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Folha rostoGeopolítica da África.

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Livros publicados pela Coleção FGV de Bolso

(01) A História na América Latina – ensaio de crítica historiográfica (2009)


de Jurandir Malerba. 146p.
Série ‘História’
(02) Os Brics e a Ordem Global (2009)
de Andrew Hurrell, Neil MacFarlane, Rosemary Foot e Amrita Narlikar. 168p.
Série ‘Entenda o Mundo’
(03) Brasil-Estados Unidos: desencontros e afinidades (2009)
de Monica Hirst, com ensaio analítico de Andrew Hurrell. 244p.
Série ‘Entenda o Mundo’
(04) Gringo na laje – Produção, circulação e consumo da favela turística (2009)
de Bianca Freire-Medeiros. 164p.
Série ‘Turismo’
(05) Pensando com a Sociologia (2009)
de João Marcelo Ehlert Maia e Luiz Fernando Almeida Pereira. 132p.
Série ‘Sociedade & Cultura’
(06) Políticas culturais no Brasil: dos anos 1930 ao século XXI (2009)
de Lia Calabre. 144p.
Série ‘Sociedade & Cultura’
(07) Política externa e poder militar no Brasil: universos paralelos (2009)
de João Paulo Soares Alsina Júnior. 160p.
Série ‘Entenda o Mundo’
(08) A Mundialização (2009)
de Jean-Pierre Paulet. 164p.
Série ‘Economia & Gestão’
(09) Geopolítica da África (2009)
de Philippe Hugon. 172p.
Série ‘Entenda o Mundo’
(10) Pequena Introdução à Filosofia (2009)
de Françoise Raffin. 208p.
Série ‘Filosofia’
(11) Indústria Cultural – uma introdução (2010)
de Rodrigo Duarte. 132p.
Série ‘Filosofia’
(12) Antropologia das emoções (2010)
de Claudia Barcellos Rezende e Maria Claudia Coelho. 136p.
Série ‘Sociedade & Cultura’

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Copyright © 2006 Armand Colin, Géopolitique de L’Afrique
1a edição — 2009
Impresso no Brasil | Printed in Brazil
Todos os direitos reservados à EDITORA FGV. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em
parte, constitui violação do copyright (Lei n o 9.610/98).
Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor.
Este livro foi editado segundo as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pelo Decreto
Legislativo n o 54, de 18 de abril de 1995, e promulgado pelo Decreto n o 6.583, de 29 de setembro de 2008.
C O ORDE NAD ORE S DA C OLEÇÃO : Marieta de Moraes Ferreira e Renato Franco
T RADUÇÃO : Constância Morel
P RE PARA ÇÃO DE O RIGI NAIS E REVISÃO T ÉC NICA : Luiz Alberto Monjardim
REVISÃO : Adriana Alves Ferreira , Fátima Caroni, Marco Antônio Corrêa
DIAG RAMAÇ ÃO : FA Editoração
PROJ ETO GRÁ FICO E CAPA : Dudesign
Cet ouvrage, publié dans le cadre de l´Année de la France au Brésil et du Programme d’Aide à la Publication Carlos
Drummond de Andrade, bénéficie du soutien du Ministère français des Affaires Etrangères et Européennes.
« França.Br 2009 » l´Année de la France au Brésil (21 avril – 15 novembre) est organisée :
- en France, par le Commissariat général français, le Ministère des Affaires Etrangères et Européennes, le
Ministère de la Culture et de la Communication et Culturesfrance ;
- au Brésil, par le Commissariat général brésilien, le Ministère de la Culture et le Ministère des Relations Extérieures.
Este livro, publicado no âmbito do Ano da França no Brasil e do programa de auxílio à publicação Carlos
Drummond de Andrade, contou com o apoio do Ministério francês das Relações Exteriores e Europeias.
« França.Br 2009 » Ano da França no Brasil (21 de abril a 15 de novembro) é organizado :
- na França, pelo Comissariado geral francês, pelo Ministério das Relações Exteriores e Europeias, pelo
Ministério da Cultura e da Comunicação e por Culturesfrance;
- no Brasil, pelo Comissariado geral brasileiro, pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério das Relações Exteriores.

Ficha catalográfica elaborada


pela Biblioteca Mario Henrique Simonsen/FGV

Hugon, Philippe, 1939-


Geopolítica da África / Philippe Hugon; tradução de Constância
Morel. – Rio de Janeiro : Editora FGV, 2009.
172 p. (Coleção FGV de bolso. Série Entenda o mundo)

Tradução de: Géopolitique de L’Afrique.


Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-225-1020-7

1. Geopolítica – África Sub-Saara. 2. África Sub-Saara – Condi-


ções sociais. 3. África Sub-Saara – Condições econômicas. 4. África Sub-Saara
- Relações exteriores. I. Fundação Getulio Vargas. II. Título. III. Série.

CDD – 967

Editora FGV
Rua Jornalista Orlando Dantas, 37
22231-010 | Rio de Janeiro, RJ | Brasil
Tels.: 0800-021-7777 | 21-3799-4427
Fax: 21-3799-4430
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www.fgv.br/editora
Para meus netos, que amanhã verão uma África em construção.

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Sumário

Introdução 9

Capítulo 1
Entre marginalidade e emergências: Áfricas contrastantes 11
Imagem e representação da África: uma geopolítica
da linguagem 11
Do período pré-colonial ao período pós-colonial 19
Áfricas contrastantes 27

Capítulo 2
Poderes e contrapoderes 39
O campo cultural 40
O campo social e político 52
O campo econômico 68

Capítulo 3
Problemas e desafios internos 83
Problemas de paz e segurança 83
Desafios do desenvolvimento sustentável 96
Problemas alimentares 108

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Capítulo 4
A África e a sociedade internacional 115
A África e as organizações internacionais 116
O regionalismo e o pan-africanismo 125
Cooperação bilateral e multilateral 129

Conclusão 145
Perspectivas e prospectivas geopolíticas da África

Lista das siglas 153

Notas 157

Bibliografia 161

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Introdução

O termo “geopolítica” está na moda, após ter sido depre-


ciado em consequência de suas ligações com o imperialismo
alemão. A geopolítica, em sentido restrito, é o estudo da in-
fluência dos fatores geográficos sobre a política (na tradição
de J. Ancel, Y. Lacoste e F. Ratzel). De maneira mais ampla,
pode ser definida como o estudo das forças atuantes no cam-
po da política; faz parte das relações internacionais: relações
entre nações, entidades coletivas distintas que reconhecem
mutuamente o seu direito à existência; e se refere a uma plu-
ralidade de atores não estatais: coletividades territoriais, fir-
mas multinacionais, organizações de solidariedade interna-
cional (OSIs), igrejas, migrantes, diásporas, em interação num
espaço transnacional. Nas relações assimétricas entre a África
e as grandes potências, o hard power, ao se exprimir histori-
camente pela coerção e pela força, sobretudo militar, tende
a combinar-se com um soft power que convence mediante a
negociação, a propaganda, as ideias, as instituições e a atrati-
vidade dos valores e da cultura.

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Existe uma especificidade da geopolítca da África? A


África é a arlesiana1 das obras sobre geopolítica. No en-
tanto, quando da colonização direta dos anos 1870-1905,
ela esteve no centro dos primeiros debates sobre geopolí-
tica e ilustrou os vínculos entre conquistas territoriais, re-
definições das fronteiras e relações de poder. Hoje em dia,
aparentemente encontra-se à margem dos enfrentamentos
estratégicos mundiais, mesmo apresentando tantos contrastes
(“Entre marginalidade e emergências: Áfricas contrastan-
tes”). Os campos econômico, social, político, cultural ou sim-
bólico encontram-se fortemente imbricados, ao mesmo tem-
po em que se autonomizam (“Poderes e contrapoderes”). A
rapidez das mudanças e a amplitude dos desafios internos,
nas sociedades africanas, estão relacionadas com o interna-
cional (“Problemas e desafios internos”). Enfim, a África
tornou-se, a partir das independências, um ator geopolítico
que quer ter voz ativa nas relações internacionais (“A África
e a sociedade internacional”).
Acaso devemos falar em Áfricas, tendo em vista seus
enormes contrastes, ou de uma África, devido ao seu papel
reduzido na geopolítica internacional? A África é una e plu-
ral. Devemos salientar as situações de crise ou os períodos
normais? A delimitação das fronteiras, possibilitando incluir
e excluir, é sempre uma construção arbitrária. Os países afri-
canos do litoral sul do Mediterrâneo (mar rodeado de terras)
são considerados pertencentes à área cultural arábico-medi-
terrânea. A África será aqui considerada no sentido de África
subsaariana, compreendendo 48 Estados, muito embora in-
clua a África do Norte, e ainda que várias organizações, como
a União Africana (UA), ou vários projetos, como a Nova Par-
ceria para o Desenvolvimento da África (Nepad), se refiram
ao continente como um todo.

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Capítulo 1

Entre marginalidade e emergências:


Áfricas contrastantes

A África se encontra à margem das relações internacionais.


Está incluída no sistema internacional, porém situada em sua
periferia. A geopolítica africana não pode ser dissociada das
representações, imagens e análises elaboradas a seu respei-
to pelas ciências sociais. Ela se transformou profundamente
entre os períodos pré-colonial e pós-colonial, e atualmente
remete a Áfricas plurais e contrastantes.
Imagem e representação da África: uma geopolítica
da linguagem
O nome África tem origem controvertida. Designou pri-
meiramente a Ifriya (da palavra berbere ifri, “rochedos”) ou
a Provincia Africa dos romanos (atual Tunísia); depois, pro-
gressivamente, o Magreb e o conjunto do continente. Os ter-
mos África negra e, depois, ao sul do Saara ou subsaariana
foram sucessivamente empregados.
A geopolítica da África começa por jogos de representação
e de denominação, mas também de conceitualização. As ciên-

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cias sociais têm vocação universal, mas também são elabora-


das dentro de contextos sócio-históricos. Além disso, tende-
se à mera transposição dos esquemas analíticos, com os riscos
que isso envolve. O passado escravagista e colonial da África
não tem o mesmo significado para africanos e europeus. Essa
clivagem memorial associa-se atualmente a uma clivagem ter-
ritorial e histórica entre a Europa e a África.
A descoberta e as representações da África
A descoberta da África por exploradores, conquistado-
res, comerciantes e estudiosos começa pela denominação do
outro. Sete arquétipos principais dominaram na história das
descobertas da África:

n o racista, ou evolucionista, do bárbaro, do inferior


contra o qual é preciso se proteger ou o qual é preciso
civilizar, importando os benefícios das religiões reve-
ladas, da ciência e das instituições;
n o paternalista, da criança que necessita ser educada: a
África aparece como um continente atrasado na evolu-
ção da humanidade, diante do qual a mãe pátria tem
um papel educador, ou o qual ainda não está pronto
para a democracia;
n o exótico, do bom selvagem, do “superior” que vive
em comunidades solidárias, em harmonia com a natu-
reza, e que é preciso preservar;
n o humanista, do irmão, nosso semelhante, com o qual
é preciso cooperar;
n o relativista, do estrangeiro que não podemos compreender
e cuja diferença nos torna, em último caso, indiferentes;
n o conscientizado, do escravo acorrentado que necessi-
ta ser libertado de seu dono e de seus grilhões;

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Geopolítica da África 13

n o solidário e compassivo, do pobre que necessita de


assistência ou ajuda para se desenvolver.

Esses arquétipos estão situados e contextualizados. As re-


presentações, ao justificarem as conquistas coloniais, sempre
resultaram em movimentos de contestação, sejam eles huma-
nistas2 ou utilitaristas (economistas liberais). A imagem do
bom selvagem e do irmão prevalece na filosofia iluminista do
século XVIII. A diferenciação entre a selvageria, a barbárie
e a civilização predomina no século XIX, especialmente en-
tre os economistas clássicos (Malthus), os filósofos (Hegel) ou
os historicistas, e em Marx, sob a influência do evolucionis-
mo de Morgan (1877). Os etnólogos procuraram classificar as
“raças” ou delimitar as etnias. As oposições entre solidarie-
dade orgânica e solidariedade mecânica, de Durkheim, ou
entre comunidade (Gemeinschaft) e sociedade (Gesellschaft),
de Tonnies, que têm como referência principal a história eu-
ropeia, grega, latina ou germânica, são geralmente retoma-
das, assim como a transição dos laços familiares de sangue
para os laços nacionais do solo e para os laços individuais de
contrato de Maine. A oposição entre mentalidade primitiva
e mentalidade racional, encontrada nos primeiros trabalhos
de Lévy-Bruhl (1922), teve grande influência. A imagem do
escravo dominou nos movimentos de libertação, e a do irmão,
mais uma vez, nos movimentos caritativos de solidariedade
internacional.
O jogo das representações se insere numa história que é
a da clivagem histórica e memorial refutando uma herança
ambígua. O período colonial é dominado, em função do zelo
administrativo, por classificações em raças ou tribos, arquéti-
pos cristalizados ou estereótipos. Numa visão essencialista e
a-histórica, o outro é classificado, até mesmo biologicamente.

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Já o período preparatório da descolonização e da pós-colônia


é caracterizado por uma reapropriação da história, das dinâ-
micas sociais e políticas e dos modos de ação popular. Es-
ses trabalhos de antropologia política (Glukman, Balandier)
se opõem ao jogo de imagens da mídia e às representações
dominantes em termos de etnias, de compaixão ou de medo
(imagens dos migrantes, das crianças famintas, dos soldados
ou das vítimas do vírus da Aids).
Essas representações ou iconologias remetem a uma an-
tropologia ingênua ou a uma falsa consciência (Cabel) que
consiste em desdialetizar, em coisificar o outro e revesti-lo de
atributos inalteráveis. A batalha da linguagem remete a uma
geopolítica de intimação identitária do outro em sua diferen-
ça (indígena, tribo, etnia, solidariedade, comunidades). Num
jogo de reflexividade, designar o outro e olhá-lo é igualmen-
te, para ele, uma maneira de se representar e de agir (Sartre,
Memmi, Mannoni).
As representações das ciências sociais são ao mesmo tem-
po etnocentristas e heterocentristas. Quando se descobre que
a Terra não se encontra no centro do sistema solar, que não
existe centro, tampouco Leste e Oeste, e que é possível es-
crever de cima para baixo, de baixo para cima, da esquerda
para a direita ou da direita para a esquerda, é que se quer dar
sentido a essas diferenças. Raciocina-se, então, em termos ou
de progresso (evolucionismo), ou de tipologias (taxinomias),
ou de sistema significante (sistemismo). A análise distancia-
da requer, na realidade, interações entre teoria de propensão
universal e particularismos dos campos e dos hibridismos.
Ela deve evitar os riscos de transposição ou transplantação
dos conceitos. A descoberta do outro em sua diferença tem
igualmente um efeito de lupa, de ampliação dos traços e de
espelho diante de si.

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Geopolítica da África 15

Diversidade dos focos e das interpretações


Atualmente, a pesquisa africanista é dominada por posi-
ções que oscilam entre o afropessimismo3 e o afrocentrismo,
segundo o qual os males da África provêm do exterior, desde
o tráfico escravagista, passando pela colonização, até os dra-
mas atuais.
Como escapar dos clichês que oscilam entre uma África
subdesenvolvida, atrasada, presa às suas tradições vindas de
eras remotas, e uma África vítima, explorada e alienada, que
justifica o enfoque humanitarista da compaixão ou a geopo-
lítica de anticolonialismo?4 Como evitar o dualismo que opõe
tradição e modernidade, individualismo e comunitarismo?
“A África ambígua” (Balandier) constrói sua modernidade
por múltiplos caminhos. Não podemos reduzi-la a atributos
identitários em termos de tribos, etnias, comunidades. É pe-
rigoso idealizar as comunidades em nome de uma pretensa
solidariedade. É importante assinalar os conflitos e as rela-
ções de força que se estabelecem em torno dos bens comuns.5
A África não é uma vítima particular da violência — destino
comum das sociedades humanas. Observa-se uma pluralidade
de registros, de normas e de regras. Há permeabilidade, mes-
tiçagem e hibridismo dos referenciais. As tensões entre estes
conduzem, por parte dos atores, a negociações, estratagemas,
compromissos, crises ou violências.
As representações também divergem, dependendo das
abordagens e do ponto de vista adotados.
Uma abordagem top down mostra que a África é antes um
sujeito passivo do que um ator geopolítico: ela é desqualifi-
cada geopoliticamente no tabuleiro internacional, mais glo-
balizada do que globalizadora; apresenta uma tendência de
estagnação a longo prazo da produtividade que conduz à
marginalização em face dos fluxos comerciais e financeiros

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internacionais e a um endividamento externo difícil de gerir.


Com 10% da população mundial, ela representa 1% do pro-
duto interno bruto (PIB) mundial, 1,3% do comércio mundial
e 2% do investimento direto externo (IDE). Seus indicadores
de pobreza são os mais elevados no mundo. A África compre-
ende 33 dos 48 países menos adiantados (PMAs) e 36 dos 45
países com baixo índice de desenvolvimento humano (IDH).
Conta 180 milhões de subnutridos e 25 milhões de pessoas
infectadas pelo vírus da Aids. Cinco países africanos estavam
em conflito em 2005.6
Numa representação estática e estatística, a elaboração de
indicadores permite comparar, ordenar e classificar a Áfri-
ca no último lugar da classe internacional. Ora, todo mundo
sabe que raramente se leva em consideração o que tem im-
portância, e que os países pobres têm pouca credibilidade
estatística.
Adotando um enfoque bottom up e mudando de ângulo de
observação, a paisagem torna-se mais contrastante, surgem
diferenças de relevos, transparecem as “dinâmicas internas”.7
A África se tornou um ator internacional desde as indepen-
dências, e seu peso é cada vez maior nos planos demográfico e
cultural. Os países africanos conseguiram administrar, desde
suas independências, a triplicação de sua população e a quin-
tuplicação de sua população urbana, bem como a manuten-
ção das fronteiras constitutivas dos Estados-nações em via de
emergência. Num lapso de duas gerações, eles promoveram
consideráveis transformações culturais e estruturais. Salvo
exceções, o mundo rural se deslocou para a cidade, passan-
do a ter acesso a infraestruturas, imagens e novas referências
culturais. As transformações institucionais são consideráveis,
sejam elas as reformas fiscais, a liberalização ou os progressos
da democratização. Os atores de baixo se mostraram capa-

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Geopolítica da África 17

zes de inventar, de inovar, de criar atividades para a satisfa-


ção das necessidades essenciais. As economias populares ou
“informais”8 constituíram-se em modos de acomodação, de
engenhosidade, de vida ou de sobrevivência para muitos. O
desenvolvimento das infraestruturas, dos sistemas de ensino
e de saúde, dos aparelhos produtivos, assim como a emer-
gência de elites instruídas ou da sociedade civil fazem com
que a África do século XXI seja bastante diferente do que era
quando da descolonização. Um processo de democratização
está em curso, e o apartheid desapareceu.
Um outro foco, com profundidade de campo, visa ir além
das aparências para revelar a África profunda, aquela das
permanências, da perenidade dos valores, da relação com o
sagrado, das estruturas sociais e dos ritmos assincrônicos em
relação ao tempo mundial, dos poderes reais, ou mesmo das
atividades ilícitas que se organizam em torno das economias
predatórias e das guerras.9
Representações geopolíticas da África
As representações geopolítcas são amplamente determina-
das nas instâncias internacionais e variam ao longo do tempo.
Assim, logo após a II Guerra Mundial, o movimento dos não
alinhados (Grupo dos 77) e o antagonismo Norte-Sul, apoia-
dos principalmente pela Conferência das Nações Unidas para
o Comércio e o Desenvolvimento (Cnuced), foram emissários
da unidade do Sul, da periferia ou do Terceiro Mundo (a con-
ferência de Bandoeng, em 1955, e o papel de Nkrumah). O
Terceiro Mundo, emergente como Terceiro Estado (Sauvy), ou
constituindo uma terceira via ao lado das potências ociden-
tais e soviéticas, exauriu-se com o fim da confrontação bipo-
lar e das representações cardeais (Leste-Oeste, Norte-Sul). Os
países africanos pobres ou menos avançados caem no círculo

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18 FGV de Bolso

vicioso da pobreza, ou são Estados falidos ou em via de falir


(failed, failing states), Estados frágeis (fragile states) ou até
mesmo Estados párias (rogue states). Novas potências regio-
nais, como a África do Sul, emergem ao lado da China, da
Índia e do Brasil, a fim de encontrar um lugar na arquitetura
internacional construída no pós-guerra pelas potências oci-
dentais. A linguagem é atualmente regida pelas organizações
internacionais segundo os critérios do politicamente correto,
esvaziando o político e, também, pelo fato de uma batalha no
campo da linguagem ter sido vencida pelos anglo-saxões (so-
ciedade civil, governança, partes interessadas, ou pobreza).
A guerra semiológica diz respeito igualmente às informações
e desinformações da imprensa nacional, as quais têm notada-
mente como função revezar as forças políticas.
A representação geopolítca é também formada nos meios
acadêmicos, principalmente ocidentais. As teorias do impe-
rialismo, dos regimes, da hegemonia ou da dominação foram
construídas pelo Ocidente. Os grandes paradigmas colocam
em oposição os realistas, que privilegiam os conflitos de
interesses dos Estados; os liberais, que analisam as interde-
pendências pela ótica do mercado e falam de países em via
de desenvolvimento; os solidaristas, que destacam os jogos
cooperativos e preferem a expressão “Terceiro Mundo”; os
idealistas ou humanitaristas, que enfatizam a assistência e o
arrependimento; e os dependentistas, que opõem o centro à(s)
periferia(s) dentro do sistema do capitalismo mundial. Uma li-
nha de pesquisa africana, que privilegia a exceção africana,
quer desconstruir as categorias e elaborar um contradiscurso.
As oposições redutoras e essencialistas, estatocentradas
ou multicentradas, que dominam a ciência das relações inter-
nacionais devem ser relativizadas.10 Assim, opõe-se a África
internacional territorializada em torno dos Estados-nações e

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Geopolítica da África 19

pertencente à sociedade internacional, de um lado, à África


reticular organizada em torno das redes transnacionais (em-
presas, diásporas), de outro. O discurso pós-moderno sobre
a fragmentação, a subversão e a astúcia dos atores de baixo
contrasta com o discurso do nacionalismo ou do pan-africa-
nismo das independências.
O afrocentrismo, ao privilegiar a realidade negro-africana,
afronta-se com a representação de uma África inserida na glo-
balização. Na realidade, as configurações são múltiplas e se
traduzem em interações entre o território e as redes, o inter
e o transnacional, os atores de baixo e os poderes instituí-
dos. Os dominados ou os periféricos têm poder de ação e de
reação. Há que mobilizar as categorias das ciências sociais,
contextualizando-as, historicizando-as, relativizando-as, e
descolonizando o vocabulário.
Do período pré-colonial ao período pós-colonial
A história da África não começa com as descobertas e a
colonização. Ela é fortemente contrastante segundo as regiões
e segundo os períodos. A ausência de documentos escritos
torna sua reconstituição muito fragmentária. A história de
longa duração pré-colonial e colonial11 mostra alternadamen-
te as permanências e as rupturas das sociedades africanas
no plano dos valores e das representações, da configuração
espacial, do papel das redes comunitárias, familiares e étni-
cas. A África periférica e os africanos suportaram histórias
impostas, mas também as reinterpretaram, as reivindicaram
e as introjetaram.
Um mosaico de povos e de organizações políticas
Estima-se em 850 (Murdoch) o número de sociedades,
falando aproximadamente 1.500 línguas. A África tem uma

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20 FGV de Bolso

história política muito rica; experimentou todas as formas


de organizações sociais e políticas, desde modelos forte-
mente centralizados até sociedades segmentárias, desde o
controle dos grandes espaços sahelianos até o controle de
espaços limitados. As sociedades africanas conhecem for-
mas de Estado e de poder, “necessidade graças à qual toda
sociedade consegue lutar contra a entropia que a ameaça de
desordem”.12 No entanto, existiam mais líderes (leaders) do
que governantes (rulers).
Segundo a distinção clássica de Evans-Pritchard, as socie-
dades fragmentárias sem Estado (compostas de segmentos ho-
mogêneos com incipiente divisão do trabalho social) diferem
dos sistemas centralizados. Os grandes impérios da África oci-
dental (Gana no século XI, Mali no século XIV, Songai e Bornu
no século XVI) tinham uma organização política apoiada no
comércio com o mundo árabe; sua expansão e sua decadência
estiveram e estão ligadas às vicissitudes do comércio transa-
ariano. Outros impérios tinham uma base econômica mais
apoiada num tributo (Estado Wolof no Senegal, comunidades
hauçá na Nigéria e merina em Madagascar). O termo usual de
império remete de fato às áreas de expansão de grupos étnicos
mais do que à organização de um espaço político controlado
por um imperium. “Na África, a fronteira precede o Estado,
e ele próprio precede a nação”.13 Os Estados pré-coloniais
não tinham fronteiras. Somente espaços-tampão ou margens
de segurança separavam os grandes impérios. O poder é um
acúmulo de elos sociais, de bens simbólicos, e não somente de
bens materiais (representado pelo gado nas sociedades pecuá-
rias). A história é marcada pela violência das conquistas, bem
longe das representações condescendentes de comunidades
rústicas imutáveis, caracterizadas pela dádiva e a contradádi-
va e pela solidariedade.

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Geopolítica da África 21

A descoberta da África

o comércio triangular
Durante o período mercantilista, a colonização direta da
África permaneceu limitada (exceto na colônia do Cabo). A
penetração comercial se deu pelo estabelecimento de entre-
postos e escalas e pela constituição de polos internos. A co-
lônia do Cabo (fundada em 1652), maior colônia europeia do
continente, constituía, junto com a costa leste da África, uma
escala importante na rota das Índias. A África ocidental era
muito pouco aberta. O continente era dominado pelo islã, ao
norte, pela Europa, a oeste, e pela Índia e o mundo árabe, a
leste.14 O comércio triangular ligava a África, fornecedora de
escravos, à América, produtora de metais preciosos, açúcar e
especiarias, e à Europa.
o tráfico escravagista
A África conheceu o tráfico saariano, oriental e atlân-
tico, associado ao tráfico interno africano (Unesco, 1999).
O tráfico oriental, depois arábico-muçulmano, começou no
século VI através do Saara (tráfico saariano). Estima-se que
tenha envolvido, entre 650 e 1920, 17 milhões de pessoas.15
O tráfico atlântico europeu marcou durante três séculos o
continente negro, envolvendo 11 milhões de escravos entre
1450 e 1869. Ele só desapareceu oficialmente no Congresso
de Viena de 1815, porém, na realidade, atingiu seu apo-
geu no século XIX e só foi drasticamente reduzido com a
abolição da escravatura (1848, nas colônias francesas; 1865,
nos Estados Unidos; 1888, no Brasil). O tráfico escravagista
oriental e atlântico se apoiou na prática escravagista afri-
cana, que incluía a servidão pela guerra, por dívida, de

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22 FGV de Bolso

povos saqueados ou de cultivadores negros subjugados por


povos nômades. Segundo Coquery-Vidrovitch, um quarto
da população tinha a condição de escravo na África ociden-
tal, antes da colonização. Vários Estados se enriqueceram
com o tráfico: Gana, Benim e Togo, na África ocidental, e
os reinos do Congo, Matamba, Luanda e Luba, na África
central.
O impacto cultural e político do tráfico negreiro é essen-
cial. A memória do tráfico saariano, oriental e atlântico conti-
nua presente entre os descendentes dos antigos cativos, como
os iorubas em Benin, e muitos dos antagonismos e vinganças
contra as humilhações sofridas têm sua origem nessa história.
A colonização direta foi justificada pelo tráfico escravagista.
Os colonos muitas vezes se valeram dos antigos cativos ou
grupos dominados. Certas práticas de escravidão se perpetu-
am na Mauritânia e no Sudão.
O impacto geopolítico do tráfico escravagista, reconhecido
recentemente como crime contra a humanidade, é fator pri-
mordial de frustrações, de rancores, de conflituosidade e de
memórias antagônicas. Alguns querem um arrependimento
da Europa e/ou uma indenização por danos sofridos, ao pas-
so que numerosos descendentes de escravos afro-americanos
ressaltam igualmente a responsabilidade dos escravizadores
africanos e/ou o tráfico oriental. Outros sustentam que o trá-
fico enriqueceu a Europa, que ele participou da “acumulação
primitiva” (Marx) e que favoreceu o desenvolvimento euro-
peu. Essa tese foi fortemente criticada, principalmente por
Bairoch ou Grenouilleau (2005). A escravidão africana é e
continuará sendo o principal desafio geopolítico, pelo fato de
se dar maior destaque ao tráfico atlântico do que aos outros
tráficos.

