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Poder Judiciário da União

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS

1 º JUIZADO DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER DE BRASÍLIA

Autos nº 00038329420188070016
( Processo antigo nº 20180110111153)

Decisão

Cuida-se de requerimento formulado por MICHELLA MARYS SANTANA PEREIRA, com


vistas à concessão de medidas protetivas de urgência, previstas na Lei nº 11.340/2006 ,
em face de condutas que, segundo alega, teriam sido praticadas por ROBERTO DE
FIGUEIREDO CALDAS.

O requerimento de medidas protetivas de urgência foi reiterado em sede de


aditamento da ocorrência policial nº 1.275/2018-1-DEAM, onde a requerente noticiou que
em 06.06.2018, quando saiu de casa para levar os filhos até a escola avistou o requerido
na esquina do conjunto em que ela mora a aguardando de dentro do veículo e que, ao
passar, o requerido abaixou os vidros do veículo e ficou lhe ?encarando? e tirando
fotografias, tendo esse fato sido presenciado pelos filhos.

É o relatório. DECIDO.

Considerando que as presentes medidas de urgências foram requeridas em sede


de aditamento da ocorrência policial nº 1.275/2018-1-DEAM,chamo o feito à ordem para
determinar o cancelamento da distribuição do presente feito, devendo as peças serem
entranhadas nos autos dos processo nº 11.115-3/18.

Assim, recebo o presente como pedido de reconsideração da decisão que indeferiu


as medidas protetivas nos autos nº 11.115-3/18 e passo a análise incialmente do que
consta nos referidos autos para, ao final, decidir sobre o pleito de reconsideração.

Compulsando-se os mencionados autos (processo nº 11.115-3/18), verifica-se que,


inicialmente, em 14.04.18, as medidas protetivas de urgência foram indeferidas pelo juiz
plantonista, com a ressalva de que a qualquer tempo os pleitos formulados poderiam ser
reapreciados pelo juízo natural da causa (fls. 20/21). Necessitando de mais elementos para
verificar a necessidade de deferimento de medidas acautelatórias com o escopo de
estancar o quadro de violência doméstica noticiado, foi determinada a designação de
audiência de justificação, tendo na oportunidade sido determinada a permanência da
requerente no lar conjugal até a realização do ato (fl. 23).

Realizada a mencionada audiência, em 09.05.18, dentre outras considerações,


levando-se em conta que o requerido não estava mais no lar conjugal e não havendo

*Documento assinado digitalmente. A autenticidade do documento poderá ser conferida no sítio do TJDFT - http://www.tjdft.jus.br

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indicação de que ele pretendesse retomar de forma abrupta o relacionamento, foram


indeferidas as medidas protetivas de urgência, com a ressalva de ausência de prejuízo de
reavaliação do pedido após a manifestação do Ministério Público, eis que foi concedido às
Defesas dos envolvidos prazo para se manifestarem sobre os documentos e pen-drive
acostados (fls. 51/53 e 53/107 do processo nº 11.115-3/18.

Às fls. 109/112, a Defesa da requerente, reiterando a vulnerabilidade da vítima,


manifestou pela concessão de medidas protetivas, oportunidade em que juntou os
documentos de fls. 113/140.

Às fls. 145/ 151, a Defesa do requerido, em preliminar, arguiu a incompetência deste


juizado de violência doméstica e pleiteou o indeferimento do pedido de reconsideração feito
às fls. 112. Acostou os documentos de fls. 164/169.

Às fls. 170/171, a Defesa da requerente noticiou que, a partir da divulgação do caso


pela imprensa, Michella começou a notar veículos que aparentemente a seguiam, bem
como o recebimento de mensagem da psicóloga ? a qual fez atendimento a ela e, por
diversas vezes, ao requerido ? alertando-a de que, pelo estado psicológico dele, seria
recomendável a contratação de segurança pessoal (fls. 172/175 processo nº 11.115-
3/18).

Às fls. 182, o juízo determinando a vista dos autos ao Ministério Público, em exame
a documentação de fl. 170/178, não concedeu as medidas protetivas de urgência, tendo
ao final esclarecido que os requerimentos das partes seriam analisados após a oitiva
ministerial.

Manifestação do Ministério Público, à fl. 184, acostando documento relativo a acordo


entabulado pelas partes na Vara de Família, mas mantendo-se silente especialmente com
relação à documentação acostada à fl. 172/175.

Pois bem, com relação a preliminar arguida sobre a competência deste juizado de
Violência Doméstica, não há como prosperar. Isso porque, dispõe o artigo 5º da Lei nº
11.340/2006, in verbis :

"Art. 5º. Para efeitos desta Lei, configura violência doméstica e familiar
contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe
cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral
ou patrimonial:

I - no âmbito da unidade doméstica compreendida como o espaço de


convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive
as esporadicamente agregadas;

II - no âmbito da família, compreendida como comunidade formada por


indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços
naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

*Documento assinado digitalmente. A autenticidade do documento poderá ser conferida no sítio do TJDFT - http://www.tjdft.jus.br

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III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou


tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação."

