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Perspectivas, São Paulo

5:97-114, 1982.

A SITUAÇÃO L E G A L E R E A L DA M U L H E R
T R A B A L H A D O R A NO CAMPO.*

Vera Lúcia Silveira Botta F E R R A N T E * *

RESUMO: O artigo procura discutir a situação de trabalho da mulher na área rural, a partir do le-
vantamento de questões ligadas á prática trabalhista, à sindicalização da mulher e ao seu nível de cons-
ciência diante dos direitos e das suas condições de vida.
UNITERMOS: Trabalho feminino rural; legislação trabalhista e trabalho da mulher; sindicaliza-
ção e prática trabalhista rural.

O trabalho da mulher no campo, en- liza a mulher? A evolução recente da par-


volvido em uma trama de relações, que o ticipação das mulheres na força de traba-
tornam preso à amarras às vezes in- lho brasileira está associada a m u d a n ç a s
visíveis apresenta-se como um objeto de quantitativas e qualitativas de que nature-
estudo pouco explorado, nem por isso za?
menos importante. Estas questões tem levado a investi-
Evidentemente, a participação da gação de várias ordens e a p r e o c u p a ç ã o
mulher na p r o d u ç ã o e reprodução da for- com a situação da mulher têm crescido na
ça de trabalho, os mecanismos que expli- ciência social brasileira, como demons-
cam a absorção e exclusão do contingente tram os dois volumes de " M u l h e r Brasi-
feminino no processo produtivo devem leira, Bibliografia anotada", elaborados
ser analisados ao lado de outras transfor- pela Fundação Carlos Chagas (1).
mações ligadas ao processo de acumula- No conjunto de estudos recentes so-
ção capitalista. bre trabalho feminino, parece-nos que
falta uma reflexão sobre a situação legal e
A transição das atividades organiza- real do trabalho da mulher no campo, so-
das em termos de parceria ou colonato pa- bre sua prática trabalhista e os mecanis-
ra atividades organizadas em moldes capi- mos acionados pelo capital para uma uti-
talistas implica em uma perda de funções lização racional do seu trabalho. São estas
econômicas por parte das mulheres? A s as preocupações que nos levam a propor
mudanças no processo produtivo levam à elementos de análise da relação entre a le-
exclusão de contigentes femininos? O pro- gislação trabalhista e o trabalho da mu-
cesso de acumulação capitalista margina- lher.

* Os dados apresentados nestas notas de pesquisa s ã o parte de uma investigação " O trabalho da mulher no campo"
a a
em andamento, realizada em colaboração com a Prof. D r . Heleieth I.B. Saffioti. A investigação tem como eixo a região
de Araraquara e foi privilegiada como objeto de estudo a família rural como um meio de se captar os papéis sociais desem-
penhados pelas mulheres. Foram realizadas 511 entrevistas com mulheres e chefes de famílias, integrantes de uma amostra
de 20 propriedades agrárias do município de Araraquara e de famílias de bóias-frias localizadas na periferia da cidade. A
preocupação fundamental desta pesquisa é apreender as funções domésticas e econômicas da mulher na área rural. Neste
artigo serão discutidas questões ligadas à situação legal e real da mulher na área rural.
** Departamento de Ciências Sociais e Filosofia — Instituto de Letras, Ciências Sociais e Educação — U N E S P —
14.800 — Araraquara — SP.

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FERRANTE, V . L . S . B . — A situação legal e real da mulher trabalhadora no campo. Perspectivas, São
Paulo, 5: 97-114, 1982.

Por outro lado, a discussão das con- ção de obrigações trabalhistas, deve ser
dições materiais e legais do trabalho da considerada a situação histórica do traba-
mulher no campo leva-nos a refletir a res- lhador agrícola que, com menor poder de
peito da controvertida relação entre a le- reivindicação, n ã o teve até a década de
gislação trabalhista e a acumulação capi- 1960, a força necessária para legitima-
talista no Brasil. mente ou n ã o , pressionar o Estado na di-
reção da regulamentação de seus direitos
I. A L E G I S L A Ç Ã O T R A B A L H I S T A , trabalhistas. N u m momento em que co-
O PROCESSO D E ACUMULAÇÃO meçam a se repetir conflitos sociais de
CAPITALISTA E O T R A B A L H O gravidade crescente girando em torno do
DA MULHER. problema da terra, é promulgado o Esta-
No caso urbano, a legislação traba- tuto do Trabalhador Rural — lei n . °
lhista, na formalização do relacionamen- 4914, de 2-3-1963 — posto ideologica-
to entre o capital e o trabalho, na fixação mente como o responsável pelo processo
do salário mínimo a partir de um parâme- de proletarização do homem no campo.
tro que implicou num aviltamente do salá- Diante da presença formal do conjunto de
rio do trabalhador qualificado, na regula- leis "protecionistas" do trabalho rural, os
mentação da lei da estabilidade, em ade- empregadores teriam diminuído seu pes-
quação ao comportamento do mercado e soal permanente e recorrido ao volante
na posterior substituição da estabilidade justamente para n ã o estabilizar qualquer
pelo F G T S , num momento em que a rota- vínculo empregatício.
tividade no emprego se impunha como ne-
Na verdade, a substituição do mora-
cessidade da prática empresarial, criou
dor pelo volante foi gerada por mudanças
efetivamente, esforços importantes ao
estruturais ligadas ao processo de desen-
processo de acumulação capitalista. N ã o
volvimento do capitalismo no campo; e o
apenas de natureza econômica, igualmen-
E . T . R . vem formalmente legitimar este
te a nível de suas conseqüências políticas.
processo, sem que esta legitimidade se
Além do seu papel como elemento depre-
converta realmente num envólucro prote-
ciador do custo da força de trabalho, e de
tor dos direitos trabalhistas do trabalha-
toda a sua participação na superação de
dor rural.
obstáculos de caráter legal que pudessem
criar empecilhos ao desempenho ótimo do Pode-se dizer que o processo de pro-
capital, teve um sentido político impor- letarização do homem do campo — pro-
tante, na composição e redefinição dos cesso este que n ã o obedece efetivamente a
pactos presentes na relação Estado- uma evolução linear — atendia a determi-
Classes sociais na formação social brasi- nadas metas do processo de acumulação
leira. capitalista: o recurso do bóia-fria, pela
Se, em determinados momentos, a sua função depreciadora de salário, pela
partir de mudanças na a t u a ç ã o do Estado importância do sistema contar com uma
e da necessidade de se cumprir deterfhi- população excedente para as necessidades
nadas metas do processo de a c u m u l a ç ã o , médias de exploração do capital faz parte
os termos da legislação trabalhista se re- do jogo de articulações mantido pelo mo-
definem, como se apresenta esta contro- do capitalista de p r o d u ç ã o em seu proces-
vertida relação no caso do campo brasilei- so de acumulação.
ro?
U m rápido exame da evolução da le- As leis trabalhistas, especialmente o
gislação rural brasileira mostra-nos que salário mínimo urbano, foram estendidas
além dos obstáculos concretos apresenta- às áreas rurais em um momento em que o
dos pelo empregador rural que sempre re- valor real deste salário mínimo estava sen-
sistiu a qualquer tentativa de incorpora- do comprimido. A uniformização do cus-

