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As Ordenações

Afonsinas
Três Séculos de Direito Medieval
[1211-1512]
José Domingues

As Ordenações
Afonsinas
Três Séculos de Direito Medieval
[1211-1512]

Tese de Doutoramento
Universidade de Santiago de Compostela, 2007
Orientador Científico: Prof. Doutor Pedro Ortego Gil
Esta obra não pode ser reproduzida ou transmitida por
qualquer processo à excepção de excertos para divulgação.
Reservados todos os direitos, de acordo com a legislação em vigor.

Título: As Ordenações Afonsinas


Autor: José Domingues (josedomingues@zefiro.pt)
Concepção Gráfica: Sofia Vaz Ribeiro
Editor: Alexandre Gabriel
Impressão: Rolo & Filhos II, S.A.
1ª Edição: Novembro de 2008
ISBN: 978-972-8958-66-4
Depósito Legal:

© 2008, José Domingues & Zéfiro

Zéfiro — Edições e Actividades Culturais, Unipessoal Lda.


Apartado 21 — 2711-953 Sintra — Portugal — Tel.: (+351) 914848900
www.zefiro.pt — zefiro@zefiro.pt
Índice

Introdução................................................................................................................................11

I – Parte
O Movimento Compilatório

Capítulo I
Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

1. As “Ordenações Afonsinas” e as suas Múltiplas Denominações.................................15


2. Anais Bibliográficos da “Mais Antiga Compilação” de Leis do Reino de Portugal...26
3. Resenha Cronológica de Legislação Medieval Portuguesa...........................................38
4. Communis Opinio Actual.....................................................................................................55

Capítulo II
Compilação e Compiladores

1. As Condições da Época......................................................................................................57
2. Colectâneas Anteriores.......................................................................................................64
O Livro das Leis e Posturas........................................................................................67
As Ordenações de D. Duarte......................................................................................78
Os Livros de Ordenações............................................................................................81
3. Os Estilos Redactoriais nas Afonsinas...............................................................................93
4. Os Compiladores.................................................................................................................102
5. O Regimento da Guerra......................................................................................................118

Capítulo III
Conclusão e Divulgação

1. Conclusão e Revisão...........................................................................................................126
2 Difusão das Leis....................................................................................................................129
Publicação na Corte.....................................................................................................131
Publicação pelo Reino..................................................................................................140
Vacatio Legis.................................................................................................................162
3. Sanção ou Promulgação das Afonsinas............................................................................163
4. Divulgação e Vigência das Ordenações..............................................................................168
5. O Abreviamento de D. João II...........................................................................................186

II – Parte
A “Reforma” de Rui Fernandes

1. Sistematização Externa.......................................................................................................198
A Divisão em Cinco Livros.........................................................................................198
As Fontes Jurídicas Relevantes...................................................................................200
Critérios Estruturantes................................................................................................226
2. Sistematização Interna........................................................................................................242
Livro I.............................................................................................................................243
Livro II...........................................................................................................................312
Livro III..........................................................................................................................351
Livro IV..........................................................................................................................392
Livro V...........................................................................................................................421

Conclusão.................................................................................................................................445
Bibliografia...............................................................................................................................451

Anexos

1. Sinopse Cronológica de Legislação Medieval (1211-1512)............................................469


2. Os Capítulos de Cortes nas Afonsinas (1331-1433).........................................................597
à Martine
Índice de Abreviaturas

a. – antes.
art.º – artigo.
Braga, AD – Arquivo Distrital de Braga.
c. – Cerca.
circa – Cerca.
Cap. – capítulo.
Cfr. – Conferir.
Cód. – códice.
Coimbra, AGU – Arquivo Geral da Universidade de Coimbra.
Coimbra, BGU –Biblioteca Geral de Coimbra.
cx. – caixa.
doc. – documento.
Elvas, AM – Arquivo Municipal de Elvas.
Fac-sim. – facsímile.
fl. – fólio.
i.e. – id est (isto é).
IAN/TT – Instituto dos Arquivos Nacionais / Torre do Tombo.
Lisboa, BN – Biblioteca Nacional de Lisboa.
LLP – Livro das Leis e Posturas. A edição utilizada é a da Universidade de Lisboa Faculdade de Direito,
Lisboa, 1971, com prefácio de Nuno Espinosa Gomes da Silva e leitura paleográfica e transcrição de
Maria Teresa Campos Rodrigues.
Lousã, AM – Arquivo Municipal da Lousã.
mç. – maço.
ms. – manuscrito.
OA – Ordenações Afonsinas. A edição utilizada, salvo indicação em contrário para algum dos manus-
critos, é a da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1984.
ODD – Ordenações Del-Rei Dom Duarte. A edição utilizada é a preparada por Martim de Albuquerque
e Eduardo Borges Nunes, para a Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1988.
p. – página.
pp. - páginas
Ponte de Lima, AM – Arquivo Municipal de Ponte de Lima.
Porto, AD – Arquivo Distrital do Porto.
Porto, AHM – Arquivo Histórico Municipal do Porto (Casa do Infante).
Porto, BPM – Biblioteca Pública Municipal do Porto.
s.d. – sem data.
s.l. – Sem Lugar.
Séc. – século.
v.g. – verbi gratia (por exemplo)
vide – veja-se.
vol. – volume.
Introdução

A compilação de leis, hodiernamente conhecida e designada por Ordenações Afonsi-


nas, para além do fascínio que provoca a qualquer investigador ou simples curioso
que se interesse pelo quotidiano desse período longínquo e obscuro da Idade Média,
sintetiza um longo excurso pela legislação medieva portuguesa: desde as leis promul-
gadas por D. Afonso II nas Cortes de Coimbra de 1211, até ao início da impressão das
Ordenações Manuelinas, em 1512. São trezentos anos bem contados, e foi este entendi-
mento que deu aval ao título: As Ordenações Afonsinas – Três Séculos de Direito Mediévico
[1211-1512]. Claro que se trata de um título demasiado ambicioso, mesmo para uma
dissertação académica, ficando por abordar uma infinidade de questões e problemas
atinentes. Mas qualquer título corre o risco de ser demasiado dilatado ou, ao invés,
demasiado redutor.
O repto de devassar os meandros viscerais da mais vetusta colectânea de orde-
nações portuguesa, terminada em 1446, na menoridade de D. Afonso V, foi-me incul-
cado pelo Professor Doutor Pedro Ortego Gil, logo na primeira vez que nos encontra-
mos, no seu gabinete na Universidade de Santiago de Compostela. Esse Homem, que
eu conhecia há dez minutos, perguntava-me se queria sondar as Ordenações Afonsinas
para tese de Doutoramento. Aceitei o desafio – mesmo sem saber por onde iniciar – e,
nesse ápice, ficou sancionado o tema e eu tinha encontrado o orientador científico que
procurava. Foi, sobretudo, o início de uma amizade autêntica e a esse grande Ami-
go, pelo cordial acolhimento e constante atendimento que me dispensou ao longo de
todos estes anos e, sobretudo, pela confiança e incentivo que sempre me dispensou,
consigno os mais elevados e reconhecidos votos de respeito e sincera gratidão.
Paulatinamente, íamos traçando um esboço do caminho a percorrer: tratava-se
de (com o rigor que o engenho, a arte e os meios disponíveis nos permitissem) palmi-
lhar o trilho já andado, há mais de seiscentos anos, pelos compiladores das Ordenações
Afonsinas. Por isso, o primeiro passo seria averiguar o processo de formação desde a
sua génese até à conclusão. Será que, como se tem dito, as Afonsinas foram iniciadas no
reinado de D. João I e apenas terminadas no de D. Afonso V? Se assim for, parece que
a designação Ordenações Afonsinas é mais uma iniquidade legada pela História. Por
outro lado, sabemos de sobejo a data de conclusão – 28 de Julho de 1446 – mas muito
pouco, ou mesmo nada, se sabe ao certo da data de início dos trabalhos.
O passo seguinte seria o de tentar conhecer quem foram os compiladores e, na
medida do possível, qual o trabalho desenvolvido por cada um. Isto leva-nos à eterna
questão da diferença de estilo de redacção entre o livro I e os restantes quatro. Mas será
que esta diferenciação de estilo redactorial tem a ver com punho compilador? Se assim
for, qual o compilador que elaborou o livro I e qual o que elaborou os restantes livros
II, III, IV e V? Será que a explicação se prende, antes, com a matéria ex novo tratada no
livro I? Ou existirá outra plausível explicação para este arcano?

11
As Ordenações Afonsinas Introdução

Concluída a colectânea, há quem defenda, persistentemente, a sua minguada


divulgação e escassa vigência. Mas, ao contrário, também há quem advogue uma
vigência efectiva e uma assaz difusão por todo o reino. Ambas as facções recrutam
autores de vulto para a sua causa. Por isso, o que pensar deste dilema? Qual a decisão
mais acertada? Uma análise crítica ao manancial de sedimentos documentais coligido
pode incutir uma resposta minimamente satisfatória.
Finalmente, importa averiguar o tratamento que os compiladores deram às fontes
que usaram. Dessa forma, poderemos ter uma vaga ideia do seu trabalho e da evolu-
ção desde o tempo das leis compiladas (algumas com séculos de existência) até ao coe-
vo da compilação. Para isso, compulsaram-se e cotejaram-se, com os parágrafos das
Ordenações Afonsinas, as cópias de alguns diplomas legislativos, arquivadas a esmo em
documentos avulsos, registadas nos livros da Chancelaria ou reunidas noutras colec-
tâneas de leis antecedentes (nomeadamente, o Livro de Leis e Posturas Antigas e as Orde-
nações de D. Duarte) tentando, sempre que possível, chegar aos originais, ou muito
próximo, que teriam servido de plataforma da ingente tarefa compiladora dos núncios
régios. Dessa forma podem sobressair as alterações introduzidas pelos compiladores.
A jornada, para além de árdua, apresenta-se impraticável em certas conjunturas,
pois a matéria prima documental à nossa disposição, que conseguiu resistir à sanha
devastadora do tempo e à incúria do homem, não se pode equiparar à de seis sécu-
los atrás. Assim, este cometimento, talvez demasiado ambicioso e sem dúvida muito
incompleto, trata de abarcar a maioria (já que o todo é impossível) do direito medieval
geral que vigorou no interior do espaço territorial do reino de Portugal, desde a sua
fundação até à compilação das Afonsinas e posterior edição das Manuelinas, dando-nos
uma singela ideia do Direito neste espaço temporal de três séculos.

12
I – Parte
O Movimento Compilatório
Capítulo I

Os Antecedentes Históricos e Bibliográficos


Estado Actual da Questão

“Sobre todallas obras, e condiçõees do Rey a principal virtude,


e louvor he someter a sua Real Magestade, e o seu Regno aa Ley
Santa, e Natural, que he fundada sobre pura verdade, segundo a
insinamça dos Sabedores; e aquelle, que esto fezer, e o Povo do
seu Regno reger segundo a Ley de Deos, nom per fingida apa-
rença, mas per ividencia do Feito verdadeiro, esse regnará com
honra, e durará seu Senhorio perlonguadamente”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 64, § 1]

1. As “Ordenações Afonsinas” e as suas Múltiplas Denominações


Talvez não seja tão escusado, como à partida possa parecer em trabalho desta índole,
apurar as variadas formas de identificação que esta colectânea medieva de legislação
assumiu na árdua travessia de mais de meio milénio, resistindo à voracidade das traças,
à desídia do Homem, a uma sorte de calamidades e à depredação secular. São vários
os motivos que me impelem a começar este trabalho pela multíplice designação desta
colecção. Antes de mais, por um lado, servirá como tentativa inaugural de desbravar
o caminho para um melhor entendimento de todo o processo de recompilação, que
tratarei no segundo capítulo deste trabalho; por outro lado, uma vez que a designação
hodierna – Ordenações Afonsinas – está na eminência de se converter numa intrincada
controvérsia, havendo quem já defenda tratar-se de mais “uma daquelas ‘injustiças’
em que a história é mestra”[1], pode servir de proposição elucidativa para essa e outras
contendas correlativas.
A primitiva e mais recuada designação, com certeza a primordial, para a identi-
ficação de qualquer um dos cinco livros desta compilação é a de “Livro ‘x’ da Refor-
mação das Ordenações”. Esta é a designação mais usual, mas, evidentemente, podem
surgir outras com singelas cambiantes, por defeito (por exemplo, retirando a palavra
“reformação”) ou acréscimo (nomeadamente, “que anda(m) na nossa Chancelaria” ou
“na Casa do Cível”), peculiares da linguagem documental medieva.

1
Luís Miguel DUARTE, Justiça e Criminalidade no Portugal Medievo (1459-1481), Fundação Calouste Gul-
benkian Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Coimbra, [1999], p. 93: Os cinco livros “da reformação das
nossas ordenações” chegaram até hoje com essa designação por mais uma daquelas ‘injustiças’ em que a história é
mestra – como as muralhas fernandinas do Porto, ordenadas e iniciadas com Afonso IV, continuadas com D. Pedro e
concluídas (apenas isso) no reinado do “Formoso”.

15
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

Nuno Espinosa Gomes da Silva, ao deparar com a expressividade desta singu-


lar asserção, na certidão de 27 de Agosto de 1447, alvitrou mais um argumento para
a tradicional distinção que tem, literalmente, torturado o discernimento de todos os
investigadores afectos ao estudo desta colectânea de leis: a diferença de estilo redac-
torial entre o livro primeiro e os restantes quatro. Segundo este autor, nessa certidão,
dirigida ao alcaide-mor de Santarém, Rui Borges de Sousa, falar-se-ia do primeiro Livro
das Ordenações e do terceiro da Reformação das Ordenações. Essa diferenciação interpretou
o autor da seguinte forma:

“Relembre-se, até, o dizer da atrás referida certidão de 27 de Agosto de 1447, onde


se fala «do primeiro Livro das Ordenaçoens e do 3.º das Reformaçõens das Ordenaçoens».
O livro 1.º, porque é novo, seria um Livro de Ordenações; o livro 3.º, porque trata
de «matéria objecto de anteriores ordenações», seria um Livro de «Reformaçoens das
Ordenaçoens». Posteriormente, porém, deixará de fazer-se esta distinção”[1]

Esta dedução acaba por ser impugnada por Luís Miguel Duarte, que lhe contra-
põe o argumento documental do códice da Biblioteca da Ajuda, segundo o qual, em
1455, também se chamava ao livro I Livro da Reformação das Ordenações:

“O raciocínio é sedutor, mas não é isento de problemas com as fontes; no códice


cartáceo da Biblioteca da Ajuda, descrito por Borges Nunes (Os Manuscritos das
Ordenações Afonsinas…, p. 15) podemos ler o seguinte incipit: “Aquy se começa
o primeiro Liuro da rreformaçom ffeyto per El rrey dom affonso o vº de purtugall
E do algarue E Senhor de çepta que foy feyto E scripto na era de mjll iiijc Lta b
annos”. Em 1455 também se chamava ao Livro 1º “livro da reformaçom”.”[2]

Este fundamento, ao colocar também o livro I no âmbito da reformação das


ordenações, derruba a ideia antecedente de Espinosa Gomes da Silva. Mas, para além
deste, existem outros subsídios documentais onde o livro I das Ordenações Afonsinas
é referido como livro da reformação das ordenações: o primeiro, antecedente ao supra de
1455, consta das próprias Ordenações Afonsinas, quando, em outorgamento ao título da
legislação sobre os que encobrem malfeitores, remete para o título dos corregedores das
comarcas, que consta no “primeiro Livro da reformaçom das Hordenaçoões”[3] e nas Cortes
de Coimbra-Évora, de 1472/73, no capítulo 48º, o povo requer a el-rei que obrigue os
corregedores a estudarem e cumprirem o regimento que lhe é dado no “livro primeiro
das vossas reformações” e, no capítulo 52º, solicitam que se cumpra o “livro primeiro da
reformação de vossas ordenações”, relativa ao título das carceragens que se devem levar
nas cidades, vilas e lugares[4].
Para o livro III das Ordenações Afonsinas existem também outras referências
documentais idênticas, para além da supracitada, nomeadamente, no livro V das
Ordenações Afonsinas: em emenda a uma lei de D. Afonso IV, remete para o título 90,

1
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, História do Direito Português. Fontes de Direito, [Lisboa], Fundação Ca-
louste Gulbenkian, [1985], p. 193, nota 3 (p. 274, nota 3, na 3.ª edição revista e actualizada, 2002).
2
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 119-120, nota 369.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 100, § 6, p. 358. (A edição utilizada, salvo indicação em contrário para
algum dos manuscritos, é a da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1984).
4
Henrique da Gama BARROS, História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV (2.ª edição,
dirigida e anotada por Torquato de Sousa SOARES), Lisboa, 1945, p. 136.

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José Domingues

“que he no terceiro Livro desta nossa reformaçom”[1]; sobre as apelações de feitos crimes de
todo o reino, que deviam ir aos ouvidores da corte, remete novamente para o título 90,
“que he no terceiro Livro desta nossa reformaçom”[2]; e no título 108, para que não prendam
por dívida, remete-se para o título 121, “que he no terceiro Livro das reformaçõoes”[3].
Em dois documentos avulsos, o primeiro de 20 de Agosto de 1486[4] e o segundo
de 27 de Novembro de 1501[5], diz-se, expressamente, que os privilégios dos
desembargadores, concedidos por alvará de 12 de Novembro de 1450, estão no fim
do “liuro terçeiro da Reformaçom das nossas hordenaçõees que anda em nossa Chancelaria”.
Curiosamente, em nenhum dos exemplares do livro III das Ordenações Afonsinas, que
chegaram aos nossos dias, consta o dito alvará[6].
Além do mais, os livros I e III não são os únicos a merecerem o epíteto de livros da
reformação das ordenações, uma vez que também são bastante assíduas referências aná-
logas para os outros livros das Ordenações Afonsinas.
Para o livro II encontram-se, no livro V das Ordenações Afonsinas, pelo menos,
três remissões confirmativas: a primeira remete para uma lei de D. João I, transcrita
no título 17 do “segundo Livro da reformaçom das Hordenaçõoes”[7]; outra remete para o
título 24, dos Direitos Reais, “que he no segundo Livro da nossa reformaçom”[8]; finalmente,
na extravagante de 1448, faz-se uma remissão expressa para o título 8, “Dos que se
coutam aa Igreja, em que casos gouvirom da imunidade della, e em quaaes nom; que
he no segundo livro da dita reformaçom”[9].
Em diploma de 1 de Dezembro de 1453, outorgado no Sardoal, D. Afonso V, a
pedido do arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, mandou passar traslado de uma
ordenação de D. Dinis, sobre a inquirição das honras e coutos que os fidalgos faziam
indevidamente, que constava no “segundo liuro da Reformaçam das nossas hordenaçooes
que andam em a nossa Chancelaria”[10]. Esta ordenação consta, efectivamente, no título 65
do livro II das Ordenações Afonsinas[11]. Noutro diploma régio, de 7 de Agosto de 1476,
o mesmo monarca outorga carta de privilégio a um judeu que se tornou cristão, na
forma do “segundo livro da reformaçom das minhas ordenações”[12].
No livro V das Ordenações Afonsinas, encontra-se uma ressalva à pena imposta
aos forçadores, por lei de D. Dinis, no título 65, “que he no Quarto Livro da nossa
reformaçom”[13]. Por carta régia, de 3 de Julho de 1459, D. Afonso V manda que seja
cumprida a lei de D. João I, de 12 de Maio de 1393, contra os que se valiam de cartas

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 59, § 18, p. 236.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 98, § 2, p. 353.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 108, § 4, p. 369.
4
IAN/TT – Gaveta 14, maço 8, n.º23.
5
IAN/TT – Corpo Cronológico, Parte 1, maço 3, n.º74.
6
João Pedro RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”. in António CRUZ,
Breve Estudo dos Manuscritos de João Pedro Ribeiro, com Apêndices de estudos sôbre as Ordenações Afonsinas e
de documentos do cartório do Mosteiro de Santo Tirso de Riba d’Ave, Coimbra, 1938, p. 129. Que, ao segundo
documento, atribui a data errada de 1521.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 45, § 14, p. 163.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 79, § 2, p. 295.
9
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 118, § 10, p. 390.
10
Braga, AD – Colecção Cronológica n.º 1260.
11
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 65, pp. 407-420.
12
IAN/TT – Chancelaria de D. Afonso V, Livro 6, fl. 122.
Publ. DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 78, p. 627.
13
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 27, § 15, p. 107.

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As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

ardilosamente assinadas e autenticadas sem passar pelas câmaras dos concelhos,


com a imposição de que em todos os concelhos os escrivães copiem num livro de
pergaminho todas as escrituras pertencentes aos concelhos – o traslado, dessa lei, para
o concelho de Ponte de Lima, foi tirado do “quarto lyuro da rreformacom das hordenaçons
que hamda em a nosa chamcilaria”[1].
No que concerne ao livro V das Ordenações Afonsinas, uma passagem do livro II
refere-o como o “quinto Livro da Nossa Compillaçom”[2] e o índice dos títulos, no manuscrito
da Câmara de Santarém, aparece como “Tauoa dos titollos do quinto liuro da reformaçom
noua das ordenaçõoes”[3]. Não duvido que fosse esta a identificação costumada dos cinco
livros, pelo menos até ao aparecimento das Ordenações Manuelinas. Assim o certifica
a anotação feita, em 21 de Junho de 1508, quando, por determinação de Domingos
Dias, escrivão da Câmara de Santarém, se procedeu à encadernação dos livros das
ordenações, à custa do concelho, por andarem de todo desmanchados:

“Estes cimqo liuros das reformaçõees primeiro 2º 3 4 V som da Camara desta muy
nobre e sempre leall villa de Samtarem e os mandou emcadernar por andarem de
todo desmanchados Domingos Dyaz estpriuam da camara a xxj dias de Junho de
mill bc e biij anos aa custa do Concelho”[4]

Fica assim definitivamente assente que, não faz qualquer sentido, utilizar a
distinção entre livro I das ordenações e livro III da reforma das ordenações, para alicerçar
a diferença de estilo do livro I das Ordenações Afonsinas em relação aos restantes.
Até porque, no Livro das Posturas Antigas da Câmara de Lisboa também se refere
um “capitulo da hordenaçom que he no terçeiro liuro das ordeações(sic) no tytollo dos
que podem trazer seus contentores aa corte per rrezam de seus depriujlegeos o quall
capitulo he este que se ssegue”[5] – transcrevem-se os parágrafos 5 e 6, do título 4, do
livro III das Ordenações Afonsinas.
Mas, o que é surpreendente, todo este discurso não tem qualquer razão de ser,
uma vez que a conjectura de Espinosa peca logo na génese, isto é, no documento por ele
invocado, imediatamente no primeiro fólio, onde se começa a transcrição do regimento
dos alcaides-mores dos castelos, se refere expressamente o “primeiro liuro da reformaçõ
das hordenaçooees que andam em a nosa chamcelaria” e ao terminar diz que mandou dar
o traslado em pública forma, “aasy e pella guysa que em os dittos liuros da reformaçom
he escripto e contheudo”[6]. Sobre o livro III, diz que “no terceyro liuro da reformaçom das
hordenaçooees que anda em a nossa chamcelaria he contheuda huã hordenaçom da quall
o teor he este que se segue…”[7]. Esta certidão régia transcreve quatro títulos do livro
I das Ordenações Afonsinas (título 62, de fls. 1-6v / título 30, de fls. 7-11v / título 28, de
fls. 11v-15v / título 31, de fls. 15v-19) e um do livro III (título 53, de fls. 24-25), mas
transcreve também o título 63 do livro II (de fls. 19-23v), sem no entanto fazer qualquer
referência expressa a este livro[8].

1
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º 28.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 54.
3
IAN/TT – Núcleo Antigo, n.º14.
4
IAN/TT – Núcleo Antigo n.º14, Livro V das Ordenações Afonsinas, da Câmara de Santarém, fl. 131v.
5
Livro das Posturas Antigas. Leitura paleográfica e transcrição de Maria Teresa Campos Rodrigues. Câmara
Municipal de Lisboa, Lisboa, 1974, pp. 132-133.
6
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º 172, fls. 1 e 22, respectivamente.
7
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º 172, fl. 24.
8
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º172. José Anastácio de Figueiredo, que também compulsou esta certidão,

18
José Domingues

A única conclusão que me é possível é a de que nenhum dos dois autores acima
identificados tenha consultado o documento no original, ressalve-se, no entanto, que
na capa do documento, em letra de época diferente, se refere o “Liuro primeiro das
ordenações del Rei D. Afonso”. De qualquer forma, penso que todo o equívoco terá sido,
inadvertidamente, provocado por João Pedro Ribeiro – que serviu de apoio a Espinosa
Gomes da Silva[1] – quando na sua memória sobre as Ordenações Afonsinas divulgou:

“No Real Archivo / Maço 1.º de Leys N. 172 / se acha huma Certidão passada em
nome do Senhor D. Affonso 5.º a 27 de Agosto do anno de 1447 a Ruy Borges de
Souza Alcaide Môr de Santarem de alguns regimentos extraida do primeiro Livro das
Ordenaçoens e do 3.º das reformaçoens das Ordenaçoens que anda na nossa Chancellaria:
cujo theor confere com o das Ordenaçoens do Senhor D. Affonso 5.º nos Titulos ahi
citados dos Alcaides mores, do pequeno, Almotacee, das armas &ª.”[2]

Assim, tomando o fio à meada, numa primeira fase, desde a elaboração da


colectânea e da sua anunciada data de conclusão – 28 de Julho de 1446, na vila de
Arruda, actual Arruda dos Vinhos[3] – até ao surgimento das Ordenações Manuelinas, os
cinco livros das Ordenações Afonsinas eram vulgarmente identificados como livros da
reformação das ordenações.
No ano de 1512/13, remate de uma árdua tarefa, surge a primeira edição impres-
sa das Ordenações do Venturoso. É natural que, a partir desse momento, as Ordenações
Afonsinas passem a ser identificadas de uma maneira distinta. Infelizmente, entre esta
e a edição definitiva de 1521, não abundam as referências documentais. De qualquer
forma, uma referência exacta à colectânea afonsina é a do cronista-mor, Damião de
Góis, que a identifica com as Leis e Ordenações Antigas do Reino:

“El-rei D. Emanuel foi naturalmente amador de honra e desejoso de deixar de sim


memoria e boas leis e foros a seus sugeitos e vassalos, do que movido começou
neste anno de mil e quinhentos e cinco hum negocio de muito trabalho que foi
mandar reformar as Leis e ordenações antigas do regno e acrescentar nellas algumas
cousas que lhe pareceram necessarias…” [4]

Elaborado e editado o novo compêndio legislativo, parece evidente que o


antecedente passe a ser considerado o antigo. Num assento da Relação, de 6 de Maio de
1512, refere-se expressamente a Ordenação antiga, a qual só pode ser a das Ordenações
Afonsinas, no seu livro 5, título 7, § 5. Pelo menos, assim o entenderam José Anastácio

refere que os regimentos e títulos (que identifica) foram “extraídos dos livros 1, 2 e 3 da Reformação das Orde-
nações”, que andavam na Chancelaria, no entanto, o livro 2, no documento, não é expressamente referido
como tal. [Cfr. José Anastácio de FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica de subsídios ainda os mais raros para a
historia e estudo critico da legislação portugueza, Mandada publicar pela Academia das Sciencias de Lisboa,
Tomo I, Lisboa, na Officina da mesma Academia, 1790, p. 43].
Vide também, João José Alves DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas. Reprodução fac-símile da edi-
ção de Valentim Fernandes (Lisboa, 1512-1513). Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de
Lisboa, Lisboa, 2002, p. IX, que a propósito da ordenação do livro II refere: “encontra-se transcrita outra
ordenação, como se, aparentemente, pertencesse ao “primeiro livro”, mas que correspondia, no actual sistema, ao tít.
º 63 do livro segundo”.
1
SILVA, História do Direito, p. 191, nota 2.
2
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, op. cit., pp. 122-123. Note-se a se-
melhança da escrita deste autor e dos referidos.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, § 31, p. 404.
4
Damião de GÓIS, Chronica do Serenissimo Senhor Rei D. Manoel, Lisboa, 1749, 1ª parte, capítulo 94, p. 127.

19
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

de Figueiredo[1] e o prefaciador das Ordenações Manuelinas, Francisco Xavier de Oliveira


Matos[2], na edição do ano de 1797, levada a efeito em Coimbra, pela Real Imprensa
da Universidade[3]. Esta referência é perfeitamente compatível com o término da
impressão do livro V – o primeiro a ser impresso – em 30 de Março de 1512[4]. Mas não
deixa de ser curioso que, mesmo antes da impressão dos restantes quatro livros[5], já se
refira a ordenação antiga, pressupondo a existência de uma nova (em vigor?).
Se existe arcano que tem, expressamente, atarefado todos os investigadores da
imprensa quinhentista e, sobretudo, da impressão das ordenações do reino, é o das
várias impressões das Ordenações Manuelinas.
Durante muito tempo, embora não havendo total consenso entre os autores, uma
grande maioria inclinava-se para a não existência de qualquer edição anterior ao ano
de 1514, considerando, por isso, esta a primeira impressão das ordenações do reino[6].
No entanto, o aparecimento de um livro I, datado de 1512, e um livro II, datado de
1513, veio alterar completamente a forma de entendimento da questão, mas não a
resolveu definitivamente. Após esta descoberta, a discussão passou a girar em torno
de uma edição completa ou parcial e igual ou diferente, da de 1514. Tito de Noronha,
primacial interessado oitocentista no tema – e um dos que se retrataram do engano
cometido de refutar qualquer impressão antecedente a 1514 – acabou por aventar a
tese de se tratar de uma impressão parcial, completada pela de 1514. Segundo este
autor Valentim Fernandes terminou a impressão do livro I em 17 de Dezembro de 1512
e a do livro II em 19 de Novembro de 1513, Bonhomini a do livro III em 11 de Março
de 1514, a do livro IV em 14 de Março de 1514 e a do livro V em 18 de Maio de 1514; e
só passados cinco meses é que este último reimprimiu o livro I, em 30 de Outubro de
1514, e o livro II, em 15 de Dezembro de 1514[7], concluindo:

“Temos pois como certo, salvo o apparecimento de exemplar que testefique o


contrario, que Valentim Fernandes apenas imprimio os dois primeiros livros das
Ordenações, tendo a edição sido completada por Bonhomini, o que aliás justifica
a sem-rasão d’este último ter impresso os livros 1º e 2º muito posteriormente aos
tres últimos.”[8]

Esta tese de que a edição de Valentim Fernandes ficara truncada generalizou-se e, ao


longo de quase um século, angariou diversos seguidores, até que Marcello Caetano, no
prefácio à edição do Regimento dos Oficiais, destaca a “terminante e repetida declaração
de que os três últimos livros eram de 1514 impressos pela segunda vez” e argumenta com
o regimento que D. Manuel deu a Simão da Silva, em 1512, “indício importante de que

1
FIGUEIREDO, Synopsis Chronologic, p. 171.
2
Diccionario Bibliographico Portuguez, estudos de Innocencio Francisco SILVA applicaveis a Portugal e ao
Brasil. Tomo III, Lisboa, na Imprensa Nacional, 1859, p. 93 (reedição).
3
Francisco Xavier de Oliveira MATOS, Prefação às Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel, Coimbra, Real Im-
prensa da Universidade, 1797 (Fac-simile com o título Ordenações Manuelinas, Lisboa, Fundação Calouste
Gulbenkian, 1984 – salvo indicação em contrário, será esta a edição citada à frente), Livro I, p. VIIII e nota c).
4
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XIX.
5
A impressão do livro IV acabou-se a 19 de Junho de 1512, a do livro III a 30 de Agosto de 1512, a do livro
I a 17 de Dezembro de 1512 e a do livro II a 19 de Novembro de 1513. Cfr. DIAS, Introdução às Ordenações
Manuelinas, pp. XIX-XX e XXIX (nesta página, para o livro IV indica-se, por lapso, o dia 29).
6
Nomeadamente, João Pedro Ribeiro, no vol. IV, pp. 332-336, nota a), do seu Indice Chronologico.
7
Tito de NORONHA, “Ordenações do Reino – Edições do Século XVI”, in Archeologia Artística, publ. Por
Joaquim de Vasconcelos, ano 1.º, vol. I, fasc. II, Porto, 1873, pp. 22-23.
8
NORONHA, “Ordenações do Reino – Edições do Século XVI”, p. 24.

20
José Domingues

foram impressas totalmente as Ordenações nesse ano, visto como o regimento se refere às
penas criminais que constam do livro 5.º”[1].
Braga da Cruz envereda pela mesma cartilha e argumenta a existência dessa edição
completa, mas diferente da de 1514[2]. Imediatamente a seguir, Espinosa Gomes da Silva,
concordando com a existência de uma edição completa anterior à de 1514, aventa
tratar-se da “impressão de um mesmo texto, confiado a dois diferentes impressores”[3]. No
sentido de vincar o seu parecer, Martim de Albuquerque dá uma exegese complementar
desta conjuntura nos últimos 40 anos, desde 1955 até 1996[4], com o aparecimento dos
primeiros préstimos à questão de João José Alves Dias. As derradeiras devassas, deste
último autor, revelaram o aparecimento dos exemplares que Noronha reivindicou
para testemunhar o contrário, Caetano pressagiou e ficou à espera, mas talvez eternamente,
acrescentou Braga da Cruz. Nenhum deles a pode tactear, mas quem espera sempre
alcança, e eis que a colecção completa de Valentim Fernandes surge esconsa em
biblioteca italiana[5]. Para Alves Dias as impressões de 1512/13 e 1514 são duas edições
do “primeiro sistema” e a impressão de 1521 (acabada em 11 de Março) é a edição do
“segundo sistema” das Ordenações Manuelinas.
Após a publicação definitiva das Ordenações Manuelinas, em letra de imprensa,
são bastante minguadas as referências documentais e escassos os autores que dedicam
algum cuidado às Ordenações Afonsinas – o que não admira, pois perderam qualquer
relevância prático-jurídica. Começando pela própria colectânea manuelina, vislum-
bra-se, imediatamente, um propósito de demérito sobre a antecedente, evitando-se
qualquer referência expressa, a não ser a necessidade da sua reforma e actualização,
expressa no seu prólogo:

“Pelo qual vendo Nós, como nas Ordenações pelos Reys Nossos Antecessores,
e per Nós ategora feitas, a muitos casos nom era prouido, e em alguãs hauia
diuersos entendimentos; e assi per andarem espalhadas, donde aos Julguadores
recresciam muitas duuidas, e aas partes grande perda: E querendo nisso prouer,
Determinados com os do Nosso Conselho, e Letrados, reformar estas Ordenações,
e fazer noua Copilaçam, de maneira que assi dos Letrados, como dos outros se
possam bem entender”[6]

Repare-se que, mesmo assim, parece querer evitar-se qualquer referência expressa
à colecção anterior do reinado de Afonso V, referindo-se apenas, ambiguamente, as
ordenações dos reis antecessores e a nova compilação. No entanto, a influência das Afonsinas
sobre esta nova compilação é incontestável. Quanto à organização formal, manteve‑se

1
Marcello CAETANO, Regimento dos oficiais das cidades, vilas e lugares destes reinos, (publicação e prefácio da
primeira lei impressa em Portugal), 1955, p. 38 e nota 1.
2
Braga da CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, sep. da Revista Portuguesa de
História, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Tomo XIV, vol. III em homenagem ao Doutor
Paulo Merêa, Coimbra, 1975, p. 234, VIII, nota 59.
3
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, “Algumas notas sobre a edição das Ordenações de 1512-1513”, in Scien-
tia Iuridica, tomo XXVI, n.os 148-149, Setembro-Dezembro, Braga, 1977, pp. 575-593.
SILVA, História do Direito, p. 208, nota 1. Com referência de bibliografia, para as diversas teses.
4
Martim de ALBUQUERQUE, “A Edição «Definitiva» da História do Direito Português de Marcello Cae-
tano”, in Estudos de Cultura Portuguesa, 3.º vol., Lisboa, 2002, pp. 223-236. (pela 1.º vez publicado em Revista
da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, vol. 41, n.º2, Coimbra, 2000).
5
Vide, por todos, a Introdução e extensa bibliografia apresentada por Alves DIAS às Ordenações Manuelinas,
Lisboa, 2002.
6
Ordenações Manuelinas, Liv. I, Prólogo.

21
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

a divisão em cinco livros, mantendo-se também o objecto em geral de cada um –


com o evidente afastamento dos títulos que, sobretudo no livro II, se referiam aos
judeus, expulsos em 1496, e das leis da fazenda real, que passaram a fazer parte das
Ordenações da Fazenda, de 1516[1]. Quanto à organização material, uma breve sondagem
às “Fontes Internas do Código Manuelino de 1521”, da autoria de Francisco Xavier de
Oliveira Matos, salienta uma indiscutível correspondência com muitos dos títulos das
Ordenações Afonsinas, mas com nova redacção e incorporando a respectiva legislação
extravagante[2]. Veja-se também a correspondência temática entre o livro I das Afonsinas
e o livro I das Manuelinas, em Carvalho Homem[3].
Sem desviar qualquer mérito à reforma manuelina, escudada nos abonados
préstimos da imprensa quinhentista, seria uma iniquidade não reconhecer o trabalho
inovador e subversivo dos compiladores afonsinos. Os reformadores manuelinos
retiram a legislação revogada, acrescentam a extravagante, adoptam integralmente
o estilo legislatório (salvo o título da lei mental – título 17 do livro II) e cuidam
particularmente da linguagem, desvinculando-se da rigidez de um sistema medieval
espartilhado por uma transcrição integral dos diplomas, das suas datas e dos nomes
dos seus autores e subscritores. Mas, na sua génese, a maioria dos diplomas coligidos
nas Ordenações Afonsinas, mantêm-se nas Ordenações Manuelinas[4]. Até mesmo quanto
ao prólogo, as Ordenações Manuelinas não se conseguiram libertar completamente das
suas antecessoras. A título de exemplo, confronte-se a passagem seguinte:

Ordenações Afonsinas:
“Todo o poderio, e conservaçom da Republica procede principalmente da raiz,
e virtude de duas cousas, a saber, Armas, e Leyx; e per vigor dellas ambas
juntamente o Imperio Romaano foi nos tempos passados antre todalas Naçoões
triunfante, e será com a graça de Deos ao diante sempre anteposto; e pero que
estas cousas ambas juntamente sejam em si muito virtuosas, e de grande valor,
seendo porem ambas apartadas huã da outra, nom podem autoalmente durar per
longo tempo, pola grande, e casi individua afeiçom, que antre ellas he; a qual per
necessidade de grande indigencia he tão conjunta antre ellas, que necessariamente
faz huma conseguir a outra, e esto se vee claramente per evidente esperiencia: ca o
estado Militar per bem da justiça he collocado em boom assessego, e a justiça per
defendimento das Armas he conservada em seu verdadeiro seer, e trazida a fim
de boa eixecuçom”[5]

Ordenações Manuelinas:
“E como quer que este Estado e Republica consista principalmente, e se sustenha
em duas cousas, em Armas, e em Leys, e huã haja mester a outra; porque assi
como as Leys com a força das Armas se mantem, assi a Arte Militar com a ajuda
das Leys he segura, e com estas duas cousas os Romanos grande parte do mundo
sujuguaram”[6]

1
SILVA, História do Direito, p. 209.
2
Ordenações Manuelinas, Liv. I, Fontes Internas do Código Manuelino de 1521, pp. XXXI-LXXVI..
3
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Ofício régio e serviço ao Rei em finais do século XV: Norma legal
e prática institucional”, Revista da Faculdade de Letras – História, série II, vol. 14, Porto, 1997, p. 137.
4
Já Alvares da Silva tinha notado que “Algumas vezes os Compiladores do Codigo Manuelino transcrevem
por formaes palavras a Legislação do Senhor D. Affonso V como he no L. 4 o T. 2 que he o § 5 do L. 4 dos
Artigos das Sizas do mesmo Senhor D. Affonso V”. [José Virissimo Alvares da SILVA, Introducção ao Novo
Codigo ou dissertação crítica sobre a principal causa da obscuridade do nosso codigo authentico, Lisboa, Na Regia
Officina Typografica, 1780, p. 12].
No mesmo sentido, SILVA, História do Direito, p. 209.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. I, pp. 3-4.
6
Ordenações Manuelinas, Liv. I, prólogo, p. II.

22
José Domingues

Flagrante é o caso da lei de D. Manuel, de 07 de Abril de 1506, “dos que fazem


moeda falsa ou a despendem ou cerceiam e do ourives que faz alguma falsidade em sua obra”,
transcrita nas Manuelinas[1], que é, no fundo, uma cópia latente do aclaramento do
compilador das Afonsinas à lei “dos que fazem moeda falsa”[2]. Dependendo do ponto de
vista, também se pode entender que “a remodelação foi efectivamente profunda”[3].
Este evidente desígnio de, por um lado, dissimular qualquer semelhança e, por
outro lado, sepultar no esquecimento a colecção anterior[4], permite, à falta de provas
concretas, pressagiar que o monarca tenha também providenciado a sua destruição[5], tal
como fez, por carta de 15 de Março de 1521, com as suas anteriores edições impressas:

“E assim que, dentro de três meses, qualquer pessoa que tiver as Ordenações da impressão
velha a rompa e desfaça de maneira que não se possa ler, sob pena de pagar qualquer pessoa
a quem forem achadas, passado o dito tempo e as tiver, 100 cruzados, a metade para quem os
acusar e a outra metade para os cativos, e mais ser degradado por dois anos para além”[6]

As sequelas deste propósito, aliadas a um total desinteresse pelos estudos de


História do Direito pátrio, levaram à escassez de autores e documentos que, até ao
final do século XVIII, se debruçassem sobre as Ordenações Afonsinas. De qualquer
forma, seguindo de perto as indispensáveis advertências de João Pedro Ribeiro[7] e
acrescentando-lhe outras, a conclusão sobre os autores que, posteriormente a 1521, se
referem às Ordenações Afonsinas, só pode ser a de que todos estão em perfeito consenso,
adjudicando esta obra ao rei Africano. Senão vejamos.
Ainda não consegui localizar a obra manuscrita de Francisco Coelho, composta
no século XVI, por ordem de D. João III, sobre as ordenações, mas, pelos excertos de
João Pedro Ribeiro, nela se alude várias vezes às Afonsinas[8]. Uma lei desse reinado
refere a compilação afonsina por “Ordenações antigas feitas pelos Reis meus antecessores”[9].

1
Ordenações Manuelinas, Liv. V, Tít. 6.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 5.
3
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, pp. XVI-XVII.
4
Repare-se, penso que não se deve interpretar este acometimento contra as colecções anteriores como um
mero plagiato mal intencionado, mas antes como indispensabilidade de definir com clareza o que estava em
vigor e o que ficava revogado, tão importante no âmbito do direito positivo e, sobretudo, numa época em
que a difusão do direito novo é bastante problemática.
5
Só um desbarato premeditado pode explicar que tenham sumido, do arquivo nacional, todos os originais
das Ordenações Afonsinas e o Abreviamento feito no tempo de D. João II.
6
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XXXII.
NORONHA, “Ordenações do Reino – Edições do Século XVI”, op. cit., pp. 16-17.
CAETANO, História do Direito, p. 625.
7
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 123: “Entre os poucos Escritores
Portuguezes que se lembrão deste Codigo acho os seguintes – Damião de Goes Chronica de D. Manuel P. 4
Cap. 86 – Ruy de Pina Chron. Do Senhor D. Duarte Cap. 7 – Reynozo Observaçoins na 61. N. 61 – Barboza
nas Remissoins ao Titulo 47 do Livro 5.º - Pereira de Manu Regia no Preambulo à Concord’ de D. Diniz – D.
Thomaz H. Ecl. Lus. T. 1 Proleg. Cap. 4.º; pag. 66 – Hist. Genealogica nas Provas T. 3.º pag. 361 e em outras
partes – Monarchia Lusitan. T. 8 L. 22 Cap. 30 e T. 6º L. 18 Cap. 4 folhas 11 – O Shor D. Jozê na L. de 12 de
Mayo de 1769 – Os Novos Estatutos da Universidade L. 2.º T. 3º Cap. 9 § 4 – Introducção ao Novo Codigo
pag. 8 nota e)”.
8
João Pedro RIBEIRO, “Memoria Sobre a Obra imcumbida pelo Senhor Rei D. João III ao Desembargador
Francisco Coelho, acerca das Ordenações do Reino”, Indice Chronologico Remissivo da Legislação Portugueza
posterior à publicação do Codigo Filippino, Parte IV, Academia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa, na Typo-
grafia da mesma Academia, 1807, pp. 325-347.
9
RIBEIRO, Indice Chronologico, vol. IV, p. 332.
NORONHA “Ordenações do Reino – Edições do Século XVI”, p. 4.

23
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

Uma das mais vetustas referências que, expressamente, adjudica a colectânea das
Ordenações ao rei D. Afonso V, parece ser a da Crónica de D. Manuel, da autoria de
Damião de Góis [1502-1574], que segue aspada:

“Mandou per homens doctos de seu conselho visitar, e rever os cinco liuros das
ordenações, que el Rei dom Afonso quinto, seu tio fez reformar, sendo regente o Infante
dom Pedro seu tio, por elle ser de menor idade, nas quaes mandou diminuir, e
acrescentar aquillo que pareceo necessario pera bom regimento do regno, e ordem
de justiça no que se trabalhou muito, e tanto tempo que foi a mor parte de todo o
que elle regnou.”[1]

No princípio do século XVII também se identifica claramente esta obra com D.


Afonso V. No Inventário da Livraria antiga da Sé de Braga, de 4 de Novembro de
1612, se refere “Hum livro de letra de mão antiga, das Ordenações del Rey Dom Afonso”[2].
Gabriel Pereira, na sua obra De manu regia, refere várias vezes o livro segundo del Rey
Dom Afonso V, a propósito das concordatas de D. Dinis, D. Pedro e D. João I[3]. Numa
certidão, datada de 10 de Setembro de 1639, onde Tomé Pinheiro da Veiga testemunha
o que sabia sobre o Livro das Leis de D. Afonso II, a propósito das concordatas de D.
Dinis, se refere o “liuro das ordenações 2º delRey D. Afonso 5º”[4]. E num inventário da
Casa da Coroa (Torre do Tombo), rente ao ano de 1656, arrolaram-se “Três livros das
ordenaçoes d’el Rey D. Affonso 5.º”[5].
Pelo menos dois dos derradeiros progenitores da Monarquia Lusitana compulsaram
os pesados volumes manuscritos das Ordenações Afonsinas. Frei Francisco Brandão,
em 1650, refere “As Ordenações que agora temos mandadas copiar primeiro por elRey
D. Afonso Quinto, & aperfeiçoadas pelos Reys subsequentes”[6]. Em 1672, o mesmo
autor – na parte sexta, livro 18, capítulo 4 – ao referir a legislação sobre judeus, refere
as “Ordenações d’el Rey Dom Afonso V”[7]. Frei Manuel dos Santos, na parte oitava,
publicada no ano de 1727, a partir do título 62 do livro II, das “Ordenações antiguas, que
publicou ElRey D. Affonso V”, transcreve a Ordenação de D. Fernando sobre a jurisdição
dos donatários, publicada em Atouguia, aos 13 de Setembro de 1375[8].
A reabilitação do estudo do direito pátrio, pelos Estatutos Pombalinos da
Universidade de Coimbra de 1772, impõe o estudo da “Compilação do Senhor Rei Dom
Affonso V organizada por ordem synthetica”[9], que, passada uma década, a Real Imprensa

1
Damião de GÓIS, Crónica de D. Manuel. 4ª parte, capítulo 86, p. 603.
2
Avelino Jesus da COSTA, A Biblioteca e o Tesouro da Sé de Braga nos séculos XV a XVIII, Braga, 1985, p. 100.
3
Gabriel Pereira de CASTRO, De manu regia tractatus prima [secunda] pars, Ulyssipone, apud Petrum Craes-
beeck, 1622-1625. (2.ª edição 1673), pp. 350,356,400.
4
Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, p. 4.
5
Fernanda RIBEIRO, “Como seria a estrutura primitiva do Arquivo da Casa da Coroa (Torre do Tombo)?”.
Os Reinos Ibéricos na Idade Média. Livro de Homenagem ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero
Moreno. Coordenação Luís Adão da Fonseca, Luís Carlos Amaral e Maria Fernanda Ferreira Santos. Facul-
dade de Letras da Universidade do Porto e Livraria Civilização, 2003, p. 1412.
6
Frei Francisco BRANDÃO, Monarquia Lusitana, Parte V, Lisboa, 1650, Liv. I, p. 170 (edição fac-similada,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1988).
7
BRANDÃO, Monarquia Lusitana, Parte VI, Lisboa, 1672, Liv. XVIII, Cap. IV, pp. 13,14 e 17.
8
Frei Manuel dos SANTOS, Monarquia Lusitana, Parte VIII. Lisboa, 1727, Liv. XXII, Cap. XXX, p. 212 (edição
fac-similada, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1988).
9
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica, 1773,
Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 4, pp.
160 e 161.

24
José Domingues

da Universidade de Coimbra, deu pela primeira vez à estampa com o título de


“Ordenaçoens do Senhor Rey D. Affonso V”[1]. O Demétrio Moderno refere “As compilações
de todas as Leis, que fizerão os Senhores Reys D. Duarte, e D. Affonso V”[2]. Melo Freire,
nas suas lições chama-lhe, sobretudo, “Código Afonsino”. José Anastácio de Figueiredo
refere-a como “Compilação, Ordenações ou Codigo Affonsino e Codigo ou ordenação do Senhor
Rei D. Affonso V”[3]. João Pedro Ribeiro [1758-1839] deixou manuscrita uma “Memoria
sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, publicada por António Cruz[4]. Francisco
Sampaio, nas suas Prelecções de Direito Pátrio Público, aventa expressamente que “O
Primeiro Codigo he o Affonsino”[5] e assim, sucessivamente, outros autores.
Pelo que consegui apurar, dos primeiros autores a adoptar a identificação
sistemática de “Ordenações Affonsinas”, parece ter sido Coelho da Rocha[6], no que foi
seguido pelos seus sucessores, nomeadamente Alexandre Herculano, generalizando‑se
e conquistando autoridade esta designação, até à actualidade.
Resumindo, há muitos séculos enterrada na tumba do esquecimento a designação
originária de livros da reformação das ordenações que andam na Chancelaria, todos os
autores e documentos, sem qualquer excepção, atribuem esta obra compilatória, de
uma forma ou de outra, a el-rei D. Afonso V. No entanto, como ficou referido no início
deste capítulo, veio, recentemente, pôr-se em causa esta terminologia secular. Segundo
Luís Miguel Duarte, o único mérito deste reinado foi o da conclusão da obra – e mesmo
assim durante a menoridade do monarca, sob a regência do infante D. Pedro –, que
teria sido iniciada muitos anos antes do nascimento de D. Afonso V, ainda durante
o reinado do Mestre de Avis, e atravessado todo o de seu pai, D. Duarte[7]. No mesmo
sentido, Carvalho Homem, escreve: “tendo sido o regente D. Pedro responsável por apenas
uma fase final de cerca de 7 anos (1439-1446) do processo de compilação, o facto é que as OA
passaram à História como obra sua”[8].
Mas será que, afinal, estamos perante mais um daqueles erros grosseiros da
História?
Penso que não, mas uma tentativa de resposta satisfatória implica uma análise
de todo o processo de compilação das Ordenações Afonsinas, com a minúcia que a
documentação relutante ainda permite, tarefa reservada para o segundo capítulo desta
investigação, ficando também para lá adiada essa tentativa de resposta.

1
Esta primeira edição das Ordenações Afonsinas integrava o plano de maior âmbito designado por “Collec-
ção da Legislação Antiga e Moderna do Reino de Portugal. Parte I. Da Legislação Antiga”. Na parte da Legislação
Antiga foram também incluídas as Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel (3 vol.), Leis e Provisões que El-Rey
D. Sebastião fez... (2 vol.) e o Repertório dos cinco livros das Ordenações do Senhor Rei D. Manuel com adições das
leis extravagantes, de Duarte Nunes de LEÃO. Esta primeira edição das Ordenações Afonsinas irá servir para
a edição “fac-simile” de 1984, da Fundação Calouste Gulbenkian, enriquecida com Nota de Apresentação
de Mário Júlio de Almeida COSTA e Nota Textológica de Eduardo Borges NUNES.
2
António Barnabé de Elescano Barreto ARAGÃO e Lino da Silva GODINHO, Demétrio Moderno, ou o Bi-
bliografo Jurídico Portuguez, na Officina de Lino da Silva Godinho, Lisboa, 1781, pp. 39-42.
3
FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, pp. 32-43.
4
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”.
5
Francisco Coelho de Souza e SAMPAIO, Prelecções de Direito Patrio Publico e Particular, Coimbra, na Real
Imprensa da Universidade, 1793, p. 4.
6
M. A. Coelho da ROCHA, Ensaio sobre a Historia do Governo e da Legislação de Portugal para servir de introduc-
ção ao estudo do direito pátrio, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1843, pp. 119 e ss.
Nas Lições de Direito Pátrio de Ricardo Raymundo Nogueira já consta Ordenações Afonsinas. Embora se trate
de lições proferidas ao ano de 1795/96 a sua publicação é de 1866.
7
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 93-94.
8
HOMEM, “Ofício régio e serviço ao Rei em finais do século XV”, p. 127.

25
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

2. Anais Bibliográficos da “Mais Antiga” Compilação de Leis do Reino de Portugal


O título supra, que apadrinha este segundo ponto, dá-nos uma curta ideia da
rusticidade e importância do tema tratado. No entanto, coloca-se entre aspas as
palavras “mais antiga”, pela contingência, sempre sujeita a eventual correcção, de se
poder qualificar como a mais antiga[1].
No título anterior ficou razoavelmente assinalado o empenho dos jurisconsultos
manuelinos e subsequentes em deixar no olvido álgido dos séculos esta abalizada
compilação de meados de quatrocentos. No entanto, a partir da segunda metade
do século XVIII, a sua importância e elevado interesse criados no seio da coeva
comunidade científica lançaram uma busca aturada aos pergaminhos avelhentados
e produziram uma copiosa bibliografia, manuscrita e impressa, disseminada pelas
estantes contorcidas das bastas bibliotecas públicas e privadas. Ao injusto silêncio dos
séculos XVI e XVII, e primeira metade do XVIII, seguiu-se um entusiasmo incontrolado
até aos nossos dias, de forma que se torna bastante difícil, ou mesmo impossível,
elaborar uma moldura exacta de todas as obras e autores que, desde o recuo do século
XV até ontem à tarde, sobre ela se tenham debruçado[2]. Apesar de tudo, nas linhas que
se seguem, fica uma tentativa dessa moldura bibliográfica hodierna.
Recuando à época das Ordenações Afonsinas, a base de uma pesquisa bibliográfica
teria que começar pelas crónicas do acreditado Fernão Lopes. Tendo em atenção a
absoluta coetaneidade[3] destas crónicas e a formação tabeliónica (por isso, também
jurídica) do seu autor, esta seria a primordial fonte orientadora, surgindo o guarda‑mor
da Torre do Tombo em condições de, melhor do que ninguém, avaliar e apreender a
elevada importância desta reforma jurídica. No entanto, por mais que folheasse as
duas partes da Crónica de D. João I, não encontrei qualquer indício relativo ao começo
e faina de compilação das ordenações do reino e a correlativa penúria de notícias sobre
o afamado jurista e um dos pretensos compiladores do direito pátrio – o Doutor João
das Regras – já foi antecipada por Espinosa Gomes da Silva[4]. Ou seja, este mutismo

1
No entanto, até hoje não se lhe conhece precedente e assim tem sido qualificado em vários estudos. Por
exemplo, FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, p. 32: “Codigo das nossas Leis Patrias, certamente o primeiro, que
dellas se fez na nossa Monarchia”.
Francisco Coelho de Souza e SAMPAIO, Prelecções de Direito Patrio Publico e Particular, Coimbra, na Real
Imprensa da Universidade, 1793, p. 4: “O Primeiro Codigo he o Affonsino”.
Armando Luís de Carvalho HOMEM, Rei e «Estado Real» nos textos legislativos da Idade Média Por-
tuguesa, sep. Carlos Alberto Ferreira de Almeida in memoriam, Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, p. 392: “O concretizar de uma primeira compilação de leis com as OA”.
Maria do Rosário de Sampaio THEMUDO, “A Propósito de Medievalidade e de Modernidade nas Primei-
ras Ordenações Portuguesas”, Pensamiento Medieval Hispano, Homenaje a Horacio Santiago-Otero, Madrid,
1998, vol. 1, pp. 465-472.
2
Uma lista bibliográfica, assaz preenchida, sobre as Ordenações Afonsinas pode ser consultada no artigo
Ordenações, da autoria de Almeida Costa, no Dicionário de História de Portugal e reproduzida na colectânea
“Temas de história do direito”, no Boletim da Faculdade de Direito, vol. XLIV, Coimbra, 1968, pp. 259-270. No
entanto, desde a data desta publicação, já lá vão quase quatro décadas, muita bibliografia foi editada.
3
“É provável que tenha nascido em Lisboa ou arredores, entre 1380 e 1390, e que tenha morrido na mesma
cidade, pouco depois de 1459. (...) Em 19 de Maio de 1434, o rei D. Duarte faz saber que tinha dado cargo
a Fernão Lopes, seu escrivão, de “poer em caronyca as estorias dos Reys que antygamente em portugal
forom Esso meesmo os grandes feitos e altos do muy uertuosso E de grandes uertudes Elrey meu Senhor e
padre”. Cfr. Maria Ângela BEIRANTE, “Introdução à 1.ª parte da Crónica de D. João I de Fernão Lopes”, in
Fernão LOPES – Crónica de D. João I, primeira parte, Códice iluminado da Biblioteca Nacional de Madrid,
Ediclube – Edição e Promoção de Livro, Lda., p. 37.
4
“(...) a figura do chanceler, dum modo geral, pouco mais é que um nome isolado e sem ligações no meio
da narrativa, retratado com os habituais e incaracterísticos panejamentos de ocasião: [transcreve algumas
passagens da Crónica de D. João I] Termos estes que dada a sua fungibilidade, podiam bem pertencer a

26
José Domingues

revelou-se, imediatamente, uma notável lacuna – que não podia deixar de evidenciar,
por motivos que expressarei à frente – na bibliografia diligenciada[1].
Em 1454, por ser “velho e flaco”[2], Fernão Lopes é substituído, nos cargos de
guarda das escrituras do Tombo e de cronista-mor do reino, por Gomes Eanes de
Zurara, que parece ter lido pelo mesmo breviário, pois também não contempla as
Ordenações Afonsinas. Este descuido dos cronistas já ficou bem declarado por Espinosa
Gomes da Silva:

“os cronistas nunca dedicaram grande atenção à feitura das várias Ordenações. No que
toca às próprias Ordenações Afonsinas, a sua história não é feita a partir das Crónicas de
D. João I, de D. Duarte, do Infante D. Pedro ou de D. Afonso V: o que se sabe é o que consta
do proémio inicial do Livro I.”[3]

O primeiro cronista-mor a tecer uma referência, embora demasiado lacónica e


já depois de publicadas as Manuelinas, parece ter sido Rui de Pina, que na crónica de
el‑rei D. Duarte diz que este monarca mandou correger e abreviar as Ordenações do Reino,
que em seus dias se não terminaram, e seu filho, D. Afonso V, mandou reformar[4].
Estou crente ter sido esta passagem que subsidiou a crónica do mesmo monarca, da
autoria do reputado jurista quinhentista, Duarte Nunes de Leão[5].
Alguns autores que, posteriormente, conheceram esta colecção já ficaram
referenciados no título anterior: desde Gabriel Pereira, pelo menos, até aos impressores
da última década da XVIII centúria.
O laconismo dos monges alcobacenses, que compuseram a sexta e oitava partes da
Monarquia Lusitana, apenas garante a consulta do livro II, que, efectivamente, sabemos
que fez parte do cartório desse cenóbio[6]: Frei Francisco Brandão refere a legislação
dos judeus a partir da II parte das Ordenações de el-rei D. Afonso V; Frei Manuel dos
Santos refere a lei de D. Duarte porque mandou que nenhum judeu ou mouro pudesse
ser oficial de el-rei, confirmada por D. Afonso V e que anda nas suas Ordenações (Livro
II, título 85, § 3 e 4)[7]; refere também uma lei de D. Afonso IV, estando nos paços de
Valada, sobre como as comunas dos judeus hão de pagar o serviço régio, que anda
nas Ordenações de Afonso V (livro II, título 74)[8]; e transcreveu a ordenação de D.
Fernando sobre a jurisdição dos donatários, publicada em Atouguia, a 13 de Setembro
de 1375 (Livro II, título 62)[9]. É praticamente certo que este autor desconhece o livro

elogio fúnebre de jurista de segunda ordem”. Cfr. Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, “João das Regras e
outros juristas portugueses da Universidade de Bolonha (1378-1421)”, in Revista da Faculdade de Direito da
Universidade de Lisboa, vol. XII, Lisboa, 1960, pp. 223 e ss.
1
Apesar da advertência de Guilherme Braga da Cruz: “A história das Ordenações Afonsinas, é-nos dada
a conhecer dum preâmbulo das próprias Ordenações e de certas referências das crónicas de Fernão Lopes.”
[CRUZ, História do Direito, p. 380]
2
BEIRANTE, Introdução à 1.ª parte da Crónica de D. João I de Fernão Lopes, p. 38.
3
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações ao Tempo
de D. João II, Sep. do Boletim do Ministério da Justiça, n.º 309, Lisboa, 1981, p. 11.
4
Rui de PINA, Chronica do Senhor Rey D. Duarte, cap. VII.
5
Duarte Nunes de LEÃO, Crónicas, tomo 3, pp.18 e ss.
6
Cfr. Eduardo Borges NUNES, “Os manuscritos das Ordenações Afonsinas e a edição de 1792”, in Ordena-
ções Afonsinas, Livro I, Fundação Calouste Gulbenkian, Coimbra, 1998, p. 17.
7
SANTOS, Monarquia Lusitana, Parte VIII. Lisboa, 1727, Liv. XXII, p. 13. (edição fac-similada, Imprensa
Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1988).
8
Idem, p. 14. Este autor atribui-lhe a data de 10 de Novembro de 1340, mas nas Ordenações Afonsinas im-
pressas a data é de 15, com variante 16, de 1352.
9
Idem, Liv. XXII, Cap. XXX, pp. 212-216.

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As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

I das Ordenações Afonsinas, uma vez que ao transcrever os regimentos do condestável


e do marechal, a partir do “Regimento Antigo da Milícia”[1], nunca refere este livro I
das Ordenações Afonsinas, onde também constam estes regimentos. O dito Regimento
Antigo da Milícia só pode ser o códice que se guardava no cartório do mesmo mosteiro
– Regimentos de El-Rei D. Dinis para os oficiais da guerra e da casa – hoje sob a custódia da
Biblioteca Nacional[2].
Como já ficou supradito, na segunda metade do século XVIII, chegamos ao
momento da deflagração dos estudos históricos de Direito pátrio e, em simultâneo,
das Ordenações Afonsinas, com os Estatutos Pombalinos da Universidade de Coimbra de
1772, que prevêem, no Curso Jurídico, a docência de lições públicas da História Civil de
Portugal e das Leis Portuguesas, abrangendo a notícia da compilação de D. Afonso V.
Vale a pena transcrever essa passagem:

“Mostradas que sejam as Fontes assim originaes, e primarias, como derivativas,


e secundarias das Leis destes Reinos; dará o mesmo Professor noticia das
Collecções, e Compilações das Leis Patrias. Principiará pelas que foram anteriores
à fundação da Monarquia destes Reinos, e tiveram nella observancia: E proseguirá,
dando tambem a conhecer as posteriores à dita fundação, por serem muito mais
interessantes. Ensinará o que mais se ajustar à verdade sobre a Ordenação, que
se attribuio ao Senhor Rei Dom João o I, de que se dá por Author o Doutor
João das Regras. Tratará da Compilação do Senhor Rei Dom Duarte por ordem
Chronologica: Da Compilação do Senhor Rei Dom Affonso V organizada por ordem
synthetica: Da Compilação systematica do Senhor Rei Dom Manoel, da qual se
publicàram os primeiros dous Livros no anno de 1513, e os ultimos tres no de
1521: Da Collecção das Leis, e Provisões do Senhor Rei Dom Sebastião impressa
no anno de 1570: E da outra Collecção, em que Duarte Nunes de Leão ajuntou, e
substanciou as Leis Extravagantes posteriores á sobredita Compilação do Senhor
Rei Dom Manoel; tendo sido authorizado para esta obra por Alvará do mesmo
Senhor Rei Dom Sebastião”[3].

A execução pontual desses Estatutos levou a Universidade de Coimbra, depois


de ter obtido aprovação régia por resolução de 2 de Setembro de 1786, a sacudir o pó
dos alfarrábios avelhentados das Ordenações Afonsinas e a preparar a sua publicação. A
edição definitiva saiu a lume no ano de 1792 – passados 346 anos após a sua conclusão em
Arruda – da Real Imprensa da Universidade de Coimbra, com o título de “Ordenaçoens
do Senhor Rey D. Affonso V”[4]. A omissão dos impulsionadores nesta primeira edição é
colmatada pelas pesquisas de Inocêncio, que informa que o mandado e diligência se
ficou a dever a D. Francisco Rafael de Castro, principal da igreja patriarcal de Lisboa
e reitor e reformador da Universidade, nessa época. A impressão e estudo do texto foi

1
Idem, Liv. XXII, Cap. XLVIII, pp. 375-379 e 380-382, respectivamente.
2
Lisboa, BN – Alcobacenses, códice n.º293.
3
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica,
1773, Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 4, pp.
160 e 161. Com estes estatutos as leis pátrias são tiradas do vergonhoso e profundo silêncio em que jaziam.
4
Esta primeira edição das Ordenações Afonsinas integrava o plano de maior âmbito designado por “Collec-
ção da Legislação Antiga e Moderna do Reino de Portugal. Parte I. Da Legislação Antiga”. Na parte da Legislação
Antiga foram também incluídas as Ordenaçoens do Senhor Rey D. Manuel (5 vol.), Leis e Provisões que El-Rey
D. Sebastião fez... (2 vol.) e o Repertório dos cinco livros das Ordenações do Senhor Rei D. Manuel com adições das
leis extravagantes, de Duarte Nunes de LEÃO. Esta primeira edição das OA irá servir para a edicção “fac-
simile” de 1984, da Fundação Calouste Gulbenkian, enriquecida com Nota de Apresentação de Mário Júlio
de Almeida COSTA e Nota Textológica de Eduardo Borges NUNES.

28
José Domingues

entregue ao cuidado do lente substituto da Faculdade de Leis da Universidade, Dr.


Luís Joaquim Correia da Silva, que, na prefação inserida no início do livro I, faz cuidada
história da compilação e dos manuscritos conhecidos nessa era de setecentos[1].
Esta tarefa de oferecer aos interessados, bem como a todo público em geral, as
Ordenações Afonsinas em letra de imprensa, desencadeou uma busca aturada dos
manuscritos dispersos pelos cartórios e arquivos do país. Esta procura localizou o livro
II do mosteiro de Alcobaça e juntou na Torre do Tombo – onde estavam guardados os
livros II, III e IV – a invejável colecção de manuscritos do século XV das câmaras de
Santarém e do Porto e do convento de Santo António da Merceana. Pelas palavras de
um coetâneo entendido na matéria:

“No anno de 1731[2] ja se conhecião no Archivo Real da Torre do Tombo os Livros


2.º, 3.º e 4.º deste Codigo (...) Em 1777 Se recolherão ao mesmo Real Archivo
os Livros 1.º e 3.º que existião no Convento dos Capuchos de Merciana (...) Em
1776 passarão para o mesmo Archivo os Livros 1.º, 2.º, 4.º e 5.º deste Codigo, que
existião no Cartorio da Camera de Santarem (....) No anno de 1784 se recolherão
ao mesmo Real Archivo os Livros 1.º, 2.º, 4.º e 5.º da Camara do Porto (...) Em o
Real Mosteiro de Alcobaça ha hum Livro 2.º”[3]

Mas, apesar dos méritos dos empenhados e de todas as teimosas diligências


efectuadas, nunca foram encontrados os originais, inicialmente, depositados na
Chancelaria Régia – provavelmente destruídos por resolução régia, quando foram
elaboradas as Manuelinas. Os primeiros proveitos dessa busca persistente foram
colhidos no arquivo da Câmara de Santarém, que, em conjunto com os existentes na
Torre do Tombo, já permitia completar a colecção dos 5 livros.
A diligência continuou e, no ano seguinte, do convento de Santo António de
Merceana foram carreados os livros I e III, sendo este último, pela sua antiguidade,
preferível ao da Torre do Tombo[4]. Mas o editor setecentista não o entendeu assim,
baseando-se no da Leitura Nova e registando, em nota, as variantes do de Merceana.
Havendo rumores de que, no cartório da Câmara do Porto, existia uma reputada
colecção mais cuidada e completa – que, por isso, irá servir de base à edição dos livros I,
II, IV e V[5] – mandou-se que fosse remetida à Torre do Tombo, para se confrontar com os
restantes códices. O requerimento, rubricado pelo visconde de Vila Nova de Cerveira[6],
é dirigido ao juiz de fora e presidente da Câmara dessa cidade, nestes termos:

1
“Veio em fim a publicar-se pela imprensa a primeira vez em Coimbra, na data sobredita, por mandado e a diligencia de
D. Francisco Raphael de Castro, principal da sancta egreja de Lisboa, e então reitor e reformador da Universidade.
A direcção e cuidado da impressão foram commetidos ao lente substituto da faculdade de Leis, Luis Joaquim Corrêa da
Silva, cuja é a prefação posta no começo do tomo I”. [Diccionario Bibliographico Portuguez, estudos de Innocencio
Francisco SILVA applicaveis a Portugal e ao Brasil, Tomo VI, Lisboa, na Imprensa Nacional, 1862, pp.
324‑325, artigo Ordenações d’El-Rei D. Affonso V. (reedição)]
2
Em alguns aspectos, ainda se pode recuar esta data do ano de 1731. A propósito do Alcobacense já vimos
que ele é utilizado, a partir de meados do século XVII, pelos autores da Monarquia Lusitana. Um livro II foi
achado na Torre do Tombo, pelo escrivão Jorge da Cunha, a 10 de Janeiro de 1631. O inventário de meados
da XVII centúria (circa 1656), refere três livros das Ordenações de D. Afonso V no arquivo da Casa da Coroa,
mas sem qualquer identificação.
3
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, pp. 121-122.
4
Eduardo Borges NUNES, “Os manuscritos das Ordenações Afonsinas e a edição de 1792”, in Ordenações
Afonsinas, Livro I, Fundação Calouste Gulbenkian, Coimbra, 1998, p. 22.
5
Luís Joaquim Correia da SILVA, Prefacção às Ordenações Afonsinas, Liv. I, p. XX.
6
O visconde de Vila Nova de Cerveira foi nomeado Secretário de Estado dos Negócios do Reino por De-
creto de 14 de Março de 1777.

29
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

“Sendo prezente a sua Magestade, que na Camara dessa Cidade do Porto se acha
hum Exemplar correcto, e na sua perfeita integridade, das Ordenaçoens do Senhor Rey
Dom Affonso V, da qual se diz que contêm mayor numero de Titulos do que se
acham em outros Exemplares, e ainda na(sic) que existe na Torre do Tombo He
a mesma Senhora servida que a sobredita Camara me remetta por esta Secretaria
de Estado dos Negócios do Reyno com toda a segurança e resguardo, para se
combinar com os outros exemplares, e pela mesma combinação se tirar de hum, e
dos outros o necessário uso, que se deve fazer delles para o Novo Codigo; ficando
a Camara na intelligencia de que o seu exemplar lhe será restituído, ou em seu
lugar huma Copia authentica, e em tudo igual ao referido Exemplar. O que Vmce
fará prezente na Camara dessa Cidade do Porto para que assim se execute.
Deos guarde a Vmce. Palacio de Nossa Senhora da Ajuda em 6 de Mayo de 1784.”[1]

Conclusa a tarefa de investigação, reuniram-se no Arquivo da Torre do Tombo


vários exemplares de cada um dos cinco livros, tendo agora que proceder-se à leitura
e escolha dos mais adequados para servir de esteio à sua conversão em letra de
imprensa, mas para isso tornava-se indispensável um breve conhecimento da sua
tradição manuscrita, a começar pelo inventário dos vários livros.
A inventariação desses códices antigos, resultado final de uma investigação de
mais de uma década, foi empreendida pelo prefaciador da edição de 1792[2], seguido
por João Pedro Ribeiro – acima transcrito – que não lhe acrescenta qualquer exemplar
novo, mas faz uma descrição cuidada de cada um[3]. Na Nota Textológica da edição
de 1984, Eduardo Borges Nunes, completa e aprofunda essa descrição codicológica
dos exemplares do Arquivo Nacional e do códice alcobacense, que, entretanto já tinha
passado para a Biblioteca Nacional[4]. Para além disso, ao catálogo de códices do século
XV, acrescenta o da Biblioteca da Ajuda, iniciado no ano de 1455, e o do Arquivo
Municipal de Lisboa. Faz também um inventário dos códices manuscritos, todos do
século XVIII, três nos reservados da Biblioteca Nacional, um na Biblioteca da Ajuda e
treze na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, acabando por concluir que a
“pesquisa de códices das Ordenações Afonsinas nas Bibliotecas Públicas de Évora, Porto
e Braga deram resultado negativo”[5]. A este preenchido arrolamento ficou a faltar o
subsídio prestado por Marcello Caetano, apesar de a sua obra ter sido editada em 1981,
das cópias dos livros II e V, feitas também no século XVIII, depositadas no Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro[6]. No arquivo da Torre do Tombo, para além das
cópias directas, existem também 3 colecções de cópias indirectas, feitas no século XVIII.
Uma dessas colecções (NA 82 a NA 86) foi feita “em cumprimento de uma provisão de D.
Maria I, datada de 23 de Junho de 1781, na sequência de uma petição do desembargador Luís
Rebelo Quintela, e mandados copiar pelo guarda-mor João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho,
entre 1776 e 1782”[7].

1
Porto, AHM – Livro 16º de Próprias, fl. 340. Francisco Sampaio refere que terá sido no decurso do ano
de 1783 que se descobriram os exemplares da Câmara da cidade do Porto [SAMPAIO, Prelecções de Direito
Patrio Publico e Particular, p. 7, nota g)].
2
SILVA, Prefacção às Ordenações Afonsinas, Liv. I, p. XIII.
3
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, pp. 121-122.
4
Lisboa, BN – Alcobacenses, códice n.º 222.
5
NUNES, “Os manuscritos das Ordenações Afonsinas e a edição de 1792”, pp. 13-19.
6
CAETANO, História do Direito, p. 531, nota 2.
7
Maria do Carmo Jasmins Dias FARINHA e Maria de Fátima Dentinho Ó RAMOS, Núcleo Antigo: Inventá-
rio, Lisboa, 1996, pp. 185-186.

30
José Domingues

Voltemos ao século XVIII, o achado e estampagem dos preciosos cimélios


afonsinos, para além de agrupar o conjunto completo dos cinco livros, prestou um
inestimável contributo ao conhecimento do seu conteúdo e índole, mas a descoberta
do livro I trouxe um valiosíssimo complemento, até então inédito e esquecido, quanto
à origem, preparação, conclusão e compiladores das Ordenações Afonsinas.
O autor setecentista da Biblioteca Lusitana, Diogo Barbosa de Machado, divulgou
que o chanceler João das Regras reunira num volume as leis do reino, que andavam
dispersas e – na senda de Nunes de Leão – tinha feito a tradução para português das
leis do Código de Justiniano, bem como da respectiva Glosa de Acúrcio e dos Comentários
de Bártolo. Mas o aparecimento do livro I e do livro V das Ordenações Afonsinas, onde
não se vislumbra qualquer referência ao Doutor João das Regras, avivam os nomes
efectivo dos seus compiladores – João Mendes e Rui Fernandes – e estabelecem o início
dos trabalhos no reinado de D. João I e a conclusão no dia 28 de Julho do ano de 1446,
na vila de Arruda. Desta forma, se o aparecimento do livro I das Ordenações Afonsinas
trouxe incalculável contributo para o entendimento do processo de compilação das
Ordenações Afonsinas, em contrapartida levou à completa renúncia da tradição aventada
por Duarte Nunes de Leão e Diogo Barbosa Machado.
Por isso, as críticas ferozes, contra Nunes de Leão, não se fizeram esperar, logo
no ano de 1792, José Anastácio de Figueiredo, numa Memoria sobre qual foi a época certa
da introdução do Direito de Justiniano em Portugal, o modo da sua introducção, e os grãos
de authoridade, que entre nós adquirio. Por cuja occasião se trata toda a importante materia
da Ord. liv. 3 tit. 64, contesta todo o arrazoado deste jurisconsulto e dos seus servis
seguidores[1]. No entanto, apesar da meticulosa e robusta argumentação de Figueiredo,
o tempo encarregou-se de demonstrar que a tradição, no essencial, era fundada, surgindo
documentação comprovativa das transcrições em linguagem desse códice latino[2].
Os imprescritíveis dados históricos constantes do início do livro I, antes de passar
ao título primeiro do Regedor e Governador da Casa da Justiça na Corte de El-Rei, foram
aproveitados por José Anastácio de Figueiredo, na sua Synopse Chronologica, saída a
lume em 1790[3]. Luís Joaquim Correia da Silva, na prefação, à publicação de setecentos
[1792] das Ordenações Afonsinas também desenvolve toda essa argumentação. Por isso,
João Pedro Ribeiro, nos Additamentos à Synopse Chronologica, aconselha que ao estudo
de Figueiredo se deve juntar este prólogo da edição das Ordenações Afonsinas, “ficando
com tudo ainda muito que desejar sobre este objecto”[4].
No entanto, a primeira pessoa a aproveitar e publicar na íntegra o primeiro
parágrafo do livro I das Ordenações Afonsinas parece ter sido Pascoal José de Melo
Freire. A este conceituado jurisconsulto foi confiada, em 1774, o ensino académico da
História do Direito Pátrio. Para a docência dessa nova cadeira era o professor “obrigado
a formar hum Compendio Elementar da dita Historia do Direito, e de todas as suas partes”[5].

1
José Anastácio de FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Jus-
tiniano em Portugal, o modo da sua introducção, e os grãos de authoridade, que entre nós adquirio. Por
cuja occasião se trata toda a importante materia da Ord. liv. 3 tit. 64”, in Memorias de Litteratura Portugueza,
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa. Tomo I, Lisboa, 1792, pp. 291-301.
2
Para o desenvolvimento desta intrincada questão, em torno das traduções de João das Regras, veja-se
o admirável estudo e síntese, com uma referência exaustiva das fontes e bibliografia correspondente, de
Guilherme Braga da CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, sep. da Revista Portu-
guesa de História, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Tomo XIV, vol. III em homenagem ao
Doutor Paulo Merêa, Coimbra, 1975, pp. 207-212, nota 44.
3
FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, pp. 32-43.
4
João Pedro RIBEIRO, Additamentos e Retoques à Synopse Chronologica, Lisboa, typografia da Academia Real
das Sciencias de Lisboa, 1829, p. 293.
5
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica, 1773,

31
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

O manual, sob o título Historiae Juris Civilis Lusitani, ficou redigido em 1777, muito
embora só viesse a ser impresso passados 11 anos, em 1788[1]. É natural, e bastante
provável, que o autor em 1777 já tivesse conhecimento desse exórdio – já que o livro I
da Câmara de Santarém tinha dado entrada no Arquivo Nacional no ano anterior – mas
mesmo a data da publicação da sua obra é antecedente aos dois autores supracitados –
Figueiredo e Silva. Para além de uma integração destes dados novos (§ LXX – Código
Afonsino) Melo Freire publica em Appendix N.º I – Copia do primeiro paragrafo do Livro I
das Ordenações do Senhor Rey D. Affonso V[2].
Apesar de assimilar os informes novos do livro I, Melo Freire, em oposição aos
seus conterrâneos, continua a acreditar no Código de João d’Aregas, sem deixar de
confessar que “Ainda não pude satisfazer a curiosidade de ver a tradução em linguagem do
Código Justiniano feita por tão subido e categorizado varão, com as interpretações de Acúrsio e
Bártolo que ele aprovou”[3].
A partir da 1.ª edição das Ordenações Afonsinas, consumada no final do século XVIII
pela Real Imprensa da Universidade de Coimbra, a Fundação Calouste Gulbenkian
preparou duas edições fac-simile – a 1.ª no ano de 1984 e a 2.ª no ano de 1998 – com
Nota de Apresentação de Mário Júlio de Almeida Costa e Nota Textológica de Eduardo
Borges Nunes. Para a edição de 1984, decorridos quase dois séculos, inventariaram-se
os códices conhecidos e procuraram-se outros, mas como essa pesquisa não trouxe
novidades relevantes, optou-se por uma “edição anastática, por ser a mais rápida, exequível
e económica, e por se inserir num plano geral de reedições análogas dos grandes textos jurídicos
portugueses”, ficando adiada a solução óptima da edição crítica[4], reclamada pelo abalizado
Marcello Caetano: “A partir de 1792 ninguém mais, que nos conste, trabalhou sobre os
manuscritos existentes na Torre do Tombo. E bom seria que alguém, com as possibilidades do
nosso tempo, se abalançasse a nova edição crítica do importante código afonsino”[5]. Embora
ainda não concretizada, já começaram a aparecer os indispensáveis contributos para a
almejada edição crítica[6].
Desde a impressão de 1792, esta colectânea de leis medievais tem suscitado a
curiosidade e proveito de uma quantidade oceânica de autores, tanto da área da História
do Direito como de qualquer outro sector da História Medieval pátria. A começar pelo
patriarca da Diplomática Portuguesa, João Pedro Ribeiro, que constantemente lhe faz
referência ao longo das suas obras, deixando manuscrita uma idónea Memoria sobre as
Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º, postumamente dada à estampa por António Cruz,
num estudo dedicado aos seus manuscritos[7].

Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 14, p 167.
1
CAETANO, História do Direito, p. 37.
2
Pascoal José de Melo FREIRE, Historiae Juris Civilis Lusitani, Lisboa, 1788, pp. 161-163.
3
Pascoal José de Melo FREIRE, História do Direito Civil Português, Tradução de Miguel Pinto de Meneses,
sep. do Boletim do Ministério da Justiça, n.º173-175, Lisboa, 1968, p. 103.
4
NUNES, “Os manuscritos das Ordenações Afonsinas e a edição de 1792”, pp. 22-23.
5
CAETANO, História do Direito, p. 531.
6
Maria Madalena Marques dos SANTOS, Tábua de correspondência entre as Ordenações Afonsinas, Manuelinas
de 1521 e Filipinas: contribuição para uma edição crítica das Ordenações do Reino. Lisboa, 1993. (Dissertação de
Mestrado em História do Direito).
Paulo Alexandre da Costa Dias da SILVA, Quadros comparativos das Ordenações Afonsinas das Ordenações de
D. Duarte e do Livro de Leis e Posturas: contributo para uma edição crítica dos três monumentos legislativos. Lisboa,
1993. (Dissertação de Mestrado em História do Direito).
Ana Maria Rodrigues de Almeida FERNANDES, Proposta de edição crítica das Ordenações Afonsinas. Lisboa,
1995. (Dissertação de Mestrado em Paleografia e Diplomática, Universidade de Lisboa).
7
António CRUZ, Breve Estudo dos Manuscritos de João Pedro Ribeiro, com Apêndices de estudos sôbre as Or-

32
José Domingues

As Prelecções de Direito Pátrio do Desembargador da Relação do Porto e Lente


Proprietário de História de Direito Romano e Pátrio na Universidade de Coimbra,
Francisco Coelho de Sousa e Sampaio, empregam o capítulo II ao “primeiro Código
Portuguez”[1]. O Lente na Faculdade de Direito na Universidade de Coimbra, Manuel
António Coelho da Rocha, no seu Ensaio sobre a Historia do Governo e da Legislação de
Portugal, para servir de introducção ao estudo do Direito Patrio, de que são feitas várias
edições, dedica o § 150 à “Historia, e Auctores das Ordenações Affonsinas”[2]. As Prelecções
de Direito Pátrio feitas por Ricardo Raymundo Nogueira para o quinto ano jurídico de
1795/96, publicadas em 1866, dedica título às Ordenações de D. Affonso V[3]. Inocêncio
da Silva disponibiliza uma entrada, do seu ingente Dicionário Bibliográfico, para
“Ordenações d’El-Rei D. Affonso V”, prestando contributo indispensável da tarefa da
sua edição no século XVIII[4].
Grande parte da bibliografia supra referida já consta sob o verbo “Ordenações”,
da autoria de Almeida Costa, no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel
Serrão. Apesar dos créditos do seu autor, ficaram por referir dois penhorados nomes
da historiografia jurídica nacional: António Caetano do Amaral, que na sua Memória
V faz constantes apelos às leis das Ordenações Afonsinas; e Alexandre Herculano, que,
para a promulgação dos diplomas gerais até ao final do reinado de D. Afonso III,
teve que cotejar esta colectânea, de cabo a rabo. Mas desde a elaboração do artigo
de Almeida Costa, no ano de 1968, muitos outros autores se curvaram sobre esta
colectânea, na impossibilidade de os referenciar a todos, ficam apenas os de maior
saliência para o tema.
O primeiro, pela sua dedicação fiel às questiúnculas da História do Direito,
é Marcello Caetano, com vastos trabalhos monográficos e, sobretudo, sucessivas
Histórias do Direito Português, desde as Lições de 1941, as de 1962, a póstuma História
do Direito Português (1140-1495), de 1981, e, finalmente, a História do Direito Português
(sécs. XII-XVI) seguida de Subsídios para a História das Fontes do Direito em Portugal
no séc. XVI, com textos introdutórios e notas de Nuno Espinosa Gomes da Silva. Este
último, também reputado investigador da História do Direito, traça-lhe o majestoso
perfil de Historiador do Direito Português e, sobre uma determinada matéria, refere
mesmo que “Marcello Caetano – saindo fora dos caminhos batidos – faz uma exegese
e síntese, rigorosa e ponderada da matéria, embrenhando-se nas prolixas, e nem sempre
claras, Ordenações Afonsinas”[5].
Espinosa Gomes da Silva – discípulo, secretário, assistente e amigo de Marcello
Caetano[6] – é outro nome indissociável desta plêiade. Entre a sua dilatada literatura,
para além de uma Historia do Direito Português[7], destacam-se trabalhos como Bártolo

denações Afonsinas e de documentos do cartório do Mosteiro de Santo Tirso de Riba d’Ave, Coimbra, 1938, pp.
121-132.
1
SAMPAIO, Prelecções de Direito Patrio Publico e Particular, pp. 4-7.
2
Manuel António Coelho da ROCHA, Ensaio sobre a Historia do Governo e da Legislação de Portugal, para ser-
vir de introducção ao estudo do Direito Pátrio, Coimbra, na Imprensa da Universidade, 1843, pp. 119-120
[foi esta a edição consultada, mas a primeira edição é de 1841].
3
Ricardo Raymundo NOGUEIRA, Prelecções sobre a Historia de Direito Patrio feitas ao curso do quinto anno
juridico da Universidade de Coimbra no anno de 1795 a 1796, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1866.
4
Inocêncio Francisco da SILVA, Diccionario Bibliographico Portuguez, Tomo VI, Lisboa, na Imprensa Nacio-
nal, 1862, pp. 324-325.
5
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, “Marcello Caetano, Historiador do Direito Português”, in Marcello
CAETANO, História do Direito, pp. III-XXVI.
6
SILVA, “Marcello Caetano, Historiador do Direito Português”, p. III.
7
SILVA, História do Direito. (1.ª edição, 1985; 2.ª edição 1991; 3.ª edição, 2000).

33
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

na História do Direito Português[1] e João das Regras e outros juristas portugueses da


Universidade de Bolonha (1378-1421)[2]. Sobre as Ordenações Afonsinas, importa referir os
dois peculiares e imprescindíveis estudos: O Sistema de fontes das Ordenações Afonsinas[3]
e Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações ao Tempo de D. João II[4].
A propósito da primeira lei das Cortes de 1211, que determina a relação entre as
leis do reino e o direito canónico, publicou este autor um trabalho, que, posteriormente,
ateou uma valorosa e erudita controvérsia com José Mattoso[5]. O elevado rigor científico
dessa contenda, apesar de não ter uma relação directa com as Ordenações Afonsinas,
merece uma breve pausa. A questão contínua em aberto e, apesar do elevado estalão
dos opositores não permitir entremetimento de despretensioso entusiasta, aqui fica
glosada com singelo parecer.
A contenda desenvolve-se em torno da relação entre o direito do reino e o direito
canónico, suscitada pela primeira lei da Cúria de Coimbra de 1211, de que não existe
qualquer texto original, com toda a probabilidade, em latim. As versões conhecidas
– Foros de Santarém, Livro das Leis e Posturas e Ordenações de D. Duarte[6] – são todas
resumos em português e bastante tardios em relação ao original. Até aqui nada de
mais, a divergência começa com a eleição da fonte meritória de maior crédito: José
Mattoso prefere a versão do Livro das Leis e Posturas, por considerar que “embora não
seja a mais antiga, é, certamente das três existentes, a mais fiel”[7]; Espinosa da Silva defende
uma utilização conjunta das três versões, mas, a ter que escolher, optaria antes pelo
texto mais antigo dos Foros de Santarém, como “a versão mais fiel”[8].
Mas, para além da divergência metódica, interessa particularmente a discrepância
interpretativa do dito preceito normativo, que, há distância de quase 800 anos,
pretende regulamentar o regime das relações entre o direito canónico e o principiante
direito régio lusitano. Espinosa da Silva concluiu “poder afirmar-se que a exegese,
individual e comparada, dos textos dos Foros de Santarém, do Livro das Leis e Posturas
e das Ordenações de D. Duarte fundamenta, por si só, a conclusão atingida de que uma
das leis da Cúria de 1211 estabelece a supremacia do direito canónico, relativamente ao
direito régio, quando em conflito” ou então que “parece ter existido uma lei, publicada
na Cúria de Coimbra, de 1211, estabelecendo que o direito régio não valeria quando
em contradição com o direito canónico ou com os direitos ou privilégios da Igreja”[9].

1
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, “Bártolo na História do Direito Português”, in Revista da faculdade de
Direito da Universidade de Lisboa, vol. XII, Lisboa, 1960, pp. 177-221.
2
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, “João das Regras e outros juristas portugueses da Universidade de Bolo-
nha (1378-1421)”, in Revista da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, vol. XII, Lisboa, 1960, pp. 223-253.
3
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, O Sistema de fontes das Ordenações Afonsinas, «Colecção Scientia
Ivridica», Livraria Cruz – Braga, 1980, Sep. da Revista Scientia Ivridica, tomo XXIX, n.º 166-168, Julho-De-
zembro de 1980.
4
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações ao Tempo
de D. João II, sep. do Boletim do Ministério da Justiça, n.º 309, Lisboa, 1981.
5
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, “Ainda sobre a lei da Cúria de 1211, respeitante às relações entre as
leis do Reino e o Direito canónico”, in Direito e Justiça Revista da Faculdade de Direito da Universidade Católica
Portuguesa, [s. l.], 1998, Vol. XII, tomo 1, pp. 3-36.
José MATTOSO, “A Cúria Régia de 1211 e o direito canónico”, in Naquele Tempo Ensaios de História Medieval,
Círculo de Leitores, 2000, pp. 519-528.
6
Aproveitadas por Herculano, Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 163.
7
MATTOSO, “A Cúria régia de 1211”, p. 521.
8
SILVA, “Ainda sobre a lei da Cúria de 1211”, pp. 14-15.
9
SILVA, “Ainda sobre a lei da Cúria de 1211”, p. 21 e 36, respectivamente.

