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O QUE É
LUGAR DE FALA?

+MAISJUSTIFICANDO
p

DIRETOR EXECUTIVO: André Zanardo


DIRETOR EDITORIAL: Igor Leone

[EDIÇÃO N˚2 - O QUE É LUGAR DE FALA?]

CURADORA: Djamila Ribeiro


TEXTO: Igor Leone
REVISÃO DE TEXTO: Brenno Tardelli
CAPA: André Zanardo
ARTE E DIAGRAMAÇÃO: André Zanardo e Andrew Luscher

Todos os dieitos reservados.


Nenhuma parte desta edição pode ser
utilizada ou reproduzida - por qualquer meio ou forma,
seja mecânico ou eletrônico, fotocópia, gravação etc.
nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados
sem expressa autorização da editora.

Justificando Conteúdo Cultural LTDA


Av. Paulista, 1776 - Cerqueira César, São Paulo - SP, 01310-921
Olá,MENTES
INQUIETAS

Antes de mais nada, a equipe do Jus1ficando deseja


a todos e todas um ó1mo 2018, repleto de crises
existenciais e revoluções ideológicas. E bom, para
começar esse ano com força total, nada melhor do
que trazermos pra Pandora a a1vista, filósofa e
feminista negra, Djamila Ribeiro, com o curso
inédito no Brasil “O Que é Lugar de Fala?”, que foi
elaborado com base no livro de mesmo Stulo
lançado pela Editora Letramento, com o selo
editorial do Jus1ficando.

Após realizarmos uma imersão com Adilson J.


Moreira, no tema Discriminação e Direito
An1discriminatório, entendendo a fundo como os
sistemas de opressão operam e como combatê-los,
chegou a hora de mergulhar em uma nova dimensão
e ques1onar: Quem conta a história do mundo?
Quem controla a produção do conhecimento? Quem
está autorizado a falar? É com essas perguntas e
outras mais que Djamila nos 1ra da zona de
conforto. Tá esperando o que? A caixa de Pandora
foi aberta, agora o resto é com você.

Equipe Pandora
C O M A P A L A V R A,
Djamila Ribeiro

Foi uma experiência incrível ser a curadora desse curso para o Jus$ficando,
especificamente para a plataforma Pandora. O Just, como também é
conhecido, tem sido um espaço de resistência da reflexão crí1ca e aporte de
ideias. Desde que me aproximei do portal, em 2015, como incen1vadora e
leitora do trabalho da grande Joice Berth, pude de perto constatar o
compromisso para a transformação do Brazil que não conhece o Brasil, como
já cantou Aldir Blanc.

O tema que discuto com vocês nesse mês de janeiro é Lugar de Fala, sobre o
qual pude refle1r em formato escrito no livro “O que é Lugar de Fala?”, o
primeiro da coleção Feminismos Plurais, lançada pela Editora Letramento em
parceria com o próprio Jus1ficando. Baseando-se em pensadoras como
Patrícia Hill Colins, Grada Kilomba, Gayatri Spivak, dentre tantas outras, o que
já traz a refutação do regime de autorização discursiva, que será abordada
nesse curso, a obra visa conceituar o termo do lugar social de onde as pessoas
partem para exis1r e agir no mundo. A par1r do “standpoint theory”, que traz
as experiências em comum que grupos passam exatamente pela razão de
pertencerem a esses grupos, podemos pensar em um lugar de onde grupos
subalternizados coexistam e reivindicam sua humanidade, seus saberes e suas
produções.
Como mestre em Filosofia Polí1ca, venho
estudando a obra de filósofas há anos. Em
quatro anos e meio de graduação não me foi
oferecido o ensino do pensamento de
nenhuma. Tornou-se fundamental para mim
pensar o mundo a par1r de outras
epistemologias que não a dominante;
entender que disputar narra1vas, nesse
sen1do, também era disputar
reconfigurações de mundo. Ques1onar e
desestabilizar o regime de autorização
discursiva não é refle1r sobre uma hierarquia
construída e violenta que ainda determina
quem pode ou não falar, como nos ensina
Derrida. Minha intenção não é trazer uma
“epistemologia de verdade”, mas refle1r e
causar fissuras que permitam que
enxerguemos outros saberes que não são tão
“outros” assim.