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to da reprodução da força de trabalho ur- não constituir justo motivo de rescisão de


bano e rural permite que se conte objeti- contrato coletivo ou individual de traba-
vamente com um único exército industrial lho da mulher o casamento ou a gravidez,
de reserva, com deslocamentos sucessivos 2) neste sentido, pelo artigo 55 do E T R , o
da mão-de-obra. Responsabilizar o E T R contrato de trabalho n ã o deveria se inter-
pelo desencadeamento deste processo sig- romper durante a gravidez e seriam asse-
nifica deslocar o eixo da questão. F o i gurados à mulher os seguintes decretos:
muito mais expressão ideológica de uma afastamento do trabalho seis semanas an-
política empregada pelo Estado Populista tes e seis semanas depois do parto, repou-
na sua prática de concessão às massas, e so remunerado duas semanas em caso de
de um crescimento do poder de barganha aborto, dois descansos especiais de meia
e mobilização das classes trabalhadoras hora cada um durante o trabalho diário
presentes no campo brasileiro, definido a para amamentação do filho, percepção
partir da segunda metade da década de integral dos vencimentos durante os pe-
50. ríodos acima mencionados. Os benefícios
O importante é frisar que o E T R , atribuídos deveriam ser pagos pelo então
"disfarce" formal dado ao desenvolvi- Instituto de Aposentadoria e Pensões dos
mento das forças produtivas, cumpriu de- Industriários, não excluindo a concessão
terminadas metas do processo de acumu- do auxílio-maternidade. C o m o "ampa-
lação capitalista, principalmente porque, r o " ao trabalho da mulher, deveria ser ve-
independentemente da legalização formal dada a prorrogação do seu trabalho além
dos direitos trabalhistas, persistiu uma si- das 22 horas, em qualquer atividade, co-
tuação de escamoteamento, talvez como mo reconhecimento da "debilidade física
decorrência do baixo poder de barganha da mulher". O que os dispositivos do
do trabalhador rural. ETR visaram neste caso era vedar o traba-
lho noturno à mulher. Entretanto, dada a
Esta situação de escamoteamento de-
indefinição, seria permitido, consideran-
rivava basicamente de n ã o ter o E T R ten-
do que o início da jornada noturna é 21
tado concretamente superar o problema
horas, que a mulher prestasse serviços du-
da precariedade das relações de trabalho
rante uma ou duas horas noturnas.
no meio rural. De um lado, pelo fato de
estar unido por um cordão umbilical à O problema é que o E T R , que tentou
C L T , não chegou a preservar a especifici- simplesmente transferir para o trabalha-
dade das relações de trabalho rural em fa- dor rural as disposições legais referidas ao
ce das relações de trabalho na indústria e trabalhador urbano, valendo-se da indefi-
comércio. De certa forma, vários benefí- nição e da generalidade, n ã o adequadas à
cios por ele assegurados — salário míni- diversidade das formas de p r o d u ç ã o exis-
mo, férias, aviso prévio e outros — de tentes no campo, falhou e abriu perspecti-
longa data eram de direito do trabalhador vas para a fraude, n ã o só no caso da mu-
rural, permanecendo, entretanto, como lher, mas igualmente em outras formas de
letra morta, sem que houvesse denúncias trabalho rural.
por parte das forças políticas interessa-
das, da escandalosa violação da lei, nem A abertura para a não-aplicação da
um movimento mais intenso de reivindi- lei começa com a questão da p r ó p r i a defi-
cação por parte dos trabalhadores rurais. nição dada pelo E T R ao trabalhador ru-
ral: " T o d a pessoa física que presta servi-
Com relação ao trabalho da mulher, ços a empregador rural, em propriedade
"garantia-se" através de um dispositivo rural ou prédio rústico, mediante salário
vetado, que a mulher casada n ã o necessi- pago em dinheiro ou in natura, ou parte
taria da permissão do marido para aceitar in natura e parte em dinheiro." Esta defi-
contratos de trabalho e afirmava-se: 1) nição não absorvia certas categorias de

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trabalhadores que, pela natureza de suas Tal situação de escamoteamento não


relações de trabalho, são autênticos em- é superada pela L e i n . ° 5.889 que, a
pregados, embora formalmente apresen- 8/6/1973, revoga o Estatuto do Trabalha-
tem "caráter diferente" — caso dos par- dor Rural e atualmente rege a legislação
ceiros —, assim como n ã o levava em con- trabalhista no campo.
ta a peculiaridade do trabalho da mulher
A o contrário, continua a ser um sério
que, enquanto trabalhadora da roça, par-
problema a questão do enquadramento
ticipante de um trabalho coletivo de eco-
jurídico do trabalhador rural. Nos termos
nomia familiar, ajudante do pai e do ma-
da Lei n.° 5.880, considera-se empregado
rido na plantação — fase do colonato, da
rural "toda pessoa física que, em proprie-
parceria principalmente — n ã o recebia sa-
dade rural ou prédio rústico, presta servi-
lário em dinheiro ou in natura, estando
ços de natureza não eventual a emprega-
portanto destituída de quaisquer direitos
dor rural, sob a dependência deste e me-
na relação de emprego. O seu " g a n h o "
diante salário". Considerando-se que pa-
era mais uma recompensa que entrava no
ra a maioria dos trabalhadores, a amplia-
ganho familiar e nas fases em que o colo-
ção do assalariamento temporário os re-
nato começa a coexistir com formas capi-
duz a grande instabilidade e dependência,
talistas de p r o d u ç ã o , poderia ser empre-
esta ressalva a exclusão, dado o caráter
gada ou n ã o , dependendo unicamente das
eventual do serviço, cria elementos de in-
necessidades do empregador em contar
definição que freqüentemente se conver-
com maior ou menor contingente de m ã o -
tem em fatores concretos de burla aos di-
de-obra.
reitos trabalhistas.
Juridicamente, a mulher n ã o poderia A maior ou menor incidência das
ser enquadrada — ou dificilmente o era — burlas vai depender das distinções ao nível
como trabalhadora rural e isto criava, no das relações sociais, entre moradores e vo-
mínimo, uma situação dúbia que poderia lantes, e no interior destas categorias, en-
levar a mulher a ficar à mercê das mani- tre mulheres e homens. Apesar de o mora-
pulações do empregador, sem defesa real dor ter com maior freqüência sua situação
dos seus direitos. N ã o apenas a mulher, de trabalho regulada, no sentido de ter di-
mas o trabalhador rural, mesmo depois reito a um salário estipulado por lei, a fé-
do E T R , devido a uma legislação traba- rias, repouso remunerado, feriados, 13.°
lhista dispersa e inócua, continua a ser ví- salário, persiste entre os trabalhadores vo-
tima do patrão nas disputas trabalhistas. lantes uma carência muito acentuada de
A mulher, que geralmente trabalha espo- direitos trabalhistas. Sem nenhum vínculo
radicamente para ajudar o marido no au- empregatício ou com um vínculo proble-
mento da p r o d u ç ã o e/ou do salário, n ã o mático pela mediação do empreiteiro, são
consegue provar, com o seu serviço, a submetidos a um regime de superexplora-
coexistência dos três elementos: depen- ção; salários baixos, jornadas de trabalho
longas, se computado o tempo gasto no
dência do empregador, trabalho n ã o
transporte ao trabalho. Contrariamente
eventual e salário para chegar a ter o esta-
aos defensores da tese de que o aumento
tuto e a qualificação de empregada rural.
nominal de salários obtidos pelos volantes
A contratação de trabalho da mulher, su- nos períodos de colheita — onde se mani-
jeita a salários menores, com capacidade festa maior demanda de mão-de-obra —
de se ajustar a quaisquer serviços que se representa um avanço real significativo,
fizerem necessários, presta-se, portanto, à constata-se que este benefício, fruto de
prática empresarial de tentar, com baixos uma liberdade fictícia, é na prática con-
salários, aumentar sua taxa de explora- trariado pela subordinação real do traba-
ção. lho ao capital.