34
José Domingues

José Mattoso, por sua vez, esclarece que a sua posição é a da autonomia dos
poderes, cada qual na sua esfera, nunca insinuando a superioridade do direito régio
sobre o direito canónico, como pretendia o seu adversário, rematando: “Não disse em
parte alguma que a lei de 1211 consagra a supremacia do direito régio sobre o direito
canónico: uma coisa é a dualidade de poderes, outra, muito diferente, é a superioridade
do poder régio em relação ao poder espiritual”[1].
A exposição argumentativa, como não poderia deixar de ser, é robusta e demasia-
do prolixa, por isso, para ela se remetem os eventuais interessados. Quanto à posição
definitiva de ambos, parece não existir tanta divergência como efectivamente quise-
ram transparecer. Acima de tudo, parece-me que ambos aceitam a teoria dos dois glá-
dios ou da autonomia dos poderes, cada um na sua área específica. Só que Espinosa
da Silva vai mais além, aventando a hipótese da existência de áreas de conflito entre
ambos, solucionados pela norma de Afonso II, que determinava a supremacia do direi-
to canónico. José Mattoso fica-se apenas pela teoria dos dois gládios, sem, no entanto,
defender a supremacia do direito régio em relação ao direito canónico.
Após a leitura dos textos dos dois autores é, com certeza, demasiado audacioso
tomar qualquer deliberação. No entanto, pegando nas palavras de Mattoso – “Parece-
me estranho que o rei admitisse, em princípio, a eventualidade da contradição, e a resolvesse,
contra si próprio, em favor do direito canónico” – inclino-me antes para a tese defendida
por este, de que o espírito da lei de 1211 era apenas o da consagração da autonomia e
separação dos dois poderes, obrigando-se o poder temporal a respeitar as liberdades
da Igreja.
Antes de mais, porque, a não ser assim, inviabilizava imediatamente a lei que
proíbe aos mosteiros e igrejas a aquisição de possessões, salvo para aniversário[2].
Por outras palavras, prescrever na 1.ª lei que o direito régio não valeria quando em
contradição com o direito canónico ou com os direitos ou privilégios da Igreja, seria
praticamente o mesmo que vetar a 10ª lei, do mesmo conjunto das leis da cúria coimbrã.
O que, de alguma forma, parece um contra-senso.
Aliás, as desinteligências jurisdicionais entre o clero e o monarca já vinham do
reinado de seu pai. D Sancho I intervinha nos assuntos eclesiásticos, sujeitando os
clérigos às justiças régias e reivindicando-lhe os seus bens [3]. Por isso, o Papa, na
Bula de 23 de Fevereiro de 1211, aconselha o rei a dar liberdade ao bispo de Coimbra,
restituindo-lhe os bens e a não usurpar os direitos eclesiásticos nem julgar os clérigos.
Sobre a separação de poderes jurisdicionais escreve Inocêncio III no citado documento:
“...per misericordiam Jesu Christi quatinus illa mensura contentus quam Deus tibi donavit ad
ecclesiastica jura non extendas aliquatenus manus tuas sicut nec nos ad regalia jura manus
nostras extendimus reliquens nobis judicium clericorum sicut et nos laicorum judicium tibi
relinquimus...”[4].
Estas solicitações parecem ter servido de princípios norteadores às leis promulgadas
por D. Afonso II na Cúria de 1211. Mas repare-se que o documento pontifício apenas
reclama a teoria Gelasiana dos dois gládios[5]. Por isso, mais uma vez, apresenta-se

1
MATTOSO, “A Cúria régia de 1211”, p. 527.
2
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 169
3
Maria Helena da Cruz COELHO e Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Portugal em Definição de
Fronteiras – do Condado Portucalense à crise do século XIV”, in Nova História de Portugal, dirigida por Joel
Serrão e A. H. de Oliveira Marques, Editorial Presença, Lisboa, 1996, p. 89.
4
P.e Avelino Jesus da COSTA e Maria Alegria Fernandes MARQUES, Bulário Português. Inocêncio III (1198-
1216), Lisboa, INIC, 1988, doc. 154, pp. 295-297.
5
Maria Teresa Nobre VELOSO, D. Afonso II. Relações de Portugal com a Santa Sé durante o seu reinado, Arquivo

35
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

demasiado excessivo que Afonso II tenha decretado a supremacia do direito canónico,


quando ela nem sequer era reivindicada pelo próprio Sumo Pontífice. Posteriormente,
na concórdia de D. Sancho II de 1223, também o monarca prometeu não se intrometer
no campo de jurisdição clerical, a não ser que os juízes eclesiásticos não cumprissem
cabalmente os seus deveres[1]. Este litígio arrastou-se durante toda a baixa Idade Média,
sendo tratado em diversos capítulos das concórdias e concordatas, dando origem ao
título 15 do livro III das Afonsinas – “Em que casos os clérigos devem ser citados para a corte
e aí responder”.
Resumindo, a documentação coetânea deixa transparecer a ideia de que os monarcas
lusitanos excediam os limites jurisdicionais do seu poder temporal imiscuindo-se no
espaço jurisdicional do poder espiritual. Afonso II, no início do seu reinado, tentando
apaziguar esse descontentamento generalizado do clero, teria legislado para que essa
autonomia fosse respeitada, mas daí a reconhecer a supremacia do poder espiritual
parece um pouco exagerado.
Voltando ao nosso tema, Guilherme Braga da Cruz é pai de mais uma História
do Direito Português, que contínua inédita[2]. Mas o seu trabalho de destaque vai para
O direito subsidiário na história do direito português[3], onde, sobretudo, faz uma análise
meticulosa do título 9 do livro II das Ordenações Afonsinas e toda a matéria circundante.
Nesta matéria foi complementado com achegas de Espinosa da Silva[4] e Algumas
reflexões sobre o direito subsidiário nas Ordenações Afonsinas, da autoria de José Artur
Duarte Nogueira[5].
Martim de Albuquerque[6] é outro acreditado investigador moderno que conta
com uma extensa literatura histórico-jurídica publicada, que iremos referindo ao longo
desta dissertação. Para já importa referir que, no âmbito das Ordenações Afonsinas,
divulgou um influente trabalho intitulado O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas[7].
Neste trabalho, contesta-se, abertamente, as “asserções de Marcello Caetano sobre o
compilador [Rui Fernandes] e os revisores das Ordenações” e “as dúvidas cronológicas pelo
falecido Mestre formuladas quanto à feitura / conclusão / vigência das mesmas”[8]. Além disso,
pela primeira vez, se questiona a visão tradicional da historiografia jurídica que atribui a
João Mendes a elaboração do livro I e a Rui Fernandes os restantes quatro, propondo
uma inversão de papéis e outorgando a Rui Fernandes o livro I e a João Mendes os
livros II a V. No entanto, apesar dos incontornáveis argumentos aduzidos, o autor não
chega a conclusões definitivas, reivindicando antes que:

da Universidade de Coimbra, 2000, pp.194 e 266.


Idem, p. 270, nota 9: “O texto desta bula parece inspirado na teoria Gelasiana dos dois gládios. No entanto
a separação de funções era ilusória, porque mesmo S. Bernardo defende que a autoridade civil está sub-
metida à pontifícia, isto é, aquela possui a força coerciva das armas, mas sob a ‘direcção’ da Santa Sé. Cfr.
Cardeal Yves CONGAR – La trop fameuse théorie des deux glaives. In Sainte Église. Etudes et approches
ecclésiologiques. Paris, 1963, p. 411-416”.
1
COELHO e HOMEM, Nova História de Portugal, p. 94.
2
Guilherme Braga da CRUZ, História do Direito Português, Coimbra, 1955 (dactilografada).
3
Guilherme Braga da CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, sep. da Revista Por-
tuguesa de História, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Tomo XIV, vol. III em homenagem
ao Doutor Paulo Merêa, Coimbra, 1975, pp. 177-316.
4
SILVA, História do Direito, pp. 193-206.
5
José Artur A. Duarte NOGUEIRA, Algumas reflexões sobre o direito subsidiário nas Ordenações Afonsi-
nas, sep. da Revista de Direito e de Estudos Sociais, ano XXIV, n.º 4, Coimbra, 1980.
6
Autor de uma História do Direito, em parceria com o seu irmão Rui de Albuquerque.
7
Martim de ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, in Biblos, vol. LXIX, fl. 157-
171. (reeditado em Estudos de Cultura Portuguesa, vol. 3, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2002, pp. 43-63).
8
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 167.

36
José Domingues

“Somente um exame comparativo, de fundo, substancial, das Ordenações de


D. Duarte com as Ordenações Afonsinas poderá, acaso, e na falta de documento
esclarecedor, desvendar a aportação em concreto dos compiladores. Até que seja
efectuado semelhante exame – necessariamente moroso e penoso – nada de definitivo ou de
seguro se poderá adiantar e permanecerá por resolver um largo feixe de dúvidas”[1]

Mais recentemente, a dissertação de Doutoramento de Luís Miguel Duarte,


Justiça e Criminalidade no Portugal Medievo (1459-1481), publicada pela Fundação
Calouste Gulbenkian, contempla em muitas passagens esta compilação afonsina, já
que a sua investigação abrange grande parte do seu período de vigência[2]. Entre uma
multiplicidade de informações sobre esta compilação afonsina, o autor questiona a
designação secular de Ordenações Afonsinas.
Maria do Rosário de Sampaio Themudo fez um trabalho em torno de “Medievalidade
e de Modernidade nas Primeiras Ordenações Portuguesas”[3].
Um dos mais recentes autores, com vários trabalhos dedicados às Ordenações
Afonsinas, é Armando Luís de Carvalho Homem. Do seu punho saiu um dos últimos
trabalhos exclusivos das Afonsinas, publicado em Francês, sob o título Législation et
compilation législative au Portugal du début du XVe siécle: la genése des «Ordonnaces
d’Alphonse V»[4]. Neste trabalho faz-se um apanhado genérico das teses recentemente
defendidas, nomeadamente a de Luís Miguel Duarte e a de Martim de Albuquerque,
mas, ao invés do último, que defende a preponderância de D. Pedro, reivindica todo o
mérito da compilação para o seu irmão, el-rei D. Duarte[5]. Em outros trabalhos deste
autor se podem colher informações inerentes[6], que serão analisadas oportunamente.
Algumas destas últimas teses e outros elementos relevantes podem também ser
coligidos nos trabalhos de João Alves Dias, nomeadamente a sua introdução à recente
edição fac-simile das Manuelinas[7].
Por estar, de alguma forma, relacionada com as Ordenações Afonsinas, as biografias
dos seus compiladores é de uma importância extrema, por isso aqui fica mencionada,
senão toda, pelo menos a mais recente e de maior relevância. A biografia documentada
de João Mendes está traçada no Desembargo Régio de Armando Luís de Carvalho
Homem[8] e complementada por Judite Gonçalves de Freitas[9]. A biografia de Rui

1
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, pp. 170-171.
2
DUARTE, Justiça e Criminalidade no Portugal Medievo (1459-1481), Fundação Calouste Gulbenkian – Funda-
ção para a Ciência e a Tecnologia, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Coimbra, [1999].
3
Maria do Rosário de Sampaio THEMUDO, “A Propósito de Medievalidade e de Modernidade nas Primei-
ras Ordenações Portuguesas”. Pensamiento Medieval Hispano. Homenaje a Horacio Santiago-Otero. Madrid,
1998, vol. 1, pp. 465-472.
4
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Législation et compilation législative au Portugal du début du
XVe siécle: la genése des «Ordonnaces d’Alphonse V». in Saint-Denis et la Royauté. Études offertes à Bernard
Guenée, membre de l’Istitut, ed. Françoise AUTRAND, Claude GAUVARD et Jean-Marie MOEGLIN, Pa-
ris, Publication de la Sorbonne, 1999.
5
HOMEM, “Législation et compilation législative, p. 680.
6
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, 1994.
Idem, “Ofício régio e serviço ao Rei em finais do século XV”, 1997.
Idem, “Rei e «Estado Real» nos textos legislativos da Idade Média portuguesa”, 1999.
Idem, “Estado Moderno e Legislação régia: Produção e Compilação Legislativa em Portugal (séculos
XIII‑XV)”, 1999.
7
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, Lisboa, 2002.
8
Armando Luís Carvalho HOMEM, O Desembargo Régio (1320-1433), História Medieval – 5, Instituto Na-
cional de Investigação Científica, Centro de História da Universidade do Porto, Porto, 1990, p. 346.
9
Judite Antonieta Gonçalves de FREITAS, A Burocracia do “Eloquente” (1433-1438), Porto, 1991, vol. II, pp.
85-89. (Dissertação de Mestrado em História Medieval, pub. em Os textos, as normas, as gentes, Cascais,
Patrimonia, 1996.)

37
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

Fernandes foi exaustivamente levantada por Humberto Baquero Moreno, a propósito


da sua dissertação de Doutoramento, sobre a Batalha de Alfarrobeira[1], por Espinosa da
Silva no Dicionário de História de Portugal[2] e complementada por Carvalho Homem[3] e
Judite Gonçalves de Freitas[4].

3. Resenha Cronológica de Legislação Medieval Portuguesa


Um pouco diferente de toda a bibliografia acima referenciada, mas não de some-
nos importância, é a de arrolar, em súmulas organizadas por ordem cronológica, a
legislação régia portuguesa. Por ser de uma relevância crucial para esta dissertação,
o conhecimento minucioso, na medida do possível, do mundo da legislação genérica
medieval e das suas fontes, reservei para o final, em anexo, um elenco para o período
estudado, desde a Cúria de Coimbra [1211] até à publicação das primeiras Ordenações
Manuelinas [1512].
Mas esta tentativa de apresentar, cronologicamente, os sumários das leis gerais
do reino de Portugal medievo, enunciando as respectivas fontes, não é tarefa inédita,
antes pelo contrário, foi empreendida pelos mais acreditados investigadores na área
do conhecimento histórico-jurídico, para períodos mais ou menos alargados. Para o
período mediévico que nos interessa contam-se nomes como José Anastácio de Figuei-
redo, João Pedro Ribeiro, Alexandre Herculano e, mais recentemente, Armando Luís
Carvalho Homem.
A primeira obra do género, publicada no ano de 1783, parece ter sido o Repertorio
chronologico das leis, pragmáticas, alvarás… extrahido de muitas collecções, e diversos authores,
que se revela demasiado rudimentar, ultrapassada e isenta de qualquer interesse para
o arrolamento dos diplomas da época que nos interessa – pondere-se, sobretudo, a
total ausência das fontes primordiais do Livro das Leis e Posturas, das Ordenações de D.
Duarte e das Ordenações Afonsinas[5]. Ainda no século XVIII, na última década, saiu a
lume outra obra do género, da acreditada lavra de José Anastácio de Figueiredo, que
lhe deu o sugestivo título de Synopsis Chronologica de subsidios ainda os mais raros para a
historia e estudo critico da legislação portugueza.
Posteriormente, o sócio efectivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, João
Pedro Ribeiro, num manifesto complemento da obra de Figueiredo, publicou, no ano
de 1829, os Additamentos e Retoques à Synopse Chronologica – iniciada com um diploma
de Março do ano de 1170 e terminada em diploma de 27 de Dezembro de 1602. Sem
autor e sem data, com um último diploma datado de 1816, foi publicado o Reperto-
rio dos lugares das leis extravagantes, Regimentos, Alvarás, Decretos, Assentos, e Resoluções
Regias, Promulgadas sobre materias Criminaes antes, e depois das Compilações das Ordenações
por Ordem Chronologica.

1
Humberto Baquero MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, antecedentes e significado histórico, Biblioteca Geral
da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1980, vol. II, pp. 804-808.
2
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, “Fernandes, Rui”, in Dicionário de História de Portugal, vol. II, pp. 203-204.
3
HOMEM, O Desembargo Régio, pp. 380-382.
4
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, pp. 210-212.
A propósito das Afonsinas, também desta autora, “Tradição legal, codificação e práticas institucionais: um
relance pelo Poder Régio no Portugal de Quatrocentos”, Revista da Faculdade de Letras História, Porto, III
Série, vol. 7, 2006.
5
Repertorio chronologico das leis, pragmáticas, alvarás… extrahido de muitas collecções, e diversos authores por J. P.
D. R. X. D. S. Lisboa, Francisco Luiz Ameno, 1783.

38
José Domingues

Também este último trabalho é de somenos importância. No entanto, entregue o


levantamento e inventário da legislação do reino a dois dos mais afamados investiga-
dores do ramo – Figueiredo e Ribeiro –, poderia parecer azáfama concluída. No entan-
to, as glosas não se fizeram esperar. Alexandre Herculano, no prefácio ao arrolamento
e publicação integral da legislação desde o princípio da monarquia até ao final do
reinado de D. Afonso III, publicado na ingente colectânea dos Portugaliae Monumenta
Historica, é severo e terminante. Não só pelo seu elevado rigor crítico e científico, mas,
sobretudo, porque define os critérios de definição do diploma normativo geral, vale a
pena transcrever toda esta passagem de Herculano:

“Os dous académicos, Figueiredo e Ribeiro, um na Synopsis Chronologica, outro


nos Additamentos e Retoques à mesma Synopsis, teceram o catalogo dos pri-
meiros monumentos legislativos da monarchia; mas as suas opiniões acerca dos
caractéres que distinguem esses actos de outors actos publicos parece terem sido
fluctuantes e inexactas. A justiça, porém, pede que se diga que elles abriram as
fontes legitimas da historia da nossa legislação geral primitiva até então, a bem
dizer, conhecida apenas pelas Ordenações Affonsinas.
O auctor da Synopsis incluiu no seu catalogo de leis as concordias ou concordatas
celebradas pelos monarchas com o corpo ecclesiastico ou com uma parte delle.
Estas concordatas não eram as mais das vezes actos que estabelecessem direito
novo, ou interpretassem as anteriores leis do reino: eram de ordinario o reconheci-
mento de que o direito do clero em relação à sociedade civil tinha sido offendido,
obrigando-se o rei por esses accordos a respeitar as chamadas immunidades eccle-
siasticas fundadas na jurisprudencia canonica, e reconhecendo tambem o clero
pela sua parte certos direitos do rei em relação ao corpo ecclesiastico. A natureza
das concordatas estava longe de ser a mesma de uma lei civil, aliás muitos actos,
semelhantes na sua indole, deveriam ser incluidos entre os monumentos legisla-
tivos. É unicamente quando consta que as chamadas concordias foram resolvidas
em côrtes, ou derivaram de resoluções ahi tomadas, que ellas teem de entrar nesta
parte do nosso trabalho, conforme ao que adiante havemos de advertir.
O que sobretudo parece estranho é o haver o auctor da Synopsis incluido no seu
indice diplomas regios, onde não é possível encontrar o menor vestigio da indole
legislativa, achando-se nos nossos archivos milhares delles inteiramente seme-
lhantes aos que ahi se mencionam, e que ninguem se lembraria de classificar como
leis. Taes são os privilegios concedidos ao mosteiro de S. Cruz de Coimbra em
1184 e a doação de Aviz à ordem de Calatrava em 1211. Estes documentos, e mui-
tos analogos a elles, são importantes para a historia, mas só poderão ter cabida
n’outro logar desta compilação.
Ribeiro considerou como lei geral a carta a favor dos mouros livres concedida por
Affonso I. Até certo ponto as Ordenações Affonsinas legitimavam a qualificação,
porque não só naquele codigo, como tambem nos antigos exemplares donde foi
tirada, essa carta se refere aos sarracenos de varias povoações; mas o diploma é
um verdadeiro foral, que deve ser incluido na secção relativa às leis especiais dos
municípios. Por mais que os direitos e deveres dos mouros forros se generalisassem,
esses direitos e deveres foram em regra, como veremos, estabelecidos por acto
especial, embora abrangessem as communas de mais de uma povoação. Seguindo
o systema de Figueiredo, Ribeiro considerou tambem as concordias dos prelados
com Sancho II como leis, e bem assim muitos documentos de Affonso II e de Affonso
III que mais nada são do que actos especialissimos puramente administrativos e
transitorios. Tal é a carta de 1222 sobre a cultura das Lesiras do Tejo; e varios
outros diplomas, indicados nos Additamentos e Retoques, relativos a epochas
posteriores áquella a que actualmente nos limitâmos. O caracter essencial da lei,

39
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

manifestação authentica da soberania, seja qual for o individuo ou corpo que


exercite esta, e que sempre se refere a um objecto de interesse commum, consiste
em ser a mesma lei de applicação não só permanente e obrigativa mas tambem
geral. Póde ella abranger todos os individuos ou restringir-se a certo grupo, como
por exemplo aos officiaes publicos, regulando os deveres de seus cargos, aos
menores, que carecem de maior protecção da sociedade, à nobreza, ampliando
ou limitando os seus privilegios, a um gremio municipal, que nas materias de
exclusivo interesse do municipio é regido por leis particulares; posto que assim
restricto, o acto legislativo continua a conservar o caracter que lhe é proprio; nas
leis, todavia, que se referem a um determinado grupo ha uma distincção, que nos
serviu de norma na disposição do presente trabalho. Umas respeitam a todo o
paiz ou às funcções do governo geral, embora tractem dos direitos e deveres de
certa classe de pessoas e regulem as relações desses individuos, como taes, com
o resto da sociedade: as outras dizem exclusivamente respeito aos habitantes de
uma circumscrição territorial, de um municipio. Estas sem perderem o caracter de
generalidade, e por consequencia de leis, em relação a esse territorio, perdem-na
em relação ao paiz e ficam constituindo uma legislação especial.”[1]

Nesta colectânea, Herculano, não se confina aos sumários e às fontes, fazendo


mesmo uma edição integral dos diplomas e anotando as diversas variantes para
cada um, acompanhados de uma crítica polida e de um prefácio perspicaz. Estas
particularidades fazem com que, passado mais de um século da sua promulgação,
esta obra continue impar, perfeitamente actualizada e imprescindível para qualquer
que pretenda estudar os primeiros séculos da monarquia portuguesa e dos seus
monumentos legislativos.
De qualquer forma, se não há bela sem senão, também não há obras cientificas
absolutas, por isso, Paulo Merêa descobriu Um erro importante dos Portugaliae Monumenta
Historica[2]. Existem gralhas de impressão em, pelo menos, dois diplomas do reinado
de Afonso III: o diploma n.º XII saiu com a data errada de 1263, quando devia ser 1265,
como, facilmente, se depreende da ordem cronológica dos diplomas anteriores[3]; e
no diploma n.º XXI, aparece em epígrafe o dia 31 em vez de 13, que consta no texto
e na fonte[4]. Por outro lado, o diploma de 27 de Janeiro de 1274 (n.º XXV) é apenas a
confirmação da provisão de 28 de Julho de 1265 (n.º XII), sobre anúduvas, e não um
verdadeiro diploma normativo. Ou seja, destes dois só o diploma n.º XII pode ser
considerado como lei geral, sendo o outro uma mera confirmação ou traslado. No
entanto, o inexplicável erro de Herculano, já que é premeditado, foi o de, ao contrário
dos seus antecessores – Figueiredo e Ribeiro – fazer tábua rasa das fontes impressas
anteriores, onde já tinham sido publicados alguns destes monumentos – Terá que
exceptuar-se o diploma XIII de Afonso III, de 4 de Maio de 1266[5]. Por outro lado,
apresenta alvitres dos seus antecessores sem a devida menção, o que fez com que, por
vezes, lhe sejam atribuídos pareceres de lavra alheia.

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, pp. 145-146.
2
M. Paulo MERÊA, “Um erro importante dos Portugaliae Monumenta Historica”, in Boletim da Faculdade
de Direito, Coimbra, vol. 33, 1957, pp. 335-336.
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 216.
Cfr. BARROS, Historia da Administração Pública em Portugal nos Séculos XII a XV. 2.ª edição dirigida por
Torquato de Sousa Soares, Tomo I, Lisboa, 1945, p. 138, nota 7.
4
Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 226.
5
Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 217: “Fr. F. Brandão publicou-o no Appendice
da V Parte da Monarchia Lusitana copiado do archivo municipal de Coimbra, onde já não o encontramos. Publicou-o
tambem Barbosa no Catalogo das Rainhas de Portugal, p. 66”.

40
José Domingues

Quanto às fontes, o primeiro lapso desta grandiosa obra é a não referência das
Ordenações Afonsinas, livro 3, título 6, § 1, para o diploma n.º CXCVI, do reinado de
Afonso III[1]. Herculano cotejou cuidadosamente as Ordenações Afonsinas, para a
consecução da sua obra, mas, neste ponto, escapou-lhe a vertente desta lei afonsina. Por
outro lado, existem outras importantes fontes documentais, que Herculano não teve
oportunidade de consultar. Nomeadamente, um original da lei de 11 de Abril de 1261,
sobre a quebra da moeda na Colecção Cronológica do Arquivo Distrital de Braga[2] e
um apógrafo, da mesma lei, no Livro das Cadeias, do mesmo arquivo[3]. Também da
lei de Março de 1261 consta um apógrafo, no Livro A do Arquivo Histórico do Porto,
transcrito a partir de um alvará de 1 de Outubro de 1526[4]. E a lei das anúduvas, de
28 de Julho de 1265, dirigida às justiças da terra de Celorico de Bastos, consta também
no Arquivo Distrital de Braga, em traslado régio de 10 de Junho de 1285[5]. Mas a
confirmação dessa lei já tinha sido feita à Sé de Braga, em Santarém, por diploma de 5
de Fevereiro de 1274[6], saído dessas Cortes, à semelhança dos referidos nos Portugaliae
Monumenta Historica[7].
Fátima Regina Fernandes dedicou uma obra aos Comentários à Legislação
Medieval Portuguesa de Afonso III, Direito Material e Direito Processual, desbravando as
dificuldades de interpretação do latim e português medieval, do século XIII[8]. De suma
importância o trabalho de tese de Maria Teresa da Silva Morais intitulado Leis gerais
desde o início da monarquia até ao fim do reinado de D. Afonso III: levantamento comparativo
entre os Portugaliae Monumenta Historica, o Livro das Leis e Posturas e as Ordenações de D.
Duarte[9], com um título específico dedicado a “Algumas observações sobre os «Portugaliae
Monumenta Historica»”, onde põe a descoberto e faz uma análise crítica dos critérios
estruturantes e orientadores de Herculano.
De superior peso é, também, a douta contestação que Marcello Caetano move
à data crítica do regimento oficial do meirinho-mor, outorgado por Afonso III. Este
autor, no seu estudo exaustivo sobre as Cortes de Leiria de 1254, ao redigir a Nota sobre
a data provável dos agravamentos de Coimbra e Montemor-o-Velho, chega à conclusão de
que “D. Afonso III deve ter enviado meirinhos por todo o Reino logo no começo do seu reinado,
sendo de admitir que lhes tivesse dado regimento quando os instituiu (1248?) ou tratasse de
definir com mais precisão as atribuições deles em face das reclamações episcopais (1250)”[10].
Vale a pena transcrever as derradeiras conclusões deste douto investigador, sobre
os agravamentos de Coimbra e Montemor-o-Velho e, consequentemente, do anexo
regimento do meirinho-mor:

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges et Consuetudines, p. 302.
2
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc.º65.
3
Braga, AD – Livro das cadeias, doc. 56, fls. 36v-38v.
4
Porto, AHM – Livro A, fl. 151-154.
5
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. 115.
6
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. 89.
7
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 231.
8
Fátima Regina FERNANDES, Comentários à Legislação Medieval Portuguesa de Afonso III. Direito Material e
Direito Processual, Juruá Editora, Curitiba, 2000.
9
Maria Teresa da Silva MORAIS, Leis gerais desde o início da monarquia até ao fim do reinado de D. Afonso III:
levantamento comparativo entre os Portugaliae Monumenta Historica, o Livro das Leis e Posturas e as Ordenações
de D. Duarte, Lisboa, 1984. (Relatório de Mestrado em História do Direito). in Estudos em homenagem ao Prof.
Doutor Manuel Gomes da Silva, Lisboa, 2001, pp. 799-882.
10
Marcello CAETANO, As Cortes de Leiria de 1254, memória comemorativa do VII centenário, Lisboa, 1954, p. 52.

41
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

a) “Os agravamentos de Coimbra e de Montemor-o-Velho não devem ter sido apresentados


às Cortes de 1254.
b) São despachados em nome do Rei e não pelo próprio Soberano.
c) O facto de estarem juntos com o regimento dos meirinhos, leva a crer que hajam sido
antecedente ou resultado da visita de um meirinho aos concelhos respectivos.
d) Parece mais provável que datem de 1250, em virtude da referência à presença de gente
de Montemor no castelo de Marvão.
e) Caso se não aceite que foram despachados por um meirinho, há muita probabilidade de
pertencerem às Cortes de Guimarães de 1250.”[1]

O interesse e importância vital da datação crítica deste diploma prende-se com


a questão hodierna da origem dos meirinhos-mores de comarca, que continua em
aberto. Já Gama Barros tinha por indubitável que a instituição dos meirinhos-mores
com alçada numa determinada região (comarca ou província) datava do reinado do
Conde de Bolonha, mas desconhecendo o ano do seu início[2]. Para Caetano, como ficou
dito, o regimento dos meirinhos-mores de comarca (bem como os artigos de Coimbra
e Montemor-o-Velho) não pertence às Cortes de Leiria de 1254 e teria sido firmado por
volta dos anos de 1248-1250.
Recentemente, Leontina Ventura, aventa como mais provável a data de 1261,
apoiando-se numa das hipotéticas datas de Herculano, sem contraditar, nem sequer
referir, a argumentação de Marcello Caetano. Para esta conspícua conhecedora do rei-
nado de Afonso III parece patente que até meados de 1260 o rei se dirige aos seus
vários meirinhos, mas em documento de 22 de Novembro de 1263 já se dirige ao mei-
rinho-mor de Entre-Douro-e-Tâmega, Nuno Martins de Chacim, e em 25 de Agosto de
1265 se dirige ao meirinho de Entre-Douro-e-Mondego:

“É possível que tenham sido criados em 1261, uma das datas atribuídas à lei 57 de Afonso
III, que constitui praticamente um regimento das funções do meirinho (cf. Leges, pp.
252-253; J. Mattoso, Identificação de um País…, II, pp. 129-130). Com efeito até
meados de 1260, o Rei, através de seu sobrejuiz, dirige-se aos seus vários meirinhos
– Gonçalo Mendes, Martim Anes e Domingos Soares – informando-os de diversas
queixas de mosteiros e Sés contra eles. A 22 de Novembro de 1263, Afonso III
dirige-se a Nuno Martins de Chacim meo meirino maiori et universius meyrinis qui
pro tempore fuerint inter Dorium et Tamegam. A 25 de Agosto de 1265 o Rei dirige-se
ao meirinho de Entre Douro e Mondego, ordenando-lhe que lance seus encoutos
sobre aqueles que, contra as suas cartas, pousarem nos coutos e herdades do
cabido da Sé de Coimbra”[3]

Muito antes da data apontada pela autora (1263), D. Afonso III dirige a carta de 6
de Setembro de 1255 a Martim Rial, seu meirinho ou aquele que em seu lugar for, e aos
porteiros de Entre-Douro-e-Minho.

1
CAETANO, As Cortes de Leiria de 1254, pp. 52-53.
É a segunda hipótese – “probabilidade de pertencerem às Cortes de Guimarães de 1250” – que perfilha Torqua-
to de Sousa Soares [Torquato de Sousa SOARES, “Antecedentes das Cortes reunidas em Guimarães em
1250”, Revista Portuguesa de História, tomo XX, Coimbra, 1983, p. 147, nota 19].
2
BARROS, História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a XV, 2.ª edição dirigida por
Torquato de Sousa Soares, tomo XI (edição póstuma), Lisboa, 1954, pp. 140-141.
3
Leontina VENTURA, A Nobreza da Corte de Afonso III, Dissertação de Doutoramento apresentada à Uni-
versidade de Coimbra, Coimbra, 1992, vol. I, p. 97, nota 4.

42
José Domingues

Por outro lado, não se podendo isentar das referências documentais aos meirinhos
régios antecedentes ao ano de 1261, a autora, na esteira de Gama Barros[1], argumenta
tratarem-se de comissões extraordinárias, sem circunscrição fixa[2]. Não me parece
procedente, se tivermos em conta que, só no meirinhado de Entre-Douro-e-Minho,
nos surge João Afonso (1250-1255) em quatro actuações documentadas e João Mendes
(1256-1258) em três situações. Analisemos este meirinhado mais de perto.
João Afonso, o primeiro meirinho de que há conhecimento, aparece a actuar no
Porto no ano de 1250, fazendo inquirição de como costumavam andar as vendas entre
a vila do burgo (Vila Nova de Gaia) e a vila do bispo (Porto)[3]. Por carta de 2 de Julho
de 1253, em Guimarães, o monarca manda ao seu meirinho João Afonso que amparasse
e defendesse a igreja de Vila do Conde e o seu prior Estêvão Pedro[4]. A sua actuação
continuou a sentir-se em Entre-Douro-e-Minho, ordenando-lhe o monarca, por carta
de 17 de Junho de 1255, que não obrigue, à força, os moradores do Porto a servir
nas barcas e galés régias, mas que deixe servir os que vierem de livre vontade[5]. Nas
inquirições de 1258, ao perguntar-se pelo padroado da igreja de S. Julião de Azurara
(Vila do Conde), uma testemunha ajuramentada recorda a inquirição feita por este
meirinho, a propósito da devolução do padroado a Fernando Rodrigues[6]. Trata-se
de um facto passado, já que há data destas inquirições este meirinho já tinha sido
transferido para o meirinhado de Aquém-Douro, sendo referido em Eiriz, terra de
Parada e em Avarrazaes[7]. Ainda nestas inquirições, no julgado de Barroso, se faz
referência a “Johanne Alfonsi meirino”[8].
Essa mudança de meirinhado efectuou-se ainda no ano de 1255, uma vez que
em 6 de Setembro de 1255 já era meirinho nesta circunscrição Martim Rial[9]. Pouco
tempo deve ter exercido a função, pois é o único documento escrito que o refere como
meirinho, aparecendo sobretudo como almoxarife de Guimarães entre os anos de 1258
e 1263[10].
João Mendes deve ter sido o seu legitimo sucessor, que já aparece em provisão
de 1256, para não encoutar as pessoas e moradores do Porto[11]. Em Santarém, a 26 de
Fevereiro de 1257, Afonso III dita uma sentença régia, que dirige a “Johanni Menedi
meo Meyrino”, contra D. Teresa Eanes e seu filho Gonçalo Mendes e a favor de D.
Constança Sanches e seus sobrinhos, D. Afonso Teles e D. Martim Afonso, mandando
restituir a posse dos bens de D. Maria Pais, situados em Vila do Conde, Pousadela e
Parada, de que tinham sido esbulhados[12]. O privilégio do couto de Barbeita, actual
concelho de Monção, é mandado observar por carta de 19 de Dezembro de 1257,
dirigida a este meirinho[13]. Em 1258, na freguesia de S. Tiago de Rande, julgado de

1
BARROS, História da Administração Pública, tomo XI, pp. 153-154. Que Leontina Ventura não cita.
2
VENTURA, A Nobreza da Corte de Afonso III, vol. I, p. 501.
3
Corpus Codicum, vol. II, pp. 47-48.
4
IAN/TT – Colegiada de Guimarães, Documentos Reais, maço 1, doc. 10.
5
Corpus Codicum, vol. II, p. 48.
6
João Pedro RIBEIRO, Memoria para a historia das inquirições dos primeiros reinados de Portugal colligidas pelos
discípulos da aula de Diplomática no anno de 1814 para 1815, Lisboa, na Impressão Regia, 1815, p. 68.
7
Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, pp. 944 e 1032.
8
Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, p.1513.
9
Braga, AD – Gaveta 2 de Igrejas, n.º135.
10
João Pedro RIBEIRO, Dissertações Chronologicas e Criticas, Tomo III, Lisboa, 1857, doc. 29, pp. 82-85.
11
Corpus Codicum, vol. II, p. 48.
12
IAN/TT – Chancelaria de D. Afonso III, Liv. 1, fl. 19.
13
IAN/TT – Chancelaria de D. João I, Liv. 2, fls. 197v-198.

43
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

Felgueiras, já as suas funções de meirinho régio são referidas ao passado – João Mendes
“qui fuit merinus”[1].
Estas referências documentais, todas anteriores a 1261 e em diversos locais de
Entre-Douro-e-Minho, aliadas à douta argumentação de Marcello Caetano, não me
parecem compatíveis com a tese de Leontina Ventura. Antes pelo contrário, os vários
meirinhos, a multiplicidade de situações em que o mesmo meirinho actua Entre-Dou-
ro-e-Minho e a transferência para outro meirinhado (ex. João Afonso), parecem-me
indícios suficientes da sua existência desde 1250, pelo menos, com carácter de certa
permanência e num espaço territorial delimitado.
Voltamos à ingente obra de Herculano – à qual o próprio tencionava dar
continuidade[2] – que ainda não encontrou repercussão até aos nossos dias[3], continuando
a faltar uma edição crítica, exaustiva e sistemática da legislação para os reinados seguintes
a Afonso III[4]. No entanto, recentemente, Armando Luís de Carvalho Homem, para as
suas provas de habilitação a professor agregado à Faculdade de Letras da Universidade
do Porto (23 de Fevereiro de 1994), debruçou-se sobre o poder normativo da realeza ao
longo dos reinados de D. Dinis e D. Afonso IV – “Dionisius et Alfonsus, Dei Gratia Reges et
Communis Utilitatis Gratia Legiferi”[5]. Embora acrescentando outras verbas à sua matriz
– nomeadamente o dispositivo, matéria e observações – este trabalho pode inserir-se no
âmbito da bibliografia de inventariação cronológica da legislação medieval (data, local,
resumo e fontes)[6], que, neste título, vimos seguindo desde o século XVIII.
D. Dinis e D. Afonso IV são apresentados como dois dos reis legisladores por excelência
da nossa Idade Média pré-seculo XV, com um corpus legislativo de 249 leis (129 de D. Dinis,

1
Portugaliae Monumenta Historica, Inquisitiones, vol. I, p. 557.
2
Veja-se, por exemplo, o que ficou exarado a propósito das declarações de D. Dinis aos decretos de seu pai de
1261: “Os degredos de D. Dinis appensos a esta lei (…) reservâmo-los para serem publicados com os actos legislativos
daquelle principe” [Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 201].
3
A. H. de Oliveira MARQUES, Guia do Estudante de História Medieval Portuguesa, 3.ª edição, Editorial Es-
tampa, Lisboa, 1988, p. 167: “Posteriormente aos Portugaliae Monumenta Historica poucas têm sido as colecções
sistemáticas de documentos publicados em terra portuguesa, para vergonha das autoridades culturais e não menos dos
eruditos amadores. Por isso, a continuação daqueles vários títulos só de forma escassa pode ser referida”.
4
Vide, a propósito, António Manuel Hespanha : “Apesar de muita da historiografia portuguesa do direito
se ocupar da história das fontes, há muitas questões em aberto na história da legislação portuguesa.
Para a Idade Média, começa-se por não se dispor de uma edição sistemática e crítica dos textos relevan-
tes: os P. M. H. recolhem os anteriores a 1279 (deixando por resolver muitos problemas de datação e de
reconstituição da tradição textual); a partir daí, apenas conhecemos, fundamentalmente, as leis inseridas
em colecções tardo-medievais («Livro das Leis e Posturas», publicado em 1971, e «Ordenações de D. Duar-
te»,…). Nomeadamente, as chancelarias de D. Dinis e dos reis seguintes (…) contêm muitas «leis» inéditas
ou já conhecidas, mas de datação incerta.” [António Manuel HESPANHA, “Nota do Tradutor”, in Intro-
dução Histórica ao Direito, John GILISSEN, Tradução de A. M. HESPANHA e L. M. Macaísta MALHEIROS,
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 4.ª edição, 2003, p. 318]
5
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Dionisius et Alfonsus, Dei Gratia Reges et Communis Utilitatis
Gratia Legiferi”, in Revista da Faculdade de Letras – História, II série, vol. IX, Porto, 1994, pp. 10-11. Esta obra
veio colmatar uma lacuna importante, conforme escreve o próprio autor ao elaborar o volume III da Nova
História de Portugal: “«A ausência de um estudo crítico sobre a legislação de D. Dinis impede de apreciar devidamen-
te a sua obra administrativa»: dada à estampa há apenas dois anos [refere-se à História de Portugal dirigida por
José Matoso], esta frase carece de actualização plena.” [Armando Luís de Carvalho HOMEM e Maria Helena
da Cruz COELHO, “Portugal em Definição de Fronteiras – do Condado Portucalense à crise do século
XIV”. in Nova História de Portugal, dirigida por Joel Serrão e A. H. de Oliveira Marques, Editorial Presença,
Lisboa, 1996, p. 148]
6
“Para cada ordenação elaborei uma ficha-tipo, onde registei, para lá, obviamente, da data, do resumo do
conteúdo e das fontes, os seguintes items…” HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 18.

44
José Domingues

120 de D. Afonso IV)[1]. As patentes discrepâncias com o que se apresenta no anexo I do


final deste trabalho – com uma cifra de 130 leis para D. Dinis e 143 para D. Afonso IV,
num total de 273 diplomas – são um inconcusso testemunho de que o arrolamento da
legislação medieval ainda está longe de definitivo remate e, apesar de todos os avanços
científicos, continua a não ser tarefa fácil. Com o devido respeito pelos avultados
conhecimentos deste último, bem como de todos os insignes investigadores que, até
à data, se dedicaram a esta ingrata faina, e sem quaisquer pretensões de reputado
ou terminante trabalho, permitam-me que exponha os passos que me conduziram às
cifras supra-aventadas.
Antes de mais, a disparidade de datas com que, não raro, nos aparece o mesmo
diploma normativo, em fontes diferentes ou mesmo na mesma fonte documental,
podem levar a que, a mesma lei, seja catalogada duas vezes. Carvalho Homem foi
várias vezes induzido em erro por esta divergência de data, ou falta da mesma, em
diplomas com o mesmo conteúdo.

Para o reinado de D. Dinis:


• A lei para que cavaleiros e donas não comprem bens em Arouca, que
aparece nas Ordenações de D. Duarte com a data de 1282/Outubro/21
e no Livro de Leis e Posturas com a data de 1286/Outubro/21, foi
registada com os n.º6 e 15, respectivamente[2].
• A lei sobre o juramento e os honorários dos advogados, com a data
de 1283/Fevereiro/26 no Livro das Leis e Posturas e com data de 1286/
Fevereiro/26 nas Ordenações de D. Duarte, foi registada com os n.º8 e
12.
• A lei para que não valha testemunho de cristão contra judeu sem
testemunho de judeu, que aparece com data de 1286/Janeiro/01 nas
Ordenações de D. Duarte e no Livro de Leis e Posturas, tem data de 1294/
Janeiro/01 nas Ordenações Afonsinas, o que lhe mereceu o registo n.º 11
e n.º 20, respectivamente[3]. Por maioria de razão, o ano correcto devia
ser o de 1286, que surge nos dois códices mais antigos (Livro de Leis e
Posturas e Ordenações de D. Duarte), mas esta lei repete-se, com a data
das Afonsinas, nos Foros de Beja[4] e, por outro lado, o itinerário régio
confirma este monarca em Coimbra no dia 1 de Janeiro de 1294.

1
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, pp. 13 e 17. O número de 129 leis, paro reinado de D. Dinis, repete-se
em Armando Luís de Carvalho HOMEM e Maria Helena da Cruz COELHO, “Portugal em Definição de
Fronteiras – do Condado Portucalense à crise do século XIV”, p. 148.
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Estado Moderno e Legislação Régia: Produção e Compilação Le-
gislativa em Portugal (séculos XIII-XV)”, in A Génese do Estado Moderno no Portugal tardo-medievo, Lisboa,
Universidade Autónoma, 1999, p. 114: “D. Dinis e D. Afonso IV emitiram, os dois em conjunto, praticamente o
mesmo número de leis que Afonso III: 249 (=129 + 120)”.
Os mesmos totais – “Denis et Alphonse IV ont produit, à eux deux, à peu près le même nombre de lois
qu’Alphonse III: 249 (= 129+120)” – perseveram em Maria Helena da Cruz COELHO, e Armando Luís
de Carvalho HOMEM, “Les actes judiciaires de Pierre Ier du Portugal (1357-1366)”, Os Reinos Ibéricos na
Idade Média, Livro de Homenagem ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno. Coordenação
de Luís Adão da Fonseca, Luís Carlos Amaral e Maria Fernanda Ferreira Santos. Faculdade de Letras da
Universidade do Porto e Livraria Civilização, 2003, p. 1076. (communication présentée au X Congresso In-
ternazionale de la Commission Internacionale de Diplomatique: La Diplomática dei documenti giudiziari (dai placiti
agli acta – secc. XII-XV). [Bologne, le 13 septembre 2001]).
2
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, pp. 43 e 45.
3
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, pp. 44 e 46-47.
4
IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 71-71v – Foros de Beja.

45
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

• A resposta de D. Dinis aos agravamentos que os bispos do Porto,


da Guarda, de Lamego e de Viseu diziam lhe serem feitos no reino,
aparece datada de 1292/Agosto/23 no Livro de Leis e Posturas e de
1295/Agosto/23 nas Ordenações de D. Duarte, sendo-lhe atribuídos os
n.º 19 e 23. Neste caso, a data do Livro de Leis e Posturas é confirmada
pelas Ordenações Afonsinas[1]. Mas existem outras fontes documentais[2]
e impressas[3], que vem dar consistência à data de 1292.
• A lei das taxas a cobrar por escrivães, procuradores, advogados e
porteiros da audiência, consta com data de 1282/Janeiro/10 nas
Ordenações de D. Duarte e com duas datas distintas no Livro das Leis
e Posturas 1302/Junho/12 e 1303/Junho/10, sendo registada sob o
n.º2, 29 e 36. A data correcta só pode ser a de Junho de 1302, uma vez
que em Junho de 1282 estava D. Dinis em Trancoso[4] e em Janeiro de
1303 em Lisboa.
• A lei sobre as custas a levar pelos moradores do rei e da rainha
em processos, com data de 1303/Novembro/15 no Livro das Leis e
Posturas, aparece com a mesma data nas Ordenações de D. Duarte, mas
também surge datada de 1305/Novembro/15, sendo registada sob o
n.º39 e 48. A data que se repete nos dois códices é a mais provável.
• A lei para que ninguém vá contra o que foi absolvido por sentença do
rei ou seus ouvidores, datada de 1284/Fevereiro/21 nas Ordenações
Afonsinas, surge com data de 1304/Fevereiro/21 nas Ordenações de
D. Duarte e no Livro das Leis e Posturas em dois locais distintos, sendo
registada sob o n.º10 e 40.
• A lei da jurisdição régia sobre clérigos casados, consta com data de
1280/Agosto/08 nas Ordenações de D. Duarte e com data de 1305/
Agosto/09 no Livro das Leis e Posturas, sendo registada sob o n.º1 e
47. Nas Afonsinas aparece com a era de mil trezentos e treze anos
(1275), data errada incomportável com este reinado. A data correcta
parece ser a das Ordenações de D. Duarte, e a confusão deve ter sido
gerada pelo “X” aspado: devia constar M CCC X VIII, correcto nas
Ordenações de D. Duarte; M CCC XL III, no Livro das Leis e Posturas; e M
CCC X III nas Ordenações Afonsinas.
• A declaração da lei sobre os que vão contra outrem, mandando que
ela se entenda também no corregimento das chagas e feridas, aparece
com data de 1305/Maio/15 nas Ordenações de D. Duarte e com data
de 1310/Maio/25 no Livro das Leis e Posturas, sendo registada sob o
n.º44 e 58.
• A lei para que cavaleiros, fidalgos ou qualquer poderoso não tomem
ou mandem filhar bestas de sela nem de albarda sem grado dos
donos ou mandado de justiça, aparece datada de 1311/Fevereiro/03
nas Ordenações de D. Duarte e no Livro das Leis e Posturas e aparece sem
data nas Ordenações Afonsinas, sendo registada sob o n.º61 e 128.

1
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 3.
2
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. n.º144.
Braga, AD – Livro das Cadeias, doc. 95, fls. 57-57v.
3
Monarquia Lusitana, Parte V, p. 209v
Gabriel PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, 2.ª ed., INCM, 1998, pp. 34-35
4
Itinerário dÉl-Rei D. Dinis 1279-1325, p. 61.

46
José Domingues

• O conjunto de medidas para evitar as delongas maliciosas nos processos


aparecem datas de 1313/Setembro/15 nas Ordenações de D. Duarte[1] e
no Livro das Leis e Posturas, mas aparecem neste último também com
data de 1314/Setembro/15, sendo registada sob o n.º69 e 76.
• A lei das apelações está datada de 1317/Março/18 nas Ordenações
Afonsinas e de 1317/Agosto/18 no Livro de Leis e Posturas e nas
Ordenações de D. Duarte, variando o mês de outorga, e foi catalogada
por Carvalho Homem com os n.º83[2] e 84. Outra vez os dois códices
mais antigos em sintonia, mas um traslado do Livro de Extras e o
pergaminho avulso do Maço 1 de Leis, publicado por Ribeiro[3], vem
dar consistência ao mês apontado pelas Afonsinas, embora refiram o
dia 19.
• Por último, a lei sobre os crimes de bigamia e dos que casam ou
dormem com parentas ou criadas de seus senhores sem sua licença,
é uma só lei, datada de 1302/Agosto/11, mas que nas Ordenações
de D. Duarte foi dividida em duas partes, faltando, por isso, a data
na primeira parte[4]. Isto leva Carvalho Homem a inventariar esta
primeira parte, como lei autónoma e sem data, sob o n.º 99, quando
pertence ao diploma com o n.º 31.
• A lei que Carvalho Homem arrola sob o n.º72 não é nenhuma lei.
Trata-se da publicação da lei de 1314/Agosto/23. O autor confunde
o dia 28 com o dia 08 e, inexplicavelmente, diz ser “Revogação da lei
mandando vender por dívidas”, quando, a ser assim, a lei revogada
seria de data posterior.

Para além destas injustificadas duplicidades dos diplomas normativos dionisinos,


saliente-se que, para a lei da amortização de 1311, Carvalho Homem prefere o mês
e dia das Ordenações de D. Duarte (20 de Julho), apesar da incontestada maioria das
Ordenações Afonsinas e do Livro das Leis e Posturas (15 de Junho)[5]. Para além desta
maioria, a data de 15 de Junho conta ainda com o apoio do original das Gavetas[6] e do
apógrafo da Chancelaria[7].

Passando ao reinado de D. Afonso IV:


• O regimento dos porteiros e sacadores das dívidas surge nas Afonsi-
nas sem data, por isso foi colocado por Carvalho Homem entre esses
diplomas com o n.º 241, mas nas Ordenações de D. Duarte está datado
de 1345/Abril/08 (n.º178)
• A conjuntura da lei sobre contratos onzeneiros é análoga – não está
datada nas Afonsinas (n.º242), mas aparece com data de 1340/Abril/01
(n.º158) no Livro de Leis e Posturas e nas Ordenações de D. Duarte. Nas

1
Carvalho Homem omite esta fonte.
2
O título nas Afonsinas é o LXXIIII (74) e não o LXIIII (64).
3
RIBEIRO, Memorias para a Historia das Inquirições, doc. 34, pp. 105-106.
4
Ordenações de D. Duarte, p. 308.
5
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 57.
6
IAN/TT – Gaveta XV, maço 9, n.º17.
7
IAN/TT – Chancelaria de D. Dinis, Liv. 3, fl. 76.

47
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

Cortes deste reinado, impressas por Oliveira Marques, está datada de


1340, Julho, 01 (data da publicação)[1].
• O mesmo se diga da lei que prescreve a correição dos erros dos
porteiros – sem data no Livro de Leis e Posturas e nas Afonsinas (n.º249)
[2]
e com data de 1340/Julho/01 nas Ordenações de D. Duarte (n.º162),
também publicada por Oliveira Marques, a partir de outra fonte, com
esta data (data de publicação)[3].

Concluindo, ao corpus legislativo proposto por Carvalho Homem, para os reina-


dos de D. Dinis e D. Afonso IV, devem subtrair-se, pelo menos, dezoito diplomas, que
se encontram repetidos – n.º 6 ou n.º15, n.º 8 ou n.º 12, n.º11, n.º23, n.º 2 e n.º 36, n.º 48,
n.º 10, n.º 47, n.º 44 ou n.º 58, n.º 128, n.º 76, n.º84, n.º99, n.º 72, n.º241, n.º242 e n.º249.
Esta dedução alonga ainda mais a disparidade em relação ao cômputo geral do fundo
que apresento em anexo.
Para além do supra, das quatro concórdias ou concordatas dionisinas, que Hercu-
lano aconselha a excluir do elenco das leis gerais, Carvalho Homem afastou as de 1289
e a de 1309, mas, incompreensivelmente, arrolou a de 1292 e a outra sem data. Embora
se trate de direito próprio do reino, com a participação imediata do monarca, dada a
especificidade, será preferível arrolá-las em anexo apartado. O seja, mais dois diplo-
mas que não constam no nosso anexo I.
Mas a diferença prende-se, também, com a caracterização da lei geral medieval e,
consequentemente, com as fontes documentais utilizadas.
Herculano, como acima ficou transcrito, reprova os critérios de distinção, das leis
gerais da monarquia em relação a outros actos públicos, adoptados pelos seus doutos
antecessores – Figueiredo e Ribeiro. Antes de mais, exclui do elenco as concórdias ou
concordatas celebradas com o clero, mas, sobretudo, estranha os diplomas, “onde não é
possível encontrar o menor vestigio da indole legislativa”, tais como os privilégios concedidos
a um determinado mosteiro ou a doação de uma terra a uma ordem religioso‑militar.
Em relação à carta de foro a favor dos mouros livres, concedida por Afonso I, é mais
condescendente já que as Afonsinas poderiam legitimar a sua qualificação e se refere
aos sarracenos de várias localidades, mas, mesmo assim, reportou-a ás leis especiais
dos municípios – os forais. Para este autor os caracteres essências da lei resumem-
se aos da sua actualidade – “O caracter essencial da lei, manifestação authentica da
soberania, seja qual for o individuo ou corpo que exercite esta, e que sempre se refere
a um objecto de interesse commum, consiste em ser a mesma lei de applicação não só
permanente e obrigativa mas tambem geral” – em contraposição com quaisquer actos
especiais, puramente administrativos e transitórios.
Esta projecção, sobre o passado, dos elementos do conceito oitocentista de generalidade,
origem parlamentar, permanência e emanação da soberania, mereceu severa crítica de Manuel
Hespanha, que culpa Herculano de abordar o conceito de lei em termos historicamente
errados[4]. Para este autor – embora reconhecendo que não é este o rumo das fontes
documentais[5] – “se o interesse do historiador é o de detectar a medida de intervenção do poder

1
A. H. Oliveira MARQUES, Cortes D. Afonso IV, pp. 113-115.
2
O título nas Afonsinas é o CI (101) e não o CL (150).
3
MARQUES, Cortes D. Afonso IV, pp. 117-118.
4
HESPANHA, “Nota do Tradutor”, in Introdução Histórica ao Direito, John GILISSEN, p. 318.
5
Considerando o Livro de Leis e Posturas e as Ordenações de D. Duarte actividade de juízes da corte e os Foros
da Guarda, actividade de juízes locais.

48
José Domingues

eminente na constituição da ordem jurídica, então carece de adoptar um conceito que realce o
papel ‘constitutivo’ da vontade do titular desse poder (n)a intenção genérica de regulamentar
as relações sociais”[1]. Concluindo que 2/3 das leis contidas nos PMH são normas de
julgamento do tribunal da corte e apenas em 1/7 se distingue claramente a intenção
real de estabelecer direito novo; pelo que “só um estudo detalhado da tradição textual,
da cronologia e das fontes inspiradoras, tudo em ligação com a conjuntura política permitirá
avançar num diagnóstico claro da função legislativa dos reis portugueses da Idade Média”[2].
Carvalho Homem – preconizando o melindre de uma delimitação conceptual de lei para
a Idade Média tardia[3] – acaba por se apoiar em Léopold Génicot e Albert Rigaudière
- «acto promulgador de uma regra imperativa, para ordenamento das relações entre todos os
membros de uma comunidade» e «todo o acto que, emanado do rei ou de uma autoridade na
qual este delegou o seu poder, é inspirado pelo bem comum do reino e apresenta um certo
grau de permanência e de generalidade», respectivamente. Coloca alguns considerandos aos
diplomas que assumem a forma da carta. E assume a “não-contraponibilidade absoluta
da lei em relação ao privilégio”, arrolando 7 casos em que o acto legislativo apresenta
características de singularidade[4]. Mas será que todos estes casos enfermam de
singularidade?
Antes de qualquer resposta, passemos em revista o conceito de generalidade. Com
as devidas adaptações, parece que se não anda muito longe do percurso traçado por
Herculano e que, em última instância, se pode circunscrever às características actuais
da lei – imperatividade (aplicação permanente e obrigativa), generalidade e abstracção[5]. Ou
seja, sem descurar o contexto e as especificidades de cada época, a lei mantém, com as
devidas adaptações, as suas características de génese ao longo dos quase oito séculos
da monarquia lusitana.
Para traçar um conceito medieval de lei podemos acrescentar o erudito e bem
documentado trabalho de Martínez Martínez[6], que traça um percurso desde o ideal
romano – “fuertemente abocado al casuismo” – passando pela primeira concepção da
lei secular humana, nas Etimologias de São Isidoro, complementada por São Tomás
e transmitida às colectâneas de Afonso X. Desde São Tomás que a lei procura o bem
comum, considerando-se a lei como um mandato geral, excluindo-se as disposições de
carácter particular e os privilégios, como regra geral[7].
Do mesmo autor aspamos a passagem do Foro Real (c. 1255) que consigna a
característica de generalidade da norma legal:

1
HESPANHA, “Nota do Tradutor”, p. 318.
2
Idem, p. 319.
3
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 14.
4
Idem, pp. 34-35.
5
A coercibilidade, outra característica da norma legal actual, não é uma característica intrínseca à norma
jurídica.
6
Faustino MARTÍNEZ MARTÍNEZ, San Isidoro, Santo Tomás y Alfonso X: tres aproximaciones paralelas
al concepto de Ley.
7
MARTÍNEZ MARTÍNEZ, nota 30 e 31:
TOMÁS DE AQUINO, Tratado de la Ley, ed. cit. Capítulo I, Artículo 3: “La ley ante todo y principalmente,
mira al bien común. Y el ordenar todo al bien común es propio o de todo el pueblo o de quien toma la
representación del pueblo. Y por tanto el hacer la ley es propio o de todo el pueblo o de la persona pública
que tiene a su cuidado la dirección de toda la comunidad. Porque en todas las cosas quien debe ordenarlas
a un fin es aquel a quien pertenece dicho fin”.
TOMÁS DE AQUINO, Tratado de la Ley, ed. cit. Capítulo I, Artículo 4: “Y así, de los cuatro artículos prece-
dentes puede ya colegirse la definición de la ley que no es otra cosa sino cierta ordenación al bien común
promulgada por aquel que tiene a su cargo una comunidad”.

49
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

“La ley ama e enseña las cosas que son de Dios, e es fuente de enseñamiento,
e maestra de derecho, e de justicia, e ordenamiento de buenas costumbres, e
guiamiento del pueblo e de su vida, e es tan bien para las mugeres como para los
varones, tambien para los mancebos como para los viejos, tan bien para los sabios
como para los non sabios, asi para los de la cibdat como para los de fuera, e es
guarda del rey e de los pueblos”[1].

Mesmo assim admitem-se algumas excepções, nomeadamente, as especiais


circunstâncias de desconhecimento ou conhecimento deficiente da norma[2]. Para
rematar, refere o autor, “cuestión diferente sería la dispensa de la ley o la creación de
privilegios[3], derivada de ese esfuerzo superior encaminado a garantizar la perfecta adaptación
de la norma a la realidad concreta, con concordancia nuevamente con el pensamiento de Santo
Tomás[4]”.
Efectivamente, as dificuldades despertam quando os compiladores dos séculos
XIV e XV, ao lado de diplomas normativos, arrumam diplomas singulares – autênticos
privilégios. Mas, antes de qualquer tentativa de entendimento, analisemos esses casos
singulares, voltando ao trabalho de Carvalho Homem.
Dos enunciados por Carvalho Homem (7 casos), para os dois reinados que
analisou, penso que só a sentença contra João Afonso, a inquirição sobre rendas e inquiridores
na Estremadura nos últimos 10 anos e as declarações às leis da desamortização para o mosteiro
de Arouca, foram coligidos nas ditas colectâneas e apresentam características de
singularidade[5]. Porque os restantes diplomas – nomeadamente, dos 20 casos em que os
clérigos são da jurisdição régia e devem responder perante juiz leigo, os 11 casos em que a igreja
não dá asilo aos que nela se acolham, a dispensa do pagamento dos 3 soldos de Chancelaria para
as vilas ou lugares onde o rei ou a sua casa se encontrem, e as declarações de Afonso IV no
domínio dos coutos e honras – são genéricos e abstractos, nada obstando à sua qualificação
como leis gerais. O mesmo se não pode dizer da ordenação e regimento das capelas do Rei
e da Rainha na Sé de Lisboa e do regimento dos aniversários que os cónegos da Sé de Lisboa
devem cantar mensalmente nas capelas do rei, que constam do livro 11 da Estremadura,
mas, advirta-se, estes diplomas nem sequer foram compilados nos séculos XIV-XV.
Aliás, torna-se anacrónico, considerar como lei geral estes dois diplomas do
livro 11 da Estremadura e rejeitar, expressamente, os diplomas sobre exportação de
ouro e prata e sobre os direitos dos padroeiros, que também não foram coligidos nas
colectâneas legislativas:

1
Idem, nota 41 (Fuero Real 1, 6, 1.)
2
Na documentação portuguesa, não são escassos os pedidos de perdão ao monarca, baseados no desco-
nhecimento das suas ordenações.
3
Partida 3, 18, 1: “Previllejo tanto quiere decir como ley que es dada et otorgada del rey apartadamente á
algunt lugar ó á algunt home por le facer bien et merced”.
4
TOMÁS DE AQUINO, Tratado de la Ley, ed. cit. Capítulo VIII, Artículo 4: “La dispensa propiamente se
refiere a la adaptación de lo común a los sujetos particulares (...) Pues sucede algunas veces que algún pre-
cepto conveniente para el bien de la comunidad hablando en general, no lo sea para el de algún particular,
o no lo sea en un caso concreto; sea porque mediante el cumplimiento en tal caso se impediría un bien
mejor, sea porque se acarrearía algún mal, como ya antes de ha dicho. Mas sería peligroso que tal juicio
quedara en manos de cualquiera, a no ser en caso de una evidente emergencia, como ya antes se explicó.
Y por tanto quien tiene a su cargo el dirigir la comunidad tiene potestad para dispensar de la ley humana
que está bajo su cargo, en todos aquellos casos en que la ley sería perjudicial según las personas y los casos,
de modo que sea lícito el que no se observe algún precepto de la ley”.
5
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, pp. 34-37.

50
José Domingues

“Não considero como leis os diplomas sobre exportação de ouro e prata e sobre os direitos
dos padroeiros, de 13 de Março de 1327 e 22 de Abril de 1328, respectivamente (…):
nada há no texto que os permita classificar como tal”[1]

Trata-se de dois monumentos que vem dar cumprimento a ordenações gerais,


que transitam do reinado de Afonso III, e o simples facto de terem chegado aos nossos
dias em forma de carta em nada lhe retira o carácter de lei. Assim como os diplomas
do livro 11 da Estremadura, apesar de serem referidos como regimento e ordenação, em
nada se assemelham a leis gerais. A terminologia utilizada pode ser enganosa e uma
carta encobrir uma verdadeira lei geral e uma ordenação ou regimento não se enqua-
drar no cômputo geral das leis do reino – tenha-se em conta a multiplicidade de orde-
nações e regimentos de carácter municipal, existentes à época. Até porque muitas leis
medievais chegaram ao nosso conhecimento através de cartas enviadas às justiças ou
outras instituições sob a forma de carta.
No mesmo seguimento, não suscita qualquer problema o classificar como lei
geral as declarações ou revogações, desde que também sejam gerais e abstractas[2], a um
diploma normativo antecedente – ninguém, actualmente, hesita perante as actuais leis
interpretativas, nem duvida da revogação expressa em próprio diploma normativo.
Sintetizando, para este trabalho e arrolamento anexo, considera-se como lei geral
do reino todo o diploma com características de imperatividade, generalidade e abstracção;
ou aqueles que, mesmo sendo singulares, tenham sido coligidos nas colectâneas dos
séculos XIV-XVI; e aqueles que não sejam uma mera confirmação, mas antes declaração
ou revogação de lei anterior. Assim sendo, das conjunturas apreendidas por Carvalho
Homem, apenas se rejeitam as do livro 11 da Estremadura e acrescentam-se as da
exportação de metais preciosos e a dos padroeiros, mantendo-se, também, os diplo-
mas considerados singulares que constem do Livro das Leis e Posturas, Ordenações de D.
Duarte, Ordenações Afonsinas, Ordenações Manuelinas e Extravagantes de Duarte Nunes
de Leão.
Mas a disparidade do inventário anexo com o de Carvalho Homem, prende-se
mais com uma série de diplomas normativos que ficaram por inventariar. Para além
de escassos exemplos – como o da lei sobre amâdigo[3]; as declarações dionisinas à
lei de seu pai sobre as comitivas e direitos dos padroeiros[4]; a ordenação para que
não paguem portagem os concelhos que para isso tiverem privilégio[5]; a revogação
de uma lei anterior que concedia ao rei o terço de todos os achados nas propriedades
particulares[6];ou a provisão para que, não obstante a defesa de que qualquer judeu
possuidor de quinhentas libras, ou mais, saia do reino sem autorização régia[7], o
possam fazer sem ela, dando fiador abonado a voltar[8] – a maioria desses diplomas
consta de duas fontes documentais, as Ordenações Afonsinas e os Foros de Beja – esta

1
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 29, nota 88.
2
As declarações ou revogações singulares, que preenchem o conceito de privilégio, consubstanciam a
plenitude do poder do rei, mas não são verdadeiras leis gerais. Vide, HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”,
pp. 37 e 39.
3
Lei de D. Dinis de 8 de Abril de 1290.
4
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º15.
5
IAN/TT – Maço 1 de Leis, n.º89.
6
Cortes D. Afonso IV, p. 116-117.
7
A defesa de que qualquer judeu possuidor de quinhentas libras, ou mais, não saia do reino sem autoriza-
ção régia, consta na lei deste monarca de 1352, Novembro, 15 [Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 74, § 14].
8
Corpus Codicum, Porto, 1899, vol. I, p. 96-97

51
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

última não chegou a ser publicada na íntegra. Seguem os comandos normativos que
constam nesses dois cimélios e foram afastados do corpus do Dionisius et Alfonsus.

Das Afonsinas:
• 1294, Janeiro, 05 [Coimbra] – Dos que forçosamente filham posse da
coisa que outrem possui.
• 1301, Fev./Set., 01 [Santarém] – Da filha que se casa sem autoridade
de seu pai antes que aja vinte e cinco anos.
• 1279-1325 – Dos burlões e “inlizadores”.
• 1279-1325 – De como herda o filho do peão a herança de seu pai.
• [-----] – Que aquele que chamar tornadiço ou cão ao infiel que se
converteu cristão seja demandado perante os juizes seculares.
• 1340, Fevereiro, 11 [Estremoz] – Que pena deve haver aquele que
“jouuer” com mulher virgem ou viúva que vive honestamente.
• 1340, Fevereiro, 11 [Estremoz] – Que pena devem haver os alcaiotes
ou as alcaiotas que alcouvetarem mulheres virgens ou viúvas que
vivem honestamente.
• 1340, Fevereiro, 11 [Estremoz] – Que pena devem ter aqueles que
casarem com mulheres que viverem em poder de seus pais ou de
outrem.
• 1340, Fevereiro, 16/17 – Carta para que os alcaides dos mouros
guardem nos seus julgados entre si os seus direitos, usos e
costumes.
• 1340, Julho, 01 [Lisboa] – Lei contra o jogo a dinheiro, tavolagem.
• 1350(?), Maio, 20/30 [Santarém] – Que não possam demandar soldada
senão até três anos.
• 1354(?) – Do que levanta volta em concelho ou perante justiça.
• 1355, Agosto, 06 [Porto] – Lei acerca do fretamento dos navios.
• 1325-1357 – Das execuções que se fazem geralmente pelas sentenças.
• 1325-1357 – Do que matou sua mulher por a achar em adultério.

Dos Foros de Beja:


• 1315, Maio, 11 [Lisboa] – Lei que nenhum não acolha em sua casa
nenhum malfeitor e que cada justiça guarde a sua terra.
• 1325, Abril, 26 [Évora] – Como devem usar na almotaçaria e nas
cousas do concelho.
• 1338, Julho [Santarém] – Estas são as cousas que mandou el-rei fazer
ao corregedor pelas terras por onde andasse.
• 1340, Fevereiro, 11 [Estremoz] – Da pena que deve ter todo o homem
que fizer pecado de luxúria com mulher de Ordem.
• [-----] – Ordenação que manda que metam tantos homens bons e tais
que sejam para prol e bom vereamento.
• [-----] – Dos que ganham as cartas de segurança, como devem fazer
no tempo da segurança.

52
José Domingues

• [-----] – Dos clérigos casados e dos outros que trazem cuitelos grandes
e outras armas e andam de noite.
• [-----] – Como os que forem presos de crime não devem ser fiadores,
nem carcereiros.
• [-----] – Como devem logo desembargar as apelações do crime.
• [-----] – Dos advogados e dos procuradores, o que devem de fazer em
seu ofício e que não devem fazer volta no concelho.
• [-----] – Dos tabeliães que não devem vogar por nenhum e como
devem dar e fazer escrituras.
• [-----] – Que os mestres de cavalaria ou outros prelados que tiverem
lugar de justiça não dêem cartas de segurança.

Que não se arrolem as leis dos Foros de Beja ainda é compreensível, mas o texto
acessível das Afonsinas merecia melhor atenção e outro cuidado. Ainda sobre estas,
carvalho Homem, aventa que “um grupo de 33 (13+20) encontra-se exclusivamente nas
Ordenações Afonsinas, não ostentando data nas mais das vezes”[1]. Na realidade, no seu
estudo, constam 32 (13+19). No entanto, dessas 32, só 25 são inéditas das Afonsinas. Os
n.º 20, 83, 146, 239, 241, 242 e 249 encontram paralelo nas outras colectâneas.

• (n.º20) 1294, Janeiro, 01 [Coimbra] – Livro das Leis e Posturas, pp. 193-
194 / Ordenações de D. Duarte, pp. 174-175.
• (n.º83) 1317, Março, 18 [Santarém] – Livro das Leis e Posturas, 187-188
/ Ordenações de D. Duarte, 301-303. (o título correcto nas Afonsinas é o
74 e não o LXIIII).
• (n.º146) 1332, Junho, 20 – Ordenações de D. Duarte, 381.
• (n.º239) (É considerada lei de D. Afonso II)[2]. Livro das Leis e Posturas,
18 / Ordenações de D. Duarte, 52.
• (n.º241) 1345, Abril, 01 [Santarém] – Ordenações de D. Duarte, 481-489.
Repetida em Ordenações Afonsinas, III, 59.
• (n.º242) 1340, Abril, 01 [Lisboa] – Livro das Leis e Posturas, 322-324,
398-400 e 417-419 / Ordenações de D. Duarte, 444-445. (o título correcto
é 96 e não LXXXVI. Repete-se em Ordenações Afonsinas, IV, 19)
• (n.º249) 1340, Julho, 01 [Lisboa] – Livro das Leis e Posturas, 327-328 /
Ordenações de D. Duarte, 447-448. (o título correcto é 101 e não CL)

Para finalizar, o diploma que Carvalho Homem arrola sob o n.º166, a partir do
Livro das Leis e Posturas, identificando-o como um “conjunto de leis sobre citação de juízes e
corregedores, revelias, querelas indevidas e execuções por sacadores e porteiros”, na realidade
trata-se de um conjunto de 4 leis publicadas, em simultâneo, no dia 16 de Janeiro de
1342, em Coimbra. Todas essas leis constam em título apartado das Afonsinas (embora
uma apareça, de forma indirecta, condensada em lei de D. Fernando), que não aparecem
no Dionisisus et Alfonsus de Carvalho Homem.

1
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 17.
2
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 177.

53
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

“E será finalmente de assinalar que 24% das leis de D. Dinis virão ainda a conhecer
a consagração das Ordenações Afonsinas”[1]. Esta é a percentagem que consta na Nova
História de Portugal, dirigida por Joel Serrão e Oliveira Marques. Supondo que esta
percentagem de leis de D. Dinis nas Afonsinas foi calculada a partir do trabalho de
Carvalho Homem, terá forçosamente que ser rectificada, pelas minhas contas, para
valores próximos dos 38-39%.
Noutros trabalhos, embora em moldes diferentes e muito mais sintetizadores
(referindo apenas totais e percentagens), Carvalho Homem avança também com o
arrolamento da laboração legislativa dos monarcas seguintes: D. Pedro I, D. Fernando,
D. João I, D. Duarte e D. Afonso V[2].
Sobre o primeiro, D. Pedro, refere: “De 1359 a 1366 (mas sobretudo durante o ano de
1361), este monarca produz 12 actos sobre Justiça e burocracia de Corte”[3]. D. Fernando, de
1367 a 1380 terá “promulgado um total de cerca de 20 actos normativos”[4]. Apresenta D.
João I como “um assíduo produtor de ordenações – 113”, mas alertando para o facto de que
“a copiosa legislação que ostenta o nome de D. João I terá provavelmente uma bem fraca marca
pessoal do soberano e uma forte marca de seu filho e sucessor”[5]. Analogamente, a maioria
das 403 leis para o reinado de D. Afonso V, teriam sido promulgadas em nome do
infante regente, D. Pedro[6].
A produção legislativa de D. Pedro, segundo o cômputo que apresento em anexo,
aproxima-se das três dezenas, mesmo não incluindo os privilégios dos moedeiros[7] e dos
reguengueiros[8], bem como os diplomas dirigidos à judiaria de Lisboa[9], que me parecem
susceptíveis de classificação de leis gerais, mas merecem uma apreciação mais cuidada.
Nas Afonsinas identifico 8 diplomas deste reinado, contra os 6 de Carvalho Homem.
Para o reinado seguinte de D. Fernando, os dois totais aproximam-se, com 15
diplomas nas Afonsinas para o meu cômputo e 12 para o de Carvalho Homem.
D. João I (ou o seu reinado, como bem refere e justifica Carvalho Homem) pode
efectivamente ser classificado de assíduo produtor de ordenações, mas em maior escala do
que a inventariada pelo autor. O alcance deste reinado ultrapassa a centena e meia de
diplomas, dos quais 121 foram consagrados na colectânea afonsina.
Para o reinado do Elouquente conto 49 diplomas nas Afonsinas, contra os 30 do
autor que estamos a seguir.
Finalmente, o global astronómico das 403 leis para o reinado de Afonso V, só na
fonte afonsina – o que implica um lapso temporal de apenas 8 anos (1438-1446), salvo
as ordenações apensas –, só será justificável se incluirmos os comentários finais aos
títulos da compilação. Mas essas notas poderão ser inventariadas como verdadeiras
leis gerais?
Claro que não. Apesar de constarem na compilação e de até o seu conteúdo material
o justificar, faltam-lhe os verdadeiros condicionalismos formais, para se poderem
classificar como leis gerais.

1
HOMEM e COELHO, Nova História de Portugal, pp. 148-150
2
HOMEM, “Estado Moderno e Legislação régia”, pp. 129-130.
Idem, “Législation et compilation législative”, pp. 685-686.
3
HOMEM, “Estado Moderno e Legislação régia”, p. 115.
4
Idem, p. 116.
5
Idem, pp. 117 e 118.
6
Idem, p. 129, nota IV.
7
Chancelaria D. Pedro I, doc. 521.
8
Chancelaria D. Pedro I, doc. 812 e doc. 830.
9
Chancelaria D. Pedro I, doc. 1131 e doc. 1147.

54
José Domingues

4. Communis Opinio Actual


Arrepanhando os pontos soltos que foram ficando ao longo deste capítulo, num
sucinto genérico, podemos concluir que, apesar do esforço faraónico desenvolvido
pelos inúmeros e doutos investigadores – tanto da História tout court como da História
do Direito – e das múltiplas perspectivas que tem sido encarada – histórica, jurídica,
genealógica, económica, politica, social… – a esfinge desta colectânea medieval de
leis pátrias continua vigilante e atenta aos segredos de uma legislação multisecular,
compilada há mais de cinco centúrias, desafiando os afoitos que os pretendam
desvendar. Só este constante estímulo intelectual de enigma e risco – que se manterá
eternamente digamos o que dissermos, cheguemos onde chegarmos – serve de
justificativo para, passados muitos séculos e gerações, gastas rimas de papel e corridos
rios de tinta, alguém se continuar a debruçar sobre as Ordenações Afonsinas.
Analisando a bibliografia acima referida, o plano que se nos oferece como mais
plausível, no seio da comunidade científica hodierna, penso não andar muito longe deste:

1. O prólogo do livro I das Ordenações Afonsinas continua a ser o esteio


fundamental para o estudo da preparação desta colectânea.
2. Os seus compiladores, aparentemente, parecem ter sido o corregedor
da corte, João Mendes, e o Doutor Rui Fernandes.
3. O Doutor João das Regras está hoje completamente dissociado desta
tarefa compilatória.
4. Entre o livro I e os restantes quatro existe uma incontestada diferença
de estilo de redacção.
5. A consequência imediata dessa diferença redactória foi a da atribuição
do livro I ao compilador mais antigo, João Mendes, e os restantes ao
mais recente, Rui Fernandes.
6. No entanto, Martim de Albuquerque, vem lançar sérias dúvidas a
esta interpretação.
7. Outros vão mais longe ao contestar a designação generalizada, que,
praticamente desde o século XVI, adjudica este compilação a D.
Afonso V.
8. Retirado o merecimento ao Afonso V, as opiniões divergem: uns
adjudicam-no a D. Duarte e outros ao seu irmão, D. Pedro.

Ou seja, sem dúvida, actualmente temos uma superior abundância de pensamentos


elevados e teorias fundamentadas, mas as certezas parecem ser menores do que se nos
reportarmos ao final do século XVIII, quando verdadeiramente se iniciaram os estudos
em volta desta colectânea. Continuamos sem saber, ao certo, quando se iniciaram os
trabalhos, qual a faina desenvolvida por cada um dos compiladores, qual o âmbito de
vigência e aplicação, etc. Não admira, por isso, que continue a faltar:

9. A cobiçada edição crítica reivindicada por Marcello Caetano, há mais


de vinte anos.
10. O exame comparativo, de fundo, substancial, com as Ordenações de D.
Duarte, reclamado por Martim de Albuquerque.
11. Mas também com o Livro das Leis e Posturas e com os originais e
apógrafos disseminados pelos mais variados arquivos.

55
As Ordenações Afonsinas Capítulo I: Antecedentes Históricos e Bibliográficos – Estado Actual da Questão

12. O revisar, a partir de novas concepções metodológicas, de todo o


processo formativo.

Prestar mais alguns contributos para uma edição crítica, um exame comparativo
com algumas das fontes inventariadas, despetrificar subsídios retrógrados e fossiliza-
dos, carreando outros exequíveis para um melhor entendimento de todo o processo de
compilação, que inquietou os primeiros monarcas da Dinastia de Avis, são os propósi-
tos cabais da primeira parte deste trabalho.
Enumerados os objectivos almejados, explicitado o título escolhido, referenciadas
algumas diligência de busca setecentistas, e feita uma descrição sumária da bibliogra-
fia dispensada a esta parte da historiografia das Ordenações Afonsinas, recuemos então
ao tempo em que surge a necessidade de dotar o reino de Portugal de uma compilação
de leis própria. Nunca será demais salientar que este período é fortemente marcado
por uma vivência de repúdio permanente de tudo o que era castelhano, legado pela
crise da sucessão após a morte de D. Fernando, não lhe escapando, com certeza, as
colecções legislativas do país vizinho, que, desde há muito tempo, tinham assumido
papel de preponderância nos foros e no seio dos nossos jurisconsultos.

56
Capítulo II

Compilação & Compiladores

“Como o uso das leis he tão necessario aa vida politica, que tam
pouco se poderia conservar a republica sem ellas, como o mundo
sem Sol, porque dellas depende a conservação e prosperidade
della, todo o trabalho que se toma, não somente por as instituir
e ordenar, mas por as declarar, ou poer em alguma ordem, para
que melhor se compreendão, se teve sempre em muito.”
Duarte Nunes de [LEÃO, Compilação de Leis Extravagantes. IAN/
TT – Casa Forte, códice 26]

“E por eles, de tudo, enfim, senhores,


serão dadas na Terra leis milhores”
[Luís Vaz de CAMÕES, Lusíadas. Canto II, Estrofe 46]

1. As Condições da Época
A necessidade que o Homem tem de publicitar, declarar e sistematizar as
normas que regem a sociedade em que se insere, de forma a poderem ser conhecidas,
compreendidas e respeitadas por todos os seus membros é um ideal já muito antigo.
E, de alguma forma, parece completar o idealismo peripatético do antigo filósofo de
Estagira – “ubi homo ibi societas”, “ubi societas ibi ius”. O Homem é por natureza um
animal social e para garantir a sua convivência pacífica em sociedade não dispensa
a existência de regras, sendo, consequentemente, um animal político. De seguida, o
desenvolvimento de uma determinada sociedade e a consequente multiplicação
das suas normativas tornam indispensável a elaboração de um repositório jurídico
sistematizado – “onde há direito terá que haver códigos ou compilações”.
Se é certo que a compilação de um significativo acervo de leis gerais vigentes
(transcrevendo umas, alterando outras e revogando as desactualizadas) espelham os
costumes e ideais de um povo, num determinado momento histórico da sua evolução[1],
não é menos exacto que essa compilação seja ditada pelas conjunturas sociais,
económicas, culturais, militares, políticas, religiosas… vividas nesse mesmo período.

1
“A codificação da Legislação de qualquer Estado, como já notamos, representa de ordinario uma épocha,
em que se tem realizado uma revolução nos costumes e ideas de um Povo” [Cândido Mendes de ALMEI-
DA, “Historico da Legislação Portugueza, e de seus Codigos até a épocha da Independencia. O Direito
Romano”, in Ordenações Filipinas, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, livro I, p. VII (edição fac-simile da
edição feita por Candido Mendes de Almeida, Rio de Janeiro, 1870).

57
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Sabendo de antemão que, segundo o prólogo das Ordenações Afonsinas, o advento


da dinastia de Avis traz consigo uma autêntica lida codificadora de todo o direito coevo
– “no tempo que o mui alto e Mui Eixcellente Princepy ElRey Dom Joham da Gloriosa
memoria pela graça de Deos regnou em estes Regnos, foi requerido algumas vezes
em Cortes pelos Fidalgos, e Povoos dos ditos Regnos, que por boõ regimento delles
mandase prover as Leyx, e Hordenaçoões feitas pelos Reyx, que ante elle forom”[1] –
teremos que tentar perscrutar as mais relevantes contingências desse reinado de D.
João I, para cuidar do alcance, urgência e significado dessa tarefa compilatória.
Este reinado marca, antes de mais, o termo da primeira dinastia do reino de
Portugal, dinastia Afonsina, e o princípio de uma outra, a dinastia de Avis. Esta mudança
de linhagem real resultou da grave crise de sucessão a que a morte de el-rei D. Fernando
tinha votado o país. Com o falecimento deste soberano, a 22 de Outubro de 1383[2], sem
qualquer descendência masculina, a legítima sucessora da coroa portuguesa passou a
ser a sua filha, infanta D. Beatriz, casada com o monarca de Castela, D. João. Aliada
a uma sucessão legítima a infanta contava ainda com o juramento de fidelidade,
prestado à data do seu casamento, pela grande maioria da nobreza portuguesa. Mas o
senão deste sucedimento era, sem dúvida, o da perda da independência do reino para
Castela. Esta eminência da perda da autonomia levantou um partido contestatário que
acabou por apoiar o ascenso de D. João, coevo mestre da Ordem de Avis e irmão do
falecido monarca, a rei de Portugal.
Esta insurreição ao jugo estrangeiro lançou o reino de Portugal em cruentas
guerras com o seu opositor e intestinas batalhas contra as fortalezas que tinham tomado
partido por Castela. Dessa necessidade premente de independência irá despertar
um robusto sentimento patriótico, acessório de uma vincada aversão contra o reino
vizinho, que se prolongará ao longo de todo o reinado joanino e imediatos. Para além
da dianteira militar, sobejamente esmiuçada pela historiografia contemporânea, outras
frentes parecem ter sido digladiadas, nomeadamente a jurídico-legislativa e até a do
misticismo religioso[3]. Seguindo de perto Paulo Loução, “tudo indica que a aparição
de Cristo em Ourique, foi um ‘acontecimento’ forjado no início da segunda dinastia por
razões politicas”[4], considerando-o “um autêntico golpe de mestre político para defesa
da independência do reino português”[5].
Não admira, por isso, que o mister da independência das fontes jurídico-legislativas
castelhanas tenha sido veementemente experimentado no início desta dinastia de
Avis, revelando-se o grande impulsor para a organização de uma colectânea de leis
pátrias, que garantisse a autonomia futura do ordenamento jurídico português. Assim
o entendeu – penso que sem qualquer eco na posteridade – o prefaciador oitocentista
das Ordenações Filipinas, Cândido Mendes de Almeida:

“A independencia de Portugal dos Reinos visinhos de Leão e de Castella ainda


se não reputava completa, se a Legislação desses Paizes não fosse inteiramente

1
Ordenações Afonsinas, Livro I, prólogo, p. 1.
2
António Caetano de SOUSA, Provas da História Genealógica, Lisboa, 1739, Tomo I, Livro II, doc. 37, p. 425
(Coimbra, 1946): “Era 1421 annos quinta feira 22 dias de Outubro ao serão antre as sete e outo horas, se finou este
nobre Rey D. Fernando a que Deos perdoe e foi enterrado a sesta feira no Mosteiro de São Francisco de Lisboa. He
anno de Xpº. 1383”.
3
Margarida Garcez VENTURA, O Messias de Lisboa. Um Estudo de Mitologia Política (1383-1415), Edições
Cosmos, Lisboa, 1992.
4
Paulo Alexandre LOUÇÃO, Portugal – Terra de Mistérios, Ésquilo, Lisboa, 2001, p. 116.
5
Paulo Alexandre LOUÇÃO, Dos Templários à Nova Demanda do Graal, Ésquilo, Lisboa, 2003, p. 165.

58
José Domingues

abandonada, proscripta; organisando-se um Codigo Nacional, puramente Portuguez, o


ideal dos Juristas patriotas ou revolucionários”[1]

Muito antes, Anastácio de Figueiredo tinha formulado um juízo similar, mas ape-
nas em relação à primazia das Leis Imperiais e do Código Justinianeu, constatando e
argumentando com a ausência das Partidas no elenco exaustivo das fontes de direito
subsidiário, previstas no título 9 do livro II das Afonsinas:

“foi muito natural acabar a autoridade, que até então tinhão tido as Leis das Partidas,
proprias de Castella, ainda por nenhum illustradas; e preferirem-se, ou ficarem sós
outra vez as Imperiaes, e o Corpo de Direito Justinianeo, como primeira fonte, e mais
copiosa das ditas Leis, e de todo o Direito, onde melhor se podia beber (…) E he por
esta razão, que as ditas Leis das Partidas se não vêm mais attendidas, ou mandadas seguir
como subsidiarias, mas antes depois das Imperiaes, e Santos Cânones se mandão
guardar as Glosas de Acursio, e Opiniões de Bartholo etc.”[2]

Se este raciocínio é válido para as fontes subsidiárias, mais o será para a fonte
primária – o Direito do Reino. A subordinação portuguesa às fontes jurídicas dos reinos
de Leão e Castela remontava ao desmembramento de Portugal do reino de Leão, no
recuo do século XII. Nos conturbados séculos do incipiente reino, quando se tornava
impreterível definir fronteiras com os circunvizinhos reinos cristãos e avassalar o
maior número de terras ao Alcorão, aos monarcas lusitanos não sobejou o tempo para
legislar[3], sendo-lhe, por isso, mais prudente e adequado recorrer ao saber acumulado,
por séculos de experiência e reflexão, nas fontes jurídicas do reino mater[4].
De entre as fontes herdadas de Leão avulta logo o Código Visigótico, citado em
documentos portugueses do século XII, sob a designação de Lex Gothorum, Liber
Judicialis, Forum Judicum, etc[5]. Mas, desde os princípios do século XIII essas citações,
praticamente, desaparecem e o fenómeno do renascimento do Código Visigótico

1
Cândido Mendes de ALMEIDA, “Os Codigos Portuguezes – Affonsino, Manoelino, Sebastianico e Phili-
ppino”, in Ordenações Filipinas, livro I, p. XIX.
2
José Anastácio de FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Jus-
tiniano em Portugal, o modo da sua introducção, e os grãos de authoridade, que entre nós adquirio. Por
cuja occasião se trata toda a importante materia da Ord. liv. 3 tit. 64”, Memorias de Litteratura Portugueza,
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo I, Lisboa, 1792, p. 290.
3
Há excepção da tentativa das Cortes de Coimbra de 1211, no reinado de Afonso II, só no reinado de
Afonso III se desencadeou a função legislativa dos monarcas portugueses, a que, com certeza, não foram
estranhas as influências trazidas da corte francesa. De Afonso Henriques há notícia de uma lei, cujo texto se
desconhece, sobre as barregãs dos clérigos; do reinado de Sancho I conhece-se apenas a provisão dirigida
ao clero do reino; e do reinado de Sancho II não se conhecem leis gerais. [Portugaliae Monumenta Histórica,
Leges, pp. 161-182 e cfr., por todos, CAETANO, História do Direito, pp. 240-241.]
4
De entre a multiplicidade de autores, aspamos as palavras de Gama Barros: “A historia das instituições
administrativas de Portugal, nos primeiros tempos da sua independencia, ha de ir necessariamente buscar
as fontes mais proximas á historia social de Leão e Castella, porque os elementos predominantes então
na sociedade portugueza não podiam deixar de ser os mesmos, que prevaleciam tambem nos Estados de
que o novo reino procedia. E ainda seculos depois, da jurisprudencia e dos usos de Castella traziamos
principios e costumes, que sanccionavamos na legislação ou introduziamos no nosso viver;” [BARROS,
Administração Pública em Portugal, p. 1]
5
Para referências documentais concretas vide: José Anastácio de FIGUEIREDO, Nova Malta, parte 1.ª, p. 16,
nota 6; p. 40, notas 21 e 22; e p. 281, nota.
António Caetano do AMARAL, Memórias da Literatura Portuguesa, vol. VII, p. 156, nota 181; p. 158, nota
182; e p. 162, nota 184.
BARROS, História da Administração Pública, pp. 1-3, nota 2.

59
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

operado em Castela através da sua tradução para romance (Fuero Juzgo) já não tem
repercussões em Portugal[1]. No entanto, não deixa de ser curioso que no inventário de
21 de Junho de 1296, elaborado quando da tomada de posse da diocese do Porto pelo
bispo D. Sancho Pires, se arrole “huun liuro do iulgo de Leon”[2].
Questão controversa tem sido a de mestre Vicente se não ter servido das leis
propícias deste Código na questão, ventilada na Corte Romana, entre D. Afonso II e
as suas irmãs. Herculano estranha esta lacuna, já que as pretensões do rei estavam
espelhadas no dito Código, que previa a passagem integral do património real do
rei falecido para o sucessor, não podendo reverter em favor dos filhos senão os
bens adquiridos antes de ele obter a coroa[3]. José Mattoso, em comentário à obra de
Herculano, justifica essa omissão com o pretenso esquecimento da tradição visigótica e
a pretendida influência crescente do Direito Navarro[4], no que é seguido de perto por
Maria Teresa Nobre Veloso[5].
É incontroversa a continuidade do costume e dos foros leoneso-castelhanos, tanto
os restritos (forais) como os extensos (foros ou costumes), que são o grande repositório
de normas escritas de maior aplicabilidade no incipiente reino. “Forais e costumes por-
tugueses integram dum modo geral verdadeiras famílias de diplomas que, não raro, tinham as
suas raízes em terras leonesas”, assegura Ângela Beirante, aclarando as analogias:

• “Costumes da Guarda, que são uma cópia dos de Salamanca e seguem


de perto os fueros leoneses de Zamora, Ledesma e Alba de Tormes e
devem datar do tempo de Sancho I, início do séc. XIII.
• Foros de Riba-Coa ou Cima-Coa: Alfaiates, Castelo Bom, Castelo
Rodrigo e Castelo Melhor, que fazem parte duma família de foros de
Estremadura leonesa (que parece ter irradiado de Ciudad Rodrigo) e
têm os seus correspondentes leoneses em Cória, Cáceres e Usagre.
Foram concedidos àquelas localidades pelo rei Afonso IX, quando a
região entre Côa e Águeda fazia ainda parte do reino de Leão. Datam da
primeira metade do séc. XIII.”[6]

Existem também provas documentais da aplicação das leis gerais das cúrias
leonesas, nomeadamente as saídas da Cúria de Leão [1017/20] da Cúria de Coiança
[1055] e de Oviedo [1115][7]. Resumindo, Guilherme Braga da Cruz não andaria muito
longe da verdade quando afirma que “o direito português inicialmente não é mais que
um ramo do direito leonês, pois que Portugal se formou de um desmembramento do reino de
Leão”[8].

1
Guilherme Braga da CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, sep. da Revista Por-
tuguesa de História, tomo 14, Coimbra, 1975, p. 180 (com indicação de vasta bibliografia).
2
Mário Júlio de Almeida COSTA, “Para a história da cultura jurídica medieva em Portugal”, Boletim da
Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. 35, Coimbra, 1959, p. 271
3
Alexandre HERCULANO, História de Portugal, vol. II, Livro IV, p. 201.
4
Idem, p. 334, nota 9 de José Mattoso.
5
Maria Teresa Nobre VELOSO, D. Afonso II. Relações de Portugal com a Santa Sé durante o seu reinado, Arquivo
da Universidade de Coimbra, 2000, p. 77.
6
Maria Ângela Rocha BEIRANTE, “Traição, aleive e falsidade nos foros medievais portugueses”, Actas das
Jornadas Sobre o Município na Península Ibérica (Sécs. XII a XIX), Santo Tirso, 1988, pp. 134-135.
7
CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, pp. 179-180, nota 1, que remete para a
vasta bibliografia atinente.
8
CRUZ, História do Direito, p. 35 (Dactilografado).

60
José Domingues

Mas essa subordinação portuguesa às fontes jurídicas do reino limítrofe


acentuar‑se‑á ainda mais com as obras legislativas elaboradas, sobretudo, no reinado
de Afonso X, o Sábio[1]. Sendo até de estranhar que, nessa época, não tenham surgido
idênticas colectâneas com o cunho dos legisperitos portugueses. São quatro as obras
de origem castelhana que aparecem entre a documentação portuguesa medieval:

• Flores de Direito;
• Nove Tempos dos Pleitos;
• Foro Real;
• Sete Partidas.

O autor das duas primeiras terá sido mestre Jácome Ruiz ou mestre Jácome das
Leis. Estas duas obras e o Foro Real aparecem em tradução portuguesa no sobejamente
esfalfado códice dos Foros da Guarda[2].
Da tradução portuguesa completa dos sete livros das Partidas chegaram aos
nossos dias apenas o primeiro e o terceiro e fragmentos da 1.ª, 2.ª, 3.ª e 7.ª Partidas,
sendo possível que existam fragmentos das restantes Partidas (4.ª, 5.ª e 6.ª) que ainda
não foram identificados. A profusão dos fragmentos das Partidas – continua Azevedo
Ferreira – “por vezes, de tal modo numerosos, como no caso da Terceira Partida, que nos
levam a admitir a probabilidade de se terem realizado diversas versões, parece‑nos ser
um facto muito significativo da difusão que a obra legislativa afonsina deve ter tido no território
português”[3].
Desde o século XVIII que estes textos merecem repetida atenção dos investigadores
e já todos saíram à luz da imprensa, à excepção da Terceira Partida, que a morte
prematura de Azevedo Ferreira surpreendeu em fase de remate[4], pois em artigo
publicado um ano antes, este autor, afirma que a “edição se encontra em fase de conclusão”[5].
Para as múltiplas edições e bibliografia relativa à obra legislativa de Afonso Sábio em
Portugal remeto, entre outros, para Braga da Cruz[6], José Mattoso[7] e, sobretudo, para
o labor de José de Azevedo Ferreira, que lhe sacrificou, praticamente, todo o tributo
científico da sua atestada vida de pesquisador[8].

