita Tsuruko, o Tatsuo, o qual considerava como um
filho, adotando-o e deixando a empresa dos Makioka nas mãos dele. Por ser banqueiro ele
deixou a empresa aos cuidados de um gerente de administração.

Por serem uma família abastada, os pais em vida sempre procuraram casar as filhas com alguém
que estivesse a altura deles, escolhendo o pretendente que melhor se encaixasse nos padrões
sociais da família , assim perpetuando a tradição japonesa dos encontros de interesses
familiares, os miai.

Assim como a primeira filha a segunda filha Sachiko passou pelos miai, até encontrar seu atual
marido Teinosuke, tendo assim gerado uma família com uma única filha chamada Etsuko
A terceira filha, Yukiko de 30 anos, ainda não conseguiu se casar, pois a família continuava
rejeitando todos os pretendentes, achando algum defeito neles ou na família, qualquer coisa
poderia ser um motivo para um “não” da família. O que deixava a irmã caçula, Taeko sem poder
se casar, pois tradicionalmente a mais nova só poderia se casar quando a outra se casasse,
causando assim certo atraso para o casamento da mesma, que já tinha um pretendente desde a
juventude.

“Alguns especulavam que devia ter ocorrido algo bastante grave para que Yukiko, a irmã logo abaixo de Sachiko,
continuasse solteira mesmo depois de completar trinta anos de idade, mas de fato nada acontecera. Contudo, na
conjunção de fatores que levaram a esse resultado, talvez o que mais pesara fosse a incapacidade das irmãs Makioka
— de Tsuruko, a irmã mais velha e herdeira da casa Makioka, como também de Sachiko e da própria Yukiko — de
esquecer tanto o estilo de vida luxuoso que haviam levado ao lado do velho pai em seus últimos anos de vida, como
a antiga força do nome Makioka. E buscaram tanto um pretendente à altura desse nome que acabaram recusando
uma a uma, por serem insatisfatórias, todas as propostas de casamento — de início numerosas como as estrelas no
céu — que lhe haviam sido apresentadas. Aos poucos, amigos e conhecidos se impacientaram, as propostas
rarearam e, nesse meio tempo, a casa entrou em decadência.” (p. 18)

A obra se passa na década de 1930, no período de guerra.

A preocupação das irmãs mais velhas, principalmente de Sachiko é que caso sua irmã mais nova
Yukiko não se case agora ela passe o resto da vida solteira, devido a idade que já era considerava
velha para ao casamento. O problema de Yukiko é ser uma moça muito tímida e retraída
causando a impressão de não ter vontade nenhuma de ir aos miai, estabelecer conversas com os
pretendentes, e não são vistos esforços pela parte da jovem para ajudar no processo de encontro
para casamento, sendo que em alguns casos ela até atrapalha o processo, fazendo que o
pretendente desista da proposta.

Como a familia antes era muito influente mas perdeu considerável parte de seu poder aquisitivo
o esforço da família é somente para manter o nome da família, apesar disso o japão dessa época
está mudando e se modernizando, dando a impressão de que todos os esforços para manter o
tradicionalismo estão perdendo o sentido com o passar do tempo.

O livro decorre ao longo de anos, e em toda sua trajetória hão altos e baixos, há momentos de
calma e outros momentos arrebatadores.

No começo do livro o leitor já se encontra na preparação de um miai, aonde vão Yukiko, sua
irmã mais velha, seu cunhado, o homem que está propondo miai e Itani, dona de um salão de
beleza que era a mulher responsável por arranjar pretendentes e levar a proposta até a casa
Makioka, então a família tem que procurar na família ou na vida do pretendente se existe algo
errado, problemas de saúde ou financeiros, qualquer coisa que não seja do agrado dos Makioka
eles negam a proposta de casamento, mas o problema é que a família Makioka já não poderia
mais se dar ao luxo de procurar qualquer motivo para negar as propostas uma vez que eles já não
eram uma família no topo da sociedade, sendo assim há um momento em que as propostas param
de vir, e a família percebe o problema que estarão enfrentando se continuarem negando sempre e
por qualquer motivo.

O ponto de vista do livro quase parece ser narrado pela Sachiko, e tendo como Yukiko
protagonista pois a trama principal do livro é em volta das propostas de casamento e problemas
que envolvem a tal moça.

Quase não é mostrado a vida da irmã mais velha Tsuruko, tanto por esta não morar na mesma
casa, tanto por sua vida já estar praticamente resolvida com sua família e seus filhos, existem
algumas situações aonde ela é contactada, por exemplo para falar da doença de uma das irmãs
mais novas, ou para relatar um certo problema que aparece mais tarde no livro.