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Refletindo este processo, os volantes gações. N ã o deve haver nenhuma distin-


submetem-se a jornadas de trabalho cada ção entre seu contrato de trabalho e o dos
vez mais longas e intensas e ficam em de- empregados, homens, tendo portanto di-
terminados períodos sem encontrar traba- reito à anotação de carteira de trabalho e
lho ou sujeitos a uma situação de subem- Previdência Social, ao salário m í n i m o —
prego. Neste sentido, do que lhes vale a no caso da trabalhadora de mais de 16
previsão de que os trabalhadores avulsos anos — repouso remunerado, gratifica-
ou volantes com menos de um ano de casa ção de Natal, horário de trabalho, aviso
serão incluídos entre os beneficiários da prévio, férias proporcionais ao n ú m e r o de
legislação? Qual a possibilidade dos mes- dias trabalhados durante o ano — indeni-
mos reivindicarem a condição de empre- zação e estabilidade, já que o F G T S n ã o
gado, se uma das exigências para isso é a foi estendido ao trabalhador rural.
prestação de serviços n ã o eventuais, ou
seja, o caráter permanente dos mesmos, A mulher n ã o pode, p o r é m , ter seu
dado pela obrigação de comparecer ao horário de trabalho prorrogado se n ã o es-
trabalho e de exigir que lhe seja dado ser- tiver autorizada por atestado médico ofi-
viço? Liberdade fictícia esta, já que o vo- cial. É vedado ainda à mulher o trabalho
lante, com fraquíssimo poder de barga- noturno — entre 22 horas e 5 do dia se-
nha, não tem evidentemente autonomia guinte — a n ã o ser em certos casos, como,
para provar a n ã o eventualidade de seu por exemplo, na industrialização de pro-
trabalho, nem para exigir nada a n ã o ser dutos perecíveis a curto prazo, durante o
uma sobrevivência definida por um mun- período de safra ou quando ocorrer neces-
do de mínimos vitais. sidade imperiosa de serviço. A lei estabe-
lece, de maneira semelhante ao E T R , que
A característica sazonal da atividade não constitui justo motivo para a dispensa
agrícola, articulada com a instabilidade da mulher o fato de haver contraído o ma-
das garantias trabalhistas — instabilidade trimônio ou estar grávida.
esta que é duplamente reforçada pela si-
tuação de trabalho da mulher no campo A nível formal, a mulher grávida n ã o
—, permite ao fazendeiro empregar estri- pode trabalhar nas 4 semanas anteriores
tamente a força de trabalho que necessita, ao parto e nas 8 posteriores ao mesmo.
reduzindo seus gastos com a mão-de- Durante esse período terá direito ao rece-
obra, com a vantagem de manter a sua bimento integral de seus salários (art. 392
disposição um exército de trabalhadores da C L T ) . E m caso de aborto n ã o provo-
de reserva. A participação da mulher nes- cado, a mulher terá direito ao repouso de
te exército evidentemente contribui para duas semanas recebendo salários inte-
puxar para baixo os salários dos que con- grais.
seguirem trabalhar. Presta-se, portanto,
A lei estabelece um " a l e r t a " para a
às regras do processo de a c u m u l a ç ã o . É a
situação das mulheres e filhas de empre-
partir destas considerações que se preten-
gados que prestam serviços à empresa ru-
de analisar as condições legais e reais do
ral em certas épocas do ano, plantando
trabalho da mulher.
capim, apanhando café, milho, etc. A so-
lução jurídica — que vai estar evidente-
II. A S I T U A Ç Ã O L E G A L D O T R A B A - mente descompassada face a situação
LHO D A M U L H E R real — é a seguinte: se esse trabalho se re-
A nível da legislação, o trabalho da petir com habitualidade, cada ano, o mais
empregada rural está sujeito ao mesmo re- conveniente será fazer com as mesmas um
gime estabelecido para o homem no que contrato de safrista, pois assim, termina-
diz respeito a horário — exceto prorroga- do o trabalho, extinto estará o contrato,
ção depois das 22 horas —, direitos e obri- apenas tendo as mesmas direito à indeni-

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zação de 1/12 do salário mensal por mês De uma população de 511 famílias,
de serviço, sem direito à soma dos vários em que 36,4% declararam nunca ter tra-
períodos de prestação de serviço nestas balhado — deve ser feita a ressalva do tra-
condições. balho em família ser freqüentemente con-
Concretamente, o "alerta" n ã o che- siderado como n ã o trabalho — 23,3% já
ga a se apresentar como uma opção real à trabalharam, mas deixaram de fazê-lo,
mulher. Contratada pela mediação de um 35,9% são atualmente trabalhadoras, res-
empreiteiro — elemento ideal para desca- tando 4,4% de casos de solteiros, viúvos
racterizar a responsabilidade do empresá- e/ou separados. A maioria das mulheres
rio no cumprimento dos direitos traba- que trabalham atualmente ou j á o fizeram
lhistas, especialista em levá-la a assinar re- não possui carteira assinada ou, em caso
cibos em branco, nos quais consta falsa- de tê-la, não está a mesma atualizada e
mente o recebimento integral de seus di- chega a haver um desconhecimento do
reitos — é o elo mais fraco de relação de "destino" desta carteira, por estar a mes-
trabalho. A atomização das relações de ma sob a "guarda" do administrador, fa-
trabalho, ou seja, a individualização do zendeiro e/ou empreiteiro.
trabalho, reflexo do próprio processo de Os índices do n ã o registro se agravam
penetração do capitalismo no campo, n ã o no caso da trabalhadora eventual — aque-
vai permitir à mulher um avanço real, mas la que trabalha determinados dias para
tímidos passos, na conquista dos direitos ajudar o marido ou por razões semelhan-
trabalhistas. tes — da safrista ou da trabalhadora por
empreita.
III. A S I T U A Ç Ã O R E A L D O T R A B A -
LHO D A M U L H E R A mulher n ã o chega a ser contratada,
seu trabalho é circunstancial e entra subsi-
A eventualidade é o traço prioritário diariamente para aumentar a produção
deste trabalho. H á alguns elementos es- e/ou ganho do marido. N ã o chega a sentir
clarecedores de tal perfil. A carteira de o não-registro como " p r i v a ç ã o " real.
trabalho é, por lei, um documento obriga- " N ó s nunca temos mesmo direito a nada,
tório para o exercício de qualquer empre- não recebia nem dos pais, nem dos ir-
go, até mesmo para os menores que po- mãos, nem na época da fartura, o que se
dem trabalhar, a partir de 12 anos, deven- pode querer?" Este conformismo gera
do contar com anotações no ato de admis- uma situação de subordinação, como se a
são referentes ao contrato de trabalho — resignação fosse fruto quase que de uma
nome do empregador, função do empre- falta de outras o p ç õ e s . O não-
gado, remuneração, data de admissão — aproveitamento de mecanismos de defesa
à vigência do contrato — alterações de não pode, entretanto, ser generalizado co-
função, de remuneração, férias, contri- mo um traço imanente da situação do tra-
buição sindical, etc. — e à rescisão do balho da mulher.
contrato. Segundo a lei, se o empregador
não fizer as anotações devidas, poderá ar- Apesar de ser inteiramente ilegal a
car com a reclamação judicial do empre- contratação da mulher, a mesma costuma
gado, devendo o processo ser remetido à aceitá-la em vez de se arriscar a enfrentar
Justiça para julgamento. Entretanto, a as duras barreiras da Justiça do Trabalho
pesquisa em curso mostrou-nos que o re- e criar problemas, como "deixar o marido
crutamento via empreiteiros estimula a sujo", "marcado", "perseguido pelo pa-
ambigüidade e a falta de registro funciona trão".
como um primeiro empecilho para o gozo No caso das volantes contratadas por
dos benefícios garantidos pelas leis traba- firmas empreiteiras, o registro é muito
lhistas. mais freqüente, j á que os ônus trabalhis-