1
Cfr. CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português, pp. 195-204
CAETANO, História do Direito, pp. 339-343.
2
IAN/TT – Núcleo Antigo, Maço 6º de Forais Antigos, n.º4.
3
José de Azevedo FERREIRA, “A obra legislativa de Afonso X em Portugal”. Estudos de História da Língua
Portuguesa: Obra dispersa. Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos,
2001, pp. 79-80.
4
Vide, sobretudo, José de Azevedo FERREIRA, “Subsídios para uma edição da Terceira Partida de Afonso
X” e “Terceira Partida de Afonso X: subsídios para a sua edição e estudo linguístico”. Estudos de História da
Língua Portuguesa: Obra dispersa. Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Huma-
nísticos, 2001, pp. 91-106 e 231-247.
5
José de Azevedo FERREIRA, “Terceira Partida de Afonso X: subsídios para a sua edição e estudo linguís-
tico”. Estudos de História da Língua Portuguesa: Obra dispersa. Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho,
Centro de Estudos Humanísticos, 2001, p. 245. (Publicado em Actas do XIX Congresso Internacional de Lin-
guística e Filoloxía Românicas (Universidade de Santiago, 1989), vol. VII, A Coruña, Fundación «Pedro Barrié
de la Maza. Conde de Fenosa», 1994, pp. 187-204).
6
CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, pp. 195-204.
7
José MATTOSO, “As relações de Portugal com Castela no reinado de Afonso X, o Sábio”. Fragmentos de
uma Composição Medieval, Obras Completas, vol. 6, Círculo de Leitores, 2001, pp. 59-77.
8
Nomeadamente a colectânea póstuma de artigos: José de Azevedo FERREIRA, Estudos de História da
Língua Portuguesa: Obra dispersa, Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Hu-

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As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Muitas questões ficaram ainda por desvendar, designadamente, a da data da


tradução e entrada em Portugal. Paulo Mêrea aventou que, os textos de Jácome das
Leis[1] e do Foro Real[2], todos nos Foros da Guarda, teriam sido escritos entre 1273 e
1282[3]. Azevedo Ferreira adianta, ser possível, que a tradução do Fuero Real se tenha
verificado pouco tempo depois de 1267[4].
Outra questão que se coloca é a da sua vigência efectiva no reino de Portugal.
Braga da Cruz inclina-se para a sua utilização, logo desde o século XIII, como fontes
subsidiárias de direito[5]. Mas Rui de Albuquerque e Martim de Albuquerque inclinam-se
mais para “uma tradução meramente esporádica feita por algum jurista local”[6].
De todas, a obra que atingiu maior proeminência e divulgação no reino de
Portugal foi, sem dúvida, a das Sete Partidas. Transpondo o teste do tempo, aos nossos
dias chegaram traduções portuguesas completas da Partida 1.ª e 3.ª, actualmente na
Torre do Tombo, e numerosos fragmentos disseminados por diversos arquivos[7]. A
longínqua e fecunda tradição – com raízes em Brandão, nos meados do século XVII
– que tributa a D. Dinis a iniciativa da tradução das Partidas de seu avô, ainda não
está, de modo terminante, documentalmente validada. Mas a sua utilização pelos
juristas portugueses do século XIV está demonstrada – aventa Beceiro Pita – “a través
de las adiciones y comentarios realizados en las márgenes del texto, al final de la obra o en las
guardas”[8]. A propósito de notas marginais, Anastácio de Figueiredo registou que “em

manísticos, 2001.
E as publicações em livro: José de Azevedo FERREIRA, Alphonse X. Primeyra Partida, Édition et étude.
Textos de linguística 3, INIC, Braga, 1980.
José de Azevedo FERREIRA, Afonso X: Fuero Real, Universidade do Minho, Centro de Estudos Portugue-
ses, Braga, 1982.
José de Azevedo FERREIRA, Afonso X: Foro Real. Edição e estudo linguístico, Instituto Nacional de Inves-
tigação Científica, Lisboa, 1987.
1
Paulo MÊREA, “A versão portuguesa das ‘Flores de las leyes’ de Jácome Ruiz”, Revista da Universidade de
Coimbra, vol. V, Coimbra, 1916, pp. 444-457 e vol. VI, Coimbra, 1917, pp. 341-371.
José de Azevedo FERREIRA, Flores de Dereito. Edição, estudo e glossário, Braga, Universidade do Minho,
1989. (reeditado em Estudos de História da Língua Portuguesa: Obra dispersa. Colecção Poliedro 7, Universida-
de do Minho, Centro de Estudos Humanísticos, 2001, pp. 415-464).
José de Azevedo FERREIRA, “Edição e estudo linguístico dos Tempos dos Preitos”, Estudos de História da
Língua Portuguesa: Obra dispersa, Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Huma-
nísticos, 2001, pp. 339-375.
2
Publicado pela primeira vez por Alfredo PIMENTA, Fuero Real de Afonso X, o Sábio. Versão portuguesa do
século XIII, Instituto para a Alta Cultura, Lisboa, 1946.
3
Manuel Paulo MERÊA, Estudos de História do Direito, Coimbra, 1923, pp. 45-65.
4
José de Azevedo FERREIRA, “A obra legislativa de Afonso X em Portugal”, Estudos de História da Língua
Portuguesa: Obra dispersa, Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos,
2001, p. 87.
5
Vide a exegese do percurso e bibliografia traçado em Guilherme Braga da CRUZ, “O direito subsidiário
na história do direito português”, pp. 195-204.
6
Ruy de ALBUQUERQUE e Martim de ALBUQUERQUE, História do Direito Português, Lisboa, 1993 (8.ª
edição), p. 146.
7
Por todos, cfr. os trabalhos de José de Azevedo Ferreira, onde se pode coligir vasta bibliografia, nomea-
damente:
“Dois fragmentos da Segunda Partida de Afonso X”, pp. 291-317.
“Un nouveau fragment de la Terceira Partida de Alphonse X”, pp. 319-338.
“Dois fragmentos da Terceira Partida de Afonso X”, pp. 377-416.
“Fragmentos das Partidas de Afonso X reencontrados em Braga”, pp. 465-496.
8
Isabel BECEIRO PITA, “Notas sobre la influnecia de “Las Siete Partidas” en el reino Portugués”. Os Reinos
Ibéricos na Idade Média, Livro de Homenagem ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno, Coorde-
nação de Luís Adão da Fonseca, Luís Carlos Amaral e Maria Fernanda Ferreira Santos, Porto, 2003, pp. 489.

62
José Domingues

varias marginaes (...), como em algumas, que tambem se encontrão no já tantas vezes lembrado de
Leis e Posturas antigas, tambem do mesmo Seculo XIV, se vê existir então igualmente a Partida
4. 5. 6. e 7. partes daquelle Livro da Partida, ou por outros tantos Livros da Partida”[1].
A investigadora Beceiro Pita acaba por estender a influência desta colectânea
para além da promulgação das Afonsinas, aduzindo referência documental avalista
retirada da quitação de el-rei, de 25 de Outubro de 1475, à mulher e herdeiros do
mercador João Afonso de Bazán, quando este foi a Bristol[2]. Outro documento mais
recuado, a quitação ao recebedor das sisas dos panos de Lisboa, João Afonso, de 6
de Março de 1456, também compreende as Partidas entre a pluralidade de coetâneas
fontes de Direito[3]. Mas mesmo antes da conclusão das Afonsinas se usava esta fórmula
documental estereotipada, como consta na carta de quitação ao tesoureiro-mor do rei,
João Gonçalves, em 15 de Dezembro de 1430[4]. Espinosa da Silva salienta a conexão
entre a referência, neste último documento, aos “liuros de bartollos E grossas per nos
sobrello fectas” com a situação retratada pela carta de 18 de Abril de 1426[5]. Repare‑se
que esta fórmula aparece sempre em cartas de quitação. Por outro lado, no final do
reinado de D. João I – num período de longas tréguas entre os reinos ibéricos – já
estaria afastada a antipatia às Partidas, que acabam por influir na organização das
Afonsinas.
Este aspecto é particularmente interessante para este trabalho. O delicado vínculo
da compilação afonsina às Partidas de Castela já ficou realçado por José Veríssimo
Alvares da Silva no século XVIII[6], mas foi o infatigável Gama Barros que se deu ao
labor de identificar exemplos concretos de transcrições das Partidas para as Afonsinas[7].
Escreve este autor:

1
José Anastácio de FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época da introducção do Direito de Justinia-
no em Portugal, o modo da sua introducção, e os gráos de authoridade, que entre nós adquirio. Por cuja
occasião se trata toda a importante materia da Ord. liv. 3. tit. 64”. in Memorias de Litteratura Portugueza,
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, tomo I, Lisboa, na officina da mesma Academia,
1792, p. 284.
2
“e posto que en ella non feiçamos expressa memçam dallgûnas sollenidades que em ella per dereito deu-
em se escriptas asi aquellas que perteençem a custumes e hordenamientos … como de todollos dereitos
ciuees e canónicos façanhas e opinioõees de doutores e liuros do bartollo e grosas sobre elle feitas e de
todollos liuros da partida e leis do regno e de todallas outras cousas ou dereitos…” [BECEIRO PITA, “Notas
sobre la influnecia de “Las Siete Partidas” en el reino Portugués”, pp. 491-492].
3
“E porem lhe mandamos dar esta nossa carta de quitaçõ sijgnada per nos e asseellada do nosso sseello
pendente e posto que em ella nõ façamos espresa meençom de alguãs ssolenidades que em ella per direito
deuessem seer escriptas assy aquellas que perteemcem a custumes e hordenamentos de contos como de
todollos direitos çijuees e canonjcos façanhas e opiniõoes de doutores e liuros de Bartollo e grosa sobre
elle feitas e de todollos liuros de partida e leix do regno e de todallas outras cousas ou direitos per quallquer
guissa que seja que o em elle deuessem seer…” [Documentos das Chancelarias Reais anteriores a 1531 relativos
a Marrocos, vol. II, doc. 313, p. 331].
4
“posto que (…) nos nom façamos expressa mençom de alguas de Solenidades que em Ella deuessem sseer
escriptas, assy aquellas que pertencem a Custumes e hordenamento de contas; Como a todollos djreitos
Ciujes E Canonjcos façanhas E openjõoes, E grossas <de> douctores; liuros de bartollos E grossas per nos
sobrello fectos; E todos liuros de partida E lexs do Reyno E todalasOutras Coussas Ou djreitos per qualquer
guissa que seja (…)”
[Chancelaria de D. Duarte, vol. II. Livro da Casa dos Contos, Lisboa, 1999, doc. 41, p. 74]
5
SILVA, História do Direito, Lisboa, 2001, 3.ª edição, p. 269, nota 2
6
José Virissimo ALVARES da SILVA, Introducção ao Novo Codigo ou dissertação crítica sobre a principal causa
da obscuridade do nosso codigo authentico, Lisboa, Na Regia Officina Typografica, 1780, p. 18, nota (l).
Também deste século, Luís Joaquim Correia da SILVA, Prefação ao Liv. I das Ordenações Afonsinas, Coim-
bra, 1792, p. XXII.
7
CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, p. 202, nota 36.

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As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

“em prova da auctoridade que teve em Portugal essa compilação de Affonso X,


basta dizer que, não falando já dos regimentos d’ella copiados, que se encontram nas Ord.
Aff., desde o tit. 51 do livro I, e serão referidos quando tratarmos da administração
militar, os redactores do nosso codigo affonsino trasladaram quasi litteralmente leis
inteiras das Partidas”[1]

Em nota de rodapé, cita os quatro exemplos: livro I, tít. 2 pr. Partida II, tít. 9, Lei
4; livro V, tít. 2 § 3 Partida VII, tít. 2; livro V, tít. 2 § 4 Partida VII, tít. 2, lei 1 pr.; e livro
V, tít. 3 Partida VII, tít. 2, lei 6.
Antes de mais saliente-se que os compiladores – talvez propositadamente –
omitem qualquer referência expressa à obra suporte destes preceitos, denunciando as
réstias de uma aversão, mesmo depois de um longo período de paz. Mas a influência
desta colectânea estrangeira, como salienta Gama Barros, manifesta-se, mormente, nos
preceitos do regimento da guerra, a partir do título 51 do livro I.
Sintetizando, em jeito de encerramento, a aplicabilidade e influência das Partidas
em Portugal, no decurso da Idade Média, ficam condensadas e traduzidas, de forma
modelar, nesta passagem de Beceiro Pita:

“La influencia de las Siete Partidas en Portugal resulta explicable por la importancia
de los contactos entre los reinos castellanos y lusos a lo largo de toda la Edad Media,
pero, sobre todo, por las características de esta recopilación jurídica. El objectivo
con la que fue concedida, de regulación de las pautas de comportamiento del
conjunto social, y el conjunto de consideraciones generales y de casuísticas muy
concretas y precisas, posibilitan el uso por instituciones eclesiásticas y monarcas de
la Primera Partida como compendio de la doctrina cristiana, el empleo de la Tercera
Partida como instrumento legal para la construcción del Estado portugués y, ya a
finales del siglo XV, del conjunto de la obra como gran repertorio que fija las líneas
maestras que debían regir la correcta actuación del soberano, que había de estar
presidida por el respecto a la justicia y a la ley. Así lo indican los manuscritos y
referencias documentales del Arquivo Nacional do(sic) Torre do Tombo”[2]

2. Colectâneas Anteriores
Parece que o gravame das colectâneas legislativas castelhanas já se fazia sentir
nos reinados antecedentes ao de D. João I, nomeadamente no do Justiceiro Pedro I[3].
Nas Cortes de Elvas, de 1361 – as únicas deste reinado – os representantes do clero
queixam-se que os juízes régios não querem guardar o Direito Canónico, sendo certo
que seguiam o código das Sete Partidas feitas por el-rei de Castela, a quem o reino de
Portugal não devia qualquer submissão[4]:

“Outro sy muitas vezes nom querem guardar o Direito Canonico, o que todo
Chrisptaão devia guardar, porque era feito polo Padre Santo, que tinha as vezes
de Jesu Chrispto, e era mais razom de o guardarem em todo o nosso Senhorio pola dita
razom, que as Sete Partidas feitas per ElRey de Castella, ao qual Regno de Portugal
nom era sobjeito, mas bem livre, e izento de todo.”[5]

1
BARROS, História da Administração Pública em Portugal, tomo I, p. 127.
2
BECEIRO PITA, “Notas sobre la influnecia de “Las Siete Partidas” en el reino Portugués”, p. 492.
3
CAETANO, História do Direito, pp. 342-343.
4
CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, p. 204, nota 38. (refere a lista dos autores
que invocaram este artigo, como testemunho da aplicação das Partidas em Portugal).
5
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 5, artigo 24.
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 27, §1. (erradamente atribuído como capítulo geral do povo).

64
José Domingues

Na mesma altura – provisão régia de 13 de Abril de 1361 – se queixam os estudantes


da Universidade de Coimbra de que o respectivo conservador julgava pelas Partidas as
questões que lhe eram submetidas, em vez de aplicar os “seus livros”.

“outrossy me enujarom dizer que quando acontece que elles allegam em alguuns
fectos perante uos seus djreitos per seus liuros que lhes nom queredes delles conhecer
saluo se uos mostrarem esses djreitos em liuros de partida sobre esto tenho por bem
e mandouos que quando uos elles alguuns djreitos mostrarem per seus liuros nos
dictos fectos que lhos aguardedes auendo ante conselho com letrados que delo
saybham de guisa que as partes nom recebam agrauamento sem razam”[1]

Nestes parágrafos, a insubordinação à colectânea castelhana prende-se mais


com os coetâneos sistemas normativos do direito canónico e romano[2] – no âmbito das
fontes subsidiárias – não subentendendo ainda qualquer percepção de patriotismo. E
não será ainda neste reinado, nem no próximo de D. Fernando, que o reino lusitano
se irá lançar na prossecução de uma colectânea legislativa própria, que apazigúe os
descontentamentos e garanta uma certa autonomização legislativa. Mas a verdade
é que se continua a ignorar a data precisa da iniciação dessa tarefa compilatória. O
único esteio documental, que ainda pode fornecer ténue indício, é o trecho do prólogo
das Ordenações Afonsinas, transcrito no princípio deste capítulo. De acordo com esta
lacónica apostila foi no tempo do muito alto e excelente “Princepy ElRey Dom Joham”,
da gloriosa memória, que se requereu, em Cortes, a colecção das leis e ordenações dos
seus antecessores[3].
O motivo alegado tinha a ver com o amontoado de leis que “se recrecião
continuadamente muitas duvidas, e contendas em tal guisa, que os Julgadores dos feitos erão
postos em tão grande trabalho, que gravemente, e com gram dificuldade os podião direitamente
desembargar, e que as mandasse reformar em tal maneira, que cessassem as ditas duvidas, e
contrariedades, e os Desembargadores da Justiça pudessem per ellas livremente fazer direito aas
partes”[4]. Disseminados pelos concelhos do Portugal jurídico do início de quatrocentos,
surgem antigos forais redigidos em latim bárbaro e vetustos usos e costumes, que, por
vezes, se transmitem aos concelhos vizinhos; o direito romano e canónico ganham
cada vez mais vigor; nas actas das Cortes multiplicam-se os agravamentos, artigos
ou capítulos gerais, com valor de lei; e as leis gerais e ordenações régias, desde D.
Afonso II, amontoam-se nos copiosos livros da Chancelaria Mor. Tudo somado à
referida preponderância das colectâneas castelhanas, estava mais do que justificada a
necessidade de organização do ius regni em colecção própria.
D. João I reinou quase cinquenta anos e reuniu cerca de dezanove Cortes e, de
entre o extenso arrolamento de capítulos gerais inventariados e conhecidos (cerca

1
CRUZ, “O direito subsidiário na história do direito português”, pp. 202-204, nota 37. (refere bibliografia
correlativa).
2
Assim tem sido entendido. No entanto, se a queixa do clero parece não suscitar quaisquer dúvidas, já a
referência aos livros dos estudantes da Universidade deixou alguma indecisão e pode não ter a ver pro-
priamente com o direito romano estudado, mas antes com livros próprios onde constassem os preceitos
normativos aplicáveis nos seus autos extrajudiciais. Conforme ficou expresso no título quando poderão apelar
dos autos que se fazem fora de juízo – “as universidades (…) fazem alguuns autos, que per suas Hordenações
antiguas, e Sentenças lhe pertencem fazer” [Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 80, § 1, pp. 306-307] – tudo
leva a crer que os estudantes se queixassem antes que as suas ordenações e sentenças eram preteridas pelas
Partidas.
3
Ordenações Afonsinas, Livro I, prólogo, p. 1.
4
Ordenações Afonsinas, Prólogo ao Liv. I, p. 1.

65
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

de 502)[1], nenhum é terminante, ao ponto de nos permitir fixar uma data concreta[2].
No mesmo sentido, Carvalho Homem, que aventa como provável as Cortes de
Santarém de 1418[3], mas sem qualquer suporte documental avalista ou argumentação
concludente. Assim, por uma questão de rigor científico e no âmbito de alegações
infra, um terminus a quo desta tarefa compilatória terá que ser fixado nas Cortes de
Coimbra de 1385, as primeiras deste reinado. O terminus ad quem, mais acessível, mas
não isento de controvérsia[4], consta no final do livro V das Ordenações Afonsinas – 28
de Julho de 1446. Por ora é o máximo que a esfinge do tempo nos permite recuar
no seu fio cronológico. Tudo leva a crer que, só após o abalo provocado pelo apuro
da sucessão e a consequente aclamação de D. João I nas Cortes de Coimbra de 1385,
estariam preenchidos os requisitos indispensáveis para a ingente tarefa compilatória
lusitana – reivindicada pelos juristas patriotas ou revolucionários[5] – culminada na vila
de Arruda, a 28 de Julho de 1446.
Estabelecidos os pretensos limites temporais da selecta lusa de leis gerais, sendo a
última data (28 de Julho de 1446) atinente à conclusão das Ordenações Afonsinas, neste
momento, há uma questão inescusável: será que – conforme se tem divulgado – estas
Ordenações são a mais vetusta colectânea de leis portuguesa? Ou seja, não existiram
outras colecções de leis a vigorar, anteriormente, no reino de Portugal?
Apesar de o Livro das Leis e Posturas e as Ordenações de D. Duarte – duas colectâneas
medievas de leis gerais – serem conhecidos em concomitância com as Ordenações
Afonsinas, continua-se, genérica e reiteradamente, a classificar as Ordenações Afonsinas
como a primordial compilação legislativa lusa[6]. E, no entanto, tudo leva a crer que
ambas sejam antecedentes às Afonsinas – até porque numa delas consta um índice do
punho de el-rei D. Duarte. Mas nenhuma está datada, nem autografada pelo autor e

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 93, nota 285.
2
O facto de não aparecer o capítulo de Cortes em que se reivindica a compilação das leis e ordenações do
reino, deu azo a suspeitas contra o jurista do proémio. Luís Miguel Duarte diz que “tem sido dado por provado
algo cuja prova não enxergo”. E se aceita, com reservas, que se tenha perdido o capítulo de Cortes do povo,
redunda que é totalmente inaceitável que tenha sido subscrito por fidalgos [pp. 93-94, nota 285]. As suspei-
tas sobre o pedido reiterado em Cortes pelo povo, pelo menos, são gratuitas. Se nos virarmos para o reino
vizinho de Castela deparamos com a conhecida petição às Cortes de Madrid, em 1433, e com a referência
a outra às Cortes de Madrid de 1458. Se bem que se desconhece o plausível capítulo das Cortes de Toledo
de 1480, que deu fruto e originou a primeira compilação castelhana [Cfr. María José MARÍA e IZQUIER-
DO, Las fuentes del Ordenamiento de Montalvo, Dykinson, Madrid, 2004]. Quanto à subscrição por fidalgos,
talvez não seja tão ignóbil se recuarmos aos primórdios do reinado de D. João I e à premente necessidade
de substituir as colecções castelhanas.
3
HOMEM, “Estado Moderno e Legislação régia”, p. 116: “No estado actual da nossa Historiografia, conhe-
cemos globalmente o conteúdo dos capítulos gerais apresentados pelos municípios às 18 reuniões de Cortes
do tempo de D. João I (entre 1385 e 1430); e não encontramos aí traço explícito desta matéria. Tratar-se-á provavel-
mente das Cortes de Santarém/1418, assembleia ocorrida num momento em que o protagonismo do Infante D.
Duarte é já nítido, e da qual saíram abundantes decisões em matérias jurídicas e administrativa”.
4
Como veremos no próximo capítulo.
5
ALMEIDA, “Os Codigos Portuguezes – Affonsino, Manoelino, Sebastianico e Philippino”, Ordenações
Filipinas, Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, livro I, p. XIX.
6
Assim tem sido desde há muitas décadas até à actualidade: FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, p. 32:
“Codigo das nossas Leis Patrias, certamente o primeiro, que dellas se fez na nossa Monarchia”.
SAMPAIO, Prelecções de Direito Patrio, 1793, p. 4: “O Primeiro Codigo he o Affonsino”.
Armando Luís de Carvalho HOMEM, Rei e «Estado Real» nos textos legislativos da Idade Média Por-
tuguesa, sep. Carlos Alberto Ferreira de Almeida in memoriam, Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, p. 392: “O concretizar de uma primeira compilação de leis com as OA”.
Dando origem a títulos como este: Maria do Rosário de Sampaio THEMUDO, “A Propósito de Medievali-
dade e de Modernidade nas Primeiras Ordenações Portuguesas”, Pensamiento Medieval Hispano, Homenaje a
Horacio Santiago-Otero, Madrid, 1998, vol. 1, pp. 465-472.

66
José Domingues

tudo o que adiantarmos sobre o fundamento da sua elaboração e efectiva vigência,


não passam de conjecturas pouco fundamentadas. Daí, talvez, a relutância, que se tem
sentido, em as considerar compilações de carácter oficial.
Passemos a uma análise individual, sobre aquilo que de mais relevante se tem
escrito, de cada uma dessas obras, sendo certo que o estudo de ambas, em conjunto
com o das Ordenações Afonsinas, já era recomendado pelos Estatutos Pombalinos da
Universidade de Coimbra, de 1772:

“Ensinará o que mais se ajustar à verdade sobre a Ordenação, que se attribuio ao


Senhor Rei Dom João o I, de que se dá por Author o Doutor João das Regras. Tratará da
Compilação do Senhor Rei Dom Duarte por ordem Chronologica: Da Compilação do
Senhor Rei Dom Affonso V organizada por ordem synthetica”[1].

O Livro das Leis e Posturas


Antes de mais, apenso a este Livro anda a incontornável controvérsia seiscentista
do seu achamento e imediato desaparecimento. A tradição documental destes suces-
sivos acontecimentos tem inveteradas raízes em João Pedro Ribeiro, posteriormente,
desenvolvida e comentada por Nuno Espinosa Gomes da Silva, no proémio à publica-
ção do Livro das Leis e Posturas.
Para além de muito escassos, esses subsídios documentais são bastante
contraditórios e de problemática harmonização. Antes de mais, embora de somenos
importância, avulta a incoerência entre a data do achamento no lixo da Torre do Tombo
(12 de Agosto de 1633) e a data do seu concerto (23 de Julho de 1633), pelo escrivão do
arquivo Jorge da Cunha. Espinosa da Silva concluiu que “12 de Agosto é a data em que se
lança a nota e não a do achamento”[2].
Seguindo a indicação fiel de João Pedro Ribeiro[3] no final da Introdução do Livro das
Leis e Posturas, publica-se o “Auto que mandou fazer o Douctor Gregorio Mascarenhas
Homem que serue de Guarda Mor da Torre do tombo, sobre o Liuro Antigo das Leys de
ElRey Dom Afonso o segundo que não se acha nella”[4]. De acordo com esse documento,
o “Livro Antigo das Leys de ElRey Dom Afonso o segundo” estava no Real Arquivo nos
anos de 1617 e 1618, tendo sido utilizado por Gabriel Pereira na primeira parte do De
Manu Regia Tractatus, publicado em 1622[5]. Mas já lá não se encontrou, no tempo de
Manuel Jácome Bravo, guarda-mor da Torre do Tombo, para elaboração do inventário
de 1625[6]. Em 1634, altura em que o desembargador Gregório Mascarenhas Homem

1
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica,
1773, Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 4,
pp. 160 e 161.
2
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971. pp. VI-VII.
3
Real Arquivo, Gaveta 10, Maço 5, n.º35.
4
SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, pp. 1-6.
5
Idem, pp.VII-VIII e pp. 1-5.
6
Idem, p. VIII e pp. 1-5.
“Uns autores atribuem a este auto a data de 1622 [João Pedro RIBEIRO, Memorias para a historia do Real
Archivo, Lisboa, Imprensa Régia, 1819, p. 37; Pedro de AZEVEDO e António BAIÃO, O Arquivo da Torre do
Tombo: sua história, corpos que o compõem e organização, ed. Fac-similada, Lisboa, 1989, p. 43] e outros a
data de 1625 [António BAIÃO, “O Guarda-mór Damião de Góis e alguns serviços da Torre do Tombo no
seu tempo”, Anais das Bibliotecas e Arquivos, Lisboa, 2.ª série. 9 (1931) 16, p. 17]” [Fernanda RIBEIRO, “Como
seria a estrutura primitiva do Arquivo da Casa da Coroa (Torre do Tombo)?”, Os Reinos Ibéricos na Idade

67
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

toma posse do lugar de guarda-mor da Torre do Tombo, também lá se não encontrava


o dito Livro[1]. Mantendo-se a situação no ano de 1639, quando se decidiu levantar o
referido Auto[2].
São estas a datas mais relevantes que Espinosa da Silva retira e, efectivamente,
constam do documento, que, à partida, não apresentariam qualquer desordem, se
não fossem cruzadas com auxílios documentais acessórios: o do achamento de Jorge
da Cunha (1633) e o da utilização de António Brandão (a sua Monarquia Lusitana foi
editada em 1632). Para aquele autor, “um aspecto muito interessante a salientar neste
Auto” é o da ausência total de qualquer referência ao achamento de Jorge da Cunha.
Por outro lado, efectuaram-se diligências no sentido de procurar o livro em casa de
Gabriel Pereira, sendo certo que este faleceu a 18 de Outubro de 1632, muito antes do
achamento de Jorge da Cunha[3]. Resumindo, o percurso cronológico do Livro das Leis e
Posturas, em pouco mais de vinte anos, segundo Espinosa da Silva, seria:

1617/18 – Estava no Real Arquivo, tendo sido utilizado por Gabriel Pereira.
1622 – Gabriel Pereira, na sua obra De Manu Regia, refere várias vezes o
“liuro antiguo das leis de Dom Afonso Segundo”.
1625 – Inventário ordenado pelo desembargador Manuel Jácome Bravo,
que já não o inclui.
1632 – Publicada a quarta parte da Monarquia Lusitana, de frei António
Brandão, que faz referência ao livro de leitura antiga da Torre do
Tombo e ao traslado das leis de D. Afonso II.
1633, Julho, 23 – Nota de Jorge da Cunha sobre o concerto do livro das
Leis e Posturas.
1633, Agosto, 12 – Nota de Jorge da Cunha do achamento do Livro das
Leis e Posturas.
1634, Novembro – Quando o desembargador Gregório Mascarenhas
Homem toma posse do lugar de guarda-mor da Torre do Tombo, o
códice já voltara a desaparecer.
1639, Maio, 12/Outubro, 16 – “Auto que mandou fazer o Douctor Gregorio
Mascarenhas Homem que serue de Guarda Mor da Torre do tombo,
sobre o Liuro Antigo das Leys de ElRey Dom Afonso o segundo que
não se acha nella”:

Com base nestes dados, às incongruências levantadas por Espinosa da Silva


pode‑se acrescentar outra: no auto também não há qualquer menção a frei António
Brandão, nem à sua obra, que sabemos consultou o dito Livro e ainda era vivo quan-
do o desembargador Gregório Mascarenhas tomou posse de guarda-mor da Torre do
Tombo – vindo a falecer em 1637. Antes de prosseguir, permitam-me duvidar da iden-
tificação do Livro das Leis e Posturas com o Livro Antigo das Leis de D. Afonso II, citado,
sempre com esta designação, no auto de 1639 e na obra de Gabriel Pereira. Parece-me
um absurdo que todos os coetâneos frequentadores e oficiais da Torre do Tombo igno-

Média, Livro de Homengame ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero Moreno].


1
SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, p. IX e p. 1-5.
2
Idem, p. IX e pp. 1-5.
3
Idem, p. IX.

68
José Domingues

rassem as duas informações (o achamento de Jorge da Cunha e a consulta de António


Brandão, apuradas quase quatro séculos depois), as únicas que não encaixam na cro-
nologia documental do auto de Gregório Mascarenhas. Já agora, porque é que Jorge da
Cunha, o achador, não foi interrogado? Já teria falecido?
O impulsionador desta investigação foi Tomé Pinheiro da Veiga, do Conselho de
el-rei, desembargador do Paço e procurador da Coroa. O seu testemunho, aliado ao
do seu criado, é bastante conclusivo. Ele ainda viu o códice, com Gabriel Pereira, nos
anos de 1617 e 1618; após a publicação da obra de Gabriel Pereira (1622), procurou-o
novamente, mas não o descobriu; como também o não descobriu no tempo do Doutor
Manuel Jácome Bravo, nem o Doutor Gabriel Pereira de Castro e Luís Pereira de Cas-
tro lhe souberam dar razão do seu paradeiro:

“em tempo do Doutor Manoel Jacome brauo ja não pude descobrir lo nem os
guardas da torre nem o Doutor Gabriel pereira de castro e luis pereira de Castro
souberão dar resão de quem o teria ou poderia leuar”[1]

Quer isto dizer que Tomé Pinheiro da Veiga já procurava o Livro Antigo das Leis de
D. Afonso II no tempo do inventário de Manuel Jácome Bravo (1622/25) e muito antes
de Gabriel Pereira de Castro ter falecido (1632). Assim sendo torna-se incompreensível
que ele não tivesse tido conhecimento do achado em 1633 e continuasse a procurá-lo,
insistentemente, em 1634 e 1639. E já agora, porque é que não indagou junto de Antó-
nio Brandão?
As incertezas levantadas pelos dados cronológicos podem ser firmadas pelo mui-
to pouco que podemos averiguar sobre o conteúdo do Livro Antigo das Leis de D. Afonso
II. Antes de mais, continuando com o testemunho de Tomé Pinheiro da Veiga – que
consultou o Livro Antigo das Leis de D. Afonso II e pretendia “apurar alguas cousas das
ditas concordias e bullas a que se referia o dito liuro de manu Regia vendo se auia mais algua
cousa tocante aas cartas e procuracois dos ministros de Elrej D. Dinis” – no Livro de Leis e
Posturas não existe qualquer carta ou procuração dos ministros dionisinos. Mas o mes-
mo Tomé Pinheiro refere que, para além das concordatas de D. Dinis, o desaparecido
códice continha também as concordatas de D. Pedro I, D. Afonso II e D. Sancho II, que,
de todo, faltam no Livro de Leis e Posturas:

“As concordias e capitulos de Cortes acordados com prazimento dos prelados do


Reino e as confirmadas e ratificadas que Recopilou o Doctor Grauiel pereira de
Castro no primeiro liuro de manu Regia no fim assi de Elrej D. Dinis como D. Pedro
forão tiradas do liuro antigo de Elrej Dom Afonso 2º (…) e ainda que no d(ito) liuro
das Ordenações D. Afonso 5º andem as ditas concordias he per recopilacão sem
alguns problemas e bullas que se não achão em outra parte e assi as do dito Rej D.
Afonso 2º que nelle andauão e D. Sancho”[2]

Volvidos mais de cem anos, sub-repticiamente, conforme assinala Espinosa Gomes


da Silva[3], o famigerado códice voltou à Torre do Tombo, pois alguém se lembrou de

1
Idem, pp. 4-5.
2
Idem, pp. 4-5.
3
SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, p. X.: “Quando, e como, regressou o códice à Torre do Tombo?
Nada se sabe. Dizia Pinheiro da Veiga que se «fizesse diligencias com o menos estrondo possível»; pois o
códice também assim regressou – sem «estrondo». Mais de cem anos depois, em 7 de Abril de 1769, anota-
se, com toda a tranquilidade, que - «Este Livro de que se trata no Auto antecedente se acha prezentemente

69
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

lançar no final do auto de 1639, que “Este Livro de que se trata no Auto antecedente se acha
prezentemente no Armario 11 da Caza da Coroa Lisboa 7 de Abril de 1769”[1]. No entanto ele
tinha regressado muito antes – ou melhor, parece que nunca chegou a sair – porque
Gerardo Ernesto de Frankenau, para a De Lusitanorum Legibus, editada em 1703, o
consultou no Arquivo Real da Torre do Tombo[2]. Neste lapso temporal de sete décadas
[1633-1703], um documento intermédio continua a asseverar o paradeiro do Livro
das Leis e Posturas na Torre do Tombo. Trata-se de um inventário da Casa da Coroa,
reportado ao final do reinado de D. João IV (1656), que coloca as “Leis antigas” no
armário 14 do primitivo arquivo da Casa da Coroa[3]. E, ainda, muito antes de 1769 se
publicou o tomo I das Provas da História Genealógica, da autoria de D. António Caetano
de Sousa, onde consta que a lei de D. Dinis que proíbe os eclesiásticos de herdarem os
bens dos seus professos “Está na Torre do Tombo (…) no Liv. Antigo das Leys”[4].
Posto isto, o que seria mais adequado é que, desde o seu achamento, o Livro das Leis
e Posturas esteve sempre no arquivo da Casa da Coroa, onde persevera actualmente[5].
Mas, com o tempo, outros aditamentos surgirão e com um cotejo mais profundo dos
dados escritos disponíveis e a inventariação de outros, mais incoerências se poderão
ainda reclamar. Por isso, o que neste momento me parece mais seguro é, pelo menos,
duvidar da identificação do Livro Antigo das Leis de D. Afonso II, referido no auto de
1639, com o actual Livro das Leis e Posturas.
Concluindo, é plausível que o Livro Antigo das Leis de D. Afonso II se tenha perdido,
definitivamente, na escuridão da História, entre os longínquos anos de 1618 e 1625[6],
não devendo ser confundido com o actual Livro das Leis e Posturas, achado por Jorge
da Cunha em 1633. Agora, que preciosidade seria para a nossa jurisprudência esse
códice, que, apesar de efémera probabilidade, poderia ter versões completas dos
diplomas gerais de Afonso II, actualmente apenas conhecidos por lacónicos resumos
em vernáculo do Livro das Leis e Posturas, das Ordenações de D. Duarte e dos Foros de
Santarém[7]. Os Foros de Santarém, segundo o auto que temos vindo a seguir, teria sido
achado a 23 de Julho de 1640[8]. A propósito, também o livro II das Afonsinas, em letra

no Armario 11 da Caza da Coroa».”


1
Idem, p. 6. Esta nota pode ter surgido por causa da reorganização do Arquivo, após o terramoto de 1755.
2
Martim de ALBUQUERQUE, “A Primeira História do Direito português – O De Lusitanorum Legibus de
Frankenau (1703)”, Estudos de Cultura Portuguesa, vol. 3, Lisboa, 2002, p. 149.
3
Fernanda RIBEIRO, “Como seria a estrutura primitiva do Arquivo da Casa da Coroa (Torre do Tombo)?”.
Os Reinos Ibéricos na Idade Média. Livro de Homengame ao Professor Doutor Humberto Carlos Baquero
Moreno. Coordenação Luís Adão da Fonseca, Luís Carlos Amaral e Maria Fernanda Ferreira Santos. Facul-
dade de Letras da Universidade do Porto e Livraria Civilização, 2003, p. 1414.
4
SOUSA, Provas da História Genealógica, Tomo I, Livro II, doc. 1, pp. 83-84.
5
Núcleo Antigo, n.º1.
6
Nesta época desapareceram muitos outros livros do Arquivo. Por exemplo, os oitenta volumes de registos
reformados por Gomes Eanes de Azurara “ainda existiam em 2-3-1526, mas já se não mencionam a 20-12-1532,
segundo consta de documentos de Tomé Lopes, presumível responsável pelo seu desaparecimento, como escrivão da
Torre do Tombo e guarda-mor interino do mesmo Arquivo” [Avelino Jesus da COSTA, “A chancelaria real por-
tuguesa e os seus registos, de 1217 a 1438”, Revista da Faculdade de Letras – História, II série, vol. 33, Porto,
1996, p. 97].
7
Publ. Colecção de Livros Inéditos da História Portuguesa. Academia Real das Ciências, Lisboa. 1816, pp. 531-
578. Mas omitindo a legislação de D. Afonso II, D. Afonso III [Publ. HERCULANO, Portugaliae Monumenta
Historica, Leges], D. Dinis e D. Afonso IV.
8
“Aos vinta(sic) tres dias do mes de Julho de anno de 640 se achou hum Livro pequeno emcadernado em
pasta vermelha que tem por tittulo. Fora L antiguo da villa de Santarem no qual as fol 25 estão tresladadas
parte das Leys que ElRey Dom Affonso 2.º fez no primeiro anno de seu Reinado entre as quaes esta [proi]
bicão (sic) aos Mosteiros para que não [com]prem bens de Raiz, e outras ordenacois, (sic) O qual livro man-

70
José Domingues

cursiva comum do 3.º quartel do século XV, foi salvo por Jorge da Cunha (o do Livro
das Leis e Posturas), a 10 de Janeiro de 1631, “debaixo de lixo nas casas de baixo” da Torre
do Tombo[1]. A descoberta destes três preciosos códices de leis medievais, entre os
escombros da Torre do Tombo, em tão curto espaço de tempo – em 1631 o livro II
das Ordenações Afonsinas, em 1633 o Livro das Leis e Posturas e em 1640 os Foros de
Santarém – são o provável corolário da aturada busca do Livro Antigo das Leis de D.
Afonso II, que se esfumou para sempre.
A ser assim, Gabriel Pereira teria sido dos últimos autores que teve o apanágio de
compulsar este cimélio – que nos poderão revelar as suas lacónicas anotações?
A primeira menção surge a propósito das duas concórdias de D. Afonso II, que
estariam no Livro Antigo das Leis de D. Afonso II:

“As primeiras concordias de que achei noticia na Torre do Tombo (…) forão
celebradas com elRey Dom Afonso II nas quaes não ha outra forma mais, que
precedendo as queixas dos Prelados, nas cousas em que contendião dar el Rey
sua resposta, desfazendo os aggravos, e pondo emenda no futuro, para que se
não continuassem, destas houve duas, de que consta do livro antiguo das leis do mesmo
Dom Afonso II fl. 45 e 48, aonde não ha cousas notaveis, e por isso não faço aqui
menção dellas” [2]

Anastácio Figueiredo, que já identifica o Livro Antigo das Leis de D. Afonso II com
o Livro de Leis e Post12
uras, regista como primeira concórdia, na sua Synopsis Chronologica, a de Sancho
II de 25 de Junho de 1223, lançando o descrédito sobre as de Afonso II. No entender
deste, Gabriel Pereira, ao referir os fólios 45 e 48 do Livro Antigo das Leis de D. Afonso
II, “se engana nessa proposição, sendo certo, que o que no dito Livro a fol. 45 47 e 48 se acha
he huma Lei do Senhor Rei D. Affonso III, Conde de Bolonha, em que regula as aposentadorias
dos Infanções, Ricos-homens, Cavalleiros, e Padroeiros, seus filhos, ou netos, em as Igrejas e
Mosteiros”[3].
Parece bastante remota a hipótese de que Gabriel Pereira tenha confundido a lei de
Afonso III e reforma de seu filho, no Livro das Leis e Posturas, com as duas concordatas
de Afonso II. Em seguida transcreve as concórdias de D. Sancho II, mas sem identificar
a fonte utilizada.
A autenticidade da concórdia de Sancho II, de 1223, foi ventilada por Alexandre
Herculano, que argumenta que ela teria sido comunicada a Brandão e a Pereira pelo
“assaz conhecido Lousada” – mais uma acha para a fogueira da ignomínia deste escrivão
da Torre do Tombo[4]. Herculano conjectura, em seguida, que António Brandão,

dou … [Gre]gorio Mascarenhas homem [meter] na gauetta das Extra de que fiz aquy este assento em lixª no
dito dia mes e anno Vicente de Sottomayor o escreuj. Gregorio Mascarenhas Homem” [SILVA, Prefácio ao
Livro das Leis e Posturas, pp. 5-6]. Cfr. também Maria do Carmo Jasmins Dias FARINHA e Maria de Fátima
Dentinho Ó RAMOS, Núcleo Antigo: Inventário, Lisboa, 1996, p. 33, nota 2.
No inventário de 1656 aparece no armário 9 da Casa da Coroa [RIBEIRO, “Como seria a estrutura primitiva
do Arquivo da Casa da Coroa (Torre do Tombo)?”, p. 1412]
1
Eduardo Borges NUNES, Nota Textológica, Livro I das Ordenações Afonsinas, Fundação Calouste Gul-
benkian, 1984, p. 14.
2
Gabriel Pereira de CASTRO, De Manu Regia, 2.ª edição, 1673, p. 313.
3
FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, pp. 3-4, nota a).
4
Não é este o espaço nem a circunstância mais apropriada para sequer tentar uma defesa ou acusação de
Gaspar Álvares de Lousada Machado, que exigiria, desde logo, a inventariação e cotejo de todo o seu labor
de transcrição documental que chegou até nós.

71
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

contrariando o prometido no capítulo 2 do livro 14 da Monarquia Lusitana, a não


publicou em apêndice, podendo produzir “suspeitas de que ele hesitara acerca da sua
genuinidade”. D. Rodrigo da Cunha, apesar de afirmar existir um original no Arquivo
Capitular de Braga, também parece ter seguido a cópia de Lousada[1]. O diploma do
Arquivo de Braga acabou por ser publicada por Sousa Costa[2], mas a cópia de que se
serviram os autores seiscentistas, revelada por Lousada, bem pode ter sido a do Livro
Antigo das Leis de D. Afonso II, impossibilitando o seu descaminho a publicação na
íntegra do diploma.

De entre os autores que o incriminaram, o primordial e feroz agressor foi, sem dúvida, João Pedro Ribeiro.
Sentenciada a probidade deste amanuense, pela voz autorizada do patriarca da diplomática portuguesa,
os autores ulteriores só lhe vieram dar cumprimento, sem sequer questionar da sua justiça ou equidade.
Mas, ultimamente, tem-se levantado vozes em defesa de Lousada, desde Anselmo Braamcamp Freire, que
confia cegamente nos seus extractos das chancelarias [Archivo Historico Portuguez, vol. II, p. 485], António
Machado de Faria, que manuseou os seus manuscritos arrecadados na Biblioteca Nacional e carreou docu-
mentos autênticos da sua confiança régia [“Os manuscritos de Lousada na Biblioteca Nacional”. in Arquivo
Histórico de Portugal, vol. I, Lisboa, 1932-1934, pp. 366-398], e Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas, que
reivindica uma justa apreciação da sua memória [“Um inédito de Gaspar Álvares de Lousada: o mosteiro
de Fonte Arcada e os seus fundadores”. in A Historiografia Portuguesa Anterior a Herculano (Actas do coló-
quio), Academia Portuguesa da História, Lisboa, 1977, pp. 105-117].
Muito antes destes, em coetânea antinomia com João Pedro Ribeiro, ergueu-se a voz de Frei António da
Assunção Meireles. Mas o clamor manuscrito do colector beneditino das Memórias do Mosteiro de Pombeiro,
jubilado em Filosofia e Matemática, ficou silenciado no exílio austero do cenóbio de Pombeiro. Para análise
vindoura, aqui fica esse parecer, ditado pela análise do documento da fundação do referido mosteiro, nas
suas certezas e incoerências, que apenas conhece pelo traslado de Álvares Lousada:

“Apezar destas incoherencias, a pezar dos clamores com que tenho ouvido abocanhar a reputasão
de Louzada pelos homens de letras ha poucos tempos a esta parte, quando me lembro de que os
Livros da Torre do Tombo foram escritos em tempo, que a Diplomatica jazia nas trevas as mais
espesas; de que aqueles Compiladores não tinhão mais subsidios que a sua louvavel curiozidade;
quando me lembro de que a Historia Geral, e particular da Nasão hoje mesmo, n’um Século, em que
a ignorancia deve envergonhar, está semeada d’erros, e anacronismos groseiros; quando observo a
diferente Leitura nas Confirmasoins, nomes, e Sés dos Bispos, que se encontra não só nas diversas
Edisoins, dos Concilios impresos, e d’outros Documentos mas ainda em Treslados manuscritos, po-
rem autenticos, e pasádos por Tabaliains publicos; quando noto quotidianamente a afouteza com
que alguns destes Leitores substituem sem pavor o que se lhe antoja ao que não sabem, até muitas
vezes ao que nem podem ler, ou pelo deterioramento do pergaminho, ou por estarem as letras mui
apagadas; quando finalmente advirto que nem todos os Antiquarios tem a vista igualmente bem
organizada para traduzir huma Data, ler hum nome proprio, e decifrar as abreviaturas, crimino
com severidade os Compiladores da Torre do Tombo por terem dado cabo dos Originais, lamento
a perda irreparavel de tantos autografos preciozos, desejo anciozamente a resureisão deses mortos,
que podião ser de novo examinados, e instruir a Republica Literaria, cuja sorte foi confiada á sua
ignorancia, e incapacidade, e não me admiro de que se lese Berta por Sancha, Pater por Socer, etc
e como não temos bastante cabedal de Escrituras, que justifiquem sem escrupulos, e provem com
evidencia que não existirão Bispos Titulares das Diocezes dezertas, e despovoadas, suspendo o
meu juizo em lugar de latir importuna, e temerariamente á memoria, e reputasão de Louzada, cujos
crimes devem recahir sobre os Compiladores, e Copiadores da Torre do Tombo, que destruirão em
vês de conservar o Tezouro inestimavel, que lhe foi confiado, e no em tanto reputo meros erros de
leitura as incoherencias apontadas, sem pertender despojar o Leitor da liberdade de pensar, que lhe
compete por tantos, e tam sagrados titulos. Provem-me com evidencia que nunca existirão no Real
arquivo aquelas Colesoins, nem os seus Autografos, então reputarei Louzada como hum impostor,
e Confrade de Higuera.” [Frei António da Assunção MEIRELES, Memórias do Mosteiro de Pombeiro,
Academia Portuguesa de História, publicadas e prefaciadas pelo Académico Fundador António
Baião, Lisboa, 1942, p. 9]
1
HERCULANO, História de Portugal, Vol. II, nota XV de fim de volume.
2
António Domingues de Sousa COSTA, Mestre Silvestre e Mestre Vicente, juristas da contenda entre D. Afonso
II e suas irmãs, Estudos e textos da Idade Média e Renascimento, Braga, 1963, pp. 123-128, nota 222-223.

72
José Domingues

A segunda referência prende-se com a transcrição de uns capítulos sobre matéria


eclesiástica, sem data, que Gabriel Pereira classificou como segunda concórdia de D.
Afonso III[1]:

“Antre as cousas mães antigas achei, no livro del Rey Dom Afonso, huns artigos
sobre materias Ecclesiasticas, que dizem assi”[2]

Os artigos transcritos por Pereira de Castro também constam no Livro das Leis e
Posturas[3].
A propósito da concórdia dos 40 artigos do reinado de D. Dinis, Gabriel Pereira,
escreve o seguinte:

“Consta do dito livro del Rey Dom Afonso II fol. 96” (…) “E para mais clareza desta
materia, quis por aqui huã Bulla do Papa Nicolao IV que anda no livro de Dom
Afonso II das fol. 96 por diante, traduzida em lingoagem, por a não achar em
Latim: diz assi” [4]

A bula que Pereira de Castro transcreve a seguir a esta anotação consta no Livro
das Leis e Posturas de fls. 129 a 130v[5]. A finalizar a transcrição integral da bula, Castro
escreve outra nota elucidativa:

“Logo junto a esta Bulla está outra do mesmo Nicolao IV fol. 98 em que estão
insertos os quarenta artigos, de que esta acima faz menção, que forão dados em
Roma, em tempo de Clemente IV em Latim, como neste mesmo livro estão em outro
lugar, posto que nesta bulla estão em lingoagem”

A dita bula onde constam os quarenta artigos aparece no Livro das Leis e Posturas a
partir do fólio 130v[6]. Repare-se que, para além da disparidade entre os fólios referidos
por Pereira de Castro e os do Livro das Leis e Posturas, neste último não há qualquer
versão em latim da concórdia de D. Dinis, conforme refere Castro.
A encabeçar a segunda concórdia de D. Dinis aparece outra referência ao Livro das
Ordenações de D. Afonso II:

“Estando os Prelados em Roma, seguindo a composição dos 40 artigos, recrecerão novas


duvidas sobre que formarão onze artigos de novo, de que consta no livro das Ordenações
del Rey Dom Afonso II fol. 101 vers. aonde está hum instrumento, que aqui tresladei,
porque não se duvide que estes onze artigos forão concordados em Roma”[7]

A concórdia dos onze artigos consta no Livro das Leis e Posturas dos fólios 136v até
138[8].

1
Estes capítulos não podem ser deste reinado por referirem o Livro Sexto.
2
CASTRO, De Manu Regia, p. 321
3
Livro das Leis e Posturas, pp. 57-60.
4
CASTRO, De Manu Regia, p. 325.
5
Livro das Leis e Posturas, pp. 332-340.
6
Livro das Leis e Posturas, p. 340.
7
CASTRO, De Manu Regia, p. 343.
8
Livro das Leis e Posturas, pp. 363-370.

73
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

A terceira concórdia com el-rei D. Dinis, de 1292 Agosto 23 (Porto), que se resume à
resposta de monarca aos agravamentos que os bispos do Porto, da Guarda, de Lamego
e de Viseu diziam lhe serem feitos no reino, diz Pereira de Castro:

“Está na torre do Tombo, no livro del Rey Dom Afonso II fol. 505(sic)”[1]

Esta concórdia consta no Livro das Leis e Posturas nos fólios 39v-40[2] e repetida a
fólios 138-138v[3].
Por fim, sobre a quarta concórdia de D. Dinis, Gabriel Pereira refere:

“No livro antigo das leys del Rey Dom Afonso Segundo às folhas 49 verso, estão
insertos outros capitulos com el Rey Dom Dinis, e os Prelados, que não andão bem
compilladas no livro segundo del Rey Dom Afonso Quinto, e no original se podem
ver, no lugar citado, e nas folhas 106 dizem assi.”[4]

Esta concórdia consta no Livro das Leis e Posturas nos seguinte fólios 16v-17; 49v-
51v; e 138v-140[5]. O que quer dizer que, pelo menos a folha 49v coincide em Castro e
no Livro das Leis e Posturas.
A última referência de Gabriel Pereira, sobre o livro das leis de D. Afonso II, cons-
ta na parte das ordenações concordadas (Ord. Lib. 2 tit. 4):

“Que os Clérigos da casa del Rey respondão perante elle. He tirado de huã lei de
el Rey Dom Dinis, que anda nas suas leis, no livro de Dom Affonso II, fol. 42”[6]

No Livro das Leis e Posturas no fol. 42 consta um artigo de D. Dinis que pode ser
(mas sem qualquer convicção) o fundamento último deste título.
O cotejo com a obra de Gabriel Pereira de Castro evidencia tantas contradições
que não deixaria margem para dúvidas estarmos a falar de dois livros totalmente
diferentes. Mas a verdade é que o Livro das Leis e Posturas, desde os fólios 77 até ao 109,
foi completado, no século XVIII, a partir das Ordenações de D. Duarte[7]. Como grande
parte das folhas referidas por Castro se inserem neste espaço as dúvidas, em vez de se
dissiparem, adensam-se. Será que o acrescento do século XVIII e a paginação do Livro
das Leis e Posturas podem justificar todas as discrepância supra referidas?[8]
Deixemos esta intrincada controvérsia e voltemos a algo de mais concreto.
Desde muito cedo que este códice preocupou, e tem preocupado, os mais insignes
investigadores do âmbito[9]. Uma desenvolvida resenha histórica e bibliográfica deste

1
CASTRO, De Manu Regia, p. 349. O fol. correcto poderia ser 105, no seguimento do documento antecedente.
2
Livro das Leis e Posturas, pp. 128-129.
3
Livro das Leis e Posturas, pp. 371-372.
4
CASTRO, De Manu Regia, p. 350.
5
Livro de Leis e Posturas, pp. 60-63, 155-162 e 372-379.
6
CASTRO, De Manu Regia, p. 443.
7
Cfr. Livro das Leis e Posturas, p. 283, nota 285.
8
Para avançar com qualquer convicção torna-se indispensável a análise codicológica do original do Livro
das Leis e Posturas, que neste momento está fora dos nossos propósitos.
9
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, Vol. IV, 2.ª Parte, Dissertação XVII.

74
José Domingues

Livro das Leis e Posturas, também referido como Livro de Leis Antigas, consta do prefácio
à sua publicação, da autoria de Nuno Espinosa Gomes da Silva[1]. Este preâmbulo
inicia‑se com a citação do incansável João Pedro Ribeiro – um dos primeiros autores que
lhe prestou alguma atenção, mesmo para além do seu conteúdo intrínseco – clamando
pela sua publicação efectiva. Este autor, sobre este valorizado códice mediévico,
aventou duas teses fundamentais, que marcam todo o seu entendimento vindouro.
Antes de mais, quanto às razões que levaram à sua prossecução, partindo
da premissa de que no reinado de D. João I se procurou sistematizar um corpo de
legislação pátria, alvitrou:

“apenas me abalanço a conjecturar, que por occasião do Codigo Systematico de


Leis, projectado, e principiado no Reinado do Snr. D. João I, se tratou de juntar as
leis anteriores em hum Corpo, procurando-se mesmo do Registo dos Concelhos:
e que esta seja a causa de neste Codice se acharem tantas Leis repetidas mais de
huma vez, humas inteiras, outras truncadas, humas sem datas, outras com ellas, e
algumas manifestamente erradas nas mesmas datas” [2]

É esta a justificação encontrada, por este exímio estudioso e analista exacerbado,


para as constantes repetições de diplomas e assíduos erros do códice das Leis Antigas.
Esta ideia colhe repetido patrono em Alexandre Herculano, que, na mesma senda, lhe
acrescenta novos argumentos, nomeadamente, uma paternidade conjectural:

“porventura era trabalho preliminar para a codificação das leis (...) Naturalmente
o Livro das Leis e Posturas não é senão o primeiro ou um dos primeiros trabalhos de
Joanne Mendes. Persuadem-no não só a circumstancia de se haver conservado no
archivo publico, a desordem com que está colligido, as repetições das mesmas leis
em diversos logares com variantes notaveis, o que indica serem copias havidas
de diversas fontes, mas tambem e principalmente o não conter leis posteriores ao
reinado de Affonso IV.”[3]

Herculano começa por aceitar que se trata de um trabalho de recolha de velhos


diplomas normativos disseminados pelo Arquivo Real e pelos registos dos concelhos
– como tinha divulgado Ribeiro. Daí à ilação de se tratar de um primeiro trabalho
do compilador das Ordenações Afonsinas, João Mendes, vai um passo muito curto. No
entanto, aquele inaudito historiador oitocentista ventila outra conjectura secundária,
“Porventura era apenas o peculio de algum magistrado ou advogado da corte…” [4]. E será esta,
em parte, a hipótese apadrinhada por Marcello Caetano[5], refutando, tacitamente, a
tese de se tratar de um trabalho preliminar de João Mendes, para a compilação das
Ordenações do reino:

HERCULANO, Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 148-149.


SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, pp. V-XIV.
CAETANO, História do Direito, pp. 346-347.
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 109-110.
1
SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, pp. V-XIV.
2
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, Vol. IV, 2.ª Parte, Dissertação XVII, p. 29.
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 148-149.
4
Idem, p. 148.
5
No mesmo sentido, António Manuel HESPANHA, Nota à tradução de John GILISSEN, Introdução His-
tórica ao Direito, 4.ª Edição, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2003, p. 319: “As principais fontes
utilizadas pela nossa historiografia para reconstruir a legislação medieval são produto da actividade de
juízes (da corte: Livro de Leis e Posturas, Ordenações de D. Duarte)”

75
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

“O facto de se encontrar no arquivo da coroa e certas formas de redacção de textos


fazem pensar que se trate de uma colectânea mandada organizar no Tribunal de Justiça
da Corte, a fim de preservar textos avulsos que por lá se encontrariam e de que
frequentemente seria preciso lançar mão. (...) Não é natural, dado o alto custo em que
importaria e o local onde foi encontrada, que se tratasse de colecção particular.”[1]

Quanto ao resto, este medievista, afirma, categoricamente, que “não se sabe em


que condições foi escrito e para quê”[2]. Esta asseveração parece ter sido induzida pelas
hesitações legadas por Espinosa da Silva no final do seu proémio:

“A coincidência que possa existir entre textos das Leis e Posturas, Ordenações
de D. Duarte e Ordenações Afonsinas, não prova, só por si, como é evidente, que
aquelas duas primeiras colecções tenham constituído trabalhos preparatórios; do
mesmo modo, possíveis diferenças que se apontem, também não provam, em si
mesmas, que as mencionadas colecções não tenham sido trabalhos preparatórios:
poderão, sim, provar que os compiladores das Afonsinas utilizaram, igualmente,
outras fontes.”[3]

A outra tese aventada por Ribeiro e, posteriormente, repisada pelo póstero


Herculano, tem a ver com a identificação deste corpo de leis com outro(s) que encontrou
em diplomas do reinado de D. João I. Em nota manuscrita – nomeadamente, ao códice
das Leys antigas copiadas do Real Archivo da Torre do Tombo[4] – parece não ter dúvida
quanto a essa correspondência:

“Deste Livro faz menção a L. de D. João 1º referida no L.º 3º Aff.º tt.º 6º §1º chamando-
lhe Livro das Ordenaçoins do Reyno. E talvez delle tãobem se entende o que se diz no
mesmo L.º 3º tt.º 15 §29. in fin. onde se faz menção do L.º das Leys da Caza do Civel.
(...) Parece que este Livro se intitulava das Ordenaçoens no Reinado do Senhor D.
João 1º pois que a 22 de Abril da Er. 1459 se passou pelo Chanceler mor em nome
do mesmo Senhor Certidão da Ley sobre a liberdade de acrescentar athe o meio
dos Rios os que tem herdades nas suas margens, pelas mesmas palavras com que
se acha aquella Ley a pág. 314 deste Tomo, dizendo-se que em o Livro de nossas
hordenaçoens, que andam em nossa Chancellaria he hua hordenaçom feita por ElRey
D. Affonso o terceiro que tal he = Estabelecido he que todos aquelles que ham
testados &º”[5]

Mas, ao tratar-se de formalizar as suas impressões em letra de imprensa, mostra‑se


bastante mais cauteloso:

“Não me atrevo a affirmar se este Codice se deva entender a citação do Livro das
Ordenações do Reino em huma Lei do Senhor D. João I no Liv. III Aff. T.6 § 1, ou o
que se diz no mesmo Liv. T. 15, § 29 in fine do Livro de Leis que anda na Casa do Civel.
Huma certidão expedida ao Mosteiro de S. João de Tarouca (Cartor. do mesmo
Mosteiro Gav. 2 Maç. N.13) pelo Chanceller mór a 22 d’Abril Era 1459 do Livro das
Ordenações que anda na Chancellaria de huma Lei do Senhor D. Affonso III produz
a Lei pelo mesmo theor, com que se acha nas Leis antigas.”[6].

1
CAETANO, História do Direito, p. 346.
2
CAETANO, História do Direito, p. 346.
3
SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, pp. XI-XII.
4
Coimbra, BGU – Códice n.º692.
5
CRUZ, Breve Estudo dos Manuscritos de João Pedro Ribeiro, pp.43-44.
6
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, Vol. IV, 2.ª Parte, Dissertação XVII, p. 29.

76
José Domingues

Esta diferença de proposição torna injustificável a crítica exagerada que lhe move
Herculano, afirmando que “Ribeiro pretende que o livro, a que se referem as passagens
que cita, seja este a que se deu depois o nome de Livro das Leis e Posturas. A razão
que para isso teve é acharem-se effectivamente transcriptas nelle as leis a que essas
passagens se referem. É facil de alcançar a fraqueza do argumento”[1]. Ribeiro coloca
apenas uma hipótese, que como tal deve ser equacionada, realçando o facto de que a
lei de D. Afonso III trasladada do cartório do mosteiro de S. João de Tarouca era de teor
idêntico ao coligido nas Leis Antigas.
Herculano, com o seu aguçado sentido crítico e singular perspicácia, contestando
esta conjectura de Ribeiro, defende a existência, nos princípios do século XV, de
diversas colecções oficiais de leis – “O que evidentemente resulta das passagens que
Ribeiro cita, e de outras que lhe escaparam, é, pelo contrario, que nos principios do
século XV havia diversas collecções officiaes de leis, sem que todavia possamos affirmar
que o Livro das Leis e Posturas entrava no numero dellas” – argumentando com mais
algumas referências coligidas do próprio Livro das Leis e Posturas e das Ordenações
Afonsinas e, sobretudo, a do Livro Grande das Leis, constante no título 15, §13, do livro III
desta colectânea[2]. Relata ainda, a propósito deste último Livro Grande, que já continha
leis do tempo de Afonso V, anteriores à redacção das Afonsinas, citando-se aí desse
livro um artigo de Cortes na regência do infante D. Pedro. Mas esse artigo, conforme
lá consta, é o artigo 16º do clero, das Cortes de Elvas, do reinado de D. Pedro I (1361)[3],
e não da regência do infante D. Pedro (1439-1448). Apesar deste desacerto (entre o rei
D. Pedro e o infante regente, D. Pedro), a ilação definitiva de Herculano continua a ser
válida, “o Livro Grande não podia ser o das Leis e Posturas, visto este não conter actos
legislativos posteriores ao reinado de Affonso IV”[4].
Martim de Albuquerque, ao elaborar a introdução para a publicação das
Ordenações Del-Rei D. Duarte, depois de transcrever toda a crítica de Herculano
às asserções de Ribeiro, remata que as palavras de Herculano não lhe obstam em
definitivo[5]. No entanto não argumenta, e parece querer reivindicar essa identificação
para as Ordenações de D. Duarte: “Pertenceu, talvez à biblioteca do rei D. Duarte e vem,
frequentemente, identificado com o ‘Livro das Ordenações dos Reys’ que figurava entre
os manuscritos da livraria deste monarca. João Pedro Ribeiro, todavia, questionou
semelhante identificação ao…”[6].
O códice das Ordenações de D. Duarte não é menos polémico que o das Leis e
Posturas, vejamos também o que de mais relevante se tem escrito sobre ele.

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 149. Martim de Albuquerque também notou que “J. P. Ribeiro
não foi tão conclusivo” [Martim de ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte. Lisboa, 1988,
p. VIII, nota 1].
2
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 149.
3
Cfr. Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 5, art.º 16º. Em relação a outra lei, feita em nome do infante D. Pedro,
que consta no Livro de Leis e Posturas, também Herculano a reputa ao infante regente, apesar de Ribeiro a ter
reputado ao infante D. Pedro, futuro rei D. Pedro I – “…D. Affonso IV, a quem se deve reduzir huma, que, sem
data, se diz feita pelo Infante D. Pedro, e que do Liv. Da Chancellaria sem declarar Author se transcreveo na Aff. Liv.
4 T. 32” [RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, Tomo 4, Parte II, Dissertação XVII, pp. 29-30]. Cfr. no
mesmo sentido deste último Nuno Espinosa Gomes da SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, p. XI,
nota 11 e Marcello CAETANO, História do Direito, p. 301, nota 1.
4
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 149.
5
Martim de ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte. Lisboa, 1988, pp. VII-IX.
6
ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte, p. VII.

77
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

As Ordenações de D. Duarte
Outro, não menos importante, códice de leis antigas, que chegou aos nossos dias,
é o das Ordenações de D. Duarte, designação que lhe advém do facto de, supostamente,
ter pertencido à biblioteca pessoal eduardina, já que o punho deste monarca lhe
teria acrescentado uma tavoa ou índice e uma parte de um dos capítulos do seu Leal
Conselheiro – “Das virtudes que se requerem a um bom julgador”. “Tal interpolação
textual não nos parece fornecer elementos conclusivos importantes para demonstrar seja o
que for”, infere Luís Miguel Duarte[1], mas sem acrescentar qualquer argumento, nem
mesmo o de o referido capítulo do Leal Conselheiro se achar também transcrito no
Livrinho da Supplicação, impresso no tomo terceiro dos Inéditos da Academia[2].
Actualmente, a melhor fonte de estudo desta colecção será a Introdução e a Nota
Prévia de Codicologia e Textologia, que abrem a sua publicação, da lavra de Martim de
Albuquerque e Eduardo Borges Nunes, respectivamente. Acrescidas dos consideráveis
comentários tecidos, a propósito, por Luís Miguel Duarte[3]. No entanto, um dos
primordiais interessados parece ter sido João Pedro Ribeiro – sempre ele – que, tal
como tinha feito para o Livro das Leis e Posturas, salienta a importância e o elevado
interesse da publicação deste códice, para o estudo da nossa jurisprudência[4].
Por ele vamos começar a tratar os aspectos que realmente nos preocupam, ao
directamente se relacionarem com o tema desta tese: o de apurar o móbil da sua
consumação, a sua paternidade e a inserção nas compilações de ordenações da primeira
metade do século XV, tal como ficou explanado para o Livro de Leis e Posturas. Ou seja,
trata-se, no fundo, de responder a três questões simples, mas elementares: quando,
quem e para quê?
Ribeiro, já que tinha presumido que o Livro das Leis e Posturas fosse uma das
colectâneas de ordenações citadas em documentos no início do século XV, considera
as Ordenações de D. Duarte obra de João Mendes, um dos compiladores sabidos das
Afonsinas.
Por sua vez, Herculano, ao discordar da presumível identificação de Ribeiro, vê‑se
compelido a reputar a João Mendes a execução de ambos os códices, preliminares
das Afonsinas – “As chamadas Ordenações de D. Duarte parece-nos serem um segundo
trabalho de Joanne Mendes, para organisar o codigo que lhe fora cometido”[5].
Alberto Girard, e o impressor da sua nótula descritiva, supõem que tenham sido
obra de Rui Fernandes. Mas não avançam com qualquer argumentação e penso que o
seu único intento era dar conhecimento do achado do precioso cimélio, denotando pouco

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 111.
2
José Correia da SERRA, Fragmentos de Legislação Escritos no Livro Chamado das Posses da Casa da Supplicação,
Publ. na Collecção de Livros Ineditos de Historia Portugueza, dos reinados de D. João I, D. Duarte, D. Affonso V, e
D. João II, publicados por ordem da Academia Real das Sciencias de Lisboa, Lisboa, na officina da mesma acade-
mia, 1793, Tomo III, p. 563, n.º19.
3
ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte, pp. V-XXVI.
Eduardo Borges NUNES, Nota Prévia de Codicologia e Textologia às Ordenações de D. Duarte, Lisboa, 1988,
pp. XXVII-XXXIII.
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 110-114. Este autor na nota 334 refere a bibliografia de maior interesse
para estas Ordenações.
4
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, vol. IV, 2.ª Parte, dissertação XVII, p. 29: “Da breve descripção
que tenho feito destas duas Collecções se vê o interesse que há em que as mesmas se publicassem pelo Prelo, para fa-
cilitar aos Juristas Portuguezes as suas indagações sobre a Historia da nossa Jurisprudencia, ainda mais atrazada do
que era conveniente”.
5
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 151.

78
José Domingues

conhecimento histórico-jurídico do tema tratado[1]. Por isso, aqui fica referida apenas
como mais uma conjectura, para a qual não encontro qualquer fundamento válido.
Martim de Albuquerque refere que “a ambas as opiniões, entre si contrárias, falece
apoio documental”[2], mas também não avança com qualquer desenlace ou apreciação
fundamentada.
Para Luís Miguel Duarte, que escreve posterior a todos, “não é indiscutível a
sustentação lógica. Mais do que material de trabalho para as O.A., julgo estarmos perante
o ‘pecúlio de algum magistrado ou advogado da corte’, para retomar Herculano (ou
de algum tribunal superior, acrescentaria)”[3]. Acrescenta ainda que as considerações
tecidas em torno da paternidade destas Ordenações, são antes o resultado de uma
“abordagem anacrónica” das Afonsinas. Declinando os “esforços de erudição no sentido
de reconstruir a genealogia desta obra [Ordenações Afonsinas] através do Livro de Leis
e Posturas e das Ordenações de D. Duarte”, que reputa reminiscências das numerosas
“cópias, traslados, recolhas, colecções de leis e jurisprudência”, que não faltariam nos
“tribunais superiores, na Chancelaria régia, nos arquivos das principais câmaras e instituições
religiosas, nas pequenas bibliotecas pessoais dos mais altos magistrados, no acervo dos mais
destacados escrivães e tabeliães” [4].
Para este autor é “pouco seguro estabelecer genealogias de colecções pelo facto de
encontrarmos, na mais tardia, muitas leis incluídas na mais antiga”[5] – note-se que já
Herculano, com mestria, tinha afastado a ideia de Ribeiro de que as Ordenações de D.
Duarte fossem uma cópia do Livro de Leis e Posturas.
O percurso histórico deste cimélio (bem como das suas cópias), ao longo dos
séculos, está bem patente e desenvolvido na Introdução de Martim de Albuquerque,
que o localiza na segunda metade do século XVI, na posse de Mateus Pereira de Sá,
perdendo-se-lhe então o rasto até ao século XVIII, pertença de José Seabra da Silva, e
desaparecido no início do século XIX[6]. Como já acima ficou referido o estudo deste
código é abonado pelos Estatutos Pombalinos da Universidade de Coimbra, de 1772 –
“Tratará da Compilação do Senhor Rei Dom Duarte por ordem Chronologica”[7]. E a Memoria
para a Historia das Inquirições, coligidas pelos discípulos da Aula de Diplomática, no
ano de 1814 para 1815, ainda refere o códice de José Seabra da Silva[8]. Não sei se terão
consultado esse original, mas referem uma lei de D. Afonso IV, datada em Santarém,
a 2 de Janeiro da era de 1382, no fólio 341. Pela numeração que consta na impressão
da Fundação Calouste Gulbenkian, esse diploma de Afonso IV começa no fólio 340 e
termina no 340v. Só um cotejo com as cópias existentes poderá certificar se, realmente,
a consulta destes discípulos foi a deste códice de quatrocentos.

1
Alberto e J. D. GIRARD, As “Ordenações de D. Duarte”, in Anais das Bibliotecas e Arquivos, Vol. XII, n.º45 e
46, Lisboa, 1936, pp. 18-22. Esta paternidade, ao contrário do que possa dar a entender a explanação de Luís
Miguel Duarte (p. 111), nunca foi sequer suposta por Ribeiro, nem por Herculano.
2
ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte, p. XV.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 112. No fundo, o acrescento deste autor é o raciocínio seguido por
Marcello Caetano para o Livro das Leis e Posturas [Cfr. CAETANO, História do Direito, p. 346.]
4
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 114, 117 e 118.
5
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 112.
6
ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte, pp. IX-XII.
7
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica,
1773, Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 4,
pp. 160 e 161.
8
Memoria para a Historia das Inquirições, coligidas pelos discípulos da Aula de Diplomática, no ano de 1814
para 1815. Lisboa, na Impressão Regia, 1815, pp. 134-135: “No exemplar das Leis antigas, mais amplo que
o do Real Archivo, que possuia o Excellentissimo José Seabra da Silva…”.

79
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Um ponto em que, praticamente, todos os autores parecem estar em concordância,


é o da identificação das Ordenações de D. Duarte com o “Livro das Ordenações dos Reys”,
que figurava entre os livros manuscritos da livraria de D. Duarte[1]. Embora não
refutando completamente esta identidade, Borges Nunes, defende que as Ordenações
de D. Duarte seriam antes uma cópia coetânea do Livro das Ordenações dos Reis[2]. Na
verdade, quer se opte por uma quer pela outra tese, o facto de na livraria pessoal de
D. Duarte ter existido um manuscrito com tal título e o facto de a “tábua” que consta
no início deste volume de leis ser da lavra do mesmo soberano, é uma coincidência de
difícil transposição, sem outros apoios documentais.
No Arquivo da Câmara do Porto, embora em apógrafo, existe um precioso
monumento que pode prestar contributo indispensável para clarificar a questão.
Trata‑se de uma carta régia da lavra do Eloquente, datada de 16 de Fevereiro de 1438,
com o teor da concordata de 1427, assinada entre D. João I e a clerezia do reino,
trasladada do Livro das Ordenações da sua Câmara[3]. Esta singela menção ao Livro
das Ordenações da Câmara régia vem, imediatamente, consolidar a existência de uma
colectânea de leis utilizada por D. Duarte, na sua puridade.
Por outro lado, faltando esta concordata de 1427 na compilação que chegou aos
nossos dias, este documento vem refutar a apregoada identificação com o Livro das
Ordenações dos Reis e, de alguma forma, dar consistência à teoria de Eduardo Borges
Nunes. É que, em termos de concordatas, só as de D. Dinis constam nas Ordenações
de D. Duarte. O que quer dizer que, na melhor das hipóteses, a colecção publicada
seria uma cópia coetânea incompleta do códice matriz ou então existia outro livro
de ordenações.
Mas, mais importante ainda, este documento pode contestar a tese que pretende
tirar qualquer vigência prática à colectânea, reputando-a mera tarefa preparatória das
Afonsinas, da responsabilidade de João Mendes. O primordial defensor desta tese,
Alexandre Herculano, escreveu:

“Nada mais natural do que ter aquele tão illustrado como infeliz principe guardado para
seu estudo a ultima recopilação de Joanne Mendes, talvez depois de utilisada pelo principal
redactor do código affonsino, o jurisconsulto Rui Fernandes”[4]

Luís Miguel Duarte, embora discorde desta paternidade, também a insere entre as
colecções privadas de uma qualquer instituição, como já referi. Pois bem, agora parece
óbvio que o soberano não guardava as Ordenações apenas para seu estudo, mas, antes,

1
HERCULANO, Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 151.
NORONHA, “Ordenações do Reino – Edições do Século XVI”, p. 2 e p. 14.
Teófilo BRAGA, História da Universidade Coimbra, Tomo I, Lisboa, 1892, p. 221.
GIRARD, As “Ordenações de D. Duarte”, p. 18.
ALBUQUERQUE, Introdução às Ordenações de D. Duarte, p. VII.
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 114, nota 346.
2
NUNES, Nota Prévia de Codicologia e Textologia às Ordenações de D. Duarte, p. XXXI. A sua tese não é
compartilhada pelo outro prefaciador, Martim de Albuquerque, nem por Luís Miguel Duarte. Mas João
Pedro Ribeiro parece querer transmitir uma ideia muito próxima da de Borges Nunes: “O Indice mostra
bem que o Original desta Collecção era do uso d’ElRei D. Duarte, e daqui lhe veio o nome; mas se deve tambem
suppôr, que o que nella se adianta áquelle Indice foi posteriormente acrescentado, e que tambem se inter-
calarão em folhas em branco algumas Leis” [RIBEIRO, Dissertações Cronológicas e Críticas, Vol. IV, 2.ª Parte,
dissertação XVII, pp. 30-31].
3
Porto, AHM – Livro B, fls. 318v-324v.
4
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 151.

80
José Domingues

como básico instrumento governativo de administração pública e aplicação da justiça.


Só estranho que, em reputado período de compilação, como o do reinado de D. Duarte,
se considere simples “ludo realengo” um Livro de Ordenações dos Reis, sobretudo,
quando um desses autores preconiza a existência de compilações mais ou menos amplas,
mas separadas dos livros da Chancelaria, na época em que se redigiam as Afonsinas[1].
Indo mais longe, penso que, Alexandre Herculano, ao reputar, tanto o Livro das Leis
e Posturas como o das Ordenações de D. Duarte, trabalhos preparatórios de João Mendes,
irá, de alguma forma, embaraçar a sua conclusão definitiva de que “as referencias
ao Livro das Ordenações que andava na Chancellaria, e ao Livro das Leis, ou das
Leis do Reino, que estava na Casa do Civel, e vagamente ao Livro das Ordenações
do Reino, e ao Livro Grande das Leis, provam de um modo indubitavel a existencia de
compilações mais ou menos amplas, mas separadas dos livros da Chancellaria, na epocha
em que se redigiam as Affonsinas”[2]. Esta ideia, que me conste, não se repercutiu nos
autores posteriores, ninguém mais se preocupando com estas memoráveis referências
documentais desenterradas por dois dos mais conceituados investigadores da história
da jurisprudência pátria, Ribeiro e Herculano.

Outros Livros de Ordenações


Recapitulando, feita a exegese sobre o que de mais valioso se tem escrito sobre
ambas as colectâneas de leis – o Livro de Leis e Posturas e as Ordenações de D. Duarte
–, penso poder concluir que, desde o recuo do século XVIII até à actualidade, se
arreigou a ideia de que seriam apenas obras de carácter ‘particular’, não oficial, que
não tiveram qualquer influência prática no quotidiano jurídico do reino – uma vez
que se estava a preparar as Afonsinas, a autêntica e única colectânea oficial. Para uns,
seriam apenas esboços ou trabalhos preparatórios para as Afonsinas, notas itinerantes
do compilador João Mendes, até convertidas em singelo espólio da livraria régia[3].
Para outros, apontamentos de algum jurisperito mais diligente ou repositório de um
qualquer tribunal superior[4].
Levando esta última suposição ao extremo, Luís Miguel Duarte, conjectura ambas
as colecções como restos, que conseguiram chegar aos nossos dias, dos traslados
disseminados pelos “tribunais superiores, na Chancelaria régia, nos arquivos das principais
câmaras e instituições religiosas, nas pequenas bibliotecas pessoais dos mais altos magistrados,
no acervo dos mais destacados escrivães e tabeliães” [5]. É uma conclusão sedutora, mas
demasiado audaciosa, já que não invoca qualquer argumento creditório ou suporte
documental válido. De todas as instituições invocadas, as únicas que, documentalmente,
se sabe terem possuído livros de ordenações, são a Casa do Cível e a Chancelaria
Régia e, agora, também a Câmara de El-rei. Quanto às câmaras municipais, das actas
de vereações conhecidas para a época[6], a conclusão que nos é possível é que as leis

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 150.
2
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 150.
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 147-151.
4
CAETANO, História do Direito, pp. 346-347.
5
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 114, 117 e 118.
6
Vide o inventário dos livros de actas de vereações medievais conhecidos em «Vereações» 1431-1432, Livro
I. Leitura, Índice e Notas de João Alberto MACHADO e Luís Miguel DUARTE, Documentos e Memórias
para a História do Porto – XLIV, Arquivo Histórico / Câmara Municipal do Porto, Porto, 1985, Introdução,
pp. 9-10.

81
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

eram trasladadas em pergaminhos avulsos[1] ou nos próprios livros das vereações,


incorporadas com as vereações e outra documentação avulsa e não em livros próprios
e apartados[2]. Por outro lado, a existência de um exemplar das Afonsinas na câmara
dos concelhos, para serem entregues aos juízes eleitos, é reivindicada nas Cortes de
1498 (passado mais de meio século da sua conclusão)[3]. Nos atulhados cartórios e
livrarias das instituições religiosas não consta nenhuma referência documental coeva a
este tipo de obras, embora também não faltassem pergaminhos avulsos com traslados
de ordenações – alguns a partir de Livros de ordenações. Ressalvem-se os mosteiros de
Alcobaça e de Santo António da Merceana, onde apareceram exemplares das Afonsinas,
e até das Partidas de Castela, mas que não avalizam a sua posse durante o período de
vigência (1446-1512). Até porque é sabido que os dois livros de Merceana, encadernados
num só tomo, mas em caligrafia distinta, tinham pertencido a F. Rollim; e o de
Alcobaça foi adquirido em Lisboa, em 1566, por António Rodrigues da Mata, morador
em Lamego. Para os escrivães e tabeliães, eles só foram os principais destinatários de
diplomas normativos régios até à instituição definitiva dos corregedores das comarcas,
no reinado de D. Afonso IV – muito antes da era que nos emprega – e não sabemos que
tivessem livros apartados para registo das leis gerais. Finalmente, as pequenas bibliotecas
pessoais de altos magistrados, torna-se, de alguma forma, incompatível atribuir-lhe tais
colectâneas de leis, quando é sobejamente sabido que, nessa época, se preparavam a
nível do reino, isto é, que eram preocupação acesa do suserano e do reino.
Na extensa asserção de Miguel Duarte ficaram de fora as Chancelarias das
correições, que, essas sim, podemos aventar que tinham livros de ordenações, conforme
ficou expresso em lei de D. João I:

“E outro sy Mandamos ao Escripvão da Chancellaria de cada huã Comarca, que


a registe em o livro da dita Chancellaria, honde andão as outras Nossas Hordenaçoões
registadas, pera hy andar escripta, e os Corregedores, que hy forem, a fazerem
comprir, e guardar em todo como aqui suso dito he”[4]

De qualquer forma, desde já fica assente que não contesto inteiramente, nem a
propriedade nem a paternidade (João Mendes), preceituadas pelas teses antecedentes.
A pretensa paternidade de João Mendes fica adiada para o momento que falar deste
famigerado corregedor da corte. Quanto à pertença, quer do Livro de Leis e Posturas,
quer das Ordenações de D. Duarte, pode ser adjudicada a qualquer um, até mesmo a um
qualquer letrado ou iletrado curioso, com cabedais suficientes para pagar um copista.
Mas essa adjudicação é irrelevante, o que verdadeiramente importa é que justifiquemos
devidamente a sua originária procedência.
Por outras palavras, sabendo que as Ordenações de D. Duarte, e muito provavel-
mente também o Livro das Leis e Posturas, não são trabalhos originais, mas antes cópias

1
Vide os exemplos inventariados no anexo I. Aqui pode estar uma justificação plausível para as ordenações
gerais que aparecem nos foros e costumes medievais de alguns concelhos, isto é, ao organizar o direito
local vigente, a começar pelo foral do concelho, transcrevem-se também as ordenações régias que estavam
dispersas no arquivo municipal.
2
Por exemplo, a Ordenação dos Pelouros, no Livro das Vereações da cidade do Porto [Documentos e Memó-
rias para a História do Porto – II. “Vereações” Anos de 1390-1395 O mais antigo dos Livros de Vereações do Mu-
nicípio do Porto existentes no seu Arquivo, com comentários e notas de A. de Magalhães BASTO, Publicações
da Câmara Municipal do Porto, pp. 235-236]
3
Cortes Portuguesas, Reinado de D. Manuel I (Cortes de 1498). Organização e revisão geral de João José Alves
DIAS, Centro de Estudos Históricos – Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2002, pp. 75-76.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 34, §7, p. 280.

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José Domingues

destes, podemos conjecturar-lhe qualquer destinatário – procurando sempre o mais


fundamentado. Mas o cerne da questão gira sempre em volta da sua origem primor-
dial – importa o nome do autor e não o do copista. Ou seja, da mesma forma, também
nenhum dos livros das Ordenações Afonsinas é o original da Chancelaria Régia, mas
nem por isso deixam de ser entendidos e estudados como obra oficial de João Mendes
e de Rui Fernandes, por expressa incumbência régia.
Não contestando a paternidade nem a propriedade estabelecida para estas colec-
tâneas, não posso deixar de contrariar – como ficou feito a propósito das Ordenações
de D. Duarte – a ideia de que, na sua génese, seriam apenas obras de carácter particular,
não oficial, que não tiveram qualquer influência prática no quotidiano jurídico do reino, apesar
de recolherem leis originais. Quer isto dizer que a minha ideia se aparta das antece-
dentes na medida em que estas, mesmo partindo do princípio de que, tanto o Livro
das Leis e Posturas como as Ordenações de D. Duarte, são códices mais antigos do que as
Ordenações Afonsinas, continuam a preconizar a primazia destas últimas, insistindo em
aquilatá-las como a primeira compilação lusíada de direito medieval a vigorar. Deste
cânone terá que exceptuar-se João Pedro Ribeiro, que, embora de forma muito ténue,
tentou identificar o Livro das Leis e Posturas com o Livro das Ordenações referidos em
documentos dos finais do século XIV e inícios do século XV, reconhecendo-lhe, dessa
forma, alguma vigência prática no início dessa centúria.
Das referências documentais carreadas por Ribeiro, a mais vetusta é a que consta
na lei de D. João I, de 18 de Novembro de 1396, que refere certas dúvidas entre duas
leis, uma de D. Afonso III e outra de D. Afonso IV, “contheudas em este nosso Livro
das Ordenações do Regno”[1]. Retrocedendo cinco anos, no dia 29 de Agosto de 1391, D.
João I passa carta de certidão ao concelho de Lisboa de uma lei, de como os mercadores
estrangeiros devem comprar e vender as suas mercadorias, tirada de “hum livro da
nosa Chancelaria da Cassa Ciivell em no qual eram escriptas as hordenaçoens dos nossos
Reignos”[2].
Esta mesma lei fernandina, de como os mercadores estrangeiros devem comprar
e vender as suas mercadorias, será trasladada ao concelho do Porto em pública forma,
passada em Lisboa, a 6 de Dezembro de 1448, conforme constava no “quarto liuro da
reformaçõ das ordenações”, que andava na Chancelaria Régia[3]. Trata-se do título 4, do livro
IV das Ordenações Afonsinas, sendo este um dos primordiais diplomas comprovativos
da sua vigência efectiva[4]. Logo, se este de 1448 serve para comprovar a vigência das
Ordenações Afonsinas, também o de 1391, forçosamente, ratifica a vigência de um Livro
de Ordenações, nesse ano de finais de trezentos.
Esse livro, onde eram escritas as ordenações do reino, diz-se depositado na “nosa
Chancelaria da Cassa Ciivell”. Uma segunda menção, que Ribeiro aspou do § 29, título
15 do III livro das Ordenações Afonsinas, também refere o “Livro das Leys, que está na
Casa do Cível”[5]. A estas, Herculano acrescenta a do parágrafo 27, também do título
15 do livro III das Afonsinas – “Livro das Leys do Reino, que está na Caza do Cível”. Pelo

1
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 6, § 1, p.
2
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, Lisboa, 1958, p. 53.
Para Carvalho Homem é “facto pois de salientar, que nos livros da chancelaria de um tribunal superior es-
tejam registados diplomas legislativos” [Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Em torno de Álvaro Pais”,
sep. de Estudos Medievais, n.º3/4, Porto, 1984, p. 13].
3
Porto, AHM – Livro A, fl. 115-116v.
4
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 123, nota 3.
CAETANO, História do Direito, p. 533.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 29, p. 57.

83
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

menos mais uma referência documentada ao livro das ordenações da Casa do Cível
– “livro das hordenações da nossa Cassa do Çivil” – encontra-se numa carta régia contra a
mendicidade e o abandono das terras de lavoura, passada em Lisboa, a 13 de Janeiro
de 1435[1].
Este será um dos argumentos de Herculano contra a pretensa identificação, de
João Pedro Ribeiro, do Livro das Leis e Posturas com o Livro de Ordenações. Porque, no
seu entender, “Estas referencias indicam claramente dous codices distinctos existentes em
duas estações diversas, a Chancellaria e a Casa do Cível”[2]. Antes de mais, na eventualidade
de se tratar de dois códices, não existe qualquer motivo para os considerar distintos,
antes pelo contrário, parece-me perfeitamente plausível que um fosse cópia de outro.
E nada mais natural do que, coligidas as Ordenações (estamos no reinado de D. João
I – acentue-se), se depositasse um exemplar na Chancelaria e outro num dos mais
importantes tribunais da época – a Casa do Cível.
Antes de prosseguir, vejamos as insinuações à Chancelaria Régia. Ribeiro anuncia
a existência do “Livro das Ordenações que anda na Chancellaria”, a partir de uma certidão
de 1421, no cartório de S. João de Tarouca, do qual teria sido transcrita uma lei de
Afonso III, sobre os acrescidos dos rios. Bastante anterior a essa, por documento de 12
de Novembro de 1406 foi certificada ao mestre da Ordem de Avis, Fernão Rodrigues,
a lei dos coutos de homiziados de 30 de Agosto de 1406, a partir de “huum dos liuros
da lley e hordenações que andam em a nossa chançallarya”[3]. Em documento de Maio de
1409 (Montemor-o-Novo), a lei de 09 de Fevereiro de 1402, para que não aforrem nem
arrendem por ouro nem prata senão pela moeda geral corrente no reino, também foi
trasladada a partir do livro das ordenações da Chancelaria[4].
De seguida, em documentos outorgados em Lisboa, a 14 de Novembro de 1410,
transcrevem-se três capítulos das Cortes de Lisboa, desse ano, a partir do Livro das
Ordenações que andava na Chancelaria: para que se castrem somente os rocins que
andarem a pastar (cap. 10º)[5]; sobre a forma de pagarem carceragem aqueles que
incorrem em sentença de excomunhão (cap. 19º)[6]; e que às audiências eclesiásticas
assista um procurador régio (cap. 24º)[7].
Posteriormente, já em finais do reinado de D. João I, na década de trinta (26 de
Julho de 1430) o monarca passou carta, a requerimento de Diogo Lourenço, tabelião
em Ponte de Lima, com o traslado de três capítulos de Cortes, que estavam no “Livro
das Ordenações da Chancelaria do Reino”, sobre os abusos dos procuradores do reino que
exorbitavam nas taxas pela verificação das contas de execução dos testamentos[8].
Já no reinado de D. Duarte, um monumento de 2 de Novembro de 1435, em
Santarém, traslada, do “Liuro das hordenaçoees da nossa chanceleria”, a lei (de 02 de Junho
de 1435) para que o dinheiro dos órfãos se empregue em propriedades e se não dê à
usura, proibida pela lei de Deus[9]. Noutro diploma, do mesmo monarca, outorgado

1
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, p. 258.
2
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 149.
3
Humberto Baquero MORENO, “Elementos para o Estudo dos Coutos de Homiziados Instituídos pela
Coroa”, in Os Municípios Portugueses nos Séculos XIII a XVI – Estudos de História, Editorial Presença, Lisboa,
1986, p. 134.
4
IAN/TT – Suplemento de Cortes, maço 4, n.º 31.
5
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, doc. 27, p. 117.
6
Idem, doc. 22, p. 112.
7
Idem, doc. 25, p. 115.
8
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º16.
9
Porto, AHM – Livro 4º de Pergaminhos, doc. n.º20.

84
José Domingues

em Estremoz com data de 13 de Abril de 1436, foi apresentado por frei Fernando, aos
18 dias de Abril de 1436, nos paços do concelho de Évora, perante o Juiz e oficiais – se
diz “em o livro das hordenações da nossa chancellaria he contheuda hua hordenaçom que
ora novamente fezemos”. Trata-se de uma ordenação – em Estremoz, 10 de Abril de
1436[1] – proibindo as vigílias e dormidas em igrejas, mosteiros, ermidas e oratórios,
para obstar aos jogos, tangeres e cantares que neles se faziam, dificultando o ofício
divino e as orações dos bons cristãos. Para os prevaricadores foi estabelecida uma
coima de 300 reis, ficando 200 para os cativos e 100 para os delatores[2].
Finalmente, já no reinado do Africano, um diploma, outorgado em Torres Novas,
a 15 de Novembro de 1438, transcreve um capítulo geral de Cortes, extraído do “lliuro
das hordenaçooens da nossa chançellaria”[3]. Trata-se do artigo 19º das Cortes de Leiria/
Santarém de 1433, sobre o arrendamento das Chancelarias.
Note-se que, ao referir o facto de Herculano considerar que estamos perante dois
códices distintos existentes em duas estações diversas, propositadamente, escrevi, na
eventualidade de se tratar de dois códices. Porque, para além de nada nos permitir inferir
que o seu conteúdo seria distinto, também não tenho total certeza que se estivesse a
falar de dois livros – um na Casa do Cível e outro na Chancelaria Régia. Ou seja, o Livro
das Ordenações da Casa do Cível e o da Chancelaria podiam muito bem ser o mesmo e
um só, senão vejamos.
Desde Afonso III que a Chancelaria se fixa em Lisboa, sendo certo que também a
partir de 1434 esta cidade passou a ser sede fixa e definitiva da Casa do Cível[4]. Esta
proximidade geográfica não teria qualquer relevância se não existissem documentos
que, praticamente, confundem a Chancelaria da Casa do Cível com a Chancelaria
Régia. Carvalho Homem, apoiando-se em dois diplomas de 1366, apercebe-se desta
“interpenetração da Chancelaria régia com a Chancelaria da Casa do Cível, ou numa palavra
e mais uma vez, o imbricamento da Justiça com a Administração propriamente dita”[5].
Nesses dois documentos, Álvaro Pais é, ambiguamente, identificado como vedor da
Chancelaria Régia e da Chancelaria da Casa do Cível[6]. Mas a concluir o seu trabalho,
este autor, deixa esclarecido em nota:

“De salientar que, nesta segunda metade do século XIV, outros casos existem de
acoplagem entre a Chancelaria régia e a Casa do Cível que vimos a propósito de Álvaro
Pais. É o que acontece, por exemplo, com o cargo de Escrivão da Chancelaria,
desempenhado por Gonçalo Peres de 1375 a 1397. Ora em 1394 o monarca doa-
lhe, a título de privilégio, o morgado outrora instituído por Aires Vasques e Maria
Anes, e embora no último registo da carta seja apenas designado por «Escrivão
da Chancelaria», o texto da mesma refere-o como «Escrivão da nossa Chancelaria
da Casa do Cível». Por outro lado, a 16 de Novembro de 1390 uma carta régia de
privilégios concedidos aos membros do desembargo e aos magistrados da Casa
do Cível refere o Escrivão da Chancelaria de um modo que pode levar a crer na

Porto, AHM – Livro A, fl. 6-6v.


