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Rural Sul

agricultura
de família
texto  José Zasso, Larissa Grizoli e Mateus Boing
fotos  José Zasso, Larissa Grizoli, Pedro Vidal
e KEEP Studio
design  Pedro Vidal

8
b
retratos a revista do ibge mar 2018
G ente que veio de longe para
trabalhar a terra e dela tirar seu
sustento. Essa é a história de
diversas famílias que chegaram
à Região Sul do Brasil para se
dedicar à agricultura. Hoje,
deu numa região subtropical
do Brasil, de relevo acidentado
e repleta de rios e cachoeiras.
Exigiu adaptação e persistência;
gerou prosperidade e doçura. A
história da banana de Corupá –

Divulgação
muitas delas cuidam com as a mais doce do país e segunda
próprias mãos de diversas colocada nacional em termos
etapas da produção agrícola, de cultivo por município
como a colheita. O resultado (157.622 toneladas em 2016, de Agregando valor
O livro “Banana da
são produtos típicos da região acordo com a Produção Agrí-
Região de Corupá:
como a erva-mate, cujo cultivo cola Municipal, do IBGE) – é a levantamento histórico
é uma tradição que atravessa história dos Gesser, dos Lange, e cultural”, publicado
gerações, especialmente no Rio dos Glowacki, dos Minatti, dos pela Asbanco e pelo
Sebrae, é resumo de
Grande do Sul. Já a banana, Müller e outras famílias de imi- um dos levantamentos
fruta amplamente consumida grantes que chegaram ao vale exigidos para se
no país, também tem sua versão do rio Itapocu, norte de Santa obter registro de
Indicação Geográfica
sulista, que segundo os agri- Catarina, a partir da segunda (IG) na modalidade
cultores do vale do Itapocu, em metade do século XIX. Denominação de
Santa Catarina, é a mais doce Localizada nas encostas da Origem (DO). A IG é
uma certificação do
do país. E por falar em sabor, Serra do Mar, com microclima
Instituto Nacional da
são as amoras que garantiram quente e úmido, grande am- Propriedade Industrial
que antigas receitas de família plitude térmica e chuvas bem (INPI) a produtos que
fossem resgatadas para transfor- distribuídas ao longo do ano, a são característicos do
seu local de origem,
mar a fruta colhida em geleia, região de Corupá reúne condi- atribuindo reputação,
licor e outras iguarias em Ponta ções especiais que influenciam valor intrínseco,
Grossa, no Paraná. o crescimento e a composição identidade própria e
distinção em relação a
química da banana.
Leonardo Sousa Vieira

similares no mercado.
DOCE POR NATUREZA No Equador e na Costa Rica, O IBGE participa do
Ela tem origem nas florestas maiores exportadores mundiais, processo homologando
delimitações cartográ-
tropicais do sudeste da Ásia. são necessários de sete a oito
ficas e incluindo o
Eles vieram do clima tempera- meses para a colheita. No vale produto em mapas
do da Europa. O encontro se do Itapocu, de 13 a 14 meses. temáticos.

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texto  Marília Loschi
foto  Helena Tallmann
arte e design  Pedro Vidal

Leonardo Sousa Vieira


Isso aumenta não só os Daí a importância de se SANTA CATARINA2
níveis de amido e açúcares obter uma certificação como o Banana 29.575ha
naturais, mas também os teores registro de Indicação Geográ- 721.579 toneladas
Produtos: barra nutritiva,
de potássio, manganês e cálcio. fica (IG) [ver coluna na pág. 9] chips, doce, in natura,
“Análises mostraram que a nossa para as cerca de 600 famílias de passa entre outros
banana tem até cinco vezes mais bananicultores da região, cujo
potássio do que as do Equador modelo de agronegócio é típico
e Costa Rica. É uma fruta menos do meio rural catarinense: 70%
ácida e, quanto menor a acidez, são pequenos e médios pro-
maior a sensação de doçura”, dutores com oito hectares, em
explica Eliane Cristina Müller, média, de área plantada. Por
diretora-executiva da Associa- décadas à mercê de atravessado-
ção dos Bananicultores de res, eles se organizaram na dé-
Corupá (Asbanco), justificando cada de 1990 para comprar, em
o conceito criado para a banana conjunto, fertilizantes e outros
local: doce por natureza. insumos agrícolas. Para isso, foi
Os fatores que tornam a criada em 1994 a Asbanco.
banana de Corupá a mais doce O pai de Eliane, Conrado
do país — e talvez do mundo Müller, bananicultor há 40 anos,
(Eliane participa de feiras criou dois filhos e emprega até
internacionais e nunca provou sete funcionários na proprieda-
nenhuma outra tão doce) — de com 30 hectares de área
também criam dificuldade para plantada. Embora otimista com
os produtores locais. Além do a IG, ele acredita que vai levar
tempo maior de produção, o tempo para o consumidor valo- Fontes: 1 SEAB/DERAL; EMATER/PR 2015
2 IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de
clima mais frio provoca rom- rizar a banana de Corupá por Agropecuária, Produção Agrícola Municipal 2016