Uma personagem que apesar de nova tem muita atitude é a caçula Taeko. Ela quase não teve
contato com os pais pois eles morreram quando ela ainda era muito nova, sendo criada pela irmã
mais velha na casa secundária e por isso é a menos tradicional e mais rebelde. Ela e um romance
de infância chamado Kei Okubatake já tentaram fugir quando adolescentes, sendo noticiado pelo
jornal local da época, porém o jornal lançou a noticia com o nome de Yukiko ao invés do nome
da mais nova, causando assim grande embaraço para esta ao invés de para realmente quem tinha
feito tal ato.

A jovem Taeko sempre teve sonhos de independência e não ligava muito para as tradições da
família, não mostrando interesse nenhum em participar de um miai e conhecer alguem, sempre
estava seguindo seus sonhos em busca de liberdade, ou assim era mostrado, essa começou a
frequentar aulas de costura e fez sucesso criando bonecas com quimonos belos costurados a mão
pela mesma, os quais vendia e expunha em galerias, arrumando assim dinheiro para si.

Enquanto a mais nova mostrava-se independente e inteligente, Yukiko parecia uma adolescente
tímida, tanto na aparência e beleza cujo as pessoas não lhe davam 20 anos, tanto nas atitudes
inocentes, corpo magro e aparência frágil. A jovem apesar de ter opiniões e voz se calava sempre
em miais, não falando mais do que simples “hm..” ou “ah” quando lhe dirigido a palavra.

Sachiko e seu marido Teinosuke sempre participavam dos miais, o mais importante para a
família era que Yukiko se casasse logo, nada poderia impedir que houvesse a realização de
miais...Nada mesmo. O autor mostra de forma impactante o peso da tradição acima de tudo:
Sachiko em um período do livro engravidou novamente, porém ela teve uma aborto espontâneo,
causando fortes dores físicas e emocionais e mesmo assim ela e o marido participaram de um
miai. Ela por ter tido o problema com o bebê ela sangrava ao fazer muito esforço, e pelo bem do
miai ela subiu ladeiras, andou de taxi por estradas esburacadas e subiu escadas, causando grande
dor e posteriormente deixando-a de cama por algum tempo.

A relação dos Makioka com a sociedade também é mostrada através de sua relação com os
vizinhos e amigos da família, em especial com os vizinhos alemães da família Stolz, cuja família
cria laços fortes de amizades, aonde as crianças dos vizinhos iam brincar com a filha de Sachiko,
a jovem Etsuko. Por se tratar da década de 1930 houve um momento aonde a guerra é
representada e as ideias em relação a Hitler são expostas pelo casal alemão, que posteriormente
tem de se mudar de volta para o país, causando tristeza na família, principalmente em Etsuko.
Porém a relação entre eles continua por meio de cartas e troca de presentes pelo correio.

Outra amizade dos Makioka é uma jovem Russa chamada Katarina e sua familia: os Kirilenko.
São mostradas visitas a casa da jovem, posteriormente ela também viaja para o exterior e envia
uma carta, o conteúdo é como se fosse uma mensagem não só para as irmãs, mas para o leitor
também, para mostrar como que fora do Japão conseguir um marido bom era mais rápido pois
não havia tanta “burocracia” do encontro dos miais e escolhas, a jovem Kirilenko saiu do Japão,
chegou na Inglaterra, conseguiu um emprego e casou com o presidente da empresa que
trabalhava em menos de 6 meses!

Também é mostrado ao leitor como a hierarquia e o status social eram mais importantes do que
tudo para a família:

A mais jovem, Taeko, apesar de ter praticamente um homem que seria seu marido acaba por se
envolver com outro jovem, um fotografo, de status social baixo e quase pobre. Taeko começa a
se envolver com ele escondida, após se conhecerem em uma sessão de fotos pós apresentação de
dança. Até o momento eles eram apenas amigos, mas houve um alagamento na região na qual
eles moravam e a jovem Taeko estava fora de casa no momento, o marido de Sachiko vai
procura-la na casa de costura que ela frequentava, e após muitos momentos de tensão ele volta
pra casa com ela, então Teinosuke fala que ela só estava viva graças ao fotografo Yokichi. Por
ter salvo a vida da caçula ele é bem vindo na casa, o que mostra que apesar de tudo a família
ainda podia manter contato com pessoas de nível social inferior. Porém o que parecia apenas
amizade dos dois é mostrado depois como uma relação séria.

A relação dos dois é exposta posteriormente pelo homem sujo Taeko era antes apaixonada, Kei.
Ele envia uma carta para a irmã mais velha Sachiko falando sobre a suposta relação deles, o que
deixa a mulher em choque. E então Sachiko e Teinosuke começam a pensar: No dia do
alagamento em Osaka o jovem Kei não fez questão de molhar suas roupas para procurar Taeko,
enquanto Yokichi o fotografo arriscou sua vida para salvar a dela, sendo este um melhor
pretendente para Taeko por realmente se importar com ela, mas ele nunca daria uma vida
confortável e digna para Taeko.