1
Parece que o registo no Livro das Ordenações era feito de imediato, uma vez que, passados oito dias, já é
apresentada a ordenação em traslado desse livro.
2
Gabriel PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, Vol. II, Évora, 1887, p. 54 (Edição fac-similada
da INCM, 1998).
3
Viseu, AD – Maço 27, col. 50.
4
Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel SERRÃO, vol. II, s. v. “Cível, Casa do”.
5
HOMEM, Em torno de Álvaro Pais, p. 14.
6
Cfr. sobretudo os docs. 4 e 6 publicados por Carvalho HOMEM, Em torno de Álvaro Pais, pp. 29-31 e 33-38.

85
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

sua inclusão entre os segundos: «nos, queremdo fazer graça e merçee aos do nosso
desembarguo e sobrejuizes e ouvidores e procurador e escripvam dos nossos
fectos e escripvam da nossa chamçellaria, e aos outros ofiçiaaes da nossa casa do
Çivel» (IAN/TT – Estremadura, liv. 9, fl. 185v-186; cit por Braamcamp FREIRE, Os
Brasões da Sala de Sintra, liv. II, p. 168)”[1]

Fundamentada a agregação entre a Chancelaria Régia e a Chancelaria da Casa


do Cível, na segunda metade do século XIV, mais facilmente se pode compreender a
dupla referência ao mesmo livro de ordenações, como vimos insinuando. De qualquer
forma, fosse o mesmo livro, ou dois livros com idêntico conteúdo, ou (hipótese remo-
ta) até mesmo de conteúdo distinto, a verdade é que não restam dúvidas de que, pelo
menos desde o ano de 1391, existem livros de ordenações em vigor no reino de Portu-
gal, utilizados pelas instituições régias (oficiais).
Mas, para ensarilhar mais a questão, aparecem referências documentais a livros
de ordenações na Casa dos Contos. No alvará de 20 de Abril de 1442, outorgado em
Santarém, para que se não pagasse uma escarlata de vestir ao juiz da alfândega de
Lisboa, ordena-se: “E uos fazee Registar este nosso aluara no liuro das hordenaçoees
dessees contos”[2]. Noutro alvará régio, do primeiro de Janeiro de 1445, para que se não
pague sisa dos vinhos da Arruda e de outros lugares em Lisboa, consta também: “E
fazee Registar este aluara nos liuros das hordenaçoões dos nossos contos dessa cidade”[3].
Em documento de 18 de Junho de 1445 – imediatamente anterior à conclusão das
Ordenações Afonsinas – as determinações do regente, o infante D. Pedro, às dúvidas que
lhe foram apresentadas pelo contador João Martins, sobre o lançamento e cobrança
do pedido desse ano, terminam com a seguinte recomendação “E fazee llogo rregistar
estas determjnações no lljuro das ordenações dos nossos contos dessa çidade”[4]. A carta
de confirmação (de 23 de Outubro de 1459) da ordenação de 21 de Agosto de 1459 é
mandada “traladar no Líuro das hordenaações que andam nos nosos Contos”[5]. Portanto,
existia também um Livro de Ordenações na Casa dos Contos.
Maior dificuldade pode suscitar a identificação deste Livro de Ordenações da Casa
dos Contos: tratar-se-á de uma colectânea idêntica ou, pelo contrário, de contornos
diferentes à da Chancelaria Régia? Estas quatro singelas referências documentais
isoladas tornam precária qualquer inferência. De qualquer forma, da leitura atenta do
capítulo sobre a Origem da Casa dos Contos, de Virgínia Rau, ressalta a sua ligação com a
Chancelaria Régia, ou seja, agora o imbricamento da fazenda pública com a Administração.
Por exemplo, em 18 de Fevereiro de 1344 refere-se a Chancelaria Real que «anda
com a cassa»[6]; O cargo de vedor da fazenda e guarda da Torre do Tombo surge, por
vezes, ligado à mesma pessoa[7]; As ordenações eram registadas nos Contos a partir

1
HOMEM, Em torno de Álvaro Pais, p. 22, nota 101.
2
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte. Centro de Estudos Históricos – Universidade Nova de Lisboa. Lisboa,
1999, vol. II (Livro da Casa dos Contos), doc. 91, p. 132
3
Idem, doc. 105, p. 147.
4
Idem, doc. 113, p. 165.
Iria GONÇALVES, Pedidos e Empréstimos Públicos em Portugal Durante a Idade Média, Lisboa, 1964, pp. 235-239.
5
J. M. da Silva MARQUES, Descobrimentos Portugueses, vol. I, p. 567.
6
Se bem que aqui tanto pode ser a Casa dos Contos como a do Cível ou, mesmo, a Casa Real.
7
“Apesar da autonomia da Casa dos Contos em relação à Chancelaria, houve certa confusão entre os do-
cumentos das duas repartições até meados do séc. XV, por serem contadores os funcionários encarregados
de buscar e transcrever as escrituras da Torre do Tombo, onde se guardava o arquivo da Chancelaria”
[Avelino Jesus da COSTA, “A chancelaria real portuguesa e os seus registos, de 1217 a 1438”, Revista da
Faculdade de Letras – História, II série, vol. 33, Porto, 1996, pp. 74-75].

86
José Domingues

dos assentos da Chancelaria; o selo dos Contos também servia para selar certidões
expedidas pelo guarda-mor da Torre do Tombo, durante os reinados de D. João I, D.
Duarte, D. Afonso V e mesmo posteriormente…[1]
Apesar de tudo, se para a Casa do Cível não vejo inconveniente na analogia
com o livro das ordenações da Chancelaria, o paralelo com a Casa dos Contos
deixa-me mais incertezas. Tendo em atenção a matéria versada nos diplomas acima
e sabendo, de antemão, que esta instituição é particularmente vocacionada para
matérias jurídico‑tributárias ou da fazenda pública, pode muito bem tratar-se de uma
compilação de contornos diferentes. O que assim me aconselha é a referência expressa,
nas Ordenações da Fazenda, publicadas em 1516, a uma anterior colectânea e o facto de
as matérias de âmbito fiscal escassearem nas Afonsinas[2].
Para além da referência ao Livro das Ordenações da Casa do Cível, da Chancelaria
e da Casa dos Contos, existem outras que, apesar de lhe não acusarem a localização
precisa, são incontestadas menções a livros de ordenações. Em três documentos,
todos datados de 14 de Novembro de 1410, em Lisboa, referem-se expressamente
capítulos transcritos do “livro das nossas ordenaçoões”[3]. Embora estes documentos não
identifiquem a localização desse livro de ordenações, não me parece nenhum exagero
conjecturar-lhe a Chancelaria, uma vez que já acima ficaram citados outros três
diplomas, exactamente da mesma data e local, que assim o permitem. Sintetizando, se
o monarca, no mesmo dia, para transcrever três capítulos de Cortes utiliza o livro das
ordenações da sua Chancelaria, é muito plausível que também use o mesmo livro de
ordenações para os outros, que trasladam capítulos das mesmas Cortes. Nesta data,
não me parece excessivo até que muitas das referências a leis do Livro da Chancelaria se
reportem, especificamente, ao Livro de Ordenações, mas a ambiguidade de significado
aconselha uma utilização cuidadosa, não permitindo a sua catalogação genérica.
Antes de qualquer conjectura, vejamos em tabela sinóptica a correspondência, dos
diplomas normativos identificados, com o Livro de Leis e Posturas (LLP), Ordenações
de D. Duarte (ODD), Livro de Ordenações da Casa do Cível (LCC), Livro de Ordena-
ções da Chancelaria (LCh.), Livro de Ordenações da Casa dos Contos (LCt.), Livro de
Ordenações da Câmara Régia (LCR), com o Livro Grande das Leis (LG) e com o, sim-
plesmente, Livro de Ordenações (LO).

1
Virgínia RAU, A Casa dos Contos, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra Instituto de Estudos
Históricos Dr. António de Vasconcelos, Coimbra, 1951, pp. 3-29 e 51, nota 2.
2
“a legislação afonsina, tão fecunda nalguns outros aspectos, pouco nos deixou relativo à arrecadação e
fiscalização das contas públicas” [RAU, A Casa dos Contos, p. 55].
3
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, Lisboa, 1958, pp.
114, 116 e 118.

87
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Doc. Lei LLP ODD LCC LCh. LCt. LO LG LCR

1391[1] 1375 *****

Af.º III ***** ***** *****


1396[2]
1329 ***** *****

1406[3] 1406 *****

1409[4] 1402 *****

1410[5] 1410(cc) *****

1410[6] 1410(cc) [*****] *****

1410[7] 1410(cc) *****

1410[8] 1410(cc) [*****] *****

1410[9] 1410(cc) *****

1410[10] 1410(cc) [*****] *****

1421[11] Af.º III ***** *****

1427[12] 1427 *****

1430[13] 1430(cc) *****

1435[14] *****

1435[15] 1435 *****

1436[16] 1436 *****

1438[17] 1427 ****

1438[18] 1433(cc) *****

1442[19] 1442 *****

1445[20] 1445 *****

1445[21] 1445 *****

a.1446[22] 1361(cc) *****

a.1446[23] *****

a.1446[24] *****

a.1446[25] *****

88
José Domingues

Legenda:
Doc. = Data do diploma que transcreve essa lei
Lei = Data do diploma normativo
C.C. = Capítulo Geral de Cortes
LLP = Livro de Leis e Posturas
ODD = Ordenações de D. Duarte
LCC = Livro de Ordenações da Casa do Cível
LCh. = Livro de Ordenações da Chancelaria
LCt. = Livro de Ordenações da Casa dos Contos
LO = Livro de Ordenações/Livro de Ordenações do Reino
LG = Livro Grande das Leis
LCR = Livro de Ordenações da Câmara do Rei

1
Idem, p. 53.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 6, § 1.
3
Humberto Baquero MORENO, “Elementos para o Estudo dos Coutos de Homiziados Instituídos pela
Coroa”, in Os Municípios Portugueses nos Séculos XIII a XVI – Estudos de História, Editorial Presença, Lisboa,
1986, pp. 134-138
4
IAN/TT – Suplemento de Cortes, maço 4, n.º 31.
5
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, p. 112.
6
Idem, p. 114.
7
Idem, p. 115.
8
Idem, p. 116.
9
Idem, p. 117.
10
Idem, p. 118.
11
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, vol. IV, parte 2.ª, pp. 26-27.
12
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 7, pp. 147-148.
13
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º16.
14
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, p. 258.
15
Porto, AHM – Livro 4º de Pergaminhos, doc. n.º20.
16
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, vol. II, p. 54.
17
Porto, AHM – Livro B, fl. 318v.
18
Viseu, AD – Maço 27, col. 50.
19
Chancelaria de D. Duarte, doc. 91, p. 132.
20
Idem, doc. 105, p. 147.
21
Idem, doc. 113, p. 165.
22
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 13.
23
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 27.
24
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 29.
25
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 30.

89
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Sendo certo que desde 1391, pelo menos, vigoram livros de ordenações no reino
de Portugal, distribuídos pelas superiores instituições jurídico-administrativas, a
dificuldade que agora se coloca é a da identificação desses livros. Já vimos que, na
eventualidade de não se tratar do mesmo códice, nada obsta a que cópias do mesmo
fossem depositadas na Chancelaria, na Casa do Cível e na Casa dos Contos. Por outro
lado, a facilidade com que os textos manuscritos podiam ser adulterados, levaria o
monarca a depositar um exemplar na sua própria Câmara.
Embora não se conheça qualquer comparativo para o nosso reino, é extremamente
significativo que uma lei do Ordenamiento de Alcalá, de 1348, prescreva a elaboração de
um manuscrito, com o selo de ouro, para a Câmara Real e outros manuscritos, com o
selo de chumbo, para as cidades, vilas e lugares do senhorio[1].
Mas deixemos esta vaga conjectura para continuar com a pretensa identificação
e/ou relação dos outros Livros de Ordenações com os, sobejamente conhecidos, Livro
de Leis e Posturas e Ordenações de D. Duarte. Antes de mais, as leis até ao reinado de
Afonso IV constam, praticamente todas, do Livro de Leis e Posturas[2] e das Ordenações de
D. Duarte, permitindo a analogia. No entanto, uma breve sondagem à tabela sinóptica
patenteia que nos Livros de Ordenações constavam também leis dos reinados de D.
Pedro I a D. Duarte (1361-1438), que foram degredadas do Livro das Leis e Posturas e das
Ordenações de D. Duarte – salvo as posteriores interpolações esporádicas, perfeitamente
identificáveis[3]. Esta ausência intrigou Herculano – que classificou, os dois códices,
trabalhos preliminares de João Mendes – sendo o único a arriscar uma alegação:

“Efectivamente as de Pedro I e de Fernando I eram mui recentes e deviam ser assas


conhecidas para não se tornar necessário compilá-las pelos cartórios do reino”[4].

Sabendo, previamente, que a compilação das ordenações foi ditada “pela


multiplicaçom dellas”[5], não me parece uma explicação suficientemente plausível, se
tivermos em conta que a maioria desses diplomas de D. Pedro I e D. Fernando já
ultrapassava o meio século de existência e estavam disseminados a esmo por muitos
mais livros do que os que chegaram aos nossos dias. A redução do número de volumes
dos registos da Chancelaria deve-se à reforma feita pelo guarda-mor da Torre do
Tombo, Gomes Eanes de Azurara, em cumprimento de uma resolução das Cortes de
Lisboa de 1459. Na Chancelaria de D. Pedro I terá havido 10 livros, na de D. Fernando
17, na de D. João I 48 e na de D. Duarte 5, “num total de 80, o que corresponderia a uma
média de um livro por ano”[6]. Na carta escrita pelo guarda-mor Tomé Lopes, em 2 de

1
“Destas nuestras Leys mandamos facer un libro seellado com nuestro seello de oro para tener en la nues-
tra Camara, e otros seellados con nuestros seellos de plomo que embiamos á las cibdades, e villas, e logares
del nuestro Sennorio, de los quales es este uno”, em El Ordenamiento de Leyes, que D. Alfonso XI hizo en las
Cortes de Alcala de Henares el año de mil trescientos y quarenta y ocho, Madrid, 1847, p. 123.
2
O facto de no Livro das Leis e Posturas se compreenderem apenas ordenações até ao reinado de D. Afonso
IV levou Oliveira Marques a conjecturar, sem qualquer fundamento, que tenha sido “provavelmente orga-
nizado nos começos do reinado de D. Pedro I” [A. H. Oliveira MARQUES, Portugal na Crise dos Séculos XIV e
XV, Nova História de Portugal, Editorial Presença, p. 281].
3
A lei do infante D. Pedro [Livro de Leis e Posturas, p. 331] “é uma interpolação, por letra cursiva muito
mais moderna, para o que se aproveitou uma pagina em branco” [Portugaliae Monumenta Historica, Leges,
p. 149]. Os acrescentos nas Ordenações de D. Duarte estão perfeitamente assinalados e destacados na sua
recente edição.
4
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 149.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Introdução, p. 1.
6
MARQUES, Portugal na Crise dos Séculos XIV e XV, Nova História de Portugal, p. 285.

90
José Domingues

Maio de 1526, a D. João III, ainda se referem 48 volumes. Pelo que, a existência de, pelo
menos, um segundo livro com leis posteriores a D. Afonso IV, como ficou expresso ao
tratar o título das Ordenações de D. Duarte[1], destila como a explicação cada vez mais
provável. Aliás, só neste sentido se pode entender e interpretar a referência, supra
identificada, a “huum dos liuros da lley e hordenações que andam em a nossa chançallarya”[2].
Referindo-se um dos livros, é porque existiam mais do que um, pelo menos dois.
Deste(s) segundo(s) livro(s) de ordenações não chegou aos nossos dias nenhum
resquício, salvo estas singelas inferências documentais. Em contrapartida, temos dois
supostos primeiros livros, que, praticamente, abarcam o mesmo friso cronológico, des-
de Afonso II até Afonso IV – o Livro das Leis e Posturas e as Ordenações de D. Duarte. No
entanto, apesar desta semelhança de conteúdo, é bem patente a diferença de estilo e de
disposição das matérias, estando afastada qualquer remota ideia de serem cópia um
do outro ou de um códice matriz comum. Assim, a conclusão só pode ser a de corres-
ponderem a fases distintas desta ingente tarefa compilatória. Saliente-se que se trata
de uma época conturbada, de uma empresa complicada e inédita, mesmo ao nível dos
reinos europeus, e de um espaço temporal de cerca de cinquenta e cinco anos (1391-
1446), que justificam a sua execução por mais do que uma fase.
Se não repugna aceitar que esta empresa se processou em mais do que uma etapa,
a dificuldade é, sem dúvida, documentar o seu número e saber quando principia uma
e acaba a outra. O ano de 1418, por sugestão de Armindo de Sousa, chamou particular
atenção a Carvalho Homem, que o proclama como ano de início dos trabalhos das
Ordenações Afonsinas[3]. A reconhecer-se relevância a esta data de 1418 – para a qual
não encontro argumento terminante, mas também não oponho qualquer objecção –
estou convicto que tenha sido mais o começo de uma etapa, do que propriamente o
início dos trabalhos de compilação, já que, como acima ficou sublinhado, os livros de
ordenações vinham de datas bastante anteriores.
Acima de tudo, parece incontroverso que, volvidos poucos anos (cerca 1425),
quando o infante D. Pedro escreve de Bruges ao seu irmão, se estava a cuidar do “jus
regni”, sob o patrocínio do infante D. Duarte[4]:

“E yso mesmo de as leys e ordenações do reyno serem proujdas e atituladas cada huã
daquelo a que pertençe. E se entre elas fosem açhadas alguãs que ja fosem reuogadas, que
as tyrem, pois que delas não hão dusar; e as boas ordenações se gardasem nas cousas sobre
que são feytas”[5]

Não sabemos ao certo quando terminou essa tarefa, provavelmente iniciada em


1418, mas tudo leva a crer que em 1427, pelo menos, já estivesse concluída. Nas Cortes

Cfr. a bibliografia anotada em Amélia Aguiar ANDRADE, “Estado, territórios e ‘administração régia pe-
riférica’”, A Génese do Estado Moderno no Portugal Tardo-Medievo (séculos XIII-XV), Universidade Autónoma
de Lisboa, Lisboa, 1999, p. 155, nota 11.
1
Cfr. p. 72.
2
MORENO, “Elementos para o Estudo dos Coutos de Homiziados”, p. 134.
3
HOMEM, “Rei e «Estado Real» nos textos legislativos da Idade Média Portuguesa”, pp. 391-392.
HOMEM, “Estado Moderno e Legislação régia”, pp. 116 e 121 (vide nota 52 deste capítulo).
4
“Desde 1411 que o infante tem responsabilidades governativas e oficiais próprios e desde 1413 que ocupa
o cargo de acessor para os assuntos do conselho, justiça e fazenda; a partir de 1418 é bem visível a sua acção
como legislador” [VENTURA, Igreja e Poder no Séc. XV: Dinastia de Avis e Liberdades Eclesiásticas (1383-1450),
Colibri História, 16, Edições Colibri, Lisboa, 1997]
5
Artur Moreira de SÁ, A “Carta de Bruges” do Infante D. Pedro, sep. de Biblos, XXVIII, Coimbra, 1952, p. 18.

91
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

de Lisboa desse ano, os procuradores do povo solicitaram o cumprimento da ordenação


antiga, segundo a qual os corregedores não podiam constranger os moradores dum
julgado a transportar os presos mais longe que o julgado seguinte[1]. Se esta referência
à ordenação antiga não é completamente concludente, a menção de um “livro
das Hordenaçoões antiguas” no artigo 86º da concordata assinada entre D. João I e a
clerezia, a 30 de Agosto desse ano de 1427[2], parece não deixar margem para dúvidas.
Posteriormente, também no artigo 22º das Cortes de Santarém de 1430, a propósito
dos servidores por soldadas, se manda guardar a ordenação antiga[3]. Quer dizer que em
1427 já estariam concluídas, pelo menos, duas fases da compilação.
Neste momento não será despropositado afirmar que a primeira fase compilatória
do direito geral do reino já estaria completa antes de 1391, que nas Cortes de 1418
se inicio uma nova fase[4] e que cerca do ano de 1427 já estaria concluída esta última
fase, com novo(s) livro(s) de ordenações em vigor. Embora sejam bastante parcos os
amparos documentais e precárias as ilações, tudo parece encaixar na perfeição. Mas
os mais solícitos vão chamar logo à colação o texto do prólogo das Afonsinas, onde
se refere, terminantemente, que D. João I cometeu as Ordenações a João Mendes, mas
“nom forõ acabadas em seus dias por alguuns empachos que se seguirom” e depois do seu
falecimento o seu filho, El-Rei D. Duarte, mandou o dito corregedor continuar a obra
“assi como fazia em tempo d’ElRey seu Padre”[5].
Convenhamos que seria um perfeito contra-senso afirmar que a obra se não con-
cluiu no reinado de D. João I por algumas impugnações incidentais (que desconhece-
mos), quando sabemos que existem livros de ordenações a vigorar desde 1391 e tudo
aponta para que, neste reinado, se tenham concluído duas fases da compilação. Será
que o redactor do prólogo cometeu mais um erro grosseiro?
Não acredito. Estou convicto que o autor do prólogo se refere apenas aos traba-
lhos (e aos compiladores) da última fase, que chegou aos nossos dias sob a forma dos
cinco livros das Ordenações Afonsinas. Então, esta derradeira fase deve ter tido o seu
início a partir de 1427, nas cortes de Lisboa desse mesmo ano ou nas de Santarém de
1430, e antes de 1433. Nesse lapso temporal de seis anos, surge o resquício de uma
compilação desconhecida, que foi aproveitado para compor o título 15 do livro III das
Ordenações Afonsinas. Trata-se de alguns casos em que os clérigos devem responder
perante a justiça secular e que foram extractados – alterando-se na sua redacção ori-
ginal – da concordata assinada com a clerezia do reino, em 1427. Tudo leva a crer que
essa alteração ainda foi feita durante o reinado de D. João I, como a seu tempo veremos
ao cotejar este título com a dita concordata.
Por outro lado, uma análise meticulosa das palavras do prólogo pode atestar
ainda mais a probidade e rigor do seu autor. Quando ele refere uma fase inconclusa no
reinado de D. João I, permite-nos, de alguma forma, entender o silêncio dos coetâneos
cronistas. Só Rui de Pina se deu ao labor de referir o início da tarefa no reinado de D.

1
Armindo de SOUSA, As Cortes Medievais Portuguesas (1385-1490), Porto, 1990, vol. II, p. 278.
Há quem entenda que as queixas do povo, para a sistematização do direito vigente, foram formuladas
nestas Cortes de 1427 [História de Portugal Medievo, político e institucional (coordenador Humberto Baque-
ro MORENO, colaboradores Maria Conceição Falcão FERREIRA, Luís C. C. Ferreira do AMARAL e Luís
Miguel DUARTE), Universidade Aberta, Lisboa, 1995, p. 313].
2
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 7, pp. 147-148.
3
SOUSA, As Cortes Medievais Portuguesas, vol. II, p. 288.
4
Esta asserção fica por conta do respectivo autor, já que não encontro qualquer fundamento documental
que a avalize.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.

92
José Domingues

Duarte: “e com tudo ElRey pôz muito seu cuidado nas cousas da Justiça que em seus
dias mandou iteiramente guardar, e entendeo em mandar correger e abreviar as Ordenaçoões
do Regno, e em seus dias nom se acabaram”[1]. Por outras palavras, quando Fernão Lopes
ou Gomes Eanes de Zurara escrevem a Crónica de D. João I a compilação em vigor é
a das Afonsinas, por isso, torna-se desnecessário referir as compilações antecedentes e
muito menos a incompleta. Pela mesma ordem de factores, é compreensível que Rui
de Pina situe o início das Afonsinas no começo do reinado de D. Duarte.
Penso, no entanto, que ainda é demasiado prematuro associar o Livro de Leis e
Posturas ou as Ordenações de D. Duarte a qualquer fase – até porque não sabemos ao certo
quantas fases existiram e os terminus rigorosos de cada uma. O que me parece inconcusso
é que as Afonsinas são apenas uma etapa do processo compilatório de finais do século
XIV e primeira metade do XV. Só assim se entende que, por exemplo, no início do livro
V conste “Tauoa dos titollos do quinto liuro da reformaçom noua das ordenaçõoes”[2]. Se a
afonsina é a reformação nova é porque existiu, pelo menos, outra antecedente.
Repisando a pergunta que ficou formulada no início deste ponto 2: será que as
Ordenações Afonsinas são a mais vetusta colectânea de leis? Penso que não, antes das Afon-
sinas teriam existido outras colecções de leis, que são referidas na documentação coetâ-
nea – pelo menos assim me induz a argumentação supra explanada – sendo o Livro de
Leis e Posturas e as Ordenações de D. Duarte vestígios concretos dessas colecções antece-
dentes. Mas uma apreciação cuidada das Ordenações Afonsinas pode, certamente, con-
tribuir para um melhor entendimento desta singela exegese.

3. Os Estilos Redactoriais nas Afonsinas


Comprovada a existência de colecções de leis anteriores às Ordenações Afonsinas,
vejamos agora o decurso de preparação destas. Afortunadamente, aos nossos dias
chegaram os cinco livros, embora não tenhamos nenhuma colecção completa[3]. A data
da sua conclusão ficou registada no final do livro V – 28 de Julho de 1446 – sendo
extravagantes os diplomas que, posteriormente, se lhe apensaram. Mas, o contributo
indispensável para o entendimento da sua elaboração continua a ser o lacónico
preâmbulo do livro I.
A descoberta deste códice I, como já se disse, veio revelar o início da empreitada
e o nome dos seus tarefeiros, mas estigmatizou uma diferença redactorial susceptível
de subida controvérsia. Forjado em estilo de redacção completamente diferente dos
restantes quatro livros, o livro I das Afonsinas inculca, imediatamente, regimentos novos
de D. Afonso V ou punho de compilador distinto dos restantes livros[4].

1
PINA, Chronica do Senhor Rey D. Duarte, cap. VII.
2
IAN/TT – Núcleo Antigo, n.º14 (Ms. de Santarém).
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 122;
SILVA, História do Direito, 3.ª edição, p. 272, nota 2.
O facto de aos nossos dias não terem chegado colecções completas não quer dizer que não tenham existido.
Pelo menos a colecção da Câmara de Santarém deve ter sido completa uma vez que, quando foi feita a sua
encadernação, a 21 de Junho de 1508, se referem “Estes cimqo liuros das reformaçõees primeiro 2º 3 4 V” [IAN/
TT – Núcleo Antigo n.º14 (Livro V das Ordenações Afonsinas da Câmara de Santarém) fl. 131v].
4
SILVA, Prefação ao Liv. I das Ordenações Afonsinas, p. VIIII, aventa as duas hipóteses.
Em prol da 1.ª hipótese, que diz tratar-se de regimentos novos de Afonso V, cfr. SILVA, História do Direito,
vol. I, Lisboa, 1985, p. 192 e 3.ª edição, revista e actualizada, p. 274. (este autor faz também um apanhado
de autores para cada uma das hipóteses).
Em prol da 2.ª hipótese, que atribui o livro I a João Mendes, cfr. FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, Tomo

93
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Mas este realce, à partida, parece não constituir qualquer problema, uma vez que
são também dois os compiladores identificados no prólogo do livro I das Afonsinas –
João Mendes e Rui Fernandes. Se são dois os estilos redactoriais e dois os compiladores
da colecção, tudo leva a crer que um tenha elaborado o livro I e o outro os restantes
quatro, ou seja, a diferença de estilo redactorial do livro I teria sido ditada pelo simples
facto de ter sido redigido por um executor diferente. O problema que se coloca é o
de saber qual a parte que efectuou cada um dos núncios régios: foi João Mendes que
redigiu o livro I e Rui Fernandes os livros II, III IV e V? Ou, pelo contrário, teria João
Mendes redigido os livros II, III, IV e V e Rui Fernandes o livro I?
Desde os primeiros autores setecentistas que, seguindo o critério mais lógico da
sucessão cronológica, se tem atribuído o livro I ao copista mais antigo – João Mendes
– e os restantes ao seu sucessor – Rui Fernandes[1]. Esta parece ser a disposição mais
coerente, mas nada obsta a que tenha sido de forma diferente ou até mesmo o contrário.
Aliás, o acreditado Martim de Albuquerque encarregou-se de aduzir argumentos
suficientes que vieram contrariar a visão tradicional da historiografia jurídica[2]. Para este, é
mais provável que o feitor do livro I das Ordenações Afonsinas tenha sido Rui Fernandes
e não João Mendes.
Antes de mais, porque o estilo legislatório ou decretório do livro I se coadunaria
melhor com a mão de um legisperito, Doutor em Direito, como Rui Fernandes; e o
estilo compilatório dos livros II, III, IV e V se harmonizaria antes a um simples prático,
corregedor da corte, como João Mendes:

“Mal se compreende, de facto, que o livro I, redigido essencialmente em estilo legislatório


ou decretório, estilo imperativo, provenha da mão de um simples prático, enquanto os
restantes livros, de teor basicamente traslatício das leis anteriores, de estilo compilatório se
deveriam atribuir ao Doutor em Direito”[3]

Por outro lado, quanto ao tempo que cada um dos comitentes terá expendido
nas Ordenações, “em termos de duração, pelo menos, não será legítimo, sem mais, empolar
excessivamente o papel do Doutor”. Para Albuquerque “João Mendes trabalhou no mínimo
cerca de sete a oito anos nas ordenações e Rui Fernandes no máximo 12 a 13 anos”[4]. Louvando
a cautela científica deste investigador, este argumento pode ganhar mais consistência
se, de acordo com investigações posteriores, avançarmos a morte de João Mendes

I, p. 37; Manuel Paulo MERÊA, Lições, 1925, p. 133; COSTA, “Ordenações”, in Dicionário de História de
Portugal, vol. IV, pp. 442.
Os que não tomam posição definitiva, cfr. CRUZ, História do Direito, p. 383; DUARTE, Justiça e Criminali-
dade, p. 119.
1
Vide a bibliografia mencionada por ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”,
Biblos, vol. LXIX, Coimbra, 1993, p. 167, nota 34. Também Ordenações Afonsinas, Prefacção, p. VIIII; BAR-
ROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 133; e, mais recentemente, HOMEM, O Desembargo Régio,
pp. 346 e 380-382; FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, vol. II, pp. 86 e 137.
2
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, pp. 157-171.
3
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 168. No mesmo sentido, DUARTE,
Justiça e Criminalidade, p. 119, nota 369: “sendo compreensivelmente o estilo legislativo considerado uma
técnica mais evoluída do que o estilo compilatório, entende-se mal que o primeiro tenha sido praticado pelo
magistrado mais antigo, desaparecido por volta de 1434, e ao qual não são conhecidas qualificações acadé-
micas, e o segundo por gente que lhe sucedeu no tempo e onde se incluíam, pelo menos, dois doutores”.
4
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 170. Na reedição em Estudos de
Cultura Portuguesa, vol. 3, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2002, p. 60: “De acordo com os elementos
trazidos à colação pelo Prof. Carvalho Homem, o período de cometimento das Ordenações Afonsinas a
João Mendes aumentaria ainda vários anos”, ajudando a solidificar a sua tese.

94
José Domingues

para uma data muito posterior à de 1433 – “pouco depois de D. Duarte entrar a reinar”[1]
– conforme veremos ao tratar da sua biografia (e, em parte, o próprio Albuquerque
reconhece na reedição do seu trabalho).
Em última observação o autor contrapõe que “o sistema compilatório dos livros II, III, IV
e V das Ordenações Afonsinas, encontra-se em conflito com o método propugnado pelo Infante D.
Pedro”[2]. Por outro lado, o mais lógico parece ser o de primeiro se compilar os diplomas
normativos de reinados anteriores e só, posteriormente, se passar ao estilo imperativo –
seria esta a evolução paradigmática dos acontecimentos e assim o comprova o sistema
redactorial adoptado pelas sucessoras Manuelinas. De qualquer forma, o próprio autor
não reivindica qualquer irrevogabilidade às suas conclusões, prescrevendo um cotejo
profundo das Ordenações de D. Duarte com as Ordenações Afonsinas, mas “Até que seja
efectuado semelhante exame – necessariamente moroso e penoso – nada de definitivo ou de seguro
se poderá adiantar e permanecerá por resolver um largo feixe de dúvidas”[3].
Neste ponto, de forma mais ampla e desenvolvida, Martim de Albuquerque está
em sintonia com Marcello Caetano, que já tinha advogado a Rui Fernandes a autoria do
livro I, onde se traduzem situações posteriores à morte de João Mendes, enquadradas
no reinado de D. Afonso V. Por outro lado, aventa Marcello, o recurso frequente ao
Direito Justinianeu e ao Direito Canónico parece inculcar mão de Doutor[4].
Uma sondagem ao conteúdo desse livro I vem dar firmeza às suspeitas de Caetano
e confirmar as alegações de Albuquerque, que colocam Rui Fernandes como reputado
autor desse livro. Antes de mais referem-se, constantemente, os reis antecessores D.
Pedro, como bisavô, D. João, como avô e D. Duarte, como pai[5] – o que, de pronto,
situa a sua cronologia no reinado de D. Afonso V. Além disso, nesse livro constam três
leis, sem data, mas da autoria do regente na menoridade de D. Afonso V, o infante D.
Pedro[6]; outra do mesmo, feita, na cidade de Coimbra, a 30 de Setembro de 1442[7]; por
sua vez, o regimento do chanceler, meirinho e porteiro das correições das comarcas
foi “feito na nossa mui nobre, e mui leal Cidade de Lixboa a tres dias de Março per
authoridade do Senhor Ifante Dom Pedro Tetor, e Curador do dito Senhor Rei, Regedor, e com
a ajuda de Deos Defensor por el de seus Regnos, e Senhorio. Affonso Vaasques o fez. Anno do
Nacimento de nosso Senhor Jezu Christo de mil e quatrocentos e quarenta e tres annos”[8].
Assim sendo, o livro I – a não ser a eventualidade de as actualizações dos seus
regimentos terem sido feitas por Rui Fernandes sobre os textos do seu antecessor[9] –
nunca poderia ser obra de João Mendes. Comprovada, minimamente, a paternidade de
Rui Fernandes para o livro I torna-se imprescindível apurar, “em que medida o paralelismo
metodológico acabado de registar é susceptível de favorecer uma interpretação da autoria dos
livros II a V das Ordenações por João Mendes?”[10]. Ou seja, será que a coincidência entre os
dois compiladores e os dois estilos redactoriais diferentes – aliada a uma intensa penúria

1
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 168.
2
Idem, p. 170.
3
Idem, pp. 170-171.
4
CAETANO, História do Direito, p. 541.
5
Cfr. Ordenações Afonsinas, Liv. I, tít, 13; tít. 25; tít. 31, § 2; tít. 48; tít. 49; tít. 54, §20.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 4, §§ 2-5 e 6-17; tít. 31, §§ 1 e 2. O § 3 deste último título insere-se, também,
no período de regência do infante D. Pedro: “E porque poderá acontecer, que despois que com a graça de Deos
viermos a tal hidade, que bem possamos aver o Regimento de Nossos Regnos…”.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. I, tít. 50.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. I, tít. 72.
9
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 168.
10
Idem, p. 170.

95
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

documental (o proémio do livro I contínua a ser o único subsídio documental imediato


sobre a tarefa compilatória das Afonsinas) –, que tem induzido todos os investigadores
a dividir esta colectânea legislativa em duas fases, permitirá adjudicar a João Mendes os
livros II a V das Afonsinas, tal como ficou adjudicado o livro I a Rui Fernandes?
Esta é a pergunta que Martim de Albuquerque, ao encerrar o seu trabalho, deixa
em aberto[1]; ao contrário de Marcello Caetano, que confina o trabalho de João Mendes à
mera recolha de materiais[2]. A ideia que acaba por prevalecer é a de que Rui Fernandes
tenha elaborado o livro I e João Mendes os restantes quatro[3]. Até o próprio Martim de
Albuquerque, no apenso à reedição do seu estudo, ao contestar a crítica de Espinosa,
parece enveredar por este parecer – pelo menos não contesta os seus seguidores[4]. A
crítica subsequente (ao trabalho de 1993) de Espinosa, por sua vez, continua agarrada
à opinião tradicional:

“Começa, agora, a formar-se uma opinião – contra a tradicional – no sentido de


que há que dar um papel maior a D. Duarte e a João Mendes na feitura das Orde-
nações e, consequentemente, diminuir o do Infante D. Pedro e de Rui Fernandes.
Caminho que, também, já fora ensaiado por M. de Albuquerque.
Temos alguma dúvida quanto à nova tendência. Em primeiro lugar, o facto de –
segundo parece – João Mendes ter trabalhado muitos anos, nas Ordenações, não é prova
de que tenha produzido muito. Diríamos que, um encargo, durante muito tempo, sem
completar a obra cometida, é, antes, presunção de falta de ritmo contínuo, no trabalho
encomendado. E isso mais parece confirmar-se com o próprio contributo de Judite
Gonçalves de Freitas (referido por Carvalho Homem, nota 38) de que João Mendes
foi substituído, ainda em vida, e não por sua morte, como, comummente, se dizia.
Além do mais, o proémio das Ordenações, a respeito do papel decisivo de D. Pedro e de
Rui Fernandes, na feitura e completamento da obra – a não ser verdadeiro – corria o risco
de ser uma inverdade, demasiado vistosa. Cremos, pois, que a anterior e tradicional
opinião se não pode, ainda, considerar ultrapassada.”[5]

Sem tomar posição, já que, neste aspecto, não concordo completamente com nenhum
dos autores supra, terá que reconhecer-se que Martim de Albuquerque (sem esquecer a
incipiente iniciativa de Caetano) divisou, de forma arrazoada e deveras sapiente, uma
alternativa de investigação científica que não pode ser controvertida liminarmente, sem
a apresentação de argumentos sólidos e eficazes. Se me permitem, com toda a reverência
e respeito devido ao conceituado autor, o único “senão” do trabalho de Albuquerque

1
Idem, p. 170.
2
CAETANO, História do Direito, p. 532.
3
Neste sentido, Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Législation et compilation législative au Portugal
du début du XVe siécle: la genése des «Ordonnaces d’Alphonse V». in Saint-Denis et la Royauté. Études
offertes à Bernard Guenée, membre de l’Istitut, ed. Françoise AUTRAND, Claude GAUVARD et Jean-Ma-
rie MOEGLIN, Paris, Publication de la Sorbonne, 1999;
Idem, “Estado Moderno e Legislação Régia: Produção e Compilação Legislativa em Portugal (séculos
XIII‑XV)”. A Génese do Estado Moderno no Portugal Tardo-Medievo, Lisboa, 1999, p 120;
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, 1996.
Alves Dias partilha da mesma convicção, mas coloca a segunda parte do livro I (a partir do título 47º) com
os restantes quatro livros [Cfr. DIAS, Introdução às Ordenações Manuelina, pp. IX e X].
4
Aliás, o seu argumento capital do tempo de trabalho de cada compilador – “em termos cronológico o cor-
regedor haveria trabalhado num espaço temporal mais alargado que o doutor Rui Fernandes ou, à la limite, muito
aproximado” – só faz sentido se adjudicarmos uma parte da obra a cada um deles. [ALBUQUERQUE, “O
Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, Estudos de Cultura Portuguesa, vol. 3, 2002, pp. 58-63)]
5
SILVA, História do Direito, p. 271, nota 1.

96
José Domingues

penso ter sido a adjudicação do livro II a V a João Mendes – talvez por influência
dos autores que deram continuidade ao seu pensamento – sem ter seguido a douta
recomendação com que, ele próprio, tinha terminado o trabalho primitivo[1].
Se o estilo de compilar as ordenações dos reinados anteriores se coaduna com a
tarefa de um prático corregedor da corte, como João Mendes, já as declarações finais
(confirmativas, interpretativas, constitutivas ou modificativas) que encerram cada um
dos títulos, feitas sobretudo em nome de D. Afonso V, não lhe podem ser atribuídas. Os
monarcas antecessores D. Pedro, D. João, e D. Duarte são identificados, respectivamente
como bisavô, avô e pai do monarca coetâneo. Para além disso, também nestes 4 volumes
se disseminaram ordenações dos princípios do reinado de D. Afonso V. No livro II
constam, pelo menos, três ordenações, sem data, deste reinado[2]. No livro III, outra
ordenação sem data[3]. No livro IV, mais duas, também sem data, mas em nome do
Africano[4]. Finalmente, no livro V é onde se concentra o maior número de ordenações
afonsinas, cerca de 14. Doze não estão datadas[5]; a lei sobre os carcereiros a que fogem
os presos por sua culpa e má guarda ou malícia, também não está datada no códice, mas,
através de uma cópia no livro das vereações da Câmara do Porto, é possível apurar a
data de 31 de Janeiro de 1443[6]; e a ordenação com a data mais próxima da conclusão
das Afonsinas (28 de Julho de 1446) está datada de 11 de Janeiro de 1445[7].
Por outro lado – a não enveredarmos por mais interpolações – as remissões para
o livro I não se coadunam com a adjudicação da autoria desse livro a Rui Fernandes
e os restantes a João Mendes. Efectivamente, de qualquer um dos outros livros consta
remissão para o livro I. Logo no livro II se remete para o regimento do corregedor da
corte, no título 5 do livro I[8]; em seguida, do livro III remete-se para dois títulos do
livro I (títulos 35 e 42)[9]; no livro IV consta uma remissão expressa para o título 39 do
livro I[10]; e no livro V remete-se para o título “Dos Alquaides”[11], que é o título 62 do livro
I; ao tratar da proibição de se fazerem coutadas, remete para o regimento do Monteiro
mor[12], que é o título 67 do livro I; o mesmo livro V, remete duas vezes para o regimento
do corregedor da corte[13], que é o título 5 do livro I; e ainda no livro V, remete‑se para

1
“…em que medida o paralelismo metodológico acabado de registar é susceptível de favorecer uma interpretação da
autoria dos livros II a V das Ordenações por João Mendes?”.
2
Ordenações Afonsinas, Livro II, tít.s 37,38 e 40.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. III, tít. 30, §§ 2 e 3.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít.s 28 e 51.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. V, tít.s 22, 23, 25, 26, 38, 39 (repetida no 82), 55, 60, 64, 67, 90, 92 (Estas leis não
estão datas e só a do tít. 67 refere expressamente D. Afonso V, mas penso serem todas leis da regência do
infante D. Pedro)
6
Ordenações Afonsinas, Liv. V, tít. 93, § 2.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. V, tít. 63, §§ 3-5.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 40, § 7, p. 298: “segundo todo esto mais compridamente he contheudo no
Regimento dado ao Corregedor da Corte: o qual Mandamos em todo guardar, assy como em elle he contheudo”.
9
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 95, § 14, p. 361: “assy como per Nós he ordenado no primeiro Livro no
Titulo, Dos Tabaliaens, e Escripvaens, do que hão de levar de seu solairo, e no Titulo, Do que hão de levar os Tabalia-
ens, e Escripvaens, e Enqueredores por seu trabalho, quando forem fora do Luguar”
10
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, tít. 90, § 5, p. 339: “mandamos que se guarde o que já avemos sobre ello hordenado no
Titulo, Do que ham de levar os Tabelliaaens, e Escripvaaens das buscas dos feitos, e escripturas, em o livro primeiro”.
11
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 19, § 18, p. 66: “segundo he conthéudo no Titulo Dos Alquaides”.
12
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 46, § 4, p. 166.
13
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 56, § 12, p. 208.
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 88, § 2, p. 331.

97
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

o título dos corregedores das comarcas[1], especificando-se, noutra remissão, que consta
no “primeiro Livro da reformaçom das Hordenaçoões”[2], precisamente no título 23. Se
considerarmos João Mendes o autor destes livros (Liv.s II-V), é óbvio que ele nunca
poderia remeter para um livro inexistente (Liv. I), redigido após a sua morte.
Assim sendo, também nestes 4 volumes lateja a potestade de Rui Fernandes,
ficando cada vez mais justificada a sua auto-intimação como principal autor da
compilação, chamando a si a responsabilidade dos defeitos e, tacitamente, os louros
dos acertos[3], conforme deixou expresso antes do LAUS TIBI SIT CHRISTE, QUUM
LIBER EXPLICIT ISTE:

“Foi acabada esta obra em a Villa da Arruda aos vinte outo dias do mez de Julho,
Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e
quarenta e seis annos, per o Doutor Ruy Fernandes … E se aos Sabedores a dita obra
nom parecer assy bem e estudiosamente pensada e composta, como a tam alto
feito e de tam grande substancia requeria, culpem e reprendam o dito Doutor, que
della foi compilador e principal obrador”[4]

Se concluirmos que o Doutor Rui Fernandes preparou ou, pelo menos, ultimou os
5 livros das Ordenações Afonsinas, continuamos sem uma fundamentação satisfatória
para a diferença de estilo redactorial do livro I. Se bem que menos difundida, a outra
conjectura aduzida de se tratarem de regimentos novos, preparados por D. Afonso V,
angariou alguns simpatizantes[5].
A maioria desses regimentos não se encontra datada, de qualquer forma, uma
exegese perspicaz permite retroceder alguns a reinados anteriores a D. Afonso V –
para não falar do regimento da guerra, que analisaremos em título apartado. Já Gama
Barros salientou que os títulos 25, 31, 48 e 49 eram de reinados precedentes[6]. Para além
desses, também o regimento do meirinho, que anda na corte em logo do meirinho mor[7],
foi elaborado em Évora, a 26 de Maio de 1421 – é essa a data que consta no traslado

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 76, § 3, p. 291.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 100, § 6, p. 358.
3
Cfr. CAETANO, História do Direito, p. 532.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, § 31.
5
SILVA, História do Direito, Vol. I, p. 192. (3.ª edição, 2001, p. 274): “Para explicar este facto, tem-se sugerido
que o Livro I seria, ainda, da autoria de João Mendes, enquanto os restantes seriam devidos a Rui Fernandes; ou que
a diferença de estilo se justificaria pela razão de o Livro I versar matéria, antes não contemplada em fontes nacionais,
contrariamente ao que sucede com os livros seguintes. Julgamos ser esta última razão, por si só, suficiente para ex-
plicar a diferença de estilo, o que não quer dizer que a conjectura de João Mendes ser o autor do Livro I se não possa,
igualmente, ter verificado. Mas, de momento, é simples conjectura.”
Torna-se problemático o entendimento cabal da tese deste autor. Ao tratar das Afonsinas não pode alhear-
se à controvérsia de que um compilador tenha organizado o livro I e o outro os restantes quatro, mas acaba
por não tomar uma posição decisiva e manifesta. Por um lado [p. 271, n. 1], contesta a opinião de Martim
de Albuquerque (seguida por Carvalho Homem), que atribui a feitura do livro I a Rui Fernandes e o livro II
a V a João Mendes, acreditando “que a anterior e tradicional opinião se não pode, ainda, considerar ultrapassada”.
Por outro lado, ao defender que o livro I versa matéria não contemplada nas fontes nacionais (por isso inédita
do reinado de D. Afonso V, ao tempo em que o corregedor já estava morto ou, pelo menos, revezado) é for-
çado a colocar a conjectura de João Mendes ser o autor do livro I como simples conjectura. Afinal, para contestar
Albuquerque, o autor do livro I é João Mendes e não Rui Fernandes, mas para explicar a diferença redacto-
rial desse mesmo livro a autoria de João Mendes é simples conjectura. Então, se não é Rui Fernandes nem
João Mendes, quem é o autor do livro I?
6
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 71 (1.ª edição):
7
Ordenações Afonsinas, Livro I, Tít. 11.

98
José Domingues

das Ordenações de D. Duarte[1]; no regimento dos procuradores, refere-se expressamente


que “Mandámos perante Nós vir as Ordenaçoões sobre esto feitas pelos Reyx Dom Doniz, e
Dom Affonso, e Dom Pedro meos Visavoos, e Dom Joaõ meu Avoo, e d’El Rey meu Senhor, e
Padre”[2]; no regimento do corregedor da corte alude-se a uma “Ordenaçom antigua”,
que impele a um regimento antecedente; e, disseminados no meio desses regimentos,
encontram-se traslados de capítulos de Cortes de reinados antecedentes[3].
O regimento dos tabeliães (título 47) parece ser anterior a 1422, uma vez que no
parágrafo quarto (§ 4) ficou consignado que “os ditos taballiaães nas ditas escripturas,
que assy fezerem, ponhaõ sempre o dia, e mez, e era, e a Cidade, ou Villa, ou Luguar,
honde as houverem de fazer”. Como é sobejamente sabido, a ordenação joanina de
14 de Agosto de 1422 manda “a todolos Taballiãaes e Escripvãaes do seu Regno e
Senhorio, que daqui em diante em todolos contrautos e escripturas, que fezerem,
ponham Anno do Nacimento de Nosso Senhor Jesu Christo, assi como ante soyam a poer Era de
Cesar”[4]. Advirta-se que este argumento não é conclusivo, pois a palavra era continuou
a ser utilizada, mesmo para o ano do nascimento.
Mas o caso mais paradigmático é, sem dúvida, o do regimento dos corregedores
das comarcas. Afortunadamente, chegaram aos nossos dias quatro regimentos avulsos
destes magistrados régios itinerantes: dois do reinado de D. Afonso IV (1332 e 1340)
[5]
, outro do reinado de D. Pedro I (c. 1361)[6] e outro do reinado de D. João I, mas
outorgado pelo infante D. Duarte[7] (1418). Para além disso, nas Ordenações de D. Duarte
ficou registado o regimento de 1340[8].
Um cotejo deste regimento das Afonsinas com os outros regimentos, revela que,
salvo alguma correcção ortográfica ou alteração de menor importância – como por
exemplo a substituição de um moço de sete anos pelo homem simples, que devia tirar os
pelouros no dia de eleições concelhias –, a reforma operada pelos compiladores qua-
trocentistas traduz-se na junção do regimento de 1361 (que englobava os de 1332 e o
de 1340) com o de 1418, excluindo alguns parágrafos deste último – os relativos aos
coudéis, juízes dos órfãos, escrivães da Câmara, procuradores do número, tabeliães e
inquiridores – transitando outros para os títulos respectivos – os dos juízes, vereadores
e almotacés – e acrescentando muito pouco, ou mesmo nada.
Posto isto, tudo leva a crer que a diferença redactorial do livro I, em relação aos
restantes quatro, não é tão cavada como à partida poderia parecer: em todos existem
leis do reinado de D. Afonso V e também no livro I foram compiladas leis de reinados
anteriores, apenas omitindo os monarcas e as datas da sua feitura. De qualquer forma, os
regimentos do livro I são concertados de forma distinta, mas parece que essa diferença tem
mais a ver com a matéria tratada do que, propriamente, com a diferença de punho compilador ou
a originalidade de Afonso V. Repare-se que o livro I é dos mais volumosos e, por outro lado,
só tinha interesse coligir-se o que estava em vigor, por isso, evitam-se os emaranhados e
as repetições fastidiosas, consequentemente, também os monarcas e as datas.

1
Ordenações de D. Duarte, pp. 640-642.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 13, princípio.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 23, §§ 6 e 7 (Cortes de Elvas 1361); Tít. 30, § 17 (Cortes de Santarém 1331).
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 66, § 1, pp. 233-234.
5
Marcello CAETANO, A Administração municipal de Lisboa durante a 1.ª dinastia (1179-1383), Lisboa, Acade-
mia Portuguesa de História, Lisboa, 2.ª edição, 1981, doc. 12 e 13, pp. 151-174.
6
RIBEIRO, Dissertações Chronologicas e Criticas, Tomo III, Parte 2, pp. 97-117.
7
Eduardo Freire de OLIVEIRA, Elementos para a Historia do Município de Lisboa, 1.ª Parte, tomo II, Lisboa,
Typographia Universal, 1855, pp. 29-38.
8
Ordenações de D. Duarte, pp. 502-518.

99
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Continuando com o exemplo do regimento dos corregedores das comarcas, uma


compilação integral por reinados obrigaria a acrescentar, aos seus longos setenta e um
parágrafos, pelo menos, dezanove parágrafos do regimento de 1332 e vinte e oito do de
1340, o que daria um acrescento de cerca de quarenta e sete parágrafos, ou seja, cerca
de 66% (dois terços). Isto só para referir os que efectivamente se repetem, tornando a
obra demasiado volumosa, mas, sobretudo, repetitiva em excesso, dificultando o seu
manuseamento.
Uma conjuntura confirmativa, embora nos faltem os substratos documentais, é a
do certificado costume de recensear os besteiros do conto, que já vinha do reinado de
D. Dinis. No privilégio aos besteiros de Guimarães, de 12 de Junho de 1322, o monarca
mandava aos “que quiserem seer do conto” que fossem “scriptos per huu tabaliom da
dicta villa e perante o seu anadal”[1], o que leva a acreditar numa ordenação instituidora
dos besteiros do conto, mesmo antes desta data[2]. A actualização destes efectivos,
sobretudo em épocas conturbadas de guerra, permite prever sucessivas contagens,
que entretanto se perderam no tempo. Mas de algumas ficaram breves referências
documentais: nas Cortes do Porto, de 1372, perante as queixas do povo, o monarca
mandou ao anadel dos besteiros que visse a ordenação que por ele tinha sido feita e
a guardasse como em ela era conteúdo[3]; Fernão Lopes também refere o apuramento
deste monarca – “mandou por todo seu rreino fazer apuraçoões de todollos moradores em
elle e mudar as armas que d’ante tinham per outra nova maneira”[4]. Mas para as Afonsinas
só transitou o apuramento mais recente, que D. João I tinha mandado fazer a Vasco
Fernandes e João de Basto, datado de 12 de Agosto de 1422[5], deixando no olvido o de
monarcas anteriores, nomeadamente o de D. Dinis e D. Fernando.
Outro caso paradigmático é, sem dúvida, o das taxas a cobrar pelos tabeliães e
escrivães[6]. Aos nossos dias chegaram tabelas de emolumentos do recuado ano de
1305. Nas Cortes de Lisboa de 1371 faz-se referência à ordenação de D. Fernando que
estabelece o preço que os escrivães deviam levar das cartas que fazem[7]. É também
conhecida a que saiu das Cortes de 1433 e outra, sem data, mas, provavelmente, do
ano de 1440[8]. No entanto, a das Afonsinas é diferente de qualquer uma delas. Não
seria de admirar que se aproveitasse a sistematização desta colectânea para reformar
os valores cobrados pelos tabeliães e escrivães, mas, acima de tudo, seria um completo
absurdo coligir todas as tábuas, desde o início do século XIV.
Só para terminar, o título 13 do livro I, conforme ficou exarado no seu início, é,
categoricamente, o resultado da análise e conciliação das diversas ordenações dos rei-
nados antecedentes, sobre procuradores:

1
Maria da Conceição Falcão FERREIRA, “Os besteiros do conto de Guimarães na centúria de trezentos”,
sep. do vol. III da Revista de Ciências Históricas, Universidade Portucalense, Porto, 1988, p. 204.
2
Mário Jorge BARROCA, “Da Reconquista a D. Dinis”, Nova História Militar de Portugal, Direcção de Ma-
nuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, Círculo de Leitores, 2003, p. 93.
3
Cortes Portuguesas. Reinado de D. Fernando I (1367-1383), INIC, Centro de Estudos Históricos da Universi-
dade Nova de Lisboa, Lisboa, 1990, vol. I (1367-1380), p. 89, art.º 8º.
4
Fernão LOPES, Crónica de D. Fernando, cap. LXXXVII, p. 303.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 69.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít.s 35 e 36.
7
Cortes Portuguesas. Reinado de D. Fernando I, p. 61, art.º 96º.
8
IAN/TT – Chancelaria de D. Duarte, Livro 2, fls. 26 e 26v. (o documento não tem data, mas deve ser de
1440, pois o documento anterior está datado de 30 de Março de 1440 e o documento que se segue está da-
tado de 12 de Dezembro de 1440)
Isaias da Rosa PEREIRA, “O tabelionado em Portugal”, in Actas de VII Congreso Internacional de Diplomática
– Notariado público y documento privado: de los orígines al siglo XIV –, Valencia, 1986, pp. 663-664.

100
José Domingues

“Primeiro que acerca dos Procuradores ouvessemos hordenado, Mandámos


perante Nós vir as Ordenaçoões sobre esto feitas pelos Reyx Dom Doniz, e Dom Affonso,
e Dom Pedro meos Visavoos, e Dom Joaõ meu Avoo, e d’ElRey meu Senhor, e Padre, cuja
alma Deos aja em a sua Santa Gloria; e pero que nos parecessem antre sy em alguã
parte diversas, e contrarias, Acordámos de as trazer a boa concordia de curta, e
breve conclusom em esta forma, que se segue”[1]

Este começo é ilustrativo de parte do método compilatório adoptado neste livro


I: coligem-se as ordenações dos monarcas passados, sobre um determinado tema, e,
perante a futilidade da transcrição literal, opta-se por uma nova ordenação, excluindo
tudo o que está desactualizado e acrescentando-lhe o que for pertinente. Mas a base de
partida continuam a ser as ordenações antigas (tal como nos restantes livros), ficando
bem claro que não se trata de punho compilador diferente ou de regimento totalmente novo
– apesar de este título resultar numa ordenação nova ou renovada – apenas de um
método diferente, face à especificidade da matéria e à prolixidade das ordenações[2].
São exemplos concretos do âmbito de Direito Público, onde se transcreve apenas o
mais recente que está em vigor – reformando-o se necessário – que tornam esclarece-
dor e vêm dar ênfase ao que acima ficou justado quanto ao estilo redactorial do livro
I das Afonsinas, que pretende evitar repetições fastidiosas e volumosas. Infelizmente,
o desconhecimento das datas ou da existência de regimentos idênticos para outros
ofícios regulamentados não permite alargar esta metodologia, por isso aqui fica mais
uma proposta alicerçada no pantanoso século de quatrocentos, aguardando novos
subsídios documentais.
Antes de prosseguir, o próprio Fernandes, de forma imperceptível, parece admitir
e justificar esta divergência de estilo redactorial ao referir que:

“No primeiro livro fallamos dos Officiaaes da nossa Corte, que per Nos teem carrego
de ministrar direito, e justiça, e d’alguus outros, que aa governança do Regno
perteencem. Agora no segundo livro, e d’hi en diante entendemos fallar, e trauctar das
Leyx, e Hordenaçõoes, per que se os Regnos governem, e os ditos Officiaaes ajam de
reger por boa eixecuçom dellas.”[3]

Ou seja, o próprio compilador reconhece a diferença de matéria tratada no livro


I em relação aos restantes quatro: o livro I é dedicado aos regimentos dos oficiais de
justiça e governança do reino e os restantes quatro às leis e ordenações a aplicar, pelos
ditos oficiais, no reino.
Atribuída a feitura dos cinco livros a Rui Fernandes[4], justificada e esbatida a
diferença de estilo redactorial, uma pergunta lateja, cada vez mais, no espírito mais

1
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 13, p. 84.
2
Mas os regimentos do livro I não são singulares, repare-se no título 128 do livro III, que, se não é um caso
análogo, é muito similar: “E por tanto querendo Nos a esto prover com Justiça, como cabe a todo bõo Rey,
que direitamente quer manter, e consirando como os Reys, que ante Nós forão, especialmente os Rex Dom
Diniz, e Dom Affonso, e Dom Pedro, e Dom Fernando fezerão acerqua deste passo muitas Leys, e Artigos
jeraees confirmados em Cortes, os quaees sendo aqui emcorporados, seria grande proluxidade, e ainda
sem muito proveito, por serem em sy desvairos, e contrarios huns aos outros; e por esto Ordenamos de
fazer huuma nova Ley” [Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 128, § 1, p. 460].
3
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Início, p. 1.
4
Aliás, corroborada pelas palavras do coetâneo Rui de Pina, “ElRey Dom Affonso seu filho as mandou depois
reformar em cinco Livros” [PINA, Chronica do Senhor Rey D. Duarte, cap. VII]. Ou seja, a divisão em 5 livros
só surge no reinado de D. Afonso V.

101
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

solícito: então, e o distinto corregedor da corte? O que sobeja para o trabalho de João
Mendes? Será que, tal como asseverou Marcello Caetano, se limitou a “coligir materiais
(nas Ordenações de D. Duarte?), cabendo a Rui Fernandes o trabalho de os sistematizar em
livros e títulos, completando a compilação e preenchendo os vazios dela”[1]? Talvez, mas antes
vejamos a sua biografia e dos outros compiladores das Afonsinas.

4. Os Compiladores
Começaria este apartado por dois pretensos compiladores das Afonsinas. O
primeiro, Diogo Afonso Mangacha, que só encontro referido no artigo As “Ordenações
de D. Duarte”[2] e não encontro qualquer justificativo para entrar nesta plêiade, ficando,
por isso, liminarmente arredado deste título. O outro suposto compilador do direito
pátrio, que já foi afastado desta plêiade no fecho do século XVIII[3], é o Doutor João
das Regras. Mas este merece uma análise mais séria e meticulosa, uma vez que a
historiografia recente tem vindo, cada vez mais, a dar crédito ao mito erigido por
Duarte Nunes de Leão.
A síntese deste mito, quase pentasecular, em torno da tradução em língua vulgar
do Código de Justiniano, com as glosas de Acúrcio e Bartolo, da lavra do Doutor João das
Regras, está irrepreensivelmente traçada por Guilherme Braga da Cruz, que dá conta
da bibliografia de Duarte Nunes de Leão, dos seus seguidores e do seu primordial con-
testatário, José Anastácio de Figueiredo. Para lá se remete os interessados.
Apenso ao mito de Duarte Nunes de Leão, surge outro, menos badalado –
praticamente esquecido –, mas de maior relevância para este estudo, que imputa ao
Doutor João das Regras o primeiro código de leis pátrias. O primeiro autor a alvitrar
esta hipótese parece ter sido Barbosa Machado, que na sua Biblioteca Lusitana, na
entrada de Ioão d’Aregas, deixou expresso:

“ordenou em hum volume as Leis deste Reino que andavão dispersas, e lhes juntou as Leis
do Codigo do Emperador Justiniano com interpretações de Bartolo, e Acursio”[4]

Na senda deste testemunho, os Estatutos Pombalinos da Universidade de Coimbra,


de 1772, ordenam o estudo da colectânea do tempo de D. João I, da autoria do Doutor
João das Regras:

“Ensinará o que mais se ajustar à verdade sobre a Ordenação, que se attribuio ao


Senhor Rei Dom João o I, de que se dá por Author o Doutor João das Regras”[5].

1
CAETANO, História do Direito, p. 532.
2
GIRARD, “As Ordenações de D. Duarte”, p.18.
3
José Anastácio de FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Jus-
tiniano em Portugal, o modo da sua introducção, e os grãos de authoridade, que entre nós adquirio. Por
cuja occasião se trata toda a importante materia da Ord. liv. 3 tit. 64”, in Memorias de Litteratura Portugueza,
publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo I, Lisboa, 1792, pp. 291 e ss..
4
Diogo Barbosa MACHADO, Biblioteca Lusitana, na Officina de António Gomes, Lisboa, vol. II, 1747, s. v.
“Ioão d’Aregas”.
5
Estatutos da Universidade de Coimbra do Anno de MDCCLXXII. Lisboa, na Regia Officina typographica,
1773, Livro II (que contém os cursos Juridicos das Faculdades de Canones e de Leis), Título 3, Cap. 9, § 4,
pp. 160 e 161.

102
José Domingues

Também os autores do Demétrio Moderno ou Bibliógrafo Jurídico Português o


enunciam entre os monumentos antigos de legislação portuguesa:

“Todas as Leis, Alvarás, Edictos, Decretos, e Cartas Regias de todos os Senhores


Reys, que succederão ao Senhor D. Affonso II até o Senhor D. João I, no Reynado
do qual no anno de 1425 compoz, e ordenou o Doutor João das Regras em hum volume
todas as Leis deste Reyno, que andavão dispersas, e disseminadas”[1]

Era esta a tradição arreigada no século XVIII, antes do imediato aparecimento do


livro I das Afonsinas, porque a partir de então os únicos compiladores das leis pátrias
passam a ser, inevitavelmente, João Mendes e Rui Fernandes, ficando afastado, em
definitivo, João das Regras. Imediatamente e em simultâneo com a conjectura da tra-
dução, também esta ficou exposta no pelourinho da censura afilada de Anastácio de
Figueiredo, que acusa o abade Diogo Barbosa Machado e seus seguidores de, para
além do apoio na proposta errónea de Leão, dela se terem apartado em manifesto erro,
tirando conclusões precipitadas, que se não podiam deduzir das palavras do dito juris-
consulto quinhentista:

“não merecem attenção alguma, e até com manifesto erro se apartarão do unico apoio,
que podião ter, quando o podesse ser: pois dizem, que João das Regras ordenara e
fizera os Códigos, quando Duarte Nunes tal não chegou a dizer, nem do que dice se podia
deduzir. De hum e outro lugar, acima copiados no § antecedente, se mostra, que
elle não diz senão, que o dito Senhor Rei, além de muitas Leis que fizera, ordenou
e instituio hum Livro em Lingua Portuguesa, em que se ajuntassem as Leis do
Codigo de Justiniano mais practicaveis neste Reino, com algumas declarações, ou
interpretações de Acursio, e Bartholo sobre ellas”[2]

Desde sentença tão convicta, aliada ao evidente testemunho do proémio do livro


I, ninguém mais se atreveu sequer a recordar as palavras de Barbosa Machado[3], a
não ser para repisar o raciocínio de Anastácio de Figueiredo[4]. Estará esta pendência
definitivamente encerrada? Se o mito da tradução acabou por ser certificado, não
merecerá o mito da compilação outro cuidado? Será que a conjectura do abade Barbosa

1
António Barnabé de Elescano Barreto ARAGÃO e Lino da Silva GODINHO, Demétrio Moderno, ou o Biblio-
grafo Jurídico Portuguez, na Officina de Lino da Silva Godinho, Lisboa, 1781, p. 41.
2
FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Justiniano em Portu-
gal”, p. 297.
3
Excepto o articulista da Enciclopédia Luso Brasileira: “Graças a João das Regras começou o nosso direito
a estabilizar-se pela compilação das leis dos anteriores reinados, coordenadas e emendadas sob inspiração
do direito romano”.
4
Candido Mendes de ALMEIDA, Codigo Philippino ou Ordenações de Leis do Reino de Portugal recopi-
ladas por mandado d’el-rey D. Philippe I, Rio de Janeiro, 1870, p. XX. [edição «fac-simile» feita pela Fun-
dação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985, com Nota de Apresentação de Mário Júlio de Almeida COSTA]:
“Diz-se que a lembrança desse Codigo foi toda de João das Regras, então Chanceller-mór do Reino, com
extrema preponderancia nos Conselhos do Rey. Com esse proposito, assegura-se, que o eminente Juriscon-
sulto publicára uma traducção em lingua vulgar do Corpus Iuris com as glossas de Accursio e de Bartholo,
o qual, com o Direito Canonico, foi preferido ao do Codigo ou Leis das Partidas.
Essa traducção, cuja existencia aliás alguns contestão, e outras obras que já havião, forão preparos para a
organisação do Codigo denominado Affonsino, por haver sido publicado no reinado de D. Affonso V.
Diz-se que a Nobresa e a Burguesia reunidas em Côrtes o reclamárão com instancia, maxime o terceiro
Estado, onde os Juristas abundavão. Infelismente João das Regras, fallecendo em 1404, não pôde levar a
effeito o intento, que outros executarão com mais fortuna...”

103
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Machado foi totalmente gratuita, conforme aventou Anastácio de Figueiredo? Ou será


que, à semelhança do aventado por Duarte Nunes de Leão, existiria algum substrato
documental que desconhecemos?
São perguntas para as quais não consigo resposta satisfatória, uma vez que, entre
a vasta documentação consultada, não encontrei a ínfima alusão escrita que, directa ou
indirectamente, pudesse ligar o acreditado jurisperito, João das Regras, à compilação
das ordenações. Mas será motivo suficiente para o desacreditar? Bastará a ausência no
proémio do livro I para o refutar?
Talvez sejam demasiadas perguntas para quem possui tão poucas respostas, mas,
por outro lado, o avanço científico depende tanto das primeiras como das segundas.
Por isso, ao contrário do que seria de esperar, escusando-me de uma resposta estribada
em sólidos argumentos escritos, fica aqui, de novo, lançada a justa. Tudo porque não
deixa de ser demasiado intrigante e assaz significativo que no ano de 1391, pelo menos,
já existissem Livros de Ordenações, como ficou exarado no título supra. Concluindo,
apesar de não restar qualquer dúvida que no ano de 1425 João das Regras já tinha
morrido, tudo leva a crer que a tradução do Código de Justiniano, com as glosas de
Acúrcio e Bartolo, foi feita sob a sua chancela. Mas ainda mais relevante para o nosso
caso parece ser que muito antes da sua morte [1404] e, sobretudo, ainda antes de João
Mendes chegar à corregedoria da corte [1402], já existissem Livros de Ordenações a
vigorar no reino de Portugal.
Por outras palavras, se em 1391, no apogeu da carreira do Doutor João das Regras
e muito antes de João Mendes ter chegado à correição da corte, o monarca se serve de
um determinado “livro da nosa Chancelaria da Cassa Ciivell em no qual eram escriptas as
hordenaçoens dos nossos Reignos”[1], parece que, neste aspecto, a tradição e os autores
setecentistas, há muito tempo impugnados, terão que ser reconsiderados e levados mais
a sério. No âmbito da compilação das ordenações muito pouco ficou, manifestamente,
registado nas fontes documentais – se, hipoteticamente, omitíssemos o proémio do livro
I ter-se-ia perdido, também, o rasto total do compilador João Mendes. Pensando bem,
até é compreensível que o proémio do livro I refira apenas o nome dos delegados para
o processo compilatório das Afonsinas.
Um juízo plausível que ainda não vi proposto é o de o ano de 1425 estar pela
era de César, como tantas e tantas vezes tem acontecido, até porque Duarte Nunes
de Leão, segundo José Anastácio de Figueiredo, usou sempre do ano do nascimento
de Jesus Cristo[2]. Ou seja, se Duarte Nunes de Leão utilizou documentação da era
de César sem a respectiva conversão para o ano de Cristo, então a data de 1425, que
refere, corresponde ao ano de 1387. Desta forma, evaporam-se quaisquer dúvidas que
tenha sido João das Regras, falecido em 1404, o tradutor do Código de Justiniano. Por
outro lado, sabendo de antemão que a compilação das ordenações foi requerida, em
Cortes, a D. João I, parece bem provável que João das Regras tenha o seu quinhão
nessa obra, aceitavelmente reclamada nas Cortes de Coimbra de 1385 (sob a égide da
aversão a Castela e às suas compilações legislativas) e pronta a utilizar, senão antes,
pelo menos no ano de 1391.
Desde o afastamento de João das Regras que o corregedor da corte, João Mendes,
se notabilizou, até à hodiernidade, como o primeiro compilador das Ordenações

1
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, Lisboa, 1958, p. 53.
2
FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Justiniano em Portu-
gal”, p. 293.

104
José Domingues

Afonsinas. O seu nome ficou, documentalmente, indissociável da tarefa compilatória


da colectânea de legislação pátria, a partir do proémio do livro I das Afonsinas:

“… ElRey Dom Joham … cometteo a reformaçom, e compilaçom dellas a Johãne


Mendes Cavalleiro, e Corregedor em a sua Corte, e nom forõ acabadas em seus dias
por alguuns empachos, que se seguirom.
E depois de seu falecimento regnou o Mui Alto, e Mui Virtuoso Princepy ElRey
Dom Eduarte seu filho de semelhante memoria, o qual encomendou a dita Obra
ao dito Corregedor, que continuasse em ella, assi como fazia em tempo d’ElRey
seu Padre, sentindo-o por serviço de Deos, e seu, e bem de seus Regnos; e porque
se o dito Corregedor logo finou a poucos dias, nom as pôde acabar, e por tanto o
dito Senhor Rey as encomendou ao Doutor Ruy Fernandes”[1]

Se, por um lado, não deixa qualquer dúvida quanto à sua participação, por outro
lado, a laconicidade desta isolada referência documental não clarifica em nada o
desempenho deste jurisperito de quatrocentos. Por isso, tudo o que se avançou ou
se venha a avançar, nesse sentido, não passam de meras suposições, susceptíveis
de ulterior confirmação ou revogação. Se para uns, João Mendes se limitou a coligir
informações disseminadas para as Afonsinas[2], nomeadamente nas Ordenações de D.
Duarte[3] ou nestas e no Livro de Leis e Posturas[4]; outros, por unanimidade, adjudicam-lhe
a execução do livro I das Afonsinas[5]; havendo ainda quem tenha aventado que deixou
acabado o livro I e parte do II, “sendo tambem natural, e provavel, que o mais dos primeiros
annos gastaria em juntar os materiaes, e doutrinas, que depois passasse a ordenar conforme
os titulos, e materias, a que pertencessem, como quasi sempre, e ajustadamente costuma ou
deve acontecer”[6]; e até quem exagere, considerando que o Doutor Rui Fernandes, com
Lopo Vasques, corregedor de Lisboa, e os desembargadores Luís Martins e Fernão
Rodrigues se limitaram à revisão do trabalho de João Mendes[7].
João Mendes de Góis (assim aparece em alguns documentos e genealogias) “é um
dos funcionários de carreira mais duradoura”, assevera Carvalho Homem, com um total de
73 cartas inventariadas e um múnus de mais de 30 anos (1402-1433)[8]. Não há qualquer
dúvida que já era corregedor da corte no ano de 1402[9]. A 9 de Fevereiro, desse ano,
em Montemor-o-Novo, publica uma lei de D. João I para que os aforamentos se não
façam por ouro, nem prata, mas pela moeda geral corrente no reino[10]. No início do

1
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.
2
Marcello Caetano.
3
João Pedro Ribeiro.
4
Alexandre Herculano.
5
Cfr. ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, Estudos de Cultura Portuguesa,
2002, p. 54, nota 34.
6
FIGUEIREDO, “Memoria sobre qual foi a época certa da introdução do Direito de Justiniano em Portu-
gal”, p. 299.
7
Relação dos Jurisconsultos Portuguezes que florescerão em Portugal desde quando começou a codificar-
se a legislação patria até a epocha da independencia do Brazil, in Auxiliar Jurídico apêndice às Ordenações
Filipinas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985, vol. II, p. 771 («fac-simile» da edição feita por Can-
dido Mendes de Almeida, Rio de Janeiro, 1870).
8
HOMEM, O Desembargo Régio, p. 346 e notas de pp. 442 e 443.
9
CAETANO, História do Direito, p. 531, nota 3.
HOMEM, O Desembargo Régio, p. 346.
10
Ordenações Afonsinas, Livro IV, Título 2, § 11, p. 37.

105
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

mês seguinte (dia 6), em Évora, promulga a ordenação sobre as armas dos judeus[1]. No
dia 3 de Maio, em Lisboa, El-rei mandou-lhe publicar a lei de como o arrabi mor dos
judeus e os outros arrabis devem de usar de suas jurisdições[2].
Maior controvérsia pode suscitar a data apontada para a cessação de funções
ou para a sua morte – que é da máxima conveniência para entender o processo de
compilação das Afonsinas. Guiados pela afirmativa do proémio do livro I das Afonsinas –
“e porque se o dito Corregedor logo finou a poucos dias, nom as pode acabar” – durante muito
tempo pensou-se que João Mendes teria morrido no início do reinado de D. Duarte,
muito provavelmente, ainda no ano de 1433[3]. O primeiro investigador a deparar-se
com um documento posterior (de 2 de Maio de 1434)[4] deve ter sido Carvalho Homem,
no entanto, manteve que “transitando de reinado (…) pouco mais, contudo, terá vivido”,
continuando a apontar a data de 1433 como o fim da sua carreira[5]. Luís Miguel Duarte
chega a alvitrar que a anotação no fólio 251v das Ordenações de D. Duarte – “deus ssit
beneditus. a 24 de setenbro 1436” – fosse a data do falecimento de João Mendes[6], mas
sem qualquer comprovativo e até parece pouco seguro ao afirmar, na página seguinte,
que tinha morrido pouco depois da subida ao trono de D. Duarte (na pág. 94 deixara
consignado que João Mendes morreu em 1433) e mais à frente, desaparecido por volta de
1434[7]. Por sua vez, Judite de Freitas, não hesita e vai mais longe, colocando a carreira
deste magistrado entre os anos de 1402 e 1437[8] e a sua morte em 1440. Neste ano de 37,
a 15 de Dezembro, João Mendes teria promovido ao ofício de escrivão de corregedor da
corte o seu sobrinho Martins Afonso. Para além de que, bastante longe da suposta data
apontada para a sua morte (1433), segundo apurou a autora, teria subscrito dezoito
cartas em 1434, doze em 1435 e duas em 1437[9].
Perante tão avultados dados, carreados por Judite de Freitas, ficou liminarmente
revogada a tese de que João Mendes teria falecido nos primeiros anos do reinado de D.
Duarte. O eco, em trabalhos do âmbito, não se fez esperar. Carvalho Homem apadrinha,
cabalmente, as achegas de Judite de Freitas, concluindo que a sua substituição por Rui
Fernandes se não deveu à sua morte, mas antes à velhice e reforma (parcial?)[10]. É
óbvio que o conselheiro desta derradeira cautela foram o proémio das Afonsinas[11] e o

1
Ordenações Afonsinas, Livro II, Título 75, § 3, p. 453. (Nesta ordenação parece o seu nome completo, João
Mendes de Góis)
2
Ordenações Afonsinas, Livro II, Título 81, § 37, p. 491.
3
CAETANO, História do Direito, p. 541.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 39, pp. 290-292.
5
HOMEM, O Desembargo Régio, p. 346.
6
Eduardo Borges Nunes, na “Nota Prévia de Codicologia e Textologia” às Ordenações de D. Duarte, p. XXIX,
entende antes que a anotação foi lançada por “um dos copistas, em fim de tarefa, cansado, grato a Deus e um
pouco orgulhoso”.
7
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 113, 114 e 119, respectivamente.
8
A sua dissertação é a continuidade “para o período cronologicamente precedente”, estudado por Carvalho
Homem, daí o avanço no terminus ad quem.
9
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 120.
10
HOMEM, “Législation et compilation législative”, p. 678, nota 39: “En réalité, João Mendes a survécu à
Edouard: sa mort n’est attestée que dans les années 1440, e il participe encore ao gouvernement juste après 1438
(renseignements donnés par Judite GONÇALVES DE FREITAS)”
Idem, “Estado Moderno e Legislação régia”, p. 120, n. 40: “Na realidade, João Mendes terá sobrevivido a D.
Duarte: a sua morte só se verifica nos alvores da década de 1440, e terá ainda alguma participação nas tarefas da buro-
cracia nos primeiros tempos post-1438 (informações de Judite Gonçalves de Freitas). A sua substituição nos trabalhos
da recolha não é portanto consequência de óbito, mas de velhice, retirada (parcial) ou eventual ‘ultrapassagem’ no seio
da sociedade política”.
11
“e portanto o dito Senhor Rey [D. Duarte] as encomendou ao Doutor Ruy Fernandes do seu Conselho, teendo

106
José Domingues

final (§ 31) do título 119 do livro V[1], que proclamam a muda de compilador ainda no
reinado do Eloquente. Ou seja, sabendo de antemão que Rui Fernandes foi investido
ainda durante o reinado de D. Duarte, ao concluir que João Mendes sobreviveu a este
monarca, Carvalho Homem é forçado a arranjar uma solução alternativa (o proémio
das Afonsinas consigna, terminantemente, o falecimento de João Mendes) para a
substituição do compilador das Ordenações – a aposentação de João Mendes.
Martim de Albuquerque aproveita a reedição do seu artigo sobre as Afonsinas e o
Infante D. Pedro para solidificar a sua tese com base nos novos elementos – início dos
trabalhos em 1418 – trazidos à colação por Carvalho Homem:

“De acordo com os elementos trazidos à colação pelo Prof. Carvalho Homem,
o período de cometimento das Ordenações Afonsinas a João Mendes aumentaria
ainda vários anos. Ou seja, em termos cronológicos o corregedor haveria trabalhado
num espaço temporal mais alargado que o doutor Rui Fernandes ou, à la limite, muito
aproximado”[2]

Mas, por outro lado, levanta uma séria interrogação à ideia, em risco de alastrar,
de que João Mendes teria morrido depois do rei D. Duarte: “Sobreviveu, todavia, o
Corregedor João Mendes a D. Duarte? Apesar dos dados apurados por Judite de Freitas (…)
permitimo-nos uma resposta dubitativa, senão mesmo negativa”[3]. Começa por salientar
que a autora não é decisiva quanto ao ano do falecimento (1440) de João Mendes. O
que estaria, antes de mais, em contra-senso com o documento que a própria autora
regista como “uma carta subscrita por João Afonso, corregedor da Corte, provido ao ofício
no final do ano de 1437 por morte de João Mendes, seu antecessor”, mas também com os
documentos mais antigos da sua biografia – três do ano de 1435 e um, interrogado, de
15 de Dezembro de 1437[4].
Efectivamente, Judite de Freitas, na biografia de João Mendes, em nota de rodapé
deixou consignado: “a sua morte terá ocorrido por volta de 1440” e em nota que remete
para a sua biografia “(João Mendes, m. por volta de 1440)”[5]. No entanto, em nota anterior
ao quadro das cartas subscritas pelo Corregedor da Corte ou seu “logo teente”, refere
uma subscrita por “João Afonso, Corregedor da Corte, provido ao ofício no final do ano
de 1437 por morte de João Mendes, seu antecessor” e ao tratar a biografia deste corregedor
da corte repete, “é o único oficial integrado tão tardiamente no Desembargo eduardino.
Pensámos que tal ocorrera devido à morte de João Mendes em finais do ano de 1437”[6].
Para além disso, a nota que, na sua dissertação de mestrado em História Medieval

gram desejo, que em seus dias fossem acabadas; e porque a Deos prouve regnar pouco, o mui Eixcellen-
te, e Poderoso Princepy ElRey Dom Affonso seu filho seendo ao tempo, que começou a regnar, moço de
idade de sete annos, o Reigno todo juntamente em Cortes Geraes enlegeo, e confirmou por seu Tetor, e
Curador, Regedor, e Defensor por elle em seus Regnos o Famoso, e Virtuoso Princepy Ifante Dom Pedro
Duque de Coimbra, e Senhor de Montemoor seu muito amado, e prezado Tio, o qual logo em começo de
seu Regimento mandou ao dito Doutor, que proseguisse a dita obra quanto bem podesse, e nom alçasse della mãao
por nenhuum caso, ataa que com a graça de Deos a posesse em boa perfeiçom”.
1
“Foi acabada esta obra (…) per o Doutor Ruy Fernandes (…) ao qual foi primeiramente encommendada pelo
muito Alto Princepy, e muito excellente Senhor Rey Dom Eduarte seu padre, de louvada e famosa memoria, e despois
de seu falicimento pelo muito famoso Princepy, e magnifico Senhor Ifante Dom Pedro (…) em nome do dito Senhor
Rey Dom Affonso nosso Senhor”.
2
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 60.
3
Idem, p. 61.
4
Idem, p. 61-62.
5
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 191, nota 174 e p. 99, nota 89.
6
Idem, p. 122, nota 5 e p. 188, nota 149.

107
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1991, correspondente


à nota 174, da edição de 1996, refere os finais do ano de 1437 para a morte de João
Mendes[1]. Por isso, ou se trata de um lapso ou então, entre 1991 e 1996, surgiram-lhe
novos dados, que se esqueceu de adicionar. Pode tratar-se de mero lapso, no entanto,
não deixa de ser curioso que Carvalho Homem, orientador científico da investigação
e prefaciador da obra, tenha, logo a seguir, assentido no ano de 1440[2]. Mero lapso ou
informação inédita posterior? Os intervenientes ainda o podem deliberar[3].
Por outro lado, para Martim de Albuquerque, parece que os números nem sempre
falam por si, tornando-se indispensável interpretá-los para adquirirem sentido e
significado. Para tanto, destaca a falta de coincidência destes dados documentais com
o proémio das Afonsinas, que transcreve, acabando por concluir:

“Sabido que D. Duarte entrou a reinar em 14 de Agosto de 1433, a ser verdadei-


ro o quanto consta do passo transcrito, parece difícil aceitar que ao Corregedor João
Mendes se refiram documentos passados dois ou mais anos depois e menos ainda que ele
haja sobrevivido a D. Duarte. Aliás, no documento de 17 de Agosto de 1435, referido por
Judite Gonçalves de Freitas, João Mendes vem como «escolar em leis, vassalo e corregedor
por El Rei na correição da Estremadura e pela rainha em suas terras», o que parece pou-
co consentâneo com a qualidade que já há muito tinha de corregedor na corte e de
compilador das Ordenações.
Todos os documentos sobre João Mendes colacionados pela autora referir-se-ão a
uma só pessoa?”[4]

Quer dizer, tendo em conta a informação das Afonsinas, para Martim de


Albuquerque ainda são aceitáveis os documentos do ano de 1434 (e, contas bem feitas,
os do ano de 1435 até 14 de Agosto), mas os subsequentes é que não. Passemos então
a uma análise mais detalhada.
Nos finais do ano de 1434 (21 de Dezembro), na carta de perdão a Fernão Martins,
consta “El Rei o mandou per Johane Meendez corregedor da sua corte”[5]. Para o ano
imediato de 1435, Judite de Freitas, refere 12 documentos subscritos por João Mendes,
mas ao tratar a sua biografia só menciona três, dando jus à pergunta de Albuquerque.
Dos três, os que identificam João Mendes como corregedor da Estremadura referem‑se,
de certeza, a outra personalidade homónima do compilador afonsino. Não parece
praticável, e seria no mínimo insólito, que a mesma pessoa ocupe, em simultâneo, as
duas corregedorias (da corte e de comarca). No documento do dia 8 de Janeiro, que
confirma as coutadas de umas herdades em Évora, em Vale de Maria e Santa Margarida,
refere-se expressamente “Johane meendez corregedor que ora he na estremadura”[6]; Por sua
vez, o documento de 17 de Agosto é uma confirmação que “Johane meendez escolar
Em lex bassalo del Rey E corregedor por ell Em a correiçom da Estremadura e por a Raynha
nas suas terras” fez, em Coimbra, da carta de D. Duarte (outorgada em Évora, no dia

1
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, Porto, 1991, p. 86, nota 7 (Dactilografado).
2
Cfr. nota supra n.º 234.
3
Após a conclusão deste capítulo de tese, Judite de Freitas publica mais um trabalho onde, sem qualquer
resposta à análise crítica de Albuquerque, reitera a data – “João Mendes (1402-1440)” [Judite A. Gonçalves
de FREITAS, “Tradição legal, codificação e práticas institucionais: um relance pelo Poder Régio no Portu-
gal de Quatrocentos”, Revista da Faculdade de Letras História, Porto, III Série, vol. 7, 2006, p. 51, nota 2].
4
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 61-63.
5
Documentos das Chancelarias Reais anteriores a 1531, relativos a Marrocos, Doc. 28.
6
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. I, Tomo 2, doc. 719, pp. 11-12.

108
José Domingues

03 de Maio de 1435) sobre o privilégio de isenção de aposentadoria ao mosteiro de


Santa Cruz de Coimbra, apresentada pelo prior do mosteiro, Vasco Gil[1].
Mas existem outros testemunhos para este homónimo: em documento, de 1435,
refere-se João Mendes como corregedor de Comarca[2]; a carta de 27 de Novembro de
1437, que integrou o concelho de Gaia na comarca e correição de Entre-Douro-e-Minho,
desmembrando-o da Estremadura, é dirigida ao corregedor da Estremadura, João
Mendes[3]; em alvará de 1 de Maio de 1439 (Almada), que dá licença a Gil Fernandes,
escudeiro do infante D. Henrique, para, durante dois anos, pôr substituto em seu ofício
de chanceler da correição, o corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana é também um João
Mendes[4]; e em documento do início de 1444 (26 de Janeiro), aparece, outra vez, João
Mendes como corregedor da comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana[5]. Desta forma, a
única hipótese que me parece plausível é que este João Mendes, que surge na comarca
da Estremadura e depois transita para a de Entre-Tejo-e-Guadiana, seja um corregedor
de comarca e uma personagem distinta do nosso corregedor da corte. Neste aspecto,
fica autorizada a dubitativa ou negativa de Albuquerque, caso contrário, começar-se-ia a
correr o risco de cair num completo exagero e estender a actividade burocrática de João
Mendes até ao ano de 1444, com mais de quarenta anos de carreira.
Assim sendo, dos três documentos referidos por Judite de Freitas para o ano
de 1435, só um se pode consignar ao corregedor da corte, João Mendes. Trata-se do
documento do dia 9 (melhor, dia 20 – é este o dia registado na publicação da Chancelaria
de D. Duarte) de Março, pelo qual é legitimada Inês Mendes filha de “Johane Meendez
Corregedor da nossa corte”[6]. Esta legitimação pode ter sido ditada pela enfermidade e,
consequente, presságio de aproximação da sua morte.
Que o corregedor estava doente no início deste ano ficou explicitamente consignado
em diploma de 19 de Janeiro de 1435: “E porquanto ha dada desta carta ho corregedor era
doente pasou per lujs martjnz se(sic) vasallo E do seu desenbargo”[7]. Daí que, ao longo deste
ano de 35, nos surja substituído pelos seus “logo teentes”. Para além do documento
supra, surge um Luís Afonso como “logo teente” do corregedor da corte em documento
de 29 de Junho de 1435[8].Outro substituto, Gil Ferreira, aparece como “logo teente” em
documento de 28 de Junho de 1435 e em documento do dia 10 de Julho de 1435[9].
Mesmo assim, a sua actividade como corregedor da corte está documentada para
este ano de 1435. No dia 28 de Abril subscreve a carta de confirmação do escolar João
Afonso para procurador do número da vila de Ponte de Lima[10]. Outros diplomas se
poderão coligir, mas os objectivos deste trabalho não passam pela sua inventariação
exaustiva, apenas nos importa aferir e registar que em 1435 João Mendes ainda estava
vivo e em exercício de funções.

1
Saúl António GOMES, Documentos Medievais de Santa Cruz de Coimbra. I – Arquivo Nacional da Torre
do Tombo, sep. de Estudos Medievais, Porto, 1988, doc. 91, pp. 180-182.
Nesta confirmação ainda consta o selo de chapa da correição da Estremadura no verso [GOMES, idem, p.
182] e nessa data a corte estava bastante afastada de Coimbra. Em 17 de Agosto de 1435 a corte estava no
mosteiro de Alcobaça [Humberto Baquero MORENO, Itinerários de El-Rei D. Duarte (1433-1438), Academia
Portuguesa de História, Lisboa, 1976, p. 78].
2
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. III, doc. 271, p. 175.
3
Corpus Codicum, vol. I, p. 141.
Corpus Codicum, vol. IV, pp. 15-16.
4
Monumenta Henriquina, Coimbra, 1964, vol. 6, doc. 123, p. 307.
5
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 12, p. 576.
6
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. III, doc. 677, p. 504.
7
Idem, doc. 269, p. 173
8
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 194.
9
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. III, doc. 539, p. 389; e doc. 614, p. 448.
10
Chartularium Universitatis Portugalensis, vol. IV, p. 83.