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Geopolítica da África 23

A colonização direta (1870-1960)

a divisão da áfrica pelas potências europeias


A colonização pode ser definida como o processo pelo
qual uma população se apodera de um território, o ocupa e o
explora, submetendo ou eliminando seus habitantes. A con-
quista colonial que levou à colonização direta começou por
volta dos anos 1870 e terminou com a Conferência de Berlim
(15 de novembro de 1884 a 26 de fevereiro de 1885), que re-
partiu a África entre as grandes potências europeias. Ela foi
financiada pelos partidos coloniais e apoiada pelos militares
e banqueiros, enquanto os economistas liberais e certos hu-
manistas se lhe opunham. Foi um processo contrastante. O
caso extremo de exploração é o do Congo belga, propriedade
de Leopoldo II, que pilhou suas riquezas a um custo humano
considerável.
Apesar do poderio técnico dos exércitos coloniais, a con-
quista se defrontou com dois obstáculos: as dificuldades de
transporte, seja no Saara ao norte, seja nas penetrações litorâ-
neas, e as doenças tropicais, principalmente a malária. A rai-
nha de Madagascar, Ranavalona I, dizia que a falta de estra-
das e a malária eram a melhor proteção contra os invasores.
A Conferência de Berlim realmente não delimitou as fron-
teiras, mas estabeleceu esferas de influência para que as gran-
des potências pudessem proteger suas empresas privadas.
Assim, vários tratados de delimitação foram assinados. Em
seguida, “teve início uma verdadeira corrida para a ocupação
efetiva”.16 A busca de mercados externos, o acesso às ma-
térias-primas e os argumentos expansionistas de poder são
igualmente fatores de explicação. Depois, as fronteiras foram
delimitadas em função das áreas de influência das potências
europeias. Isso foi feito de maneira arbitrária, no sentido da

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24 FGV de Bolso

arbitragem pelas potências coloniais, mas não sem fundamen-


to. Assim, de 1880 a 1895, a extensão das possessões francesas
passa de 1 milhão para 9,5 milhões de km2. Ao contrário das
teses que a interpretavam como a expansão do capitalismo
dominante, a colonização é sobretudo consequência do re-
cuo das nações europeias e das firmas ameaçadas nos espaços
protegidos. Ela remete igualmente a motivações nacionalistas
expansionistas, a um ideal humanista, à manifestação de um
imaginário. A África era o último lugar de conquistas terri-
toriais possíveis para a Europa. Nas palavras de Déroulède,
“perdi duas irmãs (a Alsácia e a Lorena) e vocês me oferecem
20 domésticas”. A “pacificação” assumiu formas diversas,
desde a repressão até as negociações, passando pelo método
enérgico porém compreensível de um Gallieni.

o sistema colonial
Quatro traços gerais caracterizam o sistema colonial: o es-
tabelecimento de uma administração sob a forma de indirect
rule ou de administração direta; a apropriação de terras; a
dominação do capital mercantil, que se valoriza à custa do ca-
pital produtivo; o estabelecimento de um pacto colonial entre
a metrópole e suas colônias.
O sistema é mais de arrecadação do que de valorização,
mais de renda do que de acumulação. As colônias são re-
servatórios de produtos de base e escoadouros de produtos
manufaturados. Afora esses aspectos, porém, os sistemas co-
loniais são bastante variados, conforme os colonizadores e
as sociedades colonizadas. Eles evoluíram muito no tempo
e acabaram por levar, após a I Guerra Mundial, ao estanca-
mento dos financiamentos externos e, por ocasião da crise de

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Geopolítica da África 25

1929, ao retraimento dos países da Europa em suas colônias


e à valorização destas últimas. Somente o período seguinte
à II Guerra Mundial é caracterizado por uma política de de-
senvolvimento, com um capitalismo de Estado e projetos de
infraestrutura.
As heranças coloniais são essenciais para a compreensão
da geopolítica africana atual. O colonizador traçou, na ver-
dade, fronteiras largamente artificiais, mas estas pareciam in-
tangíveis, e foi sobretudo a independência que acentuou a
balcanização — principalmente pela decomposição dos con-
juntos da África oriental francesa (AOF) e da África equato-
rial francesa (AEF). As reconfigurações espaciais se fizeram
a partir da supremacia dos litorais, dos portos e das ligações
com a Europa, e em função da localização das capitais.
Observa-se uma estagnação demográfica: entre 1880 e
1930, a população africana teria passado de 200 milhões para
150 milhões de habitantes em razão do trabalho forçado,17
das doenças, dos genocídios (três quartos dos hererós, na Na-
míbia, foram exterminados). A expansão demográfica só se
tornou realidade após a II Guerra Mundial.
Constata-se uma redefinição das estruturas de poder, seja
pela emergência de novas elites que antigamente faziam par-
te dos grupos dominados (hutus em Ruanda e no Burundi,
bantos do Alto-Oubanqui, ibos na Nigéria), seja pelo jogo
de alianças das chefias com os administradores. O desapossa-
mento cultural ocasionou uma mudança de língua ou de de-
nominação dos lugares, mas possibilitou igualmente o acesso
às áreas linguísticas internacionais e se traduziu numa mesti-
çagem, atestando as capacidades de apropriação, resistência,
astúcia, hibridismo ou reinterpretação. O sistema colonial,
sobretudo o francês, oscilou entre a diferenciação, a sujeição
e a assimilação.

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26 FGV de Bolso

as independências políticas ou a pós-colônia


A descolonização resulta apenas parcialmente dos movi-
mentos de liberação nacional. Estes tiveram o apoio de potên-
cias como a URSS e os Estados Unidos, de Cuba e dos países
árabes. Ela resulta, sobretudo, de uma superextensão impe-
rial (Kennedy) e de um cálculo custo/benefício mostrando
um ônus colonial crescente.18 A independência política fez
dos Estados africanos atores internacionais soberanos, mas
não mudou radicalmente, no início, o sistema econômico. A
África estava numa situação de grande dependência econô-
mica cujos indicadores eram uma taxa elevada de abertura,
pouca diversificação das exportações e uma polarização das
relações comerciais em torno das antigas metrópoles. O grosso
dos produtos energéticos, dos bens intermediários e de equi-
pamento, da mão de obra qualificada e dos quadros proce-
dia do exterior. As empresas e as administrações estrangeiras
tinham um peso determinante nos setores-chave bancários,
comerciais, industriais e de transportes.
O Estado, mesmo estando no centro do jogo econômico,
era geralmente fraco no que diz respeito aos seus poderes
e instituições. A África experimentou então uma pluralida-
de de regimes, chegando até mesmo ao socialismo radical. A
quase totalidade dos países adotou o partido único. Esse mo-
delo pós-colonial esgotou-se progressivamente com a erosão
das preferências ou o desvio do Estado desenvolvimentista,
tornando-se muitas vezes cleptocrata. Houve asfixia do mo-
delo de exportação de produtos primários e não reprodução
dos ecossistemas (diminuição do pousio, desmatamento etc.),
especialmente em virtude da pressão demográfica e das técni-
cas. A estratégia de substituição de importações tem validade
limitada nos microestados onde os mercados regridem e onde

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Geopolítica da África 27

a liberalização domina. O Estado cumpre mal suas funções, a


começar pela segurança.
Áfricas contrastantes
A África é uma terra de contrastes, tanto do ponto de
vista geográfico e histórico quanto cultural, sociopolítico ou
econômico. Esse contraste acentua-se ainda mais por haver
pouca integração pela língua, pela moeda e o mercado, pelo
Estado ou pelas religiões monoteístas. Gigante no tamanho
(30 milhões de km2), jovem pela idade de sua população ou
pela data de nascimento de seus Estados, ela é o local da ori-
gem do homem, estando marcada por tradições ancestrais
que remontam aos primórdios da humanidade.
Esses contrastes e ambiguidades são ainda mais importan-
tes principalmente porque a África é o lugar das mobilidades
espaciais e culturais, das contribuições sucessivas das civi-
lizações, feitas por sedimentação e, às vezes, por fusão. Tal
como um Jano de duas cabeças, as máscaras africanas reme-
tem a figuras opostas.
Tipologias segundo os critérios geográficos
A configuração geográfica tem implicações políticas e eco-
nômicas.
É possível opor coletores, agricultores e criadores, seden-
tários e nômades, camponeses e citadinos, produtores e co-
merciantes, terrestres e marítimos, sedentários e migrantes.
A África permanece um continente afastado das gran-
des correntes econômicas internacionais e onde os meios e
os custos de transporte constituem fatores de isolamento,
de marginalização econômica e de fraca integração interna.
As dinâmicas dizem respeito aos espaços abertos (caravanas
transaarianas, comércio do mar Vermelho, zonas costeiras).

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28 FGV de Bolso

Um dos critérios determinantes do ponto de vista geopolítico


é o caráter insular ou não, interiorano ou litorâneo. Alguns
Estados-tampão pertencem ao mesmo tempo às áreas arábico
e negro-africanas, como por exemplo a Mauritânia, o Sudão,
o Chade. À exceção das ilhas, a geopolítica do mar é fraca. Em
razão dos escassos meios técnicos e financeiros, a geopolítica
aérea é igualmente fraca. Vários critérios geográficos podem
ser levados em consideração.
É possível distinguir uma África sudano-saheliana, uma
África ocidental úmida e subúmida, uma África austral
subúmida e semiárida. A África dos “celeiros” (sorgo e milho)
difere da África dos “cestos” (tubérculos, plantadores das
florestas), do pastoralismo ou das zonas rizícolas. Podem-se
distinguir dois grandes conjuntos densamente povoados:19 o
bloco da África ocidental, entre o Sahel e o Atlântico (200 mi-
lhões de habitantes); e, a leste, as altas terras que se estendem
da Eritreia até à África meridional. Entre essas duas dorsais,
uma zona de depressão demográfica, do Sudão à Namíbia,
passando pela bacia do Congo. Nos meios extremos, como o
Saara ou o Calaári, o deserto domina.
Há cinco grandes regiões distintas: a África ocidental com-
preende uma zona de savana (mandês, voltaicos, songai) si-
tuada entre o Saara e a floresta equatorial; a África central
se organiza em torno do rio Congo e seus afluentes, com pre-
dominância do grupo banto; a África oriental compreende
os dois mais antigos reinos do sul do Saara (o Sudão, antiga
Núbia, e a Etiópia), bem como o mundo suaíli ligado ao mar;
a África meridional é povoada pelos khoisans, bantos e euro-
peus, com destaque para a África do Sul; as ilhas do Oceano
Índico são de tardio povoamento árabe e suaíli, indiano, indo-
nésio, europeu e africano.

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Geopolítica da África 29

Trajetórias plurais
Podem-se distinguir vários tipos de configurações regio-
nais.
as sociedades em guerra, os Estados falidos ou frágeis
Os Estados falidos ou frágeis são os países em guerra, en-
trando ou saindo de conflitos violentos. Mais de 20% da po-
pulação africana são afetados pelas guerras. As forças armadas
estão em estado deplorável devido à precariedade material, à
falta de corporativismo e de acordo entre os interesses pri-
vados e políticos. A mobilização das crianças-soldados e dos
sobel — soldiers and rebels (soldados de dia e rebeldes à noite)
— é cada vez mais violenta. Alguns Estados se transforma-
ram em zonas de caos, de confronto dos senhores da guerra
(Somália, Chade, Serra Leoa, Sudão, Libéria), de não contro-
le do território (Costa do Marfim, República Democrática do
Congo — RDC) e/ou de controle dos circuitos de contrabando
pelas máfias. Em situação de desintegração e de anarquia, al-
gumas sociedades não têm mais mecanismos de regulação da
economia nem do Estado. Estão, na melhor das hipóteses, sob
tutela internacional.
os países menos adiantados (pMa)
Certas características permitem definir os PMAs (baixa
renda, fraco capital humano, vulnerabilidade econômica), e
35 Estados africanos estão nessa condição. Tomemos o caso
das sociedades sahelianas do interior.
O Sahel é uma zona relativamene homogênea do ponto de
vista climático, pedológico, demográfico, social e econômico.
Pastores nômades peúle (fulas) e arábico-berberes coexistem
com agricultores sedentários, animistas ou cristianizados. No
conjunto, as populações são pouco fixas, e a urbanização ex-

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30 FGV de Bolso

plodiu. As culturas de exportação limitam-se ao amendoim


e ao algodão. Este último é a principal fonte dos ganhos mo-
netários dos camponeses e causa um efeito multiplicador no
meio rural. A zona saheliana tem uma economia muito vul-
nerável e sistemas frágeis. Padece das instabilidades ligadas
aos imprevistos climáticos (seca), às nuvens de gafanhotos e
às turbulências internacionais. Há muito o Sahel conjuga os
efeitos do crescimento demográfico e de uma degradação dos
ecossistemas ligada especialmente ao consumo de lenha. A
ajuda externa desempenha papel determinante. A dinâmica
regional das zonas interioranas está ligada às regiões costei-
ras, com o peso importante das migrações regionais internas e
interafricanas. Há também relações políticas e religiosas com
o mundo árabe.
as sociedades mineiras e petroleiras
As mais importantes economias mineiras são Guiné (bau-
xita), Libéria (diamante), Mauritânia (ferro, petróleo), Nigé-
ria (urânio, petróleo), Serra Leoa e Togo (fosfato), República
Democrática do Congo (cobre, coltan20) e Zâmbia (cobre). As
principais economias petroleiras são Angola, Congo, Gabão,
Guiné Equatorial, Nigéria, Sudão e Chade. Essas economias
têm dinâmicas específicas, voltadas para a criação e a circula-
ção das rendas (peso do Estado, taxa elevada de investimento,
predominância de firmas multinacionais, forte instabilidade
das receitas). Os conglomerados mineiros e petroleiros, não
raro em situação de concorrência oligopolista, estão no cen-
tro dos jogos de poder político e, às vezes, dos conflitos. As
configurações podem ir desde a pilhagem de riquezas (como
a RDC) e sua confiscação por um clã familiar (caso do emirado
petroleiro do Gabão) até uma gestão rigorosa (caso do Botsua-
na para a renda diamantista). A evolução dessas economias

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Geopolítica da África 31

depende principalmente do curso das matérias-primas, das


políticas de segurança de acesso às mesmas, e das estratégias
das firmas mineradoras. Elas têm uma estrutura dualista par-
ticularmente acentuada. O setor mineiro, gerador de receitas
orçamentárias e de divisas, mobiliza o essencial dos investi-
mentos e permite financiar as importações. As cidades mi-
neiras ou são polos distributivos que exercem efeitos macro-
econômicos e regionais ou são enclaves. O resto da economia
se baseia num aparelho de produção precário e fortemente
apoiado num amplo sistema de redistribuição. As receitas mi-
neiras representam em média mais de 90% das exportações
e mais da metade das receitas orçamentárias. O peso do setor
terciário e a fragilidade da agricultura são traços estruturais
característicos. Essas economias padeceram da síndrome pe-
troleira. A renda petroleira deveria ter afrouxado as restri-
ções financeiras. Na realidade, os efeitos potencializadores
são limitados por causa da importação dos bens de equipa-
mentos e dos bens de consumo, da repatriação dos lucros e
dos salários dos expatriados, e da fuga dos capitais.
as sociedades agroexportadoras
Vários países agroexportadores conheceram, além do es-
gotamento do modelo de indústria de substituição, uma di-
nâmica de acumulação. Trata-se principalmente da Costa do
Marfim, do Quênia, de Gana, de Uganda e de Camarões. Esse
modelo era baseado na proteção das indústrias de consumo,
na atração dos capitais e dos quadros externos e num merca-
do de produtos reservado a uma elite ocidentalizada. Esses
países assentaram seu desenvolvimento na agricultura de ex-
portação: café, chá e criação no Quênia; cacau, café e palma
na Costa do Marfim; cacau e café em Camarões. Assim, após
a independência, a Costa do Marfim implantou um modelo

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32 FGV de Bolso

de acumulação dependente com regulação estatal, graças à imi-


gração de trabalhadores (essencialmente os mossis de Burki-
na Faso), aos executivos europeus expatriados e ao afluxo de
capitais. A importação desses fatores de produção, ligada à
disponibilidade de terras, possibilitou uma especialização em
produtos agrícolas de exportação e o desenvolvimento de um
setor industrial moderno e dinâmico. Esse modelo está em
crise, devido a uma combinação de preços em queda e fu-
gas aceleradas, ocasionando uma dívida externa irrefreável, e
questionamento dos compromissos sociopolíticos e dos equi-
líbrios regionais, gerando instabilidade e conflitos.
as sociedades agroindustriais abertas
Alguns exemplos de acumulação em economia aberta, li-
gados à estabilidade política, podem ser encontrados prin-
cipalmente na África meridional e no oceano Índico (Ilhas
Maurício). Botsuana, embora país mineiro e encravado, co-
nheceu forte crescimento graças à boa utilização de seus re-
cursos naturais (diamante), ao impulso dado pela África do
Sul, que fornece 80% das importações, e a uma política libe-
ral em relação aos capitais, atrelada à estabilização das recei-
tas de exportações. A República de Maurício é o caso de uma
economia que, tendo ampliado a escala de sua especialização,
soube converter a renda açucareira num sistema produtivo
diversificado. Ela sofre atualmente o triplo choque da supres-
são dos acordos multifibras, do protocolo do açúcar e de um
terceiro choque petroleiro.
As potências regionais
Surgiram várias potências regionais: a África do Sul, no
seio da África meridional, a Nigéria, no seio da África orien-
tal, e a Etiópia, no chifre da África. Esses Estados, cruciais

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Geopolítica da África 33

para as grandes potências, especialmente os Estados Unidos,


são igualmente polos hegemônicos regionais reais (África do
Sul) ou potenciais e participam da pax africana.
a áfrica do sul
A República da África do Sul, com 1,2 milhão de km2 para
41,5 milhões de habitantes e um PIB de quase US$ 200 bilhões
(2005), é a potência dominante da África ao sul do Saara. Re-
presenta 25% do PIB do continente e 65% do faturamen-
to das 500 maiores empresas africanas. Responde por 50%
dos empregos assalariados, por metade da rede ferroviária,
por 40% da rede viária e por 50% do consumo energético
da África subsaariana (ASS). O setor agropastoril, que reúne
13% da população ativa, contribui com 5,5% do PIB e pro-
picia autossuficiência alimentar. O setor das minas contribui
com 8% da população ativa, 10% do PIB e 30% das expor-
tações das novas principais matérias minerais mundiais. As
indústrias manufatureiras, essencialmente de substituição,
empregam 16% da população ativa e participam com 22%
do PIB. A África do Sul é igualmente uma potência militar (as
despesas militares, que chegaram a US$ 2,65 bilhões em 2004,
representam um terço do total da ASS e 1,6% do PIB) e uma
vendedora de armas. País durante muito tempo protegido,
onde cinco conglomerados controlam amplamente a econo-
mia e onde o Estado desempenhou papel central, a África do
Sul encontra-se em profunda transformação desde o fim do
apartheid (1989).
A África do Sul apresenta resultados econômicos e finan-
ceiros satisfatórios, mas a manutenção das desigualdades
oriundas do apartheid, o espectro do desemprego (que atinge
40% da população), a fuga de cérebros e o flagelo da Aids (um
quarto de soropositivos) e da violência continuam a pesar for-

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34 FGV de Bolso

temente sobre o país. As disparidades continuam elevadas. A


África do Sul permanece uma economia mineira espremida
entre o esgotamento progressivo de suas reservas e a instabi-
lidade das cotações dos metais preciosos. O fim do apartheid
acarreta um custo elevado de integração entre as comunida-
des. As principais incertezas se referem às tendências centrí-
fugas ligadas às disparidades regionais, ao número crescente
de jovens negros desempregados (40% dos diplomados), ao
receio dos brancos e dos mestiços diante da violência ou da
affirmative action. Como reconciliar a redistribuição dos po-
deres e das riquezas com um sistema produtivo eficiente e a
credibilidade externa necessária ao “Renascimento africano”
(Mbeki)?
A África do Sul permanece uma democracia estável, com
uma Constituição moderna e progressista, e uma imprensa li-
vre. Foi chamada de “potência média”, “Estado-pivô”, “po-
tência hegemônica regional” e “emergente”. Sua agenda de
política externa é, desde o início do apartheid, pragmática. À
fase inicial de defesa dos direitos do homem e também dos in-
teresses comerciais (Mandela) seguiu-se o multilateralismo no
seio da SADC (Southern African Development Community),
da União Africana (UA) e da nova parceria para o desenvol-
vimento da África (Nepad). A África do Sul exerce sua lide-
rança na África meridional e, também, na África subsaariana,
no plano político, econômico e militar. O soft power supera o
hard power.
A África do Sul desenvolve sua zona de influência por
intermédio da UA, do Nepad, de seu poderio militar e de sua
diplomacia de negociação, visando “encontrar soluções afri-
canas para os problemas africanos” (Mbeki). Ela é o polo in-
tegrador no seio da Southern African Customs Union (Sacu)
e da SADC, substituindo em parte as antigas potências colo-

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Geopolítica da África 35

niais. Mantendo relações com 43 países africanos, a África


do Sul controla amplamente as economias dos países da Áfri-
ca meridional. Em compensação, não é possível considerá-la
uma economia em via de convergência com os países indus-
trializados (baixa taxa de crescimento, riscos elevados etc.).
nigéria
A Nigéria é a segunda potência da África subsaariana.
Sexto exportador de petróleo do mundo, membro da Orga-
nização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), integra-
da no seio da Comunidade Econômica dos Estados da África
Ocidental (Cedeao), mercado de aproximadamente US$ 100
bilhões em 1980, mas de US$ 35 bilhões em 2005, a Nigéria é
a potência econômica dominante da África ocidental. Estado
federal, representa aproximadamente um sexto da população
(mais de 130 milhões de habitantes) da África negra, quase
20% de seu produto nacional bruto (PNB) e 40% de seu co-
mércio exterior. Seus gastos militares elevavam-se, em 2004, a
US$ 520 milhões, ou seja, 1,2% de seu PIB. O país tem gran-
des potencialidades. Seus recursos naturais, energéticos (pe-
tróleo, gás), agrícolas, hídricos e minerais (ferro, colombita
etc.) são importantes. A infraestrutura viária, bancária e co-
mercial desenvolveu-se, e o sistema escolar possibilitou a for-
mação de uma elite de alto nível. Suas receitas petroleiras (2,5
milhões de barris diários) e de gás são estimadas em mais de
US$ 16 bilhões, para uma dívida externa de US$ 32,8 bilhões,
e respondem por 96% das receitas públicas. A renda é larga-
mente captada pelos responsáveis militares e políticos, en-
quanto mais de três quartos da população vivem em situação
de grande pobreza. A Nigéria permanece um gigante com pés
de barro, combinando diferenças étnicas e regionais, grandes
desigualdades de renda e recursos petroleiros instáveis. A

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economia enfrenta sérios obstáculos, como a falta de domínio


gerencial e técnico, o peso do tribalismo na distribuição dos
empregos, os critérios políticos de localização das indústrias,
o ônus do aparelho administrativo, a baixa rentabilidade dos
grandes projetos (por exemplo, as siderúrgicas de Ajaokuta) e
a escassez dos equipamentos elétricos, das telecomunicações
e das vias de comunicação secundárias.
A sociedade é cortada por diversas linhas de clivagem. O
mosaico étnico se organiza em torno de três grandes conjun-
tos (big three): hauçás e peúle muçulmanos no norte, iorubas
no sudoeste e ibos cristianizados no leste. A Nigéria tem uma
diplomacia ativa e considera-se o porta-voz da África. Ela in-
tegra em sua esfera de influência as periferias fronteiriças.
Opõe-se à França no seio da União Econômica e Monetária
Ocidental Africana (Uemoa) e quer ser a potência hegemôni-
ca no seio da Cedeao. Sua instabilidade sempre prejudicou o
exercício de seu poderio.
a Etiópia
A Etiópia, situada no chifre da África, conta 70 milhões de
habitantes e dispõe de uma força armada. Como o Sudão, es-
teve, desde a época antiga, ligada ao Egito, ao Oriente Médio
e ao mundo arábico-muçulmano. Três grupos étnicos domi-
nam: oromo (40%) amárico e tigrínia (32%). A Etiópia é um
polo político na África oriental sem acesso ao mar. Tem uma
longa tradição estatal e foi colonizada pela Itália apenas por
pouco tempo. Cristianizada desde o século IV, a Etiópia no
século XIX surgia como polo cristão no meio de uma África
islâmica e animista. A religião copta é majoritária, mas 40%
dos etíopes são muçulmanos. A queda de Hailé Selassié, da
dinastia salomônica, resultou num regime marxista durante
20 anos, isolando a Etiópia e ocasionando a perda, em 1988,

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da Eritreia e do Tigré. A dominação amárica, núcleo abissínio


do império centralizado, foi atenuada a partir de 1995 pelo
federalismo étnico. O potencial econômico é sobretudo agrí-
cola. O conflito com a Eritreia, independente a partir de 1993,
causou mais de 700 mil mortes. Os gastos militares do país se
elevam a mais de US$ 400 milhões, ou 4,3% de seu PIB, en-
quanto os da vizinha Eritreia, com 4,1 milhões de habitantes,
chegam a US$ 154 milhões, ou 19,4% do PIB.

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Capítulo 2

Poderes e contrapoderes

Será possível separar os campos da economia, do social,


do político, do cultural ou do simbólico do campo do po-
der? Os campos são definidos como espaços providos de re-
lativa autonomia e onde se estabelecem relações de força
entre indivíduos dotados de “capital” (econômico, social,
humano, cultural). A marginalidade, construção histórica,
social e espacial, é uma questão de discurso e de poder, po-
dendo ser definida como a capacidade de ação sobre as ações
dos outros devido a uma relação assimétrica. As relações
de poder se caracterizam pelas ações de influência, coer-
ção e subordinação. A dominação resulta de diferenças de
capacidades contratuais, de efeitos de dimensão e de per-
tencimento a uma zona ativa ou passiva. A hegemonia é o
processo pelo qual um ator dominante enuncia as normas e
as regras, acarretando o consentimento. Essas distinções im-
pedem a compreensão do emaranhado das relações sociais
institucionalizadas e podem levar à transposição de catego-
rias ocidentais.

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No plano das ideias e dos valores, a interpretação e o sen-


tido do mundo passam por matrizes culturais. Os referentes
culturais, simbólicos, dizem mais respeito a histórias reatua-
lizadas do que a futuros construídos (capítulo 1).
No plano sociopolítico, intervêm as relações de parentes-
co baseadas na solidariedade e as alianças entre famílias, as
desigualdades baseadas na hierarquia; as relações entre go-
vernantes e governados, de comando e de poder, baseadas na
dominação (capítulo 2).
No plano econômico, entram em cena as relações baseadas
na troca, a reciprocidade e as prestações/redistribuições (ca-
pítulo 3).
Essas relações são, segundo as sociedades, mais ou me-
nos autônomas. Nas “sociedades segmentárias apolíticas”
(Evans-Pritchard, 1964), o jogo político está diretamente li-
gado às relações de parentesco, e as relações econômicas de
troca ficam à margem. Nas sociedades tributárias (à base de
tributo arrecadado) ou estatais, o político é separado dos la-
ços de parentesco, e a economia adquire relativa autonomia.
Historicamente, a economia alargou seu campo primeiro pelo
tráfico e depois pela imposição colonial da comercialização.
A colonização autonomizou o campo do político atingindo
progressivamente as redes sociais.
O campo cultural
Há coisas que só podem ser vistas com
olhos que choraram (provérbio africano).

Entre aculturação e África globalizadora no campo cultural


O soft power é exercido pelo simbólico, pelas imagens, pe-
los valores, normas e regras. A África participa da sociedade
internacional por seu poder e seus contrapoderes culturais,

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Geopolítica da África 41

religiosos e normativos. Ela é globalizada, mas não globali-


zadora, salvo no domínio cultural. O combate cultural a fa-
vor da negritude, conduzido principalmente por Léopold
Senghor, foi uma boa maneira de afirmar a identidade negra
diante do colonizador.
As culturas e as civilizações africanas são muito diversas.
As tradições de hospitalidade e de dádiva e contradádiva dos
nômades, de consumo ou de potlach dos coletores da floresta,
de poupança e de investimento dos agricultores bamileques
de Camarões, bem como as acumulações dos grandes comer-
ciantes do Sahel são, respectivamente, características especí-
ficas que impedem uma generalização. A civilização é defi-
nida por sua linguagem, suas técnicas, sua arte, suas crenças
religiosas, sua organização econômica, social e política. Po-
rém existe, além das divergências, uma relativa unidade das
culturas de tradição oral que remete a uma cosmogonia.
As culturas africanas continuam marcadas pela oralidade
e pela ruralidade. Nas sociedades rurais, os patrimônios que
se conservam para serem transmitidos e as dádivas que criam
vínculos sobrepujam os bens que são alienados pela troca
comercial. Aí predominam a valorização da fecundidade, a
grande família, o peso da gerontocracia e as diferenças de gê-
nero. No mundo da oralidade, as genealogias e os mitos, as
humilhações sofridas ou as vitórias enaltecidas se transmitem
de geração a geração: “um ancião que morre é uma biblioteca
que se queima” (Hampâté Bâ). A pregnância do mundo mági-
co-religioso se encontra nas diversas manifestações culturais.
A arte africana é, pois, caracterizada por uma unidade estéti-
ca e por uma diversidade de estilos. Ela reproduz, ao mesmo
tempo que os transfigura, os ritos e os mitos. O “artista” é
um artesão de elite, em geral um ferreiro. O objeto é cheio
de significado simbólico, até mesmo de poderes mágicos e de

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força vital, antes de ser uma obra de arte. As experiências


iniciáticas propiciadas pelos cultos de possessão renovam a
aliança com os ancestrais e os deuses que comandam a fecun-
didade, a fertilidade, a cura. Os ritos iniciáticos possibilitam
a descoberta do oculto e o domínio do corpo.
Evidentemente, esses referentes culturais se modifica-
ram devido à confrontação com outros referentes ligados à
colonização, à urbanização e à globalização. As religiões da
oralidade foram alteradas pelas religiões do livro. A educa-
ção escolar introduziu o sentido da causalidade, da experi-
mentação e da análise diante de um pensamento simbólico.
Nem por isso o universo mágico-religioso foi suprimido.
A colonização procurou impor outros sistemas de valores,
originando uma confrontação e um sincretismo nos campos
linguístico, religioso e das normas. As evoluções culturais
estão ligadas aos choques de civilização e de cultura. As
civilizações técnicas e industriais procuraram se impor pela
sua superioridade técnica, militar, e pela sua eficiência eco-
nômica. Daí resultou um processo de aculturação ligado aos
contatos, à confrontação e à introjeção de culturas e de ci-
vilizações diferentes, produzindo assim um sincretismo cul-
tural, mas também uma dilaceração entre vários referentes.
Os africanos estão com os pés no neolítico e a cabeça na
internet. O que é virtude na lógica comunitária (poligamia,
solidariedade, respeito aos nomes e hierarquia) torna-se ví-
cio na lógica da eficiência e da competitividade (nepotis-
mo, clientelismo, tribalismo). A literatura africana exprime
essa ambivalência e ambiguidade cultural.21 Balandier fala
da vitalidade cultural africana: “a mestiçagem, a mistura, a
aculturação transformam, unem, inventam, acrescentam”,
enquanto Ki Zerbo observa “a erosão lenta, porém indiscu-
tível das culturas africanas”.22

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A África tem igualmente grande propagação através de


sua cultura, testemunho de criatividade, seja na literatura,
com vários prêmios Nobel, na música, no design ou no ci-
nema, pela tomada de consciência política. As diásporas, as
mestiçagens culturais e os diversos “enxameamentos” fazem
parte da presença da África no mundo. Ao mesmo tempo, a
África se fixa no sistema mundial pelos novos meios de tele-
comunicações. As cadeias de televisão e a difusão por satéli-
te tornaram-se interesses estratégicos das grandes potências
(árabes, americanas, europeias). As imagens e as informações
veiculadas por telefone celular, televisão, vídeo ou internet
nos cibercafés remetem ao mundo do dinheiro, da abundân-
cia, da violência, do sexo. “Moralismo, violência e ideal de
sucesso material constituem, pois, dentro dos novos sincre-
tismos, um coquetel explosivo consumido principalmente
pelos marginalizados pelo crescimento, sobretudo os jovens,
ninjas e ‘Rambos’ do Congo ou da Somália.”23 Existem confli-
tos entre gerações. Os jovens urbanos contestam as estruturas
gerontocráticas e as lideranças.
O papel da mulher é evidentemente central na criação cul-
tural, e seu status difere segundo as culturas. Elas estão no
centro das atividades domésticas de produção alimentar e de
reprodução. Fazem o essencial do trabalho de obter lenha e
água. “As mulheres são o nosso aqueduto”, dizem os dogons.
Ao mesmo tempo, em graus diferentes, elas têm um status so-
cial geralmente inferior (excisão, poligamia) e só exercem um
papel político ou religioso em certas sociedades.
O esporte desempenha igualmente um papel central no
plano social e político. Ele propicia um sentimento de unida-
de nacional (por exemplo, os “Elefantes” da Costa do Marfim
ou os “Leões Indomáveis” de Camarões) e o pertencimento a
um conjunto continental (Copa África das Nações). Remete