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tas são contabilizados de maneira a n ã o se Entretanto, este argumento aparece


criarem entraves à prática empresarial. em caráter excepcional. A mulher vê a
Mesmo neste caso, o registro em carteira condição de moradora com bons olhos,
não é nenhuma garantia de estabilidade. num nível mais significativo do que o ho-
São tão frágeis as cadeias desta pseudoga- mem, principalmente o mais jovem que
rantia, que, realmente, n ã o se pode tomá- encara o morador como " c a t i v o " que tem
las como referencial para traçar outro tolhida a sua liberdade de procurar em-
perfil do trabalho da mulher no campo. prego para ganhar mais. Normalmente, a
Há um quase total desconhecimento mulher é contratada para trabalhar por
das condições de contrato de trabalho. safra ou empreita e este trabalho é calcu-
Não chegou a 5% o total de trabalhadores lado de maneira a exigir do trabalhador o
que possuem contrato de trabalho escrito. dispêndio máximo de suas energias. A op-
Referem-se à existência da carteira como ção por remunerar por p r o d u ç ã o garante
uma garantia e, no caso da mulher, quase também um nível ótimo de produtividade
como um " l u c r o " . Frise-se que a discri- e de apropriação da mais-valia. O traba-
minação dos tipos de contrato de trabalho lho de empreita, no qual a mulher entra
rural — copiada da C L T — mostra-se total- como recurso freqüente, atende à raciona-
mente inadequada à situação vigente no lidade do sistema, mais do que qualquer
campo na qual predominam combinações contrato por tempo indeterminado.
orais com os administradores ou arranjos
A existência ou n ã o do registro em
com os turmeiros e/ou empreiteiros. C o -
carteira não chega a ser encarada pelas
mo são arranjos que procuram isentar o
mulheres como problemática, e o n ã o -
patrão da responsabilidade de fazer cum-
prir a lei, as mulheres que trabalham por registro não é sentido como " p r i v a ç ã o
empreita ou no período de safra, ainda real".
que tenham, por lei, direito à a n o t a ç ã o da O fato de o salário ser diferente che-
carteira de trabalho, ao recebimento do ga a provocar reações mais definidas. A s
salário mínimo, ao repouso semanal re- diferenças salariais - fato que contraria a
munerado, à gratificação e até a uma in- fictícia igualdade jurídica de salários para
denização do safrista — correspondente a homens e mulheres - variam de turma pa-
1/12 do salário mensal por cada mês de ra turma, dependendo até mesmo do ar-
serviço trabalhado, sendo considerado co- ranjo do empreiteiro com a fazenda. N a
mo um mês a fração superior a 14 dias — região investigada, a mulher recebia, em
têm na prática negada a garantia destes 1979, Cr$ 7,50 por hora de trabalho, en-
direitos. quanto o homem recebia Cr$ 9,80, ou nu-
O empreiteiro, agente do despotismo ma outra forma de pagamento, recebia
do capital, surge como um anteparo à res- Cr$ 60,00 por dia, enquanto o homem re-
ponsabilidade social da relação do traba- cebia Cr$ 70,00.
lho. As mulheres que continuam a morar A mulher só ganha nos dias que tra-
na fazenda têm uma situação mais regula- balha, é chamada a trabalhar como recur-
rizada, principalmente porque sofrem me- so eventual e n ã o chega sequer à frágil se-
nos o jogo do empreiteiro. Realizam, via gurança de trabalhar três meses sem inter-
de regra, trabalhos gerais na lavoura e o rupção no mesmo local para adquirir al-
recurso a esta mão-de-obra, ainda que ex- guns direitos. Quando o empreiteiro de-
ceção, chega a ser justificado pelos fazen- duz sua comissão da folha de pagamento,
deiros como fruto de um cálculo em que retendo um determinado quantum de diá-
foi constatado "ficar mais barato ceder ria de cada trabalhador, a mulher é o ele-
um pouco ao trabalhador residente do mento mais prejudicado e é subtraída
que contar com a mão-de-obra marginali- uma parcela maior do seu pagamento. Is-
zada que é o bóia-fria". to decorre da própria fragilidade de sua

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relação de trabalho; como seu trabalho é se 11% de respostas n ã o especificadas)


circunstancial, freqüentemente o salário afirmaram que no seu trabalho têm os
não vem em seu nome, mas é acrescenta- mesmos direitos que o homem.
do ao ganho do marido. C o m o seu serviço As manifestações desta consciência
aparece em termos de ajuda, n ã o há ra- são muitas vezes difusas e pluridirigidas.
zões para que a sua remuneração apareça Por outro lado, inquiridas sobre o fato de
tipicamente de forma capitalista, sob for- receberem ou n ã o um tratamento diferen-
ma monetária, a partir de um contrato es- te por parte do p a t r ã o , 40% admitiram-
pecificamente fixado. Desta maneira vê-se no, 45% negaram-no e 15% responderam
que o fato de a mulher estar engajada em nem ter condições para avaliar isto, já que
formas de p r o d u ç ã o capitalistas, n ã o não "vêem o p a t r ã o " ou p o r q u ê o patrão
rompe, mas ao contrário reforça a presen- nem chega a ver se é mulher ou homem
ça de componentes não-capitalistas na sua que está trabalhando.
relação de trabalho.
Traços deste tratamento diferenciado
O discurso da mulher vem revelar a aparecem entretanto na recusa do fazen-
dimensão invisível do seu trabalho: deiro em contratar regularmente mulheres
"Quando trabalhava para os pais, colo- casadas, sob o argumento de que mais fa-
nos ou meeiros, n ã o ganhava nada, ape- cilmente elas tendem a perder o dia de ser-
sar de ser época de fartura... agora com o viço, por problemas de saúde, gravidez ou
salário que mudou tudo, a gente continua cuidado com os filhos. Aparecem no fato
a fazer serviço fora de casa só para ajudar das mulheres receberem menos que os ho-
o marido a criar os filhos." A ajuda, a re- mens, ainda que em muitos casos traba-
compensa pelo amparo e pelo fato de o lhem igual. Aparecem no fato de n ã o con-
homem ser o braço forte no sustento da siderarem faltas justificadas os dias em
casa aparecem constantemente no discur- que as mulheres faltam por doença, ou
so das mulheres. para ir à cidade tentar romper as amarras
Desta maneira, no "trato f o r m a l " burocráticas que emperram a previdência
com a fazenda e quanto às conseqüências social rural para ter direito a um trata-
desta legalização em termos salariais é da- mento médico. Aparecem nas situações
da prioridade à situação do homem. A n - em que a mulher é "dispensada" do tra-
teriormente, as mulheres participavam da balho por estar grávida ou obrigada a vol-
produção de sua subsistência como uma tar a trabalhar logo depois de dar à luz pa-
extensão de suas tarefas domésticas; hoje, ra não perder o seu lugar na enxada. Apa-
trabalham para ajudar o sustento da recem, igualmente pelas manobras feitas
família. De fato, recebem em maioria, para negar à mulher o direito a férias.
menos do que o salário mínimo, porque é
Evidentemente, este problema atinge
raro trabalhar todos os dias... "salário
a grande maioria dos trabalhadores rurais
mínimo: só se Deus der saúde e o tempo
que, obrigados a levar uma vida de "mui-
ajudar". N ã o têm muita noção do que de- tas a n d a n ç a s " , n ã o chegam a criar o
veria ser a equiparação salarial. Chegam a vínculo necessário para adquirir o direito
aceitar que os homens devem ter uma re- de férias. N o caso de adquirido e se tiver
muneração melhor pelo fato de fazerem pela frente um p a t r ã o "bem intenciona-
serviços pesados, com maior intensidade, d o " faz um arranjo e troca este direito pe-
e, contraditoriamente, em porcentagem lo recebimento de uma quantia em dinhei-
significativa, afirmam que havendo "pre- ro.
cisão", a mulher é capaz de fazer qual-
quer serviço. N ã o chegam a ter, em maio- No caso das mulheres, do total de
ria, consciência da marginalização de que trabalhadoras, n ã o chegou a 1% a por-
são alvo: 55% contra 34% (acrescente- centagem das que de fato usufruíram des-