109
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

De qualquer forma, para que não faça confusão, alerte-se que o documento
outorgado em Évora aos “xxx dias de dezenbro el rrej o mandou per Johane meendez
Corregedor da sua corte Rodrigo annes scpriuam por filipe afomso a fez Era iiijc xxxb”, é
do ano de 1434. Trata-se de uma prática confirmada, por Braamcamp Freire, para a
Chancelaria de D. Afonso V: “é certo que os escrivães da Cancellaria de D. Afonso V datavam
quasi sempre os documentos pelo anno do Nascimento, à risca, começando por tanto o novo anno
a 25 de Dezembro”[1]. Anastácio de Figueiredo, muito antes, também se apercebeu deste
pormenor – “os nossos Taballiães e Escrivães antigamente (…) principiavão a contar o
Anno do Nacimento de Nosso Senhor Jesu Christo (…) do dia 25 de Dezembro”[2]. No
seguimento desta prática, o documento de 30 de Dezembro foi registado sob a era de
1435, mas terá que reportar-se ao ano de 1434.
Para o ano subsequente de 1436 a investigadora não assinala qualquer documento
subscrito por João Mendes[3], sem ensaiar qualquer justificação para tal lapso, apesar de
ter colocado o terminus da sua carreira em 1437. A resposta a esta irregularidade consta
da carta que João Mendes dirige ao rei D. Duarte, dando-lhe conta dos dinheiros que os
meirinhos hão de cobrar, em que lugares e de que pessoas, escrita em Santarém, aos 26
dias de Dezembro de 1435[4]. Neste documento, o próprio refere que está fora da corte.
Este facto, por si só, permite supor tratar-se do nosso personagem – apesar de não lhe
identificar o ofício – também confirmado pelo âmbito legislativo da matéria tratada.
Neste ponto, fazendo um sucinto apanhado, estou convicto que João Mendes durante
o ano de 1435, apesar de idade avançada e adoentado, ainda desempenha as funções de
corregedor, estando afastado da corte no final desse ano e no seguinte, mas ainda vivo.
Há falta de documentos para o ano de 1436, passemos à análise dos documentos de 1437,
continuando a seguir as indicações de Judite de Freitas e o raciocínio de Albuquerque,
que, apesar de tudo, começa a ficar deslocado da conjuntura documental.
Na biografia de João Mendes, Judite Antonieta, apenas assenta o documento de 15
de Dezembro de 1437 e, sublinha Albuquerque, interrogado. Trata-se do documento
que promove ao ofício de escrivão do corregedor da corte, um seu sobrinho, Martim
Afonso[5]. Tratando-se do ano limite do exercício de funções seria aconselhável arrolar os
dois monumentos subscritos por João Mendes, sobretudo, quando se suscitam dúvidas
de datação. Ou será que o outro documento é o – previamente assentado pela autora
– que a 12 de Dezembro de 1437 já o dá como morto?[6] Mas se o refere como morto
não podia, seguramente, subscrever o documento. Quais são então os dois documentos
subscritos por João Mendes em 1437? Outro dilema que fica por conta da autora[7].
Posto isto, os dois supostos documentos subscritos por João Mendes parecem ser
– julgo eu – os acima identificados, o que, por outro lado, vem justificar a interrogação,
interposta por Judite de Freitas, ao documento do dia 15 – é que este documento,
para além de ter uma letra da data riscada, aparece três dias depois daquele que,
peremptoriamente, declara João Mendes como morto[8]. Por outras palavras, se no

1
Braamcamp FREIRE, “A Chancellaria de D. Afonso V”, Archivo Historico Portuguez, Lisboa, 1904, vol. II, p. 486.
2
FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica, p. 135, nota a).
3
Cfr. o quadro V em FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 120.
4
Ordenações de D. Duarte, pp. 639-640
5
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 191.
6
Idem, p. 188.
7
Outra chamada de atenção, feita por Martim de Albuquerque, e com razão, é que no quadro de subscrito-
res de cartas o total de João Mendes é de 33 e não 34. No entanto, na actividade como redactor de diplomas,
aparece, novamente 34, mas agora a conta está certa [cfr. FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p.192]. Ou-
tro descuido, neste trabalho, susceptível de originar algum equívoco, é o que responsabiliza Rui Fernandes
na elaboração “dos livros II e V”, em vez de “dos livros II a V” [idem, p. 211].
8
Mais um motivo para acreditar que a autora pretendeu estabelecer como ano da morte de João Mendes o

110
José Domingues

documento do dia 12 ele é dado como morto, nunca poderia subscrever um documento
redigido três dias depois – a não ser que exista algum lapso, nomeadamente de datação.
Partindo deste último pressuposto, nota-se que o documento está datado, em Évora[1],
aos “xb dias de dezenbro pello dicto Corregedor (…) Era de mjll E iiijc e xxxiiijº [riscado: «b»]
annos”. O que quer dizer que este documento é, efectivamente, do ano de 1434[2] e não
de 1437[3]; e os dois documentos arrolados não servem para estabelecer o terminus ad
quem da carreira de João Mendes, mas apenas um pode testificar que, em finais de
1437, já era falecido.
Mesmo considerando lapso tipográfico o ano de 1440[4], Judite de Freitas não
apresenta qualquer documento seguro para colocar o múnus de João Mendes até ao
final de 1437; Martim de Albuquerque, por sua vez, sobeja-lhe a razão ao contestar a
sobrevivência de João Mendes ao monarca D. Duarte, no entanto, também se equivoca
ao estabelecer o limite de dois anos, a contar a partir do início do reinado de D. Duarte,
para a morte de João Mendes. Definitivamente, há um documento que, mesmo assim,
refere João Mendes em 1437. Trata-se da confirmação de 18 de Fevereiro de 1437, que
fez o concelho de Elvas, de um aforamento de um chão a mestre João – “el rrey o
mandou per Johane meendez Corregedor da sua corte”[5]. Quer isto dizer que nesta data
João Mendes ainda era vivo e corregedor da corte de D. Duarte.
No entanto, outro documento credor de toda a fiabilidade, ainda se não enquadra
nos terminus apurados para a morte e cessação de funções de João Mendes. A asser-
ção do proémio das Afonsinas – “e porque se o dito Corregedor logo finou a poucos dias”
– não é consentânea, a meu ver, sequer com os dois anos propostos por Martim de
Albuquerque. Será que o autor do proémio nos pretendeu induzir em erro? Não o creio,
falta-lhe o móbil.
Não há dúvida que se trata de um pequeno texto, da autoria de Rui Fernandes,
demasiado lacónico para traduzir, com rigor, a faraónica tarefa de compilação das leis
do reino. Sendo, por isso, passível do levantamento das arquiquestões que se arrastam
há séculos, persistindo às inclemências da investigação aguçada, até à actualidade. O
escopo final será, sempre, o de decifrar a mensagem que o seu autor nos pretendeu
transmitir, ou seja, o de interpretar a letra de acordo com a vontade e o espírito do seu
autor – que nos leva à, em direito, chamada interpretação extensiva[6]. O cruzamento
das palavras escritas no proémio revelam um álgido desacerto com o testemunho da
documentação coetânea[7]. Então, será que estamos a fazer a interpretação correcta da
mensagem de Rui Fernandes?

de 1437 e não o de 1440.


1
Sendo certo que desde 12 a 23 de Dezembro, desse ano, a corte estanciou em Torres Novas [MORENO,
Itinerários de El-Rei D. Duarte, p. 102].
2
Efectivamente, neste ano, a corte esteve em Évora praticamente durante todo o mês de Dezembro [MO-
RENO, Itinerários de El-Rei D. Duarte, pp. 64-66].
3
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. III, doc. 602, p. 434. Para o facto de primeiro se ter escrito «b» e
depois se ter corrigido para «iiij», veja-se o que ficou dito a propósito de se iniciar a contagem do ano a
partir do dia 25 de Dezembro.
4
Seria este lapso impulsionado pela datação do documento de 15 de Dezembro – “xb dias de dezenbro pello
dicto Corregedor (…) Era de mjll E iiijc e xxxiiijº [riscado: «b»] annos”? Se não for subtraído o “b” o documento
passa a ser data de finais de 1439.
5
Chancelarias Portuguesas. D. Duarte, vol. I, Tomo 2, doc. 1216, pp. 425-426.
6
Quando a letra da lei está aquém do espírito do legislador.
7
Teremos, então, que partir para uma interpretação sistemática. A interpretação deve ser feita de acordo
com todo o sistema jurídico em que a norma se insere. O mesmo acontece na interpretação de um parágrafo
de um livro, cujo verdadeiro sentido só poderá retirar-se quando se considere a obra na sua totalidade.

111
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Para começar, tem-se utilizado o texto das Afonsinas impresso – pela primeira
vez, pela Universidade de Coimbra em 1792 e, em fac-simile, pela Fundação
Calouste Gulbenkian. Como é sobejamente sabido, os impressores setecentistas
pontuaram o texto de acordo com a normativa da sua época[1] – ora, “pontuar um texto
é já interpretá‑lo”[2]. Não podemos esquecer que estamos perante um texto do século
XV, ficando, por isso, legitimadas as incertezas que a prova dos documentos desta
centúria vem, agora, levantar.
No original não há qualquer pontuação da frase que nos interessa, mas, pelo
entendimento do século XVIII, o texto deveria ser pontuado da seguinte forma:

“E depois de seu [D. João I] falecimento regnou o Mui Alto, e Mui Virtuoso Princepy
ElRey Dom Eduarte (…) o qual encomendou a dita Obra ao dito Corregedor (…) e
porque se o dito Corregedor logo finou a poucos dias, nom as pôde acabar”[3]

Esta pontuação induz, em contra-senso com o gizado pela análise da documenta-


ção coeva remanescente, que João Mendes teria morrido poucos dias depois do início
do reinado de D. Duarte (14 de Agosto de 1433). Mas se alterarmos a localização da
vírgula na frase sublinhada o sentido pode ser outro, bem diferente:

“E depois de seu [D. João I] falecimento regnou o Mui Alto e Mui Virtuoso Princepy
ElRey Dom Eduarte (…) o qual encomendou a dita Obra ao dito Corregedor (…) e
porque se o dito Corregedor logo finou, a poucos dias nom as pôde acabar”[4]

Com esta pontuação, parece claro que o que Rui Fernandes nos pretendeu trans-
mitir é que o seu antecessor, João Mendes, faleceu poucos dias antes de ter terminado
a sua obra e não pouco dias depois de o Elouquente ter começado a governar. Aliás,
levando em conta a morosidade desta empreitada, penso que seria uma redundância
dizer que o comissário faleceu poucos dias depois da incumbência e, em simultâneo,
que a não pode terminar. Quando muito, poder-se-ia dizer que a tinha iniciado.
Não há dúvida que em 1437 João Mendes ainda era o corregedor da corte, mas
para o ano seguinte de 1438 a documentação refere como seu substituto o dito João
Afonso, escolar em leis. O documento de 29 de Novembro de 1438, em Torres Novas,
“ElRey o mandou per Joham afomso escolar em leis e corregedor na sua corte”[5]. Outro
documento, da mesma data e local, confirmando os foros e privilégios do Porto, “Joham
afomso escollar em leis seu uasallo e Corregedor na sua corte”[6].
Outra questão diferente, mas de extrema relevância, é a da sua substituição por
Rui Fernandes. O enunciado do proémio do livro I, pela sua laconicidade, tem que

1
“a pontuação é variada, lógica e numerosa, numa obediência quase total à gramática dos finais de Setecentos e em
pleno contraste com a volúvel ortografia quatrocentista” [NUNES, “Os Manuscritos das Ordenações Afonsinas
e a Edição de 1792”, Ordenações Afonsinas, Liv. I, p. 20].
2
José de Azevedo FERREIRA, “Uma edição do Fuero Real de Afonso X”, Estudos de História da Língua
Portuguesa, Obra Dispersa, Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos,
2001, p. 45. Cfr. também José de Azevedo FERREIRA, “La ponctuation dans les textes médievaux”, Estudos
de História da Língua Portuguesa, Obra Dispersa, Colecção Poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de
Estudos Humanísticos, 2001, pp. 255-287.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.
5
Viseu, AD – Perg. 58.
6
Chartularium Universitatis Portugalensis, vol. IV, p. 209.

112
José Domingues

ser utilizado com muita cautela, mas, desafortunadamente, continua a ser o único
substrato documental de recurso, uma vez que nenhum dos outros copiosos diplomas
inventariados, até à data, nos permite sequer supor – à semelhança do que acontece com
João das Regras – a ligação de João Mendes à compilação pátria e a sua substituição por
Rui Fernandes. Não há dúvida que essa substituição foi feita dentro dos cinco anos do
reinado de D. Duarte, conforme aventa Martim de Albuquerque, e o aconselha toda a
documentação, inclusive o proémio das Afonsinas e o final do seu livro V. Mas entendo
que se pode estreitar esse espaço temporal. Vejamos, primeiro, o que diz o documento:

“e porque se o dito Corregedor logo finou, a poucos dias nom as pôde acabar, e por
tanto o dito Senhor Rey as encomendou ao Doutor Ruy Fernandes”[1]

A letra do documento refere expressamente a morte de João Mendes para motivo


da substituição e se, realmente, esse passamento se deu ainda no reinado de D. Duarte,
não vejo razão para se alvitrar outra hipótese. No entanto, ao fim de tantos anos de
carreira, a aposentação de João Mendes não é ocorrência descabida de todo. Só que,
como qualquer facto histórico, necessita de algum suporte documental e não pode ser
gratuitamente conjecturado para servir de fundamento a outro facto, que, ainda por
cima, acabou por se revelar inexacto (a morte de João Mendes em 1440). No documento
de 26 de Dezembro de 1435 é o próprio João Mendes que refere, “alguuns que como
Eu ssom fora da corte”[2], dando azo a uma plausível reforma. Mas este afastamento
da burocracia da corte também pode ter sido ditado pela premência de terminar a
compilação das leis – tal como irá acontecer com o seu sucessor, Rui Fernandes. Por
isso, se está documentado que o motivo da substituição foi a morte de João Mendes só
temos, até prova em contrário, que o aceitar.
Até porque, nos termo do documento de 26 de Dezembro de 1435, o monarca
escreve a João Mendes, solicitando-lhe informações em matéria legislativa – em concreto
sobre “os dinheiros que o meirinho ha d’auer E de que lugares E de que pesoas”. João Mendes
estava em Santarém e tem acesso privilegiado a normativos jurídicos – nomeadamente
ao regimento do meirinho-mor, de 1421, transcrito a seguir à sua missiva[3]. Podem
conjecturar-se múltiplas razões para este pedido régio a João Mendes, nomeadamente
o ser um prático do Direito, mas será que, mesmo depois de afastado da corte, não
continuou a trabalhar nas Ordenações do Reino? É certo que estava velho e cansado,
vindo a morrer em breve, mas continuava a ser dos letrados do reino com melhor
conhecimento das Ordenações, em que trabalhava há quase 20 anos, pelo menos[4].
Em definitivo, não vejo razão para que a troca de compilador (e também de
corregedor da corte) se tenha dado antes da morte de João Mendes[5], antes pelo
contrário, o facto de no proémio (e no documento arrolado por Judite de Freitas) estar
assim consignado não deixa alternativa. Se o motivo da substituição foi a morte de
João Mendes, se esta substituição foi no reinado de D. Duarte, então essa morte teve
que ocorrer ainda no decurso deste reinado. Como acima ficou demonstrado, a morte

1
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.
2
Ordenações de D. Duarte, p. 640.
3
Ordenações de D. Duarte, pp. 640-642
4
Partindo da sugestão do início dos trabalhos no ano de 1418, avançada por Carvalho Homem.
5
Para Judite de Freitas “Designado por D. João I para a responsável tarefa de compilação e organização
das leis do Reino, o corregedor, João Mendes, manteve-se ligado a essas actividades até à sua morte” [FREITAS,
A Burocracia do “Eloquente”, p. 71, nota 22]. Mais um indício de que o ano de 1440, para a morte de João
Mendes, não tem qualquer cabimento.

113
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

terá ocorrido durante o ano de 1437, por isso, acredito que tenha sido nesse mesmo
ano que D. Duarte encomendou a continuidade da obra a Rui Fernandes e nomeou
João Afonso para corregedor da corte. Desta forma também fica infirmada a tese que
adjudica a inscrição fúnebre das Ordenações de D. Duarte ao compilador João Mendes
e, sobretudo, não se deve confundir este corregedor da corte com o seu homónimo
corregedor de comarca.
Chegou o momento de responder à pergunta com que terminei o título anterior:
o que sobeja para o trabalho de João Mendes? Ou seja, se adjudicarmos os cinco livros das
Ordenações Afonsinas a Rui Fernandes, qual a parte feita por João Mendes?
Em face da falta de elementos documentais concretos, qualquer resposta peremp-
tória seria precipitada. Ao certo pode-se aventar que este corregedor trabalhou na
compilação das ordenações no reinado de D. João I (provavelmente entre 1418 e 1427)
e durante o reinado de D. Duarte até à sua morte (desde cerca de 1433/34 até 1437)
Posto isto, será lícito adjudicar-lhe a paternidade de algum ou alguns dos Livros
de Ordenações assiduamente referidos na documentação da primeira metade do
século XV (até 1446, que são concluídas as Afonsinas). Ou seja, João Mendes, não só
coligiu materiais, como os deve ter organizado (cronologicamente, por reinados)
em colectâneas próprias que, em seu tempo, vigoraram[1], e, posteriormente, foram
utilizadas por Rui Fernandes para sistematizar os cinco livros das Afonsinas. De
qualquer forma a morte surpreendeu-o antes de concluir o seu trabalho final, que nunca
chegou a vigorar – deste não temos qualquer indício. Ou seja, partindo do pressuposto
que existiram várias fases de compilação, é natural que João Mendes tenha concluído
algun(s) livro(s) de ordenações, mas o seu contributo preciso para as Afonsinas é, neste
momento, demasiado obscuro.
No espaço temporal de cerca de 4 anos (1433-1437) é natural que João Mendes
tenha avançado bastante na prossecução das Ordenações – é o próprio sucessor que
confessa que “a poucos dias nom as pôde acabar”[2] – mas é praticamente impossível
destrinçar o seu labor. Existe ainda a possibilidade (que não me parece remota) de
Fernandes, ao ser incumbido da tarefa, ter mudado completamente o rumo da obra.
Desta forma, a obra de João Mendes ficaria destituída, mesmo antes de entrar em vigor,
desaparecendo nas agruras do tempo.
Para além da colectânea oficial do reino, este corregedor da corte, em tempo de
D. João I, trabalhou na organização do direito local, elaborando regimentos específicos
para algumas cidades e vilas. Aos nossos dias chegou apenas o de Évora[3], que teria
sido comunicado a outras localidades vizinhas, como Arraiolos[4]. Um capítulo especial
apresentado pelo concelho de Coimbra, às Cortes de Évora de 1460, refere “o livro das
hordenaçõoes e posturas da cidade em que está todo o regimento da terra o qual comtem
em si muitas boas cousas e foy fecto per el rey dom Joham meu avoo per o corregedor Johane
Mendez e per todos os antiiguos e cidadãaos daquelle tempo”[5]. Qualquer tentativa
de ligação entre as duas tarefas é demasiado presumível, mas a verdade é que alguns
preceitos das Afonsinas, com poucas variantes, se encontram no regimento de Évora –

1
Neste âmbito não parece descabido (mas, mesmo assim, muito conjectural) conferir-lhe, tal como Caeta-
no, a feitura das Ordenações de D. Duarte.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Início, pp. 1-2.
3
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, 1ª Parte, Doc. LXXX, pp. 155-193.
4
Maria Ângela Rocha BEIRANTE, Évora na Idade Média, Fundação Calouste Gulbenkian, Junta Nacional de
Investigação Científica e Tecnológica, [1995], p. 665.
5
Maria Alegria Fernandes Marques MARQUES, “O poder concelhio em Portugal na baixa Idade Média”,
Revista Portuguesa de História, tomo 32, Coimbra, 1997-1998, pp. 27-32.

114
José Domingues

os títulos II a VII (excepto o título IV) do regimento têm correspondência com os títulos
26 a 30 do livro I das Ordenações Afonsinas.
A época aproximada desses regulamentos (sem data nas Afonsinas) poderá ser
matizada pela data crítica do regimento de Évora. Gabriel Pereira, na introdução à sua
publicação, teceu critérios e chegou à seguinte conclusão:

“Em resultado parece-nos poder affirmar que o regimento da cidade foi elaborado
por 1392; o que se encontra no liv. peq. de perg. é uma copia d’esse regimento,
com algumas interpolações, lavrada nos primeiros annos do sec. XV”[1]

Ângela Beirante persevera a inferência e a data de 1392 – “Redigido provavelmente


em 1392, conhecemo-lo através de uma cópia do início do século XV”[2]. No entanto,
nem todos os critérios de Gabriel Pereira são seguros[3]. Se, para o limite ad quem,
não há qualquer inconveniente em aceitar o ano de 1420 (em que o regimento foi
transmitido a Arraiolos) ou de 1415 (conquista de Ceuta), a partir do qual D. João I
agregou ao seu título de rei de Portugal e do Algarve o de Ceuta, o mesmo se não
pode dizer do limite a quo.
Antes de mais, João Mendes só é corregedor da corte a partir do ano de 1402,
estando o seu antecessor, Gil Eanes, documentado até 1401[4]. O Item, no regimento do
alcaide, para que “o alcaide ou carcereiro nom leve nem tome as roupas dos presos
que fogirem salvo se levarem ferramentas ou britarem alguas prisões paguemse per
esta roupa se as elles nom quiserem pagar”[5], foi reproduzido a partir de um capítulo
geral do povo das Cortes de Guimarães de 1401[6]. Por outro lado, em 1392 a corte
nunca esteve em Évora[7].Além do mais cita-se diversas vezes o Infante, que só pode
ser D. Duarte, infante D. Duarte, que “desde 1411 tem responsabilidades governativas e
oficiais próprios e desde 1413 ocupa o cargo de acessor para os assuntos do conselho, justiça
e fazenda”[8]. Assim sendo, o regimento da cidade de Évora parece ter sido elaborado
depois do ano de 1402, entre o ano de 1411 e o de 1420[9].
Do que não há qualquer dúvida é de que o regimento da cidade de Évora – com os
seus títulos do procurador do concelho, dos vereadores, dos almotacés, dos juízes e do alcaide
– é bastante anterior às Afonsinas e do punho de João Mendes. Esta circunstância vem
confirmar – alargando o número de exemplos – a ideia supra de que os regimentos do
livro I não foram feitos ex novo no reinado de D. Afonso V, contribuindo para esbater
a diferença de estilo redactorial entre o livro I e os restantes. Mas, por outro lado, põe
em causa a outra ideia clarificada de que o livro I é obra de Rui Fernandes e não de
João Mendes.

1
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, 1ª Parte, p. 157.
2
BEIRANTE, Évora na Idade Média, p. 665.
3
Embora não venha ao caso para apuramento da data do regimento, a figura do infante que Pereira iden-
tifica com D. Pedro, é, com certeza, a do infante D. Duarte.
4
HOMEM, O Desembargo Régio, p. 470.
5
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, 1ª Parte, Doc. LXXX, p.172.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 106.
7
Cfr. Humberto Baquero MORENO, Os Itinerários de el-rei Dom João I (1384-1433), Instituto de Cultura e
Língua Portuguesa, 1988.
8
Margarida Garcez VENTURA, Igreja e Poder no Séc. XV: Dinastia de Avis e Liberdades Eclesiásticas (1383‑1450),
Colibri História, 16, Edições Colibri, Lisboa, 1997.
9
Uma análise pormenorizada do tempo de ofício desempenhado por cada uma das individualidades refe-
ridas no título do regedor poderá aportar informações relevantes.

115
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Perante a viabilidade de João Mendes ter redigido estes títulos, torna-se plausível
que também tenha composto o livro I, uma vez que estava familiarizado com o estilo
legislatório. Desta forma, perde relevância o argumento de Martim de Albuquerque de
que “mal se compreende, de facto, que o livro I, redigido essencialmente em estilo legislatório
ou decretório, estilo imperativo, provenha da mão de um simples prático, enquanto o restantes
livros, de teor basicamente translatício das leis anteriores, de estilo compilatório se deveriam
atribuir ao Doutor em Direito”[1].
Apesar de enfraquecido este argumento[2], nada obsta aos restantes, por isso
continuo convencido que os cinco livros sejam obra de Rui Fernandes. Aliás, a falta de
registo no arquivo real e tendo em atenção que a propagação do regimento se faz de
localidade para localidade e não a partir da Chancelaria Régia, o que neste momento
me parece mais aceitável é que sendo produzidos como legislação municipal, estes
títulos foram, na reforma de Rui Fernandes, aproveitados e convertidos em legislação
geral[3]. Acima de tudo, parece estarmos perante uma situação concreta e documentada
do trabalho de João Mendes, aproveitado pelo seu sucessor para a obra final. Ou seja,
aos nossos dias chegaram poucas provas concretas do trabalho de João Mendes, mas
não há dúvida que ele foi proeminente, ao ponto de, pelo menos, ser bem conhecido e
respeitado por Rui Fernandes.
Rui Fernandes é outro funcionário régio de longa carreira (quase 40 anos e três
reinados – D. João I, D. Duarte e D. Afonso V), referido como Escolar em Leis entre os
anos de 1416 e 1425 e como Doutor a partir de 1428[4], a sua actuação está documentada
até 25 de Junho de 1455[5]. Este jurisperito é, sem dúvida, o derradeiro e capital
compilador das Afonsinas. Para além do proémio do livro I, que o coloca como sucessor
de João Mendes, o seu desempenho na compilação de direito pátrio está assegurado
pelo final do livro V:

“Foi acabada esta obra (…) per o Doutor Ruy Fernandes (…) ao qual foi
primeiramente encommendada pelo muito Alto Princepy, e muito excellente Senhor Rey
Dom Eduarte seu Padre, de louvada e famosa memoria, e depois de seu falicimento
pelo muito famoso Princepy, e magnifico Senhor Ifante Dom Pedro, Duque de Coimbra,
e Senhor de Monte Mor o Velho, em nome do dito Senhor Rey Dom Affonso nosso
Senhor, como seu Curador, e Regedor por elle de seus Regnos, e Senhorio”[6]

Apesar de estar documentado que o corregedor João Mendes não faleceu em 1433,
antes atingiu os finais do reinado de D. Duarte, parece incontroverso que nos cinco
livros das Afonsinas lateja a potestade do Doutor Rui Fernandes, ficando desarreigada a
crença de que um tenha composto o livro I e o outro os restantes quatro.
Sendo também certo que a contestação da designação das Afonsinas só terá sentido se
for colocada nos termos amenos do autorizado Herculano: “foi adoptado como codigo do
paiz pelo illustre regente, a quem verdadeiramente pertence a gloria de ter sido o Justiniano

1
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, pp. 54-55.
2
Não é uma evidência que tenha sido João Mendes o redactor desses títulos, há sempre a possibilidade de
se tratar de cópias para o regimento ou de ter apoio dos legistas da corte.
3
Não se trata de caso único: por exemplo, a ordenação, de 18 de Março de 1435, para que as bestas ven-
didas em Évora se não possam engeitar depois que a venda for feita e a besta entregue ao comprador, foi
compilada no título 22 do livro IV.
4
HOMEM, O Desembargo Régio, p. 381.
5
MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, vol. II, p. 808.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, § 31, pp. 404-405.

116
José Domingues

portuguez, embora ao nome do seu tutelado, Affonso V, ainda então na puericia, se ligue
o facto da promulgação do primeiro codigo nacional”[1]. Nesta linha de pensamento,
penso que Albuquerque, embora ocasionalmente, acerta em cheio ao tributar a obra das
Afonsinas ao infante D. Pedro, ao invés de Carvalho Homem que prefere D. Duarte[2]. A
verdade é que ambos os irmãos tiveram a sua preponderância no processo de dotar o reino
de uma colectânea de leis gerais, sendo ilegítimo discriminar qualquer um deles. Se os
Livros da Reforma das Ordenações se integram na regência de D. Pedro, os anteriores Livros
de Ordenações levam a chancela do infante e monarca D. Duarte.
A já citada passagem do cronista Rui de Pina, pode ajudar a compreender este labor:

“e com tudo ElRey pôz muito seu cuidado nas cousas da Justiça que em seus dias
mandou iteiramente guardar, e entendeo em mandar correger e abreviar as Ordenaçoões
do Regno, e em seus dias nom se acabáram. ElRey Dom Affonso seu filho as mandou depois
reformar em cinco Livros, que por serem confusas, em alguã parte mingoadas, ElRey
Dom Manoel nosso Senhor as mandou abreviar e declarar, em singular ordenança
e perfeição” [3]

Note-se que este coetâneo cronista-mor, para além de não referir os núncios da
incumbência, também não faz qualquer referência ao reinado de D. João I. Até parece
querer incluir as Afonsinas numa mera etapa das Manuelinas – no capítulo antecedente
já ficou vincado a conveniência manuelina de ofuscar a colectânea afonsina. Será que
Rui Fernandes e a comissão revisora das Afonsinas leram pela mesma cartilha? É muito
verosímil. Águas passadas não movem moinhos – apenas tem interesse a última reforma das
ordenações, por isso, João das Regras ficou excluído da plêiade de compiladores.
De qualquer forma, são apenas estas as três passagens documentais (o proémio
do livro I, o final do livro V e a passagem da crónica de Rui de Pina) que directamente
referem e, conjugadas com outros escritos, podem ajudar a compreender o processo
das Afonsinas. Por isso, enquanto não surjam outros subsídios documentais, podemos
resumir esse processo aos seguintes pontos:
• João das Regras foi o instigador de todo este movimento compilatório da
legislação pátria, ficando assente que desde 1391, pelo menos, existem
Livros de Ordenações a vigorar no reino de Portugal.
• Em 1427 estava concluída outra fase de reestruturação do Direito pátrio,
que pode ter sido da autoria de João Mendes, iniciada, plausivelmente,
em 1418.
• No final do reinado de D. João I (1427-1433) detecta-se uma fase truncada.
• D. Duarte, no início do seu reinado, mandou corrigir e abreviar as
Ordenações do reino ao corregedor João Mendes.
• Parece incontroverso que a sucessão de João Mendes por Rui Fernandes
se terá dado no ano de 1437.
• Será este último o mentor das Ordenações Afonsinas, divididas, pela
primeira vez, em cinco livros e concluídas, na vila da Arruda, a 28 de
Julho de 1446.

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 150.
2
“le fait est que la «gloire» du régent réside surtout dans la porsuite et dans la conclusion d’une entreprise
dont le «grand auteur» a été son frère” [HOMEM, “Législation et compilation législative”, p. 680]
3
PINA, Chronica do Senhor Rey D. Duarte, cap. VII.

117
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Acima de tudo, estou persuadido que se desfossilizou a doutrina de que


as Ordenações Afonsinas são uma redacção única iniciada no reinado de D. João
I e terminada no de D. Afonso V, ficando demonstrado que são o resultado de um
processo de redacções sucessivas ao longo dos reinados de D. João I, D. Duarte e D.
Afonso V. Foi este parecer que me levou a encetar um apartado anterior do capítulo
primeiro com o título As “Ordenações Afonsinas” e as suas Múltiplas Denominações,
ficando assaz demonstrado que não se trata de “uma daquelas ‘injustiças’ em que a
história é mestra”[1]. Uma designação alternativa seria uma injúria para toda a comissão
revisora do código afonsino e uma “iniquidade” para o distinto jurista, Doutor Rui
Fernandes. As Ordenações Afonsinas, ou melhor a reforma das ordenações em cinco livros é,
sem qualquer demérito para todo o trabalho antecedente, empreitada do Doutor Rui
Fernandes realizada, praticamente toda, durante o reinado de D. Afonso V (apesar da
sua menoridade e de o reino estar confiado à regência do infante D. Pedro). Por isso,
não admira que a documentação coeva, até à conclusão das Afonsinas, refira sempre
o “Livro das Ordenações” e, após a conclusão das Afonsinas, refira o “Livro da Reforma
das Ordenações”, conforme os subsídios documentais suso ilustrados. Também Rui de
Pina, na passagem acima transcrita, faz bem essa discriminação.

5. O Regimento da Guerra
Uma diferença entre os vários manuscritos do livro I, por quão notavel he, chamou
particular atenção ao prefaciador da edição setecentista, Luís Joaquim Correia da Silva.
Ao deparar com a ausência do regimento da guerra – desde o titulo 51 até ao 72 – nos
códices de Santarém e Merceana, constando apenas no do Porto, depreendeu que “esta
Collecção de titulos he provavel não fosse obra dos Compiladores do Codigo, para ter ahi lugar
como parte delle”[2]. Em defesa da sua tese argumentou:
1. “porque sendo a sua incumbencia fazer um Codigo Civil, he
incomprehensivel como tão fora de proposito fizessem nelle entrar
regulamentos de guerra, e outros que não tem relação alguma com a
administração da justiça.
2. porque a legislação, que houvesse de entrar no Codigo nos termos da
sua Commissão, e para se verificar o fim proposto, devia ser certa e
determinada, e não da natureza de muitos destes títulos, cuja observan-
cia fica incerta, pois no fim do titulo 70 do mesmo livro declara o Senhor
D. Affonso V, que os não ha de todo por approvados.
3. porque estes Regimentos consta que andavão juntos em livro distinto com
o titulo Dos Regimentos d’ElRey D. Diniz para os Officiaes de Guerra, e Caza;”

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 93: Os cinco livros “da reformação das nossas ordenações” chegaram até hoje
com essa designação por mais uma daquelas ‘injustiças’ em que a história é mestra – como as muralhas fernandinas
do Porto, ordenadas e iniciadas com Afonso IV, continuadas com D. Pedro e concluídas (apenas isso) no reinado do
“Formoso”.
2
SILVA, Prefação ao Liv. I das Ordenações Afonsinas, p. XV.
Vide também a Prefacção às Ordenações Manuelinas, da autoria de Francisco Xavier de Oliveira Matos: “Em
nenhum destes dous Codigos do Senhor D. Manoel que comparamos, se encontrão vestígios do Regimento da Guerra,
nem dos Officiais Mors da Casa Real, que formão os ultimos Tit. do Liv. I do Codigo Affonsino. E como não consta,
que os ditos Regimentos tivessem sido revogados, esta falta faz mui provavel a conjectura, de que elles não fazião parte
do referido Codigo, e que forão accrescentados por algum Copista ao MS. da Camara do Porto, unico exemplar, em
que tem apparecido”.

118
José Domingues

Do que não teve dúvida é que estes títulos tivessem sido coligidos por D.
Afonso V, por isso, aventa como mais verosímil, “que tratando-se no livro I do Codigo
de Regimentos, se lhe viesse depois a ajuntar o outro livro, sem outra razão mais que a de
ser tambem de Regimentos, a fim de que estivessem juntos, ainda que depois se tornassem a
separar”[1]. Concluindo que

“o Copista do MS. do Porto trasladou tudo o que achou no exemplar; o da


Merceana começou a trasladar, mas conhecendo logo que aquellas materias são
pertencião ao Codigo não continuou; o de Santarém ou desde o principio as houve
por estranhas, e como taes as deixou, ou tirou a sua copia quando ainda não erão
juntos, ou depois que deixarão de o ser”[2]

O mesmo Correia da Silva dá conta de dois predecessores – Jorge de Cabedo e


António Caetano de Sousa – e refere a existência de uma cópia manuscrita, na biblioteca
do mosteiro de Alcobaça, com o título O Regimento d’ElRey D. Diniz dos Soldados e
Familiares de sua Caza[3].
D. António Caetano de Sousa serve-se de uma cópia[4], considerada perdida[5],
extractada por Pedro de Mariz, escrivão e reformador da Torre do Tombo. Pedro de
Mariz foi nomeado escrivão da Torre do Tombo no dia 20 de Setembro de 1605 e o seu
imediato sucessor, Gaspar Álvares Lousada, foi nomeado para o mesmo cargo a 10 de
Outubro de 1618[6]. Mariz não refere expressamente a fonte do seu transcrito, mas tudo
leva a crer que tenha sido um regimento avulso que, no primeiro quartel do século
XVII, estaria no Arquivo Real.
Do manuscrito do mosteiro de Alcobaça, apelidando-o de “Regimento Antigo
da Milícia”, transcreveu Frei Manuel dos Santos os regimentos do condestável e do
marechal[7]. Consta no Index dos Códices da Biblioteca do Mosteiro de Alcobaça,
impresso em Lisboa, em 1755. Este monumento acabou por transitar do cartório
alcobacense para a Biblioteca Nacional de Lisboa, onde hoje se conserva[8].
João Pedro Ribeiro vem acumular, aos suportes documentais de Figueiredo e Cor-
reia da Silva, a existência de uma declaração ao título do almirante, no Real Arquivo:

“Accresce que no R. Archivo Maço I de Leis n. 177, se acha huma declaração de 13


d’Agosto do anno 1471 no titulo do Almirante, que se manda escrever no Livro das
suas Ordenações: e com effeito se achava lançada no fim do titulo do Almirante,
como se póde ver a f. 323 do Tomo 3 das Provas da Historia Genealogica; e não
póde fazer duvida faltar ella no exemplar da camara do Porto, antes mostra ser tirada a
copia antes daquelle anno”[9]

1
Idem, p. xvi.
2
Idem, pp. xvi-xvii.
3
Este autores e o manuscrito de Alcobaça já tinham sido inventariados por FIGUEIREDO, Synopsis Chro-
nologica, Tomo I, Lisboa, 1790, p. 41.
4
SOUSA, Provas da História Genealógica, tomo III, pp. 382-502.
5
MARQUES, Descobrimentos Portugueses, vol. III, doc. 71 e 72, pp. 96-101. Ribeiro a consultou no Real Arqui-
vo Maço I de Leis, n.º 148 (RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 130).
6
BAIÃO e AZEVEDO, O Arquivo da Torre do Tombo Sua história, p. 215.
7
SANTOS, Monarquia Lusitana, Parte VIII, Liv. XXII, Cap. XLVIII, pp. 375-379 e 380-382, respectivamente.
8
Lisboa, BN – Alcobacenses, códice n.º293.
9
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, vol IV, 2.ª Parte, p. 65.

119
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Trata-se de uma prova iniludível de que, nessa data de 13 de Agosto de 1471, o


regimento do almirante constava “no liuro primeiro das hordenaçõees que anda em a nosa
chamçelaria”[1]. Este testemunho está hoje publicado[2], mas a data nele referida tem
suscitado controvérsia: “o ditado régio e o ano são inconciliáveis entre si, e um deles está
evidentemente deturpado. Nem supondo a falta de um x no ano, se poderia sanar a contradição”[3].
Efectivamente, o ditado régio “Dom Joham por graça de deus Rey de Portugall E…” – que
só pode ser de D. João II [1481-1495] – não se coaduna com a data de 13 de Agosto de
1471, em pleno reinado de D. Afonso V.
No entanto, essa contradição é apenas aparente, porque estamos perante um
documento truncado[4] – “Parece ser uma folha destacada de um antigo livro de registo”[5]
– da lavra de D. João II[6]. Isto é, o documento é de D. João II, que, do livro I das
Ordenações Afonsinas, transcreve o regimento do almirante do reino, onde já constava
a declaração mandada acrescentar no dito livro I, em 1471, por seu pai. Segue-se uma
breve frase – “Este Allmirante deue ser Como dicto he da Linha djreita e lidema de
mica Manuell peçanha” – prova de que o documento continuaria a transcrever o dito
regimento, ficando, por isso, incompleto. Este aditamento consta também no apógrafo
publicado por D. Caetano de Sousa[7], confirmando, com Ribeiro, que o manuscrito do
Porto foi feito antes desta data.
Não é caso único de interpolação, também no título 114 do livro quinto consta
um acrescento – que falta no manuscrito de Santarém – de D. Afonso V, depois de
concluída a compilação:

“E despois desta Hordenaçom acabada fez ElRey esta adiçom.


Hordenou ElRey Nosso Senhor, que em quanto em esta Ley se contem, que os
degredos da terra sejam mudados pera Cepta por meio tempo, e os açoutes sejam
mudados em degredo de dous annos, e isso meesmo as dividas dos que forem
presos sejam pagadas pelo soldo de Cepta, e os presos lá levados, &c. visto em
como ora nam he necessario la enviar mais gente da que he ordenada, o que era
ao tempo da feitura da dita Ley, que esta Ley se nom guarde por ora. Escripta a
vinte dias de Novembro de mil quatrocentos e cincoenta.”[8]

Daqui só podemos concluir que, para além de ordenações avulsas no fim dos
códices[9], se iam também acrescentando adições aos títulos originais das Afonsinas. A
propósito das ordenações avulsas: no livro II constam duas, uma datada entre 1451-
1461 (título 122), e outra de 5 de Março de 1450 (título 123); no livro IV constam quatro,
uma de 1 de Dezembro de 1451 (título 109), outra de 30 de Agosto de 1448 (título 110),
outra de 26 de Fevereiro de 1452 (título 111) e outra de 3 de Junho de 1452 (título 112);

1
IAN/TT – Maço 1 de Leis, n.º 177.
2
As Gavetas da Torre do Tombo, Centro de Estudos históricos Ultramarinos, Lisboa, 1962, vol. II, pp. 41-44.
MARQUES, Descobrimentos Portugueses, vol. III, doc. 71 e 72, pp. 96-101.
3
Idem, vol. III, p. 98.
4
Um fragmento, cfr. DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XII.
5
MARQUES, Descobrimentos Portugueses, vol. III, p. 97.
6
“posterior a 1483, dado que o rei se intitulava ‘Senhor de Guiné’” (DIAS, Introdução às Ordenações Ma-
nuelinas, p. XII).
7
SOUSA, Provas da História Genealógica, tomo III, pp. 405-406. A declaração neste caso aparece no final do título.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 114, §§ 8 e 9, p. 379.
9
No prólogo das Ordenações Manuelinas ficaram referidas as “ordenações por Reis nossos antecessores
feitas, assi das que estavam encorporadas como das extravagantes”.

120
José Domingues

no livro V constam duas, uma de 27 de Junho de 1449 (título 120) e outra de 27 de Maio
de 1454 (título 121)[1].
Mas este elenco não pode ser considerado exaustivo porque, antes de mais, faltam
as leis apensas depois de acabadas as cópias. Infelizmente nada sabemos de concreto
a este propósito, mas parece que a cópia do Porto teria sido feita entre o ano de 1454 e
1471[2]; na de Santarém, Merceana e Torre do Tombo faltam leis avulsas ou adições que
permitam qualquer tentativa de presunção.
Uma carta de 8 de Outubro de 1470, que impunha aos mercadores portugueses
de carregar em naus e navios estrangeiros haver-de-peso, açúcar, fruta e outras
mercadorias, excepto sal e cortiça, enquanto houver nos portos do reino naus e navios
portugueses que lhes exijam fretes iguais, é mandada “ao nosso chançarell moor
que faça proujcar esta carta na nossa chançalaria e faça rregistar no liuro das nosas
ordenações”[3]. E a lei de 31 de Agosto de 1474, pela qual se ordenava que ninguém
armasse navios para a Guiné nem levasse mercadorias proibidas, foi “Registada no livro
quinto”, conforme nota lançada no verso[4]. Deve ser o livro V das Ordenações, já que se
trata de uma lei de âmbito criminal. São duas conjunturas muito plausíveis de registo
posterior nos livros das Ordenações Afonsinas.
Nas datas supra-ditas as cópias conhecidas das Afonsinas já estariam concluídas.
Mas o que pensar do alvará com os privilégios dos desembargadores, datado de 12
de Novembro de 1450, e que de acordo com duas cartas régias – uma de 20 de Agosto
de 1486[5] e outra de 27 de Novembro de 1501[6] – devia estar no fim do “Livro 3.º, da
Reformaçam das nossas Ordenaçoens, que anda na nossa Chancellaria”. Faltando este alvará
nos exemplares do livro III da Merceana e da Torre do Tombo, os únicos que nos
restam, pode-se pensar que as cópias foram feitas antes de ser registado o alvará[7].
Mais enigmática ainda é a lei de D. Afonso V, de 20 de Setembro de 1447, que
atesta a observância das leis da amortização, exceptuando apenas os bens possuídos
antes da morte de D. João I. Esta lei é expressamente mandada registar no livro II – “E
Mandamos outro sy q Esta nossa Carta seJa Registada em fim do segundo liuro das nossas
hordenações”[8] – e foi aproveitada pelos redactores das Manuelinas[9]. No entanto,
também não consta em nenhuma das cópias conhecidas do livro II, sendo certo que
nesta data a cópia do Porto, pelo menos, ainda não estava conclusa.
Retomando o fio do regimento da guerra, ao tratar da reedição de 1984, Eduardo
Borges Nunes, ampliou os esteios documentais ao arrolar um códice cartáceo do livro
I, na Biblioteca da Ajuda, datado de 1455, com o regimento da guerra completo[10], “que
oferece o interesse de trazer algum eventual reforço à inclusão do Regimento da Guerra no livro
I das Ordenações”[11].

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 95, nota 290.
2
Ano da última lei avulsa (1454) e da adição ao regimento do almirante (1471) que, como acima se disse,
não consta nesta cópia.
3
MARQUES, Descobrimentos Portugueses, vol. III, doc. 58, p. 84.
4
IAN/TT – Maço 1 de Leis, n.º 178.
5
IAN/TT – Gaveta 14, maço 8, n.º23
6
IAN/TT – Corpo Cronológico, P. 1, maço 3, n.º74.
7
Cfr. RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 129. Que atribui o ano de
1521 ao documento de 1501.
8
Abel VIANA, “Livro do Tombo da Igreja de São João (pergamináceo quinhentista)”, Arquivo de Beja, Beja,
1945, vol. II, p. 150.
9
Ordenações Manuelinas, Liv. II, tít. 8, § 6.
10
NUNES, “Nota Textológica”, pp. 15-16.
11
COSTA, “Nota de Apresentação”, p. 10, nota 9.

121
As Ordenações Afonsinas Capítulo II: Compilação e Compiladores

Temos assim duas datas – 1455 e 1471 – em que o regimento da guerra fazia
parte do livro I. Ao certo sabemos também que foi excluído pelos primeiros autores
das Manuelinas, de 1512/13, e pelos sucessivos de 1514 e 1521. Mas será que Correia
da Silva tinha alguma razão ao supor que o regimento da guerra “não fosse obra dos
Compiladores do Codigo, para ter ahi lugar como parte delle”[1], antes se lhe viesse depois
a ajuntar?
Essa junção teria que ser anterior a 1455, mas estou convicto que o regimento
da guerra sempre fez parte do livro I. A tese de Correia da Silva já foi impugnada
por João Pedro Ribeiro, que na memória sobre as Ordenações Afonsinas, que deixou
manuscrita, alega:

“Na Prefacção deste Codigo na Impressão da Universidade se afirma que o Título


do Regimento da Guerra e os mais do Livro 1º não erão parte do mesmo Codigo;
mas o contrario se mostra da Hist. Genealog. Tomo 3º das Provas f. 323 aonde
no fim do Titulo do Almirante se acha huma declaração do Senhor D. Affonso 5º
de 13 de Agosto de 1471 mandada escrever no Livro de suas Ordenaçoens, e se
lançou portanto no fim daquele Titulo. Cuja declaração não vem nos Codigos que
existem, por serem anteriores as suas copias. O Original da mesma Declaração
de 13 de Agosto Ano 1471 se conserva no Real Archivo Maço 1º de Leys n.º 148.
Alem disso tenho encontrado Certidoens passadas dos mesmos Títulos, com o
preambulo de serem tirados do Livro 1º da Reformação das Ordenaçoens: tal a
de 27 de Agosto Ano 1447 do Titulo dos Alcaides mores / No mesmo Maço 1º de
Leys n.º 152/ atraz referida”[2]

Na certidão passada ao alcaide-mor de Santarém, Rui Borges de Sousa, datada de


27 de Agosto de 1447 – muito próxima da conclusão referida por Rui Fernandes, 28 de
Julho de 1446 – constam nada menos que quatro títulos transcritos do “primeiro liuro da
reformaçõ das hordenaçooees que andam em a nosa chamcelaria”, sendo o primeiro o título
dos alcaides-mores dos castelos[3] – título 62 – que se insere no cerne do regimento da
guerra. Quer isto dizer que nessa data, 27 de Agosto de 1447, o regimento da guerra
constava no livro I, não fazendo sentido a tese de que não foi trabalho dos compiladores
das Afonsinas.
Mas – a questão persiste – então, porque é que não foi incluído nos exemplares de
Santarém e Merceana? O facto de existirem dois códices do século XV truncados afasta
qualquer suposição de mera coincidência ou sequer de trabalho abandonado[4]. Terá
que existir uma explicação válida para esta incisão, mas, à distância de tantos séculos
e sem um apoio escrito avalizador, a sua demanda converte-se em tarefa conjectural
muito melindrosa e pouco gratificante.
De qualquer forma, à falta de melhor esclarecimento, a consideração que me
parece acusar a adição do compilador, no final do título 70, é a de que a maioria destes
regimentos se consideravam provisórios (à data da reforma das ordenações) e que, por
isso, em breve seriam revistos, actualizados e promulgados. Assim sendo, no momento
de efectuar cópias, o mais ponderado seria protelar essa tarefa para depois da sua
edição definitiva – talvez assim se compreenda melhor a intenção do compilador do

1
SILVA, “Prefação”, p. XV.
2
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 130.
3
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º 172, fls. 1-6v.
4
SILVA, Prefação, pp. xvi-xvii.

122
José Domingues

códice da Merceana ao colocar apenas o título “regimento da guerra”. Para apreciações


vindouras aqui fica aspada a adição do compilador afonsino do livro I:

“Os regimentos, que em este Livro som escriptos da Guerra, do Conde-stabre,


e do Marechal, e do Almirante, e do Capitam da Frota, e do Alferes, e do
Moordomo Moor, e dos Conselheiros, e do Meirinho, e do Apousentador Moor,
e dos Cavalleiros e dos Retos, Nós, por aqui serem scriptos, nom avemos de todo
por aprovados, nem lhe damos por ello maior autoridade daquello, que teem per
Cartas dos Reix, que ante Nós forom, ou por custumes, que continuadamente ata
ora usassem: e prazendo a Deos Nos entendemos ainda mandar poer os ditos
Regimentos na forma, que devem seer”[1]

Por outro lado, este acrescentamento parece creditar a ideia supra de que
os restantes regimentos do livro I foram actualizados com base em ordenações e
regimentos mais antigos.
Também não deixa de ser significativo que surjam tantos avulsos destes regimentos.
Para além dos já citados alcobacense e códice da Biblioteca da Ajuda e da certidão
publicada por Caetano de Sousa, localizam-se na Biblioteca Pública de Évora mais
dois exemplares. Um desses exemplares corresponde à cópia feita por Pedro Mariz no
início do século XVII. No outro consta a nota “Fr. António Soares Albergaria 300 Rs.”,
que inculca ter sido adquirido por este estudioso que viveu entre 1581 e 1639. Um
desses exemplares de Évora terá sido utilizado por Severim de Faria para transcrever
alguns trechos para a sua obra, editada em 1655[2].

1
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 70, p. 472.
2
Manuel Severim de FARIA, Notícias de Portugal, Lisboa, Na Officina Craesbeckiana, 1655. (2.ª Edição, com
introdução, actualização e notas de Francisco António Lourenço Vaz, Lisboa, 2003).

123
CAPÍTULO III

Conclusão e Divulgação

“E porque a principal virtude das Leys está na execução dellas, a qual sem
pratica de hordenado Juízo, não pode ser trazida à boa perfeição…”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Início]

“as Leyx, e Posturas dos Reyx, e Príncipes em vãao som postas, e feitas,
senom forem guardadas, e usadas, e aquelles, a que he cometido que as
façam guardar, e comprir segundo a letra, mudando ho entedimento, e
effeito dellas em engano, merecem aver pena;”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, tít. 22, § 16]
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 19, § 20]

A ssente, no capítulo anterior, que o processo compilatório das Afonsinas, ao contrá-


rio do que sempre se considerou e disse, não obedeceu a um único esboço pré-de-
finido, iniciado no reinado de D. João I e terminado na regência do infante D. Pedro[1],
mas antes a várias etapas progressivas, executadas por legisperitos da mais estreita
confiança do monarca, importa agora apurar, na medida do possível, a data definitiva
da conclusão dos trabalhos, da sua entrada em vigor e efectiva repercussão nas poste-
riores seis décadas e meia, até à primeira impressão das Manuelinas.
Esta questão, na opinião de Luís Miguel Duarte, “não tem merecido suficiente atenção
aos historiadores do direito, como se, terminada a compilação, o essencial fosse esclarecer a
respectiva génese e autoria, as autoridades citadas, a hierarquia das fontes subsidiárias
propostas, etc., postergando, por menos importantes, perguntas como estas: quantos exemplares
das Ordenações Afonsinas foram copiados? Por quem? Na totalidade ou em parte? A que ritmo
se fez a respectiva divulgação? Foram as O.A. efectivamente aplicadas? Tiveram vigência?
Durante quanto tempo?”[2]. Talvez daí a existência de resultados e respostas tão díspares,
como veremos.

1
Vide, por todos, o resumo em Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Rei e «Estado Real» nos textos legis-
lativos da Idade Média portuguesa”, in Carlos Alberto Ferreira de Almeida in memoriam, Faculdade de Letras
da Universidade do Porto, Porto, 1999, vol. I, p. 392: “O concretizar de uma primeira compilação de leis com
as OA, preparada ao longo de quase 30 anos (desde ca. 1418) concluídas em 1446 (…) Elaboradas, repito, ao
longo de quase três décadas, tendo apanhado pelo meio com duas sucessões régias (1433 e 1438)…”.
Idem, “Estado Moderno e Legislação régia”, p. 122: “A obra que o Dr. Rui Fernandes termina no mês de Julho de
1446 é pois o resultado de um longo processo de quase 30 anos, e de várias ‘mãos’ de organizadores”.
2
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 120-121.

125
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Apesar de ser a questão que mais interessa a este investigador, os avanços são
parcos, continuando a palmilhar o trilho dos que atenuam a divulgação e vigência
das Afonsinas, nomeadamente Marcello Caetano[1], Espinosa da Silva[2] e Carvalho
Homem[3] deixando no olvido opiniões como as de Oliveira Martins[4] e Mário Júlio de
Almeida e Costa[5], relevantes argumentos como os de Gama Barros[6], ou judiciosas
conclusões como as de Martim de Albuquerque[7] e perdendo-se em ilações pouco
fundamentadas documentalmente, por falta de consulta dos originais, baseando-se
apenas nos resumos de alguns capítulos de Cortes, cotejados no trabalho de tese de
Armindo de Sousa, conforme o próprio confessa[8].
De qualquer forma, uma resposta cabal a estas questões implicaria uma empresa
faraónica, investigando exaustivamente toda a documentação da época [1446-1512],
nomeadamente, todos os pesados volumes das Chancelarias de D. Afonso V, D. João II
e D. Manuel, os múltiplos capítulos de Cortes, bem como toda a documentação avulsa,
sobretudo jurídica, disseminada pelo Arquivo Nacional e pelos múltiplos arquivos do
país[9]. Por isso, também os documentos e resultados que aqui se apresentam não têm
qualquer pretensão de categóricos, sendo apenas a plausível incipiência do iceberg,
sempre susceptíveis a ulteriores achegas e mutações.

1. Conclusão e Revisão
A conclusão da reforma das ordenações está bem explícita no fim do seu último livro:

“Foi acabada esta obra em a Villa da Arruda aos vinte outo dias do mez de Julho,
Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil e quatrocentos e quarenta

1
CAETANO, História do Direito, pp. 534-535.
2
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações ao Tempo
de D. João II, Lisboa, 1981. Sep. do Boletim do Ministério da Justiça, n.º 309, p. 17.
Idem, História do Direito, 3.ª edição, p. 290.
3
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Ofício régio e serviço ao Rei em finais do século XV: Norma legal
e prática institucional”, Revista da Faculdade de Letras – História, série II, vol. 14, Porto, 1997, p. 127.
Idem, “Estado Moderno e Legislação régia”, p.123: “o facto de a obra, porque terminada no tempo da regência, ter
ficado porventura conotada com um governante militar e politicamente vencido e com os seus homens (por inexacto
que isto possa ser, tendo em conta o que atrás ficou escrito). Teríamos pois – repito – a novidade da recolha associada à
tradição do conteúdo e à ‘maldição’ de Alfarrobeira. Resultado: a vigência acabará por não ser longa nem plena”.
4
“As Ordenações foram a bíblia, o livro por excelência, da nova religião civil da monarquia.” [J. P. Oliveira
MARTINS, Os Filhos de D. João I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1891, pp. 307-308, citado por ALBUQUER-
QUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 43]
5
“De qualquer modo, cremos inexacta a tese esporádica que põe em causa a própria vigência das Ordena-
ções Afonsinas. A ampla difusão que alcançaram encontra-se indiciada pelos exemplares, embora truncados
ou parciais, que chegaram a nossos dias. Significaram as Ordenações Afonsinas um passo valioso na evo-
lução do direito português. Vistas em seu tempo, são uma obra que sustenta vitorioso confronto com as
codificações semelhantes de outros países. (…) Além disso, as Ordenações Afonsinas representam o suporte
da subsequente evolução do direito português” [Mário Júlio de Almeida COSTA, Nota de Apresentação,
Livro I das Ordenações Afonsinas, Fundação Calouste Gulbenkian, 1984, pp. 7-8].
6
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 135: “Não foi de longa duração a observancia d’este codigo
(…) mas existem provas incontestaveis de que elle esteve em vigor”.
7
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, Estudos de Cultura Portuguesa, Imprensa
Nacional Casa da Moeda, 2002, vol. III, pp. 43-63. [1.º edição in Biblos, vol. 69, 1993].
8
Vide, por exemplo, a nota 393, da pág. 129: “Seria interessante aqui conhecer integralmente a resposta;
não tive acesso às fontes, pelo que me limitei a trabalhar com a síntese de Armindo de Sousa”.
9
A maioria desta documentação ainda está inédita.

126
José Domingues

e seis annos, per o Doutor Ruy Fernandes, do Conselho do muito Alto, e muito
Excellente Princepy, e muito Poderoso Rey Dom Affonso o Quinto nosso Senhor,
ao qual foi primeiramente encommendada pelo muito Alto Princepy, e muito
excellente Senhor Rey Dom Eduarte seu Padre, de louvada e famosa memoria, e
depois de seu falicimento pelo muito famoso Princepy, e magnifico Senhor Infante
Dom Pedro, Duque de Coimbra, e Senhor de Monte Mor o Velho, em nome do
dito Senhor Rey Dom Affonso nosso Senhor, como seu Curador, e Regedor por
elle de seus Regnos, e Senhorio.”[1]

A data de 28 de Julho de 1446, exarada no final do livro V (tít. 119, § 31) não deixaria
réstia de dúvidas quanto à conclusão dos trabalhos, não fosse a concomitante referência
(no “proémio” do livro I) a uma revisão efectuada a expensas duma comissão composta
pelo próprio Doutor Rui Fernandes, pelo Doutor Lopo Vasques, corregedor da cidade
de Lisboa, e pelos desembargadores do Paço, Luís Martins e Fernão Rodrigues:

“e despois que polo dito Doutor foi compilada, ordenou o dito Senhor Regente, que
as ditas Hordenaçõoes, e Compilaçom fossem revistas, e examinadas per elle dito Doutor,
e per o Doutor Lopo Vaasques Corregedor da Cidade de Lixboa, e per Luiz Martins, e
Fernão Rodrigues do Desembargo do dito Senhor Rey, as quaees per elles forom vistas,
e examinadas, e em algumas partes reformadas pelo modo, que se segue”[2]

Desde os finais do século XVIII[3], na senda de Gama Barros[4], até Marcello Caetano,
se tem entendido que a data supra referida (28 de Julho de 1446) seria a da conclusão
do trabalho pessoal de Rui Fernandes, colocando em seguida o trabalho de averiguação
e aperfeiçoamento da comissão revisora[5]. O trabalho desta junta, continua Caetano,
teria sido feito até ao ano de 1447, argumentando com João Pedro Ribeiro e as certidões
passadas em 27 de Agosto de 1447 ao alcaide-mor de Santarém, Rui Borges de Sousa, e
em 6 de Dezembro de 1448 à Câmara do Porto, respectivamente. Mesmo assim parece
não estar completamente convicto da do começo da sua utilização em 1447 e faz notar que
alguns desses textos eram antigos e meramente compilados, acabando por concluir:

“Em resumo: sabemos quando Rui Fernandes terminou o seu trabalho pessoal de
compilação das Ordenações Afonsinas, podemos calcular a época em que se concluiu
a revisão pela comissão de jurisconsultos dela encarregada, mas é impossível com
os elementos existentes afirmar com segurança em que ano começou a ser utilizada
como compilação autêntica e, mais, em que época se tornou conhecida no país pelos
magistrados que haviam de aplicá-la, se é que chegou a sê-lo. (…) não haveria em
circulação outros exemplares ainda no último desses anos (1454)”[6]

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, § 31, pp. 404-405. O itálico é nosso.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Prólogo, § 2, p. 3. O itálico é nosso.
3
Francisco Coelho de Souza e SAMPAIO, Prelecções de Direito Patrio Publico e Particular, Coimbra, na Real
Imprensa da Universidade, 1793, p. 5. Este autor cita a data de 17 de Julho de 1446.
4
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 132: “”D. Pedro, regente na menoridade de Affonso V,
incitou o compilador a activar a conclusão da obra, que finalmente acabou na villa de Arruda a 28 de Julho
de 1446. Foi então submettida ao exame de uma junta…”.
5
Marcello CAETANO, Regimento dos oficiais das cidades, vilas e lugares destes reinos, (publicação e prefácio
da primeira lei impressa em Portugal). 1955: “a data de 1446 é, muito provavelmente, a da entrega do trabalho
de Rui Fernandes”.
CAETANO, História do Direito, p. 532: “Concluído o trabalho de Rui Fernandes e entregue em 1446”.
6
CAETANO, História do Direito, pp. 534-535.

127
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Este entendimento acabou por sedimentar, sendo acolhido por versados


investigadores subsequentes, nomeadamente, Mário Júlio de Almeida Costa[1], Nuno
Espinosa Gomes da Silva[2], Carvalho Homem[3] ou Luís Miguel Duarte[4].
Martim de Albuquerque vem contrariar esse parecer, entendendo que “o que o
Dr. Rui Fernandes claramente afirma, à distância de cinco livros, é que concluído o seu trabalho
de compilação, foi ele mandado rever («Proémio» do livro I) e que a obra ficou concluída em
Arruda aos 28 de Julho 1446 (fim do V livro, a que depois foram adicionados dois novos
títulos). Portanto, a ordenação sistemática impõe cronologia sequencial oposta à que Marcello
Caetano perfilhou”[5].
Enquanto não surja nova ajuda documental, ambas as teses, esteadas em meros
argumentos interpretativos, são sustentáveis. De qualquer forma, temos de convir
que, neste ponto, a de Martim de Albuquerque é bem mais coerente: se no “proémio”
do livro I se menciona o aperfeiçoamento por uma comissão revisora, o mais plausível
é que a data no final do livro V se refira à conclusão definitiva e não às “provas” de Rui
Fernandes. Com o que chegou aos nossos dias é completamente impossível apartar o
labor da comissão revisora, mas, nem que essa comissão se tenha limitado a certificar
o trabalho de Rui Fernandes, a data fundamental, para efeitos futuros, seria sempre a
da revisão e nunca a da compilação. Por isso, parece ciente que em 28 de Julho de 1446
a reforma das ordenações estaria, definitivamente, concluída, revista e pronta a usar.
O facto de sabermos o nome dos que fizeram parte dessa comissão é de muito
pouco préstimo, ou mesmo nenhum, para apuramento da data da revista. Luís
Martins surge, ligado ao desembargo régio, em ordenação do infante D. Duarte, sobre
tabeliães, publicada em Sintra a 23 de Julho de 1433[6], e em 28 de Junho de 1459 tinha
a sua residência fixa em Borba[7]. A actividade do seu homólogo, Fernão Rodrigues,
também de nada nos serve. Judite de Freitas adverte que “existem várias possibilidades
de homonímia”, admitindo que o revisor do texto afonsino seja o desembargador
aposentado em 1451, que aparece como lente na Universidade de Salamanca, em 1433,
Doutor em leis e titular do ofício de desembargador do paço e das petições, durante
a regência do infante D. Pedro[8]. Finalmente, o Doutor Lopo Vasques de Serpa, surge

1
Mário Júlio de Almeida COSTA, “Ordenações”, in Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Ser-
rão, vol. IV, p. 442: “Rui Fernandes, que só viria a concluir o seu trabalho aos 28 de Julho de 1446, na vila de Arruda.
(…) O projecto elaborado por João Mendes e Rui Fernandes foi seguidamente submetido a uma comissão revisora (…)
Desconhece-se o ano exacto em que a revisão ficou concluída”
Mário Júlio de Almeida COSTA, Temas de História do Direito, Coimbra, 1970, p. 61.
Mário Júlio de Almeida COSTA, Nota de Apresentação, Livro I das Ordenações Afonsinas, p. 6: “Também não
se ignora que o último [Rui Fernandes] concluiu o projecto em 28 de Julho de 1446, na «Villa da Arruda», depois do
que foi revisto por uma comissão de juristas cujos nomes igualmente se conhecem”.
2
SILVA, História do Direito, 3.ª edição, p. 271: “Efectivamente, Rui Fernandes veio a terminar a empresa, em Julho de
14446, após o que D. Pedro determinou que «as ditas Hordenaçõoes e Compilaçom fossem revistas, e examinadas per…»”.
3
HOMEM, “Rei e Estado Real nos Textos Legislativos da Idade Média Potuguesa”, p. 392: “concluídas em
1446 e presumidamente vigorando a partir de 1448”.
4
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 118: “Rui Fernandes dá o seu esforço por concluído a 28 de Julho de 1446. O
trabalho de revisão não pode ser datado de forma precisa”.
5
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 53. (1.º edição in Biblos, vol. LXIX,
1993, pp. 157-171).
6
Esta lei consta nas Ordenações de D. Duarte (pp. 645-646) com o ano de 1432, e nas Ordenações Afonsinas,
Livro I, Tít. 49, §§ 1-4, com o ano de 1433. A data correcta é a das Afonsinas, pois só nessa data a corte estava
em Sintra. [Cfr. MORENO, Os Itinerários de el-rei Dom João I, p. 379].
7
FREITAS, A Burocracia do “Eloquente”, p. 195. Esta autora situa a carreira desta personagem entre 1432-1445.
8
Judite Antonieta Gonçalves de FREITAS, Temos por bem e mandamos: a burocracia régia e os seus oficiais em
meados de quatrocentos (1439-1460), Porto, 1999, vol. II, p. 82 (Dissertação de Doutoramento em História da

128
José Domingues

como corregedor de Lisboa no ano de 1443, em documento de 29 de Maio, onde o


infante lhe pede para averiguar se no tempo de D. João I e D. Fernando os moedeiros
de Lisboa tinham privilégio de não serem constrangidos a servir em obras de pontes,
fontes, calçadas e muros[1]. No início do ano de 1448 (8 de Janeiro), ainda como
corregedor de Lisboa, manda trasladar o testamento de Diogo Afonso Mangacha, a
requerimento da viúva Maria Dias[2].

2. Difusão das Leis


Concluída e revista a obra, ainda em 1446, o monarca tinha à mão um imponente
instrumento centralizador, que reunia a maioria das leis gerais, revistas e actualiza-
das, desde as recuadas Cortes coimbrãs de 1211 até essa actualidade. Mas a dita obra
legislativa, como qualquer outra, por mais relevante e colossal que seja para a época
em que se insere, torna-se vã e praticamente escusada se não preencher o derradeiro
escopo para que foi preparada – a publicitação e efectiva aplicação nos diversos foros
judiciais do reino. Ou seja, tornava-se fundamental difundir o conhecimento da colec-
tânea por todo o reino, sobretudo perante os oficiais da justiça, que tinham a obriga-
ção de zelar pelo cumprimento da lei régia. Mas essa difusão não se apresenta tarefa
branda: os préstimos da imprensa ainda estavam longínquos, as cópias manuscritas
eram demasiado expensivas e morosas, as comunicações viárias fatigantes, o analfabe-
tismo grassava nas magistraturas locais, a preponderância dos usos e costumes, forais
antigos, e privilégios locais era um obstáculo de peso, etc… Por isso, grandes mestres
investigadores, como Marcello Caetano, Nuno Espinosa Gomes da Silva e Luís Miguel
Duarte, entre outros, pleiteiam uma lenta difusão da colectânea afonsina.
A falta, até à data, de qualquer referência documental expressa a um acto oficial e
solene de promulgação das Ordenações Afonsinas[3] impõe, com as devidas precauções,
o recurso ao processo analógico da publicação para as leis gerais. Como seriam, então,
publicadas as leis em Portugal, durante o período tardo-medieval?
Conforme pleiteia Gama Barros [4], secundado por Marcelo Caetano[5], nestas eras
ainda não existe um processo certo e determinado quanto à publicação das leis gerais.
Por exemplo, os traslados das respostas aos artigos gerais dos concelhos, apresentados
em Cortes, deviam ser solicitados, na Chancelaria, pelos próprios interessados, pagando
o respectivo custo[6]. Do mesmo modo, existem casos concretos de concelhos, e até
individualidades, a pedir cópias de ordenações. As cópias solicitadas pelos concelhos

Idade Média apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto).


1
Damião PERES, História dos Moedeiros de Lisboa como Classe Privilegiada, Academia Portuguesa de História,
Lisboa, 1954, tomo I, Privilégios, doc. 27, p. 144.
Vide a sua biografia em FREITAS, Temos por bem e mandamos, vol. II, pp. 170-174. Que o refere como Doutor
em documento de 26 de Janeiro de 1446 e como corregedor de Lisboa em documento de 3 de Agosto de 1444.
Segundo esta investigadora, em 1449 já estaria a desempenhar as funções de desembargador das petições.
2
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, Tomo II, doc. 16, p. 257.
3
Essa formalidade surge, pela primeira vez, nas Manuelinas de 1514.
4
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 137: “Não havia sobre a publicação uma regra invariável”.
5
CAETANO, História do Direito, p. 534: “não existia ao tempo regra definida ou prática certa sobre o modo de
tornar conhecidas as leis e de dar solene início à sua vigência”.
6
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 137: “Os procuradores dos concelhos em cortes costuma-
vam pedir copia, que pagavam, d’aquellas resoluções em que tinham algum interesse”.
CAETANO, História do Direito, pp. 345-346.
SOUSA, Cortes Medievais, vol. I, pp. 480-481.

129
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

estão bem patentes nos exemplares que, ainda hoje, perseveram nos seus arquivos.
A título de exemplo, o concelho de Ponte de Lima por “seus procuradores nos pidio por
mercee que lhe mandasemos dar o trellado della” – refere-se à lei de D. João I, que estava
no livro IV das Afonsinas, contra os que se valiam de cartas ardilosamente assinadas e
autenticadas sem passar pelas câmaras dos concelhos[1].
Caso invulgar de publicação aparece nas costas do pergaminho com uma ordenação,
dos alvores do reinado de D. João I, sobre os leigos que tomam posse dos benefícios quando
vagam. Trata-se das determinações das Cortes de Évora de 1391, em documento de 7 de
Julho de 1423, para lindar as violências dos leigos contra as instituições eclesiásticas[2].
Quem se encarrega da publicação da ordenação régia, no espaço territorial da sua
arquidiocese, é o próprio arcebispo de Braga – D. Fernando da Guerra. Para tal, munido
da ordenação, devidamente selada[3], vai ao encontro dos representantes directos da
justiça real nas comarcas de Trás-os-Montes e Entre‑Douro‑e‑Minho, que integravam
a sua arquidiocese. No dia 3 de Dezembro de 1430, reúne, entre outras testemunhas,
com o regedor da justiça de Entre-Douro-e-Minho, Aires Gomes da Silva, no mosteiro
de Travanca, em Santa Cruz de Riba Tâmega, e no dia seguinte, 4 de Dezembro, em
Amarante, com o corregedor de Trás-os-Montes, Diogo Afonso[4]. Ambos lavram um
assento de publicação, garantindo cumprir e mandar cumprir a ordenação na respectiva
correição, nas costas do pergaminho bracarense[5]. Esta ordenação, com data de 14 de
Fevereiro de 1391, foi, posteriormente, transcrita nas Ordenações Afonsinas[6].
E não se trata de caso isolado. A ordenação, de 10 de Abril de 1436, proibindo
as vigílias e dormidas em igrejas, mosteiros, ermidas e oratórios, para obstar aos
jogos, tangeres e cantares que neles se faziam, dificultando o ofício divino e as orações
dos bons cristãos, foi passada a pedido de frei Fernando (confessor do rei), que a
apresentou, no dia 18 de Abril de 1436, nos paços do concelho de Évora[7]. Também
a resposta de D. Dinis aos agravamentos que os bispos do Porto, Guarda, Lamego
e Viseu diziam lhe serem feitos no reino, foi publicada no claustro de Braga, pelo
cónego Estêvão Miguel, a 16 de Setembro de 1294, perante Lourenço Eanes, público
tabelião de Braga[8]. O monarca dirige a carta – 23 de Agosto de 1292, Porto – à Igreja
de Braga e a sua publicação, passados dois anos, parece ter sido ditada pela sucessão
arquiepiscopal de D. Fr. Telo por D. Martinho Pires de Oliveira.
Confirma-se, desta forma, uma tentativa de divulgação da lei por particulares
interessados no seu cumprimento – as instituições (nas conjunturas supra, eclesiásticas)
que podem obter vantagens com a aplicação, preocupam-se também com a efectiva
divulgação da lei. Neste sentido se poderá inserir a notificação ex oficio do próprio
monarca apenas aos respectivos interessados: “mas quando a lei não interessava a
todos, bastaria o registo no cartório da entidade que devia aplicá-la ou a entrega de cópias aos
interessados feita oficiosamente”[9].

1
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º28.
2
Para a “acção defensiva dos mosteiros e igrejas, conduzida pelos arcebispos de Braga” vide José MARQUES, A Ar-
quidiocese de Braga no Séc. XV, Temas portugueses, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988, pp. 635-640.
3
Ainda consta o selo pendente de cera, com as armas régias.
4
José MARQUES, Os itinerários do Arcebispo de Braga D. Fernando da Guerra: 1417-1467, sep. da Revista de
História, Centro de História da Universidade do Porto, Porto, 1978.
5
Braga, AD – Colecção Cronológica, n.º1042.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 16.
7
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, Vol. II, p. 54 (Edição fac-similada da INCM, 1998).
8
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. n.º144.
Braga, AD – Livro das Cadeias, doc. 95, fls. 57-57v.
9
CAETANO, História do Direito, p. 345.

130
José Domingues

Quer isto dizer que, numa época conturbada em que ainda não existe a imprensa,
não admira que todos os meios de divulgação sejam válidos e até se convertam numa
receita válida para o erário régio. Por outro lado, é natural que se aproveite a reunião
de Cortes – com a presença de múltiplos jurisperitos e dos representantes do clero,
da nobreza e dos concelhos – para a publicação de preceitos normativos[1]. Mas a
prodigalidade das excepções não impede que, paralelamente, exista um processamento
genérico de publicação, preceituado pelo próprio monarca. Caso contrário, se as leis
dependessem apenas daqueles que as solicitassem, podendo cada um escolher as que
mais lhe conviessem, ou da notificação do soberano, deixaria de fazer qualquer sentido
a própria feitura de leis gerais, dirigidas a todos os membros da ordem jurídica e com
o propósito de, em abstracto, disciplinar um número indeterminado de situações.
O entendimento deste processo tem sido relatado de uma forma bastante
lacónica[2], por isso, convém esclarecer alguns critérios orientadores. Na Idade Média,
a publicação ou primeiro instante da vida de uma lei é feita de duas formas – oral
e escrita – e em dois espaços territoriais distintos – na corte e no resto do reino. Por
outras palavras, a primeira formalidade era a publicação, oral e escrita, no âmbito da
corte e, em seguida, a publicação, também oral e escrita, pelos diversos lugares do
reino. A publicitação oral, de uma relevância extrema, levando em conta o coetâneo
analfabetismo e a distância de décadas da imprensa, tem sido assaz esquecida pela
nossa historiografia medieva.

Publicação na Corte
Antes da difusão pelos diversos cantos do reino, qualquer lei medieva impunha
a sua publicação no âmbito restrito da corte, ou local onde esta se encontrasse. Em
princípio, o primeiro momento de vida da ordenação régia parece ser a sua publicação
em audiência de algum alto magistrado da Corte[3].
Desde o reinado de D. Dinis, pelo menos, que as leis eram lidas em audiência,
para que depois se não alegasse ignorância. A lei de 19 de Março de 1317, sobre as
apelações que saem das terras dos fidalgos, foi “leúda, e pubricada na Corte d’ElRey nas
suas Audiencias perante os Sobre-Juizes, e Ouvidores”[4]. Em carta régia, de 28 de Maio de
1322, sobre jurisdição nas terras das ordens, determinou aos tabeliães que a registassem
nos seus livros e a lessem perante as justiças das terras uma vez no mês até um ano e
“en testemunyo desto mandei ende fazer esta Carta; e figia leer pelas mhas Audiencias”[5].
Ainda no tempo dionisino regista-se o caso inusitado da carta régia de 1 de Janeiro
de 1294, sobre o testemunho de cristão contra judeu, que, apesar de ser guardada em
todo o senhorio, não se guardava nas audiências da corte. Provendo o monarca nesse
sentido, foi lida e publicada na audiência da corte, em Santarém, a 22 de Julho de 1324,
quase 30 anos depois da sua génese: “e disserom-me, que esta carta que lha aguardavão
em todo meu Senhorio, e que lha nom queriam guardar nas minhas audiencias: porque tenho

1
Por exemplo, o acervo de leis publicado em 1340, durante as cortes de Santarém.
2
Embora para uma época e espaço territorial distinto, registe-se a excepção de Martim de ALBUQUERQUE,
“A Aplicação das Leis no Ultramar Durante o Antigo Regime”, Estudos de Cultura Portuguesa, vol. 3, Lisboa,
2002, pp. 95-108, que, apesar de tudo, apresenta flagrantes similitudes com o processamento medieval.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 124-125.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 74, § 5, pp. 292-293.
5
João Pedro RIBEIRO, Memorias para a historia das inquirições dos primeiros reinados de Portugal, colligidas
pelos discipulos da aula de Diplomatica no ano de 1814 para 1815, debaixo da direcção dos lentes proprietario, e
substituto da mesma aula, Lisboa, na Impressão Regia, 1815, doc. 40, p. 117.

131
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

por bem, e mando, que a dita minha carta seja guardada tambem nas audiencias, como
em todo meu Senhorio, assy como em ella he contheudo; a qual carta logo foi leúda, e
publicada em Santarem nas minhas audiencias aos vinte e dois dias de Julho Era de mil e
trezentos e sessenta e dois annos perante o meu Sobre-Juiz, e perante os meus Ouvidores
da minha Corte”[1]. Fica, de certo modo, debilitada a ideia supra de que a publicação
começava pela corte, estendendo-se depois ao senhorio. Mas o que parece mais lógico
é que já tivesse sido publicada, só que não se cumpria, por isso, se tornou necessário
insistir na sua leitura em audiência.
No reinado do seu filho sucessor, Afonso IV, intensifica-se a leitura em audiências
da corte, mas agora presidida pelo seu chanceler, ou o Vezes Tenente de Chanceller, ou
pelo escrivão da Chancelaria, com a presença assídua de dois conceituados jurisperitos,
mestre Pedro e mestre Gonçalo das Leis[2]. Um conjunto de leis foram publicadas no
dia 1 de Julho de 1340, sábado, em Lisboa, “per Pedro do sem chanceller delRey presentes
Meestre pedro e Meestre gonçalo das leys e outros muytos da mercee delRey e gram peça de poboo
do seu senhorio”[3]. Repete-se a publicação (pelo menos para algumas) na “Era de mil e
trezentos e Outeenta anos dez e sex diax de Janeyro em Coymbra forom pobricadas estas lex pelas
audiençias da Corte as quaes publicou afonsse anes escriuam da Chancelaria per mandado del
Rey”[4]. As medidas para obviar a situação das mulheres que desbaratam os seus bens
após a morte dos maridos, de 14 de Julho de 1343: “publicada foi esta Ley em Santarem
per Meestre Gonçalo, e Joham Durãaes Vezes Tenente de Chanceller, Vassallos, e privados
do dito Senhor Rey”[5]. Outra lei de 1343, sobre as querelas dos clérigos contra os leigos,
foi “pubricada em lixboa nas audiançias per meestre Pedro E per meestre gonçallo das leJs
uasallos del Rey na Era de Lxxxj anos”[6]. Um conjunto de disposições sobre porteiros e
sacadores das dívidas “forom pobricadas em santarem so o alpender de sam domjngos
hu fazem a feira biij dias d’abrill Era de mjll E iijc Lxxxiij annos presentes dom aluaro prioll
do espritall E meestre Pedro E meestre gonçallo das leijs uasallos del rrej E Joham durãeez teente
uezes de chançeller E todos os ouujdores E sobreJuizes E homens boons E outros mujtos”[7]. No
mesmo sentido, em lei de 13 de Dezembro de 1347 – dos que levam cousas defesas para
fora do reino – D. Afonso IV, em Coimbra, ordena “E por nom averem razom de dizer, que
esta minha Carta e defeza nom sabiam, ha mandei pubricar nas Audiencias”[8].
Para o imediato reinado do Justiceiro, só me foi possível situar a publicação de
uma lei, feita em Évora a 7 de Fevereiro de 1359, perante um incipiente magistrado,
o corregedor da corte, e seu ouvidor – “perante Lourenço Gonçalves Corregedor da
Caza d’ElRey[9], e Affonso Annes d’Alemquer, seu Ouvidor, sendo em Audiencia
com muitas outras companhias, foi pubricada esta Ordenaçam. E eu Joam Martins
esto escrepvi”[10]. A magistratura palaciana, do corregedor da corte, aparece referida
pela primeira vez, neste reinado, em documento de 1357. Esta singularidade não
permite uma generalização a todo o reinado de D. Pedro I, mas, como veremos, será

1
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 88, § 6, pp. 504-505
2
Estes dois letrados também se destacam na feitura de leis [HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 27].
3
Livro das Leis e Posturas, p. 328.
4
Livro das Leis e Posturas, p. 405.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 15, § 1, p. 85.
6
Ordenações de D. Duarte, p. 348.
7
Ordenações de D. Duarte, pp. 481-489. Esta publicação falta nas Ordenações Afonsinas (Liv. II, Tít. 53).
8
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 47, p. 173.
9
Lourenço Gonçalves desempenhou esta magistratura de 1357 a 1369 [Cfr. HOMEM, O Desembargo Régio,
p. 470].
10
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 109, § 2, p. 394.

132
José Domingues

maioritariamente nas audiências destes magistrados que se fará a publicação de leis


no reinado de D. João I.
A corregedoria vai sentir um acentuado declínio no reinado de D. Fernando, que,
logo no começo, implantou novamente a magistratura dos meirinhos-mores[1]. Por
carta de 6 de Março de 1367, passada em Santarém, nomeou João Lourenço do Buval,
seu vassalo, para “meyrjnho moor por ElRey Antre doiro e minho”, em lugar do corregedor
Gonçalo Peres, com faculdade de pôr ouvidor em seu lugar para desembargar os feitos
da correição[2].
Embora não saiba de nenhum bulício contra esta nomeação do Formoso, não deve
ter sido pacificamente aceite, sentindo-se, por isso, o monarca compelido a nomear
Domingos Peres, no final do ano de 1369, corregedor para os julgados do termo do
Porto[3]. As queixas agudizam-se e atestam-se nas Cortes de Lisboa de 1371: queixam-se
os procuradores dos concelhos de que D. Fernando punha pelas comarcas meirinhos,
que eram grandes fidalgos e traziam consigo grande comitiva de gente, e não aplicavam
direito como deviam – “os quaes mjlhor sseeria dicto estragadores que nom corregedores”.
Pelo que pedem ao rei que os extinga e ponha corregedores como dantes[4]. O monarca
não acede, achando que os meirinhos eram indispensáveis[5], mas, em contrapartida,
continua a nomear corregedores, acomodando as duas magistraturas no espaço
territorial da mesma comarca[6] e referindo-as, em simultâneo, nos seus diplomas[7].
Este detrimento da corregedoria das comarcas, verosimilmente, fez-se sentir
também na da corte, por isso, a publicação das ordenações é feita perante outras
individualidades, nomeadamente, o chanceler Lourenço Eanes Fogaça e Afonso

1
Marcello CAETANO, A Administração municipal de Lisboa durante a 1.ª dinastia (1179-1383), Academia Por-
tuguesa de História, Lisboa, 2.ª edição, 1981, p. 104: “D. Fernando de resto reforçou em todo o País o prestí-
gio e a autoridade dos seus representantes regionais, enviando meirinhos fidalgos quando lhe parecia que
os corregedores letrados não se impunham suficientemente”.
2
Porto, AHM – Livro 2º de Pergaminhos, doc. 21.
3
Porto, AHM – Livro 2.º de Pergaminhos, doc. 32.
Porto, AHM – Livro A, fls. 47v-48v.
4
Cortes Reinado de D. Fernando (1367-1383), Lisboa, 1990, p. 45.
5
“A este arrtigo rrespondemos e djzemos que per rrazom desta guerra que ouuemos muijtos do noso Se-
nhorio ffezerom mujtos malefiçios e outros maaes os quaes nom eram correjudos porque alguus daqueles
que os ffezerom eram taaes pessoas que os Jujzes das vilas e logares nom poderom nem sse atreuerom
de fazer direito nem outrosij os corregedores ssegundo fomos çertos E porem nos por bem da nosa terra
posemos em alguus logares meirinhos fidalgos que teem mjlhor postudo cõmo esto posam correger e rre-
frear ao adeante que se nom faça E depois que a terra ffor assesegada cõmo compre nos faremos aquelo
que entendermos por mais noso seruiço e prol dos nosos naturaaes E quando ese meirinho fezer em seu
ofiçio o que nom deue ou oijdor ou os seus homens fica a nos logar de o correger e estranhar pela guisa que
deuemos E no ffeijto Couber” [Cortes Reinado de D. Fernando, p. 45].
6
Na comarca de Entre-Douro-e-Minho são meirinhos-mores João Lourenço Buval [1367-1369] e Lopo Go-
mes de Lira [1372-1382] e corregedores Gonçalo Peres [1366-1369], Domingos Peres [1369-1371] e Gil Eanes
[1373-1374]
Na comarca da Beira aparece como meirinho Vasco Fernandes Coutinho [1375-1383] e como corregedores
Gonçalo Eanes [1375] e Diogo Gil [1383].
Na comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana só consegui identificar o meirinho-mor Álvaro Gonçalves de Moura
[1376].
Na comarca do Algarve é meirinho-mor Vasco Martins de Melo [1377-1382] e corregedores Lourenço Gil
[1372] e Vasco Gil [1383].
Na comarca da Estremadura, aparece como corregedor Geraldo Eanes [1371 e 1383].
Na comarca de Trás-os-Montes, o meirinho-mor é João Rodrigues de Portocarreiro [1376-1377].
7
Nomeadamente, a lei sobre jurisdições, publicada em Atouguia, em Setembro de 1375 [Ordenações Afonsi-
nas, Liv. II, Tít. 63, §§ 11-12]; a lei, sem data, contra as malfeitorias dos fidalgos nas terras por onde transi-
tavam [Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 60, §§ 9 e 16-19].

133
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Domingues, do seu conselho, ou Gil Eanes, sobrejuiz na Casa do Civil[1]. A lei do


que vive com senhor a bem fazer e se parte dele sem sua vontade foi publicada em
Salvaterra de Magos, no dia 24 de Abril de 1374, “a soo alpendere dos Paços d’ElRey,
aa porta dos ditos Paaços, que estão contra o Levante, Affonso Domingues do Conselho
do dito Senhor Rey, e Lourenço Annes Fogaça seu Chanceller provicarom em presença
de mim dito Tabelliom estas Hordenaçõoes, escriptas em papel per mãao do dito
Affonso Domingues; as quaees Hordenaçõoes, que assy provicarom, dizião, que era
per mandado do dito Senhor Rey”[2]. A lei de como os mercadores estrangeiros devem
comprar e vender as suas mercadorias foi publicada em Santarém, a 26 de Maio de 1375
“presente Affonso Domingues, e Vaasquo Gonçalves Vassallos d’ElRey, e do seu Concelho, e
de Gil Eannes Vassallo, e Sobre Juiz d’ElRey na Casa do Civil, que entom tinha o seello da
dita Casa, e Joham Lourenço Vassallo d’ElRey, e Juiz por elle na dita Villa, e Gonçalo
Domingues, Procurador do dito Concelho, e presentes outros muitos homeens boons,
que pera esto forom chamados, e juntos no alpendere do Moeesteirode São Domingos,
forom poblicadas, e leudas per mim Gonçalo Pires Escripvão da Chancellaria estas
Hordenaçõoes suso escriptas. E logo polo dito Affonso Domingues foi mandado da
parte do dito Senhor com acordo dos Vereadores, e homeens boons da dita Villa, que
pozessem homeens boons, e eixecutores certos para fazerem cumprir estas cousas, que
nas ditas Hordenaçõoes som contheudas, e pelo dito Senhor he mandado; e que esse
Juiz as fezesse cumprir e guardar em todo sob as penas em ellas contheudas”[3]. A lei
das provas que se devem fazer por escritura, foi publicada em Lisboa, na alcáçova,
nos paços de el-rei, onde faziam a audiência do crime, a 12 de Setembro de 1379,
estando presentes “Lourenço Annes Foguaça Chanceller, e Gonçalo Martins, e Gomes Annes
Ouvidores do Crime, e Gonçalo Annes, e Lourenço Esteves, Sobre-Juizes em a Corte do dito
Senhor, e outros muitos homeens da Corte, e da dita Cidade, e doutras partes do Regno”[4].
Esta lei das provas, com uma adição de D. João I, foi novamente publicada, em
simultâneo com outra lei de D. Fernando, sem data, sobre as arrematações[5], no dia 22 de
Maio de 1406, em Santarém “honde pousava ElRey nos Paços do Arcebispo de Lisboa,
que estam fora da Villa. Alvaro Gonçalves Chanceller Moor do dito Senhor a fez, e mandou
pubricar estas Hordenaçoeens aqui escriptas, as quaees logo forão pubricadas, e leudas
perante elle, e perante Fernam Rodrigues Mestre da Cavallaria d’Aviz, e os Doutores
Gomes Martins Juiz dos Feitos d’ElRey, e Lançarote Esteves, isso mesmo Doutor, e
presente os Licenciados Fernam Gonçalves, e Vasquo Gil de Pedroso do Desembarguo
do dito Senhor, e Rodriguo Annes Ouvidor da Raynha, e outros muitos boõs homeens,
que hi presentes estavam. A qual publicaçam o dito Chamceller mandou a mim Joham
Fernandes Escripvam do dito Senhor, que o escrepvesse”[6]. A adição de D. Duarte à lei
das provas foi publicada em Estremoz, a 20 de Janeiro de 1436/37[7].
O caso supra é uma excepção, porque no reinado de D. João I, a publicação de
ordenações que consegui inventariar são, maioritariamente, feitas, como ficou dito,

1
Gil Eanes será corregedor da corte entre 1377-1383 e 1391-1401 [HOMEM, O Desembargo Régio, p. 470] e
perante ele será publicada uma ordenação, mas já no reinado de D. João I.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 26, § 9, p. 122.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 4, § 8, pp. 49-50.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 64, § 23, pp. 231-232.
5
Esta lei fernandina faz referência expressa à publicação na corte.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 64, § 19, pp. 229-230.
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 106, § 5, p. 387. Esta lei é de D. Fernando, mas a publicação é do reinado
de D. João I, que, aos menos prevenidos, poderia parecer erro de data.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 64, § 28, p. 234.

134
José Domingues

nas audiências do corregedor da corte. Por exemplo, a lei que proíbe certas pessoas de
andarem em bestas muares, foi publicada em Tentúgal, no alpendre da albergaria de S.
Domingos, a 29 de Março de 1395, “em audiencia perante Gil Annes Corregedor da Corte
d’ElRey”[1]. Outra, para que não aforrem nem arrendem por ouro nem prata senão pela
moeda geral corrente no reino, foi publicada, a 9 de Fevereiro de 1402, “per Johane
Meendes Corregedor em a Corte d’ElRey, que sya em audiencia ouvindo os feitos, em
Monte Mor o Novo”[2]. A 8 de Fevereiro de 1409, sobre a valia das moedas, é feita em
Lisboa, “seendo hy Johane Meendes Corregedor na Corte d’ElRey em audiencia ouvindo
os feitos”[3]. Finalmente, a ordenação sobre os foros e arrendamentos que foram feitos
por moeda antiga, foi publicada em Óbidos “per Johane Meendes Corregedor da Corte
d’ElRey a quatorze dias d’Agosto anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo
de mil e quatrocentos e vinte e dous annos”[4].
Saliente-se que esta última ordenação já está datada pelo ano do Nascimento de
Nosso Senhor Jesus Cristo, quando é sabido que a ordenação da mudança da era de
César, para o ano de Cristo, foi publicada – “na Cidade de Lixboa per mim Filippe
Affonso nos Paaços d’ElRey, perante Diego Affonso Ouvidor em sua Corte, que sya em
audiencia” – passado oito dias, no dia 22 de Agosto desse ano de 1422[5]. Assim sendo,
o mais plausível é que, esta do dia 22, seja uma segunda publicação e que já tivesse
sido publicada ou, pelo menos, elaborada em Óbidos, no dia 14, a ordenação da era
nova[6]. Só os documentos feitos no espaço temporal destes oito dias [14 a 22 de Agosto]
o poderão confirmar ou infirmar.
A ordenação sobre as vestimentas dos tabeliães régios foi publicada em Sintra,
presente o chanceler-mor Doutor Rui Fernandes, a 23 de Julho de 1433: “foy pobricada
a hordenaçam Suso esprita em syntra em a praça da dita villa presente o doutor Ruy fernandez
çhançeler moor deL Rey E presente luís martijnz do desenbargo do dito Senhor E presente os
Juízes E ofiçiaes da dita villa de syntra E presente outras muitas gentes que hy estauam aos
xxiij dias do mes de Julho E logo o Juiz da dita villa pedyo o trelado pera o teer por rregimento
do dito concelho E o dito chanceler lho mandou dar E Eu Joham esteuez esto espriuy Era do
naçimento de noso Senhor Jesu Cristo de mjll E iiijc xxxij anos”[7]. Apesar de nas Ordenações
de D. Duarte constar o ano de 1432, correcto é o ano de 1433, conforme consta nas
Afonsinas[8]. Só em 23 de Julho desse ano (1433) a corte estava em Sintra; em Julho de
1432 estanciava em Santarém[9].
De qualquer forma, parece que a tradição de publicar as leis nas audiências do
corregedor da corte se prolonga pelos reinados sucessivos. A ordenação, dos que foram
à batalha de Alfarrobeira, foi publicada duas vezes, no espaço de três dias: primeiro no
final da audiência do juiz dos feitos de el-rei, pelo escrivão Afonso Eanes[10]; e depois,

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, § 16, p. 399.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 2, §§ 10-11, p. 37.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 1, § 27, p. 15.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 1, § 57, p. 27.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 1, § 59, pp. 27-28.
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 66, § 2, p. 234.
6
Palavras do tabelião da terra da Feira, Gonçalo Eanes, em instrumento de 15 de Setembro de 1423 [Braga,
AD – Colecção Cronológica, doc. 1059].
7
Ordenações de D. Duarte, pp. 645-646.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 49, §§ 1-4.
9
MORENO, Os Itinerários de el-rei Dom João I, pp. 381 e 379.
10
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 120, § 3, pp. 408-409.