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às aspirações da juventude (por exemplo, a figura emblemá-


tica de George Weah, ex-“Bola de Ouro”, candidato à presi-
dência da República da Libéria em 2005). A África esportiva
manifesta-se no plano internacional. Ela está presente nos
campeonatos mundiais de futebol. A África do Sul organi-
zará a Copa do Mundo em 2010. Os esportistas africanos se
tornaram os melhores embaixadores de seu continente. Eles
veiculam uma imagem positiva. Noah, franco-camaronense,
foi eleito a personalidade mais popular da França em 2005.
O mosaico linguístico e a pluralidade dos valores
A língua é uma maneira de representar o mundo e de
construir sua cultura. A África, com 1.500 línguas, consti-
tui o maior patrimônio linguístico do mundo.24 As línguas
vernaculares se classificam em grandes famílias: cuchítico,
tchadiano, nilo-saariano, nigero-congolês, khoisan, malgaxe.
As línguas veiculares servem de comunicação entre povos de
línguas diferentes (dioula e hauçá na África ocidental, suaíli
na África oriental, lingala e hibanga na África central). As
línguas europeias, faladas pelos colonizadores, são línguas
veiculares intra e extracontinentais: inglês, francês, portu-
guês, africânder. Os interesses linguísticos são estratégicos,
seja como meio de pertencimento às áreas culturais, como
meio de dominação, por certos grupos, da língua de comuni-
cação internacional ou como meio de acesso ao conhecimento
científico. Os vínculos linguísticos se estabelecem através da
Organização Internacional da Francofonia (OIF), que reúne 25
Estados da ASS, através da Commonwealth e através da Co-
munidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Existem
várias mestiçagens linguísticas, como o pídgin e o crioulo.
Será possível, hoje em dia, falar em valores africanos?
Sim, contanto que sejam tidos como plurais, evolutivos e

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Geopolítica da África 45

não redutíveis a estereótipos, em termos de comunitarismo,


solidariedade, tradições ou mesmo primitivismo. Questionar
os valores é o mesmo que pensar na tensão, na confrontação
ou na contradição entre o universalismo e o relativismo, o
transcendente e o imanente, a abertura e o fechamento das re-
presentações. Podemos considerar que existem em qualquer
cultura ou civilização valores universais que são a base dos
direitos fundamentais; que as sociedades assistem a um de-
bate interno entre liberdades e totalitarismo; e que os valores
são igualmente contextualizados, enraizados nas histórias,
traduzindo-se em regras e leis específicas nas sociedades.
Eles diferem nas sociedades do Mediterrâneo, de herança
monoteísta, nas sociedades de tradição animista, nas socie-
dades urbanas mais laicizadas (por exemplo, a excisão, a po-
ligamia). Os valores exprimem também as relações de força,
os conflitos, as imposições ou as persuasões dos dominantes.
Frequentemente, eles são instrumentalizados. As sociedades
dominadas, frustradas ou fascinadas por valores que lhes
são inacessíveis têm tendência a se concentrar nos valores
do fundamentalismo e a se fechar numa recusa à alteridade.
Ao mesmo tempo, alguns valores baseados num determina-
do contexto socio-histórico tendem a se universalizar, pois se
apoiam no conhecimento científico (a Terra é redonda e gira
em torno do Sol) e/ou nos combates em prol das liberdades
(direitos do homem, luta contra a escravidão, direitos civis,
econômicos, sociais, culturais etc.). É a multiplicidade das he-
ranças e dos valores cruzados, emaranhados e transfronteiri-
ços que constitui a base dos valores fundamentais.
O campo do religioso
O religioso, no cerne do geopolítico, desempenha um pa-
pel crescente na África. É preciso levar em consideração a

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complexidade de sua relação com o político, adotar uma pers-


pectiva histórica e evitar o maniqueísmo do tipo Huntington.
O religioso não pode ser reduzido às crenças privadas, nem
assimilado a uma dinâmica política. Não é uma implantação
externa, mas uma apropriação e uma recriação permanentes.
Está no centro das representações e do sentido. A religião é a
pedra angular de toda instituição social, política, econômica.
Entre os dogons, “dança-se o sistema do mundo”, segundo a
fórmula do cineasta J. Rouch.
as diferentes religiões africanas
Podemos falar de religiões animistas, não reveladas, lo-
cais, da oralidade ou, ainda, as chamadas “tradicionais”. Elas
remetem a um mundo da ancestralidade e da transmissão com
o qual estão ligadas, constituindo uma ordem social de repro-
dução. Os mais velhos são mediadores entre os antepassados e
os vivos, garantindo o acordo da sociedade com o mundo das
forças visíveis e invisíveis. O meio ambiente tem caráter sa-
grado. A visão é ecocentrada. Essas religiões passam por uma
renovação importante, especialmente no meio urbano. Nada
conseguiremos entender do jogo político no Mali, se igno-
rarmos o papel dos fetichistas (caçadores), nem no Benim, se
esquecermos o papel do vodu (quase dois terços da popula-
ção são seus seguidores). Nas sociedades rurais tradicionais,
a distinção entre o profano e o sagrado foi abolida: qualquer
atividade econômica ou social é submetida a um rito. A na-
tureza se expressa através das forças que a animam. Existe,
consequentemente, uma ligação estreita entre o homem e a
natureza, que participam da mesma força vital. Os antepas-
sados vivem em simbiose com os vivos. O tempo sagrado está
ligado ao tempo profano. À depreciação do futuro correspon-
de a valorização do além. No final, prefere-se investir mais

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Geopolítica da África 47

no túmulo, uma vez que a morte é eterna, do que nos bens


materiais, visto que a vida é efêmera. O futuro é tido como
uma atualização do projeto dos mais velhos.
Por conseguinte, o ato econômico material dessacralizado
tem papel secundário. O uso profano de um bem importa me-
nos do que seu uso sagrado. O tempo ambivalente das ativi-
dades tradicionais suplanta o tempo produtivista. A dádiva
e a contradádiva são trocas diferenciadas de bens diferen-
tes que se opõem pelos seus prazos e por seu significado nas
relações de equivalência da troca comercial (por exemplo, o
biloba entre os fangs, análogo ao potlach dos melanésios). A
sociedade é um sistema de relações simbólicas, e não um sis-
tema de trocas oneroso.
A crença na feitiçaria propõe um meio de ação: quando
acontece uma desgraça, ela permite romper relações intole-
ráveis. Em toda sociedade desprovida de organização política
central, a luta pelo poder passa por acusações de feitiçaria.
Esta é igualmente uma sanção para a não observância das
regras. Dentro de uma concepção ecocentrada, e não antro-
pocentrada, trata-se de respeitar as forças naturais, e não de
dominá-las. Há pouca ou quase nenhuma distinção entre o
sobrenatural e a natureza, o sagrado e o profano: o universo
religioso é a ordem única das coisas. Os animais, os vegetais,
os minerais, os objetos, a Terra e os astros participam da mes-
ma ordem da vida, dos mesmos mitos de origem e da mesma
força vital. Os antepassados zelam pelo respeito às discipli-
nas, aos procedimentos e aos códigos de conduta, à coesão
social e à hierarquia.
O islã africano é multissecular. Ele se propaga e avança no
conjunto da zona sudano-saheliana e na África oriental ou
mesmo central, abrangendo aproximadamente 265 milhões
de africanos. Implantou-se no Sudão ocidental, a partir do

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século VIII, graças aos caravaneiros e aos comerciantes. A is-


lamização se acelerou com o movimento de renovação do islã,
nos séculos XVIII e XIX, e, depois, durante a colonização,
quando a adminstração colonial buscou respaldo nas estrutu-
ras sociais muçulmanas para enquadrar as populações. O islã
africano é quase totalmente sunita. Atualmente, de cada três
africanos, um é muçulmano. Podemos, simplificadamente,
opor um islã dos marabutos, seita antiga, a um islã radical dos
arabizantes. As seitas sempre desempenharam papel impor-
tante (qadiriyya e tijanyya, no século XIX no Mali; murdiya,
no século XVIII no Senegal; sammaniya e khatmiya, no século
XIX no Sudão). Observa-se certa radicalização do islamismo
servindo como ideologia e estratégia de poder desde os anos
1990. A charia domina no Sudão e no norte da Nigéria. O
djihad, guerra santa contra o mal, coexiste com a afiliação do
islã negro a uma comunidade de crentes (Umma al Islamiyya)
considerada acima dos Estados e dos indivíduos. A África
conhece ou conheceu algumas teocracias: Sudão, Mauritâ-
nia, Somália, Comores, Djibuti. O islã intransigente, religião
totalitária, rejeita a secularização do político e não separa a
esfera política da esfera privada. Visa não somente moralizar
a sociedade, mas também a transformar o Estado. Continua
minoritário e é pouco compatível com o islã popular, repleto
de crenças e práticas sincréticas.25
A implantação do cristianismo, à exceção das igrejas etío-
pes, data da ação missionária de Portugal, que teve até 1643
o privilégio do “padroado”. Observa-se, no século XIX, uma
renovação missionária protestante (ligada ao abolicionismo e
à corrente humanitária) e católica. São implantadas, então,
missões protestantes em Freetown e no Cabo, local de partida
de Livingstone, missionário e explorador. Podemos dizer que
os missionários foram agentes da colonização, precedendo ou

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acompanhando os mercadores e os militares (os três emes). O


espírito missionário desprezou muitas vezes os valores anti-
gos e deu provas de proselitismo. O assimilacionismo foi mais
pronunciado entre os católicos do que entre os protestantes.
Na realidade, as relações com os colonizadores foram quase
sempre tensas ou conflituosas, especialmente no período de
separação da Igreja do Estado, em 1905. Os administradores
coloniais frequentemente buscaram respaldo no islã, sobre-
tudo através do indirect rule, que se desenvolveu bastante
na época colonial. As missões não raro promoveram, além de
suas tarefas espirituais, ações sociais e educativas. As igrejas
desempenharam papel essencial na formação das elites na-
cionalistas. A partir das independências, surgiram movimen-
tos de africanização denominados inculturação (católicos) ou
contextualização (protestantes). O cristianismo está hoje em
plena expansão na zona florestal (África ocidental, África
equatorial), assim como na África central, África oriental e
África austral.
As igrejas independentes, etíopes ou messiânicas desem-
penham papel importante (como o quimbanguismo no Zaire).
Elas são uma indigenização ou introjeção das contribuições
externas.
o aumento do poder do religioso e suas ligações com o político
As igrejas são ao mesmo tempo forças de oposição e resis-
tência e forças de apoio aos poderes políticos, que procuram
instrumentalizá-las. As igrejas cristãs contribuem para os
compromissos sociopolíticos.26 As igrejas e as redes religio-
sas servem de intermediárias aos Estados enfraquecidos, seja
como lugar de socialização, seja colaborando na educação, na
assistência e na redistribuição. Elas contribuem para aliviar
as misérias. As religiões são janelas abertas para o mundo:

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através delas chegam os fluxos monetários e de informação, e


se constituem redes transnacionais.27
Inversamente, os “empreendedores políticos”28 utilizam o re-
gistro religioso criando cultos ou revigorando uma igreja como
instrumento de poder. Algumas religiões se desenvolvem li-
gadas aos interesses estratégicos das potências ocidentais e
do mundo arábico-muçulmano. O fundamentalismo religioso
cresce principalmente com os neopentecostais apoiados pelos
Estados Unidos e com o islamismo financiado sobretudo pela
Arábia Saudita. A instrumentalização do religioso está no
centro dos conflitos do Sudão, da Nigéria, entre a Eritreia e
a Etiópia, ou mesmo da Costa do Marfim, opondo um “Norte
muçulmano” a um “Sul cristão”.
O campo do normativo

pluralidade das ordens jurídicas


Os direitos consuetudinários se caracterizam por uma
enorme complexidade das regras de apropriação. O direito é
um regulador da vida social e um princípio de coerção mú-
tua. Por si mesmo, permite compatibilizar sistemas de valores
diferentes e transformá-los em coerções sociais eficazes. Na
África, podemos falar de formações institucionais e jurídicas
no sentido das formações geológicas, apresentando ao mesmo
tempo superposição e mistura de regras: direitos consuetudi-
nários ou comunitários, direitos provenientes das conquistas
(islâmica, anglo-saxônica, romano-germânica), direitos sui
generis das independências, direitos oriundos das condicio-
nalidades das instituições de Bretton Woods ou da União
Europeia. As regras balizam os caminhos, mas são plurais e
frequentemente transgredidas. Essa pluralidade de referentes
permite aos atores jogarem dentro das regras, mas faz tam-

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Geopolítica da África 51

bém com que elas se tornem pouco efetivas, enfraquecendo


os sistemas judiciários. As tensões entre as ordens normativas
conduzem a negociações, compromissos, crise ou violência.
Surgem os direitos subjetivos, econômicos, sociais, políti-
cos e culturais (direito à água, à saúde, à educação). A quase
totalidade dos países africanos assinou a Declaração Univer-
sal dos Direitos do Homem ou a carta africana dos Direitos do
Homem e dos Povos. Esses referentes podem parecer utópicos
diante da Realpolitik e da pouca efetividade dos mesmos. Eles
são igualmente vias de recursos e mostram a necessidade ur-
gente de um Poder Judiciário independente e probo.
poderes hegemônicos e conflitos normativos
O poder hegemônico das grandes potências, a começar
pela superpotência americana, se exerce hoje largamente
através do enquadramento normativo e da ideia de que o
desenvolvimento está diretamente ligado aos sistemas jurí-
dicos eficientes, à existência do Estado de Direito e de regras
para evitar a corrupção e proteger os agentes econômicos. A
escola econômica dos direitos de propriedade (North) res-
salta a superioridade de algumas formas organizacionais e
a importância do respeito aos direitos de propriedade e aos
contratos. Conforme a trajetória das sociedades (path depen-
dence), as instituições arbitrárias podem adquirir eficiência
progressivamente. Já outras correntes destacam a diversida-
de das normas, a pluralidade dos direitos, segundo as socie-
dades, e a inadequação das regras jurídicas impostas pelas
potências dominantes, sem integrar as práticas dos atores,
as diferenças contextuais das sociedades. A aplicação dos
direitos de propriedade fundiária na África, supostamente
em defesa dos exploradores, causa exclusão dos migrantes,
conflitos agrários e instabilidades que repercutem negativa-

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mente no clima econômico. A efetividade do direito depende


de um nível de desenvolvimento econômico que possibilite
a aplicação dos direitos (caso do trabalho infantil, da alimen-
tação ou da saúde).
A questão relativa às regras é de interesse estratégico,
quando se sabe da importância da imposição de normas para
a conquista de posições dominantes. Assim, alguns trabalhos
do Banco Mundial procuraram mostrar a superioridade do
direito anglo-saxão baseado no individualismo e da common
law sobre o direito romano-germânico ou “legicentrista”.
Essa superioridade, todavia, não ficou demonstrada para os
países africanos, devido à escassez de juízes competentes e
probos e ao papel de jurisprudências mais difíceis de serem
realizadas do que os códigos escritos. O papel hegemônico da
common law resulta de estratégias ligadas aos lobbies ameri-
canos junto às organizações internacionais e aos grandes es-
critórios de advogados.
O campo social e político

O peso das comunidades familiares


Nas sociedades africanas em que o capitalismo e o Estado
não dominaram as diferentes esferas da sociedade, os siste-
mas familiares continuam sendo a matriz social. As estrutu-
ras de parentesco, diferentemente das estruturas políticas,
não foram destruídas pela colonização. Elas são fortemente
diferenciadas, conforme os princípios matrilineares ou patri-
lineares, os laços de consanguinidade ou não, as relações de
linhagem ou clânicas referentes a um mesmo ancestral real
ou fictício, os tipos de alianças entre linhagem com regras
de exogamia e de dote.29 Elas estabelecem laços de solidarie-
dade, mas também de autoridade dos mais velhos. A família

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Geopolítica da África 53

ampliada e da mesma linhagem é o principal lugar de produ-


ção dos bens de subsistência, de reprodução dos agentes e de
fornecimento da força de trabalho. As transferências entre
gerações e os direitos e obrigações entre os mais novos e os
mais velhos apenas paliam a ausência de seguro-desemprego
e de previdência social. A família está frequentemente em
crise. As estruturas de linhagem, longe de se diluírem numa
modernidade assimilável às estruturas ocidentais, parecem
mais sólidas, mas ao mesmo tempo oberva-se um processo de
individualização e exclusão. A crise redistributiva remete a
uma redefinição das regras do jogo social. Por detrás da crise
econômica nota-se uma contestação das relações entre gera-
ções. As hierarquias institucionais baseadas na idade foram
modificadas. A solidariedade de crise cede lugar a uma crise
de solidariedade.
Redes sociais em rápida reestruturação

Referentes identitários sujeitos à evolução e à negociação


A complexidade dos grupos, dos povos e das sociedades
evidentemente não se reduz aos termos “tribos” ou “et-
nias”. Essas noções são criações históricas; elas são trans-
gredidas pela zombaria, pela pluralidade dos sobrenomes
ou alcunhas. Essas identidades instáveis estão sujeitas, elas
próprias, à negociação, ainda que a história tenha reificado
as identidades percebidas como diferenças de essência (au-
tenticidade zairense, “marfinidade”, identidade étnica). Os
referentes identitários que estabelecem os laços sociais não
são, todavia, redutíveis à cidadania e ao pertencimento à na-
ção. Os espaços públicos e os espaços privados muitas vezes
se confundem ou se misturam. A solidariedade entre gera-
ções, a assistência aos inativos, pré-, pós- ou não produtivos,

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54 FGV de Bolso

são amplamente garantidas pelos grupos privados de adesão


(tontina, associação, ONG, ajuda mútua etc.) ou de perten-
cimento (linhagem, etnia, igrejas). Esses pertencimentos são
ainda mais importantes porque os agentes estão em situação
de vulnerabilidade e de insegurança, porque não há institu-
cionalização do Estado, porque a consciência de cidadania é
fraca e porque as políticas sociais foram alteradas pela crise e
pelo ajuste preconizado pelo Fundo Monetário Internacional
(FMI) e pelo Banco Mundial.
uma estruturação em grupos sociais múltiplos
Na África, a estruturação em classes sociais não tem o
mesmo significado que nas sociedades salariais. O assalariado
repesenta menos de 10% da população ativa, e a classe operá-
ria, menos de 1%. É difícil falar de consciência de classe para
o campesinato. Várias sociedades africanas são estruturadas
em estratos, castas ou ordens. As castas ou grupos estatutá-
rios se caracterizam pela endogamia — no caso dos merina
de Madagascar, entre andriana (aristocratas), hova (plebeus)
e mainty (escravos). Encontramos entre os ankole relações de
submissão entre senhor e vassalo susbtituindo a relação Es-
tado/cidadão. Podemos considerar que os hutus e os tutsis
de Burundi e Ruanda correspondem mais a ordens do que a
etnias. No Chade ou na Somália, os pertencimentos clânicos
predominam sobre os étnicos.
É possível hierarquizar as populações do “mais baixo” ao
“mais alto”: o subproletariado rural e urbano, o campesinato,
os pequenos produtores urbanos, os funcionários, os buro-
cratas e as elites dominantes. As classes médias (assalariados,
funcionários), cujos salários e garantia de emprego desapare-
ceram, esperam em vão pela volta do antigo modelo redistri-
butivo. Os desterrados, informais urbanos, sofrem com a su-

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Geopolítica da África 55

pressão de medidas populistas (por exemplo, as subvenções


alimentares). Os jovens assalariados não têm mais esperança
de inserção.
Podemos distinguir, no plano societário, as classes (es-
trangeiros e intermediários nacionais) que detêm o capital
econômico, as elites intelectuais que possuem o capital es-
colar (adquirido na escola), muitas vezes em conflito com
o capital cultural herdado, e as personalidades e os chefes
que dispõem do capital social e simbólico. Desde então, as
lutas sociais não são somente de classes (no sentido marxis-
ta), mas também de status ou de posições (para os titulares
do capital cultural) e de raças ou etnias, para aqueles que
dispõem do capital social e simbólico. Os poderes africa-
nos são mais frequentemente caracterizados pelas alianças
com o capital comercial, especialmente com as diásporas
libanesas, indo-paquistanesas, chinesas. Existem homens
de negócios, comerciantes e intermediários africanos muito
eficientes. Em compensação, existem poucos empreende-
dores, no sentido schumpeteriano, que tenham estratégias
inovadoras a longo prazo. Os atores do informal são mais
audaciosos do que os empreendedores, mais engenhosos do
que os engenheiros.
Uma sociedade civil fraca, porém emergente
A sociedade civil africana é embrionária, mas em via de
emergência. As organizações sindicais e profissionais são li-
mitadas. Apenas os assalariados, especialmente os funcioná-
rios, são sindicalizados. Os partidos políticos são múltiplos:
“o partido único perdeu sua legitimidade como forma de or-
ganização capaz de levar à via do desenvolvimento. Embora
pervertido, o multipartidarismo deixa aberto um espaço para
o debate público”.30

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56 FGV de Bolso

As organizações não governamentais (ONGs) emergiram


como atores essenciais da geopolítica. Burkina Faso foi qua-
lificado como ONG-land. Trata-se de intervenções externas,
estruturadas e voluntaristas, que procuram dinamizar e in-
culcar a mudança social. As ONGs se situam entre o mercado
e o Estado, entre o privado e o público. O impacto delas deve
ser estudado em função das capacidades das organizações lo-
cais de perdurar (perenidade e sustentabilidade). São orga-
nizações econômicas, mediações de ajuda, que fazem parte
de um mecanismo de coordenação distinto do mercado ou
do Estado. Elas se baseiam na solidariedade e na cidadania
transnacional.
Na escala internacional, a ascensão das ONGs e da so-
ciedade civil pode ser colocada em relação ao mercado e ao
Estado. Podemos distinguir, retomando as distinções de Po-
lanyi ou de Perroux, três representações típicas de econo-
mia: a economia comercial, baseada no princípio das trocas,
no interesse privado, na busca da rentabilidade e da com-
petitividade; a economia pública, baseada na prestação/re-
distribuição, na coerção, na busca do interesse geral e na
autoridade; e a economia solidária, baseada na reciprocidade
ou na cooperação, na busca do interesse ou do bem comum
e na solidariedade.
Esse tríptico deve ser aprimorado em virtude da sobre-
posição de fronteiras entre essas três formas, das diferenças
de escala às quais elas se referem e de seu caráter evolutivo.
Há casos de hibridismo dessas três formas com mutualidade
de recursos privados, públicos e associativos e diferentes
tipos de parcerias. O peso de cada uma dessas economias
difere conforme as sociedades. A reconfiguração e a com-
plexidade da economia causam a modificação radical dos

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Geopolítica da África 57

vínculos entre a economia de mercado, de dimensão mun-


dial, a economia pública, de dimensão nacional, e a economia
solidária, de dimensão local. A economia social e associati-
va ganhou dimensão mundial com as organizações de soli-
dariedade internacional e a emergência de uma cidadania
transnacional.
As ONGs desempenham um papel crescente de contrapo-
deres (movimentos altermundialistas), na ajuda humanitária,
na emergência das grandes questões e até mesmo nas agendas
das negociações internacionais e numa democracia participa-
tiva. Todavia, existe o problema de sua legitimidade e dos
limites das ações urgentes e/ou não coordenadas. O humani-
tário e a urgência se tornaram mercados de captação de ajuda,
e as disputas midiáticas se dão em detrimento do desenvolvi-
mento.31 A catástrofe, servindo-se da compaixão, do impulso
humanitário e privilegiando a caridade, guarda relação com
a ascensão do liberalismo econômico e a incapacidade dos Es-
tados para garantir a segurança e a equidade.
Mutações sociais rápidas
É importante levar em conta, em situações de crise ou
em catástrofes como as guerras ou a Aids, a aceleração das
mutações. Estas têm a ver com o agravamento das lutas agrá-
rias, o surgimento de novos atores, como os desempregados
escolarizados ou os proprietários urbanos no meio rural, o
papel crescente do informal urbano ou os campos de refu-
giados. Resultam daí novas estruturações espaciais, com o
surgimento de zonas de transgressão, de espaços fronteiri-
ços que escapam aos poderes centrais, de novos polos regio-
nais, de novas forças políticas, como as igrejas, as seitas ou
os diversos grupos de pertencimento. Surgem, então, várias

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interrogações. Até que ponto se podem praticar as lógicas


redistributivas, quando a renda que transita pelo Estado
se reduz? Em que podem se apoiar as solidariedades, num
contexto de agravamento das diferenciações sociais e das
desigualdades de rendas? Como podem as migrações desem-
penhar um papel regulador, diante da exacerbação dos na-
cionalismos exclusivos e do estabelecimento de direitos de
propriedade privados?
Estados-nações em via de construção: o poder político
O Estado-nação é uma configuração sócio-histórica espe-
cífica encontrada apenas em algumas sociedades africanas,
ainda que tenha adquirido uma universalidade dentro da
arquitetura internacional. Os Estados africanos frágeis estão
pouco ligados às sociedades civis, elas próprias emergentes.
Os poderes políticos têm legitimidades internas e externas.
Eles dependem das hierarquias sociais, dos titulares do poder
econômico (por exemplo, os comerciantes, as firmas estran-
geiras, as máfias) e simbólico (poderes religiosos, lideranças
tradicionais).
Há pouca institucionalização do Estado, mas múltiplas
maneiras de se fazer política. Durante a época pré-colonial,
havia diferenciação, porém não descontinuidade, entre os
sistemas segmentários e os sistemas centralizados. O Estado
colonial se impôs em parte como transposição de um modelo
europeu, mas na realidade o aparelho estatal ficou limitado
e teve dificuldade em “capturar” (Hyden) as populações. O
Estado pós-colonial é um conflito de coalizões no poder e,
muitas vezes, o lugar de constituição de classes das quais ele
não é o reflexo. Às vezes ele é qualificado de “importado”
(Badie), de extrovertido, nascido da colonização e manipula-

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Geopolítica da África 59

do do exterior. Essa tese de estraneidade do Estado, separado


da sociedade civil, é muito discutível.32
as diferentes concepções dos Estados africanos

Diferenciação e historiciDaDe Do estaDo


A relação política elementar pressupõe uma divisão entre
governantes e governados, cujos papéis são respectivamen-
te comandar e obedecer sob sanção coerciva. Os sistemas
políticos são heterogêneos. Nas civilizações de caçadores-
coletores, de certos pastores e agricultores das clareiras das
florestas úmidas do Equador e do golfo da Guiné, existiam
sociedades apolíticas, isto é, sem relações entre governantes e
governados. As funções conservadoras, de incumbência das
redes políticas, eram exercidas pelas redes de parentesco. Já
nos grandes impérios e reinados predominaram as estruturas
estatais. As lideranças ou realezas tinham formas monárqui-
cas, com personalização do poder e sacralização da função de
chefe. Os Estados têm as funções de redistribuição, gestão das
questões coletivas, segurança interna e defesa do grupo con-
tra as ameaças externas. No conjunto, as esferas do religioso
e do político se confundem.
A colonização destruiu ou subjugou as redes políticas,
enquanto os sistemas de parentesco resistiam e perduravam,
salvo em sua função societária. O poder colonial garantiu
as funções de administração, justiça, observância da lei e
manutenção da ordem. O Estado teve dificuldades para cap-
turar as populações e evitar o exit option ou uso da astúcia
por parte delas.
Quando da descolonização, os dirigentes “evoluídos”, ex-
estudantes, funcionários, sindicalistas ou militares, quiseram
criar um Estado modernizador e desenvolvimentista. Quase

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60 FGV de Bolso

sempre eles procuraram destruir as lideranças, emirados e


sultanatos. Instauraram um partido único e desenvolveram
uma ideologia, variando do socialismo à moda africana até
o capitalismo de Estado. Na maioria dos casos, essas elites
apoiaram-se em grupos de pertencimento ou em clientelas.
Assistiu-se à generalização das contestações estudantis e dos
golpes de Estado militares.
a interDepenDência Do político e Do econômico
As estruturas institucionais de poder podem ser analisa-
das de vários pontos de vista: reflexos dos interesses de clas-
ses, como supõe uma visão marxista; autonomia do aparelho
do Estado, como supõem os politicólogos realistas; constitui-
ção de blocos hegemônicos no plano interno ou internacional
e motivos utilitaristas (busca de renda), segundo a escola das
escolhas públicas. Na economia política das imbricações, há
uma sobreposição (straddling) dos poderes econômicos e po-
líticos (sistemas político-petrolíferos, algodoeiros ou diaman-
tíferos), pouca diferenciação entre a administração, o governo
e os interesses econômicos, e transações em conluio,33 sendo a
captação das riquezas ao mesmo tempo um meio de financiar
o Estado e seus problemas.
O Estado não é benevolente nem está a serviço do inte-
resse geral. Ele é o reflexo de grupos de interesse que mo-
nopolizam o poder. Não raro é personalizado e se confunde
realmente com os titulares do poder político. O contexto de
vários países africanos caracteriza-se pela confusão entre a
coisa pública e a coisa privada (neopatrimonialismo), pela
formação de Estados (às vezes pela guerra, que aparentemen-
te é uma decomposição dos mesmos) e por uma dicotomia
entre as estruturas oficiais e aparentes dos poderes e as es-

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Geopolítica da África 61

truturas profundas que se apoiam nos poderes tradicionais


ou na ascensão de novos atores coletivos. “O Estado-rizoma”
(Bayart) age como um nó de redes servindo para alimentar a
perenidade do sistema. O Estado na África se nutre do exte-
rior para alimentar seus conflitos internos.
sistemas sociopolíticos contrastados
Afora algumas experiências históricas semelhantes, como
o tráfico escravagista e a colonização, os sistemas sociopo-
líticos africanos são bem contrastantes. Em geral, o Esta-
do precedeu a nação, e a ideia de cidadania é embrionária
diante da prevalência dos laços comunitários, clânicos ou re-
gionais. Cabe ainda distinguir as sociedades com clivagens
étnicas, aquelas caracterizadas pelos pertencimentos clâni-
cos (caso da Somália), as sociedades segmentárias sem Estado
e os antigos impérios ou Estados-nações (como a Etiópia e
Madagascar).
Em várias sociedades africanas, os poderes funcionam
num duplo registro: o das estruturas oficiais, com legitimi-
dade externa, e o das estruturas reais, reflexo dos compro-
missos sociopolíticos e das acumulações de capital relacio-
nal. Na maioria das sociedades africanas, o acesso ao poder
favorece antes o domínio sobre as riquezas do que o inver-
so. As instituições são amplamente subvertidas pelo sistema
patrimonial pessoal, apoiado em cumplicidades externas.
Os investidores ajudam na reconstrução dos Estados, espe-
cializando-se conforme os setores (justiça, polícia, exército
etc.), em detrimento de uma visão coerente. As redes pesso-
ais e de solidariedade suplantam a institucionalização do Es-
tado. O Estado africano pós-colonial quase sempre é fraco, a
ponto de quase levar à derrocada instituições como o Exército,

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62 FGV de Bolso

e está apenas frouxamente conectado a uma sociedade civil


ainda insegura. A falência do modelo estatal pós-colonial,
somada à desvalorização do Estado pela ideologia liberal,
redundou por vezes em fragmentações territoriais e no for-
talecimento de facções apoiadas em identidades clânicas,
comunitárias, étnicas ou religiosas.
Cabe, evidentemente, evitar qualquer generalização. Um
processo de democratização está em andamento, e as tran-
sições institucionais, a começar pelo sistema fiscal, prosse-
guem. Vários Estados funcionam normalmente, e muitos de-
les, tendo saído recentemente de conflitos, se reconstroem
(Burundi, Moçambique). No entanto, observa-se igualmente
a rápida propagação das crises sociopolíticas, que, como uma
mancha de óleo, são transfronteiriças e contagiam. A recons-
trução dos Estados por vezes faz lembrar Sísifo.
estaDos frequentemente sobrecarregaDos
Em princípio, o Estado exerce seu poder sobre um territó-
rio delimitado por fronteiras. A estruturação do espaço se faz
pela organização reticular do território. Ora, na África, essa
rede é frouxa. As fronteiras são contestadas e transgredidas.
A organização do território é limitada, e não raro várias regiões
escapam ao controle do Estado.34
O Estado sobrecarregado não pode assegurar suas antigas
funções nem seus componentes, a saber:

n as estruturas institucionais de poder, ou seja, um Estado


que detém o monopólio da violência legítima nas relações
internas e é ator soberano no cenário internacional;
n os órgãos centrais de decisão que definem a política
(policy): os governantes e as administrações;

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Geopolítica da África 63

n as instâncias de negociação, de busca de compromissos


sociopolíticos: o Estado-árbitro, redistribuidor, regu-
lador, facilitador, fiador dos laços sociais;
n as atividades públicas produtoras de bens e serviços cole-
tivos: o Estado produtor, em virtude das externalidades,
das indivisibilidades ou dos bens tutelares essenciais.