pimento dos vasos da casca da sua qualidade especial. Mas o


banana. Ela fica verde-escura que o preocupa de fato é a apli-
e, quando amadurece, amarelo cação do Código Florestal, que
chocolate, coloração diferente reduziria sua área plantada pela
do padrão estético mais aceito metade por haver dois córregos
pelo mercado. “O consumidor na propriedade, e a decisão
come pela casca”, diz Eliane. do governo federal de abrir

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PARANÁ1
Amora 83ha
385 toneladas
Produtos: doce,
geléia, licor entre

José Zasso
outros

caminho para a importação de dos povos indígenas e que é um A cidade da


bananas do Equador. “Se vier a símbolo do sul do Brasil. erva-mate
acontecer, fechamos as portas”. A colheita da erva-mate pode Quem visita o Parque
do Ibama, em Ilópolis,
ser realizada durante pratica-
tem a oportunidade de
AGRICULTURA FAMILIAR mente todos os meses do ano. conhecer a história da
SUSTENTA PRODUÇÃO DE Só em Ilópolis são 35 ervateiras, erva-mate. Organizada
ERVA-MATE e mais de 70 se considerados os em seis períodos
históricos, que começa
Os Dapont são uma das mais de municípios vizinhos. Em outras com os índios guaranis,
700 famílias que vivem do culti- regiões do Rio Grande do Sul é passa pelas reduções
vo da erva-mate na pequena mais comum o uso de tarefei- jesuíticas dos Sete
Povos das Missões
Ilópolis, município de 4 mil ros, trabalhadores terceirizados do Século XVIII e
habitantes e maior produtor contratados para a colheita, mas chega até os dias
nacional de erva-mate, segundo em Ilópolis e em municípios atuais, a exposição
mostra equipamentos
dados de 2016 da Produção próximos predomina a colheita
e instrumentos
Agrícola Municipal (PAM) feita pela própria família. “A usados na produção
do IBGE. Quatro pessoas, o colheita familiar garante um da erva-mate. O
casal Lidovino e Edília, o filho cuidado maior com a qualidade Parque também conta
com um banco de
Fernando e Neldi (irmão de da erva-mate e isso proporciona mais de 700 mudas
Lidovino), cuidam da produ- melhores preços no mercado”, recolhidas em quatro
ção de uma área de cerca de 25 explica Roberto Feron, diretor- estados brasileiros,
mantido por meio
hectares de erva-mate, conven- -executivo do Instituto Brasilei- de um convênio com
RIO GRANDE DO SUL2 cional e orgânica, na área rural ro da Erva-Mate (Ibramate). universidades públicas
Erva mate 33.445ha do município. Além dos tradicionais chi- e comunitárias.
297.141 toneladas A exemplo dos Dapont, a marrão e tereré, as entidades do
Produtos: cerveja, chá,
chimarrão, cosméticos, base da cadeia produtiva da er- setor ervateiro dos municípios
geléias entre outros va-mate em Ilópolis, como em do Alto Vale do Taquari, no Rio
outros municípios do Alto Vale Grande do Sul, comercializam
do Taquari, é familiar e quase refrigerantes, cervejas, cosméti-
todo o trabalho é feito manual- cos, produtos de higiene pessoal,
mente antes de ser encaminhado ração para animais e energéticos
às indústrias da região. O terreno feitos com a erva-mate. “Hoje,
acidentado e o solo são ideais a erva-mate está presente em
para o cultivo da erva oriunda poucos estados do Brasil. Nossa

