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UNIVERSIDADE DE SOROCABA

PRÓ-REITORIA ACADÊMICA

CURSO DE FARMÁCIA

Beatriz Bortotti de Almeida

Caroline Aparecida Foramiglio

Katiusca da Silva Pontes

BIOTECNOLOGIA NA ANTIGUIDADE

Sorocaba/SP
2016
BIOTECNOLOGIA NA ANTIGUIDADE

Revisão bibliográfica apresentada à


disciplina de Biotecnologia
Farmacêutica e Biologia Molecularao 7°
período de graduação em Farmácia.

Prof. Dr. Victor Manuel C. F. Balcão

______________________________

Beatriz Bortotti de Almeida RA 79551

______________________________

Caroline Aparecida Foramiglio RA 76088

______________________________

Katiusca da Silva Pontes RA 75178

Sorocaba/SP
2016
SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................ 6
2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA....................................................................... 7
2.1 Pré-História .......................................................................................... 7
2.2 Biotecnologia Ancestral: Período Paleolítico ................................... 8
2.3 Biotecnologia Ancestral: Período Neolítico ...................................... 9
2.3.1 Domesticação dos Animais, Plantas Selvagens e Início da
Agricultura ................................................................................................... 9
2.4 Biotecnologia Clássica: Civilização no Oriente Próximo -
Mesopotâmia e Egito .................................................................................. 11
2.4.1 Produção de alimentos fermentados ............................................ 13
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................... 18
REFERÊNCIAS ................................................................................................ 21
RESUMO

Os limites entre a Pré-história e a História são traçados pelo surgimento


da escrita. O período Paleolítico teve início com as primeiras criaturas
semelhantes ao homem que habitaram a África Oriental há cerca de 3 milhões
de anos. Nossos ancestrais viviam como nômades caçadores e coletores de
alimentos, pois não sabiam cultivar a terra. Com o passar do tempo a vida
nômade foi sendo substituída por uma vida sedentária, pois o homem
descobriu como cultivar a terra e domesticaram os animais, esse período é
denominado de Neolítico e ficou marcado pelo início da exploração de meios
biológicos para que atendesse suas necessidades. Este período também foi
marcado pelo surgimento das civilizações na região denominada crescente
fértil graças à agricultura. Com o domínio da agricultura, as frutas e os grãos
teriam sido levados para outras regiões, mas seria o Egito o pioneiro a produzir
pães a partir da fermentação do trigo. Há muitos relatos sobre o primeiro local
de produção do vinho a partir da fermentação da uva já a cerveja foi uma
descoberta acidental, fruto da fermentação não induzida de algum cereal,
sendo descoberta pouco tempo depois do surgimento do pão.

Palavras-chave: Biotecnologia, agricultura, domesticação, fermentação.


ABSTRACT

The boundaries between the Prehistory and History are set by the
emergence of the act of writing. The Paleolithic period began with the first
creatures similar to the man who inhabited the East Africa about 3 million years
ago. Our ancestors lived as nomadic hunters and collectors of food, because
they had not know how to till the land. Over time, the nomadic life was replaced
by a sedentary life, since man discovered how to cultivate the land and
domesticate animals; then, this period was called Neolithic and was marked by
the beginning of the exploration of biological means to that meets their needs.
This period was also marked by the appearing of civilizations in the region
called “soaring fertile”, thanks to agriculture. In the field of agriculture, fruits and
grains have been taken to other regions, but would be Egypt the pioneer to
produce bread from wheat fermentation. There are many reports about the first
wine production site from the grape fermentation, but the beer was an
accidental discovery, resulting from not induced fermentation of a cereal which
was discovered shortly after the forthcoming of bread.

Keywords: Biotechnology, agriculture, domestication, fermentation.


6

1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho apresentaremos alguns aspectos da biotecnologia


