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A QUESTÃO DO

CONHECIMENTO
Introdução à fenomenologia e ao existencialismo
Prof. Pedro Milanesi
APRESENTAÇÃO
Objetivo da aula:

Retomar e rever a trajetória da filosofia no que diz respeito às questões centrais do


conhecimento.

Esta aula aborda questões filosóficas fundamentais desde os pré-socráticos até a


modernidade. Tem por fundamento esclarecer como a filosofia grega abriu
caminho e influenciou as formas de pensamento; quais foram os momentos de
ruptura e diferenciação e; esclarecer a noção de sujeito do conhecimento.

Nota: Este slide foi feito com base no texto indicado para a aula (CHAUÍ, 2010) e
contém citações diretas e sínteses do professor. Entendendo que este é um material
de uso do professor (e não será publicado), para fins de despoluir o texto, suprimiu-se
as citações.
INTRODUÇÃO
O que é filosofia? Como se filosofa?

Embora filosofia seja sinônimo de pensamento, nem todo pensar é filosófico.


A filosofia é um modo rigoroso de pensar as coisas e de pensar o pensar ele
mesmo.

Questões fundamentais! (sobre o Kosmos)


Respostas às questões fundamentais! (Cosmologia)
Como se estruturam essas respostas?
 Como se estruturam as perguntas?
 O SER! – Ontologia.
COMO PENSAR O SER DAS COISAS?
PRIMEIROS FILÓSOFOS:
HERÁCLITO DE ÉFESO
• Natureza como um fluxo perpétuo.

“Não podemos banhar-nos duas vezes no mesmo rio, porque as águas nunca
são as mesmas e nós nunca somos os mesmos” (Heráclito)

• Defendia que todas as coisas se mutavam em seu contrário; isso só era


acessível pelo pensamento, pois a percepção nos engana com a aparente
permanência das coisas.
• Para Heráclito o ser das coisas é mutável!
PRIMEIROS FILÓSOFOS:
PARMÊNIDES DE ELÉIA
colocava-se na posição oposta à de Heráclito.

Só podemos pensar sobre o que permanece idêntico a si mesmo (princípio


da permanência do ser). Conhecer significa: alcançar o idêntico e imutável.

• A percepção nos oferece uma imagem enganosa do mundo, pois ela


apreende sua mutação.
• O pensamento consegue acessar, na mutação ilusória, a profunda
imutabilidade.
• O ser é imutável!
PRIMEIROS FILÓSOFOS:
DEMÓCRITO DE ABDERA
O pensamento de Demócrito é conhecido como Atomismo (Lembram?)
Entende que a natureza é organizada por átomos que se compõem dando
origem aos elementos mais ou menos complexos.
Um átomo é uma partícula indivisível.
• “Assim, os seres surgem por composição dos átomos, transformam-se por novos
arranjos dos átomos e morrem por separação dos átomos”.

“Demócrito não considera a percepção ilusória, mas uma parte integrante


do conhecimento. Porém, para ele, o sensível é uma verdade diferente,
menos profunda e menos relevante que a verdade desvelada pelo
pensamento”.
SÍNTESE DOS PRÉ-SOCRÁTICOS
Apesar das diferenças de pensamento entre eles, os três filósofos entendem
que:
1) Pensamento e percepção são distintos.
• Heráclito e Parmênides concordam em desfavor ao sensível;
• Demócrito entende o sensível parte da verdade, embora diferente e menor.

• Questões: “Pensamos a partir do que percebemos ou pensamos negando o


que percebemos? O pensamento continua, nega ou corrige a percepção? O
modo como os seres nos aparecem é o modo como os seres realmente são?”
2) Cabe ao pensamento identificar e eleger as leis gerais (ou conhecimento
universal) das coisas.
SÓCRATES E OS SOFISTAS
Os sofistas:
• “diante da pluralidade e do antagonismo das filosofias anteriores, ou dos
conflitos entre as várias ontologias, concluíram que não podemos conhecer
o Ser, mas só podemos ter opiniões subjetivas sobre a realidade”;

• “Por isso, para se relacionarem com o mundo e com os outros humanos, os


homens devem valer-se de um outro instrumento – a linguagem – para
persuadir os outros de suas próprias ideias e opiniões”.

• É verdadeira a ideia que é aceita por todos.


SÓCRATES E OS SOFISTAS
Sócrates:

• “a verdade pode ser conhecida, mas primeiro devemos afastar as ilusões


dos sentidos e as das palavras ou das opiniões e alcançar a verdade
apenas pelo pensamento”.

• “Conhecer é: passar da aparência à essência, da opinião ao conceito, do


ponto de vista individual à ideia universal de cada um dos seres e de cada
um dos valores da vida moral e política”.
PLATÃO E ARISTÓTELES
Na tarefa de conhecer, pelo caminho dado por Sócrates, Platão e Aristóteles
introduzem a ideia de grau de verdade ou falsidade no conhecimento (Ex.
conhecimento mais ou menos verdadeiro, mais ou menos falso ... Embora
ainda em parte verdadeiro ou falso).

