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Revista da SORBI - vol. 1, n. 1, dezembro de 2013., p.

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CUIDADOS PALIATIVOS E ENVELHECIMENTO HUMANO: ASPECTOS


CLÍNICOS E BIOÉTICOS

Newton Luiz Terra1

Com o desenvolvimento tecnológico e o consequente aumento da expectativa de


vida, o mundo tem vivido um envelhecimento significativo da sua população. O
envelhecimento por definição é um processo dinâmico, progressivo, universal,
irreversível, onde encontramos modificações morfológicas, fisiológicas, bioquímicas e
psicológicas em consequência da ação do tempo. Em decorrência, há uma perda
progressiva da capacidade de adaptação do indivíduo ao meio ambiente que leva o
organismo a uma maior vulnerabilidade e maior incidência de processos que terminam
por conduzi-lo à morte.
A diminuição da taxa de natalidade, a diminuição da mortalidade infantil e as
melhores condições sanitárias explicam este fenômeno. Atualmente a expectativa de
vida do brasileiro é de 74,6 anos. Ainda que velhice não seja sinônimo de doença, em
função das modificações supra citadas os indivíduos ficam mais propensos às doenças-
crônico degenerativas e a cronificação de uma doença traz riscos, durante a sua
evolução, de sequelas incapacitantes que levam a um grave comprometimento
funcional, tornando a pessoa acometida altamente dependente para as atividades da vida
diária. Estas doenças são caracterizadas por desenvolver longos anos de incapacidade e
de dependência além de causarem muito sofrimento até a morte da pessoa. Entre estas
doenças podemos citar as doenças cardiovasculares, doenças cerebrovasculares,
neoplasias, doenças pulmonares, HAS, diabetes melito, osteoporose, obesidade
síndrome metabólica, artrose, demências, Parkinson, depressão, doenças crônica do
fígado, doenças renais, entre outras.
Infelizmente existe um determinado momento na evolução de uma doença que,
mesmo que se disponha de todos os recursos, o paciente não é mais salvável, ou seja,
está em processo de morte inevitável. Todos os esforços diagnósticos e terapêuticos
foram realizados e não houve resposta favorável. Este é um paciente terminal. Neste
momento a terapêutica torna-se fútil ou pressupõe sofrimento. E a morte, que é um
processo natural do ciclo da vida, é bem-vinda.
Uma vez tomada a decisão de suspensão das medidas de manutenção do idoso com
doença terminal a atenção deve ser dirigida para o alívio do sofrimento e angústia da
família.
O paciente terminal deverá ter os princípios bioéticos hierarquizados. O da não
maleficência suplanta o da beneficência. O princípio da autonomia não deve prevalecer
sobre os princípios da beneficência e não- maleficência. Princípio da autonomia está
secundariamente situado em relação à beneficência e não maleficência. E o princípio da
Justiça também deve ser levado em consideração na decisão final. É o menos
importante. O paciente crítico será beneficiado por medicamentos escassos e caros que
poderiam ser aplicados a outros pacientes.

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Médico Geriatra. Diretor do Instituto de Geriatria e Gerontologia da PUCRS.

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Revista da SORBI – vol. 1, n. 1, dezembro de 2013, p. 12-14