ancestral, tendo início no Período Neolítico, em que o homem, com o uso da
biotecnologia, mudou para sempre o modo de vida que levava. Essas
mudanças estão diretamente ligadas aos hábitos modernos que possuímos
atualmente, ao qual devemos a essas conquistas o nosso animal de estimação,
ao ovos, leite, carne, e a agricultura (BORÉM, 2005).
Biotecnologia significa o uso de processos biológicos para a conquista
de bens e melhoria de vida do ser humano, abrangendo áreas que vão desde a
alimentação até o processo de produção de medicamentos (FERREIRA, 2016).
No Período Neolítico houve grandes conquistas que tiveram grande
impacto no modo de vida ancestral, tão grandes que até nos dias de hoje
refletimos diretamente os “artifícios” conquistados. Aqui o homem ancestral
domesticou animais e plantas selvagens conseguindo com que houvesse uma
parceria em beneficio dos mesmos, pois ganhou proteção com a domesticação
de animais selvagens e comodidade, devido ao fato de que conseguiam ter ao
seu redor plantas que os ajudavam quando eles estavam adoecidos, ou seja,
plantas medicinais, dentre outras plantas utilizadas na alimentação
(MALAJOVICH, 2012).
Durante a domesticação de animais selvagens, um dos grandes
impactos foi a domesticação do gado, em que a partir desses animais era
possível obter o leite, e, alguns séculos a frente a produção de queijos pela
fermentação do leite. Conforme o desenvolvimento da agricultura houve a
formação dos primeiros agrupamentos sociais onde o homem deixou de ser
nômade e se tornou sedentário, visto que já não era preciso sair em busca do
alimento mais (MALAJOVICH, 2012).
Em torno de 3.000 a.C. houve o início do processo de fermentação do
leite para a produção de queijo, ainda sendo uma incógnita onde surgiu sua
primeira fabricação. Porém, foi no Império Romano a técnica foi aprimorada e
sofisticada. Outro importante processo de conquista pelo acaso foi a produção
de cerveja a partir da fermentação de grãos. Não se sabe onde a primeira
cerveja foi fabricada, contudo sabe-se que os mesopotâmios, propriamente dito
na Suméria, foram os que produziram as primeiras cervejas, as quais foram
7

datadas em torno de 6.000 a.C. (SIQUEIRA; BOLINI; MACEDO 2008); seguido


da fermentação da uva e do trigo para produção de vinhos e pão. Em torno de
7.000 a.C., foram achados alguns indícios da fabricação de vinho na Rússia
(Geórgia) (GRIZZO, 2014).
Na Mesopotâmia foi onde apareceram os primeiros indícios de
fabricação de pão e cultivo de trigo. Houve também a seleção de sementes que
eram consideradas as melhores e com melhor rendimento para que fossem
plantadas ao invés de sementes que apresentavam menor rendimento, a fim
que as colheitas fossem melhores aproveitadas. Esse processo foi realizado
pelos Mesopotâmios em torno de 8.000 a.C. A partir destas informações
percebemos o quanto a biotecnologia ancestral foi importante para que hoje
pudéssemos ter este estilo de vida(VILLEN 2002).
Portanto, O objetivo deste presente trabalho se limita ao estudo da
Biotecnologia na antiguidade, abordando aspectos da chamada Biotecnologia
Ancestral.

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

2.1 Pré-História

Os limites entre a Pré-história e a História são traçados teoricamente


pelo surgimento da escrita. O período Pré-histórico teve início com o
aparecimento do homem na Terra e termina com o surgimento dos primeiros
documentos escritos pelos Sumérios, que viveram ao sul da Mesopotâmia
(GIORDANI, 1969).
A escrita tornou-se um marco divisório entre sociedades históricas, que
dominavam a escrita, e pré-históricas, que não dominavam a escrita. Os
registros escritos são considerados fonte histórica primária da experiência
humana, já as pinturas e objetos de uso cotidiano fontes históricas secundárias
(GIORDANI, 1969).
8

2.2 Biotecnologia Ancestral: Período Paleolítico

O período Paleolítico também chamado de Idade da Pedra Lascada,


teve início com as primeiras criaturas semelhantes ao homem, que habitaram a
África Oriental há cerca de 3 milhões de anos, e terminou há 10.000 anos,
quando o homem descobriu os métodos de agricultura (PERRY, 1999).
Tal denominação não implica necessariamente que os primeiros objetos
fabricados ou usados pelo homem tenham sido de pedra. A madeira, o osso, o
chifre e as fibras constituíam, sem dúvida, matérias-primas utilizadas com
abundância (GIORDANI, 1969).
Nossos ancestrais paleolíticos viviam como caçadores e coletores de
alimentos como folhas, raízes e frutos. Como não sabiam cultivar a terra, não
estabeleciam aldeamentos permanentes. Quando a oferta de alimentos
começava a entrar em escassez, abandonavam as cavernas ou os abrigos
feitos de ramos e buscavam novos locais para se instalarem (BOARETTO,
2014).
O desenvolvimento social humano foi condicionado por essa experiência
de 3 milhões de anos de caça e coleta de alimentos. Para sobreviver, os
grupos de famílias formavam bandos de cerca de 30 pessoas. Os caçadores
ajudavam-se mutuamente na localização e abate da caça como representado
na Figura 1, já que os esforços cooperativos resultavam mais eficientes que as
ações individuais fortalecendo elo social. Assim também agiam as mulheres,
encarregadas da coleta de castanhas, sementes e frutos para o grupo
(PERRY, 1999).
Figura 1. Abate da caça por grupos ainda utilizando artigos de madeira como
instrumento.
9