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Paulo, 5:97-114, 1982.

te direito. O exame de algumas carteiras 2) pela possibilidade de, valendo-se


de mulheres mostrou-nos que n ã o consta da eventualidade de seu trabalho, negar a
das mesmas qualquer a n o t a ç ã o relativa às relação empregatícia e a legitimidade de
férias. Ficam à mercê das regras do capi- quaisquer das reivindicações da mulher,
tal e, em alguns casos, admitiram "trocar criando uma situação de subordinação es-
este direito com o p a t r ã o pela possibilida- camoteada do trabalho ao capital.
de de faltar no caso de enfrentar proble-
Diante deste quadro de superexplora-
mas domésticos e de s a ú d e " .
ção de burlas e de manobras, falar a res-
A jornada de trabalho é outro ele- peito dos direitos de estabilidade e indeni-
mento que vem falsear a situação de tra- zação, seria idealizar uma situação e mas-
balho da mulher, subestimando o período carar os aspectos reais do trabalho no
em que ela, por dificuldades de transpor- campo. A própria lei permite brechas pa-
te, fica efetivamente fora de casa. A s vo- ra mascarar a relação de trabalho; preva-
lantes oficialmente trabalham 8 horas mas lece a possibilidade de, através da m ã o -
ficam fora de suas casas 12 horas, em mé- de-obra volante, o fazendeiro, com a as-
dia, por dia. Nos casos das assalariadas sessoria eficiente do empreiteiro, seu
permanentes, a jornada, apesar de ficar testa-de-ferro leal, obter vantagens econô-
em média entre 8 e 9 horas, parece variar micas adicionais, que seriam estimuladas
em função das necessidades do serviço. com o projeto governamental de extensão
Parece ser o mesmo caso das safristas que do F G T S ao meio rural, o que viria, a
apesar de trabalharem muito mais do que meu ver, agravar a situação de trabalho
8 horas no período da safra, n ã o recebem rural. Se existe igualmente a possibilidade
pelas horas extras... D o total de trabalha- de comandar a Justiça do Trabalho, a
doras entrevistadas, 0,7% afirmaram tra- juízo e a conveniência das rédeas do capi-
balhar até 14 horas, 2,8% de 15 a 29 ho- tal, como criar uma contrapartida que ga-
ras, 4,9% de 30 a 39 horas, 42,6% de 40 a rantisse ao trabalhador rural indenização
48 horas — maior concentração — 34,3% e estabilidade?
mais de 48 horas. Acrescente-se, a estes
dados, 14,7% que n ã o souberam especifi- No caso da mulher, sujeita a um tra-
car a jornada. Os problemas de transporte balho intermitente, de reduzido poder de
- agravados no caso do volante - realmen- barganha, e maior grau de submissão, re-
te tornam maior o fardo presente na situa- forçados pela fragilidade e inexistência de
ção do trabalho da mulher. A dupla jor- qualquer organização, diminuem, eviden-
nada de trabalho - na roça e em casa - é temente, as possibilidades de reinversão
encarada como uma situação difícil, mas desta prática trabalhista lesiva aos seus in-
necessária nos momentos de " p r e c i s ã o " . teresses.
As possibilidades de uma melhor par-
Este mesmo fator de " p r e c i s ã o " foi
ticipação surgem no caso da previdência
referido quando se perguntou às entrevis-
social? H á neste campo mecanismos insti-
tadas as razões que levariam o p a t r ã o a
tucionalizados mais " l i m p o s " de fazer
empregar mulher. "Porque precisam" e
valer os direitos da mulher?
"precisamos" foi a tônica mais freqüente
do seu discurso. De fato e de resto, esta
" p r e c i s ã o " aparece claramente como um IV. A M U L H E R E A P R E V I D Ê N C I A
elemento que serve duplamente ao pro- SOCIAL N O C A M P O
prietário: Num outro nível, a regulamentação
1) pela perspectiva de, através do do Funrural — instrumento regulador da
trabalho da mulher, utilizar uma prática previdência social no campo, atualmente
econômica que vem baratear o custo da englobado no organismo I N A M P S - re-
mão-de-obra; força as regras do processo de acumula-

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ção capitalista por uma dupla r a z ã o . Em primeiro lugar, pelo caráter pro-
Através da concessão de seus benefícios, fundamente patriarcal do Funrural: não
absorve, na sua jurisdição, trabalhadores será concedida a aposentadoria, quer por
rurais engajados em formas de p r o d u ç ã o velhice, quer por invalidez, a mais de um
diferentes, desde a economia familiar até elemento da unidade familiar, cabendo o
o trabalhador volante. benefício exclusivamente ao chefe da
U m a análise de sua regulamentação família. Nos termos em que foi proposto,
mostra-nos que, ao contrário do que se a trabalhadora rural, mesmo sujeitando-
possa afirmar a respeito da tendência l i - se a trabalhar horas extras e a todos os ou-
near à proletarização do homem do cam- tros artifícios empregados pelo p a t r ã o pa-
po as próprias medidas institucionais as- ra fugir ao cumprimento das leis traba-
sumidas pelo Estado Brasileiro no tocante lhistas, não terá direito à aposentadoria,
à previdência social no campo, mostram enquanto o marido estiver vivo. Diante
que, para maximizar a taxa de explora- deste acentuado patriarcalismo, reflexo
ção, é necessário manter um processo de de uma estrutura jurídica que tem efetiva-
articulação de formas de p r o d u ç ã o dife- mente prejudicado a mulher, só há duas
rentes. chances para a mulher ter acesso ao
auxílio-aposentadoria concedido pelo
Além de ter dado expressão jurídica a Funrural: ser solteira, categorizada em
este desenvolvimento desigual e combina- termos jurídicos, como n ã o "pertencente
do, percebe-se na sua proposição uma in- a nenhuma unidade familiar", ou ser viú-
tenção marcadamente política, por ter va, quando a ela couber a responsabilida-
procurado levar a consciência dos traba- de total da família.
lhadores rurais a aceitar a intencionalida-
de do governo em promover a integração A situação de marginalidade a que é
social e em firmar uma política assisten- exposta a mulher, agrava-se no caso do
cialista, "bem-intencionada", deixando Amparo Previdenciário, benefício-
como um possível n ã o reivindicado, mas aposentadoria nos mesmos moldes do
facilmente posto de lado, o cumprimento Funrural, concedido ao trabalhador rural
das leis trabalhistas. de 70 anos, por n ã o gerar outro benefício,
A partir desta prática, o Funrural re- ou seja, ele se extingue com a morte do
força o circuito da a c u m u l a ç ã o capitalis- beneficiário. É como se o A m p a r o Previ-
ta, contribuindo para que uma parte dos denciário exigisse a morte imediata da ve-
ônus trabalhistas — que viriam da aplica- lhinha marginalizada.
ção da legislação trabalhista propriamen-
Reforçam este elemento de exclusão
te dita — se transfira para os setores mais
da mulher da previdência social rural, as
capitalistas da economia, deixando as for-
barreiras encontradas na caracterização
mas de exploração do trabalho vigentes
do trabalhador rural e as exigências para a
no meio rural despidas ou carentes de de-
comprovação do período de carência. Isto
terminados atributos institucionais — 'ga-
porque como o seu trabalho aparece basi-
rantia dos direitos da legislação trabalhis-
camente como uma relação de trabalho
ta — o que permite um barateamento da
por tarefa em regime de empreitada, a
reprodução da força de trabalho e um
aventualidade, temporariedade e conse-
conseqüente aumento na taxa de explora-
qüente deslocamento contínuo da traba-
ção.
lhadora rural dificultam ou impedem a
Apesar do efeito — d e m o n s t r a ç ã o da apresentação de uma " p r o v a " de qual-
eficiência de seus serviços, na avaliação quer relação empregatícia mais estável.
crítica da atuação do Funrural, ressalta-se
a situação de exploração da qual é alvo a Depois, há que se acrescentar que a
mulher. exigência de uma d o c u m e n t a ç ã o burocrá-

