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F E V E R E I R O 2 0 0 8

Tema bastante tormentoso é o reconhecimento da prescrição em relação às


medidas sócio-educativas no âmbito do direito infanto-juvenil.

Prescrição
sócio-
educativa

“o caráter predominantemente
reeducador das medidas previstas na Lei
no 8.069/90 faz com que o Estado tenha
o dever de aplicá-las para preparar a
pessoa humana para uma vida feliz
e útil. (...) Trata-se, repita-se, de um
dever do Estado e não existe prescrição
ou decadência de um dever” (2004, pág.
343) - o magistério de Guaraci Vianna.

Eduardo Del-Campo, P42/43

Destaque do mês Edição n o 57

Uso de Celular por Improbidade Execução Fiscal Midiatização da Desassossego da Minha trajetória
presos Administrativa Por mais que se justiça filiação como concursando
A segurança pública, Essa Lei substitui a entenda que a Lei É certo que os Realizei cursos
um dos sustentáculos antiga Lei Bilac Pinto 11.382 seja mais “comflitos de preparatórios com
da estrutura e trouxe inova;’oes aperfeiçoada que paternidade” já futuros colegas, que
democrática, nos inportantes no plano diplomas anteriores, encontram caminhos auxiliaram e muito
últimos tempos, punitivo. ela não afasta a de solução nas no enfrentamento das
incidência de regra questões suscitadas
vem sofrendo sério técnicas em DNA,
Fabio Medina – P8
especial expressa. nas provas.
abalamento pelo da quando cabíveis, e
criminalidade avanço Flávio Yarshell – P6 A mídia dramatiza no valor jurídico da Ari Marion – P32/33
organizada. as informações base socioafetiva da
relacionadas com a filiação.
Fernando Capez – P10 violência.
Luiz Fachin – P48
Luiz Flávio Gomes
Sérgio Souza

– P16

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J U S T I Ç A

O Avanço do Estado Terrorista


“Até mesmo o presidente Lula deixa-se levar pelo ímpeto autoritário...”

mina por impor regras desumanas, Corrêa e outros pretendem se per- Esquece-se que ele mesmo foi contra o
como punir a mulher vítima de estu- petuar. tributo, no governo anterior, não sen-
pro, e não os estupradores, ou apenar Mesmo o Brasil em que o calar à opo- do legítimo concluir que o tenha feito
professora por ter concordado que as sição não chegou a arroubos arbitrários, com propósitos sonegatórios...
crianças suas alunas dessem o nome vemos projetos de lei de destruição da O mundo, em matéria de direitos
do profeta Maomé a um pequeno urso cidadania, como o que pretende permi- fundamentais e de direito à privaci-
de pelúcia. tir às autoridades do Executivo grampe- dade vai muito mal, infelizmente não
Se Dan Brown, em vez do “Código ar telefones e ter acesso a dados da vida se excluindo o Brasil. Em nosso País,
Da Vinci”, tivesse escrito um “Código” privada de cidadãos, sem autorização impera a falha visão de que o interesse
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desfigurando a pessoa de Maomé, judicial; executar suposta dívida tribu- público – leia-se: “interesse dos deten-
como o fez com Cristo, certamente tária sem participação de magistrados; tores do poder”- deve sempre preva-
seria esquartejado em praça pública - alargar as operações cinematográficas lecer sobre o direito dos cidadãos, o
Ives Gandra da Silva Martins embora merecesse umas palmadas pela de prisões, com base em meras suspei- que leva o governo a transformá-los
fantástica demonstração de desrespeito, tas, com a desfiguração da imagem das em pobres produtores de tributos. E,
ignorância histórica, religiosa, filosófica pessoas expostas à mídia; transformar apesar de produzirem a riqueza na-

H á nítida escalada, no mundo,


das restrições aos direitos dos cida-
e política, na farsa que escreveu.
Na África, os governos ditatoriais se
sucedem e, na América Latina, o ora-
órgão técnico, como o IPEA, em central
ideológica.
Até mesmo o presidente Lula dei-
cional, são desqualificados pelas au-
toridades - estas sim especialistas em
gerar amarras burocráticas e atrasar o
dãos. Nos Estados Unidos, a guerra dor de baixo calão Chavez e o pouco xa-se levar pelo ímpeto autoritário, ao desenvolvimento – temerosas de uma
do Iraque desventrou tratamentos dotado Morales reagem com violência taxar de “sonegadores” todos os que reação da sociedade que ponha um
indignos a prisioneiros e cidadãos a seus opositores, em comportamento se opuseram à aprovação da CPMF - ponto final no “status quo”, em que
de outras nacionalidades, até hoje não que traz implí- parte de nossos tributos, terminam ali-
tendo havido solução para o problema cito o seguinte mentando as licitações superfaturadas
dos emigrantes mexicanos, apesar do princípio: “Na e a corrupção, segundo detectado até
livre trânsito de mercadorias, que o Venezuela e na mesmo por órgãos internacionais.
NAFTA permite. Bolívia todos Decididamente, o mundo não vai
Putin, por outro lado, enrijece o regi- têm o direito de bem. Caminhamos para a perda de
me, a ele sendo atribuídos assassinatos ficar calados e conquistas preciosas para a Humani-
de adversários políticos - jornalistas quem não exer- dade, ameaçadas pelo egoísmo e pela
foram envenenados –, o que coincide cer este direito tirania, em que, tal como no passado,
com a adoção de atitudes cada vez mais será punido”. o medo governará.
arbitrárias para calar a oposição, de que Apesar disto, Divulgação
é prova a injustificável prisão de Kaspa- Chavez perdeu Ives Gandra da Silva Martins
rov, símbolo da inteligência russa. o plebiscito, o
Professor Emérito das Universidades
A China é uma ditadura, não fi- que o levou a
Mackenzie, UNIFMU, UNIFIEO, UNIP
cando atrás o Paquistão, onde, com atacar seus opo-
e das Escolas de Comando e Estado Maior
violência, as vozes oposicionistas têm sitores com palavras proibidas nas que, segundo a ex-vice presidente do do Exército-ECEME e Superior de Guerra-
sido caladas. escolas – ainda que bem ao nível de FMI, Ana Krueger, constitui o “pior ESG, Presidente do Conselho Superior
Quanto aos países fundamentalistas sua educação e de sua estatura de tributo do mundo”- pretendendo, de Direito da Fecomercio e do Centro de
nem há o que se falar. O fanatismo ter- “estadista”. assim, desqualificar seus adversários. Extensão Universitária - CEU.

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D I R E I T O S O C I A L

Trabalho Infantil
“ Os direitos de mais de 23% das crianças e adolescentes não tem sido respeitado.”

No Nordeste do Brasil é que há a físicos, psicológicos e sexuais, em criança e do adolescente, que, no mo-
maior incidência de trabalho infantil: atividades realizadas com máqui- mento, não existem.
13% da população ou 1,5 milhão de nas, equipamentos e ferramentas O ideal seria que a pessoa pudes-
crianças. No Sudeste, 710 mil crianças perigosas, trabalhos realizados sob se ficar no âmbito de sua família,
trabalham. a terra e em condições insalubres, usufruindo das atividades escolares
Metade dos trabalhadores presta no transporte de cargas pesadas e necessárias, sem entrar diretamente
serviços em atividade domésticas no também as ocupações que possam no mercado de trabalho, até por
Brasil. Dez milhões no mundo. causar danos morais, à saúde ou à volta dos 24 anos, obtendo plena
O trabalho infantil é mais usado segurança da pessoa. formação moral e cultura. No nosso
no Brasil no trabalho doméstico, em Entre as crianças que trabalham no país, isto se tem verificado impossí-
Acervo CF

atividades agrícolas, como na colheita Brasil 44,19% exercem ocupações con- vel, tendo em vista a necessidade das
de cana de açúcar, na construção civil, sideradas perigosas. Em São Paulo há famílias de baixa renda de que suas
Sergio Pinto Martins no comércio ambulante.
Os acidentes com crianças são de
25% na área de calçados e borracha.
A Convenção n.º 182 da OIT trata “No Nordeste do

O Brasil tem 61 milhões de


da proibição das piores formas de
trabalho infantil. Determinou que
os países devem tomar medidas
Brasil é que há a
jovens até 17 anos. 5,5 milhões de maior incidência
crianças e jovens trabalham entre 5 imediatas para erradicar todas as
a 17 anos. Isso representa 12,7% das maneiras de escravidão infanto-ju- de trabalho infantil:
pessoas nessa faixa etária. Desse venil, como a venda ou tráfico de
total, 2,2 milhões exercem ocupa- crianças, a servidão por dívidas e os 13% da população
ções perigosas, segundo a OIT. Três trabalhos forçados. As nações devem
milhões de crianças de 5 a 15 anos evitar a utilização de recrutamento e ou 1,5 milhão
trabalham no Brasil. Isso significa oferta de crianças para a prostituição.
8,5% da população. Devem ser eliminadas a participa- de crianças. No
Os direitos de mais de 23% das ção de crianças e adolescentes em
crianças e adolescentes não tem sido atividades ilícitas, como tráfico de Sudeste, 710 mil
respeitado. Suas famílias têm renda de entorpecentes, trabalhos que venham
apenas um quarto do valor do salário a prejudicar a saúde, a segurança e a crianças trabalham.”
mínimo. moralidade das crianças.
O PNAD mostra que o fato de o A Recomendação no 190 da OIT
chefe da família trabalhar sem registro orienta os governos a adotar pro-
aumento o risco do trabalho infantil gramas de erradicação das piores

Divulgação
em 28 vezes na área rural e 1,75 na formas de trabalho infantil, devendo
área urbana. as nações identificar, denunciar e
As crianças que recebem pelo traba- impedir que crianças prestem servi-
lho são 35% do total. Isso implica dizer ços nessas condições. Considera-se
que 65% das crianças não recebem como trabalho perigoso os casos em 318.340 crianças trabalhando em áreas crianças, atingindo por volta dos 12
pela prestação de serviços. que a criança fica exposta a abusos perigosas. Em Minas Gerais, 301.438. anos, ou às vezes até antes, passem
Na Bahia, 194.236. No Rio Grande do a trabalhar para conseguir a sub-
Sul, 169.958. No Maranhão, 139.040. sistência para o lar. Entre a criança
No Ceará, 136.994. No Paraná, 134.547. ficar abandonada, ou perambulando
Na Região Norte, 51,41% das crianças pelas ruas, onde provavelmente par-
exercem atividades de risco. tirá para a prática de furtos e roubos
A legislação brasileira estabelece e uso de drogas, certamente melhor
81 tipos de atividades consideradas é que tenha um ofício, ou até um
perigosas, como as que envolvem aprendizado, para que possa contri-
esforço, nível de poluição, etc. buir para a melhoria das condições
Apesar das disposições consti- de vida de sua família.
tucionais e legais, o Brasil continua O trabalho de uma criança ainda
sendo o país que mais tem problemas importa o desemprego de um adulto,
decorrentes do abandono da criança o que ajuda a influir nas estatísticas do
e do adolescente nas ruas e com sua desemprego.
exploração. Apenas a legislação não
é suficiente; há necessidade de maior Sergio Pinto Martins
participação de toda a sociedade, Juiz do TRT da 2a Região. Professor titular
visando conseguir soluções para o de Direito do Trabalho da Faculdade de
problema. É preciso pensar em novas Direito da USP. Autor de diversas obras
políticas públicas para o trabalho da publicadas pela editora Atlas.

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A Lei 11382/6
O Processo de Execução Fiscal e o Prazo para Embargos do Devedor

cesso, se estabelece entre o cidadão e bito processual!), não faltaria quem asse a vigorar o prazo de trinta dias
o Estado”. pretendesse a prevalência do geral da lei especial (para os embargos),
Dentre os diferentes exemplos sobre o especial para um determinado quando a lei geral fala em quinze;
empregados para ilustrar o raciocínio, fim, mas não para outro. Não faltaria, ou que alvitrasse a permanência da
lembramos justamente que “Hoje, enfim, quem pretendesse fazer uma citação por via postal, como quer a
já não é tão claro saber se é caso de espécie de mixagem das leis, a gerar, lei especial, quando a forma ordinária
embargar a execução, tanto que efe- na prática, um terceiro diploma cuja na execução “comum” é a citação por
tivada a citação e juntado aos autos autoria só se poderia mesmo atribuir mandado (vide a respeito, art. 652,
o mandado ou, diferentemente, se é ao respectivo aplicador e não ao le- especialmente § 1o); ou que sustentas-
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caso de se aguardar a consumação gislador. se só uma ou só outra dessas regras;


da penhora e respectiva intimação; a ou nenhuma delas... Sempre haveria
rigor, mesmo quanto a essa última há argumento – alguns com suposta dig-
Flávio Luiz Yarshell muitas dúvidas”. nidade constitucional – para mescla
Justamente a propósito do prazo “Nesse contexto de dessa ordem, conquanto sujeita ao
para interposição dos embargos do gosto do aplicador.
devedor, vem a lume a relevante importantes Portanto, no contexto de um siste-

E m edição anterior desta Carta


Forense, este articulista manifestou
questão consistente em saber se e em
que extensão as alterações trazidas ao
CPC pela Lei 11.382/6 teriam afetado
alterações na lei
ma democrático, que atribui diferentes
competências a diferentes órgãos do
Estado, as normas especiais derrogam
preocupação com as repercussões o processo da execução fiscal, regido processual, as gerais. Vale dizer: por mais que se
das sucessivas reformas do Código de pela Lei 6.830/80. Naturalmente, as entenda que a Lei 11.382 seja mais
Processo Civil, a gerar incerteza e inse- possíveis repercussões do primeiro
conclamamos os aperfeiçoada que diplomas anteriores
gurança especialmente, ainda que não diploma legal sobre o segundo vão (será que, nesse caso específico, isso
apenas, no contexto de processos já
operadores do
além daquele ponto. Mas, o espaço é uma verdade absoluta?), ela não
instaurados. Naquela oportunidade, aqui não permitiria – não ao menos Direito...” afasta a incidência de regra especial
destacou-se que não se deve esperar de uma só vez – exame mais alentado expressa, de cuja constitucionalidade
do Judiciário, a respeito, qualquer sobre o tema. não se suspeite seriamente.
espécie de tratamento condescendente Sendo assim, aqui convém limitar Quanto ao segundo aspecto acima
de partes e de advogados. Contudo, o objeto da indagação: diante da nova Exemplo disso, fora do contexto da destacado, convém dizer o seguinte:
deu-se relevo à importância das regras regra do art. 738 do CPC, segundo a qual reforma da execução, é o caso de En- ainda que se pudesse entender que
processuais – disciplina legal das ga- os embargos devem ser ofertados no prazo contros institucionais da Magistratura o advento da Lei 11.382/6 revogou
rantias constitucionais do devido pro- de quinze dias “contados da juntada aos acerca da repercussão das alterações a regra do art. 16 da Lei 6830/80,
cesso legal e do contraditório – como autos do mandado de citação”, estaria do CPC em matéria recursal no âmbito essa aplicação jamais poderia tomar
penhor de legalidade e garantia contra revogada a regra do art. 16 da Lei de Exe- dos Juizados Especiais: os mesmos de surpresa as partes e seus procu-
o exercício do poder arbitrário. cuções Fiscais, cujo inciso III – na linha defensores da aplicação da súmula radores. As conseqüências, como é
Mais ainda, chamou-se a atenção do que era a regra geral antes vigorante impeditiva de recursos (CPC, art. evidente, são por demais gravosas.
para o fato de que as regras proces- para o processo comum – manda contar o 518, com a redação que lhe deu a Lei Portanto, é inadmissível se reputem
suais estabelecem diferentes posições prazo da intimação da penhora? 11.276/6) aos Juizados, recusam-se a intempestivos embargos do devedor,
jurídicas, dentre as quais e com espe- Divido minhas brevíssimas consi- ali aplicar a regra do § 2o do art. 511 opostos no contexto do processo de
cial relevo para as partes e advogados, derações em duas partes: a primeira, do CPC, para relevar a deserção e dar execução fiscal, a pretexto de que o
os ônus (de alegar, de requerer, de sobre a aplicação do CPC ao tema oportunidade de complemento no prazo contar-se-ia na forma do art.
provar, de recorrer, de impugnar, de das execuções fiscais; a segunda, ao caso de mera insuficiência do prepa- 738 do CPC, enquanto não houver
embargar etc). A não observância de modo pelo qual, em caso de resposta ro. E veja-se que nos Juizados não há alteração legislativa expressa ou, pelo
tal encargo, como é sabido, leva ao fe- positiva, isso possa se operar. apelação, os Colégios Recursais não menos, enquanto o Superior Tribunal
nômeno da preclusão e este, conquan- Quanto ao primeiro aspecto, não se são o Supremo Tribunal Federal nem de Justiça não se pronunciar sobre
to visto como fenômeno processual, duvida de que a norma geral possa e o Superior Tribunal de Justiça (lite- o tema de forma estável. Para argu-
acaba atingindo o plano material. Do deva se aplicar a situações reguladas ralidade do §2o do art. 518 do CPC) mentar, na pior das hipóteses, seria
papel, a decisão passa à vida real. por lei especial; desde que essa última e, finalmente, não há na Lei 9009/95 imprescindível que no ato de citação o
Nesse contexto de importantes seja omissa, isto é, desde que não contenha regra que expressamente exclua mera devedor fosse prévia e expressamente
alterações na lei processual, conclama- regra expressa sobre determinada matéria. complementação do preparo existente advertido quanto ao (novo) prazo, a
mos os operadores do Direito, então, A idéia nada tem de novo: o especial mas insuficiente (para não dizer que constar expressamente da carta de
a reafirmar o caráter instrumental do derroga o geral – e não o inverso – e o tal providência, pelo contrário, afina- citação, visto ser essa a forma de cha-
processo, a revigorar a idéia de fungi- geral se aplica subsidiariamente quan- se com os princípios inscritos no art. mamento vigorante no contexto da
bilidade (em matéria recursal ou dos do não conflite com a regra especial 2o dessa última citada lei). execução fiscal (art. 8, inciso I).
diferentes meios de impugnação), e (portanto, na omissão da disposição Mas não é preciso ir tão longe: pre-
a ter clara a idéia de que o processo especial). Qualquer tentativa em con- tender-se aplicar a regra do art. 738 do Flávio Luiz Yarshell
não é – e não pode ser – um caminho trário abriria margem para o arbítrio CPC à execução fiscal já traria consigo
repleto de armadilhas e de surpresas. porque, considerando-se a diversida- os problemas assim temidos: embora Advogado. Mestre, Doutor e Livre Docente
Dissemos então que “A hora é de de dos destinatários das normas, com admitindo a contagem do prazo antes em Direito Processual pela USP. Professor
ponderação e de prestigiar a boa-fé e visões diversas e até contrapostas (o mesmo da penhora, não faltaria quem de Processo Civil da Faculdade de Direito do
a segurança da relação que, via pro- que é particularmente válido no âm- preconizasse, por exemplo, continu- Largo de São Francisco – USP.

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Improbidade Administrativa
Fábio Medina Osório é Advogado; Ex-membro do Ministério Público do Rio Grande do Sul; Mestre em Direito pela UFRGS;
Doutor em Direito Administrativo pela Universidad Complutense de Madrid; Professor dos cursos de mestrado e Doutorado da UFRGS
e autor da obra Teoria da Improbidade Administrativa, publicada pela editora RT, 2007 e Direito Administrativo Sancionador, ed.RT,2006.

blicano de controle da má gestão pública no país. Essa sultados. Não se trata de responsabilidade objetiva.
Lei substituiu a antiga Lei Bilac Pinto e trouxe inovações Todavia, os Tribunais de Contas, cada vez mais, cobram
importantes no plano punitivo, porque introduziu, como responsabilidades por gestão. O Ministério Público tam-
penalidades, a perda da função pública, a suspensão dos bém cobra, dos gestores, determinados deveres relacio-
direitos políticos, a interdição de direitos, a multa civil, nados a metas e desempenho. No terreno jurídico, a idéia
além das medidas reparadoras, como o ressarcimento de eficiência, que está na Constituição de 1988 (art.37,
ao erário e a perda dos bens havidos ilicitamente, que caput) desenha claramente essa diretriz. A ética pública
estavam previstos na legislação anterior. A Constituição não define apenas deveres conectados a boas intenções,
de 1988, no art.37, par.4º, previu a improbidade adminis- mas, sobretudo, a pautas objetivas de boa conduta.
trativa e a necessidade de edição dessa Lei. Sustento, pelo Isso não quer dizer que os gestores não tenham espaço
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menos desde 1999, que a natureza jurídica da Lei é de ao erro profissional. Hoje, há um equívoco enorme de
Direito Administrativo Sancionador, o que significa dizer parte de uma parcela das autoridades fiscalizadoras
que ela arrasta consigo todo um regime jurídico próprio em cobrar responsabilidades como se os gestores não
desse sistema punitivo. Segue-se que aos acusados em tivessem direito ao erro. No entanto, Juízes, membros
Carta Forense — Qual sua posição sobre a Lei de Impro- geral são reservados direitos fundamentais relacionados do Ministério Público, Advogados, Médicos, e outros
bidade Administrativa e sua aplicação? ao devido processo legal punitivo, como o da tipicidade tantos profissionais, têm espaços para o chamado erro
Fábio Medina Osório — A Lei 8.429/92 é um Código das infrações e das penas, culpabilidade, responsabilida- profissional legítimo. Errar é humano. Errar é necessário
Geral de Conduta para todos os agentes públicos brasi- de subjetiva, interdição à arbitrariedade do Estado, pro- para o crescimento profissional. Há margens de erro que
leiros e, nesse sentido, constitui um instrumento repu- porcionalidade, individualização das sanções, motivação são legítimas e são até mesmo toleradas pelo ordena-
dos atos cerceadores de mento jurídico. Não se pode confundir o erro legítimo
direitos. Hoje, o grande ou tolerável com a ineficiência, esta sim censurável pelo
desafio das instituições Direito Administrativo Sancionador e até mesmo pelo
fiscalizadoras é aplicar Direito Penal.
a Lei de Improbidade de CF — Como podemos verificar o Imperativo ético da boa
modo não arbitrário e, gestão nos dias de hoje?
ao mesmo tempo, com FMO – O imperativo ético se dá nos mais variados
eficiência, respeitando planos, desde a auto-regulação nos domínios corpora-
direitos fundamentais tivos, até o plano da Lei de Improbidade ou do Direito
dos acusados em geral. Penal. É necessário reforçar o sistema premial para a
Outro ponto que merece boa gestão pública, não apenas o sistema punitivo. É
reflexão diz respeito à importante fortalecer a meritocracia, tão ausente no setor
convivência harmônica público como um todo.
das diversas e múltiplas CF — Sob a ótica da natureza punitiva da improbidade
instâncias fiscalizado- administrativa, qual seu posicionamento acerca do Foro Pri-
ras, coibindo-se decisões vilegiado e às imunidades concedidas a determinado agentes
contraditórias sobre um públicos?
mesmo fato unitário. FMO — O foro privilegiado, recentemente derrubado
Pode ocorrer que um pelo STF, não chega a constituir uma patologia do siste-
mesmo fato gere desdo- ma punitivo, porque protege não a pessoa, mas a função
bramentos em distintas pública. Note-se que, no caso da Lei de Improbidade, em
instâncias, suscitando se tratando de Direito Administrativo Sancionador, seria
intervenções à luz da razoável observar um tratamento simétrico em relação ao
Lei Penal, Lei de Impro- Direito Penal e Direito Processual Penal. Aliás, sintomá-
bidade, Lei Disciplinar, tico é que o foro privilegiado tenha sido introduzido no
por exemplo. Há uma bojo do Código Processual Penal. A Lei de Improbidade
discussão crescente so- tem natureza punitiva e afeta direitos fundamentais. Daí
bre a importância de se porque não há razão para surpresas com o foro privi-
harmonizar os discursos legiado para aquelas mesmas autoridades que gozam
dessas instâncias, em dessa prerrogativa na esfera penal. Sem embargo, o STF
determinados aspectos, decidiu que inexiste essa prerrogativa frente ao sistema
agregando segurança sancionador da improbidade, o que equivale a dizer
jurídica ao cidadão. que um agente do Ministério Público pode investigar e
CF — Pode nos expli- acionar, em primeira instância, qualquer autoridade que
car o que é Ética de Res- goze de prerrogativa de foro criminal, imputando-lhe
ponsabilidade e sua ligação algum dos ilícitos previstos na Lei 8.429/92. Isso pode
com o terreno jurídico? conduzir a alguma desarmonia do sistema, mas é assim
FMO — Os agentes mesmo que vai funcionar. Quanto à idéia de imunidades,
públicos assumem, com como a falta de aplicabilidade da Lei de Improbidade
seus cargos, deveres aos agentes políticos, por exemplo, na esteira de enten-
funcionais ligados a re- dimento que o STF pretenderia sufragar, não me parece

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E N T R E V I S T A
razoável. A Lei é geral e se estende a todos os agentes ineficiente. Procuro defender a punição da ineficiência a moralidade administrativa. Pode haver, todavia, dis-
públicos, não se confundindo com a Lei dos Crimes de grosseira dentro da Lei de Improbidade. Está expresso torções que mereçam reparos e, dependendo do grau,
Responsabilidade. no art.10 da Lei. Creio, todavia, que o próprio art.11 até mesmo a invocação da Lei de Improbidade.
CF — Em relação às facetas da ineficiência e desonestidade comporta essa modalidade, onde for compatível. CF — Vemos todos os dias nos fóruns atraso abusivo e às
funcional dos homens públicos, qual a relação com as flutuações CF — Vindo mais próximo da nossa área, o judiciário, vezes até omissão em relação ao andamento dos processos. Den-
ético-normativas? como dentro deste contexto fica a situação do nepotismo nos tro deste contexto poderia ser considerada uma infração?
FMO — As flutuações ético-normativas apenas tribunais? Qual seu entendimento? FMO — O Juiz, na gestão de processos, é um autênti-
indicam que nem todas ineficiências ou mesmo deso- FMO — O que mais me preocupa em termos de nepo- co administrador. Pratica atos que podem ser encaixados
nestidades serão tuteladas pela Lei de Improbidade. Há tismo, hoje, é o chamado nepotismo cruzado. A troca de na Lei de Improbidade. A omissão da prática de atos
um universo de imoralidades que fica fora do alcance parentes no setor público. De outro lado, vale observar de ofício pode dar lugar às responsabilidades, não há
legal, por razões de legalidade, tipicidade ou mesmo de que se trata de um fenômeno sócio-cultural de dificílimo dúvidas, tanto no plano disciplinar, quanto no campo
ilicitude (gravidade). O postulado da proporcionalida- controle à luz da Lei de Improbidade. Isso, porque o da Lei de Improbidade, especialmente quando gerar
de vai ditar essas ponderações em cada caso concreto, conceito de nepotismo é muito subjetivo. Contratar para prejuízos aos jurisdicionados. Esse é um terreno ainda
certamente. um cargo em comissão (confiança) um parente pode ser inexplorado de incidência da Lei de Improbidade, mas
CF — Qual a relação do princípio da Boa Fé oriundo do nepotismo ou não, dependendo do grau de parentesco, que deverá ser melhor visualizado pelos operadores do
Direito Civil com a Administração Pública? sem nenhuma correlação com o grau de intimidade que direito. Há muitos abusos e prevaricação debaixo das
FMO – O princípio da boa fé, que deita raízes no a chefia manterá com o seu subordinado. E os amigos omissões das autoridades.
Direito Romano e no Direito Privado, tem aplicabilidade íntimos? E os cabos eleitorais? E as indicações políticas? CF — Quais são as expectativas futuras para as repostas
no Direito Público e, muito especialmente, no Direito Quer dizer, há tantas formas de desvio de finalidade jurídicas à Improbidade Administrativa?
Administrativo. Concretamente, o princípio da boa fé que o próprio conceito de nepotismo resulta bastante FMO — As expectativas passam, inicialmente,
objetiva vai determinar que o Estado – o Poder Público problemático. O Poder que mais desvirtua cargos em pelo fortalecimento de uma ação mais organizada do
– oriente suas ações de forma não contraditória, respei- confiança no Brasil não é o Judiciário, é o Executivo, em Ministério Público brasileiro, em sintonia e integração
tando as legítimas expectativas geradas nos cidadãos. É todas as esferas. com outras instituições de controle e fiscalização. A
um princípio que propicia maior controle do cidadão CF — É muito comum na época de festas, sobretudo nos Lei de Improbidade, conquanto tenha completado
sobre o Estado. grandes fóruns, verificarmos estagiários e paralegais trazendo recentemente seus 15 anos de idade, tem potencialida-
CF — Como a jurisprudência se manifesta em referência com seus carrinhos os mais variados tipos de presentes como des muito mais intensas do que as atuais. A sociedade
a Improbidade Culposa? vinhos, panetones, cesta de natal dentre outros badulaques espera muito mais das instituições de Estado. De outro
FMO — É certo que o STJ já disse que não se deve para serventuários da justiça e às vezes até magistrados. Há lado, é certo que não se logrará eficácia no combate à
punir o “inábil”, apenas o “desonesto”. Isso, contudo, improbidade nestes casos? improbidade sem respeito aos direitos fundamentais
não implica dizer que o STJ rechace a tese da improbi- FMO — Não creio que esses pequenos agrados consti- dos acusados em geral. O império do devido processo
dade culposa. Os Tribunais ordinários, em sua maioria, tuam improbidade. Trata-se de manifestações da cultura legal é decorrência lógica do Estado Democrático de
acatam essa tese. O STJ não tem posicionamento firmado. forense. Esses gestos não possuem potencialidade cor- Direito. Sem esse postulado, o Estado perde legitimi-
Tampouco o STF. Repare-se que há uma diferença entre o ruptora. Parece-me uma hipocrisia censurar essa espécie dade e a Lei de Improbidade vai perder eficácia e cair
“inábil” – que consubstancia o erro – e o grosseiramente de manifestação espontânea, sob o pretexto de preservar na vala da desmoralização.

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E X E C U Ç Ã O P E N A L

Utilização de Telefone Celular pelo Preso e a Lei no 11.46/07


“Nesse contexto, infelizmente, o uso do telefone móvel tornou-se uma arma letal nas mãos dos criminosos.”

desse modo, na tentativa de preencher agente público (por exemplo: carcereiro) Unidade Prisional, sabemos que na prática
esse vazio legislativo, chegou a editar que deixa de cumprir o dever de vedar ao a organização interna do sistema peniten-
Resolução sobre o tema, que, entretanto, preso o acesso ao aparelho. O criminoso ciário, em muitos Estados, possui outros
tornou-se inaplicável em face do óbice apenas comete falta grave. Mencione-se diretores de departamentos, por exemplo, o
legal contido no art. 49 da Lei de Execução que o crime se consuma no momento em Diretor de Disciplina, o que torna mais difícil
Penal, o qual dispõe que “As faltas disci- que há o descumprimento do dever legal a individualização da conduta.
plinares classificam-se em leves, médias e pelo Diretor ou agente público, possibili- Dessa forma, as sanções introduzidas
graves. A legislação local especificará as tando o acesso do preso ao aparelho, in- pela Lei n. 11.466/2007 constituem apenas
leves e médias, bem assim as respectivas dependentemente de o mesmo vir a lograr um pequeno naco do conjunto de medidas
sanções”. Nesse sentido, inclusive se ma- a comunicação com outros presos ou com que devem ser tomadas pelo Poder Públi-
Acervo CF

nifestou a 5.ª Turma do Superior Tribunal o ambiente externo. Em virtude da pena co no combate ao uso da telefonia móvel,
de Justiça, Relator Ministro Felix Fischer, j. cominada, estamos diante de uma infração pois em se tratando da proteção de um
02/02/2006, DJ 03/04/2006, p. 378. de menor potencial ofensivo, sujeita aos bem maior, a segurança da coletividade, o
Buscando dar uma resposta à socieda- institutos e procedimento da Lei dos Juiza- Estado deve agir principalmente de forma
Fernando Capez de, ainda que a destempo, foi promulgada dos Especiais Criminais. Finalmente, por preventiva, não podendo sequer correr o
a Lei n. 11. 466, de 28 de março de 2007, se tratar de novatio legis incriminadora, não risco de que seja permitida a entrada de
que entrou em vigor na data de sua publi- poderá retroagir para atingir fatos pratica- um telefone móvel na unidade prisional.