 Para Platão, esses graus são:


Conhecimento sensível (inferior) – a Crença (impressão pessoal ou afeto) e a
Opinião (perspectiva particular sobre algo);
Conhecimento inteligível (superior) – o Raciocínio (comparação e
proporção) e a Intuição (ideia – forma verdadeira).
Exemplo de conhecimento da intuição é a matemática e as formas
geométricas.
PLATÃO E ARISTÓTELES
Para Aristóteles existem 6 graus de conhecimento:
• Sensação; percepção; imaginação; memória; raciocínio e intuição.
• Todos esses graus contribuem para a construção do conhecimento mais
puro e verdadeiro.

“Em cada um dos cinco primeiros níveis temos acesso a um aspecto do Ser
ou da realidade e, na intuição intelectual, temos o conhecimento pleno e
total da realidade ou dos princípios da realidade plena e total, aquilo que
Aristóteles chamava de “o Ser enquanto Ser””.
SÍNTESE DOS GREGOS
(OU FILOSOFIA CLÁSSICA)
1) Existem fontes para o conhecimento: sensação; percepção; memória, etc;
2) O conhecimento verdadeiro é o intelectual e intuitivo;
3) Há distinção entre o conhecimento sensível e o inteligível;
4) O papel da linguagem na construção do conhecimento (ex. retórica e
matemática);
O 4 e 5 estabelecem a distinção entre opinião e saber filosófico e entre aparência
e essência.
5) A distinção entre os campos do conhecimento verdadeiro:
• Teorético (inteligível e contemplativo – isto é, não é possível ação humana);
• Prático (ética, política e economia – isto é, ações puramente humanas);
• Técnico (arte; medicina; arquitetura, etc – isto é, ação do homem com a natureza).
SÍNTESE DOS GREGOS
(OU FILOSOFIA CLÁSSICA)

Para os gregos, a realidade é a Natureza e dela fazem parte os humanos e as


instituições humanas.

“O intelecto humano conhece a inteligibilidade do mundo, alcança a


racionalidade do real e pode pensar a realidade porque nós e ela somos
feitos da mesma maneira, com os mesmos elementos e com a mesma
inteligência”.
FILOSOFIA MODERNA E TEORIA
DO CONHECIMENTO
Moderna! – Lembram?

O que mudou (desde os gregos)?


R: O cristianismo!

Afirmações como: distinção entre fé e razão; verdades reveladas e verdades


racionais (sim! Dois “tipos” de verdade); matéria e espírito (sim! Duas
naturezas ou realidades); corpo e alma; naturalidade humana do erro e da
ilusão... Trouxeram novos contornos à questão do conhecimento e da
verdade.
NOTAS SOBRE O CRISTIANISMO
NA FILOSOFIA
Para a filosofia medieval a questão de como nós, mortais e impuros, conseguimos
conhecer a verdade (imortal, pura, pois divina).

Por isso, o grande tema da filosofia medieval foi a fé, entendida como uma dádiva
divina que permite à alma humana acessar as verdades divinas e o mundo material
ao mesmo tempo.

A fé doutrinada permitia que a vontade humana recebesse iluminação da verdade


universal.

Com o fim da idade média (e a filosofia teve muito a ver com isso), a questão do
conhecimento precisa ser re-colocada.
E FOI +/- ASSIM...
• Os gregos se surpreendiam que pudesse haver erro, ilusão e mentira.
“Como é possível o erro ou a ilusão? Ou seja, como é possível ver o que
não é, dizer o que não é, pensar o que não é?”

• “Para os modernos, a situação é exatamente contrária. Se a verdade


depende da revelação e da vontade divinas, e se nosso intelecto foi
pervertido pela nossa vontade pecadora, como podemos conhecer a
verdade? Se a verdade depender da fé e se depender da fraqueza da
nossa vontade, como nossa razão poderá conhecê-la?”

Síntese: Os gregos perguntavam “Como o erro é possível?” e os modernos


perguntavam “Como a verdade é possível?”.
NOTAS SOBRE O CRISTIANISMO
NA FILOSOFIA
O cristianismo, formalizado sob fortes influências do Império Romano, traz
consigo a noção de pessoa. Uma pessoa, é uma consciência, isto é, uma
alma (graça divina) dotada de vontade e aprisionada em um corpo.

Diferente dos gregos, os medievos defendiam que o acesso ao


conhecimento é parte da vontade que deve ser separada do mundo
material para alcançar o espiritual. A verdade, para eles, é realidade divina e
não há consenso (permanece em questão) do quanto temos ou não acesso
a ela.

“Os primeiros filósofos cristãos e os medievais afirmavam que podemos


conhecer a verdade, desde que a razão não contradiga a fé e se submeta a
ela no tocante às verdades últimas e principais”.
FILOSOFIA MODERNA
Após a crise do mundo religioso, a filosofia se vê também chamada a
enfrentar três desafios:

1º Separar conhecimento religioso (a fé) de conhecimento racional.


