Você está na página 1de 2

ARISTÓTELES – Livro: Ética a Nicômaco

―Admite-se geralmente que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira
um bem qualquer; e por isso foi dito, com muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem.‖
(1094a)
―Se, pois, para as coisas que fazemos existe um fim que desejamos por ele mesmo e tudo o mais é desejado no
interesse desse fim; e se é verdade que nem toda coisa desejamos com vistas em outra (porque, então, o
processo se repetiria ao infinito, e inútil e vão seria o nosso desejar), evidentemente tal fim será o bem, ou
antes, o sumo bem.‖ (1094a 20)
―Ninguém duvidará de que o seu estudo [sumo bem] pertença à arte mais prestigiosa e que mais
verdadeiramente se pode chamar a arte mestra. Ora, a política mostra ser dessa natureza, pois é ela que
determina quais as ciências que devem ser estudadas num Estado [...] Ora, como a política utiliza as demais
ciências e, por outro lado, legisla sobre o que devemos e o que não devemos fazer, a finalidade dessa ciência
deve abranger as das outras, de modo que essa finalidade será o bem humano. Com efeito, ainda que tal fim
seja o mesmo tanto para o indivíduo como para o Estado, o deste último parece ser algo maior e mais completo,
quer a atingir, quer a preservar.‖ (1094b10.).
―[...] quase todos estão de acordo, pois tanto o vulgo como os homens de cultura superior dizem ser esse fim a
felicidade e identificam o bem viver e o bem agir como o ser feliz. Diferem, porém, quanto ao que seja a
felicidade [...]‖ (1095a)
―Para uns é alguma daquelas ciosas óbvias e manifestamente boas, como o prazer, a riqueza ou a honra; para
uns é uma coisa, para outros, outra – muitas vezes até para o mesmo podem ser coisas diferentes. Para quem
está doente é a saúde, para quem é pobre, a riqueza [...]‖(1095a25)
―A vida dedicada à obtenção de riqueza é de certa forma uma violência e a riqueza não será manifestamente o
bem que estamos à procura, porque é meramente útil, portanto, enquanto útil, existe apenas em vista de outra
coisa diferente de si. Por isso que os fins mencionados primeiramente se suponham ser mais propriamente fins,
porque são queridos por si próprios. [...]‖ (1096a5)
―[...] Na verdade, simplesmente completo é aquele fim que é sempre escolhido segundo si próprio e nunca
como meio em vista de qualquer outro. Ora, esse é o conceito que preeminentemente fazemos da felicidade. É
ela procurada sempre por si mesma e nunca com vistas em outra coisa, ao passo que à honra, ao prazer, à razão
e a todas as virtudes nós de fato escolhemos por si mesmos (pois, ainda que nada resultasse daí, continuaríamos
a escolher cada um deles); mas também os escolhemos no interesse da felicidade, pensando que a posse deles
nos tornará felizes. A felicidade, todavia, ninguém a escolhe tendo em vista algum destes, nem, em geral,
qualquer coisa que não seja ela própria. [...] (1097b)
―Mas dizer que a felicidade é o sumo bem talvez pareça uma banalidade, e falta ainda explicar mais claramente
o que ela seja. Tal explicação não ofereceria grande dificuldade se pudéssemos determinar primeiro a função do
homem.‖ (1097b25)
―Ora, se a função do homem é uma atividade da alma que segue ou que implica um princípio racional, (por
exemplo, um tocador de lira e um bom tocador de lira, e assim em todos os casos, sem maiores discriminações,
sendo acrescentada ao nome da função a eminência com respeito à bondade — pois a função de um tocador de
lira é tocar lira, e a de um bom tocador de lira é fazê-lo bem); se realmente assim é [e afirmamos ser a função
do homem uma certa espécie de vida, e esta vida uma atividade ou ações da alma que implicam um princípio
racional; e acrescentamos que a função de um bom homem é uma boa e nobre realização das mesmas; e se
qualquer ação é bem realizada quando está de acordo com a excelência que lhe é própria; se realmente assim é],
o bem do homem nos aparece como uma atividade da alma em consonância com a virtude, e, se há mais de uma
virtude, com a melhor e mais completa. Tem ainda de ser acrescentado: ‗durante todo o tempo da vida‘, porque
uma andorinha não faz a Primavera, nem um só dia bonito. Assim também o homem bem-aventurado e feliz
não o será apenas durante um só dia tal como não o será apenas por pouco tempo[...].‖(1098a20)
―Daqui levanta-se também a dificuldade de saber se a felicidade é objeto de aprendizagem ou habituação ou se
pode ser, de algum modo, obtida por disciplina, ou, finalmente, se chega até nós por um destino divino ou por
acaso.‖ (1099b9)
―O agir tem de ser, tal como é comumente aceite, estabelecido de acordo com um sentido orientador [prático]‖
(1103b30)
―Antes de tudo, devemos notar que as ações estão sujeitas a se tornar imperfeitas ou por escassez ou por
excesso (para recorrermos a testemunhos evidentes acerca de questões obscuras), como podemos ver a
propósito da força e da saúde: de fato, tanto os excessivos quanto os escassos exercícios físicos prejudicam a
força, assim como o beber e o comer quando superabundantes ou insuficientes estragam a saúde, ao passo que a
justa proporção a produz, aumenta e preserva.‖ (1104a15)

―O mesmo acontece com a moderação, a coragem e as outras virtudes. De fato, quem evita e teme qualquer
coisa e nada enfrenta torna-se tímido; quem, ao contrário, não teme absolutamente nada, mas enfrenta qualquer
coisa, torna-se temerário. Do mesmo modo, quem goza de todo tipo de prazer e não se abstém de nenhum se
torna intemperante; quem, no entanto, foge de todos, como os rústicos, torna-se insensível. Portanto, a
moderação e a coragem são prejudicadas tanto pelo excesso quanto pela escassez, ao passo que são preservadas
no caminho do meio.‖ (1104a25)

―A virtude é, portanto, uma ordenação de intenções, que consiste na mediação em relação a nós mesmos,
definida pela razão e estabelecida como o faria o homem sábio. É uma mediação entre dois vícios: um por
excesso, outro por escassez. E como alguns vícios são por escassez e outros são por excesso do que é devido,
seja nas paixões, seja nas ações, a virtude encontra e escolhe a justa medida.‖

REFERÊNCIA
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução do grego de António de Castro Caeiro. – São Paulo: Atlas,
2009.