A segurança pública, um dos


sustentáculos da estrutura democrática,
cação , isto é, em 29 de março de 2007.
Mencionado Diploma Legal trouxe
duas modificações: (a) Incluiu o inciso VII
dos antes de sua entrada em vigor.
Muito embora a Lei n. 11.466/2007,
tenha procurado sancionar disciplinar-
Nesse contexto, não basta a mera puni-
ção, pois até que o preso seja flagrado na
posse do telefone móvel e sancionado, já
nos últimos tempos, vem sofrendo sério no art. 50 da LEP, passando a considerar mente o preso ou penalmente o Diretor transcorreu tempo suficiente para que ele
abalamento pelo avanço da criminalidade falta grave, o condenado à pena privativa de Penitenciária e/ou agente público, articule e comande rebeliões, determine a
organizada. de liberdade que “tiver em sua posse, tais reprimendas, infelizmente, não têm depredação de ônibus, de agências bancá-
Basta lembrarmos o gravíssimo episó- utilizar ou fornecer aparelho telefônico, impedido, a contento, o uso da telefonia rias, enfim, cometa os atos mais bárbaros
dio em que o maior Estado do Brasil foi de rádio ou similar, que permita a co- móvel no interior dos presídios. contra a população, que somente tem uma
assolado pelos atos bárbaros de violência, municação com outros presos ou com o Com efeito, segundo notícia veiculada única saída: sentir-se assolada e abando-
comandados e articulados pelo líder de ambiente externo”. (b) Acrescentou o art. no jornal “O Estado de São Paulo”, na data nada pelo Poder Público. A leniência do
uma organização criminosa, mediante o 319-A ao Código Penal, o qual passou a de 07 de janeiro de 2008, todos os meses Estado, em tais casos, pode ser desastrosa
uso de telefonia móvel (celular), ficando vigorar com a seguinte redação: “Deixar são apreendidos nas prisões paulistas e, até mesmo, fatal.
completamente “rendido”, com o conse- o Diretor de Penitenciária e/ou agente de 800 a 900 telefones celulares, dado Cabe ao Estado, portanto, implementar
qüente engessamento de suas atividades público, de cumprir seu dever de vedar este revelado pelo próprio Secretário da medidas administrativas eficientes que
econômicas. ao preso o acesso a aparelho telefônico, de Administração Penitenciária, Antonio impeçam a entrada do telefone celular
A combinação da ausência de medidas rádio ou similar, que permita a comunica- Ferreira Pinto. Apurou-se, ainda, que há no interior da unidade prisional, aliadas
administrativas eficazes que impedissem ção com outros presos ou com o ambiente aproximadamente dois preços para um a uma alternativa rápida e eficaz que é
a entrada do telefone móvel nos presí- externo. Pena: detenção, de 3 (três) meses celular entrar num presídio: R$ 500,00 o emprego de tecnologia que impeça a
dios, com a inexistência de uma punição a 1 (um) ano”. (quinhentos reais), se for por meio de transmissão de seus sinais. Sem isso, não
efetiva para aqueles que permitissem a Dessa forma, a partir do advento da Lei agente penitenciário, e R$ 200 (duzentos teremos como impedir que integrantes
sua entrada e para aqueles que o utilizas- n. 11.466/2007, aquele que tiver em sua reais), se por meio de uma visita. de organizações criminosas continuem
sem, trouxe um resultado bombástico: a posse, utilizar ou fornecer aparelho tele- Obviamente, a persistência de tal situ- a comandar e articular, de dentro dos
atuação vertiginosa e descontrolada da fônico, de rádio ou similar, que permita a ação se deve a inúmeros fatores, os quais presídios, o tráfico de drogas, de armas,
criminalidade organizada por todo o País. comunicação com outros presos ou com não poderão ser combatidos apenas com o contrabando, as extorsões etc.
Assim, do interior de um presídio em São o ambiente externo, cometerá falta grave. a ação repressiva do Estado. Na realidade, Somente o conjunto de tais medidas
Paulo seria possível provocar uma rebe- Tal situação lhe acarretará uma série de tais dados apenas refletem a crise na qual se preventivas e repressivas impedirão que
lião no Estado do Acre. Bastaria o uso do conseqüências, como a perda dos dias encontra o sistema prisional e que antecede se torne letra morta os termos plasmados
telefone celular. remidos, a impossibilidade da concessão à promulgação da Lei n. 11.466/2007. Para no art. 144, caput, da Constituição da
Para agravar a situação, do interior das do livramento condicional pela ausência exemplificar, cite-se a existência de uma República, segundo o qual a segurança
unidades prisionais, detentos ameaçam, de comportamento satisfatório e da pro- estrutura administrativa deficiente com pública constitui dever do Estado, di-
extorquem, mediante o emprego dessa gressão de regime, bem como ensejará a reduzido número de agentes penitenciários, reito e responsabilidade de todos, sendo
tecnologia móvel, deixando a população regressão de regime. os quais são remunerados de forma inade- exercida para a preservação da ordem
completamente indefesa, encontrando, a Não bastasse essa modificação legis- quada, constituindo, assim, a corrupção pública e da incolumidade das pessoas e
criminalidade organizada, nesse “modus lativa, a Lei n. 11.466/2007 considerou um problema endêmico nos presídios e um do patrimônio.
operandi”, mais uma forma segura de criminosa a conduta de “Deixar o Diretor grave obstáculo ao perfeito funcionamento
praticar ilícitos e obter indevida vantagem de Penitenciária e/ou agente público, dos sistemas que dificultam a entrada de te- Fernando Capez
econômica. de cumprir seu dever de vedar ao preso lefones celulares no interior dos presídios.
Nesse contexto, infelizmente, o uso do o acesso a aparelho telefônico, de rádio Aliado a isso, há dificuldade na própria Promotor de Justiça licenciado; Deputado
telefone móvel tornou-se uma arma letal ou similar, que permita a comunicação repressão, pois a individualização da Estadual pelo PSDB, e Presidente da
nas mãos dos criminosos. A tecnologia com outros presos ou com o ambiente conduta para a imposição das penalida- Comissão de Constituição e Justiça da
criada, via de regra, para proporcionar externo. Pena: detenção, de 3 (três) meses des legais encontra barreiras na própria Assembléia Legislativa de São Paulo.
bem-estar ao homem, trouxe outro viés a 1 (um) ano”. estrutura prisional, a qual permite a Mestre em Direito Penal pela Universidade
assustador: favoreceu os tentáculos da A Lei, portanto, procurou criminalizar superlotação das celas, impedindo, com de São Paulo (USP); Doutorando em Direito
criminalidade organizada. a conduta daquele que, tendo o dever legal isso, que se possa identificar quem é o Penal pela Pontifícia Universidade Católica
A situação afigurou-se ainda mais de impedir o acesso do preso ao apare- possuidor do telefone móvel, guardado de São Paulo (PUC/SP); Diretor Acadêmico
grave em virtude de, até então, inexistir lho telefônico, rádio ou similar, torna-se no seu interior. do Curso de Direito da Universidade
qualquer punição para os presos flagra- omisso. Não se pune criminalmente, por Dentro dessa realidade caótica carcerária, Bandeirantes de São Paulo (UNIBAN),
dos na posse de telefone celular, a qual conseguinte, no caso, o preso que utiliza o também assume complexidade a punição do Professor no Complexo Jurídico Damásio
sequer constituía falta disciplinar grave. aparelho telefônico, rádio ou similar, mas Diretor de Penitenciária, pois, muito embora de Jesus e na Escola Superior do Ministério
A Administração Estadual Penitenciária, tão somente o Diretor de Penitenciária ou seja sua a atribuição de gerir e fiscalizar Público do Estado de São Paulo.

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Fevereiro – edição 17 – ano III

Contratação com “Parte Relacionada”:


Modalidade de Abuso de Poder de André Antunes
Controle, Prática de Governança Corporativa Soares de Camargo
Advogado, com LLM em Direito
não Recomendável ou Necessidade para Societário e Contratual - Universidade
da Califórnia e coordenador adjunto
a Organização Empresarial? – parte I do IbmecLAW (Centro de Estudos em
Direito do Ibmec São Paulo).

O atual aquecimento do mercado de


capitais brasileiro está impondo uma série de
(II) uma prática não recomendável de
governança corporativa, tal como
abertas e fechadas, o objetivo deste artigo
é o de fomentar o debate sobre essa questão
empregados e demais colaboradores e a
comunidade onde ela atua10.
desafios não só para o nosso órgão regulador, preconizado pelos principais polêmica e atual. A LSA, ainda, enumerou uma série de
a Comissão de Valores Mobiliários (“CVM”), Códigos de Governança Corpora-
Como é cediço, as companhias brasilei- atos considerados como abusivos quando
como também para todos os participantes tiva do mundo4; ou
ras têm uma característica bastante peculiar: praticados pelo acionista controlador,
desse mercado. Vive-se um momento his- (III) uma necessária ou inevitável prática
organizacional das companhias5. possuem, em geral, estruturas societárias lista essa meramente exemplificativa.
tórico no qual há uma demanda profunda
compostas por membros de uma mesma Dentre esses atos considerados abusivos
de estudos sobre governança corporativa No Brasil, em particular, tais diferentes
em todo o mundo. Foco especial está na família e com controle nitidamente con- encontra-se justamente a contratação com
aspectos podem ser verificados pela leitura
transparência, completude e exatidão das centrado8. Não é por outra razão que a “partes relacionadas”. Para que não seja
atenta do texto de alguns prospectos de
informações sobre as companhias emissoras própria Lei das Sociedades por Ações (Lei considerada como uma prática abusiva
emissões de valores mobiliários6. As empre-
que são divulgadas ao mercado. sas emissoras, cada qual inserida em deter- nº 6.404, de 15.12.1976, conforme alterada do controlador, o contrato com “partes
Cada vez mais a informação é conside- minados contextos institucional, histórico – “LSA”) foi toda estruturada tendo a figura relacionadas” não poderá ser celebrado
rada um ativo imprescindível para a tomada e setorial, fazem a divulgação de seus con- do acionista controlador como a principal em condições de favorecimento ou não
das decisões dos agentes econômicos. tratos com “partes relacionadas” de forma para a atribuição de responsabilidades e, eqüitativas entre as partes envolvidas11,
Nesse contexto, uma das questões mais não uniforme, já que estão sujeitas a poucas a do acionista minoritário, como aquele isto é, só contratos com direitos e obri-
polêmicas1 que se apresenta é o tratamento regras nesse sentido7. Há divulgações mais detentor de uma série de direitos protetivos gações comutativos e em condições de
conferido ao chamado contrato com “partes ou menos conservadoras, variando tanto a contra eventuais condutas abusivas por mercado poderão ser celebrados entre
relacionadas”2. Tal forma de contratação quantidade quanto a qualidade da informa- parte daquele acionista controlador9. “partes relacionadas”.
tem uma natureza própria, podendo ser ção prestada ao mercado. Acionista controlador, para a LSA, é A primeira conclusão a que se chega
vista, ao menos, sob 3 (três) aspectos total- Dividido em 4 (quatro) partes, este artigo aquela pessoa física ou jurídica, ou grupo então é a seguinte: a contratação com
mente diferentes, quais sejam: busca discorrer sobre esses 3 (três) aspectos de pessoas vinculadas por acordo de voto, “partes relacionadas” é permitida sim
(I) uma modalidade de exercício totalmente diferentes da contratação com ou sob controle comum que: (I) é titular pela lei brasileira, mas requer que suas
abusivo do poder por parte de um “partes relacionadas”, com as devidas de direitos societários que lhe assegurem, condições não favoreçam qualquer das
acionista controlador3; referências e aplicações para a nossa de modo permanente, a maioria dos votos partes envolvidas e que não contenham
realidade brasileira, sugerindo, na última nas deliberações sociais e tem o poder condições desiguais. O objetivo desse
1. O tema é polêmico, de repercussão mundial e bas- parte, algumas alternativas preliminares de eleger a maioria dos administradores regramento é o de preservar os interesses
tante atual. Vide reportagem recente publicada no de como a lei brasileira e, principalmente, da companhia; e (II) usa efetivamente seu da companhia, dos demais acionistas
jornal “Valor Econômico”, intitulado “Contato com
CVM deveria se posicionar diante desses poder para dirigir as atividades sociais
Parte Relacionada é Polêmica Mundial” (VE, 14, 15 e e “stakeholders” 12, evitando-se o mau
16.12.2007, p. B3). Neste artigo, vários especialistas casos. Longe de esgotar o tema e atendo-se
e orientar o funcionamento dos órgãos uso dos ativos da companhia, prática
foram entrevistados e opinam sobre o tema. a análise desse tema, por corte metodo-
2. A doutrina classifica as chamadas “ligações socie- da companhia. O acionista controlador, essa denominada genericamente como
lógico, somente às sociedades anônimas,
tárias” ou “partes relacionadas” em 7 (sete) moda- ainda, deve utilizar seu poder de controle “tunneling”13.
lidades: (a) sociedades controladora e controlada visando atingir os seguintes objetivos: (I) Na próxima edição deste jornal, dis-
(artigo 1098 do Código Civil de 2002 – “CC” - e 4. Vide Código de Melhores Práticas de Governança
artigo 116 da LSA); (b) sociedades coligadas (artigos Corporativa desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de realizar o objeto social da companhia; (II) correremos sobre o outro aspecto da
30, §1º, 244 e 247 da LSA e artigo 1101 do CC); (c) Governança Corporativa, já em sua 3ª edição, dispo- cumprir a função social da companhia; e contratação com partes relacionadas.
sociedades com simples participação (artigo 1101 nível em www.ibgc.org.br (acesso em 15.12.2007) (III) buscar harmonizar e respeitar os direitos Trata-se de uma má prática de governança
do CC); (d) subsidiária integral (artigo 251 da LSA); 5. Cf. HERTIG, Gerard e KANDA, Hideki. Related
(e) grupos de sociedade (artigos 266 e seguintes da Party Transactions in KRAAKMAN, Reinier et al. dos demais acionistas da companhia, seus corporativa?
LSA); (f) consórcio (artigo 278 e seguintes da LSA); e The Anatomy of Corporate Law. EUA: Oxford
(g) “joint-ventures”, sem previsão legal expressa no University Press, 2006, pp. 101 a 130.
direito brasileiro (cf. COELHO, 2006). Consideram- 6. Vide prospectos disponibilizados no site oficial da 8. Cf. VALADARES. 10 Artigo 116 da LSA.
se também “partes relacionadas” os administradores CVM (www.cvm.gov.br), nas seções intituladas 9. Cf. Mensagem nº 204, de 1976, do Poder Executivo, 11 Artigo 117, §1o, “f” da LSA.
das sociedades quando com estas contratam. “operações/contratos com partes relacionadas). que submeteu o projeto de lei da LSA para a apro- 12 Cf. CLARKE (2004), pp. 189 a 201. Trata-se de um
3. Reza o artigo 117, §1º, “f” da Lei das Sociedades 7. A Deliberação CVM no. 26/1986 determina que vação dos membros Congresso Nacional da época. texto que analisa do dilema dos administradores
Anônimas (“LSA”): “São modalidades de exercício os contratos com partes relacionadas devem ser Nesta verdadeira “exposição de motivos” da LSA, sobre como satisfazer os diversos interesses de só-
abusivo de poder: (f) contratar com a companhia, divulgados nas notas explicativas dos balanços observa-se a clara preocupação do legislador para cios e demais “stakeholders” de uma companhia.
diretamente ou através de outrem, ou de sociedade trimestrais e do anual das companhias abertas. No regular a relação entre os acionistas controladores 13 “Tunneling” pode ser conceituado como a transfe-
na qual tenha interesse, em condições de favoreci- entanto, a legislação aplicável é silente quanto à ne- e os minoritários, reconhecendo a realidade em- rência de valores da companhia para uma parte re-
mento ou não equitativas.” cessidade de divulgar as condições contratadas. presarial brasileira. lacionada sem a devida e a justa contraprestação.
C R Ô N I C A S F O R E N S E S

O Serviço Militar

Quando o novo Juiz Titular da


Vara Criminal foi designado, recebeu
especial recomendação no sentido de
vigiar o serventuário. No primeiro
deslize que praticasse, deveria ser ins-
taurada uma rigorosa sindicância.
Avisado do fato por um amigo,
o escrivão comportou-se como uma
vestal nos primeiros meses, deixando
surpreso o próprio Magistrado.
Certo dia, o escrivão notou que o
Acervo CF

Juiz mostrava-se triste e preocupado. infância que era hoje um oficial de alta formações sobre o escrivão. Tudo,
Com suas proverbiais lábia e sim- patente e iria falar com ele. certamente, não passara de intrigas
patia, aproximou-se do Magistrado, Após alguma relutância, o Magis- e boatos...
Roberto Delmanto conseguindo saber o que se passava: o trado concordou em dar-lhe o nome
filho mais velho deste, logo agora que e os dados do filho. Roberto Delmanto

O escrivão estava na mira da


Corregedoria-Geral de Justiça há
conseguira um ótimo emprego, tinha
sido convocado para servir o exército. Ia
ser um desastre, pois além de perder o
Poucos dias depois, todo orgulhoso,
o escrivão entregava ao Juiz a tão alme-
jada dispensa do serviço militar.
Advogado Criminalista. Co-autor
do Código Penal Comentado e das
Leis Penais Especiais Comentadas, e
tempos. trabalho, atrapalharia os estudos, setor A partir daí, tornaram-se amigos, autor dos livros de crônicas Causos
Falava-se muito a seu respeito, em que o rapaz nunca fôra brilhante. e o Magistrado, durante os muitos Criminais e Momentos de Paraíso
levantando-se dúvidas acerca da sua O escrivão disse ao Juiz que não anos em que permaneceu na Vara, – memórias de um criminalista, todos
honestidade. se preocupasse. Tinha um amigo de só deu à Corregedoria ótimas in- pela Editora Renovar.

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P R O C E S S O P E N A L

A Prisão Cautelar e a Garantia da Ordem Pública


“..Embora todo acusado seja considerado inocente até o trânsito em julgado de decisão criminal condenatória, torna-se viável a ocorrência de sua prisão cautelar, quando
indispensável, dentre outros fatores, à garantia da ordem pública.”

em decorrência disso, a considerá- da, a ordem pública ganha o contorno lo- mormente se estes disserem respeito a
lo culpado. Continuará a ser tratado cal ou regional, mas jamais, como regra, outros crimes violentos contra a pessoa.
como pessoa inocente, ainda que esteja estadual ou nacional. A conseqüência A inquietação social poderia emergir
privado de sua liberdade. A origem e é óbvia: a prisão cautelar de um indi- de maneira natural.
a fundamentação da segregação têm víduo, ilustrando, acusado de matar Atualmente, outro fator que deman-
bases diversas, não dizendo respeito à inúmeras pessoas no bairro onde vive, da atenção é o envolvimento do agente
culpa ou inocência, mas à necessidade desde que existam indícios suficientes com o crime organizado. Dependendo
de se prender aquele que, de outra de autoria e prova da materialidade da gravidade da infração, a associa-
forma, colocaria em risco o direito de dos delitos, pode, sem dúvida, garantir ção criminosa torna-se elemento de
Acervo CF

outros indivíduos à segurança. a tranqüilidade dos moradores daquela destaque para que o juiz analise a
O artigo 312 do Código de Proces- localidade. Cuida-se, pois, do assegu- necessidade da custódia cautelar. Um
so Penal fornece os alicerces para a ramento da ordem pública. homicídio passional, cometido por réu
Guilherme de Souza Nucci compreensão e para a utilização da Sob outro prisma, quanto aos ele- primário, sem antecedentes, embora
prisão cautelar, de um modo geral. É mentos essenciais para a configuração ilícito penal, não gera, necessaria-
fundamental existir prova da existência desse requisito da prisão preventiva, mente, a prisão preventiva, até pelo

A liberdade é a regra; a prisão,


uma exceção. Nada mais correto em
do crime (materialidade) e indícios su-
ficientes de autoria. Associado a ambos
os requisitos, acrescenta-se mais um,
deve-se empreender uma verificação a
contrário senso. Em outras palavras, se
o magistrado não decretar a prisão cau-
fato de, muitas vezes, não ser capaz
de provocar desassossego coletivo.
Tal situação é lógica, pois quem toma
matéria de preservação dos direitos pelo menos: a) garantia da ordem pú- telar, qual seria o resultado fático dessa conhecimento da infração penal não
e garantias humanas fundamentais blica; b) garantia da ordem econômica; postura? Havendo inquietude espalha- se vê como vítima em potencial. O crime
do que se buscar manter, sempre que c) conveniência da instrução criminal; da por um número indeterminado de teve por motivação a paixão, algo que,
possível, a liberdade do indivíduo. Afi- d) garantia de aplicação da lei penal. pessoas, começa-se a firmar a desordem como regra, nasce, vive e desaparece
nal, consagra-se, por tal mecanismo, o O mais polêmico dos requisitos pública. Logo, caberia a decretação da naquela relação entre autor e vítima,
princípio constitucional da presunção alternativos, que abrange o mais vasto prisão cautelar. não se espalhando para outros cantos.
de inocência (art. 5o, LVII, CF). Por outro campo para divergência, segundo nos Em conseqüência, tanto a doutrina Entretanto, um homicídio cometido
lado, assegurada que foi, como direito parece, é a garantia da ordem públi- como a jurisprudência vêm fornecendo por integrante de quadrilha, réu
humano fundamental, a segurança (art. ca. Em primeiro lugar, pela própria um rol quase infindável de motivos reincidente, com maus antecedentes,
5o, caput, CF), não se pode perder de interpretação dessa expressão. Como para sustentar a prisão preventiva com visando eliminar a testemunha de
vista a ideal composição e harmonia se pode pensar em assegurar a ordem base na garantia da ordem pública. outro crime qualquer é, sem dúvida,
do sistema, sopesando-se o indeclinável pública por meio da prisão, por exem- Segundo nos parece, um binômio não diferente. Quem desse fato toma co-
contraste entre o interesse do indivíduo plo, de apenas uma pessoa? Por acaso, pode ser afastado: gravidade da infração nhecimento projeta-se para o cenário
e o da sociedade. a sociedade aquietaria seus ânimos e a penal + repercussão social. A título de do delito, imaginando que, no futuro,
Por isso, embora todo acusado seja vida transcorreria sob o prisma ideal ilustração, um homicídio qualificado qualquer pessoa de seu relacionamen-
considerado inocente até o trânsito em simplesmente porque este ou aquele in- pela torpeza, crueldade e traição, cuja to poderia ser abatida pelo agente,
julgado de decisão criminal condenató- divíduo foi detido? É evidente que não vítima era pessoa estimada em deter- desde que conveniente à organização
ria, torna-se viável a ocorrência de sua se pode elevar a ordem pública a uma minada localidade (ou mesmo em nível criminosa. É o desassossego, abalando
prisão cautelar, quando indispensável, categoria por demais envolvente. Em nacional), provoca imenso desassosse- a ordem pública.
dentre outros fatores, à garantia da grandes metrópoles, afinal, a prisão de go a quem disso tem ciência. Projeta-se, A prisão preventiva, quando seus
ordem pública. O direito à segurança uma pessoa nem mesmo é conhecida da como é natural do ser humano, a sen- requisitos estiverem nitidamente pre-
não pode ser olvidado, unicamente imensa maioria da população local. sação de que inexiste segurança pública, sentes, precisa ser decretada, sob pena
pelo fato de haver sido previsto o Diante disso, a análise da expres- pois “até Fulano” já foi atingido. Ora, de produzir o descrédito em relação ao
direito à presunção de inocência. são colocada em destaque deve ser o crime cometido de maneira perversa, Poder Judiciário. Afinal, da mesma for-
Pode-se, perfeitamente, compatibilizar feita dentro de limites mais modestos, capaz de chocar a moralidade média, ma que o indivíduo possui, na figura do
os interesses. Caso seja necessária a voltando-se a uma comunidade deter- lesando valor fundamental (como é a magistrado, quem lhe pode assegurar
decretação da custódia cautelar de um minada qualquer (rua, bairro, pequena vida humana), cuja motivação é repug- a liberdade, em contraposição à força
indiciado ou acusado, não se passa, cidade, zona rural etc.). Assim idealiza- nante (torpeza), torna-se mecanismo do Estado, é preciso considerar que a
viável para gerar a intranqüilidade de sociedade, como um todo, também crê
muitos. Aliás, quanto menor a locali- na magistratura, respeitadas as regras
dade onde se der o delito, maior será a do Estado Democrático de Direito, para
sensação de desordem pública. fazer cessar, em breve tempo, agressões
Além desse binômio, pode-se acres- aos direitos humanos fundamentais.
cer a análise dos antecedentes do agen- A garantia da ordem pública, por isso,
te. Aquele que possui variados antece- não é fator estanque, merecendo análise
dentes criminais, demonstrando não ter criteriosa em cada caso concreto.
sido a sua primeira infração, precisa ser
avaliado com maior acuidade. Não nos Guilherme de Souza Nucci
parece lógico, em outra ilustração, per- Juiz de Direito; Livre-Docente em
mitir fique em liberdade, aguardando a Direito Penal pela PUC/SP; Doutor e
finalização de um processo cuja impu- Mestre em Processo Penal pela PUC/SP.
Divulgação

tação é de roubo seguido de morte (la- Autor de diversas obras publicadas


trocínio), o réu de maus antecedentes, pela Editora RT.

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E N T R E V I S T A

Mídia e Justiça
Luiz Flávio Gomes é mestre em direito penal pela USP e doutor em direito penal pela Universidade Complutense de Madrid. Foi delegado de polícia, promotor de justiça
e juiz de direito em São Paulo. É professor honorário da Faculdade de Direito da Universidad Católica de Santa Maria (Arequipa, Peru) e professor de vários cursos
de pós-graduação, dentre eles o da Facultad de Derecho de la Universidad Austral (Buenos Aires, Argentina) e o da Unisul (SC). É consultor do Iceps (International
Center of Economic Penal Studies), em New York, e membro da Association Internationale de Droit Penal (Pau-França). É diretor-presidente da Rede LFG (Rede de
Ensino Luiz Flávio Gomes) e autor de vários livros.

lidade das crianças. Como todas as instituições do país, ela LFG — Há pesquisas que demonstram que a Mídia
também cumpre papel relevante em favor da Justiça, contra influencia algumas decisões. Especialmente do Tribunal
a impunidade. De qualquer modo, é certo que seus métodos do Juri. Existe uma Pesquisa dirigida pelo sociólogo
muitas vezes são estarrecedores. Fermín Bouza Álvarez (Catedrático na Complutense de
CF — Casos como escola de base, dentre outros, mostrou que Madrid), realizada na Espanha de 10/03/06 a 24/03/06
a imprensa escandaliza algumas pessoas, muitas vezes inocentes. (cf. “Justicia y médios de comunicación — Cuadernos de
Qual seu posicionamento acerca destes riscos? Derecho judicial”, Consejo General del Poder Judicial,
LFG — A Mídia, quando comete injustiça deve ser respon- XVI, p. 37 e ss.), com quatro jornais, comprovou que
sabilizada e isso ocorreu no caso da escola base. Tem que haver um quarto das notícias de primeira página relaciona-
uma resposta do judiciário, buscando coibir esta promoção de se com as atividades judiciárias (mais precisamente:
Acervo CF

injustiça, muitas vezes patrocinada pela mídia, que crucifica 25,23%). Dessas notícias, 40% referiam-se diretamente
inocentes em busca de um “bom” furo jornalístico. aos juízes.
CF — Há seletividade por parte da mídia ao noticiar nomes CF — Qual a influência da mídia no contexto do sistema penal
de pessoas e empresas? Há neutralidade? Ou atacam somente e da exclusão social?
quem convém? LFG — Mídia dramatiza violência e incrimina as pessoas
Carta Forense — O que senhor define como Midiatização LFG — A Mídia é seletiva também. Quando não que ela seleciona. Normalmente são pobres e marginaliza-
da Justiça? interessa, ela não divulga nomes de pessoas importantes. Ela dos. Mas a Mídia também criminaliza alguns políticos e
Luiz Flávio Gomes — Defino como a visibilidade que atu- não é neutra. É útil, é importante, mas muitas vezes tenden- funcionários públicos. Diz a mídia, constantemente, que
almente se dá à Justiça nos meios de comunicação, onde isto se ciosa. Muitas vezes evitando noticiar nomes de pessoas ou o sistema penal é muito benigno e que os juízes são muito
torna prejudicial quando se pretende pela opinião pública in- empresas que possam lhe trazer complicações ou prejuízos. permissivos. Com isso ela não só gera uma demanda de mais
fluenciar a decisão do Juiz. A mídia dramatiza as informações CF — O senhor acha que a mídia tenta conduzir o resultado endurecimento, como efetivamente alcança esse objetivo (na
relacionadas com a violência: apresenta a criminalidade por dos julgamentos, através de forte pressão aos magistrados? medida em que os legisladores e muitos juízes sucumbem
meio de estereótipos, condena com sua publicidade pessoas LFG — Sim. A independência judicial, assim como a diante da pressão midiática).
que ainda são presumidas inocentes, difunde o discurso de objetividade das decisões, não são fenômenos isolados do CF — A imprensa então seria capaz de criar ondas de artificiais
endurecimento das penas, amplia o alarme social gerado pela contexto social. Nas sociedades de opinião pública, con- de violência?
violência, espalha o medo, não raramente tenta influenciar no seqüentemente, nenhum exercício de poder fica imune à LFG — Ela difunde notícias não confirmadas, muitas
resultado dos julgamentos jurídicos. mídia, em maior ou menor intensidade. vezes. Nesse caso ela cria artificialmente um clima de
CF — Então, o senhor acredita que há uma dramatização da CF — E o senhor acha que consegue? medo, ela também pode incentivar o uso da violência.
violência pela Mídia? LFG — As vezes consegue, como exemplo: caso Gui- Em algumas vezes cria “ondas artificiais” de violência. O
LFG — Sim, a Mídia só divulga algo que emociona, a lherme de Pádua, que ficou preso 4 anos sem julgamento. resultado de tudo isso é o incremento do medo, do alarme
Mídia é emocional, não é racional. O discurso midiático é ate- Isso ocorreu por influência da Mídia. social, a ponto de desfazer os limites existentes entre o
morizador, porque ele não só apresenta como espetaculariza CF — Com a experiência de quem foi delegado de polícia, distante e o local (mesmo em cidades pequenas, onde a
e dramatiza a violência. Não existe imagem neutra. Tudo que promotor de justiça, juiz de direito e atualmente exerce funções criminalidade é muito baixa, a sensação de insegurança
ela apresenta tem que chocar, tem que gerar impacto, vibra- de consultoria. As partes se aproveitam da mídia para conduzir passa a ser muito grande).
ção, emoção. Toda informação tem seu aspecto emocional: seus resultados, a mídia virou mais uma ferramenta aos opera- CF — E como a comunidade jurídica deve reagir a este tipo
nisso é que reside a dramatização da violência. Não se trata dores do direito? de influência?
de uma mera narração, isenta. LFG — Muitas vezes as pessoas influentes usam a Mídia LFG — A Comunidade Jurídica deve recriminar os
CF – O senhor acredita que estas ações midiáticas contribuem para se favorecer. abusos da Mídia. Toda comunidade jurídica deve dentro
para a prevenção da criminalidade? CF — Na qualidade de jurista e professor de direito penal o de cada função promover resistência a esta tirania midi-
LFG — Em certo sentido sim, mas em rigor incrementa senhor conhece algum trabalho sério que comprove a relação da ática, para prevalecer, sobretudo a dignidade da pessoa
a criminalidade, sobretudo, quando influencia a persona- justiça e a mídia? humana.

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C I V I L

Contrato Administrativo e Boa-Fé Objetiva


“O presente artigo decorre de julgado enviado pelo Professor Flávio Tartuce ao grupo de estudos Professora Giselda Hironaka”

Como é sabido, o contrato somente sários a outrem, de cooperação para com Sobre o tema explica MENEZES
poderá beneficiar terceiros, razão pela o outro contratante, refletem o conceito CORDEIRO que venire contra factum
qual o Código Civil trata da estipulação de norma ética de conduta, segundo proprium significa o exercício de uma
em favor de terceiros. Estamos diante da os padrões do homem médio. Trata-se posição jurídica em contradição com o
relatividade do contrato. de uma norma impositiva de conduta comportamento assumido anteriormen-
Sobre os princípios tradicionais re- leal, geradora de um dever de correção te pelo exercente (Da boa-fé no direito
comendamos a leitura de nossa obra que domina o tráfego negocial (Judith civil, 2001, p. 742). Tem como requisito
Série Leituras Jurídicas, Editora Atlas, MARTINS-COSTA, Comentários ao a existência de dois comportamentos
v. 5 – CONTRATOS. novo CC, v. 5, 2003, p. 46). lícitos de uma mesma pessoa, separa-
O Código Civil de 2002 cuida tam- II – O julgado dos por determinado lapso temporal,
Acervo CF

bém de dois novos princípios: a boa-fé O Superior Tribunal de Justiça julga- sendo que o segundo comportamento
objetiva e a função social do contrato. va mandado de segurança impetrado contraria o primeiro. A vinculação entre
A função social do contrato está contra ato de autoridade militar que o instituto do venire e a boa-fé objetiva
prevista no art. 421 do CC que assim aplicou a penalidade de suspensão foi objeto do seguinte enunciado da IV
José Fernando Simão
dispõe: temporária de participação em licitação Jornada de Direito Civil:
Art. 421. A liberdade de contratar devido ao atraso no cumprimento da “Enunciado 362 - Art. 422. A vedação
será exercida em razão e nos limites da prestação de fornecer os produtos con- do comportamento contraditório (venire
função social do contrato. tratados (REsp 914.087/RJ, Rel. Ministro contra factum proprium) funda-se na

N ão são poucas as vezes que,


quando lecionamos os princípios con-
Flávio Tartuce conceitua função so-
cial do contrato como um regramento
contratual de ordem pública, (art. 2.035,
JOSÉ DELGADO, PRIMEIRA TURMA,
julgado em 04.10.2007, DJ 29.10.2007
p. 190).
proteção da confi ança, tal como se extrai
dos arts. 187 e 422 do Código Civil”
Ainda, aplicada a boa-fé objetiva para
tratuais, seja em curso de graduação, parágrafo único, do Código Civil), pelo A penalidade administrativa de sus- vedar um comportamento contraditório
pós-graduação, ou preparatório para qual o contrato deve ser, necessariamen- pensão temporária em participação em da Administração, prossegue o Ministro
concursos públicos, que surge uma te, analisado e interpretado de acordo licitações decorreu do fato de a empresa José Delgado:
questão por parte dos alunos: os prin- com o contexto da sociedade, e explica impetrante ter um contrato firmado com “Na contemporaneidade, os valores
cípios contratuais previstos no Código que não se pode afastar o fundamento a Administração Pública para o forne- e princípios constitucionais relacio-
Civil se aplicam aos contratos adminis- constitucional deste preceito, pois está cimento de 48.000 fogareiros, no valor nados à igualdade substancial, justiça
trativos? Em caso afirmativo, como fica intimamente ligado à dignidade da pes- de R$ 46.080,00 com entrega prevista em social e solidariedade, fundamentam
a supremacia do interesse público? soa humana (A função social dos contratos, 30 dias. Entretanto, o cumprimento in- mudanças de paradigmas antigos em
Ressaltamos que a idéia de escrever 2007, p. 248). tegral do contrato não ocorreu no prazo matéria de contrato, inclusive no cam-
o presente artigo decorre de julgado Dois são os desdobramentos da avençado, mas sim de forma parcelada po do contrato administrativo que,
enviado pelo Professor Flávio Tartuce função social: na relação entre as partes em 60 e 150 dias, com informação prévia desse modo, sem perder suas caracte-
ao grupo de estudos Professora Gi- contratantes e na relação dos contratan- à Administração Pública das dificulda- rísticas e atributos do período anterior,
selda Hironaka e que será analisado a tes com terceiros. É de se salientar, que des enfrentadas em face de problemas passa a ser informado pela noção de
seguir. nem toda a doutrina aceita esse dúplice de mercado. boa-fé objetiva, transparência e razo-
I – Os princípios desdobramento do tema. Enquanto An- Em razão desse inadimplemento re- abilidade no campo pré-contratual,
Primeiramente, cabe explicar quais tonio Jeová dos Santos, Fernando Noro- lativo, que em termos de direito civil é durante o contrato e pós-contratual.
são os princípios contratuais tradicio- nha e Sílvio de Salvo Venosa só admitem classificado como mora, pois os fogarei- Assim deve ser analisada a questão
nais e aqueles ditos sociais e que cons- a eficácia interna, Teresa Negreiros e ros, apesar de entregues extemporanea- referente à possível penalidade aplica-
tam do Código Civil de 2002. Humberto Theodoro Júnior só admitem mente ainda era úteis à Administração, da ao contratado pela Administração
Classicamente, a doutrina arrola a eficácia externa. Por outro lado, admi- gerou a sanção de suspensão temporária Pública, e desse modo, o art. 87, da
como princípios dos contratos a auto- tem ambas eficácias Maria Helena Diniz, em licitações. Lei nº 8.666⁄93, somente pode ser in-
nomia privada, sua força obrigatória, Paulo Luiz Netto Lobo, Paulo Nalin, Interessantes as razões invocadas terpretado com base na razoabilidade,
o consensualismo e a relatividade dos Nelson Nery Jr, Judith Martins-Costa pelo Ministro Relator, José Delgado, adotando, entre outros critérios, a pró-
seus efeitos. (TARTUCE,2007:246,247). Para apro- para conceder a segurança pleiteada e pria gravidade do descumprimento do
Por autonomia privada entende-se o fundamento do tema recomendamos o afastar a suspensão imposta. contrato, a noção de adimplemento
poder que as partes têm de contratar livro de Flávio Tartuce, A função social Diz o Ministro que “ademais, como substancial, e a proporcionalidade.”
e suscitar, mediante a declaração de dos Contratos do CDC ao novo CC, ficou patenteado nos autos, houve (sublinhamos).
vontades, efeitos reconhecidos pela lei. Editora Método, 2ª edição, 2007. mero atraso no cumprimento das Dessa forma, resta claro que o Supe-
É correto afirmar que o contrato reflete a A boa-fé objetiva vem prevista no prestações pela impetrante, sendo rior Tribunal de Justiça acolhe, também
vontade das partes e seu poder de auto- art. 422 do CC: certo que a própria Administração para o contrato administrativo os prin-
regulamentação ao qual a lei empresta Art. 422. Os contratantes são obri- militar recebeu parte dos produtos cípios sociais do Código Civil de 2002.
sua força coercitiva. gados a guardar, assim na conclusão fornecidos sem qualquer ressalva, o Antes de ser administrativo ou civil,
Já a idéia de consensualismo significa do contrato, como em sua execução, os que pressupõe algum tipo de moratória estamos diante de um contrato. E se
que basta o simples consentimento, princípios de probidade e boa-fé. concedida para o adimplemento total nos perguntarem como fica o princípio
como regra, para que o contrato se Explica Sílvio de Salvo Venosa (Di- da obrigação”. da supremacia do interesse público, a
forme. Trata-se da superação do forma- reito civil, 2003, v. 2, p. 378) que, para a Note-se que, de início afasta a pos- resposta é uma só: cabe ao aplicador
lismo reinante em momentos históricos análise da boa-fé objetiva, o intérprete sibilidade de um comportamento con- do direito valer-se da ponderação de
anteriores, épocas em que o contrato parte de um padrão de conduta comum, traditório (venire contra factum proprium) princípios caso aja choque entre eles.
só adquiria a sua força obrigatória se do homem médio, no caso concreto. É da Administração Pública. Se aceitou os
cumprida a solenidade. um dever de agir de acordo com deter- fogareiros, ainda que fora do prazo con- José Fernando Simão
Afirma-se, também, que o contra- minados padrões sociais estabelecidos tratual, sem qualquer ressalva (primeiro
to somente vincula aqueles que dele e reconhecidos. comportamento) seria comportamento Advogado. Mestre e Doutor em Direito Civil
participaram, sendo, portanto, res inter As noções de agir corretamente com contraditório aplicar alguma penalidade pela Universidade de São Paulo. Professor
allios, não obrigando ou prejudicando o próximo, ou seja, de honrar a palavra à empresa na seqüência (segundo com- de Direito Civil da FAAP e do Curso FMB.
terceiros estranhos à relação jurídica. dada, de não causar prejuízos desneces- portamento). www.professorsimao.com.br.