Em um paciente terminal toda a atenção deve ser dirigida ao controle da dor e de


outros sintomas, e o cuidado dos problemas de ordem psicológica, social e espiritual;
atingindo a melhor qualidade de vida possível para os pacientes e suas famílias.
Uma vez tomada a decisão de suspensão das medidas de manutenção da vida em
idoso com doença terminal a atenção da equipe deve ser dirigida para o alívio do
sofrimento e angústia da família.
É importante frisar que, felizmente, mesmo na fase terminal de uma doença, a
qualidade de vida pode ser mantida em níveis satisfatórios, porque temos à disposição
técnicas terapêuticas de paliação.
Sabemos que existe limite para o tratamento e a cura, mas não há limites para os
cuidados.
E para isto contamos com a Medicina paliativa que é a especialidade médica
cuja atuação consiste em propiciar a melhor qualidade de vida possível àqueles
pacientes com doença muito avançada, sem qualquer possibilidade de cura ou reversão
da sua condição de saúde, por meio de técnicas que aumentem o conforto , mas que não
interfiram na sobrevida.
Os cuidados paliativos , segundo a OMS, é a abordagem que visa a melhorar a
qualidade de vida dos doentes que enfrentam problemas decorrentes de uma doença
incurável com prognóstico limitado e/ou doença grave e suas famílias, através da
presença de equipe multidisciplinar e alívio do sofrimento, com recurso a identificação
precoce, avaliação adequada e tratamento rigoroso dos sintomas não só físicos, como a
dor, mas também psicossociais e espirituais. São cuidados totais ativos, prestados a
pacientes com doença incurável, progressiva e irreversível, que não respondem a
qualquer tratamento curativo. Não se destinam apenas a preparar o idoso para a morte.
O objetivo é manter mais digna e mais confortável a existência do paciente até o
desenlace. O enfoque terapêutico é o alívio dos sintomas que comprometem a qualidade
de vida, integrando ações médicas em conjunto com as de enfermagem, psicológicas,
nutricionais, sociais, espirituais, de reabilitação e assistência aos familiares. Os cuidados
paliativos apresentam ampla dimensão, iniciada a partir do diagnóstico de uma doença
incurável.
As intervenções requerem um profundo conhecimento da fisiopatologia da
doença de base e de suas complicações previsíveis. Importante ressaltar que os
pacientes geriátricos apresentam co-morbidades o que dificulta a adequada abordagem
terapêutica. Os sintomas devem ser priorizados.
A intervenção de ser realizada somente naqueles que realmente causam
desconforto e angústia. Os principais sintomas do final da vida são:
fadiga,fraqueza,perda de energia, dor, anorexia, dispnéia, constipação, náuseas e
vômitos, tosse, confusão mental, tristeza, depressão, ansiedade, agitação, insônia,
disfagia, hemorragia, incontinência urinária, emagrecimento, diarréia, feridas (úlceras
por pressão) e choro fácil.
Para seus tratamentos temos à disposição vários medicamentos e medidas que
serão prescritas de acordo com cada caso.

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Revista da SORBI – vol. 1, n. 1, dezembro de 2013, p. 12-14

É oportuno lembrar que as doenças agudas podem evoluir para a cura (infecção),
evoluir para a morte (infarto agudo do miocárdio) ou para a cronificação e mesmo com
avanços nas discussões sobre ética, princípios bioéticos e morte os idosos ainda morrem
com um grau elevado de sofrimento.
Existem barreiras que precisam ser ultrapassadas (crenças e escassez de
esclarecimentos técnicos da equipe, resistência dos médicos assistentes, gestores e
familiares). O ideal seria “obrigar” a implantação de serviços de medicina e cuidados
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paliativos aos idosos para que tenham um final de vida mais digno e com menos
sofrimento. Os cuidados paliativos auxiliam os idosos a não serem desumanizados.
Sabemos que a morte é um evento natural e inevitável da vida e que este processo pode
ser vivido de forma distinta. O fundamental é a manutenção da dignidade e o controle
da situação através da não intervenção no que é fisiológico, mas na promoção do
conforto e do alívio físico, emocional e espiritual. O adequado atendimento ao idoso
terminal visando a aliviar qualquer sintoma é um ponto fundamental para a boa prática
da geriatria. Nos idosos, geralmente, a trajetória para a morte é lenta, com muito
sofrimento físico, mental, social e emocional. Um dos maiores desafios da bioética esta
relacionado ao “morrer com dignidade” e respeitar a vontade daquele que idoso que se
encontra em fase terminal.
Nesta fase da vida é fundamental conversar com paciente, respeitando os limites
individuais sobre cada passo do seu tratamento, ouvir e tentar amenizar suas angústias,
ouvir e respeitar a opinião dos pacientes nas decisões terapêuticas, respeitar a dor dos
familiares, entender que as pessoas têm dificuldades e angústias diferentes, manter
conversas diárias com muita paciência, explicar procedimentos a serem adotados,
manter uma unidade nas informações, dividir sentimentos e angústias, ajudar
profissionais em conflito, entender que cada pessoa irá reagir à situação de forma
diferente, com base nas suas crenças.
O tratamento em cuidados paliativos deve reunir as habilidades de uma equipe
multiprofissional para ajudar o idoso terminal a adaptar-se às mudanças de vida
impostas pela doença e promover a reflexão necessária para o enfrentamento desta fase
da vida.
Não podemos esquecer que a população está envelhecendo e que em 2025 o
Brasil terá aproximadamente 32 milhões de indivíduos idosos e todos propensos às
doenças crônicas que serão cada vez mais comuns. É imperioso treinar novos
profissionais para atender a essa demanda que necessitará cada vez mais de conforto,
alívio, respeito e dignidade no final de suas vidas.

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