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Acervo da família
intenção com a diversificação pai Geert, a mãe Katty, Anne- O intuito era vender para
de produtos é chegar em outras leen e os dois irmãos saíram da fabricantes de iogurte, mas bem
regiões do país”, avalia Feron. Bélgica rumo a Ponta Grossa, na época as empresas tiveram
O cultivo orgânico da er- no Paraná, para trabalhar com uma queda nas vendas e aca-
va-mate também tem ganhado agricultura. A família chegou baram desistindo de comprar
espaço. “Esse cultivo exige mais ao país com uma condição a fruta. “A gente olhou para as
do produtor, mas também ga- financeira estável, bem diferen- amoras e disse: o que a gente
rante um preço melhor”, explica te de milhares de imigrantes vai fazer?”, lembra Anneleen.
Maurício Carlesso, responsável europeus que desembarcaram A solução encontrada foi
por uma ervateira da região. “É no Brasil no século XIX e início recuperar uma antiga tradição
uma opção que tem se amplia- do século XX, fugindo da fome da família que garantia pro-
do, há um mercado se abrindo e da falta de oportunidades. dutos elaborados a partir da
para a produção orgânica e toda O município de Ponta Gros- fruta durante as épocas mais
a cadeia produtiva está atenta a sa está localizado nos Campos frias do ano. “Meu pai colhia as
isso”, sustenta Feron. Gerais do Paraná. A agricultura frutinhas no bosque e minha
A cada dois anos, Ilópolis da região é marcada não só pela avó fazia geleias, sucos, polpas
realiza no mês de novembro a diversidade de produtos, mas e bebidas para os mais velhos.
Turismate, a festa da erva-mate, também de etnias, com imi- Quem não gosta de um licorzi-
principal evento do município. grantes ucranianos, holandeses nho para esquentar no inver-
Sozinha, a cidade detém 22% de e alemães contribuindo para a no? Daí a gente foi pegando as
toda a produção de erva-mate formação e desenvolvimento do ideias. Se dá para fazer com a
do Rio Grande do Sul e 10,7% estado. A família de Anneleen uva, vamos tentar com a amora.
da produção nacional, segundo já conhecia um pouco dessa E deu certo”, conta Annele-
os dados de 2006 da PAM. história e optou pela região en, que hoje, além de cultivar
justamente pela presença das amoras, fabrica vinhos, licores,
NO PARANÁ, DIVERSIDADE colônias de imigrantes e do aguardentes, cerveja, caldas e
NO CAMPO VAI ALÉM DA clima favorável para a agricul- geleias com a fruta.
PRODUÇÃO tura. Logo na chegada ao Brasil, Algumas receitas são da
No ano de 1999, os pais de An- começou a cultivar soja, milho, avó da empresária, Yvonne
neleen Dewulf tomaram uma feijão e trigo. Seis anos depois, Declerck, e outras foram cria-
decisão que afetaria o futuro a família resolveu também das pelo pai. O vinho demora
de toda a família: vir para o plantar amoras, fruta ainda dois anos para ficar pronto,
Brasil. Apaixonado pelo país, o desconhecida na região. o licor e a aguardente, cinco.

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Larissa Grizoli

Tudo é comercializado na
adega da família, que recebe
em média 100 visitantes por
KEEP Studio

semana na alta temporada.


Para atender à demanda
dos clientes, 50 hectares da
propriedade são dedicados às
amoreiras, do tipo Brazos. As
amoras são livres de agrotóxi-
cos, colhidas manualmente e
precisam de 940 horas de frio
para se desenvolver.
A próxima colheita deve
ocorrer entre outubro deste
ano e janeiro de 2019. Enquan-
to isso, a família já pensa em
expandir os negócios, com o
cultivo de lavanda. O objetivo
é aumentar a área plantada,
para que a flor deixe de ser só
um atrativo para os visitantes
da adega e passe a ser utilizada
para a extração de óleo, muito
utilizado em aromaterapia e na
indústria de cosméticos.
Com bastante trabalho pela
frente, e também muitas con-
quistas já alcançadas, Anneleen
reconhece que o Brasil é um
país bom. “As clientes falam:
Pedro Vidal

‘nossa, você é louca de vir


para cá’. Mas quem faz
o lugar é você”, conclui.

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