Por outro lado a moça tinha sua própria fonte de renda e não dependeria de homem para
sustenta-la. Porém, infelizmente, após certo tempo o jovem fotografo fica doente, uma infecção o
deixa de cama, e o que começou com um problema no ouvido se estendeu para a perna, causando
amputação do membro e posteriormente a morte do jovem herói.

O mais espantoso é que o autor mostra certo alívio por parte de Sachiko com a morte dele, uma
vez morto não haveria como a caçula se casar com ele, assim sendo não sujariam o nome dos
Makioka. Uma representação do quão baixo eles conseguiriam chegar para manter o nome da
família.

A irmã mais nova é apresentada quase como uma transição do tradicional e do moderno, ela
apesar de participar da tradição da família acaba tendo relações secretas e hábitos ocultos, que
são revelados posteriormente e a mascara de moça recatada acabam caindo por terra: é
descoberto que ela bebe muito, frequenta casas noturnas e dá em cima de um barman, tudo lhes é
revelado pela boca da empregada do Kei, cujo qual cuidou da jovem Taeko quando esta se
encontrou doente e acamada por um longo período por ter enjerido comida entragada. Situação a
qual novamente é mostrado o esforço da familia para manter seu nome. Por ter sido expulsa de
casa Taeko começa a morar com Kei, e ao saberem que a caçula se encontrava doente eles vão
visita-la, e para não chamarem o medico renomado que servia a familia escolher por chamar um
desconhecido que acaba dando diagnósticos errados e a moça vai piorando, ela fica internada em
um hospital longe do bairro que a familia morava, um hospital de terceira aonde ela continua a
piorar, até que o medico descobre que ela tinha Catarro intestinal pela ingestão de peixe
estragado.

Quando ela melhora é mostrado uma certa situação ao leitor: Kei tem de viajar para a China,
pois tinha um emprego lá, seria um bom emprego, mas Taeko não quer ir com ele, o que espanta
a familia pois ele cuidou dela enquanto ela estava doente. O que nos é revelado depois, a jovem
Taeko está gravida do barman de uma casa noturna. O que causa a ira e desgosto de Sachiko.

Eles a mandam para longe, pois justamente nessa época finalmente parece que Yukiko irá se
casar e isso poderia arruinar a proposta, “que familia tem uma irmã caçula que engravida mesmo
não estando casada?”. Entao eles a mandam para morar num hotel muito longe aos cuidados de
uma das empregadas da casa. Quando o bebê nasce porém, o medico o derruba e a criança
morre, causando tristeza a toda família. Taeko então casa com o barman, por achar ele uma
opção melhor que Kei, e pelo que deu a entender ela o amava.

No final do livro é mostrado apenas os preparatórios para o tão aguardado casamente de Yukiko
que finalmente consegue um pretendente após tantas rejeições. O final é em aberto, mas mostra a
insatisfação da moça com o casamente, que mesmo assim irá se casar, deixando no ar uma
pergunta: Valeu a pena todo o esforço para o casamento dela se não há a felicidade do
matrimonio.

Apesar das tradições, o período abre espaço para mudanças, mas a família é muito ligada a
tradição e prefere enfrentar inúmeras dificuldades a deixar que as irmãs se envolvam com
qualquer um, mas Taeko acabou casando-se com “qualquer um” devido as circunstancias,
deixando uma prova de que apesar do não envolvimento da familia ela fazendo o que queria
alcançou uma independência, pode escolher quem seria ser parceiro, representando assim o fim
de uma tradição, sendo a mais nova, nascida sem tanta educação pelos pais e sem atenção das
irmãs mais velhas cuja prioridade era casar Yukiko ela conseguiu alcançar sua independência de
escolha. Imagino que ao representar a mais nova tendo essa conquista ela mostrou que acaba
sendo impossível apesar de esforços impedir que as gerações mais novas sigam as tradições
anteriores se não quiserem, de certo modo criticando isto mas o representando de uma forma
bela.

O livro é uma leitura rica em detalhes, que prende o leitor entre momentos de calma e
tranquilidade e momentos de tensão e impacto que através de palavras deixam o leitor entre o
sentimento de paz e nervosismo no decorrer de situações alegres e outras inimagináveis.

O autor deixou de lado os aspectos sexuais encontrados em outras obras e focou na questão
social das família desse nível na época de 30, seus pensamentos e atitudes sempre focados em
salvar o nome e manter as tradições a muito tempo praticadas, não aceitando mudanças.

A obra de Tanizaki Jun’ichiro é impressionante, bela e uma leitura essencial.

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