135
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

“aa entrada da audiencia do Corregedor da Corte d’ElRey”[1]. Outra ordenação de D.


Afonso V, sobre a paga de ouro e prata que é emprestada, foi publicada na “Cidade de
Lisboa, no Alpendre da feira da dita Cidade, aos quatro dias do mez de Fevereiro, Era
de mil e quatro centos e cincoenta e dous annos, perante Pero Carreiro Ouvidor d’ElRey,
e loguo Teente do Corregedor de sua Corte, fazendo audiencia, e perante Diego da Silva
Fidalgo da Casa do dito senhor, e perante Pero Migues, e perante Joham d’Olivença, e
Gil Rodrigues, e Lopo Rodrigues, e todolos outros Escripvãaes”[2]. Nesse ano de 1452,
no dia 3 de Junho, foi publicada outra lei em Évora “em Audiencia per Alvaro Peres
Vieira Corregedor da Corte do dito Senhor”[3].
Posto isto, passemos ao outro momento da publicação na corte, que é o registo
escrito nos respectivos livros da Chancelaria, que, para Marcello Caetano constitui a
primeira formalidade de publicação[4]. Apesar de aqui tratado em segundo lugar, não quer
dizer que, obrigatoriamente, este momento tenha que ser posterior ao da publicação
oral. Na verdade, não encontro qualquer indício que, com segurança, me permita uma
conclusão segura, por isso, a ordem que sigo é meramente de arrumação da matéria –
parece a mais lógica e também a seguida por Martim de Albuquerque[5].
Em Portugal, a prática de registar os mais importantes diplomas régios nos livros
da Chancelaria, inicia-se já com D. Afonso II, no final do primeiro quartel do século
XIII[6], consolidando-se a partir de Afonso III[7]. Pelo que não me parece demasiado
arriscado preconizar, também para essas eras, os primórdios do registo das leis
emitidas pelo monarca[8]. A presente falta de muitas leis na Chancelaria é facilmente
explicável com o copioso desaparecimento dos seus livros, ou fólios de alguns, e com
a reforma da Leitura Nova.
A lei mental é um caso deveras curioso e intrigante que, apesar de documentada
a sua vigência desde os princípios do reinado de D. João I[9], só foi registada em livro
da Chancelaria no reinado de D. Duarte – “Dom Eduarte pella graça de Deus Rey de
portugall e do Algarue e Senhor de Cepta a quantos esto uirem fazemos saber que
conssyrando nos em como ElRey meu Senhor e padre cuja alma Deus aja auia feta
huã ley em sua uoontade sobre as terras da coroa do Regno A quall ataa gora nunca
fora pobricada nem scripta E por esta rrazom sse mettiam sobre ella mujtas duujdas
e contendas em nossa corte”[10]. Antes de mais saliente-se que, ao que tudo indica,

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 120, § 4, p. 409.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 109, § 7, p. 402.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 112, § 9, p. 409.
4
CAETANO, História do Direito, p. 345. Note-se, no entanto, que este autor não faz qualquer alusão à pu-
blicação oral nas audiências da corte.
5
Martim de ALBUQUERQUE, “A Aplicação das Leis no Ultramar Durante o Antigo Regime”, Estudos de
Cultura Portuguesa, vol. 3, Lisboa, 2002, pp. 102-103
6
Rui Pinto de AZEVEDO, “O Livro de Registo da Chancelaria de D. Afonso II de Portugal (1217-1221)”,
Anuario de Estudios Medievales, n.º4, Barcelona, 1967, pp. 35-73.
7
CAETANO, História do Direito, p. 357.
8
Nos registos de Afonso II não consta nenhum dos diplomas emitidos no seu reinado. De Sancho II não se
conhece nenhuma lei, mas nos livros da Chancelaria de Afonso III já aparecem registados alguns dos seus
diplomas normativos.
9
Uma das aplicações mais antigas dos princípios da lei mental é de 15 de Maio de 1393, na confirmação
das doações de Diogo Lopes Pacheco. Vide Paulo MEREA, Novos Estudos de História do Direito, Barcelos,
1937, pp. 61-74.
10
IAN/TT – Maço 1 de Leis, n.º158.
Curioso, no final do foral de Tavares (c. Mangualde) de 1112/Feveriro/27, consta: “Eu conde Henrique e
infante Teresa mandamos fazer esta carta que roboramos de mente e nossa mão”.

136
José Domingues

o registo dos diplomas na Chancelaria régia “assumia mais o sentido de mecanismo de


fiscalização da autenticidade das leis e elementos de prova do direito em vigor”[1].
A primeira, de uma série de questões inescusáveis, é: como foi possível, durante
mais de quatro décadas (quase todo o reinado de D. João I), implementar e aplicar,
contra a classe mais poderosa da época, uma lei desta envergadura, sem sequer estar
reduzida a escrito? Parece uma completa heresia judiciária que, mesmo em finais do
século XIV e inícios do XV, se aplique uma lei só porque um talentoso legisperito como
o Doutor João das Regras assim o tenha preconizado, embora com o consentimento
régio. Sobretudo, se pensarmos que estavam em causa destinatários poderosos como
Diogo Lopes Pacheco, Martim Vaz de Melo, Álvaro Rodrigues de Lima, entre outros.
Isto conduz a uma segunda questão: será que a lei mental nunca foi escrita antes
do ano de 1434? Não o creio. Que ela não tenha sido publicada em audiência da corte é
aceitável, mas, pelo menos em diploma avulso, a comunicar aos mais altos magistrados
régios (da Casa da Suplicação, da Casa do Cível e das Comarcas), ela tinha que ser
escrita[2]. Não vejo qualquer motivo para que esta lei, da maior importância para a
salvaguarda do património territorial da coroa, não tenha seguido, via escrita, os
trâmites de propagação das restantes leis gerais. Uma terceira questão: partindo do
princípio que tenha sido idealizada por conselho do Doutor João das Regras[3], como
se podia memorizar o seu peremptório conteúdo, sabendo que este excepcional jurista
morreu em 1404?
Outra questão: não se estará a fazer uma interpretação demasiado literal dos
documentos eduardinos? Provavelmente o que o monarca disse, ou pretendia dizer,
é que a lei nunca tinha sido publicada em audiência e escrita no livro da Chancelaria
Mor, mas isso nada impede que tivesse sido escrita em diploma avulso ou mesmo
noutro livro distinto. Recorde-se, a propósito desta segunda alternativa, que no ano
de 1391 já existia Livro de Ordenações do Reino. Sendo aceitável a paternidade do Dr.
João das Regras, tanto para esta lei como para o coetâneo livro de ordenações, não seria
descabido de todo que ela constasse e fosse pela primeira vez escrita nesse livro de
ordenações. Ou seja, a Lei Mental pode ser o corolário do primeiro passo para dotar o
reino de um corpo jurídico normativo, levado a cabo pelo Doutor João das Regras, até
porque os princípios da Lei Mental se fundamentam em textos de Direito Romano,
que o tradutor do Código tão bem conhecia.
Embora a lei mental seja a mais marcante e emblemática e a que, até à data,
suscitou a curiosidade dos investigadores, não é caso único. Os compiladores das
Afonsinas, acerca de uma Lei do infante D. Duarte, que obrigava a que os criminosos
que pretendessem refugiar-se nos coutos de homiziados do reino tivessem cometido
o crime a uma distância de, pelo menos, dez léguas, em relação ao lugar do couto,
dizem expressamente “e pero que essa Ley nom fosse escripta no Livro da Chancellaria,
passarom porem Cartas na forma della a algumas Villas de seus Regnos, que lhe por
ello enviarom supricar, e bem assy a alguns lugares dos ditos coutos”[4]. A laconicidade

1
COSTA, História do Direito, p. 256.
2
Repare-se na resposta de D. Afonso V a um capítulo das cortes de 1472-73, reunidas em Coimbra e Évora:
“Respomde ElRey que a Ley memtall ouue primçipio e fundamento em elRey Dom Joam seu avoo e foy depois por
elRey dom Duarte seu pay de todo autorizada e pobricada” [IAN/TT – Cortes, Maço 2, n.º14, fl. 64]. Parece que
D. Duarte se limitou a confirmar e publicar a dita lei.
3
Cfr. M. A. Coelho da ROCHA, Ensaio sobre a Historia do Governo e da Legislação de Portugal, Coimbra, na
Imprensa da Universidade, 1843, p. 115.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 118, §2, p. 387. Sobre esta lei também se “recreciam continuadamente
muitas duvidas na nossa Corte das Villas coutadas” [§ 3].

137
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

deste apontamento deixa transparecer que se trata de uma lei escrita, da qual se tinham
passado traslados a algumas vilas, mas que, tal como a lei mental, não estava registada
no livro da Chancelaria.
Outro exemplo claro de que uma Lei poderia estar em vigor, em diploma avulso,
sem o respectivo registo no livro da Chancelaria, consta da lei de D. Duarte, de 2 de
Maio de 1434, dirigida aos corregedores das comarcas, para que as rainhas e os infantes
não dessem cartas de privilégios a nenhumas pessoas: “E nom embargante, que estas
Cartas assy passem pelos Corregedores, Mandamos-vos que façaaes registar, e assentar
esta Carta toda de verbo a verbo em o Nosso Livro da Chancellaria pera mais seer devulgado, e
poblicado esto, que assy hordenamos, e Mandamos, como dito he”[1].
Assim sendo, o que, presumivelmente, o diploma régio de 8 de Abril de 1434
pretendia dizer era que a lei mental nunca tinha sido escrita no livro da Chancelaria.
É que, de outra maneira, não se entende que este diploma normativo não escrito
tivesse a coercibilidade necessária para ser aplicado, durante mais de 40 anos, contra
a poderosa classe da nobreza. Por outro lado, a necessidade de registo no livro da
Chancelaria parece assomar no reinado de D. Duarte, período álgido de abreviamento e
correcção das ordenações[2]. Ou seja, os antigos livros de ordenações estão em eminência de
serem revogados e tornados inúteis, por isso, é necessário transferir para os vulgares
livros da Chancelaria as ordenações que apenas estavam nesses livros de ordenações,
de modo a que sobre elas não subsistam quaisquer dúvidas – mormente, a lei mental.
Será que a partir do momento em que surgem livros específicos de ordenações na
Chancelaria Mor, o duplicado em outro livro (o livro da Chancelaria) passou a ser
dispensável? Para quê um registo duplo no mesmo arquivo?
Mas as alhadas da lei mental não se ficam por aqui. Depois de aplicada durante
quatro décadas sem o registo no livro da Chancelaria (para não dizer, sem ser escrita), por
mais estranho que possa parecer, esta lei não foi compilada na subsequente reformação
afonsina. E, no entanto, não há dúvidas de que continuou vigente[3], que foi aclarada por
D. Afonso V[4] e foi escusada por D. Manuel, em 1496, ao duque de Bragança[5], vindo a

1
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 39, § 6, p. 292.
2
Cfr. o que a este propósito se disse no capítulo anterior.
3
Vide os documentos publicados por Silva Marques, em Descobrimentos Portugueses, vol. III:
1462, Setembro, 19 – Doação régia de várias ilhas “sem enbarguo da ley mentall” [doc. 22, p. 34]
1467, Junho, 30 – Doação da saboaria preta na ilha da Madeira, onde se referem as regras da lei mental
[doc. 39, pp. 58-60]
1472, Julho, 03 – Carta de doação da cidade de Anafé, em África, com toda a sua jurisdição civil e criminal
e sem reserva de alçada para o rei, “sem embargo da lej mentall” [doc. 85, p. 115]
1474, Março, 10 – Carta de confirmação, a Rui Gonçalves da Câmara, da compra por ele feita a João Soares
e sua mulher, da capitania da ilha de S. Miguel, e doação da mesma capitania “fora da llei mental” [doc. 108,
p. 145]
1481, Agosto, 10 – Carta de doação régia a D. Diogo, duque de Viseu, de Beja e da ilha da Madeira, tudo
como tinha o infante D. Henrique, “Segumdo forma da ley memtall” [doc. 156, p. 241]
1489, Maio, 30 – Carta de doação das ilhas de Cabo Verde, “sem embargo da lley memtall” [doc. 235, p. 352]
1499, Dezembro, 11 – Doação da capitania da ilha de S. Tomé, “sem embarguo da lley ememtall” [doc. 345, p.
554]
Um capítulo geral das cortes de 1472-1473, de Coimbra-Évora, faz referência expressa à “ordenação mental”
[Cfr. SOUSA, As Cortes Medievais, vol. II, p. 389]; E ainda, a revogação no testamento de D. João II, de 29 de
Setembro de 1495, “ey por revogada a Ley Mental” [As Gavetas da Torre do Tombo, CEHU, Lisboa, 1967, vol.
VI, p. 95].
4
Ordenações Manuelinas, Liv. II, Tít. 17, § 25, pp. 89-90.
5
António Caetano de SOUSA, Provas da História Genealógica, Tomo III, 2.ª Parte, doc. 14, pp. 54-61.

138
José Domingues

ser aproveitada nas três edições das Ordenações Manuelinas 1512-13/1514/1521[1]. Parece
que o registo escrito da lei mental estava condenado a converter-se num verdadeiro
tormento para o discernimento contemporâneo. Neste momento, só me ocorre mais
uma pergunta: porque é que a lei mental não foi compilada nas Afonsinas?
Limito-me à transcrição das palavras de Caetano: “É um mistério a sua omissão
nas Ordenações Afonsinas, fruto porventura da oposição dos fidalgos, que ainda nas Cortes de
1472 consideravam a lei como feita «contra direito e justiça»”[2].
Deixando este arcano, é incontestável que, desde tempos remotos, se torna
primordial o registo escrito das leis nos livros da Chancelaria. Desde D. Afonso III,
pelo menos, como divulgou Alexandre Herculano[3], que se realizam esses assentos,
conforme ficou expresso no livro IV, no título 33 – “Em a nossa Chancellaria foi achado
hum custume escripto em tempo d’ElRey Dom Affonso o Terceiro”[4] – e no título 108 – “ElRey
Dom Affonso o Terceiro, de louvada memoria, madou escrepver no Livro da sua Chancellaria
huum custume”[5]. Aos nossos dias, chegaram alguns desses registos e ainda no reinado
de D. Duarte, a declaração sobre os direitos reais, foi mandada “assentar no Livro da
nossa Chancellaria, por tal que Nós, e nossos sucessores, e nossos Officiaaes possamos
por ella aver comprida enformaçom do que a nosso serviço comprir, e a bem do nosso
Povoo em todo tempo, que o caso requerer, honde as Leyx do Regno, e Costume
antigoo d’outra guisa nom determinaarom” – mais uma vez a época de D. Duarte [6].
Duas ordenações sobre o apuramento dos besteiros do conto e dos homens da vintena
do mar – uma do dia 1 e outra do dia 8 de Novembro de 1410, outorgadas em Aldeia
Galega[7] – são enviadas a Pedro Eanes, escrivão da Chancelaria, para que as registe
“nos livros da nossa Chancellaria”[8]. A lei do privilégio dado ao judeu que se torna
cristão, feita em Tentúgal no dia 1 de Novembro de 1422, foi mandada “escrepver no
nosso Livro da Chancellaria, e que dello vãao logo Cartas testemunhavees a todalas Cidades,
e Villas dos nossos Regnos, pera seer sabudo este nosso estabelecimento”[9].
A Ordenação sobre o regimento dos juízes e título das medidas e pesos (em
Montemor-o-Novo, a 08 de Janeiro de 1496) é bem explícita ao asseverar o seguinte:
“e por que a todos venha em noticia e non posa alegar jnorancia mandamos ao nosso Chanceler
moor que faça pobllicar esta Ordenaçam e registar em os livrros da nosa Chancelaria e tanto que
registada poblicada for emviie della o trelado aos Correjedores das Comarquas pera a fazerem
publicar e notificar em todos os lugares de suas Correyçoõees e os juizes mandamos que o façam
trreladar nos livros das Camaras de seus jullgados”[10].
Não restam dúvidas que as leis são registadas nos livros da Chancelaria desde,
pelo menos, D. Afonso III[11], mas não deixa de ser curioso que só a partir do reinado de
D. João I surja documentada essa imposição de registo, por parte do próprio monarca.

1
Ordenações Manuelinas, Liv. II, Tít. 17.
2
CAETANO, História do Direito, p. 515.
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 149-150.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 33, Início, p. 140.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 108, Início, p. 395.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 24, § 37, p. 218.
7
No diploma, com as duas ordenações, consta “Feito em Aldea guallegua a vinte seis dias de Novembro.
ElRey o mandou Era de mil e quatrocentos quarenta e tres annos” [Ordenações Afonsinas, Liv. I, p. 405], mas
é óbvio que só pode ser era de 1448 anos (ano de 1410).
8
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 68, § 1, p. 405.
9
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 83, § 3, p. 496.
10
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, tomo IV, Parte I, doc. 7, pp. 192-199.
11
Conferir no anexo I final as que, ainda hoje, constam nos livros da Chancelaria.

139
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

O acentuar e oficializar desta obrigação pode, de alguma forma, estar relacionado com
o aparecimento dos livros de ordenações. Se antes se registavam as leis como qualquer
outro documento de interesse para a coroa e para o reino, a partir de então passam a
existir livros de registo próprio, sendo coerente que se preconize o registo escrito das
respectivas ordenações.
De qualquer forma, não é inteiramente seguro – simbólico da Idade Média – que
a prática de registar as leis na Chancelaria da corte se observasse, ininterruptamente,
com todo o zelo e rigor, até por algumas conjunturas supra referidas. Nas Afonsinas,
este dever ainda se não encontra entre os do chanceler mor[1], constando expresso, pela
primeira vez, no regimento homólogo das Ordenações Manuelinas de 1521[2]. Passados
três meses da sua publicação na Chancelaria, as ordenações passam a ter efeito e
vigorar em todo o reino[3] e, na corte, passados apenas oito dias[4].

Publicação no Reino
Transcorrido este primeiro momento de publicação nos meandros da corte, e
início de vigência, passemos agora para a divulgação pelos recantos do reino. Para
a Época Medieval, infelizmente, não localizei nenhum documento que nos permita
cursar, de forma cabal e elucidativa, o processo de publicação de uma lei régia, por
isso teremos que nos bastar com os parcos subsídios documentais que vão surgindo.
De qualquer forma, já na longínqua lei da almotaçaria (datada de 26 de Dezembro de
1253) se prescreve o conhecimento e publicação e que “em qualquer vila e em qualquer
julgado seja lida esta minha carta pública de decreto estabelecida na minha cúria”[5].
Gama Barros encarrega-se de aduzir alguns “exemplos relativos à publicação dos
diplomas legislativos”, que lhe permitem suportar que “geralmente a publicação das leis e
de quaesquer ordens do soberano estava a cargo dos tabelliães, que, depois de as registrarem nos
seus livros, as deviam ler no tribunal do concelho, ordinariamente uma vez em cada semana,
durante um certo período que chegava não raro até um anno”[6]. No que é seguido de perto
por Marcello Caetano, que não refere todos os exemplos aduzidos por Gama Barros e
lhe acrescenta apenas o caso da lei de 1314[7].
Longe de mim de querer contestar, ou seque atenuar, o papel basilar que os
tabeliães desempenham na publicitação das leis durante todo o período mediévico, no
entanto, estou convicto que esta função tem sido demasiado exaltada, em detrimento de
outros eminentes intervenientes. Mas antes, vejamos os esteios documentais carreados
por Gama Barros e Marcello Caetano, com actualização das fontes impressas[8]:

1
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 2, pp. 15-23.
2
Ordenações Manuelinas, Liv. I, Tít. 2, § 9, pp. 38-39.
Cfr. BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 143.
3
Alvará de 10 de Dezembro de 1518, pub. RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, Tomo IV, Parte 1.ª, doc. 10,
pp. 202-204.
4
Ordenações Manuelinas, Liv. I, Tít. 2, § 9, pp. 38-39.
5
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 191-196.
6
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 137.
7
CAETANO, História do Direito, p. 345: “Onde havia um tabelião, existia uma pessoa alfabetizada, sabendo
ler e escrever. O rei passa pois a utilizar os tabeliães para dar publicidade às suas leis, tornando-se frequente,
a partir do reinado de D. Dinis, que no texto de cada uma se contenha a ordem e o modo de publicação”.
8
Nomeadamente, ao tempo da História da Administração de Gama Barros ainda não estava publicado o
Livro das Leis e Posturas e, ao tempo da edição da História do Direito de Marcello Caetano, ainda não estavam
impressas as Ordenações de D. Duarte.

140
José Domingues

• 1265, Julho, 28 [Coimbra] – lei das anúduvas: “Et mando quod tabellio de
uestra uilla registret istam cartam in suo registro.”.
[Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 217]

• 1270, Março, 06 – Na lei sobre o acrescentamento da moeda determina que


“todo-los Taballioens de meu Regno, que screvam esta Minha Carta em
seus Registros”
[Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 219]

• 1272, Junho, 22 – Postura sobre as revelias: “E mando que cada huum de vós
en vossas vilas que façades escrever todas estas cousas compridamente. E
vós tabellioens escrevede esta postura en vossos rregistros”.
[Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 226]

• 1281, Agosto, 01 [Beja] – “E mando a este meu homem, portador desta


carta, que a faça leer en cada una Villa, e en cada logar, e no Concelho
apregoado. E mando aos Taballioens que registem esta Carta, per tal que
sea pera sempre, e que a lêam cada doma huma vez en o Concelho”.
[Eluciário, vb. “Pontaria”]

• 1282, Julho, 31 – Lei sobre as apelações “E mando a todo-los tabaliãaes


dos meus rreignos que rregistem esta minha carta E a leam nos concelhos
ameude”.
[Ordenações de D. Duarte, p. 166]

• 1303, Junho, 01 [Lisboa] – Lei de D. Dinis, “E Mando a todollos Taballiaães


que a registem em seus Livros, e que a leam cada domaa huma vez em
Concelho ataa huum anno conprido”
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 73, p. 285]

• 1311, Fevereiro, 03 [Lisboa] – A lei para que ninguém se servisse de besta


alheia contra vontade do dono, foi mandada publicar do seguinte modo:
os tabeliães haviam de ler a lei em concelho uma vez em cada semana por
espaço de um ano, além de a registarem nos seus livros.
[Livro das Leis e Posturas, 76-78]
[Ordenações de D. Duarte, 280-281]

• 1311, Fevereiro, 18 [Lisboa] – Da carceragem a levar dos presos: “E mando


a todo-llos tabaliãaes que lhes leam esta carta em concelho cada domaa huã
vez huum dia E ho dia seja a sesta feira E que a rregistem em seus livros”.
[Livro de Leis e Posturas, 78-79]
[Ordenações de D. Duarte, 281-282]

• 1311, Julho, 20 [Coimbra] – Lei que proíbe aos clérigos, ordens, mosteiros,
fidalgos e cavaleiros, que não possam comprar ou adquirir bens nos
reguengos de el-rei: “E por nom poderem dizer, que o nom sabem, mando
aos Taballiães, que registem esta carta em seus livros, e a leam cada Domingo
em Concelho ataa huum anno sob pena dos corpos, e dos averes”
[IAN/TT – Gaveta XV, maço 9, n.º17]
[IAN/TT – Chancelaria de D. Dinis, Liv. 3, fl. 76]
[Livro das Leis e Posturas, 381-382 (com data de Junho, 15 – seguida por Gama Barros)]
[Ordenações de D. Duarte, 208-210]
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 13]
[RIBEIRO, Memorias para a historia das inquirições, doc. 32, pp. 99-102]

141
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

• 1314, Maio, 18 [Lisboa] – Dos contratos e prometimentos por razão de


dívidas: “E mando a todolos Tabelliãaes dos meus Regnos, que registem
esta minha Carta, e a leam huma vez na domãa em Concelho nas Villas, e
Lugares do meu Senhorio.”
[Livro das Leis e Posturas, 183-184 (com data de Maio, 02)]
[Ordenações de D. Duarte, 293-294 (com data de Maio, 11)]
[Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 6, § 4, p. 65]

• 1317, Março, 19 [Santarém] – “E mando a todollos Tabaliães de Meus


Regnos, hu esta carta for mostrada, que a registem em seus Livros, e
que a leam em Conselho no mez huma vez. E por nam poderdes depois
dizer que nam sabedees esto, Mando pobricar esta Carta nas Minhas
Audiencias. Dada em Santarem a 19 dias de Março. ElRey com sua Corte
o mandou. Lourenço Annes a fez Era de 1355 annos. Esta carta foi leúda, e
pubricada na Corte d’ElRey nas suas Audiencias perante os Sobre-Juizes,
e Ouvidores 19 dias de Março Era de 1355 annos”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 74, § 5, pp. 292-293]

• 1322, Maio, 28 – A carta régia sobre jurisdição nas terras das ordens,
determinou aos tabeliães que a registassem nos seus livros e a lessem
perante as justiças das terras uma vez no mês até um ano.
[RIBEIRO, Memoria das Inquirições, doc. 40]

• 1327, Março, 13 [Vimieiro] – Lei pela qual se proibia a exportação de ouro


e prata, ordena que a proibição seja apregoada e que o tabelião do lugar
onde a lei for apresentada a registe no seu livro.
[IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fl. 73 – Foros de Beja]
[Coimbra, FLU – Sala Gama Barros, «Colecção de Cortes», vol. I, fl. 99-99v
(cópia do século XVIII)]
[Cortes Portuguesas: Reinado de D. Afonso IV, pp. 19-20]

• 1349, Maio, 21 [Alenquer] – Que os testamentos sejam publicados perante


juizes leigos, e que não valham as publicações dos vigários da Igreja:
“E fazee que se lea esta carta em cada huã domaa huã vez em cada huã
desas villas E termos E que os Tabaliãees de cada huum deses logares a
rregistem em seus liuros. E que a leam em concelho muyto amehudo em
guisa que se cunpra E que se nom perca minha Jordiçom. E estpreuam em
seus liuros o dia que a pobricarem so pena dos corpos E dos averes”.
[Livro das Leis e Posturas, 440-442]
[Ordenações de D. Duarte, 524-526]

• 1349, Julho, 13 [Leiria] – Que os homens usem dos mesteres que tinham antes
da Peste Negra, e que os que moravam por soldada sejam constrangidos
a morar com amos: “E mando aos corregedores desas comarcas que
cheguem a eses logares E uejam como guardades as sobreditas cousas E
que uo-llo estranhem se em alguã cousa delas negrijentes fordes E fazede
apregoar no uoso concelho pera pobricardes esta carta E depoys que for
pobricada mandaee aos tabaliaees que a rregistem em seus liuros E que a
pobriquem no concelho o primeiro dia de cada huum mes de todo o anno
so pena de perderem seus ofiçios”.
[Livro das Leis e Posturas, 448-452 (sem data)]
[Ordenações de D. Duarte, 526-529]

142
José Domingues

• 1413, Agosto, 17 – Provisão derrogando as providências sobre coudelarias,


castração de Carneiros e matança de lobos e coutamento de porcos: foi
publicada por um tabelião em Santarém, cinco dias depois de ser dada
em Lisboa, na presença de F., sobrejuiz de el-rei e corregedor na sua Casa
do Cível, e de muitos homens bons, chamados com pregão para ouvirem
a publicação da lei. E em seguida o juiz, os vereadores e homens bons
requereram ao corregedor que a fizesse cumprir e guardar, e ele assim o
ordenou; e o escrivão do concelho pediu um instrumento da publicação,
que o corregedor lhe mandou passar.
[BARROS, História da Administração Pública, vol. I, p. 137.]

A estes exemplos, que realçam a subida utilidade dos tabeliães, podemos acres-
centar outros, respigados, sobretudo, das Ordenações Afonsinas:

• 1286, Julho, 10 [Lisboa] – O rei ordena aos tabeliães: “Esta Carta regista-
de-a em vossos livros”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 13, § 2, p. 175]

• 1288, Novembro, 09 [Montemor-o-Novo] – Lei de D. Dinis, sobre os que


furtam aves: “E mando a todollos meus Taballiaães dos meus Regnos,
que registem esta minha Carta”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 54, p. 199]

• 1291, Março, 21 [Coimbra] – Lei para que as igrejas e mosteiros não


hajam herdamentos por morte de seus professos: “E mando a todolos
Taballiãaes do meu Regno, que cada huum registe esta minha Carta em
seus livros”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 15, § 4, p. 179]

• 1294, Janeiro, 01 [Coimbra] – Na lei para que não valha testemunho de


cristão contra judeu sem testemunho de judeu: “e mando aos Tabelliães,
que registem esta carta, e que a leam em concelho huma vez cada
domaa”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 88, § 5, p. 504]

• 1294, Janeiro, 05 [Coimbra] – Dos que forçosamente filham posse da


coisa que outrem possui: “ E Mando a todolos Taballiãaes, que esta
Carta virem, que a registem”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 65, § 3, p. 229]

• 1302, Janeiro, 11 [Coimbra] – Lei sobre o falso testemunho: “E mando


aos Taballiaães dessas Villas, que registem esta Carta em seos livros, e a
leam cada mez em Concelho huã vez”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 37, p. 143]

• 1302, Agosto, 11 [Lisboa] – Na lei da bigamia manda-se que os tabeliães


a registem e leiam no concelho uma vez por semana, até um ano.
Manda‑se também que “meu homem que tenha esta mha carta e que a
faça leer e pobricar en conçelho cada ujla e cada Julgado Vnde al nom
façades senom a uos e a el me tornaria eu poren”.
[Livro das Leis e Posturas, 200-201]
[Ordenações de D. Duarte, 308 e 187)]

143
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

• 1302, Agosto, 14 [Lisboa] – Lei sobre o que matou a sua mulher em


adultério, “E mando a vos Taballiaães, que registedes esta Carta em
vossos Livros”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 18, p. 55]

• 1302, Setembro, 11 [Lisboa] – Lei da mulher casada que saiu de casa


para fazer adultério, “E mando a cada huum de vós em vossas Villas e
termos, que façaaes comprir e guardar esto. E mando a cada huum dos
Taballiaães da Villa, que registe esta Carta, e que a leam cada mes hua
vez em Concelho ataa huum anno”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 12, p. 45]

• 1303, Junho, 04 [Lisboa] – Na lei de D. Dinis, sobre os feitos e presos que


devem ser trazidos à corte: “E mando a todollos Taballiaães, que cada
hum em seus lugares escrepvam as malfeitorias, que se em esses lugares
fezerem (…) E mando, que vos leam esta Carta no Concelho ataa hum
anno conprido, pera veer como sobre esto fazedes meu mandado”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 56, p. 204]

• 1311, Junho, 15 [Coimbra] – Na lei para que os clérigos, ordens, mosteiros,


fidalgos e cavaleiros não possam ganhar bens nos reguengos: “E por
nom poderem dizer, que o nom sabem, mando aos Taballiãaes, que
registem esta Carta em seus livros, e a leam cada Domingo em Concelho
ataa huum anno sob pena dos corpos, e dos averes”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 13, § 8, p. 173]

• 1313, Agosto, 09 [Lisboa] – Das penas para os que encobrem malfeitores


ou os acolhem em suas casas: “E por ueer em como sobresto comprides meu
mandado mando a uos tablliões desses logares que registrem esta carta em seos
liuros e que uola leam de xv em xv dias em nos Concelhos”.
[IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 71v-72 – Foros de Beja)]

• 1315, Maio, 11 [Lisboa] – Para que não acolham malfeitores (lei de 1313,
Agosto, 09): “E por ueer em como sobresto comprides meu mandado,
mando a uos tablliões desses logares que registrem esta carta em seos
liuros e que uola leam de xv em xv dias em nos conçelhos. E de como hy
comprides meu mandado que mho enuyem dizer so pea dos corpos”.
[IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 71v-72 – Foros de Beja]

• Na ordenação de D. Dinis, sem data, para que os cavaleiros e fidalgos


e outros poderosos não filhem bestas de sela nem de albarda sem
consentimento de seus donos: “mandando aos Tabelliãaes dos Lugares,
que leessem a dita Ordenaçom aos Juízes das Terras, em cada domãa
huã vez ataa huum anno comprido, e a registassem em seus livros por
tal, que ao depois cada huum delles com razam nom podesse allegar
ignorancia”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 62, § 3, p. 394]

• 1361, Outubro, 05 [Évora] – De como devem ser feitos os contratos entre


os cristãos e os judeus: “E mando todallas Justiças dos meus regnos que
façam comprir e guardar estas cousas e cada huma dellas pella guisa
que em esta mjnha carta he contheudo e que a façam registar aos tabaliaães
em seus liuros e a façam leer e pubricar nos concelhos na primeira domaa de

144
José Domingues

cada huum mes pera seerem os dictos christaãos bem certos de como os
dictos contractos ham de fazer de guisa que nom ache eu hi al despois”
[Chancelarias Portuguesas: D. Pedro I, Doc. 569, pp. 255-258]

• 1392, Julho, 17 [Coimbra] – A propósito de uma letra do Papa, D. João I


ordena: “E nos vistas a dita letera, como era sãa, e sem antrelinha, nem
outro vicio, nem rasura nenhuã, e por seer milhor, e mais especificada,
e declarada de pobricar a alguuns Taballiãaes, que latim nom sabem:
Teemos por bem, e mandamos a qualquer Taballiam de nossos Regnos, a
que a dita letera, ou esta nossa Carta for mostrada, que a pobliquem
nas audiencias, e praças, e em outros lugares quaeesquer, perante
quaesquer Juízes, e Justiças, assy Ecclesiasticas, como Sagraaes, que lhes
for requerido, e dem testemunhos destas publicaçõoes, se lhes forem
pedidos, e demandados da parte das ditas Cumunas, e Judeos, sob seus
signaaes, sem embargo das nossas defesas, e Ordenaçõoes, que sobre tal
razom som feitas”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 94, § 13, p. 519]

• 1433, Abril, 13 [Torres Vedras] – A lei das barregãs dos clérigos, manda
“E por os ditos Corregedores, e Juízes nom allegarem ignorancia,
mandamos que esta Hordenaçom seja poblicada, e os Taballiaães a
registem em seus livros, e pobliquem nas Audiencias nos lugares, honde
viverem”.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 19, p. 71]
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 22, § 22, p. 204]

São demasiadas reportações documentais para se subestimar o múnus dos tabe-


liães, mas, ao contrário do que quiseram acreditar Barros e Caetano, não esgotam o
processamento medieval de publicação. Antes de mais, algumas das conjunturas refe-
ridas por Gama Barros enquadram-se no apartado anterior – publicação nas audiên-
cias da corte – por isso as omiti neste rol (01 de Julho de 1340 e 16 de Janeiro de 1342;
1343; e 12 de Setembro de 1379). Mas, sobretudo, porque não deixa de ser curioso que
a maioria dos diplomas seja do reinado de D. Dinis (23), D. Afonso III (3) e D. Afonso
IV (3) e só um do reinado de D. Pedro I, dois do reinado de D. João I (e a publicação de
um diploma pontifício) e um do reinado de D. Duarte.
Não deixa de ser sintomático que a partir de Afonso IV quase que se evaporem,
do final das leis, as imposições de registo e leitura aos tabeliães. Penso que não se trata
de um mero acaso, talvez antes se possa explicar com a instituição da magistratura
dos corregedores por todo o reino. Se, para os dois reinados de Afonso III e D. Dinis,
pode ter pleno cabimento a asserção de Caetano de que “onde havia um tabelião, existia
uma pessoa alfabetizada, sabendo ler e escrever”[1], o mesmo se não aplica para os reinados
seguintes. Porque se até aí os imediatos oficiais de justiça régia, que calcorreiam o reino,
pertencem à estirpe dos fidalgos iletrados – os meirinhos-mores – os corregedores de
comarca vem inverter essa conjuntura.
Saliento, a magistratura dos corregedores pode ter atenuado, mas não extinguiu
a função dos tabeliães [2], pois ainda no tempo de D. João I se estabelece: “e por nom
averem razom de dizer, que esta minha Carta e defeza nom sabiam, ha mandei pubricar nas

1
CAETANO, História do Direito, p. 345.
2
vide o que diz a ordenação supra das barregãs dos clérigos de 1433.

145
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Audiencias; e mando aos Taballiaae[n]s das Comarcas, hu esta minha carta for mostrada, que
a registem nos seus livros, e a leam em cada huu[m] anno no Concelho no dia em que fezerem
Juizis”[1]. Ou seja, se os tabeliães são destinatários das ordenações desde o incipiente
poder legiferante do monarca, nada impede a sua adaptação à realidade jurídica dos
séculos seguintes e, mormente, à existência de outros intermediários.
Meirinhos e corregedores “per el-rei”, eis duas eminentes personalidades do Jus
medieval português que, reiteradamente, tem vindo a ser excluídas do processamento
de publicação das leis régias. Mas, antes de qualquer avanço, impõe-se o desarreigar
da crendice, caluniadora e pouco verídica, que coloca os itinerantes corregedores no
universo dos analfabetos, caso contrário, teria pouco mérito a proposta acima que, a
partir da sua génese, se atenua o papel dos tabeliães.
Desde os primordiais estudos da Academia das Ciências de Lisboa ficou vincado
que os corregedores nem sempre eram escolhidos entre os oficiais letrados:

“He porém certo, que algumas vezes forão feitos sem serem Letrados; porque no
Cap. Iº das Cortes, que o Senhor Rei D. João I fez em Lisboa em 1427, se queixão
os Povos do dito Senhor fazer Corregedores simplices Escudeiros, sem sciencia,
que por tanto obravão muitas couzas contra Direito”[2].

Gama Barros afirma categoricamente que “ordinariamente os corregedores não


eram letrados, até porque os não havia em numero que chegasse para se proverem n’elles
estes cargos”. Em defesa da sua alegação convoca, novamente, as queixas do povo,
apresentadas nas Cortes de Lisboa de 1427, contra a nomeação régia de corregedores
iletrados, que mal sabem escrever, e que por ignorância cometem muitas injustiças.
Acrescenta-lhe também as queixas, contra esses corregedores ignorantes e iletrados,
formuladas nas Cortes de Évora de 1481/82 e de 1490[3].
Mas já nas Cortes de Coimbra de 1385 o povo pedia corregedores “boos e Entendjdos”,
prometendo o monarca que “pora hi taaes corregedores que seJam pertençentes pera
Ello E que guardem ao poboo sseu dereito E Justiça”[4]. Também nas Cortes de 1433 pedem
os povos a el-rei que cometa o ofício das correições a homens letrados, discretos e
entendidos que conheçam e entendam o direito, que não sejam naturais das comarcas
para onde são enviados e não estejam no ofício mais de três anos[5].
É esta a ideia que impera e se encontra, de um modo geral, disseminada na
bibliografia hodierna, pelos manuais e compêndios de História do Direito pátrio[6] ou,
mesmo, por trabalhos de investigação mais específicos.
Contra esta declarada ignorância dos corregedores, antes de mais, pode e deve
alegar-se que para alguns deles é possível conhecer o grau académico-jurídico alcan-
çado. Gonçalo Dias parece ser o mestre Gonçalo das Decretais. Álvaro Pais, corregedor

1
ALBUQUERQUE, “A Aplicação das Leis no Ultramar Durante o Antigo Regime”, p. 98.
2
José António de SÁ, “Memoria sobre a origem e Jurisdicção dos Corregedores das Comarcas”, Memorias
de Litteratura Portugueza publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo VII, Lisboa, 1806,
p. 305.
3
BARROS, História da Administração Pública, pp. 187-189.
4
Ordenações de D. Duarte, p. 629.
5
Armindo de SOUSA, As cortes de Leiria-Santarém de 1433, Porto, 1982, p. 107.
6
Por exemplo, António Manuel HESPANHA, História das Instituições, Épocas medieval e moderna, Livraria
Almedina, Coimbra, 1982, p. 430: “A sua reduzida intervenção directa em tarefas judiciais explica que,
até muito tarde, o lugar de corregedor pudesse ter sido desempenhado por pessoas sem formação jurídica
especializada”.

146
José Domingues

Entre-Douro-e-Minho nos anos de 1358 a 1360, já aparece como escolar em documento


de 7 de Junho de 1355, e desempenhou a função de vedor da Chancelaria da Casa do
Cível. Pedro Afonso da Costa, corregedor na mesma comarca entre 1403 e 1405, era
escolar em Direito canónico. Filipe Eanes também era escolar em Direito e foi corre-
gedor na dita comarca entre 1448 e 1449. Ainda na comarca de Entre-Douro-e-Minho,
aparecem dois corregedores bacharéis, Pêro de Aguiar, entre 1508 e 1512, e Pêro Vaz,
entre 1512 e 1518. Os últimos corregedores desta comarca, António Correia e Sebastião
Álvares, eram licenciados em Direito. Na comarca de Trás-os-Montes, o seu corregedor
entre 1527 e 1538, era Doutor.
Aparício Domingues, o primeiro corregedor conhecido de Entre-Douro-e-Minho,
antes de ser designado para o cargo, aparece na documentação como sobrejuiz.
Afonso Rodrigues é designado como ouvidor do crime e sobrejuiz. João Eanes
Marvão foi ouvidor do crime de Afonso IV. Afonso Domingues foi ouvidor, sobrejuiz,
desembargador e conselheiro régio. Vasco Eanes foi ouvidor de el-rei. Pedro Afonso
surge como desembargador e vedor da fazenda. Fernão Martins surge como ouvidor dos
feitos e desembargador. Pero Esteves foi desembargador de Afonso IV. João Peres foi
sobrejuiz. Gonçalo Peres foi escrivão da Chancelaria, conselheiro de el-rei e “regedor”
da Casa do Cível. Gil Eanes foi ouvidor da rainha D. Leonor, corregedor da corte e
sobrejuiz da Casa do Cível. Álvaro Gonçalves passa pelos três principais cargos do
Desembargo do seu tempo, ouvidor dos feitos, corregedor da corte, vedor da fazenda
e chanceler-mor. Afonso Martins Alvernaz foi juiz de Coimbra, conservador do Estudo
Geral e ouvidor régio. Diogo Gil foi corregedor da corte. Pedro Afonso da Costa foi
ouvidor e “logoteente do Corregedor da Corte”. João Fernandes foi também ouvidor e
“logoteente do Corregedor da Corte” e ainda sobrejuiz.[1]. Por sua vez, o sobrejuiz da
Casa do Cível, Gonçalo Anes, serviu de corregedor na comarca da Beira[2].
Armando Luís Carvalho Homem, na sua dissertação de doutoramento em
História da Idade Média, O Desembargo Régio (1320-1433), notificou o surgimento
dos corregedores de comarcas entre os subscritores das cartas régias, embora a título
excepcional. De entre os corregedores da comarca de Entre-Douro-e-Minho, o autor,
refere apenas Afonso Martins Alvernaz e o ouvidor do então meirinho-mor, Álvaro
Fernandes do Rego[3]. Levantou apenas a extremidade do véu, porque o arrolamento
dos corregedores de comarca fica muito aquém, na realidade, para o período estudado
por Carvalho Homem (1320-1433), só da comarca de Entre-Douro-e-Minho, passaram
pelo Desembargo Régio os seguintes corregedores:

• Aparício Domingues [1323]


• Afonso Rodrigues [1325]
• Gomes Martins [a. 1328]
• João Eanes de Marvão [1328-1330]
• Afonso Domingues
• Vasco Eanes [1343-1344]
• Gonçalo Dias [1349] (mestre Gonçalo das Decretais?)
• Pedro Afonso [1352-1353]
• Fernão Martins [1356-1357]

1
Veja-se o trabalho de Carvalho HOMEM, O Desembargo Régio.
2
BARROS, História da Administração Pública, tomo XI, Lisboa, 1954, p. 159.
3
HOMEM, O Desembargo Régio, pp. 144-145.

147
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

• Álvaro Pais [1358-1360]


• Pero Esteves [1362]
• João Peres [1364]
• Gonçalo Peres [1366-1369]
• Gil Eanes [1373-1374]
• Álvaro Gonçalves []
• Afonso Martins Alvernaz [1383]
• Gonçalo Peres [1384]
• Diogo Gil [1388]
• Pedro Afonso da Costa [1416]
• João Fernandes [1420]

Escolhi a comarca de Entre-Douro-e-Minho, a título exemplificativo, por ser a que


melhor conheço, já que serviu de base ao trabalho tutelado – intitulado O Braço da Jus-
tiça Régia Entre-Douro-e-Minho Medievo: os corregedores “per el-rey” – apresentado à USC
em Setembro de 2003, para reconhecimento de suficiência investigadora. A extensão
às restantes comarcas pode alargar o rol acima, revelando-se suficientemente demons-
trativo do preponderante papel dos corregedores no desembargo régio e, também, da
falta de estudos em Portugal dedicados a esta importante magistratura medieval. Em
definitivo, são cargos da maior importância na Corte e no Desembargo Régio, próxi-
mos do monarca e da sua confiança absoluta, que não se compadecem com o analfa-
betismo imputado aos corregedores das comarcas, confirmando, mais uma vez, que
desde cedo os juristas ocuparam posição de destaque junto dos soberanos.
Por outro lado, são frequentes as interferências destes magistrados no direito
local, aprovando posturas e ordenações, criando ou modificando outras, compilando
costumes municipais, estatuindo regimentos, etc[1].
Neste âmbito, assume especial destaque o papel do corregedor Afonso Anes, que
no ano de 1339 elaborou algumas ordenações para o concelho de Beja[2], mas já um seu
antecessor, Estêvão Peres, antes do ano de 1332, tinha deixado marca da sua passagem
no direito local desta cidade alentejana[3]. A propósito do primeiro, em 5 de Agosto
de 1336, D. Afonso IV nomeia Estevão Gonçalves, tabelião de Faro, para o ofício de
tabelião geral do corregedor Afonso Anes “meu corregedor no Rejno do Algarue e nos
outros logares que lhj per mjm ssom deuisados”[4]. Mas em 1342 já era corregedor na Beira,
por isso, no dia 11 de Junho desse ano, presidiu à comitiva que se reuniu na igreja de
S. Martinho de Mouros, para a elaboração dos foros desse concelho, em cumprimento
de um mandato de el-rei[5].
Nas Cortes de Elvas de 1361, no artigo 21º dos gerais, o povo queixa-se ao monar-
ca de que os corregedores revogam as Ordenações e Posturas feitas “per Concelho apre-

1
Neste sentido, CAETANO, A administração municipal de Lisboa, p. 70: “Os magistrados agiam com ampla
autoridade, decidindo quantas dúvidas lhes eram apresentadas, revendo e alterando foros e até estatuindo
de novo, como se fossem legisladores, quando surgia alguma matéria carecida de regra”.
2
IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 49v-58v (Foros de Beja).
3
IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 34v-35 (Foros de Beja).
4
Chancelarias Portuguesas: D. Afonso IV, Instituto Nacional de Investigação Científica, organizador A. H. de
Oliveira MARQUES, vol. II, 1.ª edição, Lisboa, 1992, doc. 50, pp. 107-108.
5
Collecção de livros inéditos de historia portugueza, Academia Real das Sciencias de Lisboa, tomo IV, pp. 579 e ss.

148
José Domingues

goado”, provocando graves prejuízos aos seus moradores, e solicitam que se proíba os
corregedores para o não fazerem e, em caso de incumprimento, se estabeleça pena de
“scarmento”. Responde-lhe o monarca:

“A este Artigoo Respondemos que nos plaz de se fazer como per elles he pedido
com entendjmento que as façam pella guisa que foj mandado per nosso Padre nas Cortes
que fez em lixboa E per esto nom se entenda que possam fazer nem ordinhar contra aquelles
que per nos he desenbargado em estas Cortes nem contra aquelo que per nosso Padre foj
ordinhado em Cortes Mays façam todo comprir e aguardar so pea dos corpos nom
enbargando cartas nossas nem dos corregedores que contra esto seiam dadas”[1]

Efectivamente, no artigo 19º das Cortes de 1352, queixando-se o povo de que


os vereadores se apartam em lugares onde fazem posturas e outras coisas, em dano
do concelho, manda el-rei que esses vereadores façam chamar o concelho e façam
as posturas com consentimento do concelho ou da maioria dele[2]. A ideia de que
as Ordenações e Posturas concelhias devem acatar os preceitos normativos régios,
transitou, posteriormente, para as Ordenações Afonsinas[3].
Ainda nas ditas Cortes de Elvas de 1361, em capítulo especial do Porto (art.º
6º), os procuradores desta cidade se queixam que os alcaides tomam as armas aos
mercadores que vêm das aldeias e montes comprar vinhos e fruta, porque assim o
mandava uma Ordenação do corregedor. O monarca acedeu ao pedido, mandando que a
nenhum mercador, enquanto for de caminho, não lhe tomem a sua espada ou cuitelo
que leve embainhado, não fazendo com eles dano[4].
No reinado do Mestre de Avis, o corregedor da Beira embargava as posturas e
ordenações antigas do concelho da Lousã, pelo que, por carta de 16 de Março de
1401, expelida de Leiria, ordenou el-rei ao corregedor da dita comarca que, na Lousã,
deixasse usar e usassem das posturas e ordenações antigas (regimento de pães, vinhos
e frutos) que sempre usaram “non enbargando nossas posturas e hordenaçoes que asy no
dicto logar por nós forom fectas”[5].
Durante a primeira quinzena de Outubro do ano de 1412, o corregedor da comarca
e correição de Entre-Douro-e-Minho, Gonçalo Vasques, elaborou um Regimento para
governo da cidade do Porto[6].Com base neste Regimento foram aprovadas novas
Posturas municipais[7].
Caso modelar é o dos procuradores dos mesteres da vila de Santarém, Rodrigo
Álvares e Pedro Afonso, que, nas Cortes de Lisboa de 1459, afirmam que o corregedor
da comarca é indispensável na vila, porque executa as ordenações e posturas do

1
Cortes Portuguesas: Reinado de D. Pedro I (1357-1367), Instituto Nacional de Investigação Científica, Lisboa,
1986, p. 42. O itálico é nosso.
2
Cortes Portuguesas: Reinado de D. Afonso IV (1325-1357), Instituto Nacional de Investigação Cientifica. Lis-
boa, 1982.
3
Ao estabelecer as funções dos juizes ordinários referem-se primeiro as leis e ordenações do reino e só
depois as posturas e ordenações do concelho [Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 26, §20]
4
Cortes Portuguesas: Reinado de D. Pedro I, p. 114.
5
Maria do Rosário Castiço de CAMPOS, Lousã (1376-1428) elementos para a sua história, Edição da Câmara
Municipal da Lousã, Lousã, 1987, doc. 11, pp. 112-114.
6
Porto, AHM – Livro das Vereações de 1450 (Liv. 3), fls. 38v-47v. Cfr. A. de Magalhães BASTO, “Notas e
Comentário: Um «Regimento» para governo do Porto”, in Documentos e Memórias para a História do Porto II,
Vereações anos de 1390-1395, Porto, p. 360.
7
Porto, AHM – Livro das Vereações de 1450, fl. 75.

149
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

concelho melhor que os oficiais dela[1]. Para além de tudo, o corregedor de Lisboa,
Lopo Vasques, fez parte da comitiva de revisão da primeira colectânea oficial de leis
do reino[2] e o nome do corregedor da corte, João Mendes, está estreitamente ligado à
compilação e organização desta colectânea de leis pátrias. Foi também este corregedor
da corte que elaborou o Regimento da cidade de Évora[3].
Em jeito de conclusão, desde os graus académicos que se podem apurar, aos
relevantes cargos públicos que sabemos terem ocupado e aos testemunhos da sua
iminente actividade, tanto no âmbito do direito local como no âmbito do direito geral, são
pressupostos iniludíveis para que, de ânimo leve, possamos concluir que os corregedores
medievais eram oficiais iletrados e pouco cientes do direito vigente e a aplicar.
De qualquer forma, apesar dos argumentos supra, ainda restam por explicar as
queixas do povo apresentadas em Cortes. Seria demasiado atrevimento tentar impor
a minha ideia deixando no olvido argumentos que são válidos e constantes desde há
quase dois séculos. Antes de mais, repare-se que, em simultâneo, com o pedido que
esses magistrados não sejam fidalgos iletrados, pedem também a limitação temporal do
seu mandato.
As primeiras queixas contra a sapiência dos corregedores das comarcas surgem nas
Cortes de Coimbra de 1385, implantados que estavam nessa data os meirinhos-mores
de comarca. Nas Cortes de Lisboa de 1427, já no final do reinado de D. João I, repetem-
se essas queixas. Na realidade não consegui apurar se nessa data preponderavam os
magistrados fidalgos. Mas do que não há dúvida é que em 1430 já era regedor da justiça
nesta comarca Aires Gomes da Silva, um fidalgo. Ou seja, nesta data, muito próxima de
1427, já os corregedores tinham sido substituídos pelos regedores da justiça. A hipótese
que proponho – e, para já, é uma mera hipótese – é a de que as queixas do povo se diri-
gissem exactamente contra o insurgimento, de novo, dos fidalgos iletrados.
Por isso, se em 1427 ainda não há qualquer certeza, o mesmo se não pode dizer
das queixas apresentadas nas Cortes de 1433, nessa data era regedor das justiças
de Entre-Douro-e-Minho o fidalgo Aires Gomes da Silva. As queixas das Cortes de
1481/82 são, sem dúvida contra os adiantados, regedores e governadores, que, apesar
das promessas de Afonso V, nas Cortes de Coimbra de 1472, continuavam a existir[4].
E então que pensar do pedido feito pela Câmara do Porto, a 17 de Julho de 1475,
para que, acabando os três anos no Janeiro seguinte o corregedor Lourenço Vaz
Margalho, se reconduzisse novamente para o cargo, dispensando a ordenação, por ser
oficial letrado e recto, bem diferente no seu ofício de seus antecessores, sabendo nós
que o seu antecessor tinha sido o regedor (fidalgo) Vasco Martins de Resende?[5]
Resumindo, as queixas do povo contra os magistrados iletrados, que ocupam o
ofício por períodos de tempo indeterminados, parecem-me ser, antes, encaminhadas
para os meirinhos-mores, regedores ou adiantados – fidalgos iletrados – do que,
propriamente, para os corregedores instituídos na primeira metade do século XIV.
Estou, por isso, convicto da exagerada e infundada asseveração generalizadora que
reputa iletrados todos ou a maioria dos corregedores medievais.
Contestada, minimamente, a tese infundada do analfabetismo dos corregedores,
falta comprovar, como acima disse, que são os destinatários preferenciais das ordenações

1
BARROS, História da Administração Pública, p. 206.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. 1, p. 3.
3
Vide capítulo anterior.
4
BARROS, História da Administração Pública, pp. 216-217.
5
Porto, AHM – Livro das Vereações de 1475, fls. 7-7v.

150
José Domingues

régias e os mais assíduos zeladores do seu cumprimento. Mas a tradição de envio


das ordenações aos imediatos representantes do braço da justiça régia já vinha dos
antecedentes meirinhos-mores. Essa prática surge bem documentada no reinado de D.
Dinis, que dirige a carta de 16 de Junho de 1297, para que os que não forem “lídimos”
não comam nas igrejas, nem lhes sejam dados “cavalarias” ou “casamentos”, a Pero
Esteves e a Fernando Esteves, meirinhos de Além e Aquém Douro, respectivamente[1].
A lei, de 23 de Agosto de 1303, que proíbe aos advogados e procuradores receberem
salários dos seus constituintes antes de acabado o pleito, por sentença ou acordo das
partes, é dirigida a Pero Esteves, meirinho-mor de Além Douro, mandando-lhe que
“façades esta carta leer em todo vosso meirinhado”[2].
Apesar da escassez documental para tempos anteriores, essa praxe deve remontar
ao início do reinado antecedente de Afonso III – o fundador dos meirinhos-mores. Por
carta de 6 de Setembro de 1255, outorgada em Coimbra, este monarca dá conta da lei
que taxava as aposentadorias e comedorias dos fidalgos nos mosteiros e igrejas ao seu
meirinho, Martim Real, e aos porteiros de Entre-Douro-e-Minho[3]. No entanto, a esta
lei afonsina dos padroeiros tem sido imputado o mês de Março de 1261 e, na versão do
Livro de Leis e Posturas, é mandada cumprir através do coetâneo meirinho, Nuno Martins
de Chacim[4]. A manifesta discordância entre datas levou-me a reatar a polémica em
torno da datação crítica deste diploma normativo de meados de trezentos[5].
A data de Março de 1261 foi difundida, vai para 160 anos, por Alexandre Herculano,
que cotejou as versões que conhecia do Livro de Leis e Posturas, das Ordenações de D.
Duarte, do n.º 15 do Maço 1 de Leis e do cartório da Universidade de Coimbra. Vale
sempre a pena transcrever umas ilações que atravessaram, praticamente incólumes,
mais de século e meio:

“Lei expedida a par de Guimarães, em Março de 1261, no Maço 1 de Leis, n.º 15,
no Arquivo Nacional. Esta lei, cheia de erros de cópia, acha-se confundida com
fragmentos de outra ou de outras no Livro de Leis e Posturas, fs. 43 e 44, com
referência a duas eras diversas, a de 1366, que cai no reinado de Afonso IV, e a de
1279, que cai no de Sancho II, e por isso inadmissíveis ambas. Posto que no original,
o documento n.º15 do Maço 1 de Leis é muito mais antigo que o Livro de Leis e
Posturas, o qual parece do tempo de D. João I. A circunstância de ser expedido o
diploma «de a par de Guimarães» torna probabilíssima a data de Março de 1261
(1299), porque Afonso III, que residia em Guimarães desde Fevereiro (Livro de
Afonso III, L. 2, f. 47 e ss.), ainda aí se achava em 12 de Março (L. 1 do dito, f. 14),
mas estava já a 25 no Porto (L. 2 do dito, f. 52), chegava no mesmo dia à Feira
(pergaminho do Mosteiro de São Bento de Ave-Maria do Porto, n.º1, nos Extractos
da Academia) e estava em Coimbra nos princípios de Abril (Livro de Afonso III, L.
2, fs. 53v e 54; cartório da fazenda da Universidade, nos Extractos da Academia).
Veja-se também Figueiredo, Sinopse Cronológica, T. 1, pp. 3 e 4, nota”[6]

1
Livro de Leis e Posturas, p. 196.
Ordenações de D. Duarte, pp. 166-167 (com data de 1301, Janeiro, 07).
2
Livro de Leis e Posturas, pp. 83-84.
Ordenações de D. Duarte, p. 191.
3
Braga, AD – Gaveta 2.ª das Igrejas, n.º 135.
4
Portugaliae Monumenta Historica, pp. 201-210.
5
José DOMINGUES, “Padroado Medieval Melgacense (S.ta Mª da Porta, S.ta Mª do Campo e S. Fagundo)”,
Boletim Cultural de Melgaço, n.º3, edição Câmara Municipal de Melgaço, 2004, pp. 68-70.
6
Alexandre HERCULANO, História de Portugal, Livraria Bertrand, 1982, tomo III, liv. VI, p. 123, nota 154.

151
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Nada a objectar à esclarecida data – Março de 1261 – a que chega o criterioso


Herculano, que, como o próprio refere, se enquadra no itinerário de Afonso III e
conta com o reforço documental do apógrafo avulso da Torre do Tombo. Antes pelo
contrário, pode-se acrescentar que a corte ainda se encontrava em Guimarães a 16 de
Março desse ano[1] e – embora de pouco mérito, por ser cópia do da Torre do Tombo – a
existência de outro apógrafo tardio no mesmo sentido[2].
A robustez dos argumentos não dissipam, pelo menos totalmente, as incertezas
sobre a datação dos decretos afonsinos que tentaram pôr cobro à desmesura laica dos
padroeiros nos mosteiros e igrejas, sendo bem perceptíveis as reservas do Solitário de
Vale de Lobos. Apesar da data fundamentada a que chega, entende, em mais do que
uma passagem, que o monumento de 1261 se refere a um degredo feito em Guimarães
em época anterior[3] e, quanto à reunião das Cortes de Guimarães de 1261, debate:

“A Commissão de Côrtes da Academia considerou esta lei como resultado de um


parlamento reunido então em Guimarães. É altamente improvavel que houvesse uma
assembléa dessas em Guimarães no mez de março e logo no mez seguinte outra semelhante
em Coimbra. Posto que no contexto da lei se alluda a um degredo de Guimarães,
allude-se a um acto anterior, e não deste anno.”[4]

Destas palavras ressumbra que, apesar de o documento estar datado de 1261, os


decretos são de uma cúria de Guimarães antecedente. Nesta linha de pensamento,
Herculano chega mesmo a atribui-los às Cortes de Guimarães de 1250[5], mas sem
outro fundamento que não seja o da anterioridade a 1261. Dando continuidade, mas
não consonância, a esta ideia oitocentista, o documento da mitra bracarense, vem dar
conta de uma cúria de Guimarães incógnita, reunida no mês de Julho de 1255, portanto
antes de 1261, onde se decretaram providências sobre o jantar e pousada dos fidalgos nas
igrejas e mosteiros, nomeadamente, quanto à comitiva e periodicidade das visitas[6].
Este último monumento, infelizmente, não transcreve, na íntegra, os preceitos
normativos das Cortes de Guimarães, mas a coincidência entre o local de reunião e a
matéria versada é suficiente para, pelo menos, reimplantar a controvérsia da datação
crítica dos decretos de D. Afonso III sobre as comedorias e pousadias dos fidalgos nos mosteiros
e igrejas. Por outro lado, lançando mão, mais uma vez, do itinerário deste monarca,
não restam dúvidas de que em 6 de Setembro de 1255, data do documento bracarense,
a corte estava em Coimbra[7]. O mesmo se não poderá dizer da outra data, Julho de
1255, que o mesmo documento confere às Cortes de Guimarães. Pelo mesmo itinerário,
desse ano de 1255, desde 6 a 12 de Julho o monarca esteve em Lisboa, só aparecendo
a 23 de Agosto em Paço de Sousa[8]. É um espaço temporal de 42 dias, que conjugado
com a proximidade geográfica de Paço de Sousa a Guimarães, bem permite prever
uma deslocação directa de Lisboa a Guimarães e a reunião da cúria para os finais do
mês de Julho desse ano.

1
João José Alves DIAS, “Itinerários de D. Afonso III (1245-1279)”, Arquivos do Centro Cultural Português,
Fundação Calouste Gulbenkian, vol. XV, Paris, 1980, p. 495.
2
Porto, AHM – Livro A, fl. 151-154.
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 184-185 e 201-202.
4
Portugaliae Monumenta Historica, p. 201.
5
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, pp. 184-185.
6
Braga, AD – Gaveta 2 de igrejas, n.º135.
7
DIAS, “Itinerários de D. Afonso III”, p. 482.
8
Idem, p. 482.

152
José Domingues

Recapitulando, aquilo que, neste momento, me parece mais plausível é que os


degredos de Afonso III tivessem sido promulgados no final do mês de Julho de 1255,
na cúria de Guimarães; sendo confirmados, também em Guimarães, em Março de
1261. Consequentemente, terá que acrescentar-se, ao itinerário de 1255 do Bolonhês, a
passagem por Guimarães em finais de Julho e, ao arrolamento das suas Cortes, estas
de Guimarães de 1255.
Em provisão de 31 de Agosto de 1269, o soberano, no seguimento das queixas
apresentadas pela abadessa e convento de Rio Tinto contra a fidalguia, manda cumprir
os mesmos decretos ao meirinho-mor Nuno Martins de Chacim[1]. Posto isto, tudo leva a
crer que, tanto D. Afonso III como D. Dinis, enviam as Ordenações aos seus meirinhos,
que, com toda a probabilidade, as difundem pelos respectivos meirinhados, advertindo
os tabeliães para as suas obrigações de registo e leitura nas audiências concelhias.
A instituição dos corregedores, no reinado de Afonso IV, ao contrário do que se
pensa, não acabou, imediatamente, com os meirinhos-mores, sendo por isso vulgar a
referência simultânea às duas magistraturas. Por exemplo, na lei declaratória sobre as
vindictas, refere-se o meirinho ou corregedor que na terra andar[2]. Desaparecidos no
reinado de D. Pedro I, os meirinhos-mores, como já disse, foram reimplantados por
D. Fernando – a ordenação de como são defesas as bestas muares é mandada publicar
aos meirinhos, cada um em suas comarcas[3] – e só se eclipsam, definitivamente, na
primeira ou segunda década do século XV[4]. Mas passemos então aos corregedores,
vigentes ao tempo das Afonsinas, que o excurso em torno dos meirinhos do rei já foi
longo e merece tratamento mais dedicado e detalhado em trabalho independente.
O predominante papel publicista dos corregedores está bem visível e explanado
quando Afonso IV, na ordenação de 13 de Julho de 1349, outorgada em Leiria, manda
a todos os corregedores das comarcas que zelem pelo cumprimento dessa ordenação,
mas, também, que apregoem nos concelhos a sua publicação e, depois de publicada,
ordenem aos tabeliães que a registem em seus livros e a leiam no concelho o primeiro
dia de cada mês, durante um ano. O incumprimento é cominado com a perda do ofício
do tabelionado, palavras do monarca:

“E mando aos corregedores desas comarcas que cheguem a eses logares E uejam
como guardades as sobreditas cousas E que uo-llo estranhem se em alguã cousa
delas negrijentes fordes E fazede apregoar no uoso concelho pera pobricardes esta
carta E depoys que for pobricada mandaee aos tabaliaees que a rregistem em seus
liuros E que a pobriquem no concelho o primeiro dia de cada huum mes de todo o
anno so pena de perderem seus ofiçios”[5].

É por demais evidente que, antes de chegarem aos tabeliães, as ordenações


passam pelos corregedores de comarca. Já na Ordenação sobre a tomada de aves, de

1
António CRUZ, “Alguns documentos medievais do cartório de São Bento da Ave-Maria”, Boletim Cultural
da Câmara Municipal do Porto, Porto, 1945, vol. VIII, Fasc. 1-2, pp. 142-143.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 53, §§ 13-24.
Ordenações de D. Duarte, pp. 388-392.
Livro de Leis e Posturas, pp. 414-417.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, p. 397.
4
A última referência documental que, por ora, consegui é a do meirinho-mor de Entre-Douro-e-Minho e
Trás-os-Montes, D. Fr. Álvaro Gonçalves Camelo, de 12 de Setembro de 1407 [IAN/TT – Livro I de Além
Douro, fl. 253].
5
Ordenações de D. Duarte, pp. 526-529. O itálico é nosso.

153
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

29 de Março de 1359, D. Pedro I “mandou aos corregedores que publicasem esta ley per
todas suas correyçõoes E assy a fizesem apregoar e guardar como em ella he contheudo”[1]. A
lei de 12 de Maio de 1393, para que as cartas enviadas pelos concelhos sejam assinadas
nas Câmaras, é dirigida ao corregedor da corte, ao corregedor de Lisboa e a todos os
corregedores das comarcas do reino, para que a façam publicar em “cada huma Cidade,
Villa, ou Lugar, e Concelho” e a mandem registar na Câmara de cada uma cidade, vila
ou lugar[2]. A lei dos barregueiros casados, de 22 de Setembro de 1400, é dirigida “a
todolllos Corregedores, Juízes e Justiças dos nossos Regnos”, e mandada “que cada huum de
vós em suas Correiçoões, e Julgados façades logo esto pregoar”[3]. A Lei que proíbe as bestas
muares, de 26 de Fevereiro de 1405, é dirigida aos corregedores do reino, que a deviam
publicar por todas as vilas e lugares “em tal guisa, que nenhum Juiz, nem Justiça nom aja
escusaçom, que o nom saiba”[4]. No Regimento dos juízes de 1496 prevê-se o envio de
um treslado, a partir do livro da Chancelaria, aos corregedores das comarcas para o
fazerem publicar e notificar em todos os lugares de suas correições[5].
Concludente é o facto de algumas ordenações se conhecerem pela versão enviada
a um corregedor em concreto. Por exemplo, o compilador das Ordenações serve-se do
duplicado da lei de D. João I, sobre a forma da doação régia dos bens de algum judeu
confiscados por compra ilícita de ouro, prata ou moedas, dirigida ao corregedor da
comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana, Afonso Vasques[6]. Esta ordenação aparece com
duas datas distintas nos diversos códices, mas a data correcta é a do ano de 1417 (era
de mil quatrocentos e cinquenta e cinco), porque é próximo desta data que Afonso
Vasques aparece no desempenho da corregedoria de Entre-Tejo-e-Guadiana[7].
Alguns desses transcritos são conhecidos na sua forma avulsa enviada ao respectivo
corregedor. A Lei joanina dos coutos de homiziados, foi enviada ao corregedor da Beira,
Vasco Peres, em carta régia selada com o selo redondo e assinada pelo corregedor da
corte, João Mendes[8]. Este acaso impar permite-nos acompanhar uma fracção ínfima
do moroso excurso temporal de uma ordenação medieval, até chegar aos derradeiros
destinatários. A ordenação foi dada a 30 de Agosto de 1406[9], nas Cortes de Santarém[10],
e a carta para o corregedor da Beira foi assinada no dia 27 de Setembro (passados 28
dias), que a apresentou na Lousã no dia 5 de Novembro desse ano (passados mais
39 dias), onde será publicada no dia 14 desse mês de Novembro (mais 9 dias). Ou
seja, desde a feitura em Santarém até à publicação na Lousã consumiram-se 76 dias. A
distância que medeia entre estas duas localidades nunca será superior a 150 Kms, mas
as inferências são ainda muito precárias, porque, para além de se tratar de um caso
isolado, nos faltam imensos dados, nomeadamente, em que data o corregedor recebeu
o diploma e a sua distribuição pelas outras localidades da comarca[11].

1
Chancelarias Portuguesas: D. Pedro I, doc. 369, p. 148.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 24, §§ 1 e 5, pp. 111 e 113-114. Desta vez o registo é nos próprios livros
da Câmara e não nos dos tabeliães.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 20, pp. 80-81.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 119, p. 403.
5
RIBEIRO, Dissertações Cronológicas, tomo IV, Parte I, doc. 7, pp. 192-199
6
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 78, §1.
7
PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, p. 239.
8
Lousã, AM – Doc. 105.
Publ. CAMPOS, Lousã (1376-1428), Elementos para a sua história, pp. 117-130
9
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 61, § 24, p. 252.
10
Sobre a duração destas cortes, Armindo de Sousa concluiu que “as cortes de 1406/Santarém reuniram em
Setembro, tendo sido iniciadas, quando muito, em Agosto”.
11
O processo pode não ser tão moroso como, este caso, quer parecer: por exemplo, a ordenação proibindo

154
José Domingues

Este diploma tem ainda a particularidade de certificar a tese que venho expondo
de que os tabeliães, ao contrário do que se pensava, são dos derradeiros destinatários
das ordenações medievais. O termo de publicação, bem como o traslado de todo o
documento, foi feito pelo tabelião da vila, Pedro Afonso, que o leu e publicou, sob
o alpendre dos paços do concelho, por ordem dos juízes da Lousã, Afonso Eanes
e Pedro Fernandes, no dia 14 de Novembro de 1406[1]. Na mesma data, o mesmo
tabelião, publicou a outra ordenação deixada pelo dito corregedor, sobre a castração
de carneiros, que lhe tinha sido enviada por carta régia de 6 de Outubro de 1406[2],
portanto, com diferença de 9 dias, em relação à anterior.
A lei para que não consintam aos moradores de Castela que venham em assuada
a estes reinos para mal fazer, de 17 de Setembro de 1434, é dirigida a Aires Gomes
da Silva, regedor das justiças de Entre-Douro-e-Minho [3], e ao corregedor de Trás-
os-Montes, ordenando-lhe que a fizessem apregoar por todos as vilas e lugares do
estremo, “e dados assy os ditos pregõoes, fazee em cada hum desses Lugares registar esta
Carta, e poer nos livros das Camaras dos Concelhos”[4]. Por carta de 20 de Abril de 1428,
em Évora, o corregedor da comarca, Estêvão Fernandes, assegura ao procurador da
cidade que o perdão prometido por D. João I aos homiziados que participassem na
expedição a Ceuta fora devidamente publicitado, e muitos resolveram, graças a ele, os
seus problemas com a Justiça[5].
Pode ainda dar-se o caso de o transcrito enviado a um corregedor ser a única
forma de conhecimento de algumas leis medievais, que não foram aproveitadas nas
posteriores compilações. É o caso da carta régia, de 14 de Março de 1410, enviada ao
corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana, Gonçalo Mendes, para que fizesse apregoar por
todos os lugares da sua correição, a decisão tomada com o conselho da corte, para que
todas as cidades, vilas e julgados do reino, com trinta ou mais homens, dessem um lobo
morto por ano. Os julgados que não cumprissem teriam que pagar uma dobra de ouro.
Estipula também um prémio de 100 reais de três libras e meia, pagos pelo concelho,
para quem matar lobo grande ou pequeno[6]. Termina impondo ao dito corregedor que
“logo vistas esta carta façaes esto apregoar por todos esses lugares dessa correiçom”[7].
Apesar de só se conhecer o traslado enviado ao corregedor de Entre‑Tejo‑e‑Guadiana,
é bem latente que a decisão devia ser aplicada por todo o reino[8], tendo sido enviadas
cartas aos corregedores das restantes comarcas. A cinegética destaca-se, desde cedo,
no quotidiano do Homem medieval, carecendo, com certeza, de regulamentação
jurídica específica. A sua importância como passatempo da aristocracia e, em simultâneo,
como actividade propedêutica da guerra, está bem vincada em Leontina Ventura, desde
os primeiros reinados[9]. No entanto, este âmbito é um dos grandes vácuos legislativos

as vigílias e dormidas em locais sagrados foi feita a 10 de Abril de 1436, em Estremoz, passado um traslado
a 13 de Abril, que foi apresentado a 18 desse mês, em Évora (oito dias de diferença, apenas).
1
CAMPOS, Lousã (1376-1428), Elementos para a sua história, pp. 130-131.
2
Lousã, AM – Doc. 105.
Publ. CAMPOS, Lousã (1376-1428), Elementos para a sua história, pp. 131-132.
3
Aires Gomes da Silva é regedor desta comarca desde 1430 até 1441.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 116.
5
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 10.
6
Sobre os prémios a pagar aos caçadores de lobos, José DOMINGUES, “Caça ao Lobo – Legislação Arcai-
ca”, Agália, n.º 83/84, 2005, pp. 265-269.
7
Sesimbra, AM – Livro do Tombo da Vila de Sesimbra renovado em 1728, fl. 43.
8
O mesmo realçou Herculano, e bem, para a lei da almotaçaria de 1253.
9
Leontina VENTURA, A Nobreza da Corte de Afonso III, Dissertação de Doutoramento apresentada à Uni-

155
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

das Afonsinas, que, salvo a excepção do Regimento do monteiro-mor, só consigna,


indirectamente, esporádica referência a alguma lei desaparecida – por exemplo, a de
D. Duarte que impunha uma coima de mil libras de boa moeda a quem matasse urso,
por todo o reino, sem autorização de el-rei[1].
A matéria da provisão enviada ao corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana tinha
sido tratada nas Cortes de Lisboa de 1410. No capitulo 23º a petição para que os
concelhos não sejam obrigados a pagar aos caçadores dos lobos senão cem reais por
animal adulto e outros cem por ninhada, independentemente do número de cachorros
existentes em cada uma, foi indeferida[2]. Por sua vez, nas Cortes de Santarém de 1430,
ficou consignado que os procuradores dos concelhos fossem obrigados pelos juízes a
pagar aos caçadores de lobos no prazo de oito dias os prémios da lei; caso contrário,
pagariam da sua bolsa, sem que tal despesa lhes pudesse ser levada em conta[3].
Para além dos indispensáveis subsídios documentais, o mais coerente não pode
deixar de ser que, na propagação das ordenações, se siga a hierarquia judiciária
da época, em função do território, importa por isso dedicar umas breves linhas à
fragmentação judicial do reino em comarcas. Não será por acaso que, por exemplo, a
carta de D. João I para que os tabeliães do reino paguem uma pensão de mil libras por
ano, para além de impor aos corregedores “que o trellado desta Nossa Hordenaçom com o
nosso seello for mostrada, que mandem apregoar per todallas Cidades, Villas, e Lugares”, faz
referência expressa às seis comarcas do reino: Entre-Douro-e-Minho, Trás-os-Montes,
Beira, Estremadura, Entre-Tejo-e-Guadiana e Algarve[4].
A divisão em seis comarcas foi asseverada por João Pedro Ribeiro, há quase
dezassete décadas atrás, nestes termos:

“achei quasi constantemente desde o Senhor Dom Affonso III, ao menos, dividido
o Reino, comprehendendo o do Algarve, em seis Correições, e encarregadas a seis
diversos individuos” [5]

E, apesar de toda a conveniência e pragmatismo, tem sido dispensado muito pouco


esmero a esta causa e quase nada se adiantou a este pioneiro e indefesso investigador,
falecido há centenares de anos (†1839). A tarefa afigura-se árdua e bastante ingrata,
não só pelas palavras do calejado Ribeiro[6], mas também, na actualidade, segundo
versados autores medievalistas:

“Não é fácil desenhar um mapa das comarcas medievais portuguesas. Dispomos


de uma boa proposta de Oliveira Marques; as maiores dúvidas surgem, naturalmente,

versidade de Coimbra, Coimbra, 1992, vol. I, p. 135. Onde se referem os falcoeiros de Sancho I (Petrelino
e Mem Gonçalves) de Afonso II (Gonçalo Peres e Mem Gomes) e os açoreiros de Afonso III (Martim Fer-
nandes e João Pais).
1
Ordenações Afonsinas, Livro I, Tít. 67, § 17, p. 404.
2
SOUSA, As Cortes Medievais Portuguesas, vol. II, p. 266.
3
Idem, p. 287.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 34, §§ 1 e 2, pp. 278-279.
5
João Pedro RIBEIRO, “Memoria sobre A subdivisão das Correições no Reinado do Senhor D. João III e
Cadastro das Provincias que se procedeo no mesmo Reinado”, Reflexões Historicas, Parte II, Coimbra, Im-
prensa da Universidade, 1836, p. 2.
6
“Tendo eu mesmo examinado diversos Cartórios, e levando muito em vista a historia dos nossos antigos
Magistrados e suas origens, pouco pude liquidar á cerca das Correições nas duas epochas, a saber, anterior
á subdivisão que tenho em vista, e próxima posteriormente á mesma desmembração das Comarcas” [RI-
BEIRO, “Memoria sobre a subdivisão das Correições”, p. 2].

156
José Domingues

nas delimitações entre elas. Como nota Armindo


de Sousa, tais delimitações ‘oscilam com os
tempos e não é muito fácil estabelecê-las até ao
pormenor. (…) Um mapa minucioso há-de ter
em consideração que os corregedores visitavam
cidades, vilas e julgados, que procuravam
pessoas, de modo que os limites comarcãos teriam
sido mais as montanhas e ermos do que os rios: mais
o que separava e afastava comunidades do que
aquilo que servia para as pôr em contacto, como
eram os cursos de água”[1]

Penso que não se trata apenas de uma questão


de delimitação entre comarcas, mas de, antes de
mais, apurar o seu número exacto ao longo dos
séculos. Para se poder circunscrever a uma mera
questão de limites, a oscilarem com os tempos,
teríamos que partir da premissa, aventada por
João Pedro Ribeiro, de que o reino esteve sempre
dividido em seis comarcas, desde, pelo menos, a
criação dos meirinhos-mores (no tempo de Afonso
III), até à subdivisão das correições no reinado de
D. João III. A constante divisão em seis comarcas,
salvo as mutações limítrofes, ao longo de mais
de dois séculos e meio, desde meados do século
XIII até à década de 30 do século XVI, parece ser o
entendimento dos autores supra, provavelmente
na esteira de Ribeiro. Não me parece. Por isso,
considero que a proposta de Oliveira Marques pode ser boa para os séculos XIV-XV[2],
mas estar completamente desajustada para o século XIII.
Por outro lado, também não posso concordar com a ideia de que “os limites comarcãos
teriam sido mais as montanhas e ermos do que os rios”, inculcando uma indefinição dos limites
das comarcas medievais, quando é suficientemente sabido que os rios são os acidentes
geográficos que, maioritariamente, servem de linha limítrofe às comarcas medievais,
que não raro com eles se identificam: Entre-Douro-e-Minho, Entre-Douro‑e‑Mondego,
Entre-Douro-e-Tejo, Entre-Tejo-e-Guadiana, etc… O que, obviamente, não quer dizer
que, por uma questão de pragmatismo, em algum momento se tenha associado um
determinado território à comarca da outra margem[3], mas esta seria a excepção e não
a regra. Além do mais, parece um contra-senso condicionar os limites territoriais às
visitas dos magistrados, quando é certo que a deslocação destes é que está subordinada
aos prévios limites territoriais estabelecidos.
Antes de mais, convém explicitar dois aspectos quanto à nomenclatura adoptada
para cada uma das comarcas. Em primeiro, não é criada toponímia nova, antes se
adaptou a nova divisão às designações territoriais pré-existentes. Não surpreende,

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 225-226. O itálico é nosso.
2
Oliveira MARQUES, Portugal na crise dos séculos XIV-XV, Nova História de Portugal, dirigida por Joel
SERRÃO e A. H. de Oliveira MARQUES, Lisboa, 1987.
3
Por exemplo, em 27 de Novembro de 1437, o concelho de Vila Nova de Gaia foi desmembrado da comarca
da Estremadura e integrado na de Entre-Douro-e-Minho [Corpus Codicum Latinorum et Portugalensium, vol.
IV, pp. 15-16].

157
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

por isso, que a Beira já venha referida no foral de Arego de 1201[1] e que lhe sejam
nomeados tenentes desde 1211[2]; e a Estremadura em documentos de 1112 e de [1129-
1130][3] e numa lei de Afonso II, de 1211[4].
Quer isto dizer que se aproveitaram delimitações antigas, sujeitas depois à paulatina
evolução das incipientes magistraturas que passam a servir. Em segundo lugar, parece
unânime que primeiro tenha surgido a instituição jurídica, a actuar num determinado
espaço territorial definido, e só posteriormente esse território adopte a designação
correlactiva. Assim sendo, não será correcto falarmos, de forma constante e indistinta, na
divisão administrativa em comarcas ou correições, que só aparecem com os corregedores.
Uma vez que os meirinhos-mores são considerados os seus antecessores próximos, o
mais correcto será primeiro falarmos da divisão administrativa em meirinhados.
Independentemente da terminologia adoptada, a primeira dúvida é a de apurar
se, efectivamente, desde Afonso III, o reinado estava dividido em seis meirinhados.
De toda a documentação que me foi possível compulsar, desde Afonso III até Afonso
IV, só encontro meirinhos-mores para Além-Douro e Aquém-Douro, ou então para
Entre‑Douro-e-Minho e Beira, e não encontro um único meirinho-mor de Trás-os-Montes,
Estremadura, Entre-Tejo-e-Guadiana e Algarve[5]. É demasiado proeminente e, há
falta de outra documentação comprobatória, neste momento, penso que, na segunda
metade da centúria de duzentos e primeira de trezentos, tenham existido apenas dois
meirinhados: um abarcando o espaço territorial a norte do Douro (Além-Douro) e outro
o espaço territorial a sul desse mesmo rio (Aquém-Douro). Entre-Douro‑e‑Minho e
Beira são apenas designações diferentes para cada um desses respectivos meirinhados.
Saliente-se que a terminologia de meirinhados se prolongou para além da instituição
dos corregedores: em documento de 8 de Fevereiro de 1340 se refere “valasco iohannis
correctori pro Rege in Maiorinatu seu correctoria de inter dorium et Minium”[6]; em
1337 refere-se João Gil do Avelal, corregedor e vedor da justiça por el-rei no meirinhado
da Beira[7]; nos foros de S. Martinho de Mouros de 11 de Junho de 1342, também Afonso
Anes é referido como corregedor por el-rei no meirinhado da Beira[8]; e é o próprio Afonso
Eanes que, no documento de 27 de Junho de 1344, sobre a jurisdição do mosteiro de
Baltar, se auto-intitula “Corregedor por el rrey no meirinhado da beira e na beira e nos outros
lugares que me per el he mandado”[9].
Talvez agora se entenda melhor o porquê de D. Dinis, no codicilo ao seu testamento
de 18 de Abril de 1299, mandar à rainha, a quem comete a regência do reino durante a

1
José Pedro MACHADO, Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa, Editorial Confluência,
vol. I, p. 232, s. v. Beira. Que diz: “A noção da unidade regional do que se entende genericamente por Beira
talvez tenha aparecido nos fins do séc. XII”.
2
Leontina VENTURA, A Nobreza da Corte de Afonso III, Coimbra, 1992.
3
José Pedro MACHADO, Dicionário Onomástico Etimológico, vol. II, p. 599, s. v. Estremadura.
4
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 164.
5
Cfr. Leontina VENTURA, A Nobreza da Corte de Afonso III.
João Pedro RIBEIRO, “Lista dos Magistrados de segunda instancia, que nos primeiros Seculos da Mo-
narquia exercitarão o Officio de Correição com diversos Titulos”, Reflexões Historicas, Parte. II, Coimbra,
Imprensa da Universidade, 1836.
6
Corpus Codicum, vol. II, p. 172.
7
António Caetano do AMARAL, Memória V para a história da legislação e costumes de Portugal, Livraria
Civilização-Editora, Porto, 1945, p. 173.
8
Nos Foros de S. Martinho de Mouros, na Colecção de Livros Inéditos de História Portuguesa, publicados pela
Academia Real das Ciências, Tomo IV, Lisboa, 1816, p. 579.
9
Chancelarias Portuguesas. D. Pedro I (1357-1367), Instituto Nacional de Investigação Cientifica, organizador
A. H. de Oliveira MARQUES, Lisboa, 1984, doc. 234, pp. 79-84.

158
José Domingues

menoridade do sucessor da coroa, nomear apenas para Entre-Douro-e-Minho e para a


Beira[1] meirinho ou meirinhos, quais tiver por bem. Este codicilo dionisino foi um dos
esteios que me induziram à ilação de, inicialmente, existirem apenas dois meirinhados
e respectivos servidores. Seriam coincidências e lapsos em excesso que documentos
como o que é passado em Frielas a 2 de Outubro de 1307, sobre as marcantes inquirições
gerais[2], ou a lei geral para que os que não forem lídimos não comam nas igrejas, nem
lhes sejam dados cavalarias ou casamentos[3], sejam dirigidas apenas aos meirinhos‑mores
de Além e Aquém Douro.
Restringidas para duas as divisões administrativo-judiciais do reino, a questão
imediata é, certamente, a dos seus limites territoriais, até porque Entre-Douro-e-
Minho e Beira irão subsistir como comarcas. Não é o momento adequado para uma
exposição alargada[4], mas pelos documentos que compulsei estou convicto que, até
finais do reinado de D. Dinis, pelo menos, o meirinhado de Além-Douro abrangia todo
o espaço territorial a norte do rio Douro (circundado pelo oceano, pelo rio Minho e pela
fronteira com Castela). Por sua vez, os limites territoriais do meirinhado de Aquém-
Douro compreendem a zona de entre o rio Douro e o Mondego e do espaço territorial
que viria a ser a comarca da Beira (entre o rio Douro e o Tejo). Quanto me foi dado
averiguar, no início do século XV ainda a comarca da Beira integrava o espaço territorial
de Entre‑Douro-e-Mondego, reminiscências do antecedente meirinhado de Aquém-
Douro. Mas em 1421, no arrolamento dos besteiros do conto, já este território pertence
à Estremadura e, por documento de 27 de Novembro de 1437, o actual concelho de Vila
Nova de Gaia será desmembrado desta última comarca e integrado na de Entre Douro
e Minho[5].
Após este breve atalho pela divisão administrativa do reino em meirinhados e
comarcas, penso que, neste momento, estão angariados elementos suficientes que per-
mitam, de forma resumida, compreender o processo genérico de publicação de uma
ordenação quatrocentista, conforme o divulga Oliveira Marques:

“Desde a sua promulgação em Lisboa – ou onde quer que o autor se encontrasse


– até atingir a mais remota sede de concelho, a lei demorava muitos dias,
passando por sucessivas mãos distribuidoras ao nível regional e ao nível local. Da
Chancelaria régia seguia para os vários corregedores das comarcas e de cada um
destes para diversos emissários, que a levavam depois, dentro de cada comarca,
de lugar em lugar”[6]

Ultrapassados os meandros da corte, com leitura nas audiências e o registo


nos livros da Chancelaria, enviam-se os respectivos traslados para os corregedores
das comarcas. Em sua comarca, o corregedor deve mandá-la apregoar em todas as
vilas, para que todos tenham conhecimento do seu conteúdo e não possam alegar
ignorância, conforme previsto no final da lei do que é obrigado a pagar maravedi de

1
Esta Beira só pode ser identificada com o meirinhado de Aquém-Douro, uma vez que não se conhece
nenhum meirinho-mor, antecedente ou subsequente a esse monumento, expressamente identificado para
a Beira. [Cfr. João Pedro RIBEIRO, “Lista dos Magistrados de segunda instancia”, pp. 39-43].
2
João Pedro RIBEIRO, Memorias para a historia das inquirições, doc. 23, pp. 61-62.
Corpus Codicum, vol. I, pp. 145-146.
3
Livro de Leis e Posturas, p. 196. (refere ambos como meirinhos-mores).
Ordenações de D. Duarte, pp. 166-167.
4
O desenvolver desta matéria fica adiado para trabalho específico ao tema.
5
Corpus Codicum, vol. IV, pp. 15-16.
6
MARQUES, Portugal na crise dos séculos XIV-XV, p. 285-286.

159
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Castela quanto pagará por ele em Portugal: “e porem vos mandamos, que vista esta nossa
Carta, mandees logo esto todo assy apregoar em todalas Villas do estremo dessa Comarca, de
que teendes carrego, em tal guisa que a todos geeralmente venha em conhecimento, e nom possa
nenhum dello allegar ignorancia”[1].
O pregão pelas diversas vilas da correição ficava a expensas do próprio corregedor
e seus núncios. Os limites comarcãos eram dilatados, a rede viária bastante impraticável
e o gládio da justiça muito pesado, por isso, é natural que os corregedores medievais
se acautelem com numerosa comitiva de oficiais: desde o chanceler da correição[2], o
meirinho da correição[3], escrivães[4], tabeliães[5], caminheiros, porteiros[6] e até carrasco
próprio[7]. Consequentemente, são assíduos, em Cortes, os queixumes contra estas
extensas comitivas[8], mas, por outro lado, os oficiais letrados – nomeadamente os
tabeliães, escrivães e chanceleres – seriam um apoio incondicional na tarefa de publicar
as ordenações pelas vilas e lugares da comarca. Para tal, teriam que ser feitos tantos
traslados quantos os núncios eleitos e, em simultâneo, o registo no livro das ordenações
da Chancelaria da correição, conforme consta em diploma do Mestre de Avis:

“E outro sy Mandamos ao Escripvão da Chancellaria de cada huã Comarca, que


a registe em o livro da dita Chancellaria, honde andão as outras Nossas Hordenaçõoes
registadas, pera hy andar escripta, e os Corregedores, que hy forem, a fazerem
comprir, e guardar em todo como aqui usso dito he”[9]

Eis mais um Livro de Ordenações, mas agora numa instituição totalmente diferente
e muito pouco estudada, a Chancelaria das correições do reino. Qual a relação deste
Livro de Ordenações com os que tratamos no capítulo antecedente? Será um livro de
registo específico das ordenações enviadas à correição? Ou será o Livro das Ordenações
mandado elaborar pelo soberano? Ou seja, este livro será originário da Chancelaria
da correição ou viria antes da Chancelaria-mor do reino com as ordenações do reino?
Poderá ser identificado com os vulgares Livros de Ordenações ou será um livro específico
de registo das correições?
Qualquer resposta terminante, à falta de outros apoios documentais, será
demasiado arriscada. No entanto, não deixa de ser notória a eventualidade de este
assento constar no final de uma ordenação de D. João I, quando já estão vigentes os

1
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 20, §§ 1-3.
2
Por exemplo, em documento de 10 de Julho de 1465 surge João Afonso como chanceler da correição de
Entre-Douro-e-Minho [Porto, AHM – Livro B, fls. 63v-70v].
3
Por carta de 15 de Setembro de 1445 é nomeado meirinho da correição de Entre-Douro-e-Minho Fernão
Velho, em substituição de Gonçalo Cerveira, que se encontrava “aleixado”. [MORENO, A Batalha de Alfar-
robeira, vol. II, pp. 1079-1080]
4
D. Afonso IV, por carta de 5 de Agosto de 1336, nomeia Estêvão Gonçalves, tabelião de Faro, para escrivão
do corregedor do reino do Algarve, Afonso Eanes, descriminando as funções do seu ofício. [Chancelarias
Portuguesas: D. Afonso IV, Vol. II, doc. 50, pp. 107-108]
5
D. João I isentou o tabelião geral de cada comarca de pagar as mil libras de pensão anual, estabelecida por
lei [Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 34, §§ 5 e 6]. Em 26 de Março de 1331 eram tabeliães da comarca de
Entre-Douro-e-Minho João Domingues e João Martins [Corpus Codicum, vol. II, p. 180].
6
Referido em carta régia de 6 de Junho de 1399 [Corpus Codicum, vol. IV, p. 10].
7
Uma provisão régia, de 8 de Dezembro de 1491, manda que dois presos por furto ao D. abade de Santo
Tirso fiquem, um para executor da justiça do Porto e outro na correição de Entre-Douro-e-Minho, em lugar
dos que tinham falecido [Porto, AHM – Livro Antigo de Provisões, fls. 89v-90v].
8
Nas cortes de Leiria de 1372 [Cortes Portuguesas: reinado de D. Fernando, p. 131], nas cortes de Leiria-Santarém
de 1433 [Armindo de SOUSA, “As cortes de Leiria-Santarém de 1433”, Sep. de Estudos Medievais, n.º2, Porto,
1982, p. 108], nas cortes de Évora de 1481/83 [BARROS, História da Administração Pública, tomo XI, p. 202].
9
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 34, § 7.