Na Pandora, trago algumas das reflexões da


academia, como também o conteúdo reunido
no livro em vídeo para quem quiser entender
o debate no audiovisual ou para quem leu o
livro e queira se aprofundar. Além disso, pude
par1cipar da revista que acompanha esse
curso, onde indiquei ar1gos acadêmicos,
filmes, perfis em rede social, modos possíveis
de mobilização, dentre outros temas. É uma
oportunidade bem interessante para ampliar
o horizonte de estudos e saberes, os quais,
por serem negligenciados pela leitura
dominante, trazem desafios e um novo
mundo pela frente.
INTRODUÇÃO
Muito tem se falado sobre o que é
lugar de fala, um conceito claramente
mal compreendido sobretudo por
aqueles que insistem em cri1cá-lo. A
confusão sobre o tema se dá
essencialmente porque é
correlacionado com representação,
afinal, você precisa ser negro pra falar
contra o racismo? Lugar de fala é um
conceito que vai muito além do ato
de emi1r palavras, ele diz respeito à
própria existência, o poder exis1r;
para isso, mais do que falar é
necessário educação de base e
polí1cas públicas eficientes, que
sejam capazes de quebrar e
desconstruir a voz única, masculina,
branca, eurocêntrica e cristã que
controla todas as narra1vas.
Deixa eu faLar...
O homem branco se enxerga universal, como se fosse uma metáfora do
poder e, via de regra, não compreende que fala a partir de um lugar e de
um grupo. Não enxerga que sua fala gera impactos diretos em outros
lugares sociais e que todo privilégio que usufrui foi construído com base
na opressão de outros grupos. Através dos debates entre militantes e
polêmicas constantes nas redes sociais, "lugar de fala" se tornou um
dos conceitos mais importantes da atualidade. Com as políticas de
identidade se fortalecendo e ocupando cada vez mais espaços nas
agendas políticas e a internet democratizando em massa a
comunicação, os grupos oprimidos conquistam cada vez mais força ao
falarem ativamente sobre suas condições e realidades, realocando
constantemente as geografias da razão. Lugar de fala é, acima de tudo,
uma discussão de poder.
premissas

Coisas que você precisa saber pra não ficar perdida(o) antes de começar
Epistemologia Dominante
Epistemologia dominante é a imposição de um conhecimento universal, que
reflete os interesses polí1cos específicos do grupo social dominante,
geralmente de uma sociedade branca, colonial, patriarcal e cristã. A
epistemologia não diz respeito apenas ao conhecimento em si, mas também a
quem produz o conhecimento categorizado como "verdadeiro". A
epistemologia dominante impede o conhecimento de diferentes perspec1vas
e desconsidera o saber de outros povos e autores, como é o caso das
parteiras, indígenas, povos originários e grupos subalternizados. Se você
quiser viajar ainda mais nesse assunto pesquise sobre o filósofo Paul Karl
Feyerabend e sua teoria sobre "Anarquismo Epistemológico". *É a área da
filosofia que estuda a produção do conhecimento humano.

