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ÉTICA EM PLATÃO TRECHOS PARA GUIAR A INTERPRETAÇÃO

[A virtude na tradição Homérica] “Tanto em Homero como nos séculos posteriores, o conceito

de areté é frequentemente usado no sentido mais amplo, isto é, não só para designar a excelência

humana, como também a superioridade de seres não humanos: a força dos deuses ou a coragem e

rapidez dos cavalos de raça. (

consideraram a destreza e a força incomuns como base indiscutível de qualquer posição dominante. A raiz da palavra é a mesma: aristos, superlativo de distinto e escolhido, que no plural era constantemente empregado para designar a nobreza. Para a mentalidade grega, que avaliava o homem pelas suas aptidões, era natural encarar o mundo em geral sob o mesmo ponto de vista. Nisto se fundamenta o emprego da palavra no domínio das coisas não humanas, assim como enriquecimento e ampliação do sentido do conceito, no seu desenvolvimento posterior, pois é possível suporem-se diversas medidas para a avaliação da capacidade de um homem, segundo a tarefa que tem de realizar. Só uma vez, nos livros finais Homero entende por arete .as qualidades morais ou espirituais. Em geral, de acordo com a modalidade de pensamento dos tempos primitivos, designa por Arete a força e a destreza dos guerreiros ou lutadores e, acima de tudo, heroísmo, considerado não no sentido de ação moral, e separada da força, mas sim intimamente ligado a ela.(JAEGER, 2003, p.26)

A areté é o atributo próprio de nobreza. Os gregos sempre

)

[A definição de virtude no diálogo Górgias, na personagem Sócrates]: S:Ora não somos

Mas, a virtude de

qualquer coisa, seja instrumento, corpo ou alma, seja criatura viva, não lhes vem por acaso e já completa; é o resultado de uma ordem, de retidão e da arte adaptada à natureza de cada um. (GÓRGIAS, 506d)

mesmo modo, o homem de

bem pode modificar-se para pior, ou por efeito do tempo ou do cansaço, ou de doença, ou por qualquer outro acidente, pois o verdadeiro mal é ver-se alguém privado do conhecimento.(PROTÁGORAS, 345b)

Ora, Simônides não era tão falho de instrução, para dizer que

aplaudia quem não comete voluntariamente ato vergonhoso, como se houvesse alguém que, por própria deliberação, praticasse o mal. Eu, pelo menos, estou convencido de que nenhum dos sábios era de opinião que pode haver homem capaz de errar ou de praticar deliberadamente qualquer ato mau ou vergonhoso, sabendo todos muito bem que as pessoas que cometem ação má ou vergonhosa, involuntariamente o fazem.(PROTÁGORAS, 345e)

[O que governa o homem?] Que opinião fazes do conhecimento? Ajuízas a esse respeito

como os demais homens, ou por modo diferente? A grande maioria dos homens pensa do conhecimento mais ou menos o seguinte: que não é forte, nem capaz de guiar, nem de comandar; não cogitam dele nessas conexões, sendo, pelo contrário, de parecer que muitas vezes, embora seja o homem dotado de conhecimento, não é governado por ele, mas por qualquer outra coisa, ora pela cólera, ora pelos prazeres, ora pela dor, algumas vezes pelo amor, e muito frequentemente pelo medo, e consideram o conhecimento mais ou menos como um escravo que se deixa arrastar por tudo. Pensas do mesmo modo a seu respeito, ou julgas ser o conhecimento algo belo e capaz de

governar o homem, de forma que, quando alguém adquire a noção do bem e do mal, não se deixa dominar por nada e só faz o que o conhecimento lhe ordena, por ser a inteligência bastante idônea para ajudar o homem?(PROTÁGORAS, 352b-c)

[A virtude é conhecimento, mas ela pode ser ensinada?] Sou de parecer, Protágoras, que

isso [a virtude] não pode ser ensinado; visto, porém, que o afirmas, não sei como deixar de

acreditar-te. Porém, será de elementar justiça dizer-te que essa arte não pode ser ensinada por

bons, nós e tudo o mais que é bom, pela presença de alguma virtude? [

]

[A virtude como conhecimento no diálogo: Protágoras] S:[

]Do

[O mal como ignorância] [

]

nos que a virtude pode ser ensinada, não guardes só para ti esse conhecimento; revela-nos. (PROTÁGORAS, 319b 320c)

[A formulação da questão no diálogo Mênon]: Podes dizer-me, Sócrates: a virtude é coisa que se ensina? Ou não é coisa que se ensina, mas que se adquire pelo exercício? Ou nem coisa que se adquire pelos exercícios, nem coisa que se aprende, mas algo que advém aos homens por natureza ou por outra maneira?(MÊNON, 70a)

Dizem eles pois que a alma do homem é imortal, e que ora chega ao fim e eis aí o que se chama morrer, e ora nasce de novo, mas que ela não é jamais aniquilada. É preciso pois, por causa disso, viver da maneira mais pia possível. Pois aqueles de quem Perséfone a expiação por uma antiga falta tiver recebido, ao sol lá em cima, no nono ano, as almas, reis ilustres e homens impetuosos pela força ou imensos pela sabedoria se elevam. E pelo resto dos tempos, como heróis impolutos são invocados pelos homens.‟ Sendo então a alma imortal e tendo nascido muitas vezes, e tendo visto tanto as coisas que estão aqui quanto as que estão no Hades, enfim todas as coisas, não há o que não tenha aprendido; de modo que não é nada de admirar, tanto com respeito à virtude quanto aos demais, ser possível a ela rememorar aquelas coisas justamente que já antes conhecia. Pois, sendo a natureza toda congênere e tendo a alma aprendido todas as coisas, nada impede que, tendo alguém rememorado uma só coisa fato precisamente que os homens chamam aprendizado -, essa pessoa descubra todas as coisas, se for corajosa e não se cansar de procurar. Pois, pelo visto, o procurar e o aprender são, no seu total, uma rememoração.” (MÊNON, 81b-d)

[Nota sobre a educação na República]: Temos então continuei eu de pensar o seguinte

sobre esta matéria, se é verdade o que dissemos: a educação não é o que alguns apregoam que ela é. Dizem eles que introduzem a ciência numa alma em que ela não existe, como se introduzissem a

vista em olhos cegos. [

A educação seria, por conseguinte, a arte desse desejo [do bem], a

maneira mais fácil e mais eficaz de fazer dar a volta a esse órgão [o olho], não a de o fazer obter a

visão, pois já a tem, mas, uma vez que ele não está na posição correcta e não olha para onde deve, dar-lhe os meios para isso.(REPÚBLICA, 518d)

BIBLIOGRAFIA

JAEGER, W. Paidéia: A formação do Homem Grego. Tradução de Arthur M. Parreira, 3ª edição, São Paulo: Martins Fontes, 1995.

PLATÃO. Górgias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1970.

Mênon. Texto estabelecido e anotado por John Burnet; tradução de Maura Iglésias. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio; Loyola, 2001.

]

Protágoras. Tradução de Carlos Alberto Nunes. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1970.

A República. Tradução e notas de Maria Helena da Rocha Pereira. 9ª Edição. Lisboa:

Fundação Calouste Gulbenkian, 2001 .