O Estado neopatrimonialista35 ou rizoma (Bayart) se nutre


do exterior. A “política da barriga” perdura desde o controle
político da acumulação mercantil exercido pelos grandes im-
périos sudano-sahelianos até o nepotismo e a corrupção atuais.
Existem meios populares de ação política que colaboram para
a criação do Estado pós-colonial.36
A corrupção é um comportamento que se afasta das normas
e dos deveres oficiais de um cargo público, eletivo ou desig-
nado, visando ao enriquecimento. Ela afeta particularmente
os produtos de extração, as obras públicas e a administração,
apesar dos vários documentos anticorrupção, como a conven-
ção da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Eco-
nômico (OCDE, 2003), a convenção da União Africana (2003) e
a convenção das Nações Unidas (2004). A “grande” corrupção
difere da “pequena”, que é antes uma compensação pela que-
da dos rendimentos. Em 2005, a ONG Transparency Interna-
tional classificou Nigéria, Camarões, Angola, Costa do Marfim
e Chade entre os países mais corruptos do mundo.
Estados sob ajuste e sob tutela
As reformas institucionais visam atualmente a criar um es-
paço jurídico que garanta os contratos, favoreça os direitos de
propriedade e permita uma “boa governança”. A privatização
leva ao descompromisso do Estado com a esfera produtiva.
Transferências de soberania surgem nos níveis infranacionais

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64 FGV de Bolso

(descentralização) e supranacionais (papel das instituições de


Bretton Woods). As associações, as ONGs, as cooperativas e a
economia popular desempenham papel crescente de produ-
tores de bens e serviços coletivos. No entanto, o resultado é
menos o estabelecimento de uma economia de mercado do que
uma recomposição de economias que permanecem rentistas.
A democracia tornou-se uma condicionalidade política.
Além de suas diversas formas institucionais, ela se apoia nos
princípios fundamentais de liberdades, espaço público dife-
renciado dos espaços privados, equilíbrio dos poderes e jogo
dos contrapoderes. As sociedades africanas tiveram, histo-
ricamente, como todas as sociedades humanas, dimensões
autoritárias, com o papel dos anciãos, dos déspotas e dos jo-
gos de contrapoderes democráticos. A colonização e a inde-
pendência reforçaram os regimes autoritários. A democracia
impõe-se atualmente pela sua única forma institucional de
concorrência eleitoral (multipartidarismo, eleições livres). A
África é evidentemente um continente maduro para a demo-
cracia, mas esta pressupõe a emergência de contrapoderes e
de independência, especialmente da justiça. A democrati-
zação é um processo endógeno que pressupõe combates: “o
espaço público não é somente um agenciamento da esfera
institucional e da sociedade civil; ele remete a um imaginá-
rio político”.37
Essas noções de governança, que invadiram o vocabulá-
rio, dão conta de realidades evidentes de corrupção, desper-
dício de recursos públicos, má gestão de projetos, assimilação
da coisa pública à coisa privada, e impedem a eficiência da
ajuda. Mas elas dissociam o econômico do político (politics) e
da política (policy), ou tratam o político em termos gerenciais
ou econômicos, esvaziando os conflitos, as contradições e as
relações de poder. O Estado de Direito (rule of law) suposta-

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Geopolítica da África 65

mente desempenha um papel central no respeito aos contra-


tos e na criação de um ambiente estável.
A ONG Freedom House diferencia os regimes políticos em
função dos direitos políticos e das liberdades civis: demo-
cracias, democracias restritas, monarquias constitucionais,
monarquias tradicionais, monarquias absolutas, regimes au-
toritários, regimes totalitários, domínios coloniais e proteto-
rados. Os estudos, inter-relacionando crescimento econômico,
regimes políticos, estabilidade política e corrupção, oferecem
resultados pouco concluentes. A corrupção aumenta eviden-
temente os custos de transação, deforma o papel distributi-
vo e alocativo do Estado e favorece a evasão fiscal, mas tudo
depende do apego ao dinheiro da corrupção. A asserção de
North (1990) segundo a qual “as instituições são o principal
determinante do desempenho a longo prazo das economias”
não foi confirmada.
Um sistema precário de segurança e os Estados falidos ou frágeis
“A verdadeira liberdade pública só existe quando a segu-
rança das pessoas está garantida”, dizia Montesquieu. Pode-
mos falar em vários casos de Estados falidos, em via de falir,
ou frágeis. O sistema de governo ou de governabilidade é inca-
paz de garantir as mínimas funções de competência do Estado,
a começar pela segurança das pessoas e dos bens. A segurança
é a condição de um sujeito (individual e coletivo) que não se
considera ameaçado ou que dispõe de capacidade de reação
diante de perigos reais ou pressentidos. Ela é um bem público
mal-assegurado, devido à fragilidade ou mesmo ao desapare-
cimento das forças policiais ou militares e da justiça, as quais
garantem o respeito aos direitos civis e políticos.
Dois tipos de forças armadas predominavam à época das
independências: as regulares, provenientes da transição dos

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66 FGV de Bolso

exércitos coloniais, e aquelas surgidas dos movimentos de


liberação nacional. As primeiras eram concebidas segun-
do a tradição dos colonizadores, estando ligadas às guerras
mundiais. As últimas eram populistas. A função estatal da
segurança, dentro do contexto da Guerra Fria, em geral era
assegurada pelas antigas potências coloniais, especialmente
através do papel militar da França e dos acordos de defesa.
As forças armadas encontraram cada vez mais dificuldade de
assegurar seu papel de segurança e manutenção da integrida-
de do território. Os poderes civis desconfiaram dos golpes de
Estado militares. Muitas vezes as forças armadas se aliaram a
poderes não legítimos. Elas sofriam com a deserção por falta
de pagamentos dos soldos ou com a falta de materiais. A prio-
ridade era a ordem interna. Os Estados africanos, à exceção
da África do Sul, que vende armas, dispõem de limitado po-
tencial militar marítimo, aéreo e terrestre. Frequentemente o
Estado privatizou sua defesa (mercenários, milícias privadas)
ou mesmo deixou o campo livre para os senhores da guerra.
As funções estatais de segurança são cada vez mais exercidas
pelas forças internacionais ou regionais.
Ao contrário do que reza o credo liberal, as sociedades só
podem funcionar de maneira eficiente se o Estado for refor-
çado para garantir a segurança e para criar um ambiente ins-
titucional favorável, se os contrapoderes evitarem o arbítrio,
se as empresas tiverem lógicas de investimento produtivo a
longo prazo, e se os mecanismos redistributivos funcionarem
com tensões sociais reguladas. É necessário haver instituições
e organizações, visto que o futuro incerto deve ser transfor-
mado em projeto. O Estado desenvolvimentista é um Estado
mais facilitador do que realizador, mais incitador do que de-
cisor, salvo nas escolhas estratégicas.

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Geopolítica da África 67

0o

Ma r
Me
dite
tunísia rrân e
9,8 o
MaRRocos 30,4
aRgélia
31,7
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5,5 72,1
Trópico de Câncer

MauRitânia
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cabo VERdE
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2,9
Mali
11,6 nígER Vermelho
1,2 5,0 12,1 ERitRéia
chadE 4,4
3,2 0,7
sEnEgal 11,0 6,8 buRkina fasso 9,3 sudão
13,2 4,9 36,8
0,4
nigéRia 7,8
guiné 9,0 3,6 REpública cEntRo- Etiópia
133,9 afRicana 70,7
sERRa lEoa 5,7 0,8 17,0 20,5 3,7
78 6,6
13,8 7,6 caMaRõEs 7,3
libéRia 3,8 0,4 15,7 uganda
f iM na 15,3
8,8 soMália
aR ga 25,0
M Quênia
Linha do Equador o 6,2
ad gabão congo REpública 31,6
st 1,3 dEMocRática do 1
co 2,8
3,7 13,8
6,0 4,2 congo sEichElEs
5,5
go 7,8 4,2 57,0 2 tanzânia Oceano 8,1
to EniM 5,6 35,4
b
6,8
Índico
coMoREs
angola 8,6
Oceano Atlântico 13,1
zâMbia
Malaui
12,9 11,7
10,9 2,9
0,4 ilhas
MauRício
ziMbábuE MoÇaMbiQuE
12,0 MadagascaR 1,2
17,5 17,0 5,2
botsuana 7,4 4,4
4,3
Trópico de Capricórnio naMíbia
1,9 1,6
0,4 6,8 ilhas
1,2 REunião fr.

áfRica do sul
44,0 lEsoto
1,2 7,7
192

0o

2.000 km
número de habitantes por km2
(densidade média: 28 habitantes por km2)

de 200 a 600

31,6 número de habitantes (em milhões) de 100 a 199

13,8 pib em us$ bilhões (2004) de 28 a 99

de 14 a 27
1 Ruanda 7,5 1,7

2 burundi 6,7 0,7 de 2 a 13

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68 FGV de Bolso

O campo econômico
A economia africana, seja ela analisada por meio das rela-
ções de permuta comercial, da produção de bens materiais ou
da acumulação produtiva, não logrou autonomia perante as
outras relações sociais. A África antiga tinha uma economia
forte no plano do comércio de longa distância, e os grandes
comerciantes das cidades hauçás não ficavam nada a dever aos
negociantes de Gênova ou de Veneza da mesma época. Mas
esses circuitos se inseriam pouco nas transações realizadas em
escalas localizadas. Estas assumiam a forma de troca comer-
cial, reciprocidade, fidelidade, redistribuição/prestação.
É claro que, historicamente, a esfera da economia se am-
pliou. A mercadoria se desenvolveu mediante o imposto mo-
netizado, o trabalho forçado ou a monetização do dote. Não é
menos verdade que ainda hoje toda uma gama de atividades
escapa ao mercado, e que os circuitos econômicos extroverti-
dos não raro são enclaves. O dinheiro não é um equivalente
geral com poder liberador sobre qualquer bem. Os mercados
estão limitados por certos bens e não se referem a todos os
fatores de produção. A terra é pouco alienável. Existe pouco
mercado de trabalho. É importante dissociar a esfera domésti-
ca, o mercado, lugar de trocas monetizadas, do capital, em que
o dinheiro serve para acumular dinheiro. A África conhece os
dois primeiros níveis. Ela conheceu e conhece a acumulação
primitiva pela violência, o capital comercial, mas não o ca-
pital produtivo (Braudel, Bohanan, Dalton). Evidentemente,
deve-se evitar qualquer generalização, mas a denominação
genérica de economia rentista permite especificar as econo-
mias africanas em comparação com os outros continentes.
A dependência econômica
A dependência traduz uma assimetria de posição. Ela “não
significa predeterminação pelo exterior, mas antes a não dis-

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Geopolítica da África 69

posição de todos os elementos de base necessários à liberdade


de escolha”.38 Recuando na história, a África sempre esteve
aberta às redes eficientes de comércio, apoiadas, segundo as
épocas, no ouro, nos escravos, nos produtos primários ou nas
atividades mais ou menos ilícitas.
Extroversão e marginalização
Afora as flutuações, quase 50 anos após sua independência,
as economias africanas continuam polarizadas nas economias
europeias, que representam mais de dois terços de suas zonas
de intercâmbio comercial e da origem dos capitais. A África
pouco modificou a estrutura de suas exportações: o primei-
ro produto primário exportado representava em 1960, assim
como em 2006, aproximadamente metade das exportações; as
exportações de produtos manufaturados constituem apenas
5% do total. As economias são quase totalmente dependentes
em bens de equipamento e bens intermediários, ou mesmo em
bens de consumo de primeira necessidade. O essencial das re-
ceitas públicas continua ligado, apesar das reformas em anda-
mento, aos direitos alfandegários. É grande a dependência em
capitais, tecnologias estrangeiras e competências expatriadas.
Somente a África do Sul é uma potência regional, com um
sistema produtivo relativamente desenvolvido.
Erosão das preferências e fraco poder de mercado
A lógica da economia rentista e os baixos ganhos de pro-
dutividade acarretam uma perda contínua da competitivida-
de externa. Esta leva em conta a capacidade de melhorar ou
manter as posições das empresas ou dos produtos nos merca-
dos domésticos ou de exportação. O peso da África no comér-
cio mundial diminuiu em mais de 50% entre 1970 e 2006. As
exportações dos países da África subsaariana (ASS) caíram de

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70 FGV de Bolso

3,1% das exportações mundiais em 1970 para apenas 1% em


2000 (e destas, mais de 40% somente de petróleo). Com uma
especialização regressiva dos produtos de base, cujos preços
são majoritariamente decrescentes, a África perde parte dos
mercados para suas principais culturas de exportação: cacau,
óleo de palma e de amendoim, banana, borracha. Ela só man-
teve os mercados de café, sisal, fumo, algodão e chá. A África
é price taker, e não price maker. O poder de mercado se des-
locou para os oligopólios, e as parcelas de valor agregado se
explicam sobretudo pelas diferenças de poder de compra dos
consumidores. Assim, a longo prazo, o cacau tem preços for-
temente decrescentes e instáveis, enquanto o tablete de cho-
colate na Europa tem preço estável e ligeiramente crescente.
A Costa do Marfim, embora realizando 45% das exportações
mundiais de cacau, experimentou uma perda de seu poder
de mercado no início dos anos 1900, com a concentração/
integração no segmento controlado pelas firmas industriais
ocidentais. Nos modelos de intercâmbio desigual, a deteriora-
ção dos termos de troca e a distribuição desigual do valor se
explicavam pela distribuição assimétrica do aumento da pro-
dutividade entre países com salários diferentes. A explicação
atual remete, às vezes, ao poder de compra do consumidor
ocidental, que paga pelas marcas, e ao poder dos oligopólios.
Vários países continuam às voltas com numerosos proble-
mas existentes desde a independência (subordinação quase
exclusiva no que se refere às exportações dos produtos de
base, tecido industrial embrionário, fracas taxas de poupan-
ça e de investimento, rentabilidade limitada do capital pro-
dutivo, levando em conta o risco, atendimento limitado das
necessidades de saúde e educação etc.), tendo ainda que ad-
ministrar o passivo da dívida e responder aos desafios inter-
nos (especialmente os demográficos) e externos (da abertura).

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Geopolítica da África 71

Após ter-se beneficiado dos superpreços coloniais para as


exportações e das preferências comerciais, a África enfren-
ta os ventos da competitividade participando muito pouco
da cadeia de valor internacional. Os países africanos gerem a
transição de economias administradas e protegidas à maneira
pós-colonial para economias liberalizadas e abertas sofrendo
a erosão das preferências e afrontando-se com a globalização.
As economias africanas permaneceram, salvo raras exceções
e apesar de suas reformas internas, dominadas pelas lógicas
rentistas.
Uma economia de renda com crescimento econômico limitado e
instável
Salvo exceções, a África continua sendo uma economia
rentista em que realmente o processo de acumulação não
conseguiu engrenar. As lógicas redistributivas superaram as
lógicas produtivas, e a acumulação dos laços sociais tem prio-
ridade sobre a dos bens.
os fatores explicativos da estagnação econômica
Numerosos estudos econométricos explicam as fracas per-
formances africanas.39 Vários fatores são alegados: fragmen-
tação etnolinguística, fatores geográficos (dificuldade das
comunicações, afastamento do litoral, pobreza dos solos, doen-
ças etc.), históricos (pouca especialização, peso da colonização),
políticos (instabilidade, insegurança, custos de transação,
principalmente da corrupção), infraestruturais (deficiência
das telecomunicações, das redes elétricas, dos transportes e
dos serviços públicos), internacionais (a exposição aos cho-
ques externos é agravada pela especialização primária e pelo
pequeno porte das economias) e econômicos (baixa taxa de
investimento com forte intensidade capitalista, distorções em

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72 FGV de Bolso

favor dos setores não diretamente produtivos, fragilidade da


demanda, sistemas financeiros pouco desenvolvidos). O mo-
delo de exportação de produtos de base e de substituição das
importações não conseguiu gerar um processo autossustenta-
do que levasse à diversificação da produção. Apenas alguns
poucos países, entre eles Maurício e Botsuana, são exemplos
que fogem a essa especialização empobrecedora.

Tabela 1

Elementos de crescimento do PIB da África subsaariana (%)

1961- 1973- 1980- 1990- 2000-


1973 1980 1990 1999 2005
crescimento da população 2,6 2,8 3,1 2,6 2,5
(taxa anual em %)
crescimento do pib 4,6 2,7 2,1 2,5 2,6
(taxa anual)
taxa de investimento bruto 15,0 20,6 16,0 16 17,5
(% do pib)
consumo privado 72 66 68 69 69
consumo público 11 13 15 16 15
Exportação 22 26 29 28 26
importação 19 25 28 30 27
poupança doméstica bruta 14 22 16 15 17
total do pib (%) 100 100 100 100 100
Fonte: Hugon, 2006.

bloqueio Do sistema proDutivo


A baixa produtividade da agricultura repercute no con-
junto da economia. A agricultura de renda proporciona 30%
das receitas de exportação da África e constitui a principal

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Geopolítica da África 73

fonte de receitas parafiscais para a maioria dos Estados. A


agricultura alimentar possibilitou nutrir uma população que
cresce mais de 3% ao ano e uma população urbana cuja taxa
de crescimento varia entre 5% e 7%, mas desenvolveu-se
de modo extensivo. O setor industrial de transformação dos
recursos naturais ou de substituição das importações, após
ter conhecido forte expansão entre 1950 e 1980, sofreu uma
regressão. O setor terciário conservou durante muito tempo o
espírito da economia de tráfico, apesar da liberalização. Sua
participação é da ordem de 40% do PIB desde as indepen-
dências, ou seja, um índice nitidamente superior à média dos
países em desenvolvimento. O setor “protegido” (os preços
não dependem do mercado mundial) representa mais de 50%
do PIB nos países petroleiros (serviços mercantis e não mer-
cantis). A África subsaariana possui um sistema financeiro
pouco desenvolvido, oneroso, amplamente extrovertido e
que prioriza os empréstimos a curto prazo, o que se traduz
na fragilidade das redes financeiras locais nos meios urbano
e rural.
Paralelamente à pressão das despesas públicas, houve es-
tagnação do recolhimento fiscal e esgotamento das receitas
públicas ligadas às relações comerciais externas (direitos as-
segurados sobre as importações e as exportações, royalties,
taxas indiretas sobre os produtos importados, evasão fiscal e
precário equilíbrio). A produção dos bens públicos e as fun-
ções básicas do Estado são dificilmente asseguradas.
um Desafio estratégico na área mineira e petroleira
O setor mineiro e energético representa dois terços das
exportações da ASS. Em 2005, a África consumiu 150 milhões
e produziu 200 milhões de toneladas de petróleo (das quais,
104 milhões referentes à Nigéria e 45 milhões a Angola).

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74 FGV de Bolso

A África representa 10% da produção de petróleo e 3%


de seu consumo, e 8% da produção de gás e 2% de seu con-
sumo, ou seja, respectivamente, 15% e 10% das exportações
mundiais de petróleo e de gás. Ela adquiriu uma posição cen-
tral na geopolítica petroleira devido à revolução técnica do
offshore e à necessidade dos atores de diversificarem as fontes
de abastecimento. Torna-se, pois, alvo de interesses estratégi-
cos, sobretudo para os Estados Unidos, a China e a Índia. A
parte dos hidrocarburetos nas trocas entre a África e o resto
do mundo representa quase um terço das exportações africa-
nas de matérias-primas. Graças aos avanços tecnológicos, a
produção de petróleo offshore se desenvolve. No entanto, o
petróleo representa menos um fator de desenvolvimento do
que um fator de desestruturação das sociedades e de desper-
dício, gerando efeitos perversos (dutch disease) de captação
de rendas por um grupo limitado e até mesmo de conflituo-
sidade. Os enclaves extrovertidos funcionam em período de
guerra (diamante na Libéria ou em Serra Leoa, petróleo em
Angola). Os problemas de governança e de deriva da petropo-
lítica são graves, embora haja certos mecanismos de proteção.
Vários países endividados hipotecaram seus recursos e estão
de mãos atadas diante das multinacionais do petróleo.
“informalização” Da economia
As práticas de crise levam à informalização das economias
africanas. O informal pode ser definido como um conjunto
de organizações em pequena escala no qual o assalariado está
ausente (ou limitado) e o capital adiantado é fraco, mas em
que há circulação monetária e produção de bens e serviços
onerosos. As normas predominantes não são salariais, mas
consuetudinárias, hierárquicas, paternalistas. O homo oecono-
micus age em função de seu interesse; ele é racional e relacio-

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Geopolítica da África 75

nal, mas num contexto incerto em que há um relaxamento


das coerções (subemprego, terras abundantes, distanciamen-
to da fronteira de eficiência).
Lugar de inovação ou de adaptação, as economias popu-
lares urbanas constituem modos de vida e de sobrevivência
da maior parte da população. Permitem satisfazer às neces-
sidades fundamentais não atendidas pelos sistemas oficiais:
alimentação, habitação, vestuário, formação, bem-estar, loco-
moção ou lazer. O informal se refere a atividades femininas,
alimentares (distribuição, preparação, refeições), de serviços
pessoais e materiais, e masculinas de reparo, de recuperação
e de reciclagem de produtos industriais, de transporte, de
transformação e de fabricação.
Por um lado, os pequenos produtores “informais” se in-
serem nas redes caracterizadas por relações interpessoais de
confiança e cooperação e ligadas às unidades domésticas (não
dissociação dos orçamentos domésticos e produtivos, utili-
zação da mão de obra familiar, diluição do excedente no seio
das famílias). Por outro lado, eles estão inseridos no mercado
e enfrentam concorrência. As pequenas unidades têm taxas
de natalidade e de mortalidade muito elevadas. A economia
informal remete igualmente à inserção numa economia pa-
ralela e mafiosa internacional, favorecida pela decomposição
dos Estados e por um mundo sem lei.
Historicamente, os países africanos tiraram pouco pro-
veito do efeito de difusão, por parte da Europa, de um mo-
delo de crescimento mediante transferências de tecnologia,
investimentos diretos e abertura dos mercados europeus
para produtos industriais, o qual permitisse maior diver-
sificação. Raramente eles foram capazes de construir novas
vantagens comparativas e de dominar a abertura externa
mediante uma combinação de políticas macroeconômicas

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76 FGV de Bolso

rigorosas e políticas industriais seletivas. Os exemplos em


contrário são o da cadeia integrada do algodão da África
francófona, que passou de 4% do mercado mundial (1980)
para 9% (1990) e 16% (1997), e o de Maurício, que expe-
rimentou uma diversificação de seu sistema produtivo e de
sua especialização internacional.
Os riscos reais ou percerbidos, essenciais na atratividade
dos investimentos e no horizonte temporal dos decisores, são
elevados. Segundo a Confederação das Organizações Familia-
res da União Europeia (Coface), em 2005, somente Botsuana
apresentava baixo risco, seguido da África do Sul, enquan-
to outros países obtiveram grau medíocre (Gabão, Senegal),
de incerteza ou perigo (Camarões, Costa do Marfim, Uganda,
Zimbábue), ou mesmo execrável (Nigéria).
Uma globalização imposta
A globalização econômica das técnicas, das informações
e do mercado caminha junto com o reforço das identidades
e a restrição das liberdades e dos direitos do homem. A glo-
balização da África é mais suportada e imposta do que ne-
gociada e dominada. No plano internacional, a África tem
escasso poder financeiro e de mercado. Pesa pouco no PIB,
no investimento e no comércio mundiais, na capitalização das
bolsas, na tecnologia, na pesquisa. Os governantes têm pouca
margem de negociação perante os poderes econômicos pri-
vados transnacionais e maior poder diplomático, mesmo não
jogando entre os grandes.
a globalização
O termo “globalização” leva em conta a interdependência
de cinco processos: a globalização financeira, a organização

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Geopolítica da África 77

mundial da produção, a livre circulação das mercadorias, as


migrações e movimentos populacionais, e a instantaneida-
de da informação.40 Ela favoreceu alguns países emergentes,
especialmente do Sul e do Leste da Ásia (abrangendo 2,3
bilhões de pessoas), mas aumentou a marginalização e as
frustrações das periferias africanas, presas no círculo vicio-
so da pobreza.
a áfrica na globalização
É possível utilizar, dentro de certos limites, alguns indi-
cadores de globalização para ver o lugar relativo da África
dentro desse processo. Esses indicadores combinam:

n a integração econômica (trocas de bens e serviços, in-


vestimentos diretos estrangeiros e de carteira, rendi-
mentos depositados e recebidos);
n a integração social — os contatos pessoais (tráfego te-
lefônico, viagens, turismo, transferências, migrações) e
as técnicas (internautas, endereços eletrônicos etc.);
n as integrações políticas (embaixadas, adesão às organi-
zações internacionais). A África subsaariana é relati-
vamente menos globalizada do que o resto do mundo,
especialmente no campo social.

Tabela 2

Indicadores da globalização africana

Indicador global Econômico Político Social


Mundo 2,46 3,31 3,08 1,24
ass 1,51 2,21 2,16 0,40
Fonte: Banco Africano de Desenvolvimento, 2003.

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78 FGV de Bolso

globalização e marginalização comercial


O comércio mundial, do qual aproximadamente dois ter-
ços são realizados pelas firmas multinacionais, diz respeito
cada vez mais aos produtos de alto valor agregado e aos servi-
ços, atualmente incluídos nos acordos da OMC. As vantagens
comparativas dinâmicas estão ligadas à inovação tecnológica,
à mobilidade do capital e à difusão de novos produtos. Os
países africanos participam de uma pequena porção da ca-
deia de valor internacional. Um produtor de café ou de cacau
obtém um vigésimo do valor final do produto vendido nos
mercados dos países industriais.
globalização e marginalização financeira
O capitalismo financeiro mundial, dominado pelo peso
dos acionistas, tende a superar o capitalismo empresarial.
A globalização financeira se caracteriza pela interconexão
dos mercados financeiros, pela proliferação de novos produ-
tos financeiros e pelas crises financeiras. Ela resulta dos 3Ds
(desregulamentação, descompartimentalização dos mercados
financeiros e desintermediação por titularização). O grosso
dos capitais disponíveis para financiar o desenvolvimento
tornou-se privado. Ora, a África tem acesso limitado aos mer-
cados internacionais de capitais, e seus mercados financeiros
são quase inexistentes — à exceção de Joanesburgo —, ape-
sar das bolsas de Gana e da Nigéria e da bolsa regional dos
valores mobiliários em Abidjan. A África é pouco atrativa
para os capitais privados. A ajuda pública para o desenvol-
vimento (APD), apesar de uma recente inflexão, diminuiu
após a queda do muro de Berlim. A África continua presa
na engrenagem de um endividamento permanente. A dívida
africana esteve ligada aos excessos de liquidez dos anos 1970
e à inversão das cotações durante os anos 1980. Em conse-

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Geopolítica da África 79

quência, os países se endividaram para resgatá-la. Em geral,


essa dívida foi contraída pelos poderes corruptos e/ou sem
legitimidade (“dívida odiosa”). Ela tem consequências muito
negativas devido ao peso do serviço da dívida pública e por
estar sob tutela internacional. A relação dívida/PIB é supe-
rior a 60%, e o serviço da dívida ultrapassou 13% em 2002.
O endividamento permanente (US$ 200 bilhões) experimen-
tou uma leve queda graças às medidas PPMEs (países pobres
muito endividados) e à diminuição da dívida multilateral. Es-
sas medidas, que abrangem apenas alguns países, não estão à
altura dos desafios atuais.
internacionalização Da proDução e fraca atrativiDaDe Dos investimentos Diretos
externos (iDes)

Num mundo onde o grosso do comércio internacional, da


pesquisa e desenvolvimento e das inovações está assegura-
do pelos grandes grupos multinacionais, a atratividade dos
países em desenvolvimento tornou-se estratégica. As im-
plantações com fins de exportação requerem uma logística e
um tecido econômico, social e técnico que não se reduzem a
baixos custos salariais e regulamentação estimulante. À ex-
ceção de alguns setores, como o petróleo, ou dos efeitos da
privatização nos setores agroalimentar, de telecomunicações,
água, eletricidade, distribuição e transporte, a África atrai
somente de 1% a 2% dos IDEs mundiais (US$ 10 bilhões a
20 bilhões de um total de US$ 1 trilhão). As taxas de ren-
tabilidade das filiais americanas ou europeias permanecem,
é claro, muito elevadas (na ordem de 28% na África), mas
esses lucros surgem em nichos ou na exploração dos recursos
naturais e se explicam por riscos importantes. Poucas firmas
praticam a subempreitada com fins de exportação, apesar
do surgimento de zonas francas (Maurício ou Madagascar).