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Informe Publicitário

Willian Fernandes
Um Olhar Externo de Uma Instituição
Advogado e Ouvidor-Geral
da Defensoria Pública de
Conveniente e Necessária
São Paulo.

apenas dos Defensores Públicos, que cação como serviços públicos de péssima resses do povo, no caso dos usuários dos
estariam transformando suas prio- qualidade que mereceriam atenção em serviços da Defensoria Pública, a maior
ridades em prioridades do País. É o detrimento dos serviços jurídicos à po- parcela da população brasileira.
suficiente para que se manifeste sobre pulação carente. Trata-se de argumento
o assunto a sociedade, representada equivocado. Quando estes serviços não
pela Ouvidoria-Geral da Defensoria são promovidos à população sem recur-
Pública de São Paulo, visto tratar-se de sos financeiros é a Defensoria Pública que
órgão responsável em zelar pelos inte- estará ao lado destas pessoas instando o
resses dos usuários, dirigida por pes- Poder Judiciário a manifestar-se.
soa estranha a carreira, escolhida pelo Alternativa, seria imaginar que,
Governador do Estado em lista tríplice porque os serviços essenciais do Estado

N a Câmara dos Deputados tra-


va-se um debate em torno da Proposta
elaborada pelo Conselho Estadual dos
Direitos da Pessoa Humana.
Aos representantes da sociedade no
são de péssima qualidade, os serviços
da Defensoria Pública poderiam ser de
qualidade inferior. Fora de cogitação.
de Emenda Constitucional no 487/2005 Parlamento vale dizer que a socieda- Isto seria nivelar por baixo.
que modifica as atribuições, garantias, de é favorável ao fortalecimento das Por tudo isso, não se trata apenas de
vedações e outras questões ligadas à Defensorias Públicas e, portanto, favo- equiparar a Defensoria Pública ao Mi-
Defensoria Pública. A PEC preve que rável a aprovação da PEC 487/2005, nistério Público, o que seria uma visão
a Defensoria Pública da União tenha porque resultará em melhores possi- minimalista. Até porque a sociedade es-
autonomia funcional, administrativa e bilidades de levar ao conhecimento pera que a Defensoria Pública construa
financeira, o que tem gerado um certo do Judiciário as diversas demandas paradigmas. Também não é defender
frenesi naquela Casa de Leis. ignoradas por este Poder, visto que interesses coorporativos ou prerroga-
A imprensa tem cedido espaço para ainda não foram suplantados os obs- tivas que irão interferir nos Poderes
uma profícua discussão relacionada táculos ao acesso à justiça. Legislativo e Executivo. É muito mais do
à autonomia da Defensoria Pública, Defensoria Pública mal estrutura- que isso. É política de cidadania.
onde os deputados têm levado ao co- da, sem orçamento adequado às suas Portanto, anseia a sociedade que o
nhecimento da população suas posições necessidades, em desigualdade com o Parlamento, norteado pelos valores de
acerca do tema. órgão acusador (Ministério Público) é justiça social faça valer
Entre aqueles que se posicionam um destes obstáculos e é a realidade os inte-
incisivamente contra a proposta, está das Defensorias Públicas do Brasil. É a
o Deputado José Carlos Aleluia, argu- conclusão do ultimo diagnóstico pro-
mentando que a autonomia da Defen- duzido pela Secretaria da Reforma do
soria Pública criaria um “superpoder” Judiciário, e os estudiosos da matéria
inconveniente à democracia. E como concordam.
voz mais ativa a favor da proposta o De outro lado, a autonomia admi-
Deputado autor da referida emenda nistrativa e orçamentária garantirá
- Roberto Freire - que sustenta que a maior liberdade à Defensoria Pú-
aprovação da PEC sanaria a hipotrofia blica que muitas vezes é a insti-
de instrumentos voltados exclusiva- tuição que patrocina as causas
mente à população carente. contra o próprio Estado. É sabido
É bom que o debate esteja ocorren- que embora seja o Estado o res-
do, não apenas no plenário da Câmara ponsável pela promoção dos
como nos veículos de comunicação, com direitos sociais é Ele seu maior
os deputados fazendo conhecer suas violador. Quando isto acon-
motivações e argumentos. Primeiro tece espera-se que o Poder
pela relevância do assunto que trata Judiciário corrija. E a Defen-
da garantia do acesso aos direitos e soria Pública é
justiça àqueles que não podem custear quem encabeça
os honorários de advogados, segundo a defesa destes
porque do debate se evidencia os valo- direitos viola-
res que norteiam os parlamentares nos dos quando há
diversos temas de interesse do país. interesse das
Obviamente que a sociedade espera que pessoas sem
em um País de exclusão a justiça social condições eco-
seja o norte. nômicas.
A PEC 487/2005 é vista pelo de- Costuma-se
putado Aleluia como norma que cria citar saúde, se-
privilégios corporativos e de interesse gurança e edu-

Informe Publicitário
CADERNO INFORMATIVO AOS ESTUDANTES DE DIREITO

Malhando
o Exame de Ordem

Normas Gerais da Língua Culta

“No campo dos pronomes, parece que os registros na oralidade e a língua culta não
convivem bem. Estão quase sempre em conflito! A contenda não ocorre à toa. O sistema
de pronomes do português é demasiadamente rico e bastante complexo.”

Por Eduardo Sabbag, P27.

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F O L H A D O A C A D Ê M I C O

Exame de Ordem 1a Fase – Dicas de


Direito Administrativo
vio de finalidade e deverá ser anulado, (PPP´s) de acordo com o artigo 13 Assunto que também deve ser ana-
pois não admite convalidação. da Lei 11.079/04 . lisado é agentes públicos, em especial
Sobre a classificação dos atos admi- É importante salientar que no pre- suas classificações, as diferenças entre
nistrativos, merece atenção a que divi- gão necessariamente ocorre a inversão cargo, emprego e função, bem como,
de os atos em vinculados e discricio- na ordem das fases, já na concessão e quais os cargos que só podem ser ocu-
nários, bem como a que divide os atos permissão de serviços públicos, bem pados por brasileiro nato, sendo aqueles
em simples e complexos. Com relação como nas PPP´s a inversão é facultati- previstos no artigo 12 § 3o da CF/88. A
a extinção dos atos administrativos va, pois os dispositivos legais estabe- acumulação de cargo, emprego e fun-
é importantíssimo que o candidato lecem que o edital de licitação poderá ção é muito exigida no exame da OAB
Acervo CF

saiba quando ocorre a anulação e a prever a inversão na ordem das fases e vem disciplinada no artigo 37, inciso
revogação. Anulação de um ato ocorre de habilitação e classificação. XVI da CF/88 que permite a acumula-
quando ele é ilegal operando efeitos Sobre os contratos administrativos ção nos seguintes casos: dois cargos de
“ex- tunc” (retroage) podendo ser deve ser dada maior atenção em suas professor, um cargo de professor com
Adilson Pera
utilizada pela própria Administração características específicas, como a outro, técnico ou cientifico, e dois cargos
ou Poder Judiciário. presença de cláusulas exorbitantes, a privativos de profissionais de saúde,

P rezado leitor é com muita sa-


tisfação que escrevo a você algumas
Já a revogação ocorre quando o
ato é legal, porém inconveniente
ou inoportuno ao interesse publico,
mutabilidade do contrato, possibili-
dade de alterações unilaterais, entre
outras. Algumas espécies de contratos
com profissões regulamentadas.
A Constituição Federal prevê
mais três hipóteses de acumulação,
tendências do exame da OAB em operando efeitos “ex-nunc” (não re- administrativos aparecem nos exames previstas nos artigos 38, inciso III; 95,
direito administrativo. troage), sendo operada somente pela da OAB com mais freqüência, como, parágrafo único, inciso I e 128, §5o,
O objetivo destas breves linhas Administração Publica. a concessão e permissão de serviços inciso II, alínea “d”.
não é exaurir o conteúdo de direito Orientamos também que o candi- públicos - Lei 8.987/95, pelo qual o Por derradeiro gostaríamos de dei-
administrativo para o exame de Or- dato dê especial atenção a licitações Poder Público delega a particular a xar algumas dicas para os candidatos
dem, tão pouco analisa-los de forma e contratos administrativos. Sobre o prestação de um serviço público, para ao exame da OAB. Os testes devem ser
detalhada, mas sim, passar ao leitor tema indicamos que sejam estudadas que este o execute em seu próprio respondidos sempre por eliminação,
dicas e assuntos com maior incidência as modalidades de licitação, os tipos, nome, por sua conta e risco. Outro não se deve localizar a alternativa cor-
nos exames da Ordem. as fases da licitação, os recursos e seus contrato que merece atenção é aquele reta, mas sim excluir as erradas e caso
Freqüentemente são elaboradas efeitos, bem como as hipóteses em que oriundo de um consórcio público não saiba a questão, não perca muito
questões sobre Administração Públi- – Lei 11.107/05, pelo tempo para não haver um desgaste
ca, que se divide em Administração qual, pessoas políticas demasiado, pois o cansaço aumenta
direta e indireta. É importante sa- se unem para prestar e isso prejudica o candidato na reso-
lientar que as chamadas associações serviços de interes- lução das demais questões.
públicas integram a Administração se comum dos entes A respeito do material de estudo
Pública indireta, conforme prelecio- consorciados de forma utilizado salientamos que a doutrina
na o artigo 6o, inciso II, §1o da Lei conjugada. E também não é o melhor caminho, isso pelo fato
11.107/2005 que trata dos consórcios os contratos de PPP´s de serem na maior parte das vezes
públicos. – Lei 11.079/04 que muito extensas e abordarem assun-
Não podemos esquecer das agên- são espécie de contrato tos com maior profundidade, sendo
cias reguladoras que são autarquias de concessão. assim indicamos que o candidato
em regime especial e tem algumas Outro tema que estude por um bom resumo de Direito
características específicas, tais como, merece destaque é a Administrativo à venda no mercado.
maior autonomia, poder de fiscalizar responsabilidade civil Os resumos focam o aluno para aquele
e regular prestadores de serviços do Estado, em alguns objetivo, qual seja, aprovação no exa-
públicos, mandato fixo e estabilidade a Administração não realiza licitação exames têm se exigido que o candida- me de Ordem.
de seus dirigentes ou diretores, bem (inexigível, dispensada e dispensável) to tenha conhecimento da teoria que E por fim, elucidamos que as Súmu-
como se submetem à quarentena (pe- tratadas nos artigos 17, 24 e 25 da Lei não é aceita em nosso ordenamento, las recentes do STJ o do STF também
ríodo em que o dirigente após deixar 8.666/93. ou seja, a teoria do risco integral. são importantes e podem ser verifica-
o cargo não poderá exercer qualquer Ainda sobre licitação frisamos a Importante frisar que em nosso das no site destes órgãos.
função nas empresas em que fiscaliza- inversão na ordem das fases. Como ordenamento é adotada a teoria do
va, recebendo remuneração integral se sabe, a regra é que primeiro se risco administrativo que equivale a Adilson Pera
durante todo esse período). analisam as documentações (fase de responsabilidade objetiva e a teoria da
Advogado, Pós-graduado em Direito
Também deve ser estudado pelo habilitação) para depois se analisar culpa administrativa que equivale a
Administrativo pela PUC/SP, Professor de
candidato ao exame da Ordem o tema propostas (fase de classificação), responsabilidade subjetiva. Em regra
Direito Administrativo da Universidade
ato administrativo, sendo importante entretanto existem hipóteses em que o Estado responde de forma objeti- Ibirapuera e do curso FMB.
a análise dos requisitos, atributos, há uma inversão nessa ordem. Isso va, entretanto poderá em algumas Colaborador do livro 1500 testes da coleção
classificação e as formas de extinção. ocorre no pregão, conforme estabe- hipóteses responder de forma subje- “Para Aprender Direito” da editora Barros,
Ressaltamos aqui o requisito da fina- lece artigo 3°, incisos XI e XII da Lei tiva sendo nesses casos necessária a Fischer & Associados. Autor do livro
lidade do ato que é sempre o interesse 10.520/02, nas concessões e permis- demonstração de dolo ou culpa. Já o “Resumo de Direito Administrativo” da
público, sendo que o administrador sões de serviços públicos conforme agente público responderá de forma coleção Resumo Jurídico do curso FMB.
quando pratica ato com finalidade dita o artigo 18-A da Lei 8.987/95 subjetiva, como tratam os artigos 37, Autor do livro “Direito Administrativo para
diversa, tal ato estará viciado pelo des- e nas parcerias publico-privadas §6° da CF/88 e 43 do Código Civil. Exame da Ordem” do curso FMB.

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Quando eu era Estudante de Direito

precedido de uma grave crise existen- teceu um milagre: cursei a disciplina dos olhares enviesados, tento manter
cial. Eu havia passado no vestibular “filosofia do direito”. O professor era a autenticidade, usando blue jeans e
apenas para o segundo semestre de fraco, mas o conteúdo da matéria tênis All Star. Permaneço fiel ao meu
1983 e tinha, por conseguinte, seis descortinou-me um novo horizonte. ideário político, ético e estético, e
meses de “férias”. Durante o perí- Por sorte, a Faculdade tinha uma como educador e dirigente univer-
odo, devorei uma biblioteca inteira grande tradição no campo da reflexão sitário, insisto em mostrar aos meus
de clássicos na casa de um primo teórica sobre o direito — em razão alunos que o direito, além de ser um
que hoje é magistrado no Recife. Ao de professores como Mario Moacyr modo particular de controle social, é
mesmo tempo, tive acesso à literatura Porto, Flóscolo da Nóbrega e Tarcício também caminho para a construção
Acervo CF

alternativa que começava a ser difun- Burity — de modo que, ao menos de um mundo mais justo, solidário e
dida no Brasil. Aproximei-me do rock nessa área, a biblioteca era bastante sustentável. Uma profissão, como o
e do cinema de arte, e “cometi” os razoável. Comecei a ler compulsiva- próprio étimo indica, é sempre um
meus primeiros poemas. Quando fi- mente autores como Kelsen, Ross e serviço voltado para o outro. Mas ela
Eduardo Rabenhorst
nalmente ingres-
sei no curso de

O s tempos ainda eram difíceis.


O regime militar havia concedido
direito, tive um
impacto negati-
vo. O curso era
anistia aos exilados políticos, mas a re- profundamente
democratização do país caminhava a conservador em
passos lentos. Afinal, como havia dito todos os sentidos.
o General Ernesto Geisel, a mesma Os professores,
deveria ocorrer de forma “lenta, gra- apesar do calor
dual e progressiva”. Éramos jovens e insuportável,
tínhamos pressa. Queríamos eleições usavam ternos
diretas, reforma partidária e, sobretu- escuros e grava-
do, liberdade de expressão. Contudo, tas apertadas.
as bombas continuavam a explodir, Empregavam
destruindo bancas de jornal ou matan- palavras castiças
do inocentes como Lyda Monteiro. Eu como “cousas”
tinha estudado em um colégio público e “alugueres”, e
tradicional da cidade de João Pessoa faziam citações
e lá havia recebido minha formação em um latim so-
política. Estudante secundarista havia frível (mais tarde
participado ativamente da criação da descobri que tais
Juventude Socialista no meu Estado, citações não eram
mas não tinha uma militância política romanas, mas
bem definida. Oficialmente integra- resultavam dos
va o chamado PMDB Jovem, mas na civilistas fran-
verdade fazia parte de um dos vários ceses do século
grupos de esquerda que encontravam XVIII). O ensino
abrigo naquele partido. Foi nessa épo- era estritamente
ca que decidi estudar direito, ainda dogmático e os docentes, com raras Recaséns Siches. Paralelamente, pas- é também a resposta a um chamado
que tivesse uma grande inclinação exceções, desestimulavam qualquer sei a freqüentar o curso de filosofia interior. Por isso mesmo, exerço o
para a museologia. Na minha infância, impulso criativo. A norma parecia como ouvinte. Havia encontrado a magistério na área jurídica não como
havia lido muitos livros de história ser: aqui não se pensa, decora-se; minha vocação. Consegui terminar simples ocupação ou meio de subsis-
e tendo passado frequentemente as aliás, uma regra seguida com rigor o curso de direito, apesar das provas tência. Na verdade, como descobri no
férias em meio aos casarões e Igrejas pelos alunos que, no geral, apenas de processo civil, e fiz seleção para divã, busco ser o professor de direito
de Olinda, era natural que me interes- buscavam o diploma e o êxito pro- o mestrado em filosofia. Passei em que gostaria de ter conhecido nos
sasse pela profissão. Entretanto, como fissional. Pensei em desistir, junto primeiro lugar e me convenci de que bancos da faculdade, quando aluno.
muitos outros, optei pelo curso de com dois ou três colegas que viam minha escolha estava certa. Decidi ser Sem qualquer pieguice, diria que no
direito pelo fato de que lá ao menos eu as coisas do mesmo modo. Cheguei professor de filosofia do direito e tive magistério cumpri o meu destino.
poderia obter uma formação huma- inclusive a pleitear uma transferência êxito no concurso público realizado Espero que os jovens leitores desta
nística e continuar a exercer as minhas para o curso de jornalismo. Mas se- pela mesma instituição que me aco- coluna possam fazer o mesmo, dentro
atividades políticas. Tinha conhecido guindo o conselho de amigos, resolvi lheu nos anos de rebeldia. Hoje, por ou fora do direito.
um advogado que atuava no campo aguardar. Tempos difíceis. Iniciava a ironia do destino, dirijo o Centro de
dos direitos humanos, junto com os leitura dos principais doutrinadores Ciências Jurídicas da UFPB depois Eduardo Rabenhorst
arcebispos Dom Hélder Câmara e (até hoje essa palavra me assusta), de ter coordenado seu Programa de Diretor do Centro de Ciências Jurídicas da
Dom José Maria Pires, e imaginei que mas rapidamente fechava o livro e Pós-graduação. Sigo coerente com a Universidade Federal da Paraíba, Mestre
poderia trabalhar na área. Contudo, passava aos textos de Ginsberg, Sar- minha história e com o meu modo de em Filosofia pela UFPB e Doutor pela
meu ingresso no curso de direito foi tre e Fernando Pessoa. Até que acon- ver o mundo. Apesar das críticas e Université de Strasbourg (França).

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F O L H A D O A C A D Ê M I C O

Malhando o Exame de Ordem

mercado centenas de milhares de pessoas lembrou que a medida permitiria que Região, tendo sido distribuído à sua
despreparadas para advogar. E emendou o país tivesse, em breve, 4 milhões de 8ª Turma. Um par de dias depois, o
com números efetivamente impres- advogados, quase o dobro do número desembargador Raldênio Bonifácio
sionantes: há 600 mil advogados no país existente no restante do mundo, 2,1 da Costa cassou a liminar. O exame
e 1,5 milhão de alunos matriculados em milhões. de ordem, no entanto, já estava de
1.077 cursos jurídicos. Só nos últimos Não demorou muito para que sur- volta aos debates: alunos, bacharéis,
oito anos houve um aumento de gisse a notícia de que a juíza federal professores, operadores do Direito
2.533% no número de inscritos no Maria Amélia Senos de Carvalho, em geral.
Exame de Ordem, mas cerca de 80% que concedera a liminar, fora alvo Logo após, o Supremo Tribunal
Acervo CF

foram reprovados. De outra face, a de um desagravo público da própria Federal noticiou que o ex-juiz clas-
Procuradoria da OAB afirmou que Ordem dos Advogados do Brasil que, sista José Roberto Guedes de Oliveira
o Movimento nacional dos bacharéis por meio de seu Conselho Federal, ajuizara um mandado de segurança
em Direito congrega alguns poucos as- repudiara a conduta arbitrária e de nítida (MS 27.111) para obter sua inscrição
Gladston Mamede
pirantes à advocacia que, inconformados retaliação, adotada pela magistrada, na Ordem dos Advogados do Brasil
com o próprio despreparo, resolveram em desrespeito ao ordenamento jurídico. independentemente da aprovação

N a maioria dos escritórios de


advocacia do país, janeiro é um mês
adotar estratégias político-jurídicas para
obter, por vias transversas, o que sua
própria capacidade intelectual e dedicação
Mais do que isso, a nota afirmava que
a entidade iria adotar, se necessárias, as
providências legais para reparar a ofensa
no Exame de Ordem, alegando que
a exigência seria inconstitucional.
Na ação Oliveira argumenta que
tranqüilo e quente, eventualmente aos estudos deveria lhes garantir. Basta e coibir quaisquer atos em desrespeito às o exame para exercer a profissão é
molhado pela chuva. Nas praias, da- recordar que, só no último Exame de prerrogativas profissionais dos advogados. “um fato sui generis no mundo do
qui e do Caribe, causídicos untam-se Ordem realizado pela OAB/RJ, dos Por isso, mais do recorrer da decisão, trabalho profissional, mormente
de protetor solar e refestelam-se na 7.790 candidatos, apenas 10% foram a OAB pediu o afastamento da ma- aqui no Brasil, onde nem mesmo na
areia, quando não enfrentam o frio eu- aprovados. Já o Presidente do Con- gistrada do caso. O recurso chegou medicina é empregada tal prática”,
ropeu ou norte-americano. Há gente selho Federal da OAB, César Brito, ao Tribunal Regional Federal da 2ª “fazendo prevalecer o interesse parti-
enfurnada em sítios, nas cidades histó-
ricas de Minas ou enfrentando os mos-
quitos nas reservas florestais. Janeiro
seguia esse tom, marcando-se nesta
pasmaceira, até que o meio jurídico
fosse sacudido pela notícia de uma
decisão liminar da 23a Vara Federal do
Rio de Janeiro, proferida no Mandado
de Segurança 2007.51.01.027448-4. O
pronunciamento concedera ordem
liminar favorável a seis bacharéis em
Direito para que pudessem se inscre-
ver na Ordem dos Advogados do
Brasil e exercer a advocacia, sem
contudo passar pelo Exame de
Ordem. A writ of mandamus
fora pedido por seis mi-
litantes do Movimento
Nacional dos Bacharéis
em Direito, que sustenta
a ilegalidade do Exame de
Ordem.
Como havia de ser, formou-se
logo a confusão. O presidente da
seção fluminense da OAB, Wadih
Damous, adjetivou a decisão de
estapafúrdia e advertiu para conse-
qüências muito graves:: uma provável
enxurrada de ações por meio da qual
um sem-número de bacharéis sem qua-
lificação ingressaria nos quadros da
Ordem, pondo em risco a liberdade, o
patrimônio, a saúde e a dignidade de seus
clientes.. Não foi só isso. Referiu-se
expressamente às faculdades de beira
de estrada, verdadeiros caça-níqueis de
estudantes, que despejam despejem no

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cular sobre o público e demonstrando apto ao ingresso,
que a OAB considera a Constituição não raro por não
Federal como ‘folha morta’”. demonstrar co-
Parece mesmo estranho que al- nhecimentos sufi-
guém curse cinco anos de faculdade e, cientes para tanto,
ao final, não possa trabalhar. Por que pretende arrombar
não? Ora, porque não se trata de um a porta e se fazer
curso de advocacia, mas de um bacha- aceito a qualquer
relado em Direito. São coisas distintas. curso.
Potencialmente, o bacharel em Direito Neste contexto,
pode ser advogado, mas também é preciso ter parti-
pode optar por outras carreiras, como cular atenção para
a acadêmica, além de delegado de a Constituição da
polícia, serventuário da Justiça, Mi- República. É certo
nistério Público, Magistratura, entre que o seu artigo
outras. Para cada uma delas, exige-se 5°, XIII, prevê ser
uma aptidão específica e o Exame de “livre o exercício de
Ordem é o teste de aptidão para a qualquer trabalho,
advocacia, que é uma profissão que ofício ou profissão”;
exige um conjunto de conhecimentos mas a mesma nor-
específicos. Portanto, é preciso separar ma condiciona esse
a Ciência do Direito, na qual se pode exercício ao fato
bacharelar pelas regras do Ministério de se atenderem
da Educação e da Cultura, da advoca- “as qualificações
cia, cujo exercício está submetido a um profissionais que a
conjunto de requisitos. Vale dizer, não lei estabelecer”. E,
é minimamente possível confundir o como reconheceu o
bacharel de Direito com o advogado, Min. Moreira Alves
da mesma maneira que não se pode no julgamento do
pretender que haja uma conseqüência Agravo Regimental
necessária entre as duas condições. no Agravo de Ins-
Justamente por isso, o Exame de trumento 198.725/
Ordem não é uma exigência apenas SP, julgado pelo
da legislação brasileira. Adotam sis- Supremo Tribunal
temas semelhantes para o ingresso de Federal, no que se
profissionais do direito no mercado refere à advocatí-
da advocacia diversos outros países, cia, “a lei exige essa
entre os quais se pode citar Estados inscrição”. Não há
Unidos, Inglaterra, Alemanha, Suíça, inconstituciona-
Japão, França e vários outros. Mais lidade, portanto.
do que isso, em todos esses países, Pelo contrário, há
entregou-se às entidades represen- atendimento estri-
tativas dos advogados, a exemplo da to à Carta Política,
American Bar Association e da Ordre dês com atendimento
Avocats Français, a regulamentação da farto ao princípio
advocacia e o controle dos profissio- da legalidade, des-
nais habilitados e autorizados ao seu tacado que a exi-
exercício. Essa outorga alicerça-se, gência do Exame
antes de mais nada, na necessidade de Ordem consta
indispensável de se manter a inde- da Lei 8.906/94, ou
pendência da classe, permitindo que seja, consta de lei
os advogados cumpram sua função em sentido estrito, caráter, abrindo um sorriso farto ao não têm a mínima condição de exercer
social de defender o Direito e a Justiça, devidamente aprovada pelo Con- serem tratados de Magnífico Reitor. a profissão. Há milhares deles: causí-
atendendo à sociedade e defendendo gresso Nacional e sancionada pelo Não são mais magníficos os reitores, dicos desatualizados ou simplesmente
a Constituição contra os ataques de Presidente da República. em sua maioria, como não são doutos incompetentes que fazem do exercício
usurpadores do poder. A ingerência Por fim, não posso me furtar ao de- os nossos professores, em muitos da profissão a desgraça dos próprios
do aparelho estatal sobre a Ordem ver de enfrentar alguns pontos desa- casos. Há uma farsa nacional que o clientes. Não basta impedir a inscri-
constituiria um caminho terrível gradáveis da questão. A confusão ha- exame de ordem revela. Portanto, a ção de quem não tem condição para
para obstar a atuação vigorosa, razão bitual que o Estado brasileiro faz entre prova constitui a última muralha de exercer a profissão; é preciso excluir
pela qual delega-se à própria classe a democracia e demagogia, bem como qualidade que se ergue em defesa da os inscritos que estejam na mesma
função de cuidar de si e aferir, entre o pouco apreço que nossos homens própria sociedade, o que explica o condição. E não são poucos. Qualquer
os bacharéis de Direito, aqueles que públicos mostram pela res publica, esforço de contadores e de médicos juiz enfrenta, por semana, dezenas
têm condição de apresentarem-se conduziu-nos a uma situação bizarra para instituir, eles também, exames desses exemplos lastimáveis.
como advogados. Não há, portanto, na qual a educação foi transformada de proficiência profissional. Pronto: não uma. Duas polêmicas.
prevalecimento de interesses privados numa rentável indústria. Pior: uma Mas ainda é pouco. Se a Ordem
sobre públicos. Pelo contrário. Há, indústria de títulos, de diplomas, que dos Advogados do Brasil, manten- Gladston Mamede
sim, vigorosa defesa dos interesses se esforça para reduzir custos, que não do o Exame de Ordem, presta um Advogado. Doutor pela UFMG.Professor
públicos (da sociedade em geral, de- se preocupa com qualidade, mas com grande serviço público à República, da Faculdade de Direito da Univeridade
fendida pela OAB), contra interesses lucros, lucros e lucros. Já vi ignorantes falha clamorosamente ao não manter Fumec (MG). Autor de “A Advocacia e a
privados: a vontade desse ou daquele de todos os tipos, cometendo erros mecanismos eficazes para identificar, Ordem dos Advogados do Brasil”
bacharel que, não tendo se mostrado primários de português, sem ética ou entre os seus inscritos, aqueles que (Editora Atlas).

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Academia Paulista de Letras


Pedro, o Injustiçado
A propósito dos duzentos anos da
chegada de Dom João VI e da Corte Por-
do civilizado. Foram quase cinqüenta anos
de estabilidade. Ninguém ousou censurar
existiam nele, reapareciam para brilhar na
plena luz daquele dia fatal: o rei, o político,
tuguesa ao Brasil, muitas obras já foram a Imprensa. Falava-se o que se queria do o homem de Estado, que sempre foram
publicadas. Mas não é só de produções Imperador. Ele a tudo compreendia, a tudo expressões secundárias da sua personali-
contemporâneas que devem se abeberar perdoava. Acabou sozinho. Relata Olivei- dade, desapareciam inteiramente”.
aqueles poucos que não desprezam o pas- ra Vianna o final que um homem desses “Ele conservava-se o mesmo homem,
sado. O Brasil não cultiva a sua memória. mereceria, fossem civilizados os súditos: pairando sempre à mesma altura, e este-
Como reafirma LYGIA FAGUNDES TEL- “Merecia, no seu ocaso, ter o esplendor ve assim até o último momento em que
LES, é a maldição de um passado mise- flamejante e a grandeza tranqüila de um o vi”, afirmou, cheio de admiração, o
rável: os erros acumulados que só fizeram belo poente de verão e, entretanto, não Dom Pedro II comandante do navio que o transportou
crescer a pobreza e a ignorância. teve nenhum desses traços de beleza épi- para a França.
É hora de reabilitar PEDRO II. O Im- ca que, de costume, acompanham a queda acenavam afoitas e atiçavam os apetites. Os duzentos anos da chegada de seu
perador injustiçado. O homem bom, traí- dos Impérios: o rumor e o brilho das espa- Enxotaram o diabético e sua família sem con- avô ao Brasil, com todo o significado des-
do pelos que mais se beneficiaram de sua das que se entrebatem e lutam, ou o cla- descendência. Estóico, estatura ética gigan- sa fuga à invasão Napoleônica, deve tam-
bondade, de sua tolerância, de sua supe- mor das multidões enfurecidas que ape- tesca, “não levava nenhuma desilusão, senão bém abrir espaço para o arrependimento
rioridade moral. Reler o livro “O Ocaso do drejam e ululam. Terminou, ao contrário, a experiência da ingratidão dos homens. Esta da Nação. PEDRO II não fez por merecer
Império”, de Francisco José de Oliveira muito prosaicamente, e de súbito. mesmo ele, na sua magnanimidade, parecia o tratamento indigno dos brasileiros. Era
Vianna, é exercício muito saudável. Como Do Paço, de onde dominara durante ter perdoado: não teve uma palavra só de aquela espécie de homem no qual o gênio
diz José Murilo de Carvalho, autor de uma meio século, o velho Imperador, abatido censura para ninguém, uma só recriminação, da bondade se manifesta. Aqueles homens
festejada biografia do segundo e último pela moléstia, mas nobre ainda no seu um só desabafo de desespero, ou de cólera, que exercem maior influência pelo que são,
Imperador do Brasil em seu prefácio, “o porte majestoso, saiu, não sob a claridade ou de mágoa: nada”. do que pelo que fazem. Ser nobre, profun-
desapontamento que invadiu o país, a meio da luz meridiana, mas dentro da noite, sob Ninguém o acompanhou. Apenas co- damente bom, no qual o gênio da bondade
caminho de 2005, provocado pelo desmo- a escuridão protetora de uma alta madru- mentou: “É a minha aposentadoria. Já tra- se manifesta. Quanta diferença entre ele
ronamento das grandes esperanças de mu- gada, como um criminoso que se foragisse balhei muito, e estou cansado; irei descan- e a maior parte dos que vieram depois a
dança geradas pelas eleições de 2002, e as - e foi às pressas que embarcou no peque- sar”. Dava uma lição imperecível a quem mandar no Brasil.
incertezas quanto ao futuro da República no navio, que o haveria de levar para as não se conforma com a perda do poder. A
conferem ao octogenário texto de Oliveira tristezas do exílio irrevogável”. quem não quer voltar às origens. A quem José Renato Nalini
Vianna inesperada atualidade”. A República era acalentada por poucos. considera castigo a entrega do cargo de-
É preciso encarar a ingratidão do Brasil Os exemplos republicanos no continente pois de exercido um mandato. É que os
É Desembargador do Tribunal de
para com seu Chefe de Estado. O Império não eram dos melhores. Mas as ambições tempos já não produzem primícias como Justiça de São Paulo e ocupa como
brasileiro era admirado por todo o mun- pessoais, o insuperável anseio pelo mando, Pedro II. “O sábio, e justo, o filósofo, que acadêmico da APL a adeira nº 40.