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tica funciona como entrave para a mulher zadas passa de 317.312 para 876.740,
que, para ir à cidade procurar "seus direi- verificando-se um aumento de 176,3%.
tos" ou perde dia de serviço ou tem pro- No mesmo período, o aumento da P E A
blemas para encontrar uma pessoa que se urbana feminina foi de 123%. O cresci-
encarregue da guarda de seus filhos. mento correspondente do n ú m e r o de ho-
mens sindicalizados foi de 87%, enquanto
De fato, contribui para a dupla mar-
a P E A masculina aumentou em 67%. Es-
ginalização da mulher, a nível das condi-
tes dados indicam que o processo de sindi-
ções materiais e legais de trabalho, agra-
calização foi mais acelerado para as mu-
vados pelas freqüentes burlas da legisla-
lheres do que para os homens no período
ção trabalhista o seu grau de conformis-
estudado, incidindo de forma positiva na
mo, assim como a preocupação em n ã o
tendência central. Tomando-se o período
prejudicar o marido junto ao p a t r ã o . A s
77—78, verifica-se que o crescimento do
dificuldades de organização das mulheres
número de mulheres sindicalizadas foi de
trabalhadoras, no sentido de reivindicar e
33,6%, enquanto a P E A feminina cresceu
transformar suas reivindicações em ex-
em 9,2%. J á a sindicalização masculina
pressões políticas concretas — dificulda-
aumenta em 20% e a P E A masculina em
des que não são específicas da mulher,
7,4%.
mas se estendem a todo proletariado rural
— expressam-se no seu grau extremamen-
te baixo de sindicalização e na pouca utili- O maior interesse das mulheres pelos
zação de formas alternativas de "fazer sindicatos pode estar relacionado ao au-
existir e valer" seu poder de barganha. mento da participação feminina nos mo-
vimentos populares urbanos. Outra hipó-
V. S I N D I C A L I Z A Ç Ã O E R E I V I N D I - tese remete à possibilidade de que os servi-
CAÇÕES D A M U L H E R ços assistenciais característicos do sindica-
lismo brasileiro funcione como fator de
Em recente trabalho (2) discute-se o atração das mulheres.
reflexo do aumento do salariato feminino
sobre a evolução da sindicalização femini- Deve-se t a m b é m ressaltar, pensando
na e sua participação nas reivindicações e no caso no ramo metalúrgico — a taxa de
lutas operárias recentes. Discute-se a hi- crescimento de sindicalização é de 7,7%
pótese de que o índice de crescimento da entre 1978 e 1979; a mesma taxa é de
sindicalização feminina deve ter aumenta- 7,1% para os homens e de 12,8% para as
do ao menos proporcionalmente ao au- mulheres — que no crescimento da expe-
mento da força de trabalho do sexo femi- riência das lutas operárias, foi importante
nino, sobretudo nas indústrias metalúrgi- a participação das mulheres. A realização
cas. S u b s i d i a n d o esta hipótese, dos Congressos das Mulheres Metalúrgi-
argumentava-se que o maior nível de com- cas, a partir de 1978, a inclusão nas cam-
batividade e consciência adquirido pelo panhas salariais dos sindicatos de algumas
conjunto do movimento operário poderia reivindicações levantadas pelas mulheres
ter acelerado a sindicalização dos traba- trabalhadoras, a participação das mulhe-
lhadores dos dois sexos, com a ressalva de res nas greves de massa de 1978 e 1979
que algumas iniciativas dirigem-se explici- mostram que n ã o se pode necessariamente
tamente às mulheres, tanto no âmbito sin- impingir à mulher a condição de elo mais
dical quanto no âmbito do movimento so- fraco da corrente de mobilização. Entre-
cial de mulheres. Tomando-se o setor in- tanto, não se pode superestimar as possi-
dustrial como referência, na qual é priori- bilidades da prática das mulheres, mesmo
tário o ramo metalúrgico, vê-se que, no porque as reivindicações levantadas por
período compreendido entre 1970 e 1978, elas não são necessariamente incorpora-
o número absoluto de mulheres sindicali- das nas pautas finais de negociações.

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Se isto ocorre no centro hegemônico ficativamente o grau de sindicalização da


do movimento sindical brasileiro, como a mulher. Segundo o presidente do sindica-
situação se apresenta no meio rural? to rural de Araraquara, em 1979, este
índice é explicado — e seu depoimento é
Examine-se, a este respeito, dados
bem o reflexo do patriarcalismo que per-
sobre a composição do Sindicato de C r a -
meia a supra-estrutura legal brasileira —
vinhos, área de liderança sindical rural
porque " n ã o tem mesmo sentido estimu-
avançada, com a ressalva de que a compo-
lar uma campanha de mobilização visan-
sição não deve ser encarada por si, isola-
do à sindicalização da mulher". Este tra-
damente, como elemento definidor do po-
balho deveria ser feito em direção ao
tencial de organização do proletário rural
"chefe da família"... " a mulher no caso
e do aproveitamento dos mecanismos de
da sindicalização é mesmo dependente".
defesa da situação de trabalho da mulher.
Dependência, instabilidade, insegu-
Considerando-se o movimento de en- rança, caracterizam o trabalho da mulher.
trada e saída dos associados, reflexo da Como não têm um "trabalho firme", n ã o
alta rotatividade e mobilidade dos assala- chegam a se preocupar em como recorrer
riados agrícolas, vê-se que o maior índice a uma organização que pudesse assumir
de sindicalização das mulheres, compara- uma posição real de defesa dos seus direi-
tivamente aos dos homens, n ã o passou de tos. N ã o compreendem a linguagem insti-
6,22% (1978). tucionalizada e a tramitação legal da Jus-
No caso de Araraquara — núcleo de tiça do Trabalho e acabam confundindo a
sindicalização de menor combatividade inércia subjacente à t r a m i t a ç ã o jurídica
havia em 1979, 1.100 sócios pagantes, com a impotência de uma situação de de-
sendo 1.000 homens e 100 mulheres, o que pendência.
mostra bem a baixa taxa de sindicalização A consulta aos Boletins Estatísticos
da mulher (8%). referentes às atividades da Junta Traba-
Isto mostra que a existência de uma lhista em Araraquara permite-nos estabe-
liderança sindical mais avançada — caso lecer a seguinte seriação quanto à discri-
de Cravinhos — n ã o chega a mudar signi- minação dos reclamantes:

TABELA 2 — Reclamações trabalhistas de trabalhadores rurais, por sexo, em Araraquara.

