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A descolonização da Europa: um refluxo globalizante1

Francisco Soares2

Resumo:
O artigo persegue uma hipótese clara: a de que a história literária europeia,
particularmente o advento dos modernismos, pode ser compreendida, em grande parte,
pela articulação dos respetivos países com o processo de globalização dos mercados.
Explora-se, com mais pormenor, o caso do escritor Blaise Cendrars.

1
O presente ensaio foi primeiro publicado no n.º 4 da Revista angolana de sociologia, saído em Luanda
no final de 2009.
2
Universidade Katyavala Mbwila, Benguela, Angola; Universidade de Évora, Évora, Portugal. Endereço
eletrónico: fmasoares@hotmail.com.
1
O processo de globalização dos mercados, para muitos autores, iniciou-se nos séculos
XV e XVI, coincidindo com o princípio da expansão marítima e colonial europeia. A
partir dessa altura, escritores das colónias, ou de reinos com uma intensa relação com
países europeus colonizadores (como era o caso do reino do Kongo), formavam-se a
partir de um sistema de ensino formal (o dos jesuítas, principalmente), inspirado no
sistema das universidades europeias e na respetiva divisão dos saberes.

O sistema universitário europeu foi crescendo naturalmente (isto é: sem grande


programação governamental) durante a Idade Média. Por isso, uma criança
tradicionalmente formada, entre contos e estórias de encantar, proveito e exemplo,
poemas-romances, lendas, etc., se entrasse no sistema formal de ensino, teria um choque
menor do que um jovem colonizado. Esse vira chegar de repente estrangeiros, o seu país
mudar-se todo e, para ele, o ensino formal não resultava de uma evolução histórica,
natural, ou seja, do desenvolvimento de dinâmicas locais. Por isso podemos dizer que,
desde o início, o choque trazido pela implantação de um ensino formal foi muito mais
sentido, como uma profunda cisão, pelos colonizados. Mesmo filhos de colonos,
nascidos ou criados em pequenos aglomerados urbanos em mistura com os filhos da
terra, tinham uma oralidade e uma realidade de que o ensino colegial não derivava. E
houve, nesse tempo (séc’s XVI e XVII), intelectuais, escritores, padres, filhos da terra e
filhos do reino vindo para cá novos. Os meninos cujos pais tinham poder ou posses
entravam na rigidez formal da ratio studiorum (a regra de ensino dos jesuítas) e saíam
dali, no mínimo, conscientes de que havia planeta maior, com outras culturas, uma das
quais eles conheciam já bem, a par da sua. Mas saíam também de uma cisão. De
maneira que as Descobertas feitas pelos outros foram sentidas, no mínimo por via do
ensino formal (e sublinho isto porque falo de literatura), como um momento de rutura e,
simultaneamente, de consciencialização da globalidade (à falta de outro termo uso este
agora).

Para os europeus, o ‘choque’ provocado pelas Descobertas e pelas colonizações foi


sentido mais lentamente, em diferido, com maior suavidade portanto. A cultura dos
outros não lhes entrou da mesma forma pelas portas adentro. Por isso, numa fase inicial,
as mudanças culturais consequentes não foram tão violentas quanto as de um súbdito
congolês ou as de um habitante da ilha de Luanda, ou as de um mundombe das salinas
de Ombaka. Talvez essa diferença ainda hoje cause distorções e atrasos na
consideração, pelos europeus, do que é o mundo e do que implica, em termos culturais e
literários, a globalização. O que explica, em parte pelo menos, a tendência para ver
como natural a hibridação nos países colonizados enquanto muitas vezes ela ainda não é
vista entre os colonizadores.