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A Senda do Pronome: eu te amo ou eu a amo?

que ainda não o estão, porém já pretendem a situação de comunicação em que a frase “você” por “tu, aderindo-se à máxima “eu
deixar avisado que são detentores de tal sen- será produzida ou exteriorizada. te amo”. E isso não é de hoje! Machado de
timento. Portanto, a expressão serve, quanto Vale destacar, ainda, que as expressões Assis, Artur de Azevedo e tantos outros
ao amor, em si, para externá-lo, simulá-lo e, coloquiais “eu te amo”, “eu te quero”, “eu escritores já adotavam a substituição da
curiosamente, antecipá-lo. te devoro” são comuns em versos de nossa forma “você” por “tu”. Manoel Bandeira
Voltando à análise da máxima “eu te música popular. Nos versos elogiáveis da até se valeu de curiosa invenção, na subli-
amo”, faz-se necessário recapitular algu- canção “Amor I love you”, de Marisa Monte me criação lexical na poesia “Neologismo”,
mas regras de gramática. e Carlinhos Brown, encontramos, logo de incorporando o pronome “te” ao verbo
No sistema de pronomes, destacam-se início: “(...) Deixa eu dizer que te amo/ Deixa “adorar”, em benefício do aspecto lúdico
os pronomes pessoais – aqueles que ocu- eu pensar em você (...)”. da poesia, ao burilar a ímpar formação
pam a função de sujeito das frases, chama- Conquanto se saiba que a canção é verbal “teadorar”, em contraponto ao
dos de pronomes pessoais do caso reto: eu, tu, dotada de beleza singular, tais versos não nome próprio da pessoa a quem se ex-
Acervo CF

ele(a), nós, vós, eles(as). Estes podem ser teriam andado bem, na trilha da gramá- primiu o amor – a Teadora!
comutados por outros, intitulados prono- tica tradicional. O primeiro verso indica
O amor é um dos sentimentos mais su-
mes pessoais do caso oblíquo: me, te, o, a, os, o interlocutor “tu”, enquanto o segundo
blimes e triviais das pessoas, apreensível até
as, nos, vos, lhe, lhes, comigo, contigo, verso encerra-se com menção ao pronome
Eduardo Sabbag consigo, conosco, convosco, e outros. “você”. Faltou a uniformidade de tratamento,
pelos menos capazes, e há de se questionar
se o respeito irrestrito às regras, neste caso,
O pronome “te” (caso oblíquo) refere-se isto é, o emprego de pronomes que perten-
não retiraria a naturalidade que deve marcar
à segunda pessoa do singular “tu” (caso cem à mesma classe gramatical. Todavia,

N o campo dos pronomes, parece


que os registros na oralidade e a língua
reto). Na maior parte do Brasil, não se usa
o pronome “tu”, preferindo-se o tratamento
“você” ou “senhor(a)” – estes, pronomes de
com a franqueza necessária, é possível
assegurar a ocorrência de um “erro” na
bela canção musical?
a sua exteriorização, em menor ou maior es-
cala. Além disso, à luz das normas cultas de
rigor, os versos, perdendo a expressividade
e coloquialismo necessários, assim ficariam:
culta não convivem bem. Estão quase sem- tratamento. Nessa medida, é fundamental No âmbito da linguagem formal, em
“(...) Deixa-me dizer que te amo/Deixa-me
pre em conflito! A contenda não ocorre à estabelecer a adequada correlação com o que se prima pelo nível de língua mais
pensar em ti (...)” ou “(...) Deixa-me dizer
toa. O sistema de pronomes do português pronome pessoal do caso reto, que se deseja cuidado, há de haver registros que se
que a amo/ Deixa-me pensar em você (...)”.
é demasiadamente rico e bastante comple- empregar. Assim: “tu” avoca a utilização coadunem com os padrões exigidos pela
Sobraria rigor; faltaria leveza...
xo. Se em certa região do país, diz-se “Que- dos pronomes “te”, “ti”, “teu”, “tua”, e gramática de rigor, quanto à uniformidade
O mesmo raciocínio, penso estender-se
ro que você venha amanhã.”, em outra “contigo”; por sua vez, o pronome “você(s)” de tratamento. Por outro lado , na língua
às demais ocorrências em nossa música
será possível ouvir “Quero que tu venha avoca o uso dos pronomes de terceira pessoa do cotidiano, o uso dos pronomes tende a
popular brasileira. A propósito, são incon-
amanhã.” E note que, além da fala variada, “lhe”, “seu”, “sua”, “consigo”, além daque- se afastar dos padrões recomendados pela
táveis as canções, em cujos versos – e até
há a possibilidade de ocorrência de erros, les que funcionam como complementos diretos língua culta. Além disso, nos melódicos
em títulos! – aparecem as formas coloquiais
(“o”, “a”, “os”, “as”), ou como complementos versos transcritos, estamos diante do que
como na imprópria conjugação verbal da “eu te amo” ou “eu te quero”. A licença
indiretos (“lhe” e “lhes”). se costuma intitular “licença poética”, que,
segunda frase. Melhor seria registrá-la poética dá guarida a nossos eminentes
Frise-se, em tempo, que o pronome desde os remotos tempos dos parnasianos,
“Quero que tu venhaS amanhã.” poetas. Não se deve duvidar da capacida-
oblíquo “te” pode exercer a função sin- outorga ao poeta a permissão para veicular
A celeuma freqüenta, a olhos vistos, o de ímpar de compositores como Cartola,
tática de objeto direto ou de objeto indireto. certos “desregramentos”, com a suficiente
dia-a-dia do povo brasileiro. O Jornal do Arnaldo Antunes, Djavan e Alceu Valença,
Posso utilizar, em segunda pessoa, a vênia. Diz-se, não sem razão, que, na defesa
Brasil reproduziu em hilária charge, a fala que, nos títulos das canções, “Verde que eu
forma “Falta-te juízo!”. Aqui, o “te” é o da licença poética, a excessiva liturgia da
despretensiosa do brasileiro, deleitando-se te quero rosa”, “Que te quero”, “Te devoro” e
objeto indireto do verbo faltar (falta juízo forma pode prejudicar a espontaneidade do
em seu coloquialismo: “Eu te amo”, respectivamente, adotaram o
“a alguém”). Todavia, se escrevo “Ele de- sentimento, artificializando a expressão, e
padrão coloquial. De modo idêntico, tal
testa-te!”, o “te” é um objeto direto (detesta disso não se pode discordar.
padrão pode ser encontrado em trechos de
“alguém”). Fazendo as adaptações para a
Assim, no confronto de padrões de belas canções, como “Conquero”, de Jorge
terceira pessoa, as frases ficariam “Falta-
fala, teremos: Ben Jor [“(...) Quero te ver quero te ver/ Quero
lhe juízo!” e “Ele detesta-o/a!” O pronome
Padrão coloquial: Você deve comprar te ver, amor/ Te quero te quero/ te quero, amor
“lhe”, por sua vez, assume a função de
o que te pedi. (...)”]; “Espanhola”, de 14 Bis [“(...)Te amo
objeto indireto na oração, sempre relacio-
Padrão culto: Você deve comprar o espanhola/ Te amo espanhola/ Se for chorar/
nado com a terceira pessoa. Exemplo:
que lhe pedi. Te amo (...)”]; e, em outra canção de Marisa
”Entregue o memorando ao advogado.”
Padrão culto: Tu deves comprar o que Monte (“A Sua”) [“(...) Que eu te adoro cada
Com o pronome, teremos: ”Entregue-lhe
te pedi. vez mais/ E que eu te quero sempre em paz (...)
o memorando.”
Ou: E como eu te quero tanto bem (...)”].
O verbo “amar”, à luz das regras de
Padrão coloquial: Eu te considero Sendo assim, cabe ao falante a tolerância
sintaxe, é transitivo direto e, como tal, re-
como um grande amigo, pai! desejável perante as particularidades dos
quer objeto direto. Os pronomes pessoais
Padrão culto: Eu o considero como um padrões da fala – se culto ou se coloquial. A
de terceira pessoa que complementam o
grande amigo, pai! tolerância com que aceitamos o “erro” acaba
verbo transitivo direto são: “o”, “a”, “os”,
por nos moldar à complacência, incentivan-
“as”. Houve por bem Paulinho Moska, na Note que, no primeiro exemplo de uso
do a familiarização com as inúmeras par-
bela canção “Espaço Liso (o Fado)”, quando do padrão culto, estabeleceram-se as cor-
ticularidades de nossa língua. Entre “eu te
registrou “(...) Eu amo a alma, e não a pessoa relações “você – lhe” e “tu – te”, enquanto
amo” ou “eu a/o amo”, fique com Olavo Bilac:
(...)/ Eu amo o meu meio, e não o meu fim”. no padrão coloquial desponta a associação
“Amo-te, ó rude e doloroso idioma (...)”.
Nessa medida, sob a perspectiva da “você – te”. Por sua vez, no segundo exem-
linguagem culta, não se deve dizer “Ma- plo, o padrão culto recomenda que se subs- Eduardo Sabbag
ria, eu te amo”, mas, sim, “Maria, eu a titua o pronome “te” pelo pronome “o”.
amo” (ou “Maria, eu amo você”). Curio- Diante disso, a indagação não merece res- Advogado; Doutorando em Direito Tributário,
samente, a primeira formação – “Maria, posta simplista, que separe o “certo” do “er- na PUC/SP; Mestre em Direito Público e
eu a amo” – pode fazer com que “o tiro rado”. A expressão “eu te amo” é dita aqui Evolução Social, pela UNESA/RJ; Professor de
saia pela culatra”, indicando que o falante e acolá, dia a dia. Encontra-se cristalizada Direito Tributário e de Língua Portuguesa, no
O brasileiro adotou – de “adoção”, mes- ama uma outra candidata...Não há dúvi- na mente do povo brasileiro que, deixando Curso LFG/PRIMA; Coordenador e Professor
mo, propriamente dita – a expressão “eu te da: esses ditos populares são sábios.... de lado a gramática tradicional, exterioriza do Curso de Pós-graduação, em Direito
amo”. Por aqui, sempre se ouve e se diz – até Todavia, o brasileiro que utiliza cor- tal sentimento por meio da (quase sempre) Tributário, na Rede LFG/UNISUL; Autor de
com certa prolixidade – o tal “eu te amo”. A retamente a segunda pessoa (tu), está espontânea frase. É a presença do português Redação Forense e Elementos da Gramática, 2º
frase é clássica e típica entre aqueles que es- autorizado a continuar dizendo “Maria, “vivo”, que, afastando a “ditadura dos pro- edição; pela Editora Premier Maxima.
tão enamorados e, até mesmo, entre aqueles eu te amo”. Tudo dependerá de qual será nomes”, substitui com facilidade a forma www.professorsabbag.com.br

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Existe crítica jurídica?

de fugir ao estrangeiro a ver que rumo entre ambas as marcas, produzido do que as informações que ali estão,
daria na vida. Sem exagero. Bom, sem por uma revista de automóveis in- a polêmica da obra reside na indepen-
muito exagero, vivi aquela vontade dependentes, a afirmar que a fábrica dência da opinião do autor. Estamos
que análoga à que está retratada na tal poderia aprimorar seu automóvel tão pouco acostumados à crítica
obra de Veríssimo: do autor que sai de nisso e naquilo; ou a dizer que, entre os sincera e descomprometida, que nos
visita a todos os sebos para dar cabo modelos das três marcas, um é melhor. espanta um escrito que dê nome aos
dos exemplares de suas obras – e dos Fiz-me claro com a analogia? bois e conte episódios pessoais da vida
leitores de suas obras, para que nem Pois aqui estamos em um mundo jurídica, ausentes os cortes, os eufe-
memória reste do mal escrito. tão corporativo e fechado que as crí- mismos ou sem o preâmbulo de uma
Acervo CF

Lembro essa história porque esta- ticas objetivas deixam de existir. Elas série de delicados pedidos de vênias,
mos iniciando o ano, e é época dos lan- só aparecem dentro de um tribunal, fruto das amarras de um fisiologismo
çamentos literários jurídicos. Também ou no ambiente da Academia, e veja cristalizado (eu ia dizer “fruto do
estou à beira do lançamento de obras e lá motivados por quais interesses, e rabo preso de todos nós”, mas achei
Víctor Gabriel Rodríguez
re-edições daquilo que hoje considero com que com restrições. Mas eu falo a linguagem por demais inadequada
excepcional. Preparando uma amplia- aqui do mercado literário, das obras a este respeitável periódico).

A cho que o transcorrer de minha


carreira jurídica não serve de exemplo
ção de obra, vasculho atrás de críticas
que possam me auxiliar na melhora
para finalizar uma quinta edição.
didáticas que teriam a possibilidade
de ensinar melhor, ou que podem
até estar ensinando errado. Elogios
O consolo é que estes melindres são
fenômeno mundial. Perde com isso
nosso mercado literário jurídico, que
a ninguém, porque nela houve uma E não há críticas. Se eu tivesse a não faltam nas fórmulas prontas dos dá de presente as boas obras de maior
grande inversão: antes de ter sucesso inexperiência do autor de primeira prefácios dos livros (“esta obra vem a polêmica às editoriais cuja indepen-
na advocacia ou emendar o início de viagem – ou se tivesse o ego um preencher uma lacuna na literatura do dência, ao menos em relação ao uni-
um pós-graduação, já tinha editado pouco mais inflado – acharia que tal Direito sei-lá-o-quê...”), fielmente re- verso jurídico nacional, é inequívoca
livros. Escrevi uma obra sob enco- inexistência seria fruto da perfeição produzidos nas resenhas dos jornais. - para quem não entendeu, me refiro
menda, chamada Manual de Redação do livro. Engraçada, essa. O motivo é Mas quem as critica? É possível que à espanhola Planeta. E, para deixar as
Forense, e passei uns meses de peito es- totalmente outro, claro: não existe no elas evoluam sem que se lhes apon- coisas claras, não estou sugerindo que
tufado. Afinal era (achava eu) escritor, país uma crítica literário-jurídica forte e tem defeitos? Os professores nossos vá eu tirar onda de herói, como dizia
professor e doutrinador, com vinte e independente. Olhe o entorno: os noti- colegas nunca tiveram de, diante de o Raul, e iniciar uma crítica firme a
quatro anos de idade. A ousadia foi ciários jurídicos mostram dos livros da uma classe lotada de alunos, calar a obra de terceiros. Reparem bem que,
importante, mas a precipitação me área não mais que meras apresentações vontade de dizer que o livro didático mal e mal, só aponto defeitos no que
passou a fatura: o livro era um lixo. com elogios, que são interessantes sob adotado tem informações desatua- eu escrevo. Covardia pura...
(Mea culpa, editores, por favor). o ponto de vista da informação ou da lizadas ou extremamente parciais, Entrar para a História, queridos, é
Era um lixo, mas ninguém me avi- propaganda, mas não contribuem no porque o autor, aqui e ali, quer jogar com o Saulo Ramos.
sou disso. Ao contrário, como muitos aprimoramento de cada obra. No meio subliminarmente seu reacionário e
dos lixos, vendeu pra burro, o que fez jurídico, em que reina a autoridade do inaceitável ponto de vista? Víctor Gabriel Rodríguez
com que tardasse para eu dar-me conta “Você sabe com quem está falando?”, Então valem muito todos os elogios
de a que estava atrelando meu nome; nunca se aponta o que um livro tem de que escutei, na festa de sábado pas- Doutor em Direito Penal pela USP; Membro
demorou para que eu afirmasse com ruim, como se um bom autor ou editora sado (já disse que não aturo festas?), da União Brasileira de Escritores, autor
veemência ao editor que não rodasse falassem por si mesmos. Não falam. Se ao Código da Vida, cuja leitura apenas de Argumentação Jurídica: Técnicas de
nenhum exemplar mais do Manual. Tal é impossível que a Jaguar, a Mercedes- inicio. Não há dúvidas de que a obra Persuasão e Lógica Informal, com 4ª Edição
retardo desencadeou-me um processo Benz ou a Ferrari possam lançar um está bem escrita e mais que isso não pela Editora Martins Fontes,
psicótico que fez com que eu enjoasse carro ruim, isso não livra as fabricantes posso avaliar de momento; mas há e da novela A Hora do Carvoeiro.
de mim mesmo por uns tempos e tive de engolir a seco um teste comparativo como dizer seguramente que, mais Email: victorgabrielr@hotmail.com

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aos concurseiros de todo o Brasil

134o Exame de Ordem, pg. 36 a 40


Um caderno dedicado

Sérgio Souza
MINHA TRAJETÓRIA COMO “CONCURSANDO”,
pg 32 e 33

Ary F. MAriMon Filho


Juiz do Trabalho titular da 2ª Vara de Bento Gonçalves/RS e Presidente da
Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região.

CONCURSOS EM PAUTA

Magistratura do trabalho 8ª Vagas: 20 Requisitos: Bacharelado em Direito e 03


região – AC/ro Remuneração: Não divulgada anos de atividade jurídica comprovada.
Inscrições: até 12/02/2008. Requisitos: Bacharelado em Direito Edital: www.tj.rr.gov.br
Taxa: R$ 100,00 e 03 anos de atividade jurídica com-
Vagas: 12 provada. Magistratura do Estado do sergipe
Remuneração: R$ 19.955,40 Edital: www.mp.go.gov.br Inscrições: até 17/03/2008
Requisitos: Bacharelado em Direito Taxa: R$ 250,00
e 03 anos de atividade jurídica com- Magistratura do Estado do rio de Vagas: 7
provada. Janeiro Remuneração: 15.232,54
Edital: www.trt8.gov.br Inscrições: até 14/02/2008 Requisitos: Bacharelado em Direito e 03
Taxa: R$ 200,00 anos de atividade jurídica comprovada.
Procurador do Estado da Paraíba Vagas: não divulgadas Edital: www.tj.se.gov.br
Inscrições: até 07/02/2008 Remuneração: Não divulgada
Taxa: R$ 150,00 Requisitos: Bacharelado em Direito Atividade notarial e de registro
Vagas: 30 e 03 anos de atividade jurídica com- no Estado de Minas Gerais
Remuneração: R$ 4.546,68 provada. Inscrições: até dia 12/02
Requisitos: Bacharelado em Direito Edital: www.tj.rj.gov.br Taxa: R$ 100,00
inscrito na OAB. Vagas: Não divulgadas
Edital: www.cespe.unb.br Magistratura do Estado de roraima Remuneração: Não divulgada
Inscrições: até 14/02/2008 Requisitos: Bacharelado em Direito
Ministério Público de Goiás Taxa: R$ 200,00 ou ter completado 10 anos de servi-
Inscrições: até 14/02/2008 Vagas: 12 ço notarial ou de registro
Taxa: R$ 226,88 Remuneração: R$ 16.119,10 Edital: www.tj.mg.gov.br
C O N C U R S O S

Sérgio Souza
Minha trajetória como “concursando”

Ary F. Marimon Filho Carta Forense — Em que momento CF — A Magistratura do Trabalho sem- xiliar no trabalho e a notória deficiência de
Juiz do Trabalho titular decidiu se enveredar pelos concursos pú- pre foi seu foco principal? equipamentos, exigia jornadas de 13 a 14
da 2ª Vara de Bento blicos? AFMF — No primeiro semestre da fa- horas por dia. Era um trabalho estafante
Gonçalves/RS e Ary Faria Marimon Filho — Em 1989, culdade, em uma aula de Introdução à Ci- tanto que um colega não resistiu e pediu
Presidente da Associação
quando ainda estava no 7º. semestre da ência do Direito, o professor Luiz Antônio exoneração ao cabo de ano e meio depois
dos Magistrados da Justiça
Faculdade de Direito, fiz concurso público de Assis Brasil perguntou à classe que pro- da posse. Eu era muito jovem (27 anos) e
do Trabalho da 4ª Região.
para analista judiciário do Tribunal Regional fissão cada um desejava seguir. Respondi notava, principalmente nas pessoas mais
do Trabalho da 4ª. Região. Era estagiário que era a magistratura, mas sem muita velhas, certa desconfiança. Nesse ponto,
em um escritório de advocacia e, muito jo- convicção, pois minha família não tem tra- foi fundamental a participação, desde o
vem, já casado e com uma filha, precisava dição na área jurídica (sou o único dos cin- princípio, nas assembléias da Amatra IV,
aumentar a renda. Tomei posse como ser- co filhos de meu pai, agrônomo, bacharel, que eram – e continuam sendo - um espa-
vidor em 22.04.1991. Em 16.08.1991, as- e, somente no ano passado, minha filha de ço democrático e de constante exercício de
sumi como assessor de juiz no TRT da 4ª. 20 anos também iniciou o curso de Direito solidariedade – tão em falta, hoje em dia,
Região. Fiquei na função até assumir como na mesma PUC/RS). Até hoje me pergun- nos movimentos de classe -. Foi na asso-
juiz, em 30.01.1995. to sobre se não terá sido aquela resposta ciação e na coordenadoria dos juízes subs-
CF — Quando iniciou seu preparo? que acabou por conduzir meu destino para titutos que buscávamos apoio, conforto e
Qual metodologia usou? a profissão de Juiz. Quando à magistratura discutíamos os meandros de procedimen-
AFMF — Como assessor, recebia mui- do trabalho, já estava mais maduro, após tos em audiência – principal avaliador da
ta informação, pois os processos precisam trabalhar como assessor de juiz no TRT maturidade e controle para um magistrado,
ser discutidos com o juiz do Tribunal, an- gaúcho e aí a escolha foi decorrência de um ainda mais em início de carreira – assim
tes e depois de formatadas as propostas processo natural. como podíamos buscar informações sobre
de voto. Além disso, auxiliava na função de CF — A senhor sofreu com a cobrança casos específicos de maior complexidade e
revisar os votos dos demais juízes do tri- de familiares e amigos pelo resultado ? repercussão. Mas desde muito cedo, o en-
bunal e isso exigia constante atualização. AFMF — Não sofri cobrança. Tinha volvimento com a associação foi imprescin-
Não eram comuns os cursos de atualização uma situação estável. Naquela época, o dível para o amadurecimento como pessoa
que hoje estão em voga nas escolas judi- salário de assessor era igual ao de juiz, si- e como juiz.
ciais e associativas e, assim, eram muito tuação que somente se modificou muitos CF — Qual o momento mais engraçado
importantes os grupos de estudos forma- anos mais tarde. Havia, é claro, o fato de da sua carreira como Juiz do Trabalho?
dos por servidores e candidatos aos con- que a função de assessor de juiz era de AFMF — Certa feita, ouvindo um guri
cursos públicos. Estamos falando de uma confiança e, portanto, vivia a incerteza da de uns 18 / 19 anos, em minha cidade natal
época em que não havia a internet e nem reversão ao cargo de analista, com signifi- – Alegrete -, testemunha do reclamante que
computadores com tantos recursos para o cativa redução salarial. Mas isso não gerou insistia em dizer que era grande o número
acesso à informação. a cobrança de familiares, embora, na prova de pessoas veladas na funerária da Santa
CF — Quanto tempo demorou para ser de sentença, tenha acontecido muita torci- Casa de Misericórdia, especialmente de
aprovado no primeiro concurso? da dos amigos, reza dos pais e avós, etc., o madrugada – o que dava direito às horas
AFMF — Meu primeiro concurso para que não deve ser muito diferente do ocorri- extras e ao adicional noturno reclamados,
juiz foi em janeiro de 1994, quando não do com outros candidatos e colegas. quando ele e o reclamante precisavam dar
passei na segunda prova, recebendo uma CF — Depois de aprovado, como foi banho, vestir e “maquiar” as mesmas e
nota bastante baixa (2). Aquilo mexeu sua rotina de juiz recém empossado? eu, sabendo que uma cidade tão pequena
um pouco com meus brios e o segundo Quais as sensações? não poderia ter um número tão grande de
concurso, iniciado em julho de 1994, já AFMF — Foi muito difícil. Nossa Re- mortos por mês, resolvi perguntar, meio im-
foi bem diferente. Estava mais prepara- gião é grande, e, à época, contava com paciente: - Mas afinal, quantos “defuntos”
do e maduro. Realizei cursos preparató- 98 Varas. No entanto, eram 97 cargos de passam lá pela Santa Casa, por semana?
rios com futuros colegas, que auxiliaram Juiz Substituto e, mesmo com a posse dos E o guri, após breve silêncio e vendo que
e muito no enfrentamento das questões aprovados no meu concurso (13) resta- eu estava sério e irritado, disse: - Pois olha
suscitadas nas provas. A confiança foi ram sem preenchimento outras 37 vagas. doutor, eles não passam, eles estão mor-
crescendo a ponto de, na segunda prova, Ou seja, um déficit de quase 40%. Então, tos, sabe?
a discursiva, ter deixado uma questão sem era muito comum que os juízes substitutos CF — E o caso mais triste?
resposta, pois não tinha suficiente grau de “dobrassem” a pauta, ou seja, realizassem AFMF — Não narro o mais triste, mas
certeza quanto ao questionado e, dessa audiências em uma Junta (na época) pela o mais tocante. Um senhor de 83 anos de
maneira, entre colocar uma bobagem e manhã e em outra, à tarde, por vezes em idade, após o falecimento de seu empre-
deixar de ser avaliado com seriedade pela municípios distintos e até mesmo distan- gador, teve ordem de despejo da casa em
banca examinadora, preferi correr o risco, tes. Além disso, o volume de trabalho era que morava, que ficava nas dependências
diminuindo o percentual de chance para imenso, sem as facilidades de acesso à in- da empresa, em uma pequena cidade do in-
a aprovação, mas finalizando uma pro- formação que hoje temos. Recordo-me que terior. A vida inteira trabalhou e morou ali,
va com consistência. Nessa prova obtive em 1996 e 1997, cheguei a prolatar mais de tendo permanecido no local mesmo após
nota 5,33 e como eram quatro perguntas, 800 sentenças de conhecimento e de exe- a aposentadoria compulsória, em meados
a estratégia mostrou-se a mais acertada. cução, resolvendo mais de 1.200 processos da década de 80. Não há acordo. Colho o
Então, demorei um ano para ser aprovado o que, considerando-se as férias, recesso, depoimento dele, a pedido dos herdeiros,
(dois concursos). ausência de servidores que pudessem au- que desejavam transformar a área em um

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loteamento. A certa altura, o reclamante, de, sim. E, então, falei: - Minha proposta sado, saber que à segurança da profissão
bastante emocionado e impaciente com para acordo é a instituição de um usufruto corresponde o dever de prestar um serviço
as perguntas do advogado do espólio so- vitalício em favor do seu fulano e de sua público de qualidade, com respeito e sere-
bre suas atividades de vigia no estabele- esposa, e a desistência das ações judiciais nidade, tendo presente, sempre, que quem
cimento abandonado – tese da inicial, diz: em qualquer instância ou tribunal (havia lhe paga os vencimentos/subsídios são os
- Quando o seu Fulano era vivo (pai dos ações de despejo, reintegração e de usu- trabalhadores, empresários e empresas,
herdeiros) ele sempre disse que eu poderia capião, perante a Justiça Estadual). Após que devem, por isso, ser atendidos com
morar ali pelo resto da minha vida. Agora, breve conversa entre todos os presentes, respeito, tolerância e paciência.
só tenho eu e minha esposa, que tá doen- saiu o acordo. Na hora de finalizar a ata, CF — Qual o maior desafio para Justi-
te e não tenho para onde ir. Vivo da minha lembrei-me das despesas de cartório para ça do Trabalho no Rio Grande do Sul?
aposentadoria de R$ 500,00 por mês e a averbação e registro sobre a matrícula do AFMF — Reduzir, rápida e considera-
gasto quase tudo em remédio. Doutor, eu imóvel etc. Os advogados, os herdeiros e velmente, o número de processos penden-
não era empregado deles (referindo-se aos o próprio reclamante concordaram, pronta- tes de apreciação no primeiro grau (conhe-
herdeiros). O que o que senhor quer que eu mente, que isso não era preciso: - Se o se- cimento e execução) e com isso diminuir o
faça?, perguntou-me, com os olhos cheios nhor está assinando embaixo, pra nós não prazo médio de tramitação. Além disso, é
d’água. O advogado do espólio deu-se por é necessário. Feito o acordo, cumprimento fundamental aumentar o quadro de juízes
satisfeito, e o seu adversário afundou na a todos e, visivelmente emocionado, rece- de primeiro e de segundo grau.
cadeira, tal como Chiquinho Brandão em bo, dito pelo reclamante, o maior elogio de CF — E qual a sensação de ser conse-
“Beijo 2348/72”, pequeno grande filme minha vida: - Seu pai deve ter muito orgu- lheiro do Internacional...rs?
brasileiro. Foi tão dramática sua fala, que lho do senhor. AFMF — A de fazer parte de um clube
eu mandei entrar os herdeiros e disse: - O CF — Quando um acadêmico ou ba- que nasceu para ser de todos, sem distinção
reclamante disse que o pai de vocês teria charel toma a decisão de ingressar numa de raça, cor, credo e condição econômica ou
dito que ele poderia morar na casinha em carreira pública, qual o primeiro passo a social. Um clube de futebol que ensina seus
que vive até o dia de sua morte. E que, ser dado? atletas, desde tenra infância, a serem cida-
além disso, não era empregado de vocês AFMF — Antes de ingressar, escolher dãos, encaminhando-os para a vida adulta
ou mesmo prestou serviços depois de sua bem a profissão, refletindo, profundamen- com dignidade e privilegiada auto-estima,
aposentadoria compulsória, em meados da te, sobre sua vocação e as áreas do conhe- seja nos campos do Beira-Rio e do mundo,
década de 80. Algum de vocês sabe disso? cimento sobre as quais detém não apenas seja em escritórios, lojas ou fábricas. Um
Houve um silêncio na sala de audiências, domínio momentâneo, mas acima de tudo, clube que para ser seguido e admirado, pa-
até que o mais velho dos filhos, após olhar gosto e prazer de aprofundar no decorrer radoxal e contraditoriamente, exige, apenas,
para os irmãos, disse: - Doutor, é verda- do tempo e da carreira. Depois de empos- que o amor seja incondicional.

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ÚLTIMAS PROVAS
C O N C U R S O S

Últimas Provas: 134o Exame de Ordem

DIREITO CONSTITUCIONAL (D) o Congresso Nacional a aprovar, pelo voto da DIREITO ADMINISTRATIVO desse serviço público. De acordo com esse
1. Quanto ao processo de mudança, a Consti- maioria absoluta de seus membros, os proje- 11. Suponha-se que, em um contrato de con- entendimento, não corresponderiam a caso
tuição Federal de 1988 pode ser classifica- tos de emenda à Constituição, não podendo cessão de manutenção de rodovia, o poder de responsabilidade objetiva danos causa-
da como ser dispensada em qualquer hipótese. concedente tenha aumentado o prazo con- dos a proprietário
(A) flexível, por admitir alteração por iniciativa tratual, sob o fundamento de que teria ha-
não só dos membros do Congresso Nacio- vido alterações nos deveres contratuais da (A) de restaurante, em decorrência de sus-
6. O impeachment do presidente da Repúbli-
nal, como também do presidente da Repú- concessionária, o que teria causado desba- pensão por 24 horas do fornecimento de
ca
blica. lanceamento do equilíbrio econômico-finan- energia elétrica.
(A) pode ser iniciado por denúncia de qualquer ceiro do contrato. Nessa situação, o proce-
(B) semi-rígida, por admitir alteração de seu cidadão. (B) de veículo que, em decorrência de buracos
dimento do poder concedente
conteúdo, exceto com relação às cláusulas em uma estrada privatizada, tenha sofrido
(B) só pode ser processado mediante autoriza- (A) é irregular, visto que o contrato de conces-
pétreas. acidente com perda parcial do veículo.
ção de 2/3 do Senado Federal. são está sempre vinculado ao que foi deter-
(C) transitoriamente rígida, por não admitir a (C) de veículo abalroado por ônibus de empre-
(C) é processado perante o Supremo Tribunal minado no edital da licitação prévia.
alteração dos Atos das Disposições Cons- sa de transporte coletivo.
Federal, que só poderá proferir condenação (B) é regular, visto que o aumento do prazo,
titucionais Transitórias. (D) de hotel, por suspensão, sem motivo, do
mediante voto de 2/3 de seus membros. além de repor o equilíbrio de contrato, pode
(D) rígida, por admitir a alteração de seu con- serviço de distribuição de gás canalizado.
(D) pode resultar na perda do cargo e a inabilita- evitar que se fira, com o aumento de tarifa,
teúdo por meio de processo mais rigoroso
ção permanente para o exercício de função o princípio da modicidade da tarifa.
e complexo que o processo de elaboração
pública. (C) só pode ser considerado regular no caso 15. Uma indústria farmacêutica pleiteou pe-
das leis comuns.
de a alteração dos deveres contratuais ser rante o Instituto Nacional de Propriedade
decorrente de força maior ou caso fortuito. Industrial (INPI) a obtenção de patente de
7. Na atual organização constitucional do Po- um produto farmacêutico. Após deferimen-
2. Acerca do sistema federativo brasileiro, as- (D) pode ser considerado regular, desde que
der Judiciário, é admitido o deslocamento to do pedido de concessão da patente, o
sinale a opção correta. o aumento do prazo contratual não ultra-
para o foro da justiça federal, por provoca- procedimento foi encaminhado à Agência
(A) A instituição, pelos estados, de regiões ção do procurador-geral da República, das passe o percentual de 25% em relação ao
Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
metropolitanas depende da edição de lei causas que versarem sobre prazo estabelecido originariamente.
para análise de eventuais riscos à saúde
complementar federal.
(A) extradição de brasileiros naturalizados. decorrentes da circulação do produto. Com
(B) A lei federal é hierarquicamente superior à a anuência da ANVISA, ocorreu a exeqüibi-
(B) grave violação de direitos humanos asse- 12. Em um processo instaurado pelo tribunal
lei estadual. lidade da patente. Nessa situação, o ato de
gurados em tratado internacional. de contas para analisar um contrato de
(C) Compete ao presidente da República de- execução de obras firmado por determina- concessão da patente é tipicamente um ato
(C) discriminação entre brasileiros natos e na- administrativo
cretar a intervenção federal. da prefeitura, no qual foram denunciadas ir-
turalizados.
(D) É permitida a divisão do Distrito Federal em regularidades no pagamento de medições, (A) complexo, uma vez que foi necessária a inte-
(D) sucessão de bens de estrangeiros situados a empreiteira contratada, por petição, gração de duas autoridades para sua emis-
municípios, desde que feita por lei distrital
no país. apresentou defesa e solicitou a realização são.
precedida de consulta prévia, mediante ple-
biscito, da população interessada. de perícia contábil nas faturas emitidas em (B) composto, visto que, embora tenha sido
8. É correto afirmar que, no sistema eleitoral decorrência do contrato, com o objetivo de expedido pelo INPI, foi condicionado à anu-
brasileiro, justificar a correção dos pagamentos que ência da ANVISA.
3. O controle concentrado da constitucionali- lhe foram feitos. O tribunal de contas não
dade das leis é exercido pelo (A) os governadores dos estados são escolhi- (C) informal, pendente de termo ou condição.
recebeu a defesa e negou o solicitado pela
dos pelo sistema majoritário, por maioria concessionária. Considerando essa situa- (D) discricionário na emissão, mas vinculado às
(A) presidente da República, quando este veta
absoluta dos votos. ção hipotética, assinale a opção correta. razões da ANVISA.
projeto de lei.
(B) os deputados federais são escolhidos pelo (A) Tendo os processos no tribunal de contas
(B) Supremo Tribunal Federal (STF), quando
sistema majoritário, por maioria simples dos natureza jurisdicional e, não, administrati-
este julga recurso extraordinário. 16. Considere-se que, para a construção de
votos. va, a concessionária deveria ter sido con-
(C) tribunal de justiça do estado, quando este uma estrada, um estadomembro tenha edi-
(C) os senadores são escolhidos pelo sistema siderada como litigante e, portanto, com tado decreto declarando de utilidade públi-
julga ação direta de inconstitucionalidade.
proporcional. direito ao contraditório e à ampla defesa. ca um imóvel privado, situado no traçado
(D) juiz singular de primeiro grau, quando este
(D) o presidente da República é escolhido pelo (B) A decisão do tribunal de contas está de da pretendida estrada. Nessa situação,
julga mandado de segurança coletivo.
sistema misto. acordo com a lei, porque se trata de um havendo urgência na desapropriação do
processo administrativo no âmbito esse tri- bem, poderá o ente público imitir-se ime-
4. O Supremo Tribunal Federal não tem admi- bunal, de controle externo apenas das pes- diatamente na posse do imóvel, ainda que
9. O processo de elaboração de decreto legis- soas públicas e dos agentes públicos, não o proprietário não concorde com o valor da
tido o controle por meio de ação direta de
lativo assemelha-se ao da lei ordinária com sendo a empreiteira parte nesse processo. indenização que lhe foi oferecido?
inconstitucionalidade de
relação à
(A) decreto autônomo. (C) Se no Regimento Interno do Tribunal de (A) Não, porque o interesse público não pode
(A) iniciativa, podendo esta ser exercida pelo Contas não houver disposição que ampare se sobressair ao direito de propriedade,
(B) emenda à Constituição. presidente da República. a pretensão da concessionária, considera- constitucionalmente assegurado.
(C) tratado internacional incorporado à ordem (B) aprovação pelo quorum de maioria sim- se correto o posicionamento desse tribu- (B) Não, a não ser que seja editado novo de-
jurídica brasileira. ples. nal. creto, de necessidade pública, declarando
(D) norma constitucional originária. (C) apresentação de veto pelo presidente da (D) O tribunal de contas não deveria ter toma- a urgência e estabelecendo o valor venal do
República. do essa decisão, visto que o direito à prova imóvel para pagamento do Imposto Predial
(D) promulgação pelo presidente da República. é uma concretização da garantia constitu- Territorial Urbano (IPTU) como o valor da
5. A cláusula de reserva de plenário obriga
cional do devido processo legal, aplicável a indenização.
(A) os tribunais a declarar a inconstitucionali- todos os processos administrativos. (C) Sim, pelo poder de auto-executoriedade
dade de lei apenas pelo voto da maioria ab- 10. O brasileiro que adquirir outra nacionalida- que tem o poder expropriante, combinado
soluta de seus membros ou dos membros de com a comprovação da urgência.
do respectivo órgão especial, não podendo 13. São modalidades de licitação
(A) passará a ter dupla nacionalidade, pois a (D) Sim, desde que obtenha uma liminar em ju-
ser dispensada em qualquer hipótese. (A) a concorrência, a tomada de preço, o convi-
Constituição Federal não prevê hipóteses ízo, depositando um valor que se entenda
(B) os tribunais a declarar a inconstituciona- de perda de nacionalidade. te, o concurso e o leilão.
justo para a devida indenização.
lidade de lei apenas pelo voto da maioria (B) apenas a concorrência, a tomada de preço
(B) perderá a nacionalidade brasileira, exceto
absoluta de seus membros ou dos mem- e o convite.
se for brasileiro nato.
bros do respectivo órgão especial, podendo 17. A Lei Complementar n.o 1.025, de 7 de de-
(C) perderá a nacionalidade brasileira, exceto (C) apenas a concorrência e a tomada de pre-
ser dispensada quando já houver pronun- zembro de 2007, do estado de São Paulo, ao
se permanecer residindo em território bra- ços.
ciamento do plenário do Supremo Tribunal criar a Agência Reguladora de Saneamen-
Federal sobre a questão. sileiro. (D) apenas a concorrência.
to e Energia do Estado de São Paulo (AR-
(C) o Congresso Nacional a aprovar, pelo voto (D) perderá a nacionalidade brasileira, exceto SESP), dispôs que essa agência, no desem-
da maioria absoluta de seus membros, os se a lei estrangeira impuser a naturalização penho de suas atividades, deveria obedecer,
14. Recente decisão do STF entendeu que a
projetos de lei ordinária, podendo ser dis- ao brasileiro residente no território do res- entre outras, às diretrizes de “adequação
garantia constitucional de responsabilida-
pensada quando o projeto for aprovado pectivo estado estrangeiro como condição entre meios e fins, vedada a imposição de
de objetiva de pessoa privada que preste
pela Comissão de Constituição e Justiça. para sua permanência. obrigações, restrições e sanções em medida
serviço público volta-se apenas ao usuário