Na hipótese, os elementos informativos constantes dos autos revelam que a


vítima era companheira do acusado por ocasião dos fatos, sendo que ambos viviam na
mesma residência. Segundo os relatos da vítima, quando conviviam sofria frequentes
agressões físicas e verbais do requerido. Nesse sentido, considerando a narrativa da
ofendida, de se observar que as condutas supostamente empreendidas pelo acusado
decorreram da coabitação entre ele e a vítima e do fato de ser ela mulher, subsumindo-se
à hipótese prevista no inciso II do artigo 5º da Lei 11.340/2006, de modo que as disposições
desse instrumento normativo devem ser aplicadas ao caso em apreço.

Noutro giro, a situação de vulnerabilidade da vítima, na hipótese, provém de seu


próprio gênero, de sua idade e da condição de companheira do requerido, ressaltando-se
que na avaliação de fatores de risco constante à fl. 15/18, a requerente afirmou que se
considera dependente financeiramente do requerido.

A Lei nº 11.340/2006 é clara quando etiquetou como violência "doméstica e


familiar" qualquer agressão inserida em um relacionamento estreito entre duas pessoas,
seja fundado na confiança, no amor, na camaradagem, bem como aquela praticada entre
pessoas unidas por um vínculo jurídico de natureza familiar, podendo ser conjugal, parental
ou por vontade expressa.

Diante do acima exposto, entendendo haver motivação de gênero à justificar o


processamento do feito neste juízo, rejeito a preliminar arguida.

Quanto ao pedido de reconsideração das medidas protetivas, protocolizadas na data


de hoje, bem como considerando que a decisão relativa a medidas acautelatórias não
fazem coisa julgada, podendo ser revistas sempre que haja fato novo, passo à devida
analise.

Prevê o artigo 19 da Lei nº 11.340/06 que as medidas protetivas de urgência poderão


ser concedidas de imediato pelo juiz, independentemente da audiência das partes ou do
Ministério Público, bem como aplicadas isolada ou cumulativamente, ou substituídas de
acordo com a exigência do caso concreto, havendo também a possibilidade de revisão da
situação fática ensejadora do pleito, a qualquer tempo.

Em detida análise dos autos, é forçoso reconhecer que as partes envolvidas se


encontram em situação de conflito emocional, permeada por discussões e
desentendimentos, fazendo-se necessária a intervenção estatal, a fim de que a situação
entre eles não seja agravada ainda mais.

Ressalte-se que a ninguém é permitido o abuso nas relações sociais e afetivas e que
caso ocorram situações de eventual descontrole, como parece ser o caso, é autorizada a
intervenção do Estado, a fim de evitar ofensa à integridade física e psicológica da mulher,
objeto de cuidados da Lei nº 11.340/06.

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Na hipótese, mesmo tendo o requerido, perante este juízo, comprometido a não se


aproximar da casa onde reside Michella (fl. 51vº), foi noticiado pela requerente, em sede
de aditamento da ocorrência policial acima mencionada, que avistou o requerido na
esquina do conjunto em que ela mora a aguardando de dentro do veículo e que, ao passar,
o requerido abaixou os vidros e ficou lhe ?encarando? e fotografando-a, tendo esse fato
sido presenciado pelos seus filhos.

Não bastasse isso, corroborando a situação de risco da requerente, já alertada às fls.


170/175 , verifica-se pela cópia de atestado de fl. 46.

Assim, entendo que se faz necessária a adoção das medidas requeridas para
resguardar a integridade física e psíquica da ofendida, mesmo porque, com o término da
relação, tem ela o direito de não mais ser importunada pelo suposto ofensor, sob qualquer
pretexto.

Com essas considerações e com fundamento na Lei nº 11.340/06, DEFIRO o pleito


da requerente para aplicar, pelo prazo de 90 (NOVENTA) DIAS, as seguintes medidas
ao requerido:

a) proibição de aproximação da requerente, fixando o limite mínimo de 200


metros de distância; e b) a proibição de contato com a requerente por qualquer meio
de comunicação.

Quanto ao pedido formulado pela requerente consistente na proibição do requerido


frequentar a academia de ginástica do lago sul, não vislumbro, por ora, necessidade de
concessão, uma vez que ora deferida a proibição de aproximação e contato da requerente.

O requerido fica advertido de que o descumprimento de qualquer das medidas


determinadas na presente decisão poderá ensejar a decretação de sua prisão
preventiva, sem prejuízo de responder pelo crime previsto no art. 24-A da Lei nº
11.340/2006.

Intimem-se as partes de que o presente deferimento, no entanto, não afeta a


possibilidade de visitas do requerido em relação aos filhos, situação em que poderá ser
intermediada por terceira pessoa indicada pela requerente.

Adote a Secretária as providências necessárias ao cancelamento da distribuição nº


2018.01.1.01.7540-0.

MANTENHO O SEGREDO DE JUSTIÇA concedido às fls. 38 dos presentes autos


(processo nº 11.115-3/18).

Expeça-se Ofício à Delegacia de Polícia.

Intimem-se.

*Documento assinado digitalmente. A autenticidade do documento poderá ser conferida no sítio do TJDFT - http://www.tjdft.jus.br

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Distrito Federal, 8 de Junho de 2018.

JORGINA DE OLIVEIRA CARNEIRO E SILVA ROSA


JUIZ DE DIREITO

*Documento assinado digitalmente. A autenticidade do documento poderá ser conferida no sítio do TJDFT - http://www.tjdft.jus.br

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