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80 FGV de Bolso

Salvo nos grandes mercados, como Nigéria e África do Sul,


as firmas de importação-substituição sofrem os efeitos do re-
traimento da demanda (saída dos expatriados, queda do sa-
lário das classes médias) e da concorrência do contrabando.
Observa-se, no entanto, dentro do contexto da liberalização e
da privatização, uma diversificação dos investidores. A fragi-
lidade dos IDEs resulta de uma série de fatores, como o porte
limitado das economias, a previsão pessimista do crescimento
dos mercados, as deficiências institucionais e das infraestru-
turas físicas e sociais, um tecido econômico e social frouxo,
e sobretudo os riscos reais ou percebidos, seja em termos de
instabilidade política, de volatilidade das políticas econômi-
cas ou de instabilidades internacionais.
informação e comunicação e fratura Digital e científica
A África sofre o êxodo — ou mesmo a devastação — das
competências, de modo que os riscos de fratura cognitiva,
numérica e científica são consideráveis. O ensino, no centro
das relações entre saberes, poderes e haveres, é insuficiente
quantitativa e qualitativamente para permitir que a África
esteja em sintonia com a nova economia do conhecimento e
o capitalismo cognitivo. A hemorragia de quadros eleva-se
a 20 mil por ano e está ligada a fatores push e pull de atrati-
vidade dos cérebros. A fratura científica e técnica conduz à
polarização dos saberes e à descapitalização dos países mais
pobres. No plano internacional, notam-se diferenças crescen-
tes nos sistemas de ensino entre os países africanos presos no
círculo vicioso da pobreza e os países que dispõem de siste-
mas dinâmicos de formação e inovação. O impacto das revo-
luções tecnológicas sobre a África é muito aleatório. Ela pode
se beneficiar dos custos decrescentes (por exemplo, compu-
tadores, internet, telefone celular). As novas tecnologias da

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Geopolítica da África 81

informação e do saber têm impacto sobre os modos de apren-


dizagem, sobre a produtividade e a competitividade das em-
presas (ensino a distância, pela TV ou pelo rádio, ou o projeto
Worldspace, disponibilizando satélites para a transmissão de
programas de rádio digital). Essas revoluções servem às estra-
tégias de penetração das grandes potências, principalmente a
americana. O essencial das redes está concentrado nas capi-
tais e abrangerá apenas uma margem limitada da população.
Um computador mais o equipamento representam de sete a
15 vezes mais o salário anual africano médio. Em 2005, so-
mente 15 países africanos tinham acesso à internet fora da
capital, e quatro deles tinham mais de 10 linhas telefônicas
por mil habitantes.
a inserção numa economia munDial paralela
A África é igualmente um lugar de reciclagem dos capi-
tais, permitindo a lavagem de dinheiro, o financiamento dos
partidos políticos estrangeiros ou os superfaturamentos, fon-
tes de rendimentos privados e públicos. Um novo comércio
triangular instaurou-se entre a África exportadora ilegal de
matérias-primas para países ocidentais, os países do Leste ex-
portadores de armas e mercenários, e os países do Leste e oci-
dentais, estabelecendo entre eles relações financeiras parale-
las.41 O número crescente de Estados com soberania limitada,
sob tutela, sob protetorado ou sob perfusão, bem como dos
Estados em colapso ou enfraquecidos e dos Estados bandidos
ou párias, é resultado sobretudo da inserção numa economia
mundial criminosa. Esta se manifesta pela grande corrupção,
o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro nos locais offshore,
as redes globalizadas da droga, o tráfico de órgãos de seres
humanos e o comércio sexual. Estima-se que o comércio de
droga represente 8% do comércio mundial, com faturamen-

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to de US$ 400 bilhões. O produto bruto mundial do crime é
estimado em US$ 1,2 trilhão, o que corresponde a 15% do
comércio mundial. Essa economia paralela internacional é ao
mesmo tempo uma fonte de rendimentos e um fator de con-
flitos e de decomposição/recomposição dos Estados. O tráfico
de diamantes, as disputas petroleiras e o comércio de entorpe-
centes tornaram-se fontes fundamentais de riqueza (Angola,
Costa do Marfim, países do golfo da Guiné, RDC, Serra Leoa,
Libéria, Guiné, Burkina Faso). O acesso às riquezas minerais
ou petroleiras acarreta a superposição das posições de poder
e das posições de acumulação. As culturas de drogas estão
presentes no Lesoto, na Costa do Marfim e em Gana. Senegal,
Cabo Verde e Moçambique participam do tráfico em trânsito.
A droga alimenta a criminalidade local e a corrupção política
(Nigéria, RDC, África do Sul) ou os conflitos (Libéria, Ser-
ra Leoa, Casamança, Guiné-Bissau, Congo). O contrabando,
a contrafação (Maurício, Nigéria), os “pavilhões de compla-
cência” (Libéria), os paraísos fiscais (Maurício, Seychelles), o
tráfico de madeira (RCA ou RDC) são outras tantas fontes de
economia ilegais.

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Capítulo 3

Problemas e desafios internos

A África se caracteriza por certos problemas geopolíticos


que, mesmo sendo de ordem interna, estão ligados ao meio
internacional, tanto por suas causas quanto por suas conse-
quências, tanto por sua prevenção quanto por sua resolução.
Problemas de paz e segurança
A África é o continente onde o número de vítimas de confli-
tos armados é o mais elevado do mundo. Com seus 13 milhões
de expatriados internos e 3,5 milhões de refugiados, ela supera
em muito a Ásia, cuja população é cinco vezes mais numerosa.
Os conflitos são multiformes e diferem segundo a intensidade, a
duração e a extensão territorial. Podemos citar as guerras civis
das insurreições, os conflitos armados da violência criminal, os
conflitos intra-armados do terrorismo. Os principais conflitos
armados podem ser definidos “como incompatibilidades entre
governos e/ou territórios nas quais há o uso de forças armadas,
sendo pelo menos uma das partes o governo de um Estado,
e que provocam, pelo menos, mil mortos por ano” (União de
Congoleses para a Defesa da Pátria e do Povo).

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84 FGV de Bolso

A questão é saber qual a novidade dessas formas de violência


armada. Os conflitos armados pré-coloniais e coloniais remetem
às conquistas, sequestros e saques de escravos. As guerras das
independências estão ligadas aos movimentos de liberação na-
cional e à Guerra Fria (Biafra, Eritreia, Etiópia, Somália, Angola
e Moçambique). Os conflitos internos (guerras civis, rebelião)
se distinguem tradicionalmente dos conflitos externos (guerras
internacionais). Essa distinção perdeu muito de sua pertinência
s
desde a queda do muro de Berlim (Kaldor, 1999). Nos países
africanos, os conflitos armados internos se articulam com redes g

regionais e internacionais. Não podem ser tratados, tal como


supõem as teorias realistas, em termos de Estados-nações visan-
do objetivos de soberania. Nota-se uma mudança de escala e de L
intensidade.42 Os conflitos do período da Guerra Fria, caracteri-
zados por oposições ideológicas e apoio dos grandes blocos, são
substituídos por guerrilhas multiformes intra-africanas, com a
retirada parcial das grandes potências.43
Outra questão é saber o papel que desempenham os fato-
res econômicos ao lado de outros fatores. Os países africanos
representam 7% das despesas militares mundiais (US$ 7,1 T
bilhões contra US$ 975 bilhões no total), para um quarto dos
principais conflitos (cinco entre 19). Explicando-se ampla-
mente pela exclusão e pela pobreza, esses conflitos são, por
sua vez, fatores de insegurança e de subdesenvolvimento,
traduzindo a existência de círculos viciosos da pobreza. Se-
gundo certos autores, aos conflitos ideológicos das antigas
guerras baseadas em reivindicações, seguiram-se conflitos
mais predadores e captadores de rendas, com uma dimensão
identitária.44 Essa tese sobre a novidade dos conflitos arma-
dos e o papel dos fatores econômicos é controversa. Ela come-
teria o equívoco de agregar conflitos de naturezas diferentes
e, ao mesmo tempo, de pensar em ruptura, embora haja con-
tinuidade histórica.

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Geopolítica da África 85

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ocidEntal Egito
Mar
líbia
Vermelho Trópico de Câncer

ERitREia
MauRitânia
sudão
sEnEgal dJibuti
nígER chadE
Mali
gâMbia

guiné nigéRia

Etiópia
sERRa lEoa

libéRia
costa do soMália
MaRfiM Ruanda
Linha do Equador congo
buRundi Quênia

REpública
dEMocRática do
congo
Oceano
tanzânia
Índico
coMoREs
Oceano Atlântico angola

zâMbia

MadagascaR
ilhas
MoÇaMbiQuE MauRício
naMíbia
Trópico de Capricórnio
botsuana

áfRica do sul
2 000 km
0o

Principais conflitos dos anos 1990


até meados dos anos 2000
conflito territorial
guerra civil subnutrição crônica
outro tipo de conflito (menos de 2.300 calorias diárias
por habitante — 1995-97)

forças de manutenção de paz das nações


unidas principais zonas de escassez

zonas de concentração de pessoas principais zonas de fome


refugiadas ou expatriadas nos anos 1990 dos últimos 30 anos

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86 FGV de Bolso

Os conflitos armados em relação à economia política


É ilusório crer que a economia reduz a violência e que o
comércio livre garante a paz. A pax oeconomica foi britânica
ou americana. Se nem todas as guerras têm motivação econô-
mica, todas têm necessidade de financiamento. Pode-se fazer
distinção entre as economias de guerras fechadas, financia-
das por recursos locais, e as economias de guerras abertas e
de guerrilhas, que se beneficiam de financiamentos externos,
assim como de “santuários” políticos, militares e humanitá-
rios.45 Geralmente, há uma mistura. Assim, a União Nacional
para a Independência Total de Angola (Unita) teve apoio mi-
litar da Namíbia, beneficiando-se do santuário humanitário e
do financiamento pelo diamante ou mesmo pelo petróleo.
A guerra (e a paz) tem custos e vantagens. Podemos su-
por que os conflitos resultam de comportamentos economi-
camente racionais por parte de agentes representativos num
contexto institucionalmente deficiente.46 Os principais resul-
tados dos testes empíricos realizados a partir de estatísticas
normalizadas mostram que o risco de haver guerra num país
que reúne condições mais favoráveis (renda per capita ele-
vada, recursos naturais em quantidade suficiente, forte frag-
mentação étnica e população reduzida) é de 1 em 1 milhão,
ao passo que outro com condições mais desfavoráveis (renda
baixa, recursos naturais relativamente escassos, sociedade bi-
polarizada e população numerosa) tem 99% de probabilidade
de enfrentar uma guerra civil.
As economias africanas continuam dominadas pelas lógi-
cas rentistas. O enriquecimento resulta mais da captação de
riquezas do que da criação delas. Os fatores principais das
guerras africanas são as riquezas naturais, que permitem o
financiamento dos conflitos (“o nervo da guerra”). Podemos
citar as guerras ligadas aos rendimentos petroleiros (Angola,

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Geopolítica da África 87

Congo, República Centro-Africana, Sudão), ao diamante (An-


gola, Libéria, Serra Leoa, RDC), aos metais preciosos (ouro,
coltan em Bunia, na RDC), aos narcodólares, às questões agrá-
rias (Burundi, Costa do Marfim, Darfur, Ruanda) e ao contro-
le da água (ribeirinhos do Nilo) ou dos recursos florestais.
Esses conflitos se inserem num contexto de fragilidade dos
Estados e raramente são interestatais (o conflito entre a Etió-
pia e a Eritreia é uma exceção); ou eles opõem regiões (Norte
e Sul, na Costa do Marfim, em Uganda, no Sudão) ou caracte-
rizam sociedades decompostas ou implodidas (RDC, Libéria,
Serra Leoa, Somália). A vitória pode não ser desejável para
dividir as rendas. A guerra possibilita legitimar ações que
seriam consideradas crimes em tempo de paz. As vantagens
econômicas esperadas da guerra civil são a pilhagem, a pro-
teção mediante remuneração, os lucros ligados ao comércio
de armas, alimentos ou narcodólares, a exploração da mão de
obra (captação de escravos), o controle das terras, o desvio da
ajuda estrangeira ou as vantagens dos combatentes que tiram
proveito da situação. Esses conflitos de captação de rendas
não se limitam apenas aos rebeldes predadores, podendo ad-
vir dos desperdícios por parte de governos ilegítimos ou de
oligopólios privados internacionais. As guerrilhas, os rebel-
des ou os soldados vivem de apoios externos, da predação das
produções ou da ajuda externa, ou da captação dos recursos
naturais.
Os conflitos mobilizam uma pluralidade de atores priva-
dos e públicos, militares e civis; não se limitam aos governan-
tes e rebeldes, donde a sobreposição (straddling) dos interes-
ses econômicos, seja das empresas e das redes que controlam
as rendas de maneira oficial ou não, seja das forças políticas
e militares, oficiais ou paralelas. Para manterem suas posições
de renda diante dos concorrentes, as firmas petroleiras ou mi-

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88 FGV de Bolso

neradoras adotam estratégias de financiamento dos poderes


locais ou de rebeldes que possam tomar o poder. Elas buscam
diversificar os riscos e dão certa probabilidade subjetiva à
sustentação do governo e dos rebeldes. Essa política de atuar
em duas frentes ao mesmo tempo explica o apoio da Elf a San-
tos e a Savimbi em Angola ou a Sassou Nguesso e a Lissouba
no Congo.
Assim, vimos desenvolverem-se na RDC novas configura-
ções conglomeradas correspondendo a práticas desleais dian-
te das antigas regras instituídas pelos grandes oligopólios.
Esses novos conglomerados resultam de joint-ventures entre
sociedades ligadas aos exércitos ugandenses ou zimbabuen-
ses, e interesses israelenses.47 A economia de pilhagem é ga-
rantida por um consórcio de homens de negócios, mercená-
rios, vendedores de armas e de companhias de seguro, diante
da fragilidade dos Estados. Observa-se igualmente em torno
da droga um extenso circuito mafioso, fonte de violência.
A sobreposição de fatores e as armadilhas dos conflitos
Os conflitos resultam de uma sobreposição de fatores,
tendo cada qual sua própria temporalidade. Eles reatualizam
conflitos seculares não resolvidos e instrumentalizados pelos
poderes (população arábico-berbere contra a negro-africana,
islã versus animismo e cristianismo, pastores nômades versus
agricultores sedentários, saqueadores versus saqueados, redes
de comerciantes islamizados versus crioulos ou nativos), ori-
ginando crises econômicas, sociais, ambientais ou políticas.
Eles são intranacionais e têm ao mesmo tempo uma dimensão
regional por intermédio dos Estados ou das milícias escoadas
dos países vizinhos. Resultam de uma crise identitária dentro
de contextos de decomposição institucional e fragmentação
territorial. A análise fatorial precedente, visando decompor

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Geopolítica da África 89

analiticamente e hierarquizar os fatores explicativos, não


pode integrar as sobreposições e as interações conducentes a
processos não regulados. A causa inicial pode ser menor, mas,
uma vez desencadeados, os conflitos violentos podem se tor-
nar incontornáveis. A violência gera a pobreza, a exclusão e
a ausência de instituições, fatores que por si mesmos nutrem
os conflitos.
Obviamente, os fatores culturais e civilizacionais têm seu
papel na África. Segundo a tese sociobiologista de Kaplan,
eles possibilitariam ver os novos conflitos em termos de pres-
sões demográficas diante de fatores singulares. As guerras são
mais prováveis quando se assimilam o religioso e o político,
o absoluto e o relativo, o infinito e o finito. O fundamenta-
lismo religioso substituiu amplamente os nacionalismos ou
os socialismos como projeto de sociedades. A África é, to-
davia, pouco afetada por esses conflitos intercivilizacionais,
ainda que as violências internas no Sudão ou entre a Eritreia
e a Etiópia possam ser consideradas, em parte, conflitos en-
tre cristãos e muçulmanos. Existem, em compensação, redes
islâmicas mais ou menos ligadas à nebulosa Al-Qaeda, im-
plantadas no Chifre da África (Sudão, Somália, Saara). O Islã
negro se aproveita do adubo da pobreza, da exclusão e das
frustrações.48 Por ocasião das crises, os referentes étnicos ou
religiosos tornam-se dominantes, contanto que se apresentem
como os principais referentes da retórica política e que a com-
plexidade das situações seja reduzida à questão das identida-
des ou ao combate entre as forças do bem e do mal. Assim,
na Costa do Marfim, como em muitas sociedades africanas,
os movimentos pentecostais que atestam a confusão entre a
moral, o religioso e o político enfrentam a escalada das ins-
trumentalizações do religioso por parte dos imames do Norte
da Costa do Marfim.

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90 FGV de Bolso

Os fatores políticos são evidentemente essenciais, seja em


termos do déficit de legitimidade dos poderes locais, da ex-
tinção dos compromissos sociopolíticos, das disputas entre
chefes pelo acesso ao poder, da decomposição das cidadanias,
do desejo de novas configurações territoriais ou da exclu-
são da cidadania. Os conflitos se fazem ainda mais presentes
quando os sistemas de monopolização das riquezas pelos ti-
tulares do poder não dão lugar à redistribuição, ao controle
e à sanção. A guerra pode ter assim uma finalidade política:
chegar ao poder pela força. Ela toma uma forma étnica na
medida em que a etnicidade se tornou um embate de poder.
A desigualdade de acesso aos cargos de responsabilidade e a
competição pelo poder e o controle dos recursos criam ten-
sões entre os grupos com bases identitárias (etnia ou religião).
As diásporas, os conglomerados ou os poderes regionais se
apoiam nessas facções. Vários Estados não mais controlam os
territórios, nem o respeito às leis e às regras, através do mo-
nópolio da violência legitimada.
Os fatores propriamente militares são numerosos. Os con-
flitos armados estão mais ligados à insuficiência das despesas
militares governamentais do que à sua importância. Somente
a guerra entre a Etiópia e a Eritreia apresenta característi-
cas de uma guerra convencional interestatal. A África, que
em 1985 contava 10% das importações oficiais de armas, em
1995 representava menos de 2%. As despesas militares da
África haviam caído de US$ 10 bilhões em 1985 para US$
8,1 bilhões em 1995, ou seja, de 3,5% para 2,8% do PIB,
devido ao fim da Guerra Fria, à redução dos conflitos e aos
ajustes orçamentários. Elas passaram de US$ 5,5 bilhões em
1995 para US$ 7,1 bilhões em 2004. Cinco países representam
quase três quartos dessas despesas: a África do Sul (US$ 2,65
bilhões, ou 1,6% do PIB), Angola (US$ 1,32 bilhão, ou 4,7%

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Geopolítica da África 91

do PIB), Nigéria (US$ 0,52 bilhão, ou 1,2% do PIB), Etiópia


(US$ 0,34 bilhão, ou 4,3% do PIB) e a Eritreia (US$ 0,15 bi-
lhão, ou 19,4% do PIB).49
As guerras ficaram ainda mais fáceis com o desenvol-
vimento do tráfico de armas leves: reciclagem, venda dos
excedentes dos países do Leste europeu. Estima-se em 100
milhões o número de armas circulando pela África. Os vende-
dores de armas estão ligados aos circuitos mafiosos de narco-
dólares, diamantes, petróleo ou lavagem de dinheiro. O custo
das armas caiu consideravelmente. Em certos países africa-
nos, um AK-47 (Kalachnikov) custa menos de US$ 10. Merce-
nários, milícias e crianças-soldados desempenham um papel
crescente nas guerras africanas. A interrupção de conflitos
dentro de um espaço acarreta geralmente um deslocamento
da conflituosidade para um espaço vizinho (caso da Libéria
e de Serra Leoa para a Costa do Marfim, do deslocamento
dos hutus ruandeses para a RDC e o Congo, ou das milícias
Djandjawid do Sul para o Oeste do Sudão). As crianças em
situação precária encontram nos recrutamentos mais ou me-
nos forçados meios de sobrevivência e são ressocializadas
pela violência. O baixo custo de oportunidade das atividades
militares, especialmente para as crianças-soldados, resulta
do desemprego, da dessocialização e da desescolarização dos
jovens. Os exércitos regulares e as forças de manutenção da
ordem frequentemente estão desamparados. Enquanto os sol-
reb (soldados durante o dia, rebeldes à noite) se multiplicam,
o mercenarismo, as clivagens clânicas e até mesmo as milícias
privadas traduzem a decomposição dos exércitos nacionais e
mobilizam as crianças-soldados. Aqui também as configura-
ções diferem segundo os países.
Os fatores geopolíticos pesam. Após o fim da Guerra Fria,
as potências hegemônicas em boa medida se desengajaram

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92 FGV de Bolso

da África, mas uma inflexão recente acarretou as interven-


ções da Grã-Bretanha em Serra Leoa, da França na Costa do
Marfim (Operação Unicórnio) e da União Europeia na RDC
(Operação Artemis), bem como a intensificação da presença
dos Estados Unidos (base militar de Djibuti, forças no Sahel e
no Saara). O fim da Guerra Fria e da bipolaridade se traduziu
em dinâmicas de fracionamento e de fragmentação territo-
rial. Os dividendos da paz não contribuíram para a redução
dos fatores de guerra. Existem novos interesses hegemônicos
ligados ao petróleo e à luta contra o terrorismo. Muitos con-
flitos africanos estão ligados ao mesmo tempo à fragmentação
do espaço nacional não controlado por um Estado forte e às
redes transnacionais (diásporas, conglomerados, potências
regionais etc.), com jogos de aliança ou de submissão impe-
dindo que se estabeleça uma oposição entre o território na-
cional e o sistema internacional. Assim, em 2005, o Zimbábue
andou envolvido na guerra da RDC para se opor à liderança
da África do Sul. Burkina Faso esteve presente na Costa do
Marfim mancomunado com Charles Taylor da Libéria. Cer-
tos conflitos estão relacionados com o controle de territórios
(caso do acesso ao mar para a Etiópia na Eritreia). No Chade,
os Zaghawa, no poder em 2006, se viram ameaçados por re-
beldes vindos do Sudão, enquanto o conflito de Darfur le-
vou numerosos refugiados para o Chade. Este país e o Sudão
opõem a China e os Estados Unidos em seus apoios políticos
em função de interesses petroleiros, enquanto a França pro-
cura conservar suas posições para defender a francofonia,
para manter o equilíbrio entre o mundo arábico-muçulmano
e o mundo negro-animista e cristão, e para evitar o efeito do-
minó nas regiões. Os conflitos do Sudão, da Etiópia, da Eri-
treia e de Angola estavam fortemente ligados ao fornecimento
de armas pela China, valendo-se de seu papel no Conselho de

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Geopolítica da África 93

Segurança e permitindo a certos países contornar as sanções


da comunidade internacional. Na Somália, país em secessão
de fato, após mais de 15 anos de guerra com 400 mil vítimas,
os islamistas, apoiados pela Eritreia e com uma fração ligada à
Al Qaeda, se opuseram aos senhores da guerra apoiados pelos
Estados Unidos e pela Etiópia. Em junho de 2006, eles tinham
tomado o poder em Mogadíscio.
Assim, as zonas de conflitos armados na África resultam
ao mesmo tempo da ressurgência dos referentes identitários
étnicos, religiosos ou nacionalistas, da falência do Estado de
Direito, das soberanias ao desamparo, da imiscuição das po-
tências regionais e internacionais, e do crescente poder das
organizações criminosas internacionais.
Prevenção e resolução dos conflitos africanos
Os mecanismos para a prevenção dos conflitos e a manu-
tenção da paz são múltiplos e guardam relação com vários
atores internacionais, regionais e nacionais. Os meios diplo-
máticos vão da negociação (mediação) às sanções (embargo,
sanção contra os responsáveis). A diplomacia, que exige tem-
po, habilidade e credibilidade, não elimina as causas profun-
das dos conflitos, mas pode preveni-los e atenuar suas con-
sequências. Os meios são igualmente militares, pela simples
presença de forças armadas e pelas intervenções locais ou
regionais; políticos, pelo respeito aos acordos firmados e pela
introdução de reformas que atinjam as raízes da conflituo-
sidade; financeiros, compensando as perdas daqueles que se
desarmam e precisam encontrar emprego; humanitários, com
as ações de urgência; jurídicos, embora o direito humanitário
dos conflitos armados e as numerosas convenções internacio-
nais estejam relativamente despreparados diante dos novos
conflitos e guerrilhas multiformes. Essas ações só serão viá-

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94 FGV de Bolso

veis se forem combatidas as causas estruturais e os fatores


mais profundos, como pobreza, exclusão, desigualdades re-
gionais, desrespeito às regras democráticas, não transparên-
cia dos circuitos econômico-políticos ou inserção numa eco-
nomia mundial criminosa.
A reconciliação tornou-se um meio de superar as situa-
ções de extrema violência.50 O papel de mediador e fiador do
respeito ao contrato social deve ser igualmente assegurado,
diante dos Estados enfraquecidos, pelas organizações inter-
nacionais ou regionais e mesmo as potências estrangeiras.
Mas essas ações só podem ser legitimadas se, paralelamente,
a globalização liberal e a desordem econômica mundial forem
reguladas e se os circuitos mafiosos internacionais, os offshore
financeiros, o tráfico de armas e as ligações entre corruptores
e corruptos forem controlados pelas potências do Norte (por
exemplo, o acordo de Kimberley para determinar a origem
dos diamantes da guerra).
As Nações Unidas estão presentes (mais de 45 mil solda-
dos para uma despesa de US$ 2,5 bilhões em 2004, sem contar
os civis). Uma pluralidade de atores e de organismos africa-
nos age na prevenção e na gestão dos conflitos africanos. A
União Africana (UA), ao contrário da Organização da Unidade
Africana (OUA) — respeitadora da soberania dos Estados —,
intervém de maneira crescente no Burundi e no Darfur. A
Cedeao, com seu grupo de monitoração do cessar-fogo (Eco-
mog), obteve resultados significativos na Libéria. No entanto,
ela esteve menos presente nos conflitos ocidentais africanos
que desuniram seus membros. A SADC interveio na RDC, e a
África do Sul, membro dessa organização desde 1994, desem-
penha um papel diplomático cada vez menos discreto.
As potências militares ocidentais estão mais presentes. A
França, cujas forças militares tinham caído de 8 mil soldados

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Geopolítica da África 95

em 1985 para 6 mil em 2001, viu crescer sua participação com


a Operação Unicórnio na Costa do Marfim, com seu papel de
fornecedora de quadros em Ituri (Operação Artemis) e com sua
ação de Reforço das Capacidades Africanas de Manutenção da
Paz (Recamp), a qual está se europeizando. O Reino Unido, que
dispõe de um fundo para a prevenção de conflitos, pretende
por sua vez conter a extensão dos mesmos no interior e em
torno de Serra Leoa, na região dos Grandes Lagos, no Sudão
e em Angola, e vem mostrando uma estratégia bastante coe-
rente (ajuda intensa, diálogo personalizado). Seu British Mili-
tary Advisory and Training Team (BMATT) é o equivalente
do Recamp francês. Aliás, o país apoiou o Ecomog na Libéria
e em Serra Leoa. Já os Estados Unidos implantaram, desde o
Onze de Setembro de 2001, a Iniciativa Pan-Saheliana, com o
Pentágono fornecendo consultoria, assistência e formação aos
Estados. Além disso, o país dispõe de bases militares em Dji-
buti e Diego Gracia. A UE quer reforçar a integração regional
e sub-regional e desenvolver as capacidades internas dos Esta-
dos. Essa intervenção é a primeira operação autônoma da UE,
independentemente da Organização do Tratado do Atlântico
Norte (Otan). As Nações Unidas estão presentes principalmen-
te através da Monuc (missão da ONU na RDC).
As ações prioritárias pós-conflitos dizem respeito ao desar-
mamento, desmobilização e reinserção (DDR) das forças e das
milícias, à reconstrução da administração civil, à recuperação
de urgência e ao restabelecimento do Estado de Direito. Essas
ações podem ser levadas a cabo pelos militares juntamente
com as organizações humanitárias. Mas elas se propõem tam-
bém agir prioritariamente sobre as causas profundas dos con-
flitos, em especial o controle dos recursos naturais (nervo da
guerra) e as iniciativas de transparência das indústrias extra-
tivas preconizada pela Comissão para a África (2005).

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96 FGV de Bolso

Desafios do desenvolvimento sustentável


Desenvolvimento sustentável é aquele “que permite sa-
tisfazer as necessidades do presente sem comprometer a ca-
pacidade das gerações futuras de satisfazer suas próprias
necessidades”51 ou “que dê às gerações futuras oportuni-
dades iguais às que tivemos ou até maiores”. Ele tem uma
dimensão econômica, social, ambiental e demográfica. Pres-
supõe escolhas entre as prioridades de curto prazo de sobre-
vivência e a salvaguarda a longo prazo da bioesfera.
Problemas demopolíticos
Riqueza e poder provêm apenas dos homens
(Montchrestien, 1615).

A África é fundamentalmente um continente em processo


de povoamento e mudança no modo de ocupação de seu terri-
tório. Do ponto de vista histórico, ela está em fase de recupe-
ração demográfica, readquirindo a importância mundial que
teve antes do período do tráfico (12%).
Desafios demográficos
A África, após ter estagnado demograficamente até a II
Guerra Mundial, é o continente do mundo com maior cres-
cimento demográfico. A população quadruplicou desde
1950, passando de 175 milhões para mais de 700 milhões,
e deve atingir 1,2 bilhão em 2030. Todavia, continua mal
povoada. A repartição da população é muito desigual. A
densidade média é de 30 hectares por km2, mas ela é de 10 a
100 vezes superior em relação às terras cultiváveis. Podemos
falar de uma “diagonal do vazio”,52 com subpovoamento,
subadministração e isolamento. A ocupação do solo não está
correlacionada com as imposições físicas (clima, vegetação,

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Geopolítica da África 97

qualidade dos solos etc.), mas com a necessidade de prote-


ção contra as doenças ou as guerras. O tráfico escravagista
evidentemente teve seu papel, mas as regiões costeiras mais
afetadas também densificaram-se consideravelmente (por
exemplo, a Nigéria).
O sistema familial caracteriza-se por uma elevada fecundi-
dade. É comum a prática de confiar as crianças aos cuidados
de outras pessoas, havendo igualmente uma alta percentagem
de orfãos (12%, dos quais um terço em razão do vírus da
Aids). A célula familiar desempenha um papel central de re-
produção, de assistência aos pré- e pós-produtivos, na falta
de um sistema de aposentadoria e de previdência social ofi-
cial. A maioria dos países africanos teve uma transição demo-
gráfica tardia. A queda do índice sintético de fecundidade
(5,5 em 2005) ocorreu há apenas 10 anos, em período de crise.
Todavia, os métodos contraceptivos são pouco utilizados e
enfrentam resistência das autoridades religiosas. Muitos se
perguntam se há individualização ou solidariedade em perío-
do de dificuldades, solidariedade de crise ou crise da solida-
riedade.
A mortalidade materna e infantojuvenil, que regredira
bastante após a II Guerra Mundial, vem aumentando nos úl-
timos 10 anos em razão principalmente da guerra (por exem-
plo, o genocídio ruandês e o vírus da Aids). A mortalidade
em período de crise fez a expectativa de vida diminuir em 15
anos na África austral.
Os efeitos demográficos sobre a economia, o sistema social
ou o meio ambiente só se tornam presentes quando midiatiza-
dos pelas instituições e pelas estratégias dos atores. Existem
situações malthusianas em que a pressão demográfica cria
fortes tensões (caso de Burundi, de Ruanda), mas também si-
tuações de pressões produtoras ligadas a uma forte densidade
(caso dos planaltos quenianos ou bamileques no Camarões).