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ÚLTIMAS PROVAS

superior àquelas estritamente necessárias (C) a maioridade e a morte. 34. Suponha-se que o autor de uma ação for- 42. O contrato pelo qual uma pessoa assume,
ao atendimento do interesse público” (art. (D) a concepção e a senilidade. mule dois pedidos, cada um deles devendo em caráter não-eventual e sem vínculos de
2.º, III) e de “indicação dos pressupostos de ser conhecido e apreciado na ordem de apre- dependência, a obrigação de promover, à
fato e de direito que determinem as suas sentação, dando-se preferência ao primeiro, conta de outras, mediante retribuição, a
decisões” (art. 2.º, V). Tais diretrizes dizem 24. São exemplos de fatos jurídicos stricto depois ao que o segue. Nesse caso, trata-se realização de certos negócios, em zona de-
respeito aos seguintes princípios: sensu de pedidos terminada, é denominado contrato de
(A) eficiência e devido processo legal. (A) a declaração, o testamento, a residência. (A) facultativos. (A) comissão.
(B) razoabilidade e objetividade. (B) o contrato, o testamento, a aluvião. (B) alternativos. (B) corretagem.
(C) proporcionalidade e motivação. (C) a descoberta de tesouro, a dívida de jogo, o (C) cumulativos. (C) agência.
(D) legalidade e formalidade. nascimento. (D) sucessivos. (D) mandato.
(D) o nascimento, a morte, a aluvião.
18. Ato ou contrato formal pelo qual a adminis- 35. A contrariedade do julgado às normas con- 43. É correto afirmar que a instituição do con-
tração pública confere a um particular (pes- tidas na legislação federal e às contidas na selho fiscal de uma sociedade empresária
25. Não comporta condição o ato
soa física ou jurídica), normalmente sem Constituição da República dá ensejo, res- limitada é
prévia licitação, a prerrogativa de exercer (A) mútuo.
pectivamente, a (A) facultativa, devendo o conselho ser com-
certas atividades materiais ou técnicas, (B) de compra e venda. (A) recurso especial e recurso extraordinário. posto por, no mínimo, 5 membros e respec-
em caráter instrumental ou de colaboração (C) de doação. (B) recurso extraordinário e recurso ordinário. tivos suplentes, sócios, ou não, e residen-
com o poder público, a título oneroso, remu-
(D) de aceitação ou de repúdio a herança. tes no país.
neradas, na maioria das vezes, diretamente (C) apelação e recurso ordinário.
pelos interessados, configura, tipicamente, (B) obrigatória, devendo ser o conselho compos-
(D) mandado de segurança e apelação.
to por, no mínimo, 3 membros e respectivos
(A) autorização não-precária. 26. A retrovenda, a preempção e a venda com suplentes, não-sócios e residentes no país.
(B) parceria público-privada. reserva de domínio constituem modalida-
36. A ação cautelar tem a finalidade própria (C) facultativa, devendo ser o conselho com-
(C) credenciamento. des de
de posto por, no mínimo, 3 membros e respec-
(D) licença remunerada. (A) cláusulas obrigatórias. tivos suplentes, sócios, ou não, e residen-
(A) interromper a decadência.
(B) pactos adjetos. tes no país.
(B) satisfazer direito material.
(C) termos genéricos. (D) obrigatória, devendo ser o conselho compos-
19. Recente decisão do Supremo Tribunal Fe- (C) satisfazer direito já declarado.
(D) penalidades contratuais. to por, no mínimo, 5 membros e respectivos
deral, levando em consideração a peculiar (D) garantir a viabilidade da propositura e o de- suplentes, não-sócios e residentes no país.
situação jurídica de uma estatal (regida senvolvimento a ação principal.
pelo direito privado), afirmou a impossibili-
dade de se penhorarem seus bens e deter- 27. A sucessão da pessoa natural ocorre com
44. Segundo a Lei n.º 11.101/2005, a conde-
minou que sua execução só poderia ocor- (A) o testamento. 37. A oposição de embargos de declaração nação por crime falimentar
rer pelo regime do precatório (art. 100 da (B) a morte do sucedido. contra acórdão que julgou apelação deter-
Constituição Federal). Tal decisão ocorreu mina (A) impede o exercício de qualquer atividade
em referência (C) a abertura do inventário. empresarial pelo prazo de 5 anos, a contar
(A) a suspensão do prazo para a interposição do decreto da falência.
(A) ao Banco do Brasil, uma sociedade de eco- (D) a finalização do inventário.
de outros recursos.
nomia mista cujos bens são bens públicos (B) não impossibilita o falido de gerir empresa
(B) a interrupção do prazo para a interposição
dominiais. por mandato.
28. Não é própria aos testamentos de outros recursos.
(B) à Empresa Brasileira de Correios e Telégra- (C) não impede exercício do cargo de gerên-
(A) a solenidade. (C) a fluência do prazo para a interposição de
fos (ECT), por se tratar de empresa pública cia.
(B) a gratuidade. outros recursos.
que executa serviço público. (D) impede o falido de exercer cargo ou função
(C) a unilateralidade. (D) o trânsito em julgado.
(C) à Companhia de Gás de São Paulo (COM- em conselho de administração.
GAS), porque, como empresa privada e (D) a irrevogabilidade.
concessionária de serviço público, todos 38. Iniciada a execução de sentença, a eventual
seus bens são reversíveis. 45. A Lei n.º 9.279/1996, que trata da pro-
defesa do executado será feita por meio de
29. A usucapião constitui modo priedade industrial, confere ao titular da
(D) ao INSS, uma autarquia federal cujos bens (A) impugnação. patente o direito de obter indenização pela
são todos bens públicos de uso especial. (A) originário de aquisição da propriedade.
(B) embargos à execução. exploração indevida de seu objeto,
(B) derivado de aquisição da propriedade.
(C) embargos de terceiro. (A) inclusive em relação à exploração ocorrida
20. Uma forma de contratação entre integran- (C) derivado de aquisição da posse. entre a data da publicação do pedido e a
(D) apelação.
tes da administração pública, derivada de (D) de celebração de contrato. data da concessão da patente.
convênio de cooperação ou de consórcio (B) somente após a data da concessão da pa-
público e que expressa delegação de ati- 39. Proposta a ação, o pedido formulado pelo tente.
vidades, como planejamento e fiscalização 30. Ocupação, especificação e comistão são autor somente poderá ser alterado
de serviço público, é denominada modos de (C) a partir da data em que restar comprovada
(A) até a citação, necessariamente com a con- sua invenção pelo titular.
(A) convênio consorcial. (A) cessão de direitos de posse. cordância do réu.
(D) inclusive contra aquele que, de boa-fé, an-
(B) protocolo de intenções. (B) aquisição da propriedade de bens imóveis. (B) até a citação, independentemente da con- tes da data do depósito ou de prioridade da
(C) concessão de serviço público. (C) aquisição da propriedade de bens móveis. cordância do réu. patente, já explorava seu objeto no país.
(D) contrato de programa. (D) perda de propriedade imaterial. (C) após a contestação, necessariamente com
a concordância do réu.
46. A pretensão à execução da duplicata pres-
(D) até a contestação e após a citação, inde-
DIREITO CIVIL DIREITO PROCESSUAL CIVIL creve contra o
pendentemente da concordância do réu.
21. A perda do direito potestativo e a perda da 31. Não é própria das ações possessórias a ca- (A) endossante e seus avalistas, em 3 anos,
pretensão em virtude da inércia do titular racterística de contados da data do protesto.
no prazo determinado por lei vinculam-se, 40. No processo de inventário, o espólio é re-
(A) caráter dúplice. (B) endossante e seus avalistas, em 1 ano,
respectivamente, aos conceitos de presentado
contado da data do protesto.
(B) infungibilidade. (A) pelo curador.
(A) decadência e prescrição. (C) sacado e respectivos avalistas, em 1 ano,
(C) fungibilidade. (B) pelo testamenteiro.
(B) prescrição e decadência. contado da data do vencimento do título.
(D) jurisdição contenciosa. (C) pelo inventariante.
(C) omissão e ato ilícito. (D) sacado e respectivos avalistas, em 3 anos,
(D) ação e omissão. (D) por todos os herdeiros. contados da data do protesto.
32. Os procedimentos de interdição e de sepa-
ração consensual são exemplos de
22. Não é própria aos direitos da personalidade DIREITO COMERCIAL 47. A decretação da falência das concessioná-
(A) jurisdição voluntária. rias de serviços públicos
a qualidade de 41. Acerca do contrato de representação co-
(B) jurisdição contenciosa. mercial, regulado pela Lei n.º 4.886/1965, (A) implica sua transferência para outra con-
(A) imprescritibilidade.
(C) ação ordinária. é correto afirmar que cessionária nomeada pelo Juízo da Falên-
(B) irrenunciabilidade. cia, no prazo de 180 dias, a contar da data
(D) ação sumária. (A) é permitida a inclusão de cláusula del credere.
(C) disponibilidade. da prolação da sentença que decretou a
(B) a força maior constitui motivo para rescisão falência.
(D) efeitos erga omnes.
do contrato por qualquer das partes.
33. O interesse de agir é (B) é vedada pela Lei n.º 11.101/2005.
(C) a exclusividade é presumida quando não
23. A personalidade civil da pessoa natural sur- (A) faculdade da ação. afastada, expressamente, no contrato. (C) implica a administração da concessão pelo
ge e desaparece, respectivamente, com (B) elemento da ação. administrador judicial enquanto perdurar o
(D) prescreve em 3 anos a ação do represen-
processo de falência.
(A) o nascimento e a morte. (C) condição da ação. tante comercial para pleitear a retribuição
que lhe é devida. (D) implica extinção da concessão.
(B) a concepção e a morte. (D) pretensão.

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ÚLTIMAS PROVAS
C O N C U R S O S
48. A constituição de sociedade anônima de- 54. Relativamente ao interrogatório, assinale a 59. No que diz respeito ao indulto, assinale a (A) A prestação de garantia graciosa em opera-
pende de subscrição de opção correta. opção correta. ção de crédito sem contragarantia de valor
(A) todas as ações em que se divide o capital (A) O interrogatório constitui meio de defesa e as (A) O indulto somente pode ser concedido por igual ou superior ao da garantia prestada só
social fixado no estatuto. declarações oportunamente prestadas pelo lei elaborada pelo Congresso Nacional. será criminosa se a operação de crédito não
acusado podem servir de fonte de prova. for honrada.
(B) 50%, no mínimo, das ações em que se divi- (B) Trata-se de atribuição do presidente da Re-
de o capital social fixado no estatuto. (B) Trata-se, exclusivamente, de meio de prova. pública, exercida por meio de expedição de (B) Responde criminalmente o funcionário pú-
decreto. blico que ordenar despesa não autorizada
(C) 25%, no mínimo, das ações em que se divi- (C) A defesa técnica não pode se manifestar na por dispositivo legal.
de o capital social fixado no estatuto. realização do interrogatório. (C) Não se admite indulto parcial.
(C) O Código Penal incrimina o aumento de
(D) 10%, no mínimo, das ações em que se divi- (D) Somente a autodefesa é exercida quando (D) Se o sentenciado for beneficiado por in- despesa total de pessoal a partir dos 365
de o capital social fixado no estatuto. se presta declarações em interrogatório. dulto coletivo, este benefício não pode ser dias finais do mandato ou da legislatura do
reconhecido, de ofício, pelo juízo das exe- funcionário público.
cuções penais competente.
49. O Certificado de Depósito Agropecuário 55. Quanto às nulidades no processo penal, as- (D) Aquele que ordena a colocação, no mercado
(CDA) sinale a opção correta. financeiro, de títulos da dívida pública em
(A) só pode ser transmitido junto com o war- (A) Há nulidade absoluta se houver violação a 60. Assinale a opção correta quanto à suspen- desacordo com as normas legais responde
rant. direito ou garantia processual penal funda- são condicional do processo. como partícipe. Autor é aquele que efeti-
mental, ainda que não prevista na legisla- (A) Corre prescrição durante o prazo de sus- vamente coloca, no mercado financeiro, os
(B) pode ser emitido em momento diverso do títulos da dívida pública em comento.
warrant. ção processual ordinária. pensão do processo.
(C) deve ser emitido simultaneamente ao war- (B) As hipóteses de nulidade são apenas as (B) O juiz pode especificar condições não-ex-
rant. previstas em lei, em decorrência do princí- pressas em lei a que fica submetida a sus- 65. O Código Penal brasileiro,
pio processual-penal da legalidade. pensão, desde que adequadas ao fato e à (A) quanto ao lugar do crime, adotou a teoria
(D) não constitui título executivo extrajudicial, situação do acusado.
ainda que acompanhado do warrant. (C) A regra do prejuízo é aplicável em qualquer mista ou da ubiqüidade.
hipótese de nulidade. (C) O não-cumprimento da condição de repara- (B) quanto ao lugar do crime, adotou a teoria
(D) Toda nulidade, em tese, pode ser convalidada. ção do dano, sendo possível ao réu fazê-lo, da atividade ou da ação.
50. Quanto ao cheque, é correto afirmar que é causa de revogação facultativa.
(C) quanto ao tempo do crime, adotou a teoria
(A) é nulo o endosso parcial. (D) A instauração de processo por suposta prá- mista ou da ubiqüidade.
56. Em processo penal, os embargos infringen- tica de outro crime no período de prova é
(B) é admitido endosso do sacado. tes (D) quanto ao tempo do crime, adotou a teoria
causa de revogação facultativa.
(C) o endosso deve indicar o endossatário. (A) não são cabíveis, não se admitindo a aplica- do resultado.
(D) não é permitido ao endossante vedar novo ção subsidiária da lei processual comum.
endosso. DIREITO PENAL
(B) têm cabimento se a decisão desfavorável 66. A respeito dos crimes contra a honra, assi-
ao réu de segunda instância não for unâni- 61. Assinale a opção correta no que se refere nale a opção correta.
me. aos crimes de trânsito.
DIREITO PROCESSUAL PENAL (A) De acordo com o Código Penal, é punível
(C) não são cabíveis se a divergência constan- (A) Responde por crime de trânsito o agente o crime de calúnia e difamação contra os
51. A propósito da restituição de bens apreen- que viola a suspensão de dirigir veículo au-
te do acórdão for parcial. mortos.
didos no processo penal, assinale a opção tomotor.
correta. (D) têm efeito devolutivo pleno, portanto sua (B) O prazo decadencial dos crimes contra a
interposição redunda em renúncia a inter- (B) O indivíduo que, pilotando uma lancha honra tratados pela Lei de Imprensa — Lei
(A) Tratando-se de coisas facilmente penhorá- em alto mar, mata, culposamente, uma
posição de recursos extraordinários, em n.º 5.250/1967 — é de três meses e, no
veis, não se admite a realização de leilão pú- pessoa comete, de acordo com a Lei n.º
caso de rejeição. Código Penal, esse prazo é de seis meses.
blico, pois a aplicação da lei processual civil é 9.503/1997, que trata dos crimes de trân-
subsidiária. sito, crime de homicídio culposo. (C) A difamação, tratada pelo Código Penal,
57. Sobre mandado de segurança, assinale a não admite exceção da verdade.
(B) Não se admite a tutela de interesse de ter- (C) O agente que, dirigindo automóvel, causa,
ceiros de boa-fé no bem apreendido. opção correta. (D) Segundo a Lei de Imprensa, o crime de ca-
culposamente, lesão corporal na vítima e
(A) Não se admite impetração de mandado lúnia é de ação penal pública condicionada
(C) Antes do trânsito em julgado de decisão in- deixa de prestar socorro a ela responde
de segurança para resguardo de interesse a representação.
serta em sentença, os bens apreendidos só tanto pelo crime de lesão corporal culposa
podem ser restituídos se não mais interessa- violado em feitos penais, pois, em qualquer tratado nos crimes de trânsito quanto por
rem ao processo e aos efeitos penais de uma situação, há a violação da liberdade do in- crime de omissão de socorro. 67. A respeito da Lei de Drogas — Lei n.º
condenação. vestigado, cuja tutela jurisdicional ocorre
(D) Responde como co-autor pelo crime de ho- 11.343/2006 —, assinale a opção correta.
por impetração de habeas corpus.
(D) Em caso de dúvida sobre quem seja o ver- micídio o pai ou responsável que empresta (A) Segundo entendimento doutrinário predo-
(B) Não se admite a aplicação da fungibilidade veículo automotor a menor de idade que,
dadeiro dono do bem apreendido, o juízo minante, a conduta do usuário de drogas foi
se o mandado de segurança for impetrado acidentalmente, atropele e mate uma pes-
criminal é o competente para solucioná-la. descriminalizada.
em face de ilegalidade que deveria ser con- soa.
testada por meio da impetração de habeas (B) O número de testemunhas de defesa, nos
corpus, extinguindo-se o feito sem julga- crimes apenados com reclusão, foi reduzido
52. Acerca da competência para conhecimento
mento do mérito. 62. Assinale a opção correta no que se refere à de oito para cinco.
e julgamento de feitos penais, assinale a
opção correta. (C) Será concedido mandado de seguran- clonagem humana. (C) Não há delação premiada na nova lei de dro-
ça para tutela de direito líquido e certo, (A) A clonagem humana é crime previsto no gas, tendo diminuído a punição ao agente
(A) A regra da prevenção não se aplica em ins-
comprovado de plano, não amparado por Código Penal. que, voluntariamente, colabora com a justiça
tâncias superiores, somente no juízo singu- na identificação dos demais co-autores ou
lar. habeas corpus ou habeas data, quando o (B) A clonagem humana deixa de ser crime se
responsável pela ilegalidade ou abuso de partícipes, bem como na recuperação do pro-
(B) Não se admite a consideração de preven- for realizada para salvar um enfermo. duto do crime.
poder for autoridade pública ou agente de
ção para fixação do juízo natural. (C) A utilização de células-tronco embrionárias
pessoa jurídica no exercício de atribuições (D) O crime de associação ao tráfico exige
(C) Em comarca, havendo juízos especializados do poder público. obtidas de embriões humanos produzidos
um concurso de mais de três pessoas, da
na fiscalização de investigação penal, apli- por fertilização in vitro é sempre permitida
(D) Pode ser interposto, pela parte juridicamente mesma forma como ocorre no crime de for-
ca-se a regra da prevenção, em qualquer se houver consentimento dos genitores e mação de quadrilha, tratado pelo Código
interessada, recurso ordinário à decisão pro- os embriões forem inviáveis.
caso. ferida em mandado de segurança decidido Penal.
(D) Em regra, no processo penal, há preven- em única instância pelos tribunais regionais (D) A clonagem humana é crime tratado pela
ção quando, havendo dois ou mais juízes federais ou pelos tribunais dos estados, do Lei de Biosseguranca.
68. Quanto aos crimes falimentares, previstos
igualmente competentes ou com jurisdição Distrito Federal e territórios, quando conces-
na Lei n.º 11.101/2005, assinale a opção
cumulativa, um deles tiver antecedido aos siva a decisão.
63. Assinale a opção correta a respeito de correta.
outros na prática de algum ato do proces- curandeirismo e charlatanismo.
so ou de medida a este relativa, ainda que (A) Os efeitos da condenação, tais como ina-
58. Com relação ao recurso especial, (A) Charlatanismo não é crime, mas contraven- bilitação para o exercício de atividade em-
anterior ao oferecimento da denúncia ou
(A) exige-se a demonstração da repercussão ção penal. presarial, impossibilidade de gerir empresa
queixa.
geral das matérias versadas em recurso (B) Curandeirismo e charlatanismo são sinô- por mandato, entre outros, devem ser apli-
especial. nimos; portanto são tratados em um único cados automaticamente com a sentença
53. Configura hipótese de inépcia da denúncia (B) o prequestionamento, por não ser previsto dispositivo legal do Código Penal. condenatória.
(A) não-indicação de testemunhas por parte da em lei, não constitui pressuposto de admis- (B) A fraude contra credores, descrita como
(C) No crime de curandeirismo, o agente ilici-
acusação. sibilidade recursal. conduta criminosa, só poderá ocorrer antes
tamente exerce atividade de diagnosticar e
(C) não se exige conflito analítico em caso de da sentença que decretar a falência.
(B) utilização de alcunha do acusado no tex- prescrever substâncias ao paciente.
to da exordial, mesmo constando o nome este ser fundamentado em dissídio juris- (C) A redução ou substituição da pena privativa
(D) No curandeirismo, o crime se consuma com
completo na qualificação. prudencial. de liberdade prevista na lei dos crimes fali-
o prejuízo financeiro da vítima.
(D) quando se fundar em dissídio jurispruden- mentares só poderá ser aplicada às micro-
(C) exposição obscura de fato criminoso des- empresas e às empresas de médio porte.
provida de todas as suas circunstâncias. cial, o recorrente fará a prova da divergên-
cia mediante certidão, cópia autenticada ou 64. No que se refere aos crimes contra as fi- (D) Praticam crime falimentar o juiz, o repre-
(D) a errônea classificação do crime imputado pela citação do repositório de jurisprudên- nanças públicas, previstos no Código Pe- sentante do Ministério Público, o adminis-
na inicial acusatória. cia, oficial ou credenciado. nal, assinale a opção correta. trador judicial, o gestor judicial, o perito, o

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avaliador, o escrivão, o oficial de justiça ou perdurar por mais de 3 anos, a prescrição (D) Das decisões proferidas pelo juízo de pri- (B) Tal prescrição não pode ser decretada de
o leiloeiro, por si ou por interposta pessoa, do direito de reclamar a concessão das fé- meiro grau na fase executória, não cabe re- ofício, por serem indisponíveis os interes-
que adquiram bens da massa falida ou de rias ou o pagamento da respectiva remune- curso de revista, salvo na hipótese de viola- ses patrimoniais da fazenda pública.
devedor em recuperação judicial. ração é ção de súmula do próprio tribunal regional a (C) Essa prescrição pode ser decretada de ofí-
(A) contada do término do prazo do período cuja jurisdição esteja ele subordinado. cio, desde que estejam caracterizados a
concessivo, ou, se for o caso, da cessação omissão e o desinteresse da fazenda públi-
69. Acerca da lesão corporal, assinale a opção
do contrato de trabalho. ca no processamento da execução fiscal.
correta. 79. Assinale a opção correta em relação ao di-
(B) contada do término do prazo do período reito processual. (D) É possível o reconhecimento, de ofício, da
(A) O aumento especial de pena aplicado à vio-
aquisitivo. prescrição intercorrente, desde que a fazen-
lência doméstica praticada contra portador (A) Ainda que a competência em razão da ma-
(C) contada a partir da data em que o trabalha- da pública seja previamente ouvida sobre a
de deficiência aplica-se a lesão corporal téria seja trabalhista, em se tratando de
dor completar 19 anos. matéria.
leve, grave e gravíssima. “relação de emprego” em que se discutam
(B) As lesões corporais leve, grave e gravíssi- (D) inexistente, visto que tal direito é impres- danos morais imputados ao empregador
ma, se praticadas através da violência do- critível. em prejuízo do empregado, as normas pro- 84. De acordo com o que dispõe o Código Tri-
méstica, terão aumento especial de pena cessuais que devem ser aplicadas são ex- butário Nacional, a responsabilidade dos
na proporção de um terço. clusivamente as do direito processual civil. sucessores deve ser
75. Assinale a opção correta quanto à composi- (B) Em nenhuma hipótese deve-se aplicar nor-
(C) Lesão corporal culposa e a de natureza leve ção da Comissão Interna de Prevenção de (A) excluída na alienação de ativos, na recupe-
são delitos de ações penais públicas condi- ma do direito processual civil em ações tra- ração judicial e na falência.
Acidentes (CIPA). balhistas.
cionadas a representação da vítima ou de (B) aplicada somente na recuperação judicial.
seu representante legal. (A) O presidente da CIPA será, sempre, o empre- (C) Mesmo que a competência em razão da
gado que obtiver maior número de votos, e matéria seja trabalhista, em se tratando de (C) aplicada na recuperação judicial e na falên-
(D) A incapacidade permanente para as ocupa- o vice-presidente, o segundo candidato mais cia.
ções habituais da vítima de lesão corporal, mera “relação de trabalho” e não de “rela-
votado. ção de emprego”, as normas processuais (D) excluída, na alienação de ativos, somente
por mais de duzentos dias, classifica a le-
são como gravíssima. (B) O empregador designará, anualmente, en- que devem ser aplicadas são as do direito no que se refere à recuperação judicial.
tre os seus representantes, o presidente processual civil.
da CIPA, e os empregados elegerão, entre (D) Nos casos omissos, o direito processual co-
70. A respeito das contravenções penais, assi- eles, o vice-presidente da comissão. 85. A alienação do patrimônio por parte do de-
mum será fonte subsidiária do direito pro- vedor com débitos perante a fazenda públi-
nale a opção correta. (C) O presidente da CIPA será, sempre, o em- cessual do trabalho, exceto naquilo em que ca não pode ser anulada. À luz do Código
(A) As penas privativas de liberdade tratadas pregado que obtiver maior número de vo- for incompatível com as normas deste. Tributário Nacional, a afirmativa acima
na lei das contravenções penais são de pri- tos, e o vice-presidente, eleito por votação
são simples. indireta entre os membros da comissão. (A) não é verdadeira, pois a fazenda pública
80. Na forma da legislação processual traba- pode pleitear a anulação da alienação do
(B) A lei das contravenções penais foi revoga- (D) Tanto o presidente quanto o vice-presidente
lhista, os laudos periciais dos assistentes patrimônio efetuada a partir da inscrição
da, tendo algumas das condutas sido trans- serão livremente designados pelo empre-
técnicos indicados pelas partes devem ser do débito em dívida ativa, desde que o de-
formadas em infrações administrativas e gador, sendo os demais cargos preenchi-
juntados aos autos vedor não tenha outros bens que possam
outras, em infrações criminais. dos por votação indireta entre os membros
(A) no prazo comum de 10 dias, após as partes satisfazer o pagamento total do débito.
eleitos da CIPA.
(C) A contravenção penal de porte de arma (B) não é verdadeira, pois a fazenda pública
serem intimadas da apresentação do laudo
não foi revogada pela lei de armas de fogo
do perito do juízo. pode pleitear a anulação da alienação do
— Lei n.º 10.826/2003. 76. Assinale a opção correta quanto à dispensa patrimônio efetuada desde a ocorrência do
(B) no prazo comum de 30 dias, após as partes
(D) As contravenções penais de vadiagem e arbitrária ou sem justa causa de emprega- fato gerador que ensejou o débito.
mendicância foram revogadas após a ratifi- da doméstica gestante. serem intimadas da apresentação do laudo
do perito do juízo. (C) é verdadeira, pois a fazenda pública não
cação do Brasil à Convenção Americana de (A) É vedada a dispensa arbitrária ou sem justa pode pleitear a anulação da alienação do
Direitos Humanos. causa da empregada doméstica gestante (C) no prazo comum de 20 dias, após as partes
patrimônio efetuada pelo devedor, em ra-
desde a confirmação da gravidez até 5 me- serem intimadas da apresentação do laudo
zão da ausência de previsão no Código Tri-
ses após o parto. do perito do juízo.
DIREITO DO TRABALHO butário Nacional.
(B) É vedada a dispensa arbitrária ou sem jus- (D) no mesmo prazo assinalado para o perito
71. Nos dissídios de alçada exclusiva da vara (D) é verdadeira, pois a fazenda pública não
ta causa da empregada doméstica gestan- do juízo, sob pena de serem desentranha-
do trabalho, apenas cabe recurso no caso pode pleitear a anulação da alienação do
te desde a confirmação da gravidez até 90 dos dos autos.
de a questão decidida patrimônio efetuada pelo devedor, haja
dias após o parto. vista que a dívida ativa regularmente ins-
(A) limitar-se a matéria de fato.
(C) É vedada a dispensa arbitrária ou sem justa DIREITO TRIBUTÁRIO crita não traz a presunção de sua certeza
(B) versar sobre legislação ordinária federal. causa da empregada doméstica gestante e liquidez.
81. A concomitância da tramitação de defesa
(C) versar sobre matéria constitucional. desde a confirmação da gravidez até 120
administrativa e medida judicial em nome
(D) versar sobre interpretação de cláusula de dias após o parto.
do contribuinte interessado enseja 86. As contribuições de intervenção no domí-
convenção coletiva. (D) Inexiste, no ordenamento jurídico brasilei- nio econômico podem ser cobradas sobre
(A) o indeferimento da medida judicial, em ra-
ro, qualquer vedação para a dispensa ar-
zão do processamento da defesa junto à bases de cálculo
bitrária ou sem justa causa da empregada
72. Com referência à Carteira de Trabalho e instância administrativa. (A) fixadas em regulamento, provenientes de
doméstica gestante.
Previdência Social, assinale a opção corre- (B) o sobrestamento da medida judicial até valores obtidos no mercado interno, inclu-
ta. resolução da questão perante a instância sive sobre a importação e exportação de
(A) Tal documento é desnecessário para os tra- 77. O contrato de aprendizagem deve ser cele- administrativa. produtos ou serviços estrangeiros.
balhadores em domicílio, mesmo que a re- brado com indivíduo (C) a extinção da defesa administrativa, sem (B) fixadas em lei, provenientes de valores ob-
lação jurídica implique vínculo de emprego. (A) maior de 14 anos e menor de 24 anos, exceto apreciação de mérito, se a matéria discutida tidos no mercado interno, inclusive sobre a
(B) Tal documento é desnecessário para o tra- com relação aos portadores de deficiência, em ambas as instâncias for absolutamente importação e exportação de produtos ou
balhador rural, mesmo que a relação jurídi- caso em que a idade máxima não se aplica. idêntica. serviços estrangeiros.
ca implique vínculo de emprego. (B) maior de 12 anos e menor de 16 anos. (D) a aplicação da multa por litigância de má- (C) fixadas em lei, provenientes de valores ob-
(C) Esse documento é desnecessário para os (C) maior de 12 anos e menor de 18 anos. fé ao interessado, por utilizar-se de duas tidos no mercado interno, inclusive sobre a
trabalhadores domésticos, mesmo que a vias de defesa — administrativa e judicial importação de produtos ou serviços estran-
(D) maior de 15 anos de idade, sem limite máxi-
relação jurídica implique vínculo de empre- — para discussão da mesma matéria. geiros, não incidindo sobre as receitas de
mo de idade, desde que comprovado que o
go. exportação.
trabalhador esteja recebendo treinamento
(D) Nas localidades onde tal documento não em ofício ou profissão. 82. Da análise das disposições do Código Tribu- (D) fixadas em regulamento, provenientes de
seja emitido, o empregado que não o possua tário Nacional, que trata da responsabilidade valores obtidos no mercado interno, inclu-
poderá ser admitido até o limite de 30 dias, tributária pessoal de terceiros, constatase sive sobre a importação e exportação de
ficando a empresa, em tal período, obrigada 78. Assinale a opção correta no que diz respei- produtos ou serviços estrangeiros, e com
que a responsabilidade tributária de terceiros
a permitir o comparecimento do trabalhador to a recurso de revista na justiça do traba- alíquotas estabelecidas por ato do Poder
emerge
ao posto de emissão mais próximo. lho. Executivo.
(A) de sua capacidade contributiva.
(A) Das decisões proferidas pelos tribunais re-
gionais ou por suas turmas, na fase execu- (B) da prática comprovada de atos ilícitos.
73. O contrato de trabalho por prazo determi- 87. Os princípios constitucionais que informam
tória, em nenhuma hipótese cabe recurso de (C) do fato de serem dirigentes de pessoas jurídi-
nado, em nenhuma hipótese, poderá ser a cobrança do IPI são
revista. cas.
estipulado por prazo superior a (A) a não-cumulatividade e a seletividade.
(B) Das decisões proferidas pelos tribunais re- (D) de acréscimo de riqueza decorrente do ato
(A) 120 dias. gionais ou por suas turmas, na fase execu- (B) a não-cumulatividade e a progressividade.
ilícito cometido, necessariamente.
(B) 180 dias. tória, não cabe recurso de revista, salvo na (C) a seletividade e a generalidade.
(C) 2 anos. hipótese de ofensa direta e literal de norma
(D) a progressividade e a generalidade.
da Constituição Federal. 83. Em relação à prescrição intercorrente ocor-
(D) 3 anos. rida no curso da execução fiscal, assinale a
(C) Das decisões proferidas pelo juízo de pri-
meiro grau na fase executória, não cabe opção correta. 88. As contribuições sociais cobradas do em-
74. Para os trabalhadores maiores de 18 anos, recurso de revista, salvo na hipótese de (A) Esse tipo de prescrição não pode ser de- pregador, da empresa e da entidade a ela
considerando-se contrato de trabalho que dúvida de interpretação de lei federal. cretado de ofício. equiparada, na forma do artigo 195, I, da