Algumas realizações ocorridas no Paleolítico contribuíram


profundamente para o futuro. Os povos deste período desenvolveram a
linguagem falada a aprenderam a fabricar e usar instrumentos feitos de osso,
madeira e pedra, ferramentas estas que permitiram arrancar raízes, descascar
troncos de árvores, preparar armadilhas para animais, fazer roupas e tecer
redes de pesca. Também entenderam como controlar o fogo para proporcionar-
lhes calor, proteção e para que pudessem cozinhar a carne (MARVIN, 1999).

2.3 Biotecnologia Ancestral: Período Neolítico

Há cerca de dez mil anos, teve início no Oriente Próximo o Período


Neolítico também chamado de Idade da Pedra Polida. Assim, passagem do
Paleolítico para o Neolítico se deu, aproximadamente, entre 10 a 6 mil anos
atrás. Logo, a vida nômade foi, aos poucos, sendo substituída por uma vida
sedentária, em que nessa época, o homem descobriu como cultivar a terra,
domesticou animais, estabeleceu aldeamentos, poliu ferramentas de pedra, fez
cerâmica e aprendeu tecer (PERRY, 1999; COSTA et al., 2014).
O emprego de meios biológicos então teve início, quando o homem
deixou de viver exclusivamente do extrativismo e começou a plantar e criar
animais (BORÉM, 2005).

2.3.1 Domesticação dos Animais, Plantas Selvagens e Início da Agricultura

Enquanto os caçadores e coletores do Paleolítico eram forçados a


utilizar recursos que a natureza colocasse à sua disposição, os agricultores do
Neolítico transformaram o meio em que viviam de modo a atender as suas
necessidades, não despendiam mais tempo à procura de grãos, raízes e frutos.
(BOARETTO, 2014).
O homem não nasceu agricultor: quando ele apareceu, o Homo sapiens
sapiens era caçador-coletor. Quando ele começou a praticar o cultivo e a
criação, ele não encontrou na natureza nenhuma espécie previamente
domesticada, mas domesticou um grande número delas. Não dispunha
também de instrumentos anatômicos adaptados ao trabalho agrícola, mas os
fabricou de todas as maneiras e cada vez mais poderosos. Enfim, nenhum
10

saber inato ou revelado lhe ditava a arte e a maneira de praticar a agricultura, e


graças a isso, ele pôde ajustar livremente os sistemas de cultivo e de criação
extraordinariamente variados e adaptados aos diferentes meios do planeta,
transformando-os de acordo com suas necessidades e de acordo com suas
ferramentas (MAZOYER; ROUDART, 2010).
A domesticação de animais, plantas selvagens e posteriormente a
agricultura revolucionou a civilização. Quando o homem começou a praticar o
cultivo e a criação, ele não encontrou na natureza nenhuma espécie
previamente domesticada, mas domesticou um grande número delas
(MAZOYER; ROUDART, 2010).
A domesticação de plantas selvagens ocorreu antes do surgimento da
agricultura, as plantas selvagens foram trazidas às proximidades das aldeias
por meio da coleta de suas sementes e plantio. O homem selecionava para o
plantio as sementes das plantas mais vigorosas, mais produtivas, que não
possuíam debulha natural, isto é, as melhores variantes existentes na natureza
(BRASIL, 2011).
O cultivo das plantações próximas à aldeia era realizado por mulheres e
crianças (Figura 2) envolvia todos os cuidados com a planta, como preparo de
solo, irrigação e eliminação de plantas daninhas (BRASIL, 2011).
Figura 2. Cultivo de plantas realizado por mulheres e crianças