160
José Domingues

Livros de Ordenações do Reino, mandados coligir por este monarca. Além do mais, o
registo de ordenações avulsas no final das colectâneas oficiais está inteiramente
certificado, não só nas Ordenações de D. Afonso V como também nas de D. Duarte.
Devidamente autenticada[1], a Ordenação saía do âmbito da correição para
as diversas vilas do reino. Á chegada do corregedor, ou seu representante, reunia-
se a vereação, que mandava proclamar a ordenação por toda a vila ao pregoeiro do
concelho. Para além da divulgação oral, a ordenação devia ficar assente no respectivo
cartório do concelho. Esta obrigação de registo ficou explícita na lei de 12 de Maio de
1393, “e mandees a dita nossa Carta seer registada em a Camara de cada huma Cidade,
Villa, ou Lugar”[2], e na de 17 de Setembro de 1434, “fazee em cada hum desses Lugares
registar esta Carta, e poer nos livros das Camaras dos Concelhos”[3]. Neste sentido, os livros
de vereações medievais poderiam ser um importante repositório do direito vigente,
mas, anteriores à conclusão das Afonsinas, são escassos os que chegaram aos nossos
dias[4]. De qualquer forma, a ordenação dos pelouros consta num dos livros de actas
da cidade do Porto[5] e em outro ficou registada a ordenação dos vereadores, que tinha
sido anexada ao regimento dos corregedores de 1340[6].
Em seguida, os oficiais concelhios providenciariam a sua publicação e registo
pelo tabelião local, que ficava com a obrigação de a ler em público amiúdo, variando
conforme a importância do motivo tratado. Marcello Caetano entende que, “embora o
mais frequente fosse a leitura em público uma vez por semana durante um ano, esta regra não
era invariável, pois, conforme a importância do assunto, havia leis que bastava ler uma vez por
mês e outras até uma vez por ano”[7].
No regimento dos corregedores, numa das cláusulas de 1418, ficou assim
consignada a obrigação de os corregedores publicitarem as ordenações:

“E façam pobricar estas Hordenaçõoes em as Cidades, e Villas, e Luguares maiores,


honde forem Corregedores; e o Escripvão, que for da Camara nos Lugares, honde
assy pobricarem, trelade-as no livro do Concelho, e lea-as cada mez aos Juízes, e
Vereadores na Camara, e quando esteverem na Audiencia, sob pena de pagar por cada
vez que as nom poblicar, mil reis pera as obras do Concelho; e estas Hordenaçõoes
assy poblicadas ponhão-nas na Arca da Chancellaria de cada huã Correiçom.”[8]

Para encerrar este ponto, nada melhor que acompanhar a publicação da ordenação
de 14 de Junho de 1532, para que os cristãos novos não abandonem o reino. Apesar de
estar fora do âmbito cronológico deste trabalho, penso que espelha fielmente o processo
de publicação medieval, de acordo com o que acima ficou explanado. A “radiografia”
dessa divulgação pelo reino está exemplarmente tratada em trabalho dedicado de João
Alves Dias – para ele se remete os interessados – onde se conclui que a lei demorou, em
média, uma semana a chegar a todos os pontos do País[9]. Não foi demasiado tempo se
tivermos em conta os entraves coevos:

1
A versão original com o selo da Chancelaria-mor e os traslados com o selo da correição.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 24, § 5, p. 114.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 116, p. 384.
4
Podem inscrever-se nesta excepção as actas de Vila do Conde, Loulé e do Porto, já publicadas.
5
Documentos e Memórias para a História do Porto – II. “Vereações” Anos de 1390-1395, pp. 235-236.
6
Documentos e Memórias para a História do Porto – XL. “Vereações”, Anos de 1401-1449, pp. 159-160.
7
CAETANO, História do Direito, p. 345.
8
Ordenações Afonsinas, Tít. 23, § 68, p. 149.
9
João Alves DIAS, “A Comunicação entre o Poder Central e o Poder Local – A difusão de uma lei no século
XVI”, Actas das Jornadas sobre o Município na Península Ibérica (Sécs. XII a XIX), Santo Tirso, 1988, vol. I, pp. 1-17.

161
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

“Vários eram os entraves à difusão das leis. Tornava-se dispendiosa a sua


expedição para todos os concelhos, já para não dizer para todos os lugares do país.
As comunicações eram dificieis e as estradas – quando as havia – de má qualidade.
O correio terreste organizado nascera pouco antes de 1520 e estava confiado a
particulares. Quando uma lei chegava às vereações locais, era ainda necessário
mandar pregoeiros por toda a localidade convocando o povo para a ouvir ler.
Além disso, a mesma era fixada nas portas do Paço do Concelho, nas portas da
cidade, e noutros lugares habituais. Como havia terras onde os funcionários régios
não podiam entrar (as honras, ou coutos e as terras dos mestrados, por exemplo),
tornava-se aí necessária a presença de representantes seus.”[1]

Vacatio Legis
Na própria lei se estabelece o período de tempo que decorre entre a data da publi-
cação e a data da entrada em vigor da lei – vacatio legis:

“Ey por bem que esta hordenação aja vigor e efeito e se cumpra e guarde – a saber
– em minha corte e em todos os lugares de meus reinos e senhorios em que for
publicada do dia da publicação dela a dois dias primeiros seguintes e em cada
uma das comarcas dos meus reinos em que assim for publicada pelo corregedor
della ou per quem meu cargo tiver do dia da publicação a oito dias primeiros
seguintes”[2]

Este período de tempo, entre a data da publicação e a data da entrada em vigor,


serve para que os destinatários da lei tomem conhecimento da sua existência e das
condições da sua aplicação. Como ficou acima vincado, a data de publicação da lei,
adstrita aos meios rudimentares da época, variava de terra para terra e, mesmo na
corte, tanto podia ser feita no mesmo dia em que a lei é escrita[3], como passados mais
de dois meses[4].
A verdade é que, depois de publicada, a ignorância da lei não justifica a falta do
seu cumprimento nem isenta as pessoas das sanções nela estabelecidas. Indícios claros
do princípio de irrelevância da ignorantia iuris ficaram disseminados por múltiplos
diplomas medievais e, de forma genérica, no Fuero Real, que teve vigência obrigatória
no nosso país[5]. De qualquer forma, o preceito não impede que, perante o monarca, se
alegue, como atenuante, o desconhecimento da lei. É o caso dos moradores de Caminha
que, nos capítulos às Cortes de 1459, solicitam ao rei a amnistia colectiva pelos crimes
cometidos na comercialização das mercadorias vedadas, invocando a ignorância das
ordenações[6]. Até o juiz de Alvalade do Campo de Ourique, Miguel Martins, alegou

1
Idem, p. 5.
2
Idem, p. 5.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 47, p. 173.
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 110, § 1, p. 403.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 109, p. 402.
5
Cfr. ALBUQUERQUE, “A aplicação das leis no ultramar durante o Antigo Regime”, p. 98.
6
“Senhor por nom sabermos parte das nosas hordenaçõoes quejandas eram açerca destas pasageens das cousas vedadas
poderija seer que cayriamos com ellas ou em cada hua dellas. Pidimos a uosa merçee nos perdoar aatee o presente dia
alguu erro se o em ello cometermos ou culpados formos em ello nos farees merçee. A esto respondemos que os praz
quitar as dictas penas atee o presente e sejam avisados de em outra cayrem se nom e etc.”
Humberto Baquero MORENO, A representação do concelho de Caminha junto do poder central em mea-

162
José Domingues

que “elle como homem cimprez que nom sabia nossas hordenações” tinha adquirido certos
bens durante o seu mandato[1].
No entanto, a aplicação efectiva não é imediata à publicação, até porque alguns dos
condicionalismos previstos necessitavam de um certo lapso de tempo para execução
ou adaptação. Embora escassos, alguns desses lapsos de tempo, ou vacatio legis,
chegaram até nós. A título de exemplo, na lei das sesmaria de 1375 ficou consignado
o prazo de três meses, desde o dia da publicação da ordenação, para, os que tinham
gado, lavrarem e semearem herdades[2]. Noutra lei de D. Fernando, das arrematações,
aparece novamente o prazo de três meses após a publicação na Corte: “e queremos,
e Mandamos, que esta Ley aja luguar, e se guarde em todo e por todo, nos feitos,
e neguocios, e couzas, que se fezerem, e acontecerem, per a guisa que em ella he
contheudo, des o dia, que for pubricada na nossa Corte, até tres mezes”[3].
Uma lei do reinado seguinte de D. João I, que proíbe o uso de escudo, impõe apenas
um período de 15 dias, mas contado desde o dia da publicação em cada correição e
comarca: “qualquer que for achado que o traz [o escudo] contra este nosso mandado,
e Hordenaçom, passados quinze dias, do dia que for pobricada em cada huma Correiçom, e
Comarca, que moira porem”[4].
Já no reinado de D. Duarte, a lei de 5 de Maio de 1435(6), parece ordenar uma
aplicação imediata, depois de apregoada: “e porem vos mandamos, que vista esta
nossa Carta, mandees logo esto todo assy apregoar em todalas Villas do estremo dessa
Comarca, de que teendes carrego, em tal guisa que a todos geeralmente venha em
conhecimento, e nom possa nenhum dello allegar ignorancia; e tanto que apregoado for,
fazeea compridamente guardar por Ley, comprindo-a em qualquer, que contra ella for”[5]. Mas
outra, também deste reinado, estabelece o prazo de um mês para os tabeliães de el-rei
se proverem das roupas necessárias, especificando que, para os que já eram tabeliães,
se devia começar a contar desde o dia em que fosse publicada na correição onde eram
moradores e, para os que ainda não o eram, desde o dia que fossem nomeados. Especifica
ainda que um mês são trinta dias compridos: “Declarou mais o dito Senhor, que assy
os Tabaliaães, que ja som feitos, como aquelles, que daqui en diante forem, hajam huum
mez d’espaço pera comprirem esta condiçom; o qual termo se conte aos que ja som feitos
do dia, que for publicada na correiçom, honde forem moradores, e aos que ainda nom
som feitos, do dia, que o forem a huum mez, que som trinta dias compridos”[6].

3. Sanção ou Promulgação das Afonsinas


Transpondo agora todo este processo para as Ordenações Afonsinas, torna-se claro
que a publicação de um compêndio de leis com o tamanho de cinco pesados volumes
não é exactamente a mesma coisa que publicar uma Ordenação avulsa[7]. Antes de
mais, em nenhum dos exemplares conhecidos das Afonsinas se encontra a declaração

dos do século XV, Revista da Faculdade de Letras – História, Porto, pp. 103-104.
1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 355.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 81, § 19, p. 294.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 106, § 4, p. 387.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 97, p. 350.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 20, § 3.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 49, § 6, p. 282.
7
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 126.

163
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

expressa da sua promulgação[1] e, até à data, ainda não apareceu nenhum documento
nesse sentido. Ou seja, preparada para vigorar, falta-nos a promulgação oficial ou
solene, quer numa audiência da corte quer registada na Chancelaria, que lhe confira
obrigatoriedade como lei geral do reino.
Mas será que esta obra carecia mesmo de uma promulgação formal? Por outras
palavras, não conhecemos um acto público ou oficial, em que o rei aluda a elas, porque
se perdeu definitivamente com os originais ou em diploma avulso, como tantos
outros, ou antes porque nunca foi realizado? Arriscar uma resposta peremptória seria
demasiado imprudente, de qualquer forma há um dado adquirido da maior relevância
para a compreensão de todo este processo de promulgação, publicação e vigência das
Afonsinas: estamos perante a compilação de ordenações já existentes e em vigor, não
sendo por isso direito ex novo, que não pudesse prescindir da publicação oficial. Por
outras palavras, as Ordenações Afonsinas são apenas um importante instrumento de
ajuntamento e actualização do direito vigente, por isso a questão da sua publicação
terá que ser formulada em termos distintos aos de uma nova Lei avulsa. Quero com
isto dizer que, apesar do incremento dado pela nova colecção, o direito vigente se
mantém antes e depois da sua conclusão, o que equivale a dizer, com Miguel Duarte,
que “a questão da efectiva vigência das O. A. deve ser integrada na problemática mais vasta da
eficácia e alcance das leis medievais”[2].
Mas será que as Ordenações Afonsinas não obtiveram sanção por se limitarem a
recompilar leis já sancionadas e em vigor? Ou porque se introduziam constanstes
modificações? O recurso a estudos de direito comparado, para o reino vizinho, pode
fornecer pistas influentes. A primeira recompilação oficial castelhana de 1484 (as
Ordenanzas Reales de Castilla ou vulgo Ordenamiento ou Libro de Montalvo), que também
recompila leis já sancionadas, não obteve sanção oficial régia[3]. Mas já o Libro de Bulas
y Pragmáticas, que usa a mesma técnica compilatória, obteve sanção oficial por real
provisão de 10 de Novembro de 1503. Por isso, a inexistência de promulgação pode
ter outro motivo.
Uma das provas mais acostumadas para fundamentar a falta de oficialidade da
colectânea castelhana é o codicilo da rainha D. Isabel a Católica, que não só ignora o
Livro de Montalvo, como expressa o seu antigo desejo de reduzir as leis castelhanas a
um só corpo[4]. Tudo leva a crer que, face às contestações da Igreja e fidalguia, se não
conseguiu a promulgação oficial, passando a projectar-se outra obra. Para as Afonsinas
é o próprio compilador que atesta o carácter transitório de parte da obra ao referir que
os títulos dos regimentos da guerra até ao dos reptos “prazendo a Deos Nos entendemos
ainda mandar poer os ditos Regimentos na forma, que devem seer”[5]. De qualquer forma,
apesar de não terem tido sanção oficial ambas as colectâneas tiveram aprovação tácita
ou indirecta ao serem observadas cada uma no espaço territorial do seu reino.
Este lapso da publicação formal é, sem dúvida, o primeiro empecilho para
sabermos ao certo em que data começou a ser utilizada como compilação autêntica.
Recapitulando, depois de terminado o imenso trabalho de compilação, sistematização
e actualização do Direito geral decretado ao longo de mais de dois séculos, começava

1
Nunca é demais lembrar, que se trata de cópias e os originais da Chancelaria desapareceram todos.
2
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 130, nota 397.
3
María José MARÍA e IZQUIERDO, Las fuentes del Ordenamiento de Montalvo, Dykinson, Madrid, 2004, p.
XLIV.
4
Idem, pp. XXXV-XXXVI.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 70, p. 473.

164
José Domingues

agora a, não menos árdua, lide de divulgação e vigência oficial desse trabalho
preparado durante anos. Para o entendimento desse processo de propagação, antes
de mais, é indispensável um retrocesso às conjunturas inerentes aos meados do século
XV, sem nunca nos deixarmos “iludir pelas ideias actuais sobre publicação e vigência
das leis”[1]. Na esteira de Caetano e Gama Barros, o entendimento hodierno de Miguel
Duarte está resumido nos dois pontos infra:

“1. A obra era enorme. Fazer cópias manuscritas ficava caríssimo e demorava uma
eternidade. É natural que o original ficasse depositado na Chancelaria régia, que
as primeiras cópias fossem para os dois Tribunais Superiores, a Casa do Cível e a
Casa da Suplicação e que, só depois, muito lentamente, as câmaras e os mosteiros
mais ricos começassem, por sua vez, a garantir os seus exemplares.
2. As Ordenações não funcionavam como hoje os Códigos, ou seja, como repositórios
de leis a aplicar obrigatoriamente segundo critérios claros e definidos. Elas
constituíam sobretudo uma orientação, uma referência, que o Rei ignorava ou
ultrapassava com facilidade, o mesmo fazendo por vezes os tribunais superiores.
No resto do reino, a esmagadora maioria dos juízes nem as conhecia (até porque muitos
não sabiam ler!); julgava de acordo com as tradições, o seu bom senso, a sua
experiência humana.”[2]

Chegou o momento de interpor as judiciosas conclusões de Martim de Albuquerque


que este autor deixou no olvido, como adverti no início deste título. Segundo
Albuquerque “o número de exemplares que até nós chegaram não é tão pouco significativo
como isso”, no entanto, erra o número de exemplares diversos, que são sete (Porto,
Santarém, Lisboa, Merceana, Alcobaça, Torre do Tombo e Ajuda) e não seis. Dá como
exemplo comparativo a obra de Bártolo, bem expressiva na Idade Média portuguesa,
e da qual não resistiu nenhum exemplar nas nossas bibliotecas e arquivos. E certifica,
estribado em bibliografia adequada[3], que o labor dos scriptoria da Idade Média não
era tão lento e exíguo como poderia julgar o leitor menos versado no tema. O que lhe
permite concluir que, “num período de dois ou três anos se podiam obter algumas dezenas
de cópias do texto das Ordenações Afonsinas”[4]. Poder-se-ia acrescentar o caso pátrio bem
concreto da Terceira Partida de Afonso X – um códice de 136 fólios a duas colunas, em
letra “gótica com as iniciais alternadamente a vermelho e a azul e muito raramente a verde,
ricamente desenhadas e iluminadas, ocupando a inicial de cada título, por vezes, a faixa vertical
de alto a baixo do fólio”[5] – que levou 3 meses e 3 dias a ser concretizado, segundo o
próprio copista, Vasco Lourenço, o Çoudo.
Na sua tese, Miguel Duarte, chamou à atenção que “não chegou até nós nenhuma
colecção completa”[6] e em trabalho recente aventa: “Os historiadores portugueses não têm

1
CAETANO, História do Direito, p. 534.
2
Luís Miguel DUARTE, “O Direito e as Instituições”, História de Portugal Medievo, político e institucional
(coordenador Humberto Baquero Moreno), Universidade Aberta, n.º. 67, Lisboa, 1995, pp. 314-315.
Cfr. DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 120 e ss.
3
Nomeadamente, Hughes V. Shooner: “Um só copista (…) podia levar a cabo a passagem de in folio de mais de
360 páginas e em latim no prazo de um ano” e Douglas C. McMutrie: “as Decretales glosadas por Bernardo de
Parma levavam 10 a 15 meses a copiar e o Digestum Vetus 6 meses”.
4
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, pp. 50-51.
5
José de Azevedo FERREIRA, “Terceira Partida de Afonso X: subsídios para a sua edição e estudo”, Estu-
dos de História da Língua Portuguesa, Obra Dispersa, Colecção poliedro 7, Universidade do Minho, Centro de
Estudos Humanísticos, 2001, p. 235.
6
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 122.

165
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

uma posição consensual sobre a real divulgação e circulação das ordenações do reino.
Pessoalmente penso que essa divulgação era muito pequena; nenhuma instituição (religiosa,
municipal ou outra) conservou uma cópia dos 5 volumes originais”[1]. O facto de, passados
mais de cinco séculos e meio, não ter chegado aos nossos dias nenhuma colecção
completa não me parece fundamento suficiente para duvidar da sua divulgação ou
de que tenham sido feitas cópias integrais dos 5 volumes. Que se perderam livros,
não há qualquer hesitação. Mas, pelo menos uma colecção, temos a certeza que
estava completa – a de Santarém – uma vez que, no momento de se proceder à sua
encadernação, nos alvores do século XVI, se referem os “cimqo liuros”[2]. Com o aval
desta singela anotação, datada de 21 de Junho de 1508, a afirmação de que nenhuma
instituição conservou uma cópia integral torna-se gratuita e improvável em termos da
fraca divulgação das Ordenações pelo reino.
A propósito dos exemplares coetâneos, parece-me desmesurada e inconsequente
a tentativa de apregoar uma cópia para cada uma das vilas medievais[3], à semelhança
de diplomas avulsos. Seria uma tarefa ingente da qual, plausivelmente, se teriam
conservado maior número de vestígios. Mas, se aceitarmos a analogia supra entre o Livro
das Ordenações do Reino e o Livro de Ordenações das Chancelarias das correições, tudo leva a
acreditar que, pelo menos, tivessem sido feitas cópias para os coetâneos corregedores,
que eram os magistrados superiores da época e os mais directos representantes do
braço da justiça régia, responsáveis pela publicação e divulgação do ius regni. Assim
sendo, quem pode garantir que os livros da Câmara do Porto não fossem os da comarca
de Entre-Douro-e-Minho, os da Câmara de Santarém[4] os da comarca da Estremadura
e os da Câmara de Lisboa do corregedor dessa mesma cidade? Ficam a faltar os das
comarcas de Trás-os-Montes, Beira, Entre-Tejo-e-Guadiana e Algarve, que até podem
ser alguns dos que, posteriormente, aparecem nos mosteiros[5], na Torre do Tombo
ou na Biblioteca da Ajuda. Outros indícios poderão surgir para confirmar ou infirmar
esta ideia, de qualquer forma, penso que este seria o processo mais económico e o mais
adequado à rápida divulgação das Ordenações Afonsinas. Desta forma, conseguir sete
colecções completas (num total de 35 livros) seria perfeitamente comportável para os
meios técnicos, humanos e económicos da época e, mais uma vez, estaria fundamentado
o método oficial de publicação das leis através dos corregedores.
Este entendimento pode até servir de justificativo para a ausência de alguns
títulos em determinados volumes. Repare-se que no códice de Santarém não consta
o título 116 do livro V, que é uma carta de D. Duarte dirigida ao regedor da justiça de
Entre-Douro-e-Minho, Aires Gomes da Silva, e ao corregedor de Trás-os-Montes, para
que não consintam aos moradores de Castela que venham em assuadas aos reinos

1
Luís Miguel DUARTE, “A Justiça Medieval Portuguesa (Inventário de dúvidas)”, Cuadernos de Historia
del Derecho, 2004, 11, p. 91.
2
IAN/TT – Núcleo Antigo n.º14, Livro V das Ordenações Afonsinas, da Câmara de Santarém, fl. 131v.
3
Ficando desvirtuadas, pelo menos em parte, as dúvidas: “Não sei quantas destas câmaras disporiam de cópias
das ordenações, quantas as queriam usar, quantas as saberiam usar – e que partes ou volumes dessas ordenações”
[DUARTE, “A Justiça Medieval Portuguesa (Inventário de dúvidas)”, p. 95].
4
Apesar de, sobre esta colecção, constar escrito que “Estes cimqo liuros das reformaçõees (…) som da Camara
desta muy nobre e sempre leall villa de Samtarem”. Os corregedores, em princípio, exerciam mandatos
de três anos, por isso, é provável que o monarca, em vez do envio pessoal, envie a cópia para a sede da
comarca (localização da Chancelaria da correição?).
5
Até porque, em relação aos códices do convento dos Capuchos da Merceana, sabemos que foram deixa-
dos por um benfeitor, isto é, não foram, originariamente, requeridos pelo próprio mosteiro. [cfr. CAETA-
NO, História do Direito, p. 529]. E o de Alcobaça foi adquirido em Lisboa, em 1566, por António Rodrigues
da Mata, morador em Lamego.

166
José Domingues

de Portugal, para mal fazer[1]. Esta lei deixa de ter qualquer aplicabilidade prática na
comarca da Estremadura, que não limita com Castela, por isso mesmo é perfeitamente
compreensível o afastamento dessa colecção.
Se trouxermos à colação os capítulos apresentados pelos procuradores de
Santarém às Cortes de 1436, parece que nessa data – ainda antes da conclusão das
Afonsinas – já nessa cidade estavam depositadas as Ordenações do reino. Senão vejamos,
o monarca estava em Estremoz e ao responder ao décimo capítulo apresentado, sobre
as inquirições que tiram os tabeliães, respondeu “que quando a Deos prazendo formos em
Santarem faremos ueer as ordenaçõoes e aueremos emformaçom sobre esto dos tabeliãaes
e visto todo daremos aquel liuramanto que acharmos que he direito”[2]. Santarém foi
sede da Casa do Cível, mas desde 1434 que este tribunal estava sediado em Lisboa[3],
por isso o mais provável é que as Ordenações que o monarca pretendia consultar em
Santarém fossem o(s) Livro(s) de Ordenações daquela comarca da Estremadura.
Esta tese parece-me mais consistente do que a que defende que tenham sido os
concelhos (e mosteiros) mais ricos que solicitaram cópias à Chancelaria régia. Essa
arbitrariedade concedida aos concelhos, em muito pouco ou nada contribuiria para
a propagação das Ordenações por todo o espaço geográfico do reino e os documentos
conhecidos dão conta de que os concelhos, mesmo os mais ricos, pediam apenas o
título ou parte de que pretendiam ajudar-se[4].
Por exemplo, o teor da Ordenação sobre as mercadorias que podem comprar os
estrangeiros, que estava no título 4 do livro IV, foi passado à Câmara da cidade do
Porto por certidão de 6 de Dezembro de 1448: “da qual ordenaçom a cidade do porto nos
enuiou pedir por merçe que lhe mandassemos dar o treslado em publica forma porquanto se della
entendião dajudar”[5]. Esta carta régia, escrita em pergaminho e selada de selo pendente,
foi apresentada em sessão da Câmara desta cidade de 30 de Dezembro de 1448[6], a
qual o corregedor presente mandou que se cumprisse, citando-se um caso concreto,
e mandou que se enviasse pela correição, para se registar nos respectivos livros das
Câmaras[7]. Mais uma vez um corregedor a providenciar a publicação de uma lei na sua
correição, só que desta vez o diploma tinha sido conseguido a expensas do concelho
do Porto, através do seu escrivão da Câmara, Afonso Vasques. Ao qual, na mesma
sessão de 30 de Dezembro de 1448, foi deliberado o pagamento de uma coroa, que a
dita carta lhe custara, mais 500 reais brancos para ajuda das despesas que fizera[8].
A ordenação contra os que se valiam de cartas ardilosamente assinadas e
autenticadas sem passar pelas câmaras dos concelhos, de 12 de Maio de 1393, foi
transcrita do livro IV da Reformação das Ordenações, em 3 de Julho de 1459, a pedido
dos procuradores do concelho de Ponte de Lima – “o comçelho de Ponte de Lyma por Dº
Lopez E D. Pero Malheiro seus procuradores nos pidio por mercee que lhe mandasemos dar o
trellado della”[9].

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 116.
2
Maria Antonieta Flores GONÇALVES, “Capítulos especiais de Santarém nas Cortes de 1436”, Revista
Portuguesa de História, tomo VIII, Coimbra, 1959, p. 317-318.
3
Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel SERRÃO, Vol. II, s. v. “Cível, casa do”.
4
O mesmo se passava com os capítulos de cortes.
5
Porto, AHM – Livro A, fl. 118-118v.
6
No livro das vereações vem era de 1449, mas a data correcta é era de 1448, como o demonstra a sequência
das sessões e a lógica dos acontecimentos, uma vez que foi para este facto que foi solicitada esta certidão.
7
“Vereações” Anos de 1401-1449, pp. 388-390.
8
Idem, ibidem, pp. 388-390.
9
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º 28.

167
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Outro aspecto, relacionado com a publicação e o número de exemplares efectuados,


é, sem dúvida, o da sua difusão e aplicação prática. Para uns “as Ordenações foram
a bíblia (…) da nova religião civil da monarquia”, para outros nem sequer chegaram a
vigorar. Martim de Albuquerque entende que “no plano da influência, as Ordenações
Afonsinas, mesmo para quem aceite vigência efectiva, não foram de índole a produzir marcas
profundas. Valeram mais como precedente codificatório de que como factor real, dinâmico”[1],
mas advertindo que “se devam, talvez, adoçar as tintas do quadro”[2]. Passemos então à
análise deste ponto.

4. Divulgação e Vigência das Ordenações


A populista intromissão de Caetano contra a divulgação efectiva das Afonsinas
ficou anunciada no Prefácio, da sua lavra, à edição fac-similada do Regimento dos
Oficiais, de 1504[3], e, posteriormente, consumada na sua História do Direito Português[4].
Adoptando a data circa 1454 para o início da divulgação das Afonsinas pelo reino[5],
este autor vacila mesmo quanto ao ano de início de utilização – “é impossível com os
elementos existentes afirmar com segurança em que ano começou a ser utilizada como compilação
autêntica e, mais, em que época se tornou conhecida no País pelos magistrados que haviam de
aplicá-la, se é que chegou a sê-lo”[6]. Não podendo ignorar a certidão de 27 de Agosto
de 1447 e a de 6 de Dezembro de 1448, com matéria correspondente aos títulos das
Afonsinas que citam expressamente, concluiu que “em Agosto de 1447 já se consideravam
em vigor textos recolhidos na compilação, mas é de notar que alguns deles eram antigos e
meramente compilados”[7]. A adversativa é um facto, no entanto, incontroverso é também
que a fonte documental dessas certidões foi a Colectânea Afonsina, por isso, mais do
que comprovativo do seu uso e aplicabilidade prática. Ou seja, é certo que alguns dos
textos dessa certidão eram anteriores à conclusão das Afonsinas, mas foi a partir dos
livros das Afonsinas que foram trasladados, pois estes são expressamente citados, à
excepção do livro segundo[8].
Carvalho Homem inclina-se antes para o ano de 1448, apoiando-se, plausivelmente,
na certidão de 6 de Dezembro de 1448 – “O concretizar de uma primeira compilação
de leis como as OA, preparadas ao longo de quase 30 anos (desde ca. 1418) concluídas
em 1446 e presumidamente vigorando a partir de 1448”[9]. Não se entende muito bem os
escrúpulos quanto à falada certidão de 27 de Agosto de 1447, dirigida ao alcaide-mor
de Santarém, Rui Borges de Sousa[10].

1
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 49.
2
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 50.
3
CAETANO, Regimento dos Oficiais, pp. 14-15.
4
CAETANO, História do Direito, pp. 534-535.
5
Idem, pp. 346, 413…
6
Idem, p. 535.
É esta a frase e o autor que Judite de Freitas invoca no recente estudo “Tradição legal, codificação e práticas
institucionais: um relance pelo Poder Régio no Portugal de Quatrocentos”, Revista da Faculdade de Letras
História, Porto, III Série, vol. 7, 2006, p. 52.
7
Idem, p. 533.
8
cfr. Capítulo I, p. 5.
9
Armando Luís de Carvalho HOMEM, “Rei e «Estado Real» nos textos legislativos da Idade Média Por-
tuguesa”, Carlos Alberto Ferreira de Almeida in memoriam, Faculdade de Letras da Universidade do Porto,
Porto, 1999, p. 391-392.
10
IAN/TT – Maço I de Leis, n.º172.

168
José Domingues

Antes de mais, o desígnio final desta colectânea foi sempre, desde o momento
da concepção, compilador e interpretativo da legislação anterior e não propriamente
legislatório, ou seja, pretendia coligir num só corpo sistematizado as leis antigas e não
promulgar leis novas. Por isso, assim terá que ser entendido e estudado e, à falta de
uma publicação oficial, o atestado de 1447, carreado por Ribeiro, continua a ser o mais
recuado testemunho consistente da efectiva utilização desta colectânea de leis. Por
outras palavras, se em 1447 se passa certidão de leis a partir dos livros das Afonsinas,
citando expressamente os livros respectivos, não resta dúvida que a colectânea estava
concluída, revista e em uso para o fim que tinha sido projectada: “prover as Leyx, e
Hordenaçoões feitas pelos Reyx” anteriores[1].
Que em 1447 já se passavam traslados – e, concomitantemente, se divulgava – a
partir dos exemplares da Chancelaria-mor é ponto assente; outra questão é o número
de cópias definitivas espalhadas pelo reino, que, como ficou dito, não seriam necessá-
rias tantas, nem o processo tão moroso, como alguns autores querem fazer acreditar.
Mas mais relevante, neste momento, é tentar apurar se entre a data da conclusão (28 de
Julho de 1446) e a da primeira certidão conhecida (27 de Agosto de 1447) não existem
outros apoios documentais que comprovem a sua utilização.
Desde os finais do século XVIII que não se avança neste aspecto, no entanto, existe
um outro monumento que, embora não seja completamente decisivo, penso que, de
alguma forma, pode recuar o uso régio da compilação. Trata-se de uma carta de D.
Afonso V, outorgado em Estremoz, a 30 de Julho de 1446, que, em cumprimento da
nossa ordenação feita, confisca os bens que, sem a respectiva autorização régia, o cónego
do mosteiro de Refoios de Lima tinha comprado[2]. A ordenação que proíbe a clerezia
do reino de adquirir bens de raiz, sem autorização régia, é da lavra do rei D. Dinis,
datada de 10 de Julho de 1286, e foi compilada no título 14 do livro II. Por isso, muito
embora o documento não faça qualquer referência expressa ao Livro II da Reformação
das Ordenações, a referência à ordenação feita, sem referir quando nem quem, parece
ser antes alusiva à recente compilação do que à própria ordenação, que tinha mais
de século e meio. Se assim for entendido, não há dúvida que a data referida no final
do livro V é a da revisão definitiva da obra, que, passados dois dias, já estava a ser
utilizada pelo monarca para reivindicar bens para a coroa. Por outro lado, esse título
contém um acrescento que, na realidade, pode dar a entender tratar-se de uma lei
nova.
A este propósito, “as relações com a Igreja (…) voltaram a ser perturbadas com a
publicação das Ordenações Afonsinas, em 1446, provocando forte movimentação entre a
clerezia portuguesa, que, em 1 de Agosto de 1447, chegou a reunir-se, em Lisboa, com o Infante
D. Pedro”[3]. O diferendo ficou solucionado pela lei de 20 de Setembro de 1447, que
exceptua das leis da amortização os bens possuídos antes da morte de D. João I. Este
fleuma só poderia ser provocado por uma colectânea em vigor. Até porque a dita lei
apasiguadora foi mandanda trasladar “em fim do segundo liuro das nossas hordenações pera
que da nossa Chamçalaria se possa dar o trellado della em publica forma segundo se acustumam
de dar as outras hordenações”[4]. Se, em 1447, o monarca manda acrescentar esta lei no

1
Ordenações Afonsinas, Livro I, prólogo, p. 1.
2
Valdevez Medieval: Documentos II (1300-1479), Coordenação de Amélia Aguiar ANDRADE e Luís KRUS,
transcrições de Filipa SILVA e João Luís FONTES, Edição da Câmara Municipal de Arcos de Valdevez,
2001, doc. 124, pp. 178-179.
3
José MARQUES, “Igreja e Poder Régio”, A Génese do Estado Moderno no Portugal Tardo-Medievo (séculos
XIII-XV), Universidade Autónoma Editora, 1999, p. 237.
4
Abel VIANA, “Livro do Tombo da Igreja de São João (pergamináceo quinhentista)”, Arquivo de Beja, Beja,

169
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

final do livro II, torna-se evidente que a colecção já estava definitivamente concluída,
caso contrário o seu lugar seria antes no final do título 14 desse livro II, que versa sobre
a matéria. Por outro lado, a asserção confirma o método de transcrição, a qualquer
interessado, pela Chancelaria mor – como já disse – dando também aval às certidões
suso referidas e dissipando as dúvidas de Caetano.
Passemos a outros vestígios deixados por esta colectânea ao longo das seis
décadas e meia da sua existência efectiva. João Pedro Ribeiro começou por dar conta
da certidão de 27 de Agosto de 1447 e, em nota de rodapé, da de 6 de Dezembro
de 1448, “sinal de que ja valião e erão publicadas por Ley naquelle tempo”[1]. Gama Barros
confirma que “existem provas incontestáveis de que esteve em vigor”, referindo em seguida
as Cortes iniciadas em Coimbra em 1472, as começadas em Évora em 1481 e as Cortes
de Évora de 1490[2]. Marcello Caetano refere, basicamente, os dois documentos de
Ribeiro[3]. Luís Miguel Duarte arremata que, “em relação à divulgação, os dados que temos,
de facto, são” as sete cópias do século XV e as certidões do alcaide-mor de Santarém e
da Câmara do Porto[4], mas, imediatamente a seguir, acrescenta-lhe três referências em
sede parlamentar, nas Cortes de Santarém de 1451, nas Cortes de Coimbra-Évora de
1472-1473 e nas Cortes de Évora-Viana de 1481-1482[5].
No ano de 1448, na vereação da cidade do Porto de 4 de Outubro – anterior à
certidão acima referida – o corregedor de Entre-Douro-e-Minho, Filipe Eanes, “alem
das cousas contjuadas nas ordenações do Reyno feictas sobre o Regimento dado aos
Coregedores das comarcas que cando nouamente a ellas vaao”, apresentou um
capítulo da sua carta, em que lhe mandava correr extraordinariamente os lugares e
romper os pelouros, fazendo outros por três anos, na forma da ordenação[6]. É uma
referência expressa ao regimento dos corregedores de comarca, no título 23 do livro I,
e as Ordenações do Reino feitas só podem ser, penso eu, as Afonsinas.
Outra referência incontestável às Afonsinas consta no próprio livro V: trata-se de
um apenso, de 20 de Novembro de 1450, que ordena que não se guarde a ordenação
que manda comutar o degredo para Ceuta em menos de metade do que se dava para
dentro do reino, visto agora não ser necessário enviar para lá gente, e afirma que foi
feito “despois desta Hordenaçom acabada”[7]. Este anexo não consta do códice de Santarém,
que, plausivelmente, terá sido trasladado em data antecedente, objectando à ideia de
Marcello Caetano de que não haveria em circulação exemplares das Afonsinas ainda no
ano de 1454, data da mais recente lei avulsa, aditada ao original do livro V[8].
No ano seguinte de 1451, nas Cortes de Santarém, é debatida a aplicabilidade da
colectânea em Cortes[9]. O pedido para que os oficiais julgadores respeitem as novas

1945, vol. II, pp. 147-150.


IAN/TT – Sé de Lamego, Cx. 4, maço único de concordatas, n.º14.
1
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, pp. 122-123.
2
BARROS, História da Administração Pública, vol. I, pp. 135-136
3
CAETANO, História do Direito, pp. 532-533.
4
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 122.
5
Idem, pp. 127-129. Mais uma vez este autor serve-se do trabalho de Armindo de Sousa, sendo aqui pre-
ferível a obra de Gama Barros, que foca particularmente este aspecto, ou a publicação do Visconde de
Santarém para as cortes de Évora-Viana de 1481-1482. Desta forma, facilmente poderia constatar que nas
cortes de 1472-1473 se fazem seis e nas cortes de 1481-1482 quatro referências expressas, pelo menos, aos
livros das Afonsinas, respectivamente, e não apenas uma em cada.
6
«Vereações» Anos de 1401-1449, pp. 350-352
7
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 114, § 8-9.
8
CAETANO, História do Direito, p. 535.
9
Hoje, é esta a primeira referência em cortes às Afonsinas. No tempo de Marcello Caetano essa prerrogativa

170
José Domingues

ordenações feitas, “E nom guardem as antygas que som rreprouadas per estas”, é formulado
em capítulo geral do povo (capítulo 12º). Este facto, de ser o próprio povo a requerer
a observância das novas ordenações, parece-me comprovativo da difusão da colectânea
pelo reino, isto é, são os próprios concelhos que, em 1451, não só sabem da existência
do novo código, como reivindicam o seu acatamento. Por outro lado, a revogação das
ordenações antigas pode inculcar a existência de outras colectâneas anteriores – como
defendi em capítulo antecedente[1]. Mas, o mais curioso, é que o achado deste capítulo
tem servido, absurdamente, para fundamentar a tese da singela difusão das Ordenações.
Tudo porque Armindo de Sousa, a este pedido do povo para que fossem respeitadas
as Afonsinas, imputa um “diferimento parcial” do monarca[2]. Luís Miguel Duarte, que,
como disse no início, se baseou nos resumos deste autor, dispensando a consulta do
original, persevera o deferimento parcial, questionando, em nota de rodapé, “Será que o
monarca encara as Ordenações como obra da regência, e desconfia delas?”[3]. A desconfiança
como obra da regência, preliminarmente divulgada por Caetano no prefácio ao
Regimento dos Oficiais e consumada na sua História do Direito[4], já tinha sido declarada
sem fundamento por Martim de Albuquerque[5]. Mais relevante ainda é que o monarca
atende, na íntegra, o pedido formulado, mandando que os oficiais julgadores guardem
as ordenações novas e as velhas que não fossem revogadas. As palavras da resposta
régia consignada nesse documento são as seguintes: “respondemos que nos praz. E que
se guardem as nouas e uelhas que non ssam rreuogadas”[6]. Assim, o deferimento é total,
muito embora o pedido, quanto às ordenações velhas, seja formalmente negativo –
que não guardem as ordenações velhas que são revogadas pelas novas – e a resposta
do monarca seja positiva – que guardem as velhas que não são revogadas. O teor
intrínseco, do pedido e da resposta, é convergente, por isso, o diferimento só pode ser
total. Como, aliás, ficou consignado na própria colectânea:

“As quaes Lex vistas per Nos, mandamos que se guardem assy como em ellas he
contheudo, em quanto nom forem achadas contrairas, ou corregidas em alguuma
parte pelas Lex, e Ordenaçõoes em esta nossa reformaçom declaradas per husança,
e estilo geral, ou especial da nossa Corte; porque queremos, e mandamos que esta nossa
reformaçom em todo seja guardada, assy como em ella for contheudo”[7]

Mas, como já ficou referido, esta não é a única situação em que as Afonsinas são
altercadas em Cortes, a pedidos do povo. Nas Cortes de 1472-73, reunidas em Coimbra
e Évora, refere-se algum dos livros das Afonsinas seis vezes, pelo menos, nos capítulos
da justiça. No capítulo 8º alude-se “a ordenação delRey dom fernnamdo voso anteçesor
da louuada memoria que he no segumdo liuro das vosas Reformaçõees no título como deuem
usar das jurdiçõees os fidalgos etc”[8]; Trata-se do título 63 do livro II. No capítulo 48º
requer-se que os corregedores vejam o “Regimento que lhe he dado no liuro primeiro das

ainda pertencia às cortes de 1472/73. Este acrescento reforça, mais uma vez, a ideia da divulgação antes do
ano de 1454, defendida por Caetano.
1
Por ora, parece-me que a identificação das ordenações velhas com as colectâneas antecedentes é a mais
aceitável.
2
SOUSA, As Cortes Medievais, vol. II, p. 347.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 127.
4
CAETANO, História do Direito, p. 535.
5
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, pp. 51-53.
6
Elvas, AM – Pergaminho, n.º 55. Vid. p. 231.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. III, tít. 71, § 39, p. 278. O itálico é nosso.
8
IAN/TT – Cortes, Maço 2, n.º 14, fl. 72.

171
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

vosas Reformaçõees e o cumprão como em ele he comteudo”[1]; Esse regimento consta no


título 23 do livro I e a resposta do monarca foi “que ha por muy bem de seus correjedores
muy ameude e com muyta deligencia verem e estudarem seus Regimentos e asy lhes manda
que o façam”[2]. No capítulo 52º pede-se ao rei para por termo aos abusos contra “vosa
ordenaçam he no liuro primeiro da Reformação de vosas ordenaçõees titolo das caçerajeens que
se deuem leuar nas cidades vilas e luguares”[3], numa clara alusão ao título 34 desse livro I;
a resposta do monarca: “que ordenaçam ha hy que acerca desto prouee a quall manda que se
guarde nem se leue por carçerageem mais do que Em ella he comteudo E se alguem comtra elo
for o que se agrauado semtir tragua estromento com Resposta E ser lhe ha dada prouisam quall
Rezão em dereito seja”[4]. A seguir, no capítulo 57º, apelam ao comprimento de uma Lei
da amortização e “ajmda se mande vosa merçe prouer vosa ordenação no 4º liuro no titulo
dos creligos que compram beens por liçemça delRey achares senhor que taees licenças deuiam
de ser registadas em huum liuro e voso almoxarife estar aa compra de taees beens e
nam o fazemdo que os comtratos sejam nhuuns E eles deuem perder taees beens”[5]; a
ordenação supra consta no título 48 do livro IV e a resposta do monarca a este capítulo
é “que com Rezam nem per dereito não deue nem pode semelhante comta tomar aas igrejas nem
pesoas ecresiasticas em especiall por causa da hordenação feita em tempo que o Ifante dom Pedro
seu tio que deus ajaa por ele guouernaua estes seus Reinnos por a quall estabeleçeo e ordenou
que por beens que as jgreijas teuesem de que ouuesem estado em pose pacifiqua ate o falecimento
delRey dom Joham seu avoo nam podesem ser as ditas jgreijas por causa deles jmquietadas nem
demamdadas nem outro titolo dos ditos beens lhe fose requerido nem eles theudos de o mostrar
E quamto ha ordenação que em este capitolo se apomta de como as liçemças que se dam aos
creligos pera comprarem beens am de ser registadas em huum liuro e que o almoxarife del Rey
ha de ser presemte aa compra dos ditos beens e doutra guisa que os comtratos sejam nhuuns E
tãees beens se percão ha o dito senhor por bem que se guarde a dita ordenação”[6]. O capítulo
67º destes Cortes é dedicado aos capítulos das sesmarias, referindo que “no titolo das
sesmarias no liuro quarto das vosas Reformações se trauta no oficio de sesmeiro”[7]; trata-se do
título 81 do livro IV, e “Responde ElRey a estes capitolos das sesmarias Juntamente que ele
mandou com muita deligençia ver todalas ordenaçõees amtiguas e asy suas Reformaçõees que
falam das ditas sesmarias E per modo de ley e ordenação mandou dar prouisam a todo o que
lhe pareçeo que requeria corregimento adiçam ou lemitaçam alguuma E manda asemtar a dita
ordenação nos liuros das outras lex e ordenaçõees suas domde seus pouos poderão aver copia
quamdo lhes prouuer e for compridoiro quer porem E asy o manda ao bispo de cojmbra
que a dita ordenação a seus pouos pobrique quamdo lhe pobricar as respostas dos
outros capitolos Jeraees que per os ditos pouos lhes dados foram”[8]. Finalmente, no
capítulo 86º, insurgindo-se contra os tabeliães que excediam o seu ofício procurando,
salienta-se que “o temdes defeso por ordenação vosa no primeiro liuro no titollo dos
que podesem ser procuradores”[9]; alude-se ao título 13 do livro I e “respomde ElRey
que ha por bem que os tabaliaaes nam procurem segumdo he ordenado jaa E manda que asy se
guarde sem embarguo de cartas nem aluaraees que em comtrairo sejam pasados”[10].

1
Idem, fl. 93.
2
Idem, fl. 93v.
3
Idem, fl. 94v.
4
Idem, fl. 94v.
5
Idem, fl. 96.
6
Idem, fl. 96-96v.
7
Idem, fl. 99.
8
Idem, fl. 101.
9
Idem, fl. 107v.
10
Idem, fl.107v.

172
José Domingues

Passemos agora às Cortes de Évora-Viana, reunidas durante os anos de 1481 e 1482.


Existem quatro referências inequívocas aos livros das Afonsinas. A primeira consta no
Capitollo das Imquiriçoees que se vejam invocando a “determinaçom da ley dellrei dom
fernamdo posta no segumdo liuro no titolo de como deuem husar das Jurdiçoees os fidallgos
comfirmada e aprouada per elRey voso padre que deus tem”[1]. O monarca assente
e manda que se faça “segundo dereito e a ordenaçom delRei dom fernamdo que allegam”.
Trata-se, outra vez, do título 63 do livro II. A seguir no capítulo dos tabeliães, que estejam
nos lugares deputados, alega-se que “per vosa ordenaçom no terceiro livro he mamdado
aos taballiaees das notas que estem nos lugares deputados a elles pera fazerem as
escripturas aas partes”[2]. Efectivamente, diz assim um preceito do livro III:

“E pera as partes comtratamtees poderem aver boõ desembarguo, e nam serem


deteudas por a feitura das Escripturas por minguoa dos Tabaliãees, e Escripvãees,
que as ham de fazer, temos por bem, e Mandamos de conselho dos sobreditos,
que em cada huuã Cidade, Villa, e Julguado dos nossos Regnos, aja lugar certo e
assinado, em que os Tabaliãees, e Escripvãees sejam, e estem residentes per todo
o dia continuadamente, e prestes pera fazerem, e escrepverem os Estormentos, e
Escripturas, que lhes as partees mandarem fazer e escrever”[3]

O monarca responde que se guardem, inteiramente, as ordenações e regimentos feitos.


A seguir, no capítulo dos trajes e dourados, pedem que “quamto ao dourado que
se goarde a ordenaçom do quimto livro acerqua dello fecta”[4]. Trata-se da lei de D. João
I, de 8 de Fevereiro de 1391, e respectiva declaração afonsina, que regulamentam o
uso de ouro e cousas douradas[5]. Finalmente, na resposta ao capítulo das sisas, refere-
se, expressamente, o “segumdo liuro das ordenaçoees no titollo dos artiigos que foram
requeridos por parte dos fidallgos a elRey dom Joham.”[6]. Que corresponde ao título
59 desse livro, intitulado “Dos Artigos, que foram requeridos por parte dos Fidalgos a ElRey
Dom Joham na Cidade de Coimbra”[7].
Invocando as Cortes de Évora de 1490, Gama Barros acrescenta a referência ao
“livro segumdo das ordenaçoees, no titollo dos direitos reaaes, omde estam apomtados
os direitos que ao rey pertemcem – é o título 24 do livro II. E parece aludir ao livro
II, tit. 92, a resposta ao cap. 29, quando trata das contendas entre cristãos e judeus ou
mouros”[8].
Estas menções parlamentares aos livros das Afonsinas, salvo a de 1451 (Cortes
de Santarém), já foram desempoeiradas pelo infatigável Gama Barros[9] e outras
referências surgirão, seguramente, com a publicação dos ainda inéditos capítulos, gerais
e particulares, do povo, clero ou nobreza, apresentados e discutidos em assembleias
de Cortes celebradas entre 1446 e 1512. Por exemplo, nas Cortes de Lisboa de 1455,
em capítulo particular da vila de Tavira (Algarve), o procurador agrava-se que, em

1
Visconde de SANTARÉM, Memorias para a Historia, e Theoria das Cortes Geraes, que em Portugal se Celebrarão
pelos Tres Estados do Reino, Parte 2.ª, Lisboa, na Impressão Regia, 1828, p. 81.
2
Idem, p. 99.
3
No § 20 do título 64.
4
Idem, p. 182.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 43.
6
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p. 215.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 59.
8
BARROS, História da Administração Pública, tomo I, p. 136.
9
Idem, p. 136.

173
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

determinados casos de rixa, os oficiais da vila (o alcaide-mor, o alcaide pequeno e


o juiz) se servem e julgam por uma ordenação da qual se ignora o rei autor e a data
em que foi feita. Solicita-se, por isso, ao monarca que “sob certa pena que nenhuum juiz
nom julgue pena nem arma por outra hordenaçom sse nom por aquellas que sejam achadas em
os liuros das Reformaçoes que estam na nossa chancelaria”. Ao que o monarca responde,
terminantemente: “a esto respondemos e mandamos que daqui em diamte os juizes nom
julguem nem hussem por alguuas hordenações saluo por aquelas que por nos forem aprouadas e
asselladas do nosso sello por aquellas pessoas a que pertence e por outras nenhuuas nom”[1].
Com a recente edição de Cortes do reinado de D. Manuel I surgem mais algumas
referências, entre os capítulos gerais das Cortes de Lisboa de 1498. No capítulo 16º
reclama-se a entrega de “senhos livros de Ordenações” aos corregedores e juízes, para
eles não alegarem ignorância e, por esses livros, saberem o que a seu ofício pertence[2].
No capítulo 37º referem-se os artigos entre o povo e a clerezia determinados “per vossas
ordenações No segumdo liuro e terceiro”[3]. No capítulo 145º, mais uma vez, discute-se a
jurisdição dos fidalgos, clamando-se pelo cumprimento da “lley d el Rey dom fernando
asentada no segundo no liuro [sic]”[4], no título 63. Finalmente, refere-se a “ordenaçom
vosa no terceiro liuro nenhuum Concelho nom seJa citado Saluo per uoso espyciall
mandado”[5]. Trata-se do título 7 do livro III.
Apôs o elenco das referências irrefutáveis à colectânea afonsina – que me foi possível
coligir, convicto de que outras surgirão no futuro – será justificável a perseverança
numa tão débil e insignificante divulgação das Afonsinas? Se nos centrarmos nas
palavras de Miguel Duarte – um dos mais recentes investigadores a inflamar a tese
da escassa difusão – constatamos, de imediato e como já ficou sublinhado em nota de
rodapé suso para as referências em reuniões parlamentares, o seu distanciamento em
relação à realidade documental. Para este autor:

“Entre 1447 e 1490 as Cortes reúnem 21 vezes, produzindo largas centenas de


capítulos gerais. Dos quais as O.A., a compilação legislativa que se suporia
conter quase toda a legislação do reino e ser a bíblia dos julgadores, estão pura
e simplesmente ausentes. Com três excepções, que na prática são duas só: um
primeiro pedido de aplicação, só parcialmente deferido pelo rei, e a norma
fernandina sobre as jurisdições dos fidalgos”[6]

Mas o seu golpe de misericórdia na divulgação das Afonsinas, leva-o mais longe,
norteando-o para uma crítica exacerbada ao capítulo 22º[7] das Cortes de 1472-1473
de Coimbra-Évora, sem conhecer integralmente o texto das fontes – é o próprio que o
confessa[8]:

1
IAN/TT – Chancelaria de D. Afonso V, Livro 15, fl. 144.
2
Cortes Portuguesas: Reinado de D. Manuel I (Cortes de 1498), Organização e revisão geral de João José Alves
DIAS, Centro de Estudos Históricos – Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2002, p. 75.
3
Idem, p. 86.
4
Idem, p. 135.
5
Idem, p. 140.
6
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 128.
7
Segundo numeração de Armindo de Sousa. No documento que utilizamos é o cap.º 8º da Justiça.
8
“Seria interessante aqui conhecer integralmente a resposta; não tive acesso às fontes, pelo que me limitei
a trabalhar com a síntese de Armindo de Sousa”, p. 129, nota 393.

174
José Domingues

“Em 1472-73, isto é, 25 anos depois de as ordenações estarem concluídas, os


procuradores dos concelhos pedem a aplicação de uma lei de D. Fernando, velha de
um século (uma vez que fora promulgada em 13 de Setembro de 1375). Conhecem-
na pelo monarca que a fez publicar, evocam-na assim, e não é certamente por
amor ao soberano: na sucessão de ‘heróis’ e ‘vilões’ em que a experiente retórica
dos procuradores encaixava os sucessivos reis, “O Formoso” figurava habitualmente
entre os segundos (joguete nas mãos de uma mulher que roubou ao legítimo marido,
responsável por conflitos desastrosos com Castela, referência negativa necessária
para fazer ressaltar, por contraste D. João I). E repetem os longos quinze parágrafos do
articulado, porque o entendem necessário, o que não aconteceria se a compilação estivesse
já suficientemente divulgada e fosse correntemente aplicada: eles dirigem-se ao rei e
ao Desembargo, a legistas e magistrados superiores. Mais: no parágrafo 13 da lei
original, D. Fernando acabava com o privilégio senhorial de nomear tabeliães nas
suas terras (com as habituais excepções). Ao recolher a norma nas O.A., Afonso V
recua nesse ponto, restabelecendo tal previlégio. O que os procuradores pura e simplesmente
ignoram: eles exigem o cumprimento da “ordenação de El Rei D. Fernando” com o seu
articulado original, lembrando, para facilitar, que ela passou a ser o Título LXIII do Livro
2º das O.A., e ‘esquecendo’ o parágrafo 17 (a única contribuição do seu rei). Porquê?
Porque apesar dos seus cem anos, a ordenação em apreço “é justa, santa e boa e faz
ora muito ao caso presente”. Naturalmente que, em 1472-73, uma lei a cercear e a
vigiar a jurisdição dos fidalgos ‘faria muitíssimo ao caso’. Mas atente-se em dois
pontos cruciais: pedem os procuradores que o monarca a faça “suscitar e espertar,
aprovar e mandar guardar”, como se acabasse de ser feita. “Suscitar e espertar”,
compreende-se, se a lei não era cumprida; mas “aprovar” uma lei devidamente
promulgada por D. Fernando, no adro da igreja da Atouguia da Baleia, perante
alguns notáveis do Desembargo do tempo (Afonso Domingues, Lourenço Eanes
Fogaça, Gomes Martins, Álvaro Gonçalves) e os homens bons da vila e de
Santarém, e que reforçara a sua legitimidade, se legitimidade alguma vez lhe faltou, com
a integração na compilação afonsina… O que valia afinal esta compilação? Voltamos
sempre ao mesmo: o que valiam as leis? Segundo ponto, mais surpreendente ainda – a
resposta do soberano: deferimento parcial. Quer dizer: os concelhos pedem ao rei para fazer
cumprir a lei do seu antecessor, que ele próprio consagrara; e o rei – a figura/instituição que
tradicionalmente veríamos encarniçar-se contra os povos que resistiam ao cumprimento das
suas ordenações – responde que aceita que se cumpram alguns parágrafos, outros não. E
provavelmente não mandou respeitar nenhuns.”[1]

O transcrito é extenso, no entanto, indispensável, uma vez que comporta o risco


de difusão de mais uma iniquidade contra a colectânea de regimentos e ordenações da
lavra de Rui Fernandes, dando uma ideia errada da sua veradeira importância em sede
parlamentar, na segunda metade do século XV. Mas, para que qualquer um possa arbi-
trar do peso do discurso de Miguel Duarte e formar o seu próprio juízo de valor sobre o
tema, é também necessário transcrever todo o amplo capítulo de Cortes em causa:

“Sennhor por que a Jurdição he a per que he mais demostrado he o poderio e


alteza do voso principado que per deos e per ley deuinna e umana he cometida
aos Reys em sinall de mais alto e mayor sennhorio E como quer que vos jaa
apomtamos que vosa alteza deuese Reuoguar as doaçõees[2] e comçesõees de
taaes dereitos e jurdiçõees porque tememos em alguã maneira fiquarem alguuãs
e a justiça que per Deus dos çeeos vos he emuiada e oficio voso he per deuinall
ordenamça e deuedes(?) a cada huum menistrar todo este tempo brada por as

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, pp. 128-129. O itálico é nosso.
2
Entrelinhado.

175
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

praças que não acha quem (…) falhar vos sennhor as vosas jurdiçõees que eram
casa de vosa morada lamçastes(?) de uos e mercado delas fizestes como deverças
e os comisairos nam a tomam como pastores mas como merceeiros dela husam
os herros dos quaees he per que maneiras cada dia em vosas orelhas soam vosos
pouos sennhor nam curam do mais esmeuçar e decrarar os danos e males que se
delo seguem pedem a vosa alteza por merçe que queiraees per a ordenação delRey
dom fernnamdo voso amteçesor da louuada memoria que he no segumdo liuro das
vosas Reformaçõees no titolo como deuem usar das jurdiçõees os fidalgos e a queirãees
suçitar e espertar e aprouar e mandar guardar como se a ora fizeseis de nouo mandando
que eses que tãees jurdiçõees tem nem seus ouuidores nam tomem conhecimento
de feitos crimees nem ciueys per aução noua nem per çimples querella nem
denumciação nem de correição nem per oficio de justiça nem per outra maneira
nem sob outra quallquer color somente conheção dos feitos çiueys e crimees que
damte os Juízes desas terras a eles deuem vir per apelação e deles casy como per
canall e como deuem hir esas apelaçõees dos feitos ciueys aqueles que deles apelar
quiserem aa vosa casa do çiuel ou omde per vosa alteza for ordenado e os ditos
feitos crimes hiram esas apelaçõees aa casa da vosa sopricação se as partes apelar
quiserem e que nam queirão se o caso for de tall calidade que se deua apelar por
a justiça deuem eses que taees jurdiçõees teuerem ou seus ouuidores apelar por
bem da justiça e esas apelaçõees emuiarão a vosa casa da sopricação e não podem
dar carta de seguramça nem de perdão sem embargo de quallquer doaçam graça
nem preuilegio sob quallquer titolo ou liberdade per que a esas pesoas fosem
outorguadas nem dadas nem outro sy huso nem costume de quallquer nem de
quamto quer tempo que o comtrairo usasem nem outro sy carta nem rescrito
nem semtença que de vos nem de vosos amteçesores sobre esto ouuesem ou que
emtão no tempo desas doaçõees ou depois ssobre esto guanhasem como sennhor
mais compridamente em a dita ordenação esto e outras cousas sam comteudas
A quall he justa samta e boa e faaz ora muyto ao caso presemte per a reformação
das cousas que depois da dita ordenação se deuasarão em gramde dano de vosa
jurdição e faleçimento de justyça e perda de vosos pouos e porem pedem a vosa
alteza que a dita ordenação asy estreitamente e compridamente como he escrita e
asemtada em vosos liuros feita per ho dito Rey dom Fernamdo sem embarguo doutra
vosa decraração nem ordenação feita em comtrairo em parte ou em todo e sem embargo
de quallquer graça e merce ou priuilegio que per vos em comtrairo sejam dados e
asy sennhor mandeys guardar esa ordenação nos tabaliãees que nam sejam feytos
saluo per vos ou per vos confirmados como a dita ordenação fala ne se chamem
de outrem nem por outrem saluo uosos sem embarguo doutros priuilejios nem
graças que em comtrairo tenham nem eses sennhores nem seus ouuidores dem
cartas de graça nem de restetuição da fama nem priuilegios perque escusem os
homees de seruemtia do comselho nem outras tãees nem conheçam dos feitos
que lhe per a dita ordenaçãao he defeso e mandeys aos Corregedores das vosas
comarquas que emtrem nas ditas terras e fação em elas jerall correição tomando
connheçimento dos feitos crimes e çiueis per auçam noua e per çimpres querela
denumçiação e correição asy e pela guisa que o faaz e fazer pode nas terras vosas
em que a jurdiçam he em todo vosa mandamdo aos juizes das terras que se deles
agrauarem allguus pera ele corregedor que lhe dem estormentos dagrauo porque
a eles pertemçe o conhecimento no caso que se agrauar pode ficamdo que as
apelaçõees vãao os sennhores desas jurdiçõees e seus ouuidores como dito he.
Respomde ElRey que ha por bem daquy em diamte nam pasar carta nem priuile-
gio alguum gerall nem especiall per que os seus corregedores nam ajaam demtrar
nas terras e luguares dos fidalgos e grandes de seus Regnos a fazerem em eles
correição e manistrarem justiça em casos que cumprir segumdo a seus ofiçios per-
temcem E quamto aos que ora priuilegios seus tem perque os ditos corregedores
não Emtrem em suas terras a fazer em elas correição aa por bem que com dom
Fernamdo Duque de barguamça seu muyto amado e prezado primo se nam faça

176
José Domingues

jnouação nem mudamça do que se atee quy fez asy por a ordenação loguo nomea-
damente o em este caso reseruar como por ele semposar da justiça em suas terras
a muito seruiço seu e gramde descarguo de sua comçiemçia E quamto a alguãs
outras que açerqua desto tem priuilegios cartas ou aluarãees manda o dyto senhor
que os priuilegios cartas ou aluarãees seus que sam dados emquamto sua merçe
for expirem e cesem loguo aguora e nas terras daqueles a que asy eram dados os
Corregedores emtrem daquy em diamtea fazer correição e as outras cousas que a
seus ofiçios pertemçem e os outros priuilegios por ele dados em vida dos que os
tem ou a tempo certo durem e se guardem segumdo em elles for comteudo em
pero comtudo sem Embargo de priuilegios cartas e aluarães que hy aja quamdo
quer que ele semtir que alguns usam em suas terras em comtrairo daquelo que
deuem ou que per alguum outro respeito e seruiço seu e bem de justiça quem
mamdar emtrar em elas a fazer ou prouer em alguas cousas o fará por os ditos
seus correjedores ou per outras alguas pesoas como lhe melhor parecer.
E ordena e manda que os ouuidores daqueles que os ditos priuilegios cartas ou
aluaraees tinnhão pera emquamto sua merçe fose em cujas terras ora mamda que
seus correjedores emtrem como dito he nam usem daquy em diamte do carreguo
de corregedores nem de cousas alguaas que a propio oficio de correjedor pertem-
ção e conheçam somente como ouuidores nas apelaçõees e outras cousas que a ele
(sic) como simplezes ouuidores pertemçerem.
E quamto aos tabaliãees ordena e mamda que se chamem segumdo for comtehudo
nas doaçõees ou priuilegios que alguns em espeçiall sobre elo tem Empero se
alguum poser defesa a tabaliam seu ou der mandado per que em alguuma parte
embargue ele usar como a seu ofiçio pertemçe a nam dar escrituras que lhe
requererem em pena delo perqua de todo o priuilegio que tiuer pera poder fazer
ou apresemtar os ditos tabaliãees e lhe apraaz que daquy em diamte se nam faça
doaçam nem merçe em cousa que pertemça ao fazer dos tabaliãees se nã segumdo
a ordenação delRey dom Fernamdo.[1]

Agora sim, pode-se efectuar um cotejo directo entre o que, na realidade, consta
no documento e o discurso do autor supra. Antes de mais, não faz qualquer sentido
acentuar que os procuradores dos concelhos pedem a aplicação de uma lei de D.
Fernando, velha de um século, ou que a conhecem pelo monarca que a fez publicar. Para
os procuradores, conforme supra transcrito, a fonte da ordenação de D. Fernando é
o segundo livro das reformações, no título como devem usar das jurisdições os fidalgos. Não
há dúvida, trata-se do actual título 63 do livro II das Ordenações Afonsinas. O facto de
se pedir a aplicação de uma lei de D. Fernando, não é de pasmar nem destila qualquer
antipatia à colectânea. A vulgar forma de identificar uma lei na compilação era pelo
seu título, conteúdo ou então pelo nome do monarca outorgante, uma vez que nem os
títulos nem os parágrafos estavam numerados. Essa numeração só foi feita na Torre
do Tombo, em 1788, pelo desembargador Salter de Mendonça[2]. Também não faz
qualquer sentido a retórica contra D. Fernando em favor de D. João I, que, de forma
alguma, se não depreende deste documento.
Mas o que, de todo, não consta no documento é a pretensa repetição dos longos
quinze parágrafos do articulado fernandino, com um propositado esquecimento do parágrafo
17 (a única contribuição afonsina), sendo, por isso, vãs e totalmente precepitadas, tanto

1
IAN/TT – Cortes, Maço 2, n.º14, fls. 72-73. O itálico é nosso.
2
“neste anno de 1788 se lhe numerarão no mesmo Real Archivo os Títulos e §§, quando forão conferidos
entre si pelo laboriozo e exacto Magistrado o Dezembargador João Antonio Salter de Mendonça”, cfr.
RIBEIRO, “Memoria sobre as Ordenaçoins do Senhor D. Affonso 5.º”, p. 122. É muito provável que esta
numeração tenha sido aproveitada pelo editor setecentista, que alerta para esse lapso, mas sem reivindicar
a sua autoria, como refere Caetano [Cfr. CAETANO, História do Direito, p. 547].

177
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

a conjectura de que os procuradores exigem o cumprimento da “ordenação de El Rei


D. Fernando” com o seu articulado original, como a conclusão de que a compilação não
estava suficientemente divulgada nem era correctamente aplicada. O que os procuradores
pedem é que seja coactada a jurisdição dos senhores e seus ouvidores, tal como previa
a ordenação de D. Fernando “asy estreitamente e compridamente como he escrita e
asemtada em vosos liuros (…) sem embarguo doutra vosa decraração nem ordenação feita em
comtrairo em parte ou em todo”. Mais uma vez confirmando a fonte de tal ordenação – os
livros de Afonso V – e salvaguardando eventuais declarações (por exemplo, o § 17) ou
ordenações do monarca feitas em contrário.
É certo que transcreve breves trechos da lei de D. Fernando, no intuito de enfatizar
o seu pedido, por exemplo: que os senhores que tinham as jurisdições e seus ouvidores
não tomem conhecimento de feitos crimes nem civeis por acção nova nem por simples querela,
nem denunciação, nem correição, nem por ofício de justiça, nem por outra maneira, nem sob
outra qualquer color (§ 5); e que somente conheçam dos feitos cíveis e crimes que dos juízes
dessas terras a eles devem vir por apelação (§ 4). Em seguida, neste ponto, os procuradores
desviam-se do conteúdo da lei de D. Fernando, enfatizando que a apelação dos feitos
cíveis deviam ir à Casa do Cível e a dos feitos crimes à Casa da Suplicação. Esta viragem
é, com certeza, ditada pelo título 90 do livro III e pelo título 97 do livro V das Afonsinas,
que glosam este tema. O que, contrariando o que nos quer fazer acreditar Miguel
Duarte, denota um bom conhecimento da compilação, que estava a ser correctamente
aplicada como um todo. Segue-se a transcrição do § 5 até final, o único que se pode
considerar transcrito neste capítulo.
Continua a petição do povo para que os tabeliães apenas fossem feitos por el-rei
ou por ele confirmados e não se chamem de outrem (§13)[1]; que os senhores e seus
ouvidores não dêem cartas de graça nem de restituição de fama (§ 7) nem privilégio
porque escusem os homens da serventia do concelho (?)[2]; acabam solicitando que os
corregedores das comarcas entrem nas ditas terras e façam nelas geral correição, como
nas outras terras da jurisdição régia (§ 12), reservando a estes o recurso de agravo e aos
senhores e seus ouvidores o de apelação.
Por sua vez, a resposta do soberano não é surpreendente, e dela não destila qualquer
incentivo ao cumprimento parcial das suas Ordenações, aceitando que se cumpram
alguns parágrafos, outros não, e provavelmente não mandando respeitar nenhuns. Antes pelo
contrário, promete de futuro não passar mais cartas ou privilégios que proíbam os
corregedores de entrar nas terras dos fidalgos e grandes do reino a fazer correição e
administrar a justiça, salvaguardando o caso, previsto por Ordenação, do Duque de
Bragança. Pretende acabar com as cartas e alvarás, nesse sentido concedidos, enquanto
sua mercê fosse. Os ouvidores dos senhores são destituídos das eventuais funções
de corregedores, ficando limitados aos recursos de apelação, tal como solicitado no
capítulo e previsto no título das Ordenações. Sobre os tabeliães não pretende alterar o
anteriormente outorgado, mas desde que os senhorios não importunem esses tabeliães
de zelosamente exercer o seu ofício, sob pena de perderem o privilégio que tinham de
fazer ou apresentar tabelião. Terminando, categoricamente, que “lhe apraaz que daquy
em diamte se nam faça doaçam nem merçe em cousa que pertemça ao fazer dos tabaliãees se não
segumdo a ordenação delRey dom Fernamdo”.
Final terminante! Agora, que se concidere esta resposta como um diferimento parcial
ainda é admissível, se tivermos em linha de conta a salvaguarda da posição do Duque

1
Os compiladores afonsinos reservam que se faça como no tempo de D. João I. Portanto não podemos, limiar-
mente, qualificar esse parágrafo como um recuo de Afonso V e, mais uma vez, desacreditar as Afonsinas.
2
Neste sentido, nada consta no título, pelo que deve ter sido acrescento dos procuradores.

178
José Domingues

de Bragança e o facto de o monarca manter a sua posição sobre alguns privilégios


outorgados. O que não me parece crível é que desta resposta se possa inferir qualquer
desapego – para não dizer desprezo – ao cumprimento das Afonsinas, por parte do
poder régio (o principal interessado). Ou seja, diferimento parcial em relação ao pedido
concreto dos procuradores, mas nunca diferimento parcial à vigência da colectânea.
A manifesta tentativa de descrédito das Afonsinas enraíza-se em tempos bastante mais
recuados, desde, sobretudo, as rijas críticas movidas pelo investigador de Vale de Lobos:

“Se houvessemos de acceitar sem reparo o preambulo historico das Ordenações


Affonsinas, esse codigo, que vigorou pouco mais de sessenta annos, seria hoje um
guia seguro para conhecermos a maior parte da legislação anterior, e o systema
adoptado na sua redacção indicar-nos-hia com certeza a epocha ou reinado em
que cada lei fora promulgada, cada regra juridica estabelecida.
Entretanto a comparação desse codigo com o corpo de leis antigas que nos restam,
e ainda so com as do século XIII que publicâmos agora, basta para nos desenganar
que as Ordenações de Affonso V estão longe de resumir e representar as leis gerais
da monarchia nas epochas que precederam a sua redacção. Nessas mesmas que
ahi foram ou extractadas ou transcriptas, os erros ácerca de seus auctores, da sua data,
e até do seu contexto são taes e tão frequentes, que tornam muitas vezes aquella compilação
a fonte menos segura para a historia da nossa legislação primitiva”[1]

Parece que ninguém mais se preocupou em dissecar tais reparos, não se


apercebendo, tão-pouco, que este conspícuo investigador acaba por cair em
contradição, atribuindo maior fiabilidade e preferindo, como base da sua publicação,
o que ele considera um dos trabalhos preparatórios de João Mendes (Livro das Leis e
Posturas) ao trabalho definitivo e oficial (Ordenações Afonsinas): “naturalmente o Livro das
Leis e Posturas não é senão o primeiro ou um dos primeiros trabalhos de Joanne Mendes”[2].
Caetano insiste que as Ordenações devem ser lidas e apreciadas com as maiores cautelas,
tendo em conta os defeitos da compilação, desde os erros de datas, de cópia ou omissões de
palavras e frases e as interpolações. Mas como exemplos, em concreto, apenas refere:

“Rubricas dos títulos que não correspondem às matérias tratadas (por exemplo,
o título 102 do livro V). Leis repetidas em locais diversos (por exemplo, sobre
barregãs dos clérigos, no título 22 do livro II e no título 19 do livro V) ou a que vem
nos títulos 11 e § 2 do título 14 do livro I” [3]

Sentenciada a probidade das Afonsinas, por duas das mais arrazoadas vozes da
historiografia do Direito nos últimos tempos, tornam-se constantes alegações adeptas
como: “prolixas, e nem sempre claras, Ordenações Afonsinas”[4].
A mim parecem-me excessivas as censuras e demasiado elevadas as suspeitas
criadas em torno das Afonsinas, sem, no entanto, dispensar as vulgares cautelas –
basta atentar nas contradições entre exemplares do mesmo livro – perante quaisquer
apógrafos de códices medievais. Esse descrédito exacerbado pode levar a investigação
científica por caminhos tortuosos e inseguros. Um exemplo álgido pode colher-se

1
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 156. O itálico é nosso.
2
Portugaliae Monumenta Histórica, Leges, p. 149.
3
CAETANO, História do Direito, p. 547.
4
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, “Marcello Caetano, Historiador do Direito Português”, in Marcello
Cetano, História do Direito, pp. III-XXVI.

179
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

no pouco cuidado com que Carvalho Homem, no momento de arrolar os diplomas


normativos emitidos nos reinados de D. Dinis e D. Afonso IV, tratou esta obra, como
ficou demonstrado no capítulo I.
A propósito das compilações iniciadas na época de D. João I, refere expressamente:

“210 leis encontram-se no Livro das Leis e Posturas e/ou nas Ordenações del-Rei D.
Duarte (com eventuais cópias nas Ordenações Afonsinas)”[1]

É óbvio o intento de que as fontes primordiais seriam o Livro das Leis e Posturas e as
Ordenações de D. Duarte, delegando as Ordenações Afonsinas para um plano secundário
– colocadas entre parêntesis. Antes de passarmos aos meros quantitativos de cada uma
das colectâneas, saliente-se que, no arrolamento de Carvalho Homem, existem, pelo
menos, 31 (10+21) diplomas que ficaram por referir na fonte das Afonsinas. Seguem os
diplomas (o número entre parêntesis corresponde ao do corpus de Carvalho Homem)
e respectiva colocação nas Afonsinas:

D. Dinis:
• (n.º1) 1280, Agosto, 08 [Lisboa] – OA, III, 15, §§ 52-57.
• (n.º4) 1282, Agosto, 24 [Guarda] – OA, III, 102.
• (n.º19) 1292, Agosto, 23 [Porto] – OA, II, 3.
• (n.º22) 1295, Março, 04 [Lisboa] – OA, IV, 99.
• (n.º28) 1302,Junho, 07 [Santarém] – OA, III, 108, § 5.
• (n.º51) 1302, Abril, 24 [Santarém] – AO, III, 108, § 3.
• (n.º56) 1309, Julho, 01 [Lisboa] – OA, II, 15.
• (n.º99) 1302, Agosto, 11 [Lisboa] – OA, V, 14.
• (n.º103) 1279-1325 – OA, III, 15.
• (n.º112) 1279-1325 – OA, V, 109, §§ 1-3.
• (n.º113) 1297-1325 – OA, V, 40.

D. Afonso IV:
• (n.º141) 1329, Abril, 19 [Beja] – OA, III, 6, § 1 (sumariada).
• (n.º147) 1332 – OA, I, 23.
• (n.º151) 1335, Outubro, 14 [Coimbra] – OA, V, 53, §§ 13-24.
• (n.º155) 1340, Janeiro, 15 – OA, I, 23.
• (n.º158) 1340, Abril, 01 [Lisboa] – OA, II, 96 / OA, IV, 19.
• (n.º161) 1340, Julho, 01 [Lisboa] – OA, III, 43.
• (n.º162) 1340, Julho, 01 [Lisboa] – OA, III, 101.
• (n.º168) 1342, Janeiro, 26 [Coimbra] – OA, V, 29, §§ 1-3 / OA, V, 30.
• (n.º172) 1343, Julho, 14 [Santarém] – OA, IV, 15.
• (n.º180) 1345, Julho, 06 [Santarém] – OA, V, 52.
• (n.º181) 1345, Julho, 14 [Santarém] – OA, V, 31, §§ 6-12.
• (n.º183) 1347, Dezembro, 13 [Coimbra] – OA, V, 47, §§ 3-15.
• (n.º200) 1325-1357 – OA, III, 100, §§ 1-2.
• (n.º207) 1325-1357 – OA, II, 53 / OA, III, 95.

1
HOMEM, “Dionisius et Alfonsus”, p. 17.

180
José Domingues

• (n.º210) 1325-1357 – OA, II, 44.


• (n.º211) 1325-1357 – OA, II, 49.
• (n.º215) 1325-1357 – OA, V, 41, §§ 1-6.
• (n.º219) 1325-1357 – OA, V, 29, § 3.

São, ao todo, 31 títulos e 28 diplomas (já que o n.º158, 168 e 207 se encontram repetidos
em dois títulos distintos)[1]. Agora, se a este significativo número acrescentarmos os 16
diplomas, do capítulo I, que ficaram por inventariar das Afonsinas, chegamos a um
número muito próximo da meia centena (47) de títulos que foram deixados na tumba
do esquecimento. Confrontando este valor com o total dos 58 títulos (34+24) que
realmente constam no inventário de Carvalho Homem, correspondentes a um total
de 56 leis (32+24)[2], parece que o levantamento a partir das Afonsinas se ficou, quase,
pela metade. Um derradeiro reparo: não há certeza de que o n.º 239 seja um diploma
de Afonso IV, antes se tem atribuído a Afonso II[3].
Posto isto, será que as Ordenações de Afonso V continuam a justificar a depreciação
que lhe tem sido imposta?
Se a nível quantitativo, apesar deste ajuste, não surpreende que as colectâneas
antecedentes a excedam em diplomas de D. Afonso II até Afonso IV, uma vez que
as Afonsinas prosseguem uma reforma das ordenações, “tirando algumas, que nos pareceo
sobejas, e sem proveito”[4]. Mesmo assim, existe um corpus significativo que só pelas
Afonsinas se conhece. Por outro lado, já vimos no capítulo I que, na maior parte dos
casos, a data apontada pelas Afonsinas acaba por se revelar como a mais correcta.
Tomando de novo o fio à meada, em capítulos de Cortes, parece-me demasiado
restritivo resumir as referências às que, de forma expressa e inequívoca, referem algum
dos livros das Afonsinas. Existem outras menções que, embora tacitamente, se referem
a leis nas Afonsinas. Agora, se é o soberano que, assiduamente, identifica a colectânea
como “nossas ordenações”, “livro das nossas ordenações”, “ordenações do reino”… isso só pode
ser entendido como um reconhecimento tácito, do próprio rei, de que nessa colectânea
legislativa constava, praticamente, todo o Direito do reino. Assim sendo, porque
motivo se não devem considerar referências às Afonsinas as que incluem ordenações
aí compiladas? Por outras palavras, a mero título exemplificativo, se a referência ao
regimento dos corregedores, no capítulo 48º das Cortes de 1472/73, não deixa dúvida
tratar-se do título 23 das Afonsinas, porque é que não podem ser consideradas como
referências ao mesmo título e livro as múltiplas que, em outros capítulos de Cortes,

1
Cfr. também o que ficou exarado no capítulo I a propósito das leis dos reinados seguintes (D. Pedro I, D.
Fernando, D. João I, D. Duarte e D. Afonso V) nas Afonsinas.
2
Em trabalho recente persevera os mesmos valores, com menos um para Afonso IV: 32 para D. Dinis e 23
para D. Afonso IV (32+23=55). [Cfr. HOMEM, “Législation et compilation législative”, Anexo 2, p. 686].
3
Portugaliae Monumenta Historica, Leges, p. 177: “No Livro das Leis e Posturas esta lei está unida à XXIII
como uma continuação della, e sem rubrica alguma. Acha-se porém distincta e rubricada nas Ordenações
de D. Duarte. Foi inserida na Affonsina, mas attribuida erradamente a Affonso IV. Ribeiro (Additam. à Synopse
p. 4) considerou a lei sobre o mesmo assumpto, que se acha a fol. 36 do Livro das Leis e Posturas entre
outras de Affonso III, apenas como repetição ou variante da de Affonso II. Parece-nos pouco exacta essa
classificação. Aquella lei modifica a sanção penal desta, e amplia a sua sentença aos conniventes. Não é
provável que nas mesmas cortes de 1211 se tomassem duas providencias diversas na substancia sobre
a materia, não se devendo, portanto, suppor que uma e outra sejam apenas versões diversas do mesmo
texto latino-barbaro”.
Esta conjuntura não é singular: também a lei (de 1211) para que não penhore alguém seu devedor, nem
filhe posse de sua cousa, sem autoridade da justiça é adjudicada a D. Afonso IV, no título 9 do livro IV
das Afonsinas.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Introdução, p. 7.

181
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

mencionam o regimento dos corregedores das comarcas? Só porque nesse capítulo


48º se refere, expressamente, o livro primeiro das ordenações? Não me parece. Seria um
contra-senso que para uma dada conjuntura servisse o regimento coligido no título 23
do livro I e para outras conjunturas se preferisse o mesmo regimento, mas em outra
fonte. E, afinal, qual seria essa fonte? O Livro das Leis e Posturas ou as Ordenações de D.
Duarte (já revogados)? O diploma avulso de 1418, 1361, 1340 ou 1332?
Vejamos então algumas menções ao regimento dos corregedores das comarcas,
disseminadas a esmo pela documentação das Cortes. Logo nas Cortes de Santarém,
de 1451, a propósito das penas das barregãs dos clérigos e casados, o monarca manda
“que se guardem as ordenações”[1]. Nas cortes de Santarém, de 1468, solicita-se que os
corregedores cumpram o seu regimento e façam as inquirições sobre a prática dos
seus antecessores[2]. Nas Cortes de Coimbra-Évora, de 1472/73, em reposta ao pedido
(capítulo n.º 72 em Armindo de Sousa e n.º31 no documento) para que os corregedores
não fizessem posturas e ordenações por si só, mas com os juízes e oficiais dos cocelhos,
el-rei “manda que se guarde o que he hordenado e prouido per o Regimento dos corregedores”[3];
no capítulo seguinte, sobre aposentadorias, “Responde ElRey que per o Regimento dos
Corregedores e ordenação he prouido açerca desto que apontam e que manda que aquelo se
guarde”[4]. Nas Cortes de Évora-Viana, de 1481/82: o monarca ordena que se cumpra o
regimento dos corregedores no capítulo dos que testemunham para fazer mal a outros[5],
no capítulo das más mulheres que não vivam entre as boas[6], no capítulo para que se
tirem inquirições sobre os juízes[7], no capítulo dos corregedores que deixam ouvidores
[8]
sobre feitos novos e tempo de estadia[9]e quando altera o tempo de estadia[10].
Seguindo esta linha analógica de raciocínio, podem-se estender muitas outras
referências aos correspondentes títulos das Afonsinas.
Penso que este seja o melhor entendimento, não sendo plausível que para um
capítulo sirva um dos livros das Afonsinas, imediatamente postergados e substituídos
por outras fontes em qualquer capítulo próximo das mesmas Cortes. Quando o tema
fosse as leis do reino, penso que seria bem mais conveniente o recurso à compilação
legislativa – recente, actualizada e em vernáculo – do que uma busca aturada pelos
imensos volumes e vastos diplomas avulsos arrecadados na Chancelaria-mor. Isso só
seria justificável se a ordenação ou regimento, em causa, não constasse em nenhum
dos práticos cinco livros.

“Sabe-se que as Ordenações – mormente no pequeno código de direito privado


que constitui o seu livro IV – estão muito longe de representar uma expressão
completa do direito vigente”[11]

1
Julieta Maria Aires de Almeida ARAÚJO, Portugal e Castela (1431-1475) Ritmos de uma Paz Vigilante, Dis-
sertação de Doutoramento em História Medieval apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa, 2003, doc. 46, p. 130.
2
ARAÚJO, Portugal e Castela (1431-1475) Ritmos de uma Paz Vigilante, doc. 46, p. 155.
3
IAN/TT – Cortes, Maço 2, n.º14, fl. 89.
4
IAN/TT – Cortes, Maço 2, n.º14, fl. 89.
5
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p. 92.
6
Idem, p. 108.
7
Idem, p. 114.
8
Idem, p. 121.
9
Idem, pp. 254-255.
10
Idem, p. 105.
11
Mário Júlio de Almeida COSTA, “A Adopção na História do Direito Português”, Revista Portuguesa de

182
José Domingues

Penso que está alicerçada, não só a divulgação no âmbito da corte e da Chancelaria


régia, mas também em todo o reino – a altercação em assembleia de Cortes e a chamada
à colação pelos procuradores dos concelhos é bem sintomático – mesmo que se tenham
presentes todas as limitações inerentes à época. Resta-me, ainda, agregar outros parcos
indícios que, em diploma solto, conseguiram perdurar até à data. Por exemplo, a
pedido do arcebispo de Braga, D. Fernando da Guerra, no dia 1 de Dezembro de 1453,
é trasladada a ordenação de D. Dinis, sobre a inquirição das honras e coutos que os
fidalgos faziam indevidamente, que constava do título 65 do livro II da Reformação
das Ordenações[1].
Para o concelho de Ponte de Lima foi enviada a lei de D. João I, de 12 de Maio de
1393, contra os que se valiam de cartas ardilosamente assinadas e autenticadas sem
passar pelas câmaras dos concelhos, e para que em todos os concelhos os escrivães
copiassem num livro de pergaminho todas as escrituras pertencentes aos concelhos.
O diploma, datado de 3 de Julho de 1459, começa assim: “Dom affomso per graça de
Deus Rey de Portugall E do algarue E Senhor de çepta E dalcacer Em africa A quamtos
esta carta virem fazemos saber que no quarto lyuro da rreformacom das hordenaçons que
hamda em a nosa chamcilaria he escripta huma hordenacom do quall o teor tall he que se
ao diamte segue”, transcreve a dita lei do Mestre de Avis[2].
No dia 7 de Agosto de 1476, D. Afonso V outorga carta de privilégio ao judeu João
Pires, pescador de Matosinhos, por se ter convertido cristão, na forma do “segundo
livro da reformaçom das minhas ordenações”[3]. Refere-se ao título “Do privilegio dado ao
Judeo, que se torna Chrisptãao”[4]. Estando el-rei em relação na Casa do Cível de Lisboa,
aos 15 de Março de 1502, esclareceu algumas dúvidas sobre a ordenação “do segundo
liuro no titolo De como o Judeu comverso aa fe de Ihu Xpº deue herdar a seu padre e madre”[5].
Esse título consta, efectivamente, no livro II[6] e a questão ventilada prende-se com a
aplicação deste preceito à sucessão dos cristãos novos, uma vez que, segundo a lei de
1497 todos os judeus e mouros forros deviam abandonar o reino, sob pena de morte
natural e perda das fazendas[7].
Outro assento da relação de Lisboa, de 30 de Agosto de 1473, interpreta uma
ordenação de D. Dinis, de 11 de Setembro de 1302, em Lisboa – “Da molher casada que
se sayo de casa de seu marido para fazer adultério”[8]. Contrariamente a todas as outras
referências às Afonsinas, neste caso trata-se de fixar o sentido ou alcance do preceito
normativo, fixando-lhe o conteúdo mais correcto, a partir de um caso concreto. Ou seja,
aqui as dificuldades de interpretação surgem a partir do momento em que se aplica
o preceito geral e abstracto a um caso concreto. Por outras palavras, ultrapassamos o
âmbito da discussão em Cortes ou da referência genérica em diplomas régios, para
ingressarmos no âmbito da aplicação concreta das penas.

História, tomo XII, Coimbra, 1969, p. 114.


1
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. 1260.
2
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º 28.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 78, p. 627.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 83.
5
Collecção de Livros Inéditos. Academia Real das Ciências, Lisboa, na oficina da mesma Academia, 1793, vol.
III, pp. 582-583.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 79, pp. 465-471.
7
Ordenações Manuelinas, Liv. II, Tít. 41.
8
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 12, pp. 44-45. Embora se não faça referência expressa à colectânea, não
vejo razão para que a lei interpretada não seja a que lá consta.

183
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

O assento relata o caso de uma mulher “que fogira a seu marido, pecando-lhe na Ley do
casamento, se absentou de tal guisa, que se nam podia achar, nem saber onde era”. Acusando-a
o marido, foi citada “na forma da Ordenaçam, e dos Regimentos dos Corregedores das
Comarquas”, acabando por ser banida e condenada à morte – pena prevista na lei das
Afonsinas referida. A dúvida que se gerou, na aplicação da lei a este caso concreto,
foi a de saber se, depois de banida da comunidade, qualquer pessoa do povo a podia
matar, é que a lei prevê a pena de morte, mas não quem a podia executar. Vale a pena
transcrever a conclusão deste assento:

“e foy loguo hy duvidado se averia em ela logar em todo a dita ley; a saber, que
cada huu do povo que a achase a podese matar sem pena: e depois de muytas
rezões de pró, e de contra com acordo dos Letrados acordamos, decraramos, e
mandamos que a dita Ley naquela parte soomente nom aja luguar na molher
casada, e banida, por fazer soomente adulterio a seu marido, que nenhuu do povo
a nom posa matar asy banida, se nam o marido soomente, e a Justiça dos luguares
onde for tomada, e outro nenhuu do povo nam; e mais mandamos que em todo
o tempo, e luguar onde a o marido quiser tomar depois que asy for banida, que
a posa tomar, e reconciliar asy, sem a Justiça mais comtra ela proceder, nem
entender; e qualquer outro que a matar que moura por elo, salvo se for seu pay
dela natural.”[1]

São inconcussas referências à Colectânea Afonsina, mas muitas outras se podem


coligir na documentação remanescente, que, com toda a probabilidade, lhe dizem
respeito. Por exemplo, sempre que o monarca autoriza alguém a andar em besta muar
de sela e freio, ressalva – sem embargo da ordenação geral em contrário – o título 119 do livro
V. Esta autorização de andar em besta muar de sela e freio, com a devida salvaguarda,
foi concedida aos cidadãos de Lisboa que andassem nos pelouros, a 31 de Março de
1449 e confirmada em 25 de Fevereiro de 1461[2]. Por provisão de 6 de Fevereiro de 1453
concede a licença para 30 mulas ao arcebispo de Braga – sem embargo da nossa defesa e
ordenação sobre elo feita[3].
Ou, então, quando permite o uso de armas, ressalvando o título “Das Armas como
se ham de filhar”[4]. Por exemplo, a nomeação régia, de 14 de Abril de 1452, para o cargo
de monteiro-mor de Soajo, a Vasco Gonçalves, concedendo-lhe o privilégio de usar
armas “sem embargo da nossa hordenaçom”[5]. Ou a prerrogativa de 21 de Abril de 1454,
para que os vassalos de el-rei no Porto gozem do privilégio de poderem, por todo o
reino, trazer armas, sem embargo da ordenação, sendo acontiados em dois arneses[6]. No
entanto, atendendo uma queixa do concelho do Porto contra João Rodrigues de Sá,
sobre a posse de armas, o monarca manda que “estreitamente se guarde nosa ordenaçom
sobrellas feicta”[7].
São múltiplas também as referências à ordenação que proíbe a passagem de
determinadas mercadorias para o reino vizinho de Castela, nomeadamente a passagem

1
Livro Vermelho de D. Afonso V, n.º28. Collecção de Livros Ineditos de Historia Portugueza, Tomo III, pp.
470-471.
2
OLIVEIRA, Elementos para a História do Município de Lisboa, tomo I, p. 331 e 334.
3
Braga, AD – Colecção Cronológica, doc. 1255.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 31.
5
Valdevez Medieval: Documentos II (1300-1479), doc. 136, pp. 191-193.
6
Porto, AHM – Livro A, fls. 118v-119.
7
Documentos para a História do Porto – V: Livro Antigo de Cartas e Provisões, pp. 3-4.

184
José Domingues

de gados[1]. Por exemplo, a 7 de Maio de 1459, concede privilégio aos monteiros de


Soajo de poderem passar e comerciar os seus gados com a Galiza “sem enbargo de nossa
hordenaçom”[2]. O rei determinou que os alcaides das sacas de Caminha não importunem
os galegos que vem à feira mesmo que estes transportem “cousas defesas” pelas
ordenações do reino[3]. Luís Miguel Duarte publica dois documentos concernentes: um é
o perdão parcial para os habitantes da fronteira da comarca de Entre-Tejo-e-Guadiana
envolvidos na passagem de bens proibidos de Portugal para Castela; o outro é uma
autorização a Pedro Eanes, escudeiro do doutor João Fernandes da Silveira, regedor
da Casa da Suplicação, morador em Castelo de Vide, a prender pessoas procuradas
pela justiça na região do Alto Alentejo, bem como as pessoas que passem para Castela
gados e cousas defesas “contra nossas hordenanças”[4].
Em 1463, o monarca confisca os bens que Pedro Alonso tinha na aldeia de
Monsanto, e doa-os a um escudeiro do Conde de Monsanto, por o primeiro ter ido
viver para Castela há mais de “ano e dia”, violando a ordenação de D. Duarte[5]. Apesar
da referência expressa à ordenação de D. Duarte, penso tratar-se de uma referência
tácita ao título das Afonsinas, onde estava recompilada e confirmada[6]. Por seu turno,
em Évora, nenhuma servidora ousava servir o correeiro Martim Eanes, “com temor
e receo que avyam de nossas hordenaçõoes e defesas em contrairo dello fectas e de
levarem delles penas como de barregueiros”[7]. Reportando-se claramente à ordenação
dos barregueiros[8]. Ainda no âmbito desta ordenação, o monarca, a 24 de Setembro de
1475, ordena às justiças que, durante 12 anos, não procedam contra qualquer manceba
de Lourenço Afonso de Andrade, mestre-escola de Guimarães e capelão do duque
da vila, deixando o caso ao respectivo superior hierárquico, “sem embarguo da nosa
hordenaçom ser em contrario”[9].
Fora do âmbito da documentação régia, na vereação da Câmara da cidade do Porto
foi mandado que se nomeassem quadrilheiros que “tenham suas armas aas portas pera
se allguuns arroydos sobreviverem. E se chamar o apellydo dellrrey que sayam a elle so
a pena contheuda na hordenaçom”[10]. A ordenação que manda acudir ao apelido de el-rei
consta no livro V[11] e a pena para os quadrilheiros que não cumpram o seu ofício está
prevista no regimento do alcaide pequeno[12].
Neste âmbito penso que se poderiam recolher centenas de exemplos práticos,
sobretudo nas Chancelarias de Afonso V, João II e D. Manuel, mas parece-me
suficientemente documentado que, apesar de tudo, as Afonsinas foram suficientemente
divulgadas pelo reino, para que pudesse ser exigido o seu cumprimento em múltiplas
situações do quotidiano de quatrocentos.