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ÚLTIMAS PROVAS
C O N C U R S O S
Constituição Federal, que trata da folha de (A) Sim, lastreado em sua liberdade e inde- identificação do escritório apenas no local (A) Por se tratar de direito de família, o aces-
salários, receita ou faturamento e lucro, pendência e, também, porque a adoção da onde este esteja instalado. sório (divórcio) acompanha o principal, a
(A) devem ter alíquotas ou bases de cálculo mencionada tese jurídica afrontaria posi- separação, sem necessidade de nova pro-
idênticas, independentemente da ativida- cionamento anterior seu. curação.
97. Advogado especializado foi contratado
de econômica ou utilização intensiva de (B) Não, porque, sendo detentor de cargo pú- (B) Não é necessária nova procuração, mas
para defender interesses de cliente que es-
mão-de-obra. blico, ele teria o dever de atender aos inte- devem ser cobrados novos honorários.
tava sendo investigado por supostos deli-
(B) podem ter alíquotas ou bases de cálculo resses maiores da administração pública. (C) Uma vez concluída a causa ou arquivado o
tos. Decorridos alguns meses, o porteiro do
diferenciadas em razão da atividade eco- (C) Não, pois o conceito de liberdade e inde- prédio onde estava situado o escritório do processo, presumem-se o cumprimento e a
nômica ou utilização intensiva de mão de- pendência é exclusivo aos advogados par- advogado o avisou, às 6 horas da manhã, de cessação do mandato, sendo necessários
obra. ticulares, que podem, ou não, aceitar uma que a polícia havia ingressado no local em nova procuração para o pedido de divórcio
(C) devem ter, apenas, alíquotas idênticas em causa. busca de documentos. Considerando a situ- e novo contrato de honorários.
função do princípio da igualdade. (D) Sim, visto que inexiste hierarquia entre pro- ação hipotética acima, assinale a opção cor- (D) Não é necessária nova procuração desde
curadores municipais concursados. reta de acordo com a Lei federal 8.906/1994 que se proponha conversão da separação
(D) podem ter alíquotas diferenciadas em função
— Estatuto da Advocacia e da OAB. em divórcio, de forma consensual.
da diversidade da base de financiamento.
(A) A inviolabilidade do escritório é sagrada, não
93. Advogados que venham a ocupar, em nível
podendo a polícia ter agido como o fez.
89. Constitui exceção ao princípio da anteriori- estadual ou municipal, cargo de presiden- 99. Assinale a opção correta em relação ao Es-
te ou de diretores no Sistema Nacional de (B) A polícia poderia ter invadido o escritório de ad- tatuto da OAB.
dade
Defesa do Consumidor (PROCON), quan- vocacia desde que o advogado estivesse sendo
(A) a instituição de contribuição para o custeio (A) Juntamente com a eleição do Conselho
to ao exercício concomitante da advocacia, investigado juntamente com seu cliente.
do serviço de iluminação pública. Seccional e da Subseção, os advogados
estão (C) A polícia poderia ter ingressado no escri- elegem diretamente o Conselho Federal da
(B) a instituição de empréstimos compulsórios tório desde que por ordem judicial expres-
(A) impedidos de advogar contra a fazenda pú- OAB.
no caso de investimento público de caráter sa em mandado de busca e apreensão e
blica, órgão que os remunera. (B) Uma subseção pode abranger um ou mais
urgente e de relevante interesse nacional. respeitados documentos e dados cobertos
(B) incompatibilizados para o exercício da ad- municípios e, ainda, partes de município.
(C) a instituição de contribuição de intervenção com tutela de sigilo profissional.
vocacia. (C) Uma seccional pode abranger um ou mais
no domínio econômico. (D) A polícia, desde que munida de ordem ju-
(C) incompatibilizados para o exercício da ad- estados da Federação.
(D) a instituição ou majoração do imposto so- dicial expressa em mandado de busca e
vocacia, podendo, entretanto, patrocinar (D) Uma Caixa de Assistência aos Advogados
bre a exportação, para o exterior, de produ- apreensão, poderia ter ingressado no escri-
os interesses do PROCON ao qual estejam não tem personalidade própria, mas o Con-
tos nacionais ou nacionalizados. tório do advogado e revistado o local sem
subordinados. selho Seccional a que ela se vincula, sim.
quaisquer restrições.
(D) impedidos de advogar contra a União, esta-
90. O ICMS, tributo pertencente aos estados e dos e municípios.
Distrito Federal, não incide sobre 98. Dr.a Cristina, advogada, recebeu procu- 100. No que se refere a honorários advocatí-
ração de sua cliente para propor ação de cios, assinale a opção correta.
(A) a alienação de mercadorias entre contri-
94. Assinale a opção correta de acordo com o separação judicial, o que foi feito, após pro- (A) No sistema de quota litis, não é possível a
buintes de estados diferentes.
Estatuto da OAB. longada fase probatória, audiências e re- cumulação desta com os honorários de su-
(B) importação de bens por particulares ou so- curso a instância superior. Após o trânsito
(A) O pagamento da anuidade da OAB não cumbência.
ciedades desvinculadas ao comércio. em julgado, com as expedições e registros
isenta os advogados de recolherem contri- (B) Inexistindo contrato escrito de honorários,
(C) prestações de serviço de comunicação nas buição sindical. de mandado de averbação competente e está implícito que o advogado receberá,
modalidades de radiodifusão sonora e de formal de partilha de bens, os autos foram
(B) A anuidade da OAB é fixada pelo conselho apenas, os honorários de sucumbência.
sons e imagens de recepção livre e gratui- arquivados. Após 15 meses, Dr.a Cristina
federal da entidade. (C) O advogado substabelecido com reserva
ta. foi procurada por essa mesma cliente, que
(C) Débito relativo à contribuição dos advoga- lhe solicitou a propositura de ação de di- pode cobrar os honorários diretamente do
(D) a prestação de serviços de transporte en-
dos para a OAB constitui título executivo vórcio, entendendo esta que a contratação cliente, sem intervenção daquele que lhe
tre contribuintes e não-contribuintes de es-
extrajudicial. anterior se estenderia também a essa cau- substabeleceu.
tados diferentes.
(D) A prescrição para pretensão de cobrança sa, apesar de nada constar na procuração (D) A ação de cobrança de honorários pres-
das contribuições é de cinco anos, a contar e no contrato de honorários, restritos à se- creve em cinco anos, a contar do trânsito
ÉTICA PROFISSIONAL E ESTATUTO da exigibilidade. paração judicial. Considerando essa situa- em julgado da decisão que o fixar, entre
91. Dr. Cláudio, advogado, compareceu com ção hipotética, assinale a opção correta de outras hipóteses previstas no Estatuto da
seu cliente para a audiência designada pelo acordo com a norma em vigor. Advocacia.
95. Considere-se que determinado advogado
juízo, a primeira do dia, no horário correto,
tenha sido representado perante uma das
às 13 h. Ficou aguardando, pacientemen-
turmas disciplinares por não ter prestado a
te, por mais de 30 min, tendo tido a notícia
um cliente seu contas de quantia recebida
de que o magistrado sequer havia chegado
ao término da causa deste. Nessa situação,
ao fórum. Nessa situação, o advogado, de
acordo com o Estatuto da Advocacia, em
após o devido processo legal, o advogado GABARITO
poderá
especial, no que se refere às prerrogativas
profissionais, teria o direito de retirar-se, (A) ser suspenso, indefinidamente, até que sa-
desde que comunicasse, tisfaça, integralmente, a dívida, inclusive,
com correção monetária.
(A) verbalmente, o responsável pelo pregão de
que iria embora com seu cliente. (B) não ser punido, desde que alegue situação
de penúria, devidamente comprovada nos
(B) verbalmente, à escrivã, na sala de audiên-
autos.
cias, que iria embora em virtude da ausên-
cia do juiz. (C) sofrer pena de censura, desde que restitua,
de pronto, ao cliente a quantia indevida-
(C) por escrito, a razão de sua retirada, entre-
mente recebida.
gando o documento, em mãos, à escrivã, na
sala de audiência. (D) ser suspenso pelo prazo máximo de 12 me-
ses, além de ter de quitar seu débito para
(D) por escrito, a razão de sua retirada, protoco-
com o cliente.
lando o documento no setor competente.

96. Assinale a opção correta quanto a publici-


92. Considere-se que João, procurador munici-
dade na advocacia.
pal, concursado, tenha recebido determina-
ção de seu superior hierárquico para adotar (A) O advogado em entrevista à imprensa pode
determinada tese jurídica da qual ele, João, mencionar seus clientes e demandas sob
discordasse por atentar contra a legislação seu patrocínio.
vigente e jurisprudência consolidada, inclu- (B) É permitida a divulgação de informações
sive, tendo João emitido sua opinião, ante- sobre as dimensões, qualidade ou estrutura
riormente, em processos e artigos doutri- do escritório de advocacia.
nários de sua lavra, sobre o mesmo tema. (C) É permitida a ampla divulgação de valores
Nessa situação, João poderia ter recusado dos serviços advocatícios.
tal determinação?
(D) É permitido o anúncio em forma de placa de

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C O N S T I T U C I O N A L

A Fiscalização das Contas Bancárias


“A proteção do sigilo bancário decorre de uma série de direitos e princípios constitucionais...”

genericamente se denomina de direito utiliza dinheiro para as diversas ope- ceiras fazer respeitar as diretrizes
à privacidade, cujos desdobramentos rações do dia a dia. constitucionais, mesmo contra atos
chegam à questão do sigilo das comu- O tema (desrespeito aos direitos normativos espúrios e inconsistentes
nicações e dos dados, da liberdade e humanos fundamentais) o (agressi- com a Constituição.
da segurança. De qualquer sorte, não vo) mecanismo criado e a forma como Haverá pouco a se comemorar
pode haver dúvidas quanto ao objeti- foi apresentado (uma interpretação nestes 20 anos da Constituição bra-
vo primordial: proteção das informa- surpreendente dos institutos) fazem sileira - apesar da notícia de que não
ções, das notícias, dos documentos, lembrar o episódio da “emenda 3” e serão apresentadas novas propostas
dos registros, enfim, dos dados de a violação à livre iniciativa (lato sensu) de emenda à Constituição – se leis,
todos os indivíduos, que tenham que a interpretação do Governo pro- decretos e portarias passarem a servir
pertinência, em sentido mais amplo, vocou também nesse último caso. para “rever” o texto constitucional.
com sua privacidade. Não é dado ao A quebra do sigilo bancário, pe-
André Ramos Tavares Estado embaraçar o espaço do cida- rante a Constituição de 1988, só pode André Ramos Tavares
dão e lhe tolher em sua privacidade, advir de decisão proferida por auto-
Professor dos Cursos de Doutorado e
um direito fundamental incontestável. ridade judicial (neutra na questão).

C
Mestrado em Direito da PUC/SP e Visiting
E se não pode fazê-lo nem mesmo por Jamais de autoridade administrativa
Research Scholar na Cardozo School of
om o fim da CPMF, como leis, o que não dizer de meros decretos com dever funcional que a torna Law – New York, é Diretor do Instituto
se sabe, o Governo Federal procura e portarias? Trata-se, aqui, de uma parcial. Jamais por meio de norma Brasileiro de Estudos Constitucionais e
implementar medidas tendentes a garantia contra o próprio Estado, que (nem mesmo por lei) de efeitos am- autor de “Constituição do Brasil Integrada
compensar sua derrota no Congres- só uma Constituição democrática po- plos, o que equivaleria a derrogar a (2. ed., Saraiva)”, “Curso de Direito
so Nacional. Nesta sua atitude bem deria sustentar nesses termos. norma constitucional que resguarda Constitucional” (5. ed., Saraiva) e “Nova Lei
se percebe um ranço antidemocrá- Contudo, consoante a Instrução o sigilo. Cabe às instituições finan- da Súmula Vinculante” (2. ed., Método).
tico, procurando superar a decisão Normativa n. 802, da Receita Federal
tomada pelos representantes da do Brasil, publicada no D.O.U. de 28
sociedade. O Governo procura um de dezembro de 2007, assinada pelo
mecanismo para contornar a indis- Senhor Secretário da Receita Fede-
ponibilidade dos dados bancários ral, Jorge Rachid, em seu art. 1º: “As
que a rejeição democrática daquele instituições financeiras (...) devem
tributo desencadearia a partir de prestar informações semestrais, na
2008. Supondo, hipoteticamente, que forma e prazos estabelecidos pela
ao tributo extinto realmente perten- Secretaria da Receita Federal do Brasil
cesse uma função legítima de quebra (RFB), relativas a cada modalidade de
do sigilo bancário para fins tributá- operação financeira de que trata o art.
rios e criminais diversos, a rejeição 3º do Decreto nº 4.489, de 2002, em
do Congresso à sua manutenção que o montante global movimentado
representa uma rejeição a todo o re- em cada semestre seja superior aos
gime que circundava o tributo. Não seguintes limites: I – para pessoas
cabe ao Executivo senão reconhecer físicas, R$ 5.000,00 (cinco mil reais); II
essa opção política, própria da al- – para pessoas jurídicas, R$ 10.000,00
çada do Legislativo. Não se trata (dez mil reais)”. E arremata, em seu
de deixar impunes determinados art. 2º que quando o montante global
crimes (como sonegação fiscal, eva- movimentado no semestre referente a
são de divisas, lavagem de dinheiro, uma modalidade de operação finan-
etc.). A questão é outra, muito mais ceira for superior aos limites acima,
grave, porque o tributo em apreço as instituições financeiras deverão
nunca teve referida função (e não revelar todas demais operações da-
poderia tê-la, efetivamente) e porque quele titular de conta ou usuário dos
ao Estado restam outros mecanismos serviços bancários.
para averiguar, investigar e punir Isso significa, na prática, uma que-
eventuais criminosos. bra generalizada do sigilo bancário,
No Brasil, a Constituição Cidadã para fins diversos, a serem definidos
garante a vida privada e a intimidade pela autoridade de plantão, o que é
de todos (art. 5º, inc. X), os dados (inc. absolutamente insustentável perante
XII), a segurança (caput), a liberdade a Constituição do Brasil. O Estado
em geral. A proteção do sigilo bancá- pretende conhecer todas movimen-
rio decorre de uma série de direitos tações bancárias realizadas pelos seus
e princípios constitucionais, sem que cidadãos, quando atingido referido
seja necessário precisar o dispositivo montante no decorrer semestre. Isso
ou remeter a uma única norma para significa conhecer praticamente todas
alcançar-se esse comando principio- atividades e hábitos do indivíduo,
lógico. Insere-se a proteção no que num mundo em que raramente se

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C A P A

Prescrição sócio-educativa“A súmula 338 do STJ”


“Tema bastante tormentoso é o reconhecimento da prescrição em relação às medidas sócio-educativas no âmbito do direito infanto-juvenil.”

Não obstante, em sessão realizada em A prescrição da pretensão punitiva, de acor- educativa mais severa é a internação, que
09/05/2007 o STJ, acolhendo a orientação do com o momento em que é reconhecida, não admite prazo determinado e não pode
esposada pelos defensores do chamado pode ainda ser abstrata, retroativa, intercorren- suplantar três anos (art. 121, § 3º, do ECA).
Direito Penal Juvenil, sumulou entendimento te ou subseqüente e antecipada. Em segundo lugar, porque qualquer que seja
diverso: Traçando um paralelo com o Direito Penal a medida considerada, ela não poderá prosse-
teríamos a prescrição da pretensão sócio-educa- guir além dos 21 (vinte e um) anos de idade
STJ tiva e a prescrição da pretensão executória das do infrator, pouco importando a gravidade
medidas sócio-educativas: do ato cometido.
Súmula nº 338 A prescrição penal é aplicá-

{
Galdino Bordallo, defendendo essa corren-
vel nas medidas sócio-educativas. te, pondera que: “Para o cálculo da prescrição

{
abstrata
Examinando os precedentes que embasa- da pretensão sócio-educativa far-se-á uso do prazo
ram a matéria sumulada, verificamos que a retroativa máximo em abstrato de duração de uma medida
da preten-
Corte Superior passou a reconhecer expres- sócio-educativa, o prazo de 3 (três) anos determi-
são sócio- intercorrente nados pelo art. 121, § 3º, ECA. Combinar-se-á
samente o caráter retributivo e repressivo
educativa ou subseqüente esta regra com as dos arts. 109, VI e 115, ambos
Eduardo R. A. Del-Campo das medidas sócio-educativas, pacificando
Prescrição do CP, encontrando-se assim, o prazo de 4 (qua-
o entendimento de que, embora não tenham
antecipada tro) anos, que será o da prescrição da pretensão
“a mesma natureza e intensidade das penas esta-
Introdução belecidas no Código Penal, pois devem ser regidas da pretensão executória das sócio-educativa” (2005, p. 101).
Tema bastante tormentoso é o reconheci- pelos princípios da brevidade, excepcionalidade e Respeitados tais parâmetros, qualquer
medidas sócio-educativas
mento da prescrição em relação às medidas observância da condição peculiar de pessoa em de- que seja o ato infracional praticado ou a
sócio-educativas no âmbito do direito in- senvolvimento (...), preservado o escopo principal medida sócio-educativa, em tese cabível, o
fanto-juvenil. das medidas sócio-educativas (pedagógico), não O gráfico a seguir mostra os momentos prazo da prescrição da pretensão sócio-edu-
Sempre sustentamos a não aplicabilidade há como negar o seu caráter repressivo (punitivo); de incidência de cada uma das possíveis cativa ocorrerá em 4 (quatro) anos, sempre
do instituto da prescrição penal em relação admiti-lo, inclusive, é útil não só aos autores de modalidades de prescrição em relação à respeitado o limite etário máximo de 21 ou
à prática infracional, primeiro por entender que atos infracionais (adolescentes), mas também às prática infracional. 18 anos, conforme o caso.
as medidas sócio-educativas têm por finali- vítimas de tais condutas ilícitas. Assim, as medi-
dades a proteção e a educação do infrator, das sócio-educativas são, tanto quanto as sanções
não sendo razoável estabelecer parâmetros penais, mecanismos de defesa social, porquanto
limitadores que não o da idade máxima, 18 permitem ao Estado delimitar a liberdade individu-
anos para as medidas em meio aberto e 21 al do adolescente infrator” (STJ - Habeas corpus
para a semiliberdade e a internação. n. 45.667 - SP (2005/0113432-3). Relator: Min.
É um verdadeiro contra-senso fixar prazo Nilson Naves).
para que o Estado exerça o dever de educar. Para o mesmo Tribunal, os infratores sub-
Nesse sentido o magistério de Guaraci Vian- metidos às disposições do Estatuto da Criança
na, para quem “o caráter predominantemente e do Adolescente não podem ser tratados
reeducador das medidas previstas na Lei 8.069/90 de forma mais severa que os adultos (impu-
faz com que o Estado tenha o dever de aplicá-las táveis) regidos pelo Código Penal, quando
para preparar a pessoa humana para uma vida praticam atos análogos, circunstância que
feliz e útil. (...) Trata-se, repita-se, de um dever aponta no sentido da aplicação analógica das
do Estado e não existe prescrição ou decadência normas penais relativas à prescrição (REsp
de um dever” (2004, pág. 343). nº 602.178/MG, Rel. Min. Laurita Vaz, DJ de
Em segundo lugar, as medidas sócio- 17/05/2004, p. 281 e REsp nº 451.136/MG,
educativas, em sua maioria, não comportam Rel. Min. Hamilton Carvalhido, dt. dec.
prazo determinado, podendo ser extintas ou 30/06/2004).
prorrogadas de acordo com as peculiarida- A questão é mais complexa do que pa-
des do caso e o desenvolvimento do próprio rece, pois embora tenha adotado a regra
Seria possível argumentar em sentido
adolescente, não havendo reprimenda con- da prescrição, a Corte Superior não lançou 3. Prescrição da pretensão sócio-edu-
contrário, alegando que alguns delitos têm
cretizada na sentença que permita cálculo balizamentos sobre a forma como o instituto cativa abstrata lapso prescricional mais curto e, por essa
prescricional. deve ser interpretado e aplicado.
Em Direito Penal, o prazo para prescrição razão, dever-se-ia adotar sempre o parâme-
Como bem lembra Bianca de Moraes e Tentaremos aqui, de forma bastante
abstrata é regulado pelo máximo da pena abs- tro penal. Entretanto, ainda que excepcio-
Helane Ramos, “a lei 8.069/90, a par de esta- breve, sugerir alguns parâmetros para a
tratamente cominada ao crime, observados nalmente, todo e qualquer ato infracional,
belecer uma série de garantias aos adolescentes aplicação da prescrição penal ao direito
os limites fixados na tabela do art. 109 do ainda que pela reiteração, pode sujeitar o
autores de ato infracional , não se descurou em infanto-juvenil
Código Penal. O cálculo leva em considera- infrator à medida sócio-educativa mais grave
lhes assegurar uma organização peculiar de 1. Prescrição e, portanto, com limite abstrato superior de
ção as qualificadoras e as causas de aumento ou
responsabilização. O fato de não se estabelecer 3 (três) anos.
Prescrição penal é a perda, por parte do diminuição de pena, excetuando-se o concurso
prazos predeterminados para as medidas sócio- Estado, do jus puniendi ou do jus punitionis formal próprio e o crime continuado (súmula
educativas em função do ato infracional praticado; em razão do decurso do tempo, o que impli-
4. Prescrição da pretensão executória
497 do STF). Não são computadas as agra-
o de permitir que a representação seja distribuída ca, como já dissemos, no reconhecimento, a
das medidas sócio educativas
vantes e atenuantes genéricas.
independentemente de prova pré-constituída da nosso ver errôneo, do caráter repressivo das Em relação à prática infracional, duas são Traçando-se um paralelo com o Direito
autoria e da materialidade; e o da previsão do ins- medidas sócio-educativas. as posições possíveis. Penal, a prescrição da pretensão executória das
tituto da remissão cumulada com a aplicação de Diversas dificuldades práticas irão defluir Para alguns autores devem ser aplicados medidas sócio-educativas, deve ser regulada pela
medida, são apenas alguns exemplos dessa opção da imprópria transposição do instituto, a aos atos infracionais os mesmos prazos medida efetivamente aplicada (art. 110, caput, do
legislativa. Destarte (...) o sistema estatutário não maior delas relacionada com o cálculo dos fixados na Lei Penal, reduzidos da metade CP), considerados os prazos fixados no artigo
precisa se socorrer da previsão normativa penal. prazos prescricionais. em razão da menoridade do agente (art. 115, 109 do Código Penal, calculados pela metade
O aspecto a ser contabilizado é, exclusivamente, A lei penal reconhece, basicamente, primeira parte, do CP). em razão da menoridade (art. 115 do CP)
o relativo ao desenvolvimento biológico do jovem, duas espécies de prescrição: a prescrição da Uma segunda posição, que adotamos, pre- Para verificar o prazo de prescrição da
porque esta foi a determinação legal ao impor pretensão punitiva, que atinge o jus puniendi e fere não utilizar como parâmetro as penas pretensão executória das medidas aplicadas
sua liberação aos vinte e um anos de idade” (in a prescrição da pretensão executória, que afasta previstas aos diversos delitos pela legislação é necessário analisar cada uma delas sepa-
maCiel, 2007, P. 841). o jus punitionis. penal. Primeiro, porque a medida sócio- radamente.

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O art. 112 do ECA indica 7 (sete) espécies princípios da excepcionalidade, da brevidade ao tempo em que o processo fica parado nos No que toca às causas de suspensão da
de medidas sócio-educativas. Excluindo as e do respeito à condição peculiar da pessoa em Tribunais. prescrição (art. 116 do CP) parece razoável
protetivas (art. 112, VII, do CA) que, pela sua desenvolvimento. Assim como foi considerado para a prescri- admitir que a prescrição da pretensão sócio-
natureza, não admitem sujeição à prescrição, Não se argumente, também, que o ra- ção retroativa, os prazos para cálculo da pres- educativa não corre enquanto não resolvida,
as demais podem ser agrupadas em quatro ciocínio deveria ser idêntico àquele empre- crição intercorrente sócio-educativa variam de em outro processo, questão prejudicial, da
categorias: gado para o cálculo do prazo prescricional acordo com a medida considerada e são iguais qual dependa o reconhecimento da existên-
da liberdade assistida. É que a medida de aos da prescrição da pretensão executória. cia do ato infracional.
a) advertência, que ainda não encontra
acompanhamento tem um tempo mínimo Da mesma forma, de se entender que a
similar no Direito Penal; 7. Prescrição antecipada da pretensão
fixado na sentença, que apenas excepcio- prescrição da pretensão executória não corre
b) obrigação de reparar o dano, de natureza nalmente será prorrogado. Não se trata de
sócio-educativa enquanto o adolescente estiver cumprindo
análoga à das penas pecuniárias; reavaliação, mas de um tempo preciso que Questão bastante polêmica, mesmo na outra medida que não possa ser executada
pode ser utilizado como base para o cálculo esfera penal, é a possibilidade do reconheci- simultaneamente.
c) prestação de serviços à comunidade e prescricional. mento antecipado da prescrição da preensão Questão mais tormentosa, entretanto, diz
liberdade assistida, que têm caráter se- As medidas de contenção, por outro lado, punitiva com base em suposta pena a ser respeito a como calcular o prazo prescricional
melhante ao das penas restritivas de não comportam qualquer prazo fixo, além do aplicada ao crime. em face da interrupção do cumprimento de
direitos; e máximo de 3 (três) anos, mas apenas reava- Conhecida por inúmeras designações medida sócio-educativa, como, por exemplo,
liações com periodicidade não superior a 6 como prescrição antecipada, em perspectiva, pre- fuga da unidade de internação ou abandono
d) semiliberdade e internação, que apre- (seis) meses. Aliás, o Juiz pode, e em alguns calculada, prognose prescricional, ou prescrição da prestação de serviço.
sentam algum grau de privação de casos deve, fixar prazos menores, como virtual, nada mais é que o reconhecimento A medida de advertência não comporta
liberdade. reavaliações trimestrais ou bimestrais, por da prescrição retroativa antes mesmo do interrupção. É ou não é aplicada.
exemplo. oferecimento da denúncia. A reparação do dano e a prestação de serviços
A advertência não admite parâmetro
A reavaliação tem natureza jurídica Os defensores do instituto argumentam à comunidade, como já têm seus prazos calcu-
temporal. Por esta razão, deve ser aplicado
similar à da progressão ou do livramento com o princípio da economia processual e com lados pelo patamar mínimo, uma vez inter-
o menor prazo previsto na legislação penal,
condicional, benefícios que podem alterar o a inutilidade de se movimentar a máquina do rompidas, restará ao Estado apenas 1 (um)
reduzido pela metade em decorrência da
regime ou diminuir a pena, respectivamente, Poder Judiciário por algo que, em princípio, já ano para fazer retomar seu cumprimento.
menoridade (art. 109, VI, cc. art. 115 do CP),
mas não influem no cálculo da prescrição da se sabe não produzirá efeito algum. Para a liberdade assistida é preciso deduzir
ou seja, 1 (um) ano.
pretensão punitiva. Em tese, nada impede que o mesmo o tempo efetivamente cumprido do prazo
A obrigação de reparar o dano tem cunho
Por essas razões adotamos o enten- raciocínio seja aplicado para as medidas mínimo fixado na sentença, observando-se
eminentemente patrimonial (embora nem
dimento de que o cálculo da prescrição sócio-educativas. a tabela do art. 109 do Código Penal e a
sempre se traduza por compensação eco-
retroativa das medidas que importam em Percebendo o Promotor de Justiça que, redução pela menoridade.
nômica). Pode, assim, ser comparada com a
privação de liberdade deve basear-se nos mesmo obtendo a procedência da ação Finalmente, em relação à semiliberdade e à
multa penal, prescrevendo em 1 ano quando
mesmos parâmetros da prescrição abstrata, sócio-educativa a medida eventualmente internação, deve-se deduzir o tempo efetiva-
aplicada isoladamente (art. 114 cc. Art. 115
ou seja, 4 (quatro) anos (art. 109, IV, cc. art. aplicada será fatalmente fulminada pela mente cumprido do máximo permitido pelo
do CP):
115 do CP). prescrição retroativa, poderá requerer o ECA, ou seja, 3 (três) anos, observando-se, da
Para as penas restritivas de direito, o Códi-
Como toda colocação em regime de arquivamento do Boletim de Ocorrência, mesma forma, a tabela do art. 109 do Código
go Penal estabelece os mesmos prazos pre-
semiliberdade ou de internação pode, em do auto de apreensão ou das peças de in- Penal e a redução pela menoridade.
cricionais previstos para as penas privativas
tese, atingir 3 (três) anos, é sempre com formação com base na falta de justa causa Como se vê, o reconhecimento do instituto
de liberdade (art. 109, parágrafo único, do
fulcro neste parâmetro que o cálculo deve para a ação. da prescrição para as medidas sócio-educati-
CP), raciocínio que pode ser transportado
para a prestação de serviços à comunidade e ser baseado. 8. Considerações finais vas, tal como acenado pelo Superior Tribunal
liberdade assistida. A única exceção, fica por conta da cha- de Justiça, é tema bastante complexo e con-
O quadro abaixo resume nosso entendi-
A prestação de serviços à comunidade é sempre mada internação sanção (art. 122, III e § 1º, do trovertido, que ainda produzirá pungentes
mento sobre as diversas formas de prescrição
aplicada por prazo certo, não excedente a 6 ECA), cujo prazo não pode ser superior a 3 debates doutrinários.
em relação às medidas sócio-educativas:
(seis) meses (art. 117, caput, do ECA), prescre- (três) meses. Para esta hipótese, a prescrição Muitas questões, como as exceções cons-
vendo no prazo de 1 (um) ano. será de 1 (um) ano. titucionais de imprescritibilidade, ainda
Prescrição
permanecem obscuras e passíveis de inter-
A liberdade assistida tem prazo mínimo 5. Prescrição retroativa da pretensão Da pretensão sócio Da pretação pela jurisprudência.
fixado na sentença, não inferior a 6 (seis) sócio-educativa educativa pre-
meses, podendo ser prorrogada revogada ou A chamada prescrição retroativa da pretensão Re- Inter- An- tensão
substituída por outra medida (art. 118, § 2º, sócio-educativa ou simplesmente prescrição Abs-
troa- cor- teci- execu-
Bibliografia
do ECA). Havendo prazo mínimo fixado na retroativa nada mais é que o reexame dos trata
tiva rente pada tória Bordallo, Galdino Augusto Coelho. A
sentença, em relação a ele deve ser calculado períodos prescricionais levando-se em conta
o lapso prescricional. Adver- 4 1 1 Prescrição da Pretensão Socioeducativa.
a medida sócio-educativa efetivamente imposta 1 ano 1 ano
Fixada, por exemplo, a liberdade assistida tência anos ano ano Revista do Ministério Público do Rio de
na sentença, após o trânsito em julgado para Janeiro. Rio de Janeiro: Ministério Público,
por 6 (seis) meses, prescreverá em 1(um) ano o Ministério Público, observado os prazos Repara-
(art. 109, VI, cc. art. 115 do CP). Fixada em 1
4 1 1 n. 22, jul/dez 2005, págs. 81 a 103.
do art. 109 do CP e a redução pena meno- ção do 1 ano 1 ano
anos ano ano
(um) ano, a prescrição ocorrerá em 2 (dois) ridade (art. 115 do CP). A base legal para dano Del-Campo, Eduardo R. A. & Oliveira,
anos (art. 109, V, cc. art. 115 do CP) e assim sua aplicação está no art. 110, §§ 1º e 2º, do Presta- Thales Cezar. Estatuto da Criança e do
por diante. 4 1 1 Adolescente. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2007
Código Penal: ção de 1 ano 1 ano
No que toca, finalmente, à semiliberdade anos ano ano (Série leituras jurídicas: provas e concur-
Os prazos para cálculo dos períodos pres- serviços
e à internação, que não comportam tempo sos; v. 28).
cricionais variam de acordo com a medida- Liber-
determinado, existem basicamente duas sócio educativa considerada e são iguais aos 4 1a4 1a4 1a4 1a4 Damásio E. de Jesus. Prescrição Penal. 12
dade
correntes. anos anos anos anos anos ed. São Paulo: Saraiva, 1998.
da prescrição da pretensão executória (vide assistida
A primeira, com a qual não concordamos, e tópico anterior).
de que é partidário Galdino Bordallo, entende Semili- 4 4 4 4 Maciel, Kátia Regina Ferreira Lobo Andra-
4 anos
que o prazo da prescrição da pretensão exe- 6. Prescrição intercorrente da pretensão berdade anos anos anos anos de (coordenadora). Curso de direito da criança
sócio-educativa e do adolescente – Aspectos teóricos e práticos. 2
cutória das medidas sócio-educativas deve ter Interna- 4 4 4 4
4 anos ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2007.
por base o período máximo de reavaliação, De acordo com o § 1º do art. 110 do Código ção anos anos anos anos
que é de 6 (seis) meses: “A pretensão executória Penal, uma vez fixada a pena privativa de li- Inter- Saraiva, João Batista Costa. Compêndio
será calculada levando-se em conta o prazo máximo berdade e não havendo recurso da acusação, 1 de Direito Penal Juvenil – Adolescente e ato
nação – – – –
de reavaliação da medida, que é de 6 (seis) meses, o prazo de prescrição passa a ser estabelecido ano infracional. 3 ed. Porto Alegre: Livraria do
sanção
determinado pelos arts. 118, § 2º, ambos do ECA. pela pena aplicada, já que não poderá haver Advogado, 2006.
Medidas
Esta regra, será combinada com os arts. 109, VI decisão mais desfavorável ao réu. Aplica-se apenas a prescrição Vianna, Guaraci. Direito Infanto-Juvenil
proteti-
e 115 do CP e encontraremos o prazo de 1 (um) A partir da data da publicação da sentença, etária (art. 2º do ECA) – Teoria, prática e aspectos multidisciplinares.
vas
ano. Se o Estado não iniciar a execução da medida começa a correr o prazo da prescrição inter- Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2004.
sócio-educativa aplicada na sentença neste prazo, corrente, que somente não será concretizado
Dentre as causas interruptivas da prescri-
prescreverá o seu direito” (op. cit., p. 101). se houver trânsito em julgado para a defesa
antes de seu termo, ou seja, se antes de ser
ção (art. 117 do CP), podem ser aplicadas, por Eduardo R. Alcântara Del-Campo
Em que pese à respeitável posição do
analogia, em relação à prática infracional:
renomado autor, a periodicidade da rea- julgado o recurso da defesa não houver de-
a) o recebimento da representação; Promotor de Justiça da Infância e Juventude.
valiação não pode servir de base para o corrido o prazo da prescrição calculada com
Professor Universitário e em Cursos
cálculo prescricional porque não implica base na pena aplicada. b) a sentença de procedência recorrível; Preparatórios e autor de diversas obras,
necessariamente no término da medida. É Ao contrário da prescrição retroativa, a
prescrição intercorrente apresenta um juízo de c) e o início ou continuação do cumpri- destacando-se Estatuto da Criança e do
apenas um mecanismo idealizado pelo legis-
lador para garantir o caráter pragmático dos análise temporal para o futuro, em relação mento da medida sócio-educativa. Adolescente, pela Editora Atlas.

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C A D E R N O D E L I V R O S

Novos Rumos do Direito Ambiental Conteúdos e efeitos das decisões judiciais (Coleção
Nas Áreas Civil e Penal Atlas de Processo Civil)
Coordenador: Geraldo Ferreira Lanfredi Autor: Junior Alexandre Moreira Pinto
Millennium Editora - 1ª Edição - 306 páginas - R$ 59,00 Editora Atlas - 1ª Edição - 240 páginas - R$ 48,00
Os diplomas legais, que disciplinam e protegem o meio ambiente, O estudo dos conteúdos das decisões judiciais é um dos focos deste
colocam o Brasil na posição de vanguarda em matéria de legislação livro, que faz uma análise de cada elemento do decisum, à luz da crise
ambiental: a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei n. 6.938/81), surgida no âmbito do direito material. Nessa linha, foram definidas
seguida da Lei da Ação Civil Pública (Lei n. 7.347/85) e completada as características das tutelas meramente declaratórias, constitutivas e
pela Lei n. 9.605/98 sobre crimes ambientais. condenatórias. Objeto de crítica decorreu da denominada classificação
quinária dos provimentos cognitivos. Não trazem essas hipóteses
qualquer natureza diversa do tradicional conteúdo condenatório.