O que faço aqui é uma exploração no reverso das caravelas. Penso que a minha hipótese
é clara: a história literária dos países europeus pode ser faseada em função dos
momentos de aceleração nas comunicações e no comércio que marcam cada passagem
do processo de globalização a uma fase nova. O escritor ou crítico dos países do
chamado Terceiro Mundo, apurada como tem a sua sensibilidade à globalização, pode
fornecer aos europeus uma leitura que os leve a compreenderem-se melhor a si próprios.
E que ajude aqueles que, na Europa, em número cada vez maior, se vão apercebendo da
sua própria e histórica hibridação, na qual influíram também os países ‘bárbaros’, as
culturas ‘selvagens’ e ‘primitivas’ do chamado Terceiro Mundo.
2
Olhando-a sob esta nova perspetiva, a eclosão de revoluções literárias a partir da Idade
Média europeia fica, pelo menos parcialmente, explicada pela intensificação do
processo globalizador. No fim do período das Descobertas, que no sentido mais lato se
pode iniciar com a divulgação das viagens de Marco Polo3, surge o chamado
Renascimento. Que foi, também, uma libertação face ao espartilho escolástico imposto
pela Igreja Católica Romana à cultura europeia (Marco Polo chega à capital do império
mongol no ano em que morre S. Tomás de Aquino). Foi, ainda, a redescoberta da
Grécia antiga (reduzida que estava a um Aristóteles domesticado), em cuja história se
reflete igualmente uma proto-globalização fundamental, a do antigo Mediterrâneo ([o
oceano no] meio da terra, etimologicamente). Foi, por extensão, uma redescoberta do
Egito, da Mesopotâmia, da Índia, da Etiópia, de uma série de regiões das quais os
europeus foram afastados pelas guerras religiosas, por uma cortina de ferro tanto cristão
quanto islâmico. Significativamente, a Maçonaria e outras ordens secretas surgem (ou
ressurgem, conforme as versões) no século XVII, reclamando-se de uma sabedoria que
tinha origem nos construtores das pirâmides e não só das catedrais. O retorno dos
viajantes (e militares, comerciantes, padres, escritores, governantes), assim como a
vinda de escravos e padres do ‘ultramar’, sacudiu literalmente a sabedoria europeia
medieval e tinha que levar a uma revolução cultural. Ora os gregos sabiam mais do
mundo que os ‘bárbaros’ germânicos e eslavos… e, mesmo assim, Camões pôde
comparar a realidade da epopeia portuguesa à ficcionalidade da epopeia clássica latina
e grega. E não por acaso o Renascimento pôs a circular por toda a Europa esta máxima
exemplar: “a experiência é madre (mãe) das coisas”. E fez Leonardo da Vinci afirmar
que “a sabedoria é filha da experiência”4. Ora, a experiência estava naquele instante a
desmentir a sabedoria anterior.

3
Terminadas nos anos 90 do século XIII, a divulgação das viagens começa no princípio do século XIV e
no final do século XV (1485) foram finalmente impressas.
4
Onésimo Teotónio de Almeida estudou a circulação da frase pela Europa. V. «Sobre a revolução da
experiência no Portugal do século XVI: na pista do conceito de "Experiência a Madre das Cousas"»,
http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e34.html (captada a 28-04-09).
3
Ao longo dos dois séculos seguintes (XVII e XVIII) a aceleração do comércio mundial,
de que a mundialização do negócio da escravatura foi a face mais hedionda, acentuou
apesar de tudo o conhecimento que íamos tendo uns dos outros. No fim do século
XVIII, na sua segunda metade, praticamente todas as potências europeias estavam
muito envolvidas no comércio e na colonização além-mar, guerreando e pirateando-se,
importando escravos, convivendo com eles. Mesmo dentro da Europa, filósofos como
Kant, que passou a vida em Köenigsberg, encontravam-se posicionados em centros de
trocas comerciais de cada vez maior alcance (entre ocidente e oriente, norte e sul); não
por acaso a sua filosofia desloca o epicentro da reflexão europeia da erudição para o
criticismo através de uma perspetiva que podemos considerar aberta ao ecletismo desde
os seus fundamentos. É desejável, penso, estudarmos a relação possível entre o
Idealismo e o choque provocado pela diversidade cultural que se mostrava ali mesmo
onde ele vivia. O próprio Iluminismo desenvolveu, sendo fiel ao mito da razão única e
universal, uma pesquisa cada vez mais ampla sobre flores, animais, minérios, povos,
costumes não-europeus. Isso irá dando frutos cada vez mais surpreendentes, até
sustentar em grande parte o evolucionismo de Darwin, sensivelmente a meio do século
XIX. Literariamente, o alargamento das investigações a todo o mundo vai ter
consequências, por exemplo, no Candide de Voltaire, que de outra maneira não seria
possível.