premissas
Lugar Social
Lugar social se refere a posição que determinado indivíduo
ocupa na sociedade. O lugar social onde indivíduos e grupos se
encontram é o que irá determinar como serão tratadas suas
produções intelectuais, saberes e vozes. Quando ocupam o
mesmo lugar social as pessoas irão compar1lhar das mesmas
experiências nas relações de poder, por exemplo, os negros
compar1lham as mesmas experiências de violência estatal pelo
fato de pertencerem ao grupo negro. O lugar que ocupamos nos
trará experiências e perspec1vas dis1ntas, assim como
determinará nossas oportunidades e possibilidades de
transcendência. Por fim, o lugar social também se torna uma das
condições da construção de qualquer discurso, que é fruto das
relações sociais de cada autor, afinal de contas todos falam a
par1r de um contexto.
premissas
Lugar de Fala
Lugar de fala pode ser interpretado como uma forma de
contranarra1va; é o mecanismo por meio do qual as minorias
sociais e grupos que enfrentam desvantagens têm para
conquistar espaço nos debates públicos. O lugar de fala
reivindica diferentes pontos de análises e afirmações e refuta a
historiografia tradicional e a hierarquização dos saberes. O
conceito serve para nos auxiliar a compreender como nossas
falas marcam nossas relações de poder e eventualmente
reproduzem preconceitos e estereó1pos. Quando
promovemos uma mul1plicidade de vozes o que se quer é
quebrar o discurso autorizado e único, que se pretende
constantemente universalizar. Lugar de fala não é só o poder
falar, não se trata apenas de um amontoado de palavras, mas
de uma hierarquia violenta que decide quem pode e quem não
pode falar. Essa hierarquia, por sua vez, é construída fruto da
classificação racial da população. O lugar de fala surge para
refutar a epistemologia dominante, estruturada
premissas
essencialmente sob um olhar branco, masculino e europeu.
A caça às bruxas e a disputa
pela fala legíEma
Por Jacqueline Moraes Teixeira

“Fora Judith Butler!”

“Meus filhos, minhas regras”

“ Eu sou pela ideologia de Gêneses”

As frases acima foram estampadas em cartazes e faixas, bem ao lado


delas havia uma boneca de pano em tamanho humano paramentada
com roupas de bruxa com a foto do rosto de Judith Butler, e no peito a
seguinte sentença: “Dona Judith é bruxa”. Trata-se de um breve relato
do ocorrido em novembro de 2017, quando o Sesc Pompéia, em São
Paulo, tornou-se arena de um conflito inusitado que reuniu dois grupos
dis1ntos de a1vistas, de um lado, representantes de movimentos da
extrema direita brasileira e do outro, representantes de organizações
defensoras dos direitos humanos e de par1dos de esquerda. Tal conflito
foi suscitado devido a par1cipação de Judith Butler (filosofa norte
americana) como palestrante na abertura do seminário internacional Os
Fins da Democracia, algo que acabou por dividir os manifestantes entre
contrários e favoráveis à sua vinda.
A controvérsia acerca da vinda de Judith Butler ao Brasil trouxe à
tona a disputa pela fala legí1ma nas temá1cas de sexualidade e
iden1dade de gênero, bem como, a defesa de uma função quase
que exclusivamente pedagógica deste lugar específico de locução.
Isso porque para os grupos de extrema direita, Butler, reconhecida
apenas por seus trabalhos sobre gênero, não estaria habilitada a
ocupar tal posição de enunciação por ser esse um espaço
reservado a família, que emerge desses discursos como um sujeito
civil autônomo e absoluto. O reconhecimento por parte desse
grupo, da essência pedagógica que os discursos legí1mos sobre
direitos sexuais e de gênero devem assumir na arena pública se deu
pelo modo como a presença da filosofa foi concebida, como
alguém cujo obje1vo era doutrinar crianças por meio de uma
suposta “ideologia de gênero”, algo que suscitou na chamada:
“menino nasce menino, menina nasce menina”, e que apareceu
insistentemente nas redes sociais, por meio de vídeos e hastags.
Afinal, a quem cabe a fala legí$ma?
No livro, O que é lugar de fala? Djamila Ribeiro se refere a fala
como um mecanismo de poder usado como polí1ca ostensiva
para deslegi1mar determinados lugares e invisibilizar alguns
sujeitos. Esse processo de apagamento específico de
determinadas pessoas ocorre por intermédio do não
reconhecimento público de seus enunciados é aprofundando
no livro a medida em que a autora apresenta uma vasta
produção de escritoras negras argumentando sobre o
ocultamento das mulheres negras na produção das teorias
feministas. Judith Butler também discorre a respeito do
processo de cons1tuição dos lugares de fala ao pensa-los
como espaços em que a fala é concebida como tecnologia de
poder. Para Butler, o reconhecimento de posições ou
modalidades discursivas se dá numa espécie de cena da
aparição, um ato público que proporciona o encontro entre as
pessoas. O fato é que as disposições históricas que envolvem
essa cena acabam por atribuir às iden1dades forjadas nesse
momento, um valor e um lugar desigual para seus discursos,
como resposta a esse efeito emergem os movimentos de
resistência.