Fonte: Braga, 2009

O homem domesticou cerca de muitas espécies vegetais, destacando-se


os cereais (arroz, trigo, milho, sorgo e cevada), as raízes e os caules
(beterraba, cana-de-açúcar, batata, mandioca e inhame), os legumes (feijões,
11

soja e amendoins) e as frutas (citros e banana), as quais são responsáveis pelo


suprimento da maior parte da dieta humana (BRASIL, 2011).
O princípio da criação dos animais consistia em subtrair uma
populaçãoanimal selvagem de seu modo de vida natural para poupá-la,
protegê-la epropagá-la visando explorá-la de maneira mais cômoda e intensa.
Os homens não percorriam longas distâncias a procura de animais, eles
podiam abater os carneiros, porcos ou cabras domesticados ali mesmo
(GIORDANI, 1969; MAZOYER; ROUDART, 2010).
O homem aprendeu a explorar os recursos da natureza em favor de sua
sobrevivência muito antes de proclamar-se civilizado. O extrativismo foi
substituído pelo cultivo sistemático, a caça pela criação, as florestas e campos
de coleta que eram mantidos pela natureza deram lugar aos terrenos agrícolas,
criados e preservados pelo trabalho humano (BORÉM, 2005).

2.4 Biotecnologia Clássica: Civilização no Oriente Próximo -


Mesopotâmia e Egito

O aparecimento da civilização foi um grande ato criativo e não apenas o


desenvolvimento inevitável das sociedades agrícolas. Muitas comunidades
haviam aprendido a cultivar a terra, mas poucas evoluíram para a civilização
como foi o caso dos sumérios e egípcios (PERRY, 1999).
A maioria dos especialistas ressalta a relação entre a civilização e os
vales dos rios na denominada região Crescente Fértil (Figura 3) que é irrigada
pelos rios Jordão, Eufrates, Tigre e Nilo. Os rios depositavam um lodo fértil nos
campos adjacentes e proporcionavam água para as plantações (PERRY,
1999).
12

Figura 3. Região denominada “Crescente Fértil” onde surgiram as primeiras civilizações e o


cultivo de cereais.

Fonte: Vieira, 2011

2.4.1 Civilização egípcia: Fermentação do trigo para produção de pães

Há registros de que a humanidade teria tido seu primeiro contato com o


trigo na região da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque. Com o domínio de sua
agricultura, o cereal teria sido levado para outras regiões, mas seria o Egito o
primeiro local onde teria sido encontrado um alimento mais semelhante com o
pão de hoje em dia (SALES, 2010).
Foram descobertos vestígios de uma comunidade humana que caçava e
colhia cereal em Jericó, uma antiga cidade da Palestina, situada nas margens
do rio Jordão (ver ilustração 3). Nesta estação foram encontrados grãos de
trigo e de centeio tostados (SALES, 2010; OFFREDE, 2015).
A crescente utilização do trigo demandou outras formas de
armazenamento, bem como de preparação culinária. Inicialmente os cereais
eram comidos crus e inteiros, e só posteriormente é que passaram a ser
moídos entre pedras. Essas farinhas obtidas geralmente eram misturadas com
água e a pasta obtida era deixada em repouso no sol e depois aquecida entre
pedras quentes para obtenção dos pães como apresentado na Figura 4 (VALE;
DELFINO; VALE; 2005).
13

Figura 4. Processo de obtenção dos pães pelos egípcios que envolvem a adição de água na
farinha, sova da pasta, e aquecimento.

Fonte: Lopes, 2011


Muito provavelmente por acaso, devem ter observado que a massa ao
ser deixada repousando durante um tempo nessas determinadas condições
desenvolvia um aumento de volume, bem como uma melhora notável do sabor,
consistência e facilidade de digestão. Eles não tinham o conhecimento que as
farinhas ao serem misturadas à água contaminada com leveduras do
gênero Saccharamyces cerevisiaee sendo colocada a secar no sol formariam
bolhas (gás CO2 proveniente do açúcar fermentado) e resultaria no aumento do
volume (VALE; DELFINO; VALE; 2005; OFFREDE, 2015).
Por volta de 7000 a.C., os egípcios foram os primeiros a usar fornos de
barro, sendo, também, atribuída a eles a descoberta do acréscimo de líquido
fermentado à massa do pão para torná-la leve e macia. Com o passar dos
tempos, aperfeiçoou-se a técnica de fabricação, controlando-se melhor a
fermentação (BRASIL, 2003).