A par da progressão filosófica e científica, o aparecimento do barco a vapor (nos


primeiros anos do século XIX e com soluções variadas) potenciava a aceleração e
mundialização do comércio que trazia, por tabela, cada vez mais intensas notícias dos
‘novos’ mundos. A chamada revolução industrial tornou-se possível (e sustentável), em
grande parte, graças à mundialização da economia (a outra grande parte é a do avanço
científico e da criatividade tecnológica). Por fim, a sucessão de vitórias de Toussaint
Louverture5 na ilha de Santo Domingo (que representava, nas vésperas da Revolução,
2/3 da produção colonial francesa) apanha de surpresa, assusta, choca os europeus. Pela
primeira vez são superados por escravos e descendentes de reis africanos negros
derrotados e escravizados por europeus. Ainda por cima, depois de preso o chefe
carismático, os restantes rebelados conseguem declarar e defender definitivamente a
independência. Portanto, quando ‘o primeiro dos negros’ escreve ao ‘primeiro dos
brancos’6 abre uma rutura que é também epistemológica e não só política. Essa rutura
vai atuar dentro das culturas europeias criando seus próprios abalos sísmicos.

Simultaneamente mas não aleatoriamente, espalha-se por uma Europa inflamada o


romantismo, com a sua afirmação das emoções, dos sentimentos, numa explosão de
afetividade que até ali era associada a bárbaros e selvagens (ainda Senghor traça a linha
de separação entre europeus e africanos como a fronteira entre o predomínio da razão e
o predomínio da emoção). O racionalismo falhara em diversos campos e o mundo que

5
Culminando na promulgação de uma constituição para toda a ilha (de S.to Domingo) e da auto-
proclamação do próprio como governador vitalício (em 1801), tudo à revelia de Napoleão, que acabará
por mandar um exército derrotá-lo, prendê-lo (à traição) e trazê-lo para França (1802), de cujas prisões
nunca mais saiu. A rebelião começara na noite de 22 para 23 de Agosto de 1791, feita por escravos e
recorrendo a práticas vodoo. Ela conduzirá, já depois da prisão de Louverture, à proclamação da
independência e renomeação da ilha (Haiti) em 29-11-1803. Entre outras páginas, consulte-se
http://pt.abolitions.org/index.php?IdPage=1182260433 (captada em 1-5-2009).
6
Referência ao início da célebre carta que Toussaint Louverture escreve a Napoleão. Na sequência,
Chateaubriand chamou a Louverture o Napoleão negro.
insistentemente regressava com os navios continuava a desmenti-lo, ou pelo menos a
obrigá-lo a repensar o que tinha escrito. Enquanto o racionalismo fazia os melhores
esforços por abarcar, com a razão universal, as mais diferentes realidades, o romantismo
imaginava-as com o seu gosto pelo exótico, pelo estranho, com o incentivo das
impressões pessoais e das lendas de povos distantes, absorvendo por essa via a
diversidade que se vinha interiorizando e alargando ao mesmo tempo. Ao mesmo
tempo, o movimento romântico espalhava-se, mais do que qualquer outra corrente
literária anterior, por todo o mundo, globalizava-se já, embora a um ritmo muito mais
lento do que posteriormente o modernismo. A sua dedicação às tradições populares e
antigas facilitou, sem dúvida, a absorção e apropriação do movimento em países como o
Brasil, que lhe agrega o indianismo. No retorno, o indianismo, e outros regionalismos-
nacionalismos, tornam-se conhecidos e procurados na Europa, que por essa via também
vê reforçado o regresso ao seu próprio passado medieval, às tradições orais antigas,
populares, não racionalizadas. A migração global do romantismo prova que, a antecedê-
lo, havia todo um processo de aceleração das comunicações e de interligação dos
mercados e dos continentes e, a par disso, o romantismo torna-se via para importações
culturais dos exportadores de cultura dominantes.
4
A partir daí foi o que foi: uma sucessão cada vez mais rápida de ‘escolas’, ideologias e
vanguardas literárias, principalmente centrada em Paris, uma Paris absorvente, na qual
se reunia cada vez maior número de massa cinzenta vinda dos mais diversos lugares do
mundo. O número e a rapidez com que tais ‘escolas’ e ‘movimentos’ emergem e
desaparecem é um testemunho eloquente da crise da razão europeia no século XIX. E
ela vai crescendo até chegarmos ao que genericamente chamamos ‘modernismo’, ou
modernismos. A profundeza das ruturas então alcançadas estabeleceu um ponto de não-
regresso. A acompanhá-la vinham fotografias do mundo inteiro, reportagens, noticiários
cada vez mais próximos da notícia, reportagens, livros de viagens, exotismos, pinturas e
esculturas ‘primitivas’ ou baseadas nas dos povos ‘primitivos’. Os próprios escritores,
artistas, intelectuais, começam a viajar e não só a receber colegas de todas as partes do
mundo. Começam muitos dos escritores europeus a nascer, criar-se ou deixar-se marcar
definitivamente por países e culturas exteriores à Europa.