O Tribunal de Contas no Ordenamento Jurídico Justiça, direito e processo: A Argumentação e o


Brasileiro Direito Processual de Resultados Justos
Autor: Hamilton Fernando Castardo Autor: Samuel Meira Brasil Júnior
Millennium Editora - 1ª Edição - 176 páginas - R$ 34,00 Editora Atlas - 1ª Edição - 176 páginas - R$ 39,00
O Tribunal de Contas com características de fiscalizar, por ser deline- Este livro aumenta as possibilidades de aproveitamento dos atos proc-
ado na Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, com essuais, utilizando a razoabilidade (proporcionalidade) e ponderação
autonomia e independência, com garantias e vedações análogas aos de valores para ampliar as hipóteses de sanação das nulidades, sem,
membros do Poder Judiciário, reveste-se com características de um contudo, permitir o arbítrio dos juízes.
‘’Quarto Poder’’.

Direito Penal ISS: Doutrina e Prática


Fundamentos e Teoria do Delito Autor: Kiyoshi Harada
Autor: Santiago Mir Puig Editora Atlas - 1ª Edição - 210 páginas - R$ 41,00
Revista dos Tribunais - 1ª Edição - 444 páginas - R$ 78,00 Esta obra, dividida em três capítulos, promove o estudo do imposto
Ao tornar mais acessível essa obra de Direito Penal da língua espan- sobre serviços de qualquer natureza, à luz da moderna doutrina e da ju-
hola, rica em detalhes e posicionamentos críticos, tem-se por objetivo risprudência atualizada. Os textos são escritos de forma clara e objetiva,
a divulgação no País dos ensinamentos do seu autor e a promoção do procurando dar maior ênfase ao pragmatismo e menor importância à
desenvolvimento e da pesquisa no campo do direito comparado. erudição. Isso tornou possível exaurir o estudo do ISS em um pequeno
volume, convencido de que, nos dias atuais, os operadores do direito
não se dispõem a debruçar sobre tratados de direito.

Proteção Processual da Posse Direito societário - série gvlaw - sociedades


Autor: Cláudia Aparecida Cimardi anônimas
Revista dos Tribunais - 2ª Edição - 348 páginas - R$ 63,00 Autor: José Marcelo Martins Proença, Maria Eugênia Reis Finkelstein
Tema dos mais importantes desde o Direito Romano, a posse não Editora Saraiva - 1ª Edição - 342 páginas - R$ 61,00
perdeu sua atualidade como fenômeno social e instituto jurídico, pois A série GVLAW se insere no projeto de produção de pesquisa adotado
os problemas possessórios continuam a ocorrer concretamente na pelo programa de especialização e educação continuada da Direito GV.
sociedade atual, mas escassa é a bibliografia pertinente. O presente título cuida das sociedades anônimas e é coordenado por
Maria Eugênia Reis Finkelstein e José Marcelo Martins Proença.

Manual de Direito Publico e Privado Contratos empresariais - série gvlaw - fundamentos


Autores: Édis Milaré e Maximilianus Cláudio Américo Fuhrer e princípios dos contratos empresariais
Revista dos Tribunais - 16ª Edição - 398 páginas - R$ 74,00 Autor: Wanderley Fernandes
Com a experiência de longos anos na exposição da disciplina, os autores Editora Saraiva - 1ª Edição - 480 páginas - R$ 71,00
conseguiram condensar a vasta e complexa matéria em um manual A partir do conteúdo das aulas dos cursos, busca-se a construção de
prático, fácil e objetivo. Apresentam em linguagem acessível e clara conhecimento que seja adequado a estudantes, advogados e demais
todos os conceitos e noções imprescindíveis ao entendimento do Direito. profissionais interessados, os quais têm sua atuação pautada pelas
novas demandas do mercado de trabalho globalizado. O presente título
cuida dos fundamentos e princípios dos contratos e é coordenado por
Wanderley Fernandes.

Código Tributário Nacional Comentado Jurisdição e Competência


Coordenador: Vladimir Passos de Freitas Autor: Athos Gusmão Carneiro
Revista dos Tribunais - 4ª Edição - 1088 páginas - R$ 198,00 Editora Saraiva - 15ª Edição - 408 páginas - R$ 89,00
Nesta edição deu-se ênfase às questões polêmicas na aplicação da Elaborada por especialista na matéria, esta obra parte do conceito de
norma complementar tributária suscitadas em especial pelas novidades jurisdição e examina a distinção entre ato jurisdicional e ato adminis-
legislativas da década. Cuidou-se também de registrar a pacificação trativo, as classificações da jurisdição, o contencioso administrativo, a
das controvérsias apresentadas nas edições anteriores e o entendimen- jurisdição voluntária, os limites da jurisdição civil e os substitutivos da
to consolidado em torno dessas matérias. jurisdição.

Comentários à Lei de Recuperação de Empresas e Curso Sistematizado de Direito Processual Civil -


Falências - Lei 11.101/2005 - Artigo por artigo Vol. 1 - Teoria Geral do Direito Processual Civil
Coordenadores: Antonio Sérgio A. de Moraes Pitombo e Francisco S. de Souza Jr Autor: Cassios Carpinella Bueno
Revista dos Tribunais - 2ª Edição - 704 páginas - R$ 114,00 Editora Saraiva - 1ª Edição - 576 páginas - R$ 78,00
Nomes exponenciais do Direito Comercial se uniram neste único Este é o volume inaugural de uma coleção que propõe a construção do
volume para comentar, em linguagem direta e acessível, a Lei direito processual civil. O objeto de estudo não se limita ao processo,
11.101/2005, artigo por artigo, bem como a evolução legislativa que mas também se amplia na ótica do direito processual como um sistema
afetou pontos desta Lei. harmônico de regras e princípios previstos na Constituição Federal, na
legislação infraconstitucional e nos atos infralegais. O volume 1 dedica-
se a suprir a falta de uma “parte geral” no CPC.

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O Consentimento Livre e Esclarecido na Cirurgia DEONTOLOGIA JURÍDICA – Ética das Profissões
Plástica Jurídicas
Autor: Patricia Panisa Autor: Elcias Ferreira da Costa
RCS Editora – 1ª Edição – 214 páginas – R$ 28,00 Editora Forense - 2ª edição – 388 páginas – 75,00
No Brasil, que só perde em números de cirurgia plásticas para os Estados Um livro sobre deontologia jurídica é sempre oportuno, sobretudo
Unidos, as relações éticas e jurídicas de responsabilidade civil e médica no quando direcionado para os futuros profissionais do Direito, que ainda
campo da estética estão tomando um novo rumo. Em sua tese, a advogada estão batalhando nas universidades pela conquista do grau de bachare-
cita casos famosos que fizeram para se transformar, como o cantor Michael lado. Nesta categoria está o livro “DEONTOLOGIA JURÍDICA –- Ética
Jackson, vítima de um desvio de personalidade, cujo tratamento cirúrgico das Profissões Jurídicas”, do professor Elcias Ferreira da Costa, com
e estético o deixou desfigurado, e o da atriz e cantora Cher, que, segundo mais uma nova edição, revista e aumentada.
consta, chegou a reparar a raspar o osso da face em busca de juventude.

Como Postular nos Juizados Especiais Federais Lições de Argumentação Jurídica – Da Teoria à
Cíveis Prática
Autor: Marcelo da Fonseca Guerreiro Organizadora: Néli Luiza Cavalieri Fetzner
Editora Impetus – 1ª edição – 321 páginas – 59,00 Editora Forense - 1ª edição – 170 páginas – 49,00
Além de abordar toda a doutrina necessária e juntar a jurisprudência Esta obra destina-se a todos aqueles que desejam, por meio da argu-
que cabia, o Dr. Marcelo da Fonseca Guerreiro deu à obra um conteúdo mentação jurídica, alcançar a adesão do auditório à sua tese. Para tal,
eminentemente prático. Ao optar por indicar o modo de postulação nos é importante que se compreenda em que contexto espacial e temporal
Juizados Especiais, logrou o autor atender não só à necessidade dos identificou-se a necessidade de uma Teoria da Argumentação.
magistrados e servidores, mas também de todos aqueles que militam nos
juizados especiais. A obra é de uma clareza ímpar e praticidade, sendo
excelente para estudantes, operadores e quaisquer interessados no tema.

Manual de Execução Civil Direito Internacional Privado


Autor: Amilcar de Castro
Autor: Walter Vechiato Júnior
Editora Forense - 6ª edição – 564 páginas – 126,00
Juarez de Oliveira - 1ª edição – 464 páginas – 69,00
Esta edição significa o renovar da esperança de que o “Direito Inter-
A sociedade capitalista transpira obrigações de fazer, não fazer, entrega
nacional Privado”, verdadeiro clássico, revelador do pensamento e
de bem e pagar quantia em dinheiro, cuja satisfação pode ser voluntária
das qualidades do Professor Amilcar de Castro, continue a exercer seu
e forçada. A satisfação voluntária resolve o negócio jurídico. A satisfação
papel nos bancos acadêmicos e no meio jurídico em geral.
forçada determina ao credor a busca de apoio perante o Poder Judiciário;
demonstrada a obrigação certa, líquida e exigível, com revestimento de
título executivo extrajudicial ou judicial, a respectiva cobrança se efetiva
via execução autônoma ou cumprimento da sentença.

Justiça Itinerante Lições preliminares de direito processual civil -


Autor: Marco Antonio Azkoul processo de conhecimento
Juarez de Oliveira - 1ª edição – 192 páginas – 28,50 Autor: Fernando Jacques Onofrio
Justiça Itinerante no seu sentido formal, objeto central desta tese, permite Editora Forense - 1ª edição – 210 páginas – 52,00
que o magistrado se desloque até o local da demanda para proferir a sen- Dedicada especialmente aos iniciantes no estudo do Processo Civil,
tença ou acórdão, fora do fórum ou tribunal. Este trabalho foi inspirado e o autor escreve, de maneira fácil e compreensível, sobre os temas
criado também pelo autor que é Delegado de Polícia Itinerante. processuais. Sempre que possível, visando o sentido didático da obra
sem descuidar do aprofundamento doutrinário. O autor exemplifica os
institutos estudados com farta jurisprudência dos nossos tribunais.

Direito Eleitoral Tratado de direito falimentar


Autor: José Jairo Gomes Autor: Frederico A. Monte Simionato
Del Rey - 1ª edição – 496 páginas – 69,90 Editora Forense - 1ª edição – 680 páginas – 169,00
A obra trata do Direito Eleitoral. Essencial à concretização do regime O principal objetivo desse livro é fornecer uma introdução exaustiva
democrático de direito desenhado na Lei Fundamental, da sobera- aos temas da recuperação judicial das empresas em crise econômica
nia popular, da cidadania e dos direitos políticos, por esse ramo do e das falências. Na primeira parte do livro é analisada a disciplina da
direito passam toda a organização e o desenvolvimento do certame recuperação judicial, seus princípios, estruturas e objetivos. Na segunda
eleitoral, desde o alistamento e a formação do corpo de eleitores até a parte cabe estudar o regramento jurídico das falências, levando em
proclamação dos resultados e a diplomação dos eleitos consideração uma interpretação histórica e evolutiva dos institutos de
direito falimentar clássico.

Manual das Ações Constitucionais Direito Constitucional


Autor: Gregório Assagra de Almeida Autor: Geovany Cardoso Jeveaux
Del Rey - - 1ª edição – 952 páginas – 138,00 Editora Forense - 1ª edição – 398 páginas – 79,00
A obra é objetiva e está dividida em cinco títulos, sem perder a dimen- No presente livro, o leitor encontrará, na Parte I, os elementos históricos
são científica: Ação Civil Pública e suas modalidades, Ação Popular, que deram origem à chamada teoria constitucional, com base em três
Mandado de Segurança individual e coletivo, Mandado de injunção marcos, desde o seu surgimento até os dias atuais: os direitos funda-
individual e coletivo, e Controle da Constitucionalidade. Tem como mentais, o Poder Constituinte e o controle de constitucionalidade.
finalidade não somente dar informações ao leitor, mas também con-
tribuir para uma análise crítica em relação aos temas tratados.

Direito das Sucessões Direito civil constitucional brasileiro


Coordenadores: Giselda Maria F. N. Hironaka, Rodrigo da Cunha Pereira Autor: Nelson Nery Costa
Del Rey - 2ª edição – 512 páginas – 77,00 Editora Forense - 1ª edição – 300 páginas – 79,00
O livro reúne textos de importantes juristas da área do Direito das A obra “Direito Civil Constitucional Brasileiro”, do ilustre e renomado
Sucessões, levantandotemas de grande interesse da comunidade Professor Nelson Nery Costa, é o resultado da nova realidade do direito
jurídica. A obra supre uma lacuna, já que os assuntos relacionados no século XXI. Não tem mais validade a polaridade entre direito priva-
à sucessão causa mortis têm levantado dúvidas entre os operadores do e direito público, pois este passa a dispor sobre quase tudo, inclusive
do direito, principalmente em função das importantes alterações in- as relações de família, espaço maior da individualidade.
troduzidas no ordenamento jurídico pelo Código Civil de 2002.

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I M O B I L I Á R I O

O envidraçamento das varandas nos condomínios edilícios


“O crescimento dos empreendimentos imobiliários com sacadas fomentou um assunto extremamente polêmico e delicado”

e na jurisprudência, que o envidra- uma corrente minoritária, mais agir com prudência, consultando
çamento das varandas, desde que formalista, que entende ser o en- um engenheiro nesta área, a fim
autorizado em assembléia, com pa- vidraçamento de varanda, caso de de que o mesmo verifique a planta
dronização estética e estudo técnico, alteração de fachada. Entretanto, e faça cálculo para levantamento
não configura alteração de fachada. a matéria transborda a questão do coeficiente de aproveitamento
Nesse sentido: da alteração da fachada, que não do terreno bem como da taxa
de ocupação, de
Condomínio - Fato
acordo com zo-
que não importa em
alteração da forma neamento, pois,
externa da fachada -
"Não tenho dúvida em afi rmar, com base nas normalmente, se
inexistência de viola- tendências de mercado e na jurisprudência, constrói 100% do
Márcio Rachkorsky ção da lei ou da con- permitido o que
venção condominial que o envidraçamento das varandas, impediria qual-
- ação cominatória quer aumento de

O s novos empreendimentos
imobiliários, em sua esmagadora
improcedente - inte-
ligência do art. 628
do Código Civil.
desde que autorizado em assembléia, com
padronização estética e estudo técnico, não
área construída;
Por isto a impor-
tância desta análi-
maioria, contemplam apartamentos
O simples envidra- configura alteração de fachada." se antes da assem-
com sacadas. Há quem as chame
çamento de um terraço bléia, posto que se
de varanda ou terraço. Especial-
não implica em altera- houver aumento
mente nos grandes centros, morar
ção da forma externa da de área e esta for
num imóvel com ampla varanda
fachada que não obstante o acréscimo é o único ponto de discussão a ser além do permitido, de acordo com
é sinônimo de qualidade de vida.
decorrente dessa obra, se a conserva analisado. Há duas legislações cada zoneamento da cidade, será
As incorporadoras aproveitam a
imutável em suas linhas arquitetôni- específicas para ao caso, além criado um problema seríssimo para
febre das sacadas e lançam empre-
cas. Nº 51.149 - Capital - 4º Câmara da convenção condominial, quais o condomínio. Neste caso, talvez
endimentos com churrasqueiras,
Civil do TASP - Votação Unânime sejam: uma que norteia o universo somente através de uma anistia e
fornos de pizza, pias e floreiras nas
O Supremo Tribunal Federal (Re- condominial que era a Lei 4.591/64, com pagamento de outorga onero-
varandas, que muito alavancam
vista Forense 128/458) entendeu que atualmente, regulado pelo Novo sa, que de acordo com a prefeitura
as vendas. Projetos arquitetônicos
“não constituindo o envidraçamento Código Civil, e outra que é a Lei se traduz da seguinte forma: É a
arrojados integram as sacadas com
das varandas inovação da forma exte- de Postura Municipal, que, apesar contrapartida financeira cobrada
as salas dos apartamentos, criando
rior do edifício, basta, para estabelecer de dispor sobre toda e qualquer do proprietário da edificação pelo
ambientes fantásticos.
o seu modelo, a decisão da maioria obra no município, é alvo sempre excesso de área construída que
O crescimento dos empreendi-
dos condôminos” de esquecimento nas ações desta ultrapassar o coeficiente de apro-
mentos imobiliários com sacadas
Recentemente, a Dra. Dinamara natureza. Isto porque, o envidra- veitamento na zona em que estiver
fomentou um assunto extremamente
Silva Fernandes, autoridade em di- çamento da varanda, não pode ser localizado, é que se pode tentar
polêmico e delicado, objeto de incan-
reito imobiliário, membro do Comitê visto somente sob o prisma da des- regularizar uma situação desta
sáveis discussões nas assembléias
Jurídico da AABIC (Associação das caracterização da fachada, já que natureza. Por fim, ultrapassadas
de condomínio, qual seja: O ENVI-
Administradoras de Bens, Imóveis e este pode ser ultrapassado através todas estas etapas, há ainda pro-
DRAÇAMENTO DAS VARANDAS
Condomínios de São Paulo), nos pre- de consenso geral entre os con- vidências a serem tomadas junto
CONFIGURA ALTERAÇÃO DE
senteou com brilhante parecer sobre dôminos, em regular assembléia; ao Cartório de Registro de Imóveis
FACHADA?
o tema, mostrando que a questão não O que é esquecido dentro de um
Diante de convenções de con- competente, em razão de toda esta
é meramente estética e merece grande condomínio, é que a varanda, nor-
domínio completamente omissas alteração. Por isto a importância
atenção, senão vejamos: malmente, não é computada como
sobre o tema e posturas municipais da prudência e prevenção quando
obscuras, os advogados ficam em “Há muito se questiona se o en- área construída; Este é o ponto de se pensar em envidraçamento/fe-
maus lençóis nas assembléias, quan- vidraçamento de varandas altera conflito, que gera irregularidade chamento de varanda.”
do questionados a opinar sobre o a fachada do edifício ou não. e traz graves transtornos ao con-
assunto. Há moradores que, sem domínio, já que o seu fechamento, Márcio Rachkorsky
Atualmente a jurisprudência, em
qualquer autorização da assembléia sua maioria, tem abrandado o ri- gera acréscimo de área e torna o Advogado, especialista pelo Centro de
geral ou do síndico, resolvem en- gorismo quanto a este tipo de obra, “habite-se” irregular, sendo que Extensão Universitária, membro da Comissão
vidraçar suas varandas, causando decidindo que o envidraçamento de a multa prevista na legislação de Direito Imobiliário e Urbanístico da
graves transtornos ao condomínio, municipal é sobre o total da área OAB-SP, membro da equipe “Chame
varandas, se respeitado o conjunto
o Síndico” do Fantástico - Rede Globo,
que precisa até se socorrer de ação arquitetônico e que tenham caixi- construída e não somente sobre a
membro do Comitê Jurídico da AABIC,
demolitória. lhos de mesmo padrão e, ainda, que parte irregular. Assim, antes de articulista do Jornal do Síndico e da Revista
Não tenho dúvida em afirmar, sejam transparentes, não altera a se levar esta discussão, para uma Em Condomínios, consultor do Portal do
com base nas tendências de mercado fachada. No entanto, ainda existe assembléia, o condomínio deverá Síndico, palestrante e conferencista.

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T R I B U T Á R I O

As Vexatae quaestiones da dissolução irregular


“Há de se inquirir, de início, o que é dissolução irregular, que não se confunde com a desativação e nem com a continuidade formal.”

Para melhor compreensão de como formalmente, para e até se ultimarem que, entre os elencados no art. 135 do
desaparece a sociedade empresária as negociações pendentes, mas se obri- CTN, incluem-se até os empregados
convém lembrar como surge. gava a que ultimasse as negociações cujos atos não implicam na dissolução
A atividade empresária, mesmo pendentes – deve continuar a sociedade e sim na desativação da empresa
quando não formali-
zada, não é estranha
ao direito positivado
brasileiro. Sociedade “Se não houve dissolução irregular da empresa e se
irregular ou sociedade
de fato, nem por lhe redireciona cobrança, nenhuma lei estará sendo aplicada,
faltar o cumprimento nenhuma jurisprudência estará sendo seguida, pela
das exigências legais
Mário Antonio Sussmann de registro, escapam simples inexistência do fato atribuído.”
ao plano da existência,

A Constituição muitas vezes


assume princípios gerais de direito
produzindo efeitos
face a particulares e ao
setor público.
e garantias individuais em estado O artigo 987 do Código Civil admi- – para então se dar baixa no registro. O caput do artigo 135 do CTN, se
latente que as leis infraconstitucionais te que terceiros provem a existência Imagine-se a hipótese de que a pretendesse o “redirecionamento por
fazem patentes. da sociedade irregular de qualquer empresa que se desativasse fosse automatismo”, seria formulado com
O artigo 5º, XLV, da Constituição, modo. vinculadamente dissolvida e esti- redação de onde se extraísse a norma:
dispõe que a pena não passará da A existência de fato da sociedade em- vesse como exeqüente em algum “quando a pessoa jurídica não quitar
pessoa do condenado e o dever de presária, ou seja, que está em atividade processo. Eliminada – morta civil- o tributo devido, são pessoalmente
reparar poder-se-á realizar até o limite econômica, independente de registro, mente – o devedor escaparia pela responsáveis”, seguindo-se lista, com
do patrimônio transferido. implica na dicotomia atividade e cons- falta de credor. “benefício de ordem” ou não. Há de
O Código Penal, em vários de seus tituição. Para liquidar as negociações pen- se recordar a parêmia Jura scripta
artigos, prevê alguma forma privativa Em sentido inverso, que confirma dentes não se requer o mesmo en- vigilantibus: as leis foram escritas por
de liberdade “e”/”ou” multa. No direi- a dicotomia, a sociedade empresária dereço, mas que a representação aqueles que não são negligentes.
to tributário sancionatório encontram- pode formalizar-se, constituir-se em da empresa seja conhecida. Através A individualização, contida na
se multas que podem ser entendidas registro, sem ainda iniciar as suas desta condição – ser localizável – tam- Constituição, vista ao reverso, é a
como penas desde que o responsabi- atividades. bém se estabelece o primeiro critério segurança de que nenhum estranho
lizado seja pessoa física em razão de Em conseqüência, na sua extinção, aceitável para caracterizar a dissolu- ao fato sofrerá pena, por conseguinte
sua conduta, posto que só ela é sujeita também há dois momentos: o da para- ção irregular. Se a empresa e nem os afirmação da cidadania, de liberda-
à individualização nos termos consti- lisação das suas atividades e o da sua sócios são localizáveis, então não há de, que não pode ser afastada pela
tucionalmente previstos. desformalização (ou baixa de registro) como resolver as negociações pendentes decisão essencialmente burocrática
A Constituição, art. 5º, XLV, faz da dificilmente simultâneos. e se as negociações pendentes não mais que substitui a apuração da impu-
multa, no Direito Penal, expressão patente Uma empresa, tão-só porque para- podem ser resolvidas, a empresa, tação subjetiva pelo “redireciona-
da pena. Mas se a multa for aplicada lisa suas atividades, não se dissolve, além de desativada, perde a ratio de mento automático”, formulando
como pena decorrente da conduta de ela se desativa. sua existência formal. silogismo canhestro: a empresa foi
responsabilidade tributária pessoal, O revogado artigo 335 do Código O segundo critério é se as negocia- desativada; a empresa não teve
a individualização, até então latente, Comercial, sob cuja égide, aliás, estão ções pendentes não estão sendo resolvi- sua baixa (por não ter chegado o
deverá se expressar patente, e assim se inúmeros processos judiciais tribu- das por culpa ou impossibilidade da momento próprio); logo houve dis-
restabelece a isonomia constitucional.. empresa com sobrevida formal porque
tários porque vigente à época do fato, solução irregular.
Se não houve dissolução irregular não estará cumprindo com a obrigação
fornecia indicativo precioso. Há de se zelar pelo cumprimento
da empresa e se redireciona cobrança, de resolvê-las.
Depois de relacionar as hipóteses da lei, a segurança jurídica, posto
nenhuma lei estará sendo aplicada, A impossibilidade de solucionar as
de desaparecimento da empresa dis-
nenhuma jurisprudência estará sendo negociações pendentes se resolve no que apenar por dissolução irregular
punha o referido dispositivo:
seguida, pela simples inexistência do Judiciário, com o trânsito em julgado não-ocorrida, e o tema está longe
de se esgotar, é contrariar o ordena-
fato atribuído. Em todos os casos deve continuar e aí parece procedente que o sócio,
mento, é esquecer que o Judiciário
Há de se inquirir, de início, o que a sociedade, somente para se ulti- administrador e demais elencados no
está a serviço do Direito e não da
é dissolução irregular, que não se con- marem as negociações pendentes, art. 135 do Código Tributário Nacio-
arrecadação.
funde com a desativação e nem com procedendo-se à liquidação das nal tenham o ônus de provar que os
a continuidade formal. ultimadas. bens da empresa não se desviaram de
sua finalidade. Mário Antonio Sussmann
A dissolução é a baixa do registro
que é diacrônica, e não sincrônica, Tem-se aí não propriamente um Ainda assim, a despeito de a quem Advogado militante em Manaus-AM,
com a desativação ou a paralisação da permissivo e sim o obrigatório. Não caiba o ônus da prova, se haverá de Professor e Conferencista em Direito
atividade societária. se permitia à sociedade continuar, apurar a imputação subjetiva posto Tributário.

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C I V I L I I

O Código Civil e o desassossego da filiação


“Trata-se, particularmente, dos artigos 1.601 (que admite a imprescritibilidade para impugnar a paternidade) e 1.608 (que propicia a mãe refutar a maternidade provando
falsidade do termo do nascimento).”

paterno-filiais e materno-filiais, cir-


cunstâncias relativamente novas para
o cenário doutrinário, legislativo e
jurisprudencial no Brasil.
Afinal, como escreveu Rodrigo da
Cunha Pereira, presidente nacional
do IBDFAM, no prefácio de nossa
obra As intermitências da vida (edição
da Forense), esse tema, no ninho da
família, “descreve uma tragédia funda-
mental do humano, que é não-ter-pai,
ou deixar de ter um pai, deixar de ser
Luiz Edson Fachin filho”, acrescentando que isso “põe-
nos a pensar sobre as novas formas de
família que, na verdade, são variações

A família contemporânea no
Brasil recebeu a incidência plural e
em torno de um mesmo e velho tema:
a estruturação do sujeito que se faz
através de seus vínculos afetivos”.
promocional dos princípios cons- Esse não-sujeito chamou a atenção
titucionais, à luz dos quais se faz a até de José Saramago, grande escritor
interpretação do novo Código Civil, português vencedor do Prêmio Novel
Divulgação
especialmente no que diz respeito ao de Literatura, ao escrever As intermi-
direito da filiação. Igualdade subs- tências da morte; ali narrou o surreal
tancial, neutralidade designativa, desassossego com o fim da morte, e
liberdade dos meios de produção de naquele romance inseriu um apelo:
prova, entre outras, são diretrizes vin- “Oxalá ainda estejamos a tempo de “Nada obstante, tema relevante tem instigado
culantes do intérprete e do julgador. salvar os avós”.
Nada obstante, tema relevante Esse desassossego acometeu agora a reflexão. Trata-se, particularmente, dos
tem instigado a reflexão. Trata-se, o estatuto jurídico da filiação. Antes,
particularmente, dos artigos 1.601 na esteira do antigo Código Civil e artigos 1.601 (que admite a imprescritibilidade
(que admite a imprescritibilidade da jurisprudência já superada, era
para impugnar a paternidade) e 1.608 a regra uma lei de interdição: não para impugnar a paternidade) e 1.608
(que propicia a mãe refutar a mater- podiam ser reconhecidos os filhos
nidade provando falsidade do termo extramatrimoniais; mais recentemen-
(que propicia a mãe refutar a maternidade
do nascimento). te, a jurisprudência mais atilada e a provando falsidade do termo do nascimento).”
Sendo a pretensão negatória im- doutrina contemporânea, na esteira
prescindível e havendo a possibilida- da principiologia constitucional,
de de impugnar o assento da materni- acolheram a norma inclusiva para
dade, resta possível um descendente propiciar o reconhecimento jurídico
que não seja juridicamente filho. Daí de um imperativo humano e ético: pós-modernidade não pode conduzir à fissionais dessa área, e que conhecem
emerge, quando menos, um parado- direitos substancialmente iguais sem filiação por eleição ou escolha. bem seu cotidiano nada bucólico.
xos que põe em debate os limites e as ofender o regime das diferenças. Liberdade e responsabilidade São aqueles que estão afeitos às
possibilidades dessas regras inseridas A questão, todavia, na superação compõem um quadro de vertentes a condições intricadas desse dia-a-dia
no Código Civil brasileiro que podem do regime das causas determinadas e serem necessariamente conjugadas que possivelmente sabem que tão-só
gerar o nascimento dos não-filhos, isto dos prazos decadenciais exíguos para dentro de possibilidades e de limites. o sereno forense e fartura de sensibi-
é, de descendentes biológicos sem raiz impugnar a filiação, é que o novo Có- A base dessas idéias está em que quem lidade, zelo, conhecimento técnico e
ascendente. digo Civil trouxe a imprescritibilidade educa, num procedimento dialógico, aprofundamento teórico dão alguns
É certo que os “conflitos de pater- de tal pretensão negatória e mesmo da também se renova, reaviventando rastros para cultivar um belo sonho:
nidade” já encontram caminhos de impugnação da maternidade. Criou- ideais e valores. colher o sentido da justiça para a ver-
solução nas técnicas em DNA, quando se, assim, uma espécie de suspensão Uma das grandes tarefas dos pro- dadeira filiação no caso concreto.
cabíveis, e no valor jurídico da base permanente nas relações jurídicas pa- cessos de terminação do vínculo, quer
sócioafetiva da filiação, como admi- terno-filiais e materno-filiais. seja sócioafetivo, quer seja apenas Luiz Edson Fachin
tida implicitamente pelo art. 1.593 Sem embargo de ser, necessaria- formal para as uniões matrimoniali-
do Código Civil de 2002. Tais nós mente, permeado pela vida e pela Procurador do Estado do Paraná; Professor
zadas, é evidenciar que se os pais se
Titular de Direito Civil da Faculdade de
são desatados na busca da definição força construtiva dos fatos, impende separam, os pais não devem se separar
Direito da UFPR; Pontifícia Universidade
jurídica da paternidade (bem como da reconhecer a necessidade de enfrentar dos filhos.
Católica (PUC-PR), Mestre e Doutor em
maternidade), sem que haja, necessa- esse paradoxo jurídico dos descenden- Emerge daí um ingente e sensí- Direito das Relações Sociais pela PUC/SP
riamente, uma verdade apriorística ou tes que não são filhos. vel desafio para advogados, juízes, (Pontifícia Universidade Católica de São
pré-estabelecida. Essa migração dos filhos excluídos promotores de Justiça, bem assim Paulo); pós-doutorado pelo Ministério das
Entretanto, as regras em comen- por ilegitimidade para os não filhos nis- assistentes sociais, psicólogos, psico- Relações Exteriores do Canadá. Autor de
to traduzem questões de conflitos so que vem se chamando de complexa terapeutas e outros importantes pro- diversas obras e artigos.

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A Politização da Justiça e a Judicialização da Política (I)


“...Uma pesquisa baseada em uma amostra com 741 magistrados brasileiros, das justiças estadual, federal e do Trabalho revela que a maioria deles considera que as decisões
judiciais no Brasil são ocasionalmente baseadas mais nas visões políticas do juiz do que em uma leitura rigorosa da lei...”

assinado seu nome como um homem democracias contemporâneas, e sas o tema ‘juros abusivos’ tem o
honesto.” Nada mais “anormal” do por outro, deixar a decisão judicial mesmo resultado.2
que a situação de Alice – e anormal influenciar-se por ideais difusos de A “politização” das decisões ju-
em razão do ambiente esdrúxulo que justiça. A politização da justiça é diciais se observa igualmente na
a cerca. Tudo é diferente e movido francamente contrariar a letra da lei tentativa de alguns magistrados
por estranha lógica. com base em qualquer outro argu- de proteger certos grupos sociais
Uma das maiores anomalias ins- mento, enquanto a judicialização da vistos como a parte mais fraca nas
titucionais vividas entre nós (a ima- política é introduzir procedimentos disputas levadas aos tribunais. Os
gem de ser culpado por uma omissão judiciais nos demais poderes (seja no próprios magistrados costumam se
ou algo que não fez, senão teria as- Poder Executivo, levando questões referir a esse posicionamento como
sinado como um homem honesto) é de direito eleitoral e administrativo um reflexo do papel de promover
traduzida pelo que se conhece como aos Tribunais), seja no Legislati- a justiça social que cabe aos juízes
Jairo Saddi “ativismo judicial” ou a “ politização vo (como é o caso das Comissões desempenhar.3
da Justiça”. Por sua vez, C. N. Tate e Parlamentares de Inquérito, com
Perguntados se, levados a optar entre
T. Vallinder formularam, a partir de amplos poderes de investigação). Os
duas posições extremas – respeitar
L ewis Caroll, em certa passa-
gem de Alice no País das Maravilhas
uma pesquisa empírica comparada
do Poder Judiciário em diferentes
países a expressão “judicialização da
métodos típicos da decisão judicial
na resolução de disputas e conflitos
necessitam, a priori de técnica e de
sempre os contratos, independente-
mente de suas repercussões sociais,
ou tomar decisões que violem os
escreve: “Se você não assinou”, disse política” e “politização da justiça” rigor interpretativo, respeito às leis
contratos, na busca da justiça social
o Rei, “apenas torna a situação pior como sendo por um lado, efeitos escritas e aprovadas pelo Legislativo
para você. Com certeza você estava fa- do engrandecimento do Poder Ju- e qualquer ideologização ou politi- –, uma larga maioria dos entre-
zendo alguma coissa errada, senão teria diciário no processo decisório das zação (muitas vezes traduzida como vistados (73,1%) respondeu que
sendo a ‘livre convicção do juiz’) de optaria pela segunda alternativa.
suas decisões é uma anomalia que Essa ampla maioria contrasta com
precisa ser discutida. a proporção elevada, mas minori-
Uma pesquisa baseada em uma tária, de magistrados para os quais
amostra com 741 magistrados bra- “o compromisso com a justiça social
sileiros, das justiças estadual, fe- deve preponderar sobre a estrita
deral e do Trabalho, realizada por aplicação da lei”. 4 A proporção de
Armando Castelar Pinheiro, revela juízes que concordam com a se-
que a maioria deles considera que as gunda opção (“o juiz tem um papel
decisões judiciais no Brasil são oca- social a cumprir, e a busca da justiça
sionalmente baseadas mais nas vi- social justifica decisões que violem
sões políticas do juiz do que em uma os contratos”) também varia confor-
leitura rigorosa da lei, enquanto 20% me a área a que se refere a causa, e
dos juizes acredita que isso ocorre é mais forte em disputas que envol-
com freqüência e 4% que se trata vem direitos do consumidor, meio
de um fenômeno muito freqüente.1 ambiente e disputas trabalhistas
É nas decisões envolvendo a pri- e previdenciárias. Voltaremos no
vatização de algumas companhias próximo artigo.
públicas ocorridas entre 2000-2003
que a visão política do magistrado Jairo Saddi
influencia mais acentuadamente o
comportamento do juiz: de acordo Advogado. Doutor em Direito Econômico
com 25% dos entrevistados, nesses (USP). Pós-Doutorado pela Universidade
casos a “politização” das decisões é de Oxford; Diretor do Ibmec
Direito – Ibmec São Paulo.
muito freqüente, e para 31% deles é
algo freqüente.
Em disputas sobre a regulação 2 PINHEIRO. Armando Castelar. O componente
de serviços públicos e contratos de judicial dos spreads bancários. (Disponível em
trabalho e crédito, os magistrados www.bcb.gov.br)
apontam que a tendência à politi- 3 Não se trata de um fenômeno exclusivamente
zação das decisões judiciais é bem brasileiro. Vide, por exemplo, RAMSAY, Ian.
mais freqüente do que sugerem os Consumer credit law. Distributive justice and welfare
números acima. Em outras pesqui- state. Oxford Journal of Legal Studies vol 15,
2 summer 95, pág. 177-197
1 Armando Castelar PINHEIRO. Judiciário, reforma 4 SADEK. Maria Tereza. A crise do Judiciário
e economia: a visão dos magistrados. In: A. C. Pinheiro vista pelos juízes: resultados da pesquisa
(org.). Reforma do Judiciário: planos, propos- quantitativa. In: M. T. Sadek (org.). Uma
tas e perspectivas. Rio : Booklink Publicações, introdução ao estudo da Justiça. São Paulo :
2003. Sumaré, 1995.