1
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 47, § 16, pp. 173-174.
2
Valdevez Medieval: Documentos II (1300-1479), doc. 153, p. 210.
3
IAN/TT – Leirura Nova, Além Douro, Liv. 3, fls. 275v-276.
4
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 22, pp.584-585 e doc. 40, pp. 597-598.
5
Idem, doc. 21, pp.583-584.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 44, §§ 1-2.
7
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 62, pp.614-615
8
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 20.
9
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 71, p.621
10
Humberto Baquero MORENO, “A manutenção da ordem pública no Porto quatrocentista”, sep. Revista de
História, Centro de História da Universidade do Porto, vol. II, Porto, 1979, p. 31.
11
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 71.
12
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 30, § 1.

185
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

5. O Abreviamento de D. João II
A terminar, torna-se impreterível uma referência ao abreviamento feito no tempo
de D. João II, exaustivamente estudado por Espinosa da Silva[1]. Apesar de cedo perdido
na poeira da História, este autor, acumula uma série de referências escritas, sobretudo
do século XVIII, que lhe permitem supor “que não existem razões sérias para duvidar deste
testemunho”[2]. Acabando por concluir:

• “Que, de acordo com o testemunho de genealogistas e bibliógrafos,


Lourenço da Fonseca, corregedor da Corte e, depois desembargador, ao
tempo de D. João II, abreviou, por mandado do monarca, os cinco Livros
das Ordenações Afonsinas em um só tomo;
• Que o abreviamento de que foi encarregado Lourenço da Fonseca deve
ter consistido na elaboração de um repertório ou índice alfabético das
Ordenações.”[3]

Nas prévias Lições de História do Direito, este autor, já refere o abreviamento para
fundamentar a escassa difusão das Ordenações, transcreve esse parágrafo em nota de
rodapé no trabalho Sobre o Abreviamento[4] e passa a inclui-lo nas várias edições da sua
História do Direito[5]. Luís Miguel Duarte comunga da mesma suposição, reproduzindo
o parágrafo e remetendo para o trabalho de fundo de Espinosa[6]. Alves Dias, mais
cauteloso, enquanto não surgir a obra realizada, coloca em dúvida se seria uma nova
compilação e sistematização ou um repertório ou índice alfabético[7].
A robusta plausibilidade de que Lourenço da Fonseca, por ordem de D. João II,
tenha elaborado o abreviamento dos cinco livros das Afonsinas mantém-se hirsuta e
firme, dando alguma consistência à minha ideia de que João das Regras teria coligido
em livro(s) as Ordenações do Reino. Quero dizer, investigadores anteriores a meados
do século XVIII tiveram acesso a fontes jurídicas manuscritas, irremediavelmente, per-
didas (para sempre? O tempo o dirá!). Enquanto não surgir fragmento inconcusso da
obra de Lourenço da Fonseca o mais recomendável será, como faz Alves Dias, duvidar
da sua feição. No entanto, no âmbito das alegações, podemos refutar o que considera-
mos mais erróneo e optar pela tese melhor fundamentada e, nesse sentido, não parti-
lho da crença, de Espinosa e Duarte, que identifica o abreviamento com um repertório
ou índice alfabético, situando-o no reatamento da escassa difusão das Ordenações. Antes
pelo contrário.

1
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, “Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações ao Tempo
de D. João II”, Lisboa, 1981. Sep. do Boletim do Ministério da Justiça, n.º 309.
2
O testemunho primordial, que abre a investigação de Espinosa, é o papel intitulado «O que escreveu El Rei
Dom Duarte», que D. Caetano de Sousa publicou, em 1739, nas suas Provas, onde se lê: “Mandou também or-
denar e abreviar as Ordenações do Reino que em seus dias não acabou e veio a acabá-las seus filho D. Afonso V, o qual
as mandou recopilar em cinco volumes [vide a tradição desta informação no capítulo II] e depois el Rei D. João II,
seu filho, tornou a mandar abreviar as Ordenações dos cinco livros em um compromisso. Quem por seu mandado as
abreviou foi o Licenciado Lourenço da Fonseca que foi algum tempo seu Corregedor da Corte”.
3
SILVA, “Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações”, pp. 18-19.
4
Idem, p. 7, nota 10.
5
Nuno J. Espinosa Gomes da SILVA, História do Direito Português, Vol. I, Fontes de Direito. Fundação Ca-
louste Gulbenkian, Lisboa, 1.ª edição, 1985, p. 206 / 2.ª edição, 1991, p. 265 / 3.ª edição, 2000, p. 290.
6
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 129. Acrescenta mais um autor setecentista que refere este abrevia-
mento, o prefaciador da edição das Ordenações Afonsinas de 1792.
7
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XII.

186
José Domingues

Se a colecção dos cinco livros das ordenações do reino estava sepultada no


esquecimento da Chancelaria há mais de três décadas, como se justifica o labor – não
pouco árduo – de um repertório ou índice? Para quê um repertório ou índice de uma
colecção de leis que se desconhece e se não aplica? Se não se conhecem e não se usam
os cinco livros de ordenações, arrecadados no arquivo da Chancelaria desde 1446, o
que se pode fazer com o seu repertório ou índice, na imediata década de oitenta? A sua
divulgação e manuseamento (do repertório) seria bem mais fácil, mas qual a utilidade
prática, se faltam os textos de apopio das Ordenações? Estou convicto que o abreviamento
não viria, em nada, remediar o inconveniente da escassa difusão das Ordenações pelo reino. No
fundo, seria concluir que o monarca ocupou o precioso tempo do mais alto magistrado
do reino, o corregedor da corte, para nada. Aliás, parece-me um contra-senso apregoar
que o principal intuito do abreviamento era facilitar o manuseamento da colectânea
de leis pátrias e, em simultâneo, negar que se manuseava essa colectânea. Por isso,
despretensiosamente, penso que o abreviamento das Ordenações do reino, ao tempo de
D. João II, seria mais um comprovativo sério da sua relevância prática e da sua efectiva
divulgação pelo reino.
Continuam a faltar as referências documentais coevas do tempo de D. João II,
continuando a ser lícito perguntar se esse abreviamento seria mesmo um repertório
feito num só tomo[1]. Também não tive a fortuna de tropeçar em dados conclusivos. No
entanto, três citações, em capítulos das Cortes de 1481/82, chamaram particularmente
a minha atenção. Trata-se de alusões, em simultâneo, a ordenações velhas e novas.
Claro que se pode sempre alegar que se trata de referência a duas ordenações análogas
distanciadas no tempo. Mas também pode ser uma referência a duas colectâneas, como
acontece sempre que há publicação de uma nova – flagrante caso o das várias edições
das Manuelinas. Passemos a uma análise mais detalhada de cada uma das citações.
Na resposta ao capítulo relativo aos malfeitores acolhidos pelos fidalgos, o monarca
ordena que os criminosos se não refugiem em coutos que não tenham sido ordenados
para esse fim – coutos de homiziados do reino[2] – e que os senhores, leigos ou eclesiásticos,
entreguem esses malfeitos e colaborem com a justiça. Para os transgressores comina: “
E nom o comprindo e fazemdo elles asi mamda a suas Justiças que procedam comtra
elles segumdo theor e forma de suas ordenaçõees velhas e noua que açerqua dos que acolhem
mallfeitores fallam e bem asi aquelles que Jurdiçom nom teem seeram theudos emtregar
os mallfeitores em o modo e forma em as ditas ordenaçoees comtheudo”[3]. Mais à
frente, questionado novamente quanto aos malfeitores amparados pelos fidalgos, não
sendo coutos de homiziados, o soberano rediz a aplicação da ordenação velha e nova:
“E quamto he aos Senhores que em suas terras e Jurdiçoees acolhem os mallfeitores
Ja he determinado a maneira que se sobre ello aja de teer per ordenaçom velha e noua
as quaees mamda que se goardem inteiramente”[4]. Nas Ordenações Afonsinas consta,
efectivamente, o título dos que encobrem os malfeitores[5]. Não me parece que à data – 5 de
Outubro de 1482 – esta fosse a ordenação nova, devia ser a velha (com trinta e seis anos
de existência). Qual seria então a ordenação nova? Credivelmente, pode ser o afamado
abreviamento da lavra de Lourenço da Fonseca.

1
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XII: “Sabemos que D. João II mandou ‘abreviar as Ordenações
dos cinco livros em um Compromisso’ ao Licenciado Lourenço da Fonseca (…) Infelizmente, a sua produção não é co-
nhecida nos nossos dias. Não sabemos se efectivamente fez uma nova compilação e sistematização ou se, como defende
Nuno Espinosa Gomes da Silva, a sua obra se limitou à elaboração de um repertório ou índice alfabético”.
2
Cfr. Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 61.
3
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p. 73.
4
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p. 129.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 100, pp. 355-359.

187
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

Outra alusão aparece no capítulo contra os arrenegados e tabuleiros, mandando


el‑rei às suas justiças “que mui estreitamente exequtem as ordenaçoees nouas e velhas
sobre este caso fectas”[1]. Todo o conteúdo deste capítulo sugere uma incontestada
analogia com o título das Afonsinas para que não joguem a dinheiro nem haja tabulagem[2].
Não deixa de ser bastante significativo que, no capitulo dos notários apostólicos, se
refira “vossas leis e amtiigas ordenaçoees”[3].
Não se conhecendo nenhumas ordenações que, rente a 1482, tratem dos malfeitores
coutados ou dos tabuleiros blasfemos, só me ocorre atribuir a ordenação nova ao
eclipsado abreviamento e a ordenação velha às Afonsinas. Além do mais, o facto de se
impor, três vezes, a observância simultânea das ordenações novas e velhas, ao mesmo
caso concreto, induz a um conteúdo muito semelhante de ambas, mas sem qualquer
revogação. Isso leva-nos, invariavelmente, às Ordenações e ao seu Abreviamento, caso
contrário, a ordenação nova revogaria, total ou parcialmente, a ordenação velha – seria
este, tal como hoje, o regular processo de aplicação da lei.
Há ainda a hipótese de os conteúdos das duas ordenações, nova e velha, serem
totalmente díspares, complementando-se e não se excluindo. Só assim seria plausível
o uso simultâneo de ambas. Caso existissem, essas supostas ordenações novas seriam,
de certeza, aproveitadas na reforma manuelina. Mas se, por exemplo, confrontarmos o
título 100 das Afonsinas – Dos que encobrem os malfeitores – com o correspondente título
71 das Manuelinas – Dos que encobrem os que querem fazer mal –, dissipa-se logo a ideia de
ter existido alguma lei intermédia, uma vez que o título das Manuelinas é, praticamente,
um resumo do título das Afonsinas. À palavra resumo, propositadamente destacada,
ecoa em qualquer pensamento a do abreviamento: será que se trata de um vestígio do
trabalho de Lourenço da Fonseca, aproveitado pelos redactores manuelinos?[4]
Não arrisco uma resposta definitiva baseada em tão singelo indício, de todas as
maneiras, a estar correcta a identificação que faço com a ordenação nova, não me parece
que fosse apenas um repertório ou índice, que poderia ser de muita utilidade remissiva,
mas sem qualquer conteúdo legal, por isso, nunca seria mandado cumprir ao lado da
ordenação velha. O repertório é apenas um instrumento auxiliar de trabalho e não uma
colectânea legislativa, carecendo, por isso, de conteúdo jurídico e vigência autêntica.
Questionada a pretensa identificação do abreviamento de D. João II com um
repertório ou índice das Ordenações de seu pai, parece-me lícito que também se possa
suspeitar do juízo indutivo que acaba por reduzir esse compromisso a um só tomo.
Espinosa da Silva também teve grandes dúvidas:

“Como quer que seja, o papel de Caetano de Sousa suscita alguma reflexão,
principalmente quando afirma que D. João II «tornou a mandar abreviar as
Ordenações dos cinco livros em um compromisso». É que esta expressão – compromisso
– não a encontrámos em nenhum outro autor que tenha escrito sobre a matéria,
ficando‑nos grande dúvida sobre a sua pertinência. Na verdade, de acordo com
juristas e dicionaristas, compromisso pode significar obrigação de duas ou mais
pessoas, compromisso arbitral, concordata entre devedor e credor, instituição de
Morgado ou Capela e Estatuto de alguma confraria ou irmandade. Nada disto,
porém, se adequa à realidade em estudo.”[5]

1
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p. 124.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 41, pp. 148-152.
3
SANTARÉM, Memorias para a Historia e Theoria das Cortes Geraes, p.212.
4
Marcello Caetano coloca idêntica interrogação quanto ao seu aproveitamento para a feitura do Regimento
dos Oficiais [Cfr. CAETANO, Introdução ao Regimento dos oficiais, p. 27].
5
SILVA, “Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações”, p. 8.

188
José Domingues

Mas – porque se adequava à sua ideia de reportório – acabou por ser arrastado pela
interpretação dos genealogistas seiscentistas e setecentistas. Desconhecemos o paradeiro
do papel de Caetano de Sousa que, apesar de não ser a prova original, pode ter sido a
base de apoio, transmitida de autor para autor. Por isso, descartando as interpretações
pessoais de cada um que, directa ou indirectamente, o leu, torna‑se imprescindível
considerar de novo a palavra compromisso, tentando dar-lhe um significado à luz da sua
semântica e dos escassos elementos documentais da sua coevidade.
Entrando no campo da semântica das palavras e, perante o silêncio do único
auxiliar acreditado – o Elucidário de Viterbo – e a uma distância de mais de meio
milhar de anos, podem aventar-se suposições multíplices e díspares. De qualquer
forma, a palavra compromisso, até prova em contrário, traduz uma ideia de um
comprometimento, de um ajuste ou acordo entre, pelo menos, duas facções. Mas que
facções poderiam ser essas?
Se consideramos a evidência de que, regra geral, em cada título das Afonsinas
se aglomeraram leis de reinados e conteúdos diferentes, não custa acreditar que no
momento da sua transposição para os casos em concreto se tenham suscitado sérios
problemas de aplicação e interpretação. Antes de mais, a dificuldade de apurar a lei
aplicável. Se, acerca de um assunto, foi coligida mais do que uma lei é porque, à partida,
todas têm alguma aplicabilidade a esse tema. Logo, torna-se óbvio que cada uma das
partes em litígio reivindique a mais favorável para si. Pode-se alegar que, para atalhar
a este embaraço, no final de cada título ficou prevista uma declaração elucidativa. Mas
será que essa declaração foi o eficiente bastante? Não me parece.
Um ténue indício desta ineficácia (e, em simultâneo, do problema da revogação
da lei antiga pela lei nova) surge com a discussão levantada, nas Cortes de Santarém
de 1451, em torno das ordenações novas e velhas, a que o monarca manda “que se
guardem as nouas e uelhas que non ssam rreuogadas”[1]. É bem notória a desorientação
quanto às leis a aplicar, legitimando, passados cinco anos da conclusão da reforma das
ordenações, a incerteza da eficiência das declarações finais de cada título.
Esta perspectiva possibilita uma nova interpretação deste capítulo geral de
Cortes. Até à data, tem-se entendido que as ordenações novas seriam as Afonsinas e as
ordenações velhas as que ficaram de fora dessa compilação[2] ou então as colectâneas
antecedentes[3]. A identificação das ordenações novas não suscita qualquer incerteza,
mas a identificação das ordenações velhas com as que ficaram foram da compilação
não me parece conforme, uma vez que nas Afonsinas existem leis mais antigas do
que muitas outras que ficaram de fora. Por sua vez, é plausível, sobretudo tendo
em atenção as dificuldades de divulgação da época, que alguns magistrados se
regulassem pelas colectâneas antecedentes – ou porque ainda não possuíam as novas
ou porque estavam mais familiarizados com as outras. Mas o que não é aceitável é que
o monarca, em resposta, mande guardar as ordenações novas e as velhas que não são
revogadas. Das duas uma, ou a nova colectânea revoga totalmente a anterior ou então
teríamos o próprio monarca (o impulsionador) a considerá-la um trabalho imperfeito
e inacabado.
Na realidade, ao contrário do que se sentenciou, penso que não estamos perante
um pedido do povo para que os oficiais julgadores apliquem as Afonsinas[4], mas antes

1
Elvas, AM – Pergaminho, n.º 55. Vid. p. 206.
2
Embora o não refiram expressamente, só pode ser este o entendimento dos autores (SOUSA e DUARTE) que
sobre este artigo se pronunciaram, já que nem sequer pressupõe a existência de colectâneas oficiais anteriores.
3
Posição que acima segui.
4
Esta seria antes uma preocupação do monarca e dos seus oficiais.

189
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

perante um pedido para que se estabeleça um critério interpretativo dos preceitos legais
coligidos na nova colecção e, sobretudo, se respeite a declaração final de cada título. Em
última instância, o que se pretende é uma certa segurança e certeza jurídica, para que
“o poboo seja direitamente julgado E aja cada huum rregimento como aja de hauer”[1]. Não se
trata apenas da aplicação da lei da colectânea mais recente, mas da aplicação coerente
dessa lei, já que no mesmo título existem leis de tempos e conteúdos diferentes.
Por outras palavras, do que não há dúvida é que os oficiais julgadores aplicavam,
não raro, a lei antiga em detrimento da lei nova. Mas se essa lei antiga fosse uma
colectânea (anterior e revogada) de outro reinado, os magistrados estariam a incorrer
numa insurreição e a resposta do monarca só poderia ser uma e categórica: respeito
pelas suas Ordenações. Não sendo assim, penso que o pedido do povo é feito para que,
“nos casos em que falom”, os julgadores apliquem as leis das Afonsinas e não apliquem
as leis antigas expressamente revogadas na declaração final de cada título. Fala assim
o pergaminho:

“E por que nos fezemos nouas ordenaçoões per as quaes rreprouamos alghuas
antygas E outras declaramos segundo sentimos por direito pedindo nos per merçee
que mandasemos aos nossos ofiçiaaes julgadores por carta pera que taaes
nossas leix guardem nos casos em que falom E nom guardem as antygas que som
rreprouadas”[2]

Saliente-se que o rei diz que fez novas ordenações (as Afonsinas), pelas quais revo-
gou algumas antigas e declarou outras. Essas declarações e revogações são feitas no
final de cada título e, no fundo, o que aqui está em causa é o respeito por essa declara-
ção final, devendo os oficiais julgadores abster-se de aplicar as leis antigas que tenham
sido expressamente revogadas. Sendo agora bem compreensível a resposta do sobe-
rano que manda guardar as novas e as antigas que não tenham sido revogadas – em
derradeira instância, aplicação das suas ordenações, mas respeitando cabalmente o
preceituado na declaração final de cada título.
Este entendimento acaba por dar ainda mais consistência à ideia que venho
divulgando sobre a vigência das Afonsinas. Para além de um deferimento total da
aplicabilidade das Afonsinas, que nem sequer chega a estar em causa, nestas Cortes
discutiram‑se regras de aplicação e coerência entre as leis – no fundo, critérios de
interpretação – que compõem os próprios títulos dessa colectânea.
Em poucas palavras, tudo leva a crer que a compilação sistemática de Rui Fernan-
des, apesar de todo o mérito, não conseguiu suprimir completamente a dificuldade
das outras compilações cronológicas. Por isso, voltando à questão do compromisso, já
todo o leitor solícito está a relacionar a tarefa de Lourenço da Fonseca com um texto
definitivo (um compromisso) que harmonizasse as várias ordenações e a declaração
final de cada título das Afonsinas. Espinosa da Silva, sem lhe dar continuidade nem
satisfatória refutação, chega a pesar esta hipótese:

“É certo que se poderiam abreviar as leis de cada um desses Livros; estando –


como estavam – as Ordenações Afonsinas redigidas em estilo compilatório (à
excepção do primeiro Livro) com a transcrição das anteriores leis sobre a matéria
e a nova tomada de posição do legislador, é evidente que se podiam abreviar as
leis contidas nas Ordenações. Foi, aliás, o que se fez nas posteriores Ordenações

1
Elvas, AM – Pergaminho, n.º 55.
2
Elvas, AM – Pergaminho, n.º 55.

190
José Domingues

Manuelinas, onde se alterou o método de redacção, passando a usar-se o chamado


estilo decretório ou legislativo. Simplesmente, uma coisa é abreviar, resumir
ordenações e outra é abreviar os cinco Livros das Ordenações em um só: reunir
tudo num único livro é que não parece oferecer qualquer utilidade, nem dever
constituir preocupação do legislador.”[1]

Após repetidas leituras atentas do valorizado trabalho de Espinosa, para mim


tenho que o pressuposto basilar de todo o seu entendimento foi o de um só tomo – um
compromisso ser um tomo. Esse entendimento foi buscá-lo a todos os genealogistas
consultados, desde Franco Barreto, Avelar Portocarreiro, Felgueiras Gayo, Macedo e
Albuquerque e Alvarez Pedroza[2]. Entendendo tratar-se de um repertório, um passo
muito curto permite-lhe concluir que “fazer um repertório das Ordenações Afonsinas
era, pois abreviá-las num livro só”[3]. O recurso a estes mesmos genealogistas, mesmo
considerando não serem palavras de evangelista, facilita-lhe outro argumento:

“Se bem que não sejam palavras de evangelista, será oportuno recordar que, aí,
se afirma que Lourenço da Fonseca «foi o primeiro que abreviou os cinco livros das
Ordenações em um só tomo». Não se diz, apenas – como em Franco Barreto – que foi
quem abreviou, mas sim e mais explicitamente, que foi o primeiro que abreviou. Esta
expressão coaduna-se com a hipótese agora apresentada. Lourenço da Fonseca,
de mandado, segundo parece, de D. João II, efectuou o primeiro repertório
das Ordenações do Reino; depois disso, surgiram, obviamente, repertórios das
Ordenações Manuelinas e Filipinas, manuscritos, uns, impressos, outros, como é
o caso das obras, com essas características, de Duarte Nunes do Leão e de Manuel
Mendes de Castro. Por isso, os vários genealogistas citados, ao escreverem na
segunda metade do século XVII e no século XVIII e tendo presente esta realidade,
vêm, correctamente, dizer que Lourenço da Fonseca foi o primeiro que abreviou
os cinco livros das Ordenações em um só tomo. Ele foi o primeiro; outros se
seguiram”[4].

O objectivo dos genealogistas é fazer genealogia, sendo sobejamente afamada a


pouca credibilidade da sua informação histórica, muitas vezes manipulada em prol da
linhagem estudada. Mas há falta de melhor substrato… aqui me aparto, inteiramente,
do entendimento de Espinosa da Silva.
Estou convicto que o melhor substrato ainda é o de Caetano de Sousa, pelo qual
Espinosa começa e, incompreensivelmente, se desliga ao longo do seu trabalho. O
texto de Caetano de Sousa (apesar de não ser um original) é uma prova documental
e, como tal, é publicado na sua obra. Hoje desconhecemos o seu paradeiro e não
podemos aquilatar uma datação crítica nem avalizar o crédito do seu conteúdo, mas,
até prova em contrário, temos de presumir válido o escólio, divulgado por tão elevado
informador. Repare-se mesmo que, como conjectura Espinosa, se o papel publicado
nas Provas fosse uma das “verbas originais” de Gaspar de Faria Severim[5], ainda assim
seria o mais antigo autor – plausivelmente a fonte dos subsequentes genealogistas – e
por isso o que merece maior fiabilidade. Por outras palavras, o facto de ser publicado
entre as Provas de Caetano de Sousa inculca tratar-se de uma prova documental, mas

1
SILVA, “Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações”, p. 15.
2
Cfr nota 37.
3
Idem, p. 15.
4
Idem, pp. 16-17.
5
Idem, p. 9.

191
As Ordenações Afonsinas Capítulo III: Conclusão e Divulgação

mesmo que assim não fosse entendido, bastaria o nome deste último, associado ao de
Severim de Faria, para suplantar toda a deturpação inconsciente dos genealogistas
subsequentes. Torna-se obrigatório transcrever, aqui, o que importa ao caso, do que
escreveo ElRey D. Duarte das Provas de D. António Caetano de Sousa:

“Mandou tambem ordenar, e abreviar, as ordenassoens do Reyno, que em seus dias


não acabou, e veyo a acaballas seu filho Dom Affonso Quinto o qual as mandou
recopillar em 5 volumes, e despois El Rey Dom João Segundo, seu filho, tornou a
mandar abreviar, as Ordenassoens dos cinco livros, em hum Compromisso, que(m) por
seu mandado as abreviou, foi o Lecenciado Lourenço da Fonseca, que foi algum
tempo seu Corregedor da Corte”[1]

A frase destacada torna obsoletos alguns dos argumentos sugeridos por Espinosa
da Silva. Antes de mais se o documento, expressamente, diz “tornou a mandar abreviar”
é um contra-senso afirmar que Lourenço da Fonseca “foi o primeiro que abreviou”. Anali-
sando bem este “D. João II (…) tornou a mandar abreviar” – tal como tinha feito D. Duarte
e concluiu D. Afonso V – rejeita-se, liminarmente, a ideia de um repertório ou índice alfa-
bético das Ordenações, inserindo o abreviamento na lida compilatória das Ordenações,
iniciada no recuado reinado de D. João I. Por outro lado, insisto, o documento refere
um compromisso e não, como pretenderam os genealogistas e Espinosa, um tomo.
Embora usando uma terminologia diferente – volumen e libro – as referências à
primeira compilação do direito castelhano falam sempre no singular, sendo certo que
se trata de obra dividia em oito livros. Por exemplo, na petição das Cortes de Madrid
de 1433 “las mande asentar en un libro”; nas Cortes de Madrid de 1458 “que todas las
dichas leyes e ordenanzas fueses ayuntadas en un volumen”; e o próprio compilador –
Alfonso Díaz Montalvo – refere expressamente que “conpuso este libro de leyes”, que
passaria a ser conhecido para a história como o Libro de Montalvo[2]. Por isso, também
um compromisso não significa, obrigatoriamente, um tomo.
Talvez neste momento, por reinados, se possa avançar mais um passo nas fases
medievas de dotar o reino de uma compilação de ordenações:

1.ª e 2.ª Fases – D. João I.


3.ª Fase – D. Duarte.
4.ª Fase – D. Afonso V.
5.ª Fase – D. João II
6.ª Fase – D. Manuel I.

Não deixa de ser curioso que, ininterruptamente, todos os monarcas se tenham


preocupado com esta questão e que cada fase corresponda a um reinado, sem descar-
tar a hipótese de que em alguns reinados tenha existido mais do que uma fase (D. João
I e D. Manuel I) e noutros se não tenha concluído (D. Duarte).
Ficam, por ora, estas suposições, nomeadamente, a de o abreviamento ser um
resumo dos títulos das Afonsinas e não um simples repertório ou índice; a de um
compromisso nada ter a ver com um tomo, mas antes se relacionar com outro abreviar
das ordenações; a de estarmos perante mais uma fase medieva da compilação das

1
SOUSA, Provas da História Genealógica, Tomo I, Livro III, doc. 41, p. 275. O itálico é nosso.
2
MARÍA e IZQUIERDO, Las fuentes del Ordenamiento de Montalvo, pp. XII-XIV.

192
José Domingues

ordenações lusas; e, sobretudo, caminhos para futuras investigações. Um aspecto


de extrema importância, que extravasa este trabalho, seria apurar, não só o lugar de
Lourenço da Fonseca entre os redactores das Manuelinas[1], mas, fundamentalmente, a
influência – que de certeza teve[2] – da sua obra nas subsequentes Manuelinas.
De qualquer forma, quer se trate de um reportório ou resumo, entre as plausíveis
referências documentais dúbias, há duas que me chamaram a atenção. No regimento
de 30 de Dezembro de 1495 (Montemor-o-Novo) ao desembargador da alçada da
comarca da Beira ficou registado o seguinte item: “vos mandamos que levees da nosa
Chancelaria o trelado e artigos de todallas ordenaçõoees que ora novamente fezemos he as
farees logo pobrricar em todollos lugares da dita comarqua e terras e asy farees em
todos poer emxucuçam como em ellas se contem”[3]. A que ordenações recentes se
refere este regimento?
Outra referência assoma num dos capítulos das Cortes de Lisboa de 1498 (cap.º
16º), quando se solicita a entrega aos corregedores e juízes os livros de ordenações com
suas adições[4]. João Alves Dias relaciona estas adições com os acrescentos posteriores à
colectânea[5]. Mas as adições não poderão ser identificadas com o trabalho de Lourenço
da Fonseca?

1
SILVA, “Sobre o Abreviamento dos Cinco Livros das Ordenações”, p. 18: “em vez de se dizer que Lourenço
da Fonseca não trabalhou nas Ordenações Manuelinas, talvez seja mais prudente afirmar-se que não se conhece prova
da sua participação no labor da compilação”.
2
E no entanto o seu nome nunca foi associado às Manuelinas, por isso, não surpreende que também o de
João das Regras o não tenha sido às Afonsinas.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 93, pp. 636-646.
4
Cortes Portugueses: Reinado de D. Manuel I, p. 75.
5
DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, p. XIII.

193
II – Parte
A “Reforma” de Rui Fernandes
A “Reforma” de Rui Fernandes

“Reduzir a arte materias differentissimas, quaes são as Leis, que


em muitos seculos, e em diversas conjuncturas publicarão os
Soberanos de hum Estado, pede hum daquelles genios creado-
res, que apparecem de seculos a seculos”
[José Virissimo ALVARES da SILVA,
Introducção ao Novo Codigo, Lisboa, 1780]

P enso que ficou suficientemente elucidado que o principal artífice da reforma das or-
denações terá sido o Doutor Rui Fernandes, do Desembargo Régio. O cometimento
desta tarefa irá afastá-lo do âmbito burocrático da corte, escasseando o seu nome nos
documentos a partir do ano de 1439[1]. Houve quem suspeitasse desta ausência como
uma tentativa do infante regente eliminar um inimigo político[2], mas este pensamento
está hoje ultrapassado[3]. Convenhamos que seria um tanto desapropriado escolher a
reforma das ordenações do reino – com todas as implicações inerentes, nomeadamente
o acesso a toda a documentação do reino e a faculdade de prescrever quais as norma-
tivas vigentes e as revogadas – para afastar um adversário incómodo. Entre o facto de,
durante e após Alfarrobeira (1448), o jurista se tornar partidário de uma ou outra fac-
ção e o de ter sido confirmado na compilação das ordenações do reino pelo infante D.
Pedro (1438) – no seguimento da nomeação feita por D. Duarte – não me parece existir
qualquer nexo de causalidade. Trata-se de dois acontecimentos desfasados pelo espaço
temporal de uma década e, até prova em contrário, sem qualquer correlação entre si.
O silêncio das fontes escritas ainda menos se estranha ao saber que o mesmo
aconteceu com o homólogo compilador castelhano, Afonso Dias de Montalvo, enquanto
prepara o Ordenamento Real de Castilha, verifica-se um “prolongado silencio de las fuentes
durante el tiempo que duro la realización de la obra”, nas doutas palavras da sua biógrafa[4].
Quer num, quer noutro caso, a tarefa exigia elevada disponibilidade de tempo e inteira
dedicação, por isso, é compreensível que os compiladores tivessem sido dispensados
de outros cargos inerentes.
Quanto à data e local de realização, apesar de no final do livro V constar que foi
terminada a 28 de Julho de 1446 na vila de Arruda, essa data, como vimos, prende-se
antes com a data definitiva da revisão e não propriamente com o fim do trabalho de
Rui Fernandes. Será? Há outra suposição que ainda não vi formulada: a revisão ter
sido em data antecedente e, depois de revista, ter sido ultimada, segundo as emendas

1
HOMEM, Desembargo Régio, 1990, pp. 380-381.
2
ALBUQUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, 2002, p. 52. (1.ª edição 1993).
3
MORENO, A Batalha de Alfarrobeira, 1973.
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 94, nota 287.
4
María José MARÍA e IZQUIERDO, Las fuentes del Ordenamiento de Montalvo, Dykinson, Madrid, 2004, p. XLV.

197
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

da comissão revisora, por Rui Fernandes. Até porque a revisão faz todo sentido se
tenha efectuado em Lisboa, perante o corregedor dessa cidade e os outros dois
membros do desembargo[1]. Em definitivo, não me parece totalmente descabido que,
desde o início, o jurista se tenha refugiado na pacata vila de Arruda, muito próximo
de Lisboa e do arquivo real, para realizar a tarefa; concluída esta, se tenha deslocado
a Lisboa, apresentando o seu projecto à comissão revisora; regressando em seguida
a Arruda para os retoques finais e redacção definitiva, concluída a 28 de Julho de
1446. Abertamente, é esta a cronologia que me parece mais ajustada, ficando, desta
forma, abolida qualquer incoerência entre as palavras de Rui Fernandes e a conclusão
definitiva e vigência da colectânea.
Resta-nos agora “imaginar” como o jurista de Arruda realizou essa obra, tentando
discernir o material usado, os critérios de sistematização, o método de trabalho, os
motivos que o levam a excluir umas leis e incluir outras, as dificuldades vividas, as
pressões sentidas, os erros cometidos, as emendas e imposições da comissão revisora,
etc… Em definitivo, tudo aquilo que esteja relacionado com a maneira como o
compilador trabalhou a sua obra, “ataa que com a graça de Deos a pos em boa perfeiçom”[2],
tentando redescobrir o trilho palmilhado há mais de 600 anos nos meandros das
Ordenações do reino. A jornada torna-se fragosa e, por vezes, impraticável, em parte
devido ao copioso desaparecimento de documentação, mas também ao demérito
do caminheiro-cicerone. Tentando não ceder à adversidade, seguem as conclusões
fundamentadas que me foi possível alcançar.

1. Sistematização Externa.
A Divisão em Cinco Livros
Nas parcas notícias que a literatura cronística nos legou não sobejam dúvidas
de que a reforma das Ordenações foi levada a cabo no reinado de D. Afonso V. Rui de
Pina, na crónica de D. Duarte, é terminante ao afirmar que este monarca (D. Duarte)
era zeloso “nas cousas da Justiça” e tinha mandado corrigir e abreviar as Ordenações do
reino, mas como em seus dias se não acabaram, “ElRey Dom Affonso seu filho as mandou
depois reformar em cinco Livros”[3]. A utilização das palavras não é casual, sendo claro
que se D. Duarte mandou corrigir e abreviar as Ordenações do reino, D. Afonso V as
mandou reformar.
Deve ter sido esta a primeira fonte do escoliasta que deixou a nota manuscrita
sobre as obras de D. Duarte:

“Mandou tambem ordenar, e abreviar, as ordenassoens do Reyno, que em seus


dias não acabou, e veyo a acaballas seu filho Dom Affonso Quinto o qual as mandou
recopillar em 5 volumes, e despois El Rey Dom João Segundo, seu filho, tornou a
mandar abreviar, as Ordenassoens dos cinco livros, em hum Compromisso, quem
por seu mandado as abreviou, foi o Lecenciado Lourenço da Fonseca, que foi
algum tempo seu Corregedor da Corte; ultimamente, ElRey Dom Manoel, pelas
achar comfuzas, mandou aperfeiçoar de todo, na forma, em que estiverão, tê que
ElRey D. Phellippe Primeiro Rey de Portugal as mandou por na forma em que
estão. Estas obras de ElRey Dom Duarte, tirado o Conselheiro, e o livro da Gineta,
estam todas na Livraria da Cartuxa de Evora”[4]

1
Plausivelmente, aproveitando a reunião das cortes de Lisboa, desse ano.
2
Prólogo do Liv. I, p. 3.
3
Ruy de PINA, Chronica do Senhor Rey D. Duarte, cap. VII.
4
António Caetano de SOUSA, Provas da História Genealógica, Tomo I, Livro III, Coimbra, 1947, doc. 41, p. 275.

198
José Domingues

As doutas palavras de Pina e do escoliasta desconhecido são confirmadas pelo


cronista de D. Manuel I, Damião de Góis, que alicerça a revisão manuelina nos “cinco
liuros das ordenações, que el Rei dom Afonso quinto, seu tio fez reformar, sendo regente o
Infante dom Pedro seu tio, por elle ser de menor idade”[1]. Portanto, mais uma vez, o
termo reforma associada ao reinado do Africano.
Por outro lado, ambos os cronistas são concordantes ao aliar a reforma afonsina
com a sistematização em cinco livros[2]. Ou seja, a divisão em cinco livros foi pensada
e concretizada com a reforma empreendida no reinado de D. Afonso V. Só após as
Afonsinas nos aparecem os livros identificados pelo respectivo número, ou seja, até 1446
os documentos falam apenas no livro das ordenações do reino – se bem que devem ter
sido, pelo menos, dois – e a partir dessa data no livro primeiro, segundo… da reforma das
ordenações[3]. Assim se torna cada vez mais clarividente que Rui Fernandes tenha sido o
mesteiral dos cinco livros, já que é o único compilador sobrevivente nesse reinado.
A divisão em cinco livros sugere uma álgida analogia com as Decretais de Gregório
IX. Apesar de ainda não ter aparecido qualquer comprovação documental definitiva,
não me parece difícil de acreditar que, em pleno século XV, um Doutor em Direito
tenha bebido essa informação na colectânea de Direito Canónico que mais marcou
a Baixa Idade Média, fazia parte das principais bibliotecas portuguesas da época e
estava traduzida em vernáculo[4].
Esta analogia com as Decretais já vem de muito longe. A sugestão parece ter-
se iniciado com José Anastácio de Figueiredo: “Dividirão pois as ditas Ordenações ou
Codigo em sinco Livros, seguindo provavelmente o exemplo de S. Raymundo de Penafort na
Compilação das Decretaes de Gregorio IX, e dos mais Compiladores, que se lhe seguirão, ainda
que não foi assim na disposição das materias”[5]. E aceite por quantos o sucederam, desde o
prefaciador da edição das Ordenações Afonsinas de 1792[6], o coetâneo Ricardo Raimundo
Nogueira[7], até à actualidade[8].
A estar correcta esta inferência secular, as Decretais de Gregório IX são das
primeiras obras a marcar o pensamento do Doutor Rui Fernandes. Muitas outras se lhe
seguiram, com certeza, não só no âmbito do direito canónico como também do direito
romano[9] e comum, e até do direito muçulmano[10]. De qualquer forma, qualquer um

1
Damião de GÓIS, Crónica de D. Manuel, 4ª parte, capítulo 86, p. 603.
2
Até aí existiriam apenas dois livros: um com as leis até ao reinado de D. Afonso IV e o outro desse reinado
em diante.
3
Só a título de exemplo, a certidão de 1447 identifica os livros primeiro e terceiro da reforma das ordenações que
andam na nossa Chancelaria.
4
As Decretais de Gregório IX já em 1359 se achavam traduzidas para Português [João Pedro RIBEIRO, “Qual
seja a Época da introdução do Direito das Decretaes em Portugal, e o influxo que o mesmo teve na Legis-
lação Portugueza”, Memorias de Litteratura Portugueza publicadas pela Academia Real das Sciencias de Lisboa,
Tomo VI, Lisboa, na Typografia da mesma Academia, 1796, pp. 12-13]. Em 1510, na igreja de Santa Maria
do olival, em Tomar, existiam “Huuas degretaaes em linguagem, de letera de pena, em porgaminho, bem
encadernadas e em grande volume” [Isaias da Rosa PEREIRA, “Achegas para a História da Cultura Jurídica
em Portugal”, Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol. 58, Coimbra, 1982, p. 521].
5
José Anastácio de FIGUEIREDO, Synopsis Chronologica de subsidios ainda os mais raros para a historia e estudo
critico da legislação portugueza, Academia Real das Sciencias de Lisboa, Tomo I, Lisboa, 1790, p. 43.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Prefação, p. VI.
7
Ricardo Raymundo NOGUEIRA, Prelecções sobre a Historia de Direito Patrio feitas ao curso do quinto anno juri-
dico da Universidade de Coimbra no anno de 1795 a 1796, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1866, p. 111.
8
Nomeadamente, CAETANO, História do Direito, p. 540; SILVA, História do Direito, p. 273; DUARTE, Justiça
e Criminalidade, p. 118. DIAS, Introdução às Ordenações Manuelinas, Lisboa, 2002, p. VIII.
9
Por exemplo, a divisão em livros, títulos e leis é a habitualmente utilizada nas colecções romanas.
10
Cfr. CAETANO, História do Direito, p. 545.

199
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

desses ramos do direito está arredado da extensão deste trabalho e a influência das
Partidas de Castela já ficou relactivamente consignada na primeira parte[1]. Tentarei
apenas, na medida do possível, apurar a matéria-prima relacionada com o ius proprium
do reino, ou seja, as fontes nacionais sobre as quais trabalhou o compilador. Por
outras palavras, seguindo uma tipologia há muito sugerida[2], este trabalho confina‑se
às principais fontes internas das Afonsinas: as leis gerais, os capítulos de cortes, as
concórdias e concordatas[3]. Porque outras fontes internas, embora em menor escala,
foram compulsadas pelo legislador das Ordenações, como por exemplo, as inquirições
de D. Dinis[4], os forais e costumes[5], o foral dos mouros forros[6], os acordos de paz com
o reino vizinho[7], etc.

As Fontes Jurídicas Relevantes


Nunca será de mais vincar que não se tratava de criar direito novo, nem sequer,
como já ficou demonstrado, compilar pela primeira vez. As Afonsinas – obra de
compilação ou recompilação?[8] – traduzem, para uso da expressão coetânea, a
reforma das ordenações do reino[9]. Não estranha, por isso, que as obras de suporte de
toda a tarefa de Rui Fernandes sejam, antes de mais, os livros das ordenações do
reino, antecipadamente feitos. Já ficaram registadas todas as ocorrências, que me foi
possível desempoeirar, a propósito dos Livros de Ordenações e dos Livros da Reforma das
Ordenações. Importa apenas sublinhar que a designação daqueles desaparece com o
advento destes – o que me parece sintomático da vigência de ambos e, consequente,
revogação de uns pelos outros.
A verdade é que Rui Fernandes se serve, muitas vezes, do “livro da nossa
chancelaria” onde constavam ordenações do reino, mas nada garante que fossem livros
só de ordenações. Poderiam ser meros livros de chancelaria, onde, desde sempre, se
registavam diplomas legais ao lado de outros distintos. Marcello Caetano advoga que
o compilador afonsino “utilizou largamente os acervos do Livro das Leis e Posturas e das
Ordenações de D. Duarte”, mas, por outro lado, entende que as leis posteriores a D.
Afonso IV foram “recolhidas dos livros da Chancelaria Régia, onde era praxe registá-las”[10].

1
Só é estranho que não surja qualquer indício em relação ao Foro Real.
2
José Hilário Brito COREIA, Estudos Histórico-Jurídicos de Montemor-o-Novo, Coimbra, Imprensa Litteraria,
1873, p. 105 (edição fac símile, Coimbra Editora, 2001).
3
Cfr. CAETANO, História do Direito, pp. 542-547.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 65.
5
Cfr. COREIA, Estudos Histórico-Jurídicos de Montemor-o-Novo, p. 105.
6
Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 99.
7
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 47, § 16.
8
Para a distinção entre “compilação” e “recompilação” veja-se a síntese e autores citados em MARÍA e IZ-
QUIERDO, Las fuentes del Ordenamiento de Montalvo, p. XLI. Nomeadamente, o parecer de Sánchez-Arcilla,
para o qual as compilações implicam, num primeiro estádio do processo de reunião do direito vigente num território,
o agrupar das normas conservando os textos originários na íntegra, com o critério cronológico como único critério
de compilação. Um segundo passo seria distribuir sistematicamente as normas em títulos e livros, mas conservando,
todavia, o texto íntegro das mesmas e colocando-as cronologicamente dentro de cada título. A recompilação implica um
passo mais além neste processo. Já não se trata de recolher as disposições na íntegra, o recompilador leva a cabo um esfor-
ço maior, eliminando as leis supérfluas ou derrogadas, seleccionando apenas a parte dispositiva dos textos, refundindo
as leis que tratam do mesmo tema e aclarando, se preciso, o conteúdo das mesmas. Perante isto, as Afonsinas seriam,
basicamente, uma obra de compilação no segundo passo, mas o livro I não será antes de recompilação?
9
Por isso, “valeram mais como precedente codificatório de que como factor real, dinâmico”, no dizer de ALBU-
QUERQUE, “O Infante D. Pedro e as Ordenações Afonsinas”, p. 49.
10
CAETANO, História do Direito, p. 542.

200
José Domingues

Esta bifurcação deixa de ter sentido se recordarmos que, conforme ficou atestado,
também existiram livros de ordenações para os reinados posteriores ao de Afonso IV.
De qualquer forma, o mais seguro e sensato é acreditar que se serviu de ambos,
sobretudo quando faltava o registo em algum deles. Pena é que os registos dos livros
da chancelaria que chegaram aos nossos dias não permitam qualquer ilação segura,
em grande parte, devido à reforma levada a cabo por Gomes Eanes de Zurara. Em
pormenor, são estas algumas das circunstâncias em que o compilador refere os livros
da chancelaria:

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huã Ley feita per ElRey Dom
Pedro”. [sd/sl] – que os clérigos hajam servidores.
[O A – Liv. II, Tít. 10]

• “forom achadas no nosso Livro da Chancellaria estas Hordenaçõoes


principalmente feitas acerca dello per ElRey Dom Donis”. 1311, Junho, 15
[Coimbra] – proíbe aos clérigos, ordens, mosteiros, fidalgos e cavaleiros,
que não possam comprar ou adquirir bens nos reguengos de el-rei[1].
[O A – Liv. II, Tít. 13]

• “Nos Livros da nossa Chancellaria foi achada huã Hordenaçom”. 1286,


Julho, 10 [Lisboa] – Ordenação de D. Dinis para que os clérigos e ordens
não comprem bens de raiz sem mandado régio.
[O A – Liv. II, Tít. 14]

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huã Ley feita per ElRey Dom
Joham”. [sd/sl] – Dos fidalgos que apropriam a si os mosteiros e igrejas
dizendo que hão em elas pousadias e comedorias.
[O A – Liv. II, Tít. 17]

• “No Livro da Chancellaria d’ElRey Dom Joham meu Avoo de gloriosa


memoria foi achada huã Ley”. 1401, Dezembro, 28 [Lisboa] – Das
barregãs dos clérigos.
[O A – Liv. II, Tít. 22]

• “No Livro da Nossa Chancellaria foi achada huã Ley, que o muito virtuoso
Rey Dom Eduarte...” 1436/37, Julho, 19/20 [Sintra] – Que os besteiros
paguem jugada em todo lugar onde não forem escusados pelo foral.
[O A – Liv. II, Tít. 35]

• “Achamos no Livro da Nossa Chancellaria, que ElRey Dom Affonso o


Terceiro em seu tempo fez Ley”.
[O A – Liv. II, Tít. 42]

• “Achamos no Livro da Nossa Chancellaria, que fazendo ElRey Dom


Affonso o Quarto Cortes”. 1331 – capítulos das cortes de Santarém.
[O A – Liv. II, Tít. 55]

• “No Livro da Nossa Chancellaria foi achada huã Ley, que ElRey meu Senhor,
e Padre de gloriosa memoria em seendo Iffante fez”. [sd/sl] – Que os
judeus não arrendem igrejas, nem mosteiros, nem as rendas deles
[O A – Liv. II, Tít. 68]

1
IAN/TT – Chancelaria de D. Dinis, Liv. 3, fl. 76.

201
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

• “No Livro de nossa Chancellaria foi achada huã Ley, que ElRey Dom
Joham”. [sd/sl] – Que os judeus não sejam presos por dizerem contra
eles que se tornaram cristãos em Castela, salvo sendo deles querelado.
[O A – Liv. II, Tít. 77]

• “Na Nossa Chancellaria foi achada huã Ley feita per ElRey Dom Joham”.
1412, Fevereiro, 12 [Lisboa/Braga] – Das penas a aplicar aos judeus se
forem achados fora da judiaria depois do sino da oração.
[O A – Liv. II, Tít. 80]

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huã Ley d’ElRey Dom Joham”.
1417, Maio, 07 [Lisboa] – Que os judeus não sejam presos por dizerem
contra eles que fizeram moeda falsa ou compraram ouro ou prata, salvo
sendo primeiro deles querelado.
[O A – Liv. II, Tít. 82]

• “E achamos no Livro da nossa Chancellaria, que depois ElRey meu Senhor,


e Padre de gloriosa memoria em seendo Iffante fez outra Ley”. [sd/sl]
– Que os judeus não sejam oficiais de el-rei, nem dos infantes, nem de
quaisquer outros senhores.
[O A – Liv. II, Tít. 85, § 2]

• “No Livro da nossa chancelaria foi achada huã ley feita por ElRey Dom Joham”.
1391, Fevereiro, 20 [cortes Évora] – Que os judeus tragam sinais vermelhos.
[O A – Liv. II, Tít. 86]

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huã Ley d’ElRey Dom Affonso
o Quarto”. [sd/sl] – Que as pagas e entregas feitas pelos cristãos e judeus
se possam fazer sem presença do juiz.
[O A – Liv. II, Tít. 98]

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huã Ley, per que ElRey Dom
Eduarte … em seendo Iffante”. [sd/sl] – Que os mouros não gozem nem
usem do benefício da lei de avoenga.
[O A – Liv. II, Tít. 109]

• “Nos Livros da Nossa Chancellaria forão achados certos artiguos”.


[O A – Liv. III, Tít. 15]

• “e he Artiguo (...) que he escripto no Livro Grande das Leys”. Cita-se aí um


artigo de cortes realizadas na regência do infante D. Pedro.
[O A – Liv. III, Tít. 15, § 13]

• “Artiguo escripto no Livro das Leys do Reino, que está na Caza do Civel”.
[O A – Liv. III, Tít. 15, § 27]

• “Artiguo escrito no Livro das Leys, que está na Casa do Civel”.


[O A – Liv. III, Tít. 15, § 29]

• “Esto he Artigo escripto no Livro das Lex do Regno, que está na Casa do Cível”.
[O A – Liv. III, Tít. 15, § 30]

• “Achamos no Livro da nossa Chancellaria huuma Ley feita per ElRey Dom
Diniz”. 1280, Agosto, 08 [Lisboa] – Da jurisdição régia sobre clérigos
casados.
[O A – Liv. III, Tít. 15, § 52]

202
José Domingues

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada huuã Ley d’ElRey Dom Affonso
o Quarto”. (cap. dos fidalgos às cortes de Santarém de 1331).
[O A – Liv. III, Tít. 51]

• “Costume … que foi escripto no nosso Livro da Chancellaria em tempo


d’ElRey Dom Affonso Terceiro”.
[O A – Liv. IV, Tít. 13]

• “No Livro da nossa Chancellaria foi achada uma Ley em esta forma que se
segue”. [sd/sl] – D. Afonso IV (?).
[O A – Liv. IV, Tít. 32]

Nos casos supra, a designação “livro da nossa chancelaria” é demasiado ambígua


para qualquer ilação decisiva. E, à excepção das manifestas referências aos livros de
ordenações, que constam no título 15 do livro III, ainda não é possível identificar com
precisão o padrão em causa. Repare-se que mesmo em documento de 20 de Março
de 1461 (muito depois da conclusão das Afonsinas) dirigido ao contador-mor, Paio
Rodrigues de Araújo, sobre a pensão a pagar pelos tabeliães gerais, ficou registado
que “no livro segundo da nosa Chancelaria nos achamos huã ley fecta per El Rey Dom
Joham meu avoo cuja alma Deus aja e confirmada per nos”. Coligido e publicado na
dissertação de Doutoramento de Miguel Duarte[1], este entende que “o rei ‘encontrou’
a velha ordenação de D. João I no 2.º Livro da Chancelaria (e não nas Ordenações)”[2]. Não se
entende muito bem este parecer – a não ser o de, mais uma vez, acanhar a aplicabilidade
das Afonsinas – uma vez que esta normativa de D. João I, confirmada por D. Afonso
V, até à data, apenas é conhecida pelo título 34 do livro II das Ordenações Afonsinas.
Podemos considerar dúbia a referência ao livro da Chancelaria, mas a referência expressa
ao livro segundo não deixa margem para outra identificação.
As várias referências às “Hordenaçõoes antiiguas” ou às “Hordenações antigas do Reg-
no” podem ser mais um sustentáculo da evocação dessas colectâneas anteriores, refor-
çando a sua assídua utilização pelo compilador:

• “e porque na Ordenaçom antigua he conteudo, que…”


[Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 5, § 8, p. 42]

• “como se contem nas Hordenaçõoes antiiguas.”


[Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 39, iníc., p. 228]

• “que lhes eram tausadas nas Hordenações ante feitas…”


[Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 45, iníc., p. 250]

• “Segundo achamos per as Hordenações antigas, e vimos per geral


usança em estes Regnos, as Citações se acostumarão fazer em quatro
modos…”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 1, p. 2]

• “Segundo achamos per as Hordenações antigas do Regno, e d’antiguamente


feitas…”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 4, p. 15]

1
DUARTE, Justiça e Criminalidade, doc. 16, pp. 579-580.
2
Idem, p. 188.

203
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

• “…porque segundo as Hordenaçoens antigas, achamos que os feitos das


almotaçarias…”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 4, § 5, p. 17]

• “…porque achãmos polas Ordenações antiguas, que assy foi dantiguamente


hordenado polos Reyx, que ante Nós forão, e usado até o presente.”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 4, § 6, pp. 18-19]

• “E esto senão deve entender no Órfão, Viuva, e pessoa miseravel, porque


a estes he polas Ordenaçoens antiguas outorguado Privilegio, que…”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 5, § 1, p. 20]

• “E estes modos de contestar achamos declarados per as Hordenaçõees


Antiguas.”
[Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 57, § 1, p. 190]

• “…segundo as Hordenaçõoes do Regno sobre ello feitas…”


[Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 25, § 2, p. 115]

Mas, há falta de outras referências objectivas e consistentes, a fundamentação de


que Fernandes se tenha servido dos antecedentes livros de ordenações do reino, passa,
necessariamente, pelo desbravar de outros indícios comprovativos, nomeadamente o
cotejo com alguns textos do Livro das Leis e Posturas e Ordenações de D. Duarte, reminiscências
desse trabalho anteriormente feito. A este propósito, Espinosa da Silva adianta:

“A matéria é árdua e requer uma análise demorada, que ainda não se fez. Mas,
efectivamente, as dificuldades são grandes. A coincidência que possa existir entre
textos das Leis e Posturas, Ordenações de D. Duarte e Ordenações Afonsinas, não
prova, só por si, como é evidente, que aquelas duas primeiras colecções tenham
constituído trabalhos preparatórios; do mesmo modo, possíveis diferenças que se
apontem, também não provam, em si mesmas, que as mencionadas colecções não
tenham sido trabalhos preparatórios: poderão, sim, provar que os compiladores das
Afonsinas utilizaram, igualmente, outras fontes”[1].

Este investigador comparou a data das duas leis de Afonso IV sobre a vindicta
dos fidalgos – título 53 do livro V das Afonsinas – com as respectivas congéneres das
Leis e Posturas e Ordenações de D. Duarte, chegando à conclusão (apresentada como
simples hipótese, não suficientemente fundamentada) de que “a análise deste caso isolado
sugere hipóteses um tanto ou quanto perturbadoras da comum opinião, já que parece que
nem o redactor das Ordenações de D. Duarte, nem o compilador das Ordenações Afonsinas
conheceram o texto do Livro das Leis e Posturas”[2].
Confrontado com a questão, Miguel Duarte comunga das teses de Espinosa,
perseverando como possível que os redactores/compiladores das Afonsinas tenham
recorrido a esta recolha de textos e advertindo que “é pouco seguro estabelecer genealogias
de colecções pelo facto de encontrarmos, na mais tardia, muitas leis incluídas na mais antiga”,
não deixando de, em nota de rodapé, referir o exercício de Espinosa[3].
Carvalho Homem envereda pelo mesmo trilho, a propósito do Livro das Leis
e Posturas escreve: “no estado actual de conhecimentos, já não se crê – como era ideia de

1
Nuno Espinosa Gomes da SILVA, Prefácio ao Livro das Leis e Posturas, Lisboa, 1971, pp. XI-XII.
2
Idem, p. XIII. O itálico é nosso.
3
DUARTE, Justiça e Criminalidade, p. 112.

204
José Domingues

João Pedro Ribeiro (1758-1839) – que se trataria de um trabalho preliminar às Ordenações


Afonsinas; pelo contrário, pensa-se mesmo que esta primeira recolha não chegou a constituir
fonte para os organizadores da codificação quatrocentista”. E, ao tratar as Ordenações de D.
Duarte, completa: “No estado actual de conhecimentos, dir-se-á que é pouco provável que os
organizadores das Ordenações del-Rei D. Duarte tenham utilizado (ou mesmo conhecido) o Livro
das Leis e Posturas. Mas já não se duvida – até pelo próprio protagonismo de D. Duarte – que esta
colecção que ostenta o seu nome se insere claramente no processo que conduziu às Ordenações
Afonsinas, constituindo «testemunho importante e singular» da sua preparação”[1].
Recorde-se que (ao contrário do que penso e ficou explanado ao tratar das
colectâneas anteriores às Afonsinas) se questionava o usual entendimento, à data, de
que estes códices eram meros trabalhos preparatórios das Afonsinas. De qualquer forma,
no aspecto que agora nos ocupa, é indiferente tratarem-se de trabalhos preparatórios
ou trabalhos oficiais que precisavam de ser reformados. O que está em causa é a sua
utilização, ou não, por Fernandes para a reforma que tinha em mãos.
Já agora, a propósito de datas, a lei que proíbe que se tire para fora do reino ouro,
prata, cavalos, armas e outras coisa, sem licença régia, aparece com a mesma data
nas Ordenações Afonsinas e nas Ordenações de D. Duarte (13 de Dezembro de 1347). No
entanto, é radicalmente diferente no registo da chancelaria (16 de Dezembro de 1341),
que deve ser o correcto, uma vez que esta lei se encontra inserida entre os diplomas de
1341, estando nesta data o monarca em Coimbra. No códice do Porto, esta lei é atribuída
a D. João I, com era de 1385 (ano 1347), 13 de Dezembro. No códice de Santarém já vem
atribuída a D. Afonso IV, com a era de 1365 (1327). Não deixa de ser curioso que, no
último códice, o ano e dia coincidam com os de outra lei deste monarca sobre o mesmo
assunto (lei de 13 de Março de 1327).
Antes de mais, será que Miguel Duarte está correcto ao afirmar, categoricamente,
que é com algum cepticismo que encara a possibilidade de se estabelecer filiações directas com
base na crítica textual? E, como resume Carvalho Homem, será que os organizadores
das Ordenações de D. Duarte e das Ordenações Afonsinas não utilizaram nem sequer
conheceram o Livro das Leis e Posturas? Não se trata de estabelecer uma filiação directa,
mas tão só apurar o uso (ou não) que, de alguma forma, o compilador imediato deu à
recolha anterior de textos de leis. Realmente, nada obsta e até é lógico que se repitam
leis em dois ou mais códices espaçados no tempo, sem que daí se possa concluir
qualquer vínculo entre eles. Isto quando se trata de simples transcrições. E quando há
alteração da redacção original? Quando o compilador deixa o seu cunho individual, o
que acontece? A resposta será a mesma?
Não me parece. O meu entendimento é que a síntese de alguns originais, que
podem ser confrontados, não consente tanta imperatividade e certeza, senão vejamos.
Ao cotejar alguns títulos das Ordenações Afonsinas, em que a lei aparece resumida,
com os correspondentes do Livro das Leis e Posturas e das Ordenações de D. Duarte, torna-
se manifesto que existe uma inegável conexão entre eles. Analisemos alguns casos
em concreto, transcrevendo o texto das Afonsinas, com as variantes notórias e dignas
de registo dos outros códices, sem especificar meras actualizações de vocábulos ou
ortografia e pontuação. Entre […] ficam os textos que ficaram omitidos nas Afonsinas
e constam na fonte; entre (…) os acrescentos das Afonsinas, que não constam na fonte;
e entre *…* o texto alterado pela redacção das Afonsinas. Serão estes os critérios que
seguirei sempre que, daqui em diante, se transcreverem e cotejarem textos.

1
HOMEM, “Estado Moderno e Legislação régia”, p. 119.

205
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

1295, Março, 04 [Lisboa] – Que a mulher com menos de 25 anos que


casa, ou faz maldade de seu corpo, sem mandado de seu pai, seja
deserdada.
[Livro das Leis e Posturas, p. 165]
[Ordenações de D. Duarte, p. 185]

“O muito nobre Rey Dom Diniz com conselho da sua Corte estabeleceo
[E pos por ley][1] pera todo o sempre, que se [allguum homem ou molher
teuer][2] *filha alguma*[3] se casar, ou sair *sem*[4] mandado de seu padre,
ou de sua Madre, [fazendo malldade de seu corpo][5] ante que aja *vinte
cinco*[6] annos, que seja exherdada de seus bees: e postoque o Padre, ou
Madre a queiram herdar, nom possam. *Feita em Santarem primeiro dia
de Setembro. Era de mil e trezentos e trinta e nove annos*[7]”.
[OA, Liv. IV, Tít. 99, § 1]

1301[8], Setembro, 01 [Lisboa] - lei para que os porteiros e mordomos não


fossem negligentes na cobrança dos dinheiros e dívidas de el-rei.
[Livro das Leis e Posturas, pp. 195-196]
[Ordenações de D. Duarte, p. 186]

“Era de mil *trezentos trinta e quatro*[9] annos, primeiro dia de Setembro, em


Lisboa, mandou ElRey dom Deniz, que em todalas Cartas *das Portarias*[10],
tambem de Arcebispos, como de Bispos, e Cabidos, como de Ordens, como
em todalas outras pozessem, que nam perdessem os Mordomos, nem os
Porteiros seu Direito”.
[OA, Liv. III, Tít. 96]

1302, Abril, 24 [Santarém] – Dos que pedem que lhes revejam os feitos e
sentenças régias pague 500 soldos.
[Livro das Leis e Posturas, pp. 136-137 (com data de 1307, Abril, 24)]
[Ordenações de D. Duarte, p. 211 (com data de 1307, Abril, 23)]

1
Nas ODD.
2
Nas ODD.
3
“E esa filha”, nas ODD.
4
“de”, nas ODD.
5
Nas ODD.
6
“xxb”, nas ODD.
7
“Era de mil trezentos E trinta e tres anos quatro dias de Março na Cidade de lixboa”, nas ODD. Esta data
consta no início do resumo. Para além disso, o desacerto de data (dia, mês e ano) e do local, levam-me a
pensar que a data das Afonsinas seja uma data, bastante posterior, de eventual publicação.
8
“O.A., III, 96. No texto a era é de 1334 (1296), mas em nota indica-se a variante de 1340 (1302), que deve ser
a data certa, porque em 1 de Setembro de 1296 o rei não estava em Lisboa, mas aí se encontrava em 1302”,
infere Marcello CAETANO, História do Direito, p. 339, nota 2. Mas o ano correcto será o de 1301, conforme
consta no LLP e nas ODD. Ou seja, era de mil trezentos e “XXXIX”, que num códice das Afonsinas se errou
para “XXXIV” (1334) e no outro para “XXXX.” (1340).
9
“iijc xxxix”, nas ODD.
10
“dos Porteiros”, nas ODD.

206
José Domingues

“Era de mil trezentos e quarenta annos [e v][1], *vinte e quatro*[2] dias de


Abril, em Santarem. ElRey [dom denis][3] mandou com Conselho da sua
Corte, que todalas Sentenças, que forem dadas per o Sobre-Juiz, ou per
alguum Ouvidor, quer sejam interlucutorias, quer definitivas, e por (os
Ouvidores da sua Corte forem confirmadas; ou as Sentenças, que)[4] os
Ouvidores de sa Corte derem, e forem confirmadas por os Ouvidores da
Sopricaçam; (e das Sentenças, que os Sobre-Juizes, ou Ouvidores derem,)[5]
e dellas nom for per nenhuma das partes apelado; que [aquel ou][6] aquelles,
que contra ellas vierem, e pedirem *Juiz*[7], ou perante algum Juiz vierem
per *querellas*[8] revogar, que peitem a ElRey quinhentos Soldos, e o dano,
e perda [que fezer][9] aa parte, e nom seerem mais ouvidos, e as Sentenças
serem firmes: salvo se as Sentenças forem dadas per [falsas testemunhas
ou per falsos testemunhos ou per][10] falsas Cartas, (ou per outra maneira
que a Sentença seja nenhuma.)[11] E se alguuma das partes tever Voguado,
ou Procurador, e esse Procurador, ou Voguado veer perante o Sobre-Juiz,
ou perante os Ouvidores, pera *querer*[12] revoguar as Sentenças, que
assy forem [dadas e][13] confirmadas, que peite a sobredita pena, *e a parte
nam*[14]: (salvo vendo ElRey primeiramente todo o feito, ou o mandar ver,
e achar, que ha em elle tal erro, que se deva correger, entam mande que se
corregua.)[15] [E eu ffrancisco ffernandez esto screuy e traladei][16]”
[O A – Liv. III, Tít. 108, § 3]

1302, Setembro, 18 [Lisboa] – Das penas para aquele que matar ou ferir
outrem onde o Rei estiver, ou uma légua em redor.
[Livro das Leis e Posturas, p. 81 (sem data)]
[Ordenações de D. Duarte, p. 186 (com data de Setembro, 17)]

“Era de mil e trezentos e quarenta annos, *dezoito*[17] dias de Setembro,


em Lixboa: o mui nobre Senhor Dom Donis *per graça de Deos Rey de
Purtugal, e do Algarve*[18] com Conselho de sua Corte estabeleceo, e pose
por Ley pera todo sempre, que todo aquel, que homem matar, hu ElRey

1
No LLP.
2
“xxiij”, nas ODD.
3
Nas ODD.
4
Falta nas ODD.
5
Falta no LLP, consta nas ODD.
6
No LLP
7
“en Juyzo”, no LLP
8
“quere-lla”, nas ODD
9
No LLP
10
No LLP. “per fallsos testemunhos ou per fallsos stormentos”, nas ODD.
11
Falta no LLP
12
“querelas” no LLP
13
No LLP
14
“aa parte” no LLP
15
Falta no LLP
16
Falta nas OA, consta no LLP. Nas ODD: “E eu françisco fernandez d’estremoz esto Scpriuy”.
17
“xvij”, nas ODD.
18
“E cetera”, nas ODD.

207
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

*estever*[1], ou huã legoa arredor, ou sacar cuitello, ou espada, ou outra


arma qualquer contra *alguem*[2], e nom ferir com ella, que lhe cortem o
dedo polegar, e deitem-no de (toda)[3] sua terra fora pera todo o sempre: e
se ferir, cortem-lhe a maaõ, e deitem-no fora da terra pera [todo][4]sempre:
e se matar, que moira porem; e que nenhuum dos que estas cousas fezerem
nom se possa escusar de seu inmigo”
[OA, Liv. V, Tít. 33, § 1]

1304,Fevereiro, 21 [Santarém] - Que ninguém vá contra o que foi


absolvido por sentença do rei ou seus ouvidores.
[Livro das Leis e Posturas, pp. 91 e 207-208]
[Ordenações de D. Duarte, p. 201]

“Porque de razom e direito he, que toda sentença, maiormente a d’ElRey, determine
compridamente aquella demanda, por que he dada a sentença, em qualquer
maneira que o ElRey, ou os Ouvidores [da sua Corte][5] julguem, porende ElRey
Dom Donis avudo Conselho com sa Corte [estabelleçeo E][6] mandou, que se
algum homem d’aqui em diante for per sentença quite e livre da justiça per ElRey,
ou pelos Ouvidores de sa Corte em qualquer caso de morte, que d’ali em diante,
pois per sentença he livre, nenhum outro nom seja theudo de lho acooimar. E per
esta Ley nom som revogados os boõs custumes, que som antre os Filhos d’algo,
nem as Leix e posturas, que antre elles forom postas pelos Reis ante desta Ley; e o
que contra esto passar, morrerá porem. Feita em Santarem a vinte e hum dias de
Fevereiro. Joham Martins a fez. Era de mil e *trezentos vinte e dous annos* [7]”
[OA, Liv. V, Tít. 101]

1302(?) – Pena de morte para quem jogar com dados falsos.


[Ordenações de D. Duarte, p. 177]

“Dom Donis, &c. Estabelleceo e pôse por Ley pera todo sempre, que todo
aquelle, *que armasse*[8], ou fizesse jugar alguum jogo falso, ou em jogo
metesse alguuns dados falsos, ou chumbados, que moira porem. ElRey
ho mandou. Pero de Moõforte a fez. Era de *mil e trezentos e quatro
annos*[9]”
[OA, Liv. V, Tít. 40]

1313, Agosto, 09 [Lisboa] – Das penas para os que encobrem malfeitores


ou os acolhem em suas casas.
[Livro das Leis e Posturas, p. 80 (com data de 1311)]
[Ordenações de D. Duarte, p. 284]

1
“for”, nas ODD.
2
“outrem”, nas ODD.
3
Falta nas ODD.
4
Nas ODD.
5
Nas ODD.
6
Nas ODD.
7
“iijc xLij” – nas ODD.
8
“iunJairo que outro marcasse”, nas ODD.
9
“13”, nas ODD.

208
José Domingues

“Era de mil e trezentos cinquoenta e hum annos, nove dias d’Agosto, em Lixboa,
o mui nobre e mui alto (Rey)[1] Dom Donis pela graça de Deos Rey de Portugal, e
do Algarve, com Conselho de sua Corte, veendo e consirando o mal, que se nos
seus Regnos (fazia)[2], e nos seo Senhorio seguia e poderia seguir *ao*[3] diante,
por razom que alguuns colhiam, e encobriam alguuns outros, que queriam matar
alguem, ou lhe fazer outro mal; e querendo esquivar o dapno, que se desto *fazia*[4],
estabeleceo e por Ley pos, que d’aqui em diante nom seja nenhuum tam ousado,
que colha, nem encobra em sa casa(, em Villa, nem Aldeã, nem em casa)[5] de
monte, nem em outro lugar, nenhum homem, que queira matar [outro][6], *ou*[7]
fazer mal no seu Senhorio a outro nenhum. E se per ventura alguuns pousarem, ou
(se)[8] acolherem encobertamente [ou][9] a sabendas em alguma casa, ou nos outros
lugares, o senhor da casa, ou o que em ella morar, deite-os hende logo fora, e faça-o
saber aa justiça (da terra)[10] ante que se o mal faça. E os que o assim nom fezerem, se
*dessas*[11] casas saírem pera matar, ou [pera][12] fazer outro mal, ajam tal pena, qual
merecerem aquel ou aquelles, que o mal fezerem. E como quer que os que o mal
fezerem se possam escusar e deffender, que fezerom direito, nom *se possam*[13]
por ende *escusar da*[14] pena os *de cujas casas saírem*[15]: salvo se aquelles, de
cujas casas saírem, ou os encobrirem, forem taaes pessoas, que ajam (direita)[16]
razom de serem nos feitos com elles”.
[OA, Liv. V, Tít. 100, § 1]

Saliente-se que o compilador deste título, na declaração final, refere expressamen-


te a “Ley d’ElRey Dom Joham meu Avoo”, mas na verdade a lei é de D. Dinis e no título
não existe qualquer lei de D. João I. A explicação pode estar no facto de o resumo ter
sido feito no reinado de D. João I, para organização do respectivo Livro das Ordenações.
Mas o mais marcante é que se conhece a versão original da normativa, a partir dos
Foros de Beja (com data de 11 de Maio de 1315), que se transcreve para confirmativo de
ser impossível que três escribas diferentes a pudessem resumir – e até alterar – em ter-
mos tão semelhantes, como acima especificado, sem que tivessem conhecimento uns
dos outros ou, pelo menos, uma matriz em comum:

“Dom Denys etc. a todolos alcaydes e aluazys alcaldes comendadores juizes mey-
rinos e a todalas outras justiças dos meus reynos saude Sabede que a mjm disseram
por certo que ladrões e malfeitores andam em uossas terras assuandos por bandos

1
Falta nas ODD.
2
Falta nas ODD.
3
“daquy”, nas ODD.
4
“seguia”, nas ODD.
5
Falta nas ODD.
6
Nas ODD.
7
“nem”, nas ODD.
8
Falta nas ODD.
9
Nas ODD.
10
Falta nas ODD.
11
“das suas”, nas ODD
12
Nas ODD.
13
“sejam”, nas ODD.
14
“escusados de”, nas ODD
15
“que os colherem e encubrirem como se os que mal fezerem fezessem direito”, nas ODD.
16
Falta nas ODD.

209
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

per alguos logares e que matam e chagam e teem camynhos e fazem outros muy-
tos maaes e maaos fetos. Item que estes ataaes que estes feitos fazem som naturaes
das terras em que o fazem em atreuimento dos parentes e dos amigos que am que
os teem em seos logares e os encobrem. Item esto tenho eu por muyto estranhado
desse taaes encobertas fazerem na mha terra. Item por que eu tenho por bem e
mando a uos so pena dos corpos e de quanto auedes que uos façades guardar cada
huum de uos en uossos logares e termhos em tal guisa que nem huum non reçeba
mal nem dano per tal razom. Item Ca çertos seede que se o assy alguém reçebes-
se que os uossos corpos e aueres o lazeraram. Item E fazede apregoar cada huum
de uos em uossas uilas e logares que nenhuum non colha nem encobra nenhuns
homeens malfeitores por seos parentes que seiam nem por diuido que com eles
aiam. Item Ca çertos seede que os que o fezerem que farey eu dos seos corpos jus-
tiças bem come desses malfeitores. Item E demais desses come que passam man-
dado de rey e de senhor. E os que poderdes saber que daqui adeante os colherem
ou encobrirem recadadeos e teendeos bem presos e bem guardados para o meu
mandado e enuyademho logo dizer. E por ueer em como sobresto comprides meu
mandado mando a uos tablliões desses logares que registrem esta carta em seos
liuros e que uola leam de xv em xv dias em nos Conçelhos. E de como hy compri-
des meu mandado que mho enuyem dizer so pea dos corpos. Dant em lixboa XI
dias de mayo. E.ª M.ª CCC.ª e çincoenta e tres annos.”
[IAN/TT – Núcleo Antigo n.º458, maço 10, n.º7, fls. 71v-72]

1316, Agosto, 27 [Lisboa] – Que os sobrejuízes e os ouvidores livrem


sem delonga os feitos das apelações.
[Livro das Leis e Posturas, pp. 175-176]
[Ordenações de D. Duarte, p. 301]

“ElRey Dom Diniz com Conselho da sua Corte fez tal Ley, e Manda que
se guarde pera [todo][1] sempre, que quando appellarem da Sentença
Interlucutoria, ou de qualquer que o Juiz mande ante da Sentença Definitiva
nos Feitos Cíveis, que o Juiz vá *recontar*[2] as appellaçoens à Corte loguo no
presente, se poder, quando der a Sentença, ou em outro dia a mais tardar: e
os Ouvidores da Corte ouçam-no, e detreminem-no loguo, quando lhe forem
contar a appellaçam, ou em outro dia a mais tardar, como dito he; e não lhe
atendam mais voguado, nem a parte, se hi loguo vir nom quizer, e segundo
as rezoens, que lhe contar o Juiz, elles julguem o que acharem per Direito.
Pero quando o Juiz contar a appellaçam na Corte, se alguuma das partees,
ou ambas disserem, que disseram mais rezoens, que das que se acorda o
Juiz, e disserem que as querem provar, jurem loguo de malícia esses, que o
disserem, e dês que jurarem dem loguo as testemunhas, por que o provem
perante *os ditos Ouvidores*[3]; pero se essa parte disser, que lhe minguam
alguuãs testemunhas das que hy estiverão, nom lhas atendam, e prove loguo
pollas que quiser dar, e nom lhe atendam outras testemunhas. E eu Estevam
*Esteves*[4] esto escrevi por mandado d’ElRey em Lisboa vinte sette dias
d’Agosto Era de mil tresentos cincoenta e quatro annos.”
[OA, Liv. III, Tít. 72]

1
Nas ODD
2
“contar”, nas ODD.
3
“o Juiz”, nas ODD
4
“martijz”, nas ODD

210
José Domingues

1318, Junho, 05 [Torres Vedras] – Que não seja dado por fiador aquele
que estiver preso por feito crime.
[Ordenações de D. Duarte, p. 211 (com data de 1283, Julho, 05)]

“Manda ElRey per Ruy Muniz, que os Meirinhos, e Juízes, e as outras


Justiças nom soltem nenhum por fiadores, que jaca preso por feito crime,
ataa que saya per seu direito: e que assy o jurassem os Meirinhos, e os Juízes
na Chancellaria. Feito foi esto em Torres Vedras cinquo dias de Junho. Era
de mil e trezentos e cincoenta e seis annos”[1]
[OA, Liv. V, Tít. 51]
[O A – Liv. V, Tít. 51]

Concluindo, a álgida semelhança dos resumos de leis repetidos nas três colecções,
salvo meras actualizações ou erros de transcrição e datação, não deixa outras alter-
nativas que não sejam as de uma fonte comum às três colectâneas ou, então, traslado
sucessivo de umas para outras. Por isso (tornando-se evidente que, no global, não
estamos perante meras cópias ou laços genéticos, antes a fases distintas do trabalho de
compilação e reforma das ordenações do reino) não sobejam dúvidas que existe uma
correlação entre estes três códices e, de forma alguma, se pode afastar o contágio entre
eles. E, mesmo que Rui Fernandes o não tenha deixado expressamente exarado na sua
obra, só por estultice não aproveitaria o trabalho feito. Aliás, assim o conota a incum-
bência de reformar, que lhe foi destinada.
Por outro lado, é mais do que evidente que outras fontes, em maior ou menor
escala, foram compulsadas e aproveitadas pelo jurista de Arruda para a sua obra. Para
fundamentar o protótipo das cartas citatórias que passam pelo corregedor da corte ou outros
oficiais dela recorre ao Espéculo: “E estas formas de Cartas são provadas per o Speculo”[2];
ao declarar a lei das coisas defesas, que não deviam ser tiradas do território do reino,
reforça a sua declaração com o tratado de paz feito com el-rei de Castela[3]; o título
sobre o aluguer das casas foi coligido entre os costumes da cidade de Lisboa[4].
No âmbito dos regimentos, não há dúvida de que o núncio afonsino conhece e
aproveita bem os regimentos dos oficiais concelhios, preparados pelo seu antecessor,
o magistrado João Mendes. Tal como notou Gabriel Pereira, “Os primeiros titulos do
reg. d’Evora encontram-se nas ordenações com mui pequenas variantes”[5]. A nível externo,
duas variantes ressaem de imediato: a disposição dos títulos, que foi alterada, e a
ausência do título do regedor nas Afonsinas. As variantes de conteúdo mais relevantes,
dispensando aquelas que em nada alteram o sentido da lei[6], serão registadas na parte
reservada ao cotejo dos textos deste livro I.

1
O resumo nas ODD: “Dom Dinis E cetera em torres vedras .v. dias de Julho da era de mill iijc xxj anos
auendo o dito Rey conselho com sua corte mandou E pos por ley pera senpre E asy o mandou Scpriuer na
sua chançellaria E povicar per rruy meendez seu ouujdor moor que os meyrinhos nem Juízes nom solten
nem dem por fiadores que Jaçam presos por feitos crimes taa que seJam liures per seu dereito E manda que
asy o Jurasem os Meirinhos e os Juízes na chançellaria”.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 10, § 3, p. 38.
3
Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 47, § 16.
4
Ordenações Afonsinas, Liv. IV, Tít. 73.
5
Gabriel PEREIRA, Documentos Históricos da Cidade de Évora, Primeira parte, Évora, 1885, p. 157.
6
Por exemplo, substituição “de elrey” por “nossos”; troca da posição de palavras, termos no singular ou
plural, tempo dos verbos, etc.

211
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

Outra fonte quotidiana e assídua do nosso legislador foram, com certeza, os


capítulos gerais de cortes, quer em cadernos avulsos ou a partir dos próprios livros
de ordenações. É talvez neste âmbito que se irá verificar a mais acentuada reforma
de Rui Fernandes, quanto à rejeição de preceitos. Comparado com os homólogos
anteriores, Fernandes excluiu imensos capítulos de cortes, que, tudo leva a crer, se
costumavam transcrever na íntegra nos livros de ordenações. Mas esta ilação peca
pela falta dos supostos segundos livros de ordenações, não permitindo um confronto
amplo e directo.
Os capítulos gerais apresentados às cortes de Santarém de 1331 constam no Livro
das Leis e Posturas[1] e também nas Ordenações de D. Duarte[2]; os capítulos gerais das
cortes de Lisboa de 1352 já só aparecem no Livro das Leis e Posturas[3]; e, embora anexadas
posteriormente, os capítulos das cortes de Coimbra de 1385 foram trasladados no final
das Ordenações de D. Duarte[4].
Embora até nós não tenha chegado nenhum sobejo dos livros de ordenações com
a legislação posterior a D. Afonso IV, também nesses códices se coligiram capítulos de
cortes. Algumas referências documentais soltas assim o podem comprovar. Desde logo,
parece que os artigos das cortes de Elvas (1361) constavam no Livro Grande das Leis[5].
A requerimento de Diogo Lourenço, tabelião de Ponte de Lima, foi enviada carta
(26 de Julho de 1430) com três capítulos das Cortes de Santarém de 1430 – sobre os
abusos dos procuradores do reino que exorbitavam nas taxas pela verificação das
contas de execução dos testamentos – trasladados a partir do “Livro das Ordenações da
Chancelaria do Reino”[6]. Um capítulo geral (n.º 19º) das Cortes de Leiria/Santarém de
1433, foi extraído do “lliuro das hordenaçooens da nossa chançellaria”, para a carta de 25 de
Novembro de 1438, passada em Torres Novas. O traslado deste capítulo foi solicitado
pelo procurador da cidade de Viseu, João Gonçalves, porquanto “sse a dita cidade delle
entendia dajudar”[7].
No dia 14 de Novembro de 1410 foram passadas várias cartas, ao concelho
e homens bons da cidade de Lisboa, cada uma com o traslado de um capítulo das
cortes de Lisboa[8], a partir do Livro das Ordenações da Chancelaria. O primeiro capítulo
geral transcrito (cap.º 10º) – seguirei a numeração e ordem cronológica prescrita por
Armindo de Sousa[9] – determina que se castrem somente os rocins que andarem a
pastar[10]; a seguir (cap.º 14º) pretende-se obstar aos abusos dos oficiais das alfândegas[11];
Outro (cap.º 18º) decide sobre o porte de armas[12]; O capítulo 19º regula a forma de
pagamento das multas dos excomungados[13]; no capítulo 20º pedem que o rei faça
cumprir o capítulo das cortes de Évora, de 1408, que isentava do pagamento de lutuosa

1
Livro das Leis e Posturas, pp. 290-319.
2
Ordenações de D. Duarte, pp. 400-433.
3
Livro das Leis e Posturas, pp. 462-478.
4
Ordenações de D. Duarte, pp. 626-639.
5
Ordenações Afonsinas, Liv. III, Tít. 15, § 13, p. 52. Aí se refere o art.º 16º do Clero, dessas cortes.
6
Ponte de Lima, AM – Pergaminho n.º16.
7
Viseu, AD – Maço 27, col. 50.
8
Os trabalhos destas cortes estavam terminados a 16 de Agosto de 1410 [Cfr. SOUSA, Cortes Medievais, vol.
I, p. 333].
9
SOUSA, Cortes Medievais, vol. II, pp. 262-266.
10
Documentos do Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa – Livros de Reis, vol. II, Lisboa, 1958, doc.
27, p. 117.
11
Idem, doc. 28, p. 118.
12
Idem, doc. 26, p. 116.
13
Idem, doc. 22, p. 112.

212
José Domingues

o vassalo que não recebeu as suas “contias”[1]; finalmente, o capítulo 24º prescreve a
presença de um procurador régio às audiências eclesiásticas[2].
Uma constatação iniludível é que, tanto os compiladores antecedentes como Rui
Fernandes, começam a recolha de capítulos nas cortes de Santarém de 1331. Apesar de
haver cortes muito anteriores (desde 1211) e a participação do povo retroceder ao início
do reinado de D. Afonso III, só nas de 1331 se deliberaram, pela primeira vez, capítulos
gerais apresentados pelos concelhos de comum acordo. Por outras palavras, até 1331
cada concelho apresentava as queixas atinentes aos seus problemas, mas a partir desta
data os procuradores dos concelhos reúnem-se e estabelecem as prioridades comuns,
que, por isso, seriam também de todo o reino, passando a resposta do monarca a ter
valor de lei[3].
Não admira, por isso, que a recolha tenha principiado nas cortes desta data (1331).
No entanto, ao contrário dos seus antecessores, Rui Fernandes não copia todos os
capítulos gerais e altera-lhe completamente a disposição, disseminando-os ao longo
dos cinco livros da sua obra. Esta disposição dos capítulos de cortes, por títulos e livros,
vinca a divergência técnica do compilador afonsino: o critério da compilação cronológica
por reinados estava completamente ultrapassado, dando lugar a uma compilação
sistemática em função das matérias versadas. O critério da ratio materiae permite que
se exclua um grande número de capítulos que estão revogados e/ou desactualizados
e se aproveitem apenas os que são relevantes ao tempo da compilação.
Das cortes de Santarém de 1331 são conhecidos 63 capítulos gerais do povo (em
versões enviadas aos concelhos de Santarém, Lisboa, Coimbra[4] e Silves), publicados
na colecção das Cortes Portuguesas[5]. Outra versão foi, posteriormente, publicada nas
Ordenações de D. Duarte[6]. Segundo o cômputo desta última versão os capítulos gerais
ascenderiam a 69, mas este total é traiçoeiro, porque os últimos capítulos são mera
repetição dos capítulos 3º a 8º – a numeração dos capítulos também não é sempre
coincidente[7].
Destas cortes foram aproveitados 21 capítulos para as Afonsinas. Na maioria
dos casos foram, praticamente, transcritos na íntegra, salvo os artigos 32º e 33º, que
aparecem com redacção alterada. Por outro lado é omitida a primeira parte do art.º 8º,
que, curiosamente, nas Ordenações de D. Duarte aparece também como artigo apartado.
Começamos por esta última conjuntura:

Cortes de 1331 (Santarém)[8]:


8ºCapitulo Geral do Povo:
[Item os alcaydes prendem os homeens e leuam nos a prisom ante que os
leuem perante os juizes e o que peior he muytos nom queren soltar nem tra-
ger perante eles, pero lho mandan eses juizes e Alguus soltan sem seu man-

1
Idem, doc. 24, p. 114.
2
Idem, doc. 25, p. 115.
3
Cfr., neste sentido, o art.º 23º das cortes de Lisboa de 1352 e o art.º 12º das cortes de Elvas de 1361.
4
Versão do Livro das Leis e Posturas.
5
Cortes Portuguesas – Reinado de D. Afonso IV (1325-1357), INIC, Lisboa, 1982.
6
Ordenações de D. Duarte, pp. 400-433.
7
O capítulo 8º é dividido em dois, mas imediatamente a seguir repete-se o artigo 10º, continuando a coinci-
dir a numeração (Ordenações de D. Duarte, pp. 403-404); O mesmo sucede com o artigo 38º, que foi dividido
em dois; já os artigos 39º, 40º e 41º foram condensados num só artigo (Ordenações de D. Duarte, pp. 418-419).
A partir daqui a numeração deixa de coincidir.
8
Cortes Portuguesas, Reinado de D. Afonso IV (1325-1357), Lisboa, 1982, pp. 25-52.

213
As Ordenações Afonsinas Sistematização Externa

dado. E esto todo he contra seus foros e contra seus costumes Antigos.
A este Artigoo diz El Rey que ia per el he mandado que os que prenderem
que os leuem logo perante os juizes ou perante Aluazijs ante que os leuem
aa prison se tal hora for que os perante eles possan leuar E manda que per
esta guisa se guarde daqui adeante e se os doutra guisa leuarem aa prjson
nom leuem deles carcerageens.][1] Outrosy se o Alquaide soltar o preso sem
mandado dos juizes, e Algoziis, e se por esto perder justiça, ou corregimento
Alguum; manda, que o Alquaide, ou aquelle que o asi soltar, seja a esto
theudo; e os Alvaziis, ou Juizes da terra o fação logo correger, se for Feito de
corregimento; e se for feito de crime, e nom for Alquaide de Castello, prendam-
no logo, e façam delle Direito e Justiça; e se for Alquaide de Castello, nom o
prendam, mais façam-no logo saber a ElRey, e elle lhes mandará como sobre
esto façam. Outro sy manda, que os Alquaides tragam os presos perante os
Juizes, e os soltem cada que lho elles mandarem; e se o assy nom fezerem, os
Juizes, ou Alvaziis lhes façam correger o mal e perda, que se por esta razom
aos presos seguir, se acharem que o fezerom malliciosamente.
[Ordenações Afonsinas, Liv. V, Tít. 62, § 1]

A exclusão da primeira parte deste artigo deve prender-se com o regimento do


alcaide pequeno, onde já está regulada a imposição aos alcaides para levarem os presos
perante os juízes[2].

32º e 33º Capitulo Geral do Povo:


Item son agrauados de que lhis uendem polas uosas deuidas o seu a meos
preço, e nom o podem depoys demandar ainda que seiam enganados aalen da
meadade do justo preço nem o podem tirar de tanto por tanto.
Item Agrauam se de que filhades en uos as compras quando mandades uen-
der pelas uosas deuidas e outrosy os uosos ofiziaaes ca por esto lhis uendem a
meos preço o que an por que nom quer nem ousa nenhuu hy a deytar depoys
que saben que uos ou eles as queredes auer.
A estes dous Artigoos diz El Rey que nom manda uender nenhuã cousa a
meos preço Mays que se uendam pubricamente e o milhor que poderem nem
er manda el comprar pera sy nem receber en sa deuida senom quando com-
prador nom acharem. E tem por ben que nas cousas que daqui adeante forem
tomadas pera el en quantia das sas deuidas que enquanto as el teuer se aque-
les cuias forom derem aquel preço porque as el recebeo que lhis seiam dadas
e entregues logo. E se as El Rey ia nom teuer e forem en poder d outrem ou se
as outrem conprou de começo e aqueles cuia (sic) forom quiserem poer que
forom uendudas como nom deuiam porque nom foij hij guardado o que deuia
ou porque forom enganados aalen da mejadade do justo preço manda que
daqui adeante posan esto poer e que lhis Seia aguardado. Outrosy defende
que nenhuu ofizial que esto ouuer de ueer nom conpre taaes cousas pera sij
nem pera outrem e se o fezer que nom ualha.
[Cortes Portuguesas, 1982, pp. 38-39]

ElRey Dom Affonso o Quarto em seu tempo fez Ley, per que hordenou, e man-
dou que quando se alguus bees venderem por divida d’ElRey, nom se vendam
a menos preço, mais venda-se puvricamente o melhor que poderem a quem
por elles mais der: e esto se faça verdadeiramente sem outra alguã malícia, e

1
Omitido nas OA. Considerado artigo separado nas ODD.
2
Ordenações Afonsinas, Liv. I, Tít. 30, § 5.

214
José Domingues

engano: e que os nom comprem pera ElRey, nem os recebam em sua divida,
salvo quando nom acharem Comprador, que os compre.
§ 1 – E se alguus bees forem tomados pera ElRey em preço de suas dividas, se
os quizer aquelle, cujos forom, em quanto os ElRey tever, e der aquelle preço,
porque os ElRey recebeo, sejam-lhe dados, e entregues por esse preço, se o
logo pagar: e se pela ventura os já nom tever ElRey, e forem em poder d’ou-
trem, a que os ElRey deu per alguu titulo, ou os comprou no começo quando
forom rematados, e aquelles, cujos antes forom, quiserem dizer, e allegar, que
forom vendidos, como nom deviam, porque nom foi hi gardada a sollepni-
dade do Direito, que pêra taaes feitos he necessaria, ou que forom enganados
aallem da meetade do justo preço, que o possam fazer, e allegar, e que lhes seja
guardado seu direito.
§ 2 – E defendeo mais, e mandou, que nenhuu Official seu, que esto ouver de
veer, nom compre taaes bees pera sy, nem pera outrem; e se o fezer, que nom
valha, e aallem desto lho estranhará, como achar per direito.
§ 3 – A qual Ley vimos, e louvamos, por nos parecer justa: e adendo, e decla-
rando mais em a dita Ley, hordenamos, e mandamos, que quando se alguus
bees venderem por Nossa divida, ou de cada huu dos Ifantes, se forem bees
movis, andem ante em pregom primeiramente nove dias, e os bees de raiz tres
nove dias, em os quaees sejam apregoados continuadamente pelo Pregoeiro,
ou Porteiro, que dello tever carrego per escripto assy per Taballiam puvri-
co, ou Escripvam Nosso, a que tal officio perteença; e passado o dito tempo,
entom sejam rematados puvricamente sem outra alguã malícia, ou engano,
como dito he, porque achamos, que assy foi d’antigamente hordenado, e sem-
pre usado ataa o presente.
[Ordenações Afonsinas, Liv. II, Tít. 52]

Os artigos do povo das outras cortes do reinado de D. Afonso IV, as de Lisboa


de 1352, só constam no Livro das Leis e Posturas e, do total de 24 capítulos gerais, para
as Afonsinas transitaram apenas dois. Como a transcrição destes não merece qualquer
comentário, passamos às cortes seguintes, únicas do reinado de D. Pedro I.
Das cortes de Elvas de 1361 foi compilado um to