Veja-se, por exemplo, o modernismo português. Ele concentra-se numa tríade


fundamental, composta pelos nomes de Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário
Sá-Carneiro. Sá-Carneiro vai viver para Paris, onde se suicida e onde acedeu à
diversidade estonteante desses anos nos boulevards. É o menos radical na escrita, no
entanto o primeiro a trazer a visualidade pelo desenho dos versos, mas é radical o
suficiente para marcar o modernismo português. Fernando Pessoa, a figura mais saliente
e complexa dos três, é criado e formado, em parte significativa, na África do Sul, onde
se interessa por rituais africanos e, muito em especial, do antigo Egito. Almada
Negreiros é, como se sabe, neto ou bisneto de uma avó benguelense, mestiço, filho de
proprietários de roças e foi iniciado na pintura por um seu tio, são-tomense, como ele
mestiço cultural e biológico.

Figuras fundamentais do modernismo na Europa apresentam biografias semelhantes.


Uma das mais marcantes foi a de Saint-John Perse (1887-1975), filho das colónias
(nascido em Point-à-Pitre), admirador da cultura chinesa (viveu na China entre 1916 e
1921, tendo escrito nesse país um dos mais famosos livros: Anabase), residente nos
EUA (1940-1957), enfim, cidadão do mundo. Veja-se também o caso italiano: Marinetti
(1876-1944), o fundador do Futurismo, nasce em Alexandria, filho de pais a viver em
união de facto, estuda no Egito, França (escreveu em Francês até 1912), Itália e Suíça,
formando-se em Leis na Lombardia (Pavia). Giuseppe Ungaretti, figura fundamental da
poesia italiana da primeira metade do século XX, nasce também em Alexandria, no
subúrbio Moharrem Bey, filho de emigrantes da Toscânia (Lucca), de ascendência
judaica; estudou na Ecole Suisse Jacot, uma das mais prestigiadas de Alexandria, graças
ao proventos de um forno gerido pela mãe; conviveu diariamente com uma mulher
sudanesa e outra croata nos anos do Egito; um amigo egípcio introdu-lo à poesia de
Baudelaire, ao mesmo tempo que se inicia nas literaturas francesa e italiana; ainda no
Egito trabalha como correspondente comercial e integra círculos anarquistas e
socialistas; depois parte para o Cairo e, em 1912, instala-se em Paris para prosseguir os
estudos. Muitos outros podíamos nomear. A par deles, nomearíamos também, se espaço
e tempo houvesse agora, as exposições de arte ‘primitiva’, ‘negra’, enfim, dos
‘selvagens’ de várias partes do mundo; a proliferação e o prestígio do jazz na Europa,
particularmente em Paris; a criação e o recheio de museus etnográficos; o
desenvolvimento de estudos antropológicos sobre as mais diversas etnias, religiões,
culturas. Tudo num feixe, a par do aparecimento de um número cada vez maior (embora
reduzido ainda) de negros e mestiços a estudar nas universidades do Norte do planeta. A
cultura europeia não podia mais ser a mesma.