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F I L O S O F I A

Sartre: “O inferno são os outros”


“O Filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), além das famosas obras filosóficas (“A Náusea”, “O Ser e o Nada”), escreveu romances, contos, peças
teatrais e atuou também como crítico literário”

uma tábula rasa, uma folha de papel quando não se escolhe já está se esco- Vaidosa e egoísta, é patético o deses-
em branco, um lugar onde repousa a lhendo) pode ser explicitado também pero de Estelle por um espelho. Inês
liberdade absoluta e de onde, a partir através da relação com os outros. arregala os olhos para que ela possa
daí, as escolhas serão conscientemente Essa relação se dá pela experiência se enxergar: ela se vê, tão pequenina...
apontadas. do olhar, do corpo. O olhar do outro Tudo isso os incomoda bastante, pois
Suponhamos que nossa consciência me objetiva, me torna real. O outro não conseguem enganar uns aos outros
seja uma espécie de “ser em si” (é o que atesta minha existência e isso instiga por muito tempo e, aos poucos vão se
é) mas que ainda não é tudo. A toda re- e inquieta. Desencadeia uma crise de constrangendo cada vez mais.
lação que essa consciência estabelecer aceitação pois só desejo ver refletido Inês tentará conquistar Estelle, que
denominaremos “ser para si”. Logo, no outro o melhor de mim mesmo. a repudiará. Estelle, por sua vez, bus-
a consciência está em branco, sempre Porém, o outro enxerga mais do que cará a paixão de Garcin, que a ignora.
se lançando ao exterior (ser para si), gostaríamos, desconhece nossas mo- Inês, interessada em Estelle, jogará um
Luciene Felix
construindo “sua” realidade. Ela não tivações interiores. contra o outro, explicitando as faltas
passa de um nada, não tem significado Na peça teatral “Entre quatro pare- deploráveis de ambos; faltas essas

N o artigo anterior, versando


sobre “A Morte de Ivan Ilitch”, cons-
até que alguma escolha seja feita.
Esse seria então o ser da consciên-
cia humana: um nada que se projeta
des” (1944), Sartre pondera-se sobre
a questão da imagem e ilustra suas
idéias filosóficas. A fenomenologia
que nenhum quer admitir. Numa
convivência insuportável, Estelle,
revoltada, tenta matar Inês, mas ela
tatamos que, dentre os riscos de se para se tornar algo: “A consciência do Outro e do “ser para outro” foi um dá boas gargalhadas: já está morta.
deixar pautar por valores alheios está não é uma entidade “espiritual” pré- dos mais bem acabados pensamentos Garcin tenta, inutilmente, convencê-
o de viver uma vida destituída de concebida, mas uma intencionalida- de Sartre. A dialética humana de “ser la de que não é um covarde. Não
sentido pessoal. Ponderemos agora de que não é nada em si mesma, mas um com o outro” é central: ver e ser conseguindo, tenta se vingar amando
como o ser humano, enredado pela que tem de formar-se com o mundo visto corresponde a dominar e a ser Estelle diante de Inês.
má fé, acaba por delegar a terceiros no qual está”. Sartre surpreende, dominado. Sem que possam sequer expiar
a angustiante responsabilidade de ao afirmar: “a existência precede a Após morrer, três indivíduos vão suas faltas, descobrem o horror da
decidir sobre sua vida. Como piolhos, essência”, ou seja, não há essência parar no inferno (não se trata do nudez psíquica que os outros lhes
viver pela cabeça dos outros pode humana anterior a existência do estereotipado inferno cristão,com evidenciam. Está revelado o verda-
tornar nossa existência um inferno. homem. Para ele, “O homem [exis- diabinhos, fornalhas etc.). Garcin, era deiro inferno: a consciência não pode
Mas afinal, quem são “os outros”? te] primeiro e somente depois ele um homem de letras. Pretendia ser furtar-se a enfrentar outra consciência
O Filósofo existencialista francês “é” isto ou aquilo: é lançando-se no um herói e foi um covarde. Seu maior que a denuncia, por isso: “o inferno
Jean-Paul Sartre (1905-1980), além mundo, sofrendo nele, lutando nele tormento é que suas novas compa- são os outros”.
das famosas obras filosóficas (“A que aos poucos ele se define, e a defi- nheiras desvendam sua condição de “Os Outros” são todos aqueles
Náusea”, “O Ser e o Nada”), escreveu nição permanece sempre aberta”. Se covardia, que não pode ser mudada. que, voluntária ou involuntariamen-
romances, contos, peças teatrais e o homem se apresentou no mundo É em vão que luta para fugir da pecha te, revelam de nós a nós mesmos.
atuou também como crítico literário sem ser concebido por algum pro- de covarde. Algumas vezes, mesmo sufocados
e de artes. Seu trabalho não está jeto divino, cabe a ele produzir sua Estelle é uma fútil burguesa que pela indesejada presença do outro,
dissociado de sua biografia: órfão própria essência, será o que fizer de ascendeu socialmente pelo casamento. tememos magoar, romper, ferir e, a
de pai aos dois anos de idade, foi si mesmo. Eis o primeiro princípio Em nome do conforto, assassinou o contra-gosto, os suportamos. Uma vez
prisioneiro dos nazistas durante a 2ª do existencialismo ateu. bebê que teve com o amante e vê este, que a incapacidade de compreender
guerra mundial e ativista militante. Mas Sartre salienta que quando tomado pelo desgosto, suicidar-se. e aceitar as fraquezas humanas torna
Foi leitor voraz de Kierkegaard, Scho- nos abstemos da responsabilidade Tenta redimir-se atribuindo sua cul- a convivência realmente um inferno,
penhauer, Nietzsche, Espinosa, Ber- por nossas escolhas, estamos agindo pa ao destino. Deseja a paixão como o angustiante existencialismo ateu
gson, Stendhal, Hegel e de Husserl, segundo aquilo que denominou “má forma de escapar à realidade. sartriano não nos deixa saída. Sem
entre outros. Embora o cristão Sören fé” da consciência, ou seja, estamos nos Inês é homossexual, funcionária o mínimo de boa-vontade, não há
Kierkegaard (veja artigo já publicado: isentando de atentar para a liberdade dos correios, agressiva, admite suas paraíso possível.
www.esdc.com.br) seja considerado que temos à nossa inteira disposição, culpas. É a única que não procura se
precursor do existencialismo mo- de graça. A má fé consiste em fingir- desculpar e compreende estar no in- Luciene Felix
derno, o sartriano será ainda mais mos não ser livres e podermos então, ferno. O ódio a alimenta; sádica, goza Professora de Filosofia e de Mitologia
radical, posto que ateu. debitar nossa infelicidade ou fracasso com o sofrimento dos outros. Greco-Romana da Escola Superior de Direito
Até Sartre, considerava-se válida a à causas externas a nós (os pais, o Não foram parar no inferno a toa: Constitucional – www.esdc.com.br
doutrina solipsista, ou seja, do que se “inconsciente freudiano”, o ambiente, cada um responde por um crime. Estão email: mitologia@esdc.com.br
tinha consciência era do “eu” indivi- a personalidade indômita etc). Sartre confinados numa sala, sem espelhos,
dual e essa formava o que entendía- chama isso de covardia. Não sendo sem necessidade de se alimentar ou Saiba mais:
mos por realidade. Mas ele irá afirmar livres para deixar de ser livres, estamos de dormir, por toda eternidade. São Entre quatro paredes – Jean-Paul
que antes mesmo de uma consciência pois “condenados à liberdade”. obrigados a se ver através dos olhos Sartre. Tradução: Alcione Araújo e
intencional há, de fato, uma espécie de Esse “ser”, construído através dos outros; olhos esses que não teriam Pedro Hussak. 3ª ed. - Rio de Janeiro:
vazio, como se nossa consciência fosse daquilo que se escolhe (até mesmo sido os escolhidos para se conviver. Editora Civilização Brasileira, 2007.

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R E P O R T A G E M

Mendigos, Prostitutas, Meninos de Rua,


Flanelinhas, Leprosos e Idosos abandonados
são perseguidos por Delegado de Polícia
A manchete acima faria o leitor
pensar indignado: Será que um dele-
há condições de se esperar, por isto
Dr. Azkoul com seu escrivão sai pelas
oficiando instituições estatais para fa-
cilitar um pouco a vida destas pessoas.
que eu vou abrir um inquérito con-
tra ela, mostra o meu cartão. Se não
gado não tem mais o que fazer do que ruas, em um carro comum, atendendo Dentre seus ofícios sem precedentes, adiantar, liga para mim, pois agora
perseguir esta gente necessitada? Que estes casos de efetiva emergência. um surtiu efeito inimaginável. Re- você tem um pistolão”. Pois é, agora
absurdo! Seria mesmo um absurdo, se Os serviços prestados são os mais querendo tarifa social de água para pobre também tem pistolão, dentro
nesta perseguição, não estivesse pre- diversos (veja no quadro), que vão 6.000 famílias que vivem no Conjunto da legalidade, cumprindo seu papel
sente duas peculiaridades, o delegado desde a documentação individual do Habitacional da Vila Brasilândia - e recebendo para isto. As pessoas se
os persegue para dar assistência e cidadão até mediação no caso de vio- CDHU, conseguiu beneficiar estas e sentem bem, importantes e ganham
assistindo-os está fazendo a segurança lência doméstica. Neste último caso, a promessa da SABESP (Cia de Água forças para lutarem pelos seus direitos
de base, a primária, a preventiva. procura-se identificar o foco do proble- e Saneamento Básico do Est. de São e restabelecerem sua cidadania.
Esta atividade policial nada comum ma e interceder para auxiliar a família, Paulo) que todas as famílias do CDHU Da experiência prática surgiu
é fruto da iniciativa de Marco Antonio sobretudo, nas situações que o pai tem terão o mesmo benefício. uma tese acadêmica que rendeu a
Azkoul, delegado de polícia do Esta- problemas com alcoolismo somados Muitas das pessoas que são atendi- aprovação com louvor na banca de
do de São Paulo e Doutor em Direito ao desemprego (casos mais comuns). das se mostram incrédulas se os ofícios, doutorado da PUC/SP e virou o livro
Constitucional pela PUC/SP, que Assim afirma o delegado: “ – Na casa certidões e atestados repercutirão, JUSTIÇA ITINERANTE, publicado
com seu escrivão, Luiz Antônio Mace- que não tem pão, todos choram, todos já que estão cansadas de serem mal pela Editora Juarez de Oliveira.
do Neto, percorrem desde as avenidas brigam sem razão”. Depois da devida atendidas pelo poder público, onde Diante das ações do Dr. Azkoul,
mais movimentadas até os lugares orientação e da composição amigável muitos servidores, quase sempre, pe- antes de publicarmos essa matéria
mais ermos da capital paulista. do casal é expedido um Termo de dem para esta gente voltar daqui um indagamos se ele tinha pretensões
Através de uma abordagem silencio- Bem Viver e Composição Amigável. mês, e assim por diante, e o problema políticas e sua afirmação foi: - Não!
sa e discreta o delegado se aproxima, Segundo ele: “Isto faz o casal ficar mais nunca é resolvido. Nestas situações, Portanto, como é próprio da nossa
estabelece uma relação de confiança, comprometido um com o outro, forta- Dr. Azkoul dá seu cartão, e afirma: “Se linha editorial nosso interesse foi
amizade e ajuda trazer esta camada lecendo a célula social, a família”. não te atenderem, fala para pessoa que demonstrar o exemplo de ação que
social para um caminho de dignidade, É impossível arrolar todos os ser- você tem um amigo que é delegado, promove a justiça.
auto-estima e, sobretudo, cidadania. viços prestados, pois muitas vezes
Acostumadas a ter outra visão do que encontramos dificuldades para nomen-
é a polícia, inicialmente, estas pessoas claturá-los. Para se ter idéia, em uma
sem oportunidade ficam melindradas certa ocasião, um senhor humilde e sem ROL DE SERVIÇOS PRESTADOS
de escutar e confiar, no entanto, esta- instrução teve sua pensão suspensa pelo
belecida a ponte, o delegado trabalha INSS, por tal órgão desconfiar que o
em dois vetores importantíssimos para mesmo estivesse morto. O senhor ficou • Documentos Individuais ( RG, CPF,
segurança pública: o dia todo gritando na frente da insti- Certidão de Nascimento)
1ª - Prevenção: Ajudando a pessoa tuição “Eu estou vivo, eu estou vivo”,
necessitada, sobretudo, em situações e não foi ouvido, sendo necessário que • Certidão de Antecedentes Criminais
emergenciais, onde o desespero pode- o delegado itinerante lá comparece e
ria ser a primeira faísca para o crime, emitisse um “Atestado de Vida” • Pedido de tarifação mínima para Água/Luz
a ação repele a violência atual através Quando Dr. Azkoul fala que é de-
de esperança e atenção e ajuda evitar legado e veio para ajudar, a primeira • Casamento Civil
a violência futura, já que se estabelece reação deles é perguntar: - Porque
mais oportunidades para o atendido. o senhor esta fazendo isto? Ele res-
• Emissão de Atestado de Pobreza
2ª - Inteligência: Através dos relatos ponde: “- Porque estou a seu serviço,
daqueles que vivem avizinhados à este é meu trabalho, estou aqui para
serví-los.” Neste momento, é possível
• Declaração de Posse através de oitiva de
criminalidade, obtem-se informações
acerca da dinâmica de algumas ações notar que a pessoa se sente protegida, testemunhas “in loco”
criminosas, incluindo a dos agentes pú- importante, bem quista e esperançosa.
blicos que não cumprem seu papel. O escrivão Luiz, sempre com um largo • Auxílio Funeral
Quem é atendido pela iniciativa sorriso no rosto e com toda simpatia,
está realmente vivendo às margens tem o dom de deixar estas pessoas, na • Renda Vitalícia do Idoso e Deficiente – LOAS
da sociedade, sem norte e referências, maioria das vezes sem nenhuma ins-
isento de quaisquer direitos funda- trução, à vontade diante dos papéis. • Orientação de Direitos e Deveres
mentais que teoricamente são garan- “É importante a polícia repressiva
tidos pela “Constituição Cidadã”. sim, mas não podemos deixar de ve- • Atestado de Idoniedade e Funcionamento
Embora existam programas de mu- rificar quão positivo são os resultados de Entidade Filantrópica.
tirões com equipes interdisciplinares da intervenção primária, da polícia
e viaturas próprias, muitas vezes não comunitária” afirma o delegado que saí

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Dia 17 de Janeiro de 2008 – Cidade de São Paulo/ Região Oeste
Para que esta matéria não fosse redigida somente através de relatos, acompanhamos o Dr. Azkoul e seu escrivão, Luiz, numa de suas jornadas diárias e descreveremos passo a
passo todas ações:

14:00 - Nos encontramos no posto de atendimento


do Parque da Água Branca, entramos num carro
comum que serviu como viatura e saímos para o
que eles chamam de “pesca”.
14:22 - No farol do cruzamento da Avenida Hen-
rique Schaumann com a Rua Teodoro Sampaio é
identificado um grupo de limpadores de vidros de
carros que já estavam sendo observados.

Escrivão Luiz começa a preencher algumas


das requisições usando o porta malas do carro
como escrivaninha.
Dona Maria de Jesus, 66, mostra carteira de
trabalho e recebe orientação e formulário
preenchido do LOAS.

A “Pesca” – procurado grupo de pessoas 17:10/18:50 - Nas proximidades do cruzamento


carentes.
onde estávamos, verificamos um grande imóvel,
de três andares, onde vivem aproximadamente
13 famílias, a grande maioria deles sem traba-
lho formal, tendo como fonte de rendimento
14:30 - Luiz, o escrivão estacionou o carro perto atividades como de flanelinhas, limpadores e
do cruzamento, enquanto Dr. Azkoul foi fazer a vendedores nos semáforos, catadores de sucata
abordagem. Para não tumultuar neste momento e papelão, dentre as mulheres havia domésticas,
não tiramos nenhuma foto. Pessoas fazem filas para serem atendidas. cozinheiras e acompanhante de idosos. Há quatro
anos estas famílias invadiram este pequeno pré-
14:35 - O Grupo junto com Dr. Azkoul se aproxima dio, a vizinhança fez uma grande pressão para
do carro, há vários rapazes, a maioria maiores de
que fossem expulsos, no entanto, sem a oposição
idade, duas moças gestantes e uma senhora.
aparente dos herdeiros do verdadeiro proprietá-
14:40/16:50 - O escrivão tira formulários do aposentaria própria. Ela teve seu requerimento rio, continuaram estabelecidos. Ao chegarmos o
porta mala e começa a preenchê-los de acordo de Renda Vitalícia do Idoso e Deficiente – LOAS rapaz nos levou em direção à uma senhora, Dr.
com as determinações do delegado. As pessoas preenchido na hora e recebeu toda a instrução de Azkoul explicou que estava lá para verificar se
se agrupam e começam a expor seus problemas. como proceder. Não tardou para que uma das precisavam de algo e para servi-los. Em princípio
Logo percebemos que falta de documentação dos moças gestantes perguntasse ao Dr. Azkoul se sua todos estavam desconfiados, imaginavam que
maiores e de seus filhos é generalizada. A maioria mãe teria direito também ao LOAS, já que é porta- tratava-se de mais um agente público tentan-
não tem RG e muitos nem certidão de nascimento. dora de HIV. Quando indagada se sua mãe estava do expulsá-los ou puní-los de alguma forma.
Atestados de Pobreza são expedidos aos montes próxima, ela afirmou que sim, então foi pedido que Vencido a barreira do medo, logo chegaram os
para que eles possam tirar seus documentos sem a senhora compareça ao local. A senhora aparece primeiros “cafezinhos” servidos em vidros de
qualquer custo. mostrando ao delegado os papéis que comprovam maionese. Outra senhora se aproximou e atrás
Durante o atendimento, chegou uma senhora, mi- sua situação e recebe o mesmo encaminhamento da porta, crianças curiosas observavam o que o
grante de Itambé-Ba, 66 anos, vendedora de balas que a Dona Maria. senhor engravatado explicava. Verificou-se que
no farol, afirmou ter que fazer aquilo para sobre- Um jovem se aproxima fala alguma coisa para o todas as famílias que lá viviam dividiam o alto
viver, pois era viúva e não recebia pensão, nem delegado e partimos rumo à casa do rapaz. IPTU cobrado do imóvel, justamente para não ir
para leilão. De pronto, foi providenciado atestado
de pobreza para documentação das famílias, ofí-
cio requerendo tarifa social para água e luz, bem
como, isenção do Imposto Predial. No dia seguin-
te, o delegado com o escrivão lá compareceram
para encaminhar outras providências.

Este espaço é reservado para divulgar


iniciativas para melhoria e efetividade
Dr. Azkoul orienta gestante para receber
da justiça promovidas por pessoas físi-
É explicado o procedimento para registrarem
atendimento médico e fazer pré-natal e entrega seus filhos e emitido Atestado de Pobreza para cas, pessoas jurídicas de direito privado
documento. isentá-los dos custos.
e público. Esperamos seu testemunho.

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P R O C E S S O

Ponderações Críticas sobre os Juizados Especiais Cíveis


“Os poderes instrutórios do juiz, existentes no procedimento comum, devem ser ampliados e devidamente utilizados no sistema da Lei 9.099/95.”

Ademais, não raras vezes a sumarie-


dade desse procedimento, caracterizado
"As críticas dirigidas aos Juizados Especiais pela concentração das fases processuais e
em razão da dispensa de advogado e da pela ausência de alguns atos processuais
que existem no ordinário, impede que a
extrema brevidade do processo, sem alguns parte demonstre o seu direito. Eis o ponto
sensível da questão. Erroneamente, tem-
atos processuais do procedimento ordinário, se confundido celeridade processual com
efetividade. Porém, são conceitos disso-
foram, sem dúvida, os principais emblemas ciados e que não podem ser imiscuídos
de seus opositores." numa superficial análise do quantitativo
de processos que são definitivamente re-
solvidos em determinado período.
Fabrício Castagna Lunardi A maioria dos objetivos da Lei 9.099,
de um tratamento desburocratizado e de dade da sentença, é incontestável que, se o no entanto, teve uma significação prag-
uma célere prestação da tutela jurisdicio- atendente cartorário não propiciar à parte mática relevante, visto que se estendeu

O s Juizados Especiais Cíveis,


também conhecidos como “Juizados de
nal. Essa era uma necessidade premente
ante a desoladora crise do Judiciário.
As críticas dirigidas aos Juizados Espe-
tal esclarecimento, perderá esta o proveito
que lhe confere a lei material (no exemplo,
o art. 42, parágrafo único, do Código de
efetivamente a Justiça a todas as camadas
sociais. A gratuidade e a não-obrigato-
riedade de representação por advogado
Pequenas Causas”, foram criados pela Lei ciais em razão da dispensa de advogado Defesa do Consumidor). possibilitaram a busca efetiva da tutela
9.099/95, a qual previu um procedimento e da extrema brevidade do processo, sem Em casos como esse, cumpre aos juízes jurisdicional do Estado, proporcionando
mais rápido e informal, com a concentração alguns atos processuais do procedimento e aos atendentes cartorários atuarem positi- às partes obter uma resposta definitiva e
de atos processuais em audiência, priori- ordinário, foram, sem dúvida, os princi- vamente, no sentido de proporcionar que as com força coercitiva através de um proce-
zando a oralidade. Instituía também que a pais emblemas de seus opositores. partes tenham os seus direitos processuais e dimento judicial contencioso.
pessoa física poderia, sem advogado, pro- A desnecessidade de representação por materiais atendidos. Os poderes instrutórios De outro lado, a celeridade do proce-
por demandas de baixo valor econômico advogado, com efeito, suscitou grande do juiz, existentes no procedimento comum, dimento sumaríssimo não se firmou har-
nessa Justiça especializada. Representava, celeuma jurídica, uma vez que, aparente- devem ser ampliados e devidamente utiliza- moniosamente com a ampla defesa. Isso
assim, um instrumento para se romper com mente, consagrava uma violação à previ- dos no sistema da Lei 9.099/95. Tal medida, se observa mais claramente à medida que
o paradigma formalista de processo civil. são constitucional de representação obri- embora implique leniência ao princípio dis- muitos atos que integram o rito ordinário
Como ocorre com todas as leis de forte gatória por advogado (art. 133 da CF). No positivo, beneficia em muito a efetividade e foram suprimidos e que a falta de defesa
cunho ideológico, a Lei dos Juizados, no li- entanto, tal controvérsia restou superada a justiça dos julgados. técnica constitui-se num déficit para a am-
miar da sua publicação, foi objeto de mui- pelos Tribunais Superiores, estando hoje Logo, a não-obrigatoriedade de re- pla defesa. Desse modo, em razão de as pes-
tos debates teóricos, sobretudo em relação pacificado que é constitucional a possibi- presentação por advogado nos Juizados soas de baixa renda não terem condições
aos seus princípios e às peculiariedades lidade de postulação pessoal no JEC. Especiais oscila entre a desconstituição para constituir advogado, não se realizou
do novo procedimento que insculpia. No Tal entendimento atendeu mais efi- de óbices ao acesso à Justiça e o prejuízo o escopo de proporcionar Justiça de forma
entanto, se, por um lado, despertava forte cazmente aos preceitos dos Juizados, à ampla defesa. Há de prevalecer, por igualitária, com paridade de armas.
oposição no meio jurídico, por outro, havia previstos, inclusive, no texto constitucio- óbvio, a gratuidade, característica funda- A solução para esse impasse reside,
grande euforia no seio social. Hodierna- nal (art. 24, inc. X, e art. 98, inc. I, ambos mental dessa Justiça Especializada, que, então, no material humano que corpo-
mente, no entanto, já se pode fazer uma da CF). Não se atingiriam os objetivos insofismavelmente, não se coaduna com a rifica os Juizados. Não está na lei ou em
análise concreta da sua eficácia social e do da Lei 9.099/95 caso a possibilidade de exigibilidade de contratação de advogado. qualquer outro instrumento jurídico,
alcance de suas instituições. ajuizamento de ações ficasse atrelada à As deficiências que possam advir em de- senão na capacidade e na boa vontade
Editada com o escopo de dar efetivida- representação por advogado, tão onerosa corrência da falta de defesa técnica podem daqueles que, todos os dias, saem de
de ao Princípio Constitucional do Acesso para os cidadãos de baixa renda. O diplo- ser mitigadas se atendentes cartorários, casa para tornar possíveis os ideais da
à Justiça (art. 5º, inc. XXXV, Constituição ma legal referido tinha como essência a juízes leigos e togados, conciliadores e lei. Embora se reconheça que o sistema
Federal), bem como proporcionar uma gratuidade da prestação jurisdicional, não oficiais de justiça utilizarem-se de seus dos Juizados não é infenso a críticas, ob-
resposta célere e eficaz aos conflitos, a Lei podendo olvidar-se dela. conhecimentos técnicos específicos para serva-se que a aclamação pelas camadas
dos Juizados Especiais abarcava ideais A questão, entretanto, também merece auxiliarem as partes a transitar pelos cami- populares mais pobres e pelas organiza-
de gratuidade e de brevidade das fases ser analisada à luz do princípio constitu- nhos processuais com desenvoltura. ções de defesa dos consumidores foi bem
processuais, tendo por características cional da ampla defesa (art. 5º, inc. LV, da Também são temas que suscitam mais significativa.
principais a isenção de custas judiciais em CF). Nesse tocante, não há como negar que discussão o papel dos conciliadores nas Portanto, na atual fase de desenvol-
primeira instância, a ênfase na tentativa de a ausência de um profissional habilitado audiências de tentativa de acordo e a vimento dos Juizados Especiais Cíveis, é
conciliação, a possibilidade de postulação pode representar sério cerceamento de brevidade do procedimento sumaríssimo possível aferir os resultados práticos da
pessoal pela parte, sem representação defesa, prejudicando a parte desassistida, dos Juizados. Há um sensível impulso experiência e afirmar, agora com critérios
por advogado, e a adoção dos princípios para quem a carência de defesa técnica para que se fomente a obtenção de con- bem mais empíricos que ideológicos, que
da oralidade e da concentração de atos implica, muitas vezes, tornar praticamente ciliações. Dessa forma, devido, muitas os seus objetivos precípuos foram efetiva-
processuais. Com base nesses instrumen- inócuo o exercício do direito de ação. As vezes, à insistência dos conciliadores na mente atingidos.
tos, era propalado o objetivo de reduzir pessoas nem sempre conhecem os seus composição do litígio pela transação, com
a enorme quantidade de processos que direitos ou não sabem qual o exato pro- o objetivo de instantânea solução da lide, Fabrício Castagna Lunardi
tramitavam na Justiça Comum e que cedimento para seu exercício. A título de existe significativo índice de conflitos que
haviam crescido assustadoramente nas exemplo, quando um consumidor é co- são resolvidos por intermédio das concilia- Advogado da União. Especialista em
últimas décadas. brado de forma indevida, usualmente não ções sem que a parte tenha a sua pretensão Direito Civil pela Universidade Federal
Era inegável que a sua implementação, tem ciência do direito de ver-se ressarcido adequadamente apreciada pelo Judiciário. de Santa Maria (UFSM), e, Professor
mesmo que somente para o processamen- em dobro. Diante da regra de que o juiz Os acordos podem dar causa à insatisfação universitário no Estado do Rio Grande do
to de causas cíveis de baixo valor e menor deve adstringir-se ao pedido, não poden- e ao sentimento de injustiça, se realizados Sul. Representante da Escola da Advocacia-
complexidade, representava a esperança do afastar-se do mesmo, sob pena de nuli- a contragosto das partes. Geral da União na Região Sul.

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H I S T Ó R I A D O D I R E I T O

A Polícia Civil na História e no Brasil


“A Polícia, como instituição, nasce como uma necessidade social e de forma paralela ao desenvolvimento da sociedade humana”

e dos indivíduos em face daqueles que cidades, das vilas e da área rural era pro- de dezembro de 1841, devido ao recru-
desrespeitam o consenso social. vida pelos Alcaides (oficiais de justiça), descimento da criminalidade e em razão
Historicamente vários documentos auxiliados pelos Quadrilheiros e Capitães- da absoluta incapacidade operacional dos
bem antigos demonstram a existência de do-mato, todos escolhidos dentre cidadãos magistrados para cuidarem, também, das
algo similar, como pode ser atestado pelos civis. Apenas em 16 de janeiro de 1760 que questões de polícia, foi publicada a Lei n.
povos egípcios e hebreus, que incluíam o Rei de Portugal, Dom José I, criou o cargo 261, regulamentada pelo Decreto n. 120,
medidas policiais em suas legislações. de Intendente Geral de Policia da Corte e do de 31 de janeiro de 1842, modificando o
Também os romanos tinham instituições Reino, com amplos poderes e jurisdição ili- Código de Processo Criminal e reestrutu-
semelhantes, mas somente na época do mitada, cujo objetivo era garantir a ordem, rando a Polícia Civil. Essa lei teve como
Império, que se inicia em 27 a.C., que ad- a segurança e a paz pública, perdurando principais características centralizar a
quiriu organização de fato. Foi criado em tal sistema até a chegada de D. João VI ao tomada de decisões e, para isso, esvaziou
Roma um chefe de polícia denominado Brasil, no início de 1808. Com a publicação as atribuições do Juiz de Paz. Além dis-
Edil, que possuía soberania para decidir do Alvará Régio de 10 de maio de 1808 foi so, criou em cada município da Corte e
José Fabio Rodrigues Maciel sobre seus próprios atos. A partir de então, criada a Intendência Geral de Polícia do em cada Província um chefe de polícia,
principalmente com a invasão dos povos Estado do Brasil, com um delegado em contando com o auxilio de delegados e

A Polícia, tanto a Civil como a Mi-


litar, estão sob a égide do Poder Executivo
bárbaros e o retorno das populações ao
campo, a instituição sofreu regressão, até
surgir o sistema anglo-saxão de organi-
cada Província, ocupada pela primeira
vez pelo Desembargador Paulo Fernandes
Viana, também Ouvidor da Corte, incum-
subdelegados, nomeados pelo Imperador
ou pelos Presidentes das Províncias.
Ao chefe de polícia e ao delegado
dos Estados-membros que compõem a zação policial, na Inglaterra do final do bido, imediatamente, de criar suas diversas cabiam, inclusive, atribuições próprias
República Federativa do Brasil. Apesar de século XVII, que possui muita semelhança seções do serviço policial. Organizou-se a de Juiz, como expedir mandados de
ser fundamental para a concretização da com o nosso atual sistema policial, caracte- Polícia da seguinte forma: um funcionário busca, conceder fianças, julgar crimes
Justiça, não pertence ao Poder Judiciário, rizado pela função de força pública. de nível superior, encarregado de fiscalizar comuns e, ainda, proceder à formação
fato que a torna importante elo que garan- Já na história de Portugal a polícia teatros e diversões públicas; um funcioná- de culpa. Desde esta época a instrução
te a harmônica divisão de poderes estabe- como força pública remonta ao período rio encarregado do registro de veículos, criminal passou a ser matéria de polícia.
lecida em nossa Constituição Federal. A medieval, sendo essa tradição encampada embarcações e fretes; outro encarregado de Já o inquérito policial, nos termos que
Polícia, como instituição, nasce como uma pelo Brasil Colônia, que iria posteriormente passaporte e fiscalização de estrangeiros; temos hoje, só foi criado em 1871, pela
necessidade social e de forma paralela ao sofrer influência do sistema inglês na sua um praticante; um alcaide, responsável Lei n. 2.033, regulamentada pelo Decreto
desenvolvimento da sociedade humana e, organização. No Brasil houve duas fases de pela investigação criminal; um escrivão e n. 4.824, de 22 de novembro do mesmo
como no caso desta, não é possível apontar administração, a dos donatários, até 1549, dez mineirinhos, que agiam como agente ano, que separou Justiça e Polícia de uma
uma data para seu surgimento. Já o termo em que o ato de legislar, julgar e punir auxiliar dos serviços cartorários. mesma organização. Com o advento da
“polícia” tem sua origem na palavra “po- estava nas mãos dos donatários, e a dos Com a independência do Brasil foi República, em 1889, a organização poli-
lis”, sendo que esta designava, na Grécia Governadores-Gerais, de 1549 a 1767, com outorgada a Constituição do Império, cial ganhou definitivamente os contornos
antiga, principalmente o que entendemos aplicação principalmente das Ordenações em 1824. Curioso que nessa Carta o tema que possui nos dias de hoje.
hoje por cidade. Usavam “politeia”, que Filipinas, em que os serviços policiais eram segurança pública não foi devidamente
derivou para o latim “politia”, ambos exercidos por alcaides e almotacés, passí- contemplado, sendo delegado às Assem- José Fabio Rodrigues Maciel
com o mesmo significado, ou seja, gover- veis de serem fiscalizados pelos Juízes de bléias Legislativas Provinciais a compe-
no de uma cidade, administração, forma Fora. Posteriormente foi criado o cargo de tência para legislar sobre polícia. Uma Advogado; Professor de História do Direito,
de governo. Com o passar dos tempos o Quadrilheiro, que possuía o apoio de vinte Lei de 1827 conferiu aos Juízes de Paz, Filosofia e Introdução ao Estudo do Direito;
termo “polícia” ganhou conotação mais homens para manter a ordem. que eram normalmente civis e leigos, as Mestre em Direito pela PUCSP; Editor
restrita, representando a ação do governo A instituição policial brasileira nasce, atribuições policiais nas freguesias e nas Jurídico; Coordenador da Coleção “Roteiros
enquanto exerce sua missão de garantia da portanto, com a colonização portuguesa e, capelas curadas. Já o Código de Processo Jurídicos” da Editora Saraiva; Co-autor da
ordem jurídica, assegurando a tranqüili- para identificarem-se, os serviços policiais Criminal, de 1832, outorgou à polícia uma obra História do Direito, pela Editora Saraiva;
dade pública e a proteção da sociedade utilizavam as cores de Portugal, ora com organização descentralizada, e conferiu Autor da obra Teoria Geral do Direito
predominância do verde, ora do vermelho, autoridade policial aos Juizes de Paz, – segurança, valor, hermenêutica, princípios,
mas sempre em caráter civil. Portanto, sendo que o cargo de Chefe de Polícia era sistema, publicada pela mesma editora.
durante a colonização, a segurança das exercido por um Juiz de Direito. Em 03 e-mail: fabiomaciel@pcsi.com.br

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