Ano Processos Homens Mulheres Menores % Total

1968 78 209 97,6 5 2,4 214


1969 61 138 97,8 2 1,4 1 0,8 141
1970 54 108 77,7 31 22,3 — — 139
1971 53 110 94,1 6 5,1 1 0,8 117
1972 48 159 92,0 9 5,2 5 2,8 173
1973 32 42 66,7 20 31,8 1 1,5 63
1974 44 218 93,5 11 4,7 4 1,8 233
1975 41 39 65,0 19 31,6 2 3,4 60
1976 26 86 82,6 17 16,4 1 1,0 104
1977 68 103 74,1 30 21,6 6 4,3 139

Há minoria absoluta na participação anos de 73 e 75, as mulheres chegam a re-


das mulheres nas ações trabalhistas. Nos presentar cerca de 30% dos reclamantes,

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o que representa um avanço na conquista sindicalismo rural, pode ser encarada co-
de novos espaços. Entretanto, esta con- mo despontar de um arco-íris no conjunto
quista não chega a ser confirmada por excludente da participação política da
uma ação ofensiva progressiva, porque mulher.
nos anos seguintes, a participação da mu-
lher regride novamente. Participam geral- VI. A M U L H E R E A R E P R E S E N T A -
mente de ações coletivas movidas contra ÇÃO DOS D I R E I T O S T R A B A L H I S -
empresas locadoras de mão-de-obra. TAS
A junção é proposta no sindicato, U m a pesquisa exploratória realizada
não sendo necessariamente produto de na região de Araraquara permite-nos tra-
uma ação coletiva. É claro que o aumento çar hipóteses a respeito da maneira do tra-
da participação das mulheres nestes dois balhador rural — homem e mulher — vi-
anos pode ser indicador de uma crise exis- venciar a organização sindical. A vincula-
tente nas relações de trabalho. Entretanto ção do Funrural à sede do sindicato, entre
não há indícios concretos de que este au- outros motivos relacionados à própria
mento da participação feminina não história e prática do sindicalismo brasilei-
acompanhado por outras manifestações ro, faz com que o trabalhador encare a
de ação coletiva e consciente tenha que- sua organização de classe como uma enti-
brado as regras da aparente convivência dade puramente assistencial. O próprio
harmoniosa com o p a t r ã o . aumento do número de Sócios — hipótese
não verificada no caso da mulher traba-
Em Cravinhos, como conseqüência lhadora rural — pode ser encarada não
de uma liderança bem definida, há, em simplesmente como índice de maior vita-
caráter excepcional, uma ação de 10 mu- bilidade dos sindicatos na defesa dos inte-
lheres visando à equiparação salarial. E m resses dos trabalhadores, mas como a
sua maioria, os processos são movidos pe- conseqüência da busca aos caminhos le-
lo não-pagamento do aviso prévio, 13.° gais prescritos para o acesso à assistência
salário ou por irregularidades no paga- médica.
mento de férias. N o caso da volante
A maioria das trabalhadoras do cam-
procura-se incentivar o questionamento
po distorce e confunde a prática da sindi-
das burlas inerentes ao sistema de emprei-
calização rural, encarando-a como um
ta, que pode efetivamente ser considerado
item menos eficiente, da Previdência So-
uma das mais sérias manifestações de ex-
cial. " O Funrural é o órgão que d á " , o
ploração de força de trabalho rural.
sindicato "cobra uma taxa", que acaba
N a maioria das vezes n ã o é a mulher por pesar no orçamento mensal. Diante
que desencadeia a a ç ã o . E l a entra numa do conjunto de elementos que mostram o
causa em que j á existem reclamantes, por caráter paternalista do Funrural e dos
razões circunstanciais, por se tratar do próprios argumentos empregados pelos
mesmo local de trabalho ou por se tratar- patrões contra a sindicalização, a partir
de motivos de reclamação semelhantes. da afirmação de que n ã o há necessidade
do trabalhador se filiar ao sindicato, o
Entretanto, a mulher n ã o chega a se
trabalhador, em geral, prefere o Funrural
aproveitar ou ter consciência dos mecanis-
ou acaba por colocar os dois órgãos no
mos de defesa que se apresentam à mulher
mesmo "conjunto" endereçado à presta-
trabalhadora. Mesmo a luta legal dificil-
ção de assistência.
mente é aproveitada como um espaço de
luta. Entretanto, a participação da mu- Quanto à situação da mulher, apesar
lher no III Congresso da Contag, reunião de ser mais precária — em muitos casos,
importante no rumo dos movimentos so- não chega sequer a ter registro de trabalho
ciais, por delinear perspectivas novas ao — ainda que se caracterize, de maneira di-

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fusa, a injustiça de sua posição na estrutu- e chega a aparecer uma ligação entre o
ra do Funrural, há um grau acentuado de não-registro e uma maior liberdade que é
conformismo explicado em alguns casos, na verdade, fictícia e contrariada pelas
pelo fato dela, mesmo sendo mulher, ter duras regras de subordinação real do tra-
obtido um emprego e pela intenção de n ã o balho ao capital. N o caso das assalariadas
prejudicar a posição do marido. Os se- permanentes, o registro em carteira é mais
guintes depoimentos ilustram bem a situa- freqüente — visto como "exigência do pa-
ção acima referida: " à s vezes, vou procu- trão e garantia à empregada" — mas em
rar direito para mim e posso prejudicar o contrapartida, a moradora vê-se obrigada
marido", "enquanto der para ir vivendo, a trabalhar para o p a t r ã o nas condições
estou quieta, já está bom que o homem te- impostas por ele.
nha direito", " j á estou acostumada que
nas leis, a mulher é considerada como nin- É importante que se diga que os tra-
guém, não existe". balhadores, em especial as mulheres, n ã o
chegam a perceber que uma ação coletiva
U m a parcela significativa da popula- poderia interferir no cumprimento dos
ção entrevistada desconhece a prática do seus direitos. A s condições do trabalho
Funrural, do Sindicato Rural e a área de volante, a n ã o existência de um vínculo
atuação da legislação trabalhista no cam- empregatício mais estável, a extrema mo-
po. Os índices chegam a quase maioria no bilidade desta mão-de-obra, elementos
caso da mulher. Talvez isto se explique se agravados no caso da mulher, dificultam
considerarmos que o trabalhador rural, l i - a prática sindical e a p r ó p r i a a t u a ç ã o das
mitado por um mundo de mínimos vitais lideranças.
— e este mínimo se limita ao espaço do-
méstico no caso da mulher — n ã o chega O sindicato chega a ser concebido co-
a se preocupar realmente com a influência mo elemento de ajuda para o trabalhador,
que teria o sindicato ou a conquista dos no que representa de amparo legal e basi-
direitos trabalhistas em sua vida quotidia- camente no seu potencial de servir de ór-
na e na sua situação de trabalho, mesmo gão assistencial. Entretanto, persiste um
que perceba — de maneira difusa — estar elemento de impotência. Nada que seja
sendo enganada para n ã o ter acesso a juridicamente cristalizado poderia ser ele-
qualquer garantia trabalhista. mento de real mobilização: a maior "ar-
m a " viria da união entre eles, da maior
A mulher, genericamente — e os ca- conversa, do acúmulo de organização e
sos de exceção merecem ser referidos por experiência de luta. A união de classe n ã o
representar o despontar de um novo perfil chega a entrar no campo das representa-
— não chega a questionar a sua exclusão ções da mulher. À impotência e insegu-
aos direitos trabalhistas. Aceita-a como rança sentidas, ao alheiamento constata-
decorrência quase normal da condição fe- do na prática das mulheres à vivência do
minina. Os seguintes depoimentos vêm espaço sindical, despontam elementos que
ilustrar esta referência: "Sempre foi as- vêm demonstrar uma outra dimensão de
sim... Os homens são registrados e as mu- reivindicação.
lheres n ã o " , " o p a t r ã o n ã o registra mes-
mo mulher, principalmente casada", " j á Por um lado, reforça a idéia da im-
que o trabalho n ã o é seguro mesmo, de possibilidade da união se realizar o fato
que vai valer o registro em carteira? De- de conceberem a legislação trabalhista, o
pois, sem ter carteira, a mulher fica livre e sindicato, o Funrural como tendo sido
pode trabalhar só nos dias que quiser, pa- concebidos pelo governo, exteriormente a
ra ajudar o m a r i d o " . A s trabalhadoras sua própria ação. Apesar de acreditarem
que trabalham apenas na safra aceitam o que ao governo caberia a aplicação de me-
não-registro como conseqüência natural, didas que melhorassem a situação do tra-