Simultaneamente, a revolução nas comunicações então iniciada, nos transportes, na


interdependência dos mercados, na circulação de livros e bens culturais, na invenção
tecnológica, acelerou-se a tal ponto que os próprios instrumentos usados pelos artistas
iam-se tornando outros, completamente novos, ao mesmo tempo em que os seus
públicos eram cada vez mais diversos. Daí revoluções artísticas vindas logo a seguir aos
modernismos, como a da poesia sonora, a da poesia visual, a da poesia concreta e
experimental – até às atuais poéticas interativas, digitais, informacionais.
5
No caso concreto deste artigo pretendo experimentar a minha tese passando uma vista
de olhos pela biografia de um suíço que marcou o modernismo a nível global (e o
modernismo foi a primeira revolução literária verdadeiramente global). Trata-se de
Blaise Cendrars, de seu nome artístico ou pseudónimo7. Nada faria pensar que um
homem nascido nos Alpes se tornasse tão rapidamente e por tão diversas vias um
cidadão do mundo marcado profundamente por esse mundo. Havia ainda na mente de
muitos uma imagem da Suíça mais fechada – e, no entanto, ela era já multilinguística
desde a nascença.

Retiro da sua biografia apenas aspetos que mais diretamente se relacionam com a minha
hipótese, complementar de uma outra exarada no número anterior desta mesma revista.

Como disse, Blaise Cendrars é um pseudónimo. Pseudónimo de Frédéric-Louis Sauser,


nascido em 1887 em La Chaux-de-Fonds, 27 rue de la Paix, Neuchâtel, Suíça. A julgar
pelo que ele próprio mais tarde divulgou e alguns biógrafos confirmam, a mãe seria de
origem escocesa, sendo apenas o pai suíço de gema.

Entre 1894 e 1896 a família viveu em Nápoles, sul de Itália, onde o jovem Frédéric
frequentou a Scuola Internazionale.

Nos anos de 1905 a 1907 viveu em São Petersburgo, tendo-se empregado na casa de M.
Leuba, relojoeiro suíço.

Os anos de 1910 e 1911 são férteis em viagens: estadias em Paris, São Petersburgo,
Nova Iorque, onde ele re-encontra uma antiga paixão: Féla Poznanska.

Em 1912, em New York, sai Hic Haec Hoc, primeiro texto assinado Blaise Cendrart (aí
aparece mesmo o ‘t’ em vez do ‘s’).

Voltando a Paris, funda com Emil Szittya a revista Les hommes nouveaux (Os novos
homens – repare-se no título) e publica o primeiro grande poema, Les Pâques (Les
Pâques à New York). Aí re-encontra Guillaume Apollinaire e a vanguarda parisiense.

7
Veja-se, pelo menos, a página http://www.cebc-cendrars.ch/ (consultada a última vez a 28-04-2009).
A sua poesia lírica reflete, logo nos títulos e desde o início, esta sensibilidade a espaços
e sociedades diferentes. Dos nove livros que a totalizam, quatro (Les Pâques à New
York, 1912; Prose du Transsibérien et de la petite Jeanne de France, 1913; Le Panama
ou les aventures de mes sept oncles, 1918; Feuilles de route. 1. Le Formose, 1924)
mostram logo na capa uma tal sensibilidade.

Fazia parte dessa sensibilidade uma atração forte pelo continente americano e pelos
negros e negras. Como se pode ver nitidamente em Feuilles de route. 1. Le Formose,
Cendrars, que detestava a literatice, os literatos, a retórica balofa, procurava reduzir a
expressão ao mínimo indispensável. Vejamos dois exemplos:

1) O navio em que segue é retratado, na sua componente humana, de maneira a


servir de metonímia à própria Europa multicultural que ele conhecia bem:
seguem nele judeus (“em minoria como em sua casa na Polónia”), russos (“a
jogar às cartas à luz de um farol veneziano”), espanhóis (“que tocam a
bandurria, cantam e bailam a jota”), portugueses (“no castelo da proa fazem
uma roda camponesa um negro toca duas grandes castanholas de osso e os pares
rompem a roda evoluem giram batem os calcanhares enquanto se levanta uma
voz guinchante de mulher8”), alemães (“emigrantes alemães muito limpos e
cuidadosamente penteados cantam com suas mulheres e seus filhos cânticos
duros e canções sentimentais”), “Bordeleses” (de Bordéus; “jogam às cartas” na
“despensa”) e geralmente povos do Leste da Europa (“na coberta da popa há
fortes discussões e rixas em todas as línguas do Este da Europa”).
2) Um dos postais de Dakar é este: “o povoado negro é menos feio e menos sujo
que a zona de Saint-Ouen. / As aves de rapina que o sobrevoam às vezes baixam
e o limpam”.