2.4.2 Produção vinho a partir da fermentação da uva

Há inúmeros relatos de onde teria ocorrido a primeira produção de vinho


através da fermentação da uva. Há vestígios de vinho encontrados com data
possível de 8000 a.C., em países como a Geórgia e Armênia (FONSECA;
JANÉ; IBRAHIM, 2012; DUARTE 2014).
Na época, esses países faziam parte de uma região entre o mar Negro
e Cáspio, conhecida como Cáucaso. A Cáucaso era um lugar onde videiras
14

cresciam naturalmente. Acredita-se que foi a partir desse local que o vinho se
espalhou para o mundo (BONTEMPO, 2012; DUARTE, 2014).
No geral a uva uma vez espremida, seu sumo logo entrava em contato
com as leveduras Bortrytis cinerea que fazia o processo de fermentação,
presentes em estado selvagem na casca, gerando o álcool. Isso favoreceu
para que o homem logo descobrisse a bebida. Vinificações acidentais devem
ter sido comuns em todos os lugares onde a uva selvagem e povoamentos
humanos se encontraram (VALE; DELFINO; VALE; 2005).
Os egípcios não foram os primeiros a fazer vinho, mas certamente foram
os primeiros, a saber, como registrar os detalhes da vinificação em suas
pinturas que datam de 1.000 a 3.000 a.C. Como demonstrado na Figura 5, com
a prensa da uva, os egípcios iniciaram o comercio de vinho, mas foram os
fenícios1 de difundiram a prática por toda a região do mediterrâneo
(BONTEMPO, 2012; DUARTE, 2014).

Figura 5. Processo de vinificação realizado pelos egípcios.

2.4.3 Produção da cerveja a partir da fermentação do mosto

A cerveja, do latim cervisia, é bebida carbonatada obtida da fermentação


alcoólica, pela Saccharomyces cerevisiae, do mosto preparado com cevada
maltada, adicionado ou não de outros cereais não maltados, lúpulo e água,
cujo teor alcoólico varia entre 3 e 8%(v/v). A cerveja é uma das primeiras

1
Civilização constituída por marinheiros e comerciantes que desenvolveu-se na Fenícia, território
do atual Líbano.
15

bebidas alcoólicas criada pelo homem, sendo a bebida alcoólica mais


consumida no mundo atualmente (COELHO-COSTA, 2015).
A importância da cerveja para a Antiguidade foi bastante documentada
em escritos antigos e iconografias, particularmente encontrada na cultura
egípcia e mesopotâmica. A história da cerveja nos leva ao tempo dos faraós,
que pagavam, com duas jarras e quatro pães, o trabalho árduo dos escravos,
na construção das pirâmides (COELHO-COSTA, 2015; PANEK, 2011).
Esta bebida não foi inventada, mas descoberta. A origem das primeiras
cervejas e a prática da cervejaria origina-se na antiga Mesopotâmia, mais
precisamente da Suméria – na região conhecida como Crescente Fértil, entre o
Tigre e o Eufrates –, onde a cevada crescia em abundância. Sua descoberta
seria inevitável já que a coleta de grãos selvagens tornou-se frequente após o
final da Idade do Gelo, por volta de 10000 a.C. no Crescente Fértil
(STANDAGE, 2005).
Cerveja feita de cevada maltada era consumida na Mesopotâmia em
6.000 a.C., e não era usada somente na dieta, pois ainda exercia função
medicinal e cosmética. Dentre as provas arqueológicas concretas que indicam
a Mesopotâmia como berço de origem da cerveja, estão: inscrições em pedra,
relativas a um cereal que se utilizava para produção de cerveja; uma placa de
barro (selo), recolhida em Tepe Gawra e datada de cerca de 4000 a.C., onde
se vêm duas figuras que bebem possivelmente cerveja de um pote, utilizando
para isso longas palhas, tradicionalmente usadas para aspirar a bebida e evitar
a ingestão dos resíduos de cereal(Figura 6); e o Hino a Ninkasi, a deusa da
cerveja dos Sumérios(COELHO-COSTA, 2015).
Antigos escritos encontrados em tábuas de argila revelam que a
fabricação de cervejas era ocupação muito respeitada na Mesopotâmia, e que
a maioria dos fabricantes de cerveja eram mulheres. O oficio da fabricação de
cerveja foi a única profissão na Mesopotâmia que derivou de sanção social e
proteção de divindades femininas (COELHO-COSTA, 2015).
As cervejarias mesopotâmicas incorporaram o uso do bappir, pão de
cevada duas vezes cozido, exclusivamente para a produção de cerveja.
Descobriram cedo que reutilizando o mesmo recipiente para fermentar o mosto
se iria produzir resultados mais confiáveis, e assim cervejeiras passaram a
utilizar o pão nesses recipientes para produção de cerveja (STANDAGE, 2005).
16

Figura 6. Pictograma de um desenho encontrado em Tepe Gawra, na Mesopotâmia,


datado de 4000 anos a.C.