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98 FGV de Bolso

As experiências passadas mostram que, de modo geral, as


agriculturas alimentares africanas e os circuitos de abasteci-
mento responderam ao desafio demográfico. O sistema agrí-
cola comercializado pelos camponeses aumentou como coefi-
ciente população não agrícola/população agrícola. A conexão
com o mercado se fez progressivamente pelos comestíveis co-
mercializados, que tiveram participação crescente na porção
do PIB comercial no PIB agrícola, em detrimento das culturas
de exportação e dos comestíveis de autoconsumo. Em geral, a
evolução da densidade do povoamento rural seguiu o desen-
volvimento dos mercados urbanos.
Essa explosão demográfica gerou pressões produtoras e
destruidoras (sobretudo nos ecossistemas), mas também cus-
tos elevados, levando em conta o ritmo dos investimentos
demográficos necessários e uma pirâmide com base muito
larga. A meta de educação para 2015 implica que os esco-
larizados passem de 65 milhões para 140 milhões. Mais da
metade da população tem menos de 15 anos. Ora, as institui-
ções integrantes, como a família, a escola, o emprego, estão
sendo questionadas, e o futuro parece muitas vezes obstruí-
do. A juventude da população modifica muito rapidamente
os referentes políticos. Mugabe e Gbagbo se transformaram
em heróis que suplantam Mandela, Nyerere ou Nkrumah, lí-
deres das independências, completamente desconhecidos das
novas gerações. As aspirações dos jovens são a formação, o
emprego e os modelos importados.
a migração e a metropolização
A mobilidade da população é uma constante na história
africana, estando ligada principalmente à resiliência dian-
te das instabilidades e dos choques externos. Ela está no
cerne da adaptação às mudanças. As principais migrações

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Geopolítica da África 99

contemporâneas vão das regiões sahelianas para os países


costeiros, dos países da África austral para a África do Sul.
Elas pressupõem terras disponíveis e acessíveis, e direitos
concedidos aos migrantes. A mobilidade é igualmente for-
çada, com o número de expatriados e refugiados chegando
a mais de 16 milhões.
A migração se insere no processo acelerado de urbaniza-
ção. Entre 1930 e 2030, o meio urbano terá absorvido 70%
do crescimento demográfico. A concentração das popula-
ções deve se fazer acompanhar de equipamentos condizentes
(água, saneamento, transporte etc.), adaptados às necessida-
des, e de um financiamento capaz de permitir que a cidade
seja o motor do desenvolvimento, e não o vetor de novas for-
mas de pobreza, levando à delinquência, à insegurança e à
poluição. As principais dinâmicas virão da economia popular
urbana.
A cidade tornou-se o lugar simbólico da modernidade. As
cidades africanas são cada vez menos filhas do Estado. Existe,
na cidade, uma ruptura com os valores impostos (casamento
forçado, excisão, poligamia), mas também o risco de desin-
tegração. A urbanização desempenha um papel ambivalente
em termos de mimetismo, mas também de criação de merca-
dos conducentes à valorização dos produtos agrícolas, prin-
cipalmente das zonas periféricas das cidades (horticultura).
Observa-se, geralmente, um deslocamento do valor agregado
das zonas rurais para as zonas urbanas nas cadeias agroali-
mentares (transformação, armazenamento, distribuição, pre-
paro de refeições etc.). O essencial do informal urbano diz
respeito a essa área. É preciso ainda distinguir as cidades ren-
tistas e/ou extrovertidas das cidades que exercem efeitos po-
tencializadores sobre as dinâmicas agrícolas e agroindustriais.
Ao contexto da criatividade e engenhosidade das economias

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100 FGV de Bolso

populares urbanas se opõe o da desintegração do vínculo so-


cial, da violência, do desvio e até mesmo da delinquência. As
working class não raro se transformam, com a redução do em-
prego, em under class, e “os camponeses sem eira nem beira,
em vagabundos sem fé nem lei”.53 As grandes cidades, como
Lagos (12 milhões de habitantes), Joanesburgo (8 milhões),
Kinshasa (6 milhões) e Nairóbi (4 milhões) não têm controle
sobre os problemas ambientais, sociais e de segurança.
Numa representação dualista, costuma-se opor as cidades
aos campos, os centros urbanos, universo da ordem, às perife-
rias urbanas, lugares de exclusão, pobreza ou mesmo crimina-
lidade e perversão. Na realidade, há apenas permeabilidades
entre as fronteiras, hibridismos, inovações sociais. Os limites
entre a cidade e o campo são transgredidos por redes de duplo
pertencimento. O que é periférico de um ponto de vista domi-
nante torna-se centro ou norma num outro enfoque.
pressões migratórias e migrações internacionais
A maior parte das migrações africanas forçadas ou vo-
luntárias (16 milhões) é interna e substitui as migrações in-
ternacionais. Estas estão menos ligadas às pressões demográ-
ficas ou à pobreza do que à existência de redes migratórias
estruturadas no passado. Assim, o vale do médio Senegal
foi uma área de saída para a Europa. Observam-se, no en-
tanto, importantes mudanças resultantes de uma parte dos
limites da migração regional africana e de novas áreas de
saída (por exemplo, os Grandes Lagos). Os principais países
de emigração da África ocidental são Cabo Verde, Senegal,
Mali e Burkina Faso, em direção à Costa do Marfim, Gana,
Gabão e Europa; na África oriental, Etiópia e Sudão, em di-
reção à Europa e aos Estados do Golfo; e na África central e
austral, RDC, Malaui, Botsuana e Moçambique, em direção

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Geopolítica da África 101

à África do Sul. Na França, 18% dos fluxos migratórios vêm


da África subsaariana. A emigração proveniente do Sahel é
de origem rural; a proveniente da África costeira e central
é mais urbana, qualificada e menos redistributiva. As redes
migratórias acarretam transferências importantes nas áreas
de saída e um fluxo autossustentado. As remessas de fundos
de migrantes chegam ao dobro do montante da ajuda. Nas
zonas de caos, porém, observam-se migrações forçadas (por
exemplo, a zona dos Grandes Lagos) cujo caráter reticular é
limitado. A emigração cresce entre os diplomados. Os afri-
canos representam 7% da migração qualificada no seio da
OCDE. Vale lembrar que a renda dos 200 mil africanos que
vivem nos Estados Unidos é estimada em US$ 750 bilhões,
quase o dobro do PIB da ASS.
Os desequilíbrios demográficos entre a África e a Europa
em termos de ritmo de crescimento ou de estrutura por idade,
ligados às crescentes diferenças de renda, conduzem forçosa-
mente a uma forte pressão migratória para os países indus-
triais tidos como Eldorados. A migração mudou de natureza
na Europa, com o reagrupamento familiar e a migração clan-
destina. A regulamentação através de políticas de cooperação
ou de codesenvolvimento é o principal desafio estratégico.
Desafios do desenvolvimento econômico e social
O desenvolvimento econômico difere do crescimento me-
dido pela soma dos valores agregados. Ele requer ganhos de
produtividade distribuídos equitativamente e forças capazes
de interiorizar esse processo. E remete a abordagens plurais
que se afastam do mimetismo ocidental.
Oito objetivos foram fixados para o milênio para o desen-
volvimento em 2015: reduzir a extrema pobreza e a fome; as-
segurar a educação primária universal; promover a igualdade

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102 FGV de Bolso

dos sexos; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde


materna; combater o vírus da Aids, a malária e outras doen-
ças; garantir a sustentabilidade ambiental; e criar uma par-
ceria para o desenvolvimento. Os desempenhos econômicos
estão muito aquém desses objetivos. Várias medidas de ajuda
e de redução da dívida visam tornar os resultados observados
mais próximos de tais metas.
A representação que se faz da pobreza africana é parado-
xal. Por um lado, ela atinge a metade da população do con-
tinente; por outro, a África caracteriza-se por mecanismos
redistributivos que funcionam mesmo quando alguns são ex-
cluídos das redes comunitárias e das redistribuições estatais.
A pobreza, multidimensional e não redutível à renda, pode
ser vista como uma diminuição dos direitos ligados à exclu-
são do mercado, dos bens públicos e dos vínculos sociais.54 A
vulnerabilidade diante dos choques e a precariedade ligada
aos riscos são mais importantes do que a questão da pobre-
za. O modelo urbano se esgota, em função da expectativa de
ganhos que ele suscita e dos modos de gestão da cidade que
ele implica. O modelo de ensino está em crise, uma vez que
os diplomados não têm mais esperança de obter um emprego
assalariado. O informal garante a curto prazo a administração
dessa crise.55 A liberalização econômica acarreta uma defasa-
gem crescente entre a aspiração de um modelo de consumo e
a exclusão da maioria.
O papel determinante da formação e da educação no pro-
cesso de desenvolvimento é objeto de um consenso que pa-
rece reforçado na nova economia da informação e do conhe-
cimento e do capitalismo cognitivo. Poucas áreas apresentam
questões tão conflitantes em termos de valores e conhecimen-
tos transmitidos, de tensões entre o universalismo e o parti-
cularismo, de acesso diferenciado à escola segundo as cate-

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Geopolítica da África 103

gorias sociais ou os gêneros. Mais de 40 milhões de crianças


não são escolarizadas, havendo grandes desigualdades entre
meninos e meninas (9%). A educação para todos surge como
uma miragem que se afasta à medida que julgamos nos apro-
ximar dela.
Os desafios sanitários são enormes. A África não dispõe
de um sistema de saúde pública e privada que propicie a pre-
venção e o tratamento das doenças. A saúde é um desafio
estratégico que diz respeito aos atores públicos nacionais, à
classe médica, às ONGs, às empresas farmacêuticas e à ajuda
internacional. O sistema sanitário centralizado de assistência
pública cede lugar aos cuidados primários de saúde e a uma
contribuição familiar que não estão à altura dos problemas.
O vírus da Aids tornou-se o segundo fator de mortalidade
depois da malária e vitima 10 vezes mais do que a guerra. A
África tem mais de 25 milhões de soropositivos. A África aus-
tral é particularmente atingida. A Aids tem consequências
econômicas (descapitalizando as elites e acarretando custos
insuportáveis), demográficas (diminuição da expectativa de
vida e estagnação nos países mais atingidos) e sociais (a come-
çar pelos 4 milhões de orfãos).56
Problemas ambientais
As questões ambientais ganharam relevo crescente com a
desertificação, o desmatamento, a redução da biodiversidade,
a poluição urbana e a degradação dos solos. Num contexto de
pobreza, os atores vulneráveis têm pouca resiliência para en-
frentar as catástofres naturais. Dá-se prioridade à sobrevivên-
cia e ao curto prazo, em detrimento da gestão dos patrimônios
numa perspectiva intergeracional. As regulações anteriores
dos ecossistemas são contestadas pela rapidez das mudanças.
O biótopo está num mundo onde a vida se mantém em frágeis

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104 FGV de Bolso

equilíbrios (um ponto de água, alguns arbustos no Sahel). Há


interdependência, nos ecossistemas, entre o desmatamento,
as mudanças climáticas, as necessidades energéticas, o acesso
à água e a diminuição da biodiversidade. A gestão dos riscos
ambientais, tradicionalmente integrada nas estratégias patri-
moniais, é questionada devido às pressões demográficas, às
evoluções técnicas, às modificações das regras institucionais,
ao desenvolvimento de valores comerciais ou às políticas tec-
nocráticas. Não raro, a competição desenfreada pelos recur-
sos não renováveis (minas, pesca) levam a uma “tragédia dos
bens livres”, denominados “bens comuns” por Hardin.
problemas climáticos
A seca e a desertificação ameaçam 490 milhões de africa-
nos numa população de 780 milhões em 2005. Ora, na fal-
ta de estratégias proativas, esses números correm o risco de
aumentar nos próximos 20 anos (Bied-Charreton). A África
sofre as mudanças climáticas e seus efeitos em termos de secas
(zonas setentrionais e austrais) e inundações (África equato-
rial), contribuindo com 7% das emissões de gases com efeito
estufa (desmatamento), sem se beneficiar dos mecanismos de
desenvolvimento próprios do Protocolo de Kioto. A biodiver-
sidade (diversidade das espécies selvagens, fauna e flora, di-
versidades intraespecíficas das espécies e conservação ao lon-
go do tempo) é um fator de resiliência dos ecossistemas diante
das mudanças climáticas. A floresta é um poço de carbono.
problemas energéticos
Na África, 90% do consumo energético estão ligados a
produtos florestais nas zonas áridas. A energia à base de lenha
é apenas parcialmente renovável, e sua exploração crescente
agrava em nível local o desmatamento e a destruição dos so-

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Geopolítica da África 105

los, especialmente no Sahel e em Madagascar. A eletrificação


cobre principalmente os bairros centrais das capitais e requer
investimentos pesados. Há na África um potencial considerá-
vel em hidreletricidade. Esses recursos existem sobretudo na
África úmida no centro do continente (rio Congo com a barra-
gem de Inga, o Zambeze, o Nilo) e geralmente estão situados a
grande distância dos centros de consumo (zonas urbanizadas
e África seca).
a geopolítica da água
A ameaça mais preocupante é a escassez previsível de água
em várias zonas. De dois africanos, um não tem acesso a água
potável. Vale lembrar que um americano consome em média
700 litros por dia, contra 300 litros para um europeu e 30 litros
para um africano. A África consome 4,7% da água mundial, e
em 14 países falta água, embora 17 grandes rios e 160 grandes
lagos irriguem o continente. A água potável é um dos objeti-
vos prioritários do milênio e esteve no centro das discussões
da Cúpula da Terra em Joanesburgo em 2002, que visa reduzir
pela metade, até 2015, a população sem água potável.
As sociedades africanas, salvo raras exceções, não são ci-
vilizações hidráulicas. Apenas 4% das terras cultivadas são
irrigadas: África do Sul, Agência do rio Níger em Mali, vale
do médio Senegal, barragens da Gezireh no Sudão. Em com-
pensação, os rios e os lagos têm importante papel na delimi-
tação das fronteiras e na denominação dos Estados (Pourtier).
A água é desigualmente repartida, opondo uma África com
falta de água a outra com excesso (inundações). Vários países,
como Botsuana, Gâmbia, Mauritânia, Níger e Sudão, são de-
pendentes de outros países.
O “ouro azul” diz respeito, essencialmente, aos setores
consumidores: agrícola (70%) e industrial (20%). Constata-se

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106 FGV de Bolso

igualmente um importante risco hídrico como fonte de doen-


ças (oncocercose, tripanossomíase, doenças parasitárias, ma-
lária). A água é um bem oneroso e, também, um direito. Além
disso, tem um significado simbólico.
A água é um recurso geopolítico e, na falta de estratégias
proativas, pode tornar-se um dos principais fatores de confli-
tos do século XXI, como foi ou é no Egito e no Sudão, na Etió-
pia e na Somália, na África do Sul e no Lesoto ou nos países
vizinhos do Nilo e do rio Níger.57 Por ocasião da Conferência
de Berlim, ela já estava no centro das discussões sobre a livre
circulação dos rios Congo e Níger. Constata-se uma rarefação
crescente, uma queda tendencial dos índices pluviométricos
e o ressecamento dos lagos (lago Chade). A agricultura, carac-
terizada por um precário controle da água, tem necessidades
crescentes. No Sahel, os cultivadores estão invadindo as zo-
nas de pasto e os pontos de água. Daí a importância das co-
operações regionais para a prevenção dos conflitos (por exem-
plo, os projetos da bacia do Nilo e da bacia florestal do Congo,
a Agência de Fomento de Sourou, o manejo do rio Senegal, a
bacia do Níger, as bacias transfronteiriças da SADCC).
o desmatamento
O desmatamento acelerado modifica os microclimas, ex-
põe os solos à erosão e reduz a biodiversidade. A cultura da
queimada e as necessidades energéticas são os dois princi-
pais fatores explicativos. Acresce a isso a superexploração
florestal visando à exportação de madeira. Cabe também
fazer distinção entre o desmatamento na África ocidental
ou em Madagascar, muito rápido, e o da África central, me-
nos evidente. Os riscos de degradação das zonas cultiva-
das das partes subúmidas da África subsaariana resultam
da demasiada pressão exercida sobre os solos, provocando a

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Geopolítica da África 107

diminuição de sua fertilidade. A degradação dos solos pela


redução do tempo de pousio ou pelo pastoreio excessivo é
denunciada desde há muito.58
problemas relativos à biodiversidade e às biotecnologias
Há todo um conjunto de conhecimentos sobre o biótopo
e sobre o meio ambiente imediato, e todo um patrimônio cul-
tural ligado a um patrimônio natural que possibilitam gerir
a complexidade. No entanto, há o risco de destruição desse
know-how e da biodiversidade, bem como de patenteamen-
to das plantas e de uniformidade tecnológica, tudo isso em
nome da eficiência, da rentabilidade e das relações de poder.
Há séculos, ou mesmo milênios, existe o livre acesso aos re-
cursos filogenéticos. A seleção varietal feita pelo agricultor
resulta numa mistura genética. Ora, esses direitos dos campo-
neses e dos sementeiros se opõem atualmente aos oligopólios
que têm direitos de propriedade sobre os genes. Atualmente,
todo um conjunto de conhecimentos referentes aos recur-
sos genéticos ou aos gêneros alimentícios é apropriado pelos
grupos privados em função de um mercado solvente. Daí a
orientação da pesquisa em função das prioridades dos países
do Norte e das questões de interesse dos países temperados
(onde moram 92,6% da população dos países ricos). Com as
biotecnologias, conjunto de técnicas visando à exploração
industrial de micro-organismos, células animais, vegetais e
seus constituintes, os recursos genéticos tornaram-se o novo
“ouro verde”.
Os organismos geneticamente modificados (OGMs) são re-
veladores dos principais problemas relativos às opções ali-
mentares (inovações técnicas e científicas versus prudência
ecológica, agronegócio versus agricultura camponesa, bem
comum versus patenteamento e apropriação dos seres vivos,

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108 FGV de Bolso

agroindústrias do Norte versus agricultura rural do Sul). Há


discordâncias quanto aos seus efeitos. Alguns esperam maio-
res rendimentos, maior resistência dos vegetais e queda dos
custos dos pesticidas. Outros preveem uma redução da biodi-
versidade, riscos sanitários e ambientais (poluição genética),
e uma dependência dos agricultores em relação aos semen-
teiros. A agência norte-americana para o desenvolvimento
internacional (Usaid) tornou-se o vetor da Monsanto para
a difusão dos OGMs, promovendo efeitos de contágio (por
exemplo, de Burkina Faso para o Mali).
Na África, esses conflitos normativos se encontram entre
a lei modelar da OUA sobre acesso aos recursos biológicos,
reconhecendo os direitos das comunidades locais, e o acordo
de Bangui de 1977, em vigor desde 28 de fevereiro de 2002,
incorporando as imposições da OMC. A lei modelar da OUA
reconhece os direitos das comunidades, inalienáveis e coleti-
vos, os direitos dos agricultores e os direitos dos selecionado-
res a eles subordinados.
Problemas alimentares
A geopolítica das catástrofes humanas pode ser ilustrada
pela fome. Esta é resultante de choques sobre os sistemas ali-
mentares e as populações vulneráveis, os quais não puderam
ser previstos ou controlados pelos decisores, acarretando efei-
tos de contágio e mortalidade em massa. Ela traduz a fraca
resiliência de atores vulneráveis para enfrentar as catástrofes.
Fome e insegurança alimentar
A fome é comum na África, embora existam atualmente
excedentes alimentares mundiais.59 Houve fome nos perío-
dos pré-colonial (impérios de Gana, Mali, Songai) e colonial
(Etiópia 1888-92). E, mais recentemente, na Etiópia (1972-74,

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Geopolítica da África 109

1984/85), no Sudão, no Lesoto (1983-85), em Moçambique,


na Nigéria, no Níger, em Angola, no Zaire, em Uganda, na
Somália, na Libéria, no Zimbábue e na África austral (anos
2000), no Sahel, especialmente no Níger e no Chifre da África
(2005/06). A subnutrição atinge 300 milhões de africanos.
Fatores explicativos da insegurança alimentar e da fome
Os fatores explicativos se encadeiam: falta de água, má
gestão, pressão demográfica, efeitos dos conflitos e do vírus
da Aids, instrumentalização da ajuda alimentar. Metade das
crises alimentares se deve aos conflitos civis, aos expatriados
e aos refugiados.
Podem-se distinguir quatro principais explicações.
a falta de disponibilidades
A longo prazo, os fatores determinantes do acesso aos
bens alimentares são:

n a produtividade e o rendimento por hectare — e am-


bos são muito baixos, tendendo à estagnação;
n a pressão sobre as áreas cultivadas, em face do volume
da população — e as populações rurais continuam au-
mentando, apesar da urbanização;
n o consumo e o poder de compra, que tendem a regredir;
n os choques ligados aos imprevistos climáticos, aos dis-
túrbios sociais, às epidemias ou às especulações.

A agricultura africana teve pouco progresso, embora se


observem dinâmicas agrícolas nas culturas alimentares co-
merciais. Os modos de cultura vão da cultura itinerante da
queimada à cultura irrigada, passando pelas culturas intensi-
vas em trabalho, em mecanização ou em insumos. As diferen-

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ças de produtividade entre os agricultores africanos e os dos


países industriais são da ordem de 1 a 100. De 1970 a 1995,
os índices pluviométricos diminuíram de 30% a 50% no
Sahel, com efeitos negativos sobre a agricultura e a criação,
mas igualmente sobre a saúde. O programa AMMA (análise
multidisciplinar da monção africana) visa prever a monção,
única época de chuva. A água é o principal fator restritivo da
produção alimentar.
as deficiências do mercado
Se os mercados africanos funcionassem através de con-
corrência, os preços de equilíbrio evitariam as privações.
Quanto mais o mercado se amplia, menores são os custos de
transporte, maior a velocidade de circulação dos bens alimen-
tares e menores os riscos de fome. Na realidade, vários fatores
podem explicar por que os mercados não desempenham o pa-
pel eficiente esperado. Numa situação de informação imper-
feita, uma estratégia de pluriatividade ou de extensividade
das culturas é geralmente preferível, levando em conta a im-
portância das opções (conferida à reversibilidade da decisão).
Os agentes externalizam o risco relativo ao meio ambiente.
O argumento liberal de que os especuladores têm um papel
estabilizador pressupõe a ausência de erros de previsão e uma
concorrência entre os especuladores denominados açambar-
cadores. Mas estes estão quase sempre mancomunados com
os poderes e em situação monopsônica. A esses argumentos
teóricos relativos às deficiências informacionais e alocativas
podemos acrescentar o contexto de falta de infraestrutura ou
de logística, ou de integração dos mercados.
a ausência de direitos
Como Sen60 demonstra, a capacidade de acesso aos ali-
mentos é função das dotações e dos direitos que regem a pro-

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priedade e a troca — entitlements. A fome depende igualmen-


te da falta de uma “capacidade” que é função do indivíduo
(aptidões, necessidades) e da organização social e que permite
ser (being) e fazer (doing). As sociedades estabeleceram regras
possibilitando a sobrevivência dos pré-, pós- ou não produti-
vos,61 proibindo a conversibilidade dos bens de subsistência
e dos bens de prestígio ou do dinheiro dos bens alimentícios
e das culturas de renda (por exemplo, o arroz e o café em
Madagascar). No entanto, essas regras são quebradas ou alte-
radas em situação de crise. Os trabalhos empíricos aplicados
no Wollo (1973) e no Sahel (1973/74) mostraram que certos
grupos sociais eram afetados pela fome mesmo num contexto
de oferta suficiente em consequência da alta dos preços ou da
perda de direitos.
a geopolítica da fome
A subnutrição está evidentemente correlacionada com a
pobreza, a baixa produtividade agrícola e as deficiências dos
mercados, mas são os conflitos e as lógicas de predação que
constituem o fator determinante. Os conflitos mobilizam a
força de trabalho, conduzem a territórios inseguros e se ca-
racterizam pelas arrecadações de produtos voluntários, de
receitas; excluem os modos de atenuar os riscos, como a ges-
tão de estoques, a mobilidade ou a pluriatividade; e não raro
são uma forma de aniquilar pela fome os grupos dominados.
Os bloqueios alimentares sempre foram utilizados como arma
contra os inimigos ou as minorias. As democracias conhece-
ram a escassez, mas nunca a fome. A ajuda humanitária pode
também desempenhar um papel perverso. Ela é frequente-
mente instrumentalizada para alimentar a guerra ou mono-
polizada pelos poderes em detrimento das populações (caso
da Somália). É difícil e arriscado fazê-la chegar aos países em

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guerra (por exemplo, os senhores da guerra e os piratas na


Somália, que captam a ajuda e se aproveitam das ONGs). Ela
resulta da desinformação dada por autoridades que dela que-
rem extrair o máximo, ou por agências de ajuda que exage-
ram a extensão das necessidades para compensar a redução
dos doadores. Ela serve igualmente como escoadouro para os
excedentes dos países industrializados, como fator de con-
corrência entre os produtores locais, como manobra de cap-
tação de renda pelos poderes políticos. Também é importante
levar em consideração as estratégias das grandes potências
internacionais. Os Estados Unidos desempenharam um papel
na fome na Etiópia utilizando a arma alimentar como meio de
derrubar o governo marxista. A maioria dos países africanos
tornou-se dependente da arma alimentar, principalmente a
americana (78% das exportações de milho), mas também a
francesa, canadense, australiana e argentina (esses cinco paí-
ses representam 90% das exportações mundiais de trigo).62
Quais são as implicações para as políticas?
Os poderes públicos e as ONGs tiveram um papel essen-
cial de prevenção para evitar os riscos sistêmicos através de
sistemas de informação e de intervenção rápidas. É necessário
criar redes de segurança para os grupos mais vulneráveis, ex-
cluídos do mercado. As políticas de estabilização são as que
mais garantem a segurança alimentar. No caso de risco de
fome, impõem-se medidas de urgência: subvenções, frentes
de trabalho, estoques reguladores. As ações humanitárias de
urgência tornaram-se necessárias, mas podem igualmente
piorar a situação a longo prazo. As catástrofes humanitárias
contribuíram para modificar os modos de ação coletiva. A
ajuda de urgência vem substituir a ajuda ao desenvolvimento.
A ação humanitária tornou-se uma parceria que possibilita a

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Geopolítica da África 113

gestão das crises. As ONGs presentes nesse mercado de ajuda


são múltiplas e o melhor esbarra no pior.63 A longo prazo, a
eliminação da fome passa por políticas de desenvolvimento
que aumentem as disponibilidades e o acesso, graças aos ga-
nhos de produtividade, às políticas redistributivas, à maior
capacidade dos agentes em termos de acesso ao crédito e de
apoio às iniciativas populares, e à regulação demográfica.

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Capítulo 4

A África e a sociedade internacional

As obras sobre relações internacionais distinguem nor-


malmente as ordens internas, em que se exercem os poderes
do Estado detentor do monopólio da violência legal num de-
terminado território, e uma ordem internacional, em que se
manifestam potências assimétricas com diferentes relações
de força. A África foge a essa representação dualista por vá-
rios motivos. A ordem interna é em boa medida assegurada
por potências externas; inversamente, a desordem interna
retroagiu, em menor grau, sobre as relações internacionais.
Considera-se que a África tem mais capacidade de distúrbio
(conflitos, pressões migratórias, epidemias) que de potência.
A decomposição dos impérios coloniais, que provocou a
emergência dos Estados africanos como atores da socieda-
de internacional, manteve certo papel das antigas potências
coloniais (França, Reino Unido), embora conduzindo uma
transferência de autoridade para as organizações interna-
cionais, a União Europeia e a superpotência americana. A
nova configuração internacional é em parte desterritoriali-

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116 FGV de Bolso

zada e mobiliza uma pluralidade de atores públicos e priva-


dos que dispõem ao mesmo tempo de poderes estruturais e
relacionais. A uma lógica de territorialidade acrescenta-se
uma lógica reticular, e nelas se insere a África.
A África e as organizações internacionais
Não existe democracia internacional em que a tomada de
decisões se baseie na regra segundo a qual um cidadão é igual
a um voto, e sim sistemas censitários em que um Estado é
igual a um voto (ONU, OMC) ou mesmo um dólar é igual a um
voto (FMI, Banco Mundial), com direito de veto para as gran-
des potências. Na prática, por meio de alianças, astúcia ou
negação do fracasso, as coalizões fazem dos Estados africanos
atores da sociedade internacional. Existem convenções ou re-
gimes internacionais, conjunto de princípios, regras, normas
e procedimentos visando reduzir a hegemonia.
O sistema das Nações Unidas e a África
As instituições econômicas e financeiras internacionais
foram criadas, após a II Guerra Mundial, dentro do contexto
das relações interestatais, separando a política da economia e
baseando-se no princípio de igual soberania e na realidade de
um mundo bipolar dominado pela potência hegemônica dos
Estados Unidos. As Nações Unidas, órgão supremo do direito
internacional e de negociação entre Estados, são igualmen-
te uma arena onde os Estados se confrontam em função de
seu poderio, sendo a instância principal o Conselho de Se-
gurança. As instituições internacionais são hoje o reflexo de
uma “incongruência espacial”64 entre uma economia em via
de globalização e um sistema político internacional baseado
no Estado-nação, na soberania nacional, no direito territo-
rializado e em instituições internacionais que não têm poder

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Geopolítica da África 117

supranacional, ainda que as OSIs aspirem a um espaço públi-


co visando a uma cidadania internacional. O espaço interna-
cional está estruturado politicamente por relações de poder
entre Estados hegemônicos com poder militar e tecnológico,
e, economicamente, pelas firmas oligopolistas e pelos acio-
nistas institucionais. Na falta de um governo mundial capaz
de impor disciplinas e sanções, há o estabelecimento de uma
“governabilidade” mundial mediante a negociação das regras
internacionais, a elaboração de normas e valores e de um con-
junto de regulamentações garantidas pelos diversos atores.
No seio das organizações internacionais se estabelecem, pois,
relações de influência, de negociação ou mesmo de imposição
de decisões.
A África e as Nações Unidas
Os Estados africanos são membros das principais orga-
nizações internacionais, mas não têm voz ativa nessa ordem
internacional. Fazem parte, igualmente, do movimento dos
não alinhados. Todos assinaram o tratado de não prolifera-
ção nuclear e são membros da International Atomic Energy
Agency (IAEA). A África do Sul renunciou à arma nuclear.
Dois Estados africanos, a África do Sul e a Etiópia, estão entre
os 51 Estados que fundaram as Nações Unidas em 1945. A
ONU, que em 2005 compreendia 191 Estados-membros, de-
sempenha um papel crescente na ajuda à África e como força
de intervenção. Ela se insere num quadro multilateral e serve
de bússola ao dispositivo da comunidade internacional. Três
países africanos participam, alternativamente, na qualidade
de membros não permanentes, e há perspectivas de uma ou
duas cadeiras permanentes. A África está presente nas agên-
cias especializadas, instituições não financeiras das Nações
Unidas: FAO (agricultura), OMS (saúde), Onudi (industriali-

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118 FGV de Bolso

zação), Pnud (desenvolvimento), Unesco (educação e cultu-


ra), OIT (trabalho), Unicef (ajuda à infância), Fnuap (fundos
para a população). Ela se faz presente através da Cnuced,
tribuna dos Estados pobres que procura corrigir os efeitos
perversos da liberalização ligando o comércio internacional
ao desenvolvimento.
A África e as instituições de Bretton Woods
A quase totalidade dos países africanos é membro das ins-
tituições de Bretton Woods e recorreu ao seu financiamento,
o que acarretou certa tutela.
o fMi
O FMI tem por missão “facilitar a expansão e o crescimen-
to harmonioso do comércio internacional e contribuir para a
manutenção e o desenvolvimento de um nível elevado de em-
pregos e salários reais” (art. 1o). Ele é um fundo de assistência
mútua entre Estados e exerce, de fato, várias missões, como a
supervisão multilateral e bilateral das políticas macroeconô-
micas monetárias e de câmbio, de programas e de assistência
técnica.
O FMI teve papel central na normalização das socieda-
des africanas a partir da crise de endividamento dos anos
1980, tendo oferecido ajuda sob condicionalidades com a
implementação de programas de estabilização e ajuste vi-
sando reduzir os desequilíbrios financeiros. A assinatura de
um acordo stand by tornou-se condição para a renegociação
da dívida. Os ministérios econômicos funcionaram sob tu-
tela, e a autoridade financeira se deslocou dos parlamentos
para as instituições de Bretton Woods. Desde 2000, os meca-
nismos de ajuste estrutural reforçado se transformaram em
mecanismos de redução da pobreza e de crescimento para os