Ao final do ato em frente ao Sesc, a boneca ves1da de bruxa -


com a fotografia de Judith Butler estampada no rosto - foi
queimada sob os persistentes gritos: “fora Butler!” Enquanto
isso, do lado de dentro, Butler discursava no auditório do Sesc.
Desse episódio é possível concluir que a busca por
legi1midade se tornou uma espécie de gramá1ca das
interações sociais, a desigualdade é legi1mada pelo medo e
pela violência, assim, como ação de resistência, tão necessário
quanto entender de onde vêm as tecnologias de produção,
opressão e manutenção das diferenças, é preciso pensar
polí1cas de convívio e de co-habitação.
CoNCeiTos

Mastigadinho, com legenda, pronto pra tomar com


leite de pera e “ovomaltino”.
Colonialismo
É através do colonialismo que determinadas iden1dades são
legi1madas ou deslegi1madas, é ele quem cria as estruturas
de opressão que irão privilegiar certos grupos em detrimento
de outros. Em outras palavras, ele reifica iden1dades como
forma de administrar os povos e estabelecer as hierarquias
que irão atuar entre eles. É de suma importância pensar o
colonialismo a fim de dissolver essas iden1dades, renovando
os modelos e estruturas sociais que foram desenvolvidos
dentro da lógica colonial e eurocêntrica. Na América La1na o
termo "decolonialismo" tem ganhado cada vez mais força,
marcando uma forma de confrontar as matrizes coloniais de
CoNCeiTos
poder. Embora a colonização tenha terminado formalmente,
o imperialismo e a globalização ainda perpetuam inúmeras
formas de desigualdade.
Teoria do Ponto de
Vista Feminista
Nossas iden1dades, discursos e saberes são frutos
de processos históricos, culturais e sociais. Sendo
assim, a teoria do ponto de vista feminista se propõe
a fazer uma crí1ca à ciência, que pensa a experiência
das mulheres como única e universal, sem
reconhecer a diversidade cultural, étnica, racial,
social e sexual que as mulheres estão inseridas.
Determinados conhecimentos só surgem de
condições e experiências que são comuns às
mulheres, ainda mais pelo fato de historicamente as
mulheres terem sido designadas para certas
a1vidades que são menos valorizadas do que as
CoNCeiTos

a1vidades atribuídas aos homens. O modo como as


mulheres estão socialmente situadas torna mais
possível que elas estejam cientes de certas coisas e
façam perguntas que não seriam concebidas por
homens. Por fim, a teoria defende que toda a
epistemologia feminina existe por si só e não a par1r
das experiências e dos pontos de vista masculinos.
Epistemicídio
É a destruição das produções intelectuais e saberes não
assimiladas pela cultura branca dominante. Existem uma
série de processos e fatores que culminam no
epistemicídio, entre eles, pode-se destacar a exclusão e a
desigualdade social, somadas ao aparelho educacional
que aniquila a capacidade cogni1va e a confiança
intelectual dos racialmente inferiorizados. Temos também
a negação aos negros da condição de sujeitos de
conhecimentos, desvalorizando, negando e ocultando as
contribuições do Con1nente Africano e da diáspora
africana ao patrimônio cultural da humanidade, pela
imposição do embranquecimento cultural. Para se
aprofundar ainda mais no tema, pesquise os trabalhos de
CoNCeiTos
Sueli Carneiro.
DemocraEzação
das Mídias
Não é possível pensar lugar de fala, sem levar em conta a
democra1zação das mídias. Sabemos que no Brasil são alguns
poucos grupos e elites polí1co-econômicas que detém o
controle de todos os meios de comunicação, sendo capazes de
com facilidade manipular a opinião pública e manter o status
quo das estruturas de poder. Estamos nas mãos da Globo,
Bandeirantes, Record, Folha, Abril e afins. A concentração da
audiência no país está na televisão e 70% dessa audiência se
concentra em apenas 4 canais. São mais de 30 deputados
federais e ao menos 8 senadores proprietários de emissoras de
televisão, o Grupo Record é dirigido pela Igreja Universal do
Reino de Deus, por trás também do Par1do Republicano
Brasileiro (PRB), e por ai vai...Para saber tudo sobre quem
controla as mídias no Brasil, acesse o Portal "Media Ownership
Monitor Brasil" desenvolvido pelos Repórteres Sem Fronteiras
em parceria com o Cole1vo Brasil de Comunicação Social.