Fonte: Standage, 2005.


Assim como o vinho, a cerveja foi uma descoberta acidental, fruto da
fermentação não induzida de algum cereal. A cerveja foi descoberta pouco
tempo depois do surgimento do pão: os sumérios, como outras sociedades
antigas, descobriram que molhando a massa do pão ela fermentava e o
resultado ficava melhor. Surge, então, a cerveja primitiva como espécie de "pão
líquido", cujo processo foi melhorado ao longo do tempo, até que os sumérios
chegaram a um género de cerveja que consideravam “bebida divina”, esta,
geralmente, oferecida aos seus deuses (COELHO-COSTA, 2015).
A cerveja difere do vinho pelo substrato contido na matéria-prima: amido
e não sacarose. Essa diferença exige uma modificação na tecnologia que
antecede a fermentação. O amido tem que ser hidrolisado, ou seja, precisa ser
decomposto (no caso, pela ação de enzimas) em seus componentes principais,
maltose e glicose. Isso deve ser feito para que as células de levedura possam
usar o amido e transformá-lo em álcool – já que elas não têm amilases
(PANEK, 2011).
Cada povo usou o cereal predominante em seu país. Os babilônios e
egípcios empregavam a cevada; os chineses, o arroz; e, na Europa,
predominava o uso da aveia. Os índios da América usavam o milho, que
mascavam antes de colocá-lo nos jarros de fermentação – assim, a enzima
ptialina, presente na saliva, já se encarregava de degradar o amido em
açúcares fermentáveis (PANEK, 2011).
17

Foram os babilônios os primeiros a adicionar a flor do lúpulo, que dá o


sabor amargo à cerveja. Como no caso do vinho, a fermentação ocorria por
conta das leveduras do ar. A primeira cepa foi isolada e purificada pelo
microbiólogo dinamarquês Emil Christian Hansen (1842-1909), em Carlsberg
(Dinamarca), em 1883, e recebeu o nome Saccharomyces carlsbergensis
(PANEK, 2011).
Em 500 a.C. e no período subsequente, gregos e romanos deram
preferência ao vinho, divina bebida entregue aos homens por Baco. A cerveja
passou então a ser a bebida das classes menos favorecidas, muito apreciada
em regiões sob domínio romano, principalmente pelos germanos e gauleses
(STANDAGE, 2005).
A Figura 7 ilustra uma estátua de calcário pintada hácerca de 4,1 mil
anos. Esta obra se encontra atualmente no museu do Louvre, em Paris
(PANEK, 2011).
Figura 7. Egípcia fabricando cerveja.

Fonte: Panek, 2011.

2.4.4 Associação de microrganismos com o processo de fermentação por


Louis Pasteur

Estima-se que a utilização de bactérias para os processos de


fermentação já ocorria há 5 mil anos a.C. Logicamente, os povos dessa época
não sabiam que leveduras e bactérias eram utilizadas nesses processos de
18

fermentação. Estes microrganismos somente foram descobertos em 1675, por


Anton Van Leeuwenhoek e, somente em 1862, Louis Pasteur descobriu a
associação desses microrganismos com o processo de fermentação (Figura 8).
Estes estudos de Pasteur foram iniciados em 1855. Seu experimento foi
simples, ferveu um suco de uva que estava em franca fermentação e observou
que a borbulha cessava devido à morte das células (GOUVEIA-MATOS, 1997;
COSTA et al., 2011).
Figura 8. Anton Van Leeuwenhoek e Louis Pasteur e a descoberta dos
microrganismos.

Fonte: Costa et al., 2011.