Note-se como a linguagem é denotativa, a referência é direta. É a partir da imagem crua


que uma tal denotação nos dá que vamos conotá-la poeticamente (por exemplo
pensando na ironia feroz que descreve o “povoado negro”). Esse é o tom geral do livro,
do estilo de Cendrars aliás. Uma espécie de ascese que leva o poeta a despir-se o mais
possível de si próprio para ser apenas imagem, fragmento, espelho tanto quanto
possível. Mesmo quando refere os seus desejos e os ascos fá-lo numa linguagem direta,
crua, como se estivesse a falar de outra pessoa, ou com a simplicidade com que uma
criança fala de si própria.

No entanto, vejamos como escreve as mulheres negras. Fá-lo num texto intitulado «As
bubús» (referindo-se às túnicas). Começa por uma descrição denotativa (a que a
exclamação inicial parece desajustada): “Oh essas negras que se encontram nos
arredores do povoado negro em casa dos traficantes que tomam por anacronismo o
algodão do tráfico”. Logo em seguida, porém: “nenhuma mulher do mundo possui essa
distinção essa nobreza esse andar esse ar esse porte essa elegância essa indolência esse
refinamento essa limpeza essa higiene essa saúde esse otimismo essa inconsciência essa
juventude esse gosto”. E segue por aí numa extensa lista de comparações com europeias
(inglesas, parisienses, espanholas, russas, húngaras, arménias), chinesas, norte-
americanas, para depois fazer uma nova descrição denotativa mas muito longa.

8
O barco ia para o Brasil, via Dakar, e o retrato é feito logo antes de aportarem a Dakar. Parecem-vos
mesmo portugueses que iam emigrar para o Brasil?
A fascinação pela negra é portanto autêntica, emergindo inesperadamente (parece-nos
que espontaneamente) no meio da ascese poética centrada em descrições denotativas. A
diversidade que tais denotações retratam, junto com o deslumbre por uma figura não-
europeia, mostram-nos uma das vias pelas quais os poetas modernistas procuraram
perceber o outro, alcançá-lo, atingi-lo ou sabe-lo. A nudez da expressão mostra-nos
também uma das consequências que teve a relativização dos saberes e das habilidades
técnicas após o retorno do mundo à Europa.

É desse mesmo mundo e do mesmo mundo negro que sai uma das antologias mais
conhecidas de Cendrars: Petits contes nègres por les enfants des Blancs (1928:
Pequenos contos negros para os filhos dos Brancos). Dois anos depois da antologia, faz
publicar outro título sintomático da relação profunda entre a evolução das literaturas
europeias e o processo de globalização: Comment les Blancs sont d'anciens Noirs
(1930: Como os Brancos são antigos Negros).

Não admira, portanto, que a reunião da sua poesia completa, publicada ainda em vida do
autor, viesse a intitular-se Do mundo inteiro ao coração do mundo. Um percurso que
pode resumir a descolonização cultural da própria Europa a partir da sua expansão.

Benguela, Abril-Maio 2009.

Bibliografia

ALMEIDA, Onésimo Teotónio de


SD: «Sobre a revolução da experiência no Portugal do século XVI: na pista do conceito
de "Experiência a Madre das Cousas"», http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/e34.html
(captada a 28-04-09).

CENDRARS, Blaise
2009: Hojas de ruta 1. el Formose, Madrid: Fundación Juan March.

AAVV
SD: http://pt.abolitions.org/index.php?IdPage=1182260433 (captada em 1-5-2009).

AAVV
SD: http://www.cebc-cendrars.ch/ (consultada a última vez a 28-04-2009).

Como citar:

Soares, F. (2009). A descolonização da Europa. Revista angolana de sociologia (2.ª).


(P. d. Carvalho, Ed.) Luanda, Angola: Associação angolana de sociologia.