CoNCeiTos
Regime de Autorização
Discursiva
É pensar na noção foucaul1ana de discurso como poder.
Foucault, em Microxsica do Poder, nos dá um entendimento
sobre: “O problema não é mudar a 'consciência' das pessoas, ou
o que elas têm na cabeça, mas o regime polí1co, econômico,
ins1tucional de produção de verdade. Não se trata de libertar a
verdade de todo sistema de poder - o que seria quimérico na
medida em que a própria verdade é poder - mas de desvincular
o poder da verdade das formas de hegemonia (sociais,
econômicas e culturais) no interior das quais ela funciona no
momento." Regime de Autorização Discursiva é pensar em
como as hegemonias foram construídas de modo a manter de
fora sujeitos que foram des1tuídos de humanidade.

CoNCeiTos
Sa#
Sa1 é um an1go costume hindu que remonta a 400 a.C, em
que as mulheres eram obrigadas a se sacrificar vivas na
fogueira da pira funerária do seu marido morto. Elas eram
amarradas ou drogadas com ópio, para impedir sua fuga após o
fogo ser aceso. Entre as razões para o surgimento desse ritual
especula-se impedir que a herança do marido ficasse para
esposa. Atualmente o governo indiano proíbe a prá1ca: coagir
ou ajudar alguém a cometer o sa1 pode gerar prisão perpétua
ou pena de morte. No entanto, existem dezenas de relatos da
ocorrência dos sa1s até o ano de 2006. Até o século 18,
ar1stas europeus produziam imagens dos rituais sa1
retratando as mulheres viúvas como heroínas e exemplos
morais. Gayatri Spivak, em seu ar1go mundialmente
reconhecido, "Pode o Subalterno Falar?", explora como que o
ritual foi usado como forma de exercer controle sob as
mulheres.
cLichêS
Um saco de baboseiras pra você reconhecer e vacinar sua
mente contra os ataques de memes por aí.
Lugar de fala é impedir
o outro de falar?
Essa é uma pergunta recorrente e um equívoco. Os grupos
subalternizados não possuem poder estrutural e nem
ins1tucional para proibir sujeitos do poder de poderem falar
ou não. Os homens brancos ricos con1nuam sendo maioria
nas universidades, polí1ca ins1tucional, donos dos meios de
produção. Pensar lugar de fala é justamente desestabilizar o
poder que é construídos para esses sujeitos; é a tenta1va de
possibilitar múl1plas vozes para além da voz única imposta.
Logo, é justamente ao contrário. Pensar lugar de fala é criar
fissuras na hegemonia.

cLichêS

25
Lugar de fala tem a ver
com vivência?
Lugar de fala não diz respeito a experiências individuais, mas
das experiências que indivíduos compar1lham como grupo.
Por exemplo, a alta taxa de encarceramento de homens
negros, de feminicídio de mulheres negras, etc. Como o fato
de pertencer a um grupo subalternizado faz com que esses
indivíduos, estruturalmente falando, esteja sujeitos a
determinadas violações de direitos humanos e falta de acesso
a espaços de poder. Não se trata de falar de vivências, pois
mesmo pertencendo a grupos que compar1lham experiências,
não há como se negar a dimensão individual.