As descobertas de Pasteur modificaram o mundo e o futuro da


humanidade, ao passo que seus conhecimentos deram origem às regras de
higiene e imunologia. A descoberta de que os organismos vivos são a causa da
fermentação, é a base de toda a teoria moderna de germes causadores de
doenças e do método antisséptico de tratamento. Pasteur havia estabelecido
que a fermentação alcoólica era um fenômeno fisiológico e não biológico
(DUARTE, 2014).
Em relação à fermentação alcoólica, o principal agente é a levedura,
sendo as mais utilizadas Saccaromyces cerevisiae e Schizosaccharomyces
pombe. As reações que ocorrem não incluem o oxigênio, e parte da molécula
de ácido pirúvico (gerada pela degradação da molécula de glicose por uma
sequência de 10 reações catalisadas por enzimas), em presença de outras
substâncias, como a adenosina bifosfato, é convertida é álcool (etanol), gás
carbônico, água e ATP. Contudo, a frutose também pode ser utilizada pelas
leveduras (PANEK, 2011; DUARTE, 2014).
A levedura é um organismo vivo com características próprias,
responsável pelo processo de fermentação alcoólica. São fungos unicelulares,
não filamentosos, com forma esférica ou oval. São amplamente encontradas na
natureza. As leveduras utilizam o açúcar para obter energia, que destina às
19

funções vitais, e não para produzir álcool. O álcool é uma consequência do


processo de biológico de fermentação realizado pela levedura (DUARTE,
2014).
Dentre os vários questionamentos acerca das fermentações, a mais
relevante, conforme Pasteur, refere-se a origem dos fermentos: como estes
agentes misteriosos, fracos em aparência, potentes na realidade, que, com um
peso mínimo e características químicas exteriores insignificantes , possuem
energia excepcional? Esta questão conduziu a investigação de Pasteur ao
estudo das gerações espontâneas(PORTOCARRERO, 1991).
Pasteur dizia que pela palavra germe, ele não se referia a uma causa
vaga e indeterminada em sua natureza, mas de um objeto visível e tangível
que já tem todos os caracteres de uma organização completa e se multiplica
em profusão, desde que as condições sejam favoráveis. Em suma, um ser vivo.
Contudo esta teoria chocou-se com a teoria de geração espontânea, causando
debate científico, pois, segundo Pouchet, os germes que são encontrados na
fermentação surgem espontaneamente no líquido fermentiscível. Logo,
Pouchet não leva em consideração a existência à priori de germes, uma vez
que os mesmos precisam de ar atmosférico para existir (GOUVEIA-MATOS,
1997; PORTOCARRERO, 1991).

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em virtude das informações encontradas no levantamento bibliográfico


em literatura disponível, durante a revisão sobre Biotecnologia na Antiguidade,
conclui-se que o embasamento teórico proporcionado pelo material didático
oferecido pelo professor e por livros acadêmicos de história utilizados foi
fundamental para ordenação das informações, condução e construção da
síntese principalmente sobre os períodos históricos: Paleolítico e Neolítico.
Através da síntese foi possível identificar as primeiras ações do homem
explorando os recursos da natureza em favor de sua sobrevivência até a
formação de civilizações graças à agricultura pelo cultivo das plantas que
haviam sido domesticadas e também pela criação de animais selvagens que
foram domesticados.
20

A síntese realizada proporcionou compreensão de que a cada geração


as plantas e os animais selvagens quando trazidos para as aldeias dos povos
neolíticos eram submetidos a condições de vida e de reprodução distintas das
populações que permaneciam selvagens. E que a domesticação tendia a
eliminar certas características genéticas, morfológicas e comportamentais no
caso dos animais.
Pode-se entender, portanto, que a agricultura nunca foi descoberta ou
inventada, ela aparece como resultado de um longo processo de evolução que
afetou muitas sociedades de Homo sapiens sapiens no fim da Pré-História, na
época Neolítica. As sociedades de predadores que se transformaram em
sociedades de agricultores estavam dentre as mais avançadas da época. Elas
dispunham de instrumentos sofisticados, exploravam os recursos vegetais
bastante abundantes para lhes permitir viver de forma sedentária agrupadas
em vilarejos, praticando culto a seus ancestrais e venerando divindades.
Ao que se refere às bebidas alcoólicas, a humanidade deve ser grata as
leveduras, pois sem estes microrganismos, não haveria pão que, ao longo dos
tempos, alimentou populações mundiais, nem o vinho, cerveja e outras bebidas
obtidas segundo a fermentação. Os habitantes do antigo Egito ficavam
maravilhados com o sabor e os efeitos de um suco de frutas deixado ao ar. A
alegria e o prazer que sentiam, mas que não entendiam, era advindo destas
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