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balhador rural, encaram com descrença a pado de uma forma de parceria, n ã o che-
eficácia de sua a ç ã o . gam a conceber a sua relação com a terra
A quebra da solidariedade, a frag- como passível de ser reconquistada por
mentação aparecem verbalizada nas re- uma nova dimensão da práxis. N ã o che-
presentações que falam da "pouca união gam a sugerir nada de radical para mudar
existente na r o ç a " . Poucas chegaram nas tal situação. O m á x i m o é a reivindicação
entrevistas a sugerir a possibilidade de de fiscais mais humanos, a aspiração de
uma greve. N o m á x i m o , admitiram parti- uma melhoria de trabalho para o marido,
cipar em movimentos de " p a r a d a " lidera- e da parte do governo, a perspectiva de
dos por homens; em maioria, a impotên- levá-lo a baixar os preços e subir os salá-
cia da união sobrepôs-se a qualquer movi- rios. Esta descrença e sensação de impo-
mento de reivindicação. A s mulheres cos- tência n ã o são evidentemente gratuitas.
tumam ser menos reivindicativas do que Para isso contribuem mecanismos de
os homens, o que pode ser contrariado pe- pressão e d o m i n a ç ã o postos em prática
lo próprio movimento da história. pelos proprietários e empreiteiros. A
ameaça de desemprego, a colocação em
Predomina a caracterização que fa- "gancho", a proibição de subir no cami-
zem do governo como um órgão acima nhão e outras formas de coerção interfe-
das classes, e o fato de projetarem a culpa rem na representação que a trabalhadora
pelas injustiças sofridas nas pessoas mais tem de sua incapacidade de se organizar
próximas de sua situação de trabalho. Os coletivamente em torno de objetivos co-
seguintes depoimentos ilustram a situação muns e de um projeto de m u d a n ç a .
acima descrita — " o governo tá lá longe, N o caso da mulher, o recuo se faz,
nem fica sabendo a agonia que estamos geralmente, diante da possibilidade do
passando", " o governo e os patrões nem marido sofrer mecanismos de pressão.
vêem a gente", " o governo dá, os outros Sentem medo do mesmo perder o empre-
tiram... os encarregados e fiscais encam- go. A sua própria insegurança profissio-
pam tudo, quem sofre é a pobreza", " o nal, as amarras invisíveis que fazem com
governo sempre ajuda, mas n ã o percebe que o seu trabalho seja visto como não
bem como, por que", "os culpados são os pago, n ã o seja pago ou o seja indireta-
patrões que tratam todo mundo como ca- mente, por conta do ganho do marido,
valos". Ressalvas à aceitação da imagem não chegam a ser questionados. Incorpo-
do "Estado como um órgão interessado ram a visão do p a t r ã o , veiculada pela
em conceder coisas a mais ao trabalhador ideologia dominante, de que, em termos
r u r a l " apareceram, entretanto, com fre- de organização e de expressão de suas rei-
qüência, em reclamações feitas diante da vindicações, a mulher é ninguém. Não
alta dos preços, da deterioração dos salá- conta como força social de expressão.
rios.
N ã o se pretende com esta colocação
A esperança alimentada face ao go- subestimar o potencial reivindicatório do
verno parece ser reavivada no caso da trabalhador rural e afirmar que mecanis-
avaliação da " a j u d a " dada pelo Funrural mos de sua organização de classe não são
e contrariada pela desesperança de que al- historicamente possíveis. Os movimentos
guma m u d a n ç a se consubstancie na práti- de parada - dos quais as mulheres chegam
ca. circunstancialmente a participar - mos-
N o caso das mulheres entrevistadas, tram bem que o processo de reivindicação
percebe-se que as mesmas n ã o conseguem no campo ainda é fruto de uma ação frag-
detectar o que poderia acontecer para que mentada, sem ser sustentada por uma l i -
sua situação melhorasse. Mesmo no caso derança sindical. Por outro lado, uma ex-
de terem sido ex-colonas ou terem partici- periência diversificada de luta aparece,

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FERRANTE, V . L . S . B . — A situação legal e real da mulher trabalhadora no campo. Perspectivas, São
Paulo, 5: 97-114, 1982.

por exemplo, se analisarmos um movi- o sindicato vai dar alimento, n ã o vai nem
mento grevista ocorrido recentemente na um grãozinho para v o c ê s " .
região centro-oeste do Estado de São Pau-
Esta posição permite considerar que
lo na Usina Tamoio. N u m a greve que du-
a ação das mulheres pode ser importante
ra, com pequenos intervalos, 120 dias,
na busca de, através de uma experiência
num Estado em que aparentemente inexis-
acumulada de luta, reinverter a reprodu-
te uma tradição de lutas sociais rurais, o
ção imediata ou mediata da ideologia do-
que induz inclusive a falsos diagnósticos
minante na prática trabalhista vigente no
sobre a existência ou n ã o de conflitos no
campo brasileiro. U m a prova disto é a
campo, na qual 750 famílias lutam cora-
existência de sindicatos rurais dirigidos
josamente pelo direito de serem pagos, o
por mulheres, como é o caso do Sindicato
papel das mulheres trabalhadoras da la-
de Dobrada, perto de Araraquara. A no-
voura foi de liderança.
va politização da mulher n ã o deve ser ab-
solutizada, mas avaliada no conjunto dos
mecanismos acionados pelo capitalismo
A partir de sua iniciativa, exigiram
para impedir o crescimento da organiza-
dos setores que continuaram a trabalhar,
ção de classes dominantes.
uma tomada de posição diferente. O de-
poimento de algumas mulheres vem mos- Entretanto, mesmo sendo às vezes
trar o despontar de uma prática de maior " o c u l t a " , a participação da mulher nos
nível de combatividade e consciência... movimentos sociais tem crescido. E isto
" N ó s descemos lá, puxamos os puxa-saco vale como vislumbre do renascer de uma
do peito, dissemos: a comida vai acabar, nova prática.

FERRANTE, V . L . S . B . — The legal and real situation of woman worker in the rural area. Perspectivas,
São Paulo, 5:97-114, 1982.
ABSTRACT: The article tries to discuss the situation of woman's work in the rural area, starting
from the relation of questions connected to labour action, sindicalism of woman and the conscience le-
vei about rights and her life conditions.
KEY-WORDS: Feminine rural work; labour legislation and women's work; sindicalism and rural
labour action.

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