cLichêS
Qual a diferença entre
lugar de fala e
representaEvidade?
É outra confusão recorrente. Lugar de fala não tem a ver com
uma visão essencialista de que somente o negro pode falar de
racismo, por exemplo. Lugar de fala implica numa postura é1ca
de pensar o mundo a par1r do lugar que se ocupa na matriz de
dominação. Por exemplo, uma pessoa negra pode não se sen1r
representada por uma pessoa branca, mas essa pessoa branca
pode pensar cri1camente sobre o que significa o racismo em
nossa sociedade e como pode se responsabilizar para
contribuir com a transformação necessária. Isso significa dizer
que pessoas brancas podem e devem debater racismo, de
como o fato de pertencerem ao grupo que está no poder
implica em privilégios. De debater a par1r do lugar da
branquitude. Existe uma tradição de estudos nos EUA de
“Cri1cal whiteness”, isto é branquitude crí1ca, a qual discute
essas questões.
Caso reaL
Globeleza: Em 2017
Djamila Ribeiro e a feminista negra Stephanie Ribeiro escreveram um ar8go
in8tulado: A Mulata Globeleza: Um Manifesto. Nele, explicavam como que a
Globo seguia um padrão clássico de seleção esté8ca próximo ao que era
feito pelos senhores de engenho ao escolher as mulheres escravizadas mais
bonitas que queriam perto de si, trabalhando na casa-grande.
Para ilustrar isso basta lembrar que em 2015 a Globo trocou a
Globeleza Nayara Jus8no, eleita por voto popular no programa
Fantás8co, por uma de pele mais clara, a Globeleza Érika
Moura, escolhida internamente. Pautados pelo racismo e pelo
machismo, os produtores da vinheta selecionavam quais
padrões de negras iriam explorar em suas vinhetas seguindo
critérios de pele mais clara, traços considerados mais finos e
corpo mais esbelto. Dessa forma, a mulher negra perdia a
autonomia sobre si mesma e o lugar que ela devia ocupar era
definido por terceiros, confinando-as a lugares específicos.

Após forte a repercussão nas mídias sociais, a Globo decidiu


se posicionar e reformulou sua vinheta de carnaval. Agora a
Globeleza aparece usando trajes regionais para ilustrar os
carnavais do Brasil inteiro, como o maracatu, o axé, o Bumba
Meu Boi e o frevo. Além do mais, a musa do carnaval passa a
dividir a tela com inúmeras outras bailarinas de diversas
etnias, além de homens.