2º Determinar como a alma humana pode conhecê-los.
3º Explicar como a razão, orientada para a verdade, pode se tornar mais
forte que a vontade (para evitar erros e ilusões).

Nesses três desafios, evidencia-se ainda mais que o conhecimento verdadeiro


depende de certa habilidade de quem conhece (Surge a expressão: sujeito
do conhecimento).
FILOSOFIA MODERNA
Assim, o termo teoria do conhecimento diz de uma tentativa de conhecer os
modos e os processos do conhecimento a fim de certificar-se de seus
resultados e afirmações.

Isso significa dizer que ela se volta, neste momento, para compreender a
relação entre pensamento e as coisas; consciência e mundo; entendimento
e realidade... Em suma: entender a relação entre sujeito (do conhecimento) e
objeto (a ser conhecido).
OS PRIMEIROS MODERNOS
(BACON E DESCARTES)
Nos primeiros filósofos modernos, surge um modo peculiar de orientar a
filosofia: a análise dos preconceitos e do senso comum.
(Ex: Crítica aos ídolos de Bacon e a dúvida metódica de Descartes).

Descartes:
Defendia que ao filósofo cabia avaliar todo o seu pensamento para
identificar a fonte e causa de cada um dos seus elementos e, assim, eliminar
tudo o que estiver fundamentado em falsidades (como as sensações, a
vontade, as paixões e as opiniões já formadas do mundo).
OS PRIMEIROS MODERNOS
(BACON E DESCARTES)
Bacon, da mesma forma, defendia que devemos combater os ídolos do
conhecimento (a palavra ídolo vem da palavra Eidolon [imagem] do grego).
São eles:
Ídolos da caverna: isto é, da percepção.
Ídolos do fórum: opinião pública, senso comum.
Ídolos do teatro: leis, valores, regras (ligadas às estruturas de poder e controle
social).
Ídolos da tribo: opiniões que se formam a partir da nossa natureza humana
(por exemplo a reprodução, a necessidade de abrigo, etc.)
JOHN LOCKE
Recomendação de leitura: Ensaio acerca do entendimento humano.

Locke é considerado o pai da teoria do conhecimento e seu pensamento


influencia a ciência até os dias de hoje.

Locke entendia que compreender o entendimento humano só é possível se


esclarecermos as linhas de continuidade e ruptura entre as sensações e o
pensamento intelectual. Para ele, assim como Aristóteles (e diferente de
Descartes e Bacon), a sensação é parte integrante do conhecimento e
precisa ser trabalhada para que se torne conhecimento explícito e confiável.
EM SÍNTESE
A teoria do conhecimento e o início da filosofia moderna opera a partir de
alguns princípios:

1) O conhecimento depende do homem (princípio humanístico ou


antropocêntrico);
2) Somos sujeitos do conhecimento;
3) O conhecimento é uma operação da consciência sobre si mesma e sobre
os objetos do mundo.
MAS, O QUE É CONSCIÊNCIA?
Eae! O que se entende por consciência?

• Do ponto de vista filosófico: consciência é todo conhecimento (das coisas e


de si) e um conhecimento desse conhecimento (reflexão).
• Do ponto de vista psicológico: é um sentimento e um senso de nossa
própria identidade (o nosso eu).
• Do ponto de vista ético e moral: a consciência é a espontaneidade livre e
racional, para escolher, deliberar e agir conforme à liberdade, aos direitos
alheios e ao dever.
• Do ponto de vista político: a consciência é aquilo que compõe o cidadão.
Isto é, alguém situado e responsável pelas relações sociais da qual
pertence e participa.
CONSCIÊNCIA E TEORIA DO
CONHECIMENTO
“Do ponto de vista da teoria do conhecimento, a
consciência é uma atividade sensível e intelectual dotada
do poder de análise, síntese e representação. É o sujeito do
conhecimento”.

• Ao contrário do eu, o sujeito do conhecimento não é uma vivência


individual, mas aspira à universalidade, ou seja, à capacidade de
conhecimento que seja idêntica em todos os seres humanos e com
validade para todos os seres humanos, em todos os tempos e lugares.
EXEMPLO
Independentemente de gostar ou não de matemática, de estar triste ou feliz,
de ser proletário ou dono de um grande meio de produção... 1 + 1 = 2.

Ou seja: a condição individual (do eu) não interfere na formalização do


conceito matemático.

Ou seja 2: a expressão do conceito matemático, tal como acima, é obra


humana, embora diga de relações universais.

Então: a matemática em seus princípios e linguagem, tal como expressa


acima foi obra do sujeito do conhecimento. O mesmo vale para todo
conceito formal em filosofia e ciência...

... Será?
FIM
SUBJETIVIDADE?

Dá tempo de falar em subjetividade?