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Geopolítica da África 119

países de baixa renda. Trata-se de empréstimos concedidos


aos países que instalaram dispositivos estratégicos de com-
bate à pobreza.
o banco Mundial
O Banco Mundial é o segundo pilar das instituições fi-
nanceiras internacionais. As intervenções do Banco na África
evoluíram com o tempo. Nos anos 1950 e 1960, predominava
uma cultura de engenharia e financiamento das infraestru-
turas. Nos anos 1970, principalmente sob o impulso de Mac
Namara, predominaram os financiamentos de projetos nos
setores produtivos e o apoio às entidades públicas. Os anos
1980 até à metade dos anos 1990 foram marcados pela dívida
e os ajustes macroeconômicos, com prioridade para os macro-
economistas. Desde então, o Banco Mundial expandiu consi-
deravelmente suas áreas de intervenção (luta contra a Aids,
novas tecnologias etc.) e priorizou a luta contra a pobreza,
o fortalecimento institucional, o software (conhecimentos)
à custa do hardware (investimentos físicos). Assim como o
FMI, o banco reagiu às reivindicações de maior transparência
estabelecendo sistemas de avaliação que melhoraram sua car-
teira de projetos. O programa PPME questiona a regra do não
rescalonamento das dívidas multilaterias e privilegia a luta
contra a pobreza.
normalização e jogos de dissimulação
Além do discurso econômico racional e do receituário de
reequilíbrio financeiro, existe um catecismo do Consenso de
Washington em que se misturam argumentações teóricas, es-
tudos de casos e success stories preconizando as “boas po-
líticas” em termos de abertura, liberalização, privatização e
“boa governança” (Hibou). O ajuste remete a uma sequência

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120 FGV de Bolso

em que estão em jogo as negociações internacionais, o estabe-


lecimento de condicionalidades, o acesso aos financiamentos
externos, as reformas de políticas econômicas e a supervisão
dos critérios de desempenho, de modo a permitir que os paí-
ses andem, ou não, on track (nos trilhos).
No plano interno, a normalização preconizada ou impos-
ta impede que se internalizem as medidas preconizadas (por
mais judiciosas que sejam), tidas como imposições vindas de
fora. Os fatores estruturais e institucionais internos, assim
como o ambiente internacional, predeterminam o sucesso
das políticas econômicas para os países mais pobres. O ajuste
frequentemente modificou os frágeis equilíbrios sociopolíti-
cos. Existem conflitos de procedimento, de estatuto e de le-
gitimidade entre os programas de ajuste, que dependem dos
ministérios técnicos e das leis — por exemplo, os planos de
desenvolvimento que dependem da soberania nacional e que
participam da erosão gradual dessa soberania.
No plano internacional, podemos falar, juntamente com
Ferguson (1990), do “jogo contínuo da negação do fracas-
so”. Os investidores criam inúmeras condicionalidades que
permitem “trazer no cabresto”. Os governos levam em con-
sideração os riscos de ruptura com a comunidade financeira
internacional, mas antecipam igualmente as não sanções ou a
possibilidade de empréstimos-pontes. Daí a duplicidade dos
discursos ou das práticas dos poderes, os atrasos na imple-
mentação das medidas, os conflitos abertos ou as resistências
veladas. Muitos países não têm mais sistemas de informação
confiáveis, e sua fraca capacidade de análise, principalmente
macroeconômica, não lhes permite propor modelos alterna-
tivos ou julgar a validade das medidas. Os critérios de de-
sempenho, assim como os vilarejos Potempkine que a czarina
Catarina da Rússia visitava, têm muitas vezes aparência enga-

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Geopolítica da África 121

nosa, e as fachadas escondem realidades ocultas. Resulta daí


um jogo de simulacros.
Assim, podemos ver o FMI e o Banco Mundial como um
Jano com duas cabeças: por um lado, desempenham um papel
de estabilidade hegemônica. Estão fortemente ligados ao Te-
souro americano.65 Regulamentaram a linguagem e ganharam
por um tempo a batalha ideológica do liberalismo. Seus dis-
cursos tecnicistas, apoiados na racionalidade econômica e na
força dos modelos, levaram a crer que havia uma única polí-
tica econômica correta, aplicada por bons alunos servindo de
exemplos. Estatutariamente interditados à ação política, eles
estão no centro desses embates, negociando apenas com os
Estados, garantindo sua legitimidade interna e sua credibili-
dade externa diante da comunidade financeira internacional,
e estabelecendo condicionalidades. Mas, por outro lado, eles
estão sobrecarregados pelo peso que têm os capitais privados
(inclusive os mais ilícitos), pelo jogo dos Estados (inclusive
os mais sinecuristas ou mafiosos) e pela prioridade da segu-
rança.
A OMC e a África

a oMc
O Gatt, criado em 1948, favorecia o multilateralismo co-
mercial através da redução das barreiras tarifárias e não tari-
fárias ao comércio internacional. Baseava-se em certos prin-
cípios: a regra da não discriminação (cláusula de nação mais
favorecida), a busca da diminuição das tarifas alfandegárias e
a proibição das restrições quantitativas. O princípio de igual-
dade dos tratamentos comportava, todavia, exceções, como as
uniões alfandegárias e as zonas de livre-comércio, ou a aceita-
ção da não reciprocidade e de tratamento diferenciados para

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122 FGV de Bolso

os países em desenvolvimento. A abertura externa é reconhe-


cidamente o principal fator de crescimento.
Com a transformação do Gatt em OMC, a negociação co-
mercial tornou-se permanente. A OMC, que visa liberalizar o
comércio mundial, estabelecer regras e arbitrar os conflitos, é
uma instância de negociação em que cada um dos 149 países
tem voto, mas em que as grandes potências, que representam
mais de dois terços do comércio mundial, impõem seus inte-
resses, não obstante o surgimento de contrapoderes dos paí-
ses emergentes (G-20) ou mesmo dos países pobres (G-90). A
OMC incluiu os produtos agrícolas e os serviços na liberaliza-
ção, embora aceitando a exceção cultural. Passou-se primeira-
mente de um sistema de concessões recíprocas (mercantilismo
esclarecido) para um contexto de negociações por produtos,
chegando-se, por fim, às discussões globais. As concessões
são tidas como custos que exigem compensações, ao passo
que a teoria padrão do comércio internacional demonstra que
a liberalização não necessita de reciprocidade para melhorar
o bem-estar, e que dentro dos países, num jogo de soma po-
sitiva, os ganhadores sempre podem indenizar os perdedo-
res. Os embates tornaram-se normativos com relação aos pro-
dutos agrícolas, aos serviços e aos direitos de propriedade
intelectual (Adpic), os quais estão no cerne das soberanias
nacionais (medidas de precaução, normas sociais, soberanias
alimentares, normas ambientais). A OMC opõe, especialmen-
te na questão agrícola, os grandes blocos: Estados Unidos, UE
e G-20, este último representando os países emergentes mais
favoráveis à liberalização com uma pluralidade das alianças.
Os países africanos dispõem de poucos trunfos na arena das
negociações comerciais. Eles sofrem os efeitos perversos dos
subsídios à produção e à exportação, bem como das medidas
protecionistas americanas e europeias, e serão perdedores na
liberalização devido à erosão das preferências (por exemplo,

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Geopolítica da África 123

o açúcar, a banana) e à concorrência selvagem dos produtores


(agricultura, criação, têxteis).
a áfrica e a oMc
Todos os países africanos são membros da OMC, salvo Eri-
treia, Etiópia, Somália e Sudão. As negociações e os acordos
comerciais no seio da OMC dizem respeito a (por exemplo,
Hong Kong, 2005):

n produtos agrícolas — maior acesso aos mercados, re-


dução dos subsídios internos com efeitos distorcivos,
redução dos subsídios às exportações, redução das
tarifas consolidadas, inexistência de direitos sobre os
produtos exportados pelos PMAs;
n produtos não agrícolas — redução e eliminação dos direi-
tos alfandegários e dos tetos tarifários, tratamento espe-
cial e diferenciado para os países em desenvolvimento;
n serviços — liberalização dentro do quadro do Acordo
Geral sobre o Comércio de Serviços (AGCS);
n temas de Cingapura (investimentos, concorrência, merca-
dos públicos, supressão dos obstáculos aos intercâmbios).

A liberalização comercial tem certos efeitos positivos so-


bre os países africanos, especialmente ao reduzir o peso dos
subsídios agrícolas (por exemplo, o algodão). Em Hong Kong,
ficou decidida a eliminação dos subsídios à exportação (2006)
e à produção (2013) dos produtos agrícolas. Os PMAs, dife-
rentemente dos países emergentes, sofrem por sua vez uma
erosão de suas preferências e de suas margens comerciais (por
exemplo, os efeitos da supressão dos acordos multifibras em
janeiro de 2005 sobre os têxteis ou do protocolo do açúcar).
Os conflitos com a UE são relativos à carne, aos cereais, aos
laticínios e ao açúcar.

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124 FGV de Bolso

0o

tunísia

MaRRocos

aRgélia

líbia Egito

Trópico de Câncer

Mar
MauRitânia
Vermelho
cabo VERdE Mali
nígER
sudão
chadE ERitREia

sEnEgal buRkina fasso dJibuti


guiné
nigéRia Etiópia
sERRa lEoa gana
REpública cEntRo-
afRicana
libéRia soMália
iM caMaRõEs
f
M aR uganda
o
Linha do Equador ad
st congo Quênia
co gabão REpública
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coMoREs
Oceano Atlântico angola

zâMbia

MadagascaR
ziMbábuE MoÇaMbiQuE ilhas
MauRício
naMíbia
Trópico de Capricórnio
botsuana

0o

1 são toMé E pRíncipE áfRica do sul


2 000 km

Egito liga árabe


Eac (East african community)

ceeac (comunidade Econômica dos


uMa (union du Maghreb arabe)
Estados da áfrica central)

cedeao (comunidade Econômica dos comesa (Mercado comum da áfrica


Estados da áfrica oriental) austral e oriental)

uemoa (união Econômica e Monetária sadc (southern african development


do oeste africano) community)

cemac (comunidade Econômica e sacu


Monetária da áfrica central) (southern african customs union)

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Geopolítica da África 125

O regionalismo e o pan-africanismo
A quase totalidade dos países africanos está engajada em
processos de integração regional (IR) cujas formas vão des-
de as cooperações setoriais até as uniões políticas com trans-
ferências de soberania. A integração regional é prioritária
para uma África balcanizada, composta de 50 Estados, em
sua maioria de pequeno porte e muitos deles encravados. É
igualmente uma construção política que pressupõe a criação
de estruturas institucionais e que leva à construção de iden-
tidade. É mais ou menos conduzida por instituições e acordos
comerciais — regionalismo de jure. Pode resultar, ao contrá-
rio, em práticas de atores que constituem redes comerciais,
financeiras, culturais, tecnológicas em espaço regionais — re-
gionalização de facto (por exemplo, o comércio transfronteiri-
ço africano ou os “países-fronteiras”).66 Existem mais de 200
organizações regionais. As quatro organizações reconhecidas
pela UA são: Cedea, na África ocidental; Ceeac, na África cen-
tral; SADC, na África austral; e Comesa, na África oriental.
A integração política: a União Africana e o sonho do pan-africanismo
Segundo uma concepção política ou diplomática, a inte-
gração regional se traduz em transferências de soberania e em
objetivos de prevenção dos conflitos. A convergência de inte-
resses econômicos é uma maneira de suplantar as rivalidades
e os antagonismos políticos. As transferências de soberania e
a produção de bens públicos em níveis regionais são uma res-
posta à sobrecarga dos Estados num contexto de globalização
(por exemplo, criação de uma moeda regional). A integração
regional pressupõe a integração nacional, o fortalecimento
do Estado e da cidadania, e um Estado forte que impeça a
fragmentação territorial ao apoiar-se numa sociedade civil
forte criando contrapoderes. Os processos de desintegração

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126 FGV de Bolso

regional remetem aos fatores sociopolíticos de desintegração


nacional e de decomposição dos Estados, às crises econômicas
e financeiras que priorizam os objetivos nacionais, aos am-
bientes internacionais que possibilitam aberturas erga omnes
(para todos) e às políticas desenvolvidas em detrimento dos
acordos regionais.
A queda do muro de Berlim e o fim da competitividade
Leste-Oeste favoreceram uma diplomacia preventiva de ges-
tão das crises e de resolução dos conflitos no seio de organi-
zações tradicionalmente econômicas.
A Nova Parceria para o Desenvolvimento da África do Sul
(Nepad) se insere numa perspectiva a longo prazo (10 a 15
anos). Ela dá ênfase ao setor privado apoiando-se nas cinco
grandes regiões da União Africana. Privilegia a apropriação,
pelos africanos, do processo de desenvolvimento e busca uma
nova parceria baseada na responsabilidade compartilhada e
no interesse mútuo. Deverá haver aí um exame ou uma pres-
são pelos pares. O mecanismo africano de avaliação pelos pa-
res, pedra angular da Nepad e garantia de sua credibilidade,
já foi estabelecido. São os próprios países africanos que de-
vem identificar, avaliar e financiar os projetos de investimen-
tos comuns. A Nepad permanece, no entanto, um processo
top down. O programa é muito ambicioso em relação às ten-
dências passadas e às previsões. A Nepad é um processo que
só pode ser julgado a longo prazo. Falta-lhe ainda credibili-
dade e legitimidade perante os diferentes Estados africanos e
os agentes da sociedade civil.
A UA se aprofunda no plano institucional (Assembleia,
Conselho Executivo, Comitê dos Representantes Permanen-
tes e Comissão), passando de organização de coordenação a
instituição de integração. O plano de ação adotado em 12 de
outubro de 2004 define cinco prioridades: transformação ins-

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Geopolítica da África 127

titucional; promoção da paz (Conselho de Paz e de Seguran-


ça), da segurança humana e da governança (Corte Africana
dos Direitos do Homem e dos Povos); promoção da integração
regional; construção de uma visão compartilhada no seio do
continente; adoção do protocolo relativo à Corte de Justiça
da UA.
A integração econômica
A regionalização é um processo que assume diversas for-
mas.67 Caracteriza-se por uma intensificação das relações de
troca, com a supressão dos obstáculos internos (zona de livre-
comércio), uma tarifa externa comum (união alfandegária) e
mobilidade dos fatores (mercado comum). Pode traduzir-se
em coordenação de políticas econômicas ou sociais (união
econômica), em projetos de cooperação estabelecidos pelos
atores (cooperação regional ou funcional), em interdependên-
cia entre as economias, levando a convergências econômicas
(integração dos mercados), em relações internalizadas dentro
das redes ou empresas (integração produtiva ou reticular),
em efeitos de aglomeração e infraestruturas interconectadas
dentro de territórios transnacionais (integração territorial).
E pode resultar no estabelecimento de regras ou de transfe-
rência de soberania com estruturas institucionais (integração
institucional ou regionalismo federativo).
a fraca integração regional
Os espaços à margem da economia mundial são igualmente
pouco integrados regionalmente, e a desintegração nacional
limita a integração.
O comércio intrarregional africano se situa em torno de
10% e é polarizado em alguns países. Fora a África do Sul,
cinco países representam três quartos das exportações in-

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128 FGV de Bolso

tra-africanas (Costa do Marfim, Nigéria, Quênia, Zimbábue,


Gana). O comércio intrassetorial de produtos manufaturados
é muito fraco. Alguns produtos primários têm papel impor-
tante: o petróleo representa um terço das trocas, e o algodão,
os animais, o milho e o cacau, 18%. A coordenação ou a uni-
ficação das políticas monetárias, no caso da zona monetária
da África do Sul (CMA) ou da zona franca, estão no centro
do processo de integração regional. Por outro lado, elas estão
ausentes em outras zonas de integração regional e se realizam
apenas indiretamente, quando os países-membros de uma
mesma zona adotam como âncora uma mesma moeda-chave.
Os principais fatores explicativos da insuficiência do co-
mércio intrarregional remetem:

n aos fatores estruturais ligados ao nível de desenvol-


vimento (haverá maior comércio entre as economias
quanto mais diversificadas forem suas estruturas de
produção e de consumo), ao porte e à proximidade geo-
gráfica (em termos de custos de transporte e de transa-
ção), e à proximidade sociocultural e política (mesma
moeda, língua, história);
n aos fatores de política econômica (acordos comerciais
regionais, política de abertura).

Em compensação, o peso das trocas informais geradas pelas


zonas de livre-comércio de fato explica-se principalmente:

n pelos diferenciais criados pelas fronteiras em termos


de política econômica e de regimes de troca;
n pela existência de redes comerciais e de redes sociais
transfronteiriças;

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Geopolítica da África 129

n pelas complementaridades econômicas e vantagens


comparativas. Essas trocas são pouco integradoras na
medida em que recaem essencialmente sobre produtos
importados transformados e remetem mais a margens
comerciais do que à criação de valor agregado a partir
da transformação de produtos.

Porém, notam-se progressos importantes no âmbito da


Cedea, que busca aproximar-se da Eumoa, da SADC, sob o
impulso sul-africano, e da comunidade dos Estados da Áfri-
ca oriental (união alfandegária, passaportes comuns, centros
universitários).

Cooperação bilateral e multilateral


Por que me queres bem? Ainda não te dei nada
(Confúcio).

Os acordos de cooperação e parceria são projetos geopo-


líticos envolvendo múltiplos interesses: petroleiros, migrató-
rios, militares, de segurança, humanitários etc.
Ajuda e cooperação
A cooperação internacional é a ação realizada juntamente
com vários atores da sociedade internacional. Pressupõe mú-
tuas trocas comerciais e difere da concepção vertical da ajuda
ao desenvolvimento. Realiza-se entre atores com poderes as-
simétricos. Insere-se num contexto pós-colonial envolvendo
laços afetivos, má consciência, dívida não extinta por parte
dos doadores, e vontade de independência e receio de aban-
dono por parte dos recebedores.

Geopolítica da África 4A PROVA.indd 129 19/02/10 12:20


130 FGV de Bolso

Por ocasião da queda do muro de Berlim, a ajuda per-


dera sua principal função geopolítica. Ela readquiriu for-
te legitimidade com as inseguranças, catástrofes e conflitos
evidenciados em numerosas regiões. As condicionalidades
em termos de boa governança ou de bons resultados não se
ajustaram aos Estados falidos, às regiões fragilizadas. A ajuda
pública ao desenvolvimento (APD) atende a diferentes moti-
vações: solidárias (luta contra a pobreza e ajuda emergencial),
utilitaristas (acesso aos recursos naturais, presença nos mer-
cados protegidos), geoestratégicas (segurança, prevenção dos
conflitos, luta contra o terrorismo, gestão dos riscos migrató-
rios ou epidemiológicos, desejo de participação nas decisões
internacionais), culturais (defesa da língua e da cultura), de
má consciência (culpabilidade pós-colonial, fardo do homem
branco) ou, ainda, desenvolvimentistas (reduzir as assime-
trias internacionais e as divergências de trajetórias). Consi-
derando o esgotamento dos fluxos privados, a APD permite
aliviar a pressão financeira externa. Todavia, a ajuda esbar-
ra nas fracas capacidades de absorção: frequentemente ela
é desviada de suas finalidades e tem efeitos multiplicadores
limitados (para 100 fluxos de entrada, resultam imediatamen-
te 60). Gera igualmente efeitos perversos: viés favorável aos
projetos capitalistas, encargos recorrentes.68
A Comissão para a África69 preconiza um big push para fa-
zer face ao ciclo vicioso da pobreza e à supressão das subven-
ções dos países do Norte, a duplicação da ajuda à África (de
US$ 25 bilhões para US$ 50 bilhões até 2010) novos sistemas
de financiamento (serviços de financiamento internacional,
taxação dos transportes aéreos etc.) e prestação de contas às
populações, e não apenas aos investidores. A International Fi-
nance Facility, proposta pelos britânicos, consistiria em em-
prestar e mobilizar os fundos importantes, mas ela transfere

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Geopolítica da África 131

os encargos às gerações futuras. A fiscalidade internacional,


preconizada pela França, é interessante pela previsibilidade
e concessionalidade, podendo ficar concentrada nas necessi-
dades fundamentais. O fato de extinguir as dívidas não ga-
rante o acesso permanente aos financiamentos internacionais,
e estes esbarram, por falta de reformas estruturais, na baixa
capacidade de absorção dos países. Em vários Estados ou re-
giões frágeis, a grande questão são os conflitos, tendo como
prioridades a segurança, a reconstrução do Estado e de suas
funções mínimas mediante o apoio combinado da comunida-
de internacional. A abordagem global britânica (DFID), que
se tornou influente junto ao Banco Mundial, trata os Estados
frágeis como um todo e propõe soluções técnicas visando ao
desenvolvimento. Ela se opõe à abordagem caso a caso dos
Estados Unidos, baseada em critérios políticos (democracia,
luta contra o terrorismo) e voltada para os “bons alunos” e
para objetivos de segurança.
As relações interestatais

a frança e a áfrica
Por sua história, a França desempenha um papel de potên-
cia regional na África. Ela acreditou, segundo as palavras de
Guiringaud, que 500 homens poderiam mudar o destino da
África. Vários fatores contribuem para explicar a política da
França em relação à África subsaariana, na qual as preocupa-
ções culturais, geopolíticas e humanitárias se aliam a certos
interesses econômicos, mineiros, petrolíferos ou de apoio a
empresas em busca de nichos de mercado. Destacar o jogo
desses interesses econômicos nos impede de compreender a
complexidade do contexto colonial e pós-colonial, pré- ou
pós-Guerra Fria. O peso político da França nos países africa-

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132 FGV de Bolso

nos se explica por uma série de fatores (inclusive o receio do


caos e o desejo de prevenir conflitos), pela política de defesa
da francofonia, pelas relações de clientelismo, pela consti-
tuição de redes destinadas ao financiamento de partidos po-
líticos franceses ou, ainda, pelos votos levados pelos países
francófonos às Nações Unidas.
Apesar da diminuição da ajuda (€ 8,2 bilhões em 2005,
ou 0,47% do PNB), a França continua sendo um dos prin-
cipais países doadores da APD — tanto em valor absoluto
quanto em termos de percentagem do PNB. A ajuda francesa
continua a se direcionar principalmente para a África sub-
saariana (55% do total). Mais de 30% da ajuda é multilate-
ral. A presença militar francesa continua expressiva em 2006
(6 mil homens em Costa do Marfim, Djibuti, Gabão, Senegal e
Chade, sem contar os 5 mil da Operação Unicórnio). A França
está num dilema: intervir, sendo tachada de ingerência, ou
abster-se, sinal de indiferença ou mesmo de aceitação do pior
(genocídio ruandês). As redes e o cordão umbilical duraram
tanto tempo que são inevitáveis as segundas intenções. A
descolonização tardia dá origem a ressentimentos.
Durante a Guerra Fria, a política econômica da França
em relação à África subsaariana refletia, dentro da tradição
gaullista, a importância geopolítica que Paris dava a essa re-
gião (francofonia, votos nas Nações Unidas, interesses petro-
leiros, receio do comunismo etc.). A queda do muro de Berlim,
em novembro de 1989, a expansão da Europa e a aceleração
do processo da globalização acarretaram uma desclassifica-
ção geopolítica da África, bem como certa normalização das
relações entre a França e a África. O discurso de Mitterand
em Baule, em junho de 1990 (vinculando a ajuda francesa à
África à democratização), a doutrina Balladur de 1993 (con-
dicionando a assistência bilateral à assinatura de acordos com

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Geopolítica da África 133

as instituições de Bretton Woods) e a desvalorização da moe-


da da África francófona (os francos CFA) em janeiro de 1994
são considerados sinais de abandono da África pela antiga
mãe pátria, cortando o cordão umbilical. A política francesa
caso a caso, defensiva diante da obsessão de uma anglofo-
nia dominante e ambígua em seu discurso sobre países não
maduros para a democracia, é alvo de críticas por parte da
opinião pública e dos poderes africanos, principalmente sul-
africanos. A França é ao mesmo tempo árbitro e parte interes-
sada, ficando às vezes entre dois fogos (por exemplo, Costa do
Marfim). O Exército francês, por seu lado, age sob comando
das Nações Unidas ou da Europa, mas manteve acordos mi-
litares bilaterais com certos países africanos. A Realtpolitik
possibilita contemporizações com os ditadores.
Em 1950, o império colonial representava 60% do comér-
cio exterior francês. A participação da África nas exporta-
ções da França passou de 8,7% em 1970 para 5% em 2006.
A África fornecia-lhe então 4% das importações. Três países
representam mais de 50% das importações francesas da ASS
e 45% das exportações francesas para a ASS (África do Sul,
Costa do Marfim e Nigéria). A reorganização do capitalismo
francês resulta principalmente dos interesses petroleiros e da
vontade de estar presente em mercados mais expressivos que
os dos países francófonos da África.
Nascida da vontade inicial de isolar o império colonial
do mercado internacional e de criar um espaço preferen-
cial após a crise de 1929, a zona do franco se adaptou a
modificações profundas, como o abandono das preferên-
cias imperiais, a descolonização, a flexibilidade cambial, a
conversibilidade do franco francês e o desaparecimento dos
controles cambiais. Ela também não desapareceu com a des-
valorização do franco CFA, em janeiro de 1994, nem com

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134 FGV de Bolso

a criação do euro, em 1999. Ao contrário, ela até evoluiu.


Com a desvalorização ocorrida em 1994, o aprofundamento
das integrações regionais internas nos anos 1990, o controle
dos indicadores de convergência no seio das uniões mone-
tárias e a implementação de políticas ortodoxas pelos ban-
cos regionais mais independentes dos poderes políticos, as
uniões monetárias da África ocidental e central se tornaram
inevitavelmente menos dependentes do Tesouro francês. A
entrada em vigor do euro não eliminou as ligações entre o
Tesouro francês e os bancos centrais africanos, mas tornou-
as menos exclusivas e mais transparentes, aumentando o di-
reito de supervisão do Banco Central europeu. Observa-se
igualmente uma evolução divergente das duas uniões mo-
netárias, Cemac e Uemoa. Essa evolução se deve ao mesmo
tempo às mudanças nas regras de conversibilidade entre as
duas moedas CFA e às conjunturas assincrônicas das duas
uniões monetárias, sendo a Cemac essencialmente petrolífe-
ra, ao contrário da Uemoa.
os Estados unidos e a áfrica
A ideia de que “a África é mais um problema europeu do
que americano” é hoje menos verdadeira. Os vínculos dire-
tos são antigos, principalmente para os afro-americanos na
Libéria. Durante a Guerra Fria, a política era principalmente
antissoviética. Após os acontecimentos da Somália, a política
americana passou a condenar os massacres, e os interesses
econômicos prevaleceram. A política americana do presi-
dente Clinton tinha três principais objetivos: achar soluções
africanas para os problemas africanos; integrar a África nos
circuitos econômicos mundiais; e opor-se ao terrorismo islâ-
mico (Líbia, Sudão). A partir do Onze de Setembro de 2001,
a política da superperpotência foi reativada. As três priori-

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Geopolítica da África 135

dades são: a luta contra o terrorismo e o reforço da estra-


tégia de contenção do islamismo mediante um programa de
assistência militar; em seguida, a intensificação do comércio
e dos investimentos petrolíferos (as importações america-
nas provenientes da África devem passar de 15% em 2001
para 25% em 2020), estando as firmas americanas presentes
principalmente na Somalilândia, na região sul do Sudão, nos
países sahelianos e no golfo da Guiné; por fim, o desenvol-
vimento das trocas e da ajuda com base no liberalismo. Os
Estados Unidos se apoiam nos Estados-pivôs, possuidores de
capacidade reguladora. Procuram igualmente obter respostas
para os chamados riscos assimétricos (conflitos intraestatais,
Estados enfraquecidos pelo tráfico e o terrorismo, onde a su-
perioridade tecnológica é insuficiente). Desenvolvem assim a
democracia e o mercado apoiando-se nos civis em ligação com
os militares (civilianization). Trata-se de uma defesa preven-
tiva que molda o ambiente pela difusão de normas, valores e
padrões americanos. Predomina um bilateralismo que possi-
bilita o tratamento caso a caso e que privilegia os amigos do
“eixo do bem”, ainda que os amigos de hoje possam vir a ser
os inimigos de amanhã.
O African Growth and Opportunity Act (Agoa) pretende
favorecer as trocas comerciais atualmente limitadas entre a
África e os Estados Unidos. Essa iniciativa diz respeito espe-
cialmente ao petróleo e, em menor medida, aos têxteis. Trin-
ta e seis países africanos são elegíveis oficialmente segundo
vários critérios: evoluir continuamente para uma economia
de mercado; respeitar a lei e a liberdade de comércio; e esta-
belecer políticas que reduzam a pobreza e aumentem a pro-
teção dos direitos dos trabalhadores. Os Estados Unidos in-
tensificaram suas ações missionárias e sua presença militar e
diplomática.

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136 FGV de Bolso

a grã-bretanha e a áfrica
A Grã-Bretanha, apesar de uma longa tradição africana,
não teve verdadeiramente, após as independências, uma po-
lítica africana. Esta se diluía nos vínculos dentro da Com-
monwealth. Esse conjunto recebe o essencial da ajuda britâ-
nica, amplamente concentrada na Nigéria e na África do Sul.
Desde 1997, a política de Tony Blair do new labour mudou
fundamentalmente. A intervenção militar em Serra Leoa, em
maio de 2000, marca uma virada. A oposição a Mugabe pas-
sou pelo canal da Commonwealth, que conferiu um conteúdo
ético à política externa, ao lado da Realtpolitik. O peso da
sociedade civil e das igrejas é importante nessa nova polí-
tica de cooperação, e esta é hoje reforçada em torno de dois
grandes eixos: a política de cooperação e o aumento da aju-
da (por exemplo, a iniciativa da Comissão para a África, a
International Finance Facility, que prevê um crescimento de
US$ 25 bilhões da ajuda sob forma de empréstimo pelo G-7 e
o apoio à Nepad). A África adquire grande relevo estratégico
no plano geopolítico, com prioridade para os PMAs. A polí-
tica britânica concilia ética mundial, egoísmo com princípios
de liberalismo econômico.
a uE e a áfrica
A UE distingue suas relações entre a África setentrional
(acordos Euromed), a África do Sul (acordos de livre-comér-
cio) e os países da zona ACP (Cotonu). Os quatro eixos são a
paz e a segurança, a governança, a integração comercial e o
comércio, e o desenvolvimento.
A UE não é uma potência que disponha de soberania in-
ternacional e de uma força de intervenção militar, apesar da
política europeia de soberania e de defesa. Ela aceita o atlan-
tismo e o papel da Otan. Intervém na África através da parce-
ria, do multilateralismo, da diplomacia local e do soft power.