29
ATIVISTAS
HiSTóricoS
Patricia Hill Collins
Patricia Hill Collins é uma professora,
mestre e PhD em Sociologia, reconhecida
mundialmente. Sua área de atuação e
pesquisa tem como obje1vo examinar
questões de raça, gênero, classe social e
sexualidade. Ao longo de sua carreira já
publicou mais de 40 ar1gos acadêmicos
que abrangem filosofia, história, psicologia
e claro, sociologia. Seu livro Black Feminist
Thought: Knowledge Consciousness and
the Poli1cs of Empowerment (Pensamento
Feminista Negro: Consciência,
Conhecimento e Polí1ca de
Empoderamento, tradução livre) foi seu
primeiro livro de sucesso e que é até hoje
usado em diversas universidades
americanas. Nessa obra, Patricia introduziu
diversos conceitos, entre eles o "Controle
de Imagens", em que enfa1za a construção
nega1va de um estereó1po que é usado
até hoje para representar as mulheres
negras. Essas representações as oprimem e
contribuem para manter sua dominação
subje1va, que via de regra, reflete os
interesses dos grupos dominantes. Para
ilustrar melhor isso, lembre-se do caso da
Globeleza. Durante as eleições
presidenciais dos EUA, Patricia foi uma
grande crí1ca a Donald Trump e expressou
apoio público pela candidata Hillary
Clinton.
Gayatri Spivak é uma crí1ca, feminista,
Gayatri Spivak teórica indiana e professora na Columbia
University (Nova York). Foi pioneira no
estudo da literatura teórica das mulheres
não-ocidentais e se tornou mundialmente
conhecida por seu ar1go "Pode o
Subalterno Falar?", considerado um texto
fundamental sobre o pós colonialismo
(conjunto de teorias que analisa os efeitos
culturais, polí1cos e literários deixados
pelo colonialismo nos países colonizados).
Spivak é uma grande crí1ca da
interpretação "falocêntrica" da História e
tem aplicado estratégias de desconstrução
em diferentes análises teóricas, como o
feminismo, o marxismo e o
pós-colonialismo. Desde 1986, Spivak tem
realizado um incrível trabalho humanitário
de alfabe1smo de crianças e adultos na
região de Bangladesh, com o obje1vo de
acessar diversas epistemologias que foram
postas de lado devido ao milenar sistema
de opressão por castas, esse projeto lhe
rendeu diversas premiações no mundo
inteiro. Em suas palestras mais recentes,
Spivak tem abordado também questões
envolvendo terrorismo e atentados
suicidas.
Sueli Carneiro Sueli Carneiro é doutora em
Educação pela USP, filósofa,
escritora, a1vista do movimento
negro brasileiro e fundadora do
portal Geledés - Ins1tuto da Mulher
Negra - organização que tem como
missão combater o racismo, o
sexismo, a violência contra a mulher
e a homofobia. Fundada em 1988, o
Geledés é uma das ONGs de maior
importância para o feminismo negro
no Brasil. Sueli é reconhecida
internacionalmente por sua atuação
na militância an1rracista, tanto
academicamente como através de
movimentos sociais e formulação de
polí1cas públicas. Sua obra
Racismo, Sexismo e Desigualdade
no Brasil é essencial para quem
deseja compreender como o
racismo e o sexismo se estruturam
no país, bem como, quais foram os
principais avanços na superação das
desigualdades criadas pela
discriminação.
Brasil e a história única:
bases para o entendimento estrutural de nossos
problemas
Por Joice Berth

Quando feministas negras brasileiras dizem que o racismo é


estrutural e estruturante, estão dizendo algo muito mais
profundo do que se possa avaliar em uma primeira avaliação.

Estudos e teorias sobre as desigualdades, que há muito


perturbam e só fazem crescer visivelmente, não dão conta de
soluções palatáveis, uma vez que desconsideram a verdade
sobre como nosso país, bem como toda a América, foi
construído.

O regime de escravização de pessoas não marcou apenas a


construção _sica e espacial desse país, mas também social,
valendo-se de todas as prá8cas de coerções racistas possíveis
para sustentar a hierarquização de pessoas com fins
exploratórios que se “transversalizou” por todas as áreas
possíveis e imagináveis das relações que se seguiram a par8r
daí.

E tudo que se desenvolveu sobre a história da exploração


violenta de corpos negros foi contada prioritariamente pela
visão dominante de quem explorou, haja vista que ainda hoje
há uma parte expressiva da população que atribui a libertação
dos ca8vos negros à bondade da coroa portuguesa
incorporada na figura da Princesa Isabel.

contadas.
Ao mesmo tempo em que a iden8dade de sujeitos negros era
vilipendiada e dominada para melhor conduzir a função de
mão-de-obra do corpo negro, a iden8dade de sujeitos brancos
era hipervalorizada e calcada como única fonte das histórias
contadas.

Todos os movimentos e ar8culações intelectuais feitas hoje pelo


feminismo negro brasileiro, nada mais são do que a reconstrução
da história trazendo outras perspec8vas que antes não foram
pensadas, pois as estratégias do racismo e sexismo impediam e
ainda se esforçam em impedir que vozes múl8plas agreguem
debates importantes.

Ora, se a visão do colonizador branco está em todos os espaços,


inclusive acadêmicos, ignorando de maneira pragmá8ca a luta
negra dos Quilombos, bem como os heróis negros que a
lideraram e todo o processo corajoso que se empreendeu nessa
fase da história do país, não é de se espantar que ele serviu e
serve aos propósitos desumanizadores e silenciadores que
fomentam a construção de privilégios concentrados até hoje nas
mãos brancas.

