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ARISTÓTELES – Livro: Política

“A observação nos mostra que cada Estado (pólis)1 é uma comunidade estabelecida com alguma boa finalidade,
uma vez que todos sempre agem de modo a obter o que acham bom. Mas, se todas as comunidades almejam o
bem, o Estado ou comunidade política, que é a forma mais elevada de comunidade e engloba tudo o mais,
objetiva o bem nas maiores proporções e excelências possíveis.” (ARISTÓTELES, 2000, p.143) [Livro I,
Capítulo I]
“Quem, portanto considerar os temas visados a partir de sua origem e desenvolvimento, seja de um Estado ou
de qualquer outra coisa, obterá uma visão mais clara deles. Em primeiro lugar, deve haver união entre os
elementos que não podem subsistir uns sem os outros; por exemplo, homem e mulher, uma vez que a espécie
precisa continuar (e esta é uma união formada não por escolha mas pelo desejo, implantado pela natureza,
porque, em comum com outros animais e plantas, a humanidade tem o impulso natural de propagar-se) e ambos
precisam ser preservados de acordo com um mecanismo e um motivo naturais.” (ARISTÓTELES, 2000, p.144)
[Livro I, Capítulo II]
“[...] Mesmo não sendo sovina [a mulher] como o ferreiro que modela a faca délfica para vários usos, a
natureza determina a utilidade de cada coisa, e cada instrumento é mais bem-feito quando determinado para
atender a uma e não a muitas finalidades.” (ARISTÓTELES, 2000, p.144 [Livro I, Capítulo II]
“Fora essas duas afinidades, o primeiro ponto a considerar é a família. Hesíodo tem razão ao dizer: “Primeiro o
lar, a esposa e um boi para o arado”[Hesíodo, O Trabalho e os Dias], uma vez que o boi é o escravo dos pobres.
A família é a associação estabelecida por natureza para suprir as necessidades diárias dos homens, e seus
membros são chamados, por Charondas, “companheiros do pão”; já Epimênides, o Cretense, denomina-os
“companheiros de comer”. Mas, quando várias famílias estão unidas em certo número de casas, e essa
associação aspira a algo mais do que suprir as necessidades cotidianas, constitui-se a primeira sociedade, a
aldeia. A forma mais natural de aldeia parece ser uma colônia de famílias com filhos e netos dos quais se diz
que foram “criados com o mesmo leite”. Por causa dessa composição, seu governo era inevitavelmente
monárquico; é por esse motivo que as cidades-Estado helênicas foram, originalmente, governadas por reis –
porque foi assim antes de os helenos se reunir em cidades, como acontece ainda hoje com algumas nações
bárbaras. Cada família é dirigida por seu membro mais velho, como por um rei, e os chefes de família
descendentes, por causa dos laços de sangue, são governados da mesma maneira. Essa regra patriarcal foi
mencionada por Homero: “Cada qual faz as leis para seus filhos e esposas” [Odisséia, IX]. O poeta não se
referia aos grupos reunidos em aldeias, mas a famílias que viviam dispersas, como era costume nos tempos
antigos.” (ARISTÓTELES, 2000, p.145) [Livro I, Capítulo II]
“Quando várias aldeias se unem numa única comunidade, grande o bastante para ser auto-suficiente (ou para
estar perto disso), configura-se a cidade, ou Estado – que nasce para assegurar o viver e que, depois de formada,
é capaz de assegurar o viver bem. Portanto, a cidade-Estado é uma forma natural de associação, assim como o
eram as associações primitivas das quais ela se originou. A cidade-Estado é associação resultante daquelas
outras, e sua natureza é, por si, uma finalidade; porque chamamos natureza de um objeto o produto final do
processo de aperfeiçoamento desse objeto, seja ele homem, cavalo, família ou qualquer outra coisa que tenha
existência. Ademais, o objetivo e a finalidade de uma coisa podem apenas ser o melhor, a perfeição; e a auto-
suficiência é, a um só tempo, finalidade e perfeição.” (ARISTÓTELES, 2000, p.146) [Livro I, Capítulo II]
“Por conseguinte, é evidente que o Estado é uma criação da natureza e que o homem é, por natureza, um animal
político. E aquele que por natureza, e não por mero acidente, não tem cidade, nem Estado, ou é muito mau ou
muito bom, ou sub-humano ou super-humano – sub-humano como o guerreiro insano condenado, nas palavras
de Homero, como “alguém sem família, sem lei, sem lar” [Homero, Ilíada, IX] porque uma pessoa assim, por
natureza amante da guerra, é um não-colaborador, como uma peça isolada num jogo de damas. É evidente que
o homem é um animal mais político do que as abelhas ou qualquer outro ser gregário. A natureza, como se
afirma frequentemente, não faz nada em vão, e o homem é o único animal que tem o dom da palavra. E mesmo
que a mera voz sirva para nada mais do que uma indicação de prazer ou de dor, e seja encontrada em outros
animais (uma vez que a natureza deles inclui apenas a percepção de prazer e de dor, a relação entre elas e não
mais que isso), o poder da palavra tende a expor o conveniente e o inconveniente, assim como o justo e o

1
É importante lembrar que estão a traduzir a palavra pólis, grega, por Estado. Portanto, ao vermos esta palavra latina tão utilizada nos
dias de hoje precisamos nos esforçar a pensar a cidade-estado grega que buscava auto-suficiência, não o Estado contemporâneo
injusto. Essa é uma característica do ser humano, o único a ter noção do bem e do mal, da justiça e da injustiça.
E é a associação de seres que têm uma opinião comum acerca desses assuntos que faz uma família ou uma
cidade.” (ARISTÓTELES, 2000, p.146) [Livro I, Capítulo II]
“O Estado tem, por natureza, mais importância do que a família e o indivíduo, uma vez que o conjunto é
necessariamente mais importante do que as partes. Separem-se do corpo os pés e as mãos e eles não serão mais
nem pés nem mãos (a não ser nominalmente, o que seria o mesmo que falar em pés ou mãos esculpidos em
pedra); destruídos, não terão mais o poder e as funções que os tornavam o que eram. Assim, embora usemos as
mesmas palavras, não estamos falando das mesmas coisas. A prova de que o Estado é uma criação da natureza
e tem prioridade sobre o indivíduo é que o indivíduo, quando isolado, não é auto-suficiente; no entanto, ele o é
como parte relacionada com o conjunto. Mas aquele que for incapaz de viver em sociedade, ou que não tiver
necessidade disso por ser auto-suficiente, será uma besta ou um deus, não uma parte do Estado.”
(ARISTÓTELES, 2000, p.146) [Livro I, Capítulo II]
BIBLIOGRAFIA
ARISTÓTELES. Política. Tradução de Therezinha Monteiro Deutsch Baby Abrão. In: OS PENSADORES
(Aristóteles). Editora Nova Cultural. São Paulo: SP. 2000.