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Geopolítica da África 137

No plano comercial e do desenvolvimento, os acordos de


Yaoundé e, depois, de Lomé, entre a Comunidade Europeia e
os países ACP, se inseriam numa perspectiva regionalista de
preferências e não reciprocidade, levando em conta as assi-
metrias internacionais. Eles visavam incluir as antigas colô-
nias da África, do Caribe e do Pacífico nos acordos preferen-
ciais com suas antigas metrópoles, integrando-se no espaço
europeu. Perderam muito de sua força e legitimidade com a
expansão da Europa para países sem passado colonial e com
a reorientação dos interesses para o Leste europeu desde a
queda do muro de Berlim. O ajuste contribuiu muito para a
aproximação das doutrinas dos investidores sob a liderança
das instituições de Bretton Woods. A UE, com voto único na
OMC, colocou seus acordos em conformidade com as regras
dessa organização. Os resultados dos acordos de Lomé foram
modestos. O protocolo do açúcar e as preferências industriais
favoreceram a industrialização das Ilhas Maurício graças à
utilização produtiva da renda açucareira. As preferências de
Lomé serviram de catalisador, resultando em expansão e di-
versificação em países como Quênia, Maurício e Zimbábue. A
ajuda sob forma de doações possibilitou garantir os setores
considerados prioritários, principalmente infraestruturas,
saúde e alimentação. Mas essas preferências não foram uma
condição suficiente, nem mesmo, talvez, necessária. Os paí-
ses africanos não conseguiram manter suas fatias de mercado
nem diversificar sua produção, embora tivessem livre acesso
ao mercado europeu para 95% dos produtos agrícolas expor-
tados. Os princípios da não reciprocidade e da discriminação
entre países em via de desenvolvimento adotados na conven-
ção de Lomé estavam em relativa contradição com as regras
da OMC.

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138 FGV de Bolso

A convenção de Cotonu previu acordos de livre-co-


mércio, podendo os acordos de parceria econômica (APEs)
substituírem o sistema de preferência generalizada ou as
preferências concedidas aos PMAs em “tudo, menos ar-
mas” (programa da UE prevendo regimes comerciais pre-
ferenciais para todos os produtos, exceto armas). Os APEs
entre a UE e os países ACP ou os blocos regionais devem ser
estabelecidos entre 2008 e 2020.
A UE intervém em três frentes: diplomacia preventiva,
gestão militar das guerras e resolução pacífica. Ela adotou,
desde dezembro de 2003, uma política externa e de seguran-
ça comum. O tratado constitucional, que não foi ratificado,
previa um dispositivo institucional reforçado (ministro das
Relações Exteriores, presidente do Conselho Europeu, papel
suplementar do Parlamento). O Conselho Europeu tem liga-
ções privilegiadas com a UA e com as organizações regionais.
A UE financia apoios logísticos, a formação de forças policiais
dos exércitos, o desarmamento e a desmobilização. Assim, ela
se fez presente em Ituri com a Operação Artemis, na RDC,
no Sudão, na Somália e na África ocidental. A transferên-
cia da segurança para a UE (por exemplo, Recamp) permite
descolonizar as relações bilaterais entre antigas metrópoles
e colônias.
As políticas europeias carecem de coerência entre as polí-
ticas comerciais, agrícolas e de desenvolvimento. Elas conti-
nuam fortemente dependentes da política dos Estados-mem-
bros. A expansão da EU se fez em detrimento de uma política
africana. Em contraste com sua abertura para os antigos paí-
ses do Leste europeu, a Europa está longe de ter uma política
audaciosa em relação à África — e isso apesar das proximida-
des históricas e geográficas de sua parte Sul, pelo menos. Vale
lembrar que os fundos estruturais destinados aos 10 novos

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Geopolítica da África 139

países entrantes representam, por habitante e por ano, mais


de € 500, contra menos de € 15 da APD destinados aos países
africanos.
a áfrica e a ásia
As relações interestatais entre a África e a Ásia depen-
dem das redes comerciais e das diásporas asiáticas. Elas se
transformam à medida que aumenta o poder desses países
emergentes, que representam um terço da humanidade e têm
necessidades consideráveis em matérias-primas.
As relações do Japão com a África há muito se limitam a
relações comerciais, de investimento e de ajuda, para estar
presente nos mercados e ter acesso a matérias-primas. Sem a
África do Sul, as relações comerciais com a África represen-
tam menos de 2%. Com a Ticad, foro da cooperação entre o
Japão, a Ásia e a África, intensificaram-se as relações, e os
objetivos de estabilidade e paz tornaram-se mais importan-
tes. A ajuda japonesa à África está aumentando, e em vários
países anglófonos o Japão é o principal doador. O Japão quer
se apresentar como um modelo alternativo ao Consenso de
Washington (por exemplo, o financiamento do East Asian
miracle). Sua crescente presença na África está igualmente
ligada à sua rivalidade com a China.
A Índia, cujo crescimento econômico assemelha-se ao da
China (7% anuais), é menos uma potência regional do que
uma potência nacional emergente, graças ao tamanho de sua
população, ao seu forte crescimento, ao seu desempenho nos
setores de alto nível tecnológico e ao seu arsenal militar. Ela
se faz presente na África sobretudo pelas redes da diáspora
na África oriental e no oceano Índico, mas igualmente na
área petrolífera. Posiciona-se nos setores de serviços e de
alto nível tecnológico, embora desenvolvendo uma coope-

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140 FGV de Bolso

ração que prioriza o petróleo. Suas práticas nada ficam a


dever às chinesas.
A China, embora tenha uma política internacional mais
discreta, se apresenta como potência regional concorrente
do polo nipo-americano. Ela se globaliza por sua integração
na OMC e se regionaliza pelas redes de sua diáspora e pela
ampliação de suas áreas de influência. A diáspora chinesa
está presente na África há séculos. As frotas chinesas na
época Han mantinham relações comerciais com o litoral da
África oriental.
As relações entre a China e a África são essencialmente
econômicas e baseadas no princípio do win-win (todos se be-
neficiam de alguma forma). O comércio sino-africano dupli-
cou entre 2000 e 2004, devendo ultrapassar em 2006 o co-
mércio com os Estados Unidos (US$ 37 bilhões 2005). Como a
China tem necessidade de matérias-primas, sobretudo petró-
leo, estreitou relações com a África do Sul, Angola, Gabão,
Níger, Nigéria e Sudão (o que explica seu voto no Conselho
de Segurança sobre a questão do Darfur). A China é o segun-
do consumidor mundial de petróleo, e a África lhe fornece
25% de seu abastecimento. A China está presente nos setores
de obras públicas, telecomunicações e têxteis. Sua balança
comercial com a África é ligeiramente deficitária. Ela exporta
mais de US$ 15 bilhões, dos quais mais da metade correspon-
de a produtos de alto valor agregado (maquinários, eletrôni-
ca, novas tecnologias). A supressão dos acordos multifibras
fez suas exportações de têxteis aumentarem muito, entrando
em forte concorrência com as empresas sul-africanas, mauri-
cianas, malgaxes, marroquinas e tunisianas. Ela investe em
joint ventures de mais de US$ 1 bilhão, associando a tecnologia
ocidental às vantagens econômicas ligadas aos baixos custos
chineses e aos subsídios estatais (por exemplo, telecomunica-

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Geopolítica da África 141

ções). Sua ajuda à África é múltipla, quase sem contrapartida


— ela impõe somente o não reconhecimento de Taiwan — e
cresce fortemente. Uma das prioridades da China é garantir a
segurança das rotas comerciais e do abastecimento de petró-
leo; Djibuti, controlando a antiga rota das Índias, é uma das
bases de apoio. De modo geral, porém, as relações econômicas
permanecem pós-coloniais, a não ser com a África do Sul.
A África exporta matérias-primas, enquanto a China exporta
produtos manufaturados.
As relações entre a China e a África são políticas e dão
mostras de pragmatismo e de uma Realtpolitik. A China tem
uma política de cooperação cultural importante: 10 mil afri-
canos se formam na China. As relações se dão fora das regras
internacionais: taxas de juros quase sempre nulas, atividade
das empresas públicas chinesas ligadas ao Estado e ao partido.
A China, que absorve 60% da madeira exportada pela África,
não respeita as normas ambientais, em nome da prioridade
conferida ao desenvolvimento econômico. A China se vale
de sua posição eminente nas Nações Unidas para proteger
seus aliados e desenvolver uma ideologia terceiro-mundista
de país em desenvolvimento não colonialista. Isso permite a
vários países contornarem as sanções internacionais (caso do
Zimbábue ou do Sudão). O princípio de cooperação é o da
não ingerência e da soberania dos Estados sobrepujando o
dos direitos humanos. Pode-se dizer que as vendas de armas
chinesas e o apoio a certos Estados bandidos contribuíram
para alimentar os conflitos armados na África (Angola, Etió-
pia, Sudão).
As relações da África são evidentemente mais diversifi-
cadas. As relações com o Brasil se intensificam, e as com a
Rússia vêm diminuindo desde 1989, salvo no novo comércio
triangular.

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142 FGV de Bolso

As relações internacionais não estatais


Os Estados Unidos certamente continuam sendo a super-
potência no tabuleiro mundial, propondo um modelo global
e utilizando ao mesmo tempo o hard power, principalmente
do poderio militar, mas também o soft power pelo domínio
dos novos instrumentos de poder, como a tecnologia, a comu-
nicação, as informações, o comércio ou a economia. Mas, ao
contrário das teorias realistas, novos atores surgiram no ce-
nário internacional com um papel cada vez mais importante,
tais como as empresas privadas e as ONGs. O movimento al-
termundista reatualiza certa unidade dos marginalizados que
poderá reforçar a unidade dos países do Sul.
a cooperação descentralizada e as coletividades territoriais
A cooperação descentralizada é realizada principalmente
pelas coletividades territoriais e as organizações de solida-
riedade internacional. Ela apresenta numerosas vantagens de
proximidade, reduzindo os custos de transação ou as margens
entre as somas desembolsadas e as que servem aos operadores
finais. A descentralização é um modo de organização institu-
cional que consiste em fazer gerir, por órgãos deliberativos
eleitos e pela participação da sociedade civil, as questões pró-
prias de uma coletividade territorial. Ela se distingue da des-
concentração, simples modo de organização administrativa
que consiste em transferir para instâncias locais os poderes e
atribuições do poder central. Em muitos países da África, as
autoridades locais, por não disporem de meios, delegam o es-
sencial dos serviços urbanos (água, eletricidade, limpeza, se-
gurança, tratamento do lixo, transportes etc.) ou para o setor
privado, no caso das populações solventes, ou para as ONGs
e associações, no caso dos mais pobres. A descentralização se

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Geopolítica da África 143

associa à privatização e à escalada das associações para cuidar


do coletivo.
A cooperação descentralizada esbarra nas assimetrias de
poderes e de capacidades organizacionais entre as coletivi-
dades do Norte e do Sul, na falta de recursos das coletivida-
des, no risco de mimetismo pela transferência de tecnologias
e de organizações inadequadas das coletividades territoriais
do Norte para o Sul. A descentralização não é a democracia
local. A primeira pode conferir poderes a personalidades ou
oligarcas, enquanto a segunda implica jogos de contrapode-
res e debates públicos.
o papel das organizações de solidariedade internacional e das ações
humanitárias
Diante das deficiências dos Estados e da lentidão na aju-
da bilateral ou multilateral, as OSIs e as ações humanitárias
desempenham um papel crescente de lobbies e de sensibili-
zação da opinião pública, tanto nas agendas das negociações
internacionais quanto nas intervenções de urgência. As ini-
ciativas altruísticas e a solidariedade atestam o advento de
uma cidadania transnacional. As ONGs agem rapidamente,
preenchendo as lacunas da cooperação oficial. As doações lí-
quidas anuais chegam a US$ 7 bilhões, ou 14% da APD. Mas
o inferno também está cheio de boas intenções. Como fazer
para que as roupas doadas às OSIs não ameacem as indús-
trias têxteis, ou para que a distribuição gratuita de remédios
não prejudique o desenvolvimento dos genéricos ou a recu-
peração de custos dos medicamentos (iniciativa de Bamako)?
Em certos casos, a multiplicidade dos projetos foge ao quadro
estabelecido e às prioridades enunciadas pelas políticas pú-
blicas. Surgem problemas de coordenação e de legitimidade
entre as ONGs e as coletividades territoriais, entre as coleti-

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vidades territoriais (caso das comunas) e as regiões, entre o
nível regional e o nível nacional, ou entre o nível nacional e o
europeu ou multilateral.
a inserção reticular da áfrica
As grandes redes formais e informais estão ligadas a cir-
cuitos internacionais. Elas são múltiplas. A circulação das
pessoas, dos bens e das informações se faz entre a costa da
África oriental e a península arábica, incrementada pelos
transportes aéreos e as telecomunicações (Dubai street em
Zanzibar). Na África austral, as comunidades comerciais in-
dianas reatualizam o comércio do Arquipélago Malaio. Os mi-
grantes da África oriental se inserem nas redes migratórias
europeias. O proselitismo muridista tem numerosos contatos
com a América do Norte. As redes ibos da Nigéria controlam
o essencial do tráfico de drogas nos Estados Unidos.
a áfrica e os bens públicos mundiais
As relações intergovernamentais são suplantadas pela im-
portância do global, quer se trate da estabilização financeira,
da poluição atmosférica, da gestão da água, dos riscos epide-
miológicos ou, ainda, da segurança e da luta contra o terro-
rismo. Não existe autoridade supranacional com legitimidade
para produzir e financiar esses bens, donde a produção insu-
ficiente de bens públicos mundiais. Podemos retomar a dis-
tinção entre os bens ao alcance dos melhores (por exemplo, o
conhecimento científico), aqueles que dependem do elo mais
frágil (por exemplo, o terrorismo ou as epidemias) e os bens
aditivos (por exemplo, as emissões de CO2). A África está
principalmente relacionada com o segundo tipo de bens.70

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Conclusão

Perspectivas e prospectivas geopolíticas da África

Só há ventos favoráveis para aqueles que sabem aonde vão


(Sêneca).

O tempo da globalização (competitividade, abertura,


adaptação às novas condições etc.) não é o tempo do desen-
volvimento econômico (em termos de estabelecimento de ins-
tituições, de construção dos mercados, de melhorias sustentá-
veis de produtividade), nem o das trajetórias sócio-históricas
das sociedades africanas (construção dos Estados e das na-
ções, redefinição das fronteiras e dupla legitimação externa
e interna dos poderes). As Áfricas constroem sua própria
modernidade combinando seus tempos históricos próprios e
o tempo da globalização. Mas, como conciliar essas diferen-
tes temporalidades e favorecer uma globalização negociada e
uma abertura controlada?
África, nova disputa estratégica
Após a queda do muro de Berlim, as atenções europeias, e
mesmo os capitais, se voltaram para o Leste. A África não era
mais alvo de uma disputa ideológica, como durante a Guerra
Fria. Mas isso não significava o fim das rivalidades diplomá-

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146 FGV de Bolso

ticas e das lutas faccionais apoiadas por potências estrangei-


ras. A escalada das tensões e dos conflitos é tão importante
quanto as disputas econômicas, que dizem respeito mais à
captação de recursos naturais (diamante, petróleo) e ao con-
trole dos tráficos (contrabando, droga) do que à conquista de
mercados. A África volta a ser estratégica por questões de
segurança, por seus recursos em matérias-primas e sua biodi-
versidade. As disputas petroleiras e ambientais aumentaram.
As percepções oscilam entre o medo e a vontade de proteção,
a assunção da responsabilidade e a ingerência para evitar ca-
tástofres, e até mesmo os projetos de desenvolvimento. Os
males da África podem ter efeitos de bumerangue em termos
de fluxos migratórios, de contágio das epidemias, de expor-
tação da violência ou de Estados decompostos transformados
em santuários para os terroristas.
Numerosos desafios internos
A crise — ruptura e mutação — acentuou a ambiguida-
de de uma África contrastante. É difícil discernir os acon-
tecimentos construtores do futuro, “que avançam a passo
de cágado”, dos fatos significativos que farão com que, por
diversos caminhos, um deles se torne história. A retrospec-
tiva mostra que o pessimismo asiático dominava, há algumas
décadas, em nome das particularidades sociais e culturais. O
desenvolvimento se dá, porém, em termos de gerações.
As sociedades africanas terão que administrar a duplica-
ção de sua população e a triplicação de sua população urbana
até 2025. Elas devem reconstituir seus ecossistemas, realizar os
investimentos coletivos e produtivos necessários ao crescimen-
to e reposicionar-se positivamente na divisão internacional do
trabalho. Esses diferentes desafios implicam aumentos de pro-
dutividade e uma acumulação a longo prazo. É necessário mais

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Geopolítica da África 147

que duplicar os rendimentos e mais que triplicar a produti-


vidade do trabalho nos próximos 25 anos. Há que responder
aos desafios da pressão demográfica, do crescimento urbano,
da concorrência dos agricultores subsidiados, da liberalização
e da gravidade dos riscos ambientais. Nas sociedades em que
o Estado-nação continua em via de constituição e em que as
redes pessoais e as solidariedades étnicas suplantam a institu-
cionalização do Estado, a crise econômica agravou sua decom-
posição. Em certos casos extremos, ela transformou a economia
de renda em economia mafiosa e de rapinagem. Desde então, o
futuro do Estado condiciona o futuro da economia.
Perspectivas contrastantes de integração à economia mundial
A evolução da África permanece fortemente dependente
de seu lugar na arquitetura internacional e da economia mun-
dial. Esta se caracterizará pela importância crescente da eco-
nomia imaterial e das tecnologias da informação, bem como
do ambiente tecnológico e institucional na atratividade dos
capitais, e por uma competitividade baseada na qualidade dos
produtos e ligada à logística. A maioria das simulações prevê
divergências crescentes de trajetória entre a Europa e a África
devido aos efeitos-limiar, aos efeitos de aglomeração e aos ren-
dimentos crescentes. A África pode se beneficiar dos custos
descrescentes (por exemplo, os computadores ou a internet),
dar saltos tecnológicos, encontrar novos nichos de competi-
tividade. A eficiência das novas tecnologias depende de um
tecido social, econômico e técnico capaz de apropriá-las.
Opções estratégicas, disputas e jogo dos atores
Uma simples fagulha pode alastrar incêndios incontrolá-
veis, na falta de medidas proativas ou pré-ativas. Conforme
as estratégias, uma desvantagem pode advir de um desafio

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148 FGV de Bolso

e de um trunfo, como mostra o exemplo das pressões demo-


gráficas nos planaltos bamileques ou quenianos. Do mesmo
modo, um trunfo pode tornar-se uma desvantagem, como é o
caso da maldição do petróleo na Nigéria, no Chade, na Guiné
equatorial, em Angola e na RDC. O desenvolvimento, como
diz A. Hirschman, consiste em “navegar em ziguezague para
chegar ao lugar desejado utilizando ventos favoráveis e con-
trários”.71 A questão é controlar os passos em ritmos diferen-
tes. Assim, a política indispensável de controle da fertilidade
somente terá efeitos significativos dentro de 15 anos.
Os atores com grande influência sobre o futuro da África
são, em parte, externos à África (instituições internacionais,
antigas potências coloniais, empresas transnacionais, redes
das diásporas etc.). Eles são fundamentalmente internos. Ha-
verá conversão do capital comercial em capital produtivo? Os
microprodutores se tornarão pequenos empresários desenvol-
vendo uma rede de PME-PMI? As estratégias de integração
positiva na economia mundial pressupõem novas alianças pri-
vilegiando o capital produtivo e o investimento de risco. Isso
somente é possível a curto prazo diminuindo as rendas que fre-
quentemente são fatores de equilíbrio sociopolítico e liberando
os empreendedores ou empresários das imposições sociais ou
políticas. Serão os conflitos militares fatores de formação dos
Estados e de recomposição dos territórios e das identidades?
Deve a África ser abandonada à sua própria historicidade ou,
ao contrário, devem as guerras ser analisadas em relação ao
processo de integração numa economia especuladora ou mes-
mo criminosa que deteriora o Estado e a cidadania?
Os cenários geopolíticos
Três cenários geopolíticos podem ser distinguidos em função
dessas fortes tendências e das opções estratégicas dos atores.

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Geopolítica da África 149

O cenário de uma África dessincronizada do tempo mundial


Haveria pregnância da longa duração braudeliana, parên-
tese da colonização e da modernização, necessidade de tem-
po longo para gerir os desafios que as sociedades industriais
levaram séculos para superar e impossibilidade de se inserir
positivamente num mundo organizado fora da África. As tra-
jetórias históricas africanas seriam caracterizadas pelas dinâ-
micas de povoamento, pelas mudanças na ocupação do espa-
ço, pelas reconfigurações territoriais e pelas modificações das
fronteiras herdadas da colonização. O cenário pode ser visto
politicamente de modo positivo (a guerra faz o Estado, este
se recompõe) ou negativo (abandonada à sua própria sorte, a
África se dilacera, e os Estados se decompõem). Economica-
mente, pode ser positivo (dinamismo da economia popular,
satisfação das necessidades básicas, desconexão desejada,
interiorização) ou negativo (desconexão forçada, fracasso da
modernidade, economia de predação ou mesmo caos entrópi-
co, diante do que a comunidade permenece passiva).
O cenário de uma África positivamente integrada na globalização
A inserção da África na economia mundial pode se dar
por meio dos circuitos comerciais e financeiros ou mesmo
por uma acumulação privatizada feita por atividades ilícitas.
Pode igualmente resultar de reformas liberais internalizadas
pelos atores. A África, graças a essas novas gerações, torna-se
competitiva, produtiva, democrática. A cidadania e o jogo
democrático se desenvolvem. A economia é impulsionada do
exterior com a aceleração das exportações e da atratividade
dos capitais e uma vinculação crescente com uma rede PME/
PMI servindo como tecido econômico de base. Esse cenário
pressupõe que a África tenha voz ativa na arquitetura inter-
nacional e disponha de acesso aos financiamentos externos

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150 FGV de Bolso

ligados aos ganhos de produtividade. Isso implica uma repa-


triação da poupança e das competências externas africanas.
Implica um apoio externo, principalmente da Europa, em
termos comerciais e financeiros. Uma economia produtiva e
competitiva requer a mobilização das competências nacionais
e estrangeiras e o surgimento de empresários. Isso pressupõe
um quadro institucional favorável, um Estado facilitador, um
clima de confiança e um retorno à segurança. Mas esse cená-
rio corre o risco de levar à exclusão e à manutenção da pobre-
za da maioria, pelo menos a curto e médio prazos.
O cenário de Áfricas diferenciadas em torno de polos regionais
Surgiriam grandes potências regionais, como a África do
Sul ou a Nigéria, havendo reconfigurações em torno destes
polos. As inserções na economia mundial seriam fortemente
diferenciadas conforme os países e as regiões. Pode haver uma
dualidade entre uma África “útil” e uma África “excluída”
que corresponde a crescentes diferenciações espaciais e so-
ciais. A manutenção das rendas externas, a prevenção dos
conflitos e a exploração dos recursos minerais estão assegura-
das. Diante do aumento de contingente, inserido nas estrutu-
ras, a população se informaliza, vivendo e sobrevivendo num
universo de pobreza e precariedade. Esse cenário intermediá-
rio pode bifurcar-se em um dos dois cenários precedentes.
Haverá provavelmente uma diferenciação crescente das
sociedades africanas. As prioridades agropastoris não são as
mesmas para as economias nômades dos tuaregues, para os
coletores da floresta equatorial ou para os camponeses dos
planaltos malgaxes. A escolha entre uma economia aberta
para o exterior ou orientada para o mercado interno difere
entre os pequenos países litorâneos e os grandes países. A
gestão da autossuficiência e da segurança alimentares se colo-

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Geopolítica da África 151

ca em termos radicalmente diferentes nas pequenas ilhas su-


perpovoadas e nos grandes países onde a terra é abundante.
Os países sahelianos encravados e os países em guerra correm
o risco de se marginalizar. Os países agroexportadores conhe-
cerão uma especialização depauperante, caso não diversifi-
quem suas exportações. Os países rentistas mineiros ou pe-
troleiros sofrerão os riscos de maldição e instabilidade, se não
gerirem suas rendas.
A história não tem sentido; existem histórias às quais os
homens dão sentido.

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Lista das siglas

ACP África, Caribe, Pacífico


Adpics Aspectos dos direitos de propriedade intelectual ine-
rentes ao comércio
APD Ajuda pública ao desenvolvimento
APE Acordo de parceria econômica
ASS África subsaariana
Cedeao Comunidade Econômica dos Estados da África Oci-
dental
Ceeac Comunidade Econômica dos Estados da África Central
Cemac Comunidade Econômica e Monetária da África Cen-
tral
CFA Comunidade Financeira Africana
CMA Common Monetary Area
Cnuced Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o
Desenvolvimento

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154 FGV de Bolso

Comesa Common Market of Eastern and Southern Africa


DFID Department for International Development (Reino Unido)
Ecomog Ecowas Cease-fire Monitoring Group
FAO Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura
FMI Fundo Monetário Internacional
Fnuap Fundo das Nações Unidas para a População
Gatt General Agreement on Tariffs and Trade
IDE Investimento direto estrangeiro
IDH Indicador de desenvolvimento humano
Iris Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas
Nepad Nova Parceria para o Desenvolvimento da África
OGM Organismo geneticamente modificado
OIT Organização Internacional do Trabalho
OMC Organização Mundial do Comércio
OMS Organização Mundial da Saúde
ONG Organização não governamental
ONU Organização das Nações Unidas
Onudi Organização das Nações Unidas para o Desenvolvi-
mento Industrial
OSI Organização de solidariedade internacional
OUA Organização da Unidade Africana
PIB Produto interno bruto
PMAs Países menos adiantados

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Geopolítica da África 155

PMEs Pequenas e médias empresas


PMIs Pequenas e médias indústrias
PNB Produto nacional bruto
Pnud Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
PPMEs Países pobres muito endividados
RDC República Democrática do Congo
Recamp Reforço das capacidades africanas de manutenção
da paz
Sacu Southern African Custom Union
SADC Southern African Development Community
SADCC Southern African Development Coordination Conference
Ticad Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desen-
volvimento na África
UA União Africana
UE União Europeia
Uemoa União Econômica e Monetária do Oeste Africano
Unesco Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultura
Unicef Fundo das Nações Unidas para a Infância
Usaid United States Agency for International Development

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Notas

1 Alusão à ópera A arlesiana, de Bizet, na qual a personagem nunca aparece em cena.


2Na tradição de Las Casas, denunciando o massacre dos ameríndios, e da filosofia do Ilumi-
nismo.
3 Ver, por exemplo, a visão hegeliana da África, considerada um continente na sua fase infantil,
ou a malthusiana, que vê na África a ilustração das três parcas mortais (guerras, epidemias,
fome), ou, ainda, a de R. Dumont em Afrique mal partie.
4 Chrétien, 2005.
5 Olivier de Sardan, 1995.
6 Hugon, 2006.
7 Balandier, 1971.
8 Hugon et al., 1994.
9 Bayart; Hibou; Ellis, 1997.
10 Sindjoun, 2002.
11 Coquery-Vidrovirch, 1989; Ilife, 1997; Ki Zerbo, 2003.
12 Balandier, 1978.
13 Pourtier, 2001.
14 Amselle e M’Bokolo, 1986.
15 Pétré-Grenouilleau, 2005.
16 Brunel, 2004.
17 Ver Gide, em Voyage au Congo.

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158 FGV de Bolso

18 Ver De Gaulle, em suas Mémoires d’espoir.


19 Pourtier, 2001.
20 Abreviação de columbita-tantalita (N. do T.).
21 Kane, em L’aventure ambiguë, 1961.
22 Ver Balandier, 2003; e Ki Zerbo, 2003.
23 Dubresson e Raison, 2003:216.
24 Sellier, 2005.
25 Coulon; Martin, 1991.
26Por exemplo, o papel desempenhado por monsenhor Tutu na África do Sul, quando da luta
contra o apartheid, ou pelas igrejas católica e protestante em Madagascar na crise de 2001.
27 Dubresson; Raison, 2003.
28 Bayart et al., 1997.
29 Maquet, 1970.
30 Marchal, 2001.
31 Brunel, 2004.
32 Dubresson e Raison, 2003.
33 Banégas, 2003.
34 Igué, 1991.
35 Médart, 1991.
36 Bayart in Coulon; Martin, 1991.
37 Banégas, 2003.
38 Balandier, 1966.
39 Hugon, 2006.
40 Hugon in Gemdev, 1999.
41 Chataigner, 2005.
42 Balancie e La Grange, 2004.
43 Clapham, 2000.
44 Collier; Hoeffler, 2000:563-573.
45 Jean; Ruffin, 1996.
46 Collier e Hoeffler, 2000.
47 Bayart et al., 1997.
48 Ngoupandé, 2003.
49 Fonte: Stockholm International Peace Research Institute — Sipri, 2005.
50Por exemplo, a Comissão Verdade e Reconciliação, na África do Sul, e os acordos de Ruanda,
Burundi e do Sudão.

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A Mundialização 159

51 Relatório Brundtland, 1987.


52 Dubresson e Raison, 2003.
53 Marx, O Capital, 1865.
54 Sen, 1981.
55 Michailof, 1993.
56 Farsin, 2005.
57 Bouguerra, 2004.
58 Harroy, África, terra que morre, 1941.
59 Von Braun et al., 1996.
60 SEN, 1981.
61 Meillassoux, 1975.
62 Brunel, 2004.
63 Brunel, 2004.
64 Palan, 1998.
65 Stiglitz, 2003.
66 Konaré.
67 Hugon, 2003.
68 Gabas, 1999.
69 Comission pour l’Afrique, 2005.
70 Gabas e Hugon, 2003.
71 Hirschman, 1958.

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0o

tunísia
1956
MaRRocos aRgélia
1956 1962

líbia
1951 Egito

saaRa ocidEntal Trópico de Câncer

Mar
cabo VERdE
MauRitânia
1960
Vermelho
Mali nígER
1975
1960 1960 chadE ERitREia
sEnEgal 1960 1993
1960 sudão
1 buRkina fasso dJibuti
1956
2 1960 1977
guiné
nigéRia
1958 Etiópia
costa do gana 1960
3 REpública
MaRfiM cEntRo-afRicana
1957
1960 1960
libéRia 1847 caMaRõEs
1960 1960 soMália
uganda
4 1962
Linha do Equador 5 Quênia
gabão congo REpública 1963
60 1960 dEMocRática do
19 60 1960 6 sEichElEs
go 19 congo 1976
to niM 7
b E
1960
tanzânia
1961 Oceano
coMoREs
1975 Índico
Oceano Atlântico angola
1975 zâMbia 8 MaiotE
1964
ilhas
ziMbábuE MoÇaMbiQuE MauRício
1980 1975 1960 1968
Trópico de Capricórnio botsuana MadagascaR

naMíbia 1966 ilhas


REunião
1990
suazilândia
1968
lEsoto
áfRica do sul 1968
0o

2 .000 km
ESTADo FunDADor DA onu EM 1945

1960
DATA DE inDEPEnDÊnCiA
1 GÂMBiA 1965 5 SÃo ToMé E PrÍnCiPE 1975

PAÍSES MEnoS AVAnÇADoS 2 Guiné-BiSSAu 1974 6 ruAnDA 1962

3 SErrA LEoA 1961 7 BurunDi 1962


8 MALAui 1964
* TErriTório SEM AuToGoVErno 4 Guiné EquAToriAL 1968

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