Essa percepção não é somente no nível nacional.

Como extensão e/ou comunhão natural pela visão empírica


adquirida ao longo da história, feministas negras ou la8nas
engrossam e instrumentalizam os debates que se abrem por aqui
com suas percepções que se confluem com nossas vozes.
Como é o caso, por exemplo, de Chimamanda Adichie, que fala
sobre os perigos da história única ou Maria Lugones, que propõe
a decolonialidade do saber para que seja eliminado todos os
resquícios da impregnação da visão do homem branco que ainda
nos paralisa. Temos também em Lélia Gonzáles e seu conceito de
Amefricanidade que reconstrói nossos caminhos na busca pelas
informações ancestrais aplicada a nossa condição geográfica e
Patricia Hill Collins que nos incita a nos autodefinir fechando o
espaço de construção branca de nossa persona social.

Djamila Ribeiro em sua brilhante reflexão sobre o conceito de


Lugar de Fala, também retoma não só nossa voz como
instrumento de autoafirmação e eliminação dos resquícios de
colonização de nossas mentes, como também fecha o ciclo da
reprodução massiva dos conceitos formados sobre nós, mas não
com nossa perspec8va sobre nós.

pANdorA
CPI da
Esterilização

A CPI da Esterilização, como ficou conhecida, foi formada para


inves8gar as inúmeras denúncias de esterilização em massa de
mulheres no Brasil, promovidas, dentre outras ins8tuições, pelo
Centro de Pesquisas de Assistência Integrada à Mulher e à Criança
(CPAIMC), que se pautava por ideais eugenistas, já que visava
prioritariamente as mulheres negras. Ficou demonstrado a alta
incidência (44%) de esterilizações cirúrgicas em detrimento de
outras alterna8vas contracep8vas menos invasivas e que o Estado
foi omisso ao não inves8gar as inicia8vas privadas de controle de
natalidade da população brasileira. Essa CPI foi de suma
importância para trazer a tona a violência e o sistemá8co processo
de violação dos direitos reprodu8vos das mulheres negras no Brasil.
pessoas
fodas pra
seguir
nas
redes
SOCIAIS
carla akotirene santos

NOME: Carla Akotirene Santos

O QUE FAZ: Mestra em Estudos


Interdisciplinares sobre Mulheres, Gênero e
Feminismo. Professora na Universidade Federal
da Bahia.

PORQUE SEGUIR: Uma das principais


pesquisadoras sobre a questão das mulheres no
sistema prisional.

FACEBOOK: /carlaakotirene
giovana xavier

NOME: Giovana Xavier

O QUE FAZ: Professora da Faculdade de


Educação da UFRJ, é Graduada, mestra, doutora
em História

PORQUE SEGUIR: Criou o Grupo de Estudos e


Pesquisas Intelectuais Negras, onde reúne
mulheres engajadas na produção de
conhecimentos e promoção de ações com foco em
comunidades negras, suas experiências e
histórias. Co-organizou o livro Mulheres
Negras na escravidão e no pós-emancipação, é
autora do blog Preta "Dotora" e criou o
catálogo “Intelectuais Negras Visíveis”, que
elenca 181 profissionais mulheres negras de
diversas áreas em todo o Brasil.

FACEBOOK: /giaxavier
juliana borges

NOME: Juliana Borges

O QUE FAZ: É pesquisadora em Antropologia na


Fundação Escola de Sociologia e Política de
São Paulo, onde cursa Sociologia e Política.
Foi Secretária Adjunta de Políticas para as
Mulheres da Prefeitura de São Paulo (2013).
Autora do livro "O Que é Encarceramento em
Massa?", da coleção Feminismos Plurais,
organizado por Djamila Ribeiro e com o selo
editorial do Justificando.

PORQUE SEGUIR: É influente nas redes sociais,


onde se posiciona constantemente sobre
questões raciais e de gênero.

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